XXX CONFERÊNCIA INTERAMERICANA DE CONTABILIDADE TRABALHO TÉCNICO SOBRE ÁREAS ESPECIAIS II: TEMAS LIVRES DE INTERESSE GERAL TÍTULO: “O embasamento das teorizações de Albino Mathias Steinstrasser para explicar o processo do desenvolvimento histórico da Contabilidade” Autores: Antonio Reske Filho Carlos Antonio De Rocchi PAÍS: Brasil 2 Resumo Este trabalho pretende alcançar dois objetivos: o primeiro é prestar um tributo à memoria do Professor Doutor Albino Mathias Steinstrasser, no ano em que ocorre o centenário de seu nascimento. O professor Steinstrasser foi um dos primeiros docentes a alcançar a Cátedra na então recém-criada Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul [UFRGS], defendendo e vendo aprovada uma Tese de Livre Docência, procedimento normal na época. Os autores analisam as proposições de Albino Mathias Steinstrasser para explicar o desenvolvimento histórico da Contabilidade, e demonstram que suas ideias ainda são totalmente válidas para embasar as novas teorias contábeis que estão sendo propostas. O trabalho também demonstra que a Tese Doutoral de Albino Mathias Steinstrasser, mais tarde transformada em livro, moldou profundamente o pensamento contábil gaúcho, e continua influenciando o ensino, a pesquisa e algumas práticas de Contabilidade Gerencial do estado mais meridional do Brasil. Palavras chaves: Albino Mathias Steinstrasser; Análise das Demonstrações Contábeis; Análise de Balanços; História da Contabilidade; Instituto da Correção Monetária; Reavaliação Monetaria. 3 O EMBASAMENTO DAS TEORIZAÇÕES DE ALBINO MATHIAS STEINSTRASSER PARA EXPLICAR O PROCESSO DO DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO DA CONTABILIDADE Antonio Reske Filho Carlos Antonio De Rocchi 1.– Considerações iniciais A melhor forma de recordar Albino Mathias Steinstrasser [1913-1985], será lembrá-lo como um destacado docente que ocupou e honrou durante muitos anos a cátedra de “Estrutura e Análise de Balanços” na Universidade Federal do Rio Grande do Sul [UFRGS] e na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul [PUCRGS]. Fluente no idioma germânico, foi um importante divulgador dos teóricos alemães da “Betriebswirtschaftslehre” [Economia Aziendal], e esta orientação influenciou e ainda continua influenciando fortemente o ensino, a pesquisa e as atividades profissionais dos contadores no extremo sul do Brasil. Paralelamente às suas atividades docentes, o Professor Steinstrasser exerceu atividades como Auditor Independente e Consultor Empresarial. Existe um forte consenso, entre aqueles que conviveram profissionalmente com ele que, apesar de bem sucedido e altamente conceituado profissionalmente, ele preferiria ser lembrado como pesquisador e docente universitário. Albino Mathias Steinstrasser obteve o diploma de Bacharel em Ciências Contábeis em 31 de dezembro de 1942 no Instituto de Ensino Comercial, que era mantido pelo Sindicato dos Empregados no Comércio de Porto Alegre. Ingressou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul [UFRGS] como professor substituto em 1949, e foi efetivado no corpo docente da UFRGS e do atual Departamento de Ciências Contábeis e Atuariais [DCCA] no dia 13 de maio de 1961, quando defendeu sua Tese de Livre Docência (STEINSTRASSER, 1960), recebendo o título de Doutor e Professor Catedrático das disciplinas de Estrutura e Análise de Balanços e de Revisão de Perícias Contábeis, atividade que exerceu até 22 de março de 1983, quando foi aposentado compulsoriamente, por ter alcançado a idade de setenta anos. Até onde pudemos pesquisar, sua primeira publicação foi um artigo sobre estruturação do balanço geral e da demonstração de resultados do exercício, publicado em uma revista de orientação fiscal (STEINSTRASSER, 1955). Na Pontifícia Universidade Católica de Rio Grande do Sul [PUCRGS], a vida acadêmica do professor Steinstrasser desenvolveu-se paralelamente com a da UFRGS. E, fato curioso, seus principais colaboradores são oriundos de lá. Adherbal Bastos da Silva, Donaldo Becker, Olívio Koliver, Renato Becker e Renato Omar Regus, que se graduaram na PUCRGS, foram mais tarde seus assistentes na UFRGS. Antes de serem admitidos no corpo docente da UFRGS, Olívio Koliver e Renato Becker realizaram estudos pós-graduados na Alemanha, por sugestão e apoio do Professor Steinstrasser. Em entrevista concedida aos autores, Donaldo Becker confidenciou que a docência apareceu em seu caminho de forma inesperada. Atendendo solicitação professor Steinstrasser, passou a colaborar com seu irmão Renato Becker na PUCRGS, substituindo-o sempre que viagens ou outros compromissos o impedissem de comparecer e ministrar aulas. Em pouco tempo, Donaldo Becker foi contratado como professor assistente efetivo na instituição. Ainda com respeito ao professor Donaldo Becker; alguns anos depois, os gestores de uma empresa sediada na cidade de Santa Maria, localizado na zona central do estado do Rio Grande do Sul, constatou a necessidade de proceder a uma grande auditoria. Como se tratava de um serviço que necessitava grande responsabilidade profissional, Donaldo Becker foi convidado a realiza-la e aceitou o encargo, mantendo seu vínculo na PUCRGS. Saiu-se galhardamente do encargo, e José Ritzel, Diretor do Curso de Ciências Contábeis da Universidade Federal de Santa 4 Maria [UFSM], o procurou e contou da carência de professores na área da contabilidade comercial, convidando-o