CENTRO UNIVERSITÁRIO UNA INSTITUTO DE EDUCAÇÃO CONTINUADA, PESQUISA E EXTENSÃO MESTRADO EM GESTÃO SOCIAL, EDUCAÇÃO E DESENVOLVIMENTO LOCAL CAMÉLIA VAZ PENNA ADOLESCENTES DO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA E CONDICIONALIDADE DA EDUCAÇÃO: uma aproximação aos fatores que concorrem para a infrequência escolar Belo Horizonte 2010 CAMÉLIA VAZ PENNA ADOLESCENTES DO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA E CONDICIONALIDADE DA EDUCAÇÃO: uma aproximação aos fatores que concorrem para a infrequência escolar Dissertação apresentada ao Mestrado em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local do Centro Universitário UNA, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre. Área de concentração: Inovações sociais, educação e desenvolvimento local. Linha de pesquisa: Processos políticosociais: articulações institucionais e desenvolvimento local. Orientadora: Profa. Dra. Eloisa Helena Santos Belo Horizonte 2010 P412a Penna, Camélia Vaz Adolescentes do Programa Bolsa Família e condicionalidade da educação: uma aproximação aos fatores que concorrem para a infrequência escolar / Camélia Vaz Penna. – 2010. 137.: il. Orientador: Profa. Dra. Eloisa Helena Santos Dissertação (Mestrado) - Centro Universitário UNA 2010. Programa de Mestrado em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local. Bibliografia f. 119 -122 1. Políticas públicas 2. Educação 3. Evasão escolar 4. Adolescente I. Santos, Eloisa Helena Santos. II.Centro Universitário UNA. III. Título. CDU: 658.114.8 Ficha catalográfica desenvolvida pela Biblioteca UMA campus Guajajaras AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente à minha família, especialmente meus pais, por me guiarem e me orientarem para a vida. Orgulho-me imensamente dos valores que hoje tenho comigo e que foram plantados por eles. Aos meus amigos, amigas, primos, primas, irmãos, irmãs e demais familiares pelos momentos de descontração proporcionados. Agradeço sobretudo àquelas que pelas circunstâncias acompanharam de maneira mais próxima esses últimos dois anos da minha vida, Fernanda e Flávia, que ouviram tanto minhas satisfações e empolgações como também minhas inquietações e que juntamente à Ju não mediram esforços em me fazer companhia nas noites que precisava recompor as energias para continuar. À Raquel pelas discussões que tanto me ensinam. À Uiara e à Violeta, pelo carinho e pelos cuidados de sempre. À Giselle pela prontificação na revisão deste trabalho. À Tia Neila pelos mimos e disciplinamento nos dias em que me recebeu em sua casa para que eu estudasse. A todos vocês meu muito obrigada pela compreensão nos momentos de “não posso, tenho que estudar”! Às colegas de trabalho da Fump e da Unipac, por me apoiarem impetuosamente quando fui aprovada no mestrado, bem como pelo incentivo e pela compreensão demonstrados quando optei por outros espaços profissionais. À Marisnei e à Renata meu sincero reconhecimento, pois sem vocês sem dúvida não teria sido possível iniciar esse mestrado. Aos professores do mestrado por contribuírem na construção do meu conhecimento. Em especial, agradeço a minha orientadora Eloisa Helena Santos. A confiança que ela depositou em mim e as oportunidades que me proporcionou foram essenciais para direcionar-me profissionalmente. Obrigada por dividir comigo seus saberes e me apoiar para além da dissertação! Aos colegas de turma do mestrado pelas experiências e conhecimentos que compartilhamos. Ao colega Reuber, cuja afinidade permitiu que tivéssemos boas conversas sobre e para além do curso. Ao Paulo, por me dar força e me fazer companhia nos finais de semana que passei em casa estudando. Agradeço também por me ceder seu computador quando o meu resolveu falhar aos 44 minutos do segundo tempo e por me acalmar nos momentos de angústia. Ao grupo de pesquisa “Descumprimento de Condicionalidades por parte de famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família em Belo Horizonte – MG”, pelo compromisso e dedicação que produziram os resultados que impulsionaram esse trabalho. À Maura, Vanessa e Iara por acompanharem a realização das entrevistas e auxiliarem na transcrição das mesmas. Um agradecimento muito especial aos adolescentes entrevistados, que abriram suas casas e disponibilizaram seu tempo me concedendo informações essenciais para este estudo. Este não seria possível sem os depoimentos coletados e a verbalização de suas experiências e vivências. Por fim, gostaria de registrar meu agradecimento a todos que, em algum momento, fizeram parte dessa minha trajetória. RESUMO Este trabalho apresenta uma aproximação aos fatores que concorrem para a infrequência e a evasão escolar por parte dos adolescentes de famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família em Belo Horizonte. Como objetivos tivemos: traçar a biografia destes adolescentes; conhecer o sentido que eles atribuem à escola e ao saber e analisar a relação que estabelecem com o saber e com a escola. Partimos da hipótese de que estes adolescentes possuem uma relação com a escola e o saber que os distanciam desta instituição e, por isso, definimos a teoria da relação com o saber como referência para este trabalho. A abordagem da pesquisa foi de natureza qualitativa e contou com uma pesquisa de campo junto a nove adolescentes de ambos os sexos. Os dados qualitativos que direcionaram nossa análise foram obtidos por meio de entrevistas semiestruturadas, individuais e gravadas. A fase de análise dos dados se deu em três etapas: transcrição das gravações com preservação do corpo discursivo; análise de conteúdo, identificando os temas mais importantes e recorrentes abordados pelos sujeitos e, em seguida, agrupando-os em categorias empíricas de compreensão e interpretação dos dados à luz da literatura consultada, e especificamente, tendo como referência principal a teoria da relação com o saber, de Bernard Charlot. Concluímos que o sentido para com a escola e o saber refere-se à necessidade de alcance de um determinado grau de escolaridade e/ou uma profissão para melhor inserção no mercado de trabalho. Na relação com a escola e o saber, aparece pouca alusão aos conteúdos que estão atrelados a uma profissão e a um determinado grau de escolaridade, bem como sentimentos negativos em relação à atividade escolar. Esses dois aspectos da relação com a escola e o saber, juntamente ao sentido da escola que verificamos, culminam no desejo por parte desses adolescentes de alcançar melhor grau de escolaridade, sem necessariamente ter de se relacionar com a escola. A consequência final da situação descrita é a não mobilização para a educação escolar já a partir do aspecto inicial dessa atividade: a frequência escolar. Por fim, verificamos a necessidade de aprofundar este estudo junto a grupos maiores de adolescentes e por meio de novas estratégias metodológicas. Dessa necessidade decorre uma proposta de pesquisa e de estágio para o curso de Serviço Social do Centro Universitário UNA de estudo sobre a relação com a escola e o saber junto a adolescentes das escolas da rede pública de ensino de Belo Horizonte – MG, por meio da utilização do grupo focal como estratégia metodológica. Palavras-chave: políticas sociais, Programa Bolsa Família, condicionalidades, infrequência e evasão escolar, juventude, teoria da relação com o saber. ABSTRACT This work presents an aproximation to the factors that concurs to the infrequency and to school elopement of adolescents which families are beneficiated by the Bolsa Família Program, in Belo Horizonte. As objectives we have: to trace the biography of these adolescents; to know the sense that they attribute to school and to knowledge, and to analyze the relations that they establish with the knowledge and the school. We started from the hypothesis that theses adolescents have a relation with school and knowledge that keep them away from this institution and, because of that, we define a theory about the relation with the knowledge as reference for this work. The research’s approach was qualitative and it was done a field research with nine adolescents of both sexes. The qualitative elements that directed our analysis were obtained by semi structured, individual and recorded interviews. There were three stages in the elements’ analysis phase: recorded transcription with preservation of the discursive body; the analyzed content, identifying the most important and recurring themes approached by the citizens and, afterwards, grouping them in empiric categories of comprehension and interpretation of the elements about the literature consulted, and specifically, having as principal reference the theory of relation with the knowledge, by Bernard Charlot. We concluded that the sense related to school and knowledge refers to the necessity to achieve a determinate school grade and/or a profession to a better insertion in the job market. With reference to the relation with school and knowledge, it appears less allusion to the contents about a profession or a determinate school grade, as well as negative sentiments in relation to the school activity. These two aspects about the relation with school and knowledge, joined to the school sense that we verified, culminate in the desire of theses adolescents to achieve a better school grade, without necessarily having to be related to the school. The final consequence of this situation is the no mobilization for the school education from the initial aspect of this activity: the school frequency. Finally, we verified the necessity to make deeper this study with major groups of adolescents and thereby new methodological strategies. Of this necessity, it occurs a research and traineeship proposal of study about the relation with school and knowledge with adolescents from public schools of Belo Horizonte – MG to the course of Social Service of Centro Universitário UNA, thereby the focal group as a methodological strategy. Key-words: social politics, Bolsa Família Program, conditionalities, infrequency and school elopement, youth, theory of relation with knowledge. LISTA DE TABELAS Tabela 01 - Total de beneficiários do Programa Bolsa Família notificados por descumprimento das condicionalidades .................................................................... 16 Tabela 02 - Distribuição das famílias por regional .................................................... 17 Tabela 03 - Número de pessoas que compõem o grupo familiar ............................. 18 Tabela 04 - Grau de escolaridade do responsável pelo recebimento do repasse monetário .................................................................................................................. 19 Tabela 05 - Amostra segundo idade ......................................................................... 73 Tabela 06 - Amostra segundo o sexo........................................................................ 74 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 01 - Distribuição das famílias por regional .................................................... 18 Gráfico 02 - Estado civil da responsável pelo recebimento do repasse monetário ... 19 Gráfico 03 - Grau de escolaridade por nível de formação ......................................... 20 Gráfico 04 - Situação de trabalho do responsável pelo recebimento do repasse monetário .................................................................................................................. 20 LISTA DE FIGURAS Figura 01 – Aspectos históricos das políticas de transferência de renda .................. 44 Figura 02 – Móbiles impulsionadores para a atividade de trabalho........................... 87 Figura 03 – Relação com a escola e o saber ............................................................ 93 Figura 04 – Sentido entre trabalho e educação....................................................... 105 LISTA DE SIGLAS BPC – Benefício de Prestação Continuada BVJ – Benefício Variável Jovem CRAS – Centro de Referência em Assistência Social CTPS – Carteira de Trabalho e Previdência Social ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente FIES – Programa de Financiamento Estudantil IFES – Instituições Federais de Ensino Superior INEP – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira IPEA – Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas PBH – Prefeitura Municipal de Belo Horizonte PBF – Programa Bolsa Família PETI – Programa de Erradicação do Trabalho Infantil PNAD – Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios PNAS – Política Nacional de Assistência Social ProUni – Programa Universidade para Todos RPC – Renda Per Capita SBPS – Sistema Brasileiro de Proteção Social SMPS – Secretaria Municipal de Políticas Sociais SMAAS – Secretaria Municipal Adjunta de Assistência Social SUMÁRIO INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 13 1 CONDIÇÕES HISTÓRICAS DE CONSTRUÇÃO DAS POLÍTICAS SOCIAIS E A POSITIVAÇÃO DA POLITICA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL .................................... 26 1.1 Debates sobre a gênese e significado das políticas sociais ............................... 26 1.2 Seguridade social no Brasil e o lugar da assistência social ............................... 32 1.2.1 Pobreza, desigualdade social e o direito ao trabalho ....................................... 36 2 O PROGRAMA DE TRANSFERÊNCIA DE RENDA BOLSA FAMÍLIA E CONDICIONALIDADES DA EDUCAÇÃO ................................................................ 40 2.1 Trajetória dos programas de transferência de renda no Brasil ........................... 40 2.2 Definição do Programa Bolsa Família a partir dos documentos e legislações normatizadoras e debates em torno das propostas oficiais ...................................... 47 2.3 Condicionalidades da educação e infrequência escolar .................................... 49 2.4 Infrequência e evasão escolar: o jovem e sua situação educacional ................. 51 2.4.1 O conceito de Juventude .................................................................................. 53 3 A TEORIA DA RELAÇÃO COM O SABER PARA ANÁLISE DA INFREQUÊNCIA ESCOLAR ............................................................................................................... 57 4 RELAÇÃO COM O SABER E COM A ESCOLA POR PARTE DE ADOLESCENTES QUE DESCUMPRIRAM A CONDICIONALIDADE DA EDUCAÇÃO.............................................................................................................. 71 4.1 O percurso metodológico .................................................................................... 71 4.2 Uma aproximação aos fatores que concorrem para a infrequência e evasão escolar por parte dos adolescentes de famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família em Belo Horizonte ....................................................................................... 77 4.2.1 Atividades que mobilizam os adolescentes em sua rotina diária .................... 78 4.2.1.1 Ocupar o tempo dormindo ............................................................................ 78 4.2.1.2 Atividades de lazer ....................................................................................... 80 4.2.1.3 Recorte de gênero nas responsabilidades diárias presentes ....................... 81 4.2.1.4 A centralidade do trabalho remunerado enquanto atividade mobilizadora .... 82 4.2.2 Atividade de trabalho remunerado e os móbiles implicados ............................ 86 4.2.2.1 Aquisição de bens materiais ......................................................................... 87 4.2.2.1.1 Bens de consumo ....................................................................................... 88 4.2.2.1.2 Bens duráveis ............................................................................................ 89 4.2.2.2 Superação da condição socioeconômica do grupo familiar de origem .......... 90 4.2.2.3 Independência financeira em relação ao grupo familiar de origem ............. 90 4.2.2.4 Contribuir no orçamento familiar ................................................................. 91 4.2.3 Relação com a escola e o saber: a construção dos sujeitos .......................... 92 4.2.3.1 A chegada na escola: primeiras impressões e vivências ............................. 93 4.2.3.2 Sociabilidade ............................................................................................... 95 4.2.3.3 Aprendizagem .............................................................................................. 96 4.2.3.3.1 Sentido dos conteúdos escolares ........................................................... 101 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................. 107 6 PROPOSTA PROFISSIONAL ............................................................................. 111 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ....................................................................... 119 APÊNDICES ANEXOS 13 INTRODUÇÃO Esta dissertação constitui um resultado de pesquisa que apresenta uma aproximação aos fatores que concorrem para a infrequência e para a evasão escolar por parte dos adolescentes de famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família (PBF) em Belo Horizonte. Nosso trabalho teve como referência uma pesquisa anterior realizada por um grupo de alunos e de professores do curso de graduação em Serviço Social e do Mestrado Profissional em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local do Centro Universitário UNA. Esta pesquisa se iniciou em abril de 2008, por meio de uma parceria com a Secretaria Municipal de Políticas Sociais (SMPS) e a Secretaria Municipal Adjunta de Assistência Social (SMAAS), ambas da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte (PBH). A parceria teve como origem o interesse destas instituições em proporcionar uma interlocução entre a academia e a administração pública, com vistas à produção e socialização de um conhecimento que, de um lado, colaborasse com a formação profissional crítica e atualizada dos alunos do curso de Serviço Social da UNA e, de outro lado, contribuísse para o fortalecimento das políticas sociais públicas. O objeto de estudo desta pesquisa se voltou para o descumprimento de condicionalidades por parte das famílias inseridas no Programa Bolsa Família em Belo Horizonte – MG. As condicionalidades são os compromissos sociais assumidos por essas famílias e envolvem atividades a serem cumpridas para assegurar o direito de receber o repasse financeiro do PBF. O objetivo das condicionalidades é ampliar o acesso dos cidadãos aos seus direitos sociais básicos, em especial os relativos à saúde e à educação. Os compromissos em relação à saúde1 são: 1 - Para as famílias com crianças até 7 anos: • levar as crianças para vacinação e manter atualizado o calendário de vacinação; • levar as crianças para serem pesadas, medidas e examinadas, conforme o calendário do Ministério da Saúde. 2 - Para as gestantes e mães que amamentam: • 1 participar do pré-natal; Portaria MS/MDS nº2.509, de 18 /11/2004. 14 • continuar o acompanhamento após o parto, de acordo com o calendário do Ministério da Saúde e levando sempre o Cartão da Gestante; e • participar das atividades educativas desenvolvidas pelas equipes de saúde sobre aleitamento materno e alimentação saudável. No que diz respeito à educação, os compromissos são os seguintes2: • matricular as crianças e adolescentes de 6 a 15 anos na escola; • garantir a frequência mínima de 85% das aulas a cada mês. Se o aluno precisar faltar, é necessário informar à escola e explicar o motivo; e • informar ao gestor do Programa Bolsa Família sempre que alguma criança mudar de escola para que seja dada continuidade ao acompanhamento da frequência na nova escola. Entre as famílias cadastradas no BPF, em Belo Horizonte, estima-se que 17000 são questionadas, atualmente, pelo poder público sobre o cumprimento das condicionalidades. Dentre estas, 5000 estão em processo adiantado de desligamento do Programa, em função da recorrência de descumprimentos e 12000, ainda, apresentam dificuldades em cumpri-las (informação verbal)3. Para a realização da pesquisa, no primeiro semestre de 2008, foram mobilizados alunos do curso de Serviço Social e professores da disciplina de Orientação de Estágio Obrigatório, que ao longo do semestre letivo realizaram estudo bibliográfico e discussões sobre a temática. No segundo semestre deste mesmo ano, a interlocução entre os parceiros foi fortalecida, a equipe foi reorganizada e passou a mobilizar os seguintes profissionais: - um(a) assistente social do curso de Serviço Social do Centro Universitário UNA, responsável pela inserção e acompanhamento do/as aluno/as no processo; - uma professora do curso de Serviço Social do Centro Universitário UNA responsável pelo acompanhamento da pesquisa; - quarenta alunos(as) do 4º e 5º períodos do curso de Serviço Social do Centro Universitário UNA, que se organizaram em duplas para a realização das tarefas próprias à pesquisa; 2 Portaria MEC/MDS nº 3.789, de 17/11/2004. Informação prestada por Flávia Julião, gerente da Gerência de Coordenação Municipal dos Programas de Transferência de Renda, em agosto de 2008. 3 15 - 06 professoras da disciplina de Orientação de Estágio Obrigatório, cuja função foi orientar estes(as) alunos(as) em conformidade com as atividades próprias à disciplina; - a coordenadora do curso de Serviço Social da UNA, responsável pela realização da pesquisa e co-responsável pela viabilidade da parceria; - a gerente da Gerência de Coordenação Municipal dos Programas de Transferência de Renda, co-responsável pela viabilização da parceria; - um(a) assessor(a) técnico(a) da Gerência de Coordenação Municipal dos Programas de Transferência de Renda co-responsável pelo acompanhamento da pesquisa; - a coordenadora da Gerência de Coordenação da Política de Assistência Social da SMAAS, da PBH, responsável, igualmente, pela viabilização da parceria; e - dois assistentes sociais da Secretaria Municipal Adjunta da Assistência Social/ PBH, responsáveis pela supervisão de estágio. Vale ressaltar que a própria definição dos objetivos decorreu de uma discussão entre os parceiros, que por fim possibilitou que a especificidade de todas as partes fosse contemplada na pesquisa, conforme descrevemos a seguir: a) criar um campo de estágio na modalidade obrigatório para os alunos do curso de Serviço Social da UNA com características inovadoras, uma vez que alia pesquisa, extensão e estágio em conformidade com a concepção do componente curricular do projeto político pedagógico do curso; b) contribuir com alterações necessárias ao aprimoramento do PBF e, consequentemente, das políticas sociais; c) produzir conhecimento sobre um aspecto da política de assistência social que se mostra escasso na literatura especializada. Tendo em vista o objeto e objetivo da pesquisa, optamos por uma metodologia de natureza qualitativa. Procedemos à realização de entrevistas junto ao universo de 61 famílias desligadas do PBF, em função de descumprimento de condicionalidades. Essa amostra foi definida a partir da apuração de famílias desligadas em fevereiro e em março de 2008, conforme mostra tabela 01 apresentada na página seguinte. 16 Tabela 01 - Total de beneficiários do Programa Bolsa Família, notificados por descumprimento das condicionalidades TIPO DE SANÇÃO TOTAL ADVERTÊNCIA BLOQUEIO 1ª SUSPENSÃO 2ª SUSPENSÃO CANCELAMENTO REGIONAL NAF/CRAS REGIONAL NAF/CRAS REGIONAL NAF/CRAS REGIONAL NAF/CRAS REGIONAL NAF/CRAS BARREIRO 63 6 36 8 25 4 15 1 3 1 162 CENTRO - SUL 20 8 14 6 14 1 7 3 2 1 76 62 13 31 7 20 2 15 2 8 0 LESTE 160 NORDESTE 63 21 32 8 37 6 22 6 13 2 210 55 28 27 14 13 7 11 0 6 1 NOROESTE 162 NORTE 98 17 39 9 28 3 17 2 4 2 219 55 7 37 3 21 4 12 0 3 0 OESTE 142 PAMPULHA 21 8 9 7 4 3 3 1 1 2 59 109 10 52 4 27 2 26 0 10 2 VENDA NOVA 242 TOTAL 546 118 277 66 189 32 128 15 50 11 1432 REGIONAL FONTE: SMPS/Gerência de Coordenação dos Programas de Transferência de Renda 17 Um estudo exploratório, anterior ao contato com as famílias, trabalhou por meio de um instrumento (apêndice 01) construído para esta atividade, os dados coletados junto aos arquivos da Gerência de Coordenação do Programa Bolsa Família, a fim de construir o perfil destas famílias. Técnicos que atuam em programas e/ou em serviços vinculados ao PBF foram também contatados para realização de uma entrevista, direcionada por um roteiro (apêndice 02), para fornecer informações complementares aos dados já sistematizados pelo Programa. O estudo exploratório demonstrou que das 61 famílias pesquisadas, 28 encontram-se em situação de pobreza e 33 em situação de extrema pobreza4 e estão distribuídas pelas regionais, conforme dados da tabela 02 e gráfico 01: Tabela 02 – Distribuição das famílias por regional 4 Regional Quantidade Barreiro 4 Centro-Sul 3 Leste 8 Nordeste 15 Noroeste 7 Norte 6 Oeste 3 Pampulha 3 Venda Nova 12 Conforme a Lei 10.836, de 09 de janeiro de 2004 e o Decreto nº 5.209, de 17 de setembro de 2004, famílias com renda mensal per capita até R$70,00 são caracterizadas como de extrema pobreza. São consideradas em situação de pobreza as famílias com renda per capita (RPC) de R$70,01 até R$140,00. 18 Verificamos uma predominância destas famílias nas regionais Nordeste e Venda Nova que somadas, totalizam 45% da amostra (gráfico 01). Essas são também as regionais com maior número de famílias beneficiárias. Gráfico 01 – Distribuição das famílias por regional 6% 20% Barreiro 5% 13% 5% 5% Centro Sul Leste Nordeste 10% 25% 11% Noroeste Norte A composição familiar, no tocante ao número de integrantes que constituem o grupo familiar varia de duas até nove pessoas, conforme apresentado na tabela 03 a seguir: Tabela 03 – Número de pessoas que compõem o grupo familiar Número de integrantes Quantidade Dois componentes 5 Três componentes 11 Quatro a seis componentes 38 sete a nove componentes 07 19 Em relação ao estado civil do responsável pelo recebimento do repasse 5 monetário , verificamos que nessas famílias predominam como chefes de famílias mães solteiras. O gráfico 02 ilustra a situação na qual 37 (60%) são solteiras, 11 (18%) casadas, 03 divorciadas (5%), 05 separadas (8%), 05 viúvas (8%) e um não informado (1%). Gráfico 02 - Estado civil da responsável pelo recebimento do repasse monetário 1% solteira 8% casada 8% 5% divorciada separada 18% 60% viúva não informado O estudo confirmou, também, o baixo grau de escolaridade das responsáveis pelo recebimento do repasse monetário (tabela 03). Quando agrupamos o grau de escolaridade por nível de formação (gráfico 03) temos que 52, ou seja, 85%, não concluíram o ensino fundamental. Tabela 04 - Grau de escolaridade do responsável pelo recebimento do repasse monetário 5 Grau de instrução Quantidade Analfabeto 4 Ensino infantil incompleto 17 Ensino infantil completo 6 Fundamental incompleto 25 Fundamental completo 5 Ensino médio completo 3 Não informado 01 O repasse monetário é feito preferencialmente no nome da mãe, salvo na ausência desta. 20 Gráfico 03 - Grau de escolaridade por nível de formação ensino fundamental incompleto 2% 13% ensino fundamental completo ou médio incompleto não informado 85% No que se refere à situação de trabalho do responsável, apresentado no gráfico 04, 25 (41%) se declaram autônomos sem vínculo com a previdência social, 22 (36%) não trabalham, 06 (10%) são assalariados com Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS), 03 (05%) aposentados ou pensionistas e 02 (3%) assalariados sem CTPS. Demais situações, tais como autônomo com previdência, empregador, trabalhador ou empregador rural não tiveram ocorrência. Gráfico 04 – Situação de trabalho do responsável pelo recebimento do repasse monetário 10% 3% 36% 41% 5% 2% 3% assalariado com CTPS assalariado sem CTPS autônomo sem previdência aposentado ou pensionista outro não informado não trabalha Após a realização do estudo exploratório, que permitiu um perfil da situação socioeconômica das famílias, elaboramos o roteiro, disponível no apêndice 03, para realização de entrevista junto às famílias. O instrumento foi construído em 21 conjunto pelos alunos e pelo restante da equipe, já descrita anteriormente. As entrevistas foram realizadas nos meses de dezembro de 2008 e abril e maio de 2009. Importante ressaltar que o período em questão se fez necessário em função de intercorrências relativas à localização das famílias, tais como mudança de endereço, não localização dos entrevistados, em um primeiro momento, e número da residência incorreto. Estas intercorrências exigiram uma interlocução com a SMPS e SMAAS, no sentido de retificar os casos de endereço incorreto, de insistir na realização dos contatos frente a não localização da família, em um primeiro momento, além de contatos com outros serviços públicos, principalmente postos de saúde e Centro de Referência em Assistência Social (CRASS) para localizar os novos endereços. Ao final deste período, foram realizadas 38 entrevistas. As demais entrevistas foram inviabilizadas em função de endereço não encontrado ou inexistente, mudança de endereço, negação da concessão da entrevista e ausência de pessoas na residência por várias tentativas. Conforme explicitado anteriormente, foi desta pesquisa que decorreu o presente trabalho de conclusão do Mestrado Profissional em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento local. Este foi delineado a partir dos resultados verificados acerca do descumprimento das condicionalidades por parte destas famílias. O primeiro aspecto que nos chamou a atenção foi que todas as famílias foram desligadas em função do não cumprimento da frequência escolar mínima de 85%. Este dado indicou a necessidade de explorarmos a relação entre a família e a educação, já que a saúde não apresentou problemas que levassem ao descumprimento das condicionalidades por parte destas famílias. Um segundo elemento foi que todos os entrevistados, quando estimulados a dar sua opinião em relação à condicionalidade da educação, manifestaram conhecimento a seu respeito e concordância em relação à necessidade de cumpri-la para a permanência no Programa. A partir desta evidência, concluímos pela necessidade de elucidar os fatores que dificultam o cumprimento da frequência escolar, já que não há por parte das famílias nenhuma ressalva em relação à importância e à coerência de tal exigência. Os dois aspectos centrais manifestados pelos entrevistados foram a falta de desejo dos filhos para frequentarem a escola e a impotência dos pais frente a filhos que se negam a ir para a escola. Ressaltamos, que segundo os entrevistados, essa falta de desejo é 22 marcante a partir da adolescência, quando então se acentua a infrequência e/ou evasão escolar. Indo ao encontro da fala dos responsáveis, identificarmos junto aos dados da SMPS, que 90% dos filhos que apresentaram infrequência e/ou evasão escolar encontram-se com idade entre 12 e 17 anos. O depoimento de uma entrevistada elucida bem a ideia de falta de desejo de ir e permanecer na escola, por parte dos alunos, realidade apontada também por outros entrevistados: (...) ele até fala comigo: - O, mamãe, eu não sei o que acontece comigo, eu falo que eu vou, mas quando eu chego lá, eu não sei o que acontece que eu não fico". (entrevistada 3, mãe do adolescente). Neste sentido, questionamos: (1) Qual é o perfil destes adolescentes? (2) Por que motivos esses adolescentes não querem ir e permanecer na escola? (3) Qual é a relação que estes adolescentes estabelecem com a escola e o saber? e (4) Qual é o perfil das escolas onde estudam?6 A partir destes resultados, definimos um novo objeto de pesquisa, que é a relação que os adolescentes de famílias desligadas do Programa Bolsa Família, em Belo Horizonte – MG, por descumprimento da condicionalidade da educação, estabelecem com a escola e com o saber. O objetivo geral desta pesquisa foi compreender os fatores que concorrem para a infrequência escolar por parte dos adolescentes de famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família, do Município de Belo Horizonte – MG. Para tanto definimos como objetivos específicos traçar a biografia destes adolescentes; conhecer o sentido que estes adolescentes atribuem à escola e ao saber; e analisar a relação que os adolescentes estabelecem com o saber e com a escola. Os resultados aqui encontrados subsidiaram a formulação da proposta profissional apresentada ao final desta dissertação. Os quatro aspectos fundamentais que justificaram a realização desta pesquisa são (1) as motivações profissionais delineadas em função da trajetória profissional da mestranda, ponto considerado central dado o enfoque profissional do Mestrado em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local; (2) a adequação aos eixos de formação do curso; (3) a relevância social; e (4) a produção de 6 Outra pesquisa vem sendo realizada por professores do Mestrado em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local e tomará como objeto o perfil destas escolas. 