artigo original A força de preensão manual como marcador de saúde em adolescentes com sobrepeso Ramires Alsamir Tibana, Dahan da Cunha Nascimento, Sandra Oliveira, Graciliano Rosa, Sandor Balsamo, Renato André Sousa da Silva, Roberta Kelly Menezes Maciel Falleiros, Darlan Lopes de Farias e Jonato Prestes DOI: xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx RESUMO Introdução. O excesso de peso é um sério problema mundial de saúde pública e poucos estudos analisaram e associaram a força muscular relativa em adolescentes com e sem sobrepeso. Objetivos. Comparar a força muscular relativa de adolescentes de ambos os sexos com e sem sobrepeso, além de correlacionar a força muscular relativa com a massa corporal, o índice de massa corporal, o perímetro da cintura e a razão cintura-estatura. Método. Foram avaliados 237 adolescentes (115 meninos) (12,8 ± 1,2 anos; índice de massa corporal 19,8 ± 3,4 kg/m2), os quais foram classificados em: eutróficos (n = 184; massa corporal 45,9 ± 7,9 kg; índice de massa corporal 18,5 ± 1,9 kg/m2) e sobrepesados (n = 53; massa corporal 64,8 ± 12,6 kg; índice de massa corporal 25,2 ± 2,8 kg/m2). Resultados. A força muscular relativa foi menor nos adolescentes com sobrepeso quando comparada a dos adolescentes eutróficos (0,45 ± 0,07 vs 0,55 ± 0,09; p = 0,001). Houve correlação negativa da massa corporal (r = -0,23; p = 0,001), do índice de massa corporal (r = -0,40; p = 0,001), do perímetro da cintura (r = -0,38; p = 0,001) e da razão cintura-estatura (r = -0,47; p = 0,001) com a força muscular relativa. Conclusão. Os resultados do presente estudo sugerem haver possível influência negativa do excesso de peso e de variáveis antropométricas na força muscular relativa de adolescentes com sobrepeso. Palavras-chave. Força muscular; obesidade; sobrepeso; adiposidade corporal 288 • Brasília Med 2013;50(4):288-295 Ramires Alsamir Tibana – profissional de Educação Física, Centro Universitário Euro-Americano (Unieuro), Departamento de Educação Física, Programa de Pós-Graduação stricto sensu da Faculdade de Educação Física da Universidade Católica de Brasília, Brasília, Distrito Federal, Brasil Dahan da Cunha Nascimento – profissional de Educação Física, Centro Universitário Euro-Americano (Unieuro), Departamento de Educação Física, Programa de Pós-Graduação stricto sensu da Faculdade de Educação Física da Universidade Católica de Brasília, Brasília, Distrito Federal, Brasil Sandra Oliveira – profissional de Educação Física, Programa de PósGraduação stricto sensu da Faculdade de Educação Física da Universidade Católica de Brasília, Brasília, Distrito Federal, Brasil Graciliano Rosa – profissional de Educação Física, Centro Universitário Euro-Americano (Unieuro), Departamento de Educação Física, Brasília, Distrito Federal, Brasil Sandor Balsamo – profissional de Educação Física, Centro Universitário Euro-Americano (Unieuro), Departamento de Educação Física, Programa de Pós-Graduação stricto sensu da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Brasília, Brasília, Distrito Federal, Brasil Renato André Sousa da Silva – profissional de Educação Física, Centro Universitário Euro-Americano (Unieuro), Departamento de Educação Física, Programa de Pós-Graduação stricto sensu da Faculdade de Educação Física da Universidade Católica de Brasília, Brasília, Distrito Federal, Brasil Roberta Kelly Menezes Maciel Falleiros – médica endocrinologista, Unidade de Endocrinologia e Metabologia, Hospital Regional de Taguatinga, Brasília, Distrito Federal, Brasil Darlan Lopes de Farias – profissional de Educação Física, Programa de Pós-Graduação stricto sensu da Faculdade de Educação Física da Universidade Católica de Brasília, Brasília, Distrito Federal, Brasil Jonato Prestes – profissional de Educação Física, Programa de PósGraduação stricto sensu da Faculdade de Educação Física da Universidade Católica de Brasília, Brasília, Distrito Federal, Brasil Correspondência: Ramires Alsamir