CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DO ESTADO DO CEARÁ FACULDADE CEARENSE CURSO DE SERVIÇO SOCIAL YARA VIANA MARTINS O PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA NO ENFRENTAMENTO À VULNERABILIDADE SÓCIO-FAMILIAR: um estudo realizado com famílias atendidas pelo CRAS Angorá – Itaitinga - CE FORTALEZA/CE 2014 YARA VIANA MARTINS O PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA NO ENFRENTAMENTO À VULNERABILIDADE SÓCIO-FAMILIAR: um estudo realizado com famílias atendidas pelo CRAS Angorá – Itaitinga – CE Monografia submetida à aprovação da Coordenação do Curso de Serviço Social do Centro de Ensino Superior do Ceará, como requisito parcial para obtenção do grau de Graduação. Orientadora: Profª. Ms. Moíza Sibéria Silva de Medeiros. FORTALEZA/CE 2014 M379p Martins, Yara Viana O programa bolsa família no enfrentamento à vulnerabilidade sócio-familiar: um estudo realizado com famílias atendidas pelo CRAS Angorá – Itaitinga-CE / Yara Viana Martins. Fortaleza – 2014. 105f. Orientador: Prof.ª Ms. Moíza Sibéria Silva de Medeiros. Trabalho de Conclusão de curso (graduação) – Faculdade Cearense, Curso de Serviço Social, 2014. 1. Assistência social. 2. Família. 3. Programa bolsa família Vulnerabilidade. I. Medeiros, Moíza Sibéria Silva de. II. Título CDU 364 Bibliotecário Marksuel Mariz de Lima CRB-3/1274 Quero dedicar este trabalho a minha Mãe, Maria Regina, e aos meus irmãos, Igor Viana, Maurício Viana, e a minha Tia, Iracema Almeida, pelo amor, dedicação, ensinamento, pelo apoio incondicional em todos os momentos da minha vida e por me fazer acreditar que tudo é possível, basta acreditar nos sonhos. Amo muito vocês. AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente a Deus que me deu sabedoria e discernimento para conquistar mais essa vitória, pela força que me proporcionou ao caminhar nessa estrada cheia de desafios e barreiras, me possibilitando conhecer pessoas especiais, que não mediram esforços para me ajudar durante a realização desta graduação, sem dúvida não teria dado nem o primeiro passo. À pessoa que mais me apoiou nessa jornada, minha mãe Maria Regina, a mulher que me deu amor incondicional e compreensão, não me deixando desistir diante das dificuldades, por nenhum momento. Aos meus irmãos, Maurício Viana e Igor Viana, que demonstraram paciência e compreensão, sempre me incentivando a seguir em frente, sempre demonstrando amizade e principalmente companheirismo, durante o processo de construção deste trabalho acadêmico. A todos os meus familiares, principalmente, Iracema Almeida(Tia), que sempre me apoiou em todas as minhas escolhas, me confortando com palavras de motivação. À minha orientadora Moíza Siberia Silva de Medeiros, por suas orientações, seu profissionalismo, sua competência, seu incentivo, sua sabedoria, sua compreensão, seu carinho, sua paciência durante esse período que trabalhamos juntas. Às minhas grandes amigas, Camila Oliveira, Rosana Araujo, Rosieli Almeida, Vera Lúcia e a Waldiane Rocha, que nos momentos mais difíceis se mostraram verdadeiras amigas, sempre com palavras de incentivo e motivação. Aos professores (as) que fizeram parte destes quatros anos do processo de construção de conhecimento acadêmico, com seus ensinamentos, contribuíram imensamente para o desenvolvimento deste trabalho acadêmico. Assim, agradeço a todos que fizeram parte desta construção, que me apoiaram, me ajudaram, que colaboraram para esta pesquisa, que me custou dedicação, desejo, disciplina e que fez parte da realização de um grande sonho, sonho esse pessoal e familiar. Agradeço também os participantes da minha banca, o professor Emanuel Bruno Lopes e a Paula Raquel da Silva que contribuíram significativamente com críticas construtivas que proporcionaram enriquecer o meu Trabalho de Conclusão de Curso. O meu profundo agradecimento, as pessoas que através de seus relatos contribuíram para a concretização deste estudo. O meu muito obrigada, ás pessoas que não foram citadas aqui diretamente, mas que de alguma forma, me ajudaram com o conhecimento, alegria, companheirismo, incentivo, que me levaram a finalizar esta pesquisa. “Não há quem não tenha fome, não há quem não tenha visto a fome, mas há quem alimente ou necessite ser alimentado”. Monique Santos Mota RESUMO O Programa Bolsa Família – PBF consiste em promover a proteção social às famílias que se encontram na situação de pobreza e extrema pobreza e que se encontram em uma situação de vulnerabilidade. Dito isto, este trabalho apresenta como objetivo geral analisar às contribuições do PBF no enfrentamento à vulnerabilidade das famílias atendidas no CRAS Angorá do município de Itaitinga – CE. Nesse sentido, buscou-se, especificamente, identificar o perfil sócio-demográfico das famílias; investigar como as famílias lidam com as condicionalidades do programa; compreender como o PBF tem contribuído para garantir às famílias condições mínimas de manutenção das necessidades básicas e verificar quais as expectativas das famílias em relação à possibilidade de não mais necessitarem da renda proveniente do PBF. Para a consecução destes objetivos realizou-se pesquisa qualitativa aliada à quantitativa, composta por estudo bibliográfico e documental, além de pesquisa de campo realizada no CRAS Angorá no município de Itaitinga. Foram entrevistadas sete responsáveis legais do PBF. As técnicas utilizadas para a coleta de dados foram: a observação assistemática, a entrevista semiestruturada e o questionário sócio demográfico. Foram utilizados os seguintes instrumentos para registro das informações: roteiro de entrevista e o aparelho celular LG – C199. Este estudo se respaldou no método hermenêutico dialético, analisando-se os dados a partir da técnica de análise de conteúdo. A partir dessa análise, a pesquisa evidenciou que o PBF garante a complementação da renda, mas não consegue garantir o suprimento das necessidades básicas das famílias, sendo insuficiente no enfrentamento à vulnerabilidade. A pesquisa mostra que o perfil traçado dos usuários entrevistados do PBF são mulheres, em uma idade adulta, apresentando como faixa etária entre 20 a 53 anos de idade. É considerada a representante legal do benefício, sendo que em sua grande maioria são as responsáveis por gerenciá-los e consideradas chefes de família. O estudo também apresenta que a maioria das famílias entrevistadas desconheciam acerca das condicionalidades, ou seja, desconheciam sobre esse nome, não sabiam definir, porém tinham uma noção parcial sobre as condicionalidades. Diante disso, percebe-se que as entrevistadas associavam as condicionalidades somente levar seus filhos a escola ou ao posto de saúde. Outro dado interessante a destacar que as entrevistadas sabem o que são as condicionalidades, mesmo parcialmente, mas pela via de perder o benefício do que pela via de conhecimento. O PBF é uma Transferência de Renda que garante complementar a renda familiar, mas percebe-se nos depoimentos das entrevistadas que esse programa não é suficiente para suprir as necessidades básicas da família. O estudo revela que uma das maiores expectativas das famílias é em relação ao acesso ao emprego, ou seja, quando seus filhos atingir a maioridade possa conseguir emprego com carteira assinada, garantindo desta forma uma estabilidade financeira e uma segurança. Esta é uma expectativa recorrente em seus depoimentos em relação à possibilidade de não mais necessitarem da renda proveniente do PBF. Palavras – Chave: Assistência Social. Família. Vulnerabilidade e o Programa Bolsa Família. ABSTRACT The Bolsa Familia Program - PBF is to promote social protection for families who are in poverty and extreme poverty and who are in a vulnerable situation. That said, this work presents a general objective to analyze the contributions of PBF in addressing the vulnerability of families served in the city of Angora CRAS Itaitinga - EC. Accordingly, we sought to specifically identify the sociodemographic profile of families; investigate how families deal with the conditionalities of the program; understand how the PBF has contributed to ensure that families minimum conditions for basic maintenance needs to verify which expectations of families in relation to the possibility of no longer needing the income from PBF.To achieve these goals was held together with the qualitative research quantitative, consisting of bibliographic and documentary study, and field research conducted in the city of Angora CRAS Itaitinga. GMP seven guardians were interviewed. The techniques used for data collection were: the systematic observation, semi-structured interview and demographic questionnaire. - C199 interview script and LG cell phone the following instruments for recording information were used. This study was endorsed in dialectical hermeneutic method by analyzing the data from the content analysis technique.From this analysis , the research showed that the GMP ensures the completion of income, but can not guarantee that the basic needs of families , being insufficient in addressing the vulnerability . Research shows that the profile trace of respondents PBF users are women in an adult , presenting as aged between 20-53 years old. It is considered the legal representative of the benefit , and mostly are responsible for managing them and as heads of household . The study also shows that most of the families interviewed were unaware about the conditionalities , ie , unaware about this name, knew not set , but had a partial notion of conditionality . Therefore , it can be seen that the respondents associated conditionalities only take their children to school or to the clinic . Another interesting highlight that the respondents know what are the conditionalities , even partially , but by way of losing money than by means of knowledge given . The PBF is a cash transfer that ensures supplement the family income , but it can be seen in the statements of the interviewees that this program is not sufficient to meet the basic needs of the family. The study reveals that one of the biggest expectations of families is in relation to access to employment, ie, when their children reached adulthood can get formal employment , thus ensuring financial stability and security. This is a recurring expectation in their statements regarding the possibility of no longer needing the income from PBF. Social Care: Key - words. Family. Vulnerability and the Bolsa Família Program. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS PBF Programa Bolsa Família BPC Benefício de Prestação Continuada BSP Benefício para Superação da Extrema Pobreza BVG Benefício Variável à Gestante BVJ Benefício Variável Vinculado ao Adolescente BVN Benefício Variável à Nutriz CADÚNICO Cadastro Único CNAS Conselho Nacional de Assistência Social CF Constituição Federal CRAS Centro de Referência de Assistência Social DF Distrito Federal FAC Faculdade Cearense FNAS Fundo Nacional de Assistência Social HMECA Hospital e Maternidade Ester Cavalcante Assunção IML Instituto Médico Legal LOAS Lei Orgânica de Assistência Social LBA Legião Brasileira de Assistência Social MDS Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome MEC Ministério da Educação NOB Norma Operacional Básica de Assistência Social PTR Programa de Transferência de Renda PETI Programa de Erradicação do Trabalho Infantil PNAS Política Nacional de Assistência Social PGRM Programa de Garantia de Renda Mínima PAIF Programa de Atenção Integral à Família SUAS Sistema Único de Assistência Social SCFV Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos SVO Serviço de verificação de óbito SUMÁRIO INTRODUÇÃO ................................................................................................. 13 1. CONSTRUINDO OS CAMINHOS DA PESQUISA ..................................... 16 1.1 Aproximação do objeto de pesquisa ......................................................... 16 1.2 Percurso Metodológico ............................................................................. 23 1.3 Conhecendo o campo de pesquisa – o CRAS Angorá do município de Itaitinga – CE .................................................................................................... 29 1.4 Perfil das entrevistadas .............................................................................. 37 2. ASSISTÊNCIA SOCIAL E FAMÍLIA ........................................................... 44 2.1 Assistência Social no cenário atual ............................................................ 44 2.2 Família: suas novas configurações ............................................................ 57 3. O PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA E SUAS CONTRIBUIÇÕES NO ENFRENTAMENTO À VULNERABILIDADE .................................................. 67 3.1 A vulnerabilidade no contexto sócio familiar............................................... 67 3.2 O Programa Bolsa Família ......................................................................... 78 3.3 O Programa Bolsa Família na vida das famílias: garantir condições mínimas de manutenção das necessidades básicas? ................................................... 86 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................. 91 REFERÊNCIAS ............................................................................................... 93 APÊNDICES..................................................................................................... 98 13 INTRODUÇÃO Este trabalho aborda a contribuição do Programa Bolsa Família – PBF, que tem dez anos de implementação, no que se refere ao enfrentamento à vulnerabilidade sócio-familiar. Tematizará como o PBF pode garantir melhorias nas condições de vida das pessoas que se encontram em uma situação de vulnerabilidade social, tendo em vista que este programa social é uma política pública de enfrentamento à fome e à pobreza no país, destinado às famílias pobres e extremamente pobres e destina uma renda mínima mensal a estas. A pesquisa que deu base a este Trabalho de Conclusão de Curso – TCC apresentou como objetivo geral analisar as contribuições do PBF no enfrentamento à vulnerabilidade das famílias atendidas no CRAS Angorá do município de Itaitinga – CE. Nesse sentido, buscou, especificamente, identificar o perfil sócio-demográfico das famílias; investigar como as famílias lidam com as condicionalidades do programa; compreender como o PBF tem contribuído para garantir às famílias condições mínimas de manutenção das necessidades básicas e verificar quais as expectativas das famílias em relação à possibilidade de não mais necessitarem da renda proveniente do PBF. Contemplamos que esta pesquisa apresenta em sua análise, as coleta de dados referentes à importância desse benefício na vida das beneficiárias que foram entrevistadas. Durante a coleta de informações pudemos perceber que a maioria dos usuários do PBF é de mulheres, sendo estas as titulares do Programa e as responsáveis por receber e gerenciar o benefício, sendo as únicas responsáveis por garantir a sustentabilidade da família. Importa ressaltarmos que nesses dez anos o PBF passou a ser avaliado por organizações internacionais como sendo um exemplo de grande sucesso na redução da pobreza. Assim, é válido destacarmos a relevância de debater acerca do PBF, levantando discussões importantes sobre a importância do programa na vida dos beneficiários. Ressaltamos os avanços e desafios do 14 programa nesses dez anos de existência e, concomitantemente, as mudanças que este programa trouxe para as suas vidas. Com o objetivo de apresentar de forma sistematizada os resultados da pesquisa, este trabalho está organizado em três capítulos como veremos a seguir. O primeiro Capítulo intitulado: Aproximação do objeto de pesquisa aborda as principais motivações e inquietações que foram responsáveis na elaboração desse estudo. Portanto, apresento algumas indagações que nortearam o TCC: Caso o PBF garanta melhorar as condições de vida dessas famílias e concomitantemente o acesso destas a capacitação profissional, porque não há maiores investimentos na disponibilização de mais vagas no mercado de trabalho para essas famílias? Quais as estratégias estão sendo adotadas pelo Governo Federal para garantir que essas famílias de fato tenham uma condição de vida melhor e que possam sair dessa condição de pobreza? Outra indagação que merece ser destacada e acerca das críticas feitas ao PBF e dentre outras que serão apresentadas no decorrer da pesquisa. Apresenta também o percurso metodológico, no qual adotamos a pesquisa quantitativa e qualitativa. O estudo também adotou a pesquisa bibliográfica e a documental e foi realizada entrevistas com as beneficiárias do PBF no CRAS de Itaitinga. Destacamos a escolha dos usuários entrevistados em decorrência ao seguinte critério: aqueles usuários do programa que estavam recebendo o benefício a partir dos 4 anos em diante, teriam mais a contribuir para o estudo, portanto selecionei dez usuários do programa de forma aleatória, entretanto foram entrevistados somente sete usuários do PBF, em virtude de as mesmas não terem tempo disponível e também não tinham interesse em participar das entrevistas. Utilizamos também como procedimento para a coleta de dados empíricos as seguintes técnicas de pesquisa: a observação assistemática e a realização de entrevistas semiestruturadas, possibilitando desta forma estabelecer um diálogo com as famílias beneficiárias do PBF. Utilizei como instrumentos, o roteiro de entrevista e o gravador de voz (aparelho do celular LG – C199), o gravador foi permitido somente em algumas entrevistas. Posteriormente, apresenta o campo de 15 pesquisa, o CRAS/Angorá, localizado no município em Itaitinga e por último o perfil das entrevistadas. No segundo Capítulo: Assistência Social e Família, abordamos a categoria Assistência social e realizamos um breve resgate histórico acerca da Política de Assistência Social Brasileira, trazendo discussões acerca de sua implementação no cenário atual. Explanamos, posteriormente à categoria família, apresentando suas novas configurações no cenário brasileiro. Em relação ao terceiro capítulo: O Programa Bolsa Família e suas contribuições no enfrentamento à vulnerabilidade, abordamos neste a categoria de análise que se refere à vulnerabilidade, no que diz respeito ao contexto sócio-familiar. Explanamos, posteriormente sobre como funciona o Programa Bolsa Família, apresentando um breve resgate histórico de sua implementação no país e as condicionalidades. Concluímos este capítulo, com uma discussão acerca das contribuições do PBF na vida das famílias, apresentando um pouco sobre como era a vida das beneficiárias antes de receber o Bolsa Família e após o recebimento, e concomitantemente suas expectativas em relação à possibilidade de não mais necessitarem do recurso proveniente do PBF. Em relação às considerações finais, tentamos realizar algumas sínteses referentes às questões expostas anteriormente, apesar de não ter sido algo fácil, pois foi um percurso longo e cheio de desafios que perpassaram este Trabalho de Conclusão de Curso – TCC. 16 1. CONSTRUINDO OS CAMINHOS DA PESQUISA 1.1 APROXIMAÇÃO DO OBJETO DE PESQUISA O PBF está fazendo 10 anos de existência e é considerado o maior Programa de Transferência de Renda do mundo. Apresenta como um dos principais objetivos, a ampliação do acesso aos direitos sociais básicos. Atualmente, o PBF beneficia 13,8 milhões de famílias que se encontram abaixo da linha da pobreza1. De acordo com pesquisas e noticiários2 70% dos adultos beneficiados pelo PBF estão inseridos no mercado de trabalho, mesmo assim permanecem dependente do programa, por não conseguirem garantir renda suficiente que os possibilite garantir a sustentabilidade de suas famílias. Pesquisas revelam que as famílias beneficiadas pelo PBF não se “acomodam” com o benefício. O PBF visa também garantir, educação às crianças beneficiadas, fato que contribui para favorecer a redução da evasão dessas crianças da escola (SENADO, 2003). Apesar do Programa Bolsa Família ser uma política pública de enfrentamento à pobreza é interessante discutir acerca dessas informações acima elencadas. Quais as estratégias estão sendo adotadas pelo Governo Federal para garantir que essas famílias de fato tenham uma condição de vida melhor e que possam sair dessa condição de pobreza? Além de proporcionar uma renda que os possibilite garantir sustentabilidade, não se pode deixar de destacar que o PBF tem como desafio garantir qualificação profissional para essas famílias que necessitam melhorar sua situação de vida. 1 2 Disponível em: http://bolsafamilia10anos.mds.gov.br/node/124. Acesso em: 11/10/2013. Disponível em: http://www.ptnosenado.org.br/textos/69-noticias/26824-70-dosbeneficiários-adultos-dobolsa-familia-trabalham. Acesso em 13/10/2013. 17 Assim, se indaga se o PBF garante melhorar as condições de vida dessas famílias e concomitantemente o acesso destas a capacitação profissional, porque não se investe na disponibilização de mais vagas no mercado de trabalho para essas famílias? Não adianta garantir somente a qualificação da mão-de-obra, mas, sobretudo que tenham vagas disponíveis para que essa mão-de-obra seja absorvida pelo mercado de trabalho. Outro ponto que merece ser destacado é acerca das críticas feitas ao PBF. Críticos alegam que o PBF gera um ciclo de dependência entre as famílias beneficiadas. Será mesmo que o PBF faz com que as famílias beneficiadas se “acomodem” a essa situação? Será mesmo que elas se sentem confortáveis com a sua condição de vulnerabilidade social? Ou será que essa situação é devido a outros fatores relacionados ao sistema capitalista no qual nós estamos inseridos? Outro ponto também a ressaltar é em relação à evasão escolar. Quais são as estratégias educativas que estão sendo tomadas para evitar a evasão escolar? As famílias estão tendo acesso às informações acerca das condicionalidades? As indagações acima foram um dos motivos que contribuíram para nortear a execução da pesquisa que deu base a este trabalho monográfico. Esses questionamentos foram surgindo a partir das discussões empreendidas ao longo das disciplinas do curso de Serviço Social da Faculdade Cearense - FAC e me motivaram a pesquisar a temática, delimitada como foco do Trabalho de Conclusão de Curso – TCC. A partir da inserção no meio acadêmico tive a oportunidade durante as aulas de participar de debates e discussões acerca da temática. Ademais, a afinidade acerca da temática sempre foi expressa e construída ao longo do decorrer de toda a vida acadêmica3. Estava cursando o 4º semestre do curso de Serviço Social quando tive a oportunidade de participar de debates em sala de aula na disciplina de Política Social Setorial, acerca do Seminário Nacional: Trabalho do/a Assistente Social 3 A partir deste momento narrarei minha trajetória de aproximação com o objeto. Como se trata de uma experiência pessoal farei essa narrativa em primeira pessoa do singular. 