23 conhecimento, uma vez que verificamos uma lacuna sobre essa temática, voltada para os beneficiários do Programa Bolsa Família, na literatura especializada. No que se refere à motivação advinda da trajetória de formação e atuação da mestranda, assinalamos que o desejo de busca de soluções para problemas da natureza deste trabalho decorreu das vivências profissionais enquanto membro da equipe da pesquisa anterior na qualidade de assistente social e supervisora de estágio. A pesquisa desenvolvida pelo Centro Universitário UNA apresentou resultados que apontaram novos caminhos de estudo, em especial, concernentes à educação, no sentido de conhecer melhor o problema do não cumprimento das condicionalidades. Um terceiro aspecto é que, a partir do resultado aqui proposto, pretendemos contribuir com duas dimensões distintas. Buscamos colaborar na melhoria das políticas sociais, especificamente do Programa Bolsa Família, dada sua importância no cenário nacional atual, enquanto estratégia de redução das desigualdades sociais no país. A segunda dimensão é que, em virtude de sua ligação com o curso de Serviço Social da UNA, um novo projeto será construído a partir dos resultados desta pesquisa, proporcionando a abertura de campos de estágio para os alunos deste curso, já que será mantida a parceria com a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte. Ressaltamos, ainda, a interlocução entre a academia e o poder público, uma vez que o processo de produção do conhecimento e o próprio conhecimento produzido contribuirão, de um lado, com uma vertente inovadora da formação dos alunos e, por outro lado, com a solução de problemas presentes na formulação, gestão e execução de políticas sociais públicas. A propósito da concernente adequação do tema deste trabalho aos eixos de formação do curso, o Mestrado Profissional em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local propõe, por intermédio do diálogo com a realidade social, a solução de problemas, bem como a identificação de oportunidades no campo das questões educacionais e político-sociais, a fim de contribuir no desenvolvimento social. Uma vez inscrita no âmbito geral do combate às desigualdades sociais, pela via de um programa que tem como um dos eixos centrais a garantia de acesso à educação, esta pesquisa teve como argumentação inicial sua relação com o desenvolvimento do país. Já não é recente a discussão e comprovação acerca dos 24 ganhos que o investimento em educação traz, tanto para os sujeitos individuais como para toda a sociedade. Educação relaciona-se à inclusão no mercado de trabalho, à capacidade de contribuir para o desenvolvimento e, portanto, à conquista e à garantia da cidadania. Um recente texto do economista José Márcio Camargo, sobre educação, crescimento e desigualdade, argumenta que os ganhos obtidos pela sociedade como um todo com a elevação do nível de escolaridade das pessoas são maiores do que os ganhos obtidos individualmente. Neste sentido, priorizar o investimento público em educação “é uma condição necessária (ainda que não suficiente) para aumentar o bem-estar da população no longo prazo, reduzir a pobreza e a desigualdade da renda” (CAMARGO, 2008). Enfim, esperamos que o produto final aqui delineado possa contribuir para a tão buscada redução das disparidades sociais no país. Esta dissertação está dividida da forma que segue. Primeiramente, apresentamos nossas reflexões iniciais quanto ao tema, problema, objeto, objetivos e à justificativa desta pesquisa. Depois, estruturamos o trabalho em quatro capítulos. Em um primeiro momento, abordamos as condições históricas de construção das políticas sociais no Brasil com o objetivo de compreender a positivação da política de assistência social e o atual quadro das políticas sociais de combate a pobreza no Brasil que desde 1994 tem apresentado centralidade nos programas de transferência de renda. No capítulo II, apresentamos a história dos programas de transferência de renda, para então adentrarmos na discussão sobre as condicionalidades da educação presentes no desenho atual do programa de transferência de renda central no Brasil, o Bolsa Família. Expomos também a discussão sobre infrequência e evasão escolar. No capítulo III, explicamos a teoria7 que subsidia esse trabalho. Trata-se da teoria da relação com o saber de Bernard Charlot que utilizamos para análise da infrequência e da evasão escolar por parte dos adolescentes. No capítulo IV, discorremos sobre o percurso metodológico da pesquisa bem como os resultados da 7 O autor apresenta a teoria da relação com o saber como uma construção em andamento. Utilizamos a expressão teoria da relação com o saber sem contudo desconsiderar o aspecto ressaltado pelo autor. 25 pesquisa de campo. Por fim, apresentamos as referências bibliográficas que fundamentaram o conteúdo deste trabalho, os apêndices e os anexos. 26 1 CONDIÇÕES HISTÓRICAS DE CONSTRUÇÃO DAS POLÍTICAS SOCIAIS E A POSITIVAÇÃO DA POLITICA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL Pensar no Programa Bolsa Família nos remete ao estudo das políticas sociais enquanto respostas organizadas do Estado voltadas para intervenção na pobreza e na desigualdade social. Neste sentido, apresentamos neste capítulo uma discussão sobre como a gênese e o significado das políticas sociais têm sido abordados na literatura. Contextualizamos, também, a política de assistência social enquanto direito reconhecido no Brasil a partir da Constituição Federal Brasileira de 1988. A discussão dessas categorias teóricas se mostra necessária, uma vez que o Programa Bolsa Família é uma política social que, embora articule outras políticas, inscreve-se no âmbito da assistência social. 1.1 Debates sobre a gênese e significado das políticas sociais Política social relaciona-se diretamente à organização da sociedade na qual vivemos, o que significa dizer que guarda estreita relação com o modo de produção capitalista. Exemplo disso é o fato de que a literatura aponta que as primeiras iniciativas das políticas sociais ocorrem com a ascensão do capitalismo, decorrente da Revolução Industrial, as lutas de classes e o incremento da intervenção do Estado. Especificamente, generaliza-se na passagem do capitalismo concorrencial para o monopolista (BEHRING; BOSCHETTI, 2008). Segundo Demo (2004), políticas sociais são respostas à questão social, entendida como problema da desigualdade social que existe enquanto fenômeno histórico-estrutural. Na visão histórico-estrutural, a desigualdade é fenômeno da estrutura social, mas manifesta-se de forma diferenciada na história que é criada e recriada pelos homens. Por este motivo, é passível de intervenção e redução, levando a sociedades mais justas e menos desiguais, mas jamais de superação. Esta conceituação, a qual utilizaremos para referenciar nossas análises neste trabalho, refuta a compreensão da desigualdade por outras duas linhas, que são a estrutural e a histórica. A primeira concebe a história como determinada e repetitiva. Trata-se de uma visão funcionalista que busca modos de acomodação da desigualdade social e não de enfrentamento, já que a compreende como dada e sem possibilidade de se transformar, por ser fenômeno objetivamente presente e 27 não inventado na história. Já na visão histórica, a desigualdade surge a partir do advento da propriedade privada e desenvolvimento do modo de produção capitalista, sendo passível de superação na história, por meio da atuação em sua causa (DEMO, 2004). Como exemplo de autores que trabalham nessa perspectiva, podemos citar Mota (2008) e Behring e Boschetti (2008). Mota (2008, p. 21) especifica que: (...) a desigualdade social é inerente ao desenvolvimento do capitalismo e das suas forças produtivas. O modo de produzir, distribuir e acumular bens materiais e riqueza é um produto histórico, resultado da ação de homens e mulheres que, ao proverem suas necessidades de reprodução da própria vida, reproduzem as relações sociais. Behring e Boschetti (2008, p.51) compartilham da mesma perspectiva ao definirem que: (...) políticas sociais e a formatação de padrões de proteção social são desdobramentos e até mesmo respostas e formas de enfrentamento – em geral setorializadas e fragmentadas – às expressões multifacetadas da 8 questão social no capitalismo, cujo fundamento se encontra nas relações de exploração do capital sobre o trabalho. Compreendemos que a discussão sobre políticas sociais guarda posições diversas e até antagônicas. Há vertentes que as concebem como estratégia da classe dominante e, portanto, só servem à manutenção e reprodução do modo capitalista de produzir. Uma segunda posição as tem como prática de direito, contextualizada a partir do Estado, como forma de enfrentamento das desigualdades sociais. Neste sentido, o provimento de políticas sociais por parte do Estado será conforme a compreensão e os interesses vigentes. Embora haja certo consenso sobre as bases das políticas sociais, o mesmo não existe na literatura quando se trata de definir seu significado. Podemos verificar distintos argumentos e formulações provenientes de uma ou outra tradição teórica (BEHRING, 2000). Mota (2008) ao se referir ao conjunto de políticas sociais 8 Sobre sua compreensão de questão social, a autora cita Netto (1992): “A questão social se expressa em suas refrações e, por outro lado, os sujeitos históricos engendram formas de seu enfrentamento. Contudo, sua gênese está na maneira com que os homens se organizam para produzir num determinado momento histórico, como vimos, o de constituição das relações capitalistas – e que tem continuidade na esfera da reprodução social” (NETTO, 1992, apud BEHRING; BOSCHETTI 2008, p. 51-52) 28 positivadas no Brasil indica a existência de dois referenciais de abordagem: a democratização do capitalismo e o da sua superação. O primeiro referencial, a democratização do capitalismo, faz menção à “flexibilização das relações institucionais de poder e no acesso de parte da riqueza social produzida à base do compromisso entre as classes antagônicas” (MOTA, 2008, p.17). Já a segunda abordagem, a da superação do capitalismo, apresenta propostas anticapitalistas, tais como a socialização da riqueza e do poder político. Em síntese, Mota (2008, p.17) afirma que: No referencial social democrata – welfariano - a questão do trabalho se desloca para o campo do emprego e das condições de consumo e de reprodução das classes trabalhadoras assalariadas; no campo anticapitalista, o que está em discussão é a construção da alteridade do trabalho, da apropriação do valor de uso do trabalho pelos trabalhadores, processo que se opõe radicalmente à mercantilização das relações sociais. Utilizamos aqui a orientação analítica de Behring (2000) que chama a atenção para dualismos na análise sob a organização e os significados das políticas sociais. Para esta autora, não cabe pensá-las apenas como um requisito da acumulação capitalista e nem tampouco como troféu na luta por reconhecimento de direitos. Pensar desta forma seria reduzir o fenômeno, uma vez que “política social é sempre resultado que envolve mediações complexas – socioeconômicas, políticas, culturais, e atores sociais/classes sociais que se movimentam e disputam hegemonia na esfera pública e privada” (FALEIROS, 1986, apud BEHRING, 2000: 31). Indo ao encontro de uma compreensão que refute visões unilaterais, Abranches (1987) chama a atenção para três categorias que circunscrevem as políticas sociais: o conflito, a mediação e o poder. A primeira categoria, o conflito, refere-se ao caráter de oposição e de interesses contrários de grupos e classes sociais. Este conflito expressa a contradição inerente à forma como nossa sociedade organiza e distribui riquezas. Em um extremo, apresenta-se o objetivo de acumulação do capital e expansão econômica, e no outro, o de garantir a equidade. A categoria mediação se apresenta uma vez que este conflito é negociado e regulado por instituições políticas. Mediação implicará sempre em opções políticas, já que não há apenas uma solução para a contradição existente. Considerando esses elementos apresentados, a política social será sempre o reflexo 29 de opções políticas e econômicas adotadas em função da força de um ou outro grupo de interesse. Esta força citada acima se refere à categoria poder, que aparece à medida que os atores nos seus distintos interesses disputam reconhecimento daquilo que defendem, por parte dos mediadores. Neste sentido, “quem detém instrumentos eficazes de pressão tem maior probabilidade de obter mais da ação do Estado do que aqueles dependentes dessa própria ação para conseguir o mínimo indispensável à sua sobrevivência” (ABRANCHES, 1987, p. 10). Em síntese, falamos de uma ação governamental em um quadro de interesses opostos e contraditórios, cuja direção da ação jamais será imparcial. Isto implica, ainda, em dizer que sempre haverá discordância sobre o perfil e a amplitude da intervenção do Estado, já que não existe apenas uma possibilidade de equilíbrio entre a acumulação e a privação social. A compreensão e a posição dos grupos e classes sociais para com a contradição entre acumulação e equidade variam em dois extremos. Por um lado, condena-se qualquer forma de acumulação e, em um outro, as raízes estruturais da pobreza são desconsideradas. No processo de pressão por ações governamentais, ambas as compreensões se fazem presentes, influenciando a formulação das políticas sociais. Segundo Abranches (1987), as políticas sociais em países como o Brasil caracterizam-se, em geral, mais pela compensação da pobreza no seu caráter absoluto do que mudanças reais no quadro de desigualdades sociais e situação de dependências às políticas compensatórias. Neste sentido, aponta dois tipos de políticas sociais: a de garantia de padrões mínimos sociais para a vida das pessoas e aquelas de redução da pobreza, voltada para as pessoas em situação de miséria. As políticas sociais de garantia de padrões mínimos possuem como foco grupos de pessoas incapacitadas à obtenção de renda suficiente ou incapacitadas, temporariamente, em função de desempregos temporários, agravos de saúde, acidentes e outros. A política de combate à pobreza tem como referência a destituição, entendida como o não acesso “ao conjunto total de meios sob controle da pessoa que lhe permitem obter os bens e serviços necessários à vida e ao bem-estar” (ABRANCHES, 1987, p.19). Como falamos que o acesso às necessidades básicas depende de um conjunto de fatores, então as políticas de combate 30 à pobreza devem articular além de ações imediatas de combate à pobreza, aspectos das políticas permanentes e das políticas econômicas, visando à inclusão dos “despossuídos aos circuitos regulares da vida social” (ABRANCHES, 1987, p.15). Faleiros (1995) caracteriza as políticas sociais como liberal-democrática. A visão liberal tradicional compreende que o mercado naturalmente é capaz de proporcionar o equilíbrio social à medida que todos podem obter vantagens do mercado por meio da livre concorrência e de suas escolhas individuais. Ocorre que este legado não se concretiza na prática, o que exige que o Estado realize intervenções com medidas sociais. O autor apresenta quatro elementos constitutivos das políticas sociais liberal-democrática: (1) O Estado arbítrio, que é apresentado como neutro e por isso aceito para cumprir a função mediadora. Deve manter o equilíbrio do mercado para que todos possam usufruir das suas vantagens segundo seus desejos e potencialidades, sem, contudo, influenciar no funcionamento do mercado; (2) A compensação e a proteção dos fracos, no qual o Estado é tido como agente principal para que a pessoas tenham acesso a um mínimo para a sua proteção pessoal. Utiliza-se da introdução de determinados direitos sociais que no seu conjunto são regidos pela garantia de um mínimo – jamais ultrapassa um valor determinado; individualismo – que considera as pessoas como sujeitos de direitos, e não coletividades; acessibilidade – normas para que as pessoas acessem determinados bens e serviços de seu direito; universalidade – garantia de um mínimo a todos e por fim a livre escolha – distintos bens e serviços devem ser ofertados para que as pessoas possam escolher as que melhor lhes convém; (3) A cobertura dos riscos sociais que objetiva a proteção frente ao risco de ter a renda interrompida ou perdida. Neste caso, a intervenção do Estado ocorre por meio de uma garantia de regularidade no mercado de trabalho pela via da colocação e qualificação de mão-de-obra e pelos seguros sociais que estimulam a demanda por produtos, bem como a mantem nos períodos de crise; e (4) A institucionalização dos conflitos que se refere ao estabelecimento de regras para que as partes possam apresentar seus interesses e assim realizar uma negociação e uma conciliação. O Estado regula com vistas a garantir o consenso entre as classes, evitando assim uma ruptura. 31 As políticas sociais resultam do desenvolvimento das forças produtivas e das forças sociais. Nas sociedades de capitalismo avançado constituem-se em mediações das relações que se dão entre esses dois elementos e objetivam a reprodução da força de trabalho. Neste sentido, o Estado não é neutro tal qual se promulga para legitimar seu poder mediador. Para Faleiros (1995, p.47) o Estado é uma relação social que “resume, condensa, mediatiza as relações sociais segundo as correlações de força da sociedade civil”. É ainda hegemonia e dominação (FALEIROS, 1995, p.47): A hegemonia representa sua capacidade de orientar o conjunto da sociedade, de arbitrar os conflitos entre as classes e os conflitos de classe, de estabelecer uma certa coesão social. Pela dominação, O Estado impõe a repressão, a força e destrói as oposições e resolve os conflitos. A capacidade interventiva do Estado está diretamente relacionada à disposição e gestão dos recursos para a defesa da paz social frente à pressão social e às necessidades postas para a reprodução da força de trabalho. Em relação à pressão social, o autor salienta que o grupo que ocupa poder no Estado deve manter sua posição e seu espaço, afastando qualquer ameaça de tomada do poder. Ao mesmo tempo, deve obter daqueles que se constituem enquanto ameaça, apoio e fidelidade para conseguir manter sua política. O Estado capitalista ao garantir a propriedade privada e a acumulação de capital precisa mascarar as desigualdades que são gestadas no seu modo de produzir. Uma estratégia presente nos dias atuais é a do discurso ideológico de equalização de oportunidades, combate a discriminação e positivação de direitos sociais. Enfatiza-se o combate à discriminação e assim as pessoas se organizam em grupos secundários como movimentos raciais, religiosos, de gênero, e etc, o que mascara o tema primário, que é a desigualdade proveniente da exploração e dominação de classe. No que se refere à reprodução da força de trabalho, o autor aponta que a cobertura dos riscos sociais, instaurada pela previdência social, contribui para a manutenção capitalista à medida que garante o poder de compra e responde as reivindicações sociais. Os bens e os serviços ofertados ou mediados pelo Estado, bem como auxílios de renda mínima, contribuem para a reprodução da força de 32 trabalho já que garantem pessoas em condição de produzir e uma mão de obra excedente sob controle. 1.2 Seguridade social no Brasil e o lugar da assistência social Com a promulgação da Constituição Brasileira de 1988, avançamos rumo à consolidação de um Sistema Brasileiro de Proteção Social (SBPS). Segundo Cardoso Junior e Jaccoud (2008, p. 194), o SBPS refere-se ao: (...) conjunto de políticas e programas governamentais destinado à prestação de bens e serviços e à transferência de renda, com o objetivo de cobertura de riscos sociais, garantia de direitos sociais, equalização de oportunidades e enfrentamento das condições de destituição e pobreza. O SBPS assenta-se na afirmação dos direitos sociais, busca superar o cunho coorporativo e caritativo de momentos anteriores e foi organizado após o reconhecimento da ineficácia de outras formas de regulação social. No que se refere aos avanços desse novo sistema, podemos apontar: a) ampliação dos direitos sociais assim reconhecidos e da proteção social; b) responsabilização do Estado na efetivação dos direitos sociais; c) novo desenho de provisão de benefícios e definição de beneficiários; d) integração do seguro social, da assistência social e da saúde, criando um sistema de seguridade social; e e) reconhecimento da assistência social como política pública. No SPSB, este mesmo autor identifica quatro grupos de políticas sociais: emprego e trabalho, assistência social e combate à pobreza, direitos incondicionais de cidadania social e infraestrutura social. As políticas de emprego e trabalho têm como principal referência o trabalho assalariado, de maneira que o eixo estruturador deste grupo é a garantia mediante contribuição prévia. A assistência social e o combate à pobreza reúnem políticas voltadas a determinados grupos em caso de extrema necessidade ou vulnerabilidade e compreende a assistência social, a 33 alimentação e nutrição e as ações de combate à pobreza e de transferência de renda. Os direitos incondicionais de cidadania social são os voltados ao provimento incondicional, a partir do reconhecimento de direitos sociais mínimos a qualquer cidadão, como o direito à saúde e ao ensino fundamental. Por fim, o grupo de políticas de infraestrutura social, que compreende a habitação e o saneamento, é reconhecido por sua relevância social, mas ainda não possui um aparato legal estruturante. A assistência social como forma de apoio à população pobre aparece desde os primórdios de formação da sociedade capitalista e permanece até a atualidade (MONNERAT, et al., 2007). No Brasil, a política de assistência social foi positivada como direito do cidadão e dever do Estado na Constituição Brasileira Federal de 1988. Antes desta data, esteve predominantemente voltada ao atendimento de grupos sociais que não possuíam condições de sustento em função de uma desobrigação ao trabalho, como crianças filhas de mães solteiras pobres, idosos e pessoas com deficiência. Tais intervenções tinham como base a caridade e a filantropia (CARDOSO JR. e JACCOUD, 2008). Embora no Brasil a assistência social, enquanto campo de intervenção estatal, tenha apresentado as primeiras ações ao final da década de 1930, é somente nos anos 1980 que se reconhece a insuficiência da filantropia e da caridade para responder ao problema da vulnerabilidade de uma parcela significativa da população (CARDOSO JR e JACCOUD, 2008). Segundo Ferreira (2000, p.140), o reconhecimento da assistência social como direito “apresenta-se como a ocasião privilegiada para superar sua compreensão corrente como dever moral de ajuda, e entendê-la como dever legal de garantia de benefícios e serviços sociais”. Como dissemos acima, a política de assistência social no Brasil tem seu aporte e reconhecimento legal com a Constituição Federal Brasileira de 1988. Em seu capítulo II aborda a seguridade social e logo no primeiro artigo deste capítulo apresenta que a assistência social juntamente à saúde e à previdência são direitos a serem assegurados pelo poder público e pela sociedade. Especificamente sobre a assistência social, rege que esta deve ser prestada para aqueles que desta política precisar e que independe de contribuição prévia à seguridade social. Os objetivos da assistência social (BRASIL, 1988) são: 34 I – a proteção à família, à maternidade, à infância, à adolescência e à velhice; II – o amparo às crianças e adolescentes carentes; III – a promoção da integração ao mercado de trabalho; IV – a habilitação e reabilitação das pessoas portadoras de deficiência e a promoção de sua integração à vida comunitária; V – a garantia de um salário mínimo de benefício mensal à pessoa portadora de deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover à própria manutenção ou tê-la provida por sua família. Conforme dispuser a lei. Em termos de organização político-administrativa, a assistência segue o princípio da descentralização. Isto significa que a esfera federal tem a responsabilidade de coordenação e as esferas municipal e estadual, a responsabilidade executora. Está prevista também, enquanto principio norteador, a participação da população na formulação das políticas e no controle das ações desenvolvidas em quaisquer dos níveis de poder. Essas diretrizes acompanham um padrão de organização político-administrativa que passa a vigorar no Estado Brasileiro com a Constituição Federal de 1988 de maneira que não é específico da assistência social. O novo paradigma administrativo e organizacional do Estado, que possui, dentre outros pressupostos, os de descentralização e participação, decorre dos projetos políticos que predominam em um ou noutro momento, bem como do desenvolvimento das teorias organizacionais. Para Junqueira, Inosoja e Komatsu (1997, p. 5), descentralização é um pressuposto da gestão social que se refere a “transferência do poder central para outras instâncias de poder”. Apesar de existir uma concordância sobre este conceito em um âmbito mais geral, elementos mais específicos que conceituam o processo de descentralização e orientam as estratégias de efetivação terão variância em função da compreensão sobre o papel do Estado e a relação que este estabelece com a sociedade e com o mercado. A utilização deste conceito data do início dos anos 1970, quando países centrais democráticos buscavam inserir mudanças na relação Estado e sociedade frente ao quadro de crise do Estado de Bem-Estar Social. Este perfil de Estado teria “ocasionado uma enorme expansão do aparato burocrático para a gestão das políticas sociais, gerando, inclusive, uma acentuada centralização das decisões e comprometendo sua eficácia (JUNQUEIRA; INOSOJA; KOMATSU, 1997, p. 6). No Brasil, a discussão sobre descentralização “é permeada de um lado pela perspectiva neoliberal, trazida pelos organismos internacionais de 35 financiamento, com vistas a reduzir o gasto público e, de outro lado, pela identificação entre descentralização e democratização” (JUNQUEIRA; INOSOJA; KOMATSU, 1997, p.10). Embora se verifique a presença neoliberal, a pauta de discussão tanto no Brasil quanto em outros países latino-americanos se ancora em uma perspectiva política que expressa a exigência de novas relações entre Estado e sociedade civil. Junqueira, Inosoja e Komatsu (1997) apontam a existência de duas posições sobre a finalidade da descentralização e sua forma de efetivação. São elas, a conservadora e a progressista. Os elementos que conceituam uma e outra posição podem ser assim compreendidos: - Posição conservadora que compreende a descentralização como uma estratégia de “redução do papel do Estado para chegar ao Estado Mínimo, deslocando a força motriz da mudança para o mercado, e de redução da organização que permanecerá cumprindo as funções residuais e gerindo as políticas compensatórias” (p. 7). Defende as leis do mercado e a desregulamentação da economia para torná-la mais competitiva e compreende que a intervenção do Estado nas políticas sociais é responsável pelo déficit público e o desestímulo ao trabalho. Neste sentido, as políticas sociais devem se restringir a programas assistenciais de auxílio à pobreza, o que faz com que apresentem um caráter compensatório; - Posição progressista. A descentralização é um “meio para reestruturar o Estado e a gestão das políticas públicas de corte social (...) surgiu como uma possibilidade de democratização do poder” (p. 8) o que “implica em transferir competências com vistas à democratização da administração pública e dos partidos, podendo contribuir para o desenvolvimento de modelos econômicos socialmente mais justos” (p. 9). Objetiva-se a democratização por meio do deslocamento do poder de decisão e do incremento da participação. As competências e o poder são deslocados para esferas estatais periféricas para facilitar o acesso da população aos centros de poder e assim melhor atender as demandas. Há uma redefinição da relação Estado e sociedade o que exige uma sociedade civil, territorial e funcionalmente organizada. A partir dessa segunda posição, entendemos que a descentralização e a participação possuem uma relação de sinergia. “A descentralização inscreve-se como uma condição necessária, embora não suficiente, para desenvolver a participação, para que a população participe da gestão dos interesses coletivos. De 36 outro lado, a participação é fator de viabilização da descentralização” ((JUNQUEIRA; INOSOJA; KOMATSU, 1997, p.11). 