a ingressar no Corpo Docente da Faculdade de Ciências Econômicas da UFSM. Donald Becker transferiu-se para o centro do Estado do Rio Grande do Sul em setembro de 1966, para assumir interinamente as Cátedras “Estrutura e Análise de Balanços e “Contabilidade de Custos” na UFSM, seguindo a mesma linha adotada pelo professor Albino Mathias Steinstrasser nas Universidades da capital do estado. Exerceu vários cargos na UFSM, assumindo diversas vezes a chefia do Departamento de Ciências Contábeis. Da mesma forma que ocorrera com seu antigo professor titular, Donaldo Becker somente parou de ministrar aulas na UFSM quando atingiu a idade de 70 anos, e foi obrigado a aceitar uma aposentadoria compulsória, prevista na legislação brasileira. Embora oficialmente afastado da Universidade, Donaldo Becker continuou mantendo contato com seus antigos colegas e a pesquisar, embora não tenha chegado a publicar tais trabalhos, pois veio a falecer em agosto de 2011. A longa citação a Donaldo Becker, feita acima, se justifica pelo fato dele ter sido um grande divulgador das obras do professor Albino Mathias Steinstrasser, e se explica pelo fato dele ter proposto aos autores um recurso de pesquisa que não foi ainda empregado por outros pesquisadores; a correspondência que Albino Mathias Steinstrasser manteve com outros pesquisadores da contabilidade, acrescidas das citações e informações feitas por tais pesquisadores, na correspondência que mantiveram posteriormente com antigos assistentes e funcionários do Professor Albino Mathias Steinstrasser. 2.– A produção intelectual O Professor Albino Mathias Steinstrasser é autor de três livros, dois dos quais são obras seminais; sua tese doutoral, intitulada “A Perda de Substancia das Imobilizações Técnicas em Períodos Inflacionários” (STEINSTRASSER, 1960) e “Análise e Interpretação de Balanços” (STEINSTRASSER, 1971), um compêndio sobre a estruturação e análise das demonstrações contábeis. Estes dois livros foram editados pela Editora Sulina S/A, de Porto Alegre, e tiveram distribuição nacional. Entre estas duas publicações, o professor Albino Mathias Steinstrasser publicou “Analise Empresarial” (STEINSTRASSER, 1963), que teve circulação restrita ao estado do Rio Grande do Sul. A citação à Editora Sulina S/A se justifica pelo fato que, entre 1950 e 1963, período áureo da pesquisa na Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS, ela dispor de uma ampla rede de distribuição que se estendia por todo o território nacional; todos os docentes e pesquisadores da Faculdade de Ciências Econômicas ofereciam primeiramente seus trabalhos para publicação por ela. A tese doutoral de Albino Mathias Steinstrasser trata da problemática da manutenção da substância patrimonial, de modo particular em períodos de inflação elevada. Em tal situação estrutural da Economia a Contabilidade operacionalizada em formato tradicional perde valor informativo e, consequentemente, os contadores devem procurar novos instrumentos e formas de relevação, que devolvam às Demonstrações Contábeis condições de oferecer mensagens claras e verdadeiras. Desde o ponto de vista dos contadores, a solução é clara; a reavaliação financeira das informações contidas nos relatórios e demonstrações, com o emprego de alguma técnica de reavaliação. Sobre este aspecto, a bibliografia citada na tese doutoral de Steinstrasser demonstra que ele analisou diversas propostas, tanto submetidas às Conferencias Interamericanas de Contabilidade (CARDENAS, 1950; BARROSO, 1951; AREVALO, 1953; BARAIBER & al., 198; BERTORA, 1958; LECUEDER, 1958; LOPES, 1958), como as desenvolvidas por estudiosos alemães que buscavam solução econômica e contábil aos problemas surgidos com a superinflação que ocorreu durante a República de Weimar (RIEGER, 1918; SCHMIDT, 1922; SOMMERFELD, 1922; SCHMALEMBACH, 1925: SCHNEIDER, 1941), antes de fazer sua escolha e filiar-se ao segundo grupo. O grupo latino-americano, majoritário nas Conferencias Interamericanas de Contabilidade, propunha solucionar todos os problemas contábeis trazidos pela instabilidade do poder aquisitivo da moeda, através da aplicação de técnicas de reavaliação monetária. Entretanto, da mesma forma que os teóricos germânicos anteriormente citados, o Professor Steinstrasser entendia que o instituto da correção monetária – designação adotada no Brasil quando a reexpressão dos valores 5 financeiros apresentados nos Balanços e Demonstrações Contábeis tornou-se obrigatória – era um simples paliativo, e que outras medidas gerenciais deveriam ser tomadas para garantir a preservação da substância patrimonial. Para explicar o fenômeno da preservação da substância patrimonial, o professor Albino Mathias Steinstrasser utilizou a proposição de Wilhelm Rieger (1928), segundo a qual uma empresa é uma unidade indivisível no tempo, e assim só pode haver um único resultado econômico em cada unidade empresarial; o lucro total. E relacionou essa proposição com conceitos da Teoria Meno-Tulo (Teoria Contábil de Gastos-Rendimentos) desenvolvida pelo professor Martti Saario (1945), que considera a determinação do resultado como o objetivo fundamental da contabilidade. Quando estes dois posicionamentos são aplicados simultaneamente, pode-se criar uma situação hipotética, onde o tempo de existência de uma empresa pode ser perfeitamente calculado; se, ao final da vida econômica do empreendimento, a alienação e/ou revenda de todos os bens que constituem seu patrimônio, garantir aos sócios e proprietários um retorno que, em valores deflacionados, iguale ou supere o somatório dos investimentos iniciais e os resultados que eram esperados, a substância patrimonial terá sido mantida. Obviamente, tal avaliação exigirá a comparação entre um balanço de abertura e um balanço de encerramento, ambas as peças elaboradas em uma moeda-tipo imune a qualquer efeito inflacionário, como, por exemplo, o “Goldmark” proposto por Sommerfeld (1924). 