Dados Internacionais de Catalogação-na-publicação (CIP) (Biblioteca Central da Universidade Federal do Espírito Santo, ES, Brasil) M838p Moreira, Jean Silva, 1974Preparação e caracterização de materiais carbonosos contendo compostos de silício obtidos à partir da casca de arroz / Jean Silva Moreira. – 2002. 82 f. : il. Orientador: Jair Carlos Checon de Freitas. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal do Espírito Santo, Centro de Ciências Exatas 1. Compostos de carbono. 2. Oxidação. 3. Análise térmica. 4. Termogravimetria. 5. Nitreto de silício. I. Freitas, Jair Carlos Checon de. II. Universidade Federal do Espírito Santo. Centro de Ciências Exatas. III. Título. CDU: 53 UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO CENTRO DE CIÊNCIAS EXATAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FÍSICA JEAN SILVA MOREIRA PREPARAÇÃO E CARACTERIZAÇÃO DE MATERIAIS CARBONOSOS CONTENDO COMPOSTOS DE SILÍCIO OBTIDOS A PARTIR DA CASCA DE ARROZ VITÓRIA 2002 JEAN SILVA MOREIRA PREPARAÇÃO E CARACTERIZAÇÃO DE MATERIAIS CARBONOSOS CONTENDO COMPOSTOS DE SILÍCIO OBTIDOS A PARTIR DA CASCA DE ARROZ Dissertação submetida ao programa de pós-graduação em física da Universidade federal do Espírito Santo como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Ciências em Física Orientador: Prof. Dr. Jair Carlos Checon de Freitas VITÓRIA 2002 JEAN SILVA MOREIRA PREPARAÇÃO E CARACTERIZAÇÃO DE MATERIAIS CARBONOSOS CONTENDO COMPOSTOS DE SILÍCIO OBTIDOS A PARTIR DA CASCA DE ARROZ COMISSÃO EXAMINADORA ______________________________________________ Prof. Dr. Jair Carlos Checon de Freitas (Orientador) ______________________________________________ Prof. Dr. Luiz Carlos Machado ______________________________________________ Prof. Dr. Francisco Guilherme Emmerich ______________________________________________ Prof. Dr. Alfredo Gonçalves Cunha Vitória, _______ de ______________________ de 2002 A Zeli e Jomar, que me deram a vida e me acolheram nas horas difíceis. A Tamira e Dinê, mesmo quando distantes sempre me apoiaram. “Se pude ver mais longe, foi porque me ergui sobre os ombros de gigantes". (Isac Newton, ao ser elogiado por sua genialidade.) “Teoria é quando se sabe tudo e nada funciona. Prática é quando tudo funciona e ninguém sabe o porquê. Neste recinto, conjugam-se teorias e prática: nada funciona e ninguém sabe por que”. (Escrito num cartaz de uma repartição pública de Brasília) Agradecimentos Ao Prof. Dr. Jair Carlos Checon de Freitas, pela orientação, discussões, planejamento e principalmente paciência durante o planejamento e execução deste trabalho. Aos Professores Dr. Alfredo Gonçalves Cunha e Dr. Francisco Guilherme Emmerich pelas discussões relativas à parte experimental e o apoio nas atividades do laboratório. Ao Professor Dr. Luiz Carlos Machado e aos colegas do departamento de Química: Guto e Emanuel pela ajuda nos tratamentos ácidos, em especial ao colega Pasquale F. Fulvio que além dos tratamentos ácidos foi de grande ajuda nas medidas de ATG. Ao colega Paulo Martins pelas medidas de difração de raios-X. Aos colegas do LMC em especial ao colega Tomé pela ajuda com relação aos computadores. Às secretárias do mestrado, Dulcinete e Angela pela ajuda na parte burocrática. À cooperativa agrícola Juriti (Maçaranduba – SC) pelo fornecimento das amostras. Aos colegas do mestrado, Elizabeth, Elzimar, Newton, Flávia Lopes, Érika, entre outros, em particular à amiga Brunelle pelo apoio e companheirismo no decorrer deste trabalho. Ao Amigo Rodrigo Dias Pereira pela atuação como representante dos alunos de mestrado. Ao amigo Maurício Gomes das Virgens, pelo apoio e fundamental ajuda no decorrer das disciplinas cursadas. A todos os familiares e amigos que de alguma forma contribuíram para a realização deste trabalho. Ao CNPq, pela concessão da bolsa. E por fim e principalmente a Deus que me acompanhou por mais essa etapa encerrada em minha caminhada. Lista de tabelas Página Tabela 3.1: Análise imediata das amostras naturais utilizadas nos tratamentos térmicos. 40 Tabela 3.2: Rendimento em massa das amostras CAS tratadas sob atmosfera de N2. 46 Tabela 3.3: Rendimento em massa das amostras JUR tratadas sob atmosfera de N2. 46 Tabela 3.4: Rendimento em massa das amostras CAS tratadas sob atmosfera de Ar. 46 Tabela 3.5: Rendimento em massa das amostras JUR tratadas sob atmosfera de Ar. 46 Tabela 3.6: Parâmetros obtidos através da ATG das amostras CAS preparadas sob atmosfera de Ar. 59 Tabela 3.7: Parâmetros obtidos através da ATG das amostras CAS preparadas sob atmosfera de N2. 59 Tabela 3.8: Parâmetros obtidos através da ATG das amostras JUR preparadas sob atmosfera de Ar. 59 Tabela 3.9: Parâmetros obtidos através da ATG das amostras JUR preparadas sob atmosfera de N2. 59 Tabela 3.10: ASE para os precursores e para as amostras finais preparadas sob atmosfera de Ar com q=100ºC/min. 60 Tabela 3.11: ASE para os precursores e para as amostras finais preparadas sob atmosfera de N2 com q=100ºC/min. 60 Tabela 4.1: Rendimentos em massa teóricos (ηteor) obtidos a partir das relações entre as massas dos produtos e reagentes em fase sólida apresentada nas Equações 4.1 a 4.4. 62 Lista de figuras Página Figura 1. 1: (a) Rede cristalina tridimensional do grafite, (b) Estrutura turbostrática. 16 Figura 1.2: Ilustração esquemática da estrutura de materiais carbonosos (a) não grafitizáveis e (b) grafitizáveis, segundo o modelo de Franklin. 18 Figura 1.3: (a) Microscopia eletrônica de Varredura da casca de arroz. (b) Secção longitudinal da casca de arroz mostrando: (1) epiderme externa; (2) fibra esclerênquima; (3) célula parênquima; (4) epiderme interna. 20 Figura 2.1: Forno tubular utilizado para os tratamentos térmicos de preparação dos precursores. 29 Figura 2.2: Esquema da montagem empregada nos tratamento térmicos de obtenção dos precursores. 29 Figura 2.3: Evolução temporal da temperatura em um tratamento térmico típico para obtenção dos precursores. 30 Figura 2.4: Forno tubular utilizado na preparação dos produtos finais. 31 Figura 2.5: Evolução temporal da temperatura em um tratamento térmico típico para obtenção dos produtos finais (TTT = 1700ºC). 32 Figura 2.6: Equipamento utilizado para a obtenção das curvas de ATG e ATGD. 35 Figura 2.7: Diagrama esquemático do fluxo do sistema Quantasorb. 37 Figura 3.1: Espectros de DRX das cinzas das amostras CAS. 42 Figura 3.2: Espectros de DRX das cinzas das amostras JUR. 42 Figura 3.3: ATG sob atmosfera oxidante das amostras precursoras. 43 Figura 3.4: Imagens das amostras tratadas a 700ºC sob atmosfera de N2(precursores) 47 Figura 3.5: Imagens das amostras CAS e JUR tratadas sob N2 com q = 100ºC/min e TTT = 1450ºC. 48 Figura 3.6: Imagens das amostras CAS e JUR tratadas sob Ar com q=100ºC/min e TTT’s iguais a 1450 e 1600ºC. 49 Figura 3.7: Espectros de DRX das amostras CAS (a) e JUR (b) tratadas sob atmosfera de Ar com q=100ºC/min e diferentes TTT’s. 50 Figura 3.8: Espectros de DRX das amostras CAS (a) e JUR (b) tratadas sob atmosfera de Ar com TTT = 1450ºC e diferentes taxas de aquecimento. 51 Figura 3.9: Espectros de DRX das amostras CAS (a) e JUR (b) tratadas sob atmosfera de N2 com q=100ºC/min e diferentes TTT’s. 52 Figura 3.10: Espectros de DRX das amostras CAS (a) e JUR (b) tratadas sob atmosfera de N2, com TTT=1450ºC e diferentes taxas de aquecimento. 54 Figura 3.11: Curva característica de ATG para amostra CAS N2 700ºC 5ºC/min 4h (precursor das amostras CAS), ilustrando a definição dos parâmetros utilizados para a interpretação das curvas de ATG. 55 Figura 3.12: Curvas de ATG para as amostras CAS preparadas sob atmosfera de Ar. 57 Figura 3.13: Curvas de ATG para as amostras CAS preparadas sob atmosfera de N2. 57 Figura 3.14: Curvas de ATG para as amostras JUR preparadas sob atmosfera de Ar. 58 Figura 3.15: Curvas de ATG para as amostras JUR preparadas sob atmosfera de N2. 58 Figura 4.1: Variação com a TTT dos parâmetros (a) temperatura inicial de oxidação (TiOX), (b) intervalo de temperatura de decomposição (δTOX) e (c) área superficial específica (ASE), para amostras CAS e JUR preparadas sob atmosfera de Ar e N2 com q=100ºC/min. 70 Figura 4.2:Evolução de (a) TiOX e (b) δTOX em função do teor porcentual de SiC para todo o conjunto de amostras analisadas. 73 Figura 4.3: curvas de ATG comparativas para as amostras (a) CAS e (b) JUR preparadas sob atmosfera de Ar a partir de precursores tratados ou não com HF. 75 Sumário Página Resumo 11 Abstract 12 Capítulo 1 – Introdução 13 1.1) Preâmbulo 13 1.2) Materiais Carbonosos 13 1.2.1) Ligações químicas do elemento carbono 14 1.2.2) Modelos estruturais 15 1.2.3) Modelo de Franklin 17 1.3) A casca de arroz 18 1.4) Formação de SiC e Si3N4 a partir da casca de arroz 20 1.5) Problemas de oxidação em materiais carbonosos 23 1.6) Objetivos 25 Capítulo 2 – Métodos experimentais 2.1) Manipulação prévia das amostras naturais 26 26 2.1.1) Obtenção do teor umidade 26 2.1.2) Obtenção do teor de cinzas 27 2.2) Preparação das Amostras 28 2.2.1) Precursores 28 2.2.2) Produtos finais 30 2.2.3) Tratamento ácido 33 2.3) Técnicas de Caracterização 34 2.3.1) Difração de raios-X (DRX) 34 2.3.2) Análise termogravimétrica (ATG) 34 2.3.3) Área superficial específica (ASE) 36 2.3.4) Aspectos visuais 39 Capítulo 3 – Resultados 40 3.1) Caracterização inicial das amostras naturais e dos precursores 40 3.1.1) Análise imediata 40 3.1.2) Análise estrutural das cinzas 41 3.1.3) ATG dos precursores 43 3.1.4) Rendimento em massa 44 3.2) Análise fotográfica 47 3.3) Espectros de difração de raios-X (DRX) 49 3.4) Análise termogravimétrica (ATG) 54 3.5) Área superficial específica (ASE) 60 Capítulo 4 – Discussão 61 4.1) Análise do rendimento em massa na preparação dos produtos finais 4.2) Influência dos parâmetros 61 envolvidos nos tratamentos térmicos na formação das fases cristalinas 65 4.2.1) Influência da TTT 65 4.2.2) Influência da taxa de aquecimento 66 4.2.3) Influência da atmosfera 67 4.3) Influência dos compostos de silício na resistência à oxidação 4.4) Análise das amostras tratadas com HF 68 74 Conclusão 77 Referências bibliográficas 79 Resumo A casca de arroz tem se revelado uma promissora matéria-prima para a produção de materiais de alto interesse tecnológico como SiC, Si3N4, Si e SiO2 de alta pureza. Por outro lado, a confecção de materiais carbonosos contendo silício representa uma importante estratégia para o aprimoramento de propriedades termomecânicas de fibras de carbono e outros materiais de larga aplicação industrial. O presente trabalho consiste em um estudo sobre a preparação de materiais carbonosos contendo compostos de silício a partir do tratamento térmico da casca de arroz, utilizando a técnica de difração de raios-X para investigação da estrutura das amostras preparadas e análise termogravimétrica sob condições oxidantes para a caracterização da sua resistência à oxidação. As amostras de casca de arroz de duas diferentes procedências foram inicialmente carbonizadas à temperatura de 700ºC por 4 h sob fluxo de nitrogênio para a retirada de matéria volátil, dando origem a um material carbonoso contendo aproximadamente 45% (em massa) de carbono e 55% de sílica amorfa. Esse material foi usado como precursor para os tratamentos subseqüentes em temperaturas de tratamento térmico (TTT’s) de 1450 a 1700°C, com taxas de aquecimento variadas e atmosfera de argônio ou nitrogênio. Foram também preparadas, para comparação, amostras partindo diretamente da casca de arroz natural. As amostras preparadas com TTT = 700°C revelaram a presença de sílica amorfa, de forma similar ao que ocorre nas amostras naturais. Em TTT’s superiores foram observadas através dos espectros de difração de raios X as formações dos compostos SiC, Si2N2O, Si3N4 e SiO2 misturados à matriz carbonosa em quantidades e com cristalinidade variáveis em função da TTT, da atmosfera e da taxa de aquecimento empregadas. Foi observado de uma forma geral que o uso de altas TTT’s favorece a formação de β-SiC (cúbico) com alta cristalinidade, enquanto que em TTT’s inferiores ocorrem grandes quantidades de Si3N4 e Si2N2O, além da sílica residual. Uma melhora na resistência à oxidação foi encontrada para todas as amostras tratadas termicamente, como conseqüência da progressiva reorganização estrutural da matriz de carbono e da presença dos compostos de silício. As amostras preparadas a 1700ºC mostraram a melhor resistência à oxidação, com a perda de massa sendo iniciada em torno de 530ºC e estendendo-se por 230 e 180ºC para as amostras preparadas sob atmosferas de argônio e nitrogênio, respectivamente. Abstract Rice hulls have been considered as a promising raw material for the manufacture of products with high technological interest, such as SiC, Si3N4, Si, and SiO2 of high purity. On the other hand, the development of silicon-containing carbon materials represents an important process for the improvement of thermomechanical properties of carbon fibers and other materials of large industrial application. The present work describes the preparation of carbonaceous materials containing silicon compounds through the heat-treatment of rice hulls, using the technique of X-ray diffraction for the investigation of the structure of the produced samples and thermogravimetric analysis under oxidizing conditions for the characterization of their oxidation resistance. The samples of rice hulls from two different regions were initially charred to the temperature of 700ºC for 4 h under nitrogen flow for the retreat of volatile matter, giving rise to a carbonaceous material with nearly 45 wt. % of carbon and 55 wt. % of amorphous silica. This material was used as precursor for the subsequent treatments in heat treatment temperatures (HTT's) from 1450 to 1700 °C, with different heating-rates and atmosphere of argon or nitrogen. An alternative method was used for comparison, involving the preparation of samples at high temperatures directly from the raw rice hulls. The samples prepared with HTT = 700°C revealed the presence of amorphous silica, similarly to what happens in the natural samples. At higher HTT's X-ray diffraction spectra showed the