Tibana. Programa de PósGraduação em Educação Física e Saúde. Universidade Católica de Brasília, QS 7, lote 1, EPTC, bloco G, CEP 71966-700, Águas Claras, Taguatinga-DF, Brasil. Telefone: 61 33569350. Internet: [email protected] Recebido em 19-9-2013. Aceito em 20-12-2013. Conflito de interesses: nada a declarar pelos autores. Ramires Alsamir Tibana e cols. • Força muscular e sobrepeso em adolescentes ABSTRACT Handgrip strength as a health marker in overweight adolescents Introduction. Excess body weight is a serious public health issue worldwide, and few studies have compared or analyzed the association between relative muscle strength in adolescents with and without overweight. Objectives. The aim of this study was to compare the relative muscle strength of overweight and normalweight adolescents of both sexes. The authors also attempted to correlate relative muscle strength with body weight, body mass index, waist perimeter, and waist-height ratio. Method. 224 adolescents were evaluated (115 boys) (12.8 ± 1.2 years; body mass index 19.8 ± 3.4 kg/m2) and classified as having normal weight (n = 184; body weight 45.9 ± 7.9 kg; body mass index 18.5 ± 1.9 kg/m2) or being overweight (n = 53; body weight 64.8 ± 12.6 kg; body mass index 25.2 ± 2.8 kg/m2). Results. Relative muscle strength was lower in overweight adolescents when compared with those who had normal weight (0.45 ± 0.07 vs 0.55 ± 0.09; p = 0.001). A negative correlation between relative muscle strength and body weight (r = -0.23; p = 0.001), body mass index (r = -0.40; p = 0.001), waist perimeter (r = -0.38; p = 0.001) and waist-height ratio (r = -0.47; p = 0.001) was found. Conclusion. The results of the present study suggest a probable negative influence of excess weight and anthropometric variables on the relative muscle strength of overweight adolescents. Key words. Muscle strength; obesity; overweight; corporal adiposity INTRODUÇÃO Os índices de obesidade vêm crescendo de forma alarmante na maioria dos países, chegando a mais de um bilhão de pessoas em todo o mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a obesidade é uma doença crônica epidêmica, que atinge crianças, adolescentes e adultos de países com diferentes níveis de desenvolvimento e inclusive supera a desnutrição e as doenças infecciosas. Essa epidemia global requer atenção especial dos serviços de saúde, pois até 2015, estima-se que aproximadamente dois bilhões e trezentos mil indivíduos apresentarão sobrepeso e mais de setecentos milhões, obesidade.1 Em adolescentes, informações provenientes de estudos longitudinais evidenciam aumento significativo na ocorrência de sobrepeso e constituem assim importante fonte de preocupação para profissionais da área da saúde. Nesse aspecto, apresenta-se uma favorável condição para que crianças e adolescentes obesos tornem-se adultos obesos2 com grandes possibilidades de sofrerem as consequências desse agravo, como diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, doença aterosclerótica, hipertensão arterial, transtornos ortopédicos e articulares, doenças de pele, maior risco cirúrgico, dentre outras complicações.3 Por outro lado, a atividade física está diretamente relacionada à redução dos riscos de desenvolvimento de diversas doenças. Em estudos recentes, a força muscular, por exemplo, mostra relação inversa com pressão arterial,4,5 síndrome metabólica6 e obesidade7,8 em mulheres de meia-idade sedentárias, de tal modo que é importante fator de saúde já na juventude.9 Andersen e colaboradores10 demonstraram que baixos níveis de aptidão aeróbica na infância e na adolescência relacionaram-se com maiores riscos de doenças cardiovasculares na idade adulta. Em relação à força muscular, similarmente, estudos demonstram associações inversas entre a força muscular com os fatores de risco cardiovascular11-13 e mortalidade em adolescentes.14 Por conseguinte, estão bem definidos na literatura os impactos negativos da obesidade