18 no Sistema Único de Assistência Social – SUAS. O debate levantado na disciplina foi acerca da política de Assistência Social: Direito ou Assistencialização4? Portanto, no debate empreendido em sala de aula, referese sobre a Política de Assistência Social no confronto entre o direito ou assistencialização, desta forma acaba por levantar vários questionamentos acerca do entendimento da Assistência Social como campo da política pública. O texto também aborda sobre a disseminação da expressão, assistencialização das políticas sociais acaba por relacionar-se com a precarização de políticas sociais, diante disso, cria-se uma visão negativa da Política de Assistência Social. Em relação à expressão do direito no campo da Assistência Social aborda sobre o trânsito do campo dos direitos humanos para os direitos sociais. Diante do exposto, ressalta-se que a Assistência Social como âmbito referente da proteção social, apresenta o direito a dignidade humana. É importante ressaltar que os direitos sociais no âmbito da Assistência Social foram introduzidos a partir da Constituição Federal – CF de 1988. De acordo com a Constituição Federal – CF de 1988, Art. 5º: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito á vida, à liberdade, á igualdade, à segurança e à propriedade. (BRASÍLIA, 2012, p.8). A Constituição da República Federativa do Brasil de 5 de outubro de 1988 apresenta os direitos no âmbito civil, político e social5. Portanto, a Constituição Federal garante direitos, que visam superar a perspectiva assistencialista. A Política Nacional de Assistência Social – PNAS surge justamente para reforçar a garantia da Assistência Social como direito (PNAS, 2005). Ao se firmar como direito direcionado ao cidadão, garante ao mesmo o direito à melhoria na sua condição de vida. Portanto, a garantia do acesso a 4 Encontra-se em: O Trabalho do/a Assistente Social no Suas: Seminário Nacional/Conselho Federal de Serviço Social_Gestão Atitude Crítica para Avançar na luta. Brasília: CFESS, 2011. 5 Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=s0101-32622001000300002. Acesso em 28/12/2013. 19 direitos sociais básicos não é uma prática assistencialista, pautada na idéia do favor, da caridade, pelo contrário, o acesso a esses direitos são garantidos e fundamentados por lei. A Política de Assistência Social não é uma prática assistencialista, pautada na solidariedade, caridade, benemerência, historicamente tradicional em nosso país. Assim, o Estado passava a transferir a suas maiores responsabilidades à população, ocasionando a restrição da execução de práticas e ações emergenciais (MESTRINER, 2008). Portanto, as políticas sociais não são meramente favores, são direitos conquistados através de manifestações, reivindicações da população visando uma sociedade mais igualitária. Na disciplina foi levantada também a discussão acerca da garantia do Benefício eventual da Cesta Básica, ofertado pelo Centro de Referência de Assistência Social – CRAS6, que se coloca como demanda emergencial. Entendendo a garantia dos direitos como pauta de discussão na disciplina surgiu o questionamento acerca do Benefício Eventual da Cesta Básica, direito assegurado naquele momento. Diante dessa situação, a família não pode esperar, é de caráter emergencial. Portanto, as discussões e debates ao longo de toda a disciplina foram de extrema relevância, me possibilitou a aproximação com a temática. Mas, sobretudo, contribuiu para que conhecesse mais acerca destes benefícios eventuais e me motivou a pesquisar acerca do PBF. É interessante ressaltar que a partir dos questionamentos levantados nos debates que foram empreendidos em sala de aula, isso me motivou a pesquisar acerca do PBF, favoreceu a aproximação com a assistência social e concomitantemente ao PBF. Destacamos uma experiência de estágio que não favoreceu que tivesse uma relação com a aproximação com o objeto. Encontrei certa dificuldade de 6 São benefícios da Política Nacional de Assistência Social – PNAS que visam atender às famílias em virtude de morte, nascimento, em casos de calamidade pública ou em situações de vulnerabilidade temporária. Disponível em: http://www.mds.gov.br/assistenciasocial/beneficioassistenciais/beneficioseventuais. Acesso em: 09/10/2013. 20 começar a pesquisa, porque iniciei um estágio que não tinha a ver com a área da Assistência Social. Iniciei a prática de estágio supervisionado em Serviço Social no município onde resido em Região Metropolitana de Fortaleza, no Hospital e Maternidade Ester Cavalcante Assunção – HMECA. O período de estágio foi no 6º semestre de 2012, portanto não tive contato com o objeto no campo de estágio. Mesmo nesse contexto, na área da saúde, tive a oportunidade de presenciar o contato com uma situação que despertou ainda mais a vontade de pesquisar sobre o Bolsa Família, que foi justamente o contato que o usuário teve com o Serviço Social. No atendimento, o usuário solicitava informações acerca do Benefício Eventual da Cesta Básica. O Serviço Social precisou realizar o encaminhamento para o Centro de Referência de Assistência Social – CRAS. Referente às atividades que o Serviço Social desenvolvia, uma delas era o encaminhamento para a rede socioassistencial. E nesse momento aconteceu um caso que foi necessário encaminhar para a rede socioassistencial. Este episódio chamou minha atenção e despertou ainda mais o interesse de pesquisar o PBF, fato que só veio reforçar o interesse pela área da assistência social. Com a delimitação da pesquisa sentimos a necessidade de iniciar um estágio voluntário na instituição que trabalhasse com a Assistência Social, com a operacionalização do Bolsa Família para poder ter mais contato com essa realidade e que favorecesse a possibilidade de uma aproximação com o objeto. Diante disso, procurei o Centro de Referência de Assistência Social – CRAS/Angorá de Itaitinga – CE, por ser viável para mim devido morar no município. O estágio voluntário no CRAS foi a partir do momento da elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso – TCC. Com o objetivo de executar a pesquisa, me dirigi ao CRAS/Angorá de Itaitinga – CE para saber se era viável realizar a pesquisa na instituição. A primeira visita à instituição contribuiu para facilitar na intermediação para conseguir a autorização, inclusive os funcionários da instituição foram 21 receptivos. Identifiquei-me como estudante de Serviço Social do 8º semestre da Faculdade Cearense – FAC e logo após expus todo o teor do processo da pesquisa para a Assistente Social. Durante a visita ela me relatou que se dependesse dela seria viável realizar a pesquisa, mas como ela seria transferida para outra instituição, em decorrência da transição da gestão municipal (era época de mudança de prefeito), teria que ver com a próxima profissional que entrasse. Após a mudança de gestão, retornei novamente ao CRAS/Angorá e de fato a Assistente Social tinha sido transferida à outra instituição. Encontrei em seu lugar uma nova Assistente Social que inclusive tinha se formado na Faculdade Cearense - FAC. Novamente, expliquei todo o teor da pesquisa, logo após, solicitou-me que entrasse em contato com a Secretária do Trabalho e Assistência Social, que também é vice-prefeita do município de Itaitinga, para que me autorizasse a realizar a pesquisa. Diante disso, em primeiro momento necessitei contatar com algumas pessoas que conheço que trabalham na Prefeitura de Itaitinga para poder viabilizar esse processo de intermediação com a Secretária do Trabalho e Assistência Social. A intermediação foi realizada e os meus interlocutores expuseram todo o teor da pesquisa. Depois disso, recebi um telefonema de um dos funcionários que me ajudou nesse processo de intermediação, relatando que eu poderia me dirigir à Secretaria do Trabalho e Assistência Social, pois a secretária iria me receber. A partir disso, dirigi-me à Secretária do Trabalho e Assistência Social e explanei o teor da pesquisa, que me concedeu autorização para realizá-la na instituição. Tal autorização foi realizada apenas de forma verbal, naquele momento, mas depois a formalizei via ofício da Faculdade Cearense – FAC informando a realização da pesquisa no CRAS. A documentação foi providenciada e entregue à Assistente Social, dias após a visita que realizei na Secretaria do Trabalho e Assistência Social. Nesse contato que tive com a Secretária do Trabalho e Assistência Social, solicitei ainda a realização de estágio voluntário no CRAS para facilitar meu contato com os participantes da pesquisa. Ela me informou também que 22 eu deveria contatar a Coordenadora Geral do CRAS, para dar-lhe ciência da realização da pesquisa e do estágio. O contato com a Coordenadora Geral do CRAS foi realizado com êxito. A partir destes procedimentos, comecei a estagiar voluntariamente na instituição, a partir de 15 de agosto de 2013. No primeiro dia de estágio voluntário a Supervisora acolheu-me da melhor forma possível, apresentandome a instituição e ao Programa de Erradicação de Trabalho Infantil 7 – PETI. No dia em questão tive acesso aos prontuários de alguns usuários de Programas Sociais ofertados pelo CRAS. Como pesquisadora, a inserção no CRAS me possibilitou olhar de forma mais crítica, de forma mais próxima da realidade e compreender melhor como esse público é atendido no CRAS e como os beneficiários têm acesso ao programa Bolsa Família. No próximo tópico, apresento como a pesquisa foi realizada. 7 É um Programa de Transferência de Renda, vinculado ao Programa Bolsa Família, tendo como objetivo retirar crianças e adolescentes da prática de trabalho precoce. Disponível em: www.mds.gov.br/assistenciasocial/peti. Acesso em: 15/10/2013. 23 1.2 PERCURSO METODOLÓGICO Os objetivos traçados para a realização da pesquisa que deu base a este ensaio monográfico foram: do ponto de vista geral, analisar as contribuições do PBF no enfrentamento à vulnerabilidade das famílias atendidas no CRAS Angorá do município de Itaitinga – CE. E, especificamente, identificar o perfil sócio-demográfico das famílias; investigar como as famílias lidam com as condicionalidades do programa; compreender como o PBF tem contribuído para garantir às famílias condições mínimas de manutenção das necessidades básicas e verificar quais as expectativas das famílias em relação à possibilidade de não mais necessitarem da renda proveniente do PBF. Para alcançar os objetivos da pesquisa adotamos a abordagem quantitativa e qualitativa. A pesquisa quantitativa está direcionada a quantificar dados empreendidos com o desenvolvimento do processo de pesquisa. Assim Soares (2003), esclarece acerca da pesquisa quantitativa, que seria interessante esta abordagem em modelos descritivos, objetivando a relação entre variáveis como nas investigações realizadas, no qual se pretende estabelecer relações de casualidade entre fenômenos. Desta forma, a pesquisa qualitativa aprofunda-se no mundo dos significados das ações e relações humanas, como define Minayo (2012), A pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares. Ela se ocupa, nas ciências sociais, com um nível de realidade que não pode ou não deveria ser quantificado. Ou seja, ela trabalha com o universo dos significados, dos motivos, das aspirações, das crenças, dos valores e das atitudes. Esse conjunto de fenômenos humanos é aqui como parte da realidade social, pois o ser humano se distingue não só por agir, mas por pensar sobre o que faz e por interpretar suas ações dentro e a partir da realidade vivida e partilhada com seus semelhantes (2012, p.21). Neste sentido, a pesquisa buscou compreender os significados que os beneficiados do PBF dão ao programa. O presente estudo teve início com uma pesquisa bibliográfica “desenvolvida a partir de material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos” (GIL, 2008, p.50). 24 Dessa forma, segundo Gil (2008) a pesquisa bibliográfica permite ao investigador a cobertura de uma gama de fenômenos, ou seja, uma intensidade de informações pertinentes ao assunto pesquisado, do que aquela que o investigador poderia pesquisar diretamente. Assim, para a realização do presente estudo, inicialmente, realizou-se uma revisão de literatura dos autores Gil (2008), Minayo (1994 e 2012), Demo (2011), Soares (2003) dentre outros para fundamentar a pesquisa social. Para alcançar os objetivos da pesquisa é interessante também ressaltarmos os autores que utilizamos para discutir as categorias e tópicos deste estudo, realizou-se uma revisão de autores da categoria Assistência Social: Mestriner (2008), Behring (2008), Mota (2010), Sposati (2010), Yazbek (S/D); a categoria família: Carloto (2010), Giddens (2005), Samara (1997), Simões (2008), Mioto (2010); a categoria vulnerabilidade: Castel (2005), Monteiro (2011), Rocha (2006), Giddens (2005); o tópico sobre pobreza: Rocha (2006), Giddens (2005) e dentre outros que contribuíram para fundamentar a pesquisa. Nesse sentido, a priori buscou-se primeiramente conhecer as idéias construídas a respeito dos temas e categorias de interesse da presente pesquisa como a Política de Assistência Social, Família, Vulnerabilidade, Pobreza, Transferência de Renda e o Programa Bolsa Família visitando e revisitando autores. Também foi realizada pesquisa documental. Os documentos utilizados foram a Política Nacional de Assistência Social – PNAS, Lei Orgânica de Assistência Social – LOAS, Constituição Federal – CF e a Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais. Segundo Gil (2011), a pesquisa documental apresenta algumas semelhanças com a pesquisa bibliográfica. Portanto, a diferença que há entre elas está na natureza das fontes. Embora a pesquisa bibliográfica se utilize de contribuições de vários autores acerca de um assunto específico, já a pesquisa documental vale-se de matérias que não receberam um tratamento analítico, entretanto, os mesmos podem conseguir ser reelaborados, vai depender dos 25 objetivos da pesquisa (GIL, 2011). Portanto, a pesquisa documental apresenta como característica a fonte de coleta dos dados, no qual a mesma se encontra restrita a documentos, sejam escritos ou não, chamados de fontes primárias. Este processo pode ser realizado a partir do fato ou fenômeno no momento que ocorrer, ou esse processo pode ser realizado depois (LAKATOS, 2003). Em se tratando do método escolhido para nortear a pesquisa, ressaltamos o hermenêutico dialético. Conforme Minayo (1994), esse é um método da sociologia compreensiva, no qual apresenta a tentativa de elucidar, explicar e interpretar os fenômenos vivenciados pelos sujeitos sociais. No caso deste estudo, apreender o que pensam acerca do PBF. Assim, buscou-se interpretar o que os usuários dizem, ou seja, dar evidência às vozes dos sujeitos entrevistados na pesquisa. A dialética permitiu abordar os significados e contradições do objeto, ou seja, o que está por traz dos discursos das falas dos entrevistados. Assim, os significados e sentidos referem-se acerca da interpretação das falas, ou seja, vivências e experiências. Portanto, é a compreensão deles e a interpretação dessas falas. Neste sentido, utilizamos como procedimento para a coleta de dados, a realização de entrevistas semi-estruturadas, possibilitando estabelecer um diálogo com as famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família. As entrevistas semi-estruturadas foram realizadas por meio de visitas domiciliares com o objetivo de nos aproximarmos o máximo possível da realidade da vida dessas famílias, porém foram realizadas também entrevistas no próprio CRAS onde as famílias são atendidas. A coleta de dados foi realizada em decorrência da disponibilidade das entrevistadas. Importante esclarecer que também foi realizada a pesquisa de campo através da inserção no CRAS/Angorá de Itaitinga, me aproximando dos usuários do Programa Bolsa Família, tendo como representante legal a mulher, na perspectiva de identificar alguns impactos que este benefício proporciona a essas famílias. A priori preestabeleceu-se realizar a pesquisa com a seleção de 10 usuários do PBF, entretanto foram realizadas somente sete entrevistas. É interessante destacarmos que a escolha dos usuários foi de acordo com o 26 tempo de permanência no programa, a partir dos 4 anos em diante recebendo o Bolsa Família. As entrevistas foram realizadas no período de novembro de 2013 e ocorreram nos dias 18, 19, 21 e 23 no CRAS/Angorá, com exceção de quatro usuárias do programa, em decorrência de que essas quatros entrevistas foram realizadas na residência das entrevistadas. A abordagem foi realizada da seguinte forma: primeiramente a usuária chegava no CRAS para um atendimento e a Assistente Social depois do atendimento apresentava-me. Essa apresentação viabilizou o processo de aproximação com as possíveis entrevistadas, algumas aceitando participar da entrevista, outras não aceitaram participar da pesquisa, alegando falta de tempo. Apesar de encontrar dificuldade de realizar as entrevistas, em decorrência de que a maioria que abordava para participar da pesquisa alegava que tinha um compromisso, que estava atrasada, que tinha que voltar pra casa logo em seguida ao atendimento no CRAS, sendo que tinha muitos afazeres domésticos em casa, é interessante ressaltar que em algumas dessas abordagens sugeria-se que a entrevista poderia ser realizada em sua residência, desde que fosse no fim de semana (sábado), pela manhã. A priori fui bem recebida na residência das entrevistadas, embora pude perceber que as mesmas queriam terminar o quanto antes a entrevista. Portanto, essa apresentação facilitava consideravelmente o contato com a entrevistada e posteriormente contribuía para que a mesma autorizasse realizar a entrevista. Foi apresentado o Termo de Consentimento Livre Esclarecido para as entrevistadas, encontra-se no Apêndice B, onde as entrevistadas assinaram no documento, dessa forma, confirmando a sua participação na pesquisa e autorizando a divulgação das informações. É interessante destacar que nesse documento me comprometi a resguardar o anonimato das entrevistadas, assim, elas apenas foram denominadas de entrevistada nº 1, 2, 3 e assim sucessivamente. Todas as participantes das entrevistas assinaram o Termo de Consentimento Livre Esclarecido e apenas algumas entrevistas foram autorizadas a serem gravadas por meio de um aparelho celular LG – C199. 27 Ressaltamos inicialmente que a coleta de dados foi repleta de dificuldades, em decorrência da falta de tempo disponível por parte das entrevistadas, sendo que a grande parte das entrevistadas não se aprofundavam muito nas respostas das entrevistas. Diante disso, me esforcei ao máximo para coletar todas as informações possíveis e interpretar seus discursos. Assim Gil, define entrevistas como: A técnica em que o investigador se apresenta frente ao investigador e lhe formula perguntas, com o objetivo de obtenção dos dados que interessam à investigação. A entrevista é, portanto, uma forma de interação social. Mais especificamente, é uma forma de diálogo assimétrico, em que uma das partes busca coletar dados e a outra se apresenta como fonte de informação (GIL, 2008, p.109). As entrevistas realizadas foram entrevistas estruturadas devido às possibilidades que são apresentadas como o diálogo com as famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família. Nesta perspectiva, Gil enfatiza que o intenso processo de utilização da entrevista na pesquisa social deve-se a uma série de razões: a) A entrevista possibilita a obtenção de dados referentes aos meios diversos aspectos da vida social; b) A entrevista é uma técnica muito eficiente para a obtenção de dados em profundidade acerca do comportamento humano; c) Os dados obtidos são suscetíveis de classificação e de quantificação. Se comparada com o questionário, que é outra técnica de largo emprego nas ciências sociais apresenta outras vantagens; d) Não exige que a pessoa entrevistada saiba ler e escrever; e) Possibilita a obtenção de maior número de respostas, posto que é mais fácil deixar de responder a um questionário do que negar-se a ser entrevisto; f) Oferecer flexibilidade muito maior, posto que o entrevistador pode esclarecer o significado das perguntas e adaptar-se mais facilmente às pessoas e às circunstâncias em que se desenvolve a entrevista; g) Possibilita captar a expressão corporal do entrevistado, bem como a tonalidade de voz e ênfase nas respostas (GIL, 2008, p.110). Durante as entrevistas também foi aplicado um questionário socioeconômico a fim de identificar o perfil das famílias das entrevistadas. De acordo com Gil (2011) o questionário seria como a técnica de investigação, apresenta um conjunto de questões que submetidas as pessoas com o objetivo 28 de adquirir e obter informações pertinentes acerca de conhecimentos, crenças, interesses, expectativas e dentre outros. Portanto, na maioria das vezes, os questionários são apresentados por escrito aos respondentes. Diante disso, costumam ser reconhecidos como questionários auto-aplicados. Entretanto, quando o conjunto de questões é realizado oralmente pelo pesquisador, são reconhecidos como questionário aplicado com entrevista ou através de formulários (GIL, 2011). Ressaltarmos que a observação do tipo assistemática, ou seja, registro em diário de campo. A técnica de observação não estruturada ou assistemática, também denominada de espontânea, informal, ordinária, simples, livre, ocasional e acidental, consistindo em recolher e registrar os fatos da realidade sem que o pesquisador utilize meios técnicos especiais ou precise fazer perguntas diretas. É mais empregada em estudos exploratórios e não tem planejamento e controle previamente elaborados (LAKATOS, 2003). Após a coleta de dados, procedemos à análise do conteúdo, no qual realizamos um confronto dos dados empíricos com as análises teóricas. Importa destacarmos que os resultados da análise estarão disponíveis nos próximos capítulos e tópicos a seguir. Antes apresento o campo da pesquisa no CRAS/Angorá no município de Itaitinga e logo após apresento o perfil das entrevistadas. 