presence of SiC, Si2N2O, Si3N4, and SiO2 dispersed into the carbon matrix. The amount and crystallinity of each phase were found to be dependent on the HTT, atmosphere, and heating-rate. It was observed that generally the use of high HTT's favors the formation of β-SiC (cubic) with high crystallinity, while at lower HTT's Si3N4 and Si2N2O are present in large amounts, besides the residual silica. An improvement in the oxidation resistance was found for all heat-treated samples, as a consequence of the progressive structural reorganization of the carbon network and of the presence of the silicon compounds (mainly SiC). The samples prepared at 1700ºC showed the best oxidation resistance, with the weight-loss starting around 530ºC and extending over 230 and 180ºC for the samples prepared under atmospheres of argon and nitrogen, respectively. Capítulo 1: Introdução 13 Capítulo 1 – Introdução 1.1) Preâmbulo Constituindo apenas 0,04% de toda a massa da Terra, o elemento carbono é um dos principais elementos químicos existentes. Além de ser indispensável à vida e uma das principais fontes de energia utilizadas pelo homem, seja ele na forma de materiais fósseis formados com o passar de milhões de anos ou na forma de plantas vivas denominado materiais de biomassa (Emmerich, 1987). Além das formas alotrópicas estáveis representadas pelo grafite e pelo diamante, há também outras formas de carbono, tais como os fulerenos, os nanotubos e os materiais carbonosos amorfos que devido às suas propriedades vêm despertando grande interesse de pesquisadores pelo mundo. Um dos aspectos que tornam os materiais carbonosos ponto de grande atração para a pesquisa é a grande facilidade de serem manipulados seja por processos físicos ou químicos, incluindo-se aí os tratamentos térmicos e os processos de dopagem e ativação (Burchell, 1997; Marsh et al., 1997) Os materiais carbonosos de biomassa após serem tratados termicamente sofrem transformações estruturais de forma que passam a apresentar aspectos semelhantes aos carvões minerais passando a serem chamados de carvões vegetais. Neste trabalho nosso estudo será focado na preparação e caracterização de materiais carbonosos contendo silício, nitrogênio e oxigênio em sua estrutura, no intuito de conseguir materiais com uma considerável resistência à oxidação, preparados a partir de casca de arroz. 1.2) Materiais Carbonosos Os materiais carbonosos como os carvões minerais e vegetais podem ser definidos como sendo materiais química e fisicamente heterogêneos constituídos por uma parte orgânica composta principalmente por carbono, hidrogênio e oxigênio coexistindo com uma parte mineral em quantidade bem menor (Emmerich, 1987). Capítulo 1: Introdução 14 Técnicas físicas e químicas vêm sendo amplamente utilizadas na produção e caracterização de materiais carbonosos sólidos e muitos avanços nessa área vem sendo alcançados, porém muitas questões ainda estão por serem resolvidas (Van Krevelen, 1993). 1.2.1) Ligações químicas do átomo de carbono. Os átomos de carbono possuem uma grande capacidade de se ligarem quimicamente entre si e com átomos de outros elementos químicos, formando assim uma grande quantidade de substâncias denominadas orgânicas. Essa propriedade está intimamente ligada ao fenômeno da hibridização. O átomo de carbono no seu estado fundamental e isolado apresenta seus seis elétrons na configuração (1s2)(2s22px2py). Tal configuração não é entretanto comumente encontrada na natureza. A ocorrência de hibridização leva todos os quatro elétrons dos orbitais 2s e 2p a tomarem parte das ligações químicas envolvendo os átomos de carbono, tanto entre si como com átomos de outros elementos químicos. Dessa forma, uma grande variedade de substâncias pode ser formada a partir de diferentes tipos de hibridização do átomo de carbono (Burchell, 1999). O elemento carbono encontra-se usualmente em duas formas alotrópicas: o grafite e o diamante. O grafite possui normalmente estrutura cristalina hexagonal, existindo também uma segunda forma cristalina menos abundante com estrutura romboédrica. Os átomos de carbono encontram-se organizados em planos com ligação sp2 e elétrons π deslocalizados, sendo os planos ligados entre si por fracas forças de Van der Waals. O diamante possui estrutura cúbica, com ligações tetraédricas entre os átomos de carbono com hibridização sp3. À temperatura ambiente o grafite é um material estável, podendo ser convertido em diamante para pressões acima de 6 GPa. A baixas pressões, o diamante reverte para o grafite acima de 1900 K sob atmosfera inerte (Fitzer, 1998). Além do diamante e do grafite o carbono pode ainda apresentar duas formas alotrópicas representadas pelos fulerenos e pelos carbinos. Os fulerenos são constituídos por moléculas contendo um elevado número de átomos de carbono (C60, C70, e C84 entre Capítulo 1: Introdução 15 outros), organizados em estruturas globulares. Os carbinos são formados por cadeias de átomos de carbono com ligações conjugadas do tipo C(sp)≡C(sp) ou C(sp²)=C(sp²), sendo também reportadas diversas fases cristalinas (romboédricas e hexagonais) com densidades entre 1,46 e 3,43 g/cm3 (Burchell, 1999). 1.2.2) Modelos estruturais Nas décadas de 1930 e 1940 experimentos de difração de raios-X (DRX) revelaram que os materiais carbonosos como carvões, antracitos e “carbon blacks” encontram-se num estado intermediário entre o amorfo e o cristalino. Os espectros de DRX se apresentam com linhas largas, centradas em posições angulares próximas às correspondentes ao grafite, sendo verificadas reflexões bidimensionais do tipo (hk) e reflexões tridimensionais do tipo (00ℓ) com ℓ par. Não foram observadas entretanto reflexões do tipo (hkℓ) com os três índices diferentes de zero. Em 1941 uma análise bem detalhada foi apresentada por Warren (1941), que considerou o material carbonoso composto por planos do tipo grafite numa estrutura de camadas aleatórias, obtendo equações para a forma e intensidade das linhas (hk). Este tipo de estrutura foi posteriormente denominado de “estrutura turbostrática” e as unidades organizadas existentes no material designadas por “microcristalites grafíticos”. Na Figura 1.1 é mostrada a estrutura cristalina da grafite em comparação com a estrutura turbostrática. Capítulo 1: Introdução 16 (a) (b) Figura 1.1: (a) Rede cristalina tridimensional do grafite, (b) estrutura turbostrática (Bokros, 1965). Capítulo 1: Introdução 17 1.2.3) Modelo de Franklin O mais importante e ainda clássico estudo de mudanças estruturais dos materiais carbonosos submetidos a tratamentos térmicos foi feito por Rosalind Franklin no início dos anos 50 (Van Krevelen, 1993; Franklin, 1951), que mostrou que a evolução da estrutura desses materiais depende grandemente da natureza do material inicial, identificando duas classes de materiais com naturezas distintas e bem definidas. Uma delas correspondendo a materiais que tratados em temperaturas de 1700 a 3000ºC formam materiais carbonosos grafíticos nos quais são observados além da estrutura turbostrática usual o desenvolvimento de linhas difusas nos espectros de DRX (hkℓ com ℓ≠0), indicando a formação parcial da estrutura do grafite. Esses materiais são chamados de “grafitizáveis”. A outra classe corresponde àqueles materiais para os quais não se observa nenhuma estrutura grafítica tridimensional, mesmo sendo tratados a 3000ºC ou mais, sendo estes então denominados de materiais “não grafitizáveis”. A Figura 1.2 ilustra esquematicamente a distinção entre materiais grafitizáveis e nãografitizáveis de acordo com o modelo de Franklin (1951). Os materiais não-grafitizáveis normalmente são originados a partir de precursores ricos em oxigênio e/ou pobres em hidrogênio, o que leva ao desenvolvimento de um elevado grau de ligações cruzadas entre os microcristalitos tipo grafite. Como exemplos podemos citar a celulose, as resinas fenólicas e o cloreto de polivinilideno (PVDC). Por outro lado, os materiais grafitizáveis apresentam uma estrutura menos rígida do que os não-grafitizáveis, o que lhes permite atingir um alto grau de ordenamento entre os microcristalites durante os tratamentos térmicos em temperaturas intermediárias (abaixo de 1000 ºC) (Freitas, 2000). Como exemplos podemos citar o cloreto de polivinila (PVC), o coque de petróleo e as poliimidas (Burchell, 1999). Os materiais de origem vegetal como a casca de arroz, que constitui o tema central deste trabalho, em geral dão origem a materiais carbonosos nãografitizáveis, como conseqüência de sua estrutura lignocelulósica. Capítulo 1: Introdução 18 (a) (b) Microcristalite tipo grafite Ligações cruzadas Figura 1.2: Ilustração esquemática da estrutura de materiais carbonosos (a) não-grafitizáveis e (b) grafitizáveis, segundo o modelo de Franklin (Franklin, 1951). 1.3) A casca de arroz A casca de arroz, um dos mais abundantes rejeitos agrícolas em nosso país, é um material fibroso com alto teor de sílica (SiO2). Seus principais componentes são celulose (juntamente com outros carboidratos), lignina e resíduos inorgânicos (Lee & Cutler, 1975; James & Rao, 1986). Esforços para tentar aproveitar a casca de arroz são dificultados pela sua grande dureza, baixo teor nutritivo, grande resistência à degradação e grande teor de cinzas (tipicamente de 15 a 20% em massa, dos quais cerca de 95% correspondem a sílica) (Della et al., 2001, Sun & Gong, 2001). Capítulo 1: Introdução 19 A casca de arroz não tem valor nutritivo, devido à presença de grande quantidade de sílica e fibras, não servindo portanto como alimento para o homem ou animais. Também não é útil como fonte de energia calorífica devido ao seu baixo calor de combustão. A existência de sílica e outros elementos inorgânicos na casca de arroz já são bem estabelecidos há tempos, sendo que a divulgação de trabalhos científicos e o registro de patentes sobre produtos produzidos a partir de casca de arroz têm aumentado nos últimos anos devido à importância comercial de novos materiais que podem ser produzidos (Sun & Gong, 2001; Karera, 1986). Atualmente uma atenção especial tem sido dispensada com relação ao uso da casca de arroz para a produção de carbeto de silício (SiC) (Krishnarao et al., 1992,1998; Sharma et al., 1984; Li et al., 2001; Silva & Figueiredo, 2001; Shimoo, 1995; Lee & Cutler, 1975). Outro processo que tem atraído muita atenção é a produção de nitreto de silício (Si3N4) altamente puro, um material cerâmico que pode ser aplicado na produção de máquinas e turbinas. (Krishnarao et al., 1991; Padhi & Patnaik, 1995; Weimer, 1996; Hanna, 1985). Dentre outros materiais de interesse produzidos a partir da casca de arroz podemos citar carbono ativado, silício e sílica de alta pureza, tetracloreto de silício e zeólitas (Sun & Gong, 2001; Harima, 1997; Guo et al., 2002). As cinzas da casca de arroz podem em geral ser consideradas como sílica ligeiramente impura. O teor de sílica e a quantidade e composição das impurezas contidas nas cinzas de casca de arroz dependem muito da variedade, clima e localização geográfica. A fabricação de materiais cerâmicos do tipo refratário ou isolante que utilizem as cinzas de casca de arroz, seja como componente principal ou secundário, é uma alternativa para solucionar o problema da disposição das cinzas da casca de arroz no meio ambiente, além de gerar um produto de maior valor agregado sem que haja a produção de um novo resíduo (Sun & Gong, 2001; Della et al., 2001). A casca de arroz é composta basicamente de quatro camadas estruturais sendo estas a epiderme externa, coberta com uma espessa cutícula de células silicificadas; a esclerênquima ou fibra hipodérmica com paredes lignificadas; a célula parênquima esponjosa e a epiderme interna, como pode ser visto na Figura 1.3 (Harima, 1997; Krishnarao et al., 2001). A sílica presente na casca de arroz concentra-se principalmente na epiderme externa e preenchendo os espaços internos na estrutura espiral das células epidermiais (Sharma et al., 1984; Lanning, 1963). Capítulo 1: Introdução 20 O silício entra na planta do arroz através de sua raiz em uma forma solúvel, provavelmente como um silicato ou ácido monosilícico (H4SiO4) e então se move para as partes superficiais da planta. Seu transporte, na mesma forma assimilada, é feito através do xilema, sendo sua distribuição dependente da transpiração dos órgãos envolvidos (Araújo, 2002). A ocorrência de silício na casca de arroz é em geral associada à existência de cadeias inorgânicas de sílica amorfa hidratada, mas alguns estudos têm apontado a ocorrência de ligações químicas entre as espécies contendo silício e os grupos orgânicos característicos da composição química da casca de arroz (Karera et al., 1986; Freitas, 2000). Esta porção de sílica não pode ser dissolvida em meios alcalinos e pode resistir a temperaturas muito altas (Patel & Karera, 1991) (1) (2) (3) (4) (a) (b) Figura 1.3: (a) Microscopia eletrônica de varredura da casca de arroz virgem (Krishnarao, et al., 2001). (b) Secção longitudinal da casca de arroz mostrando: (1) epiderme externa; (2) fibra esclerênquima; (3) célula parênquima; (4) epiderme interna (Harima, 1997). 