1.2.1 Pobreza, desigualdade social e o direito ao trabalho Conforme explicitado anteriormente, desde 1988, a assistência social integra, juntamente com a saúde e a previdência social, o sistema de seguridade social no Brasil que estabelece uma proteção social em duas vertentes, a da assistência e a dos seguros sociais. Ao ocupar esse lugar, retira-se o caráter humanitário e o de dever moral que era dado à prática da assistência social que passa a ser guiada pelos princípios da seletividade, universalidade, gratuidade, não contribuição, redistribuição, descentralização e participação (FERREIRA, 2000). Ferreira (2000, p.140) ressalta a implicação do reconhecimento desta política como direito social: O status de direito social atribuído à assistência lhe confere, assim, obrigatoriedade governamental na implementação, amparo legal para sua reclamação pelo cidadão, responsabilidade política dos representantes públicos na sua consolidação e ampliação, e possibilidade de o usuário reconhecer-se como cidadão portador de direitos. Levando em consideração os princípios da política de assistência social e sua efetivação, Ferreira (2000) apresenta quatro questionamentos acerca das contradições entre a positivação e a efetivação do direito. São eles: a) dificuldade desta política superar uma prática de auxílio aos pobres como ajuda; b) existência de práticas e discursos, tanto por parte de instituições não governamentais quanto governamentais, que defendem contribuições simbólicas por parte dos usuários, indo na contramão dos princípios de gratuidade e não contribuição; c) categorização e a subordinação a determinados critérios restritivos que colocam os benefícios numa ótica minimalista e que exprime uma lógica de residualidade ao invés da seletividade; e d) restrição do direito social ao mínimo à sobrevivência vital. Trata-se de uma assistência extremamente seletiva que busca sustentação pelo discurso da focalização. Todavia, esse caráter seletivo nada tem a ver com a focalização, à 37 medida que acaba “estigmatizando e excluindo usuários potenciais a quem o direito deveria estar sendo assegurado” (p. 142). Além disso, a seletividade vai na contramão da universalização, já que a seletividade volta-se ao combate da pobreza absoluta e a universalização ao combate das desigualdades sociais. Tais contradições podem ser compreendidas a partir da conjuntura delineada desde a década de 1990. Como já definimos anteriormente, a assistência social foi positivada como política social não contributiva na Constituição Federal Brasileira de 1988. Esta política assegura necessidades materiais, sociais e culturais para aqueles impossibilitados de provê-las em função da renda, da condição geracional, no caso crianças e idosos, bem como por determinadas deficiências físicas e/ou mentais. Além de assegurar as necessidades destes grupos, a assistência social emerge também como resposta a reivindicações de grupos de trabalhadores por determinados serviços e benefícios. Neste sentido, podemos dizer que a assistência social institucionaliza-se como dever do Estado para com determinados grupos e direito social básico de todos os cidadãos a certos serviços e benefícios. Mota (2008) chama a atenção para o fato de que o aumento do desemprego e precarização do trabalho delineados a partir da década de 1990 exigiram da assistência social um perfil de proteção social e cobertura que ultrapassam suas finalidades. Neste cenário a assistência social passa a cumprir a função de intervenção na desigualdade social, como afirma Mota (2008, p. 16): Na impossibilidade de garantir o direito ao trabalho, seja pelas condições que ele assume na contemporaneidade, seja pelo nível de desemprego, ou pelas orientações macro-econômicas vigentes, o Estado capitalista amplia o campo de ação da assistência social. As tendências da assistência social revelam que, além dos pobres, miseráveis e inaptos para produzir, também os desempregados passam a compor a sua clientela A autora aponta ainda que as políticas que integram a seguridade social no Brasil desenvolveram um duplo movimento. Ocorre a restrição das políticas de saúde e previdência e uma ampliação da oferta privada destes serviços, paralelamente ao crescimento da assistência social, enquanto política social central na proteção social. Esse duplo movimento expressa o paradoxo da “privatização e da assistencialização da proteção social, instituindo, ao mesmo tempo, as figuras do cidadão-consumidor e do cidadão pobre, este último objeto da assistência social” 38 (MOTA, 1995, apud MOTA, 2008, p. 135). Para ela, a assistencialização da assistência decorre da perda do vínculo com a previdência social em função do desemprego e subemprego, que exige uma proteção social por parte de outras políticas sociais, no caso, a assistência social. O impacto disso é que essa política, ao invés do direito ao trabalho, apresenta uma função integradora. Enfim, retira-se o trabalho como pauta de discussão e de preocupação em prol do direito a uma renda mínima. Já para Monnerat et al. (2007), essa situação, embora apresente características diferentes na atualidade, não é nova. O padrão de proteção social no Brasil desenvolveu-se pela vinculação dos direitos sociais aos riscos de perda do trabalho ou da capacidade para tê-lo. Tem como referência a contribuição prévia e historicamente surge ligado a determinadas categorias profissionais, passando ao longo dos anos a estender-se a outras categorias. Paralelamente, aqueles sem acesso ao mercado de trabalho formal acessam ações assistenciais pontuais. Embora tenha uma abordagem diferenciada da de Mota (2008) no tocante à forma de conceber a pobreza e a desigualdade social, Demo (1994) também chama atenção para o lugar da assistência social no âmbito das políticas sociais brasileiras. O autor distingue três horizontes da política social: assistenciais, socioeconômicas e participativas. As políticas assistenciais dizem respeito ao direito à sobrevivência digna aos grupos que não se auto-sustentam. Está voltada a dois grupos e por isso possui dois tipos: a permanente, voltada a determinados grupos, tais como crianças e adolescentes, deficientes, idosos (sempre pobres), pela impossibilidade ou inconveniência da auto-sustentação, e as emergenciais, necessárias em situações de emergências graves como enchentes, secas, pestes e etc, cujo objetivo seria o de recompor a capacidade de auto-sustentação. A partir desta definição, realiza uma diferenciação entre direito à sobrevivência – que seria o objetivo da política de assistência social - e estratégias de enfrentamento das desigualdades sociais. Para combate à pobreza e à desigualdade social, é necessário inserir outros componentes das políticas sociais que estejam voltados à emancipação. Em síntese, tomar a pobreza inteira como alvo da assistência é no mínimo problemático, à medida que banaliza o conceito de pobreza ao debater como conjuntural algo que é estrutural; desconsidera-se que em um universo grande de pobreza seria mais eficaz investir em emprego e renda e 39 mistifica-se a assistência ao tentar romper com a pobreza por meio de ajudas residuais. Para uma assistência social de qualidade, é necessário focar nos verdadeiros grupos alvo dessas políticas, formar profissionais de qualidade e fazer primeiro o essencial, sem mistificar. No processo de mistificação, dois extremos aparecem descaracterizando as políticas assistenciais: o clientelismo e o atendimento universal pretensioso. Os elementos que devem ser articulados para realmente tocar na desigualdade social referem-se ao conjunto das políticas socioeconômicas e políticas participativas. Esta primeira busca o enfrentamento da pobreza material pela via do emprego e renda. Articula as dimensões sociais e econômicas e possui o crescimento econômico como instrumento e o social como finalidade. Já as políticas participativas têm como foco a “formação do sujeito social, consciente e organizado, capaz de definir seu destino e de compreender a pobreza como injustiça social” (DEMO, 1988c, apud DEMO, 1994, p.25). Trata-se de enfrentamento da pobreza política frente à precariedade da cidadania. 40 2 O PROGRAMA DE TRANSFERÊNCIA DE RENDA BOLSA FAMÍLIA E CONDICIONALIDADES DA EDUCAÇÃO A partir do panorama apresentado sobre as políticas sociais e a política de assistência social, contextualizamos agora as políticas de transferência de renda enquanto uma estratégia atual dos governos na garantia de renda mínima e de intervenção na pobreza e na desigualdade social. No Brasil, a transferência de renda está considerada no âmbito da Política Nacional de Assistência Social (PNAS) e possui como programa central o Bolsa Família. 2.1 Trajetória dos programas de transferência de renda no Brasil É atribuída a speenhamland law, da Inglaterra de 1795, a origem da assistência social na perspectiva da renda mínima de sobrevivência. Essa lei definia o direito a uma renda mínima e era calculada a partir do preço do pão e do número de filhos da família (MONNERAT et al., 2007; BEHRING; BOSCHETTI, 2008). A contrapartida para o recebimento era a fixação do trabalhador que era proibido de mobilidade geográfica (BEHRING; BOSCHETTI, 2008). Apesar da crítica ao valor repassado, essa lei é apontada como um avanço em termos de reconhecimento dos direitos sociais, já que as responsabilidades sociais nas sociedades pré-capitalistas objetivavam manter a ordem social utilizando-se de legislações coercitivas e punitivas do trabalhador e não protetivas (BEHRING; BOSCHETTI, 2008). Tais legislações tinham em comum a obrigatoriedade e a submissão a qualquer tipo de trabalho; regulação das remunerações, impossibilitando os trabalhadores do direito à negociação e à proibição da mendicância. De acordo com Behring e Boschetti (2008, p. 49), eram legislações que: (...) estabeleciam distinção entre pobres “merecedores” (aqueles comprovadamente incapazes de trabalhar e alguns adultos capazes considerados pela moral da época como pobres merecedores, em geral nobres empobrecidos) e pobres “não merecedores” (todos que possuíam capacidade, ainda que mínima, para desenvolver qualquer tipo de atividade laborativa). Aos primeiros, merecedores de “auxílio”, era assegurado algum tipo de assistência, minimalista e restritiva, sustentada em um pretenso dever moral e cristão de ajuda, ou seja, não se sustentavam na perspectiva do direito. 41 A speenhamland law foi alvo de críticas sobre a produtividade das pessoas. Acreditava-se que ao receber assistência e possuir emprego, as pessoas se tornariam improdutivas já que o salário seria complementado pela assistência e não pelo empenho individual. Tendo em vista tal argumento, a speenhamland law foi abolida na criação da poor law reform. Esta Lei reformadora da lei dos pobres garantiu o livre mercado ao tornar a assistência residual e permitir a mobilidade de mão de obra ao abolir também a act of settlement, lei do domicílio de 1662 que restringia a mobilidade geográfica dos trabalhadores (MONNERAT et al., 2007; BEHRING; BOSCHETTI, 2008). Finaliza-se então que “o direito ao rendimento mínimo e o indivíduo, agora “livre” para se estabelecer em qualquer paróquia, tem que garantir sua sobrevivência no contexto da sociabilidade competitiva do capitalismo” (MONNERAT et al, 2007, p. 1455). Percebe-se que, nos séculos XVII e XVIII, a concepção de pobreza apresentava um caráter moralista, na qual estar nessa condição implicava em um problema individual, em um desvio de caráter. Dessa forma, a assistência social seria prestada de forma punitiva, a fim de buscar a correção individual. Exemplo disso é o fato de que as pessoas que recebiam auxílio eram forçadas a todo e qualquer tipo de trabalho (MONNERAT et al, 2007; BEHRING; BOSCHETTI, 2008). Os primeiros questionamentos e práticas que expressam um rompimento com essa perspectiva aparecem no final do século XIX, em decorrência da organização política dos trabalhadores que lutavam pela positivação e efetivação de determinados direitos sociais. Tais questionamentos e práticas tiveram importante significado na organização das políticas sociais que passariam a ser então organizadas, cuja marca é a inserção de ideias não liberais. O século XX marca a difusão do welfare state, no qual é dada centralidade ao Estado na regulação da vida social frente a um “relativo consenso acerca da noção de pobreza como uma questão social, sendo dever do Estado equacioná-la” (MONNERAT et al, 2007, p.1454). A partir daí, ocorre um alargamento do campo dos direitos de cidadania e a constituição de grandes campos de proteção social, desvinculando a relação entre assistência e trabalho existente até então. Com o welfare state, há uma passagem da ideia do pobre merecedor para a pessoa de direito. Apesar dessas características serem comuns aos países nos quais o welfare state se desenvolveu, verifica-se uma diferenciação de surgimento das 42 políticas sociais nos países que pode ser explicada pelos “movimentos de organização e pressão da classe trabalhadora, do grau de desenvolvimento das forças produtivas, e das correlações e composições de força no âmbito do Estado” (BEHRING; BOSCHETTI, 2008, p. 64). A retomada da discussão sobre a vinculação entre assistência e trabalho reaparece na atualidade frente aos desafios da inserção social, passando então a assumir destaque as políticas sociais de transferência condicionada de renda. Monnerat et al (2007) apresentam pelo menos quatro propostas de programas de transferência de renda: o imposto negativo (Milton Friedman), a renda básica incondicional (RBI) (Van Parijs), a renda social (André Gorz) e o segundo cheque (Guy Aznar). O imposto negativo tem como base dois elementos centrais: a diminuição da intervenção do Estado já que defende que o aumento da intervenção do Estado culmina em problemas fiscais e no estímulo ao ócio. Neste sentido, através da fixação de uma linha de pobreza, aqueles que estão acima desta linha pagam um determinado imposto e o que estão abaixo recebem de forma complementar a renda proveniente do trabalho. Monnerat et al (2007, p.1456) analisam que “o imposto negativo apresenta componentes fortemente baseados no individualismo, no mercado auto-regulador e na concepção de que o pobre precisa ser constantemente estimulado ao trabalho, criando fortes processos de estigmatização social”. Podemos dizer que o imposto negativo tem como base as ideias liberais. Os elementos essenciais do liberalismo são o predomínio do individualismo; da liberdade e da competitividade; naturalização da miséria; predomínio da lei da necessidade; manutenção de um Estado mínimo; entendimento de que as políticas sociais estimulam o ócio e o desperdício e defesa de que política social deve ser um paliativo (BEHRING; BOSCHETTI, 2008). Refere-se a uma sociedade dos méritos individuais, onde as capacidades são naturais. Neste sentido, “O Estado não devia intervir na regulação das relações de trabalho nem deveria se preocupar com o atendimento das necessidades sociais” (LUX, 1993, apud BEHRING, 2009: p. 59). A renda básica incondicional defende uma renda desvinculada do trabalho. Compreende que as características de universalidade não têm relação com o trabalho ou com a capacidade para obtê-lo, bem como inexistência de qualquer contrapartida promoveriam cidadania para aqueles em situação de exclusão. A concepção de sistemas de proteção social com as premissas de universalidade e 43 não condicionalidades são atribuídas à desvinculação entre trabalho e assistência delineadas a partir da constituição do welfare state. Atualmente, criticada por não apresentar capacidade de inserção social, termina por incorporar a contrapartida no intuito de responsabilizar também o individuo por sua inserção social (MONNERAT et al, 2007). A renda social e o segundo cheque defendem a vinculação com o trabalho produtivo, pois entendem que a desvinculação gera humilhação e estigmatização aos recebedores. Neste sentido, segundo Monnerat et al (2007, p. 1457), defendem: (...) um sistema de transferência de renda associada a redução progressiva do tempo de trabalho para todos aliada a uma política de qualificação profissional efetiva e consistente. A redução do tempo de trabalho teria o potencial de geração de novas oportunidades para todos e de distribuição da riqueza socialmente produzida. A ideia é que se possa criar a sociedade de tempo livre, na qual as pessoas poderiam desenvolver com liberdade seus projetos sociais e individuais. Em síntese, baseando-nos no resgate histórico realizado por Behring e Boschetti (2008) e Monnerat et al (2007), apresentamos o seguinte quadro sobre os aspectos que dão base ao debate sobre políticas de transferência de renda, desde suas primeiras experiências. 44 Figura 01 – Aspectos históricos das políticas de transferência de renda A discussão sobre programas de transferência de renda se iniciou no Brasil no ano de 1991, todavia as primeiras experiências começaram no ano de 1995 com programas municipais de renda mínima. Sua expansão em nível nacional pode ser verificada a partir do ano de 2001, em virtude da criação de programas federais como Bolsa Escola (SILVA, 2008). Entretanto, no ano de 1996, programas federais como o de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) foram iniciados em muitos municípios. Monnerat at al. (2007, p. 1459) apresentam o seguinte resgate histórico acerca do surgimento e consolidação das políticas de transferência de renda no Brasil: Assim, os anos 1990 assistem a uma profusão de experiências e programas públicos voltados à garantia de renda mínima para famílias em situação de vulnerabilidade social e fome. Iniciativas municipais e estaduais ganham fôlego enquanto crítica à centralização decisória, ao assistencialismo, ao clientelismo e à descontinuidade das ações governamentais, conformando as estratégias e a dinâmica das mudanças institucionais no campo da proteção social. Tais programas buscavam associar ao benefício monetário o estímulo à frequência escolar e o acesso aos serviços básicos de saúde. Inspirado nessas experiências municipais, o governo federal criou alguns programas nacionais de transferência monetária, o que permitiu sua difusão 45 no cenário nacional. Todavia, problemas relativos ao caráter fragmentado e pouco eficaz destes programas persistiam. Buscando responder, em parte, a essa questão, o governo federal criou em 2003 o Programa Bolsa Família (PBF), unificando quatro destes programas anteriormente existentes (BolsaEscola, Bolsa Alimentação, Auxílio-gás e Cartão Alimentação). Silva (2008) aponta um aspecto fundamental para reflexão sobre os programas de transferência de renda. Tais programas referenciam-se pelo mercado e materializam-se como ação regulatória das disfuncionalidades do mesmo. Desta maneira, poderão apresentar um caráter mais ou menos redistributivo a partir de uma ou outra opção política. Nos extremos destas opções estão a de cunho liberal e a de cunho redistributivo. A primeira transfere renda para garantir o mínimo necessário à sobrevivência, o que lhe traz um “caráter residual e compensatório, servindo tão somente para o alívio imediato da pobreza, sem sua superação (...)” (SILVA, 2008, p.25). O outro extremo, o de redistribuição, tem como foco a diminuição das desigualdades econômicas e sociais. Embora estas políticas tenham ganhado força no Brasil na década de 1990, antes disso já se encontrava em pauta o debate sobre seus fundamentos, potencialidades e limites por três vertentes. Retomando o caráter que tais políticas devem ou não assumir, temos um primeiro grupo que defende que as transferências de renda devem ser universais, independentemente da renda ou de cumprimento de condicionalidades. Trata-se então de “uma forma de garantia de cidadania, de autonomia e poder de escolha, de compartilhamento da riqueza produzida por todos e fortaleceria o sentimento de solidariedade e de pertencimento dos cidadãos” (CUNHA; CUNHA, 2007, p.3). Outra linha é a que defende a necessidade dessas políticas para garantir o mínimo de sobrevivência aos indivíduos, porém em caráter residual, ou seja, restrito aos incapazes ou extremos pobres. Por fim, temos a terceira concepção, a qual utilizamos neste trabalho, cuja compreensão pauta-se num tratamento diferenciado aos mais pobres com o objetivo de reduzir a pobreza e as desigualdades sociais. Orienta-se pelo princípio da equidade, que significa assumir um caráter universal, porém com distribuição conforme a necessidade de cada grupo. Emerge aí o conceito de focalização, que se difere do caráter residual, já que focalizar é aplicar “critérios de priorização, em especial para enfatizar a garantia de direitos e a inclusão daqueles que historicamente estiveram à margem das políticas públicas” (CUNHA; CUNHA, 2007, p. 4). 46 O Programa Bolsa Família se orienta por esta última vertente ao focalizar famílias em situação de pobreza e extrema pobreza, assim caracterizadas a partir da insuficiência de renda. Todavia, reconhecendo que pobreza não se reduz à falta de acesso aos bens materiais ou a incapacidade de suprir as necessidades básicas, mas diz também respeito ao não acesso às vantagens sociais, só é possível discutir pobreza, alvo imediato de combate do Programa em estudo, a partir do fenômeno da distribuição desigual das vantagens sociais. A própria pobreza também guarda em si conceitos distintos que foram se transformando ao longo da história, criando e recriando novos padrões de proteção social a partir do Estado (CODES, 2008). Uma primeira abordagem, a da subsistência, refere-se à pobreza como a ausência do mínimo necessário para sua manutenção estritamente física. Esta visão concebe apenas a forma absoluta e é alvo constante de críticas por definir as necessidades humanas como apenas físicas. Já o conceito de necessidades básicas refere-se a uma extensão do de subsistência à medida que amplia os elementos cuja falta implicaria numa situação de pobreza. Exemplos destes elementos são o acesso à saúde, educação, lazer e etc. No tocante a estas duas primeiras abordagens, a ação principal do Estado para elaboração de políticas sociais é o estabelecimento de critérios para definição da ausência de necessidades básicas que indicariam pobreza, contagem de pessoas que deveriam ser beneficiadas e estratégias de distribuição de benefícios para intervenção na pobreza absoluta. Os outros dois referem-se à privação relativa e à privação das capacidades. Ambas levam em consideração a pobreza como fenômeno que se constrói a partir das diferenças, da desigualdade social. Privação relativa significa pensar na ausência dos recursos necessários para satisfação das demandas e costumes estabelecidos pela sociedade. No caso da sociedade do trabalho, o recurso necessário que falta refere-se ao emprego e renda. A falta de emprego não se esgota como indicativo para explicar a pobreza. Pelo conceito de privação das capacidades, insere-se o elemento de ausência de capacidades para obtê-los. Nessa vertente, sair da condição de pobreza exige o desenvolvimento de certas capacidades, por meio de atividades individuais e sociais. A partir dessa trajetória do pensamento sobre pobreza, Codes (2008, p.7) 47 a conceitua como uma “questão multidimencional e complexa, que concerne a situações em que as necessidades humanas não são suficientemente satisfeitas e em que diferentes fatores então interligados”. Neste sentido, fica delineado que o combate à pobreza e às desigualdades sociais deve articular medidas de longo prazo, paralelamente a mecanismos imediatos de garantia de renda mínima de sobrevivência, como é o caso do Programa Bolsa Família. 2.2 Definição do Programa Bolsa Família a partir dos documentos e legislações normatizadoras e debates em torno das propostas oficiais De acordo com a Lei 10.836, de 9 de janeiro de 2004 e o Decreto n° 5.749, de 11 de abril de 2006, o Programa Bolsa Família é uma ação de transferência direta de renda com condicionalidades, que beneficia famílias em situação de pobreza, com renda mensal por pessoa de R$ 70,00 a R$ 140,00, e extrema pobreza, com renda mensal por pessoa de até R$ 70,00. O cálculo para definição do valor que será recebido pela família tem como referência a renda per capita familiar, a quantidade de crianças e adolescentes até 15 anos e a quantidade de jovens entre 16 e 17 anos. A RPC define se a família caracteriza-se como em situação de pobreza ou de extrema pobreza. As famílias em situação de extrema pobreza têm direito ao benefício básico de R$68,00 mais os variáveis de acordo com a quantidade e a idade dos filhos. Famílias em situação de pobreza só têm direito ao benefício variável. O benefício variável para filhos até 15 anos é de R$22,00 e para os filhos de 16 a 17 anos é de R$33,00. Este último é denominado Benefício Variável Vinculado ao Adolescente (BVJ). Cada família pode receber até três benefícios variáveis e até dois BVJ. Dessa forma, o valor do benefício pode variar de R$22,00 até R$200,00 em função da renda familiar, quantidade e idade dos filhos9. O Programa reflete um novo padrão de política social que alia os objetivos de “alívio da pobreza no curto prazo, por meio das transferências de renda, e o combate à sua transmissão intergeracional, por meio de condicionalidades voltadas para incentivar as famílias a realizarem investimentos em capital humano” (MEDEIROS; BRITTO e SOARES, 2007). Apresenta-se como uma estratégia do 9 Para mais informações sobre cálculo do benefício acesse o site institucional do MDS. Link: http://www.mds.gov.br/bolsafamilia/o_programa_bolsa_familia/beneficios-e-contrapartidas . 48 Fome Zero10 de assegurar a alimentação adequada, a erradicação da extrema pobreza e a conquista da cidadania por parte desta população. Para tanto, articula as dimensões de alívio imediato da pobreza, por meio da transferência direta de renda à família; contribuição para o rompimento do ciclo de pobreza geracional, mediante o reforço ao exercício dos direitos sociais básicos, nas áreas de saúde e educação, assegurados por meio do cumprimento das condicionalidades e da coordenação de programas complementares, voltados ao desenvolvimento das famílias, na vertente de superação da situação de vulnerabilidade e de pobreza. O acompanhamento das condicionalidades é realizado conjuntamente pelos ministérios da Saúde, da Educação (MEC) e do Desenvolvimento Social e Combate a Fome (MDS). Nos municípios também é realizado de forma intersetorial, articulando saúde, assistência e educação. Conforme definições do MDS11, os objetivos do acompanhamento das condicionalidades vão além do monitoramento do cumprimento ou não das condicionalidades. Objetivam também responsabilizar os governos pela oferta e acesso por parte desta população mais vulnerável aos direitos sociais básicos da educação e saúde, bem como, frente ao descumprimento, mapear as famílias mais vulneráveis e com maior necessidade de acompanhamento em função da dificuldade de cumprimento das condicionalidades. O acompanhamento da condicionalidade da saúde é de apuração semestral, por meio do Sistema Bolsa Família na Saúde – SISVAN. A educação é realizada bimestralmente pelo projeto Presença online. Os efeitos do descumprimento sobre a família são definidos pela Portaria GM/MDS nº 321, de 29 de setembro de 2008 e possuem uma característica gradativa, conforme explicitado a seguir: - 1º descumprimento: recebimento de carta de advertência sem impacto sobre o repasse monetário; - 2º descumprimento: bloqueio de 30 dias do repasse monetário, porém com recebimento cumulativo no mês seguinte; - 3º descumprimento: suspensão do repasse monetário por 60 dias; 10 Estratégia impulsionada pelo Governo Federal para assegurar o direito humano à alimentação adequada às pessoas com dificuldades de acesso aos alimentos. Tal estratégia se insere na promoção da segurança alimentar e nutricional buscando a inclusão social e a conquista da cidadania da população mais vulnerável à fome. (http://www.fomezero.gov.br/o-que-e). 11 MDS. Acompanhamento das condicionalidades. Disponível em http://www.mds.gov.br/bolsafamilia/condicionalidades/acompanhamento . Acesso em: 21 set. 2009. 49 - 4º descumprimento: nova suspensão do repasse monetário por 60 dias; e - 5º descumprimento: desligamento do Programa. Nos casos de recebimento do BVJ, as etapas gradativas são apenas três: advertência, suspensão por 60 dias e cancelamento. Em todas as etapas, a família recebe uma carta de advertência que orienta que procure o gestor municipal do Programa, podendo em cada etapa entrar com recurso, que serão avaliados pelo gestor. O objetivo dos efeitos gradativos é que as famílias possam ser acompanhadas, evitando novos descumprimentos que culminem no cancelamento. 2.3 Condicionalidades da educação e infrequência escolar O PBF é alvo de intensa polêmica e discussões e uma delas gira em torno das condicionalidades. Para Monnerat et al. (2007), no Brasil, o debate sobre as condicionalidades aponta para o fato de que, apesar de terem apresentado potencial para prover o acesso aos serviços de saúde e educação a esta parcela da população, pode ameaçar o direito de cidadania, à medida que este aparece como obrigação. Outros autores como Medeiros, Britto e Soares (2007) questionam a potencialidade dada às condicionalidades para o acesso aos direitos sociais básicos. Ao tratar dos seus resultados e impactos, aponta que 95% das famílias as têm cumprido, todavia, enfatiza que não há como precisar se a frequência escolar decorre realmente desta contrapartida. Sobre o seu impacto, apresenta que a criança e/ou adolescente de uma família que recebe o repasse monetário do PBF tem menor probabilidade de evasão escolar, mas, mais uma vez, demonstra que não é possível precisar se isso decorre das condicionalidades, já que programas como o Benefício de Prestação Continuada (BPC), que não exige contrapartida, também apresenta este impacto. Neste sentido, a probabilidade positiva estaria ligada ao recebimento da renda e independeria da condicionalidade. Todavia, se por um lado as pesquisas indicam que as condicionalidades seriam desnecessárias, por outro lado, pode apresentar-se de grande importância para indicar as famílias que em situação de maior vulnerabilidade estariam 50 impossibilitadas de cumpri-las e necessitadas de um acompanhamento específico. Outro aspecto, muito polêmico, refere-se às questões políticas e de valores que envolvem as condicionalidades. Ao inserir tal contrapartida no Programa, obtém-se apoio da parcela da população que defende que as pessoas devem fazer algo para receber uma renda por parte do Estado (MEDEIROS; BRITTO; SOARES, 2007). Finalmente, uma questão interessante citada por Monnerat at al(2007) é o fato de que as condicionalidades são oficialmente promulgadas no Programa em uma perspectiva de inclusão social e de emancipação pela via do acesso aos direitos sociais básicos, mas o acompanhamento dessas condicionalidades ocorre de forma punitiva. Além disso, há de se questionar a capacidade dos serviços de saúde e educação conseguirem responder, com qualidade, a demanda criada por meio das condicionalidades e as condições destas famílias para atender às condicionalidades. Neste último caso, “a contrapartida condiciona o direito constitucional a assistência ao cumprimento de exigências numa situação em que os potenciais beneficiários já estão em situação bastante vulnerável” (LAVINAS, 2004 apud MONNERAT at al, 2007, p.1459). Sobre outros aspectos que o PBF é alvo de polêmicas e críticas, como erros de seleção e desestímulo ao trabalho, Medeiros, Britto e Soares (2007) apresentam relevante análise. No caso das críticas sobre o desestímulo ao trabalho, defendem que o valor monetário repassado não seria suficiente para o desestímulo ao trabalho, a não ser nos casos de trabalhos de baixíssima remuneração, instáveis e insalubres. Nestes casos, ainda de acordo com Medeiros, Britto e Soares (2007, p.15), os efeitos negativos de desestímulo não necessariamente significam uma situação negativa real já que: Famílias extremamente pobres tendem a intensificar a participação de mulheres, crianças e jovens no mercado de trabalho, quase sempre em ocupações precárias e mal remuneradas. Nesses casos, alguma redução da participação desses indivíduos no mercado laboral, devido ao recebimento do Bolsa Família, pode ser vista de maneira positiva. Para respaldar sua argumentação, apontam dados da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios (PNAD) de 2004 que demonstrou que os efeitos da oferta de trabalho no sentido de não participação no mercado ocorre apenas nos casos de famílias chefiadas por mulheres. No caso de famílias de mulheres cônjuges, homens cônjuges e homens chefes, não se verificou nenhuma alteração. Enfim, conclui que 51 “os pobres não deixam de trabalhar por decisões livres e espontâneas, e sim porque não têm emprego em condições aceitáveis” (MEDEIROS: BRITTO; SOARES, 2007, p.16). Já sobre os erros de seleção apresentam os seguintes aspectos: a) flutuação na renda: as rendas da família podem variar em função de vários fatores, tais como mudanças de emprego, na economia, na composição familiar e outros. Isso não indicaria erros na seleção, mas variações na renda. Nesse aspecto, chama a atenção para o fato de que o corte do PBF em uma condição de renda flutuante pode levar ao desestímulo ao trabalho. O PBF confere a essas famílias uma estabilidade na renda e o risco da perda sem uma garantia de sustentabilidade e aumento dos rendimentos tenderia a um desestímulo. Nestes casos enfatiza que o Programa deveria prever um corte de renda de saída superior ao de entrada, bem como levar em consideração a estabilidade da renda. b) erros diretamente relacionados à seleção: apontam que em toda seleção haverá erros e a avaliação deve voltar-se para os ganhos e perdas possíveis frente a tentativas de sanar tais erros. Neste caso específico, segundo Medeiros, Britto e Soares (2007, p.9), a questão varia entre: (...) a utilização de critérios excessivamente rígidos na seleção, o que levaria à exclusão de famílias que deveriam ser beneficiadas (erro de cobertura ou exclusão), ou muito lassos, o que levaria a inclusão de famílias que não deveriam ser beneficiadas (erro de vazamento ou inclusão). É o que alguns chamam de cobertor curto: cobertos os pés, fica necessariamente de fora a cabeça, e vice-versa. Enfim os autores concluem que não há erros de vazamento que comprometem o Programa já que segundo pesquisa da PNAD12, na qual o autor se orienta, as famílias beneficiadas que estão fora dos critérios encontram-se próximas da linha de corte. 