29 1.3 CONHECENDO O CAMPO DE PESQUISA – O CRAS ANGORÁ DO MUNICÍPIO DE ITAITINGA - CE O município ora pesquisado, Itaitinga – CE está situado no Estado do Ceará, localiza-se ás margens da BR – 116, distante a 25 km da capital Cearense. O nome Itaitinga é uma aglutinação de prefixos advindos do Tupi Guarani: Ita = pedra + y= rio + tinga= branco, donde se obtém riacho das pedras8. Antigamente o Departamento Nacional de Estradas de Rodagem – DNER no município de Itaitinga havia uma residência, com uma pedreira, donde se realizava a extração de pedras próxima a atual Estrela Britagem. Diante desta breve explanação podemos enfatizar que riacho das pedras está relacionado à extração de pedras no município de Itaitinga. Inclusive esta atividade é realizada desde a década de 1930 até aos dias atuais. A denominação de Itaitinga foi elevada à categoria de município, quando foi desmembrada de Pacatuba - CE e sua emancipação política de fato ocorre em 27 de Março de 1992. O referido município está situado na Região Metropolitana de Fortaleza. Portanto, a área territorial do município é de 150,8 km com uma população de 35.820 habitantes 9. O município vem estruturando a sua rede de Assistência Social e a política é organizada em dois eixos operacionais de acordo com o Sistema Único de Assistência Social – SUAS, a Proteção Social Básica e a Proteção Social Especial. Importa ressaltarmos que contextualizaremos o Centro de Referencia de Assistência Social – CRAS. A Proteção Social Básica, prevista na PNAS/2004, tem como objetivo prevenir situações de risco por meio do desenvolvimento de potencialidades e aquisições, e do fortalecimento de vínculos familiares e comunitários. Seus programas, projetos, serviços e benefícios, destinam-se à população em situação de vulnerabilidade social decorrente da pobreza, privação e, ou fragilização de vínculos afetivos – relacionais e de pertencimento social (discriminações 8 Disponível em http://www.mfrural.com.br/cidade/Itaitinga-ce. 9 Disponível em http://www.itaitinga.ce.gov.br/spages.asp?id=2. Acessado em 01/09/2013. Acessado em 21/10/2013. 30 etárias, étnicas, de gênero ou por deficiências, dentre outras (MDS, 2005, p.6). O Centro de Referência de Assistência Social – CRAS é uma unidade pública estatal descentralizada da Política de Assistência Social – PNAS. É a principal porta de entrada no Sistema Único de Assistência Social – SUAS responsável pela organização e oferta de serviços da Proteção Social Básica nas áreas de vulnerabilidade e risco social 10 . O SUAS11 é uma ferramenta de gestão da Política Nacional de Assistência Social – SUAS, organiza as ações da Assistência Social em Proteção Social Básica e Proteção Social Especial de média e alta complexidade. O SUAS realiza a oferta de Benefícios Assistenciais, prestados a públicos específicos, objetivando superar situações de vulnerabilidade. Um traço relevante acerca do CRAS é a oferta de serviços e ações de Proteção Básica que devem: garantir apoio as famílias na perspectiva de efetivar seus direitos de cidadania; serviços continuados de acompanhamento social às famílias e, posteriormente, acolhida voltada para recepção, escuta orientação e referência12. Diante do exposto, o mesmo possui a função de gestão territorial da rede de Assistência Social Básica. Concomitantemente, promovendo uma organização e a articulação das unidades que são referenciadas e logo após a um gerenciamento desses processos envolvidos. O CRAS centraliza nas famílias todas as ações e serviços da Política Nacional de Assistência Social – PNAS. Portanto ao se compreender as demandas de situação de vulnerabilidade social da família é possível constituir uma rede de Proteção Social na busca da superação dessas situações vividas por essas famílias, através de ações de prevenção com atividades que 10 Disponível em http://www.mds.gov.br/assistenciasocial/proteçãobasica/cras. 11 12 Disponível em http://www.mds.gov.br/assistenciasocial/suas. Acessado em 21/10/2013. Acessado em 23/10/2013. Encontra-se em: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à fome. Secretária Nacional de Assistência Social. Guia de Orientação Técnica - SUAS Nº 1. Proteção Social Básica de Assistência Social. Brasília, 2005. 31 informem e sensibilizem os seus direitos promovendo o reconhecimento e o acesso (MDS, 2009). O CRAS deve localizar-se em áreas que concentre situações de vulnerabilidade e risco social. Portanto, deve ser instalado em locais próximos aos usuários possibilitando condições favoráveis para o acesso destas famílias, garantindo a prevenção e o fortalecimento de vínculos. Ressaltamos que embora seja um equipamento estatal, os respectivos espaços físicos nem sempre são de propriedade das prefeituras municipais. Embora a propriedade seja um elemento para a execução dos serviços, é possível que a implantação de CRAS se dê em possíveis imóveis cedidos ou alugados (MDS, BRASÍLIA, 2009). Diante desta explanação é interessante salientarmos que apesar das dificuldades enfrentadas pelos municípios na aquisição de imóveis para implantação do CRAS, alguns gestores optam por implantá-lo em imóveis compartilhados. O Plano Municipal (ou do DF) de Assistência Social é uma ferramenta obrigatória de gestão da Política de Assistência Social nas três esferas de governo (BRASÍLIA, 2009). É importante relatarmos que os elementos constituintes do plano são: 1) Realização de estudos e diagnósticos da realidade; 2) Mapeamento e identificação da cobertura da rede prestadora de 3) 4) 5) 6) 7) serviços; Definição de objetivos; Estabelecimento de diretrizes e prioridades; Determinação de metas e previsão de custos; Previsão de fontes de financiamento (recursos municipais, estaduais e federais); Estabelecimento das ações de monitoramento e avaliação (BRASÍLIA, 2009). No entanto, apresenta como desafio conhecer a realidade do município e posteriormente passar a atuar nele, desta forma prioriza situações de maior vulnerabilidade. É interessante destacarmos que se tenha um levantamento 32 das unidades da rede socioassistencial para realizar o atendimento de famílias que se encontram em uma situação de vulnerabilidade social. Salientamos que o principal serviço ofertado de forma exclusiva e obrigatória pelo CRAS é o (Programa de Atenção Integral à Família – PAIF). O mesmo foi criado em 18 de abril de 200413 (portaria nº 78), pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome – MDS, sendo implantado pelo Governo Federal no ano de 2003. O PAIF14 tem por objetivo garantir o fortalecimento do direito à convivência familiar, ao qual consiste em um trabalho de caráter continuado, visando garantir o fortalecimento da função protetiva das famílias, ou seja, fortalecendo a convivência familiar e comunitária. Portanto, prevenindo a ruptura de vínculos familiares, garantindo que estas famílias tenham acesso ao serviço e usufrua destes direitos, contribuindo desta forma a uma qualidade na melhoria da condição de vida. Ainda nessa análise, é interessante destacarmos que os municípios são caracterizados, de acordo com a PNAS, como pequeno, médio e grande porte. A Norma Operacional Básica de Assistência Social 15 (NOB – SUAS) estipulará tanto o número mínimo de CRAS quanto a dimensão do território. É interessante elencarmos que o campo pesquisado foi o CRAS/Angorá de Itaitinga – CE. O CRAS/Angorá não dispõe de nenhum registro histórico acerca de sua implantação no município. Portanto, o CRAS é um equipamento que se apresenta como pequeno porte II 16 . Enquanto em relação aos recursos 13 Encontra-se em: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Secretaria Nacional de Assistência Social. Guia de Orientação Técnica – SUAS nº 1. Proteção Social Básica de Assistência Social. Brasília, 2005. 14 Disponível em http://www.mds.gov.br/assistenciasocial/protecaobasica/cras. Acessado em: 21/10/2013. 15 Encontra-se em: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Secretaria Nacional de Assistência Social. Guia de Orientação Técnica – SUAS nº 1. Proteção Social Básica de Assistência Social. Brasília, outubro, 2005. 16 Disponível emhttp://aplicacoes.mds.gov.br/sagi/patamarcras/patamarcarsboletim.php?pidcras=23062520611&pperio do=0910&pano=2010. Acessado em 22/10/2013. 33 humanos, a instituição dispõe de: 03 (três) Técnicos com Ensino Superior, 03 (três) Técnicos de Nível Médio, 02 (duas) Assistentes Sociais, 01 (um) Psicólogo, 02 (dois) Serviços Gerais e 02 (duas) Manipuladoras de Alimentos. Assim, os bairros atendidos pelo CRAS/Angorá – Itaitinga são: Angorá, Vila Machado, Carapió, Parque Genezaré, Riachão, Lage dos Gatos, Ponta da Serra, Ocupação, Parque Santo Antônio, Centro e Antônio Miguel. Tabela 1: total de famílias cadastradas por faixa de renda em Itaitinga CAÚNICO Mês Referência Famílias Cadastradas Famílias 7.062 05/2013 6.561 05/2013 4.582 05/2013 1.855 05/2013 2.727 05/2013 Cadastradas com Renda Per Capita Mensal de até ½ salário mínimo Famílias Cadastradas com Renda Per Capita Mensal de até R$ 140,00 Famílias Cadastradas Per Capita Mensal entre R$ 70,01 e R$ 140,00 Famílias Cadastradas com Renda Per Capita Mensal de até 70,00 Fonte: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome17 (2003) Assim, como foi abordado anteriormente o Cadúnico identificará as famílias de baixa renda, entendidas como aquelas que têm renda mensal de 17 Disponível em htpp:www.aplicacoes.mds.gov.br/sagi/RIV3/geral/relatório.php#informações sociodemográficas. Acesso em: 27/10/2013. 34 até meio salário mínimo por pessoa ou renda mensal total de até três salários mínimos. Tabela 2: tipos de benefícios em Itaitinga TIPO DE BENEFÍCIOS EM ITAITINGA Benefício Básico 3.588 08/2013 Benefícios Variáveis 6.275 08/2013 890 08/2013 6 08/2013 95 08/2013 823 08/2013 Benefício Variável Jovem - BVJ Benefício Variável Nutriz – BVN Benefício Variável Gestante - BVG Benefício de Superação da Extrema Pobreza – BSP Fonte: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome18, (2013) Salientamos que as ações desenvolvidas no CRAS/Angorá são: Visitas domiciliares; Palestras voltadas à comunidade ou à família, seus membros e indivíduos; Realizam os encaminhamentos e os acompanhamentos dessas famílias. Diante disso, os serviços ofertados no CRAS/Angorá são: Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família – PAIF. Portanto, como foi explanado anteriormente o PAIF apresenta como objetivos: 1) Fortalecer a função protetiva da família, contribuindo na melhoria da sua qualidade de vida; 2) Prevenir a ruptura dos vínculos familiares e comunitários, possibilitando a superação de situações de fragilidade social vivenciadas; 3) Promover aquisições sociais e materiais às famílias, potencializando o protagonismo e a autonomia das famílias e comunidades; 18 Disponível em htpp:www.aplicacoes.mds.gov.br/sagi/RIV3/geral/relatório.php#informações sociodemográficas. Acesso em: 27/10/2013. 35 4) Promover acessos a benefícios, Programas de Transferência de Renda e serviços socioassistencias, contribuindo para a inserção das famílias na rede de Proteção Social de Assistência Social; 5) Promover acesso aos demais serviços setoriais, contribuindo para o usufruto de direitos; 6) Apoiar famílias que possuem, dentre seus membros, indivíduos que necessitam de cuidados, por meio da promoção de espaços coletivos de escuta e troca de vivências familiares (TIPIFICAÇÃO NACIONAL DE SERVIÇOS SOCIOASSISTENCIAIS, 2009). Portanto, o PAIF é um serviço obrigatório no CRAS que apresenta como ações: acolhida, oficina com famílias, ações comunitárias, ações particularizadas, encaminhamentos, busca ativa e outros. Inclusive outro serviço ofertado no CRAS/Angorá é o Serviço de Convivência e o Fortalecimento de Vínculos. Este Serviço apresenta como objetivo principal a prevenção de ocorrência de situações de risco social. O PAIF apresenta caráter preventivo e proativo, objetivando garantir a defesa e a efetivação dos direitos, visa alcançar alternativas emancipatórias para o enfrentamento da vulnerabilidade social das famílias que se encontram na situação de pobreza. O serviço é voltado para crianças até 6 anos incompletos; Crianças de 6 anos até adolescentes de 15 anos incompletos; Adolescente de 15 anos até 17 anos e Grupos de idosos com idade de 60 anos ou mais. (Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais, 2009). É importante relatarmos outras atividades realizadas no CRAS/Angorá são: O Projovem Adolescente, sendo um Programa Nacional de Inclusão de Jovens. Diante disso, os adolescentes participam de atividades artísticas, de integração, culturais, visando uma melhoria na convivência familiar. Os adolescentes participantes devem fazer parte da família beneficiária do Programa Bolsa Família ou com uma família com perfil de renda do programa que esteja inscrita no Cadastro Único, e necessitam ter entre 15 e 17 anos. Vale destacar a garantia de benefícios eventuais que são ofertados pelo Centro de Referência de Assistência Social – CRAS. Dentre eles: Auxílio Funeral, este benefício é solicitado no CRAS, por familiares ou algum responsável familiar. Se o óbito acontecer em casa, a solicitação deve ser realizada no Serviço de Verificação de Óbito (SVO). Entretanto, se a causa 36 desse óbito não for natural, ou seja, causada por violência ou por acidentes, a solicitação deverá ser realizada no Instituto Médico Legal (IML); Auxílio Natalidade é a concessão de alguns itens de enxoval para a família com recém-nascido. Portanto, a gestante que se encontra em uma situação de vulnerabilidade social deverá realizar a solicitação no CRAS, logo após deverá ser realizada uma visita domiciliar, diante disso é assegurada sua inserção no acompanhamento socioassistencial no CRAS; Cesta Básica é concedida às famílias que se encontram em uma situação de pobreza. Este benefício é garantido no CRAS e só pode ser concedido após a visita domiciliar para avaliação social daquela família. Nas observações realizadas em campo, percebemos que as famílias do PBF que são atendidas no CRAS Angorá de Itaitinga, procuram a instituição somente quando é estritamente necessário, ou seja, para solicitar um benefício eventual da Cesta Básica, ou quando vai solicitar informações acerca de como integrar um novo membro familiar ao Bolsa Família. Das sete entrevistadas, quando indagadas acerca se as mesmas participam de atividades no CRAS Angorá de Itaitinga, todas alegaram que não participam e que seus filhos também não participam, em decorrência de os mesmos não buscam participar por livre e espontânea vontade. Diante disso, percebe-se que essas famílias não são muitas assíduas no CRAS, e uma das dificuldades enfrentadas pelo CRAS Angorá é fazer com que essas famílias que tem acesso ao programa, participem das atividades desenvolvidas na instituição. Sendo que a maioria das entrevistadas alegaram falta de tempo, em decorrência que sua vida é muito corrida, enfrentam uma jornada de trabalho intensa, são consideradas chefes de família e responsáveis para resolver todos os problemas que venha a surgir em seu âmbito familiar e dentre outros. 37 1.4 PERFIL DAS ENTREVISTADAS Como salientamos anteriormente na construção do processo metodológico desta investigação, realizamos uma pesquisa de campo visando coletar dados sobre as condições de vida das famílias que acessam o Programa Bolsa Família. Foram entrevistadas sete usuárias do Programa Bolsa Família, sendo que todas elas são as representantes legais do Programa. Utilizei entrevistada nº 1, 2, 3 e assim sucessivamente para identificá-las. Apresento logo abaixo, seus perfis. ENTREVISTADA Nº 1: 20 anos, autodenomina-se parda, solteira, tem 2 filhos, mora em Itaitinga – CE no bairro Angorá, mora em imóvel alugado, estudou até a 6º série no ensino fundamental incompleto, é contratada pela prefeitura de Itaitinga como cozinheira. A renda familiar é em média um salário mínimo. Antes e depois de receber o benefício não freqüentava e continua não freqüentando nenhum espaço na área de lazer com seus filhos. Antes e depois de receber o Bolsa Família a mesma relatou que trabalhava lavando roupa para “fora” e como surgiu a oportunidade de trabalhar como cozinheira na prefeitura de Itaitinga, proporcionou uma condição melhor. A entrevistada nº 1, define o Programa Bolsa Família como um benefício que trouxe melhorias em sua vida proporcionando a condição de garantir a complementação da sua renda. É a titular responsável do Bolsa Família, recebe o benefício há 4 anos, até a data da entrevista o benefício estava em situação liberado, atualmente está recebendo o valor de R$ 158,00. ENTREVISTADA Nº 2: 29 anos, autodenomina-se parda, solteira, tem apenas uma única filha, mora em Itaitinga -CE no bairro Centro, mora em imóvel próprio com sua filha e sua mãe. Estudou até a 8º série possui nível fundamental completo, trabalha na prefeitura de Itaitinga, sua função é serviços gerais. A renda familiar é em média a dois salários mínimos. Antes de receber o benefício freqüentava alguns espaços na área do lar em Fortaleza, após o recebimento permanece freqüentando a praia, parques temáticos, cinema, 38 entretanto quando se tem recurso e tempo disponível. Sua vida antes do benefício era relativamente “boa”, de acordo com suas palavras, e após passar a receber o benefício melhorou um pouco mais. A entrevistada nº 2 define o Bolsa Família como um recurso proveniente do Governo, destinado as famílias que recebem até a dois salários mínimos para auxiliar nas despesas de casa e melhorar as condições de vida, principalmente daquelas famílias que mais necessitam. É a responsável familiar referente do Programa Bolsa Família, recebe o benefício há 4 anos, até a data da entrevista o benefício estava em situação liberado, atualmente está recebendo no valor de R$ 60,00. ENTREVISTADA Nº 3: 32 anos, autodenomina-se Branca, solteira, tem 3 filhos, mora em Itaitinga – CE no bairro Angorá, mora em imóvel próprio, estudou até a 5 série do ensino fundamental incompleto, é contratada pela prefeitura de Itaitinga como cozinheira. A renda familiar é em média a dois salários mínimos. Antes e depois de receber o Bolsa Família freqüentava e continua frequentando espaços na área do lazer como praia, uma vez por mês com seus filhos. Antes e depois de receber o Bolsa Família a mesma relatou que sempre trabalhou lavando roupas para fora, além de se dona do lar. A entrevistada nº 3 define o Programa Bolsa como um benefício que trouxe tranqüilidade e melhorias em sua família. É a titular responsável do Bolsa Família , recebe o benefício há 4 anos, até a data da entrevista o benefício estava em situação liberado, atualmente está recebendo o valor de R$ 230,00. ENTREVISTADA Nº 4: 33 anos, autodenomina-se Branca, casada, tem 3 filhos, mora em Itaitinga – CE no bairro Carapió, mora em imóvel alugado, estudou até a 4 série do ensino fundamental incompleto, não trabalha a não ser em casa. A renda familiar é em média a um salário mínimo. Antes e depois de receber o Bolsa Família não freqüentava nenhuma área do lazer. Antes e depois de receber o Bolsa Família a mesma relatou que sempre trabalhou como dona do lar. A entrevistada nº IV define o Programa Bolsa 39 como um benefício que proporcionou e proporciona uma condição mais digna. É a titular responsável do Bolsa Família , recebe o benefício há 7 anos, até a data da entrevista o benefício estava em situação liberado, atualmente está recebendo o valor de R$ 130,00. ENTREVISTADANº5: 35 anos, autodenomina-se parda, viúva, tem 4 filhos, mora em Itaitinga – CE no bairro angorá mora em imóvel próprio, estudou até a 5º série possui nível fundamental incompleto, além de ser dona do lar, trabalha fazendo faxina nas casas de famílias. A renda familiar é em média a um salário mínimo. Antes e depois de receber o Bolsa Família não tinha costume e nem freqüentar espaços na área do lazer, em decorrência de ter pouco recurso para investir em espaços na área do lazer com seus filhos. Antes e depois de receber o Bolsa Família a mesma relatou que sempre trabalhou como faxineira nas casas de famílias para garantir o sustento de sua família. A entrevistada nº 4 define o Programa Bolsa como um benefício que trouxe muitas melhorias em sua vida, até porque segunda a mesma é responsável para garantir a sustentabilidade de sua família. É a titular responsável do Bolsa Família , recebe o benefício há 6 anos, até a data da entrevista o benefício estava em situação liberado, atualmente está recebendo o valor de R$ 198,00. ENTREVISTADA Nº 6: 40 anos, autodenomina-se parda, separada, tem três filhos, mora em Itaitinga –CE, no bairro Centro com seus filhos em domicilio alugado. Estudou até a 5º série possui nível fundamental incompleto, já trabalhou como faxineira em casas de famílias em Fortaleza- CE para complementar a renda da família. Atualmente, a mesma trabalha como ajudante de cozinha. A renda familiar é em média a um salário mínimo, mais o recurso proveniente do Bolsa Família. Antes de receber o programa não frequentava nenhuma área do lazer, e após passar a recebê-lo passou a frequentar a parque, circo que aparecia no município, entretanto quando o dinheiro permitia levava seus filhos. 40 Antes e depois de receber o Bolsa Família a mesma relatou que trabalhava como faxineira nas casas de famílias para garantir sustento dos filhos. Antes do programa era difícil, logo após passar a receber o PBF melhorou consideravelmente. Mas atualmente trabalha como ajudante de cozinha em uma empresa. A entrevistada nº 5 afirma que recebe o benefício faz 7 anos, sua vida antes de receber o PBF era muito difícil, porque passava por algumas necessidades. A entrevistada define o PBF como uma renda que o governo disponibiliza, portanto é uma renda extra que a ajudar nas despesas de casa. A mesma utiliza esse recurso proveniente do benefício na compra de alimentos e quando possível na compra de vestimenta. Segunda a mesma acredita que o Bolsa Família tem contribuído para garantir uma renda extra e uma condição melhor de vida (condições melhores) para a família. É a única responsável para organizar, sustentar, educar e gerir sua casa e a vida de seus filhos, até a data da entrevista o benefício estava em uma situação liberado, atualmente está recebendo o valor de R$ 130,00. Diante disso, a mesma assume uma dupla jornada de trabalho, porque além de ser “dona do lar”, trabalha fora de casa e cuida dos filhos. ENTREVISTADA Nº 7: 53 anos, autodenomina-se branca, separada, tem duas filhas, mora em Itaitinga - CE no bairro Angorá mora em imóvel alugado com suas filhas. Estudou até a 2º série possui nível fundamental incompleto, é autônoma, trabalha vendendo produtos da Avon. A renda familiar é em média a um salário mínimo. Antes e depois de receber o bolsa família não freqüentava e nem freqüenta espaços na área de lazer em decorrência de não ter recursos financeiros suficiente. Antes e depois do recebimento do bolsa família a mesma relatou que sempre trabalhou como autônoma para garantir a sustentabilidade de sua família. A entrevistada define o Programa Bolsa Família como um benefício que veio para “ajudar sua família”, proporcionando uma qualidade de vida melhor e satisfatória. É a titular responsável do Bolsa Família, recebe o benefício há 5 anos, até a data da entrevista o benefício estava em situação liberado, atualmente está recebendo no valor de R$ 102,00. 