1.4) Formação de SiC e Si3N4 a partir da casca de arroz O SiC é um material extremamente duro e possui alta condutividade térmica, alta resistência a choques térmicos, alto ponto de fusão, baixo coeficiente de expansão térmica, boa resistência à oxidação e boa resistência à corrosão por ácidos e bases (Sun & Gong, 2001). Do ponto de vista estrutural, o SiC pode se apresentar em uma série de politipos, os quais diferem entre si na seqüência de empilhamento das camadas de átomos de Si e C, ligados covalentemente através de ligações tetraédricas. Hoje são Capítulo 1: Introdução 21 conhecidos mais de 74 diferentes politipos de SiC, sendo o único com estrutura cúbica denominado β-SiC e os demais, com estruturas hexagonais ou romboédricas, convencionalmente designados como α-SiC (Cahn, 1996). O processo desenvolvido por Acheson para a produção de SiC por reação de areia com coque em forno resistivo (numa reação denominada de redução carbotérmica da sílica) é ainda o processo de manufatura básico usado na atualidade (Ault & Crowe, 1989). Os mais críticos problemas com esse método dizem respeito ao custo e disponibilidade de coque, custo de eletricidade e considerações ambientais. Outros métodos ainda mais dispendiosos são empregados para a produção de materiais cerâmicos de alta performance e “whiskers” de SiC. Há assim uma alta demanda pela identificação de métodos e materiais mais econômicos e vantajosos para a produção de SiC. Na casca de arroz queimada, devido à existência de uma área superficial bastante alta e um contato muito próximo entre o carbono e sílica (ambos em formas não cristalinas e portanto mais reativas), é possível formar SiC a temperaturas relativamente baixas (1200-1500ºC). Dessa forma, a casca de arroz coloca-se como um dos mais econômicos e promissores materiais para a produção de SiC (Sun & Gong, 2001) e vários estudos têm sido reportados sobre o assunto desde o trabalho pioneiro de Lee & Cutler (1975). A formação do SiC a partir da casca de arroz dá-se geralmente em duas etapas: Na primeira a casca de arroz é carbonizada a uma temperatura entre 500 e 900ºC na ausência de ar, dando origem a um material carbonoso com baixo teor de voláteis. A seguir o material resultante da primeira etapa é tratado em uma temperatura maior (acima de 1200ºC) sob atmosfera inerte ou redutora (Lee & Cutler, 1975; Martinelli & Bressiani, 1990). A primeira etapa não é estritamente necessária para produção de SiC e alguns trabalhos têm indicado que o rendimento de SiC a partir da casca de arroz natural é maior do que a partir da casca de arroz carbonizada (Krishnarao et al., 1991). Como a relação entre as quantidades de carbono e sílica presentes na casca de arroz não corresponde exatamente à estequiometria desejada para a reação de redução carbotérmica, em geral ocorrem sobras de uma ou outra espécie, fazendo-se necessária a utilização de tratamentos ácidos e/ou oxidação do material resultante para a obtenção de SiC com alta pureza (Sun & Gong, 2001). O SiC produzido a partir da casca de arroz é Capítulo 1: Introdução 22 comumente uma mistura de agregados cristalinos juntamente com “whiskers”, porém sob condições controladas pode-se otimizar a produção de um ou outro tipo de material (Patel & Karera, 1989). O Si3N4 é uma nova cerâmica estrutural com alta resistência mecânica tanto à temperatura ambiente quanto a temperaturas elevadas, resistente a choques térmicos, com boa resistência à corrosão, alta resistência a fraturas, baixa densidade, baixo coeficiente de expansão térmica e alta condutividade térmica, sendo por conta disso alvo de intensivos estudos. Estruturalmente o Si3N4 apresenta-se em duas formas hexagonais, denominadas fases α e β, as quais diferem apenas na seqüência de empilhamento das camadas de Si e N (Cahn, 1996). Dentre os mais importantes métodos de produção de nitreto de silício encontram-se a nitretação direta de silício pulverizado, a redução carbotérmica da sílica em uma atmosfera contendo nitrogênio e a reação de cloro-silanos com gases contendo nitrogênio ou compostos de nitrogênio. (Lathrop, 2000). A produção do nitreto de silício a partir de casca de arroz foi primeiramente reportada em uma patente nos EUA, onde as temperaturas de reação ficaram na faixa entre 1100 e 1300ºC (Cutler, 1974) Vários outros estudos sobre a formação de nitreto de silício a partir da casca de arroz têm sido reportados desde então (Martinelli & Bressiani, 1990; Weimer et al 1996; Kumar & Godkhindi, 1996). Em geral o nitreto de silício pode ser preparado a partir da casca de arroz em temperaturas entre 1260 e 1500ºC sob fluxo de nitrogênio. A temperatura da reação é relativamente mais baixa que aquela da reação convencional envolvendo uma mistura SiO2/C e a taxa de nitretação da casca de arroz queimada é também razoavelmente mais intensa. Para obtenção de Si3N4 com alta pureza, é muitas vezes utilizada uma lavagem da casca de arroz em meio ácido antes da etapa de nitretação, com o objetivo de remover impurezas metálicas, embora alguns trabalhos indiquem que a preparação de Si3N4 diretamente a partir da casca de arroz natural é também um processo eficiente (Liou, 1997; Weimer et al., 1996). Capítulo 1: Introdução 23 1.5) Problemas de oxidação em materiais carbonosos Uma das peculiaridades que coloca os materiais carbonosos entre os mais interessantes materiais para aplicações tecnológicas diz respeito ao fato de suas propriedades mecânicas serem mantidas estáveis até temperaturas da ordem de 2000ºC, o que não ocorre com muitos materiais cerâmicos, os quais perdem suas características mecânicas acima de 1200ºC. Muitas dessas aplicações envolvem a exposição de componentes estruturais a temperaturas extremamente elevadas, como na aplicação à indústria aeroespacial, e nesse caso as fibras e compósitos de carbono têm se mostrado especialmente atrativos (McKee, 1991; Freitas, 2000). A despeito, entretanto dessas vantagens, existe uma limitação séria e por vezes fatal que complica a utilização de materiais carbonosos em condições termicamente severas: é a grande suscetibilidade que todas as formas de carbono apresentam de serem atacadas pelo oxigênio atmosférico. Assim, fibras de carbono desprotegidas sofrem gaseificação em ar rapidamente em temperaturas em torno de 400ºC, enquanto que amostras de grafite pulverizadas podem ser oxidadas em temperaturas ainda inferiores. Para aplicações em temperaturas elevadas, faz-se, portanto necessária a utilização de algum sistema de proteção contra a oxidação. Dois métodos têm sido empregados com essa finalidade: o uso de recobrimentos protetores e a adição de agentes inibidores da reatividade do carbono. O uso de agentes inibidores (dentre os quais podemos citar como exemplo os fosfatos, boratos e gases e compostos dos elementos halogênios) é normalmente restrito a aplicações em temperaturas até aproximadamente 800ºC. A utilização de recobrimentos protetores, muitas vezes conjugada com a adição de agentes inibidores, constitui o mais eficaz mecanismo de proteção contra a oxidação, através da criação de uma barreira à penetração do oxigênio na estrutura do material carbonoso. Os problemas nesse caso incluem diferenças nos coeficientes de expansão térmica entre o material protetor e o substrato e a possibilidade de reações químicas entre eles, levando ao surgimento de falhas que acabam por permitir o acesso do oxigênio (McKee, 1991; Keller, 2002). Dentre os materiais utilizados para o recobrimento protetor em materiais carbonosos, os compostos envolvendo silício são sem dúvida os mais promissores para as aplicações acima de 1000ºC (McKee, 1991; Dhami, 1995). Isso se deve Capítulo 1: Introdução 24 fundamentalmente à particularmente baixa permeabilidade ao oxigênio apresentada pela sílica em temperaturas em torno de 1400 ºC. Recobrimentos baseados em sílica normalmente são obtidos a partir do depósito de SiC sobre o material carbonoso; sob exposição ao oxigênio em altas temperaturas, forma-se uma viscosa camada de sílica com mobilidade suficientemente alta para selar eventuais falhas na interface com o substrato. O SiC pode ser incorporado ao material carbonoso através de vários procedimentos: adição de SiC em forma de pó, seguido de tratamentos térmicos; impregnação do material carbonoso com sílica, seguido de tratamentos térmicos a temperaturas em torno de 2000ºC para produzir SiC como um produto da reação química entre a sílica e o carbono; métodos de deposição ou infiltração química de vapor, além de diversos outros métodos químicos (McKee, 1991; Wang, 1995). Outros recobrimentos baseados em compostos de silício (Si3N4, B4Si, MoSi2, etc) podem também ser utilizados em substituição ao SiC, com boas propriedades de proteção contra a oxidação (McKee, 1991; Hofman, 1995; Park & Seo, 2001). Alternativamente, o silício pode ser diretamente incorporado ao material carbonoso (formando “ligas” de carbono-silicio) durante o processo de carbonização, através da adição de compostos do tipo carbo-silano ao precursor do material carbonoso (Lu et al., 1997; Carreira, 1999; Keller, 2002). A utilização de recobrimentos baseados em compostos de silício enfrenta problemas am alta temperaturas, relacionados à recristalização da camada de sílica e à geração de pressões elevadas devidas aos gases (principalmente o CO) produzidos pela redução do SiO2 pelo substrato de carbono, o que leva ao surgimento de falhas na camada protetora (Dhami et al, 1995). A temperatura limite para esse tipo de recobrimento fica em torno de 1800 ºC por causa das elevadas taxas de transporte de oxigênio através da camada de sílica em temperaturas mais altas. Concluindo, pode-se afirmar que, a despeito da grande quantidade de esforços desenvolvidos nos últimos anos, o problema da proteção de materiais carbonosos contra a oxidação em elevadas temperaturas permanece em aberto e nenhuma solução universal para o problema foi ainda definitivamente estabelecida (McKee, 1991). Capítulo 1: Introdução 25 1.6) Objetivos Este trabalho destina-se à preparação de materiais carbonosos contendo compostos de silício (SiC, Si3N4, SiO2 ou compostos mistos) a partir da casca de arroz e à sua caracterização tanto do ponto de vista estrutural quanto de resistência à oxidação. Podem ser citados os seguintes objetivos específicos: • Preparação de materiais carbonosos contendo compostos de silício a partir da pirólise e tratamento térmico da casca de arroz procedente de duas origens diferentes em atmosferas de argônio (Ar) e nitrogênio (N2). • Caracterização estrutural das amostras produzidas utilizando técnicas experimentais diversas. • Investigação da influência das condições experimentais empregadas nos tratamentos térmicos (atmosfera, temperatura final, taxa de aquecimento, tempo de residência) sobre a estrutura e composição dos materiais desenvolvidos. • Estudo do comportamento dos materiais desenvolvidos sob condições oxidantes, relacionando suas características estruturais à resistência contra oxidação desenvolvida. Capítulo 2: Métodos Experimentais 26 Capítulo 2 – Métodos experimentais Neste trabalho realizamos estudos em amostras de casca de arroz procedentes de duas regiões brasileiras: amostras procedentes da região de Castelo (ES) que designaremos por CAS e amostras procedentes da região de Maçaranduba (SC), cedidas pela cooperativa agrícola Juriti, que designaremos por JUR. A seguir vamos descrever os métodos utilizados para a preparação e a caracterização das amostras. 2.1) Manipulação prévia das amostras naturais Antes de qualquer tratamento foram realizados testes para determinação dos teores de umidade e cinzas existentes nas amostras (análise imediata). Tais análises foram realizadas nas amostras naturais após serem estas lavadas em água corrente e secas em estufa para retirada de impurezas externas eventualmente contidas na superfície das amostras. A seguir as amostras foram trituradas para melhor compactação de modo a serem obtidas amostras com um tamanho típico entre 1 e 3 mm. Para obtenção dos teores de umidade e cinzas utilizamos os procedimentos descritos nas normas da American Society for Testing Materials (ASTM, 1969). 2.1.1) Obtenção do teor umidade Aproximadamente 5 g de amostra foi colocado em um recipiente de vidro e sua massa foi medida numa balança analítica (precisão de 0,0001 g). Em seguida a amostra foi levada para a estufa a uma temperatura de aproximadamente 105 ºC por uma hora sendo então levada para um dessecador e lá deixada por aproximadamente uma hora para esfriar. A seguir, a amostra foi pesada novamente e repetido todo o processo. Se a variação da massa tivesse um valor maior que 0,05 % da massa total da amostra esta seria novamente levada para a estufa e todo o processo seria novamente repetido até que a diferença de pesagem em pesagem não apresentasse mais uma variação de massa superior a esse limite. O teor de umidade da amostra estudada foi então calculado pela expressão: Capítulo 2: Métodos Experimentais %U= Mi − M f Mi × 100% , 27 (1) onde: • Mi = Massa inicial da amostra apenas triturada. • Mf = Massa final da amostra depois de retirada da estufa e resfriada no dessecador (na última etapa de secagem). • %U = Percentagem de umidade contida na amostra. 2.1.2) Obtenção do teor de cinzas Assim como para os teores de umidade, também para os teores de cinzas foram utilizados os procedimentos descritos nas normas da ASTM (1969). A amostra previamente seca foi colocada em um recipiente cerâmico e, após medida sua massa, levada para um forno tipo mufla a uma temperatura em torno de 700 ºC e deixada para calcinar durante 6 horas em atmosfera ambiente. Após a calcinação a amostra foi deixada em um dessecador durante aproximadamente uma hora para esfriar e em seguida medida sua massa. Assim como para a determinação do teor de umidade, foi medida a massa da amostra e essa então levada ao forno para calcinação por mais uma hora, se a variação da massa fosse superior a 0,05 % a amostra seria levada ao forno por mais uma hora e novamente medida sua massa e o procedimento repetido até que não se observasse mais uma variação de massa superior a esse limite. O teor de cinzas da amostra foi então calculado utilizando a expressão: %C= MR × 100% , Mi onde: • %C=Teor de cinzas. • Mi = Massa inicial da amostra seca. • MR = Massa do resíduo após a calcinação. (2) Capítulo 2: Métodos Experimentais 28 2.2) Preparação da Amostras 2.2.1) Precursores As amostras utilizadas em nossos estudos foram preparadas a partir de precursores obtidos realizando-se um pré-tratamento em amostras virgens (amostras apenas lavadas e secas). O procedimento seguido para a obtenção dos precursores consistiu no aquecimento das amostras CAS e JUR (separadamente) a uma taxa de aquecimento (q) de 5 ºC/min sob atmosfera de nitrogênio (N2) até a temperatura de tratamento térmico (TTT) de 700 ºC, permanecendo nessa temperatura por 4 h. O prétratamento foi realizado para a retirada de materiais voláteis contidos nas amostras naturais (Sun & Gong, 2001). Na preparação dos precursores foi utilizado um forno tubular horizontal resistivo, ilustrado na Figura 2.1. Na Figura 2.2 é esquematizado o aparato utilizado para controle de temperatura, taxa de aquecimento, tempo de residência e atmosfera dos tratamentos térmicos envolvidos na preparação dos precursores. Toda essa montagem foi integralmente desenvolvida no Laboratório de Materiais Carbonosos e Cerâmicos (LMC) do Departamento de Física da UFES. A temperatura é medida através de um termopar tipo K (cromel/alumel) ligado a um multímetro Protek S06 que possui saída serial para comunicação com o microcomputador. O microcomputador faz a leitura da temperatura e compara com o valor ideal estabelecido através de um programa de controle desenvolvido no próprio laboratório. O mesmo programa monitora a potência entregue ao forno (através de uma placa controladora), de modo a permitir o aquecimento de acordo com a programação previamente estabelecida. Capítulo 2: Métodos Experimentais 29 Figura 2.1: Forno tubular utilizado para os tratamentos térmicos de preparação dos precursores. Figura 2.2: Esquema da montagem empregada nos tratamento térmicos de obtenção dos precursores (Girelli, 2001). Capítulo 2: Métodos Experimentais 30 A Figura 2.3 mostra um gráfico típico para a evolução temporal da temperatura durante os tratamentos térmicos utilizados na preparação dos precursores. Pode-se observar a pequena diferença (da ordem de no máximo 5ºC) entre a temperatura ideal (programada) e a temperatura medida nominalmente através do termopar. 