3.– Os posicionamentos teóricos A produção científica do professor Albino Mathias Steinstrasser pode ser encontrada em quatro segmentos; livros publicados, teses e comunicações apresentadas em congressos, e artigos publicados em revistas, e correspondência epistolar com outros docentes, tanto brasileiros como de outros países. Embora somente uma pequena parte dessa correspondência tenha sido preservada, ela ajuda a entender os posicionamentos acadêmicos que ele adotou e seguiu. Em todas as áreas acadêmicas em que atuou, Albino Mathias Steinstrasser marcou sua presença com trabalhos bem estruturados, ideias próprias e firmeza de posições. Embora tenha mantido correspondência por longo tempo com os principais pesquisadores e estudiosos da Contabilidade sediados no centro e no sudeste brasileiro, não se filiou a nenhuma das correntes doutrinárias então existentes. Recorde-se a esse respeito, que alguns docentes universitários de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, já apresentavam suas propostas como corrente dominante na contabilidade brasileira, cenário que ainda permanece, embora com outros autores. Entre 1953 e 1964 a Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS foi dirigida pelo Professor Pery Pinto Diniz da Silva, cuja gestão costuma ser definida como um divisor de águas (CORAZZA, 2009). Entre suas iniciativas, contam-se a criação de um Centro de Estudos e Pesquisas Econômicas, e o estabelecimento de convênios de cooperação com fundações e universidades estrangeiras. Tais iniciativas favoreceram ao Professor Albino Mathias Steinstrasser conviver por um curto espaço de tempo com dois pesquisadores que ele cita na bibliografia pesquisada para elaboração de sua Tese de Livre Docência; Emmerico Paternost e Fernando Vieira Gonçalves da Silva. Emmerico Paternost nasceu e foi educado na Itália. Quando visitou Porto Alegre em 1959, a convite do Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS para ministrar uma série de palestras, era Professor Catedrático da Universidad de Chile, e fora um dos criadores do INSORA [Instituto de Organización de Empresas]. Publicou em 1953 um livro intitulado “Rehabilitación Económico-Matemática de la Contabilidad” (Inflación y Deflación), onde examina os problemas que a inflação traz para a contabilidade, e propõe superá-los com a utilização de contas complementares (PATERNOST, 1953). No Chile, Emmerico Paternost é lembrado principalmente por seu trabalho para criação do INSORA e a influencia que exerceu na formação de muitos Engenheiros Comerciais, um grau acadêmico equivalente ao Contador Gerencial. Ele foi um pioneiro na aplicação das técnicas de correção monetária [re-expressão dos valores monetários] em países latino americanos, e seu livro é consulta obrigatória para quem deseje entender as origens e funcionamento do instituto da correção monetária, embora ele tenha preferido ignorar tudo que tinha sido pesquisado sobre o assunto pelos teóricos alemães durante a República de Weimar. O livro não teve a divulgação que merecia, mas o sistema proposto por Emmerico Paternost pode ser estudado na Biblioteca 6 Central da Universidade do Chile, no único exemplar que se comprovou ainda existir no país andino. Não foram documentados os pontos de convergência e de divergência entre as posições de Emmerico Paternost e Albino Mathias Steinstrasser em sua estadia na FCE da UFRGS. Mas está comprovado que mais tarde ambos iriam discordar profundamente do modelo brasileiro para o instituto da correção monetária, gestado sobretudo por técnicos colocados no Sudeste e Centro do Brasil. Os motivos das divergências do Professor Albino Mathias Steinstrasser sobre o modelo brasileiro de correção monetária e sua posterior transformação em Princípio Fundamental de Contabilidade foram expostos em diversos trabalhos submetidos aos Congressos Brasileiros de Contabilidade (STEINSTRASSER, 1976) e em artigos publicados em revistas técnicas (STEINSTRASSER, 1975); constam de sua biografia muitos outros trabalhos sobre o tema. Depois de retornar para a Itália no final da década de 1970, Emmerico Paternost tentou reatar seus contatos com a FCE da UFRGS e com a equipe do Professor Steinstrasser; desejava, de modo especial, informações para completar um novo livro que estava escrevendo, “Spacial Age, Medieval Accounting”. Mas, diferentemente daquilo que ocorrera na gestão do Professor Pery Pinto Diniz da Silva, a nova direção da FCE e a chefia do DCCA não mostraram nenhum interesse em convidá-lo para uma segunda visita ao Brasil, e nem tampouco acolheram sua solicitação para que recebessem o Professor William Threipland Baxter [1907-2006] da London School of Economics. William Threipland Baxter foi o primeiro Professor Catedrático de Contabilidade da London School of Economics. Depois de aposentar-se em 1973, permaneceu na instituição como Professor Emérito, e