41 Esse foi o perfil traçado dos usuários entrevistados do PBF, tendo como representante legal a mulher, porque geralmente o titular do benefício são as mulheres, que em sua grande maioria são as responsáveis por gerenciá-los. Vale destacarmos que essas entrevistas nos possibilitaram identificar que o público alvo pesquisado trata-se das mulheres, como foi citado anteriormente, em uma idade adulta, apresentando como faixa etária entre 20 a 53 anos de idade. Um dado interessante a destacar que três das entrevistadas afirmam ser solteiras, assumindo todas as responsabilidades de educar, criar e garantir o sustento de seus filhos, duas afirmam ser separada, uma viúva, entrevistada nº5, e apenas uma, entrevistada nº 4 afirmou ser casada. Dentre as setes entrevistadas, somente três possuem imóvel próprio, entrevistada nº 2, 3, 5, e as demais possuem imóvel alugado. Percebe-se que a maioria das entrevistadas reside no bairro Angorá no município de Itaitinga, apenas duas entrevistadas nº 2, 6 residem no centro de Itaitinga, e uma única reside no Carapió entrevistada nº 4 e que possui em sua grande maioria uma renda familiar de um salário mínimo, duas alegaram receber até dois salários mínimos, as entrevistadas nº 2, 3. A maioria das entrevistadas já exerceu atividades profissionais como autônomas e quando entrevistadas a maioria alegou está trabalhando, apenas a entrevistada nº 4 afirmou não trabalhar, porém trabalha com os afazeres domésticos. Apenas uma possui carteira assinada a entrevistada nº 6. A maioria das entrevistadas informou que o dinheiro advindo do trabalho garante a complementação da renda familiar, pois apesar de receberem o benefício, a renda não é suficiente para garantir o sustento da família. Em relação ao grau de instrução, das sete entrevistadas, apenas uma entrevistada nº 2 cursou o ensino fundamental completo, enquanto as seis possuem ensino fundamental incompleto. Quando indagadas se o PBF tem contribuído para melhorar sua condição de sustentabilidade, todas afirmaram 42 que este programa tem contribuindo para garantir uma condição de vida melhor, além de ser um recurso financeiro que garante complementar a renda familiar, possibilita também o acesso de compra, ou seja, garante que as mesmas passem a consumirem com mais frequência e concomitantemente possibilita que esse dinheiro circule no próprio bairro, gerando o poder de consumo. Apesar de alegarem em suas afirmações que o Bolsa Família, é um benefício que trouxe melhorias em suas vidas, percebe-se que não é suficiente, porque ainda continuam numa situação de privações e necessidades. Como podemos observar, das sete entrevistadas, quando indagadas se antes de receber o PBF quais espaços de lazer frequentavam e após passar a recebê-lo que espaços passaram a frequentar, a maioria afirmou que tanto antes quanto depois do recebimento do Bolsa Família não costumavam frequentar nenhum espaço de lazer e nem frequenta na atualidade, embora uma entrevistada nº 2 relatou que antes de receber o benefício a situação era difícil, mas após passar a recebê-lo, passou a frequentar pelo menos uma vez por mês, cinema, praia e parques temático. Observa-se nas análises das entrevistadas que elas são consideradas as titulares responsáveis por receber e gerenciar o Bolsa Família, e três entrevistadas recebem o benefício há 4 anos, duas entrevistadas nº 4, 6 recebe faz 7 anos e somente a entrevistada nº7 recebe 5 anos e a entrevistada nº 5 recebe o benefício faz 6 anos, e todas apresentaram até a data da entrevista o benefício liberado. Diante das análises acerca da contribuição desse benefício na vida das entrevistadas, podemos perceber que o Bolsa Família é um benefício que garante um impacto significativo em suas vidas, tanto no âmbito social e econômico. Embora veja o PBF apenas como um recurso financeiro, que possibilita uma renda extra para complementar a renda. Podemos perceber também através de seus relatos que esse recurso proveniente do Governo Federal não é suficiente para garantir uma qualidade de vida saudável, em decorrência de que ainda passam por necessidades e privações no seu cotidiano. 43 A partir das análises apresentada logo acima, apresentamos a questão que será problematizada no próximo capítulo onde inicialmente abordaremos a categoria Assistência Social no cenário atual, contemplando suas diretrizes e normatizações, discutiremos também a categoria família, apresentando suas novas configurações. 44 2. ASSISTÊNCIA SOCIAL E FAMÍLIA 2.1 ASSISTÊNCIA SOCIAL NO CENÁRIO ATUAL Para compreender a trajetória da Política de Assistência Social no Brasil, é necessário realizarmos um breve resgate histórico da referida política. Assim, a Assistência Social no Brasil teve sua origem em ações e práticas, desenvolvidas pela Igreja Católica. Portanto, suas ações e práticas eram baseadas na caridade e filantropia, ou seja, sendo considerada uma prática antiga da humanidade. (MESTRINE, 2008). É importante relatarmos que a Constituição Federal - CF de 1988 é considerada um marco histórico no que diz respeito ao reconhecimento dos direitos sociais, ainda mais quando se trata da área da Assistência Social, pois por um longo período essa política foi considerada e reconhecida como uma assistência aos necessitados que precisavam de ajuda e apoio. Portanto, essa ajuda e apoio pautavam-se na solidariedade, na caridade e na benemerência, inclusive sendo historicamente o direito à assistência social que estava interligada ao apelo e à benevolência das pessoas que se intitulavam almas caridosas, ou seja, pessoas caridosas. Na década de 1930, a pobreza ainda era tratada como uma refração da questão social emergente da contradição capitalista sendo tratada como “caso de polícia”, no qual o atendimento era realizado através dos aparelhos coercitivos do Estado, já que a pobreza era tratada como uma situação individual e não coletiva, ou seja, era uma disfunção individual. Portanto, se o indivíduo estava naquela situação de pobreza não era em decorrência do Estado e sim em decorrência do próprio indivíduo que não estava buscando alternativas, meios de conseguir se reestruturar posteriormente sair daquela situação de pobreza. financeiramente, e 45 Como foi citado anteriormente, a Política de Assistência Social, no cenário nacional apresenta em sua trajetória histórica práticas baseadas na filantropia, no assistencialismo, na caridade, práticas estas que permaneceram até a década de 40, entretanto não era ainda considerada como direito. Embora, essa prática ainda permaneça até hoje. Diante disso, como essa política se configura no cenário nacional? Ressaltamos que em 1942 foi criada a primeira instituição de assistência social no Brasil, foi a Legião Brasileira de Assistência 19 - LBA. Tal instituição apresenta em sua gênese a presença de práticas de caráter assistencialista. Dessa forma, quando a LBA foi criada tinha como objetivo principal garantir o atendimento das famílias dos pracinhas combatentes da 2ª Guerra Mundial, no qual venho a se caracterizar como um atendimento materno-infantil. Assim, com o passar do tempo a instituição foi se expandindo, em decorrência disso, foi acompanhando a trajetória do desenvolvimento econômico e social no Brasil, no qual as demandas que foram surgindo, necessitavam de Políticas Públicas, que realmente fossem concretizadas e postas em práticas, em decorrência de que a sociedade em sua grande maioria se encontrava numa situação de vulnerabilidade social. Portanto, a LBA era representada por uma gestão coordenada pela primeira- dama, considerada como um marco histórico da Assistência Social, entretanto impregnada de características de tutela, clientelismo na relação de Estado e sociedade e também apresentava a ideia de favor que de certa forma está relacionada ao assistencialismo que era desenvolvido, proporcionando desta forma, uma repercussão de traços deste período referente às políticas sociais que ainda se encontram presente nos dias atuais (BEHRING, 2008). Assim, segundo Behring (2008), a LBA se tornou uma instituição articuladora da Assistência Social entre redes de instituições privadas e o 19 Encontra-se em: Texto produzido para a Capacitação Regional de Conselheiros Estaduais e Municipais de Assistência Social. Agosto/2000. Disponível em: http://www.mpgo.mp.br/portal/system/resources. Acesso em 21/11/2013. 46 Estado. Portanto, as ações relacionadas à área da infância e juventude com o surgimento do Código de Menores e do Serviço de Assistência ao Menor – SAM apresenta um caráter punitivo, inclusive essas ações foram iniciadas em 1941. É interessante mencionarmos que em 1974 foi criado o Ministério da Previdência e Assistência Social, baseado na centralidade e ação federal. Portanto, a Constituição Federal – CF de 1988 compreende a Assistência Social como um instrumento legal que proporcionou avanços e transformações no âmbito da garantia da universalização dos direitos sociais e a responsabilidade principalmente do aquelas Estado, diante pessoas que das se demandas encontram da na sociedade, situação de pauperização e que necessitam de políticas afirmativas. Assim, esta Constituição passa a reconhecer a Assistência Social como política social pública inserida no âmbito do tripé da Seguridade Social, junto com as políticas de Saúde e a Previdência social. De acordo com o art.199, previsto na Constituição: A Seguridade Social compreende um conjunto integrado de ações de iniciativa dos poderes públicos e da sociedade, destinadas a assegurar os direitos relativos à Saúde, a Previdência e à Assistência social. Parágrafo único – Compete ao poder publico, nos termos da lei, organizar a seguridade social, cm base nos seguintes objetivos: I – universalidade de cobertura e do atendimento; II – uniformidade e equivalência dos benefícios e serviços às populações urbanas e rurais; III – seletividade e distributividade na prestação dos benefícios e serviços; IV – irredutibilidade do valor dos benefícios; V – equidade na forma de participação no custeio; VI – diversidade da base de financiamento; VII - caráter democrático e descentralizado da administração, mediante gestão quadripartite, com participação dos trabalhadores, dos empregados, dos aposentados e do Governo nos órgãos colegiados. (BRASIL, 2012, p.53) Percebemos que a CF/88 apresenta dois vieses para a população conseguir ter acesso as políticas de Seguridade Social, dentre elas podemos destacar: a contributiva que refere-se à Previdência Social aos segmentos dos 47 trabalhadores e posteriormente a não contributiva de caráter universal, que refere-se a Saúde e à Assistência Social. Destacamos o que foi exposto anteriormente, a Constituição Federal de 1988 foi um marco histórico no reconhecimento dos direitos sociais, portanto esta conquista só foi possível em decorrência de vários movimentos sociais que lutaram a favor de uma sociedade mais igualitária, diante destas organizações por parte destes movimentos, no qual se realizavam discussões acerca de uma condição de vida mais digna, culminou na proposta da Lei Orgânica e de Política de Assistência social em favor das pessoas que se encontravam na situação de vulnerabilidade social. Dessa forma, esse marco histórico das conquistas dos direitos sociais a favor da população, se encontra presente principalmente na área da assistência social, em decorrência de que esta política por um longo período foi reconhecida, tratada no Brasil como uma prática pautada na solidariedade, no assistencialismo, no qual se realizava a prática de assistência aos mais necessitados, aos pobres, aos doentes, viajantes e aqueles indivíduos mais vulneráveis, frágeis, que diante disso, necessitavam de ajuda e apoio. Conforme mencionando anteriormente, é relevante destacarmos que a LBA apresenta em sua gênese a presença do patriotismo e das mulheres que estavam dispostas a ajudarem aqueles indivíduos que necessitavam de um auxílio. Portanto, diante deste breve histórico, ressaltamos que em 1988 foi promulgada a Nova Constituição Brasileira, sendo considerada uma conquista, um marco histórico, no qual teve a participação, ou seja, o apoio da população, culminando em avanços no âmbito da área da Assistência social, tendo como objetivo romper com as tradições que foram construídas ao longo da história. Em decorrência disso, a Assistência social passou a ser reconhecida e tratada como política social pública. Podemos perceber que a CF/88 estabelece avanços no âmbito da proteção social, no qual a Assistência Social passou a ser reconhecida como 48 direito, superando práticas assistencialistas, conforme prevê o art. 203 e o art.204 da CF/88 abaixo relacionados: Art.203 – A assistência social será prestada a quem dela necessitar, independentemente de contribuição à seguridade social, e tem por objetivo; I – a proteção à família, à maternidade, à infância, à adolescência e à velhice; II – o amparo às crianças e adolescentes carentes; III – a promoção da integração ao mercado de trabalho; IV – a habilitação e reabilitação das pessoas portadoras de deficiência e a promoção de sua integração à vida comunitária; V – a garantia de um salário mínimo de beneficio mensal à pessoa portadora de deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover à própria manutenção ou de tê-la provida por sua família, conforme dispuser a lei. (BRASIL, 2012, p.56) Art.204 – As ações governamentais na área da assistência social serão realizadas com recursos do orçamento da seguridade social, previstos no art.195, além de outras fontes, e organizadas com base nas seguintes diretrizes: I – descentralização político-administrativa, cabendo a coordenação e as normas gerais à esfera federal e a coordenação e a execução dos respectivos programas às esferas estadual e municipal, bem como a entidades beneficentes e de assistência social; II – participação da população, por meio de organizações representativas, na formulação das políticas e no controle das ações em todos os níveis. Parágrafo único. É facultado aos Estados e ao Distrito Federal vincular a programa de apoio à inclusão e promoção social até cinco décimos por cento de sua receita tributária líquida, vendada a aplicação desses recursos no pagamento de: I – despesas com pessoal e encargos sociais; II – serviço da dívida; III – qualquer outra despesa corrente não vinculada diretamente aos investimentos ou ações apoiados. (BRASIL, 2012, p.56) Ainda, em 1990, teve a primeira redação da Lei Orgânica de Assistência Social – LOAS, no qual foi vetada. Contudo, com os extensos debates e discussões acerca de projetos e emendas, a LOAS foi sancionada 20 pelo presidente Itamar Franco, no dia sete de dezembro de 1933 e teve sua publicação no Diário Oficial da União em oito de dezembro de 1933. 20 Encontra-se em: Texto produzido para a capacitação Regional dos Conselheiros Estaduais e Municipais de Assistência Social. Agosto/2000. Disponível em: www.mp.go.gov.br/portalweb/hp/41/docs/historico_da_politica_de_assistencia_social_2000.pdf. 49 Portanto, a lei nº 8.742/93 regulamenta a LOAS, que dispõe de 42 artigos, divididos em seis capítulos que além de regulamentar o que está exposto na Constituição Federal de 1988, apresenta em seu contexto uma organização acerca da Assistência Social, estabelecendo desta forma, normas, critérios e objetivos. Diante do exposto, é interessante destacarmos acerca desta lei, que o seu capítulo I, refere-se às definições e posteriormente aborda sobre os novos avanços acerca dos objetivos da Assistência social, apresentado na CF/88, que refere-se à proteção à família, à maternidade, à infância, à adolescência, à velhice, a habilitação e a reabilitação da pessoa portadora de deficiência. Ainda acerca desta lei, vale ressaltarmos a titulo de informação que a expressão “pessoa portadora de deficiência”, disposto no art. 2 dos incisos IV e V, são expressões que foram substituídas pela terminologia “pessoa com deficiência” em decorrência de que a condição de deficiência é algo que já se integra a pessoa e diante disso, não teria como portar algo que já se integra a própria pessoa21. O capítulo II refere-se acerca dos princípios e diretrizes, no qual se estabelece os princípios que são primordiais para a universalização dos direitos sociais para a população, dentre eles destaca-se a dignidade, autonomia dos usuários e principalmente a igualdade no acesso ao atendimento, sem distinção de classe social, cor, etnia, enfim, garantindo aos usuários seus direitos previstos na Constituição Federal. Destacam-se também as diretrizes de descentralização político – administrativa, no qual para cada esfera do governo apresenta o comando único e posteriormente a participação da população referente à formulação das políticas e no controle das ações, estabelecendo desta forma, a responsabilidade do Estado na condução da política de Assistência Social conforme a cada esfera do governo. 21 Esta informação encontra-se: LOAS ANOTADA – Lei Orgânica de Assistência Social. Em uma publicação realizada pela Secretaria Nacional de Assistência Social – SNAS. Portanto, esta informação está publicada num caderno de anotações, elaboradas pela Coordenação – Geral de Regulação Público e Privado do Departamento de Gestão do Sistema Único da Assistência Social – DGSUAS em parceria com a Consultoria Jurídica do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome – MDS. Brasília. 50 O capítulo III aponta acerca da organização e da gestão, indicando a definição que deveram as ações serem organizadas em um sistema descentralizado e participativo, aborda acerca das normas gerais para o funcionamento das entidades e organizações de Assistência Social em parceria com diversos setores envolvidos nessa área. O capítulo IV trata sobre os benefícios, serviços, programas e projetos de Assistência Social, conforme o disposto nesta lei regulamenta o Beneficio de Prestação Continuada – BPC, que assegura o valor de um salário mínimo mensal ao portador de deficiência e ao idoso com 70 anos ou mais que comprovem não possui meios e condições de prover seu próprio sustento ou de tê-la provida por alguns de seus familiares. O capítulo V assinala acerca do financiamento da Assistência Social em suas três esferas de governo, no qual se organiza os recursos provenientes da União, dos Estados e dos municípios. Portanto, diante do exposto salientamos que passou assumir a responsabilidade da administração pública federal como responsável pela coordenação da Política Nacional de Assistência social, desta forma, passa a gerir o Fundo Nacional de Assistência Social – FNAS, entretanto sob a orientação e controle do Conselho Nacional de Assistência Social – CNAS. Por último, mencionamos o capítulo VI que trata das disposições gerais e transitórias e do reordenamento dos órgãos de Assistência Social no âmbito federal para a implantação da lei. É interessante ressaltarmos que no ano de 1997 foi editada a Norma Operacional Básica da Assistência Social – NOB, no qual apresenta um Sistema Descentralizado e Participativo, amplia seu âmbito acerca das competências referentes às esferas do governo municipal, estadual e federal, estabelece a exigência de Conselho, Fundo e Plano Municipal de Assistência Social para o município e posteriormente receber recursos federais. 