800 700 Temperatura (ºC) 600 500 400 300 200 100 Temperatura medida Temperatura ideal 0 0 100 200 300 400 Tempo (min) Figura 2.3: Evolução temporal da temperatura em um tratamento térmico típico para obtenção dos precursores. 2.2.2) Produtos finais Os produtos finais constituídos por materiais carbonosos misturados a compostos de silício foram obtidos em sua maioria a partir dos precursores preparados segundo o descrito no item anterior. Os precursores CAS e JUR foram colocados separadamente em dois cadinhos de alumina e submetidos simultaneamente aos tratamentos térmicos finais em um tubo horizontal de alumina, sendo nessa etapa empregado um forno tubular automático da marca Lindberg Blue M, modelo 51314 Capítulo 2: Métodos Experimentais 31 existente no LMC. Tal forno é controlado através de um controlador de temperatura da marca Eurotherm Controls, modelo 818 PROGRAMER, sendo possível a programação de até oito rampas com controle e monitoramento de taxa de aquecimento, temperatura final e tempo de residência. A temperatura neste sistema é medida através de um termopar tipo B (eletrodo negativo composto por Pt 6% Rh e o positivo composto por Pt 30% Rh). Na Figura 2.4 pode-se observar o forno equipado com o tubo de alumina e conectado ao controlador de temperatura. Durante os tratamentos térmicos foram alternativamente empregados os gases comerciais Ar ou N2, com fluxo contínuo através da amostra a ser tratada, num esquema similar ao mostrado na Figura 2.2. Figura 2.4: Forno tubular utilizado na preparação dos produtos finais. A Figura 2.5 mostra o gráfico das temperaturas ideal (programada) e medida (nominalmente com o termopar) em função do tempo de tratamento para um tratamento térmico típico com TTT = 1700 ºC. Pode ser observado que até em torno de 1200 ºC a temperatura medida coincide com a temperatura esperada, mas a partir daí passa a existir um desvio considerável devido à inércia térmica do forno; um comportamento similar é verificado em menor escala para TTT’s mais baixas. Dessa forma, o tempo real de residência na TTT desejada sempre é inferior ao valor nominal programado. Capítulo 2: Métodos Experimentais 32 Continuaremos entretanto a utilizar o tempo de residência programado para identificar as amostras finais preparadas, ainda que levando em conta este aspecto. 1800 1600 Temperatura (ºC) 1400 1200 1000 800 600 400 200 Temperatura medida Temperatura ideal 0 0 10 20 30 40 50 Tempo (min) Figura 2.5: Evolução temporal da temperatura em um tratamento térmico típico para obtenção dos produtos finais (TTT = 1700ºC). Neste trabalho foram estudadas amostras obtidas a partir dos precursores CAS e JUR através de tratamentos térmicos realizados com combinações dos seguintes parâmetros: TTT = 1450, 1600 ou 1700 ºC; q = 10, 50 ou 100 ºC/min; tempo de residência = 0,5 ou 1 h; e atmosferas de N2 ou Ar. Com o objetivo de serem efetuados estudos comparativos, foram preparadas também amostras CAS e JUR sob atmosfera de Ar e de N2 partindo diretamente da casca de arroz natural (sem o pré-tratamento a 700 °C), com taxa de aquecimento de 100 ºC/min, TTT = 1450 ºC e tempo de residência de 1h, o que constitui uma rota alternativa para a preparação de SiC e Si3N4 a partir da Capítulo 2: Métodos Experimentais 33 casca de arroz (Sun & Gong, 2001). Essas amostras serão denotadas por um asterisco (*) sempre que for necessário diferenciá-las das amostras preparadas a partir dos precursores. 2.2.3) Tratamento ácido Com o objetivo de prepararmos amostras finais sem a presença de compostos de silício e assim explicitarmos a influência desses compostos no comportamento dos materiais carbonosos finais sob condições oxidantes, foram realizados tratamentos com ácido fluorídrico (HF) nos precursores para retirar a sílica aí contida. Nesses tratamentos ácidos foi seguida a metodologia descrita por Liu e Ho (Liu & Ho, 1960). Inicialmente foi separada uma determinada quantidade de amostra dos precursores (1,2 g) para o 1o teste, a qual foi deixada em repouso em uma solução de HF cuja concentração foi de 27,7 mol/L, por um tempo total de 40 horas a uma temperatura em torno de 70 ºC, mantendo-se uma proporção de 1g de amostra para 30 g (~50 ml) de solução de HF. Quando não mais foi observada a eliminação de vapores da amostra, esta foi então lavada com água destilada e levada para uma estufa à temperatura de 100 ºC por 2 horas para secar e garantir a total eliminação do HF e o ácido fluorsilícico (H2SiF6), volátil, resultante da reação da sílica contida na amostra com o HF, descrita pela equação: 6HF + SiO2 H2SiF6 + 2H2O (2.1) A quantidade de sílica residual nessas amostras foi monitorada através de análise termogravimétrica em atmosfera de oxigênio (a ser descrita posteriormente). O tratamento foi considerado satisfatório quando o teor de cinzas nas amostras tratadas com ácido ficou reduzido a menos do que 3,5% em massa. Já no primeiro teste as amostras apresentaram resultado satisfatório portanto os tratamentos subseqüentes foram realizados seguindo o mesmo procedimento para as amostras precursoras CAS e JUR. As amostras de precursores tratadas com ácido e possuindo baixo teor de sílica foram então submetidas aos tratamentos térmicos de obtenção dos produtos finais, com Capítulo 2: Métodos Experimentais 34 q = 100 ºC/min, TTT = 1450 ºC e tempo de residência de 1 h sob atmosfera de N2 e q = 100 ºC/min, TTT = 1700 ºC e tempo de residência de 0,5 h sob atmosfera de Ar. 2.3) Técnicas de Caracterização A caracterização física e estrutural das amostras foi feita utilizando várias técnicas tais como análise termogravimétrica (ATG), difração de raios-X (DRX) e medidas de área superficial específica (ASE). Foi também utilizado o estudo dos aspectos visuais das amostras, os quais foram realizados a partir da análise de imagens obtidas com uma câmera fotográfica digital. As amostras foram também analisadas com o auxílio de um microscópio ótico, o que nos possibilitou a visualização da sua estrutura com uma ampliação de duzentas vezes o tamanho original. A seguir descreveremos cada uma das técnicas utilizadas na caracterização das amostras. 2.3.1 Difração de raios-X (DRX) Os difratogramas de raios-X das amostras foram registrados utilizando a técnica de difratometria de pó (Cullity, 1967) sendo para isso utilizado um difratômetro da marca Rigaku Geigerflex, pertencente ao Departamento de Física da UFES. As medidas foram feitas à temperatura ambiente com radiação Cu-Kα (λ= 1,5418 Å), sendo o ângulo de difração (2θ) variado de 15 a 80º em intervalos de 0,05º. Tais análises possibilitaram a distinção das várias fases cristalinas existentes nas amostras. Os picos de maior intensidade foram isolados e comparados com fichas do banco de dados “Powder Difraction File” (PCPDFWIN, 1996) 2.3.2 Análise termogravimétrica (ATG) As curvas de ATG foram obtidas em um equipamento Shimadzu TGA-50H, pertencente ao Departamento de Física da UFES. As medidas de ATG foram realizadas Capítulo 2: Métodos Experimentais 35 entre 25 e 800 °C com taxa de aquecimento 10 °C/min, sendo empregado um fluxo constante (20 ml/min) de oxigênio comercial. O equipamento consiste numa balança com precisão de 0,001 mg onde são registradas variações de massa da amostra à medida que sua temperatura varia de acordo com uma programação previamente escolhida; a Figura 2.6 ilustra o equipamento utilizado nas medidas. Em cada medida foi utilizada uma pequena quantidade de amostra pulverizada com massa inicial em torno de 10 a 20 mg, a qual foi colocada em um pequeno cadinho de alumina suspenso ao braço da balança por um fio de platina. A técnica consiste em variar a temperatura da amostra em uma determinada taxa medindo sua massa durante o processo de aquecimento até que toda massa contida no recipiente sofra oxidação. Faz-se então um gráfico da variação da massa em função da temperatura, a partir do qual podem ser obtidos os parâmetros característicos do processo de oxidação, a serem descritos no próximo capítulo. A temperatura da amostra foi monitorada com uso de um termopar do tipo S (Pt/Pt 10 % Rh) e as curvas foram registradas automaticamente com o auxílio de um computador conectado ao equipamento. As curvas de análise termogravimétrica diferencial (ATGD) foram obtidas computacionalmente a partir das curvas de ATG por diferenciação numérica, utilizando o software de análise fornecido pelo fabricante do equipamento. Figura 2.6: Equipamento utilizado para a obtenção das curvas de ATG e ATGD. Capítulo 2: Métodos Experimentais 2.3.3 36 Área superficial específica (ASE) A caracterização das amostras em termos de sua área superficial específica foi feita através do método BET, originalmente desenvolvido por Brunauer, Emmett e Teller (Brunauer et al, 1938), utilizando-se adsorção e dessorção de N2 a 77 K. Os experimentos foram feitos com um medidor de área superficial Quantachrome, modelo Quantasorb, cujo diagrama de blocos é mostrado na Figura 2.7. O experimento consiste em passar uma mistura gasosa contendo cerca de 10, 20 e 30 % de nitrogênio em hélio através da amostra a uma pressão absoluta aproximadamente igual à pressão atmosférica e uma pressão parcial de 0,097, 0,2003 e 0,2932. A amostra pulverizada é colocada em um tubo em forma de “U” e previamente submetida a um processo de purificação de impurezas através da passagem de N2 puro à temperatura em torno de 300 ºC durante 6 h. A seguir a amostra é mergulhada dentro de um recipiente criogênico (dewar) contendo N2 líquido, o que leva o adsorbato (N2) a ser adsorvido em toda a superfície acessível da amostra a ser analisada. O hélio desempenhou papel de diluente, pois sua temperatura de condensação é menor que a do N2. Figura 2.7: Diagrama esquemático do fluxo do sistema Quantasorb (Quantachrome, 1991). Capítulo 2: Métodos Experimentais 37 Capítulo 2: Métodos Experimentais 38 A adsorção do N2 causa uma variação da condutividade térmica da mistura gasosa após passar pela amostra, a qual é acusada por um detector que compara a condutividade térmica da mistura que passa pela amostra com aquela de uma mistura de referência. Um sinal elétrico é então registrado proporcionalmente à quantidade de N2 adsorvida até que o sistema retome seu estado de equilíbrio, ou seja, até que a amostra deixe de adsorver e as duas misturas voltem a possuir a mesma condutividade térmica inicial. No momento em que o recipiente onde se encontra a amostra é retirado do dewar, um jato de ar quente é lançado sobre o recipiente onde se encontra a amostra, e o N2 adsorvido passa a ser liberado da amostra. A condutividade térmica da mistura novamente se altera, sendo então gerado um sinal elétrico proporcional à quantidade de N2 que está sendo liberada (sinal de dessorção). Ao final da operação uma quantidade conhecida de N2 é injetada à temperatura ambiente no circuito que passa pela amostra, originando também um sinal detectado pelo aparelho. Este sinal de calibração pode então ser comparado com o sinal de dessorção para obter-se finalmente o volume de N2 adsorvido pela amostra. De posse dos volumes adsorvidos para cada uma das concentrações de N2 utilizadas e usando a equação BET, é possível calcular o volume de adsorbato necessário para recobrimento de uma única camada sobre a superfície da amostra. A partir desses valores e da área efetiva da molécula de N2 (0,162 nm2) (Gontijo, 1997; Quantachrome, 1991), é possível determinar a área superficial específica das amostras, utilizando-se nesse cálculo o valor da massa da amostra medida posteriormente à realização do experimento de adsorção. Capítulo 2: Métodos Experimentais 2.3.4 39 Aspectos visuais O registro dos aspectos visuais das amostras foi feito com o auxílio de uma câmera fotográfica digital da marca Sony (modelo MVC-FD92) possibilitando um aumento de 2,5× a partir de seu tamanho original. Tais fotografias foram obtidas a uma distância de aproximadamente 25 mm das amostras, possibilitando observar detalhes que não seriam tão claramente detectados a olho nu. Foi também utilizado um microscópio ótico da marca CARL-ZEISS JENA com aumento de até 200×, o que permitiu a identificação de estruturas (tais como os “whiskers”) impossíveis de serem observadas a olho nu ou com o uso da câmera fotográfica. Capítulo 3: Resultados 40 Capítulo 3 – Resultados 3.1) Caracterização inicial das amostras naturais e dos precursores 3.1.1) Análise imediata A Tabela 3.1 apresenta os resultados das medidas de teores de umidade e de cinzas para as amostras CAS e JUR, assim como os rendimentos em massa obtidos após a carbonização dessas amostras a 700 ºC durante 4 h (tratamento que deu origem aos precursores), representado por η(700 ºC). O valor de η é obtido