UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE CCBS - Centro de Ciências Biológicas e da Saúde Curso de Psicologia O PAPEL DO TÉCNICO NA APLICAÇÃO DA MEDIDA SOCIOEDUCATIVA: A PARTIR DA OPINIÃO DE EX-TÉCNICOS Damáris Maia Dias Orientadora: Profa. Dra. Vânia Conselheiro Sequeira São Paulo 2012 DAMÁRIS MAIA DIAS O papel do técnico na aplicação da medida socioeducativa: A partir da opinião de ex-técnicos Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Psicologia, do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, como requisito parcial para obtenção do Diploma de Graduação em Psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Orientadora: Profa. Dra. Vânia Conselheiro Sequeira São Paulo 2012 RESUMO As medidas socioeducativas foram instauradas, devido à nova doutrina da proteção integral e da concepção de que crianças e adolescentes são sujeitos de direitos e seres em desenvolvimento. O Sistema Nacional de Atendimento Socieducativo (SINASE) regulamenta a execução das MSEs nacionalmente e exige uma nova postura na construção de medidas socioeducativas educativas. Com isto, o presente estudo buscou compreender o papel do técnico no cumprimento das Medidas Socioeducativas (MSE), considerando que a humanização do atendimento pode gerar uma maior vinculação do jovem com o técnico e, portanto maior adesão ao cumprimento da MSE. A coleta de dados foi feita por meio de entrevistas semi-estruturadas com roteiro pré-estabelecido com quatro ex-técnicos das instituições de aplicação de medida socioeducativa de meio aberto e fechado, que realizaram acompanhamentos de medidas diretamente com os jovens. Os dados foram organizados em categorias com quatro pontos principais: família, vulnerabilidade social, socioeducativo e atuação do profissional. É importante que o técnico não veja a família como “culpada” pelo ato infracional cometido pelo jovem, mas como uma parceira na efetivação do trabalho socioeducativo, ajudando a restaurar suas redes sociais e a promover a inclusão social, reconhecendo as potencialidades existentes nela. Para que assim, a família possa se empoderar de seu papel, não pelo medo da determinação judicial, mas pela consciência de sua importância e influência no processo socioeducativo. O contexto social, muitas vezes marcado pela negação de direitos básicos caracteriza um estado de vulnerabilidade social; e essa situação leva o jovem ao ato infracional; tanto pelo reconhecimento obtido por meio de insígnias como objetos valorizados pela sociedade do consumo, como tênis, roupas de marca e celulares quanto pela pertença a um grupo que o reconhece como parte dele. Todos devem compreender o objetivo socioeducativo, tanto os técnicos, o adolescente, a família e a sociedade em geral, para que a proposta seja cumprida de forma efetiva. O objetivo da MSE é que o jovem possa desenvolver diversos aspectos de sua cidadania, por vezes, negada. Vemos que há muitos desafios para a atuação do técnico, porém, este, muitas vezes não assume seu papel de agente socioeducativo, ficando passivo à fatores externos que prejudicam o objetivo de formar cidadãos. O profissional deve promover o desenvolvimento do adolescente, fortalecer seu vínculo social, familiar, além de ajudá-lo a exercer sua cidadania e proporcionar sua inclusão social. Não só deve executar funções administrativas ou judiciais, como estabelecer um atendimento humanizado, vincular-se ao adolescente de modo a enxergá-lo para além do ato infracional. Para isso, é essencial a formação continuada desse profissional para que ele se perceba como um agente ativo de transformação da MSE. Palavras Chave: Medidas socioeducativas, papel do técnico, ato infracional, ECA, SINASE. SUMÁRIO I. INTRODUÇÃO...............................................................................................................5 II. REFERENCIAL TEÓRICO............................................................................................7 2.1. HISTÓRICO DA EQUIPE TÉCNICA NO CONTEXTO JURÍDICO.........................7 2.2. AS MEDIDAS SÓCIOEDUCATIVAS........................................................................8 2.2.1. Histórico.....................................................................................................................8 2.2.2. Normativas.................................................................................................................10 2.2.3. A equipe multiprofissional.........................................................................................13 2.3 FAMÍLIA E O ADOLESCENTE AUTOR DO ATO INFRACIONAL.......................14 2.4. A RELAÇÃO DA PSICOLOGIA COM A MSE.........................................................16 2.4.1. Um novo modo de pensar da psicologia.....................................................................18 III.MÉTODO......................................................................................................................19 3.1. Participantes..................................................................................................................19 3.2. Instrumentos..................................................................................................................19 3.3. Procedimentos...............................................................................................................19 IV. ANÁLISE DOS DADOS.............................................................................................20 V. CONSIDERAÇÃO FINAL..........................................................................................41 VI. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS......................................................................44 VII. ANEXOS.....................................................................................................................48 5.1. Anexo A............................................................................................................49 5.2. Anexo B............................................................................................................50 5.3. Anexo C............................................................................................................51 I. INTRODUÇÃO No Brasil, as políticas que atendem crianças e adolescentes em conflito com a lei prosseguem em uma transformação ao longo da história até os dias atuais, com diversas tentativas, descobertas, conflitos, críticas e ideais. (TAMASO, 2000) A expectativa que acompanhou a promulgação do ECA, em 1990, fez com que conceitos fossem transformados e questionados. Era revelada uma nova doutrina, a doutrina de proteção integral e, também, a concepção de que crianças e adolescentes são sujeitos de direitos e em desenvolvimento, dentro de uma sociedade. Essas mudanças provocaram reestruturações no Sistema de Administração da Justiça para a Infância e Juventude, assim como exigiu a criação de órgãos e medidas específicas, estabelecendo assim, uma nova cultura de atendimento (FAJARDO, 2002) É nesse contexto que as Medidas Socioeducativas são instauradas, assim como, o Sistema Nacional de Atendimento Socieducativo (SINASE), que é como um guia na implementação das medidas socioeducativas no país. Este guia propõe que haja uma equipe técnica que trabalhe na efetivação das medidas sócio-educativas, que deve ter um perfil capaz de atender e acompanhar o adolescente e sua família, assim como os funcionários envolvidos com o mesmo. A mudança da doutrina e a exigência de uma equipe técnica que atue diretamente com a aplicação das medidas surgem como um terreno fértil para a atuação da psicologia. É preciso olhar para o adolescente e não vê-lo simplesmente como infrator, mas como um adolescente que por diversos motivos cometeu um ato infracional. É preciso ter o cuidado em dimensionar o tamanho exato do motivo que o levou a cometer o ato e compreender sua história e relacionamentos construídos, para então, dar início ao processo educativo. O novo discurso exige uma nova postura, novas crenças, valores e dedicação na construção desse novo fazer, porém, muitas vezes, tais conceitos ainda ficam perdidos na velha doutrina institucionalizada. (XAUD, 2005) Com isso, o presente projeto propôs verificar como têm sido realizadas as intervenções técnicas com os adolescentes em cumprimento de MSE e como tem sido a atuação de cada profissional, parte da equipe técnica, considerando que a humanização do atendimento pode gerar uma maior vinculação do jovem com o técnico e, portanto maior adesão ao cumprimento da MSE e a diminuição da reincidência destes. Este projeto de pesquisa visa contribuir com a ampliação da produção de conhecimento nessa área, além de; por meio da análise, contribuir para a reflexão da atuação dos técnicos e, 5 assim, a garantia do desenvolvimento pleno dos jovens em conflito com a lei, e assim, compreender o papel do técnico no cumprimento das Medidas Socioeducativas. 6 II. REFERENCIAL TEÓRICO 2.1. HISTÓRICO DA EQUIPE TÉCNICA NO CONTEXTO JURÍDICO A constituição da psicologia jurídica foi dada a partir do momento em que, segundo Miranda (1998), as “regras de convivência humana”, que são as bases da lei e do direito foram tornando-se mais complexas, e foi-se exigindo cada vez mais contribuições de outros campos do saber, como a psicologia. Porém, tal área foi e ainda é denominada de forma ampla e pouco específica. Historicamente, a primeira demanda para a psicologia no âmbito da Justiça foi na área da psicopatologia. Era emitido um parecer técnico em que o indivíduo era classificado de forma objetiva, com uma análise subjetiva individual e descontextualizada, a fim de informarem a instituição judiciária. Tal laudo era preparado por meio de um uso “não crítico” de instrumentos e técnicas de avaliação psicológica. Posteriormente, a lei entendeu como necessário o trabalho do psicólogo em diferentes casos, como as comissões técnicas que avaliam a progressão dentro das prisões, na área da família e na necessidade que o ECA traz para que haja a presença de um profissional da psicologia para ajudar em questões da área. (MIRANDA, 1998). Houve um reconhecimento social, porém Miranda (1998) traz à reflexão a questão sobre o quê agora é exigido do psicólogo, se hoje a demanda da instituição judiciária exige além de um laudo técnico e também, quem é que se configura como o cliente do profissional da psicologia. Esses questionamentos também foram trazidos por psicólogos que atuaram nos antigos Juizados de Menores e nas FEBEMs, acerca da função de tais instituições, o qual foi essencial para a transformação do trabalho do psicólogo nesses serviços. De acordo com o código de menores de 1979 (Lei federal nº 6.697), o Juiz deveria proporcionar “Assistência, proteção e vigilância” aos menores de 18 anos que estivessem em situação irregular, e que, como previa o art. 4º, parágrafo III, “o estudo de cada caso, realizado por equipe que participe pessoal técnico, sempre que possível”. Com isso houve a criação de Audiências Interprofissionais que compreendiam a atuação do psicólogo como um auxiliar direto do juiz e membro da equipe multidisciplinar. Em julho de 1979, dois psicólogos iniciaram em São Paulo uma atuação voluntária no Serviço de Colocação Familiar e em 1980 esta mesma atuação se distribuiu nas regiões da capital. O objetivo era oferecer apoio às famílias, buscando a reestruturação e a manutenção da criança no lar, como forma preventiva da internação, além de encaminhamentos a recursos da comunidade quando preciso. (BERNARDI, 1999) Em 1981, psicólogos foram contratados 7 pelo Tribunal e assim, já estavam em todas as regiões da capital e tinham como função assessorar o magistrado com estudos de casos realizando a avaliação psicológica até a proposta de intervenção. Também atuava em situação de crise da família ou da criança, encaminhando a serviços comunitários ou acompanhamento psicológico. A atuação ia além da perícia e colocava o profissional da psicologia como um agente da instituição, que realizava diagnósticos situacionais e acompanhava psicologicamente o menor ou sua família. Desde então, surgiram muitos problemas relacionados tanto como a indefinição do papel nos fóruns, como uma identidade profissional dentro dessa instituição. Em 1985 aconteceu o primeiro concurso público para a capital de São Paulo e com isso houve a regulamentação da atuação dos psicólogos no Tribunal de Justiça. Após 1990, com a promulgação do ECA, as equipes interprofissionais tornaram-se obrigatórias no âmbito judiciário, como previsto nos artigos 150 e 151. “A importância da atuação do psicólogo na instância judiciária repousa na possibilidade desse profissional abordar as questões da subjetividade humana, as particularidade dos sujeitos e das relações nos problemas psicossociais” (BERNARDI, 1999, p.108). É de sua atuação buscar a satisfação das necessidades psicológicas de crianças e adolescentes, tratando-os como sujeitos em desenvolvimento que estão tendo seu destino decidido judicialmente e compreender o contexto sócio-cultural em que vive, sua família, etc. Segundo Vilela (1999), a psicologia surge como a análise daqueles processos comuns a todo ser humano (o universalismo), procurando estabelecer as condições “normais”, ideais, de seu funcionamento e aquelas outras condições que determinam seu aparecimento diferenciado. Percepção, associação de idéias, memória, motivação, tempo de reação, etc., são múltiplos os processos submetidos à verificação experimental. 2.2. AS MEDIDAS SÓCIOEDUCATIVAS 2.2.1. Histórico Um longo processo de transformação das políticas destinadas à criança e ao adolescente ocorre no Brasil. Historicamente, a criança estava debaixo de um assistencialismo criado e exercido principalmente pela Igreja, sendo objeto de amparo e paternalismo. Mas, ao mesmo tempo era também, aos olhos do Estado, objeto de correção e tratamento. (TAMASO, 2000) A promulgação do Código de Menores do Brasil, em 1927, onde o Estado assumiu a responsabilidade legal pela tutela do “menor em situação irregular”, não separando mais o 8 “menor abandonado” do “menor delinqüente”, o que ampliou a visão de quais situações deveriam ter intervenção do Estado. (FAJARDO, 2002) Em 1940 a edição do Código Penal Brasileiro, definiu a imputabilidade penal para 18 anos e foi criado o Serviço de Assistência ao Menor (SAM), que pode até ser reconhecida como a primeira política pública estruturada para atender crianças e adolescentes. Isto acabou contribuindo para a criação de políticas de atendimentos deste público, sendo o marco inicial em 1959 quando foi criada a Declaração de Direitos da Criança. Ao final da década de 80, com a ineficácia do SAM, criou-se a Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor (FUNABEM) e a Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (FEBEM). As práticas utilizadas nesse contexto privilegiaram o modelo asilar, militarizando a disciplina dentro dos internatos. O novo Código de Menores, editado em 1979, surgiu como uma política de Promoção Social. Em 1986, organizações não-governamentais de defesa dos direitos das crianças e adolescente prosseguiram com movimentos críticos às políticas para a infância e tornaram-se influentes na Convenção dos Direitos da Criança da ONU, lutando por mais uma mudança. (FAJARDO, 2002) Além disto, era preciso uma garantia do Direito declarado, então o Brasil assumiu na convenção da ONU sobre direitos da criança, em 1989, as medidas educativas, sociais, administrativas, sociais e legais. (TAMASO, 2000) Em 1989 elabora-se o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o qual marcou uma fase desinstitucionalizadora que substituiu a Doutrina da Situação Irregular para a Doutrina da Proteção Integral. (FAJARDO, 2002) A promulgação do ECA veio acompanhada de muita expectativa, pois estava sendo adotada uma nova doutrina que divergia de um padrão de políticas públicas direcionadas a criança e adolescente praticado, por, no mínimo, um século. Esta nova doutrina trouxe a concepção de crianças e adolescentes como sujeitos de direitos, a quebra da idéia de “menor”, trazida pelo código de menores e, além de tudo, passou a exigir um novo papel do Estado, família e sociedade. (CAMPOS; FRANCISCHINI, 2005) De acordo com o ECA e a Doutrina da Proteção Integral, o adolescente, compreendido de 12 a 18 anos, ao cometer um ato de transgressão à lei é considerado, segundo o art.104, sujeito inimputável penalmente e, sendo assim, lhe é aplicada as medidas sócioeducativas, de acordo com as circunstâncias, gravidade da infração e capacidade do adolescente de cumprir a lei (inciso I, art.112), que são: Seção II – Da advertência Artigo 115: a advertência, que consiste em um aviso verbal, e será reduzida a termo e assinada. 9 Seção III – Da obrigação de reparar o dano Artigo 116: Em se tratando de ato infracional com reflexos patrimoniais, a autoridade poderá determinar. Se for o caso, que o adolescente restitua a coisa, promova o ressarcimento do dano, ou, por outra forma, compense o prejuízo da vítima. Seção IV – Da prestação de serviços à comunidade Artigo 117: A prestação de serviços comunitários consiste na realização de tarefas gratuitas de interesse geral por período não ascendente a seis meses, em entidades assistências hospitais, escolas e outros estabelecimentos congêneres, bem como em programas comunitários ou governamentais. Seção V – Da Liberdade Assistida Artigo 118: A liberdade assistida será adotada sempre que se afigurar a medida mais adequada para o fim de acompanhar, auxiliar e orientar o adolescente. Seção VI – Do Regime de Semiliberdade Artigo 120: O regime de semiliberdade pode ser determinado desde o inicio, ou como forma de transição para meio aberto, possibilitando a realização de atividade externas independentes de autorização judicial. Seção VII – Da internação Artigo 121: A internação constitui medida privativa de liberdade, sujeita aos princípios de brevidade, excepcionalidade e respeito a condição peculiar de pessoa em desenvolvimento. (ECA, 2009, p.75-77) Tamaso (2000) relata três “mitos” que considera existir na sociedade a respeito do ECA, o primeiro é o “hiperdimensionamento do problema da violência praticada pelo adolescente”, o segundo é a “periculosidade do adolescente” e por fim, a “irresponsabilidade do adolescente”. (TAMASO, 2000, p.98) Segundo Tamaso (2000) a sociedade fica presa ao impasse em considerar o adolescente como perigoso e de má índole, mas ao meso tempo, vê-lo como frágil. São levantados alguns questionamentos sobre a atuação de psicólogos judiciários, se estes estão agindo de acordo com os paradigmas, repetindo as mesmas velhas atitudes, porém, agora com “nova roupagem”. Ou, se ainda estão procurando apenas compreender a criança de forma técnica e individual, sem considerar sua família e comunidade e, também, sem compreender as potencialidades, capacidade e limites destes, a fim de apenas produzir um laudo técnico. 