sobre a saúde cardiovascular dos adolescentes, mas ainda são limitadas as informações sobre como a força muscular pode relacionar-se com a adiposidade corporal em adolescentes. Portanto, o objetivo do presente estudo foi comparar a força muscular relativa de adolescentes com sobrepeso e sem sobrepeso, além de correlacionar a força muscular relativa Brasília Med 2013;50(4):288-295 • 289 artigo original com a massa corporal, com o índice de massa corporal, com o perímetro da cintura e com a razão cintura-estatura. MÉTODO Amostra Este foi um estudo transversal, realizado no período de julho de 2011 até maio de 2013 em adolescentes residentes no Distrito Federal. Após os pais assinarem um termo de consentimento livre e esclarecido, participaram desse estudo de forma voluntária (amostra de conveniência), 237 adolescentes (115 meninos) (12,8 ± 1,2 anos etários; índice de massa corporal 19,8 ± 3,4 kg/m2), classificados em eutróficos (n = 178; massa corporal 45,9 ± 7,9 kg; índice de massa corporal 18,5 ± 1,9 kg/m2) e sobrepesados (n = 46; massa corporal 64,8 ± 12,6 kg; índice de massa corporal 25,2 ± 2,8 kg/m2). O critério de inclusão para os participantes foi ter idade de 12 a 15 anos. Os critérios de exclusão foram presença de doenças cardiorrespiratórias (autorrelatada) e ou limitações físicas (autorrelatada) que comprometessem o desempenho durante os testes. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Católica de Brasília (resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde). Antropometria A medida da massa corporal foi realizada com o indivíduo descalço, com roupas leves, e foi utilizada balança digital. A estatura foi medida com estadiômetro acoplado à balança e os avaliados tiveram classificação de sobrepeso por meio do índice de massa corporal por sexo e idade, segundo os pontos de corte propostos por Cole e colaboradores.15 A mensuração do perímetro da cintura foi realizada no ponto central entre o último arco costal e a crista ilíaca. A razão cintura-estatura (RCE) foi calculada por meio da equação: RCE = [circunferência da cintura (cm)/estatura (cm)].16 A coleta dos dados antropométricos foi realizada por somente um avaliador experiente e treinado. 290 • Brasília Med 2013;50(4):288-295 Força de preensão manual A força de preensão manual foi obtida com dinamômetro mecânico manual (Takei, T.K.K, Japão), respeitando o protocolo de España-Romero e colaboradores.17 Para tanto, os voluntários permaneceram em pé com os dois braços estendidos e o antebraço em rotação neutra.17 Para todos os participantes, a empunhadura do dinamômetro foi ajustada individualmente de acordo com o tamanho das mãos de forma que a haste mais próxima do corpo do dinamômetro estivesse posicionada sobre as segundas falanges dos dedos indicador, médio e anular. O período de recuperação entre as medidas foi um minuto. O teste foi realizado em três tentativas na mão que o participante considerasse mais forte. A melhor marca dentre as três tentativas foi utilizada como medida. A força relativa (FR) foi calculada com a equação proposta por Prestes e Tibana,18 em que FR = [força muscular absoluta (kg)/massa corporal (kg)]. A coleta dos dados da força de preensão manual foi realizada por um avaliador experiente e treinado. Análise estatística A normalidade dos dados foi verificada pelo teste de Shapiro-Wik. Verificada a normalidade dos dados o teste t independente foi utilizado para comparação da força muscular relativa e antropometria entre os adolescentes sobrepesados e eutróficos. Adicionalmente, com base no valor da força muscular relativa, a amostra foi estratificada em quintis para comparação da massa corporal, do índice de massa corporal, do perímetro da cintura e da razão cintura-estatura por meio da Anova one-way, seguida do teste post-hoc de Bonferroni quando apropriado. Para estabelecer correlações entre a variável força muscular relativa e as medidas antropométricas, utilizou-se o teste de correlação de Pearson. Como correlações múltiplas foram realizadas, para não inflacionar o erro tipo I, a correção de Bonferroni foi aplicada dividindo-se 0,05 por 4 (p ≤ 0,012). 