tomando o valor da massa da amostra carbonizada dividido pelo valor da massa inicial da amostra seca. Tabela 3.1: Análise imediata das amostras naturais utilizadas nos tratamentos térmicos. Amostra CAS Amostra JUR Umidade 10 % 9% Cinzas 22 % 16 % η(700ºC) 41 % 37 % Observa-se que as amostras CAS e JUR possuem teores de umidade similares, enquanto que a amostra CAS apresenta um teor de cinzas mais elevado. Em diversos trabalhos reportados na literatura verifica-se que as cinzas da casca de arroz são compostas majoritariamente por sílica em uma fase amorfa, representando aproximadamente 95 % em massa das cinzas (Lanning, 1963; Patel, 1991; Lee & Cutler, 1975; Freitas, 2000), fato que será discutido na seqüência juntamente com os espetros de DRX das cinzas das amostras CAS e JUR. Os valores apresentados para η(700ºC) estão de acordo com a análise do teor de cinzas, ou seja, a amostra CAS apresenta maior rendimento em massa por apresentar maior teor de matéria inorgânica. Capítulo 3: Resultados 3.1.2) 41 Análise estrutural das cinzas A existência de SiO2 na casca de arroz já vem sendo estudada desde a década de 60 (Lanning, 1963) e foi comprovada em nossas amostras através das análises dos espectros de DRX das cinzas mostrados nas Figura 3.1 e 3.2 para as amostras CAS e JUR, respectivamente. Para as cinzas obtidas a 700ºC observamos em ambos os casos a presença de uma região alargada com um máximo em torno de 2θ =23º correspondente ao SiO2 amorfo (Della et al., 2001; Lanning, 1963). Já para as cinzas tratadas termicamente a 1000 ºC foram observados picos bastante estreitos em 2θ = 20,77, 21,92, 31,42 e 36,22º, identificados como sendo correspondentes ao SiO2 na fase αcristobalita, concordando com outros trabalhos da literatura (Krishnarao et al., 1992, 1998, 1999; Lee & Cutler, 1975; PCPDFWIN ficha 27-0605, 1996). A realização de tratamentos térmicos nas cinzas em temperaturas superiores (até 1200 ºC) não revelou nenhuma alteração apreciável nos espectros de DRX aqui exibidos. Podemos assim concluir que a sílica contida nas amostras naturais e também nos precursores obtidos a 700 ºC possui estrutura amorfa, sendo cristalizada em uma temperatura entre 700 e 1000 ºC, o que está de acordo com resultados anteriores que situam a temperatura de cristalização da sílica contida na casca de arroz em torno de 980 ºC (Harima, 1997; Rambo et al., 1999). As cinzas da casca de arroz contêm outros compostos inorgânicos além do SiO2, tais como K2O, Na2O, CaO, MgO, Al2O3 e Fe2O3, porém em quantidades muito menores (Sun & Gong, 2001; Krishnarao et al., 2001), sendo imperceptíveis nos espectros de DRX aqui apresentados. Capítulo 3: Resultados 42 @ Cinzas a 1000ºC por 2h @ @ @ @ & Cinzas a 700ºC por 6h 20 30 40 50 60 70 80 2θ (º) Figura 3.1: Espectros de DRX das cinzas das amostras CAS. @ = SiO2 (α-cristobalita), & = sílica amorfa. @ Cinzas a 1000ºC por 2h @ @ @ @ & Cinzas a 700ºC por 6 horas 20 30 40 50 60 70 80 2θ (º) Figura 3.2: Espectros de DRX das cinzas das amostras JUR. @ = SiO2 (α-cristobalita), & = sílica amorfa. Capítulo 3: Resultados 3.1.3) 43 ATG dos precursores As curvas de ATG sob atmosfera oxidante obtida para os precursores mostradas na Figura 3.3 confirmam os resultados obtidos a partir da análise imediata. Ambas as amostras apresentam teores de umidade similares (observados a partir da primeira perda de massa em torno de 100ºC). A amostra CAS possui maior quantidade de resíduo após a oxidação total da amostra, o que concorda com seu mais elevado teor de cinzas. Observamos também que as amostras JUR possuem maior temperatura inicial de oxidação do que as amostras CAS. As irregularidades verificadas nas duas curvas de ATG em temperaturas entre 400 e 450ºC ocorrem como conseqüência das variações abruptas de temperatura das amostras ocasionadas pela reação exotérmica de oxidação, fazendo com que a temperatura medida sofra desvios em relação à rampa programada. 100 Massa relativa (%) 90 80 70 60 50 CAS JUR 40 0 200 400 Temperatura (ºC) Figura 3.3: ATG sob atmosfera oxidante das amostras precursoras. 600 800 Capítulo 3: Resultados 3.1.4) 44 Rendimento em massa As Tabelas 3.2 a 3.5 mostram os resultados obtidos para o rendimento em massa (η) e a variação porcentual de massa (δm) obtidos tanto para as amostras CAS como para as amostras JUR nos tratamentos térmicos que deram origem aos produtos finais. Os resultados estão separados por atmosfera utilizada sendo os resultados correspondentes às amostras tratadas sob N2 apresentados nas Tabelas 3.2 e 3.3 e aqueles correspondentes às amostras tratadas sob Ar listados nas Tabelas 3.4 e 3.5. Tanto os valores de η quanto os de δm foram obtidos relativamente às massas iniciais dos precursores (em base seca) anteriores aos tratamentos térmicos (exceto para as amostras indicadas com *, as quais foram obtidas diretamente a partir das amostras naturais e não dos precursores). Tais resultados permitem acompanhar o comportamento do rendimento em massa com relação aos diversos parâmetros envolvidos nos tratamentos térmicos (TTT, q, atmosfera e procedência). O aumento no valor de q sendo mantida a TTT de 1450 ºC leva, em geral, ao aumento no η. Aumentando a TTT e mantendo q constante (100 ºC/min), observa-se uma diminuição no rendimento em massa, tanto para as amostras tratadas sob N2 como para aquelas preparadas sob atmosfera de Ar. Já as amostras preparadas diretamente a partir das amostras naturais apresentam os menores valores de η, o que é facilmente explicado pela grande perda de massa envolvida nos processos de pirólise e carbonização dos principais constituintes da estrutura orgânica das amostras naturais (lignina, celulose e hemicelulose) (Freitas, 2000). Com relação às atmosferas de tratamento, os resultados indicam que o rendimento em massa apresentase geralmente maior para as amostras tratadas sob N2 do que para as tratadas sob Ar no caso das TTT’s de 1450 e 1600 °C, sendo invertida essa tendência na TTT de 1700 ºC. Conforme será visto no próximo capítulo, o rendimento em massa após o tratamento térmico para obtenção dos produtos finais é determinado prioritariamente pelas conversões químicas que ocorrem durante esses tratamentos, envolvendo reações entre a sílica e o carbono presentes nas amostras e eventualmente o nitrogênio que pode constituir o gás de passagem (Krishnarao et al., 1996; Silva & Figueiredo, 2001). Podem ocorrer, entretanto perdas de massa adicionais ocasionadas pela presença de vapor de água e oxigênio na atmosfera de tratamento, introduzidos por contaminação no Capítulo 3: Resultados 45 gás de passagem ou por vazamentos no sistema de vedação dos fornos tubulares, de modo que alguma oscilação nos valores de η pode ocorrer em conseqüência desses fatores que se manifestam de modo muitas vezes imprevisível. Capítulo 3: Resultados 46 Tabela 3.2: Rendimento em massa das amostras CAS tratadas sob atmosfera de N2. TTT (ºC) q (ºC/min) Tempo (h) 1700 100 0,5 1600 100 0,5 1450 100 1,0 1450 50 1,0 1450 10 1,0 1450 100* 1,0 δm (%) 64 38 19 40 45 78 η (%) 36 62 81 60 55 22 Tabela 3.3: Rendimento em massa das amostras JUR tratadas sob atmosfera de N2. TTT (ºC) q (ºC/min) Tempo (h) 1700 100 0,5 1600 100 0,5 1450 100 1,0 1450 50 1,0 1450 10 1,0 1450 100* 1,0 δm (%) 59 30 29 47 41 83 η (%) 41 70 71 53 59 18 Tabela 3.4: Rendimento em massa das amostras CAS tratadas sob atmosfera de Ar. TTT (ºC) q (ºC/min) Tempo (h) 1700 100 0,5 1600 100 0,5 1450 100 1,0 1450 50 1,0 1450 10 1,0 1450 100* 1,0 δm (%) 56 55 24 45 52 80 η (%) 44 45 76 55 48 20 Tabela 3.5: Rendimento em massa das amostras JUR tratadas sob atmosfera de Ar. TTT (ºC) q (ºC/min) Tempo (h) 1700 100 0,5 1600 100 0,5 1450 100 1,0 1450 50 1,0 1450 10 1,0 1450 100* 1,0 δm (%) 49 50 39 37 50 81 η (%) 51 50 61 63 50 19 Capítulo 3: Resultados 47 3.2) Análise fotográfica Os tratamentos térmicos envolvidos na preparação dos produtos finais influenciam nas características estruturais das amostras, sendo observadas variações macro e microscópicas. Na Figura 3.4 são apresentadas as imagens fotográficas das amostras usadas como precursores, onde é possível perceber que tais amostras mantêm as características das amostras naturais, diferenciando-se apenas por sua coloração escurecida associada ao processo de carbonização (Freitas, 2000; Krishnarao et al., 1992). Para as amostras obtidas após os tratamentos térmicos, verifica-se que sua aparência muda de acordo com a forma de obtenção. Quando tratadas sob atmosfera de N2 com TTT=1450 ºC e q=100 ºC/min (Figura 3.5), as amostras adquirem uma textura de aglomerados possuindo cor esverdeada com pontos esbranquiçados distribuídos por toda a sua extensão. Tais pontos brancos, quando observados em microscópio ótico, apresentam estrutura de pequenos fios denominados “whiskers”, bastante comuns em materiais contendo SiC e Si3N4 formados a partir de reação gás-sólido (Silva & Fiqueiredo, 2001; Krishnarao et al., 1996; Lee & Cutler, 1975). Como discutido por Krishnarao et al., (1992) a presença de depósitos esbranquiçados nas amostras tratadas termicamente pode ser tomada como direta indicação da formação de “whiskers”. 1cm Figura 3.4: Imagens das amostras tratadas a 700ºC sob atmosfera de N2 (precursores). Capítulo 3: Resultados 48 1cm Figura 3.5: Imagens das amostras CAS e JUR tratadas sob N2 com q = 100ºC/min e TTT = 1450ºC. Observando as fotografias das amostras tratadas sob atmosfera de Ar (Figura 3.6) com TTT = 1450 ºC e q=100 ºC/min, percebe-se que essas amostras possuem coloração mais acinzentada que as amostras tratadas sob N2, mas possuindo também uma similar distribuição de pontos esbranquiçados. Para as amostras preparadas a 1600 ºC, observa-se uma textura diferenciada, com o material predominantemente escuro e menos pontos brancos, o que é indicativo da progressiva cristalização do SiC na forma de partículas e “whiskers” espessos (Krishnarao et al., 1992, 1996), fato que será discutido em detalhe a partir da análise dos espectros de DRX no tópico seguinte. Capítulo 3: Resultados 49 1cm Figura 3.6: Imagens das amostras CAS e JUR tratadas sob Ar com q=100ºC/min e TTT’s iguais a 1450 e 1600ºC. 3.3) Espectros de difração de raios-X (DRX) A Figura 3.7 mostra os espectros de DRX para os precursores e para as amostras preparadas sob atmosfera de Ar com q mantida em 100 ºC/min e TTT variando desde 1450 até 1700 ºC. Para os precursores (TTT=700 ºC), são observados apenas os máximos alargados associados à estrutura turbostrática formada pelos átomos de carbono (Emmerich, 1987; Freitas, 2000). Com o aumento na TTT, observa-se que há uma crescente formação de SiC cristalino na fase cúbica (β-SiC), cujos picos principais estão localizados em 2θ = 36,02, 60,07 e 71,82º (PCPDFWIN ficha 29-1130, 1996). Um pequeno sinal observado em torno de 33,7º é associado a uma modificação estrutural não-cúbica de SiC presente em pequena quantidade (Krishnarao et al., 1992). Em Capítulo 3: Resultados 50 algumas amostras, notadamente no caso da amostra JUR com TTT = 1450 ºC, podem ser também observados picos bastante estreitos associados à sílica cristalizada na faseαcristobalita (Krishnarao et al., 1992, 1998, 1999). b b 1700ºC 100ºC/min 0,5h b b 1700ºC 100ºC/min 0,5h b b @ b b b b b 1600ºC 100ºC/min 0,5h b b b b 1600ºC 100ºC/min 0,5h @ b b @ b b b @ @ @ 1450ºC 100ºC/min 1h b b 1450ºC 100ºC/min 1h b @ ¢ b b ¢ 700ºC 5ºC/min 4h = precursor 20 b 30 40 50 2θ (º) (a) 60 70 80 700ºC 5ºC/min 4h = precursor 20 30 40 50 60 70 80 2θ (º) (b) Figura 3.7: Espectros de DRX das amostras CAS (a) e JUR (b) tratadas sob atmosfera de Ar com q=100ºC/min e diferentes TTT’s. @ = α-cristobalita, b=β-SiC, ¢=carbono (estrutura turbostrática). Capítulo 3: Resultados 51 b @ 1450ºC 100ºC/min 1h * @@ b 1450ºC 100ºC/min 1h * b b @ b @ @ 1450ºC 100ºC/min 1h b b b @ 1450ºC 100ºC/min 1h @@ b 1450ºC 50ºC/min 1h b b @@ b b 1450ºC 50ºC/min 1h b b @ b b @ 1450ºC 10ºC/min 1h b b @ 1450ºC 10ºC/min 1h b b @@ b ¢ ¢ 700ºC 5ºC/min 4h =precursor 20 30 40 50 2θ (º) (a) 60 70 80 700ºC 5ºC/min 4h = precursor 20 30 40 50 60 70 80 2θ (º) (b) Figura 3.8: Espectros de DRX das amostras CAS (a) e JUR (b) tratadas sob atmosfera de Ar com TTT = 1450ºC e diferentes taxas de aquecimento. @ = α-cristobalita; b = β-SiC; ¢ = carbono (estrutura turbostrática). Quanto ao comportamento das amostras tratadas a 1450 ºC com diferentes taxas de aquecimento (Figura 3.8), observamos que a cristalização do SiO2 na fase αcristobalita é bastante evidente para as amostras CAS tratadas com q = 50ºC/min bem como para as amostras JUR tratadas com q = 10 e 100 ºC/min. O aumento da taxa de aquecimento leva em geral à redução na quantidade de SiC formado, especialmente no caso das amostras CAS. Por outro lado, a amostra JUR preparada com TTT = 1450 ºC diretamente a partir da casca de arroz natural apresenta grande concentração de SiC com alta cristalinidade, juntamente com cristobalita. A amostra CAS preparada sob as mesmas condições mostra-se predominantemente composta por cristobalita, com Capítulo 3: Resultados 52 pequenos picos devidos ao SiC e nenhum sinal perceptível de carbono na estrutura turbostrática. b a b a @ b @ b 1700ºC 100ºC/min 0,5h # b b # # + 1700ºC 100ºC/min 0,5h a b a b + @ + 1600ºC 100ºC/min 0,5h # b b# b aa @ b b # # + 1600ºC 100ºC/min 0,5h ba # a @ b b# + 1450ºC 100ºC/min 1h b b ¢ +@ @ b 1450ºC 100ºC/min 1h b ¢ 700ºC 5ºC/min 4h = precursor 20 30 40 50 60 2θ (º) (a) 70 80 700ºC 5ºC/min 4h = precursor 20 30 40 50 60 70 80 2θ (º) (b) Figura 3.9: Espectros de DRX das amostras CAS (a) e JUR (b) tratadas sob atmosfera de N2 com q=100 ºC/min e diferentes TTT’s. @ = α-cristobalita, a = α-SiC, b = β-SiC, # = Si3N4, += Si2N2O, ¢ = carbono (estrutura turbostrática). Nas Figuras 3.9 e 3.10 encontram-se os espectros de DRX para as amostras tratadas sob atmosfera de N2, em função da TTT e da taxa de aquecimento, respectivamente. A principal diferença entre esses espectros e aqueles correspondentes às amostras preparadas sob Ar diz respeito à presença dos compostos Si3N4 e Si2N2O, originados da reação entre a sílica e o carbono contidos nas amostras e o nitrogênio presente na atmosfera de tratamento (Krishnarao, et