sua viagem à América do Sul era parcialmente financiada pelo British Council. Sua intenção era ficar por um mês na América do Sul; permaneceu por somente dois dias em São Paulo, deslocou-se para Buenos Aires e de lá para Santiago do Chile e Lima. Recorde-se que na época da viagem de Baxter, Argentina, Brasil, Chile, Peru e Uruguai apresentavam altíssimas taxas de inflação. Em seu regresso à Europa, ele publicou um estudo sobre os procedimentos de correção monetária das Demonstrações Contábeis nos três primeiros países listados (BAXTER, 1976). Quase concomitantemente com a visita de Emmerico Paternost, a direção da FCE da UFRGS também trouxe ao Brasil o Professor Fernando Vieira Gonçalves da Silva [1904-1990]. Esse docente da Universidade de Lisboa é considerado o mais importante teórico português, e sua visão sobre o ensino, a prática e os fundamentos teóricos da Contabilidade eram muito semelhantes aos de Albino Mathias Steinstrasser. Assim, ambos eram seguidores da doutrina dualista de Erich Schneider, segundo a qual a partida dobrada é o instrumento ideal para a relevação dos fenômenos decorrentes das relações da célula econômica com elementos do mundo exterior (fornecedores, clientes, bancos, governo), mas para o registro, tabulação, análise e interpretação dos fenômenos relacionados com a gestão interna (produção), a Contabilidade deverá se valer de outros instrumentos e técnicas (SCHNEIDER, 1941; 1947). Para o Professor Steinstrasser, a contabilidade conduzida totalmente por partidas equivale ao que anteriormente se denominava escrituração mercantil, ou seja; a técnica de relevar as transformações porque passa o património de um organismo económico. É um dos instrumentos de relevação utilizados pelo todo maior, a Contabilidade “in stricto sensu”, para utilizar-se a proposição de Fernando Vieira Gonçalves da Silva (1959). Assim, argumentam os citados pesquisadores, a Contabilidade, em sentido literal, é um sistema amplo que utiliza técnicas de inventariação, escrituração, instrumentos estatísticos e matemáticos, para proceder a evidenciação dos fenômenos ocorridos em consequência dos processos de produção, comercialização e administração das entidades econômicas. A contabilidade aplicada tem como objetivo realizar e evidenciar todos os cálculos e notações efetuados num organismo económico com o objetivo de se conseguir uma imagem numérica do que nele ocorre e uma base em valores monetários para efetuar o controle interno e orientar as decisões gerenciais. Outro ponto em que as opiniões de Steinstrasser, Baxter, Gonçalves da Silva e Paternost coincidiam plenamente, diz respeito ao cálculo e evidenciação das depreciações. Para os teóricos alemães da “Betriebswirtschaftslehre” [Economia Aziendal] ao qual Steinstrasser se filiava, 7 independentemente dos objetivos pretendidos para a informação contábil, em condições teóricas ideais se deveriam registrar e considerar, em todos os relatórios e demonstrativos contábeis a depreciação real, que é definida como a efetiva perda de valor que um bem durável sofre, como consequência do uso, posse, obsolescência, e também por acidentes e/ou outros fenômenos. É fácil perceber que este parâmetro se revela impossível de mensuração prática. A este respeito, o Professor Steinstrasser alertava seus alunos que, embora a legislação tributária reconheça a existência do fenômeno da depreciação, e permite que as empresas e instituições incluam em suas Demonstrações Contábeis valores fixados por normas legais determinados parcelas de custos a título de depreciação em seus custos operacionais, desde que em valores condizentes, o que se denomina por depreciação fiscal, e este é o valor que se deve empregar quando se trabalha com a escrituração contábil formal. Entretanto, os valores permitidos pelas autoridades tributárias nem sempre se revela plenamente satisfatória para evidenciar a real perda de valor sofrida pelos bens depreciáveis e, portanto, quando as Demonstrações Contábeis se destinarem a apoiar os controles internos ou orientar decisões gerenciais, se deverá recorrer à Depreciação técnica (ou calculatória), que é uma tentativa de expressar a real perda de valor do bem, considerando-se as condições operativas, previsões sobre obsolescência, riscos de acidentes e danos, etc.. Para Steinstrasser (1971) quando corretamente calculada, a depreciação técnica corresponde a uma aproximação da depreciação real. Este extremo cuidado com o cálculo das depreciações era explicado pelos estudos que Steinstrasser tinha realizado sobre o reerguimento da Alemanha depois da derrota na Segunda Guerra Mundial, em 1945. Um procedimento que colaborou significativamente para o reerguimento das empresas industriais alemãs, no pós-guerra, foi a prática de uma política de distribuição de lucros convenientemente planejada, insistindo que o valor contabilizado como custo com depreciações deveria ser retido para constituir um fundo a ser aplicado na futura reposição dos prédios, veículos, máquinas e equipamentos. Ou, em outras palavras, a utilização dos valores contabilizados como custo das depreciações como uma fonte de autofinanciamento. Em sua Tese de Livre Docência, Steinstrasser (1971) demonstrou que existe ainda outra importante aplicação para as depreciações técnicas, que ainda está muito descuidada pelos Contadores; é a determinação do “Efeito de Dilatação do Capital” [Kapital Erweiterungs Effekt], também conhecido como “efeito Lohmann-Ruchti”, em homenagem aos dois estudiosos germânicos que primeiramente se dedicaram ao estudo do problema (LOHMANN, 1949; RUCHTI, 1953). O “Efeito de Dilatação do Capital” decorre de uma característica da depreciação. Na maior parte dos casos, a depreciação das máquinas e equipamentos produtivos de uma empresa indica apenas a diminuição do valor contábil de tais bens, mas não uma redução de suas capacidades produtivas. E, como por outro lado, os custos com depreciações, diferentemente do que ocorre com outros tipos de gastos, não são desembolsados, eles podem ser utilizados para constituir um fundo, que futuramente deverá ser empregado na aquisição de novos equipamentos, que irão substituir os ativos já depreciados. 