2.2.2. Normativas da MSE e a Proposta Socioeducativa O tema dos adolescentes autores de ato infracional e/ou vítimas de violação de direitos no cumprimento de medidas socioeducativas, mobilizou uma série de debates e discussões envolvendo o Sistema de Garantia de Direitos, áreas do governo, representantes de entidades e especialistas na área, em um processo democrático e estratégico de construção coletiva do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo, o SINASE. (SDEH/CONANDA, 2006) 10 A Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH), por meio da Subsecretaria de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente (SPDCA), em conjunto com o Conanda e com o apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), sistematizaram e organizaram um documento normativo de aplicação de MSE. (SEDH/CONANDA, 2006) O SINASE, de acordo com a SEDH/CONANDA (2006), é um sistema que estabelece as competências e responsabilidades que fundamentam as decisões em diálogo direto com os demais integrantes do Sistema de Garantia de Direitos, tais como o Poder Judiciário e o Ministério Público. Ele busca articular os programas de atendimento, considerando a intersetorialidade e a co-responsabilidade da família, comunidade e Estado. Criando assim, condições para que o adolescente em conflito com a lei possa ser compreendido como prioridade social, não como um problema. Portanto, o objetivo deste sistema está em desenvolver uma ação socioeducativa sustentada nos princípios dos alinhamentos conceitual, estratégico e operacional, estruturada, principalmente, em bases éticas e pedagógicas, além de estrutura-se a partir dos direitos humanos. Este documento normatiza toda a prática e atuação no âmbito socioeducativo. Com a grande demanda levantada por este tema, alguns outros órgãos também ampliaram a construção de documentos que contemplem esta área, como O Guia Teórico e Prático de Medidas Socioeducativas, organizado a partir das principais resoluções do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA) que versam sobre as medidas socioeducativas e seus respectivos programas de execução. Este material foi elaborado com o intuito de contribuir para a concretização dos novos paradigmas de ação no campo das políticas públicas estaduais e municipais de execução de medidas socioeducativas. (SPOSATO, 2004) O Conselho Federal de Psicologia (CFP) também oferece aos profissionais psicólogos, e à sociedade o documento de Referências técnicas para atuação de psicólogos no âmbito das medidas socioeducativas em unidades de internação (CFP/CREPOP, 2010) e um outro sobre as Práticas profissionais dos(as) psicólogos(as) no campo das medidas socioeducativas em meio aberto (CFP/CREPOP, 2009). De acordo com o CFP, o primeiro documento visa construir referência sólida baseada nos princípios éticos e políticos norteadores do trabalho dos psicólogos, possibilitando a elaboração de parâmetros compartilhados e legitimados pela participação crítica e reflexiva para a atuação da Psicologia na área. O segundo documento compõe uma ampliação de conhecimento sobre a experiência dos psicólogos no campo das políticas públicas, 11 colaborando para a qualificação e a organização da atuação profissional, serviço para o qual foi idealizado o Centro de Referência Técnica em Psicologia e Políticas Públicas (CREPOP). As orientações propostas nos documentos têm como base o caráter sancionatório e educacional que a MSE possui envolvendo os modelos de gestão e financiamento das políticas federais, estaduais e municipais. Além disso, orientam as formas de avaliação e fornecem informações para a construção do sistema de informações na área da criança e do adolescente. (CFP/CREPOP, 2010) Para Sequeira et. al. (2009) as medidas socioeducativas deveriam ser uma política de inclusão, que ofereça pertença e cidadania e esta ação é fundamentada em cinco bases: Jurídica, política, ética, filosófica e pedagógica. O fundamento jurídico é no sentido de conhecer a Doutrina de Proteção Integral e os paradigmas em relação a Doutrina da Situação Irregular., assim como a clareza dos direitos que devem ser garantidos ao jovens em cumprimento de medida. Sobre os fundamentos políticos, o socioeducador deve identificar como política pública, o Sistema de Justiça Juvenil como parte integrante do Plano Nacional de Direitos humanos, reconhecer os objetivos da MSE no que se refere a segurança dos cidadãos e também aos direitos do adolescente a educação visando o convívio social, como cidadãos e futuros profissionais, além de compreender a vulnerabilidade social e sua relação com atos infracionais, devido a precabilidade das políticas sociais básica e de assistência social. Os fundamentos éticos se referem ao atendimento humanizado, que deve evitar manter o ciclo de violência simbólica ou psicológica vivenciado em situações cotidianas. Os fundamentos filosóficos visam enxergar o adolescente como uma missão, além do simples exercício profissional. As medidas sócio-educativas previstas pelo ECA, os quais, conforme previsto no artigo 4º do ECA, embora muitas vezes sejam desrespeitados por essas mesmas instituições sociais, graças a inversão de sentidos e a análises petrificadas e simplistas feitas cotidianamente nas diferentes esferas e segmentos sociais. A ação socioeducativa é vista como possibilitadora de um mundo melhor, pois “constituem-se em condição especial de acesso a todos os direitos sociais, políticos e civis” (VOLPI, 1999, p.14), e isto é responsabilidade do Estado, sociedade, a comunidade e a família, como está previsto no artigo 4º do ECA. Por fim, os fundamentos pedagógicos e o investimento na relação socioeducador e adolescente, buscam fazer com que o jovem retome a construção de sua identidade e seu lugar social pelo exercício da cidadania, além de preparar o jovem para o convívio social. Com isto, segundo Sequeira et.al. (2009), A MSE deve ajudar na construção da identidade de cidadão e reconhecimento e respeito às diferenças dos jovens. 12 2.2.3. A equipe multiprofissional O Sistema Nacional de Atendimento Socieducativo (SINASE), como um guia na implementação das medidas socioeducativas no país, propõe que haja uma equipe técnica que trabalhe na efetivação das medidas sócio-educativas. A equipe multiprofissional deve ter um perfil capaz de atender e acompanhar o adolescente e sua família, assim como os funcionários envolvidos com o mesmo. Sendo assim, é imprescindível que tal equipe possua conhecimento específico na área de sua atuação profissional, pois são importantes e complementares no atendimento ao adolescente. Geralmente a equipe se compõe por assistente social, psicólogo e pedagogo. Tais profissionais devem realizar atendimento psicossocial individual e com freqüência regular, atendimento grupal, atendimento familiar, atividades de restabelecimento e manutenção dos vínculos familiares, acesso à assistência jurídica ao adolescente e sua família dentro do Sistema de Garantia de Direitos e acompanhamento opcional para egressos da internação. (SINASE, 2006) O assistente social realiza atendimentos onde busca orientar o adolescente em seus projetos de vida, envolvendo profissionalização e escolarização. Porém, Freitas (2010) traz uma crítica a este tipo de intervenção, pois é realizada de forma individual, aproximando-se da atuação clínica realizada por psicólogos. Ressalta que o assistente social pode contribuir mais quando se atua em um formato mais coletivo, porém o “hábito institucional” tende a direcionar tais atendimentos individualizados, sendo assim, cabe ao assistente social construir formas diferenciadas que proporcionem uma ação mais específica de seu conhecimento. “O acompanhamento da medida e o atendimento ao adolescente se dão também na busca de programas e projetos nas comunidades, que atendam o adolescente em suas necessidades, como saúde, tratamento de drogadição, profissionalização, assistência religiosa, entre outros.” (FREITAS, 2010) O papel do profissional de psicologia perpassa por algumas atribuições, como a realização de estudos de caso, para que haja alternativas viáveis na defesa dos direitos da criança e adolescente. Discussão das medidas de proteção e/ou sócio-educativas que sejam propícias à situação do adolescente, contextualizando o problema e os recursos comunitários. Participação em audiência e a apresentação escrita ou oral do parecer técnico sobre o caso, resguardando os princípios éticos da profissão, assim como orientar, acompanhar e encaminhar as famílias e a criança ou adolescente para programas de atendimento específicos. É atribuição do profissional estimular o atendimento eficaz dos conselhos e entidades municipais e verificar o cumprimento do ECA. (CAMPOS; FRANCISCHINI, 2005) 13 2.3. FAMÍLIA E O ADOLESCENTE AUTOR DO ATO INFRACIONAL Segundo o artigo 4 do ECA, “é dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária”. O Estatuto em todo o seu conteúdo insiste na importância da participação e convívio familiar em todo e qualquer processo que o adolescente ou criança passe. Por exemplo, na liberdade assistida, o orientador é incumbido de promover socialmente o adolescente juntamente com sua família. No SINASE, dentro dos Parâmetros da gestão pedagógica no atendimento socioeducativo, a participação familiar aparece como fundamental para a consecução dos objetivos da medida aplicada ao adolescente. Deve ser proporcionada a participação ativa e qualitativa da família no processo socioeducativo, “tudo o que é objetivo na formação do adolescente é extensivo à sua família” (SEDH/CONANDA, 2006, p.51). Romanelli (2006) explica que a família, enquanto grupo social é parte constitutiva da sociedade. Sendo assim, ela representa um papel relevante na transmissão de valores, normas e modelos de conduta, o que contribui para que seus membros tornem-se sujeitos de direitos no universo doméstico e público. Para Sequeira (2007), a família é o centro da vida social e sua função além de transmitir seus valores, deve garantir um lugar ao melhor, dando-lhe pertencimento. O que irá garantir este pertencimento são os laços simbólicos. “O fundamental é a rede simbólica na qual somos inseridos e aí precisamos refletir se é a família que vem falhando em seu papel simbólico ou se a sociedade não vem garantindo estrutura simbólica que sustente a família e os membros da sociedade.” (SEQUEIRA, 2007, p.94) Segundo Sarti (2006), a família tem sofrido mudanças significativas, alterando a ordem familiar tradicional, como a ordem patriarcal e a divisão de papéis familiares, mudando as relações entre homem e mulher e pais e filhos. Os papéis já não são claramente definidos e isto propicia que os direitos e deveres na família, outrora preestabelecidos, tornem-se objetos de constantes negociações de interesses individuais. “Essa exposição da individualidade, sem papéis inteiramente preestabelecidos e fechados, abriu maior espaço para um tipo de comportamento, o comportamento compulsivo, que representa a perda de controle sobre o “eu”, portanto, a perda da autonomia, ou seja, a capacidade de escolher.” (Sarti, 2006, p.44) Quando um membro da família não tem seu lugar estabelecido e não é ouvido, ele sofre uma angústia pelos resultados incertos, pois corre-se o risco de nada ser previamente assegurado. Antes a angustia era vivida dentro das regras preestabelecidas. (SARTI, 2006) 14 Sequeira (2007) destaca que a contínua transformação observada na família ao longo da história não é necessariamente ameaçadora aos membros dela. Pois coloca como função fundamental o laço social. Acredito que a família funciona, fundamentalmente, como elo entre o individuo e o coletivo, dando sustentação para o novo membro da comunidade, transmitindo-lhe valores daquela cultura em que está inserido, dando-lhe pertencimento; assim como a família sustenta a própria comunidade, que só pode se manter viva quando seus valores são vivenciados e transmitidos. (SEQUEIRA, 2007, p. 98) Diante disso, Sequeira (2007) afirma que, independentemente da configuração familiar e sua ordem biológica, muitas famílias têm priorizado do laço social, de leis simbólicas, que mantêm a filiação e o pertencimento como base, sendo assim, cumprindo com sua função. Muitas das famílias dos jovens que cometem o ato infracional, têm dificuldade em garantir proteção aos filhos, impossibilitando-os de proporcionar as necessidades básicas de uma economia ajustada no ideal de consumo. Assim sendo, essas famílias ficam mais expostas a situações humilhantes e de desvalorização, por não conseguirem sustentar sua função protetiva impostas culturalmente a ela, devido uma precariedade social. Ou seja, o que é colocado como ideal para a situação da família torna-se irreal devido à realidade social. (SEQUEIRA et. al., 2009) Dentro desta questão social, Castro (2002) coloca a adolescência como um período de transformações, dentro da cultura ocidental. Com isto, o modelo socioeconômico e cultural dominante, revelados pela mídia, agravam a situação dos adolescentes, pois a grande influência é que o jovem deve possuir bens, mesmo que ele e grande parte dos brasileiros jamais terão. O “ser uma pessoa na moda”, para Sales (2004), revela uma busca de aprovação estética do outro para que seja visto e assim, tenha um lugar social, porém isto é permeado por uma lógica perversa na qual torna o jovem ainda mais invisível. Diante dos inúmeros impedimentos financeiros decorrentes de uma determinada inserção social no mundo do trabalho e, por decorrência, no universo do consumo, o acesso a certos bens, portanto, exigiria a ruptura do pacto de honestidade com a subsequente adesão a uma vida de transgressões, riscos e violências. Uma inversão de valores por dentro de uma lógica em que prevalece a exteriorização do ser – a aparência. Mostra-se, enfim, a face perversa da primazia do visível, quando pouco importa saber, para além da forma, quem são os indivíduos, como é a sua vida, sua visão de mundo, sua psique, sua história. Para além da roupa e de todos os acessórios que compõem o look moderno, os corpos foram também içados à condição de objetos de design: São assim, de acordo com a mais nova tecnologia, desenhados, esculpidos e valorizados como imagem, segundo a lógica do consumo visual. (Sales, 2004, p.112 e 113) 15 Para os adolescentes infratores, isto é muito presente, pois é nisto que conquistam a chance de serem reconhecidos como sujeitos e incluídos em um padrão diferenciado. Criando assim, uma ilusão de poder e ser mais. (SALES, 2004) 2.4. A RELAÇÃO DA PSICOLOGIA COM AS MEDIDAS SOCIOEDUCATIVAS Segundo Xaud (2005), os abrigos criados com boas intenções para o atendimento de “menores infratores” acabaram funcionando como uma “escola de aperfeiçoamento da delinquência”. Isto impossibilitou que funcionassem como promotoras do desenvolvimento pessoal e social, criando um “ciclo vicioso e perverso entre a pobreza e a marginalidade, na medida em que pobres são presas mais fáceis deste sistema.” (XAUD, 2005, p.90) Neste contexto, o psicólogo atuou como ouvinte, mas que não permitia o outro falar. Limitou-se a laudos técnicos de confirmação ou não do desvio de conduta esperado, sem que houvesse a contextualização psicossocial da conduta delitiva. “Um ciclo perverso na própria intervenção técnica”. (XAUD, 2005) “Não se altera a prática porque não há o que fazer diante da inércia do sistema, não muda o sistema em razão da desmotivação do corpo técnico” (XAUD, 2005, p.90) Com a nova doutrina de proteção integral, por meio do ECA, crianças e adolescentes não são mais simples objetos de intervenção, porém, tornam-se sujeitos de direitos, dentro de um contexto legal garantista e civilizatório que lhes permitiu espaço social para o exercício pleno de sua cidadania. “não há na nova doutrina, distinção entre tipos de crianças e adolescentes, tampouco se destina a uma parcela delas. Agora, todos estão sob o manto do Direito.” (XAUD, 2005, p.92) Porém, isto representa uma ampliação de espaço daqueles que não são adultos, e perder espaço na subjetividade adulta, pode significar perder poder, misturando o objetivo e subjetivo causando um mal estar civilizatório. O psicólogo inserido no sistema judiciário tem o papel de interlocutor entre a instituição para a qual presta serviço e o adolescente, seu cliente. Sua tarefa é, de um lado, sensibilizar o adolescente para o processo sócio-educativo que se pretende desenvolver e de outro, facilitar, para o discurso institucional, a percepção objetiva desta ampliação de espaço para crianças e adolescentes, minimizando a subjetividade que tem causado enormes prejuízos, em diferentes contextos, para as relações humanas. (XAUD, 2005, p.90 e 91) O novo sistema de justiça traz a necessidade de repensar os papéis dos profissionais, para que vá além do discurso e que haja um comprometimento de uma intervenção inovadora que favoreça as dimensões pessoais e institucionais, colaborando de forma efetiva para o retorno do adolescente em conflito com a lei ao convívio familiar, comunitário e social. 16 Segundo Xaud (2005), é preciso transmudar o agir, o que significa “ampliar a permissividade pessoal para rever crenças e valores, significa adotar postura coerente e mais, abandonar definitivamente o caráter moralista, preconceituoso, preconcebido e discriminativo de velhas práticas.” (XAUD, 2005, p.93) O psicólogo deve ter o cuidado em dimensionar o tamanho correto do motivo que levou o adolescente a cometer o ato infracional. A escuta deve manter-se crítica, para que não acabe na psicologização que considera todo ato socialmente desviante, segundo Miranda Junior (1998). Dentro das medidas sócio-educativas, a tarefa de um psicólogo é contextualizar o adolescente, dando início ao processo educativo. Proporcionar um encontro mais humano que incentive o crescimento pessoal e social do adolescente, o considerado um ser humano em desenvolvimento. Contextualizar o adolescente significa entender seu histórico familiar, como se dá e como se mantém as relações que envolvem seu mundo social. O ser humano é entendido como dialético, contendo dentro dele conceitos culturais bons e maus. A potencialização de um ou de outro, se dá pela história de vida, pelas reações afetivas e sociais que envolveram sua história. Essa contextualização deve proporcionar um parecer psicossocial que sensibilize a equipe para o conteúdo social como decisivo da conduta delitiva, sem que haja a exclusão de um desvio de conduta, mas pra que lhe seja dada a dimensão exata. “Se a intervenção da equipe for capaz de descobrir as pressões que pesam sobre aquele adolescente e de alguma forma aliviá-las, ele será capaz de retomar o caminho do crescimento e do desenvolvimento pessoal e social.” (XAUD, 2005, p.96) Adolescentes que trazem de seu contexto uma convivência com a insegurança e a desconfiança, ficam duvidosos quanto ao fato de acreditarem na vontade de compreensão e ajuda dos representantes do sistema, que pode ser muitas vezes visto como poderoso e injusto. “Cresceram sem limites, sem disciplina, sem obrigações, pela incapacidade dos pais de assumirem seus papéis, e cresceram sem cidadania pela incapacidade da sociedade de incorporá-los ao desenvolvimento sócio econômico.” (XAUD, 2005, p.97) O profissional da psicologia deve buscar conhecer também aspectos da adolescência, que irá auxiliá-lo no entendimento. O comportamento rebelde no caso do adolescente infrator, geralmente são reações às atitudes velhas de adultos que adotam um discurso democrático e respeitoso, mas acaba os excluindo como pessoas e cidadãos. O conteúdo preconceituoso impossibilita uma relação confiável e confirmam os estereótipos de “não tem jeito” e “é tudo mentira”. Como relata Xaud (2005), o novo pensar tem se perdido no velho fazer. 