19 Os dados foram analisados por meio do programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS, v.19, Chicago, IL) e o nível de significância adotado foi p < 0,05. Ramires Alsamir Tibana e cols. • Força muscular e sobrepeso em adolescentes Os adolescentes eutróficos apresentaram valores menores de massa corporal (p < 0,001), índice de massa corporal (p < 0,001), perímetro da cintura (p < 0,001) e razão cintura-estatura (p < 0,001) quando comparados a adolescentes com sobrepeso. A força muscular relativa foi maior nos adolescentes eutróficos (p < 0,001) quando comparada a dos adolescentes com sobrepeso (figura 1). Além disso, quando os adolescentes foram alocados em quintis da força muscular relativa, os adolescentes mais fracos (primeiro quintil) apresentaram maior massa corporal, índice de massa corporal (p < 0,01), perímetro da cintura (p < 0,01) e razão cintura-estatura (p < 0,01) quando comparados aos demais quintis (figura 2), tanto nos meninos (tabela 2), bem como nas meninas (tabela 3). A Massa corporal (kg) 80 60 * * * 40 20 0 1 2 3 4 0.8 Força muscular relativa A tabela 1 apresenta as características da amostra. Conforme apresentado na tabela 4, houve correlação negativa da massa corporal (r = -0,23; p = 0,001; r = -0,23; p = 0,001), do índice de massa corporal (r = -0,40; p = 0,001; r = -0,23; p = 0,001), do perímetro da cintura (r =-0,38; p = 0,001; r = -0,23; p = 0,001) e da razão cintura-estatura (r = -0,47; p=0,001; r = -0,23; p = 0,001) com a força muscular relativa em meninos e meninas, respectivamente. * 0.6 0.4 0.2 Sobrepesados 5 Eutróficos B 30 * 20 C * * 60 40 20 0 1 1 3 Quintis 4 5 * * 0 1 2 3 Quintis 4 5 D 0.6 Razão cintura-estatura Perímetro da cintura (cm) * 80 * 10 Quintis 100 Figura 1. Força muscular relativa nos adolescentes com sobrepeso e eutróficos. *Diferença significativa quando comparado aos adolescentes com sobrepeso (p < 0,001). 0.0 Índice de massa corporal (kg/m2) RESULTADOS * 0.4 0.2 0.0 1 2 3 4 5 Quintis Figura 2. Massa corporal (painel A), índice de massa corporal (painel B), perímetro da cintura (painel C) e razão cintura-estatura (painel D) da população amostral estratificada em quintis da força muscular relativa. *Diferença significativa em comparação ao primeiro quintil (0,22-0,26) (p < 0,001); †Diferença significativa em comparação ao segundo quintil (0,37-0,40) (p < 0,001). Brasília Med 2013;50(4):288-295 • 291 artigo original 120 Índice de massa corporal (kg/m2) 100 Massa corporal (kg) 40 r=-0,23* 80 60 40 20 0.2 0.4 0.6 Força muscular relativa 100 80 60 20 0.2 0.4 0.6 Força muscular relativa 20 0.8 0.2 0.4 0.6 Força muscular relativa 0.8 0.7 r=-0,38* Razão cintura-estatura Perímetro da cintura (cm) 120 30 10 0.8 r=-0,40* r=-0,47* 0.6 0.5 0.4 0.3 0.2 0.4 0.6 Força muscular relativa 0.8 Figura 3. Dispersões dos dados em relação à reta de regressão da massa corporal, do índice de massa corporal, do perímetro da cintura e da razão cintura-estatura em função da força muscular relativa. *(p = 0,001). Tabela 1. Características da amostra de acordo com o sexo Meninos (n = 115) Meninas (n = 122) Todos (n = 237) 12,8 ± 1,4 12,8 ± 1,1 12,8 ± 1,2 0,97 Massa corporal (kg) 49,9 ± 13,5 49,7 ± 10,4 49,8 ± 11,8 0,89 Estatura (m) 1,59 ± 0,12 1,57 ± 0,07 1,58 ± 0,09 0,08 Índice de massa corporal (kg/m2) 19,5 ± 3,3 20,2 ± 3,6 19,8 ± 3,4 0,13 Perímetro da cintura (cm) 68,4 ± 8,4 67,7 ± 8,9 68,0 ± 8,7 0,59 0,43 ± 0,04 0,43 ± 0,05 0,43 ± 0,05 0,74 27,4 ± 8,6 25,1 ± 4,6 26,1 ± 6,8 0,01 0,55 ± 0,1* 0,51 ± 0,1 0,53 ± 0,1 0,003 Variáveis Idade (anos) Razão cintura-estatura Força absoluta (kg) Força relativa *Diferença significativa entre meninos e meninas. 