4.– Uma obra inacabada: a evolução histórica da Contabilidade A bibliografia produzida pelos três pesquisadores com quem Albino Mathias Steinstrasser e seus colaboradores comprovadamente mantiveram correspondência, e que estão citados no parágrafo anterior, permite pressupor que somente Emmerico Paternost se manteve a margem de pesquisas sobre a História da Contabilidade. Tanto William Threipland Baxter como Fernando Vieira Gonçalves da Silva produziram obras profundas sob o tema (BAXTER, 1945; GONÇALVES DA SILVA, 1959). Para justificar sua análise crítica do que denominou de “Doutrinas Contabilísticas”, Fernando Vieira Gonçalves da Silva observou que se os pesquisadores contábeis dessem mais importância à história da disciplina e às relações da mesma com outras disciplinas afins, os campos de estudo e de aplicação da Contabilidade ficariam mais bem definidas, e as próprias definições de contabilidade ficariam menos desarmônicas do que são atualmente. Sabe-se que uma periodificação temporal é uma característica indissociável dos estudos historiográficos, e desde a publicação de “Storia della Ragioneria”, a quase totalidade dos pesquisadores brasileiros passou a adotar a proposição de Federico Melis (1950), que reconhece quatro grandes fases no desenvolvimento histórico da Contabilidade: 8 1O.– A Época dos Registros: Desde o início da História escrita até 1200 D.C., quando começam a aparecer as primeiras aplicações, com técnicas rudimentares, do Método das Partidas Dobradas; 2O.– A Época das Partidas Dobradas: Iniciada em 1200 d.C. e prolongando-se até 1494 d.C., quando surge a primeira publicação do “Tratactus de Summa de Arithmetica, Geometria, Proportione et Proportionalitate”, de Frá Luca Pacciolo; 3O.– A Época da Estagnação: Compreendida entre 1494 d.C. e o ano de 1850, quando Francesco Villa publicou, em Pávia, seu “Elementi di Amministrazione e Contabilitá”, considerada por referido autor a primeira obra realmente de cunho científico sobre Contabilidade; 4O.– A Época da Contabilidade Contemporânea: Iniciada com a publicação da obra de Francesco Vila, prolongando-se até os dias atuais. Entretanto, para Steinstrasser, se deveria observar que a segmentação proposta por Federigo Melis nunca recebeu grande aceitação fora dos países latinófonos. Na opinião do autor, já apresentada em outro trabalho, uma possível explicação para este posicionamento diferenciado é a exagerada importância que Federico Melis ao livro de Francesco Vila (1850). O livro foi escrito para que seu autor pudesse participar de um concurso sobre contabilidade promovido pelo governo da Áustria, e rendeu a Francesco Villa, além do premio, a conquista de um cargo como professor universitário. Pesquisa bibliográfica realizada recentemente não localizou traduções do livro de Francesco Villa, sequer para o idioma germânico, a língua mater dos soberanos austríacos, então detentores do poder na Lombardia, região do norte da Itália onde se situa a cidade de Pávia (De ROCCHI & De ROCCHI, 2012). Entretanto, deve ser reconhecido que “Elementi di Amministrazione e Contabilitá” (VILLA, 1850) inovou em vários aspectos o conhecimento e as técnicas contábeis então existentes e, para muitos estudiosos, lançou as bases da Teoria Patrimonialista, que seria posteriormente desenvolvida por Vicenzo Masi (1927). Mas alguns estudiosos, como é o caso de Albino Mathias Steinstrasser (1960) preferem ver na obra sugestão para o desenvolvimento de uma Teoria da Informação Contábil. A predominancia da segmentação histórica proposta por Federico Melis nos países iberoamericanos se deve, em grande parte, ao ambiente excessivamente cientificista que envolve as pesquisas contabilísticas naqueles países. Para muitos pesquisadores, a grande aceitação que as teorias de Jean Dumarchey e de Vicenzo Mais obtiveram no Brasil e em Portugal se devem a sua característica de atribuir à Contabilidade o status de ciência. Este clima cientificista propiciou que a Teoria Patrimonialista de Vicenzo Masi (1927) encontrasse no Brasil e em Portugal aceitação bem maior que na Itália, país onde fora criada. E, naturalmente, reconhecer uma Teoria da Informação Contábil, que na ótica dos Patrimonialistas reduziria a ciência contábil a simples técnica informativa, se afigurava inaceitável. Os manuscritos originais da obra do Professor Albino Mathias Steinstrasser sobre a Evolução Histórica da Contabilidade demonstram que ele pretendia seguir, em linhas gerais, a divisão sugerida por Kenneth Samuel Most (1977), segundo a qual existiu, historicamente, três enfoques básicos para o desenvolvimento de uma Teoria da Contabilidade: 1º.