17 O psicólogo deverá sempre lembrar que seu trabalho não será com um adolescente infrator, mas com um adolescente que por diversos motivos cometeu um ato infracional. (XAUD, 2005) E é a partir dessas motivações, que o psicólogo deverá realizar sua intervenção técnica. 2.4.1. Um novo modo de pensar da psicologia A partir da prática, alcances e limites desenvolvidos no exercício de atenção e custódia para jovens em conflito com a lei, propôs-se um novo modo de pensar da psicologia. Este modo de pensar que norteia a atuação do psicólogo já se mostra distante do procedimento ensinado na academia e que, mesmo assim, acaba sendo repetido em trabalhos realizados em instituições com outros profissionais e objetos que são diferentes daqueles atribuídos propriamente à psicologia. “Exercer a psicologia, no interior dos discursos e dos procedimentos jurídicos, é um constante desafio ao que se costuma chamar de ‘identidade profissional’.” (GUIRADO, 2008, p.250) O ECA, divulgado em 1990, provocou uma transformação da mentalidade, pois a visão assistencialista não era mais contemplada e sim uma visão educativa. Esta nova visão possibilitou a participação popular, como os Conselhos de Direitos e Tutelares e também colocou o psicólogo em um papel fundamental a ser executado juntamente com uma equipe interprofissional. Sua atuação, além de auxiliar o Juiz, está em realizar um papel educativo frente às crianças e adolescentes, assim como sua família, comunidade e toda a equipe. Crianças e adolescentes são sujeitos de direitos e deveres dentro de uma sociedade, assim como um adulto. Esta idéia ainda é recente e provocou diversas mudanças significativas dentro da dimensão institucional e pessoal. Essa mudança no âmbito institucional provocou uma reestruturação do Sistema de Administração da Justiça para a Infância e Juventude, exigindo a criação de órgãos específicos e especializados. Na dimensão pessoal, estabeleceuse uma nova cultura de atendimento, um novo pensar, onde está a maior possibilidade de atuação do psicólogo. O profissional da psicologia deve atuar na construção desse novo fazer, na mudança de crenças e valores, sensibilizando o adolescente infrator para o trabalho sócioeducativo, e também para os profissionais que atuam no sistema, propondo uma postura compatível com o novo discurso. (XAUD, 2005) Para a intervenção psicológica, inserida no discurso jurídico, a história de loucos e ‘menores irregulares’ guarda muita semelhança. Loucos também são empurrados para longe dos olhos sociais, trancafiados em depósitos humanos, que ao contrário de promoverem o crescimento, o desenvolvimento pessoal e 18 social, promovem o isolamento cada vez maior da realidade, agravando a doença. (XAUD, 2005, p.89) III. MÉTODO 3.1. Participantes Quatro ex-técnicos das instituições de aplicação de medida socioeducativa de meio aberto e/ou fechado ligadas à Fundação CASA ou a SMADS que realizaram acompanhamentos de medidas diretamente com os jovens. O critério de inclusão é que tenham exercido a atividade há no mínimo seis meses. 3.2. Instrumentos Entrevistas semi-estruturadas com roteiro pré-estabelecido. (ANEXO A) 3.3. Procedimentos O projeto foi encaminhado para a Comissão de Ética. Após aprovação do projeto, foi feito um contato com ex-técnicos selecionados para apresentação do projeto de pesquisa, por meio de uma carta com uma síntese do projeto, com objetivo, procedimentos e cuidados éticos. (ANEXO C) Uma vez autorizada a pesquisa pelo sujeito e assinado o TCLE (ANEXO B), foi feita a entrevista. A data, o horário e o local para a entrevista foi combinado com os próprios sujeitos, de acordo com suas disponibilidades. Com a prévia concordância dos ex-técnicos, algumas entrevistas foram gravadas para otimizar a coleta de dados, garantindo a fidelidade das informações coletadas e evitando repetições desnecessárias de respostas. 19 IV. Análise de dados Segundo Bardin (2000) a análise de conteúdo engloba a análise documental e do discurso, que visam analisar os significados e os significantes, ou seja, compreender além do discurso trazido, a mensagem que está por trás dele. Os dados obtidos nesta pesquisa por meio das entrevistas semi-estruturada foram organizados em categorias de análise, as quais destacaram quatro eixos principais, que são: Família, Vulnerabilidade social, socioeducativo e atuação do profissional. Tais pontos foram discutidos nas categorias a seguir buscando compreender a partir disso, o papel do técnico na aplicação das medidas socioeducativas. 1. Família No atendimento socioeducativo, orientado pelo SINASE (SPDCA/SEDH, 2006), a participação familiar aparece como fundamental para a consecução da medida socioeducativa, pois todo o objetivo proposto é extensivo à família do jovem. Os entrevistados acreditam que a família influencia de forma direta na causa do ato infracional, ou deve ser o primeiro campo a ser trabalhado na prevenção. É importante que a família se implique no processo socioeducativo, tanto por estar previsto em lei quanto, segundo Romanelli (2006), pela influência que esta provoca na constituição individual dos sujeitos que fazem parte dela. De fato, é importante que a família se implique juntamente no processo, pois é com ela que o jovem convive ou irá conviver após o cumprimento da medida. O entrevistado B responde que a primeira questão sobre a causa do ato infracional é o “vínculo familiar fragilizado” e que por isso não existir dentro da família, o jovem tende a buscar de outra forma, na qual seria o ato infracional. Segundo o entrevistado D, a causa do ato infracional é a família “desestruturada e disfuncional”. Para Sequeira (2007), a terminologia “família desestruturada”, muito utilizada para justificar alguns problemas de seus membros, pressupõe uma família anteriormente estruturada, a qual apresenta aspectos ideológicos e moralistas de quem a utiliza. Os entrevistado A e B enfatizaram a questão da constituição familiar, dizendo que a maioria dos adolescentes convivem apenas com a mãe ou a avó e seus muitos irmãos de pais diferentes, tendo assim uma autoridade materna. “A maioria é de 15 anos, mora com a mãe ou com a avó, então tem isso, da cabeça da casa ser a genitora. Não conhecem o pai, ou o pai ou o tio estão envolvidos no crime, no tráfico... Irmãos, vários irmãos de pais diferentes”. 20 (Entrevistado B) “(...) geralmente é mãe solteira e a tendência dela é proteger, é aquela mãe que abraça mais, passa a mãe na cabeça”. (Entrevistado A) Vemos que a organização familiar dos adolescentes, para os ex-técnicos é motivo de preocupação. Segundo eles, se há uma desestruturação do modelo de família imaginado, o jovem responderá cometendo o ato infracional. Isto demonstra uma crença de um modelo ideal de família o qual irá proporcionar aos membros melhor qualidade de vida e comportamentos socialmente aceitáveis. Sequeira (2007) narra que a família deve transmitir os valores de sua cultura aos membros e vivenciálos, sustentando-os assim, dentro da comunidade, oferecendo pertencimento. Se a família, independente da forma como esta se organiza, conseguir ter como prioridade dar pertencimento aos seus membros, irá cumprir com sua função. Os ex-técnicos enxergam que a família exerce um papel fundamental no processo socioeducativo com o adolescente, o que pode fazer com que ele repense suas atitudes e mude o comportamento. Sendo assim, é importante que os técnicos cuidem para que os préconceitos moralistas relacionados à família não limitem sua atuação na aplicação da medida. O entrevistado D, em uma de suas falas, diz sobre a importância do trabalho dentro da família, o lugar que o jovem ocupa. A família tem que sentir o peso da sua atuação em relação ao adolescente. Muitas vezes os pais reclamam: “não consigo falar mais nada, ele não me escuta”. Então a gente precisa trabalhar esse processo, precisa desconstruir algum padrão de funcionamento familiar que era disfuncional e fazer com que o adolescente saia da posição de bode expiatório e volte a fazer parte ali da família, para que cada papel possa ser respeitado. (Entrevistado D.) Como já vimos, a família deve garantir o pertencimento de seus membros à sociedade. Sequeira (2007) chama isto de filiação simbólica, a qual é sempre social, pois isto implica em garantir um reconhecimento do lugar do adolescente, tanto na família quanto sociedade. Com isto, vale ressaltar o que Sequeira (2007) pontua, que toda e qualquer família está sujeita à essa desfiliação, não somente as mais vulneráveis socialmente, nem as que possuem um tipo específico de organização. Após o cometimento do ato infracional, a ordem judicial atravessa o contexto familiar impondo um dever obrigatório para que esta se implique no processo socioeducativo do adolescente. Santos (2007) destaca que é percebida em famílias de adolescentes em conflito com a lei uma falta de imposição de limites, o que atribui um sentido distorcido de independência e uma punição inconsistente que provoca o desencadeamento de comportamentos anti-sociais. Sendo assim, o Juiz pode surgir como a imposição desse limite 21 ao comportamento do jovem. Agora já não é mais o laço sanguíneo ou afetivo que permeia o contexto familiar, mas uma ordem judicial que se não for cumprida trará consequências. Isto faz com que novos elementos surjam no processo como o medo de uma determinação judicial e a culpa que isto pode suscitar na família. O relacionamento familiar perde a espontaneidade, tornando-se alvo de intervenção da atuação técnica. Isto aparece como um impasse nas falas dos ex-técnicos, pois se viam obrigados a impor uma ordem judicial, mesmo que isso não fosse visto como algo positivo, como vemos na fala do entrevistado B, “a gente ligava pra mãe, tinha que ler o ECA, dizia que era uma determinação judicial, que eles eram obrigados a virem, pois é, tínhamos que fazer isso, porque se não, eles não vêm”. Essa imposição judicial serve como um impulso para que as famílias participem do processo socioeducativo, porém, como vemos sobre isso explicitamente na fala do entrevistado D, “isso pode até ser imposto, mas para que dê fruto, a responsabilização tem que ser natural”. Ou como o entrevistado A relatou que grande parte das famílias participa e incentiva os filhos motivados pelo medo de retornarem à Fundação CASA ou do juiz. Sendo assim, a falta de participação e envolvimento das famílias no processo da aplicação da medida, apenas representa o funcionamento familiar antes do adolescente estar ali. Não há um pertencimento dos membros na família, assim como um compromisso entre eles. Vemos então, que não há uma filiação de fato, representando assim, estar fragilizada quanto ao seu objetivo em dar pertencimento aos membros. Para a entrevistada B, o papel de pai e mãe está muito “solto”, e para que haja uma prevenção efetiva o primeiro trabalho deve ser feito com os primeiros cuidadores do adolescente, na conscientização do papel que eles têm e que possam assumir isto. Esta idéia se completa com o que o entrevistado D declara dizendo que é preciso uma instrução aos pais, pois muitos deles não têm noção do que é o desenvolvimento de uma criança. Porém, se o técnico olha a família a qual irá trabalhar, partindo do pressuposto que ela não sabe como exercer seu papel e que isto deverá ser ensinado por alguém externo a ela, pode vir a enfraquecer ainda mais a confiança que os responsáveis pelo adolescente depositam em seu próprio julgamento, como aponta Lasch (1991). Este conselho vindo de fora prejudica a confiança dos pais, além de sustentar a noção de que tais técnicas são de extrema importância e sem elas, os pais se veêm culpados pelo fracasso dos filhos. (LASCH, 1991) Outro aspecto observado nas falas dos ex-técnicos é a questão da vulnerabilidade social da família, o que para Gomes e Pereira (2005), repercute diretamente nos filhos, que são os mais vulneráveis desse grupo, tornando-os vítimas de injustiça social e violando seus direitos fundamentais. Nas entrevistas vemos que a maioria dos jovens possuem dificuldades 22 financeiras, o que possivelmente pode vir a ser uma causa para o ato infracional, como será abordado na categoria sobre Vulnerabilidade Social. De acordo com Sequeira et. al. (2009) a família do jovem em conflito com a lei não consegue satisfazer minimamente as necessidades básicas de uma economia pautada no ideal de consumo, o que as deixam expostas a situações de humilhação e desvalorização. Com isto, muitas vezes se vê impossibilitada de exercer sua função protetiva devido a precariedade social. Diante disso, é importante que o técnico leve em consideração a intromissão da ordem judicial no contexto familiar e a influência dos primeiros cuidadores. Também não deve ver a família como responsável pelo ato infracional cometido pelo adolescente, mas como uma parceria para que haja a efetivação do trabalho socioeducativo. Seu olhar em relação a família não deve ser julgador, colocando em teste a forma como é organizada e nem se ver como aquele que irá ensinar os membros da família como devem se comportar, mas ajudá-los a restaurarem suas redes sociais, promovendo a inclusão social. Deve-se ter sensibilidade ao olhar para a família e saber reconhecer suas potencialidades, encorajando-a e mostrando-se disposto a trabalhar de forma conjunta, para que assim, a família possa se empoderar de seu papel, não somente por medo da determinação judicial, mas pela consciência de sua importância e capacidade de influência do adolescente no processo socioeducativo. 2. Vulnerabilidade social Fomos criados através da TV para acreditar que um dia seriamos milionários, astros do cinema ou estrela do rock, mas não seremos. Aos poucos tomamos consciência do fato. Tyler Durde – do filme Clube da luta Qual a causa do ato infracional? É diante desta pergunta que a questão social aparece nas entrevistas. Segundo o entrevistado A, só existe o ato infracional por causa da questão social: “A causa do ato infracional é a questão social, é puramente socioeconômica. Quem comete o ato infracional é o jovem periférico, o jovem que não tem. O ato infracional é uma expressão da questão social”. Para o ex-técnico esta ideia é bastante clara, o ato infracional acontece devido os problemas sociais que o adolescente vivencia, como uma resposta a eles. Para os outros entrevistados a vulnerabilidade social é também colocada como grande influenciadora do comportamento em conflito com a lei. 23 Para Sales (2004), os problemas que cercam as crianças e adolescentes não podem ser vistos isolados do contexto em que vivem. Devem ser compreendidos como questão social, ligados aos desafios do país. Se esta população específica tem vivido sem a garantia de seus direitos, ela não tem ocupado um espaço visível na sociedade, pois não tem sido vista como parte dela e como sujeitos de direitos. Para isso é preciso que tal população reencontre seu espaço e consiga ser vista, para que assim, possa gritar pelos seus direitos. O entrevistado D diz que em sua atuação buscava incentivar os jovens a serem protagonistas de suas histórias, porém, foi desmotivado ao perceber que o sistema não permite que o jovem seja protagonista de sua história. Sobre isto Sales (2004) explica que há uma inversão de valores por dentro dessa lógica em que prevalece a aparência, aquilo que está exterior ao ser. Não importa a história do jovem, ele não pode ser protagonista de sua história, pois o que importa é a forma, o que ele veste, o que ele possui e assim, estabelece-se uma lógica perversa de invisibilidade. Segundo o entrevistado C, o adolescente que comete o ato infracional só é um reflexo da negação de direito que já sofreu. Em resposta a essa negação de direito, o adolescente acaba se envolvendo no tráfico. O ex-técnico C. levanta este ponto como uma crítica aos projetos destinados à prevenção, pois o adolescente busca um retorno econômico e isso é muito mais imediato e satisfatório no tráfico, comparado aos cursos técnicos oferecidos por ONGs ou pelo governo que exigem uma dedicação ao estudo e o retorno nem sempre é satisfatório. A possibilidade de se envolver no tráfico, para o entrevistado D, só é possível por ser a única opção que o adolescente tem. O tráfico aparece como uma oferta aos jovens e aceitar esta oferta irá proporcionar um retorno financeiro que o fará parte da sociedade do consumo e assim, possa ter visibilidade. Kehl (2002) aponta que na sociedade atual, o que ela chama de sociedade do espetáculo (pois o espaço da política é substituído por uma busca de visibilidade instantânea do show e publicidade), a fama torna-se mais importante que a cidadania. Se um dos objetivos da MSE é formar cidadãos, os técnicos devem estar preparados para lidarem com essa busca por visibilidade acima de qualquer princípio ou valor, pois eles vêem que a possibilidade de terem um lugar social é conseguindo serem vistos, não apenas sendo cidadãos. Essa busca financeira é explicada pelos entrevistados como uma influência do modelo atual de sociedade, a questão do ter e o estar na moda. “O jovem da periferia quer uma roupa legal, ter a moto pra sair com as meninas. Isso o que aparece na mídia, ‘você precisa ter para ser’” (Entrevistado B). Conseguir visibilidade, para Sales (2004) é entrar em uma nova lógica de poder, o adolescente que comete ato infracional busca ser e ocupar um papel social, através 24 do ter, mas para ter ele precisa quebrar as regras, infringir as leis. Vemos que para o entrevistado B, citado acima, a mídia é extremamente influenciadora e que tal influência irá determinar o comportamento do jovem. O “ser uma pessoa na moda”, para Sales (2004), revela uma busca de aprovação estética do outro, esta aprovação faz com que o jovem procure mudar sua estética, para que assim possa sentir-se outra pessoa, ser ao mesmo tempo diferente e igual para ser aceito. Conseguir visibilidade, para a autora é entrar em uma nova lógica de poder. Para os adolescentes infratores, isto é muito presente, pois é nisto que conquistam a chance de serem reconhecidos como sujeitos e incluídos em um padrão diferenciado, criando assim, uma ilusão de poder e ser mais. Sales (2004) aponta que para o jovem, que se vê impedido financeiramente, possa “sobreviver” nesta lógica de consumo, ele deve romper com o acordo de honestidade, aderindo uma vida de transgressão e violência. Na verdade, a maior busca está na aparência, o que caracteriza uma inversão de valores, pois não importa a história ou quem o adolescente é, mas quem ele demonstra ser, como ele irá se vestir ou o que ele irá possuir. De fato, grande parte desses jovens em conflito com a lei está em precariedade social e a família não tem condições de satisfazer minimamente as necessidades básicas, justamente por ser uma economia baseada no ideal do consumo, sendo assim, tais famílias ficam mais expostas à desvalorização e humilhação. (SEQUEIRA et. al., 2009) O entrevistado C reforça a idéia de que o perfil do jovem é aquele que tem poucas oportunidades devido a falta do recurso financeiro. Se pensarmos que a falta de recurso financeiro traz humilhação porque o jovem não se sente visto e aceito na sociedade, ela busca reparar isto consumindo, buscando ter. Isto representa bem o que Kehl (2002) disse, que somente o brilho fugaz da fama é capaz de compensar a mediocridade da vida cotidiana. O perfil dos adolescentes descrito nas entrevistas é bastante semelhante e como características em comum, é definido como socialmente vulneráveis, sem escolaridade e geralmente envolvidos com o tráfico, uma vez que este surge como uma oportunidade de obtenção de um retorno financeiro. Gomes e Pereira (2005) abordam sobre isso explicando que as transformações ocorridas na política econômica do Brasil são responsáveis pelas mudanças na vida econômica, social e cultural da população, gerando altos índices de desigualdade social, que são reflexo da estrutura de poder atual. Isto afeta as condições de sobrevivência e a expectativa da superação da pobreza, fazendo com que as pessoas tenham que criar alternativas, nem sempre de acordo com a moral predominante na sociedade, para a sobrevivência. 