292 • Brasília Med 2013;50(4):288-295 p Ramires Alsamir Tibana e cols. • Força muscular e sobrepeso em adolescentes Tabela 2. Características dos adolescentes de acordo com os quintis da força muscular relativa Quintil 1 (n = 23) Quintil 2 (n = 23) Quintil 3 (n = 23) Quintil 4 (n = 23) Quintil 5 (n = 23) 13 ± 1,4 13,1 ± 1,5 13,1 ± 1,3 13,6 ± 1,3 13,9 ± 0,8 Massa corporal (kg) 60,6 ± 16,0 58,7 ± 20,9 52,8 ± 12,8 50,8 ± 11,2 55,7 ± 8,8 Estatura (m) 1,59 ± 0,11 1,58 ± 0,14 1,63 ± 0,14 1,62 ± 0,11 1,68 ± 0,08 IMC (kg/m2) 23,5 ± 3,8 22,7 ± 4,7 19,6 ± 2,2*† 19,2 ± 2,1*† 19,6 ± 2,1*† PC (cm) 75,4 ± 8,2 72,8 ± 12,6 68,2 ± 7,3* 67,3 ± 5,6* 69,1 ± 4,9* RCE 0,47 ± 0,04 0,46 ± 0,06 0,42 ± 0,03*† 0,42 ± 0,03*† 0,41 ± 0,02*† Força absoluta (kg) 24,1 ± 6,4 28,6 ± 10,1 28,9 ± 7,4 31,3 ± 7,3* 40,5 ± 6,3*†‡§ Força relativa 0,40 ± 0,1 0,49 ± 0,2* 0,55 ± 0,2*† 0,61 ± 0,3*†‡ 0,73 ± 0,06*†‡§ Variáveis Idade (anos) IMC – índice de massa corporal. PC – perímetro da cintura. RCE – razão cintura-estatura. *Diferença significativa em comparação ao primeiro quintil (p < 0,001). †Diferença significativa em comparação ao segundo quintil (p < 0,001). ‡Diferença significativa em comparação ao terceiro quintil (p < 0,01). § Diferença significativa em comparação ao quarto quintil (p < 0,001). Tabela 3. Características das adolescentes de acordo com os quintis da força muscular relativa Quintil 1 (n = 24) Quintil 2 (n = 24) Quintil 3 (n = 24) Quintil 4 (n = 25) Quintil 5 (n = 25) Idade (anos) 12,8 ± 1,1 13,3 ± 1,0 13,4 ± 0,9 13 ± 1,2 13,2 ± 0,9 Massa corporal (kg) 60 ± 10,5 53,6 ± 7,8 51,4 ± 8,0 47,7 ± 6,8 45,6 ± 5,6 Estatura (m) 1,59 ± 0,06 1,59 ± 0,07 1,56 ± 0,06 1,56 ± 0,06 1,57 ± 0,05 IMC (kg/m2) 23,6 ± 3,8 21,3 ± 3,5 21 ± 2,5* 19,5 ± 2,3* 18,6 ± 2,2*†‡ PC (cm) 72,8 ± 7,3 68,5 ± 5,6 68,2 ± 5,4 63,5 ± 4,8*†‡ 62,3 ± 3,9*†‡ RCE 0,46 ± 0,04 0,43 ± 0,04 0,44 ± 0,04 0,41 ± 0,03*†‡ 0,40 ± 0,03*†‡ Força absoluta (kg) 22,5 ± 4,7 23,9 ± 3,4 25,4 ± 3,9 25,4 ± 3,7 28,1 ± 4,1*† Força relativa 0,38 ± 0,1 0,45 ± 0,1* 0,49 ± 0,1*† 0,53 ± 0,1*†‡ 0,62 ± 0,4*†‡§ Variáveis IMC – índice de massa corporal. PC – perímetro da cintura. RCE – razão cintura-estatura. *Diferença significativa entre meninos e meninas. *Diferença significativa em comparação ao primeiro quintil (p < 0,001). †Diferença significativa em comparação ao segundo quintil (p < 0,001). ‡Diferença significativa em comparação ao terceiro quintil (p < 0,01). §Diferença significativa em comparação ao quarto quintil (p < 0,001). Tabela 4. Correlação entre as variáveis antropométricas com a força muscular relativa em meninos e meninas Meninos (n = 115) Meninas (n = 122) Variáveis r p r p Massa corporal (kg) -0,17 0,06 -0,51 0,001* Índice de massa corporal (kg/m2) -0,44 0,001* -0,49 0,001* Perímetro da cintura (cm) -0,30 0,001* -0,52 0,001* Razão cintura-estatura -0,52 0,001* -0,45 0,001* *Correlação significativa Brasília Med 2013;50(4):288-295 • 293 artigo original DISCUSSÃO O objetivo do presente estudo foi comparar a força muscular relativa de adolescentes com sobrepeso e sem sobrepeso além de correlacionar a força muscular relativa com a massa corporal, com o índice de massa corporal, com o perímetro da cintura e com a razão cintura-estatura. Os resultados encontrados mostraram que os adolescentes sobrepesados têm menor força muscular relativa quando comparados aos adolescentes eutróficos. Além disso, quando analisados os quintis da força muscular relativa, aqueles que apresentaram menor força muscular foram os que tiveram maior massa corporal, índice de massa corporal, perímetro da cintura e razão cintura-estatura. Assim, confirma-se a hipótese de que a baixa aptidão da força muscular na adolescência favorece os riscos à saúde tanto em meninos como em meninas. Os resultados do presente estudo corroboram as evidências da literatura e indicam que o índice de massa corporal, o perímetro da cintura e a razão cintura-estatura são mais elevados em indivíduos com menor força muscular.6-10 Jackson e colaboradores20 demonstraram que a prevalência e a incidência da obesidade diminuem sistematicamente com o aumento da força