al., 1996, 1998). Esses compostos são identificados nos espectros de DRX pelos picos principais localizados nos ângulos 31,02, 34,60, 35,36, 38,94, 41,92, 43,52, 46,87, 51,71, 57,79, 62,52º para o α-Si3N4 (PCPDFWIN, ficha 41-0360, 1996) e 19,99, 26,53º para o Si2N2O (PCPDFWIN, ficha 18-1171, 1996). Capítulo 3: Resultados 53 A formação dos compostos nitrogenados Si3N4 e de Si2N2O dá-se preferencialmente nas TTT’s intermediárias de 1450 e 1600 ºC, como observado na Figura 3.9. Para TTT = 1700 ºC os espectros de DRX tanto para as amostras CAS quanto para as amostras JUR mostram a formação abundante de β-SiC, da mesma forma como encontrado para as amostras preparadas sob Ar. Uma importante diferença é a presença nas amostras preparadas sob N2 de quantidades razoáveis de α-SiC, dando origem aos picos observados em 33,7 e 38,2º (PCDFWIN ficha 22-1319, 1996; Rambo et al., 1999). Outro aspecto que merece ser destacado é a baixa cristalinidade das amostras preparadas com TTT=1450 e 1600 ºC (Figura 3.9), com linhas largas e pouca formação de SiC, diferentemente do encontrado para as amostras preparadas sob atmosfera de Ar (Figura 3.7). A realização de medidas de espectroscopia por ressonância magnética nuclear (RMN) de 29Si nessas amostras com baixa cristalinidade revelou a existência de espécies envolvendo ligações de átomos de Si com átomos de O, N e C, ainda que não originando compostos cristalinos observáveis nos espectros de DRX (Freitas et al., 2002). A comparação entre as amostras preparadas a 1450 ºC com diferentes taxas de aquecimento (Figura 3.10) mostra que a formação de Si3N4 é particularmente sensível às condições empregadas no tratamento térmico, o que está de acordo com resultados previamente reportados (Hanna et al., 1985; Krishnarao et al., 1998). As amostras que mostraram maiores concentrações de Si3N4 foram àquelas obtidas com q=10 ºC/min e as preparadas diretamente a partir da casca de arroz natural. Capítulo 3: Resultados 54 @ # # # b # @# # 1450ºC 100ºC/min 1h * # # # b + b # b # ## @ # b # ## # b @ b 1450ºC 50ºC/min 1h b b # # 1450ºC 10ºC/min 1h # # #* # # # # * # # @# # # # ## # 40 1450ºC 50ºC/min 1h b 1450ºC 10ºC/min 1h # # b# # # b ¢ 700ºC 5ºC/min 4h - precursor 30 1450ºC 100ºC/min 1h b #@ # b @ # # # ## # #b # # ¢ 20 1450ºC 100ºC/min 1h * 1450ºC 100ºC/min 1h b #@# # b # # #@ # ## # 50 2θ (º) 60 70 80 700ºC 5ºC/min 4h - precursor 20 (a) 30 40 50 2θ (º) 60 70 80 (b) Figura 3.10: Espectros de DRX das amostras CAS (a) e JUR (b) tratadas sob atmosfera de N2, com TTT=1450ºC e diferentes taxas de aquecimento. @=α-cristobalita, b=β-SiC, #=Si3N4, + = Si2N2O, ¢ = carbono (estrutura turbostrática). 3.4) Análise termogravimétrica (ATG) A seguir são definidos alguns parâmetros que serão bastante citados doravante quando forem referenciados os resultados obtidos a partir da ATG. Tais definições podem ser visualizadas na curva típica de ATG exibida na Figura 3.11. • Temperatura inicial de oxidação (TiOX) temperatura na qual a amostra perde 1% da massa registrada em um patamar em torno de 200 ºC (portanto com a amostra já sem umidade). Capítulo 3: Resultados • 55 Temperatura final de oxidação (TfOX) temperatura na qual a perda de massa atinge 99% de seu valor total. • Temperatura de pico (Tp) temperatura para a qual é observado o pico na curva de DTG (derivada da curva de ATG), correspondendo a ponto de máxima taxa de perda de massa. • Variação da temperatura de oxidação (δTOX) diferença entre as temperaturas final e inicial de oxidação. • Massa inicial (MiOX) massa da amostra quando a temperatura é igual à temperatura inicial de oxidação. • Massa final (MfOX) massa da amostra quando a temperatura é igual à temperatura final de oxidação. • Variação da massa (δMOX) variação da massa entre as temperaturas final e inicial de oxidação. • %Res percentagem de resíduo ao final da ATG, em relação ao valor de MiOX. • %Ox percentagem de massa perdida durante o processo de oxidação, em relação ao valor de MiOX. 100 0,00 800 TiOX 90 TG DTG Temperatura -0,04 δTOX 70 -0,06 -0,08 60 600 400 Temperatura (ºC) 80 Variação da massa (mg/min) Massa relativa (%) -0,02 200 -0,10 TfOX 50 1000 2000 3000 4000 -0,12 5000 0 Tempo (s) Figura 3.11: Curva característica de ATG para amostra CAS N2 700ºC 5ºC/min 4h (precursor das amostras CAS), ilustrando a definição dos parâmetros utilizados para a interpretação das curvas de ATG. Capítulo 3: Resultados 56 As Figuras 3.12 a 3.15 exibem as curvas de ATG sob atmosfera oxidante obtidas para o conjunto de amostras analisadas neste trabalho. Pode-se observar com clareza como o perfil de oxidação das amostras é modificado em função dos tratamentos térmicos realizados. Como regra geral, verifica-se que com o aumento na TTT a reação de oxidação tende a iniciar-se em uma temperatura mais alta e a se processar de forma mais lenta. Ao mesmo tempo, as amostras preparadas em TTT’s mais altas tendem a possuir maior quantidade de resíduo após a oxidação, o que é claramente associado ao seu maior teor de matéria inorgânica, representada pelos compostos contendo silício (SiC, SiO2, Si3N4 e Si2N2O). Os parâmetros característicos do processo de oxidação verificado nas curvas de ATG (obtidos de acordo com as definições anteriormente apresentadas) estão listados nas Tabelas 3.6 a 3.9, respectivamente para cada conjunto de amostras cujo perfil de oxidação foi apresentado nas Figuras 3.12 a 3.15. No próximo capítulo esses parâmetros serão interpretados em comparação com as características estruturais de cada amostra, obtidas a partir dos espectros de DRX e dos outros métodos de análise aqui descritos. Capítulo 3: Resultados 57 110 100 7 Massa (%) 90 80 6 3 70 2 60 50 40 1 2 3 4 5 6 7 CAS 700ºC 5ºC/min 4h p CAS 1450ºC 10ºC/min 1h CAS 1450ºC 50ºC/min 1h CAS 1450ºC 100ºC/min 1h CAS 1600ºC 100ºC/min 0,5h CAS 1700ºC 100ºC/min 0,5h CAS 1450ºC 100ºC/min 1h * 200 400 1 600 4 5 800 Temperatura (ºC) Figura 3.12: Curvas de ATG para as amostras CAS preparadas sob atmosfera de Ar (p = precursor). 110 100 Massa (%) 90 3 5 80 70 6 60 50 40 30 1 2 3 4 5 6 3 1 4 CAS 700ºC 5ºC/min 4h p CAS 1450ºC 10ºC/min 1h CAS 1450ºC 100ºC/min 1h CAS 1600ºC 100ºC/min 0,5h CAS 1700ºC 100ºC/min 0,5h CAS 1450ºC 100ºC/min 1h * 200 400 600 800 Temperatura (ºC) Figura 3.13: Curvas de ATG para as amostras CAS preparadas sob atmosfera de N2.(p = precursor). Capítulo 3: Resultados 58 110 100 90 Massa (%) 80 2 70 5 7 60 50 40 30 1 2 3 4 5 6 7 JUR 700ºC 5ºC/min 4h p JUR 1450ºC 10ºC/min 1h JUR 1450ºC 50ºC/min 1h JUR 1450ºC 100ºC/min 1h JUR 1600ºC 100ºC/min 0,5h JUR 1700ºC 100ºC/min 0,5h JUR 1450ºC 100ºC/min 1h * 200 400 6 4 3 1 600 800 Temperatura (ºC) Figura 3.14: Curvas de ATG para as amostras JUR preparadas sob atmosfera de Ar (p = precursor). 110 100 90 Massa (%) 6 80 70 5 60 50 40 30 3 2 CAS 700ºC 5ºC/min 4h p CAS 1450ºC 10ºC/min 1h CAS 1450ºC 100ºC/min 1h CAS 1600ºC 100ºC/min 0,5h CAS 1700ºC 100ºC/min 0,5h CAS 1450ºC 100ºC/min 1h * 1 2 3 4 5 6 200 400 1 4 600 800 Temparatura (ºC) Figura 3.15: Curvas de ATG para as amostras JUR preparadas sob atmosfera de N2 (p = precursor). Capítulo 3: Resultados 59 Tabela. 3.6: Parâmetros obtidos através da ATG das amostras CAS preparadas sob atmosfera de Ar. q (ºC/min) TTT(ºC) δΜΟX (mg) MiOX(mg) MfOX(mg) TiOX(ºC) TP (ºC) TfOX (ºC) δΤΟX(ºC) %Ox %Res 5 700 4,885 10,468 5,583 343 477 508 164 45 55 10 1450 3,724 10,557 6,833 486 599 654 168 35 65 50 1450 2,568 9,469 6,901 466 606 651 185 27 73 100 1450 4,018 8,589 4,571 441 592 640 198 46 54 100 1600 4,188 8,392 4,204 480 618 677 196 49 51 100 1700 2,99 14,481 11,491 483 707 780 297 21 79 100* 1450 0,518 11,683 11,165 301 609 726 424 5 96 Tabela. 3.7: Parâmetros obtidos através da ATG das amostras CAS preparadas sob atmosfera de N2. q (ºC/min) TTT(ºC) δΜΟX (mg) MiOX(mg) MfOX(mg) TiOX(ºC) 344 TP (ºC) 477 TfOX (ºC) δΤΟX(ºC) 508 164 %Ox %Res 45 55 5 700 4,885 10,468 5,583 10 1450 2,357 14,125 11,768 445 613 667 222 17 83 50 1450 1,706 4,205 2,499 481 569 646 165 41 59 100 1450 4,108 9,149 5,041 448 596 645 197 44 56 100 1600 4,416 8,818 4,402 484 623 672 189 50 50 100 1700 1,926 10,565 8,639 514 633 709 195 18 82 100* 1450 2,800 9,108 6,308 416 605 659 243 31 69 Tabela. 3.8: Parâmetros obtidos através da ATG das amostras JUR preparadas sob atmosfera de Ar. q (ºC/min) TTT(ºC) δΜΟX (mg) MiOX(mg) MfOX(mg) TiOX(ºC) TP (ºC) TfOX (ºC) δΤΟX(ºC) %Ox %Res 5 700 5,691 10,377 4,686 376 473 530 154 52 48 10 1450 4,713 16,041 11,328 463 609 679 217 29 71 50 1450 4,539 8,490 3,951 478 589 641 163 54 46 100 1450 4,054 9,065 5,011 463 607 663 201 45 55 100 1600 4,613 10,658 6,045 495 621 702 208 43 57 100 1700 5,98 14,130 8,150 532 708 762 230 43 58 100* 1450 4,273 10,239 5,966 465 604 674 209 41 59 Tabela 3.9: Parâmetros obtidos através da ATG das amostras JUR preparadas sob atmosfera de N2. q (ºC/min) TTT(ºC) δΜΟX (mg) MiOX(mg) MfOX(mg) TiOX(ºC) TP (ºC) TfOX (ºC) δΤΟX(ºC) %Ox %Res 5 700 5,691 10,377 4,686 376 473 530 154 52 48 10 1450 5,329 10,961 5,632 481 608 667 186 49 51 50 1450 3,932 8,724 4,792 481 603 674 197 45 55 100 1450 4,448 9,304 4,856 459 613 673 215 46 54 100 1600 5,463 9,034 3,571 509 619 682 173 61 39 100 1700 4,333 11,344 7,011 527 632 705 178 39 61 100* 1450 1,389 11,665 10,276 341 613 766 424 12 88 Capítulo 3: Resultados 60 3.5) Área superficial específica (ASE) As Tabelas 3.10 e 3.11 mostram os valores de ASE obtidos para as amostras finais CAS e JUR preparadas sob atmosferas de Ar e N2, juntamente com os precursores. Através desses resultados é possível verificar como a ASE varia à medida que variamos a TTT, mantendo a taxa de aquecimento constante em 100 ºC/min. Observa-se em ambos os conjuntos de amostras uma tendência geral de decréscimo nos valores de ASE em função do aumento na TTT, embora algumas inversões nesse comportamento sejam verificadas. Essa tendência geral de redução na ASE está associada à progressiva reorganização estrutural que ocorre nos materiais carbonosos em geral quando submetidos a tratamentos térmicos nessa faixa de temperaturas, levando à redução na porosidade e na área superficial acessível para o processo de adsorção gasosa (Emmerich, 1987; Walker Jr., 1986). Tal evolução estrutural influencia diretamente no perfil de oxidação das amostras estudadas, como será discutido em detalhe no próximo capítulo. Tabela 3.10: ASE para os precursores e amostras finais preparadas sob atmosfera de Ar com q = 100 ºC/min. TTT (ºC) CAS (m2/g) JUR (m2/g) 700 160 140 1450 117 175 1600 113 90 1700 49 49 Tabela 3.11 ASE para os precursores e para as amostras finais preparadas sob atmosfera de N2 com q = 100 ºC/min. TTT (ºC) CAS (m2/g) JUR (m2/g) 700 160 140 1450 85 173 1600 147 127 1700 110 102 Capítulo 4: Discussão 61 Capítulo 4 – Discussão Neste capítulo serão discutidos os resultados obtidos para as amostras de casca de arroz submetidas aos tratamentos térmicos que, como descrito no capítulo anterior, levaram aos produtos finais constituídos pelos compostos de silício SiC, Si3N4 e Si2N2O e SiO2 dispersos em uma matriz carbonosa, com composição e cristalinidade dependendo dos vários parâmetros envolvidos nos tratamentos térmicos. Será também discutida a melhora na resistência à oxidação desses produtos finais, sendo essa característica correlacionada com a constituição e características estruturais das amostras preparadas. 4.1) Análise do rendimento em massa na preparação dos produtos finais Durante a pirólise da casca de arroz, assim como ao longo dos tratamentos térmicos de preparação dos produtos finais, ocorrem várias reações químicas que dependem intimamente do tipo de atmosfera utilizada, pois esta pode reagir com a amostra caso o gás utilizado seja reativo com os componentes das amostras nas TTT’s elevadas em questão. As variações de massa observadas nos tratamentos de preparação dos produtos finais, mostradas nas Tabelas 3.2 a 3.5, dependem fundamentalmente dessas reações, as quais se dão entre as espécies contendo carbono e silício presentes nos precursores (ou nas amostras naturais) e eventualmente o nitrogênio presente na atmosfera de tratamento (Krishnarao et al., 1996, 1998; Silva & Figueiredo, 2001; Sun & Gong, 2001, Padhi & Patnaik, 1985). A fim de estabelecer parâmetros para a análise dos resultados encontrados para η e δm, foram empregadas algumas equações típicas que descrevem as reações de produção de SiC e Si3N4 a partir de C, SiO2 e N2 (Shimoo et al., 1995; Li et al., 2001; Padhi & Patnaik, 1995; Lee & Cutler, 1975; Krishnarao et al., 1992, 1996, 1998). Para a elaboração dessas equações, foram utilizadas relações molares C/SiO2 derivadas das curvas de ATG obtidas para os precursores CAS e JUR mostradas na Figura 3.3, sendo feita a aproximação de que todo o teor de resíduo detectado nessas curvas após a Capítulo 4: Discussão 62 oxidação completa dos precursores corresponde a SiO2. Essa aproximação é justificada com base nos espectros de DRX das cinzas das amostras naturais, os quais não revelaram a presença de nenhum composto inorgânico além da sílica (Figuras. 3.1 e 3.2), o que indica que esses outros compostos, ainda que provavelmente presentes, não representam uma fração apreciável da matéria inorgânica existente nas amostras analisadas (Sun & Gong, 2001). A Tabela 4.1 apresenta as relações molares C/SiO2 juntamente com os valores de rendimento em massa teórico (ηteor) calculados a partir das relações entre as massas dos produtos e reagentes em fase sólida apresentados nas Equações 4.1 a 4.4. Tabela 4. 