25 O contexto social dos jovens trazidos pelos entrevistados, muitas vezes é marcado pela falta de recursos em vários equipamentos públicos, como escolas, unidades básicas de saúde, CAPS, etc. e também se caracterizam como um estado de vulnerabilidade. Os ex-técnicos citam que é preciso um apoio e funcionamento eficaz de todos para que o adolescente possa conviver com outras oportunidades diferentes, como por exemplo, do tráfico. O adolescente chega e diz: “Tô aqui pra viver o mundo que eu conheço.” É o que ele vê, o que ele vive, estudar é complicado, você vê como ta a educação hoje, né? Não é atrativo, profissionalização também não é atrativo. Geralmente são envolvidos com droga, e o tratamento para isso? Não tem. Eles não querem sair dessa vida, você vê que é o que eles vão viver mesmo, não pensam em outra forma. (Entrevistado B) Diante disso, vemos que a vulnerabilidade social é um dos fatores geradores do ato infracional. O contexto social, muitas vezes marcado pela negação de direitos básicos caracteriza um estado de vulnerabilidade social; e essa situação leva o jovem ao ato infracional; tanto pelo reconhecimento obtido por meio de insígnias como objetos valorizados pela sociedade do consumo, como tênis, roupas de marca e celulares quanto pela pertença a um grupo que o reconhece como parte dele. 3. Uma atuação socioeducativa? A medida socioeducativa é uma política de inclusão, que deve propiciar pertença e cidadania ao jovem. A função principal deve ser pedagógica, com os objetivos de desenvolvimento de habilidades pessoais, relacionais, cognitivas e produtivas no adolescente em cumprimento da medida. (SEQUEIRA et. al., 2009) Sendo assim, o jovem deve ser preparado para o convívio social e para isto vemos algumas atividades que são propostas na rotina dos adolescentes em cumprimento da MSE. Os entrevistados possuem experiências em contextos diferentes da aplicação da MSE, pois dois deles atendiam em meio aberto, Liberdade Assistida, e os outros dois na medida privativa de liberdade. Apesar das atividades narradas não serem tão divergentes (atendimentos individuais, em grupo, familiar, relatórios, visita domiciliar, visitas técnicas e reuniões de equipe), vemos que alguns aspectos se mostram contrários. 3.1. A rotina 26 O primeiro ponto a ser destacado é a rotina do adolescente. As atividades desenvolvidas para o jovem devem primeiramente ter como objetivo a educação para a cidadania e não uma ocupação do tempo ocioso, para que sejam mantidos ocupados, apenas (VOLPI, 2006). O entrevistado C destaca que no meio fechado, está sempre ocupada. O jovem possui em sua rotina diversas atividades as quais deve cumprir, como aula do ensino formal, oficinas de profissionalização, assim como suas atividades de higiene e alimentação. Já no meio aberto, o adolescente vai à instituição, às vezes uma vez por semana. Isto para o entrevistado B é motivo de preocupação, pois questiona: “do que adiante você ter o contato aqui, mas lá fora a realidade é outra? E aí fala que é culpa dos técnicos? Mas o que acontece com eles fora? Com quem cuida deles lá fora?”. Sua preocupação se apresenta, pois o adolescente quando sai da instituição se depara com os conflitos cotidianos que podem vir a prejudicar o trabalho feito pelos técnicos de mostrar novas oportunidades e assim, ajudarem a construção de identidade do jovem como cidadão. O mesmo entrevistado continua dizendo: “Você olha e a família não está boa, a educação não está boa, dá um desânimo, acha que não vai resolver nunca, que ele não quer saber de nada”, isto sinaliza que os técnicos se sentem insuficientes como agentes de transformação, uma vez que se vêem sozinhos nesta missão. Vemos no SINASE (SDEH/CONANDA, 2006) que na Liberdade Assistida, a ênfase do programa é a participação do adolescente em atividades fora da instituição, como família e comunidade. Diante disso, uma das atividades mais importantes do técnico dessa medida é o acompanhamento e garantia de que o adolescente freqüente a escola. Isto é relatado pelo entrevistado A, quando diz sobre o relatório de acompanhamento semanal que deve ser feito, contando se o jovem tem freqüentado a escola e a instituição. Em contrapartida, o entrevistado B conta sobre o perfil dos jovens atendidos e diz que a maioria está sem ir a escola. “(...) dos 200 adolescentes que a gente tinha lá, 10% estava no ensino médio”. Sendo assim, esta é uma especificidade e preocupação dos técnicos que atuam no atendimento de Semi Liberdade: garantir e incentivar que o jovem freqüente a instituição escolar. Na medida de internação, tal procedimento é diferente, uma vez que a Fundação CASA deve garantir o acesso de todos os internos a todos os níveis de educação formal, o freqüentar a escola está obrigatoriamente embutido na rotina dos adolescentes. Então, para isso, deve haver Unidade escolar localizada no interior do programa. (SDEH/CONANDA, 2006), A preocupação dos técnicos neste contexto é, então, o que relata o entrevistado C: “Na verdade, no começo a tarefa era conscientizar sobre o que é educação, a importância da escola, porque muitas vezes é aquele pensamento de escola é castigo, vê como algo negativo”. Os técnicos devem trabalhar para que os jovens se conscientizem da importância de estudar. 27 Outra atividade do técnico é o atendimento individual do adolescente. Esses atendimentos têm como objetivo construir um espaço onde o adolescente possa compartilhar afetos e sentimentos. Esses espaços não devem se restringir ao acompanhamento administrativo da medida, mas para se trabalhar a ressignificação das experiências vividas. (CREPOP/CFP, 2009) O entrevistado B conta sobre um ponto que trabalhou muito com os jovens em seus atendimentos foi os sonhos dele para o futuro, às vezes com atividades com recortes de revistas para que pensasse em gravuras que representam o que ele imagina para o futuro. O entrevistado D conta que nos atendimentos, a princípio, incentivava o adolescente a ser protagonista de sua história, mas, segundo ele, infelizmente o sistema não deixa que ele seja protagonista, então não queria basear sua atuação em uma mentira. Para o ex-técnico, a melhor forma é tratar os adolescentes com respeito e verdade, e mostrar a ele o motivo que está passando por aquele processo da medida. As visitas domiciliares têm como objetivo os técnicos conhecerem o local de origem do adolescente e sua família, assim como suas relações, vínculos e referências. Este contato torna-se extremamente importante, pois tais informações estão presentes nos discursos dos jovens e dificilmente serão potencializadas se o técnico não conhece sua realidade. O entrevistado D coloca essa ligação direta com a família como algo que norteia todo o processo. Envolver-se com o jovem e sua família, é uma abertura para que de alguma forma possa haver uma influência positiva. Segundo o documento do Crepop/CFP (2009), as atividades em grupo devem ter como objetivos potencializar a vivência coletiva, proporcionando uma relação de respeito e aprendizado mútuo, inclusive do técnico. O ex-técnico C contou que o primeiro passo é conquistar os participantes e narrou uma experiência de trabalho em grupo do meio fechado, que teve como objetivo fazer com que os jovens compreendessem a importância da escola e valorizassem aquele espaço. Levaram os jovens para pintarem a escola e a montarem do jeito que queriam, proporcionando assim, a reconstrução da escola, na idéia e no físico. Para o entrevistado D o espaço do grupo era para trabalhar temáticas recorrentes da idade dos jovens e a reflexão do próprio ato e perspectivas para o futuro. Na instituição do entrevistado B era possível se trabalhar com filmes seguidos de discussão e também, às vezes convidavam profissionais para conduzirem um bate papo sobre suas experiência de trabalho. As reuniões de equipe visam discutir e refletir os casos. Devem ser espaços de aprendizagem, de articulação das estratégias, de superação de impasses vividos individualmente ou pelas equipes, um momento de elaboração dos sentimentos que podem ter 28 mobilizados os profissionais. (CREPOP/CFP, 2009). Pela fala do entrevistado B, vemos que este objetivo foi cumprido em sua instituição: Minha equipe era maravilhosa. Na verdade, mudou bastante, mas sempre foi muito boa. A gerente era muito exigente, mas ela era ótima, era carinhosa, ela sabia como acolher. (...) você atende 20 adolescentes que tem o vínculo familiar rompido, mexe com drogas, no tráfico. Às vezes precisávamos de um acolhimento, somos seres humanos. Então, quando alguém precisava chorar tinha um acolhimento da equipe. As instituições, tanto em meio aberto quanto fechado, geralmente oferecem oficinas e/ou cursos para os adolescentes no contra-turno escolar que visam a profissionalização e ressocialização. Como exemplo, podemos citar o que o entrevistado D trouxe de sua instituição, “Tinha futebol, artesanato, cursos de informática, eletricidade, teve de cabeleireiro, depende do momento.” Tais atividades, geralmente são realizadas por ONGS parceiras dentro da Unidade, como afirma o entrevistado C. No meio aberto, é também oferecido tais atividades, porém, podemos perceber pela fala dos entrevistados A e B que há uma dificuldade em fazer com que os jovens participem. O extécnico B conta que era feito um planejamento com os próprios adolescentes, eles tinham a oportunidade de sugerir o que gostariam de fazer como atividades, entretanto, com o tempo se desestimulavam e deixavam de ir. Para o ex-técnico, “eles não conseguem criar uma rotina, um vínculo”. Sendo assim, a participação dos adolescentes em tais atividades deve ser fundamental no processo socioeducativo. Os técnicos devem organizar sua rotina levando em conta a rotina dos jovens também. Cuidar para que o atendimento que fazem não prejudique a participação deles em outras atividades, mas justamente trabalhar com o incentivo para o envolvimento deles. O entrevistado A levanta uma crítica às atividades propostas para o adolescente, dizendo que não são eficazes e que não são interessantes para a realidade do jovem, sendo assim, definitivamente ele não irá aderir, por isso não sente vontade em incentivar os jovens a participarem. Isso mostra que o objetivo das atividades não tem sido contemplado pelos técnicos e pela própria organização da atividade. O entrevistado C conta uma experiência de trabalho com a conscientização sobre o que é educação, pois, assim como o cumprimento da medida, freqüentar a escola é algo obrigatório. Isto faz com que os adolescentes tenham uma visão negativa, pois não vêem e/ou muitas vezes desconhecem os objetivos propostos por tal instituição e sua importância, fazendo com que associem o freqüentar a escola e o cumprimento da medida com uma forma de castigo. 3.2. A atuação do técnico 29 Trabalhar como técnico na aplicação das medidas socioeducativas, para os ex-técnicos, é visto como um desafio, algo que exige dedicação e certa paixão. É preciso querer estar ali, querer acompanhar o jovem, ter que entender a proposta socioeducativa e é preciso acreditar no trabalho. A forma como o profissional irá enfrentar esse desafio inicial será norteador para sua atuação. Atender o adolescente, neste sentido, para o entrevistado D é entrar em um “campo minado”, pois, buscar conhecer a história do jovem é um tanto quanto delicado, onde envolve em ambos os lados, aceitação e quebra de barreiras. “Com essa relação, bem firmada a gente consegue passar confiança para trabalhar o processo de transformação, entender seu medo, suas frustrações, administrar seus conflitos pessoais, familiares, entender que ele tem responsabilidade no processo”. (Entrevistado D) Se o técnico se dispõe a acompanhar o jovem, deixando de lado seus preconceitos e ideologias e olha para o adolescente além do ato cometido, enxergando-o como um sujeito de direitos, o trabalho poderá ser eficaz. Para Teixeira (2006) não há projeto que seja eficiente se o processo educativo não for baseado em uma relação amorosa entre educador e educando, é preciso um investimento na relação. O entrevistado B quando diz sobre os aspectos positivos da MSE cita que mesmo sendo difícil, consegue perceber que uma semente é plantada quando se tem uma maior aproximação com o jovem, quando consegue estabelecer um vínculo que seja produtivo. É preciso acreditar na mudança proposta pela medida e fortalecer no adolescente a relação dele com o outro, propiciando um vínculo significativo, de confiança. De acordo com os entrevistados, é preciso que todos compreendam o objetivo socioeducativo, tanto técnicos, agentes, família e a sociedade em geral, para que a proposta seja cumprida de forma efetiva. Se os agentes socioeducativos que atuam de forma direta ou indireta com a aplicação da medida, como destaca o entrevistado D, não entendem o objetivo socioeducativo, toda tentativa de um processo socioeducativo será em vão e passará a perpetuar a negação de direitos do adolescente. Tais profissionais estão previstos no SINASE (SDEH/CONANDA, 2006), como uma equipe técnica com perfil capaz de atender e acompanhar o adolescente e sua família, assim como os funcionários envolvidos. Essa equipe geralmente é formada por profissionais da psicologia, assistentes sociais e às vezes, pedagogos, porém, conforme a fala do ex-técnico B quando questionado sobre as atividades de cada profissional: “a atividade era a mesma, é a função do técnico, atender o adolescente e família.” De fato, não há no SINASE uma diferenciação do trabalho da Psicologia e da Assistência Social e a legitimação de suas especificidades, pois tudo se concentra no papel do técnico. Os técnicos, apesar de não terem uma distinção de trabalho na aplicação da medida, atuam da forma que lhes é mais específica 30 e adequada de acordo com seu conhecimento, como vemos nas falas dos entrevistados A e D que destacam essas diferenças de atuação do profissional da psicologia e do assistente social. O psicólogo conversava, procurava aconselhar, uma relação mais humana com a história dos adolescentes. O assistente social já tem mais a pegada de construção de rede de direitos, mostrar os direitos que a família tem (...). O assistente social tem um olhar mais politizado da coisa. (Entrevistado A); O Assistente social fica mais com as questões da família, da casa, como vivia. Fazer uma entrevista familiar para que pudesse ver questão social, de moradia, bolsa família. O psicólogo trabalhava mais as questões afetivas, emocionais, o processo de sofrimento, perda, luto, mais especificamente com os adolescentes. (Entrevistado D) Sendo assim, buscam abranger diferentes áreas, fazendo com que o adolescente seja suprido no âmbito social, emocional e educacional, com as diferentes áreas profissionais. Com isto, o trabalho multidisciplinar torna-se imprescindível, pois como prevê o SINASE (SDEH/CONANDA, 2006), as diferentes áreas do conhecimento são importantes e igualmente complementares no atendimento integral do adolescente. Porém, como vemos, não há uma delimitação do espaço onde cada profissional possa atuar de forma específica e isto muitas vezes pode acabar prejudicando o processo e atuação do profissional. Além disso, para o entrevistado B, a relação entre os profissionais muitas vezes é complicada, porque a linguagem é diferente, mas quando há um entendimento o trabalho flui de forma satisfatória. O ex-técnico D conta que geralmente atendia junto com o assistente social e às vezes sozinho em casos mais específicos que exigiam a ação de um profissional da psicologia. Porém, muitas vezes atendiam separados não por este motivo, mas pelo grande número de atendimentos que tinham para fazer. Sendo assim, buscavam otimizar o tempo se dividindo para que, enquanto um atendesse o outro pudesse elaborar seus relatórios. No SINASE (SDEH/CONANDA, 2006) consta que os profissionais e adolescentes das unidades e programas de atendimento formam a comunidade socioeducativa. Dentro disso, a equipe técnica multidisciplinar deve promover encontros sistemáticos, guiando-se pelo projeto pedagógico do programa de atendimento e são pessoas responsáveis pelo acompanhamento qualitativo do adolescente no cumprimento da medida. Segundo o documento do Crepop/CFP (2009), a compreensão do trabalho do psicólogo aparece como um desafio e dificuldade e que isto limita as possibilidades de autonomia e de um trabalho mais crítico. Além disso, os psicólogos que compõe o documento do Crepop/CFP (2009) acreditam que a psicologia poderia ser mais eficaz se atuasse com a proposta de promover a saúde mental do adolescente, resignificando a vida em seu processo de educação social e garantia dos direitos. 