– Inicialmente, o enfoque foi centrado na própria conta, e foram feitas tentativas de elaborar regras para a operação das contas. Isto conduziu às teorias personalistas, nas quais as contas demonstravam as qualidades da pessoa ou entidade que recebia, dava ou transferia um valor; 2º.– Os teoristas reconheceram que uma conta não pode ser confundida com uma pessoa ou entidade, e esta constatação dirigiu a atenção dos estudiosos para as transações e eventos registrados e/ou a registrar, que é a razão para a existência das contas e o principal objetivo dos registros contábeis. Isto conduziu a tentativas para formular regras e projetar padrões que assegurassem que as razões e objetivos das contas fossem evidenciados e informados como fatos econômicos. Tornou-se então evidente que, se as contas registrassem valores 9 diferentes daqueles que fossem representativos das transações e eventos registrados, o conceito de valor seria subjetivo; 3º.– Em um terceiro estágio, a atenção dos pesquisadores contábeis passou a centrar-se no usuário das informações contábeis, e a pesquisa da contabilidade contemporânea é fortemente influenciada por questionamentos tais como: é útil? para quem? é usado? O trabalho sobre o desenvolvimento histórico das práticas e teorias explicativas da Contabilidade, que deveria ser o quarto livro publicado pelo Professor Albino Mathias Steinstrasser, não chegou a ser concluído e, consequentemente, não foi publicado. Entretanto, o autor divulgou entre seus colegas de docência um quadro síntese de suas proposições, sobre o qual seria estruturado texto final, e que posteriormente foi divulgado por um de seus alunos (De ROCCHI, 1986), e que está reproduzido na ilustração 1. Embora em alguns pontos muito próxima da proposta de Kenneth Samuel Most, a idéia de Albino Mathias Steinstrasser é original. Ele concluiu que a evolução histórica da Contabilidade pode ser sintetizada em um processo contínuo e permanente de transição, dentro do qual a importância do conteúdo vem sendo paulatinamente substituída pela utilidade da informação. Ou dito de outra forma, os modelos adotados para estruturar a informação contábil vem se modificando, no sentido de torna-la cada vez mais ampla, inteligível, multidisciplinar, multidimensional e prospectiva. Aceita tal premissa, e colocando o desenvolvimento histórico da Contabilidade sob uma estrutura conceitual baseada na Teoria da Informação Contábil, a proposta original de Albino Mathias Steinstrasser para explicar o desenvolvimento histórico da Contabilidade deve ser apresentada e complementada na seguinte forma: 1O.– A Época da Inventariação [com anterioridade a 1494 DC]: Desde os albores da civilização até o surgimento dos primeiros tratados sobre o método das partidas dobradas, cuja grande divulgação ocorrerá a partir de 1494, com a publicação do livro de Luca Paciolo; 2O.– A Época da Escrituração Digráfica [1494-1925]: A partir da publicação da obra de Paciolo, a escrituração por partidas dobradas se torna um método praticamente universal. A distinção entre escrituração e contabilidade somente começa a se tornar clara a partir de 1920: 3O.– A Época da Evidenciação Plena [a partir de 1925]: O advento dos ordenadores eletrônicos favorece um grande desenvolvimento na eletrônica aplicada [rádio e televisão, telecomunicações]. No campo da contabilidade, a computação eletrônica permite decodificar, processar, classificar, armazenar e evidenciar um grande número de dados e reprocessa-los, adequando-os aos interesses e necessidades de diferentes usuários. Os motivos que levaram o Professor Steinstrasser a sugerir tal forma de temporização para explicar o desenvolvimento histórico da Contabilidade e as técnicas e modelos de comunicação observadas em cada uma delas serão comentadas a seguir. O próprio Professor Steinstrasser considerava as datas fixadas para o início e o final dessas fases do desenvolvimento histórico da Contabilidade como simples aproximações, e que somente foram fixadas para facilidade de estudo e exposição, pois alguns eventos históricos registrados em um período poderiam ser classificados na fase anterior ou posterior. Para apresentar um exemplo; em um de seus rascunhos, o final da Era da Inventariação e o consequente surgimento da Era da Escrituração Digráfica foram datados em 1202, quando apareceu o “Liber Abaci” de Leonardo Fibonaci, o Pisano. A Época da Contabilidade Inventarial foi a de mais longa duração, e se caracterizou por procedimentos de relevação determinísticos, que se destinavam apenas a prestação de contas ao soberano, senhores feudais e coletadores de impostos, sem nenhuma preocupação com os aspectos sociais envolvidos. 