2.4 Infrequência e evasão escolar: o jovem e sua situação educacional Recente estudo do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) apresenta dados sobre a situação educacional dos jovens no Brasil que nos permite 12 Outro aspecto que não permite sustentar a argumentação de um grande número de famílias fora dos critérios acessarem o PBF é o fato de que o conceito de família utilizada pela PNAD e pelo PBF são distintos, levando a inclusão de rendas no cálculo de RPC de forma distintas. 52 uma compreensão do cenário atual. Este estudo do IPEA objetivou identificar entraves à elevação do nível de escolaridade dos jovens no Brasil. Apresenta indicadores de frequência escolar, analfabetismo e nível de escolaridade entre os jovens evadidos (CORBUCCI et al, 2009) Os principais elementos verificados foram a existência de quase 1,5 milhão de jovens analfabetos, uma distorção idade – série, que culmina na entrada desses jovens no ensino médio fora da idade adequada, baixa inserção no ensino superior e poucas oportunidades de acesso à educação profissionalizante. Os autores chamam a atenção para esse índice de analfabetismo entre os jovens como algo ainda preocupante pelo fato de que este grupo pertence a uma geração que teve acesso ao ensino fundamental, mediante as políticas de universalização que marcaram a década de 1990. O problema do analfabetismo entre jovens de 15 a 24 anos apresenta-se residual nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste (1%), enquanto na região Nordeste esse índice é de 4,7%. O número elevado de analfabetos no Brasil evidencia também um aspecto qualitativo da educação já que grande parte destes analfabetos declarou ter frequentado a escola, contudo, não aprenderam a ler nem escrever um bilhete simples13. Paralelamente a este dado, temos que a taxa de pessoas que frequentaram a escola tem crescido nos últimos anos, o que não vem acompanhada da mesma proporção de diminuição do analfabetismo entre os jovens. Esses dados evidenciam a necessidade de melhoria do ensino fundamental no que tange a qualidade do mesmo, já que os processos de alfabetização nas séries iniciais rebatem na incidência de analfabetismo entre os jovens. Em relação à distorção idade-série, o estudo mostrou que 32% dos jovens, na faixa etária de 15 a 17 anos, encontram-se cursando o ensino fundamental, embora o adequado nessa faixa etária seja o acesso ao ensino médio. Esse dado apresenta uma melhoria na situação educacional já que, em 2007, o índice era de 48%, entretanto há de se considerar que os índices de distorção encontram-se ainda elevados. O acesso ao ensino superior entre jovens de 18 a 24 anos dobrou no período de 1996 a 200714. Embora esses dados sejam significativos, encontram-se 13 14 Elemento utilizado para considerar uma pessoa analfabeta ou não. Passagem do índice de 5,8% em 1996 a 13% em 2006, o que indica um aumento de 123%. 53 aquém dos estimados, já que a meta a ser atingida em 2011 é de 30%. Também em relação à educação profissional, os índices apresentam abaixo do esperado. O estudo do IPEA indica um déficit entre demanda e oferta nos cursos de educação profissional técnica. Referenciados por estimativas do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) apresentam que cerca de 11% da demanda por ensino profissionalizante tem sido atendida. Enfim, o estudo do IPEA mostrou que há um baixo nível de escolaridade entre os jovens resultante de uma situação precária de acesso e permanência na educação infantil e no ensino fundamental. Tal situação precária culmina em recorrentes retenções e em evasão escolar que faz com que o jovem apresente baixo nível de escolaridade em termos quantitativos e qualitativos. Neste sentido, “a melhoria substancial da situação educacional dos jovens brasileiros pressupõe a universalização do acesso e da conclusão do ensino fundamental, observados os padrões mínimos de qualidade” (CORBUCCI at al, 2009: 106). Como elementos possibilitadores de tal melhoria são citados: - concretização de um pacto nacional em prol da educação básica; - ampliação de oportunidades de acesso à educação superior; - ações afirmativas destinadas a corrigirem, ao menos parcialmente, as desvantagens quanto às condições de ingresso e de permanência a que estão submetidos determinados grupos sociais; - a ampliação do Programa Universidade para Todos (ProUni), do Programa de Financiamento Estudantil) FIES e a expansão das Instituições Federais de Ensino Superior (IFES); e - formação técnico-profissional de nível médio mediante ampliação da oferta de vagas. 2.4.1 O conceito de Juventude Este trabalho apresenta um recorte de objeto em adolescentes em situação de infrequência e evasão escolar. Para esse recorte, levamos em consideração a definição do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Lei Federal nº 8069, de 13 de julho de 1990, que dispõe sobre proteção integral à criança e ao adolescente. O artigo segundo o ECA dispõe que criança refere-se à pessoa até doze anos de idade incompletos e o adolescente à pessoa entre doze e 54 dezoito anos de idade (BRASIL, 1993). Essa mesma definição é considerada pelo PBF, motivo pelo qual a adotamos. Contudo, a definição de adolescente ultrapassa uma definição legal. Apresenta elementos acerca de transformações de várias naturezas que marcam essa fase da vida. Ser adolescente refere-se a uma dada condição social, mas também a determinadas representações que acompanham esse grupo geracional. A partir da discussão desse segundo caráter é que foi construído o conceito de juventude. Apresentamos aqui uma discussão sobre juventude, entendendo que este conceito vai ao encontro dos propósitos deste trabalho por expressar não apenas uma condição social, mas, também, “diferentes construções históricas e sociais relacionadas a esse tempo/ciclo de vida” (DAYRELL; GOMES, 2010, p.3). Conforme a compreensão que se tenha do fenômeno juventude, na atualidade, um número razoável de estereótipos pode dela derivar, gerando preconceitos em relação aos jovens. Dayrell e Gomes (2010) apontam a existência de pelo menos três tipos de imagens construídas acerca da juventude, que orientam para uma visão restrita e quando não negativa acerca deste segmento social. São elas: a juventude enquanto transitoriedade, como um problema, ou em uma visão romântica. A perspectiva da transitoriedade enfatiza o jovem a partir da vida adulta, quer dizer, a partir do que ele virá a ser. Dessa forma, a juventude é uma passagem para a vida adulta. Há uma negação do presente, e consequentemente, uma negatividade em relação ao jovem, já que este ainda não é o que deve ser, o adulto. A consequência disso é que à medida que a juventude é vista como “algo que ainda não é”, emerge a imagem do jovem como um problema. Enquanto tal, focaliza-se excessivamente situações problemáticas que têm sido crescentes entre os jovens, tais como violência, drogadição, doenças sexualmente transmissíveis, gravidez, entre outras. Ao fazer esta abordagem, Dayrell e Gomes (2010) chamam a atenção para o fato de que embora estes fatores não devam ser desconsiderados, a imagem do adolescente problema desconsidera as construções sócio-históricas ligadas a esse grupo culminando em visões e em ações reducionistas. Como exemplos, temos certos programas e projetos que se voltam para jovens em situação de risco e que focalizam apenas a superação do problema, desconsiderando os reais significados que tais problemas exprimem (ABRAMO, 1997). 55 Por fim, temos a visão romântica na qual a juventude é vista como o momento da “liberdade, de prazer, de expressão de comportamentos exóticos” (DAYRELL; GOMES, 2010, p.2). A partir dessa visão, a juventude é posta como um momento de experimentar e errar. Há uma tolerância e uma relativização das atitudes dos jovens, já que estes estariam em um período de uma irresponsabilidade natural que futuramente seria superada. O problema dessa visão, segundo os autores, é que desconsidera dificuldades e dores que se associam aos processos de descobertas e confrontos para com os limites vindos da história individual, da família e da sociedade. Juventude não se reduz a nenhuma das imagens descritas acima. O conceito de juventude guarda uma condição social e um tipo de representação. Apresenta um caráter universal que é dado pelas transformações que a pessoa passa em uma dada faixa etária. De acordo com Dayrell e Gomes (2010, p. 3): Podemos dizer que a entrada na juventude se faz pela fase que chamamos de adolescência e é marcada por transformações biológicas, psicológicas e de inserção social. É nesta fase que fisicamente se adquire o poder de procriar, quando a pessoa dá sinais de ter necessidade de menos proteção por parte da família, quando começa a assumir responsabilidades, a buscar a independência e a dar provas de auto-suficiência, dentre outros sinais corporais e psicológicos. Para além desse caráter universal, temos as diferentes construções históricas e sociais dessa geração. Cada sociedade e/ou grupo representa e lida com a juventude de maneira diversa. Tal diversidade é orientada pelas condições de classe, etnia, gênero, geografia, costumes, religião, entre outros. A juventude, segundo Dayrell e Gomes (2010, p.4), pode então ser compreendida como: (...) parte de um processo mais amplo de constituição de sujeitos, mas que tem suas especificidades que marcam a vida de cada um. A juventude constitui um momento determinado, mas que não se reduz a uma passagem, assumindo uma importância em si mesma. Todo esse processo é influenciado pelo meio social concreto no qual se desenvolve e pela qualidade das trocas que este proporciona. Enfim, podemos dizer que não existe um único modo de ser jovem, o que nos leva a enfatizar a noção de juventudes, no plural, para explicitar a diversidade de modos de ser jovem existentes. Dayrell e Gomes (2010, p.1) chamam a atenção para o fato de que, embora a sociedade passe por um processo de valorização de elementos ligados à juventude, contraditoriamente, a juventude brasileira em si “não é encarada como 56 sujeito de direitos, não sendo foco de políticas públicas que garantam o acesso a bens materiais e culturais, além de espaços e tempos onde possam vivenciar plenamente essa fase tão importante da vida”. Outra questão apontada pelo autor é que o jovem não tem sido considerado “interlocutor válido, capaz de emitir opiniões e interferir nas propostas que lhe dizem respeito, desestimulando sua participação e seu protagonismo”. Essa tendência tem sido comum nas escolas e/ou em programas socioeducativos voltados aos jovens. A negação do jovem em seus processos está associada à negação do presente vivido pelo jovem, já que este é considerado apenas a partir do projeto futuro que deve construir para ser adulto. Ser jovem seria apenas construir-se para ser adulto. Um problema dessa negação é a desconsideração, por parte da escola e/ou outros processos educativos, voltados a essa camada da população, de suas reais demandas e necessidades. Tal desconsideração provoca um distanciamento dos interesses dos jovens bem como diminui seu envolvimento nos processos educativos (DAYRELL; GOMES, 2010). 57 3 A TEORIA DA RELAÇÃO COM O SABER PARA ANÁLISE DA INFREQUÊNCIA ESCOLAR Dentre as várias abordagens teóricas para análise da infrequência escolar, escolhemos a teoria da relação com o saber. Enquanto forma fundamental de compreender o fenômeno, ela permitirá construir a explicação objetiva ao problema de pesquisa delimitado neste trabalho. Conforme apontado anteriormente, a pesquisa que impulsionou este estudo demonstrou que há por parte das famílias uma aceitação da necessidade de cumprir a condicionalidade da frequência escolar para a permanência no PBF. A partir deste resultado, descartamos uma primeira hipótese explicativa de que o descumprimento se daria por uma negação ou uma não pactuação para com essa condicionalidade do PBF. Um segundo aspecto identificado na pesquisa refere-se a um prejuízo monetário que advém do cancelamento do benefício e que impacta de forma negativa a capacidade das famílias proverem suas necessidades básicas. Este resultado descarta a hipótese de que o descumprimento das exigências do PBF, e consequentemente, a perda do benefício não seja alvo de preocupação por parte destas famílias. O terceiro aspecto refere-se ao motivo apresentado pelas famílias entrevistadas para a infrequência e evasão escolar por parte desses adolescentes. Estas verbalizaram que há uma negação por parte dos adolescentes em frequentar a escola e uma impotência dos responsáveis frente à essa negação. Enfim, levandose em conta esses três aspectos, concluímos que o não cumprimento da condicionalidade da frequência decorre da não motivação dos filhos para a ida à escola. Neste sentido, levantamos a hipótese de que estes adolescentes possuem uma relação com a escola e o saber que os distanciam desta instituição e por isso definimos a teoria da relação com o saber como referência para analisar este fenômeno. A teoria da relação com o saber tem sido desenvolvida por Bernard Charlot, desde a década de 1970, no interior de estudos e pesquisas que tratam da situação escolar de alunos caracterizados como de sucesso ou fracasso escolar. O autor discute os motivos pelos quais os alunos apresentam uma ou outra situação escolar. De maneira mais específica, busca compreender o fato de crianças e jovens 58 dos extratos sociais populares alcançarem sucesso em seus estudos, já que outras teorias apontam que o fracasso escolar ocorre preferencialmente no conjunto dessas famílias. É a partir da tentativa de definição da categoria “fracasso escolar” enquanto objeto de pesquisa que Charlot se propõe a estudar não o fracasso ou o sucesso escolar, mas a relação que um sujeito estabelece com o saber. Compreende que fracasso escolar é um objeto sociomediático. O fracasso escolar não existe por si só e apresenta-se como “(...) uma certa maneira de verbalizar a experiência, a vivência e a prática; e, por esta razão, uma certa maneira de recortar, interpretar e categorizar o mundo social” (CHARLOT, 2000, p.13). A expressão é utilizada para caracterizar determinadas situações como a reprovação escolar e a não apreensão de determinados conhecimentos que se objetiva ser apreendido em um dado nível de ensino. Uma vez que é um fenômeno sociomediático, estas são as evidências do fracasso escolar. Como o fracasso escolar não existe por si só, mas existem, por hora, evidências sobre o mesmo, seu estudo incorre no perigo de aceitarmos certas evidências do fenômeno por meio de relações causais e explicativas vulneráveis aos atrativos ideológicos15. Neste sentido, este autor propõe que o pesquisador deve realizar um movimento de aproximação de seu objeto a fim de não tomar a dimensão sociomediática do fenômeno enquanto objeto de pesquisa. Utilizar a teoria da relação com o saber significa admitir que o fracasso escolar não existe em si mesmo. O que existe são um conjunto de “fenômenos, observáveis, comprovados, que a opinião, a mídia, os docentes agrupam sobre o nome de ‘fracasso escolar’” (CHARLOT, 2000, p.16). Neste sentido, o que deve ser analisado são esses fenômenos, ou seja, os alunos, suas situações e suas histórias. É a partir de tais considerações que nos propomos a estudar o descumprimento da condicionalidade da educação por parte de adolescentes de famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família em Belo Horizonte – MG. A infrequência escolar só existe porque há uma frequência escolar pré-definida a ser 15 Sobre os atrativos ideológicos o autor afirma: “Todas as noções que encobrem, pois, práticas e experiências muito diversas e se beneficiam ao mesmo tempo de uma espécie de evidência encontram-se na encruzilhada de múltiplas relações sociais. Enquanto “noções-encruzilhada”, exercem um papel de “atrativo”. Enquanto inscritas em relações de natureza diversa, prestam-se muito bem para um uso ideológico: o debate sobre o fracasso escolar enquanto desigualdade social pode ser desviado para a questão da ineficácia pedagógica dos docentes... e vice-versa” (CHARLOT, 2000, p.14). 59 atingida e neste sentido o não alcance desta refere-se a um desvio, a uma diferença a um determinado padrão. É possível, todavia, pensar o objeto da infrequência em relação ao que ele é, e não em relação ao que ele não é. A sociologia, historicamente, vem analisando a situação escolar enquanto diferenças de posições, de vários tipos, entre os alunos. Organizam-se grandes sistemas de correlações estatísticas entre notas, reprovações e anos de estudo, por exemplo, e a posição social dos alunos, definidas por situação ocupacional e grau de escolaridade dos pais, renda familiar e outros. Tais estudos sociológicos têm demonstrado que a origem social direciona a situação escolar em função de determinadas deficiências socioculturais. Se tomássemos essa mesma linha de estudo como explicações suficientes para o fenômeno, não teríamos para nossa pesquisa um objeto ou um problema de estudo, já que concluiríamos que a infrequência escolar é consequência da origem social e das deficiências socioculturais que provocam um distanciamento e uma desmotivação dessas crianças e adolescentes para permanecerem no espaço escolar. Já a noção de relação com o saber pressupõe uma linha específica de abordagem para tratar o tema. Implica em considerar que o fenômeno é uma experiência vivida e interpretada pelos sujeitos e isso sim deve ser constituído enquanto objeto de pesquisa. A marca principal de tal abordagem é que se referencia em “termos de relações e não de traços e características individuais” (CHARLOT, 2001, p.22). Neste sentido, a teoria da relação com o saber adentra na singularidade do sujeito, distinguindo a posição objetiva da subjetiva. Implica em interrogar não apenas a posição do sujeito, enquanto lugar que ocupa na estrutura social, mas o significado que este mesmo sujeito dá a esta posição. Falar em posição remete a um lugar que se ocupa – posição objetiva, mas também a uma posição subjetiva. A posição dos pais é um lugar no espaço social que nos instiga, também, a questionar sobre o significado que é dado a esta posição. Estudos pautados na teoria da relação com o saber implicam em considerar o sujeito ao se estudar o fenômeno. Este sujeito é um ser, humano, social e singular. Ser humano implica em portar desejos e ser movido por estes desejos. Ser social significa que este humano nasce e cresce numa instituição familiar, que 60 se insere numa organização social ocupando uma posição social. Por fim, um ser que é singular, que possui uma história única, a qual ele interpreta e por meio da qual dá sentido ao mundo (CHARLOT, 2000). Essa definição de Charlot da categoria sujeito, a qual tomamos neste trabalho, torna-se importante já que tal definição não é consensual na literatura conforme aponta Dayrell (2005: 176) e alerta que a noção de sujeito tem sido: (...) tomada com um sentido em si mesma, sem a preocupação de defini-la, como se fosse consensual seu significado. Outras vezes é tomada como sinônimo de indivíduo ou mesmo de ator social. Para alguns, falar em “sujeito” implica uma condição que se alcança, definindo-se alguns prérequisitos para tal; para outros é uma condição ontológica, própria do ser humano. Charlot defende a teoria da relação com o saber a partir da constatação de que os estudos sociológicos realizados para explicar a diferença na situação escolar dos alunos apresentam uma lacuna ao dispensar o sujeito das suas análises. Tais estudos, no interior da sociologia da reprodução, explicam porque os alunos ocupam uma ou outra posição no espaço escolar – fracasso ou sucesso, frequência ou infrequência, permanência ou evasão - por meio da origem social e das deficiências socioculturais. Tais abordagens não permitem ir além da correlação entre características socioeconômicas e culturais e situação escolar16. Estudos mais recentes, como o de Lahire (2004) apresentam diferenças mais sutis que não apenas as de posição social, entretanto, este ainda apresenta limites em relação ao tipo de abordagem proposta por Charlot. Em seu estudo, Lahire aborda certas características, denominadas por ele de secundárias, em famílias populares com perfil econômico e cultural semelhante, para explicar as diferenças escolares de seus filhos. Objetiva compreender as situações escolares de crianças da 2ª série do 1º grau em relação às configurações familiares específicas e as configurações do espaço escolar (LAHIRE, 2004). O objeto de seu estudo refere-se aos “fenômenos de dissonâncias e consonâncias entre configurações familiares (relativamente homogêneas do ponto de vista de sua posição no seio do espaço social em seu conjunto) e o universo escolar” (LAHIRE, 2004, p.12). 16 Esses estudos de correlação são chamados por Lahire de sistemas de diferenças. Refere-se a estudar dois grupos como, por exemplo, os frequentes e os infrequentes e correlacionar que características marcam um ou outro grupo. 61 Este autor trabalha com o conceito de personalidade, que é construída a partir das relações que se dão entre a criança e os demais membros da família. Isto significa que o autor se aproxima da teoria da relação com o saber de Charlot, mas não abandona a ideia da reprodução. Lahire defende que não há uma reprodução direta por parte da criança do comportamento familiar, mas sim, uma reprodução em função das relações de interdependência no meio familiar. Em síntese, “as condições de existência de um indivíduo são primeiro e antes de tudo as condições de coexistência” (LAHIRE, 2004, p.18). Neste sentido, para a compreensão da situação escolar das crianças é necessário a reconstrução da “rede de interdependências familiares” (LAHIRE, 2004, p.19). Nesta abordagem, os casos de fracasso escolar seriam casos de “solidão dos alunos no universo escolar” (LAHIRE, 2004, p.19). Aquilo que estes alunos interiorizam na coexistência familiar não lhes possibilita responder às ordens escolares. Trata-se de alunos que não possuem “disposições, procedimentos cognitivos e comportamentais” (LAHIRE, 2004, p.19) para cumprir com as exigências escolares. A situação escolar é resultante da dissonância ou consonância das relações de uma rede de interdependência, a família, e a outra, a escola. Para ele, as grandes produções estatísticas são dados abstratos, desvinculados de seu contexto. Neste sentido, defende que devemos focalizar sim a equivalência de indicadores, mas, sobretudo, por meio de práticas e modalidades e não simplesmente por intermédio de características socioeconômicas e culturais. Voltando à questão das abstrações estatísticas, explica que práticas semelhantes de um determinado ângulo podem ser distribuídas de formas diferentes entre os indivíduos. Como exemplo, traz que o capital cultural semelhante de dois pais em famílias diferentes não implica no mesmo impacto nos filhos, já que sua transmissão depende da relação que cada pai estabelecer com seus filhos. O conceito utilizado pelo autor é o de configuração social. Refere-se ao “conjunto dos elos que constituem uma parte (mais ou menos grande) da realidade social concebida como uma rede de relações de interdependência humana” (LAHIRE, 2004, p.40). As configurações são sempre parciais, já que a trama de relações que se estabelece é de tamanha grandeza que não pode ser estudada em sua totalidade. As configurações familiares são abordadas em cinco temas: formas familiares da cultura escrita, as condições e disposições econômicas, a ordem moral 62 doméstica, as formas de autoridade familiar e as formas familiares de investimento pedagógico. Sobre cada um desses temas, apresentam-se os elementos de dissonância ou consonância construídos na relação de coexistência. Na escola, predomina a cultura escrita e neste sentido as formas familiares desta cultura conduzirão a criança a práticas de sucesso ou de fracasso escolar. A análise não deve se limitar à presença ou não do ato de leitura no âmbito familiar, mas se a sua presença é vivida de forma positiva ou negativa, bem como, se são compatíveis com a forma como o texto escrito está inserido na educação escolar. Outro aspecto são os meios de objetivação por meio da escrita, presentes ou não nas famílias, que contribuem para uma gestão racional e calculada das atividades, tais como a utilização do calendário, agenda, lembretes, lista de compras e planejamento de viagens entre os membros das famílias. Tais vivências levariam a uma relação mais reflexiva para com o passado, presente e futuro, retardando a urgência prática ao possibilitar a criação da moral da perseverança e do esforço que impactaria no ato de apreender os saberes escolares. As formas familiares de cultura escrita descritas anteriormente são influenciadas pelas condições e disposições econômicas. De acordo com Lahire (2004, p. 24), no caso: (...) o distanciamento das formas organizadas de trabalho e a insegurança econômica são situações pouco favoráveis ao desenvolvimento de uma atitude racional em relação ao tempo. A estabilidade profissional do chefe de família permite, claro, sair da gestão do cotidiano “no dia-a- dia”, mas também oferecer os fundamentos de uma regularidade das atividades e dos horários familiares, limites temporais estruturais e estruturantes. A submissão à autoridade escolar é também considerada um aspecto importante no ato de estudar, pois a criança e/ou o jovem que reconhece a autoridade do professor o respeita e realiza o que lhe é indicado. Esse respeito pode ser inculcado pela família, que também promove uma ação socializadora para o ato de aprender com os mecanismos de controle que exerce em casa, tais como horário para estudos, acompanhamento dos cadernos, notas, entre outros. Nesta categoria, percebemos um elemento que o aproxima e o distancia da abordagem de Charlot. Lahire fala de um processo de aprendizado que é construído na relação com o outro, no caso o professor. Essa relação com o outro é 63 tomada nos estudos de Charlot, mas de forma diferente a de Lahire. Este segundo autor não se propõe a investigar como essa relação é construída. Podemos dizer que essa abordagem é um caso que admite a existência de um sujeito, mas não se permite abordá-lo diretamente. Os valores que socializam a criança para uma atitude de respeito e reconhecimento da autoridade do professor não são necessariamente inculcados pela família para a atividade escolar. Referem-se a valores morais gerais que refletirão na educação escolar, tais como o bom comportamento e a conformidade às regras. Neste sentido, certas formas de autoridade familiar impactarão na “interiorização das normas de comportamento” (LAHIRE, 2004, p. 28) e refletirão no universo escolar. Por fim, Lahire (2004) explicita a existência de um projeto familiar que esteja voltado para a escola. A existência ou não deste projeto direciona as formas familiares de investimento pedagógico. Referem-se às famílias que valorizam os estudos de seus filhos como forma de romper a condição socioeconômica em que se encontram e assim investem para que os filhos apresentem comportamentos adequados para o sucesso escolar. Neste elemento, os aspectos de dissonância e consonância se dão em função da “capacidade familiar de ajudar a criança a realizar os objetivos que lhe são fixados” (LAHIRE, 2004, p.29). Lahire (2004, p.31) aborda ainda a questão da singularidade e da generalidade. Desta relação emerge o problema de como ultrapassar as correlações estatísticas para o que ele chama de uma “microscopia sociológica dos processos e fenômenos sociais, sem cair, no entanto, em puras descrições monográficas”. Neste caso, o foco sofre uma transformação. A análise não mais se direciona para as diferenças entre famílias diferentes do ponto de vista da origem social, mas para as diferenças entre famílias que normalmente são analisadas no mesmo grupo nas pesquisas estatísticas. Enfim, o autor propõe abordar quais são as práticas e como se dão as relações sociais que conduzirão a um sucesso ou fracasso escolar, o que significa levar em consideração a singularidade das situações: Nunca devemos esquecer que estamos diante de seres sociais concretos que entram em relações de interdependência específicas, e não “variáveis” ou “fatores” que agem na realidade social (LAHIRE, 2004, p.33). 