1: Rendimentos em massa teóricos (ηteor) obtidos a partir das relações entre as massas dos produtos e reagentes em fase sólida apresentados nas Equações 4.1 a 4.4. Procedência CAS CAS JUR JUR Atmosfera Ar N2 Ar N2 C/SiO2 4 4 5 5 ηteor (%) 48 61 53 65 Amostras tratadas sob Ar: CAS: (SiO2)s + 4(C)s → (SiC)s + 2(CO)g + (C)s (4.1) JUR: (SiO2)s + 5(C)s → (SiC)s + 2(CO)g + 2(C)s (4.2) Amostras tratadas sob N2: CAS: 4(SiO2)s+16(C)s+2(N2)g → (Si3N4)s+8(CO)g+7(C)s+(SiC)s (4.3) JUR: 4(SiO2)s+20(C)s+2(N2)g → (Si3N4)s+8(CO)g+11(C)s+(SiC)s (4.4) As reações descritas pelas Equações 4.1 a 4.4 foram escritas com base nas seguintes hipóteses: Capítulo 4: Discussão 63 Não ocorre perda de massa por outro método que não seja através das reações mencionadas. Toda a sílica contida na amostra é consumida nas reações, dando origem aos compostos SiC e Si3N4. São reações que levam exclusivamente à formação de SiC (Equações 4.1 e 4.2) ou à formação de SiC e Si3N4 (Equações 4.3 e 4.4). É claro que essas hipóteses não são plenamente verificadas, uma vez que não se pode descartar a ocorrência de perdas de massa da fração de carbono livre ocasionadas pela reação com oxigênio ou vapor de água presentes na atmosfera de tratamento, como mencionado no capítulo anterior. Além disso, também como observado nos espectros de DRX apresentados no Capítulo 3, em muitas amostras há presença de sílica residual (não consumida pelas reações com o carbono) e também aparecem em alguns casos sinais de uma fase intermediária representada pelo oxinitreto Si2N2O. Assim, os valores “teóricos” de ηteor determinados pelas equações anteriores representam de fato um limite a ser alcançado somente quando toda a sílica for consumida (portanto quando a reação for completada), na ausência de oxidação e com formação apenas de SiC e Si3N4. Vale ressaltar que as amostras preparadas diretamente a partir da casca de arroz natural estão excluídas dessa análise, uma vez que os valores de ηteor foram calculados com base na composição dos precursores, enquanto que na carbonização direta das amostras naturais para obtenção dos produtos finais muitas outras reações químicas estão envolvidas além daquelas descritas nas Equações 4.1 a 4.4 (Freitas, 2000). Comparando os valores de ηteor apresentados na Tabela 4.1 com os valores experimentais, pode-se assim compreender algumas tendências anteriormente mencionadas. Para as amostras CAS preparadas sob atmosfera de N2, observa-se que a maioria dos valores de η estiveram entre os limites teóricos de 48 e 61%, embora em nenhuma delas tenha sido verificada a formação de apreciável quantidade de Si3N4. A amostra com TTT=1450 ºC e q=100 ºC/min apresentou um valor muito alto para η (81%), o que indica uma reação incompleta; de fato o espectro de DRX dessa amostra (Figura 3.9a) mostra pouquíssima quantidade de SiC. Situações similares são observadas para as amostras preparadas a 1600 ºC e a 1450 ºC com q = 50 ºC/min. Para a amostra preparada a 1450 ºC/min com q = 10 ºC/min, por outro lado, observa-se uma Capítulo 4: Discussão 64 grande quantidade de sílica cristalizada e pouca quantidade de carbono livre (ver Tabela 3.7), o que sugere a ocorrência de oxidação durante o tratamento térmico. A amostra preparada a 1700 ºC apresenta apenas SiC em sua estrutura (Figura 3.9a), o que sugere uma reação como a descrita na Equação. 4.1, mas ela também possui pouca quantidade de carbono livre (Tabela 3.7), daí o seu valor de η ter ficado abaixo do valor esperado. Para as amostras JUR preparadas sob atmosfera de N2, observa-se que a amostra preparada a 1450 ºC com q = 10 ºC/min, a qual apresenta grandes quantidades de SiC e Si3N4 (ver espectro de DRX na Figura 3.10b), possui um valor de η (59 %) pouco abaixo do valor teórico com base na Equação. 4.4 (65 %), embora ainda apresente alguma sílica residual. Para as amostras preparadas a 1450 ºC com q = 50 ou 100 ºC/min ocorrem grandes quantidades de sílica não consumida, enquanto a amostra com TTT = 1600 ºC apresenta caráter predominantemente amorfo, com pouca formação de SiC e alguma quantidade de SiO2 e Si2N2O (Figura 3.9b), de modo que os valores de η para essas amostras ficam acima do limite definido para formação única de SiC (53 %, da Equação 4.2). Já a amostra preparada a 1700 ºC, que apresenta apenas formação de SiC, analogamente à amostra CAS, possui um valor de η abaixo do valor teórico, o que sugere também a ocorrência de oxidação no tratamento térmico de preparação dessa amostra. A análise das amostras preparadas sob atmosfera de Ar segue em linhas gerais o discutido acima. Tanto as amostras CAS quanto JUR tratadas a 1600 e 1700 ºC mostram apenas formação de SiC, eventualmente com pequena quantidade de sílica residual (Figura 3.7). Assim os valores de η ficam próximos dos valores teóricos de 48 e 53 % para as amostras CAS e JUR, respectivamente. Para as amostras preparadas a 1450 ºC com diferentes taxas de aquecimento, merece ser destacada a amostra CAS preparada com 100 ºC/min, devido à pequena quantidade de SiC formado e de sílica cristalizada (Figura 3.8a) e, correspondentemente, ao seu elevado valor de η (76 %), indicando que a reação entre sílica e carbono esteve longe de ser completada nessa temperatura. A amostra CAS preparada com q = 10 ºC/min, por outro lado, apresentou extensa formação de SiC, com pouca sílica residual, sendo seu valor de η (48 %) igual ao valor teórico proposto. Capítulo 4: Discussão 65 4.2) Influência dos parâmetros envolvidos nos tratamentos térmicos na formação das fases cristalinas Durante o tratamento térmico dos precursores derivados da casca de arroz (ou mesmo partindo diretamente da casca de arroz natural) em altas temperaturas sob vácuo ou atmosfera de Ar, ocorrem quatro processos simultâneos e competitivos: (i) cristalização de sílica amorfa na fase α-cristobalita; (ii) grafitização (ainda que parcial) da matriz de carbono livre; (iii) formação de partículas de SiC; e (iv) formação de “whiskers” de SiC (Krisnarao et al., 1992, 1996, 1998). Para amostras preparadas sob atmosfera de N2 ocorre ainda a formação das fases também competitivas Si2N2O e Si3N4 (Weimer, 1996; Kumar & Godkhindi, 1996). Nas amostras aqui estudadas esses aspectos podem ser observados nos espectros de DRX dos produtos finais, como mostrado nas Figuras 4.6 a 4.10 do capítulo anterior. A ocorrência de grafitização é pouco importante na faixa de temperaturas envolvidas, como podemos observar em tais espetros de DRX, já que se trata de um material não-grafitizável e as TTTs envolvidas são relativamente baixas. Os processos que ocorrem durante a pirólise e o tratamento térmico podem ser estudados levando-se em consideração os diversos parâmetros experimentais envolvidos nesses tratamentos, podendo tais parâmetros influenciar diretamente na formação dos compostos citados anteriormente. A seguir serão discutidos separadamente os parâmetros envolvidos na formação das fases cristalinas contendo Si e N em sua composição. 4.2.1) Influência da TTT A temperatura final de tratamento é sem dúvida o fator primordial na análise da formação das diferentes fases cristalinas nos produtos finais. Observa-se nas Figuras 3.7 e 3.9 que nas amostras preparadas com TTT’s mais altas (1700 ºC) ocorre apenas a formação de SiC, independente do tipo de atmosfera utilizada nos tratamentos térmicos. Tal fato é coerente com resultados prévios reportados por outros autores (Krishnarao et al., 1991, 1996; Kumar & Godkhindi, 1996), onde se discute a formação de “whiskers” de SiC por pirólise direta da casca de arroz e a formação de SiC sob atmosfera de N2. Capítulo 4: Discussão 66 Para amostras preparadas em TTT’s intermediárias (1450 e 1600 ºC) sob atmosfera de N2, além da formação do SiC e cristalização da sílica, ocorre também a formação de Si3N4 e Si2N2O. Tais compostos nitrogenados não são estáveis para temperaturas mais altas, sendo então termodinamicamente favorável a formação de SiC, qualquer que seja a atmosfera de tratamento (Silva & Figueiredo, 2001, Mucalo et al.,1997). As amostras CAS preparadas sob atmosfera de N2 com q=100 ºC/min em temperaturas intermediárias (1450 e 1600 ºC) apresentam uma estrutura predominantemente amorfa, com algumas fases cristalinas de Si2N2O, SiC e SiO2, bem como carbono na forma de estrutura turbostrática (Figura 3.9a). As amostras JUR preparadas sob as mesmas condições (Figura 3.9b) apresentam também baixa cristalinidade, exceto pela ocorrência de larga cristalização de sílica para TTT = 1450 ºC. 4.2.2) Influência da taxa de aquecimento Como exposto na Figura 3.8 e discutido anteriormente, a cristalização do SiO2 na fase α-cristobalita e a formação de SiC são largamente influenciadas pela taxa de aquecimento empregada nos tratamentos realizados com TTT=1450 ºC sob atmosfera de Ar. Observa-se particularmente que as amostras cujos espectros de DRX mostram predominância da fase α-cristobalita apresentam baixo teor de carbono livre, como verificado através de ATG (Tabelas 3.6 a 3.9), o que indica ter ocorrido uma extensa oxidação do material durante o tratamento térmico para preparação dos produtos finais. Assim, a presença indesejada de oxigênio na atmosfera de tratamento de algumas dessas amostras levou ao consumo de carbono e à farta cristalização da sílica, impedindo desse modo a formação plena de SiC a partir da reação entre aquelas duas espécies. Quanto às amostras preparadas a 1450 ºC sob atmosfera de N2 (Figura 3.10), observa-se que a formação de Si3N4 é especialmente sensível às condições empregadas nos tratamentos térmicos, sendo abundante nas amostras obtidas com q=10 ºC/min e naquelas preparadas diretamente a partir da casca de arroz natural. É interessante observar que nenhum catalisador metálico foi empregado nesses tratamentos, o que contradiz de certa forma algumas afirmações publicadas na literatura dando conta da Capítulo 4: Discussão 67 dificuldade de obtenção de Si3N4 a partir da casca de arroz em temperaturas abaixo de 1550 ºC sem adição de catalisadores (Krishnarao et al., 1998; Hanna et al., 1985). É claro que não se pode excluir a possível influência de impurezas metálicas presentes nas amostras naturais e que podem ter facilitado a formação de Si3N4, o que constitui certamente um fator que distingue as amostras de diferentes procedências. Um outro aspecto que diferencia as amostras quanto à procedência diz respeito à cristalização de sílica: as amostras JUR em geral tendem a apresentar uma maior concentração de αcristobalita (ver Figura 3.10), embora as amostras finais CAS e JUR tenham sido sempre preparadas juntas no mesmo forno. 4.2.3) Influência da atmosfera Além da óbvia diferenciação entre as amostras preparadas sob atmosferas de Ar e de N2 associada à presença de compostos nitrogenados (Si3N4 e Si2N2O) no segundo caso, há dois outros aspectos interessantes que merecem ser destacados quanto à comparação entre as amostras preparadas sob condições similares nas duas atmosferas. Em primeiro lugar, observa-se uma maior dificuldade na formação de fases bem cristalizadas no caso da atmosfera de N2, resultando na formação de materiais predominantemente amorfos para TTT’s iguais a 1450 e 1600 ºC (exceto nos casos em que houve grande formação de Si3N4 cristalino). O segundo aspecto diz respeito à formação de α-SiC para amostras preparadas sob atmosfera de N2 com TTT’s iguais a 1600 e 1700 ºC (Figura 3.9), diferentemente do encontrado para a atmosfera de Ar. Ainda que com baixa intensidade relativa, a presença dos picos em torno de 33,7 e 38,2º nos espectros de DRX das amostras correspondentes às duas diferentes procedências (CAS e JUR) revela indubitavelmente a presença de SiC numa forma não-cúbica, que pode ser hexagonal ou romboédrica, misturada à fase predominante β-SiC. Esse ponto parece relevante por mostrar um papel aparentemente catalisador desempenhado pelo gás N2. Resultados similares já foram reportados por outros autores (Rambo et al., 1999; Krishnarao et al., 1998). Como a produção de α-SiC pelo método de Acheson usualmente requer temperaturas bem acima Capítulo 4: Discussão 68 das aqui empregadas (acima de 2000 ºC) (Ault & Crowe, 1989), o efeito do N2 na estabilização da fase α merece ser investigado com mais detalhe em um futuro trabalho. 4.3) Influência dos compostos de silício na resistência à oxidação Tanto as amostras CAS como as amostras JUR apresentaram um crescente aumento na temperatura inicial de oxidação quando é aumentada a TTT. Os valores de TiOX em função da TTT são mostrados na Figura 4.1a para o conjunto de amostras CAS e JUR preparadas sob atmosferas de Ar e N2 com q=100 ºC/min. Paralelamente, a reação de oxidação tende a se processar de forma mais lenta com o aumento da TTT. A evolução do intervalo de temperatura de oxidação (δTOX) em função da TTT é mostrada na Figura 4.1b. Essa melhora na resistência à oxidação com o aumento na TTT está associada a três fatores que se processam simultaneamente: Em primeiro lugar, o aumento na TTT implica em numa progressiva reorganização dos planos basais de átomos de carbono, havendo crescimento dos planos, eliminação progressiva de defeitos e aumento no número de planos por microcristalite (Freitas, 2000). Essa melhora na organização estrutural leva a um aumento na resistência à oxidação para as amostras carbonizadas, uma vez que a atuação dos agentes oxidantes normalmente se processa ou nas fronteiras dos planos basais ou nos defeitos internos a esses planos (McKee, 1991; Jiang et al., 2000). Além disso, o comportamento geral da área superficial específica de materiais carbonosos tratados termicamente indica uma tendência a decréscimo com o aumento na TTT para altas temperaturas (tipicamente acima de 1000 ºC), fato que está diretamente ligado à reorganização estrutural anteriormente mencionada, a qual leva à redução na fração de átomos de carbono nas bordas dos microcristalites tipo grafite, à diminuição na porosidade e conseqüentemente à redução no grau de exposição da matriz carbonosa ao oxigênio (Jiang et al, 2000, Walker Jr., 1991). Esse comportamento pode ser observado na Fig 4.1c para o mesmo conjunto de amostras CAS e JUR preparadas sob atmosferas de Ar e N2 com q=100 ºC/min. Capítulo 4: Discussão 69 540 TiOX(ºC) 510 CAS Ar JUR Ar CAS N2 JUR N2 480 450 1400 1500 1600 1700 TTT (ºC) (a) 300 280 CAS Ar JUR Ar CAS N2 JUR N2 δTOX (ºC) 260 240 220 200 180 160 1400 1500 1600 TTT (ºC) (b) 1700 Capítulo 4: Discussão 70 CAS Ar JUR Ar CAS N2 JUR N2 180 160 120 2 ASE (m /g) 140 100 80 60 40 1400 1500 1600 1700 TTT (ºC) (c) Figura 4.1 Variação com a TTT dos parâmetros (a) temperatura inicial de oxidação (TiOX), (b) intervalo de temperatura de decomposição (δTOX) e (c) área superficial específica (ASE), para amostras CAS e JUR preparadas sob atmosfera de Ar e N2 com q=100ºC/min. Enquanto