muscular em homens adultos, mesmo se corrigidas por idade, massa corporal e aptidão cardiorrespiratória. De forma análoga, Grontved e colaboradores13 analisaram a associação da força muscular isométrica com os fatores de risco cardiovascular em jovens durante doze anos. Os resultados mostraram que a cada desvio-padrão de diferença na força muscular isométrica esteve inversamente associada com o índice de massa corporal (-0,6 kg/m2), triglicerídios (-0,09 mmol/L) e pressão arterial diastólica (-1,2 mmHg). Recentemente, Jiménez-Pavón e colaboradores12 usaram um método parecido com a do presente estudo para avaliar a força muscular em adolescentes (teste de preensão manual) e associar com marcadores de resistência a insulina. De acordo com os resultados apresentados, a força de preensão manual foi negativamente associada com a insulina de jejum. Similarmente, Lee e 294 • Brasília Med 2013;50(4):288-295 colaboradores21 demonstraram que a força muscular máxima foi correlacionada com a sensibilidade à insulina (r = 0,39) e com o teste oral de tolerância a glicose (r = -0,32) em quarenta adolescentes obesos. Não obstante, Silventoinen e colaboradores11 mostraram que os adolescentes com menor força muscular foram os que apresentaram maiores probabilidades de ter doenças coronarianas e acidente vascular encefálico. Além disso, os benefícios de os adolescentes serem mais fortes e mais aptos fisicamente não se estendem apenas à composição corporal mais privilegiada e aos fatores de risco cardiovasculares mais brandos. Estudos recentes demonstram que crianças e adolescentes que são mais ativos fisicamente apresentam melhores desempenhos em testes de memória e aprendizado, aumento na função cognitiva em tarefas que requerem percepção22 e melhores desempenhos acadêmicos.23 É oportuno destacar algumas limitações metodológicas do presente estudo. Em geral, investigações em grupos não escolhidos aleatoriamente (amostras de conveniência) têm como consequência produzir estimativas que não correspondem às frequências realmente existentes na população. Ademais, o estudo trata-se de uma pesquisa transversal que impossibilita estabelecer relação de causa e efeito. No entanto, estudos longitudinais têm demonstrado que a força muscular é capaz de predizer diversas afecções orgânicas e níveis de mortalidade.4,13,14 Além disso, a força muscular foi avaliada apenas pelo teste de preensão manual, apesar de estudos terem usado essa ferramenta como parâmetro na avaliação do estado geral de força.16,23 Adicionalmente, essa metodologia é de fácil aplicação e não necessita de equipamentos sofisticados, bem como de pessoal treinado, o que possibilita sua utilização para avaliar a força muscular em grandes populações.24 Por último, os adolescentes que apresentaram menor força muscular relativa foram aqueles com maior massa corporal, o que pode ter influenciado nos resultados do presente estudo. Em conclusão, os resultados do presente estudo sugerem que, nas estratégias preventivas de obesidade, devem incidir não somente diminuição da Ramires Alsamir Tibana e cols. • Força muscular e sobrepeso em adolescentes gordura corporal e aumento da aptidão cardiorrespiratória, mas também aumento da força muscular, sobretudo na prevenção da obesidade em adolescentes. De fato, o recente posicionamento da Academia Americana de Pediatria recomenda a inclusão do treinamento de força muscular com frequência de duas a três vezes por semana em dias não consecutivos para crianças e adolescentes.25 REFERÊNCIAS 1. World Health Organization (WHO). Obesity e overweight [acesso 20 maio 2013]. Disponível em http://www.who.int / dietphysicalactivity/childhood/en. 2. Vanhala M, Vanhala P, Kumpusalo E, Halonen P, Takala J. Relation between obesity from childhood to adulthood and metabolic syndrome: population based study. BMJ. 1998;317(7154):319. 3. Must A, Jacques PF, Dallal GE, Bajema CJ, Dietz WH. 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