31 3.3. Os desafios 3.3.1. Socioeducativo x Punitivo Um ponto comum presente no discurso de todos os entrevistados é o questionamento da obrigação da medida. Para o entrevistado C isto é prejudicial, pois o adolescente já vem com o pensamento de ter feito algo errado e precisa pagar pelo que fez, então, neste sentido, o papel do técnico é resignificar isto no jovem. Esta idéia também é trazida pelo entrevistado D afirmando que o técnico precisa “desconstruir algumas falas dentro da turbulência que os adolescentes estão vivendo ali”. Meneses (2008), diz que não tem como o jovem entender claramente a finalidade da medida se ele souber que está cumprindo somente por ter cometido um ato infracional. É preciso que as causas estejam claras para que os fins sejam compreendidos. Se o adolescente a recebe sem esclarecimento, irá vê-la como uma punição, apenas entendendo que terá de cumpri-la como pena pelo cometimento do ato infracional. Segundo Campos e Francischini (2005), a medida possui um duplo caráter, a punição, ou melhor, o reparo e a criação de condições para que não haja reincidência, ou seja, resignificar os padrões de socialização. Sendo assim, uma medida que se propõe a ser denominada de socioeducativa como resposta a uma transgressão do ordenamento jurídico, expressa mudanças na conscientização da conservação da integridade da vida, assim como de um patrimônio público. (CAMPOS e FRANCISCHINI, 2005) Para a entrevistada B, essa mudança significa proporcionar novas oportunidades ao adolescente, pois, o ato foi cometido uma vez que o jovem não teve oportunidades de conhecer o que ela chama de diferente. Visto como já foi dito na categoria de Vulnerabilidade Social, ele apenas reproduz o que vê de seu contexto. Sobre a medida de internação, Sposato (2004) levanta o princípio da incompletude institucional que está ligada a contraposição às instituições totais. Se a instituição traz para dentro da unidade todos os recursos e serviços básicos que os adolescentes têm direito, não contribui para a reinserção social do jovem na comunidade. O entrevistado A conta que quando o jovem chega para o atendimento em Liberdade Assistida, ele vem com o que chama de “educação de CASA”. “(...) chegam de cabeça baixa, mão pra trás, falam ‘sim senhor’, com o tempo que eles vão criando confiança, entendendo que ali é diferente.” Como o adolescente passa por um período de tempo dentro da Unidade de internação, quando sai, ainda traz resquícios de sua estada. Meneses (2008) diz que a privação de liberdade não tem finalidade educativa, pois uma contenção que priva a liberdade só tem sentido se juntamente proporcionar convivência com o estudo e trabalho, meios que podem contribuir para a 32 construção da cidadania. Sendo assim, a proposta socioeducativa só é válida se o jovem tiver a possibilidade de conviver fora da instituição para que possa colocar em prática sua cidadania. Sposato (2004) diz que é preciso estar claro que a segregação é apenas uma forma de condição para a aplicação da medida socioeducativa, não um fim em si mesmo. A privação da liberdade não é, ou não deveria ser uma punição em si, mas um meio para que a medida possa vir a intervir na vida do adolescente. Deste modo, as políticas de educação, saúde, trabalho, cultura, esporte, segurança pública e justiça, devem atuar de forma articulada e integrada, evitando que as medidas de internação não se caracterizem como instituições totais. O entrevistado D conta que em sua instituição esporadicamente aconteciam visitas externas com o grupo. Porém tais visitas não faziam com que os jovens pudessem conviver socialmente. Quando o jovem sai da internação, entra em um processo de ressocialização e sobre isto o entrevistado D ressalta a importância da rede, para que haja a continuidade do processo com o adolescente, para não ocorrência da reincidência. Todos os entrevistados citam a importância da ampliação do acesso do adolescente a direitos referentes à vida, educação, comunidade e etc. Pois, é a partir dessas novas possibilidades, que o jovem poderá ter uma opção de escolha além do cometimento do ato infracional. Para Sequeira et. al. (2009), a medida deve desenvolver outras possibilidades que ampliem o repertório do jovem para lidar com situações que exigiriam dele uma competência social para obter sucesso. 3.3.2. O preconceito Outro grande desafio inicial da atuação do técnico exposto pelos entrevistados é a questão do preconceito de outras instâncias institucionais e da sociedade no geral. Os entrevistados D e B citam com mais ênfase a questão do olhar julgador da sociedade para o adolescente, definindo-os como bandidos, pois isto perpetua uma visão distorcida do jovem e influencia no trabalho de conscientização que a medida se propõe. O ex-técnico D conta que “Muitas vezes eles já chegavam no camburão da polícia e já vinha naquela parte de trás, algemados, aos gritos e eles estigmatizados”. Para o entrevistado D este é o ponto negativo das medidas, ter pessoas despreparadas, com uma mentalidade carcerária e que não estão ali cientes do processo socioeducativo, que é uma educação para a cidadania. O entrevistado B conta que muitas pessoas julgam ser um trabalho fácil, por acharem que se deve apenas julgar e punir, mas não entendem que é preciso entender que algo aconteceu no processo de vida do jovem para que ele cometesse um ato em conflito com a lei. 33 Para Sposato (2004), os profissionais que atuam nesta área devem se ater aos preconceitos existentes que envolvem o adolescente em conflito com a lei e assim, se desvencilhar dele. O técnico deve buscar formas de valorização do adolescente em relação a si e o outro, não permitindo que os rótulos, como por exemplo, de infrator, sejam impedimento para sua reeducação social. É preciso que o adolescente seja desassociado de uma imagem negativa para que assim possa ter motivação para a mudança e poder se ver como parte da comunidade em que vive. 3.3.3. A falta de investimento Pôde-se constatar nas entrevistas, sobre a questão da falta de investimento para o trabalho da aplicação das medidas socioeducativas, que o número dos jovens atendidos é maior que o esperado e geralmente as ONGs que mantêm esses projetos não investem o suficiente na alimentação, material, oficinas, etc. No SINASE (SDEH/CONANDA, 2006), vemos que a implementação das MSE deve estar pautada nos princípios dos direitos humanos que consagraram alguns valores que garantem a todo e qualquer ser humano seu direito de pessoa humana. Sendo assim, a MSE funciona diretamente ligada à garantia de direitos. Além disso, vemos também que esta falta de recurso não está apenas nos locais de aplicação da Medida, mas em toda a rede. Nas falas aparece a precariedade na educação, falta de apoio do Conselho Tutelar, da área da saúde, etc. O entrevistado B coloca isso como algo desmotivador do trabalho, pois muitas vezes não vê apoio de outros equipamentos, deixando assim o trabalho “emperrado”. Os entrevistados, sobre este ponto, dizem que é preciso mudar aquilo que está além, a concepção da sociedade, a condição socioeconômica e a realidade que eles convivem, pois o fator social tem sido um aspecto negativo da medida, segundo entrevistado B. Este mesmo entrevistado, conta o caso de dois jovens que se mostraram dispostos a deixarem de ser usuários de drogas, mas para isso precisariam de um tratamento em alguma clínica de recuperação. De acordo com o entrevistado B, isto não pôde ser providenciado, pois demoraria muito até que tudo fosse devidamente resolvido, “(...) até passar por todo o processo, era mais de mês e isso é uma coisa que tem que ser imediata, porque é o momento que ele quer sair dessa, não pode pedir pra esperar”. Com isto, sua fala se concluiu apontando que “(...) tem que ser melhor estruturado, no SINASE é tudo muito bonito, mas não é real. E também não adianta o profissional ser bom, ele não trabalha sozinho”. De fato, se as instituições de aplicação da medida fossem suficientemente boas, ainda sim não seria suficiente para que houvesse o melhor trabalho, pois é importante que toda a rede pública 34 esteja bem preparada com melhor investimento, uma vez que o jovem não convive somente dentro da instituição. Isto vale tanto para as instituições de meio aberto quanto fechado. Vale também ressaltar que dois dos entrevistados deixaram o trabalho como técnico devido um atraso significativo de salário. Sendo isto mais um exemplo da falta de investimento das instituições na área das medidas socioeducativas. Um ponto semelhante nas entrevistas é a sobrecarga de atendimentos, pois muitas vezes o número de adolescentes atendidos é maior que o esperado. Sendo assim, há uma dificuldade para se dedicar aos casos, uma vez que os técnicos acabam se dividindo para conseguirem cumprir todos os atendimentos e ainda conseguirem elaborar todos os relatórios exigidos do técnico, deixando assim o trabalho em equipe apenas para os casos, considerados por eles, mais graves. Vale ressaltar que de acordo com o SINASE (SDEH/CONANDA, 2006) a equipe mínima deve ser composta por um técnico para cada vinte adolescentes, porém como o entrevistado A relatou, há ocasiões em que é preciso atender até 40 jovens e o entrevistado B diz que na verdade, toda a rede deveria ser melhor estruturada e que esta estrutura deveria ser maior. Segundo o Crepop/CFP (2009), os profissionais atuantes nesta área enfrentam desafios para a realização do trabalho, porém tem se desenvolvido uma prática profissional ativa que busca atender o jovem de forma integral e a grande demanda de trabalho. Há um acúmulo de trabalho, muitos adolescentes, poucos técnicos. 3.3.4. A capacitação dos técnicos O entrevistado A quando questionado sobre a capacitação dos técnicos, diz claramente que não há um investimento nisso da SMADS. Ele critica a portaria que prevê o investimento financeiro nesta área, dizendo que o valor diminuiu de um ano para o outro e este é o maior problema do funcionamento eficaz da medida, não ter condições e recursos para que ocorra como é previsto. O entrevistado C coloca como uma das causas para o ato infracional a falta de políticas públicas para a juventude, pois, para ele a medida socioeducativa é paliativa, mas não é suficiente para a demanda existente. Ele cita, por exemplo, a existência de poucos projetos específicos para atender jovens com a faixa etária dos 15 aos 18 anos. Segundo Volpi (2006), a aplicação das medidas não pode e não deve ocorrer isolada do contexto, social, econômico e político que envolve o adolescente. Mas, é necessário que os direitos do adolescente sejam assegurados com absoluta prioridade por políticas públicas pelo Estado, para que assim, seja possível, a redução da prática dos atos infracionais. Dentro dos parâmetros da gestão pedagógica no atendimento socioeducativo, sobre os recursos humanos, previstos no SINASE, os programas de atendimento que executam as 35 medidas socioeducativas deverão proporcionar formação e capacitação continuada específica para o trabalho. A primeira ação que deve ser oportunizada pelo programa é a capacitação introdutória, que é anterior à inserção do funcionário ao sistema. Neste momento, serão introduzidos os princípios legais e éticos da comunidade educativa, assim como o projeto pedagógico, para conhecimento do profissional. Este primeiro contato é muito importante para a execução do trabalho, uma vez que é quando o técnico poderá compreender os objetivos e, assim, direcionar sua atuação. O entrevistado C cita que quando entrou para o trabalho, em meio fechado, participou de um “centro de formação”, que falava sobre a instituição e alguns assuntos específicos para ajudar no trabalho. Porém, nas outras falas, vemos que há uma queixa sobre os muitos profissionais que entram sem a real compreensão do que é a medida socioeducativa, mostrando que há uma falha nesta fase de capacitação inicial. E que também, os entrevistados A e B conheceram melhor o trabalho após iniciativa própria de pesquisarem sobre as medidas socioeducativas. Entretanto, segundo Sposato (2004), o treinamento inicial, que é extremamente importante ser dado antes do profissional interagir com o jovem, não elimina a igual importância de um treinamento constante. Por isto, o SINASE (SDEH/CONANDA, 2006) propõe também uma formação continuada, que prevê a atualização e aperfeiçoamento, a partir das experiências vividas dos profissionais, para que haja uma melhora da qualidade dos serviços. Para o entrevistado A, isto não acontece. Segundo ele, não há um manual e apoio externo neste sentido, “nós vamos descobrindo o que tem que ser feito fazendo”. Para o entrevistado B estes treinamentos eram dados pelo CRAS ou SMADS, sendo assim, dividiamse entre os técnicos para comparecerem. Ou, como conta os ex-técnicos B, C e D, também havia uma organização interna dos técnicos para a discussão de algum tema específico, ou convidavam outro profissional de fora, porém experiente na área, para instrumentalizá-los mais. Na visão dos entrevistados, o trabalho do técnico é imprescindível e é por isso que se faz necessário haver uma formação continuada. Isto é fundamental para o aperfeiçoamento e evolução das práticas que, infelizmente, ainda são muito marcadas por uma mentalidade assistencialista e repressora. O técnico deve estar ciente de sua função e tomar cuidado com o valor que irá depositar neste trabalho, uma vez que, como o entrevistado C disse sobre a importância do técnico, é uma atuação onde os resultados esperados vão além do financeiro. Providenciar essa formação continuada aos técnicos deveria ser algo imprescindível e essencial no trabalho, pois se deparam diariamente com diversos temas que “exigem capacitação técnica, humana permanente e contínua considerando, sobretudo o conteúdo 36 relacionado aos direitos humanos”. (SDEH/CONANDA, 2006, p.51) Porém, pode-se observar pelas falas que é apenas um recurso pouco efetivo e valorizado. Quando os entrevistados se referem ao aprendizado que tiveram mencionam a própria prática deles, em seus erros, acertos e troca de experiências com os colegas de trabalho. É claro que aprenderão com a prática, porém nenhum deles citou um aprendizado por meio de um treinamento ou palestra que lhe foi oferecido. Assim, como uma das falas do entrevistado A, citada acima, parece que a única forma que os técnicos têm tido para aprenderem a fazer o trabalho é fazendo. Vangrelino (2004) enfatiza a importância de existir uma constante ação de reflexão da prática cotidiana dos técnicos, pois é na relação do dia a dia que os conflitos aparecem. A autora destaca a importância de um investimento na formação dos técnicos, pois o técnico passa a atuar com o objetivo de proporcionar uma transformação social, por meio da educação em uma instituição que pouco caracteriza isto. Também, o preparo acadêmico dos profissionais está aquém da prática e postura exigida para o trabalho com crianças e adolescentes neste contexto. Além disso, faz-se necessário também a existência de um espaço onde os técnicos possam expor suas dificuldades e conflitos da prática cotidiana. Para isto, o SINASE (SDEH/CONANDA, 2006) estabelece também a existência de uma supervisão externa e/ou acompanhamento das unidades e/ou programas. A sugestão é que seja coordenada por algum especialista de fora da instituição, com o objetivo de promover os princípios ético-políticos da comunidade socioeducativa. Quanto a isso, vemos em uma das falas do entrevistado A, o que pode ser considerada uma tentativa de tal proposta. O ex-técnico conta que em uma época de sua atuação, acontecia uma “terapia de grupo”. Porém, esta terapia ocorria no horário de trabalho, o que possivelmente prejudicava outras atividades e, para ele, era algo desinteressante e sem propósito. Sendo assim, decidiu parar de freqüentar e posteriormente todos os técnicos também desistiram. Esta proposta, nesta instituição, talvez não tenha sido bem organizada, nem bem apresentada aos técnicos que pareceram desconhecer o objetivo, provocando assim uma baixa adesão a atividade grupal. O ex-técnico B relata que em um período, um dos profissionais da instituição que conhecia a técnica da Yoga, levava alguns exercícios para o grupo. Sobre haver um espaço para expor as dificuldades da prática cotidiana, o entrevistado B conta que isto acontecia durante as reuniões de equipe. A falta de capacitação, para o entrevistado D, se reflete na mentalidade carcerária que vê em alguns agentes chamados socioeducativos. Porém, esta mentalidade é totalmente distinta do fim social a que se propõe as medidas socioeducativas. Como afirma Volpi (2006), 37 a experiência tem mostrado que muitos dos que atuam nesta área não possuem nenhum conteúdo pedagógico para a formação de cidadania. Sendo assim, podemos perceber que aquilo o que está previsto no SINASE (SDEH/CONANDA, 2006), não tem funcionado de forma efetiva nas instituições, os profissionais não tem sido devidamente capacitados, o que acaba prejudicando o real funcionamento da medida socioeducativa e a atuação dos técnicos. Como disse o entrevistado C, quando questionado sobre o aspecto negativo da medida: “De negativo, eu não sei se posso dizer, até porque o ECA e o SINASE são bem bonitos, mas não foram executados. Ainda não funcionam de fato, não posso dizer se é ruim, quando funcionar eu avalio”. Sendo assim, vemos que há muitos desafios para a atuação do profissional, como a sobrecarga de atendimentos, o preconceito e estigma para com o adolescente, tanto dos próprios técnicos quanto daqueles que compõem a comunidade que o jovem vive. E também a falta de recursos e investimento para que haja a real efetividade da proposta socioeducativa, uma vez que a MSE deve ser executada por toda a comunidade socioeducativa, composta, segundo o SINASE (SDEH/CONANDA, 2006), pelos profissionais, adolescentes das Unidades e a rede externa, além de ser responsabilidade do Estado. 