A Elaboração do Projeto Político da Escola
tendo como Foco o Futuro do Planeta
Rosita Edler Carvalho*
I. Introdução
Duas importantes ideias estão implícitas no título deste artigo: a elaboração de um projeto político pedagógico (PPP) e o futuro
do planeta. Como temas, poderiam intitular dois textos, tal a importância e a abrangência de ambos. Disponho-me a reuni-los e,
ao analisar aspectos da elaboração do PPP, enfocarei nossa Gaia e seu futuro, infelizmente ameaçado. Esta constatação
preocupante justifica todas as atenções que as escolas dispensem ao tema.
O que pretendo, ao inserir o futuro do planeta no texto do PPP, vai além dos trabalhos isolados desenvolvidos por alguns alunos
ou que se materializam como uma semana de trabalho, voltada à ecologia1, por exemplo. Embora ações dessa natureza sejam
importantes e necessárias, são pontuais e nem sempre desenvolvidas por toda a equipe escolar. Mas, se a preservação do
planeta estiver no PPP será um cuidado permanente, aproveitando-se todas as situações da vida escolar para o desenvolvimento
de atitudes de respeito e responsabilidade para com o futuro de nossa Terra.
E mais, tal atenção não ficará restrita à ação dos educadores de sala de aula; será assumida por toda a comunidade de
aprendizagem que a escola é, incluindo gestores, coordenadores, professores e todo o corpo administrativo, pois todos são
agentes educativos.
II. A elaboração do PPP
De modo geral, um título como este gera a expectativa de que o texto apresente uma “receita”. Na verdade, não existe um
modelo, até porque não há um PPP universal, aplicável a todas as escolas. Cada projeto, que representa a essência do trabalho
que a escola desenvolve, tem a característica da singularidade e é considerado como a carteira de identidade da escola.
Neste particular há uma recomendação que se aplica a todas as escolas: a construção deve ser coletiva, dialógica e participativa!
Trocando em miúdos, o projeto não se reduz ao documento que contém seu texto; sua elaboração é um processo de trocas e de
buscas que, ao longo do percurso, geram conhecimentos, mudanças de atitudes e novos olhares para o papel da escola e para
o de cada um de seus integrantes. Sendo assim, não é tarefa para um único grupo que recebe a missão de redigir o Projeto e
apresentá-lo depois de concluído. Tampouco deve ser encomendado a pessoas que não fazem parte do contexto da escola, ainda
que sejam renomados especialistas.
Uma questão nada trivial, principalmente quando se vai elaborar o projeto, é encontrar um tempo comum a todos e que não exija
sacrifícios, como trabalhar fora do expediente ou faltar a outros compromissos. As escolas buscam as mais variadas soluções
para viabilizar a presença do maior número de pessoas.
Além da fase de conquistas e adesão consciente, outras fases podem ser consideradas na construção do PPP: a da construção
dos marcos referenciais (o que queremos alcançar?), a do diagnóstico (o que nos falta para sermos o que desejamos?) e a da
programação (o que faremos para suprir o que nos falta?) (VASCONCELOS, op.cit. p.182 e seguintes).
III. O futuro do planeta como foco do PPP
Se o futuro do planeta for realmente assumido pela comunidade escolar como tema importante e urgente, essa preocupação
estará presente em todo o processo de elaboração do projeto. Apresento, a seguir, algumas sugestões de como inserir o tema,
baseando-me nas fases de elaboração do PPP:
Marcos referenciais
• Situacional
Dentre as indagações que compõem as reflexões para a elaboração do marco situacional, podemos acrescentar: Como
percebemos a situação do nosso planeta? Quais os sinais de morte que o ameaçam? Quais as causas desses sinais?
1
Ecologia pode ser considerada como o estudo do lugar em que vivemos. Foi o cientista alemão Ernst Haeckel, em 1869, quem primeiro usou este termo para
designar o estudo das relações entre os seres vivos e o ambiente em que vivem, além da distribuição e abundância dos seres vivos no planeta. Disponível em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ecologia acessado aos 18 de março de 2009.