51 Portanto, no ano de 1998, houve uma nova edição da NOB que diferencia seus serviços, programas e projetos, ampliou os Conselhos de Assistência Social e posteriormente criou espaços de negociações, pactuações e comissões que reuniam representações nas três esferas do governo: municipal, estadual e federal da Assistência Social. É interessante mencionarmos que no ano de 2003, o Conselho Nacional de Assistência Social – CNAS realizou a IV Conferência Nacional de Assistência Social, objetivando avaliar o cenário atual da Assistência Social, nesse sentido visa propor novas diretrizes para culminar em seu aperfeiçoamento. Ainda sobre essa IV conferência, apresentava a discussão acerca da construção e implantação do Sistema Único de Assistência Social – SUAS no cenário Brasileiro. De acordo com o art. 1 da Lei Orgânica de Assistência Social – LOAS: A assistência social, direito do cidadão e dever do Estado, é política de seguridade social não contributiva, que provê os mínimos sociais, realizada através de um conjunto integrado de ações de iniciativa pública e da sociedade, para garantir o atendimento às necessidades básicas. (LOAS ANOTADA, 2009) Nesse sentido, a LOAS criou uma matriz para a política de assistência social, integrando-a no sistema do bem estar social brasileiro no âmbito da Seguridade Social, no qual a mesma apresenta uma articulação com a política de proteção social, interligada a outras políticas sociais. Diante disso, o que se pretende é garantir os direitos sociais e concomitantemente condições mínimas de vida para a população que se encontra na situação de pobreza, ou seja, que os possibilite viver com dignidade. Em 2004, foi criado o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome – MDS que favoreceu para acelerar o processo de implantaçãodo SUAS. Vale ressaltarmos que o Conselho Nacional de Assistência Social – CNAS editou a Política Nacional de Assistência Social –PNAS/2004, com essa nova edição culminou em um novo modelo para a implantação e gestão do SUAS. Este episódio ocorreu em dezembro do mesmo ano que abordamos 52 anteriormente, entretanto destacamos que só foi possível através de uma intensa mobilização no âmbito nacional. Portanto, segundo Yazbek: O SUAS é constituído pelo conjunto de serviços, programas, projetos e benefícios no âmbito da assistência social prestados diretamente – ou através de convênios com organizações sem fins lucrativos -, por órgãos e instituições públicas federais, estaduais e municipais da administração direta e indireta e das fundações mantidas pelo poder público (YAZBEK, p.97). É válido salientarmos que de acordo com a Política Nacional de Assistência Social – PNAS/2004 (2005), o SUAS é um sistema público nãocontributivo, descentralizado e participativo, no qual apresenta como função um modelo de conteúdos voltado somente para Assistência Social referente ao âmbito da proteção social no cenário brasileiro. No ano de 2005, o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome – MDS se utiliza de uma proposta para apresentar para a Norma Operacional Básica (NOB/SUAS), portanto, as discussões e debates acerca desta proposta foram realizadas entre as esferas de governo, municipal, estadual e federal. Mediante o que foi exposto, é válido ressaltarmos que teve a participação conjunta do MDS e do CNAS, sendo assim teve sua versão nova aprovada em 15 de julho do mesmo ano mencionado anteriormente. Como já assinalado acima, esses seminários realizados culminou com avanços no âmbito da Política Nacional de Assistência Social, de acordo com o que é previsto pela LOAS. (YAZBEK, S/D, p.105) É interessante destacarmos que de acordo com a Política Nacional de Assistência Social – PNAS/2004 busca aderir às demandas que perpassam o cenário brasileiro, referente à responsabilidade política, desta forma buscar deixar nítida suas diretrizes na concretização da Assistência Social como direito de cidadania e responsabilidade do Estado para garantir os direitos e o acesso destes e posteriormente cabe ao Estado efetivá-lo. 53 Conforme a PNAS/2004, apresenta em sua organização as diretrizes que foram baseadas na CF/88 e na LOAS, que são a : I – Descentralização político-administrativa, cabendo a coordenação e as normas gerais à esfera federal e a coordenação e execução dos respectivos programas ás esferas estadual e municipal, bem como a entidades beneficentes e de governo, respeitando-se as diferenças e as características socioterritoriais locais; II – Participação da população, por meio de organizações representativas, na formulação das políticas e no controle das ações em todos os níveis; III – Primazia da responsabilidade do Estado na condução da Política de Assistência Social em cada esfera de governo; IV – Centralidade na família para concepção e implementação dos benefícios, serviços, programas e projetos. É importante compreendermos também que em conjunto com as diretrizes mencionadas acima, que a PNAS apresenta os objetivos que irão proporcionar uma continuidade da Política Pública de Assistência Social que se efetiva de forma integrada com outras políticas setoriais, considerando desta forma as desigualdades socioterritoriais, objetivando garantir condições básicas de sobrevivência e garantir seus direitos. Nesta perspectiva a PNAS apresenta como objetivos: Prover serviços, programas, projetos e benefícios de proteção social básica e, ou, especial para famílias, indivíduos e grupos que deles necessitarem. Contribuir com a inclusão e a equidade dos usuários e grupos específicos, ampliando o acesso aos bens e serviços socioassistenciais básicos e especiais, em áreas urbana e rural. Assegurar que as ações no âmbito da Assistência Social tenham centralidade na família, e que garantam a convivência familiar e comunitária. (PNAS, 2004, p.33) De acordo com a PNAS/2004 o público usuário da Política de Assistência Social são aquelas pessoas que se encontram em condições de vulnerabilidade e risco, a PNAS apresenta como modelo de estrutura o nível de Proteção Social Básica e a Proteção Social Especial de média e alta complexidade. 54 Ainda de acordo com a PNAS/2004, ressaltamos que a Proteção Social Básica apresenta como objetivos prevenir a ocorrência de vulnerabilidade e risco social nos territórios, visando fortalecer os vínculos familiares e comunitários, ou seja, é quando os vínculos familiares não foram perdidos, trabalhando desta forma na perspectiva preventiva. Contudo, ressaltamos que quando se trata da ocorrência de violações de direitos sociais e cujos vínculos familiares estiverem rompidos, requisita-se desta forma a Proteção Social Especial, ou seja, há uma necessidade de uma atenção especifica voltada a situação exposta acima, portanto, apresenta a medida protetiva. Conforme assinalado acima, é interessante mencionarmos para melhores fins de compreensão, a definição do Centro de Referência de Assistência Social – CRAS, de acordo com a PNAS/2004: O CRAS atua com famílias e indivíduos em seu contexto comunitário, visando a orientação e o convívio sócio familiar e comunitário. Neste sentido é responsável pela oferta do Programa de Atenção Integral ás Famílias. Na proteção básica, o trabalho com famílias deve considerar novas referências para a compreensão dos diferentes arranjos familiares, superando o reconhecimento de um modelo único baseado na família nuclear, e partindo do suposto de que são funções básicas das famílias: prover a proteção e a socialização dos seus membros; constituir-se como referências morais, de vínculos afetivos e sociais; de identidade grupal, além de ser mediadora das relações dos seus membros com outras instituições sociais e com o Estado. (PNAS, 2004 p. 35) Assim, assinalamos que sua ação se concretiza de fato através da disponibilização ao dar a referência ao usuário na rede sócioassistencial do SUAS, em decorrência de realizar o encaminhamento para os serviços que os usuários necessitam, quando se encontram na situação de vulnerabilidade e risco social. É interessante ressaltarmos que diante do que foi dito neste capítulo sobre a operacionalização da política de Assistência Social é relevante mencionar que a mesma apresenta como carro - chefe o Programa de Transferência de Renda – PTR, entendida ainda como “moeda” de troca, portanto, essas ideias e práticas filantrópicas, assistencialistas, paternalistas permanecem até hoje na sociedade. A população necessita entender que o 55 direito de ter acesso a saúde, educação e assistência social não são favores, mas um direito assistido por lei, como o caso da saúde (direito universal). É válido mencionarmos que o debate acerca de Programas de Transferências de Renda só passa a fazer parte da agenda pública do Brasil, somente em 1991, foi o período que foi apresentado e logo após aprovado, no Senado Federal. Portanto, o projeto de lei n.80/1991 do senador Eduardo Suplicy propôs o Programa de Garantia de Renda Mínima – PGRM. O PGRM era destinado aos maiores de 25 anos de idade com renda de 2,25 salários mínimos, esses valores correspondem ao ano de 200522. As Transferências de Renda são consideradas importantes em decorrência que pode proporcionar a redução da pobreza e concomitantemente a desigualdade no país. Um dado interessante a ressaltarmos que essas transferências de renda garantem que as famílias possam consumir mais, com esse consumismo possibilita e estimula o investimento. Portanto, com a transferência de renda estimula o consumo das pessoas, embora caso essas famílias que tem acesso ao programa tiverem seus benefícios cancelados, esse estimulo vem a diminuir23. A Política de Assistência Social, embora tenha sido conhecida de forma participativa é uma política que chegou para as famílias de cima para baixo, ou seja, não houve uma preparação no sentido de conscientizá-las acerca de seus direitos e deveres a cumprir. A filantropia e o assistencialismo são práticas antigas que ainda persistem até hoje na Assistência Social. A Assistência Social avança, em decorrência que a mesma cria mecanismos, é uma política estruturada numa lei, possui uma série de diretrizes, normatizações, entretanto, isso não é suficiente para quebrar essa prática paternalista e assistencialista. A Assistência Social traz no seu processo histórico todos esses elementos. A população encontra dificuldades de entender, como por exemplo: quando a 22 Encontra-se em: www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-81232007000600006&script=sci_arttext. Acesso em 03/01/2014. 23 Encontra-se em: htpp//www.repositorio.ipea.gov.br/bitstream/11058/1946/1/TD_1283.pdf. 03/01/2014. Acesso em 56 mesma vai para um atendimento no CRAS, ela não vai poder ter acesso rápido a Cesta Básica, as pessoas precisam entender que existe critérios para acessá-lo, não entendem como a política está estruturada. Portanto, dentro desse contexto, no orçamento limitado, as políticas são focalizadas, seletivas, restritas, ou seja, aquelas famílias que não se enquadrarem no perfil para acessar o programa não terão acesso. É importante destacarmos que um dos maiores desafios enfrentados é fazer com que a população que herdou práticas caritativas, assistencialistas, compreenda que a mesma necessita se mobilizar, reivindicar seus diretos e se organizar, até porque essa população tornou-se alvo fácil de manipulação num contexto em que havia a necessidade de tornar o povo brasileiro cidadão, pessoas conscientes e organizadas, ou seja, que as mesmas reivindicassem e lutassem pelos seus direitos24. É interessante destacarmos que a Política Nacional de Assistência Social ressalta que entre suas diretrizes, o foco de suas ações e programas estão voltadas para a família. Assim, é interessante elencarmos que as mulheres são uma das principais demandantes dos benefícios assistenciais ofertados no CRAS, citando como exemplo os programas de transferência de renda e inclusive é uma das responsáveis por cumprir as condicionalidades. Portanto, a Política de Assistência Social visa a possibilidade de autonomia, entretanto, sabe-se que os instrumentos, ou seja, as ferramentas utilizadas não são totalmente compatíveis com o desafio que está para ser enfrentando posteriormente. Importa ressaltarmos ainda que, não há compatibilidade em se falar acerca da promoção da autonomia das mulheres, quando as estratégias estão orientadas no âmbito do reforço da associação dos papéis femininos no que se refere à mulher e a maternidade25. Esses programas vieram com o propósito de garantir a possibilidade de uma vida digna para aquelas famílias que se encontram na pobreza. No item 24 Encontra-se em: http://www.boooks.scielo.org/id/vwc8g/pdf/piana-9788579830389-02. Acesso em 03/01/2013 25 Encontra-se em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-026x20100009&script=sci_arttext. Acesso em 04/01/2013 57 seguinte, abordaremos a categoria família e suas novas configurações no cenário brasileiro. 2.2 FAMÍLIA: SUAS NOVAS CONFIGURAÇÕES Salientamos que neste estudo, fazemos referência ao conceito de família e debatemos acerca de suas novas configurações. Assim, percebe-se que há uma necessidade em trabalhar com a categoria família que se revela no público que é direcionado o Programa Bolsa Família em debate neste estudo. Ressaltamos que neste tópico abordaremos de forma breve como a família tem sido pensada ao longo dos tempos, bem como as modificações que foram ocorrendo em diferentes momentos históricos. Em primeiro momento, se tratando de família, destacamos o conceito de Bourdieu, A definição de família é, antes de tudo, uma descrição, mas que, na verdade, constrói a realidade social. Nesta definição, família é um conjunto de indivíduos aparentemente ligados entre si – seja pela aliança (o casamento), seja, pela filiação, seja mais excepcionalmente pela adoção (parentesco) – e vivendo sob o mesmo teto (coabitação) (BOURDIEU, 1993 apud Uziel, 2002, p.89). Como colocado, a família seria um conjunto de pessoas que estão interligadas entre si, que além de viverem sobre o mesmo espaço no âmbito familiar, são responsáveis por construírem esta realidade social no qual se encontram inseridos. Importa ressaltarmos que de acordo com Almeida (1987) a família nuclear burguesa surgiu a partir da ascensão da burguesia industrial, mas também a partir do desenvolvimento e do aprimoramento ideológico da família protestante e dentre outros, mas principalmente estava interligada ao espírito burguês da revolução, ou seja, a ideia da democracia formal (ALMEIDA, 1987, apud OSTERNE 2004). 58 A família burguesa apresentava em seu contexto uma forma nuclear, representada pela figura do pai, da mãe e dos filhos, ou seja, era organizada numa rígida divisão sexual de papéis, sendo que era de responsabilidade do pai garantir o sustento, ou seja, o provedor do lar, enquanto para a mulher competia o papel de mãe de cuidar e zelar pelos seus filhos e seu lar. (OSTERNE, 2004). Portanto, segundo Uziel (2002), família é a construção destas realidades sociais, por meio da socialização, mediante a divisão em famílias, embora estas realidades sociais sejam questões fantasiosas, no qual seja coletivamente reconhecido, assim, o que se denominaria família é uma família real. É válido salientarmos que segundo Bourdieu (1993) a família é a parte essencial de se formar e organizar uma entidade unida, integrada, unitária, sólida, constante, indiferente à flutuação acerca dos sentimentos relacionados ao âmbito individual (Bourdieu, 1993 apud UZIEL, 2002, P.87). Assim, para Ariès (1981) no século X a família em questões relacionadas ao patrimônio não tinha expressão. Desta forma, a ocorrência de oscilações do Estado e a concepção de linhagem foram adquirindo força, tendo como uma das principais preocupações a não divisão do patrimônio (Ariès, 1981, Apud, GUEIROS, 2002, p.105). Segundo Gueiros (2002) a partir do século XV as crianças, tendo como especificidade os meninos, foram educados em escolas de forma gradativa. Assim, a família passa a ser o centro das atenções no âmbito familiar, objetivando desta forma a garantia da transmissão de conhecimentos de geração a geração tendo a participação das crianças na vida do adulto. Ainda de acordo com este autor referido, a família medieval no século XIV passa apresentar a ocorrências de transformações que foram prolongadas até o século XVII. Ainda neste período histórico, ressaltamos que a situação da mulher foi marcada por mudanças, no qual se destaca a perda de seus 59 poderes. Este episódio vem culminar com a formalização da incapacidade jurídica da mulher casada e concomitantemente com a soberania do marido diante da família. Portanto, a mulher perde qualquer direito de poder exercer a substituição do marido em casos relacionados à sua ausência, a loucura, caso o mesmo seja considerado louco, e suas atitudes somente terão credibilidade, caso tenha autorização do marido. Diante do exposto, destacamos que a legislação desse período histórico vem reforçar de certa forma o poder autoritário do homem para com a mulher, culminando desta forma para a desigualdade entre ambos. Vale destacarmos que a escola só passou a fazer parte da vida das meninas no final do XVIII e início do século XIX. Ainda neste período, Ariès (1981) afirma que: Os laços de linhagem – característica da Idade Média – se enfraquecem, e, paralelamente ao fortalecimento do poder do marido, passa-se a valorizar os laços de família e, a partir de então, começa o desenvolvimento da família moderna. (Ariès, 1981. apud, GUEIROS, p.106. 2002). Portanto, com o enfraquecimento destes laços de linhagem e concomitantemente com o enfraquecimento do poder que o marido exercia sobre a mulher, passa a dar mais ênfase às questões relacionadas aos laços familiares desta maneira se desenvolvem a família moderna. Segundo este autor que abordamos logo acima, ressalta-se que no século XVIII foi marcado por mudanças significativas na vida familiar. É válido destacarmos que houve a separação entre o publico e o privado, destacando-se que as famílias passaram a se preocuparem em terem suas intimidades familiares reservadas, relacionadas ao lar, no qual cada integrante da família passa a ter seu próprio cômodo, mantendo desta forma sua privacidade. Ainda neste mesmo período histórico, as questões voltadas à igualdade entre filhos, não era uma prática muito considerada, pois se valorizava apenas um único filho, tendo como preferência era o primogênito. Portanto, diante deste fato, essas questões passaram a ter outro olhar diferenciado, entretanto 60 esta prática na época era considerada como algo civilizado. Cabe ressaltarmos que foram ocorrendo transformações da família medieval para a família do referido século XVII e posteriormente para a família moderna, no qual se restringiam as determinadas classes abastadas. Contudo, no século XVIII essas transformações ocorridas se prolongaram a todas as camadas sociais. (Ariès, 1981, apud, GUEIROS, 2002, p.107). No século XIX ocorreram outras mudanças na estrutura da família e do modelo patriarcal, em virtude da modernização e do movimento feminista, sendo que esse modelo estava sendo questionado. Nesse sentido, inicia o desenvolvimento da família conjugal moderna, portanto o casamento passou a ser realizado de forma consensual entre os parceiros e tendo como referência de interligação o amor. Destacamos a existência da ocorrência de traços da família patriarcal para a família conjugal moderna que perduraram até o século XX, apresentando como base a legislação. Contudo, tanto o homem quanto a mulher foram reconhecidos igualmente no que se refere aos seus direitos e deveres, apenas na constituição de 1988. Portanto, a modernização se desenvolve de forma não-linear, não necessariamente seja obrigatória a existência da superação deste “modelo” pelo outro. (GUEIROS, 2002). Conforme Giddens (2005) no século XX o núcleo familiar tradicional dominante na época, enfrentou um desgaste em grande parte das sociedades industrializadas. A partir daí surgiram várias formas de famílias na atualidade, são as novas configurações familiares. (GIDDENS, 2005). Diante do exposto, também se faz necessário apresentarmos as novas configurações familiares da atualidade. Segundo Kaslow (2001) relata os nove tipos da composição familiar que podem ser reconhecidas e consideradas “família”: 1) família nuclear, incluindo duas gerações, com filhos biológicos; 2)famílias extensas, incluindo três ou quatros; 3) famílias adotivas temporárias (Foster); 4) famílias adotivas, que podem ser bi-raciais ou multiculturais; 5) casais; 61 6) famílias monoparentais, chefiadas por pai ou mãe; 7) casais homossexuais com ou sem crianças; 8) famílias reconstituídas depois do divórcio; 9) várias pessoas vivendo juntas, sem laços legais, mas com forte compromisso mútuo(KASLOW, 2001:37, Apud SZYMANSKI, 2002,p.10). Desta forma, o autor menciona as diversas formas das novas configurações familiares, que estão presentes na atualidade. Portanto, essas novas configurações familiares possibilitaram uma transformação da estrutura da família nuclear, para novos modelos de família na sociedade. Assim, desde a revolução industrial o constructo histórico e social família vêm passando por inúmeras transformações que aparecem de forma clara na contemporaneidade. Diante da exposição mencionada anteriormente sobre a estrutura social familiar em cada momento do período histórico, ressaltamos que de acordo com a Política Nacional de Assistência Social (2004) – PNAS: A família, independentemente dos formatos ou modelos que assume, é mediadora das relações entre os sujeitos e a coletividade, delimitando, continuamente ou deslocamentos entre o público e o privado, bem como geradora de modalidades comunitárias de vida. Todavia, não se pode desconsiderar que ela se caracteriza como um espaço contraditório, cuja dinâmica cotidiana de convivência é marcada por conflitos e geralmente, também, por desigualdades, além de que nas sociedades capitalistas a família é fundamental no âmbito da proteção social. (PNAS, 2004, p.41). Portanto, a família assume a responsabilidade de realizar a mediação entre os sujeitos e a coletividade, restringindo somente os deslocamentos entre o publico e o privado, isso independe dos modelos de famílias assumidas. Contudo, ressalte-se que a família é perpassada também por espaços conflituosos e contraditórios, sendo que nesse sistema capitalista vigente a família é considerada imprescindível para a proteção social. Nos depoimentos a seguir é apresentada a opinião dos usuários do PBF, sobre o conceito de família, de acordo com seu entendimento: 62 Família pra mim é sinônimo de amor. Na verdade é meu pilar, é à base de tudo. Porque em primeiro lugar vem Deus e depois a minha família. Tudo que eu puder fazer pelos meus filhos eu faço. Tendo saúde, o resto se consegue através do trabalho (ENTREVISTADA Nº 4). Família é meu pilar, é a base que me sustenta. Ela é tudo na minha vida. Primeiro vem Deus, depois a minha família (ENTREVISTADA Nº 3). Pra mim ela (família) é tudo, é meu conforto, minha base de tudo, é algo muito sagrado pra mim (ENTREVISTADA Nº 1). Nos depoimentos vistos logo acima, percebe-se que a família é à base de sustentação e de alicerce de todo o núcleo da família. É válido ressaltar que a entrevistada nº 4 e 3 concordam que debater sobre família é levantar questões importantes que estão presentes no cotidiano familiar, enfatizam que não poderia deixar de ressaltar que Deus vem em primeiro lugar e posteriormente a família. Percebe-se que há esse laço de religiosidade, também se observa que ao mencionarem que a família é a base, o alicerce e a sustentação das mesmas, concluímos, portanto que a família é o núcleo onde está centrada toda a base de sua fonte de energia vital: amor, companheirismo, alívio, desta forma a família é considerada extremamente importante em suas vidas. De acordo com Beck e Beck-Gernsheim (1995) o termo amor passou a ter um papel significativo na sociedade e para a família, esta relacionada a uma nova fonte de fé. Desta forma, corresponde à interação com outras pessoas e concomitantemente consigam encontrar a si mesmas, embora o amor também corresponda algo desesperador e ao mesmo tempo um alívio. (BECK, BECKGERSHEIM, 1995, p.175-176 apud Giddens, 2005, p.156-157). Diante da compreensão do amor citado anteriormente, salientamos a concepção de família de acordo com Simões, A família constitui a instância básica, na qual o sentimento de pertencimento e identidade social é desenvolvido e mantido e, também, são transmitidos os valores e condutas pessoais. Apresenta certa pluralidade de relações interpessoais e diversidades culturais, que devem ser reconhecidas e respeitadas, em uma rede de vínculos comunitários, segundo o grupo social em que está inserida” ( SIMÕES, 2008,p.190). 