3.4. A proposta socioeducativa Os ex-técnicos mostram que o que está previsto por trás das medidas socioeducativas, na prática não acontece. Pode-se observar que os entrevistados conhecem a proposta socioeducativa da MSE, que segundo o SINASE (SDEH/CONANDA, 2006) possui uma natureza sócio-pedagógica. Isto deve proporcionar ao adolescente uma formação de cidadão autônomo e solidário, desenvolvendo a capacidade de relacionamento consigo e com os outros, resignificando valores e potencializando sua participação na vida social, porém, em contrapartida se vêem impossibilitados de cumprirem, de fato, tal proposta. Vemos isto em uma das respostas do entrevistado D: O nosso papel, que é socioeducativo, é tentar reeducá-lo [o adolescente] para voltar ao convívio social, para que ele possa respeitar o cidadão e ser um cidadão de bem. Agora se ele chega aqui, você subjuga, violenta em todos os sentidos, você vai esperar o quê dele? Que ele vai voltar para a sociedade pra fazer o quê? Se ele está sendo tratado com ódio, com preconceito. Para o entrevistado D, alguns profissionais que atuam nesta área não têm consciência da proposta socioeducativa, e acabam penalizando os jovens de forma violenta e por isso, 38 cumprir o objetivo da medida torna-se inatingível, uma vez que nem todos os técnicos o compreendem. Quando é perguntado ao entrevistado A sobre os trabalhos de prevenção, ele diz que não há efetividade, pois, para ele, a medida socioeducativa é uma coerção. Os adolescentes não se envolvem nas atividades, pois o que é oferecido não condiz com o contexto deles, nem com a proposta socioeducativa, tornando algo punitivo para aqueles que estão em cumprimento da MSE. Quando o mesmo ex-técnico é questionado sobre sua opinião a respeito do que pode ser feito para que ocorra maior adesão do jovem ao cumprimento da MSE, é respondido que haja a extinção dela. Ele prossegue com a resposta afirmando o quanto é um assunto complicado, por ser algo obrigatório. Segundo Volpi (2006), o trabalho educativo na medida deve proporcionar um espaço para que o adolescente possa refletir sobre os motivos que o levaram a praticar o ato infracional, sem que o foco esteja no ato em si. Este trabalho deve contribuir para o projeto de vida do jovem, dando novos significados à vida, assim como a educação para o exercício da cidadania. Assim, a punição presente na MSE vem da forma como este espaço tem sido oferecido aos jovens. Em uma das falas do ex-técnico C, podemos constatar sua descrença quanto a eficácia da medida pela maneira que é feita. A medida socioeducativa é eficaz, mas a forma como é feita não ajuda muito, tem que pensar como vamos adotar essa prática, para fortalecer, saber divulgar o trabalho e quebrar o preconceito. (...) o ECA e o SINASE, são bem bonitos, mas não foram executados, ainda não funcionam de fato, não posso dizer se é ruim, quando funcionar eu avalio. (Entrevistado C) De acordo com a fala acima, vemos que a MSE e todos os princípios que a fundamenta se executados verdadeiramente, trariam resultados positivos, porém a forma como é executada não tem sido satisfatória. Sendo assim, o que falta para que tudo funcione na prática e saia da teoria? Executá-la do jeito que está previsto na Lei seria a resposta? O que impede que isto aconteça? Segundo o documento do CFP - Referências técnicas para atuação de psicólogos no âmbito das medidas socioeducativas em unidades de internação - o atendimento de adolescentes autores de ato infracional é responsabilidade do Estado e da sociedade, envolvendo assim todas as políticas públicas deste contexto. Porém, a qualidade do atendimento e o que ocorre no interior das unidades é de responsabilidade dos profissionais que lá atuam. Xaud (2005) diz que a prática não se muda devido a inércia do sistema, porém, 39 o sistema não se transforma, por causa da desmotivação do corpo técnico. Cumprir o objetivo socioeducativo da MSE é papel do técnico. Vemos que existem desafios para que o cumprimento seja efetivo, porém, vemos que os técnicos muitas vezes não assumem seu papel de agente socioeducativo, ficando passivos à fatores externos que prejudicam o objetivo de formar cidadãos. O profissional que atua neste contexto deve promover o adolescente socialmente, fortalecendo seu vínculo social, familiar, além de ajudá-lo a exercer sua cidadania e proporcionar sua inclusão educacional. Não só deve executar tais funções técnicas, como estabelecer um atendimento humanizado, vincular-se ao adolescente de modo a enxergá-lo além do ato infracional e sua condição de vida. 40 V. CONSIDERAÇÕES FINAIS Pra fazer diferença não basta ser diferente. De que modo eu mudo a história? Com discurso ou com ação? (...) O que na verdade somos? O que você vê quando me vê? Se o mundo ainda é mau o culpado está diante do espelho. (Fruto Sagrado) A presente pesquisa buscou compreender o papel do técnico no cumprimento das Medidas Socioeducativas, dentro de um contexto onde as políticas que atendem crianças e adolescentes em conflito com a lei sofrem uma transformação ao longo da história, principalmente após a promulgação do ECA, em 1990. Desde então, conceitos foram transformados e questionados, exigindo uma nova postura e dedicação na construção desse novo fazer, que é base para a prática da aplicação das medidas socioeducativas. Sendo assim, considera-se que a humanização do atendimento socioeducativo pode gerar uma maior vinculação do jovem para com o técnico e consequentemente maior adesão e diminuição da reincidência destes. Com a discussão teórica dentro dessa área de intervenção, pudemos constatar que o papel do técnico certamente está além do que é previsto no SINASE ou qualquer outro manual. É um trabalho que exige não somente um conhecimento teórico, como se faz importante ter uma capacitação continuada, assim como, a sensibilização diária para com os jovens em desenvolvimento e sua história de vida. O técnico deve ser constantemente capacitado para que saiba lidar com os diversos fatores que envolvem o contexto do jovem que cometeu um ato infracional. É importante que o técnico, em relação à família tenha sensibilidade, não faça julgamentos moralistas e a enxergando como responsável pelo ato infracional cometido pelo adolescente, mas como uma parceria para que haja a efetivação do trabalho socioeducativo. Deve-se buscar reconhecer as potencialidades existentes nela, encorajando-a e mostrando-se disposto a trabalhar de forma conjunta, para que assim, a família possa se empoderar de seu papel, não somente por medo da determinação judicial, mas pela consciência de sua importância e capacidade de influência do adolescente no processo socioeducativo. O papel do técnico neste sentido não é ensinar a família como deve ser seu modo de funcionamento, mas, levar em consideração a intromissão da ordem judicial no contexto familiar e a influência dos primeiros cuidadores, para que possa ajudá-los a restaurarem suas redes sociais, promovendo a inclusão social. 41 O contexto social, muitas vezes marcado pela negação de alguns direitos básicos como a educação, alimentação, convívio familiar, que caracterizam um estado de vulnerabilidade social, também é um campo que se faz necessária a atenção do técnico. O contexto social, muitas vezes marcado pela negação de direitos básicos caracteriza um estado de vulnerabilidade social; e essa situação leva o jovem ao ato infracional; tanto pelo reconhecimento obtido por meio de insígnias como objetos valorizados pela sociedade do consumo, como tênis, roupas de marca e celulares quanto pela pertença a um grupo que o reconhece como parte dele De acordo com os entrevistados, é preciso que todos compreendam o objetivo socioeducativo, tanto técnicos, agentes, família e a sociedade em geral, para que a proposta seja cumprida de forma efetiva. Deve haver a consciência do conceito de socioeducativo e não apenas a concepção da punição, para que a visão distorcida do jovem, bem como da sociedade, não influencie no trabalho que a medida se propõe. Sendo assim, o tema socioeducativo é uma questão que deve ser trabalhada também e, principalmente, nos profissionais que atuam de forma direta ou indireta com a aplicação da medida. Vimos que há muitos desafios para a atuação do profissional, como a sobrecarga de atendimentos, o preconceito e estigma para com o adolescente, tanto dos próprios técnicos quanto daqueles que compõem a comunidade que o jovem vive. Sendo assim, podemos perceber que aquilo que está previsto no SINASE, não tem funcionado de forma efetiva nas instituições. Os profissionais não têm sido devidamente capacitados, o que acaba prejudicando o real funcionamento da medida socioeducativa e a atuação dos técnicos. Mas não somente isso, os técnicos muitas vezes não assumem seu papel de agente socioeducativo, ficando passivos à fatores externos que prejudicam o objetivo de formar cidadãos. Em suma, conclui-se que papel do técnico é focalizar o jovem além do ato infracional e além de sua condição de vida. Como fazer isso? É essencial a formação continuada, a consciência da proposta socioeducativa e mais do que isso, o profissional se ver como um agente ativo de transformação. Se o técnico está ali para aplicar a medida e a medida exige que os direitos básicos do adolescente sejam garantidos, o técnico pode e deve lutar para que a essa realidade mude. Não apenas ser espectador da vulnerabilidade social que envolve o adolescente no aspecto individual e social. O técnico deveria ser a personificação da teoria que compõe o SINASE, assim como toda a sociedade deveria ser do ECA, colocar em prática o que está na teoria. Se todos se conscientizassem de seu papel como cidadão de direitos e deveres, a proposta socioeducativa funcionaria de fato, ou até não seria necessária, uma vez que este é o 42 objetivo dela, formar cidadãos. É preciso, então, esperar que todos os outros comecem a se tornar cidadãos? 43 VI. REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa, Ed. 70, 2000 BERNARDI, D. C. F. Histórico da inserção do profissional psicólogo no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. In: BRITO, L. (org). Temas de Psicologia Jurídica. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1999, p.103-132. BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente: Lei Federal nº 8069, de 13 de julho de 1990. 7 ed. Brasília: Edições Câmara, 2010. CASTRO, A. L. S. Os adolescentes em conflito com a lei. In: CFP - Conselho Federal de Psicologia. Adolescência e Psicologia: Concepções, práticas e reflexões críticas. Rio de janeiro: CFP, 2002. p.122-129. Disponível em: http://site.cfp.org.br/wp- content/uploads/2008/01/adolescencia1.pdf . Acesso em 27/10/2012. CAMPOS, H. R., FRANCISCHINI, R. Adolescente em conflito com a lei e medidas socioeducativas: Limites e (im)possibilidades. In: PSICO, v. 36, n. 3, Porto Alegre: Pontifica Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2005. p. 267-273. CFP - Conselho Federal de Psicologia. A prática profissional dos(as) psicólogos(as) no campo das medidas socioeducativas em meio aberto. Brasília: CFP, 2009. Disponível em: http://crepop.pol.org.br/novo/wp-content/uploads/2012/10/Atuacao-dasos-Psicologasos-emProgramas-de-Medidas-Socioeducativas-em-Meio-Aberto.pdf Acesso em 25/05/2012. CFP - Conselho Federal de Psicologia. Referências técnicas para atuação de psicólogos no âmbito das medidas socioeducativas em unidades de internação. Brasília: CFP, 2010. Disponível em: http://crepop.pol.org.br/novo/wp- content/uploads/2010/11/Doc_Ref_MSE_UI.pdf Acesso em 25/05/2012. FAJARDO, S. P. Retórica e realidade dos direitos da criança no Brasil. In: NAHRA, C., BRAGAGLIA, M. Conselho Tutelar: Gênese, Dinâmica e Tendências. Canoas: Ed. ULBRA, 2002. p. 41-70. 44 FREITAS, T. P. Serviço Social e medidas socioeducativas: O trabalho na perspectiva da garantia de direitos. Serviço Social e Socioeducacional, São Paulo, n.105, 2011, Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-66282011000100003&script=sci_arttext> Acesso em 25/04/2012. GALLO, A. E. Atuação do psicólogo com adolescentes em conflito com a lei: a experiência do Canadá. Estudos em Psicologia. v.13, n.2 Maringá abr./jun. 2008. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=S1413-7372200800200015&lng=pt&nrm=iso> Acesso em 23/03/2012. GOMES, M. A., PEREIRA, M. L. D. Família em situação de vulnerabilidade social: Uma questão de políticas pública. In: Ciência e saúde coletiva, v. 10, n.002. Associação Brasileira de Pós Graduação em Saúde Coletiva. Rio de Janeiro, Brasil, 2005. p. 357-363. Disponível em: http://redalyc.uaemex.mx/pdf/630/63010210.pdf. Acesso em 17/09/2012 GUIRADO, M. Em instituições para adolescentes em conflito com a lei, o que pode a nossa vã psicologia? In: GONÇALVES, H. & BRANDÃO, E. P. Psicologia Jurídica no Brasil. Rio de Janeiro: Nau, 2005, p. 249-276. JACÓ-VILELA, A. M. Os primórdios da psicologia jurídica. In: BRITO, L. (org). Temas de Psicologia Jurídica. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1999, p. 11-18. KEHL, M. R. Visibilidade e espetáculo. In: BUCCI, E.; KEHL, M. R. Videologias: ensaios sobre televisão. São Paulo: Boitempo, 2004. p.141-161. LASCH, C. Refúgio num mundo sem coração. São Paulo: Paz e Terra, 1991. MENESES, E. R. Medidas socioeducativas: uma reflexão jurídico-pedagógica. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2008. MIRANDA JR. H.C. Psicologia e Justiça: a Psicologia e as Práticas Judiciárias na Construção do Ideal de Justiça. In: Psicologia: Ciência e Profissão, ano 18, nº 1, Minas Gerais, 1998, p. 28-37. 45 ROMANELLI, G. Autoridade e poder na família. In: CARVALHO, M. (Org.). A família contemporânea em debate. São Paulo, EDUC/Cortez. 2006. SANTOS, F. V. G. Família: Peça fundamental na ressocialização de adolescentes em conflito com a lei? Universidade Católica de Pernambuco, Recife, 2007. Disponível em: http://www.unicap.br/tede/tde_arquivos/1/TDE-2007-06-19T083950Z97/Publico/Fernanda%20Santos_confrontado.pdf. Acesso em 17/09/2012 SARTI, C. A. Família e individualidade: um problema moderno. In: A família contemporânea em debate. CARVALHO, M. C. B. (Org.) Ed. Cortez. São Paulo, 2006. SEDH - Secretaria Especial dos Direitos Humanos e CONANDA - Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. Sistema Nacional de Atendimento Sócioeducativo – SINASE. Brasília, 2006. SEQUEIRA, V.C.. Família: uma crítica ao discurso técnico sobre a família desestruturada. In: FARINA, A.A.de S., et al. Introdução à Psicologia do Cotidiano. São Paulo: Expressão e Arte Editora, 2007. SEQUEIRA, V. C. et al. Medidas Socieducativas: experiências significativas in BOGGIO, Paulo Sérgio; CAMPANHÃ, C. (Org.), Família, Gênero e Inclusão Social, São Paulo: Mennon, 2009, p. 120-133. SPOSATO, K. B. (org.) Guia Teórico e Prático de Medidas Socioeducativas. ILANUD Instituto Latino Americano das Nações Unidas para Prevenção do delito e tratamento do delinqüente; UNICEF - Fundo das Nações Unidas para a Infância. Brasil, 2004. Disponível em: http://www.direitosdacrianca.org.br/midiateca/publicacoes/guia-teorico-e-pratico-de- medidas-socioeducativas. Acesso em 17/09/2012. TAMASO C. M. O papel do psicólogo judiciário na justiça da infância e juventude In: Anais do III Congresso Ibero-Americano de Psicologia Jurídica, 1999, p. 95-99. 46 TEIXEIRA, M. L. T. Evitar o desperdício de vidas. In: ILANUD, SEDH, ABMP e UNFPA. Justiça, adolescente e ato infracional. 2006. p.427-448. Disponível <HTTP://www.ilanud.org.br/biblioteca/livros/justica-adolescente-e-ato-infracional. em: Acesso em 30/09/2012 VANGRELINO, A. C. S. Processos de formação de educadores sociais na área da infância e juventude. Dissertação – Centro de Educação e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Carlos. São Carlos, 2004. VILELA, A. M. J. Os primórdios da psicologia jurídica. In: Brito, L. M. T. (org). Temas de psicologia jurídica. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1999, pp. 11 – 18. VOLPI, M. O adolescente e o ato infracional. 3ª edição. São Paulo. Cortez. 1999 XAUD, G. M. B. Os desafios da intervenção psicológica na promoção de uma nova cultura de atendimento ao adolescente em conflito com a lei. In: BRITO L. (org). Temas de Psicologia Jurídica. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1999, p. 87-102. 47 VII. ANEXOS 48 ANEXO A Roteiro de entrevista semi-estruturada 1) Há quanto tempo trabalhou na instituição? 2) O que o motivou a trabalhar com a aplicação de medidas socieducativas? 3) Quais as causas do ato infracional? 4) Como fazer trabalhos de prevenção? 5) A instituição desenvolvia algum projeto nesse sentido. Você conhece algum projeto assim? 6) Qual o perfil do jovem em cumprimento de MSE? 7) Como era a rotina da local? 8) Como era formada a equipe? Quais as atividades e rotina dos profissionais? 9) Havia alguma atividade de aperfeiçoamento para e equipe técnica? 10) Quais as atividades que os jovens faziam dentro da instituição? E fora? 11) Como funcionava a parceria com outros equipamentos? Fale sobre a rede 12) Em sua opinião o que pode ser feito para que ocorra maior adesão do jovem ao cumprimento da MSE? 13) Em sua opinião, quais são os aspectos postivos e negativos da execução da medida? 14) Qual a relação da família com o jovem e com a instituição? Desenvolvia algum trabalho com familias? 15) Como você avalia o trabalho do técnico na MSE? Aspectos positivos e negativos. 16) Por que deixou o trabalho? E como esse trabalho te influenciou? 49 ANEXO B CARTA DE INFORMAÇÃO AO SUJEITO O presente trabalho tem como objetivo conhecer o papel do técnico no cumprimento das Medidas Socioeducativas. Os dados para o estudo serão coletados por meio de entrevistas semi-estruturadas, com os ex-técnicos das unidades de aplicação de MSE em meio aberto e fechado seguindo roteiro de perguntas que será conduzido pelos pesquisadores. Na instituição onde trabalha ou em outro local de preferência do colaborador. As entrevistas serão gravadas, utilizando-se um gravador de voz, para que se preserve a fidedignidade das respostas, se a instituição e o sujeito autorizarem. Todas as informações coletadas serão posteriormente analisadas, garantindo-se o sigilo absoluto sobre seu conteúdo e sendo resguardados os nomes dos participantes e da instituição, bem como a identificação do local da coleta de dados. Para tal, solicitamos a autorização do sujeito para a aplicação do instrumento de coleta de dados, garantindo que estes procedimentos não acarretarão riscos importantes, físicos e/ou psicológicos aos colaboradores e à instituição envolvida. Quaisquer dúvidas que existirem agora ou a qualquer momento poderão ser esclarecidas, bastando entrar em contato pelo telefone abaixo mencionado. De acordo com estes termos, favor assinar abaixo. Uma cópia deste documento ficará com o sujeito de pesquisa e outra com os pesquisadores. ________________________________ _____________________________ Nome e assinatura do pesquisador Orientadora Telefone para contato: TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Pelo presente instrumento, que atende às exigências legais, o(a) senhor(a) ________________________________, sujeito de pesquisa, após leitura da carta de informação à instituição, ciente dos procedimentos propostos, não restando quaisquer dúvidas a respeito do lido e do explicado, firma seu CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO de concordância quanto à realização da pesquisa. Fica claro que o sujeito, pode, a qualquer momento, retirar seu CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO e deixar de participar do estudo alvo da pesquisa e fica ciente que todo trabalho realizado torna-se informação confidencial, nenhum sujeito ou instituição serão identificados. São Paulo,....... de ..............................de.................. Autorizo a gravação do áudio dessa entrevista ( )sim ( ) não ________________________________________ Assinatura do sujeito de pesquisa 50 ANEXO C Entrevistado A Assistente social – Meio aberto 1) Quanto tempo trabalhou na instituição? 