• Filosófico
Em relação à preservação do planeta, para a formação de que tipo de pessoa humana queremos colaborar? Que papel nossa
escola pode ter em relação à ecologia?
• Operativo (Como um protocolo de intenções que traduzem desejos, ainda que utópicos.)
Dimensão pedagógica – Como desejamos que o futuro do planeta seja contemplado nas ações pedagógicas? Como desejamos introduzir o tema em nossas reuniões pedagógicas? Como desejamos trabalhar a cultura da escola em busca de higiene,
evitando a poluição, promovendo tratamento do lixo, preservação dos recursos naturais existentes, prevenção de agressões
ao meio ambiente? Como desejamos, a partir do currículo, explorar esse tema, permanentemente?
Dimensão comunitária – Como desejamos envolver a comunidade na preservação do futuro do planeta? Como desejamos
levar a família, o aluno e a comunidade a participar de movimentos de salva-terra?
Dimensão administrativa – Como desejamos que a direção da escola promova ações voltadas para a ecologia? Como
desejamos que os funcionários trabalhem e se relacionem com os alunos em relação às condições ambientais da escola?
Como desejamos obter recursos para gerenciar ações em prol do meio ambiente da escola e seu entorno?
O diagnóstico
A análise da realidade permitirá conhecer o que já foi ou não foi desenvolvido na escola sobre o futuro do planeta, considerado
como um dos focos do Marco Referencial. Algumas perguntas podem facilitar essa tarefa: tendo em vista nosso interesse com
o futuro do planeta, que aspectos da escola e de nossa prática pedagógica nos mostram se estamos bem ou mal? Quais as
dificuldades que enfrentamos? Como colaborar para sua solução? Que projetos já foram desenvolvidos sobre o assunto? Quem
participou deles? Qual a motivação de alunos e professores no desenvolvimento de trabalhos sobre ecologia e preservação da
Terra?
A programação
Dois critérios devem ser considerados para elaborar a programação: a necessidade e a possibilidade de realizar as ações. A
necessidade de preservar o planeta parece evidente e certamente é assim considerada pelos educadores, funcionários e familiares. Servem como sugestões para a programação:
a. organizar em todas as turmas uma campanha de conscientização interna que pode se constituir numa ação concreta durante
duas semanas, por exemplo;
b. estabelecer como linha de ação que a coleta de lixo da escola seja seletiva;
c. exibir vídeos sobre o assunto, para servirem como agentes deflagradores de trabalhos das crianças em sala, transformando
a aula num círculo de cultura (como proposto por Paulo Freire) pode ser uma ação permanente, porque desperta o interesse
dos alunos levando-os a pensar e a criar em torno do tema;
d. estabelecer com os alunos um código de ética em relação à limpeza da escola e ao não-desperdício de material pode ser uma
regra, uma determinação dirigida a todos os integrantes da comunidade escolar.
Como ensina Gadotti: “o educador não pode apenas apontar um caminho. Precisa dizer claramente como se toma esse caminho.
Não só. O educador precisa fazer o caminho que estiver apontando para o educando. E, enquanto educa, refletir sobre seu
caminhar”2.
Neste texto sintético pretendi apontar um caminho – o da elaboração do PPP tendo como foco o futuro do planeta –; de certo
modo aponto como fazer o caminho, com base no referencial teórico que elegi. Espero que meus colegas se decidam a fazer o
caminho em benefício do nosso planeta.
Que assim seja!
*Dra. em Educação; Mestre em Psicologia e Políticas Públicas; Pedagoga; Psicóloga; Docente em cursos de graduação e pós-graduação; Autora de vários livros.
[email protected]
2
Extraído do prefácio do livro Planejamento dialógico: como construir o projeto político pedagógico da escola de Padilha, P.R. 7 ed. SP: Cortez, 2007.
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Conferência 1 - Texto reflexivo