63 Diante do exposto, ressaltamos que o âmbito familiar é considerado como um dos pilares básicos que proporcionam a sustentação e o conforto da família, contudo apresentam valores, crenças, condutas pessoais e diversidades culturais que devem ser respeitadas. Ainda de acordo com Simões, A família, em situação de vulnerabilidade, ficou excluída das garantias tradicionais, geralmente de natureza religiosa, que a capacitavam, por fatores intrínsecos ou extrínsecos, a desempenhar suas funções básicas, dependendo do modo de sua inserção social. (SIMÕES, 2008, p.192). Dessa forma, as famílias em uma situação de vulnerabilidade social terão acesso ao Programa Social do Governo Federal, que garante a essa famílias beneficiadas pelo Bolsa Família condições mínimas de sustentabilidade. Mas, segundo Giddens (2005) a família é um grupo de pessoas que estão unidas por laços parentais, contudo os componentes familiares em fase adulta assumem o compromisso de cuidarem das crianças. Assim, esses laços de parentescos são interligações entre pessoas, seja através do casamento ou por linhagem de descendência que realizam a conexão entre parentes consanguíneos. Observamos, nos depoimentos das entrevistadas a seguir, mais opiniões sobre o conceito de família de acordo com seu entendimento. Família é à base de tudo pra mim, mas também responsabilidade. Só de saber que tem pessoas dependendo de você pra tudo, é difícil. Tenho que encontrar forças pra continuar, até porque eu sou a responsável pra trazer tudo „dento‟ de casa. Família é ótimo, mas sempre tem aqueles desentendimento. Quem não tem né (ENTREVISTADA Nº5) É à base de sustentação, que me dar energia pra continuar trabalhando e nunca desistir de nada, porque é difícil viver com um 1 (um) salário e mais a renda extra da minha mãe. Família é tudo pra mim. (ENTREVISTADA Nº 2). É vida. Ela (família) é muito importante pra mim. É meu conforto, de saber que tem com quem contar, é muito bom. (ENTREVISTADA Nº 7). 64 Nos depoimentos vistos, a maioria refere-se à compreensão do termo família como um laço de amor e segurança que se tornou um núcleo de fundamental importância em suas vidas. A entrevistada nº 5 enfatiza que a família além de ser sinônimo de responsabilidade, também apresenta alguns desentendimentos, desacordos, contudo essas práticas fazem parte de uma família, de acordo com a entrevistada. Portanto, o termo família é sinônimo de conforto, refúgio, contudo apresenta algumas implicações, ou seja, relações de desentendimento que se encontram presentes no ambiente familiar. É interessante ressaltarmos de forma breve que em 1981 no Brasil, as autoras Barroso e Bruschini (S/D, 1981) chegam a publicar um texto, Sofridas e mal pagas, portanto, neste texto abordam acerca da vida das mulheres. Segundo as mesmas chegam a destacar que embora houvesse no Brasil um número significativo de famílias chefiadas por mulheres, foi somente a partir da de 1970 que essas mulheres passaram a ter um olhar diferenciado, ou seja, as mesmas conquistam um espaço em relação às pesquisas sociólogas. (BARROSO; BRUSCHINI; 1981 Apud VITALE S/D, p.47). De acordo com Barroso e Bruschini (1981), É preciso não esquecer que as mulheres chefes - de- família costumam ser também „mães - de- família‟: acumulam uma dupla responsabilidade, ao assumir o cuidado da casa e das crianças juntamente com o sustento material de seus dependentes. Essa dupla jornada de trabalho geralmente vem acompanhada de uma dupla carga de culpa por suas insuficiências tanto no cuidado das crianças quanto na sua manutenção econômica. É verdade que essas insuficiências existem também em outras famílias, e igualmente é verdade que ambas tem suas raízes nas condições geradas pela sociedade. Portanto, esses fatores sociais são ocultados pela ideologia que coloca a culpa na vítima, e o problema se torna mais agudo quando as duas vítimas são encarnadas por uma só pessoa. (BARROSO E BRUSCHINI, 1981:40 Apud VITALE, S/D, p.47-48). Contemplamos, que essas mulheres que são consideradas chefes de família dão conta também da dupla/tripla jornada de trabalho e acabam acumulando para se inúmeras tarefas e afazeres, tendo inclusive de aceitar as condições de trabalho adversas e inúmeras que acabam sendo postas para as mesmas. 65 Segundo, Mioto (2010), A família, nas suas mais diversas configurações constiui-se como um espaço altamente complexo. É construída e reconstruída histórica e cotidianamente, através das relações e negociações que estabelece entre seus membros, entre seus membros e outras esferas da sociedade e entre ela e outras esferas da sociedade, tais como Estado, trabalho e mercado. (MIOTO, 2010, p.167 – 168). Neste sentido, a sociedade vem enfrentando mudanças significativas no que se refere à vida familiar, culminando desta forma para uma diversidade de configurações familiares que estão sendo construídas e reconstruídas constantemente, embora esse âmbito familiar seja perpassado por espaços difíceis e complexos. De acordo com diversos autores, como Sousa (1951), Willems (1953), Pierson (1954), Nogueira (1960), Azevedo (1961) e Wagley (1968), afirmam em seus escritos sobre a organização da estrutura familiar, sobre o casamento e o divórcio, que se verificam mudanças na sociedade nos anos 50 e 60. Portanto, dentre essas mudanças foram analisadas tanto o papel da mulher na sociedade quanto no âmbito familiar, partindo de suas interações à sociedade e aos núcleos domésticos, ou seja, não analisando somente questões relacionadas à submissão e a exclusão. (SOUSA, 1951; WILLEMS, 1953; PIERSON, 1954; NOGUEIRA, 1960; AZEVEDO, 1961; WAGLEY, 1968 apud SAMARA, 1997, p.8) Assim, é interessante ressaltarmos que Saraceno considera que a família, Constitui o material privilegiado com o qual se constroem os arquétipos sociais e os mitos que nem sempre são positivos. Ao lado das imagens da família-refúgio, da família como lugar de intimidade e de afetividade, espaços de autenticidade, arquétipo de solidariedade e de privacidade, juntam-se as imagens “da família como lugar de inautenticidade, de opressão, de obrigação, de egoísmo exclusivo, a família como geradora de monstros, de violências, a família que mata.” (SARACENO, 1997, p.13 apud MARIANO, CARLOTO, 2010, p.452). É válido ressaltarmos que a família vem adquirindo um espaço referente às políticas sociais. Conforme Carvalho (1998), 66 Ressalta que durante o desenvolvimento do Estado de bem-estar social e das políticas de pleno emprego, a questão da família passou para segundo plano. As reformas do Estado nos anos 80/90 recolocaram a questão das relações de complementaridade entre família, as organizações não-governamentais, os próprios beneficiários das políticas e os prestadores de serviços sociais. Mas no caso do Brasil, considera a autora, a família nunca foi descartada, pelo fato de nossas políticas sociais serem muito restritas. (CARVALHO, 1998 Apud MARSIGLIA S/D, p.188). Outra reflexão sobre a família é dada pelo autor Bourdieu (1993) que comenta acerca da família que a mesma poderia ser um privilégio, apresentando a forma universal, ou seja, como deveria ser como se deve, entretanto de acordo com a norma. Assim, essa norma proporciona a família padrões, embora a norma apresente mutações. Portanto, seu sentido é extenso, entretanto apresenta em algumas configurações, no qual sua definição elástica não cabem, ou então podem ficar mal ajustadas. (BOURDIEU, 1993, apud UZIEL, 2002). Nesse sentido, assinalamos que diante do que foi exposto acerca da categoria família, destacamos que no item seguinte, abordaremos a categoria vulnerabilidade no contexto sócio-familiar e o Programa Bolsa Família. 67 3. O PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA E SUAS CONTRIBUIÇÕES NO ENFRENTAMENTO À VULNERABILIDADE 3.1 VULNERABILIDADE NO CONTEXTO SÓCIO FAMILIAR Para compreendermos a categoria vulnerabilidade social é válido destacarmos que se faz necessário apresentar no decorrer do estudo algumas contribuições acerca da noção de risco social e logo após conceituaremos a categoria vulnerabilidade. A partir da década de 1990, o termo vulnerabilidade passou a substituir o conceito da pobreza. Portanto, este conceito é trabalhado por vários autores que afirmam em seus estudos, que este novo conceito aumenta o número de elementos que o conceito de pobreza não tinha. (ARREGUI; WANDERLEY, 2009). Assim, Cunha afirma que, Ao contrário do enfoque da pobreza, este caminho analítico permite trabalhar não apenas com as necessidades das pessoas carentes, mas também com recursos e ativos de que elas dispõem para enfrentar os riscos impostos pelas privações vivenciadas. (CUNHA, 2006, p.12, Apud ARREGUI; WANDERLEY, 2009, p.149). Portanto, o conceito de vulnerabilidade é alvo de estudo de diversas áreas do conhecimento, relacionado à pesquisa acadêmica. Dentre elas destaca-se a geografia, a demografia e a saúde, sendo que as mesmas contribuíram para o processo do desenvolvimento e evolução do conceito de vulnerabilidade. (ARREGUI; WANDERLEY, 2009). Diante do exposto, é interessante abordamos que ao conceituarmos a categoria vulnerabilidade se faz necessário realizarmos uma distinção entre a terminologia pobreza e a vulnerabilidade, pois essas duas terminologias não apresentam os mesmos significados. Portanto, um fato importante a mencionarmos é que nem todos os indivíduos que se encontram na situação 68 de vulnerabilidade são considerados pobres e nem todos os indivíduos que são considerados pobres estão numa situação de vulnerabilidade. (BRASIL, 2009). Assim, ressaltamos que o conceito de pobreza é analisado a partir de duas visões diferenciadas de acordo com alguns sociólogos e pesquisadores que se utilizam desse termo, são elas: a pobreza absoluta e a pobreza relativa. (GIDDENS, 2005). De acordo com Giddens, é interessante mencionarmos a diferenciação entre ambas. Portanto, o conceito de pobreza absoluta pauta-se a partir da lógica da subsistência, ou seja, são condições básicas que fazem parte das necessidades vitais de um indivíduo, sendo extremamente necessária para ter uma vida considerada saudável e uma melhoria na condição de vida. Investigamos o conceito de pobreza absoluta que é considerado como algo aplicável no âmbito universal. Embora, exista essa conceituação de pobreza absoluta, salienta-se que nem todos os sociólogos e pesquisadores utilizam esse conceito isoladamente, pois existe outra forma de conceber pobreza, existiria, pois a pobreza relativa. O conceito de pobreza relativa fundamenta-se a partir do modelo padrão de vida que prevalece numa determinada sociedade. É importante salientarmos que os defensores dessa terminologia, afirmam em seus estudos que a pobreza seria algo definido a partir do âmbito cultural e não devido a um padrão universal de privação. Desta forma, as necessidades básicas do ser humano não são iguais e se diferenciam quando se inserem dentro da sociedade. Apesar de esta conceituação apresentar algumas complexidades, a mesma precisará enfrentar variações, em decorrência de que a sociedade passa a ser mais afluente por isso esse conceito passa por uma crescente elevação. (GIDDENS, 2005). Para Rocha (2006) a pobreza absoluta está relacionada à sobrevivência física do indivíduo, contudo o indivíduo é privado de suas necessidades 69 consideradas vitais. Já a pobreza relativa está relacionada às necessidades dos indivíduos referentes ao modo de vida na sociedade (ROCHA, 2006). É relevante mencionarmos que a terminologia vulnerabilidade 26 não é um conceito novo no qual surgiu recentemente, esse termo vem sendo utilizado e aplicado em estudos por vários cientistas sociais. (MONTEIRO, 2011). Marandola e Hogan (2005) afirmam em suas pesquisas que a geografia desde seu início, visualizava o termo vulnerabilidade não como a parte essencial de ser do conceito, mas um conjunto de ideias subjacente à noção de risco. Assim, desde a década de 1920, os geógrafos abordavam o conceito de risco em seus estudos acerca do impacto da natureza, para posteriormente indicar uma situação qualquer que pudesse acontecer futuramente que poderia acarretar incerteza e insegurança. Portanto, o conceito de vulnerabilidade é a resposta da sociedade ante riscos e perigos, no qual a mesma se encontra relacionada à natureza. Embora, a demografia tradicional tenha feito uso da noção de risco, a mesma se encontra relacionada aos eventos na dinâmica demográfica que possam ocorrer. (MARANDOLA E HOLGAN, p.2005 Apud ARREGUI; WANDERLEY, 2009). Para melhor compreendermos o conceito de risco é interessante mencionarmos que este termo vem aparecer em relatos de viagens marítimas na Idade Média, utilizada para indicar os transtornos ou dificuldades que comprometeriam a viagem. Sendo que o risco era reconhecido como evento da natureza, no qual exterminava qualquer ideia de culpa ou responsabilidade humana. Desta forma, qualquer risco que poderia ocorrer era atribuído ao fenômeno da natureza e não ao ser social. (LUPTON, p.1999 Apud ARREGUI; WANDERLEY, 2009). Com a modernização no início do século XVII e XVIII ocorreram mudanças significativas acerca do conceito e ao uso de risco. No século XVIII 26 Encontra-se em: hptt//: Revistas. UCPEL.Tche.br/índex.php/rsd/article/view/695/619. Acesso em: 25/12/2013. 70 esse conceito foi “cientificado” e emergiu a partir de novas ideias relacionadas à matemática que fazia uso de cálculos estáticos de risco para a industrialização. No século XIX a noção de risco deixou de fazer parte do âmbito da natureza e passou a estar relacionada às crenças, comportamentos e às relações que estavam presente na sociedade. (LUPTON, 1999, p.6 Apud ARREGUI; WANDERLEY, 2009). Ainda de acordo com as colocações da autora mencionada acima, o conceito de risco que estava presente no século XIX desapareceu no final do século XX, ou seja, estava cada vez menos presente em cálculos de probabilidade e mais associada à noção de perigo. Neste sentido, no final do século XX foi considerado um marco de mudanças políticas, socioeconômicas e culturais, sendo que o termo risco passou a ser utilizado constantemente em discursos políticos, da mídia, da população, enfim, para o qual essa população passou a ser marcada por incertezas, ambivalência e caos. Portanto, o mesmo tende a explicar o sentimento de medo, incerteza e insegurança. Conforme mencionado acima, a partir de 1990 o conceito de vulnerabilidade vem substituir o da pobreza. Embora, ainda não se possa verificar um conceito coerente em volta da mesma, é interessante destacarmos que a noção de vulnerabilidade está interligada com o conceito de risco ou equação referente ao risco e a capacidade de resposta da sociedade diante dos riscos e perigos considerados naturais. Dessa forma, é interessante salientarmos que no final da década de 1990 é nítido o aparecimento do consenso dos organismos internacionais em relação à idéia de que a vulnerabilidade social passou a ser considerada a principal palavra-chave na América Latina. Conforme o documento de Busso, a vulnerabilidade, Faz referência à possibilidade de uma deterioração no bem-estar como conseqüência de ficar exposto a riscos, mas que depende dos recursos, ativos e estratégias utilizados para prevenir, reduzir ou 71 enfrentar os choques externos [...] A definição de indivíduos, domicílios ou comunidades vulneráveis tem como característica os maiores níveis de exposição ao risco a determinada situação por desvantagem nos ativos. (BUSSO, 2001, p.9 Apud ARREGUI; WANDERLEY, 2009, p.156). O autor referido anteriormente aborda em suas colocações que a vulnerabilidade dá ênfase à possibilidade de haver danificação no que se refere ao bem-estar, em decorrência à exposição a riscos, entretanto depende dos mecanismos utilizados para prevenir e posteriormente enfrentar esses choques externos. Diante do exposto, salientamos o conceito de vulnerabilidade de acordo com a Política Nacional de Assistência Social – PNAS/2004, [...] À população que vive em situação de vulnerabilidade social decorrente da pobreza, privação (ausência de renda, precário ou nulo acesso aos serviços públicos, dentre outros) e, ou, fragilização de vínculos afetivos – relacionais e de pertencimento social (discriminações etárias, étnicas, de gênero ou por deficiência, dentre outras). (PNAS, 2004, p.33). Este conceito de vulnerabilidade social exposto anteriormente faz uma reflexão acerca das famílias que se encontram nessa condição, geralmente esses indivíduos não possuem emprego ou quando possuem são trabalhos autônomos, sem vínculos empregatícios, temporários, enfim, a renda familiar é muito pouca para garantir o sustento de toda a família. Sendo que grande parte das famílias vivem somente com um ou dois salários mínimos, que mal dá para suprir suas necessidades básicas. Portanto, as famílias que se encontram nessas condições são famílias que não tem seus direitos garantidos enquanto cidadãos, desta forma são excluídos da sociedade. Dessa forma, essas famílias que se encontram nessa condição vivem em condições precárias de alimentação, moradia ou saneamento, enfim, essas famílias necessitam de políticas públicas voltadas a esse público alvo, mas que realmente essas políticas sejam efetivadas e garantidas e que seus direitos sejam efetivados, ou seja, acessados para que esse público possa sair da condição de vulnerabilidade. E, posteriormente, o mesmo consiga uma oportunidade de se inserir no mercado de trabalho para que possa garantir o sustento de sua família. 72 Cabe ao Estado garantir a efetivação dessas políticas públicas, sendo que o Governo Federal, criou o Programa Bolsa Família – PBF, é um Programa de Transferência de Renda destinado a essas famílias que se encontram nessas condições de vulnerabilidade social. As mesmas precisam estar enquadradas no perfil de acesso do benefício, caso o indivíduo não esteja inserido nos critérios preestabelecidos pela Política de Assistência Social, o mesmo não terá acesso. Importa ainda ressaltarmos que conforme Petrini 27, Afirma que à medida que a família encontra dificuldades para cumprir satisfatoriamente suas tarefas básicas de socialização e de amparo/serviços aos seus membros, criam-se situações de vulnerabilidade. A vida familiar para ser efetiva e eficaz depende de condições para sua sustentação e manutenção de seus vínculos. (PETRINI, 2003 Apud GOMES; PEREIRA, 2005, p.360). Segundo o autor referido acima, essas dificuldades enfrentadas pela família no seu cotidiano contribuem para o surgimento de situações que a coloca em situação de vulnerabilidade, portanto, a mesma necessita de condições que proporcionem o sustento e a manutenção de vínculos familiares e que realmente sejam efetivados na prática. Assim, o tema vulnerabilidade social passou assumir diversas transformações, que acabaram por proporcionar mudanças relacionadas ao âmbito da vida privada, sendo que a mesma apresenta a ocorrência de situações de fragilidades e contradições. (MONTEIRO, 2011). Tendo em vista as informações que foram expostas anteriormente, é importante ressaltarmos que o termo vulnerabilidade é muito tratado pelas pessoas na atualidade que entendem que essa terminologia seria o sinônimo de exclusão e na realidade, a verdade não é bem esta. Para uma família ter acesso ao benefício do Bolsa Família do Governo Federal além de está inscrita nos critérios preestabelecidos do programa, a mesma tem que esta numa situação de vulnerabilidade social. Portanto, a família que se encontra nessa 27 Encontra-se em: www.scielo.br/pdf/csc/v102/a13v10n2. Acesso em: 24/12/2013. 73 situação está numa insegurança social, de ausência de proteção social e que necessita de políticas mais afirmativas e eficazes. Castel (2005) afirma que a insegurança não é necessariamente algo proporcional aos perigos considerados reais que constantemente vem prejudicar e ameaçar a sociedade. É acima de tudo um desnível referente à expectativa que a população construiu de proteção e capacidades de realmente efetivá-la e pôr em prática. Contudo, o autor afirma que a insegurança é em grande parte o reverso da medalha diante de uma sociedade considerada segura. Percebemos que diante dessa realidade no qual as famílias que tem acesso ao PBF que se encontram na situação de vulnerabilidade passam por muitas privações e necessidades. Desta forma, foram realizadas perguntas para esses usuários acerca de quais são suas maiores necessidades, as mesmas apresentaram as seguintes respostas: Sem dúvida com as despesas da casa. Apesar de agente ter nossa própria casa, se gasta muito com a “feira” do mês, fora outras coisas, despesas que agente acaba tendo. E quando o filho adoece, mas despesas com remédio, porque as vezes no posto não tem, ai eu tenho que comprar, acho que isso. (ENTREVISTADA Nº 2) São tantas, mas a maior de todas é com o aluguel da casa e as despesas de casa, tenho que me preocupar pagar gás, água, energia, tudo eu, fora outras coisas. (ENTREVISTADA Nº 1). Eu diria quase tudo. Porque mesmo trabalhando lavando roupa e esse dinheiro que recebo do governo, ainda não da. Tenho três filhos pra cuidar. A salvação que tenho minha própria casa. Imagina se eu tivesse que pagar aluguel, não ia dar de jeito nenhum. A maior preocupação mesmo é com alimentação, vestimenta, porque se comprar pra um (filho) tem que comprar pros três. (ENTREVISTADOS Nº 3). De acordo com os depoimentos vistos, observamos que os usuários do Bolsa Família entrevistados, enfrentam muitas dificuldades em seu cotidiano, principalmente quando algumas delas não possuem imóvel próprio, portanto, além de passar por diversas necessidades básicas de terem que se preocupar com a alimentação, vestimenta, ainda tem que se preocupar com o aluguel da casa. 74 De acordo com Castel (2005) afirma que aquela determinada parcela da população que se encontra na situação de desestabilização social, é aquela que não tem proteção social, não tem proteção via trabalho protegido. Portanto, mesmo as famílias tendo trabalho fixo, temporário ou “bicos”, as mesmas ainda se encontram numa situação difícil, e complicada, porque o dinheiro que recebem através do seu trabalho não dá pra suprir suas necessidades básicas. Conforme Bronzo, As pessoas e famílias em condição de vulnerabilidade extrema – nunca é demais repetir – padecem de uma síndrome de privações e de carências, mas também apresentam potencialidades e ativos que podem ser mobilizados, desde que exista um suporte efetivo e articulado pelas estruturas e processos e traduzidos por meio das políticas públicas. (BRONZO, S/D Apud CONCEPÇÃO E GESTÃO DA PROTEÇÃO SOCIAL NÃO CONTRIBUTIVA NO BRASIL, 2009, p.176). Assim, as famílias que se encontram na situação de vulnerabilidade extrema, enfrentam muitas dificuldades, privações, carências, ou seja, quando faltam elementos básicos de se viver em sociedade, que garanta o mínimo de dignidade pra essa família, entretanto apresentam grande potencial que podem ser mobilizados. Mas para serem mobilizados necessita de políticas afirmativas, que realmente sejam efetivadas a política pública em beneficio da sociedade e principalmente das famílias que se encontram na situação de vulnerabilidade. Portanto, cabe ao Estado garantir políticas públicas e programas sociais que apresentem como objetivo de uma melhoria na condição de vida e que possibilite reduzir-lhe a vulnerabilidade. Quando perguntado aos usuários do PBF tendo como representante legal a mulher sobre se essas famílias acreditam que o PBF tem contribuído para melhorar sua condição de sustentabilidade, as mesmas apresentaram as respostas a seguir: Sim. Com certeza. Antes né, eu lavava roupa pra fora, e