1 ano e 11 meses 2) O que o motivou a trabalhar com a aplicação de medidas socieducativas? Foi necessidade de trabalho mesmo. Eu morava em outra cidade e uns amigos que me falaram dessa vaga. Na verdade, tinham me dito que ia ser alguma coisa na área da saúde, pra você ver, eu não tinha noção do que ia ser o trabalho mesmo, mas como estava precisando, fui fazer a entrevista e acabei me interessando muito. 3) Quais as causas do ato infracional? É questão social, puramente socio econômica. Quem comente o ato infracional é o jovem periférico, o jovem que não tem. O ato infracional é uma expressão da questão social. 4) Como fazer trabalhos de prevenção? Dentro das medidas socioeducativas não funciona a prevenção, a gente não trabalha com isso. Mas eu penso que tem que começar com a educação familiar, na escola, no incentivo do governo. A medida é simplesmente a punição pelo que o adolescente fez, não dá pra trabalhar a prevenção, mas dá pra orientar. 5) A instituição desenvolvia algum projeto nesse sentido? Você conhece algum projeto assim? Há tentativas, mas não há efetividade. Uma vez teve um seminário, mas as ONGs tentam elaborar projetos que não tem sentido. O jovem só resolveu ir pro crime por causa do dinheiro, essa é a motivação dele. Agora vai querer fazer um trabalho de prevenção dando uma oficina de artesanato, de teatro? (risos) Não faz sentido, ele quer dinheiro, tem que trabalhar com a profissionalização, ele precisa de capacitação profissional. A medida é uma coerção, não é socioeducativo, não é. 6) Qual a relação da família com o jovem e com a instituição? Desenvolvia algum trabalho com famílias? Com a instituição era muito boa. Tinha reunião com as famílias, grupo, né? Uma vez por mês. Então era para atender a demanda familiar. O psicólogo conversava, procurava aconselhar, uma relação mais, mais humana com a história deles. O assistente social já tem mais a pegada de construção de rede de direitos, mostrar os direitos que a família tem. Da família com o jovem a gente via duas coisas, aqueles pais que defendem o filho, não enxergam que o filho errou, fica sempre justificando o ato dele. E por outro lado a família que acusa o adolescente. Mas isso era bem variado, por exemplo, geralmente é mãe solteira e a tendência dela é proteger, é aquela mãe que abraça mais, passa a mãe na cabeça. Quando vem o pai e a mãe já dá outra conotação, eles vêm com aquele discurso “não sabemos o que aconteceu”. Nunca vem só o pai, nunca vi. 7) E os pais incentivam, como é isso? Para a participação no processo da medida. Grande parte incentiva, incentiva sim, mas faz isso com medo do filho voltar pra Fundação CASA, medo juiz, só por isso. 8) Qual era o perfil do jovem em cumprimento de MSE na instituição? 51 Perfil? Tem perfil sim. É pardo, pobre, extremamente vulnerável, interrompeu o ensino escolar, uma boa parte é violenta. É isso, gira nesse ciclo aí, é vulnerável, pobre, fica agressivo. Ah, ele ouve funk, quer comprar roupa de marca. É engraçado, eles tem uma educação de CASA. Quando eles chegam, chegam de cabeça baixa, mão pra trás, falam “sim senhor”, com o tempo que eles vão criando confiança, entendendo que ali é diferente. Geralmente também são filhos de mãe solteira e eles têm filho também, filho pequeno. 9) Como funciona a rotina do local? Bom, ele chega no núcleo, aí a gente faz o preenchimento do PIA, colhe informações da renda familiar, se é reincidente, repetente. Depois a gente tem que fazer o RIA, que é o relatório inicial de atendimento, tem que mandar pro juiz depois de 30 dias após a chegada dele. Tem o RAS que é o relatório de acompanhamento, que é pra ver se ele está comparecendo na medida, freqüentando a escola, e a gente faz depois dos atendimentos semanais com o adolescente. Tem o relatório de encerramento e o informativo que é quando acontece alguma coisa mais, imprevista. Bom, e aí tem o estudo de caso toda semana, pra gente analisar os casos mais complexos. 10) Como é formada a equipe? Quais as atividades de cada profissional e rotina dos profissionais? Quando eu entrei tinham 2 assistentes sociais e 6 psicólogos. As atividades eram os atendimentos com os adolescentes, visita domiciliar, às vezes fazíamos os grupos, tinha que organizar. Olha era bem complicado, porque a linguagem é diferente para cada profissional. O assistente social tem um olhar mais politizado da coisa, já o psicólogo, não sei, olha outros aspectos... é difícil, mas quando a gente se entende, nossa! O trabalho dá muito certo. 11) Existe alguma atividade de aperfeiçoamento para e equipe técnica? Ah, não. É, tinha as vezes palestra mas não era efetivo, não tinha muito incentivo da instituição. A SMADS não investe muito nisso. Tem uma pergunta sobre isso? Sobre o investimento? Tem que ter, porque é um absurdo isso! Depois dê uma olhada na portaria da SMADS, não lembro se é 127 ou 27, mas por exemplo, na casa dá pra atender 120 adolescentes, mas a gente atendia 160, 180. A gente tem um número específico de adolescente pra atender toda semana e relatar, se não e engano é 20 para cada um, mas chega época que você atende 40 jovens, é muita coisa, você fica louco! Em São Paulo, em 2010 era determinado um valor X para as medidas, em 2011 esse valor caiu. Então o problema de funcionamento é isso, não tem condições, é uma falta de recurso, de alimentação. Ah, teve também uma época que eles faziam terapia em grupo, alguma coisa assim, era ridículo! Era no horário de trabalho ainda por cima e não tinha nada a ver, mandava a gente bater palma, sei lá. Era muito chato, parei de ir e depois todo mundo foi parando também, acho que eu fui o primeiro a falar que era chato, ninguém tinha coragem. 12) Quais as atividades que os jovens fazem aqui? E fora? Tem as oficinas, culinária, break dance, DJ, capoeira, teatro, teve uma vez que fizemos de política social, foi bem interessante. Mas, não é eficaz não, os meninos não participam, a gente até tenta incentivar, mas é chato, o que eu posso fazer? 13) Como funciona a parceria com outros equipamentos? Fale sobre a rede. É boa, nossa gerente era muito boa, ela já tinha um bom contato com a comunidade e a região, isso ajuda bastante. Dava pra contar com a rede sócio-assistencial... menos com o conselho tutelar. (risos) Ah, eles 52 nunca estavam disponíveis na verdade, a gente nunca podia contar com eles, sabe? Eles não estavam juntos com a gente. 14) Em sua opinião o que pode ser feito para que ocorra maior adesão do jovem ao cumprimento da MSE? Extinguir a medida. (risos) Brincadeira, mas é complicado porque é obrigatório, eles têm que cumprir. E tem que viver a realidade deles, conhecer, entender o que os levou a fazer isso. Acho que para melhorar a SMADS tinha que fiscalizar as ONGs, aumentar o investimento. Na verdade, tinha que tirar esse serviço das ONGs, tem que puxar isso pro governo, pro Estado e aí criar um conselho de fiscalização. 15) Em sua opinião, quais são os aspectos positivos e negativos da execução da medida? Negativo porque é coerção, é obrigatório. Tem pouco recurso, e depois prejudica o jovem para que ele tenha um emprego formal. De positivo eu vejo que é a proximidade da família, isso é legal de ver. Você conhece melhor o bairro, fortalece a rede e acho que a atuação interdisciplinar, dá para aprender bastante com outros conhecimentos, outras visões. 16) Como você avalia o trabalho do técnico na MSE? Aspectos positivos e negativos. É mal preparada. Não, não é isso. Assim, tem uma falta de preparo, falta a compreensão do que é a MSE, falta uma formação continuada, é isso. Porque na verdade, nós vamos descobrindo o que tem que ser feito fazendo, não tem manual. Tem que ter uma dedicação para que não haja a reincidência, falta dinheiro, a equipe troca com muita freqüência e tem que gostar de fazer, né? Tem que estar ali, por que acredita. 17) Porque deixou o trabalho? E como esse trabalho te influenciou? Eu saí de lá porque estavam atrasando meu salário e eu preciso sobreviver, né? Mas só por isso mesmo. Nossa, e mudou tudo, positivamente. Mudou muito minha visão do mundo, passei a ver o mundo de um jeito mais agressivo, conheci o mundo real sabe? O que acontece de fato. Trabalhar com isso me fez me enxergar muitas vezes nos adolescentes, eu tinha uma identificação muito forte com eles e isso me fez me envolver muito na questão social. Entrevistado B Psicólogo – Meio aberto 1) Quanto tempo trabalhou na instituição? Trabalhei durante 1 ano e 11 meses mais ou menos, quase 2 anos. 2) O que o motivou a trabalhar com a aplicação de medidas socieducativas? Uma amiga indicou, eu mandei o currículo e fui fazer entrevista com a gerente lá. Na verdade, eu sempre me interessei pela área social, mas não conhecia o trabalho em MSE. Eu sabia sobre as medidas aquilo que a gente, lê, ouve falar, era pouco. Mas eu me interessei muito, me interessei pelo desafio. 3) Quais as causas do ato infracional? 53 Ah, são muitas. Acho que primeiro de tudo é a questão de vínculos familiares. Quando isso não existe dentro da família, o adolescente busca suprir de outra forma, e o ato infracional é uma dessas formas. Essa falta de vínculo leva à drogadição, muitas vezes, né? Tem o status também, o jovem da periferia querer uma roupa legal, ter a moto pra sair com as meninas. Isso o que aparece na mídia, “você precisa ter para ser”. Então ele busca ser, através do ter pelo ato infracional. Não digo pela pobreza ou riqueza, mas pela família mesmo, a falta de afetividade, o vínculo fragilizado. 4) Como fazer os trabalhos de prevenção? A prevenção tem que ser um trabalho com as famílias. Hoje em dia as coisas acontecem de uma forma muito acelerada. O certo e errado não é definido, tudo traumatiza, falar “não”, causa trauma. São mais direitos do que deveres, o papel de pai e mãe está muito solto. Então acho que primeiramente é trabalhar os pais, pois são os primeiros cuidadores, para que eles percebam e entendam seu papel. 5) A instituição desenvolvia algum projeto nesse sentido? Sim, nós fazíamos os grupos de família. Tinha a primeira reunião do ano, que a gente fazia um planejamento, os pais falavam quais eram as dificuldades para trabalharmos depois. Tinha também a visita domiciliar. 6) Tinha uma boa adesão das famílias? Qual era a relação da família com a instituição? É, na verdade a participação era pouca. A gente ligava, tinha que ler o ECA, dizia que era uma determinação judicial, que eles eram obrigados a virem, pois é, tínhamos que fazer isso, porque se não, eles não vêm. Primeiro tínhamos que conscientizar, aproximar do nosso serviço. Tinha que primeiro dar uma acolhida, mas também tínhamos que ser duros algumas vezes, ser mais firme. Mas a participação era bem pouca mesmo, nos melhores dias iam 25% dos pais. 7) Qual era a relação da família com o jovem? Olha, é complicada. O Vínculo familiar é bem fragilizado. O pai quase nunca aparece, geralmente é a mãe mesmo, ou a avó. Mas não tem afetividade na relação, é uma relação obrigatória, o adolescente mora em casa porque lá tem comida, roupa lavada e a mãe deixa porque é obrigação, por ela estava na rua. Então é bem complicado mesmo. 8) Como a família vê o ato do jovem? Acho que tem duas coisas aí, a primeira é aquele jovem que cometeu o ato de forma impensada, percebeu que causou sofrimento para a família e ele mesmo sofre também. Ele tem medo, medo das conseqüências, não queria ser um infrator. Ele vê que isso vai prejudicá-lo lá na frente, no futuro. O outro, que é a grande maioria, que não tem sonho, inclusive isso é um ponto que trabalhamos muito com eles, os sonhos dele. O adolescente chega e diz: “ To aqui pra viver o mundo que eu conheço.” É o que ele vê, o que ele vive, estudar é complicado, você vê como ta a educação hoje, né? Não é atrativo, profissionalização também não é atrativo. Geralmente são envolvidos com droga, e o tratamento para isso? Não tem. Eles não querem sair dessa vida, você vê que é o que eles vão viver mesmo, não pensam em outra forma. 9) Qual o perfil do jovem em cumprimento de MSE aqui na instituição? Bom, vou falar dos jovens da comunidade onde trabalhei. Jovens que moram em uma região bem vulnerável, em situação de dependência química, envolvidos no tráfico, estão sem ir a escola, dos 200 adolescentes que a gente tinha lá, 10% estava no ensino médio. A maioria é de 15 anos, mora com a mãe ou com 54 a avó, então tem isso, da cabeça da casa ser a genitora. Não conhecem o pai, ou o pai, o tio ta envolvido no crime, no tráfico. Irmãos, vários irmãos de pais diferentes. 10) Como era a rotina do local? Tinha os atendimentos, cada técnico tinha seu dia para atender. O meu era na quarta, então era um dia para o atendimento, um dia para fazer os relatórios, então eu ficava só nisso, nessa função. Um dia de visitas técnicas, na UBS ou na escola, tinha também a visita domiciliar, o atendimento individual com os pais. Ah, fazíamos o grupo também, com os pais, uma vez por mês, o grupo com os adolescentes também, uma vez por mês, a nossa reunião de equipe, que tinha os assuntos burocráticos com a gerente, mas os estudos de caso também, planejamento de alguma atividade. Também tinha audiência, quando era convocada pelo juiz. 11) Como é formada a equipe? Quais as atividades de cada profissional e rotina dos profissionais? Quando eu entrei tinha uma pedagoga, cinco psicólogos e dois assistente sociais. A atividade era a mesma, é a função do técnico, né? Atender o adolescente, família. Só quando ia ter grupo a gente dividia a equipe pra planejar junto. Minha equipe era maravilhosa. Na verdade, mudou bastante, mas sempre foi muito boa. A gerente era muito exigente, mas ela era ótima, era carinhos, ela sabia como acolher. Porque pensa, você trabalha com, sei lá, é muito pesado, você atende 20 adolescentes, que tem o vínculo familiar rompido, mexe com drogas, no tráfico, as vezes precisávamos de um acolhimento, somos seres humanos. Então, quando alguém precisava chorar tinha um acolhimento. Isso foi o que fez todo mundo sair de lá na verdade, é claro, estávamos todos com o salário atrasado, mas depois que ela saiu, desestabilizou tudo, cada um foi para um canto. 12) Existia alguma atividade de aperfeiçoamento para e equipe técnica? Sim, a gente recebia do CRAS ou SMADS, sei lá. A Rose (Gerente) dividia em duplas os técnicos pra irem nesses encontros. Internamente a gente fazia também, tinha o grupo uma vez por mês pra ter essa troca de conhecimento, ou trazia alguém de fora, algum profissional. Teve uma época que fazíamos Yoga, o R. que era psicólogo sabia, conhecia a técnica, então ele levava umas atividades pra gente. 13) Quais as atividades que os jovens faziam na instituição? E fora? Ah, no meu atendimento eu sempre conversava, pedia pra contar do fim de semana, essas coisas. Mas também pedia pra, por exemplo, dava revistas e pedia pra recortarem gravura sobre o que ele imagina pro futuro dele, as vezes no grupo a gente trabalhava com filme, ou levava um profissional pra falar, levamos o bombeiro para um bate-papo. De oficinas a gente teve capoeira, na páscoa sempre fazia de chocolate para eles e as mães, street dance, esse eles gostavam bastante, grafite, artesanato, tecido... quando cheguei tinha de instrumentos musicais, mas acabou esse. 13) E como era? Os jovens se interessavam em participar? É, era uma participação pequena. Tinha o planejamento, eles falavam o que eles queriam fazer, mas com o tempo paravam de ir. Eles não conseguem criar uma rotina, um vínculo, não é fácil, eles desestimulavam muito rápido. 14) Como funciona a parceria com outros equipamentos? Fale sobre a rede. 55 Era legal, tinha um bom vínculo. Como a gente sempre fazia visita técnica, apresentava nosso trabalho, levava o papelzinho que explicava. Como tinha bastante encaminhamento para as escolas, saúde, alguns programas sociais, por exemplo, um curso grátis de inglês, a gente criava uma boa parceria. Ah, teve uma época que a gente atendia a comunidade também, mas depois paramos. Era assim, a mãe contava da vizinha que tinha um filho que estava começando a usar drogas, então ela falava pra gente e a gente chamava pra conversar, como um trabalho preventivo mesmo. 15) Em sua opinião o que pode ser feito para que ocorra maior adesão do jovem ao cumprimento da MSE? A medida é uma determinação judicial, então ele tem que cumprir, mas eu penso que isso é tapar o sol com a peneira. A estrutura tinha que ser muito maior. É tudo muito difícil. Vou te contar o caso de dois jovens que queriam tratamento, queriam deixar as drogas, mas não tinha, até passar por todo o processo, era mais de mês e isso é uma coisa que tem que ser imediata, porque é o momento que ele quer sair dessa, não pode pedir pra esperar. Então, tem que ser melhor estruturado, no SINASE é tudo muito bonito, mas não é real. E também não adianta o profissional ser bom, ele não trabalha sozinho. 16) Em sua opinião, quais são os aspectos positivos e negativos da execução da medida? Positivo é que o adolescente tem a oportunidade de conhecer o diferente, ter uma visão diferente. É difícil mas você percebe que uma sementinha é plantada. O vínculo tem que ser produtivo, tem que ter mais aproximação, é muita carência que eu vejo, então tem que poder acompanhar, querer acompanhar para proporcionar novas oportunidades pro jovem. De negativo acho que é a questão social, que é bem complicada. Do que adiante você ter o contato, mas lá fora a realidade é outra? E aí fala que é culpa dos técnicos? Mas o que acontece com eles fora? Com quem cuida deles lá fora? E todo mundo acha que é fácil, depois vem julgar, dizer que são bandidinhos, não é assim, não são bandidos simplesmente, alguma coisa aconteceu no caminho para que eles cometessem um ato. 17) Como você avalia o trabalho do técnico na MSE? Aspectos positivos e negativos. Nossa, isso é muito complexo. Muitas vezes eu me sentia sozinha, não como equipe, eu podia contar com eles. Mas sabe, eu tentava ajudar, mas estava de mãos atadas, o pessoal dos outros equipamentos também, não é culpa deles, mas não suficiente sabe? Parece que o trabalho fica emperrado, não vai pra frente. Você olha e a família não ta boa, a educação não ta boa, dá um desânimo, acha que não vai resolver nunca, que ele não quer saber de nada. Mas eu vejo isso como positivo, era isso, de alguma forma eu achava que poderia influenciá-lo positivamente. Eu estava lá tentando mostrar outras possibilidades pra ele. De negativo é porque é remar contra a maré. 18) Porque deixou o trabalho? Eu só saí devido o atraso de salário. 20) Como esse trabalho te influenciou? Nossa, em tudo! Tudo o que eu sei sobre a área social eu aprendi lá. É minha base, ta lá. Hoje eu trabalho com a proteção básica, e gosto muito. Mas lá me ensinou muito sobre a família, aprendi muito com os adolescentes, com a equipe, foi lá que eu me apaixonei por isso. 56 Entrevistado C Pedagogo – Meio fechado e aberto 1) Quanto tempo trabalhou na instituição? Na FEBEM, na época era FEBEM ainda, eu fiquei por três meses. Mas depois fui trabalhar num projeto que era com os jovens que saíam da CASA, trabalhar para eles não reincidirem, né? E hoje atuo na capacitação dos educadores, encaminho para os projetos. 