10 Era do Empirismo Predomínio das Teorias das Contas 1494 – 1925 Predomínio das Teorias de Balanços A partir de 1925 Com anterioridade à divulgação do Método das Partidas Dobradas, iniciado em 1200, a Contabilidade, em todas as culturas que alcançaram um estágio pósfeudal, limitou-se à inventariação dos bens e ao registro de operações mercantis. A obra de Luca Paciolo sugere uma pré-teoria rudimentar baseado no valor e significado das contas [Contismo]. Em 1850, Francesco Vila lança a Escola Lombarda. A Escola Personalista de Giuseppe Cerboni alcança seu auge, em 1876. Em 1880, Fabio Besta lança o NeoContismo. Em 1914 Jean Dumarchey lança a Teoria Positiva da Contabilidade. Em 1922, graças aos estudos de Gino Zappa, o Neo Contismo evolui para o Controlismo. Em 1935, Vincenzo Mais define a Contabilidade como “ciência do patrimônio” e lança o Patrimonialismo. Desenvolve-se a diferenciação entre Escrituração e Contabilidade. Eugen Schmalembach desenvolve a Teoria do Balanço Dinâmico, em 1920, OUTRAS TEORIAS DE BALANÇO: - Orgânico [Schmidt] - Financeiro [Walb] - Pagatório [Kosiol] - Eudinâmico [Sommerfeld] - Nominal [Rieger] - Comunal [Nicklisch] - Funcional [Thöms] -Total [Le Coutre] - Rentabilidade [Lehmann] - Demonstração do Futuro [Kafer] - Prognósticos [Engels] - Movimentos Livres [Moxter] - Objetivos Vários [Heinen] - Orientado para o futuro [Munstermann] - De Capitais [Seicht] - Polar [Feuerbaum] - Relativista [Monteiro] - Social [Bauer] - Objetivo [Cassandro] Era da Inventariação Era da Escrituração Digráfica Era da Evidenciação Plena Anterior a 1494 DC Algumas tentativas de relevar, paralelamente ao econômico, alguns aspectos A Contabilidade releva apenas os aspectos econômicos. As sociais. Algumas Demonstrações Contábeis são de natureza totalmente Demonstrações Contábeis histórica e determinística apresentam forma prospectiva, mas sempre sob forma determinística. Ilustração 1 – As fases do desenvolvimento histórico da Contabilidade, segundo Steinstrasser Fonte: elaborada pelos autores Para o Professor Steinstrasser, o ingresso na Era da Escrituração foi consequência das grandes mudanças sociais ocorridas nos últimos anos do século XV; reforma protestante, invenção da prensa, as grandes navegações, descoberta da América, surgimento das grandes companhias. A influência deste conjunto de mudanças sociais sobre a Contabilidade está bem demonstrada em “Grundlagen dynamische Bilanzlehre” (SCHMALEMBACH, 1925), quando o 11 autor lembra que, nas viagens para exploração das colônias africanas, americanas e asiáticas, os financiadores criava uma conta onde se registravam todos os gastos feitos, e dos quais o comandante da frota deveria prestar contas em seu retorno, ressarcindo os financiadores. Vale dizer, o foco deixava de ser o patrimônio, passava a ser o resultado obtido com seu emprego em um empreendimento econômico. A escrituração pelo Método das Partidas Dobradas permitia agora evidenciar o equilíbrio dinâmico entre as origens e aplicações dos recursos econômicos. Quando observada como técnica de comunicação, tanto a contabilidade inventarial praticada com anterioridade à 1494, como a Predomínio das Teorias das Contas com data da publicação da obra de Luca Bartolomei Pacioli, apresenta estrutura similar ao modelo de comunicação desenvolvido pelo filósofo grego Aristóteles, três séculos antes do nascimento de Cristo, e que inclui três elementos no processo; o orador, o assunto, e a pessoa para a qual se dirige a mensagem. Transpondo estes elementos para o campo da contabilidade, o orador é o Contador, o assunto do discurso é o levantamento inventarial ou escritural, e o destinatário da mensagem é o proprietário ou gestor dos bens arrolados e avaliados monetariamente. No entender do Professor Steinstrasser, a Contabilidade da Época da Evidenciação Plena deve ser definida como o processo de identificação, mensuração e comunicação de informações ambientais, econômicas e sociais, necessárias para que os destinatários e usuários possam avaliar as opções e alternativas existentes, e tomar decisões racionais. A partir do ingresso na Época da Evidenciação Plena, a informação contábil deve ser estudada sob a ótica da Teoria das Comunicações Interligadas, baseada no modelo de comunicação desenvolvido pelos sociólogos John W. Riley e Matilda White Riley. O modelo Riley & Riley demonstra que as mensagens contábeis são enviadas pelos grupos primários, incluídos em uma macro estrutura social, e que são dirigidas para participantes de outros grupos primários, que tanto podem estar inseridos na mesma macro estrutura social, como pertencer a uma outra. Conclui-se que o enfoque de Albino Mathias Steinstrasser, da mesma forma que a proposição de Kenneth Samuel Most (1977), remete a uma Teoria da Informação Contábil. A pesquisa de Albino Mathias Steinstrasser sobre a evolução histórica da Contabilidade equivale a propor o deslocamento dos estudos teóricos, que no Brasil ainda estão preponderantemente atrelados a teorias patrimonialistas, para teorias baseadas na informação contábil. Os continuadores das pesquisas de Albino Mathias Steinstrasser perceberam um problema semântico no quadro síntese por ele desenvolvido (REGUS & De ROCCHI, 1993). A expressão “Teorias de Balanços”, utilizada para denominar a terceira e ultima fase abrangida pelo estudo, deveria ser revista, pois a aceitação do conceito parece estar limitada a alguns países do centro e do norte da Europa. Tal expressão é tradução literal de “Bilanztheorie”, um germanicismo que começou a ser popularizado quando da publicação dos trabalhos de Julius August Fritz Schmidt [1922], Eugen Schmalenbach [1925] e Heinrich Nicklisch [1932], e não encontrou aceitação em outros países; parece já estar em desuso até mesmo na Alemanha. Autores e pesquisadores dos países anglófonos preferem denominar as Teorias de Balanço por Teorias Contábeis. Atualmente, nos países que foram influenciados pela “Betriebswirtschaftslehre”, o conjunto dos enfoques e propostas que os autores acima referidos imprimiram a seus trabalhos é conhecido por “Teorias Clássicas de Balanço” (JABAS, 2004). A periodificação proposta por Albino Mathias Steinstrasser é especialmente útil quando analisada sob a ótica da Teoria da Comunicação. Quando se intenta analisar o desenvolvimento histórico da Contabilidade como forma de prospectar seu desenvolvimento futuro, o modelo ajuda explicar o como e o porquê das transformações, e como se deverá agir para adaptar no futuro imediato as novas exigências que estão surgindo. 