64 Como abordagens clássicas na vertente da sociologia da reprodução, podemos citar Durkheim e Bourdieu. Apesar de Charlot não desconsiderar que as posições que ocupam no espaço escolar se articulam com a origem social e as assim chamadas deficiências socioculturais, compreende que a interpretação conclusiva de relação de causalidade entre tais categorias são abusivas já que desconsideram como essa relação se dá. Enfim, Charlot (2000, p.21) argumenta que: Duas crianças, que pertencem a mesma família, cujos pais têm, portanto, a mesma posição social, podem obter resultados escolares muito diferentes. Essa constatação nos lembra que uma criança não é apenas ‘filho de’ (‘ou filha de’). Ela mesma ocupa uma certa posição na sociedade. Essa posição tem a ver com a dos pais, mas não se reduz a ela e depende também do conjunto das relações que a criança mantém com adultos e outros jovens. A posição da própria criança se constrói ao longo de sua história e é singular. Advêm daí os questionamentos do autor acerca de teorias sociológicas como as de Émile Durkheim, Pierre Bourdieu e François Dubet, que embora comprovem a existência de uma relação entre posição social dos pais e posição social dos filhos não são capazes de explicar como tal passagem se processa. Para Charlot (2000), Durkheim ao definir como objeto de estudo os modos de agir, pensar e sentir exprime elementos exteriores ao indivíduo. A categoria representações coletivas orienta-se por pensar fenômenos psíquicos sem referir-se a um sujeito. Emerge daí uma contradição, já que implica “pensar um psiquismo sem sujeito; ou, mais exatamente, um psiquismo analisado em referência à sociedade e não ao sujeito” (CHARLOT, 2000, p.34). Para Charlot (2000), a teoria da reprodução social de Bourdieu apresenta uma construção do interior pelo exterior, e esta análise é problemática, uma vez que ignora as leis próprias do interior. Pensa a experiência escolar por posições sociais, abordando correlações de características e sistemas de diferenças. As causas da situação escolar são explicadas em função das posições objetivas que o sujeito ocupa na estrutura social. A relação entre exterior e interior advém de uma exclusão do sujeito sem, contudo, excluir o interior. Compreende-se que este interior age, mas ao contrário da teoria das representações sociais, o que age não é “a estrutura através deles, porém eles agem em função de disposições psíquicas que foram socialmente estruturadas: 65 seu habitus (...) as posições sociais geram disposições (o habitus) que, por sua vez, produzem representações e práticas” (CHARLOT, 2000, p.35). Embora o conceito de habitus de Bourdieu permita considerar o sujeito ao realizar análises sociais, para Charlot, resta uma lacuna que é a de reconhecer um psiquismo sem, no entanto, explorar o sujeito, já que “o habitus é um conjunto de disposições psíquicas, mas esse psiquismo não é pensado em referência a um sujeito, é um psiquismo de posição” (CHARLOT, 2000, p.35). Novamente, temos uma teoria que se orienta pelo exterior. Bourdieu admite a existência de um interior, mas não considera que este interior tem uma forma própria de funcionar. Existe, pois, um sujeito que não recebe um mundo e simplesmente o interioriza, mas se relaciona com ele e nesta relação se apropria dele em função de sua organização psíquica, de sua subjetividade. Incluir a subjetividade na discussão significa considerar os diversos elementos que se relacionam a este objeto tais como o comportamento, o inconsciente, a consciência, dentre outros (BERNARDES, 2007). A partir dos conceitos de Bock, Furtado e Teixeira (1999, p. 25, apud BERNARDES, 2007, p. 32), entendemos por subjetividade a: (...) síntese singular e individual que cada um de nós vai constituindo conforme vamos nos desenvolvendo e vivenciando as experiências da vida social e cultural; é uma síntese que nos identifica, de um lado, por ser única, e nos iguala, de outro, na medida em que os elementos que a constituem são experienciados no campo comum da objetividade social. Essa síntese – a subjetividade – é o mundo das ideias, significados e emoções construído internamente pelo sujeito a partir de suas relações sociais, de suas vivências e de sua constituição biológica; é também fonte de suas manifestações afetivas e comportamentais. Importante ressaltar que Charlot não questiona a validade da teoria de Bourdieu, mas aponta seus limites. Para Charlot (2000), Bourdieu não é capaz de responder a como as correlações objetivas entre posição social e a situação escolar são construídas. Neste sentido, romper tais limites implica em criar uma verdadeira sociologia do sujeito, já que a experiência escolar é a de um sujeito. Isto significa que é necessário elucidar a dimensão subjetiva para além do social, sendo a referência que “todo sujeito pertence a um grupo; mas não se reduz a esse vínculo e ao que pode ser pensado a partir da posição desse grupo em um espaço social“ (CHARLOT, 2000, p. 38). 66 Outra abordagem explicativa da situação escolar é a da deficiência sociocultural. John Ogbu (1978, apud CHARLOT, 2000, p. 26) aponta três principais teorias da deficiência: a) privação, que é o que falta para ter sucesso na escola; b) conflito cultural, que é a desvantagem em função da herança cultural familiar, que não proveu a base necessária para o que sucesso escolar prevê; e c) deficiência institucional em função da escola não dar conta de tratar as especificidades dos alunos. Essas construções teóricas situam-se na mesma vertente da teoria de Bourdieu, ou seja, a partir de sistemas de correlações. Neste caso, entre as três principais teorias da deficiência citadas, as duas últimas se debruçam sobre as relações que se dão entre cultura escolar X familiar e/ou aluno X instituição. Nestes casos, a deficiência decorre de uma relação. No caso da primeira, a relação é inerente. Novamente, apresentam-se construções teóricas que comprovam relações de causalidades, mas que não são capazes de explicar como estas relações foram construídas. Enfim, Charlot (2000, p. 30) argumenta que: (...) a teoria da deficiência sociocultural pratica uma leitura “negativa” da realidade social, que ela interpreta em termos de faltas. A análise da relação com o saber implica ao contrário uma leitura “positiva” dessa realidade: ligase à experiência dos alunos, à sua interpretação do mundo, à sua atividade. (...) A leitura positiva busca compreender como se constrói a situação de um aluno que fracassa em um aprendizado e, não “o que falta” para essa situação ser a situação de um aluno bem sucedido. Um terceiro autor analisado é François Dubet, que construiu a chamada sociologia da subjetividade. Charlot (2000) compreende que embora Dubet admita e considere a subjetividade, sua teoria não se concretiza numa sociologia dos sujeitos, uma vez que “o objeto de análise é a subjetivação (o distanciamento), e o sujeito não é senão uma hipótese que o sociólogo é levado a aventar quando constata a existência de um processo de subjetivação” (CHARLOT, 2000, p. 42). A partir deste percurso de questionamento sobre as teorias quem vêm sendo desenvolvidas, o autor reforça que ao considerarmos a teoria da relação com o saber para análise da situação escolar, no nosso caso a infrequência e evasão, 67 admitimos que as diferentes posições dos alunos na escola advém durante uma história singular. Segundo Charlot (2000, p. 31), significa ainda: (...) considerar que todo indivíduo é um sujeito, por mais dominado que seja. Um sujeito que interpreta o mundo, resiste à dominação, afirma positivamente seus desejos e interesses, procura transformar a ordem do mundo em seu próprio proveito. Praticar uma leitura positiva é recusar-se a pensar o dominado como um objeto passivo, “reproduzido”, pelo dominante e completamente manipulado, até, inclusive, em suas disposições psíquicas mais íntimas. Mas sem incorrer em ingenuidade e sem esquecer que o dominado é, com certeza, um sujeito, porém um sujeito dominado. Em síntese, para Charlot (2000, p. 23), a análise da situação escolar deve levar em consideração: (...) o fato de que ele “tem alguma coisa a ver” com a posição social da família – sem por isso reduzir essa posição a um lugar em uma nomenclatura socioprofissional, nem a família a uma posição; a singularidade e a história dos indivíduos; o significado que eles conferem à sua posição (bem como à sua história, às situações que vivem e à sua própria singularidade); sua atividade efetiva, suas práticas e a especificidade dessa atividade, que se desenrola (ou não) no campo do saber. Para a construção de uma sociologia do sujeito, tem-se como princípio que toda relação consigo implica numa relação com o outro e vice-versa, o que significa que as relações sociais produzem algum efeito no sujeito. Falar de um sujeito significa considerar que existe uma história singular que ocorre numa história maior que é a da humanidade. É nessa história singular que se contextualiza o significado da educação, conceituada como “o processo através do qual a criança que nasce inacabada se constrói enquanto ser humano, social e singular” (CHARLOT, 2000, p.54). Enquanto ser que nasce inacabado e se constrói, nascer implica numa obrigatoriedade de aprender. O aprender nesse processo de construção implica em tornar-se um homem, singular e socializado, ou seja, um ser único que ocupa um lugar numa sociedade na qual é membro e compartilha de seus valores. Aprender é diferente de adquirir um saber. O aprender é mais amplo que o saber, já que este segundo só existe enquanto referido à relação de um sujeito. Saber é também diferente de informação e conhecimento. O primeiro conceito refere-se ao “resultado de uma experiência pessoal” e este segundo a um “dado exterior ao sujeito” (CHARLOT, 2000, p.61). 68 O saber existe sob formas específicas, mas não em modalidades específicas que permitiria uma categorização do mesmo. Saber é sempre formas de relação com o mundo. A distinção e relação entre saber e aprender é assim conceituada por Charlot (2000, p.68): Aprender é uma atividade de apropriação de um saber que não se possui, mas cuja existência é depositada em objetos, locais, pessoas. (...) Aprender é passar da não-posse à posse, da identificação de um saber virtual à sua apropriação real. Frente à necessidade de aprender, as crianças se deparam com o que o autor denomina de figuras do aprender pré-existentes no mundo. As figuras do aprender apresentam-se em quatro grupos: objetos-saberes, assim denominados por portarem um saber; objetos de uso; atividades que se realiza e dispositivos e formas relacionais. O aprendizado desses dispositivos passa por processos distintos mediados pelo local, pelas pessoas e pelo momento em que o sujeito se encontra. O processo de aprender pelo qual o sujeito se constrói é o que Charlot (2000) denomina de educação. A educação supõe a vontade de aprender, um investimento no processo educativo, a relação com o outro. Enquanto relação, educação não é nem subjetivação nem socialização, mas a “produção de si próprio” num “processo que se desenvolve no tempo e implica atividades. Para haver atividades, a criança deve mobilizar-se. Para que se mobilize, a situação deve apresentar um significado para ela” (CHARLOT, 2000, p.54). O processo implica em mobilização, atividades e sentido, como veremos a seguir: Na apreensão sobre como se dá a relação do sujeito com o saber, a questão inicial, ou central, refere-se à mobilização do sujeito para a atividade. O autor utiliza a palavra mobilização, e não a palavra motivação, em função de sua expressão de movimento. Significa que buscamos compreender uma questão que é relacional e interna. O sujeito se mobiliza por algum motivo, para alguma coisa, por certos desejos. A palavra mobilização permite considerar que existe uma motivação, mas uma motivação que é movimento, que se dá em uma relação. Enfim, nos orienta a conhecer como se inicia o processo de aprender do sujeito, tendo como ponto inicial a mobilização. Se mobilizar é se movimentar, é também exercer uma dada atividade para alcançar um resultado ou meta. Essa atividade é impulsionada por “móbiles” 69 que seriam as boas razões para se mobilizar e realizar uma dada atividade para alcançar um resultado. Móbil é o desejo que o resultado de uma determinada atividade irá satisfazer. Neste sentido, atividades serão realizadas à medida que os resultados dela fizerem sentido na satisfação de determinados desejos. O sentido é a relação entre o resultado e o móbil. Apresentar-se-á à medida que permite ser posto em relação com os outros [acontecimentos] em um sistema, ou em um conjunto; faz sentido para um indivíduo algo que lhe acontece e que tem relações com outras coisas de sua vida, coisa que ele já pensou, questões que ele já se propôs. Ao retornar a questão da relação com o saber e do aprender temos que: a) Emerge de um movimento dialético entre interioridade e exterioridade, entre sentido e eficácia. A aprendizagem tem origem exterior ao sujeito, mas só acontecerá a partir do momento que desenvolve um movimento que é interior ao sujeito. Para Charlot (2001, p. 20-21), isto significa que: (...) aprender é apropriar-se do que foi aprendido, é tornar algo seu, é interiorizá-lo. Contudo, aprender é também apropriar-se de um saber, de uma prática, de uma forma de relação com os outros e consigo mesmo... que existe antes que eu a aprenda, exterior a mim. A problemática da relação com o saber recusa-se a definir a aprendizagem partindo apenas do movimento daquele que aprende ou das características daquilo que é aprendido. O que importa, como já se explicou, é a conexão entre o sujeito e o saber, entre o saber e o sujeito. b) A relação com o saber é uma relação consigo e a implicação disso é que o sentido e o valor que cada indivíduo dá ao que ele aprende ou deixa de aprender está diretamente associado ao valor e sentido que ele atribui a si quando aprende. c) A relação com o saber implica também numa relação com o outro no sentido que o aprendizado é mediado por esse outro, dirigido por este outro e aprender implica adentrar nas manifestações deste outro. d) A relação com o saber é uma relação com o mundo. Não é possível apreender o mundo em sua totalidade, logo, o que é oferecido ao sujeito é uma forma de mundo, que se refere àquela na qual se desenvolve alguma atividade. Isto significa que o sujeito aprende e vive no mundo que lhe foi oferecido, porém não de forma passiva. 70 e) Toda relação com o saber é ao mesmo tempo singular e social, no sentido que, embora o aprendizado seja relativo ao sujeito, o saber que ele apropria foi construído no contexto das relações sociais. Como a relação com o saber possui a característica relacional, apresenta também uma questão identitária. Charlot (2000, p.72) explica que “aprender faz sentido por referência à história do sujeito, às suas expectativas, às suas referências, à sua concepção de vida, às suas relações com os outros, à imagem que tem de si e à que dá aos outros”, que por sua vez são parte de uma dimensão identitária. O sujeito apresenta preferências por uma ou outra figura do aprender que guarda uma correspondência com a identidade17 social do sujeito. Ao mesmo tempo em que a identidade influencia nas opções por certas figuras do aprender, recebe destas figuras uma influência na construção de sua identidade. Charlot (2000) enfatiza que a análise da relação com o saber deve ser realizada por intermédio da dimensão identitária. Considerar tal dimensão significa adentrar-se nas histórias sociais dos sujeitos que permitem compreender o aprender enquanto apropriação do mundo e não apenas de acesso a ele. 17 No que diz respeito ao termo identidade, Mellucci (2004, p. 44) chama a atenção para a existência de vários significados, mas que dentre as várias possibilidades, três elementos sempre estarão presentes. São eles: “primeiro, a existência de um sujeito que se conserva no tempo, livre de influências ambientais inferiores a um certo limiar; segundo, a noção de unidade, que estabelece os limites para a distinção entre um sujeito e outro; e, por fim, a relação entre dois elementos, que permite o seu reconhecimento como idênticos”. 71 4 RELAÇÃO COM O SABER E COM A ESCOLA POR PARTE DE ADOLESCENTES QUE DESCUMPRIRAM A CONDICIONALIDADE DA EDUCAÇÃO 4.1 O percurso metodológico Considerando que a realização de qualquer trabalho científico implica na utilização de métodos científicos, que conforme definição de Lakatos e Marconi (2003, p.83), são “atividades sistemáticas e racionais que, com maior segurança e economia, permitem alcançar o objetivo – conhecimentos válidos e verdadeiros -, traçando o caminho a ser seguido, detectando erros e auxiliando as decisões do cientista”, não almejamos aqui somente definir os instrumentos utilizados. Buscamos descrever e justificar todo o processo metodológico desenvolvido na pesquisa. A metodologia se diferencia da descrição de um método, pois se refere ao “conhecimento crítico dos caminhos do processo científico, indagando e questionando acerca de seus limites e possibilidades” (DEMO, 1989, apud MARTINS, 2004, p. 291). Uma investigação científica não pressupõe um modelo único, portanto, à medida que nos deparamos com uma diversidade de métodos e técnicas nos foi posto um delicado trabalho de conhecer e escolher aqueles que adequadamente permitiriam responder ao problema de pesquisa. A abordagem da pesquisa foi de natureza qualitativa. Utilizamos a designação “abordagem qualitativa”, indo ao encontro da compreensão de Severino (2007, p. 119) de que a distinção entre pesquisa qualitativa e quantitativa não se refere a uma modalidade metodológica particular, mas sim a “conjuntos de metodologias, envolvendo, eventualmente, diversas referências epistemológicas”. A escolha por uma abordagem quantitativa ou qualitativa, ao contrário do que se pensou no passado, não se dá pela superioridade de uma ou de outra, mas sim em função da natureza do problema e dos objetivos da pesquisa. Isto não significa que dados quantitativos não possam ou não sejam utilizados, como é o nosso caso. Tradicionalmente, os programas sociais têm abarcado indicadores quantitativos do contexto socioeconômico e cultural dos usuários e sua família, tais como, condição e situação de moradia, escolaridade, cargo e ocupação profissional, situação de trabalho e renda para identificar a vulnerabilidade destes grupos. Ocorre que, quando nos deparamos com o problema da infrequência e da evasão escolar, 72 percebemos que há outros elementos, ainda pouco explorados, que também interferem na permanência ou não dos alunos na escola e não têm sido abarcados pelas análises relativas às políticas sociais. Afinal, como explicar os casos de alunos que mesmo com características socioeconômicas de vulnerabilidade não apresentam o problema de infrequência e evasão? Em Belo Horizonte, temos hoje cerca de 70 mil famílias beneficiárias do Bolsa Família. No conjunto dessas famílias temos cerca de 97 mil alunos na idade de 06 a 15 anos, e conforme explicitado no início deste trabalho, o universo de famílias que são questionadas pelo descumprimento de condicionalidades encontrase em torno de 17 mil18. Estes dados reafirmam a insuficiência das abordagens por correlação de características para explicar o problema da evasão escolar. Estamos diante de um problema de natureza complexa, que dificulta identificar as causas e consequências a fim de isolá-las e quantificá-las, o que mostra a inviabilidade de uma abordagem quantitativa para responder ao problema. Estudos estatísticos têm sido utilizados para apreender os motivos das diferenças de desempenho acadêmico entre as pessoas, ao se relacionar características que predominam em um ou outro grupo. São estes estudos que apresentam relações de causalidade como, por exemplo, entre a origem social e fracasso escolar. Ocorre que a evasão escolar não advém apenas dessas diferenças socioeconômicas, pois senão como explicar o fato de que, mesmo diante da possibilidade de desligamento do Programa Bolsa Família, as crianças e adolescentes não cumprem a frequência escolar? Conforme Charlot (2000, p. 17) a relação com a escola decorre da “experiência que o aluno vive e interpreta”, neste sentido, apresenta-se necessário uma identificação e análise do fenômeno da infrequência ou evasão escolar para desvendar elementos mais sutis que uma abordagem quantitativa não alcançaria. Embora existam críticas em relação à abordagem qualitativa, sendo uma delas a impossibilidade de generalização, essa mesma limitação apresenta um contraponto positivo que é sua capacidade de privilegiar o conhecimento em profundidade de microprocessos sociais individuais e grupais. Sua principal característica “é o estudo em amplitude e em profundidade, visando a elaboração de 18 Informações do Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome e da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte. Disponível em: http://www.mds.gov.br/adesao/mib/matrizview.asp?IBGE=3106200 . Acesso em: 20 fev. 2010. 73 uma explicação válida para o caso, ou casos em estudo, reconhecendo que o resultado das observações são sempre parciais”. (MARTINS, 2004, p. 295). Derivou daí a necessidade de uma pesquisa de campo junto aos adolescentes de famílias desligadas do PBF em Belo Horizonte – MG em função do não cumprimento da condicionalidade da educação. Ou seja, alunos que apresentaram ou ainda apresentam situação de infrequência e evasão escolar. Utilizamos como universo os adolescentes das mesmas 61 famílias da pesquisa que antecede a atual. Todavia, não trabalhamos com o público de adolescentes das 61 famílias já que foram localizadas somente 38 famílias. No conjunto dessas 38 famílias, identificamos o universo total de 33 adolescentes, a partir do qual definimos o percentual de 25% para compor a amostra. Consideramos adolescentes aqueles com idade entre 12 e 17 anos no dia 31de dezembro de 2008, por ser este o ano que antecedeu o desligamento destas famílias pela recorrência de descumprimento de condicionalidade. Os adolescentes foram selecionados com a intenção de que a amostra apresentasse um percentual o mais próximo possível do percentual de distribuição dos sujeitos do universo total em relação às características de idade e sexo. Inicialmente os sujeitos foram selecionados no interior das famílias que apresentaram mais de um filho em descumprimento de condicionalidades, o que já nos deu o total de 8 sujeitos. O último foi selecionado de maneira a completar a amostra mantendo as características do universo total. Em relação à idade, ficamos com a seguinte relação entre universo total e amostra: Tabela 05 – Amostra segundo idade Idade Frequência no universo total (100%) Frequência na amostra (25%) 12 5 1,25 Nº inteiro mais próximo 1 13 7 1,75 2 14 9 2,25 3 15 11 2,75 3 16 1 0,25 0 Total 33 8,25 9 74 Em relação ao sexo, ficamos com a seguinte relação entre universo total e amostra: Tabela 06 – Amostra segundo o sexo Sexo Frequência no universo total (100%) Frequência na amostra (25%) Feminino 13 3,2 Nº inteiro mais próximo 4 Masculino 20 5,0 5 Total 33 8,25 9 Além disso, optamos por uma amostra que apresentasse uma diversidade geográfica de maneira que contemplamos adolescentes de todas as regionais administrativas de Belo Horizonte, além de diferentes escolas. Os dados qualitativos que direcionaram a análise dos fatores que concorreram para a infrequência escolar por parte destes adolescentes foram obtidos por meio de entrevistas semi-estruturadas, individuais e gravadas. Segundo definição de Trivinos (2008, p. 146), a entrevista semi-estruturada é aquela que: (...) parte de certos questionamentos básicos, apoiados em teorias e hipóteses, que interessam à pesquisa, e que, em seguida, oferecem amplo campo de interrogativas, fruto de novas hipóteses que vão surgindo à medida que se recebem respostas do informante. Desta maneira, o informante, seguindo espontaneamente a linha de seu pensamento e de suas experiências dentro do foco principal colocado pelo investigador, começa a participar na elaboração do conteúdo da pesquisa. A opção pela entrevista se deu por esta valorizar a expressão dos entrevistados, no que se refere à liberdade e à espontaneidade de prover informações, o que tem por consequência final o enriquecimento da investigação. Foram realizadas 09 entrevistas, o que nos deu o total de 6h15min58seg de gravação. Tendo como referência a teoria da relação com o saber entendemos que a compreensão da infrequência e da evasão escolar deve levar em consideração as relações que estes adolescentes estabelecem com a escola e o saber, bem como, os significados que atribuem as experiências que vivenciam na situação escolar. Buscamos durante as entrevistas olhar esses adolescentes na sua totalidade e para tanto exploramos, durante as entrevistas, a relação com a família e com a escola, 75 focalizando as lembranças do passado e da infância com recorte em situações e pessoas. Buscamos, assim, elucidar a forma como esses adolescentes dão sentido a suas experiências e as relações que passam a estabelecer com a escola e o saber. A exploração inicial das entrevistas nos permitiu verificar que os adolescentes entrevistados apresentam contextos diferenciados que culminaram na infrequência e/ou evasão escolar assim como na situação atual para com a escola. Apresentamos abaixo o contexto relatado pelos 09 adolescentes entrevistados e indicamos também os nomes fictícios pelos quais os adolescentes serão identificados ao longo da discussão dos dados. A entrevistada 01, Carla, atualmente com 17 anos, sexo feminino, encontra-se evadida e relata que o motivo é que está impedida de estudar em função de acometimentos de atos infracionais no interior da escola. Relata desejo de retomar, que tentou retomar os estudos, mas foi impedida pela direção da escola. Por este motivo, almeja reiniciar as atividades escolares no ano de 2010 em outra escola. A entrevistada 02, Viviane, idade atual 17 anos, sexo feminino, esteve também evadida no ano de 2009. Manifesta que retomará os estudos no ano de 2010 porque sua mãe permitiu que cursasse a escola no período noturno. A mudança de turno representa para ela a possibilidade de conciliar atividades de trabalho e estudo, única situação aceita pela adolescente para que retome os estudos. A proibição da mãe de que ela estudasse no turno noturno foi o motivo da evasão relatado por ela. Já a entrevistada 03, Letícia, encontra-se com 16 anos e é do sexo feminino. Relata que voltou a frequentar regularmente a escola no ano de 2010. O motivo da infrequência relatado por ela era poder passar tempo fora da escola em companhia das colegas. Esta adolescente conta que a mãe tomou conhecimento de sua infrequência e “brigou muito”. Frente a tal situação, diz ter refletido sobre efeitos negativos de não frequentar a escola e retomou as atividades normalmente desde 2009. O entrevistado 04, Pedro, atualmente com 17 anos, sexo masculino, encontra-se evadido. Não objetiva retomar os estudos, pois acha “muito chato”, “não tem vantagem nenhuma”. Acredita que o diploma de ensino médio é essencial e suficiente para boa inserção no mercado de trabalho e por isso irá “comprar um”. 76 O entrevistado 05, Júlio, sexo masculino, atualmente com 14 anos, esteve infrequente. Informa que acompanhava a avó a consultas no médico e que, às vezes, quando estava cansado, não ia a escola. Manifesta vontade de interromper os estudos, mas a mãe insiste para que os mantenha. A entrevistada 06, Ana, 16 anos, sexo feminino, esteve infrequente, mas relata que retomou as atividades normalmente no ano de 2009. O motivo da infrequência era passear com as amigas. O entrevistado 07, César, sexo masculino, atualmente com 15 anos, esteve infrequente e relata que retomou as atividades normalmente no ano de 2009 e justifica a infrequência em função das relações que estabelecia na escola, permeada por confusões e brigas constantes. O entrevistado 08, Cleiton, também do sexo masculino e atualmente com 15 anos, relata desmotivação como razão da infrequência em função de retenções recorrentes. Por fim, o entrevistado 09, Adilson, sexo masculino, idade atual 16 anos, esteve infrequente porque ficou responsável pelos cuidados de um irmão, que permaneceu sob agravo de saúde, no horário em que a mãe se ausenta para as atividades de trabalho. As contextualizações sobre a evasão/infrequência apresentadas descrevem o cenário mais geral da situação de cada adolescente, mas não são suficientes para adentrarmos no fenômeno em sua profundidade. Para alcançar tal profundidade e compreender os fatores que concorrem para a evasão/infrequência escolar por parte dos adolescentes de famílias inseridas do Programa Bolsa Família, do Município de Belo Horizonte – MG, realizamos análise de conteúdo dos dados coletados. A fase de análise dos dados se deu nas seguintes condições: - transcrição das gravações com preservação do corpo discursivo, objetivando resguardar o contexto e a unidade das entrevistas. - análise de conteúdo, identificando os temas mais importantes e recorrentes abordados pelos sujeitos e, em seguida, agrupando-os em categorias empíricas de compreensão. A análise de conteúdo mostra-se adequada por permitir o estudo de motivações, atitudes, valores, crenças e tendências (BARDIN, 2008). Além disso, possibilita descobrir o que está por trás dos conteúdos manifestados 77 verbalmente pelos sujeitos, transpondo assim as aparências do que está sendo comunicado (MINAYO, 2007). - Interpretação dos dados à luz da literatura consultada, e especificamente, tendo como referência principal a teoria da relação com o saber, de Bernard Charlot. A concepção de Charlot refere-se à relação que os indivíduos estabelecem com o saber e apresenta-se como uma discussão diferenciada se comparada às teorias sobre origem social ou características socioculturais como explicativas (CHARLOT, 2000). Como apresentamos anteriormente, segundo o autor, a base da relação com o saber encontra-se no desejo de aprender, que é manifestado de forma diferenciada pelos indivíduos. Ao optarmos pela teoria da relação com o saber, procuraremos compreender os motivos pelos quais emergem essas diferenças na relação que os indivíduos estabelecem com aquilo que objetivase ensinar-lhes, já que a situação escolar possui a marca da origem social, mas não é por ela determinada (CHARLOT, 2001). 4.2 Uma aproximação aos fatores que concorrem para a infrequência e evasão escolar por parte dos adolescentes de famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família em Belo Horizonte Apresentamos aqui os resultados obtidos acerca dos fatores que concorrem para a infrequência e evasão escolar por parte dos adolescentes de famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família, do Município de Belo Horizonte – MG. As categorias empíricas de compreensão identificadas e que descreveremos abaixo foram construídas a partir dos temas gerais abordados no roteiro de entrevista (apêndice 04). As categorias são as seguintes: atividades que mobilizam os adolescentes em sua rotina diária; móbiles implicados no objetivo de exercer atividades de trabalho remunerado e a construção dos sujeitos acerca da relação com a escola e o saber. No item anterior apresentamos as razões expressadas pelos adolescentes que os fizeram evadir ou tornarem-se infreqüentes. Nesse item traremos uma aproximação maior aos fatores, buscando ir além dos motivos imediatos e aparentes expressados pelos entrevistados. 