esses dois primeiros aspectos são gerais para todos os tipos de materiais carbonosos tratados termicamente, o terceiro aspecto que explica a melhora na resistência à oxidação com o aumento na TTT para os produtos finais derivados da casca de arroz reside na presença de compostos de silício parcial ou totalmente cristalizados em sua estrutura, o que representa uma característica específica dos materiais derivados de precursores que contêm silício ou aos quais são adicionados artificialmente com postos que contêm silício. Diversos trabalhos têm mostrado que a presença de SiC (Shimoo et al., 1995), MoSi2 (Park & Seo, 2001) ou mesmo de Si formando uma liga com a matriz carbonosa (Lu et al., 1997) contribuem de maneira significativa para uma melhora na resistência à oxidação dos materiais carbonos. É interessante observar que as amostras que mostram os mais baixos graus de cristalinidade nos espectros de DRX são também aquelas que apresentam Capítulo 4: Discussão 71 comportamento discrepante em relação à tendência geral de aumento em TiOX e δTOX e diminuição nos valores de ASE em função do aumento da TTT. Assim, a amostra JUR preparada sob atmosfera de N2 a 1600 ºC, por exemplo, apresenta o menor valor de δTOX (173 ºC) dentre a série de amostras apresentadas na Figura 4.1. Já a amostra CAS preparada sob atmosfera de N2 a 1600 ºC apresenta o maior valor de ASE (147 m2/g). dentre as amostras com essa TTT. Entre 1600 e 1700 ºC, por outro lado, todas as amostras apresentaram o mesmo comportamento de melhora na resistência à oxidação, com aumento em TiOX e δTOX e redução na área superficial. Como discutido anteriormente, para TTT = 1700 ºC todas as amostras preparadas mostraram alto grau de formação de SiC cristalino, o que aponta para o importante papel desempenhado por esse composto na melhora na resistência à oxidação dos materiais carbonosos (Mckee, 1997; Shimoo et al., 1995). Os maiores valores de TiOX foram obtidos para as amostras JUR com TTT=1700 ºC: TiOX=532 e 527 ºC para amostras preparadas sob atmosferas de Ar e N2, respectivamente. Já o maior valor de δTOX dentre as amostras da série exibida na Figura 4.1 foi encontrado para a amostra CAS com TTT = 1700 ºC preparada sob atmosfera de Ar (297 ºC). Deve ser ressaltado, entretanto, que essa amostra apresenta uma maior quantidade de sílica residual e um teor de carbono livre (21 %) inferior às amostras JUR com a mesma TTT, as quais apresentam δTOX = 230 e 178 ºC e fração de carbono livre de 43 e 39 % para atmosferas de Ar e N2, respectivamente. Com base no que foi relatado pode-se portanto inferir que, dentre os compostos de silício presentes, o SiC é aquele que desempenha o papel preponderante na resistência à oxidação das amostras analisadas, uma vez que são sempre as amostras com mais alto teor de SiC cristalizado que apresentam melhor resistência à oxidação. Esse fato é evidenciado quando se agregam os resultados de TiOX e δTOX para todas as amostras preparadas sob as mais diversas condições em um só gráfico, utilizando como parâmetro de comparação o teor de SiC cristalino. Esse teor foi obtido a partir das curvas de ATG e dos espectros de DRX exibidos no Capítulo 3, tomando a fração em massa representada pelo resíduo remanescente após a conclusão da reação de oxidação registrada na ATG sob atmosfera de O2 e determinando, a partir dos espectros de DRX, a intensidade relativa dos picos de difração correspondentes ao β-SiC. Capítulo 4: Discussão 72 Tais resultados são exibidos na Figura 4.2. A despeito da grande dispersão dos pontos, natural em vista de estarem envolvidas amostras preparadas sob condições bastante diversas, pode-se perceber com clareza na Figura 4.2a uma correlação entre as variáveis representadas graficamente, com a tendência geral de aumento nos valores de TiOX em função do aumento no teor de SiC. Uma situação parecida pode ser visualizada na Figura 4.2b, embora aqui a tendência de crescimento de δTOX seja menos evidente, indicando a participação de outros fatores na determinação dos valores de tal grandeza. Alguns pontos que fogem bastante à tendência geral podem ser notados em ambos os gráficos da Figura 4.2. Esses pontos correspondem às amostras que possuem teor de carbono livre muito baixo (4,5 % para a amostra CAS preparada diretamente a partir da casca de arroz natural a 1450 ºC sob atmosfera de Ar e 12 % para a amostra JUR preparada sob as mesmas condições, só que sob N2). Não é portanto surpreendente que essas amostras apresentem comportamento discrepante em relação às demais, por possuírem uma constituição bastante diferenciada, onde o material carbonoso representa uma pequena parte dentro da matriz formada por SiO2 e/ou Si3N4. Capítulo 4: Discussão 73 550 500 TiOX(ºC) 450 400 350 300 0 10 20 30 40 50 60 70 80 50 60 70 80 %SiC (a) 450 400 δTOX (ºC) 350 300 250 200 150 0 10 20 30 40 %SiC (b) Figura 4.2: Evolução de (a) TiOX e (b) δTOX em função do teor porcentual de SiC para todo o conjunto de amostras analisadas. Capítulo 4: Discussão 74 4.4) Análise das amostras tratadas com HF Uma maneira complementar de evidenciar o papel desempenhado pelos compostos de silício (em particular pelo SiC) no comportamento sob condições oxidantes dos materiais carbonosos preparados consiste na análise comparativa das amostras preparadas a partir dos tratamentos térmicos dos precursores tratados com HF. Como descrito no Capítulo 2, esse tratamento remove praticamente toda a sílica presente nos precursores, de modo que os produtos finais derivados dos precursores tratados com HF não possuem compostos de silício em quantidades apreciáveis em sua constituição. A Figura 4.3 mostra comparativamente as curvas de ATG para as amostras preparadas sob as mesmas condições de tratamento térmico, apenas diferindo no material de partida (precursor contendo sílica ou purificado com HF). Como pode ser observado nessa figura, nas amostras cujos precursores foram tratados com HF a oxidação se dá de forma a levar à quase total degradação das amostras, de modo que o teor de resíduo final é baixo (Krishnarao & Godkihindi, 1992; Krishnarao et al., 2001; Sharma et al., 1984). Ainda pode ser observado que em tais amostras a reação de oxidação se inicia geralmente em temperaturas mais baixas e a oxidação se dá de forma rápida. Os valores de TiOX e δTOX para as amostras exibidas na Figura 4.3 foram: 487 e 156 ºC para as amostras CAS; e 504 e 164 ºC para as amostras JUR. Esses valores podem ser comparados com aqueles correspondentes às amostras cujos precursores não foram tratados com HF: 483 e 297 ºC para as amostras CAS; e 532 e 230 ºC para as amostras JUR, respectivamente. Capítulo 4: Discussão 75 110 100 90 80 2 Massa (%) 70 60 1 50 40 30 20 10 1 2 3 CAS 700ºC 5ºC/min 4h (precursor) CAS 1700ºC 100ºC/min 0,5h CAS 1700ºC 100ºC/min 0,5h (HF) 3 0 200 400 600 800 Temperatura (ºC) (a) 110 100 90 80 Massa (%) 70 60 2 50 1 40 30 20 10 1 2 3 JUR 700ºC 5ºC/min 4h (precursor) JUR 1700ºC 100ºC/min 0,5h CAS 1700ºC 100ºC/min 0,5h (HF) 3 0 200 400 600 800 Temperatura (ºC) (b) Figura 4.3: Curvas de ATG comparativas para as amostras (a) CAS e (b) JUR preparadas sob atmosfera de Ar a partir de precursores tratados ou não com HF. Capítulo 4: Discussão 76 Além da redução no conteúdo de matéria inorgânica, o tratamento com HF levou a um aumento na área superficial das amostras preparadas a partir dos precursores submetidos a tal tratamento. Os valores de ASE para essas amostras foram 375 e 399 m2/g para as amostras CAS; e 399 e 298 m2/g para as amostras JUR tratadas sob Ar e N2 respectivamente, os quais são bem maiores do que os valores de ASE obtidos para as amostras preparadas a partir dos precursores contendo sílica (113 e 89 m2/g para as amostras CAS; e 85 e 173 m2/g para as amostras JUR tratadas sob Ar e N2 respectivamente). Esse aspecto indica que a atuação do HF, ao remover a sílica presente na estrutura dos precursores, levou a um aumento na porosidade desse material, a qual não foi inteiramente reduzida mesmo após os tratamentos térmicos em altas TTT’s. Tal fato não é surpreendente, visto que um dos métodos mais utilizados para a preparação de materiais carbonosos ativados consiste na ativação química, onde são empregados tratamentos ácidos (aliados a tratamentos térmicos) para ocasionar um aumento na área superficial dos materiais preparados (Marsh et al., 1997). Pode-se, portanto concluir que a ausência de compostos de silício aliada a uma área superficial mais elevada contribui para a piora na resistência à oxidação apresentada pelas amostras preparadas a partir dos precursores tratados com HF. Essa piora se revela tanto pela redução na temperatura inicial de oxidação quanto pela forma mais abrupta da perda de massa ocasionada pela reação de oxidação nessas amostras. A presença de compostos de silício (principalmente SiC) parece ser assim um fator chave para a determinação da cinética da reação de oxidação dos materiais carbonosos, o que sugere que os materiais derivados da casca de arroz possam ser empregados na elaboração de outros materiais (compósitos, por exemplo) em que a presença de SiC misturado à matriz carbonosa contribua para a melhora na resistência à oxidação. Capítulo 5: Conclusão 77 Capítulo 5 − Conclusão Neste trabalho foram preparadas amostras de materiais carbonosos contendo diversos compostos de silício em sua estrutura (SiC, Si2N2O, Si3N4 e SiO2) a partir de casca de arroz de duas diferentes procedências tratada termicamente sob atmosferas de argônio (Ar) e nitrogênio (N2). Verificou-se que nas amostras preparadas sob atmosfera de Ar ocorreu apenas a formação de SiC e a cristalização de SiO2, com uma certa competitividade na formação desses compostos, sendo privilegiada a formação de β-SiC (cúbico) em temperaturas mais altas (1600 e 1700 ºC) e com taxas de aquecimento de 100ºC/min. Para as amostras preparadas sob atmosfera de N2 observou-se em temperaturas de 1450 e 1600 ºC a formação de Si3N4 e em algumas amostras a formação de Si2N2O, evidenciando que a atmosfera influenciou grandemente na formação dos compostos produzidos. Uma particularidade observada para as amostras preparadas sob atmosfera de N2 foi o menor grau de cristalinidade dos compostos de silício formados, assim como a tendência de formação de pequenas quantidades de α-SiC para amostras tratadas a 1700 ºC. Quanto ao comportamento das amostras preparadas sob condições oxidantes, observou-se que a cinética de reação de oxidação foi grandemente influenciada pelos parâmetros envolvidos nos tratamentos térmicos de preparação dos produtos finais, sendo particularmente importante a presença de SiC cristalino para a obtenção de amostras com boa resistência à oxidação. Além desse parâmetro, a reorganização estrutural sofrida pelos materiais carbonosos em altas temperaturas juntamente com a redução na sua área superficial específica foram outros fatores que se mostraram relevantes para a obtenção de boa resistência à oxidação. Comparando as amostras quanto aos parâmetros envolvidos nos tratamentos térmicos, observou-se que amostras tratadas sob TTT’s mais altas possuem uma considerável TiOX (acima de 500 ºC), bem como para amostras preparadas com TTT=1450 ºC a uma taxa de 10 ºC/min, as quais possuem uma TiOX acima de 400 ºC. As amostras JUR preparadas a 1700 ºC mostraram-se as mais resistentes, com a perda de massa sendo iniciada em torno de 530 ºC e estendendo-se por 230 e 180 ºC para as amostras preparadas sob atmosferas de Ar e N2, respectivamente. Capítulo 5: Conclusão 78 Como perspectivas de trabalhos futuros, pode-se mencionar em primeiro lugar a elaboração de um estudo mais detalhado sobre a influência dos compostos de silício na reação de oxidação dos materiais carbonosos derivados da casca de arroz, com a determinação de parâmetros cinéticos característicos dessa reação e a correlação desses parâmetros com as características estruturais das amostras preparadas. Outro ponto a ser investigado é a preparação de amostras com diferentes teores de SiO2, de modo a ser obtida uma correlação mais clara entre os valores de TiOX e a quantidade de SiC presente nas amostras, permitindo assim a elaboração de um panorama mais detalhado que complemente a análise aqui efetuada. Um terceiro aspecto que merece ser estudado de maneira mais aprofundada é a tendência de formação de α-SiC para amostras tratadas sob atmosfera de N2, uma vez que o papel aparentemente catalisador desempenhado por tal gás pode vir a ser explorado para a preparação e purificação dessa fase. Do ponto de vista de investigações de caráter mais aplicado, os resultados obtidos neste trabalho poderão ter importância para o desenvolvimento de materiais carbonosos compósitos em que os compostos de silício oriundos da casca de arroz possam contribuir para uma melhor resistência à oxidação (e eventualmente uma melhora nas propriedades termomecânicas). Materiais desse tipo têm sido largamente estudados por possuírem um vasto campo de aplicação tecnológica (em particular na indústria aeroespacial), sendo normalmente preparados a partir da pirólise de precursores orgânicos contendo silício em sua estrutura química. O fato de existir uma íntima conexão natural entre os grupos químicos contendo silício e carbono na casca de arroz coloca esse material (abundante e de baixo custo) como potencial fonte de silício para a preparação de produtos como esses que podem vir a ter alto interesse tecnológico. Referências Bibliográficas 79 Referências bibliográficas 1 AMERICAN SOCIETY FOR TESTING MATERIALS Standard definitions of terms relating to coal and coke. In: Book of ASTM standards, Philadelphia pt. 19: 19-23, March, 1969. 2 ANÁLISE IMEDIATA E ELEMENTAR DE CARVÕES E MATERIAIS DE BIOMASSA “(Manual de operações)”. Projeto Carvão. Campinas, 1980. 3 ARAÚJO, M. A. G., Assesor agrônomico, Informativos vegetal silício – Uberaba: Disponível em: <http://www.manah.com.br/main_informativos_vegetal_silicio.asp> Acesso em 4 dez.2002. 4 AULT, N. T.; CROWE, J. T. Am. Ceram. Soc. Bull., 68: 1062, 1989. 5 BOKROS, J. C. WALKER Jr., P. L. (Editor), Chem. Phys. 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