recebia muito pouco, mal dava pra viver. Como eu engravidei muito cedo, não tive apoio dos meus pais, então tive que me virar do jeito que dava. Tive dias que eu não tinha nada dentro de casa pra comer. Eu 75 deixava de comprar pra mim e comprava alimentos dos meus filhos. Como eu morava com minha sogra antes, mas era assim no mesmo “quintal” tem duas casas, a dela (sogra) e dele (ex-marido). A convivência lá era muito difícil, graças a Deus, tudo isso já passou e é passado. Ele (Bolsa família) tem ajudando tanto e me ajuda até hoje (ENTREVISTADA Nº 1). Sim. Melhorou muito a minha vida. Antes de receber o Bolsa Família passei por algumas dificuldades, como meu trabalho é faxina ai já viu né, ganho muito pouco. O dinheiro que recebo é muito pouco, só da mesmo pra alimentação e olhe lá. Sou a única pra organizar tudo dentro de casa, pagar, tomar conta da casa. Só sei que ele( Bolsa Família) venho em boa hora, é uma segurança e uma renda extra (ENTREVISTADA Nº 5). Sim. Contribuiu muito e pra melhor. A renda que recebo do Bolsa Família é um dinheiro a mais pra ajudar nas despesas da casa. (ENTREVISTADA Nº 2). Antes de iniciar a análise de dados é válido ressaltar que resolvemos destacar somente esses depoimentos porque são os que apresentam mais elementos para a discussão. Observamos nas repostas das entrevistadas que o Programa Bolsa Família contribuiu significativamente na vida dessas famílias. Percebemos que quando essas famílias recebem o Programa Bolsa Família não dá para elas garantirem seus sustentos. Apesar de algumas entrevistadas terem trabalho, aquela renda não dá pra suprir todas as suas necessidades, e mesmo com o recebimento da renda proveniente do Bolsa Família ainda enfrenta dificuldades porque a renda não é suficiente para suprir as necessidades básicas. Portanto, só o fato delas terem que pagar aluguel, arcar com as despesas da casa, enfim, não será uma renda satisfatória, mas melhorou. Percebe-se também que a maior parte das entrevistadas são chefes de família. Outro dado relevante a destacar acerca dos depoimentos coletados das sete entrevistadas, que apenas uma entrevistada afirmou que o Bolsa Família não contribuiu muito para uma condição de vida melhor. A entrevistada nº 6 disse:“Para ser sincera não muito. Apesar de garantir uma renda, não dá pra fazer tudo que agente quer, tipo arcar pelo menos com as despesas da casa, é difícil”. Percebemos que das sete entrevistadas apenas uma afirmou que o PBF é uma renda que não possibilita totalmente garantir o sustento da família, 76 em decorrência que é um recurso insuficiente para suprir suas necessidades básicas. O Bolsa Família apesar de proporcionar um mecanismo de proteção, também é responsável por garantir a ampliação das responsabilidades familiares, no qual quem apresenta essa maior responsabilidade são as mulheres. (TEIXEIRA, 2010). De acordo com Rodrigues (2008) o repasse dos recursos financeiros destinado ao PBF, é destinado principalmente às mulheres, isso possibilita uma ação estratégica no intuito de enfrentar a situação de pobreza em que as mesmas estão inseridas. Portanto, são consideradas as maiores responsáveis por seus familiares, sendo que esse recurso repassado mensalmente garante melhorar suas condições de vida, proporcionando o acesso à alimentação de qualidade, ter acesso a crédito e concomitantemente à possibilidade de poder adquirir bens (RODRIGUES, 2008, Apud TEIXEIRA, 2010, p.76). Observa nas falas das entrevistas logo acima que o Bolsa Família é um beneficio que trouxe uma renda que proporciona uma condição de vida digna, Porém, vêem o PBF na noção do dinheiro, sendo que a maioria destacaram em seus relatos acerca do dinheiro. Portanto, remete ao valor monetário, associando somente a noção do dinheiro, a renda melhorou, isso prova que o programa de certa forma proporciona uma diminuição no nível de desigualdade. Portanto, tem impacto na vida dessas famílias de forma positiva e que antes de receber o beneficio não tinha nada para comer e com o recebimento do benefício passou a ter pelo menos alimentação, apesar de forma precária, mas pelo menos tem acesso à alimentação. É importante para a população ter acesso à renda, entretanto, não é uma renda suficiente, está nítido nas falas das entrevistadas que não é suficiente, e que o valor fornecido não é suficiente para garantir as necessidades básicas. Porque essas mulheres continuam trabalhando em mais de um lugar, sendo faxineira, fazendo bico, inclusive essa renda que elas ganham com o Bolsa Família, mesmo assim continuam em situações de desigualdade e moradia. Inclusive não tem acesso a dinheiro, então o bolsa 77 família impacta na renda, mas não é solução. Este benefício é algo parcial, momentâneo e emergencial, mas não podemos passar 10 anos que o programa tem, pensando somente que vai resolver os problemas de desigualdades no país, que na realidade não vai resolver, embora amenize. O PBF busca garantir, portanto, através da transferência de renda condicionada o acesso aos serviços básicos das famílias beneficiárias como uma forma de combater a desigualdade social. Portanto, no tópico seguinte abordaremos o Programa Bolsa Família e suas condicionalidades. 78 3.2 O PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA O Programa Bolsa Família – PBF é um Programa de Transferência de Renda criado no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com condicionalidades. Conforme Medeiros, Britto e Soares (2007) o Programa Bolsa Família – PBF surgiu em outubro de 2003, a partir da unificação de vários outros programas já existentes, implantados pelo presidente anterior, Fernando Henrique Cardoso – FHC, tais como Bolsa Escola28, Auxílio Gás29 e o Cartão Alimentação30 integrando-se ao programa Fome Zero. Diante disso, redefine os parâmetros de renda contribuindo para a delimitação das famílias beneficiárias. É válido ressaltarmos que o surgimento do Programa Fome Zero 31 apresentava como objetivo o enfrentamento de problemas decorrentes acerca da Insegurança Alimentar, portanto este programa foi destinado à população que se encontra na condição de vulnerabilidade e pobreza, desta forma favorece um acréscimo em sua renda, contribuindo para uma melhoria na sua condição de vida. O programa Fome Zero foi desenvolvido por uma equipe de especialistas, no qual foram realizados debates e discussões ao longo do ano de 2001 em âmbito nacional. Salientamos que a situação de pobreza em nível nacional está interligada com a precária distribuição de renda. Assim, este programa visa assegurar a garantia de direitos de toda a população que se encontra na situação de pobreza, garantindo acesso à alimentação de qualidade e em quantidade, que favoreça uma condição de vida digna. O programa teve seu lançamento realizado em Brasília, no qual 28 Bolsa Escola antigo programa criado em 2001, gerido pelo Ministério da Educação – MEC, que beneficiava famílias com crianças entre 6 e 15 anos, cuja renda per capita fosse inferior a R$ 90,00. (BRASIL, 2009). 29 Programa criado em 2001, ministrado pelo Ministério de Minas e Energia – MME, que tinha por objetivo transferir o valor de R$7,50 a cada dois meses, para as famílias com renda mensal per capita de até meio salário mínimo, (BRASIL, 2009). 30 Cartão Alimentação criado em 2003, cujo público-alvo eram as famílias com renda per capita inferior a metade do salário mínimo por seis meses, que tinha por objetivo transferir o valor de R$ 50,00. (BRASIL, 2009). 31 Encontra-se em: Fome Zero: Uma história Brasileira. Organizadora: Adriana Veiga Aranha. – Brasília, DF: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Assessoria Fome Zero, V.1, 2010. 79 teve a participação de várias lideranças políticas dos movimentos sociais e empresariais, e continua sendo realizado e desenvolvido na agenda política do país. O público alvo do PBF são as famílias que se encontram em uma situação de vulnerabilidade social32 e os valores referentes à que cada família receberá é de acordo com o perfil que se encontra registrado no banco de dados do Cadastro Único – Cadúnico33. Atualmente, o PBF tornou-se parte integrante do Plano Brasil Sem Miséria, que substituiu o Programa Fome Zero, tendo como centro de atuação os 16 milhões34de famílias que encontra-se na situação de extrema pobreza. O Cadastro Único além de ser responsável de coletar as informações, apresenta como objetivo identificar todas as famílias que se encontram em uma situação de pobreza. O mesmo apresenta em sua estrutura três núcleos que são essências de informação. Dentre eles, destaca-se a identificação da pessoa (a partir da identificação vai gerar o NIS das pessoas). Portanto, na identificação deve conter o nome completo da pessoa, nome da mãe, data de nascimento, o município de nascimento e deve apresentar um documento que apresente emissão nacional (CPF ou Titulo de Eleitor). Deve apresentar também a identificação do endereço e posteriormente a caracterização socioeconômica. Na caracterização socioeconômica deve estar presente a composição familiar (refere-se ao nº de pessoas, se há existência de gestantes, idosos ou portadores de deficiência); a caracterização do domicílio (nº de cômodos, refere-se também ao tipo de construção, água, esgoto e lixo); Qualificação escolar dos membros da família, rendimentos e despesas familiares (aluguel, transporte, alimentação) e dentre outros. (CUNHA, 2007, 32 Vulnerabilidade Social é decorrente da pobreza, privação (ausência de renda, precário ou nulo acesso aos serviços públicos dentre outros, e, ou fragilização de vínculos afetivos – relacionais e de e pertencimento social (discriminações etárias, de gênero ou por deficiência, dentre outros. (BRASIL, 2005). 33 Cadastro Único é um instrumento que registra os dados das famílias com renda mensal de até meio salário mínimo por pessoa, para os Programas Sociais do Governo Federal. A partir destes procedimentos é realizada a seleção de beneficiários de Programas Sociais, como o Bolsa Família. Disponível em: http://www.mds.gov.br/bolsafamilia/cadastrounico. Acesso em 09/10/2013. 34 Disponível em http:// www.mds.gov.br/bolsafamilia. Acesso em 11/10/2013. 80 Apud Concepção e Gestão da Proteção Social Não Contributiva no Brasil, Brasília, 2009, p.345-346). É importante salientarmos de forma breve que o cadastramento dessas famílias é realizado pelos municípios, através de um sistema informatizado no qual o mesmo é disponibilizado pelo Governo Federal. Portanto, é válido destacarmos que para cada cidadão que é cadastrado é gerado o Número de Identificação Social – NIS, a partir do NIS possibilita a identificação do individuo e evita a multiplicidades de cadastros e de certa forma acaba por permitir a comparação com outras bases de dados. Outra informação interessante a mencionar é que os dados socioeconômicos contidos no Cadastro Único além de permitir a realização da seleção de famílias para o Bolsa Família e também para outros programas sociais, acaba por permitir também o monitoramento e logo após a avaliação dos efeitos destes programas nas condições de vida das famílias beneficiárias dos Programas sociais do governo federal. (CUNHA, 2007, Apud Concepção e Gestão da Proteção Social Não Contributiva no Brasil, Brasília, 2009). O Plano Brasil Sem Miséria35 foi lançado no governo da presidenta Dilma em junho de 2011, que veio dar continuidade às conquistas que foram conseguidas pelo governo anterior, visando assegurar a redução da desigualdade e garantir a inclusão social. Portanto, o Brasil sem Miséria coloca como pauta tanto o poder público quanto para a sociedade sua visão audaciosa, não deixa de ser um grande desafio de conseguir superar a extrema pobreza. O Decreto Nº 7.49236, de 02 de junho de 2011, institui o Plano Brasil Sem Miséria, tendo como público alvo as famílias que se encontram em uma situação de extrema pobreza, cuja renda per capita mensal é de até R$ 70,00. O Plano Brasil Sem Miséria37 apresenta como objetivos principais, garantir a 35 Encontra-se em: Uma cartilha de encontros de prefeitos. Plano Brasil Sem Miséria no seu município. Brasília, janeiro, 2013. 36 Disponível em http://www.brasilsemmiseria.gov.br/legislacao. Acesso em 11/10/2013. 37 Disponível em http://www.mds.gov.br/falemds/perguntas-frequentes/superação-da-extremapobreza%20/plano-brasil-sem-miseria-1/plano-brasil-sem-miseria. Acesso em 13/10/2013. 81 população uma transferência de renda que a possibilite melhorar de vida, garanta acesso aos serviços públicos, nas áreas de educação, saúde, assistência social, e inclusão produtiva. De acordo com o Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome - MDS38 no PBF existem vários tipos de benefícios pagos às famílias com crianças e adolescentes. São eles: Benefício Básico, Benefício Variável, Benefício Variável à Gestante, Benefício Variável à Nutriz, Benefício Variável Vinculado ao Adolescente e o Benefício para Superação da Extrema Pobreza. O Benefício Básico com valor de R$ 70 é destinados às famílias que se encontram em uma situação de extrema pobreza com renda mensal igual ou inferior a R$ 70. O Benefício Variável com valor de R$ 32 são para crianças ou adolescentes de zero a 15 anos de idade. O Benefício Variável à Gestante – BVG com valor de R$ 32 é destinado às famílias do PBF que tenham em sua composição familiar gestantes. O Benefício Variável à Nutriz – BVN no valor de R$ 32 são para as crianças de zero a 6meses. O Benefício Variável Vinculado ao Adolescente – BVJ no valor de R$ 38 são para os jovens entre 16 e 17 anos limitados a dois benefícios por família. O Benefício para Superação da Extrema Pobreza – BSP (com valor calculado caso a caso) é transferido às famílias beneficiadas pelo PBF que se encontram em uma situação de extrema pobreza (com valor inferior ou igual a R$ 70), mesmo após o recebimento de outros benefícios do PBF. O PBF é um Programa de Transferência de Renda com condicionalidades, como foi citado anteriormente, no qual se exige das famílias beneficiárias, que se engajem em atividades que visem o aproveitamento deles mesmos e de seus respectivos familiares. Assim, as condicionalidades são compromissos assumidos tanto pelas famílias beneficiárias do PBF nas áreas da Saúde, Educação e Assistência Social quanto pelo poder público visando ampliar a cidadania através do acesso aos direitos sociais básicos. A família tem o papel essencial de assegurar o cumprimento das condicionalidades, entretanto cabe ao Estado também cumprir com suas obrigações e deveres em 38 Disponível em: http://www.mds.gov.br/bolsafamilia/beneficios. Acesso em 13/10/2013. 82 promover serviços para a população nas áreas da saúde e educação. Apesar de ambas áreas apresentarem âmbito universal De acordo com a política de saúde, as famílias assumem o compromisso de estar com o cartão de vacinação em dia e acompanhar o crescimento das crianças menores de sete anos. As mulheres com idade entre 14 a 44 anos devem realizar o procedimento de ser acompanhada por um médico relacionado à saúde da mulher e as gestantes ou nutrizes devem realizar o prénatal e o acompanhamento da sua saúde e do bebê. Na política de educação as condicionalidades, priorizam crianças e adolescentes entre 6 e 15 anos que devem estar matriculados e com frequência escolar mínima mensal de 85% da carga horária. E os adolescentes entre 16 e 17 anos devem ter no mínimo uma freqüência de 75% da carga horária. O Ministério da Educação – MEC é responsável por registrar on-line, as freqüências escolares dos beneficiários do PBF. Na política de assistência social crianças e adolescentes com até 15 anos retirados do trabalho infantil pelo Programa de Erradicação do Trabalho Infantil – PETI ou em uma situação de risco devem participar dos serviços de convivência e fortalecimento de vínculos – SCFV 39 e obter freqüência de no mínimo 85% da carga horária mensal40. Conforme a Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais (2009) o SCFV é organizado em grupos, objetivando garantir aquisições progressivas aos usuários, contribuindo desta forma para assegurar a complementação do trabalho social com famílias, prevenindo situações de risco social. Portanto, é interessante destacarmos que o SCFV41 visa garantir a ampliação de trocas culturais e também acerca das vivências, promovendo desta forma o sentimento de pertencimento e de identidade, contribui para 39 Disponível em: www.mds.gov.br/falemds/perguntas-frequentes/assistencia-social/peti-programa-deerradicação-do-trabalho-infantil/gestor/peti-condicionalidades. Acesso em: 11/10/2013 40 Disponível em: http://www.mds.gov.br/bolsafamilia/condicionalidades. Acesso em 13/10/2013. Disponível em: http://www.mds.gov.br/falemds/perguntas-frequentes/assistencia-social/psb-protecaoespecial-basica/scfv-servicos-de-convivencia-e-fortalecimento-de-vinculos/servicos-para-idosos. Acesso em 01/12/2013. 41 83 garantir o fortalecimento de vínculos familiares e concomitantemente incentivar a socialização e o convívio comunitário. Assim, este serviço é destinado para crianças até 6 anos, para crianças e adolescentes de 6 a 15 anos, para adolescentes e jovens de 15 a 17 anos e também assegura o serviço para idosos. O PETI42 é um programa que consiste em articular várias ações, tendo como objetivo garantir transferência de renda, por meio do PBF, visando realizar o acompanhamento familiar e a oferta de serviços socioassistenciais. Como dito anteriormente, o programa pretende retirar crianças e adolescentes da prática de trabalho precoce, exceto quando se encontra na condição de aprendiz, desde que seja a partir de 14 anos. Diante desses procedimentos do acesso ao PBF, perguntei as entrevistadas se as mesmas sabiam o que são as condicionalidades, das sete entrevistadas, cinco responderam que nunca ouviram falar sobre as condicionalidades, não sabiam nem o que se tratava, embora, perceba-se em suas falas que apesar de desconhecerem sobre esse nome, tinham uma noção parcial sobre as condicionalidades, apesar de não saberem definir o que são, e duas (entrevistadas nº 1, 2) responderam que já ouviram falar sobre as condicionalidades, embora associassem as condicionalidades somente a levar seus filhos à escola, ou seja, não deixando que seus filhos faltem aula, sem motivo algum, a não ser se for um motivo maior, e também levá-los ao posto de saúde, esses depoimentos foram bastante recorrentes em suas respostas. Portanto, para melhor ilustrar essas informações que foram expostas acima, quando indagadas acerca das condicionalidades do Bolsa Família, a maioria delas desconheciam sobre as condicionalidades, ou conheciam parcialmente, como os depoimentos a seguir demonstra: A entrevistada nº 1 “Já ouvi sim, falar. É tipo um dever que a família tem que cumprir não deixar faltar aula, mas quando faltar comunicar a escola. Também tem que ta em dias com a vacinação, acho que é isso”. Enquanto a entrevistada n º 3 “Não. Nunca 42 Disponível em: http://www.mds.gov.br/assistenciasocial/peti. Acesso em: 13/10/2013. 84 ouvi falar”. A entrevistada nº 3, apesar de nunca ter ouvido falar nessa terminologia, tinha uma noção básica do que seriam as condicionalidades. A entrevistada nº 5, também demonstra em seu depoimento que não sabe definir o que são as condicionalidades, mas sabe que é necessário cumprir alguns procedimentos para não deixar de receber o benefício como demonstra em seu depoimento: “Não. Quer dizer, já ouvi falar mais sei direito não. É uma coisa que tem a ver de não deixar faltar aula”. Percebe-se nos depoimentos das entrevistadas acima demonstrados que as mesmas desconhecem sobre a terminologia do que são as condicionalidades, apesar de algumas demonstrarem saber de forma mínima o que seriam as condicionalidades do Bolsa Família. Um dado interessante a destacar, que quando indagadas acerca da situação atual do benefício, todas as sete entrevistadas responderam que nunca tiveram seu benefício bloqueado, ou seja, nunca tiveram o bloqueio em decorrência de que de alguma forma, mesmo que essas entrevistadas não saibam o que são as condicionalidades teoricamente falando, na prática de alguma forma ou de outra sabem o que são as condicionalidades. Podem não entender tudo no ponto de vista burocrático e do ponto de vista conceitual, mas cumprem as condicionalidades do Bolsa Família. As entrevistadas sabem o que são as condicionalidades, mas pela via de perder o benefício do que pela via de conhecimento. As condicionalidades do Bolsa Família não se resume somente a levar as crianças à escola e ao posto de saúde, existem outras atividades, ou seja, e as atividades sócio educativas no CRAS, e as outras atividades que são desenvolvidas no CRAS, são questões que merecem ser discutidas e posteriormente repassadas essas informações acerca das condicionalidades as famílias que tem acesso ao benefício, percebe-se que há a falta de diálogo e principalmente de informações para essas usuárias. As entrevistadas atribuem as condicionalidades somente a política de educação ou a política de saúde, como foi demonstrado nos depoimentos logo acima, assim, as famílias acabam desconhecendo o compromisso de cumprir 85 as condicionalidades, portanto, não é apenas da família o compromisso mas também do poder público em garantir o acesso da mesma e averiguar os motivos que as levam somente associar as condicionalidades levar os filhos a escola ou o acesso a saúde, será que falta informações, as informações acerca das condicionalidades estão chegando a essas famílias, e porque não estão chegando, essas indagações foram presente no estudo. Outro dado interessante a mencionar acerca das entrevistas, é que quando indagados acerca se as mesmas estavam cumprindo com as condicionalidades para continuar recebendo o auxílio mensal do PBF e quais as principais dificuldades enfrentadas pelas mesmas acerca dessas condicionalidades, alegaram em seus depoimentos todas as entrevistadas que cumprem com as condicionalidades para continuar recebendo o benefício, e em relação às dificuldades enfrentadas, todas afirmaram que séria a falta de informação acerca das exigências a cumprir, porque alegaram que essas informações recebem de outras pessoas. As condicionalidades do programa “penalizam” as famílias implicando na retirada do seu benefício no qual a situação de pobreza, apesar das sete entrevistadas nenhuma teve seu benefício bloqueado, percebemos durante o processo de construção do estudo que quando a família tem seu benefício bloqueado, dificultam no pagamento das contas necessárias básicas onde o desemprego presente, desta forma dificulta a situação dessas famílias no qual dispõem apenas do benefício pago pelo programa para sobreviverem. Nesse sentido, percebemos como instrumento de combate a pobreza escolar como condição da construção de conhecimento, da formação humana e da proteção social as crianças e adolescentes, articulada ao programa precisa avaliar suas estratégias em prol do ensino com qualidade, superando a condição de pobreza presente em muitas famílias brasileiras. 