78 4.2.1 Atividades que mobilizam os adolescentes em sua rotina diária Neste item, buscamos verificar a partir da rotina diária dos adolescentes quais são as atividades que os mobilizam em detrimento da escolar já que tratamos de sujeitos que se apresentam evadidos ou infrequentes. A partir dos relatos dos entrevistados, identificamos que suas atividades diárias compreendem as vitais como acordar, dormir, tomar banho, comer, escovar os dentes, entre outras; responsabilidades nos cuidados da casa e/ou crianças, parentes ou não e nos afazeres domésticos; lazer que se resumem a assistir TV/novela, jogar vídeo-game, escutar música, jogar bola e conversar com colegas/amigos, parentes e/ou vizinhos; ir para a escola e trabalhar. A rotina dos adolescentes é percebida por eles como vazia de novidades e ausente de atividades como nos mostra, por exemplo, o relato da adolescente Ana que diz: “sempre faço as mesmas coisas. Aí eu tô cansada de sempre a mesma coisa”. O problema existente nas poucas possibilidades de ocupação do tempo é que sua forma de ocupação pode levar aos problemas que têm sido vivenciados pela juventude, tais como o consumo de drogas, a violência, o trabalho precoce e outros. O fato dos próprios adolescentes apresentarem essa percepção acerca de suas rotinas reforça a abordagem trazida por Dayrell (2010) de que os problemas implicados na adolescência não têm como causa a própria adolescência, mas decorrem de uma construção social. 4.2.1.1 Ocupar o tempo dormindo Na descrição da rotina, o que mais nos chama a atenção é a ausência de possibilidades para seu preenchimento, o que pôde ser verificado tanto na explicitação direta dos adolescentes de “não tem nada para fazer” e que “ficam à toa”, mas também por relatarem que grande parte do tempo é ocupada dormindo. Além desses dois aspectos, a citação de atividades vitais também evidencia a falta de possibilidades presentes na rotina desses adolescentes: frente um contexto onde não se “faz nada”, resta relatar ao pesquisador as atividades vitais. O hábito de dormir entre uma ou outra atividade desenvolvida ao longo do dia aparece na fala de todos os entrevistados, conforme exemplo da adolescente 79 Carla que fala de atividades vitais, das suas responsabilidades nos cuidados de crianças e da casa e por fim enfatiza que dormiu “a tarde toda”. Ontem eu levantei, tomei banho, vim aqui arrumei meu sobrinho pra ele ir pra escola, dei ele almoço, fui, levei na escola, peguei as meninas pra mim olhar. Fiquei aí e dormi a tarde, a tarde toda. Arrumei casa e dormi a tarde toda. Outro exemplo, o da adolescente Viviane, apresenta o seguinte relato: “acordei, levei meu sobrinho para a escola, busquei, dormi, dormi e vi novela. Só isso.” Ela informa que acordou ao meio dia e que após ter levado o sobrinho para a escola: “almocei, vi novela e depois eu dormi de novo”. Diante desse depoimento, verificamos que a não mobilização para a atividade escolar, materializada pela situação de evasão na qual se encontra essa adolescente não vem acompanhada do preenchimento por outras atividades o que a leva a ocupar o tempo dormindo. Essa situação também aparece na fala dos demais adolescentes. Para não incorrermos no risco de compreender que o motivo desses adolescentes passarem grande parte do seu tempo dormindo refere-se a uma necessidade biológica do período da adolescência, citamos o trabalho de Bernardo (2009), no qual são apresentados dados que reafirmam nossa análise acerca de uma ausência de possibilidades de preenchimento do tempo. O trabalho desta autora apresenta a duração do sono entre os adolescentes de acordo com o perfil socioeconômico. Os resultados revelaram que a duração do sono em termos de horas dormidas é maior quanto mais baixa a classe do adolescente. Levando em consideração que as possibilidades se apresentam mais desfavoráveis quando mais baixa a classe social, fazemos aí uma inferência do ato de dormir demasiadamente como resposta a essa situação. O fato de que os adolescentes entrevistados passam grande parte do tempo dormindo, juntamente aos dados do estudo de Bernardo (2009), nos indicam a necessidade de políticas e/ou programas voltados aos jovens que possibilitem outras formas de preenchimento do tempo ocioso. Segundo Aquino (2009), ações dessa natureza são organizadas de acordo com a forma de conceber a juventude. Uma vez que a juventude tem sido tradicionalmente tratada como uma fase preparatória para a vida adulta ou como uma fase problema (DAYRELL, 2005), as políticas têm se voltado para as áreas de educação e emprego, dada a perspectiva de preparar o jovem para a vida adulta, ou para a saúde e segurança pública como 80 forma de intervir nos fatores problemáticos da adolescência como gravidez, consumo de drogas, violência dentre outros (AQUINO, 2009). Essas ações não estão orientadas enquanto uma política de juventude, mas sim como “estratégias de atuação da sociedade para orientar a formação dos jovens e minimizar seu envolvimento em situações de ‘risco’” (AQUINO, 2009, p.35). Ocorre que as questões tidas como problemáticas que permeiam a juventude na atualidade referem-se a problemas da organização social e não do fato de ser jovem. Dessa forma não só a necessidade de políticas e/ou programas deve ser reforçada, mas também a necessidade de rediscussão sobre o perfil dessas ações. Uma real política de juventude, segundo Aquino (2009, p.36), deve garantir a proteção social e as oportunidades de desenvolvimento do jovem. Isso significa cobrir as situações de risco e vulnerabilidades sociais, bem como proporcionar “oportunidades de experimentação e inserção social múltiplas, que favoreçam a integração social dos jovens nas várias esferas da vida social”. 4.2.1.2 Atividades de lazer O problema da falta de oportunidades aparece também no acesso ao lazer. As atividades apontadas por esses adolescentes se reduzem as disponíveis em casa e nas proximidades, tais como ouvir música, jogar vídeo-game, conversar na rua, assistir TV e jogar bola. O entrevistado Júlio, por exemplo, entre os afazeres domésticos e o dormir apresenta sua atividade de lazer, que se resume a assistir TV: “Ah, eu acordei fui pra escola, ai deu 11h30min eu cheguei, arrumei comida, almocei, aí eu arrumei a casa, fui lá deitei e dormi, aí acordei 5 horas, tomei café e fiquei assistindo televisão”. Ao verificar as atividades de lazer que esses adolescentes realizam, questionamo-nos de que forma isso reflete escolhas ou uma falta de oportunidade de escolhas. Pesquisa realizada no ano de 2003 pelo Instituto Cidadania19 acerca do perfil da juventude brasileira apresenta as contradições existentes entre as atividades de lazer mais realizadas pelos jovens e as que mais gostam de fazer. 19 A pesquisa Perfil da Juventude Brasileira é parte do Projeto Juventude do Instituto Cidadania e foi realizada em parceria com o Instituto de Hospitalidade e o Sebrae. Refere-se a um estudo quantitativo realizado com jovens de 15 a 24 anos de todo o território nacional em áreas urbanas e rurais. Disponível em: www.planalto.gov.br/secgeral/juventude/juventude.pps. Acesso em: 28 mar. 2010. 81 Esses jovens foram inicialmente questionados sobre quais as atividades de lazer realizam e, posteriormente, sobre quais as atividades que mais gostam mesmo que não a pratiquem sempre. Os três elementos mais citados pelos adolescentes na primeira questão foram assistir TV, ouvir rádio e encontrar amigos. Já quando questionados sobre o que mais gostam de fazer mesmo que não o façam sempre, esses elementos passam a ocupar respectivamente o 9º, 10º e 6º lugar na citação dos adolescentes. Aparecem nos três primeiros lugares ir ao cinema, jogar bola e ir a shows. As formas de preenchimento do tempo livre indicam qual a relação que os jovens possuem com a cultura e o lazer. Tendo como referências pesquisas como a relatada acima, inferimos que os tipos de atividades de lazer dos adolescentes que pesquisamos refletem escolhas dentro de um quadro de poucas opções. Também no âmbito das políticas sociais voltadas a oportunizar o lazer para a juventude, predominam ações que refletem a forma restrita de perceber os problemas da juventude como decorrentes da própria juventude (DAYRELL, 2010). As políticas no campo da cultura, esporte e lazer, estabelecem uma relação de uso do espaço público por parte dos jovens não em uma perspectiva de apropriação e uso para a sociabilidade, mas sim na perspectiva de retirar o jovem do espaço público que apresenta perigo aos adolescentes. Essa perspectiva reforça a ideia errônea de que o jovem enquanto ser que ainda não está pronto deve ser cuidado frente aos perigos postos na sociedade já que não se encontrariam em condição de pensar, se posicionar e escolher frente às possibilidades de futuro disponíveis (ABRAMO, 1997). 4.2.1.3 Recorte de gênero nas responsabilidades diárias presentes As atividades desempenhadas pelos adolescentes em sua rotina diária apresentam um recorte de gênero. A responsabilidade nos cuidados da casa e/ou crianças, parentes ou não, é a realidade apresentada por 05 dos 09 adolescentes entrevistados. Apresenta-se como uma atribuição do universo feminino uma vez que destes cinco adolescentes somente um é do sexo masculino. Como exemplo, temos a adolescente Letícia que assim relata seu dia: “Hum ... [fiz] Um monte de coisa. Arrumei casa, lavei roupa, fiz comida, fiz janta e fui dormir”. Essa adolescente almeja uma mudança de rotina que fosse “trabalhar no 82 lugar de arrumar casa, né?! É que é meio chato, todo dia você faz a mesma coisa... Aí eu queria ter tipo um trabalho assim... uma coisa assim pra eu parar de arrumar casa, né?!” Todavia, embora apresente esse objetivo de mudança, quando questionada sobre o futuro reforça essas responsabilidades como presentes no universo feminino. Segundo ela, quando adulta, sua vida será “daí pra pior, né?! Depois você vai ter filho... vai arrumar casa do mesmo jeito. Nunca que vai mudar mas... e daí, né?!”. O depoimento dessa adolescente mostra que as atividades diárias que envolvem os adolescentes refletem uma questão de gênero. A partir da compreensão de que gênero refere-se à diferenciação cultural entre os sexos na organização das experiências sociais temos que: Na relação com os usos do tempo, o conceito de gênero funciona como uma categoria de análise relacionada aos particularismos patriarcais presentes nas relações culturais e sociais dos seres humanos, influenciando diretamente na apropriação diferencial do tempo e do espaço (MACHADO; CARVALHO, 2006, p. 5). Essa questão vem sendo discutida por um grupo de professores e alunos do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em um estudo sobre o cotidiano de 500 jovens estudantes do Ensino Médio de uma escola pública de Porto Alegre, na faixa etária de 15 a 19 anos, os pesquisadores correlacionaram os conceitos de juventude e gênero e concluíram que as formas de organização/ocupação do tempo se diferem entre pessoas do sexo feminino e masculino. Esse dado nos mostra que a limitação de possibilidades deve ser pensada não apenas por um recorte nas faltas de oportunidades decorrentes da classe social, mas também a partir dos processos de desigualdade de gênero. 4.2.1.4 A centralidade do trabalho remunerado enquanto atividade mobilizadora Por perceberem que a rotina atual possui poucas ocupações e apreenderem isso como algo ruim, os adolescentes aspiram poder preenchê-la de alguma forma. A vontade de mudança da rotina foi verbalizada por 07 dos 09 entrevistados, o que nos levou a explorar quais atividades os mobilizariam. 83 Verificamos que o trabalho remunerado aparece como atividade central uma vez que todos os adolescentes deram ênfase a este elemento para o momento atual e/ou nos ideais de futuro. A adolescente Carla descreve uma rotina almejada na qual conciliaria escola e trabalho: ela ia “acordar cedo, ir para a escola e quando eu chegasse eu ia direto pro serviço”. Essa descrição apresenta-se como uma contraposição a situação atual de “ficar a toa” uma vez que os adolescentes percebem isso de forma negativa. Essa mesma aspiração é trazida por outros entrevistados. A adolescente Viviane quer “uma rotina nova” na qual iria “estudar a noite. Chegar aqui [em casa] umas 5h, 6h30, tomar banho e ir para a escola”. O adolescente Júlio gostaria de “na parte da tarde trabalhar num lugar, fazer alguma coisa. (...) porque ficar em casa de dia é ruim”. A vontade de exercer atividades de trabalho que foi manifestada por esses adolescentes mostra uma situação preocupante no cenário de combate ao trabalho infantil. Conforme roga o Estatuto da Criança e do Adolescente que dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente, o trabalho é proibido aos menores de quatorze anos, salvo na condição de aprendiz. A proibição do trabalho infantil provém da compreensão – também positivada nessa mesma lei, que à criança e ao adolescente devem ser assegurados as oportunidades e facilidades para os mesmos tenham um desenvolvimento pleno em condições de liberdade e dignidade. O trabalho como alternativa para a adolescência é apontada como fator de riscos e vulnerabilidades sociais por (DAYRELL, 2010). Segundo esse autor, 29% dos jovens de 15 a 17 anos possuem alguma inserção no mercado de trabalho dos quais 71% recebem menos de um salário mínimo por mês. Paralelamente à baixa remuneração, temos que estes mesmos jovens são os que apresentam situação de evasão, infrequência e repetência escolar. Esses adolescentes citam a ida à escola na nova rotina vislumbrada. Verificamos que quando eles relatam uma nova rotina centrada no trabalho a escola reaparece em suas atividades cotidianas. Conforme nos mostra a teoria da relação com saber, atividades serão realizadas a partir do momento que os resultados delas fizerem sentido na satisfação de determinados desejos. Isso significa que mediante o exercício de atividades de trabalho remunerado a escola teria um sentido para esses adolescentes que os levariam a mobilizar-se para essa atividade. 84 Charlot (2000) afirma que a relação com o saber não é exterior ao sujeito, mas sim um movimento de interioridade e exterioridade. Dessa forma, a aproximação com o saber escolar só acontece à medida que há um movimento que é interior ao sujeito. No caso, o fato de que a escola aparece com algum sentido somente mediante o exercício de atividades de trabalho, reflete um sentido a partir da convergência de interesses. a) Ocupações almejadas e rejeitadas As atividades de trabalho são vislumbradas pelos adolescentes em determinadas ocupações e preferencialmente devem apresentar algumas características. As características destes trabalhos referem-se a algo “nem manso nem pesado [e que] desse pra fazer sem dificuldade” (entrevistada Carla); “que não fosse de peso, pra trabalhar igual burro” (entrevistado Pedro). Considerando tais características, as ocupações que foram citadas com rejeição são as de faxineira, empregada doméstica e de babá entre as adolescentes e de servente de pedreiro entre os adolescentes. A rejeição das ocupações citadas pelos adolescentes reflete uma cultura de desvalorização dos trabalhos manuais/braçais em nossa sociedade em detrimento da valorização do trabalho intelectual. Verificamos que essa desvalorização não é imposta apenas exteriormente, mas encontra-se interiorizada e vem sendo reproduzida pelas próprias pessoas que a executam. Essa hierarquização entre os tipos de trabalho, com maior valor dado ao trabalho intelectual, incide nas diferenças de remuneração. As ocupações rejeitadas pelos adolescentes são as desenvolvidas por suas mães e apresentam as características das atividades que exercem em sua rotina, mas não como trabalho remunerado como cuidados da casa e de crianças. Verificamos aí uma percepção/interpretação negativa em relação às atividades que exercem pessoas do convívio direto. Possivelmente esses adolescentes por verificarem que tais ocupações não possibilitam concretizar os objetivos presentes e futuros reproduzem a desvalorização dessas profissões que culmina numa recusa. Já as ocupações almejadas são as de auxiliar de escritório, vendedora de loja de shopping, organizadora de vitrine – “colocar roupa”, caixa de supermercado. Os adolescentes valorizam também uma situação de trabalho com “vantagens”, 85 (entrevistada Viviane) tais como férias, vínculo na CTPS, 13º salário, ticket refeição, seguro-desemprego. b) Adolescentes que não apresentaram objetivo de mudança de rotina As exceções para o objetivo de mudar a rotina no presente a partir do desenvolvimento de atividades de trabalho são os adolescentes César e Adilson. Esses adolescentes apresentam satisfação com sua rotina e motivação para com as atividades escolares. O adolescente César apresenta uma reflexão sobre anos anteriores em que se encontrava infrequente ou evadido e como a criação de uma nova rotina ligada à prática de atividades esportivas e de trabalho mudaram sua relação com o outro, consigo e com a escola. Este adolescente trabalha em uma fábrica de bolas próximo a sua residência, mas mantém as atividades escolares. Objetiva o trabalho que não prejudique as atividades escolares já que compreende que esta segunda é importante para concretizar seu objetivo no futuro: ter uma própria academia. Já o adolescente Adilson tem hoje uma rotina centrada no esporte. O adolescente tem em sua família a presença de pessoas que têm a profissão de jogador de futebol. Esse adolescente sempre teve o objetivo de consolidar a mesma profissão e há cerca de seis meses, foi selecionado para treinar em escola profissionalizante. O adolescente atualmente frequenta a escola regularmente pela manhã e treina todas as tardes. A frequência escolar é uma exigência para a permanência na escola profissionalizante de futebol. Verificamos então que no caso desses adolescentes a mudança da situação de infrequência escolar ocorre quando essa escola passa a ter sentido na vida futura que almejam. Não verificamos, entretanto, uma relação para com o saber escolar. A situação descrita nos mostra que o sentido em frequentar a escola não decorre dos resultados mais imediatos do saber escolar – materializados pelos conteúdos ensinados e aprendidos. Acerca dessa questão, Charlot (2009) apud Pinheiro (2009) chama a atenção para o fato de que a relação com a escola se torna “frágil na medida em que aquilo que se tenta ensinar a eles não faz sentido em si mesmo, mas somente em um futuro distante" (CHARLOT, 2009, apud PINHEIRO, 2009). 86 4.2.2 Atividade de trabalho remunerado e os móbiles implicados O trabalho no momento presente foi abordado por 06 dos 09 entrevistados como elemento que eles desejam para mudar a rotina atual. Já na ideia de futuro, essa atividade aparece na fala de todos os adolescentes. Dada a importância que o trabalho obteve nos relatos dos adolescentes entrevistados e mediante a verificação de outras pesquisas20 que têm apontado que esses adolescentes conferem relevante sentido ao trabalho, buscamos aprofundar nossa análise focando nos móbiles que estão implicados nessa atividade. Para Charlot (2001), a mobilização para determinadas atividades são impulsionadas por móbiles. Os móbiles referem-se aos motivos que o sujeito possui para se mobilizar. A mobilização implica no sentido entre os móbiles impulsionadores, as atividades e seus resultados. Dessa forma, uma vez identificados os elementos abordados pelos adolescentes que se articulam à atividade trabalho, organizamos nossa explanação sobre os móbiles buscando também apresentar os sentidos que esses adolescentes têm construído em torno do trabalho remunerado. Salientamos que a forma como apresentamos os dados refere-se a uma estratégia metodológica para descortinar os sentidos que esses adolescentes construíram em torno da atividade trabalho. Os sentidos aqui apresentados não devem, portanto, ser tomados de forma rígida, já que os móbiles encontrados se articulam de diversas formas dando sentido à atividade de trabalho na vida desses adolescentes. O resultado mais geral do exercício das atividades de trabalho é a aquisição de renda, conforme exemplo do adolescente Pedro. Para ele, “ficar parado não tem como né?! Ficar parado fica sem dinheiro. Sem dinheiro... Sem dinheiro não tem as coisas, né?!”. A renda é então o resultado da atividade de trabalho que apresenta sentido frente aos móbiles que foram relatados, a saber: aquisição de bens materiais, superação da condição socioeconômica do grupo familiar de origem, independência financeira em relação ao grupo familiar de origem e contribuir no 20 Ver por exemplo: GONCALVES, Hebe Signorini et al. Problemas da juventude e seus enfrentamentos: um estudo de representações sociais. Psicol. Soc. [online]. 2008, vol.20, n.2 [citado 2010-03-31], pp. 217-225. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-71822008000200009&lng=pt&nrm=iso . ISSN 0102-7182. doi: 10.1590/S0102-71822008000200009. 87 orçamento familiar. O diagrama abaixo ilustra as sentidos que encontramos as quais descreveremos a seguir: Figura 02 – Móbiles impulsionadores para a atividade de trabalho 4.2.2.1 Aquisição de bens materiais O primeiro móbil apresentado refere-se à aquisição de bens de consumo/materiais. Esses móbiles são materializados pela possibilidade de compra de roupas e outros bens de consumo no presente e a conquista de uma casa no futuro. A aquisição de bens de consumo/materiais refere-se a um móbil mais direto. Fazemos uma distinção entre móbiles diretos e indiretos para chamar a atenção para a existência de outros, anteriores e nem sempre conscientes. Os móbiles podem ser políticos, sociais e econômicos, o que representa situações que se dão por uma dimensão macro ou pessoais/micro, referindo-se às situações advindas do universo subjetivo (SANTOS; DINIZ 1996). No caso, os móbiles indiretos que verificamos foram a necessidade de responder a uma cultura do consumo, a estabilidade econômica e afetiva e a busca por liberdade. 88 4.2.2.1.1 Bens de consumo A aquisição de bens de consumo valorizados na adolescência impulsiona os adolescentes a buscar renda mediante o exercício de atividades de trabalho remunerado. A exemplo da adolescente Letícia, temos que o objetivo de exercer atividades de trabalho é necessário para ter “roupa... comprar roupa”. Outros exemplos são os do entrevistado Júlio que aspira renda para “comprar roupa, esses negócios ai ... (...) Chinelo, boné, essas coisas” e da entrevistada Viviane que quer trabalhar “mais pra comprar minhas coisas. Minhas roupas. Porque eu sou muito de luxo. Eu sou muito de roupa nova. Minha mãe até me xinga. Eu qualquer dinheirinho que eu tenho na mão eu quero comprar roupa. É mais pra isso mesmo”. O relato acima nos aponta a necessidade desses adolescentes de responder a uma cultura do consumo imposta em nossa sociedade, o que não é exclusivo de uma classe social. O que se difere são as possibilidades de responder a tal cultura conforme a situação socioeconômica da família. Adolescentes de classes sociais mais favorecidas apresentam a possibilidade de ter suas necessidades supridas nesta fase da vida pelos pais de maneira que o trabalho com essa finalidade só teria sentido no mundo adulto. Já adolescentes de classes menos favorecidas apresentam a necessidade de trabalho no presente para dar conta de acessar esses bens de consumo que não podem ser supridos pelos pais. Essa compreensão faz ainda mais sentido se levarmos em consideração pesquisa21 que mostra os conceitos associados ao trabalho por parte dos jovens conforme a renda familiar. No universo geral, sem divisão por renda familiar, o aspecto mais apontado pelos adolescentes como motivo para trabalhar/querer trabalhar foi “necessidade” sendo citado por 64%. Já quando verificamos as porcentagens conforme a renda familiar essa é de 69% entre adolescentes de famílias de até 2 salários mínimos (SM), 61% nos de famílias com mais de 2 e até 5 SM, 57% entre famílias com mais de 5 e até 10 SM e 42% entre os adolescentes de famílias com renda superior a 10 SM . Essa necessidade de trabalho que emerge em função da condição financeira da família é também verbalizada pelos adolescentes. A adolescente Letícia relata que “(...) às vezes é chato você ficar: ô mãe me dá isso. Aí a mãe fala: não tenho dinheiro. Aí [trabalhando] você vai ter seu dinheiro”. O adolescente Júlio, 21 Pesquisa perfil da juventude brasileira já citada anteriormente. 89 por exemplo, diz que a mãe lhe dá os bens de consumo que aspira, mas que o trabalho seria “pra ajudar minha mãe [a comprar as coisas] também”. 4.2.2.1.2 Bens duráveis Os bens materiais almejados se diferenciam quando para a vida adulta. Quando questionamos os adolescentes acerca dos ideais de vida adulta permanece o objetivo de acesso a bens materiais, porém não mais de bens de consumo, mas de bens duráveis, no caso a casa própria. A aquisição de casa própria foi citada por todos os adolescentes entrevistados. a) Estabilidade econômica e afetiva Essa mudança de perfil de bens materiais almejados quando para a vida adulta pode se referir a um móbil mais indireto de estabilidade econômica e afetiva. Gonçalves (2008) apresenta em pesquisa sobre o projeto de vida dos adolescentes que a estabilidade econômica e afetiva é central na vida dos adolescentes e se materializa na aquisição de uma casa. Embora a estabilidade financeira e afetiva não tenha sido explicitada diretamente, já o móbil aquisição de uma casa associada à constituição familiar foi por eles verbalizada. Este é o caso do entrevistado Pedro, que indica o anseio por uma casa para “Morar com minha mulher, meu filho”. Outros adolescentes, como o entrevistado Cleiton também apresentam a constituição familiar como móbil. No futuro, esse adolescente quer ter “saúde, emprego bom, família, casa própria (...) ter o salário bom pra manter minha família”. b) Liberdade O bem material almejado na vida adulta, uma casa, expressa também um móbil indireto, que é a liberdade. A adolescente Viviane fala em trabalhar, ter sua casa e ter liberdade, conforme mostra o relato a seguir: (...) Ah, eu vou tentar trabalho mesmo. Ter minha casa e só. Ter minha casa. (...) Eu quero ter a MINHA casa. Isso aí eu penso muito: eu quero minha casa! [Porque] a gente tem mais liberdade. Tem liberdade pra chegar a hora que quer e a hora que não quer. Tem liberdade, né?! Dá pra fazer o que você quer. Tem liberdade. (Entrevistada Viviane) 90 O elemento liberdade tem sido frequentemente valorizado na adolescência. Segundo Aquino (2009), entre o lado bom de ser jovem um dos aspectos mais citados é a liberdade. Paralelamente, entre as coisas ruins está a falta de liberdade imposta pelo controle familiar. 4.2.2.2 Superação da condição socioeconômica do grupo familiar de origem Outro móbil apresentado pelos adolescentes refere-se ao objetivo de superar a situação socioeconômica atual, a exemplo da adolescente Carla que verbaliza que “não [quer] ficar só no baixo (...) [quer] ir pro alto também”. Essa frase apresenta o conteúdo de superação da condição socioeconômica do grupo familiar de origem que se encontra “no baixo”. Essa superação está ligada a uma ascensão social materializada pelos elementos casa, ensino superior e trabalho, conforme relato dessa mesma entrevistada: “Eu quero ter minha casa, meu trabalho. Eu quero ter... quero fazer faculdade. Fazer uma faculdade, trabalhar, ter minha casa”. Verificamos aqui um status social e econômico, que é conferido às pessoas que têm acesso ao ensino superior, trabalham e possuem casa própria. O trabalho, nesse caso, aparece tanto como meio de conseguir essa superação, mas também como fim, já que expressa essa superação. Em relação ao acesso ao ensino superior, este não apareceu nos depoimentos, apresentando um sentido enquanto atividade possibilitadora do alcance do resultado almejado, mas sim como expressão de um status social vislumbrado para o futuro. 4.2.2.3 Independência financeira em relação ao grupo familiar de origem O conteúdo de independência financeira enquanto móbil expressou as mesmas razões indiretas de estabilidade econômica e afetiva e liberdade que estão articulados ao móbil “aquisição de uma casa”. O adolescente Pedro, por exemplo, diz que precisa “ganhar um dinheiro que dá pra manter minha família bem sem ter que depender da mãe e do pai”. Esse “se manter” significa prover as necessidades de sua família sem depender do grupo familiar de origem já que esse adolescente 91 constituiu um novo grupo familiar composto por ele a namorada, que se encontra gestante, mas residem na casa de sua mãe e dependem financeiramente dela. Segundo dados da PNAD, divulgados pela UNICEF22, o Brasil tinha em 2006, 4,3 famílias cuja responsabilidade de chefiar é de jovens menores de 18 anos para cada grupo de 1000 famílias. No ano de 2007, esse índice foi de 3,9. Esses dados mostram a realidade de cerca de 234 mil adolescentes que têm em sua vida uma responsabilidade que se apresenta como fator de vulnerabilidade social dado o ciclo de vida em que se encontram. Já o móbil de liberdade responde ao objetivo de poder “sair mais... tipo shopping, sair com as amigas assim, ir pra esses lugar e tal... festa” (adolescente Ana). Esses elementos que expressam a liberdade foram buscados por essa adolescente no período em que esteve infrequente. Ela informa que esteve infrequente quando, em detrimento de frequentar a escola, saía com as amigas para o shopping e ficava na rua conversando sem o conhecimento da mãe. É uma adolescente que valoriza essa liberdade e que em outros momentos da entrevista reclama da escola como um lugar onde “não pode fazer nada”. Esse é então um fator de distanciamento da escola. Se a adolescência é um período de busca da liberdade e a escola é sentida como algo que lhe tolhe essa liberdade, temos aí um fator de distanciamento da escola. 4.2.2.4 Contribuir no orçamento familiar Ao contrário dos demais entrevistados, o entrevistado Cleiton não manifestou essa necessidade de independência financeira para com o grupo familiar. Ao contrário destes, objetiva com o trabalho “ajudar minha mãe”. Apesar do objetivo expresso não ser de independência para com o grupo familiar de origem, o móbil expresso por esse adolescente de poder “ajudar à mãe” expressa as impossibilidades vividas por determinada parcela da população de prover suas necessidades básicas. Neste caso, frente a tal situação, o adolescente objetiva inserir-se precocemente no mercado de trabalho para assim contribuir no orçamento familiar. 