2) O que o motivou a trabalhar com a aplicação de medidas socieducativas? Nossa, nem sei responder isso, acho que desde que eu nasci trabalho com crianças e adolescentes em vulnerabilidade social e aí uma coisa leva a outra. 3) Quais as causas do ato infracional? O modelo de sociedade hoje. A questão do ter, o ser individualista, o adolescente quer fazer parte disso, parte daqueles que têm. A falta de políticas públicas para a juventude também eu vejo como uma causa. A medida é paliativa, mas ela não dá conta da demanda. O adolescente infrator só não teve uma oportunidade diferente. 4) Como fazer trabalhos de prevenção? Na FEBEM nós não trabalhamos com a prevenção, né? Mas era algo como a recuperação. Acho que manter o adolescente ocupado é válido, a demanda é grande, mas existem poucos projetos que atendam na faixa etária dos 15 aos 18 anos. 5) Você conhece algum projeto assim? Tem projetos que eu trabalhei depois da FEBEM, que atua com a preparação profissional do jovem, a profissionalização. Porque é isso que precisa, eles querem é o retorno econômico mesmo. E é muito difícil, porque você tem que competir com o tráfico, então dar um curso técnico que ele pode depois ganhar 500, 600 reais, sendo que no tráfico ele ganha mais 1000 reais, só pra ser aviãozinho. 6) Qual era o perfil do jovem em cumprimento de MSE na instituição? Bom, é aquele adolescente que tem poucas oportunidades, pouco acesso a educação, cultura. É o jovem que vive com a falta do recurso financeiro. Na verdade ele só é um reflexo da negação de direito que já sofreu. 7) Como funciona a rotina do local? É, é sempre ocupado. Ele acorda cedo, vai pra aula, a escola, né? Almoça, depois tem o curso profissionalizante, esporte, ou participa de alguma atividade que geralmente ONGS parceiras realizam, trabalhos internos e tem também o atendimento com os técnicos. 8) Como era formada a equipe? Quais as atividades de cada profissional e rotina dos profissionais? Bom, tinha os psicólogos, assistente social, os educadores que eu mais tinha contato. Meu trabalho era com os jovens também, mas mais com os educadores, até mesmo os outros profissionais, agentes. Na verdade, no começo a tarefa era conscientizar sobre o que é educação, a importância da escola, porque muitas vezes é aquele pensamento de escola é castigo, vê como algo negativo. Então eu organizada reuniões, debates, primeiro é conquistar as pessoas, mudar o pensamento, a realidade, tudo pra trabalhar a equipe mesmo. 57 Mas com o jovem também tinha que fazer um trabalho assim no começo, para compreenderem a importância da escola e valorizarem aquele espaço. Então a gente fez um trabalho bem bacana, pintamos a escola, as paredes, do jeito que eles queriam, eles ajudaram a montar o espaço e foi muito bacana porque agora aquele era um espaço pertencente a eles, foi uma reconstrução da escola, nos dois sentidos. 9) Existia alguma atividade de aperfeiçoamento para e equipe técnica? Sim, hoje não sei como está, mas quando entrávamos tínhamos um centro de formação, que falava sobre a instituição e alguns assuntos específicos para ajudar no nosso trabalho. E depois as reuniões, bate-papos que a gente mesmo organizava, dependia da demanda que ia surgindo, íamos trabalhando. 10) Como funcionava a parceria com outros equipamentos? Fale sobre a rede. Hoje eu vejo que está fortalecida, mas antes não tinha uma organização, essa estrutura que tem hoje. Dependia muito da necessidade, a gente tinha que correr atrás pra conseguir. 11) Em sua opinião o que pode ser feito para que ocorra maior adesão do jovem ao cumprimento da MSE? A medida é uma sanção, o adolescente tem que cumpri-la, não tem como não fazer, é determinado pelo juiz que ele faça, então... Ele, o adolescente entra já como uma obrigação, “Fiz coisa errada, tenho que pagar pelo que fiz”, então acho que precisa resignificar isso nele. A medida socioeducativa é eficaz, mas a forma como é feita não ajuda muito, tem que pensar como vamos adotar essa prática, para fortalecer, saber divulgar o trabalho e quebrar o preconceito. 12) Em sua opinião, quais são os aspectos positivos e negativos da execução da medida? De positivo, é desmistificar o “ir para a cadeia”, atende o adolescente como diferente do adulto. Acho isso importante, porque ele, de fato, é diferente do adulto, então é a medida específica para isso. Dar a medida certa para aquilo o que aconteceu, é a categoria dos atos, porque homicídio é diferente de roubo, né? A medida ajuda a mostrar outras oportunidades, é uma chance de reparar o dano. De negativo, eu não sei se posso dizer, até porque o ECA, o SINASE, é bem bonito, mas não foi executado, ainda não funciona de fato, não posso dizer se é ruim, quando funcionar eu avalio. 13) Qual a relação da família com o jovem e com a instituição? Desenvolvia algum trabalho com famílias? Depende bastante, tem família que se envolve, tem família que não. Mas o trabalho era acompanhamento depois, um trabalho de reinserção social. É trabalhar essa idéia da família vivida diferente da família pensada, o filho de verdade. É fazer com que eles entendam quem é cada um no processo, o papel. 14) Como você avalia o trabalho do técnico na MSE? Aspectos positivos e negativos. Tem uma grande importância o técnico. Mas depende do técnico, do valor que ele tem e que vai levar para o trabalho, se está ali por questão financeira ou se acredita na causa. Tem que ser um técnico que esteja aberto a mudança, que facilite o convívio, os pensamentos diferentes com os outros profissionais e também tem que ser conhecedor da realidade, tem que conviver o que o adolescente passa, andar junto. 15) Porque deixou o trabalho? Eu saí por causa do convite da PUC para coordenar o projeto aqui e conseqüentemente eu trabalharia a prevenção que é o que eu acredito que precisa. Tem sido um privilégio poder capacitar o educador, porque aqui a 58 gente prepara a equipe que está lá e indiretamente com o jovem. Mas se não fosse o convite da PUC estaria lá até hoje, com certeza. 16) Como o trabalho te influenciou? Esse trabalho serviu para eu entender que é nisso que eu quero trabalhar, me dedicar mesmo. Atuar na prevenção, acho que é um carma, (risos) devo ter matado muitas criancinha na outra vida. (risos) Entrevistado D Psicólogo – Meio fechado 1) Quanto tempo trabalhou na instituição? 3 anos 2) O que o motivou a trabalhar com a aplicação de medidas socieducativas? Na verdade eu já fazia um trabalho de conscientização lá, palestras, um trabalho voluntário. Sempre fiz trabalho voluntário lá, desde a época da FEBEM e um dia, o diretor aqui da casa, que era gestão compartilhada, me convidou para trabalhar como psicólogo lá. Isso me despertou, achei interessante não ser mais voluntário, mas como profissional da psicologia. 3) Como voluntário você trabalhou quanto anos? Ah, muito tempo, acho que desde 90. Fazia vários trabalhos com adolescentes, com adolescente com dependência química. 4) Quais as causas do ato infracional? As causas, na maioria das vezes nós vemos família desestruturada e disfuncional, é claro, a vulnerabilidade social também ajuda. Mas a maioria dos adolescente que eu trabalhei era. Às vezes tinha uma condição social boa, pais e mães presentes, mas acabavam entrando na vida delitiva. Mas eu creio que, basicamente, o montante aí, a questão da vulnerabilidade social, ela pega bastante. Falta orientação dos pais, dialogo, falta carinho. A gente vê casos e casos, depende. Questões que fragilizam o adolescente na escolha, a maioria eu via questão do uso de drogas, tráfico, roubo. 5) Como fazer trabalhos de prevenção? Eu penso que a dimensão tem que começar na família. A família tem que ser responsabilizada em todos os seus aspectos, tem que fazer cumprir o ECA, fazer com que a criança tenha qualidade de vida. Mas acabamos esbarrando em problemas sociais, vemos que em alguns casos as crianças vão ter uma educação boa, com qualidade, mas a gente acaba esbarrando em outras coisas, nem todos tem instrução na área da saúde, da educação. Instrução na conscientização da família no seu papel no desenvolvimento com a criança, nas questões que se referem na educação como um todo. Tem pais que não tem noção do que é o desenvolvimento de uma criança. 6) A instituição desenvolvia algum projeto nesse sentido? Não há um trabalho socioeducativo se a família não estiver presente. Então, obrigatoriamente ela tem que fazer parte como uma responsabilidade civil. Isso pode até ser imposto, mas para que dê fruto, a responsabilização tem que ser natural. A família tem que sentir o peso da sua atuação em relação ao adolescente. Muitas vezes os pais reclamam: “não consigo falar mais nada, ele não me escuta”. Então a gente precisa 59 trabalhar esse processo, precisa desconstruir algum padrão de funcionamento familiar que era disfuncional e fazer com que o adolescente saia da posição de bode expiatório e volte a fazer parte ali da família, para que cada papel possa ser respeitado. Cada papel tem seu valor e deve ser respeitado, mas infelizmente, às vezes a gente não vê isso, né? Tanto por parte da família quanto do próprio adolescente. A família tem um papel atuante muito forte. Depois que o menino passa por um processo de internação ou de reinserção social, é o momento que a família vai fazer valer, a família tem que fazer valer sua autoridade, o adolescente tem que prestar conta à sociedade e sua família. Ele afronta, confronta quando é tratado com arrogância. Quando ele é tratado com respeito, dignidade, quando algum adolescente passava por alguma indisciplina ele tinha que ter conhecimento do motivo, era explicado, ele era orientado, aí ele entende o processo. Muitas vezes na CASA a gente via a punição pela punição, mas é para ser algo educativo, então precisamos educar. Adolescente é um ser humano em processo de transformação e ele precisa passar pelo processo educativo juntamente com a família. Dependendo do caso, quando o adolescente quebra alguma lei interna da unidade, quebra o pacto de convivência, dependendo do nível da situação, nós chamávamos a família e isso era compartilhado com a família, então pra eles isso era muito chato, muito difícil. Mas a família tem que acompanhar todo o processo, entender pelo que ele está passando, não chegar só no final e dizer: “olha, seu filho passou por uma medida e agora acabou”. Não, ela participava do processo, pra entender como funciona e se aproximar do filho. 7) Qual era o perfil do jovem em cumprimento de MSE na instituição? O perfil desse jovem geralmente é o perfil de um jovem que na maioria das vezes vem de um lar disfuncional. A média é de uns 16 anos. È o jovem sem muita oportunidade que se depara com uma oferta. Geralmente a oferta da droga, do tráfico que ele acaba escolhendo, porque é o que tem ali para ele. 8) Como era a rotina do local? Lá, tinha as regras, cada unidade tem sua regra, que é o regimento interno. Aí tinha horário de despertar. Tinha dois grupos lá, um tinha a aula pela manhã, o ensino formal e então como revezava os professores, pro outro grupo o ensino formal era a tarde, era invertido. Tinha futebol, artesanato, cursos de informática, eletricidade, teve de cabeleireiro, depende do momento. 9) E como era a rotina da equipe técnica? Então, a gente tinha o horário de atendimento, das 8h às 14h. Tinha algumas atividades que a gente não podia tirar, então tinha que esperar uns intervalos das atividades para o atendimento. A gente tentava manter a rotina de um atendimento por adolescente semanal. E tinha o grupo terapêutico também, a gente trabalhava com temáticas, temas recorrentes, que permeavam a idade deles. Trabalhava a reflexão do próprio ato, perspectivas para o futuro, coisas assim. 10) Como é formada a equipe? Quais as atividades de cada profissional e rotina dos profissionais? A gente tinha dos técnicos, três duplas, cada dupla era um assistente social e um psicólogo, na verdade era uma assistente social e uma psicóloga, porque só tinha eu de homem lá, geralmente são técnicas. Acho que os homens não são muito chegados na área social. Tínhamos a parte da pedagogia, os monitores da parte socioeducativa. O pessoal da parte da enfermagem. Tinha o agente também na área da segurança. E cada área tinha um “referência”, né? Para o adolescente, então quando ele precisava de alguma coisa a gente chamava o “referência” dele. 60 O Assistente social fica mais com as questões da família, da casa, como vivia, fazer uma entrevista familiar para que pudesse ver questão social, de moradia, bolsa família. O psicólogo trabalhava mais as questões afetivas, emocionais, o processo de sofrimento, perda, luto, mais especificamente com eles. 11) Às vezes vocês atendiam juntos, como era? Às vezes, dependendo da demanda a gente fazia junto sim, quando o caso não tinha um cunho especifico da psicologia, por exemplo. Quando era um atendimento mais abrangente, que não tinha questões muito específicas, mas geralmente, até por uma questão de demanda, atendia separado, porque enquanto um atendia o outro ia fazendo relatório. Era assim, ganhava pouco, mas trabalhava muito. 12) Existia alguma atividade de aperfeiçoamento para e equipe técnica? Sim. De vez em quando a gente tinha uns treinamentos, umas atividades pra instrumentalizar mais, né? 13) Quem organizava esses treinamentos? Geralmente a diretora que organizava ou trazia alguém da fundação mesmo, algum técnico, algum especialista que trabalhava com isso. 14) Tem alguma atividade que os jovens faziam fora? Fora, tinha as visitas externas, foram na pinacoteca, foram visitar time de futebol, foram visitar o Corinthians, no museu do Corinthians. Já foram no teatro e já fizeram apresentação teatral no SESC, já foram pra Santos uma vez, várias coisas. Mas quando tinha alguma rebelião, algum tipo de disciplina coletiva por alguma coisa que eles faziam, era cortado isso. 15) Como funciona a parceria com outros equipamentos? Fale sobre a rede. Olha, isso é muito importante sabe? Nem todos estão dispostos a fazerem uma parceria, né? Mas o trabalho com a rede é fundamental. Até pelo continuar o processo com o adolescente, na área da saúde, da assistência social, cultura a questão profissional, das secretarias de profissionalização. É muito importante para que o adolescente possa ter uma continuidade. Muitas vezes, no relatório conclusivo do adolescente, nós já fazíamos os encaminhamentos à rede. Teve um caso que nós fomos até para outro município, tivemos que levar o menino até o Paraná, a família estava lá, então entramos em contato diretamente com o CRAS de lá para fazer esse trabalho, esse meio de campo para dar continuidade no trabalho lá na cidade dele. 16) Algum equipamento era difícil de conseguir apoio? Olha, é complicado. Mais na área da saúde, às vezes não queriam atender, o CAPS alegava que poderia trazer problemas nos atendimentos que estavam fazendo, sabe? Essas coisas assim. Infelizmente nem todos estavam abertos, por causa do estigma, a questão do preconceito. 17) Em sua opinião o que pode ser feito para que ocorra maior adesão do jovem ao cumprimento da MSE? Para mim a melhor forma é tratá-los com respeito, com verdade e infelizmente não é o que a gente via. Muitas vezes eles já chegavam no camburão da polícia e já vinha naquela parte de trás, algemados, aos gritos e eles estigmatizados. Então era aquilo, ele faz cara de mau, o policial faz cara de mau. Já vinha com aquela pressão. E quando eles chegavam, os agentes, muitas vezes eu vi, já eram recebidos de forma áspera, confrontados. E quando nós íamos recebê-los ele já vinham “armados”, então a gente esperava abaixar a poeira, falava olho no olho. 61 No começo, eu até trabalhei com a fala do protagonismo infantil, mas depois eu vi que infelizmente o sistema não deixa que ele seja protagonista. Então não queria mais mentir para ele, eu parei com isso de falar que ele é protagonista da própria história, porque ele é subjugado, é tratado como bandido, cometeu o ato é bandido, é assim, simples. O que eu penso é que enquanto continuarem reproduzindo a abordagem carcerária dos agentes, vai perpetuar essa visão que eles são bandidos e isso vai continuar reproduzindo pra eles a imagem de que quem ta do outro lado é verme. Fica complicado atuarmos como técnico nesse contexto. A gente tem que desconstruir algumas falas dentro da turbulência que eles estão vivendo ali. Então para ele acreditarem na gente como técnico, a gente precisa suar bastante! 18) Em sua opinião, quais são os aspectos positivos e negativos da execução da medida? É, positivo eu acho que nós trabalhamos com a medida socioeducativa respeitando ele independente do que ele fez, independente de ter matado, roubado, estuprado. Ele já está pagando por estar ali, o nosso papel que é socioeducativo é tentar reeducá-lo para voltar no convívio social, para que ele possa respeitar o cidadão e ser um cidadão de bem. Agora se ele chega aqui, você subjuga, violenta em todos os sentidos, você vai esperar o quê dele? Que ele vai voltar para a sociedade pra fazer o que? Se ele está sendo tratado com ódio, com preconceito. Então, acho que o negativo das medidas é quando temos pessoas despreparadas, com uma mentalidade carcerária e que não está ali pra trabalhar no processo socioeducativo. 19) Como você avalia o trabalho do técnico na MSE? Aspectos positivos e negativos. O trabalho do técnico eu penso que é imprescindível. Cada um tem seu papel específico, sua importância. O que é importante eu acho é que vamos a casa, a visita familiar, então essa ligação direta com a família, eu penso que norteia todo o processo. A gente na verdade entra em um campo minado, trabalhar com a história, o passado, o afeto do adolescente. Com essa relação, bem firmada a gente consegue passar confiança pra trabalhar o processo de transformação, entender seu medo, suas frustrações, administrar seus conflitos pessoais, familiares, entender que ele tem responsabilidade no processo. 20) Porque deixou o trabalho? Eu saí por questões pessoais, queria me dedicar em outras coisas e esse trabalho exige muito de você, então eu precisei escolher o que é prioridade para mim nesse momento. Mas continuo trabalhando com os jovens, dando palestras, sempre nessa área de conscientização com os profissionais e os jovens também. 20) Como esse trabalho te influenciou? Influencia em tudo né? Você aprende muito mais sobre o outro, sobre você mesmo. E olha, só para você ver, olha essa mensagem no meu celular, é de um menino que eu cuidei. Hoje ele ta com 20 anos, mora sozinho, a gente cuidou dele, hoje é um rapaz que trabalha, freqüenta igreja, esses dias foi batizado, eu tenho como um filho. Sempre encontro com alguns adolescentes aí na rua, tem muitos frutos, eles chegam me encontram, conversam comigo, contam como estão, se casou. Você percebe que continua sendo uma referência para eles, vejo muitos frutos disso hoje, do trabalho que a gente fez ali. 62