5.– Notas finais e conclusão Existe um hiato de onze anos, separando a publicação da Tese de Livre Docência, providenciada logo após a aprovação pela Banca Examinadora, e o surgimento da obra mor de Albino Mathias Steinstrasser, “Análise e Interpretação de Balanços”. Comprovou-se, tanto através da correspondência mantida pelo autor, como por entrevistas informais com antigos colaboradores, que Albino Mathias Steinstrasser começou a trabalhar em seu livro já em 1960, e justificava a demora em concluí-lo e publicá-lo dizendo que o livro deveria apresentar soluções corretamente embasadas para explicar tanto quanto o que estava acontecendo no universo 12 contábil, como também e ainda o que se poderia vir a acontecer nas próximas décadas. Ele pretendia escrever uma obra prima, e com “Análise e Interpretação de Balanços” certamente alcançou tal objetivo; o livro ainda constitui leitura obrigatória em algumas faculdades do sul do Brasil. Seu livro sobre História da Contabilidade certamente iria se constituir em outra obra prima, houvesse Albino Mathias Steinstrasser vivido o suficiente para estrutura-lo como planejara e com os padrões que desejava. Podemos assumir como certo que Brian Underdown e Peter J. Taylor nunca tenham sequer tomado conhecimento da obra de Albino Mathias Steinstrasser. Mas, por uma rara coincidência, esses pesquisadores ingleses deram a público um livro no mesmo ano em que ele faleceu. No referido livro, eles observam que o desenvolvimento de uma Teoria Geral da Contabilidade pode ser definido como um processo permanentemente repetido de acertos e erros, em respostas às mudanças nas estruturas sociais e econômicas. Se Albino Mathias Steinstrasser errou em alguma proposição teórica que formulou, o fato passou despercebido ao autor. Ele sabia que a teoria contábil precisa ser modificada para continuar sendo coerente com a prática, e sempre foi extremamente cauteloso sobre o que e o porquê do escrevia ou ensinava. Referências AREVALO, Alberto – La Contabilidad ante las variaciones en el poder aquisitivo de las monedas. São Paulo, Anais da IIIª Conferencia Interamericana de Contabilidade, 1953. 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Telefone celular: 55 55 91025746 Telefone domiciliar 55 55 3220.9260 E-mails para contatos: [email protected] [email protected] Professor Adjunto com atuação na área de Auditoria, na Universidade Federal de Santa Maria [UFSM], de Santa Maria, RS. [RS], Contador pela Instituição Educacional São Judas Tadeu, de Porto Alegre, RS, 1983. Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina [UFSC], de Florianópolis, SC, 2000. Doutorando, aluno regularmente matriculado no curso mantido pelo Convênio Universidade de São Paulo [USP] & Universidade de Santa Maria [UFSM]. Com vários trabalhados apresentados em Congressos da Associação Brasileira de Custos [ABC], Asociación Uruguaya de Costos [AURCO] e Instituto Argentino de Profesores Universitarios de Costos [IAPUCO]. Com trabalho apresentado na International Applied Business Research Conference, realizada em New Orleans, LO, USA, 14-16 March 2011. Carlos Antonio De Rocchi Residente na rua Barão do Triunfo, 1162, cidade de Santa Maria [CEP 97.015-662], estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Telefone celular: 55 55 9394929 Telefone domiciliar 55 55 3221887 E-mail para contatos: [email protected] [email protected] Professor Catedrático Jubilado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul [UFRGS], de Porto Alegre, RS, onde é o terceiro ocupante da cátedra fundada por Henrique Desjardins. Membro [atualmente afastado] das Academy of Accounting Historians [AAH], da Asociación Uruguaya de Costos [AURCO] e do Instituto Argentino de Profesores Universitarios de Costos IAPUCO]. Técnico em Contabilidade pela Escola Técnica de Comércio Getúlio Vargas [Rio Grande, RS], 1959. Contador pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul [UFRGS], de Porto Alegre, 1972. Mestre em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul [UFRGS], de Porto Alegre, 1976. Doutor em Engenharia pela Universidade Federal de Santa Catarina [UFSC], de Florianópolis, 2007. Com vários trabalhados apresentados em Congressos da Asociación Uruguaya de Costos [AURCO], Instituto Argentino de Profesores Universitarios de Costos [IAPUCO], Clute Institute (Estados Unidos). Trabalhos mais recentes foram apresentados; na 4th Portuguese Conference on Environmental Management and Accounting [CSEAR], realizada em Leiria, 14-15 Outubro de 2010; no VIIIth Internacional Knowledge, Economy & Management Congress, realizado em Istambul, Turquia, 2831 October 2010; na International Applied Business Research Conference, realizada em New Orleans, LO, USA, 14-16 March 2011; VIIIº Congreso Iberoamericano de Contabilidad de Gestión, realizado em Lima, Peru,12 –14 de Julio de 2012; e Ier Congreso Global en Contabilidad y Finanzas – Interges, realizado em Bogotá, Colômbia, 29-31 agosto 2012. 16