22 Ver Situação da Infância e da adolescência Brasileira 2009. http://www.unicef.org/brazil/pt/Mapas_e_tabelas.pdf. Acesso em: 31 mar. 2010 Disponível em: 92 A inserção no mercado de trabalho nas condições que esses adolescentes se encontram pode resultar numa precarização dessa inserção tanto no momento atual quanto no futuro. Este adolescente objetiva trabalhar em detrimento de estudar, o que precariza sua inserção no mercado de trabalho já que temos em nossa sociedade uma relação de convergência entre maior escolaridade e melhor inserção no mercado de trabalho. Tal é a situação que quando questionado sobre com que gostaria de trabalhar ele responde: “Não sei. Com o que aparecer”. Concretizar o objetivo de desenvolver atividades de trabalho remunerado parece realmente não ser tarefa simples. Embora 06 dos 09 entrevistados tenham manifestado esse objetivo no presente, apenas o adolescente Pedro informou já ter realizado alguma atividade no passado, o adolescente César trabalha no presente e a adolescente Viviane está com um trabalho em vista. 4.2.3 Relação com a escola e o saber: a construção dos sujeitos Os sentidos apresentam-se à medida que possuem relação com o que acontece a esses sujeitos, com outras coisas de sua vida, com o que pensa/já pensou, se propôs/se propõe (CHARLOT, 2000). Desta maneira, buscamos por meio das experiências e vivências destes adolescentes compreender como se dá a relação com a escola e com o saber, da infância até a atualidade, bem como, os processos de construção desta relação. As categorias relativas à relação com a escola e o saber não foram estabelecidas inicialmente, pois entendemos que para a compreensão dessa relação deveríamos verificar inclusive quais os elementos da escola que são percebidos por esses sujeitos de forma mais expressiva. As categorias que apresentamos foram então construídas a partir dos elementos que foram verbalizados por esses adolescentes. Outros elementos que estão presentes na escola poderiam ter sido considerados para a análise da relação com a escola e o saber por parte desses sujeitos, mas, como não foram verbalizados pelos adolescentes, não os consideramos neste trabalho. As categorias que apresentamos são: a chegada na escola, a relação com o outro e a aprendizagem. Essas três categorias centrais apresentam vários elementos implicados, conforme mostra a figura 03 e que serão apresentados e discutidos em cada subitem a seguir: 93 Figura 03 – Relação com a escola e o saber RELAÇÃO COM A ESCOLA E O SABER 4.2.3.1 – A chegada na escola: primeiras impressões e vivências A relação com a escola e o saber na infância é apresentada de forma positiva ao tomarmos as primeiras impressões e vivências. A escola na infância é descrita como um lugar “bom”, “muito bom”, “legal mesmo” pela maioria dos adolescentes. De uma maneira geral os adolescentes relatam que, no primeiro dia de aula, chegaram “todo empolgado pra querer estudar”, já que tinham a escola como um lugar “muito legal mesmo!” (entrevistada Carla). A noção de relação com o saber implica considerar a experiência vivida e interpretada pelos sujeitos para se compreender o fenômeno, no caso a infrequência e a evasão escolar. Significa ainda considerar as relações dos sujeitos com a escola adentrando na sua singularidade. Parece então que é a partir da entrada desses sujeitos na adolescência que a escola se torna distante de sentido levando a 94 infrequência e evasão escolar já que na infância predominam sentimentos positivos em relação à escola. a) a afetividade As situações lembradas da escola no período da infância são aquelas que envolvem a afetividade expressa nos cuidados maternos. Como exemplo temos os relatos da entrevistada Letícia que diz que a mãe “dava banho, hoje não é mais. Levava pra escola. Só que hoje não é. Tudo muda, né?! Só isso.” E da entrevistada Ana que diz que “A minha mãe ela era mais, ela me dava mais atenção”. Temos então expressos um sentimento de perda de afetividade por parte dos familiares. b) o novo A escola na infância também foi lembrada positivamente por esses adolescentes em função do seu caráter de novidade, de algo ainda por ser descoberto. Os entrevistados falam do desconhecido, do novo de forma positiva: “Eu lembro que eu cheguei tinha um monte de gente assim no pátio assim, eu tava maior feliz de ir pra escola, né?!” (entrevistada Ana). O início da escola é marcado pela lembrança de “primeiro chega na escola e não conhece ninguém, não conversa com ninguém, mas depois você vai enturmando com as pessoas e vai ficando melhor “ (entrevistado Cleiton). Conforme veremos mais a frente, os adolescentes qualificam a escola na atualidade como algo “repetitivo” e têm essa característica como negativa. O sentimento de repetição parece ser um fator de distanciamento para com a atividade escolar já que esses adolescentes valorizam “fazer coisas novas”. Se a escola era novidade na infância, temos aí um fator de mobilização. Já à medida que passa a ser repetitiva temos um fator de desmobilização. c) a recusa A única exceção para os sentimentos positivos em relação à escola na infância é a adolescente Viviane que diz que não possui “muita lembrança boa assim não”. Mais a frente, diz “fiz pirraça porque eu não queria ficar, mas depois eu 95 acostumei (...) Eu lembro que eu não queria ir. Só isso que eu lembro. Que eu não queria ir de jeito nenhum”. Essa primeira recusa no início das atividades escolares também é manifestada pelo entrevistado Adilson, mas sem, contudo, negativizar a escola: Na primeira vez eu chorei demais, eu não queria que minha mãe fosse embora. Só que isso acontece. Tem que ficar lá de qualquer jeito, porque é bom, mas eu não sabia que era bom pra mim, mas a gente foi indo devagarzinho. Muito bom. 4.2.3.2 Sociabilidade Os adolescentes consideram a escola um lugar de sociabilidade e convivência já que falam destes momentos nas lembranças da escola na infância e na atualidade. Na entrevista com o adolescente Pedro, ele diz que, na infância, lembra-se da “educação física, recreio, brincar... esses negócio”. Todavia, os adolescentes entrevistados manifestam uma negação das atividades de maior sociabilidade e convivência, como as atividades festivas e recreativas, desde a infância. A adolescente Carla “não participava das brincadeiras na escola. Não participava das quadrilhas, das danças porque (...) não gostava”. Já a adolescente Viviane diz que: (...) do recreio eu só lembro que eu ficava na biblioteca lendo livro com minha amiga. Que a gente ficava lendo livro no recreio. E festa é muito difícil eu ir. Porque eu não vou muito em festa de escola. Que eu não sou muito chegada em festa. [Porque] Eu penso muito assim: Já vou pra escola pra estudar pra que eu vou pra escola por causa de festa. Aí eu não vou. Igualmente fala a adolescente Letícia que se lembra da “festa junina, que teve aqueles negócios tudo. Festa, esses negócios de dançar quadrilha e só. Mas eu também nem fico. Eu só vou lá, olho assim, compro um copo de canjica e venho embora”. Os motivos de refutarem tais atividades referem-se a um sentimento de exclusão, rebaixamento e humilhação por parte dos colegas conforme relato da entrevistada Carla: (...) tinha que dançar junto com coleguinha e eu não gostava. Por causa que tinha que dançar com coleguinha e eles sempre faziam uma piada e eu não gostava não. Aí eu ficava... nem gostava muito porque quando eu estudava, eu era a única que tinha muita dificuldade de aprender... de ler. Quando eu estudava na 5ª série aí tinha que ler as coisas do teatro eu não lia. 96 O trecho acima nos chama a atenção uma vez que a relação com o saber é uma relação consigo. Neste caso o sentido e o valor que cada sujeito atribui a si nesse processo relacionam-se ao tipo de relação que ele estabelece com a escola e seu saber. Verificamos vivências nas quais os adolescentes atribuem desde a infância valores negativos a si já que as situações relatadas expressam um sentimento mais geral de inferioridade no ambiente escolar. No caso da entrevistada Viviane ela não gosta desses espaços por gostar de ficar mais sozinha e no caso da entrevistada Letícia porque “às vezes não tem companhia”. O sentimento de exclusão é manifestado não só como impeditivo na participação das atividades festivas e de recreação, mas em permanecer na escola. O entrevistado César, que retomou as atividades escolares e manifesta uma relação atual positiva com a escola e o saber, diz que antes “tinha pouco colega, ninguém queria saber de mim e isso era ruim”. Mais uma vez, retomamos a questão de adentrar no mundo do outro, uma vez que a relação com o saber é também um ato social, o que sugere a necessidade de relacionar-se com os outros. 4.2.3.3 Aprendizagem a) A singularidade dos sujeitos No processo de interiorização/exteriorização, a teoria da relação com o saber retoma a questão da singularidade dos sujeitos. O processo de interiorização/exteriorização ocorre pelo fato de que o conhecimento que será ensinado e apreendido pelo sujeito existe no mundo que ele vive. Ocorre que a forma de apropriação é particular a cada um envolvendo um processo de interiorização. No caso dos adolescentes entrevistados, verificamos que estes apresentam uma afirmação de sua identidade. Um dos elementos da identidade, conforme Mellucci (2004), é noção de sua unidade a partir do momento que o sujeito se distingue dos demais reforçando sua singularidade. Essa noção é claramente apresentada pelos adolescentes quando questionados se gostariam de se parecer com alguém quando forem adultos. Segundo eles, querer se parecer com outros “é ruim”. A entrevistada Viviane, por exemplo, fala “eu gosto do jeito que eu sou. Então eu não queria parecer com os outros de jeito nenhum. É ruim”. 97 Apesar dessa reafirmação da singularidade, os adolescentes citam algumas pessoas na qual se “espelham”. Nestes casos, os elementos implicados nas pessoas que gostariam de se parecer referem-se a características pessoais, aos valores dessas pessoas, aos bens materiais conquistados e as atividades que desenvolvem. b) Relação com os professores A relação com o outro, segundo Charlot (2001), é um dos elementos da relação do sujeito com o saber já que o aprendizado é mediado por um outro. Aprender significa adentrar nas manifestações deste outro. No caso do processo de aprendizagem dos objetos-saberes ensinados na escola, a figura central percebida pelos adolescentes foi o professor. Dessa forma, como aprender implica adentrar nas manifestações deste outro, exploramos as relações que estes adolescentes mantêm especificamente com o professor. Os adolescentes fizeram referência a características que consideram positivas e negativas nos professores. Os professores qualificados positivamente pelos adolescentes são aqueles que reforçavam positivamente a produção dos alunos. A entrevistada Carla discorreu sobre um professor de forma positiva que falava “parabéns! Maravilha. Você foi ótima! Aí incentivava a gente a gostar mais da matéria”. A educação e a atenção por parte dos professores são também valorizadas pelos adolescentes: “Ah, ela era muito boa, muito meiga. Ela sabia conversar com a gente” (entrevistada Viviane). Já os professores qualificados negativamente são os contrários a estes. São os que “é mó folgado, não respeita, acha que só a gente que tem respeitar eles, vai e tal. Qualquer coisinha ele já quer vir gritar com a gente. Ninguém gosta de ficar agüentando isso não” (entrevistado Pedro); “professor mal educado, que briga por qualquer motivo é sem educação. Isso me irrita!” (entrevistada Ana). Ou, ainda, que “xinga à toa” (entrevistado Júlio) e que “só passa matéria no quadro e não explica nada”. Chama-nos a atenção que os professores qualificados negativamente aparecem na adolescência já que todos os entrevistados falaram de forma positiva dos professores da infância: “Eu adorava todos. Nossa, eu adorava todos os 98 professores” (entrevistada Carla). “Tudo delas era bom, boa. Boas, explicava muito bem. A escola era boa.” (entrevistada Viviane). Parece então que uma relação positiva com os professores é essencial para a mobilização para a aprendizagem na escola como veremos a seguir. c) Tipo de professor como aspecto mobilizador O fato de que o tipo de relação com os professores interfere na mobilização desses alunos foi verbalizada pelos próprios adolescentes que de uma maneira geral associam o interesse ao conteúdo a relação com o professor. Nas entrevistas realizadas, eles falam de determinadas matérias que se interessavam mais ou menos e o motivo é “por causa dos meus professores, né?!” (entrevistada Carla) que “era amiga, conversava com a gente um pouco, explicava direitinho. (...) Com ela, sim, “gostava de fazer as coisas, com as outras não”. (entrevistada Viviane). d) Necessidade de mobilização para aprender Embora essa relação com o outro seja essencial, não podemos desconsiderar que a mobilização para a aprendizagem refletem elementos que são singulares aos sujeitos. Essa questão também foi relatada por um dos adolescentes que acredita “que se você já gosta da matéria não importa quem vai ser seu professor” (entrevistada Letícia). Outra questão interessante apresentada por essa mesma adolescente refere-se à necessidade de mobilização para apreensão de um saber. Como relata essa adolescente “não adianta os professores ficarem lá explicando se você não tem o interesse de aprender”. Este depoimento expressa que essa relação com o outro não é algo dado de forma automática, apreendido do exterior para o interior. Ao contrário, comprova que existe no processo de apreensão do saber um movimento dialético entre interioridade e exterioridade. Embora a aprendizagem tenha origem exterior ao sujeito, ela só acontecerá a partir do momento em que houver um movimento interior ao sujeito. Existe então a necessidade de uma conexão entre o sujeito e o saber e vice-versa. 99 e) Sentimentos em relação ao processo de aprendizagem Estamos considerando a frequência escolar como o primeiro elemento que materializa a mobilização para a atividade escolar. Dessa forma, buscamos identificar em que momento e em que circunstâncias a escola e o saber deixam de fazer sentido para esses adolescentes que passam a apresentar situação de infrequência e de evasão escolar. Verificamos que a escola que foi considerada positivamente no período da infância não é, na atualidade, igualmente percebida como tal. O entrevistado Pedro, por exemplo, diz que: Quando o menino é pequeno ele fica a fim de ir pra escola, né?! Aí depois vai, conhece, começa a gostar. Todo menino quando é pequeno ele fica querendo ir pra escola né?! Ficava doido pra ir pra escola porque todos os meninos iam, né?!Quando é pequeno quer, mas depois que vai também, nó, começa a perder a vontade, né?! Se perguntar um bocado de menino aí, é muito difícil ter um que gosta de ir na escola. (entrevistado Pedro) A escola é apontada como um lugar “chato”. Para explicar o porquê de ser “chato”, os adolescentes apontam o processo de ensino e aprendizagem que é “repetitivo”, “demorado” e “cansativo”: Essas características distanciam os adolescentes da escola já que eles valorizam “fazer coisas diferentes”. (entrevistada Viviane). Embora o que sejam essas “coisas diferentes” não tenham sido explicitadas pelos adolescentes, elas vão ao encontro de características da adolescência como o interesse pela experimentação e o novo. Há de se considerar que essa repetição que leva ao desinteresse aparece após as retenções recorrentes. O entrevistado Pedro diz que: Quando eu comecei a estudar até que eu não achava ruim não, mas passando os tempos eu fui enjoando. Fiquei sem vontade de ir pra escola aí eu fui e parei. Estudei só até a 7ª série só. Até a 7ª série nunca tinha tomado bomba não. Aí na 7ª série parei de estudar. Esse relato reflete os persistentes problemas decorrentes da política educacional brasileira que retém os alunos e não encontram alternativas para enfrentar o problema. Essa problemática foi demonstrada pelo estudo do IPEA citado anteriormente que apresentou dados relativos à distorção idade-série proveniente dessas recorrentes retenções. 100 f) Dificuldade de aprendizagem Os adolescentes expressam a relação com os conteúdos escolares e a experiência escolar na atualidade de forma negativa, em oposição à infância em que esta relação se apresenta positivamente. Os saberes presentes na infância eram vistos como mais prazerosos e mais fáceis. Na infância se aprendia a “escrever e a colorir” (entrevistada Viviane). Era bom porque “não fazia nada só desenhava, aí ensinava um pouquinho só, depois ia embora” (entrevistado Adilson). Já com o passar dos anos escolares manifestam dificuldade no aprendizado dos conteúdos ensinados nas disciplinas. Essa dificuldade aparece como um elemento que interfere negativamente na mobilização para os estudos escolares. Como exemplos, temos a entrevistada Carla que diz que “nem gostava muito [da escola] porque quando eu estudava eu era a única que tinha muita dificuldade de aprender... de ler”. A entrevistada Ana diz que às vezes: (...) ele [o professor] fala, fala, fala escreve no quadro, mas eu não entendo nada daquilo. Parece que tá falando grego pra mim. [Isso] é muito ruim, você fica assim você tenta prestar atenção e não consegue e parece que você nunca vai aprender ai você fica naquela coisa assim... mas não consigo sabe eu acho isso muito ruim para mim. O entrevistado Pedro faz ainda de maneira mais clara essa relação entre sentir que não aprende e a implicação disso na relação com a escola e o saber. Esse adolescente diz “não gosto de estudar não. Eu não nasci pra isso não. (...) Não aprendo. Meu irmão também já tomou bomba, acho que é de família.” Como nos diz Charlot (2000), a relação com o saber é referenciada pelo valor que o sujeito atribui a si quando aprende. Nesse caso, se o valor que atribui a si é negativo, o sentido e o valor que atribui ao aprendizado também serão negativos, materializando-se como um fator de distanciamento da escola. g) Interiorização da aprendizagem No que se refere à aprendizagem dos conteúdos escolares, não foi possível apreender de que forma ela acontece já que os adolescentes apresentaram dificuldade de relatar os conteúdos ensinados na escola. Ao serem questionados 101 sobre os conteúdos escolares, citam no máximo o nome das disciplinas, como português e matemática. Como exemplo, temos o entrevistado Júlio. Quando questionado sobre o que tem sido ensinado na escola e o que tem aprendido, diz que não sabe “explicar não (...) que é um negócio de português”. Os demais adolescentes, que foram questionados sobre o que tem sido ensinado e sobre o que eles têm aprendido, falam que são “as coisas que ensinam mesmo nas matérias” (entrevistado Cleiton). Embora não tenhamos identificado dados relativos aos conteúdos escolares analisáveis nos depoimentos, sua própria inexistência fala por si. 4.2.3.3.1 Sentido dos conteúdos escolares a) Saber coisas novas Aprender os conteúdos ensinados na escola faz sentido para “saber coisas novas”. A entrevistada Letícia diz que a escola ajudará no futuro porque ensina “todas as coisas que a gente não sabe”. Já a entrevistada Viviane diz que é importante porque“ eu conheço mais. É mais conhecimento pra mim.” b) Conteúdo para situações da vida Charlot (2000) em sua teoria da relação com o saber fala das figuras do aprender. Uma dessas figuras se refere a saberes relacionais necessários. Os adolescentes atribuem sentido a esse saber e percebem que os conteúdos escolares cumprem esse papel. O conteúdo é válido para a vida no sentido de não ser enganado, ludibriado pelos outros: Ah, estudar também é bom pra gente mesmo, né?! Aí, é porque a gente igual. Tem muito analfabeto que não pôde estudar aí eles não pode escrever, tem que assinar a assinatura com o dedo. [entrevista interrompida para entrevistada atender a porta]. Mas aí é bom pra gente mesmo né? Porque como a gente... as pessoas não sabe tipo escrever o nome delas mesmo. Aí tem pessoas que passam as pessoas pra trás porque não soube fazer uma conta, sabe?! É bom pra gente mesmo. Não é só pra gente pro futuro porque a gente quer, a gente precisa de arrumar um serviço não. Pra gente, tipo, pra gente assim. Quando a gente, uma pessoa, igual minha tia. Minha tia não sabe ler nem escrever. Nem meu pai. Meu pai não sabe ler mais ou menos escrever mais ou menos. Aí a gente chega lá e ... pra, pra assinar passa a maior dificuldade. Pra ler ele pede eu pra ler pra ela. Aí 102 minha tia os outros pede a assinatura dela e tem que assinar com o dedo que ela não sabe escrever. Sabe? Aí eu fico assim é muita humilhação a gente não saber, a gente não escrever pelo menos o nome da gente. A gente vai fazer uma conta. Os outros pede pra fazer uma conta a gente não faz porque... Não faz porque a gente não sabe. É muito ruim, né? Aí eu acho que é bom pra gente também (entrevistada Carla). c) Melhor inserção no mercado de trabalho A escola apresenta sentido para esses adolescentes para a atividade central vislumbrada por eles: o trabalho remunerado. Como exemplos, temos o entrevistado Pedro que, embora manifeste que não gosta de estudar, entende que o estudo é uma condição necessária para o mundo do trabalho e por isso pensa que “tem que arrumar um jeito de estudar”. O adolescente Júlio fala da relação entre estudo e melhor inserção no mercado de trabalho ao dizer que é preciso “estudar (...) porque tem emprego bom” e o adolescente Cleiton fala da necessidade de estudar “para ter uma condição de vida melhor”. A adolescente Carla acredita que para concretizar os objetivos da vida adulta ela deve “estudar [porque] tudo depende do estudo”. Expressa a mesma ideia a entrevistada Viviane que diz que “realmente agora o trabalho tá exigindo estudo”. A adolescente Letícia relata que tem que “estudar até o 3º [ano e] fazer faculdade” porque se não for assim não “se consegue nada”. Igualmente expressam os adolescentes Ana, César e Adilson. Esse sentido do “estudo” para melhores oportunidades de trabalho são valores compartilhados pelos familiares desses adolescentes. Segundo eles, os familiares não tiveram oportunidades de estudo no passado e sentem falta dos estudos. Por esse motivo, valorizam a escola enquanto pré-requisito para boa inserção no mercado de trabalho e orientam e aconselham os filhos a concluírem o ensino médio. A educação enquanto possibilitadora de melhor inserção no mercado de trabalho tem sentido para esses adolescentes em dois aspectos: comprovação de grau de escolaridade e profissionalização. Acerca do primeiro aspecto, assim relata a adolescente Letícia: “[A escola é] importante na vida da gente. Porque sem, hoje em dia a gente não arruma nem um emprego. Tipo assim, até emprego pra faxineira esses negócios ta pedindo segundo grau completo, né?!”. Já em relação à profissão, essa aspiração aparece quando os adolescentes falam da vida adulta. Foi abordado por eles o objetivo de cursar o 103 ensino superior e ter uma profissão. São exemplos a entrevistada Viviane, que quer “fazer faculdade ainda” e a adolescente Ana que quer “fazer odontologia”. A consolidação de uma profissão é também citada pela adolescente Letícia que quer ser bancária, pelo adolescente Júlio que quer ser motoboy e pelo adolescente Adilson que quer ser jogador de futebol. O adolescente César quer ter “sua própria academia”. Verificamos, entretanto, que a relação entre grau de escolaridade, profissão e melhores oportunidades de trabalho é construída sem nenhuma/ou pouca menção aos conteúdos escolares. Os mesmos elementos encontrados em nossa pesquisa foram verificados nos estudos de Charlot. O autor afirma que os “jovens que ligam escola e profissão sem referência ao saber estabelecem uma relação mágica com ambos” (CHARLOT, 2009 apud PINHEIRO, 2009). Acerca deste problema Dayrell (2010) aponta a necessidade da descoberta de um sentido que não se volte para a mobilidade social via especialização profissional pela educação, mas sim numa mobilidade via aprendizagem sólida das competências previstas na educação. Para esses adolescentes, o saber necessário ao mundo do trabalho será aprendido no próprio mundo do trabalho. A entrevistada Viviane, que quer trabalhar em uma loja, acredita que para o desenvolvimento dessa atividade é preciso “saber fazer conta. Tem que saber contar dinheiro, saber receber cartão, olhar cheque, ver se o cheque é falso ou se o dinheiro é falso. Tudo isso tem que saber”. Quando questionamos como, com quem ou em que lugar ela aprenderá tais saberes, ela diz que está aprendendo com a tia “porque eu vou trabalhar na lojinha dela, então ela já está me ensinando”. Igualmente expressa a entrevistada Letícia que diz que “quando chegar lá [no serviço] eles vão explicar tudo que tem fazer”. Verificamos uma distância ou um deslocamento entre comprovar um grau de escolaridade e os saberes implicados nessa escolaridade. Exemplo disso é o relato da adolescente Letícia que diz que estudar é importante “pra passar de ano”. Todavia, embora o conteúdo ensinado tenha se apresentado de maneira mais geral, ausente de sentido para a execução das atividades de trabalho almejadas, não significa que não haja espaço para isso, como o caso da entrevistada Carla, que assim expressou o sentido das coisas ensinadas e aprendidas na escola: 104 Ah, tipo assim eu não gosto de português, mas português ensinava a gente a falar pra quando a gente arrumar um serviço... Pra gente aprender a falar. Porque se a gente, tipo, for olhar. A gente for, tipo assim, a gente não for gostar de português assim a gente brinca que... a gente conversa igual as pessoas da rua conversa gíria, esses negócios assim, sabe?! Aí não vai poder chegar no serviço e conversar com uma pessoa. Aí é ruim. Esse deslocamento entre saber escolar e conclusão do ensino médio é claramente verbalizado pelo adolescente Júlio. Para ele: [Estudar] não tem vantagem de nada também não. Igual, tem tanta gente, vai ali compra um diploma é a mesma coisa que ter estudado. Quem não tem diploma de 2º grau a pessoa vai e paga 100, 150 real e vai e compra um diploma. Acabou. Não precisa estudar não. Arruma um emprego. A maioria das empresas não faz prova, né?! Algumas faz, mas algumas não faz. Aí arruma um emprego bom, né?! (...) O diploma é importante, né?! Mas igual eu, eu não estudo porque eu tenho o pensamento de comprar um pra mim. Eu não acho que [os estudos escolares] é muito [importante] não. Porque não aprende direito também não, sô. Essas escolas assim ninguém aprende direito não.(...) Estudos anteriores de Charlot (2009) apud Pinheiro (2009) apontaram que quase 80% dos estudantes ouvidos em suas pesquisas atribuem sentido em ir para a escola somente para aquisição de um diploma que possibilitará um bom emprego e dinheiro para uma vida tranquila sem, contudo, mencionar o fato de aprender. Acerca disso o autor diz que Esses jovens que ligam escola e profissão sem referência ao saber estabelecem uma relação mágica com ambos. Além disso, sua relação cotidiana com o estudo é particularmente frágil na medida em que aquilo que se tenta ensinar a eles não faz sentido em si mesmo, mas somente em um futuro distante. 105 O sentido da atividade escolar para o mundo do trabalho pode ser sintetizado conforme figura abaixo: Figura 04 – Sentido entre trabalho e educação Frente à dicotomia entre querer obter uma comprovação de ensino médio, mas não querer mobilizar-se para a atividade escolar em função dos elementos apresentados, como a: relação com os professores, o sentimento negativo em relação ao processo de aprendizagem, a dificuldade de aprendizagem e a falta de sentido da aprendizagem para o mundo do trabalho, os adolescentes manifestam o objetivo de concretizar formas e alternativas de conclusão dos estudos escolares. São relatados o supletivo, a aceleração e mesmo a compra do diploma. O adolescente Pedro assim expressou o objetivo e a possibilidade de compra de um diploma: Eu tenho vontade de arrumar um trabalho bom, né?! Igual eu conheço muita gente que assim trabalha nos lugar. Tem um colega que trabalha na [nome da empresa]. Meu pai tipo trabalhou nas firmas antes assim também. Igual eu tenho um, tenho dois colegas meu os dois também não estudou não. Eles tirou, comprou o diploma e ficou, tipo aí buscou com uns outros colegas nossos que arrumou umas cartas de emprego pra eles aí eles foi, fez os teste, deu certo e eles entrou e tá de boa trabalhando. A entrevistada Viviane é “mais fazer supletivo porque aí faz duas séries. Aí você acaba as duas séries e faz mais duas. Dentro de um ano tem como... você consegue passar numas quatro matérias”. A preferência pelo supletivo também vem sendo apontada por outras pesquisas como as de Leão (2006). Esse pesquisador discorre que o supletivo tem sido uma alternativa vislumbrada frente à defasagem escolar ou mesmo como uma alternativa mais rápida de alcançar um diploma sem passar por uma escola que não apresenta/ou apresenta pouco sentido aos adolescentes. A relação que eles estabelecem entre trabalho e educação refere-se à obtenção de maior grau de escolaridade e de uma profissão. É a partir dessa 106 relação que descortinamos como se processa a contradição existente entre apontar a educação como atividade cujos resultados fazem sentido na busca por um trabalho, mas ao mesmo tempo não se mobilizarem para a atividade escolar. Como nos mostra Charlot (2000), o sentido é a relação entre o resultado e o móbil. No caso, para esses adolescentes o sentido não decorre do saber escolar, mas sim da comprovação de grau de escolaridade que é proferida por esta instituição. Dessa maneira, os adolescentes aspiram essa comprovação e não a aprendizagem dos conteúdos escolares, o que se constitui num fator que explica a situação de infrequência e evasão. 107 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Tivemos neste trabalho o objetivo geral de identificar os fatores que concorrem para a infrequência e a evasão escolar por parte dos adolescentes de famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família em Belo Horizonte. Nosso estudo foi impulsionado pela constatação, a partir de pesquisa anterior, que adolescentes de famílias desligadas do Programa Bolsa Família em Belo Horizonte – MG, por não cumprimento da condicionalidade da freqüência escolar, apresentaram tal situação por falta de vontade de ir e de permanecer na escola. A partir dessa situação, propusemo-nos dar respostas a esse problema e definimos os seguintes objetivos específicos: traçar a biografia destes adolescentes; conhecer o sentido que estes adolescentes atribuem à escola e ao saber; e analisar a relação que os adolescentes estabelecem com o saber e com a escola. Inicialmente, buscamos uma aproximação teórica ao nosso objeto de pesquisa realizando uma revisão bibliográfica acerca das categorias que o circunscrevem. Verificamos que as discussões em torno das políticas sociais, da política de assistência social, dos programas de transferência de renda e especificamente do Programa Bolsa Família estão envoltas de argumentações distintas e quando não antagônicas. Frente às diferentes argumentações, pretendemos conhecer as posições dos autores que circulam entre os extremos de defesa e crítica. De um lado, temos a defesa ao Programa enquanto estratégia real de combate à pobreza e à desigualdade social e, de outro lado, temos a crítica daqueles que o visualizam enquanto estratégia compensatória que só serve à amenização dos problemas sociais sem, contudo, possibilitar mudanças reais no quadro de pobreza e de desigualdade social. A aproximação teórica sobre o problema da infrequência e da evasão escolar e as questões sobre a juventude foram essenciais para conhecermos o que a literatura tem trazido sobre essas categorias e como elas têm sido abordadas. Por fim, dedicamo-nos ao estudo da teoria da relação com o saber de Bernard Charlot, imprescindível já que é a referência que norteia este trabalho. Uma vez finalizada a revisão teórica, partimos para a pesquisa de campo que nos forneceu dados empíricos necessários para responder aos objetivos traçados e para comprovar nossa hipótese de que estes adolescentes possuem uma relação com a escola e o saber que os distanciam desta instituição. 108 Gostaríamos de reforçar que nossa pesquisa expressa a relação com a escola e o saber por parte de nove adolescentes em situação de infrequência e evasão escolar. Retomamos esse recorte de universo para salientar que os resultados aqui apresentados indicam que as ações voltadas a esse público devem considerar sempre qual o sentido que esses adolescentes atribuem à escola que, de alguma forma, os aproximam ou distanciam dessa instituição. Além disso, os resultados encontrados não devem ser tomados como explicativo de todo universo da infrequência e da evasão escolar, pois assim estaríamos desconsiderando uma das premissas da teoria da relação com o saber, que é a singularidade dos sujeitos. Outro aspecto que gostaríamos de levantar é a especificidade dos sujeitos que pesquisamos. O elemento impulsionador desta pesquisa foi levantado a partir de uma pesquisa anterior que demonstrou, a partir da fala dos pais ou dos responsáveis por estes adolescentes, uma recusa destes em frequentar a escola, motivo pelo qual definimos estudar a relação que estes adolescentes estabelecem com a escola e o saber. Ocorre que essa pesquisa anterior tinha como universo 61 famílias das quais 38 foram localizadas e entrevistadas. Disso decorre que nosso problema impulsionador da pesquisa provém dessas 38 famílias, o que nos instiga respostas sobre quais seriam os motivos da infrequência e da evasão escolar por parte dessas 23 famílias não localizadas, já que os próprios motivos de não localização indicam que estas apresentam um perfil diferenciado das famílias dos adolescentes que pesquisamos. Acerca dos objetivos gerais e específicos traçados, verificamos que a relação com a escola e o saber realmente é determinada pelos sentidos que atribuem, sentidos esses que são construídos nas vivências e experiências desses adolescentes tanto no espaço escolar como fora deles. Neste caso, a distância em relação à escola, que culmina na situação de infrequência e evasão, aparece à medida que a educação escolar deixa de fazer sentido na satisfação dos desejos imediatos e/ou futuros. A relação com a escola e o saber é construída a partir do significado que os sujeitos conferem à sua posição social, à sua história, às situações que vivem. Dessa forma, buscamos traçar a biografia desses adolescentes, nosso primeiro objetivo específico, abordando suas experiências, vivências e interpretações desde a infância. Focamos nessa biografia não só trajetórias escolares, mas também 109 outras experiências, como as familiares, a fim de identificar àquelas que conferem maior sentido a eles. Avaliamos que não alcançamos o grau de profundidade sobre a biografia desses adolescentes que nos propusemos inicialmente. Não consideramos, entretanto, que o não traçado das biografias com maior profundidade inviabilizou o objetivo geral de compreender os fatores que concorrem para a infrequência e evasão escolar por parte desses adolescentes. Ocorre que, ao responder aos demais objetivos específicos e ao objetivo geral, sentimos a vontade de aprofundar o estudo sobre como os sentidos se estabeleceram a partir das experiências e vivências desses sujeitos. Dessa forma, entendemos que tivemos nesse aspecto uma lacuna que não confere problemas a esse trabalho, mas sim, que instiga e que aponta a necessidade de realização de novas pesquisas. Sobre o segundo objetivo específico, conhecer o sentido que estes adolescentes atribuem à escola e ao saber, abordamos a rotina, as mudanças desejadas na rotina e o ideal de vida adulta desses adolescentes e identificamos que o trabalho é elemento central almejado por eles, tanto no presente quanto para a vida futura. A partir dessa constatação, tomamos o trabalho como um desejo mais geral que esses adolescentes aspiram e, assim, buscamos compreender o sentido atribuído por eles à atividade escolar em oportunizar a realização de atividades de trabalho remunerado. O objetivo dessa forma de abordagem foi identificar o sentido que atribuem à escola e ao saber na concretização do objetivo de exercer atividades de trabalho remunerado. Concluímos que o sentido da escola e do saber referem-se à necessidade de alcance de um determinado grau de escolaridade e/ou uma profissão para melhor inserção no mercado de trabalho. Os adolescentes estabelecem nenhum ou pouco sentido com os conteúdos escolares que estão atrelados a uma profissão e a um determinado grau de escolaridade. Essa situação é fator que os distancia da escola de maneira que a relação que estabelecem com a escola e o saber, nosso terceiro e último objetivo, é alcançar melhor grau de escolaridade sem necessariamente ter de se relacionar com essa escola. Dessa forma, confirmamos nossa hipótese de que esses adolescentes possuem uma relação com a escola e o saber que os distancia dessa instituição. Por fim, concluímos que essa relação expressa o porquê da infrequência e da evasão escolar, objetivo geral que nos propusemos responder ao início deste trabalho. 110 Finalmente, gostaríamos de tecer algumas considerações sobre a metodologia utilizada neste trabalho, especificamente sobre as entrevistas enquanto forma de coleta dos dados. As entrevistas, individuais e gravadas, tiveram duração média de 30 minutos em função de três aspectos principais: a timidez dos adolescentes frente ao entrevistador, a falta de privacidade imposta pelo espaço físico23 e a demonstração de cansaço e dispersão por eles a partir de um determinado tempo de entrevista. Nesse sentido, concluímos que outras técnicas de coleta de dados podem enriquecer as pesquisas que tenham recorte semelhante ao nosso. Apesar das respostas encontradas nessa pesquisa, ao analisar os conteúdos das entrevistas e descortinar a relação que esses adolescentes estabelecem com a escola e o saber, verificamos a necessidade de aprofundar este estudo com grupos maiores de adolescentes e de novas estratégias metodológicas além da entrevista. Dessa necessidade decorre nossa proposta de pesquisa para o curso de Serviço Social do Centro Universitário UNA, a se constituir também em um campo de estágio, nos mesmos moldes da pesquisa sobre o descumprimento de condicionalidades por adolescentes de famílias desligadas do Programa Bolsa Família, em Belo Horizonte – MG, realizada nos anos de 2008 e 2009 por este mesmo curso. Acreditando na necessidade de construção coletiva de projetos dessa natureza, não nos permitimos elaborar a proposta isoladamente. Apresentamos a seguir uma pré-proposta de projeto de pesquisa. A reconstrução e fechamento deverão ocorrer junto aos alunos/estagiários e aos parceiros, no caso as Secretarias Municipal e Estadual de Educação, já que nosso foco são as escolas públicas de Belo Horizonte, tanto da rede pública municipal quanto estadual. 23 As casas desses adolescentes em geral são compostas por poucos cômodos. Como as entrevistas foram realizadas em suas residências, foi freqüente a presença de parentes no mesmo local durante a realização das mesmas. Essa situação apresentou-se também como um fator dificultador para que os adolescentes pudessem aprofundar a verbalização de suas opiniões, sentimentos, anseios e pensamentos. 111 6 PROPOSTA PROFISSIONAL Proposta: Projeto de pesquisa para campo de estágio curricular na modalidade obrigatório para os alunos do curso de Serviço Social do Centro Universitário UNA. Título: Relação com a escola e o saber por parte de estudantes da rede pública municipal e estadual de ensino em Belo Horizonte – MG em situação de infrequência e/ou evasão escolar. Introdução Esse pré-projeto constitui-se uma continuidade ao estudo da relação com a escola e o saber junto a adolescentes das escolas da rede pública de ensino em Belo Horizonte – MG. Para apresentação dessa proposta, tivemos como referência estudo anterior realizado com 09 adolescentes de famílias desligadas do Programa Bolsa Família em Belo Horizonte - MG em função de descumprimento das condicionalidades da educação. As condicionalidades da educação são: realizar matrícula na escola e manter frequência escolar mínima de 85% dos adolescentes e das crianças do grupo familiar beneficiado, com idade de 06 até 15 anos. Para esse novo projeto, propomos devolver os resultados encontrados nessa pesquisa anterior para aprofundarmos no conhecimento sobre a relação com a escola e o saber por parte de adolescentes em situação de infrequência e/ou evasão escolar, como também propiciarmos a eles uma reflexão sobre o tema numa perspectiva diferente daquela proporcionada anteriormente. A pesquisa será desenvolvida por um grupo de alunos e professores do curso de Serviço Social e se constituirá em campo de estágio. Conforme regem as Diretrizes Curriculares para Cursos de Serviço Social24, o estágio é uma atividade curricular obrigatória que se configura a partir da inserção do aluno no espaço sócioinstitucional, objetivando capacitá-lo para o exercício profissional, o que pressupõe supervisão sistemática. Esta supervisão deve ser realizada conjuntamente por supervisor acadêmico (professor) e por um assistente social (profissional do campo). Nessas mesmas diretrizes consta também que um dos elementos a serem 24 Resolução da Câmara de Educação Superior nº 15, de 13 de março de 2002. 112 considerados para organização do curso é a contemplação das dimensões investigativa e interpretativa enquanto princípios formativos e condição central da formação profissional. Nesse sentido, a realização da pesquisa enquanto campo de estágio proporcionará aos alunos o cumprimento deste elemento da formação em consonância às diretrizes curriculares. Essa proposta possui respaldo também na Lei Federal de estágio25 que em seu parágrafo 3º do art 2º rege que atividades de pesquisa podem ser igualadas ao estágio desde que previstos no projeto pedagógico do curso. No caso do curso de Serviço Social do Centro Universitário UNA, o documento “Diretrizes de Estágio Curricular Supervisionado e Plano de Estágio”26, que é parte integrante do projeto político pedagógico do referido curso, define que o estágio se insere nos espaços onde se desenvolve a ação do profissional de Serviço Social, a saber: organizações públicas, privadas, governamentais, não- governamentais e movimentos sociais. Além disso, ele pode também ser oferecido em projetos de iniciação científica e projetos de extensão, desde que considerados campos de atuação do assistente social, o que é o caso do projeto que ora apresentamos. Nossa proposta ganha relevância à medida que permite aprofundar o conhecimento sobre a temática, mas, além disso, apresenta importantes contribuições, uma vez que possibilitará: a) criar um campo de estágio curricular na modalidade obrigatório para os(as) alunos(as) do curso de Serviço Social da UNA preocupado em promover o desenvolvimento do pensamento critico e analítico acerca das questões escolares para além das discussões tradicionais sobre os problemas da política educacional, mas também, nas construções singulares de cada sujeito e nas possibilidades de intervenção neste quadro; b) reconhecer a instituição escolar enquanto espaço de atuação do assistente social já que, embora este se encontre positivado por parte de legislações, o mesmo não acontece no cotidiano já que a contratação desse profissional na rede pública de ensino ainda é mínima; 25 BRASIL. Lei n. 11.788, de 25 de setembro de 2008. Dispõe sobre o estágio de estudantes. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11788.htm. Acesso em 11 fev.2010. 26 Documento interno. mimeo 113 c) contribuir com a produção de um conhecimento que proporcione a criação de estratégias inovadoras para combate à infrequência e à evasão escolar; e d) produzir conhecimento sobre um aspecto da política de educação que se mostra escasso na literatura especializada. Buscamos também consolidar a pesquisa no curso de Serviço Social do Centro Universitário UNA por meio de projetos que tenham início, meio e fim, mas cujo fim se materialize em novas possibilidades de pesquisas e intervenções. Reafirmamos também nosso compromisso e ideal de que a produção de conhecimento deve estar a favor de mudanças positivas na sociedade em que vivemos. Atualmente, 02 projetos estão em andamento no curso: uma pesquisa que estuda o perfil do assistente social que atua em Belo Horizonte – MG e um projeto de mobilização social junto ao CRAS Havaí/Ventosa. Ao total, esses projetos mobilizam cerca de 60 alunos. Nesse semestre de 2010/1, finalizaremos o primeiro projeto citado, o que deixa claro que há espaço para a proposta que apresentamos aqui. Objeto de Pesquisa Relação que os adolescentes da rede pública de ensino municipal e estadual em Belo Horizonte – MG estabelecem com o saber e com a escola. Objetivo Analisar a relação que os adolescentes da rede pública de ensino municipal e estadual em Belo Horizonte – MG estabelecem com o saber e com a escola. Metodologia Considerando o objeto e o objetivo de pesquisa delimitados neste préprojeto, propomos uma metodologia qualitativa. Realizaremos uma pesquisa de campo que envolverá adolescentes das escolas públicas municipais e estaduais de Belo Horizonte – MG. Um estudo exploratório, anterior ao contato com os adolescentes, acerca das escolas públicas municipais e estaduais de Belo 114 Horizonte, será necessário para definição da amostragem de escolas e adolescentes, segundo critério de localização geográfica, nível de ensino, fundamental e/ou médio, turno, idade e sexo dos adolescentes. Após o mapeamento e seleção das escolas e adolescentes que comporão a amostra a ser pesquisada, será necessário um contato inicial com os adolescentes e seus responsáveis em suas residências para sensibilizar a participação, obter autorização por parte dos responsáveis e viabilizar a participação a partir da sondagem dos horários disponíveis e possibilidades para deslocamento. Esse último elemento é de extrema importância, uma vez que utilizaremos o grupo focal enquanto técnica de coleta de dados na pesquisa de campo junto aos adolescentes. Dessa forma, necessitamos reunir cada grupo de adolescentes em locais de fácil acesso a todos os participantes. Escolas e outras instituições das regiões onde residem os adolescentes deverão ser contatadas no sentido de colaborar cedendo espaço para realização dos grupos focais. No grupo focal, a coleta de dados ocorre pela discussão entre os participantes de tópicos pré-definidos pelo pesquisador. Utilizaremos os tópicos a partir dos resultados encontrados junto aos nove adolescentes. Inicialmente, propomos os seguintes tópicos e subtópicos para discussão: Se eu pudesse gostaria de ter uma rotina diferente • como seria essa nova rotina, • por que é assim almejada, • como concretizá-la. • Há coisas que não tenho hoje e gostaria de ter • quais são essas coisas, • por que tê-las, • como tê-las. • Quero ser independente • o que é ser independente, • por que ser independente, • o que é preciso para ser independente. • Quando for adulto, quero ter uma vida diferente da minha família • como seria essa nova vida, • por que é assim almejada, 115 • como concretizá-la. • Gostaria de poder ajudar financeiramente em casa • por que ajudar financeiramente em casa, • o que é preciso para poder ajudar financeiramente em casa. • Na escola eu gosto de...; • Na escola eu não gosto de...; • Eu gosto dos meus professores porque ...; • Eu não gosto dos meus professores porque...; • Quando eu gosto do professor sinto mais vontade de estudar aquela matéria; • Quando eu gosto de uma matéria eu tenho vontade de estudar independente de gostar ou não do professor; • Eu gosto de estudar porque...; • Eu não gosto de estudar porque...; • As coisas ensinadas na escola são importantes porque...; • As coisas ensinadas na escola não são importantes porque...; • Acho fácil aprender as coisas que são ensinadas na escola. Realizaremos também uma revisão bibliográfica por meio da identificação e seleção de material existente sobre a teoria da relação com o saber, e sobre educação, escola, infrequência, evasão escolar e juventude. Recursos Humanos Serão envolvidos nesta pesquisa os seguintes pesquisadores: • Um(a) assistente social do Curso de Serviço Social do Centro Universitário UNA, responsável pela realização da pesquisa e pela supervisão de campo em conformidade com a resolução 533 do Conselho Federal de Serviço Social que dispõe sobre a supervisão direta de estágio em Serviço Social27; 27 CFESS. Resolução 533, de 29 de setembro de 2008. Regulamenta a supervisão direta de estágio no Serviço Social. Disponível em: http://www.cress16.org.br/acervo/Resoluocao-533.pdf. Acesso em 11 fev.2010. 116 • Seis (06) professores do Curso de Serviço Social do Centro Universitário UNA, responsáveis pela supervisão acadêmica dos alunos estagiários em conformidade com as diretrizes curriculares em Serviço Social; • Quatro (04) alunos(as) regularmente matriculados na disciplina de Orientação de Estágio I, II, III ou IV, que atuarão como auxiliares na realização dos grupos focais; • a coordenadora do Núcleo de Estágio em Serviço Social da UNA, responsável pelo acompanhamento da pesquisa e co-responsável pela viabilidade da parceria; • um(a) assessor(a) técnico(a) da Secretaria Municipal de Educação coresponsável pelo acompanhamento da pesquisa e pela viabilidade da parceria; • um(a) assessor(a) técnico(a) da Secretaria Estadual de Educação coresponsável pelo acompanhamento da pesquisa e pela viabilidade da parceria. Recursos físicos, tecnológicos e materiais • sala para supervisão de estágio e reuniões; • laboratório de informática; • computadores e impressoras; • CD-ROMs; • papel ofício; • gravador digital; • reprodução/impressão de materiais; • encadernação do documento final; • vale transporte para os(as) alunos(as). Supervisão de estágio Os elementos considerados no projeto de pesquisa devem ultrapassar os itens tradicionais de uma pesquisa, tais como objeto, objetivos, metodologia, entre outros, pois também devem explicitar os elementos concernentes ao estágio, motivo pelo qual os descrevemos a seguir. A pesquisa terá duração de 4 semestres letivos, nos quais os alunos/estagiários deverão cumprir a carga horária semestral de 100 117 horas, em conformidade com as Diretrizes Curriculares de Estágio do curso de Serviço Social da UNA. A carga horária semanal no estágio será de 08 horas, sendo 02 reservadas à supervisão de campo que ocorrerá sempre aos sábados. A oferta de estágio será exclusiva aos alunos do curso de Serviço Social impossibilitados de cumprir o estágio obrigatório durante a semana em função de conciliarem atividade de trabalho e estudo. As atividades do estágio correspondentes ao desenvolvimento do projeto de pesquisa serão definidas ao início de cada semestre e descritas no plano de estágio, conforme instrumento padronizado utilizado no curso de Serviço Social do Centro Universitário UNA (anexo 03). O plano de estágio será realizado pelo assistente social supervisor de campo em parceria com os professores supervisores acadêmicos, segundo roga o inciso III do artigo 8º da resolução 533 do Conselho Federal de Serviço Social que dispõe sobre a supervisão direta de estágio em Serviço Social. 118 Cronograma Cronograma 2010 Atividades Ago. Set. Viabilização das parcerias x x Reconstrução do projeto 2011 Out. Nov. x x Apresentação do projeto Revisão Bibliográfica Dez. Fev. Mar. x x 2011 Abr. Mai. Jun. x x x Ago. Set. x x 2012 Out. Nov. Dez. x x x Fev. Mar. Abr. Mai. Jun. x x x x x x x x x x x Construção do instrumento de coleta de dados Coleta de dados Tratamento dos dados Análise dos dados Redação Final Elaboração do plano de estágio Avaliação do estagiário x x x x x x x x 119 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABRAMO, Helena Wendel. Considerações sobre a tematização social da juventude no Brasil. Revista Brasileira de Educação. Rio de Janeiro: Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação, n. 5 e 6, p. 25-36, mai-dez.1997. ABRANCHES, Sergio Henrique. Política Social e Combate à Pobreza: a teoria da prática. In: ABRANCHES, Sérgio Henrique; SANTOS, Wanderley Guilherme, COIMBRA, Marco Antônio. Política Social e a Questão da Pobreza. Rio de Janeiro: Zahar, 1987. AQUINO, Luseni. Introdução. In: CASTRO, Jorge Abraao de; AQUINO, Luseni Maria C. de; ANDRADE, Carla Coelho de (orgs). Juventude e políticas sociais no Brasil. Brasília: IPEA, 2009. BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. 19ª ed. 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Introdução à pesquisa em ciências sociais. São Paulo: Editora Atlas, 2008. APÊNDICE 01 EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA ESTÁGIO CURRICULAR SUPERVISIONADO PROJETO DE PESQUISA “Descumprimento das Condicionalidades pelas Famílias Desligadas do Programa Bolsa Família em Belo Horizonte – Minas Gerais” CENTRO UNIVERSITÁRIO UNA FACULDADE DE CIÊNCIAS HUMANAS NÚCLEO DE CIÊNCIAS HUMANAS CURSO DE SERVIÇO SOCIAL 1. IDENTIFICAÇÃO Família nº: _____________________ Motivo do desligamento: ________________________________ Data de entrada no programa: ____________ Situação de pobreza: ( ) Extrema Pobreza ( ) Pobreza Regional a qual pertence: _______________________________ Endereço: ____________________________________________________________________________________________________________________ 2.CARACTERIZAÇÃO SOCIOECONÔMICA E CULTURAL DA FAMÍLIA 2.1 CARACTERIZAÇÃO GERAL Membro sexo parentesco Data de estado civil nascimento nome do pai Nome da mãe tempo na moradia mês/ano 2.CARACTERIZAÇÃO SOCIOECONÔMICA E CULTURAL DA FAMÍLIA (CONTINUAÇÃO) 2.2 ORIGEM E RAÇA/COR Membro local de nascimento nacionalidade raça/cor data de chegada ao Brasil 2.CARACTERIZAÇÃO SOCIOECONÔMICA E CULTURAL DA FAMÍLIA (CONTINUAÇÃO) 2.3. DADOS ESCOLARES Membro escolaridade série escolar local de estudo 2.CARACTERIZAÇÃO SOCIOECONÔMICA E CULTURAL DA FAMÍLIA (CONTINUAÇÃO) 2.4. DADOS OCUPACIONAIS Membro situação ocupacional profissão local de trabalho renda mensal número de pessoas que vivem da renda responsável pela família 2.CARACTERIZAÇÃO SOCIOECONÔMICA E CULTURAL DA FAMÍLIA (CONTINUAÇÃO) 2.5 ACOMPANHAMENTO SOCIAL Membro com quem fica mês de gestação caso esteja grávida indicação de estar amamentando indicação de participação em programa 3. CARACTERIZAÇÃO DA MORADIA TIPO DE LOCALIDADE urbana rural cedido próprio invasão outro casa apartamento Cômodo tijolo/alvenaria adobe mat. aproveitado outro rede pública rede pública alugado arrendado financiado taipa revestida taipa não revestida madeira poço nascente carro pipa outro fossa rudimentar fossa séptica vala CONDIÇÃO DE MORADIA TIPO DE DOMICILIO TIPO DE CONSTRUÇÃO QUANTIDADE DE CÔMODOS ABASTECIMENTO DE ÁGUA ESCOAMENTO SANITÁRIO outro céu aberto TRATAMENTO DE ÁGUA filtração fervura cloração sem tratamento outro DESTINO DO LIXO coletado queimado enterrado céu aberto outro relógio próprio sem relógio relógio comunitário lampião vela PSF similar PSF outros TIPO DE ILUMINAÇÃO outro COBERTURA DO DOMICILIO PACS APÊNDICE 02 CENTRO UNIVERSITÁRIO UNA FACULDADE DE CIÊNCIAS HUMANAS NÚCLEO DE CIÊNCIAS HUMANAS CURSO DE SERVIÇO SOCIAL EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA – ESTÁGIO CURRICULAR SUPERVISIONADO PROJETO DE PESQUISA Descumprimento das condicionalidades pelas famílias desligadas do Programa Bolsa Família em Belo Horizonte ROTEIRO PARA CONTATO COM PROFISSIONAL DE REFERÊNCIA Belo Horizonte outubro/2008 IDENTIFICAÇÃO Profissional contatado: ____________________________ Cargo/ocupação: ________________ Data do contato: ____/____/____ Contato sobre Família nº: ____________________ Endereço da família: _____________________________________________________________ _______________________________________________________________________________ Regional: ____________________________ Família coberta pelo CRASS sim ( ) não ( ) CARACTERISTICAS DA REGIÃO A SER VISITADA RECOMENDAÇÕES PARA ENTRADA NA REGIÃO (segurança, receptividade da comunidade e etc) SUGESTÕES DE CONTATOS PARA MEDIAR/FACILITAR A APRESENTAÇÃO À FAMÍLIA (líder comunitário, agente de saúde, ???. Preferencialmente informar nome e formas de contato (telefone, local e horário de trabalho). INFORMAÇÕES RELEVANTES SOBRE A FAMÍLIA CASO O PROFISSIONAL TENHA UM CONHECIMENTO PRÉVIO SOBRE A MESMA (histórico de acompanhamento) EXPERIÊNCIAS ANTERIORES DO PROFISSIONAL NOS CONTATOS COM AS FAMÍLIAS DE UMA FORMA GERAL E RECOMENDAÇÕES (dificuldade/facilidade no acesso; receptividade) APÊNDICE 03 CENTRO UNIVERSITÁRIO UNA FACULDADE DE CIÊNCIAS HUMANAS NÚCLEO DE CIÊNCIAS HUMANAS CURSO DE SERVIÇO SOCIAL EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA ESTÁGIO CURRICULAR SUPERVISIONADO PROJETO DE PESQUISA “Descumprimento das Condicionalidades pelas Famílias Desligadas do Programa Bolsa Família em Belo Horizonte – Minas Gerais” ROTEIRO PARA ENTREVISTA COM AS FAMÍLIAS Belo Horizonte novembro/2008 IDENTIFICAÇÃO Família nº: ____________________ Data do contato: ____/____/____ Situação de recebimento do benefício ( ) recebendo normalmente ( ) recebeu notificação de cancelamento porém continua recebendo ( ) benefício cancelado ( ) outros. Qual? _______________________________ I – CONHECIMENTO DA FAMÍLIA SOBRE O PROGRAMA 1.1 1.2 Qual o seu conhecimento sobre o programa de transferência de renda bolsa família? Quais as condições devem ser seguidas para manutenção do benefício? De que forma você foi informado sobre as condicionalidades? 1.3 Qual a sua opinião em relação as condicionalidades estabelecidas pelo programa? II -SIGNIFICADO DO PROGRAMA PARA A FAMÍLIA 2.1 2.2 Houve uma melhoria na qualidade de vida no período de recebimento do beneficio? Quais as conseqüências do cancelamento para a família? III - DIFICULDADES DA FAMÍLIA PARA CUMPRIMENTO DAS CONDICIONALIDADES 3.1 3.2 Como foi informada de que iria ter o beneficio cancelado? Quais os motivos do não cumprimento da freqüência escolar? APÊNDICE 04 CENTRO UNIVERSITÁRIO UNA MESTRADO PROFISSIONAL EM GESTÃO SOCIAL, EDUCAÇÃO E DESENVOLVIMENTO LOCAL ROTEIRO PARA ENTREVISTA TRABALHO “Programa Bolsa Família e Condicionalidades da Educação” Mestranda: Camélia Vaz Penna Professora Orientadora: Eloisa Santos outubro/2009 1. Conte-me o que você fez ontem, desde que acordou até a noite. 2. Conte-me o que fará hoje. E amanhã? 3. Se pudesse, o que você mudaria no seu dia-a-dia? Por que? 4. Como você quer que seja sua vida quando for adulto? O que quer ter? Como quer ser? Por que? O que você acha que deve fazer para chegar lá? 5. Você acha que os estudos escolares são importantes? Por quê? 6. Qual a opinião de sua família sobre os estudos escolares? Você concorda? 7. Em que série você se encontra atualmente? Frequenta a escola ou interrompeu? Por que? 8. Que lembranças você tem de sua infância/de quando era pequeno? (Explorar situações e pessoas) Fale-me sobre essas lembranças. 9. Você gostaria de se parecer com alguma dessas pessoas? Em que sentido? Por que? 10. Quando você foi para a escola pela primeira vez? Que lembranças você possui? (Explorar sua chegada na escola, como era a escola, como eram as pessoas que faziam parte desse contexto, a relações com as pessoas, as coisas que fazia, o sentimento para com as coisas ensinadas e aprendidas) Que lembranças você possui da sua trajetória escolar a partir de então? Existe alguma escola que foi mais marcante para você? Qual? Por que? 11. APÊNDICE 05 CENTRO UNIVERSITÁRIO UNA MESTRADO PROFISSIONAL EM GESTÃO SOCIAL, EDUCAÇÃO E DESENVOLVIMENTO LOCAL TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO TRABALHO: Programa bolsa família e condicionalidades da educação: proposta intervenção social de estímulo social à freqüência escolar. INFORMAÇÕES: Você está sendo convidado (a) a participar de uma pesquisa do Mestrado Profissional em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local do Centro Universitário UNA de Belo Horizonte – MG que objetiva compreender os fatores que concorrem para a infrequência escolar por parte dos adolescentes e crianças de família beneficiárias do programa bolsa família, do município de Belo Horizonte – MG. DETALHES DA PESQUISA: A pesquisa será realizado com 09 voluntários que concederão uma entrevista, individual, gravada e orientada por um roteiro préelaborado. RISCOS: Não há riscos associados à concessão da entrevista. BENEFÍCIOS: Os dados coletados irão colaborar na produção do conhecimento científico e caso o voluntário deseje eles serão disponibilizados ao final deste trabalho. CONFIDENCIALIDADE: Os dados obtidos na entrevista serão mantidos em sigilo, podendo ser utlizados em publicações científicas desde que os dados pessoais do voluntário não sejam divulgados. NATUREZA VOLUNTÁRIA: A participação é voluntária e não acarretará nenhum compromisso futuro. O voluntário tem a liberdade de interromper a participação a qualquer momento, sem necessidade de qualquer explicação. DECLARAÇÃO E ASSINATURA DO VOLUNTÁRIO Eu ____________________________________, portador de cédula de identidade nº ________________ e inscrito sob o CPF nº _______________, participarei da pesquisa acima descrita de livre e espontânea vontade. Declaro que obtive todas as informações necessárias, bem como todos os eventuais esclarecimentos quanto às dúvidas por mim apresentadas. Tive tempo suficiente para considerar as informações acima e de tirar todas as minhas dúvidas com a pesquisadora Camélia Vaz Penna. Assinando esse termo de consentimento estou indicando que concordo conceder a entrevista. __________________, ____ de _______________ de 2009. _________________________________ Assinatura DECLARAÇÃO VOLUNTÁRIO E ASSINATURA DO RESPONSÁVEL LEGAL PELO Eu ____________________________________, portador de cédula de identidade nº ________________ e inscrito sob o CPF nº _______________, autorizao na condição de responsável legal, _____________________ a participar da pesquisa acima descrita de livre e espontânea vontade. Declaro que obtive todas as informações necessárias, bem como todos os eventuais esclarecimentos quanto às dúvidas por mim apresentadas. Tive tempo suficiente para considerar as informações acima e de tirar todas as minhas dúvidas com a pesquisadora Camélia Vaz Penna. Assinando esse termo de consentimento estou indicando que autorizo a concessão da entrevista por parte do menor acima citado. __________________, ____ de _______________ de 2009. _________________________________ Assinatura