86 3.3 O PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA NA VIDA DAS FAMÍLIAS: GARANTIR CONDIÇÕES MÍNIMAS DE MANUTENÇÃO DAS NECESSIDADES BÁSICAS? O Bolsa Família é um Programa de Transferência de Renda que garante as famílias beneficiárias o acesso ao recurso financeiro, possibilitando desta forma uma melhoria na condição de vida. Portanto, nos depoimentos coletados com as entrevistadas acerca da importância do Bolsa Família em suas vidas, todas afirmaram que é um benefício de extrema relevância em suas vidas, porque favorece uma condição de vida melhor, fazendo com que as mesmas tenham acesso ao poder de compra, ou seja, estimula o consumo, embora perceba-se, em seus depoimentos que esse programa não tenha resolvido totalmente a sua situação, mas de certa forma, tenha minimizado sua condição de pobreza e de extrema pobreza. Portanto, o PBF possibilitou de alguma forma que elas acessassem a proteção social, ou seja, possibilita uma renda, contudo percebe-se em seus depoimentos que essa renda não é suficiente para garantir uma qualidade de vida melhor. Todas as entrevistadas atribuem o PBF somente um recurso financeiro, ou seja, uma renda extra. Percebe-se em suas falas que esse programa não garante a superação da vulnerabilidade, na verdade consegue minimizar a pobreza, e não tirá-los da condição de pobreza. Muito menos superar a vulnerabilidade. É uma tentativa de garantir o fortalecimento de vínculos, o acesso à renda, portanto não percebo nas falas das entrevistadas que tenha superado a sua condição de vulnerabilidade. É um programa importante, entretanto não tem proporcionado a essas famílias a superação da pobreza. Esse benefício possibilita garantir as famílias o atendimento das necessidades mínimas, mas não as necessidades básicas, ou seja, todo aquilo que o ser humano necessita para viver dignamente. No qual o mesmo, teria acesso à educação de qualidade, a saúde, a uma profissionalização para ter acesso ao mercado de trabalho, entretanto não consegue na atual forma como esta sendo operacionalizado, isso não acontece na realidade. Essas famílias continuam na condição de risco social, contudo 87 não podemos negar que esse programa é importante como Transferência de Renda na tentativa de acesso a educação, mas como se garante o acesso a uma educação de qualidade, se na prática isso não é efetivado. Quando as entrevistadas foram indagadas acerca de como era sua vida antes de receber o PBF, das sete entrevistadas todas alegaram que antes de recebê-lo sua vida era muito difícil, ou seja, passava por muitas privações e necessidades antes não tinham acesso ao poder de comprar com mais intensidade e com o recebimento do benefício à sua situação de vida veio melhorar, embora não tenha solucionado sua condição de vulnerabilidade, mas tenha minimizado. É relevante mencionarmos que o PBF para as sete entrevistadas, é um recurso financeiro, que além de proporcionar uma renda que possibilita ajudar nas despesas da casa, garante uma segurança e concomitantemente uma tranquilidade de saber que todo mês terá acesso o benefício, ou seja, uma renda extra que garante complementar a renda familiar. Contudo, percebe-se em seus depoimentos, relatos que essa renda proveniente do PBF não é suficiente para garantir o sustento da família, ou seja, esse programa possibilita uma condição de vida melhor, mas ainda as famílias continuam passando por privações e necessidades. Esse benefício de certa forma garante uma renda, porém, não é suficiente para suprir todas as necessidades básicas da família. Portanto, quando indagadas acerca de como era sua vida após passar a receber o benefício, todas as sete entrevistadas afirmaram nos depoimentos que com o recebimento do Bolsa Família sua condição de vida melhorou, contudo não garante suprir todas as necessidades básicas para ter uma melhoria na condição de vida com qualidade. Para demonstrar essas informações que foram expostas, apresento a seguir alguns depoimentos das entrevistadas que relatam sobre como passou a ser sua vida após receber o PBF: A partir do momento que passei a receber, claro que mudou muito, pra melhor. Quando se tem uma renda extra pra complementar as despesas da casa, ainda mais que hoje em dia tudo é caro, mas não é suficiente né. (ENTREVISTADA Nº 2) 88 Há, agora é muito bom. Posso comprar material escolar pros meus filhos, comprar alguma coisa pra mim também né, ele (Programa Bolsa Família) melhorou muito. (ENTREVISTADA Nº 1) Melhorou demais, demais mesmo. Acho que o Bolsa Família deveria ser um pouco mais. Mais imagina se eu não tivesse, ia ser pior. Viver com um salário não é fácil, ainda mais tenho que pagar aluguel, é o que pesa mais no bolso, é isso. (ENTREVISTADA Nº 4) Percebe-se em seus depoimentos das sete entrevistadas que três delas relatam nitidamente que esse programa de fato melhorou sua condição de vida, entretanto não possibilitou a superação de garantir as necessidades básicas. Renda esta que não é suficiente para garantir a sustentabilidade da família. Conforme Silva (2011), observar-se que, Os Programas de Transferência de Renda focalizados na pobreza e na extrema pobreza revelam, sob a orientação da ideologia neoliberal profundas mudanças nas políticas sociais contemporâneas. A mais significativa delas é a substituição de políticas e programas universais por programas focalizados na pobreza e na extrema pobreza, como se política social fosse “coisa para pobre”. Outra constatação é o fato de que esses programas apenas “aliviam” a pobreza, desenvolvendose ao largo de políticas econômicas que não alteram. Ou seja, as determinações estruturais geradoras da pobreza e da desigualdade social não são consideradas, limitando-se essa intervenção a melhorias imediatas nas condições de vida dos pobres, servindo tão somente para manter e controlar a pobreza e potencializar a legitimação do Estado. Cria-se um estrato de pobres que se reproduz no nível da sobrevivência, sendo instituída a ilusão de que o problema da pobreza será resolvido pela política social”. (SILVA, 2011 apud YAZBEK, 2012). Nesse sentido, cabe ressaltar que diante destas informações acima debatidas foram perguntados para as entrevistadas quais são suas expectativas em relação à possibilidade de não mais necessitarem da renda proveniente do PBF, as mesmas apresentaram as respostas a seguir: Minha expectativa é que um dia realmente eu tenha emprego fixo, como meu trabalho é temporário é complicado. Se conseguir carteira assinada, tipo trabalho fixo, ai sim, não vir precisar mais e deixar pra outra pessoa que também precise. (ENTREVISTADA Nº 1) Hum. A expectativa que eu consiga um trabalho com carteira assinada, sei lá, caso venha receber mais pra não necessitar mais do Bolsa Família. (ENTREVISTADA Nº3) 89 Minha expectativa é que meus filhos, quando estiver na idade certa, possam trabalhar pra me ajudar, mas ajudar eles mesmo, entende. É tão bom comprar as suas coisas com seu dinheiro, pra ter uma vida melhor e não precisar depender de ninguém. (ENTREVISTADA Nº 5) Conforme o relato dos depoimentos vistos, observa-se que as entrevistadas afirmaram que uma das maiores expectativas séria em relação do acesso ao emprego com carteira assinada. Portanto, percebe-se nitidamente nas falas das sete entrevistadas a questão de conseguir emprego, ou seja, quando seus filhos atingirem a maioridade consiga ter acesso ao emprego e principalmente que este trabalho seja de carteira assinada. Essas falas foram recorrentes nos relato das entrevistadas, ou seja, a questão da expectativa é em relação ao emprego de carteira assinada, em decorrência de que o individuo tem direitos assegurados por lei quando se tem carteira assinada. Percebemos que todas as entrevistadas atribuíram ao trabalho uma expectativa de vida, ou seja, quando o mesmo conseguir um trabalho, que possa sair de certa forma da condição de beneficiário do PBF e de certa forma repassar esse programa a outra família que esteja necessitando mais do que ela mesma. Diante dos depoimentos auferidos, faz necessário destacarmos que a expectativa das entrevistadas em relação à possibilidade de não mais necessitarem da renda do PBF, está relacionada somente a noção do acesso ao emprego, porque para aquela família o acesso ao emprego e concomitantemente a carteira assinada, garante a possibilidade de ter uma renda que garante uma vida com qualidade e dignidade. Nesse sentido, percebemos que a dimensão do emprego para as entrevistadas tem um significado muito intenso, porque possibilita estabilidade, segurança, acesso ao poder de compra com mais intensidade e principalmente uma vida melhor, que o mesmo possa com o recebimento do seu salário suprir suas necessidades consideradas básicas e essenciais. 90 Portanto, o programa proporciona que as famílias tenham acesso a um valor monetário, permitindo desta forma, que as famílias tenham acesso ao mínimo. Diante disso, é interessante abordamos nos depoimentos das entrevistadas a seguir, sobre como a mesma utiliza o valor do PBF. Das sete entrevistadas, foi destacada apenas três depoimentos em decorrência de terem maiores elementos para a discussão. A entrevista nº 1 disse: “Utilizo para alimentação, comprar caderno, lápis, essas coisas da escola e as despesas da casa”. Enquanto a entrevistada nº 3 afirmou: “Compro alimentos, pago algum papel de água ou luz. Também pago reforço escolar, ajuda nas despesas né”. A entrevistada nº 6 também alegou: “Na compra de alimentos, e quando possível compro roupa, mesmo assim ainda não dá, bem é isso”. Nos depoimentos vistos, percebe-se que as entrevistadas quando indagadas acerca de como utilizam o valor do Bolsa Família, todas alegaram que utilizam o valor do benefício na compra de alimentação, vestuário e material didático, foi um discurso recorrente em seus depoimentos. Percebemos nos depoimentos demonstrados logo acima que o PBF não permite superar a situação de vulnerabilidade, isso se encontra nítido no depoimento da entrevistada nº 6, no qual a mesma afirmou que o Bolsa Família além de proporcionar a compra de alimentos e dentre outras coisas, portanto, esse recurso ainda não é suficiente. Portanto, não permite superar a situação de vulnerabilidade. Porém, é possível afirmar que o PBF possibilita que as famílias saiam da pobreza absoluta, mas não da relativa, pois não tem acesso de qualidade às condições básicas de vida. É válido ressaltar que de acordo com Yazbek (2012) a Assistência Social é um âmbito de efetivação de direitos, sendo uma política estratégica, voltada para o enfrentamento da pobreza e principalmente para o provimento de mínimos sociais de inclusão, e voltada para a universalização dos direitos, diante disso, pretende romper com tradições assistencialistas e clientelistas que permeiam o contexto histórico da Política de Assistência Social. (YAZBEK, 2012). 91 CONSIDERAÇÕES FINAIS Este trabalho monográfico buscou analisar o Programa Bolsa Família no enfrentamento à vulnerabilidade sócio-familiar: um estudo realizado com as famílias atendidas pelo CRAS Angorá – Itaitinga – CE. A partir dessa análise, a pesquisa evidenciou que o PBF garante a complementação da renda, mas não consegue garantir o suprimento das necessidades básicas das famílias, ou seja, garante as condições mínimas, sendo insuficiente no enfrentamento à vulnerabilidade. A pesquisa mostra que o perfil traçado dos usuários entrevistados do PBF são mulheres, em uma idade adulta, apresentando como faixa etária entre 20 a 53 anos de idade. É considerada a representante legal do benefício, sendo que em sua grande maioria são as responsáveis por gerenciá-los e consideradas chefes de família. O estudo também apresenta que a maioria das famílias entrevistadas desconheciam acerca das condicionalidades, embora não saibam conceituar de forma precisa o que seriam as condicionalidades, as entrevistadas souberam minimamente associá-las a idéia de que é o necessário cumprir certas obrigações para receber o benefício. Diante disso, percebemos que as entrevistadas associavam as condicionalidades somente levar seus filhos a escola ou ao posto de saúde. Outro dado interessante a destacar que as entrevistadas sabem o que são as condicionalidades, mesmo parcialmente, mas pela via de perder o benefício do que pela via de conhecimento. O PBF é uma Transferência de Renda que garante complementar a renda familiar, mas percebe-se nos depoimentos das entrevistadas que esse programa não é suficiente para suprir as necessidades básicas da família. O estudo revela que uma das maiores expectativas das famílias é em relação ao acesso ao emprego, ou seja, quando seus filhos atingir a maioridade possa conseguir emprego com carteira assinada, garantindo desta forma uma estabilidade financeira e uma segurança. Esta é uma expectativa recorrente em seus depoimentos em relação à possibilidade de não mais necessitarem da renda proveniente do PBF. 92 Embora não possamos descartar essa contribuição do programa à melhoria das condições de vida dessas famílias, não podemos dizer que ele possibilitou superar as condições de vulnerabilidade, no máximo ele é uma forma de enfrentamento a esta, mas que não deve ser atribuído a ele a “salvação” dos pobres. O PBF isoladamente não promoverá isso e nem se propõe, é necessário articulação com outras políticas públicas, por isso, ele é uma contribuição à superação da vulnerabilidade, é um enfrentamento a esta, e não a superação definitiva, tendo em vista que nem a complementação de renda que ele proporciona é suficiente, nem o acesso da população aos direitos sociais tem sido garantido a contento, além do que, essa população também não tem tido acesso à participação política de qualidade. Portanto, diante do exposto, identificamos neste estudo a partir dos usuários que foram entrevistados, que o Bolsa Família proporciona não somente apenas uma recurso financeiro que os possibilita uma condição de vida mais digna, mas sobretudo apresenta a perspectiva de superar sua condição de vulnerabilidade, posteriormente se inserindo no mercado de trabalho e conseguindo garantir sua própria subsistência e de seus familiares. Diante da explanação, salientamos que além dos usuários do Programa Bolsa Família em sua grande maioria serem mulheres responsáveis por recebê-los e gerenciá-los, embora tenham uma dupla jornada de trabalho, as entrevistadas na pesquisa, expuseram que para proporcionar uma condição de vida melhor para sua família se submetem a todos os desafios que perpassam em suas vidas. Percebemos nesta pesquisa a partir das usuárias que foram entrevistadas, que o Programa Bolsa Família proporciona não somente um recurso financeiro, mas um programa social que possibilita uma esperança, ou seja, uma perspectiva de futuro, de sair daquela situação de vulnerabilidade. Portanto, mediante esta análise salientamos que este benefício os possibilita uma melhoria na sua condição de vida. 93 REFERÊNCIAS ARREGUI, Carola C.; WANDERLEY, Mariangela B. A vulnerabilidade Social é atributo da pobreza?, 2009, p.143-165. BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Política Nacional de Assistência Social (PNAS) – 2004. Norma Operacional Básica (NOB/SUAS). Brasília: MDS, 2005. BRASIL. Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais. Resolução nº 109, de 11 de novembro de 2009, publicada no Diário Oficial da União em 25 de novembro de 2009. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Texto Constitucional Promulgado em 5 de outubro de 1988, com as alterações adotadas pelas emendas constitucionais nº 1/92 a 68/2011 e pela emendas constitucionais de revisão nº 1ª 6/94, de 2012. Ed. Brasília: 103p. BEHRING, Elaine Rossetti. Política Social: fundamentos e história/Elaine Rossetti Behring, Ivanete Boschetti. – 4.ed. – São Paulo: Cortez, 2008. – (Biblioteca Básica de Serviço Social; v.2. CASTEL, Robert. A insegurança Social: o que é ser protegido? Petrópolis, RJ: Vozes, 2005. Concepção e Gestão da Proteção Social não Contributiva no Brasil. – Brasília: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, UNESCO, 2009. 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DADOS DEMOGRÁFICOS, REALIDADE DE VIDA E DE TRABALHO 1)Sexo: ( ) Masculino 2)Idade:_____ ( ) Feminino Etnia:( ) Branca ( ) Negra ( ) Parda ( ) Amarela 3)Estado Civil: ( ) Solteira ( ) Casada ( ) Divorciada ( ) União Estável 4) Qual a sua escolaridade? ( ) Não Estudou ( ) Estudou, mas não se Alfabetizou ( ) Nível Fundamental Incompleto ( ) Nível Fundamental Completo ( ) Nível Médio Incompleto ( ) Nível Superior em Conclusão ( ) Nível Superior Completo 5) Reside em: ( ) Angorá ( ) Centro ( ) Outro Bairro de Itaitinga. Especifique:____________________________________________________ 6 )Possui casa própria: ( ) Sim 6.1-( ) Infraestrutura ( ) Alvenaria ( ) Não ( ) Outros. Especifique: ______ 7 )Quantas pessoas moram na mesma casa que você? Especifique: _________________________________________________________ 8)Possui água Encanada: ( ) Sim ( ) Não. 8 -Saneamento Básico:( ) Sim ( ) Não 9) Você Trabalha? ( ) Sim ( ) Não . 9- Qual a sua profissão? ______________________________________________________ 10) Qual o valor da sua Renda ? 99 _______________________________________________________________ 11) De onde vem sua maior Renda? ____________________________________________________ 12)Você tem quantos filhos Beneficiados com o Programa Bolsa Família? Quantos:______________ Idade:_____________________ 13 ) Há quanto tempo recebe o Benefício? ___________________________________________________________ 14) Sua Renda Per Capita é toda proveniente do Programa Bolsa Família? ( ) Sim ( ) Não 14- Que outras atividades realiza para complementar a Renda ? Especifique: ______________________________________________________________ 15) Você tem acesso a outros Serviços ofertados no CRAS/Angorá, além do PBF? ( ) Sim ( ) Não 15- Quais Serviços? 16) Quais grupos ou Serviços que você participa no CRAS/Angorá? ( ) Projovem ( ) Brasil Carinhoso ( ) Outros 16- Cite-os: ___________________________ 17) Como era a sua vida antes do PBF? Especifique: _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ 18)O que você fazia antes do PBF? _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ 19)Que espaços você frequentava na área do Lazer, antes do PBF? _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ 20)Que espaços você passou a frequentar na área do Lazer, depois do PBF? _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ 21)Você antes do PBF Trabalhava? ( ) Sim ( ) Não 21- especifique: ______________________________________________________________ 22)Quais são suas maiores Necessidades? _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ 100 2. RELAÇÕES ENTRE ASSISTÊNCIA SOCIAL E USUÁRIOS. 1) Como era sua vida antes de receber o PBF? 2) Como é sua vida após passar a receber o PBF? _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ 3) Como você definiria o PBF? _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ 4) Como você utiliza o valor do PBF? _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ 5)Você acredita que o PBF tem contribuído para melhorar sua condição de sustentabilidade? Explique: _______________________________________________________________ ______________________________________________________________ 6)Você esta tendo acesso às informações acerca dos critérios para acessar o PBF? ( ) Sim ( ) Não 6- Especifique: _______________________________________________________________ ______________________________________________________________ 7)Voce sabe o que são Condicionalidades? ( ) Sim ( ) Não 7Especifique: ______________________________________________________________ 8)Você esta cumprindo com as Condicionalidades para continuar recebendo o auxílio mensal do PBF? ( ) Sim ( ) Não 8- Quais suas principais dificuldades acerca dessas Condicionalidades? _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ 9)Qual a situação atual do Benefício?( ) Advertido ( ) Bloqueado ( ) Suspenso ( ) Cancelado ( ) Liberado 10)Com o que você mais gasta quando recebe o Recurso proveniente do Benefício? _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ 11)Você já comprou algum eletrodoméstico com o Benefício? Caso a resposta seja afirmativa, cite-os:( ) Sim ( ) Não _______________________________________________________________ 12)O que o Programa Bolsa Família proporcionou em sua vida? Explique: _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ 13)Você já imaginou hoje sua vida sem o Benefício? _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ 101 14)Quais são suas expectativas em relação à possibilidade de não mais necessitarem da renda proveniente do PBF? _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ 15)Sua família participa de atividades Socioeducativas no CRAS/Angorá? ( ) Sim ( ) Não 15- Especifique: _____________________________________________________________ ____________________________________________________________ 16)Você esta tendo acompanhamento por outros profissionais no CRAS/Angorá? ( ) Sim ( ) Não 16- Especifique: _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ 17) O que é família para você ? _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ 18) Como é ser mulher e „‟chefe de família‟‟ ? _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ 19) Qual o seu papel na família ? _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ 102 APÊNDICE B – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Convidamos o Senhor (a) para participar da Pesquisa “Acerca do Programa Bolsa Família no enfrentamento à vulnerabilidade sócio-familiar: um estudo realizado com as famílias atendidas pelo CRAS/Angorá de Itaitinga – CE”, sob execução dos (as) pesquisador (as) Moíza Sibéria Silva de Medeiros (responsável) e Yara Viana Martins (participante), a qual pretende identificar a importância atribuída pelos usuários do CRAS/Angorá de Itaitinga ao Programa Bolsa Família no enfrentamento a vulnerabilidade sócio-familiar. Sua participação é voluntária e se dará por meio de entrevista, que consiste no preenchimento de um questionário com perguntas abertas e fechadas apresentadas ao Sr(a). A finalidade dessa coleta de dados é traçar um perfil dos usuários beneficiados com o Programa Bolsa Família. A entrevista será realizada no dia previamente marcado, de acordo com sua disponibilidade. Os depoimentos desta entrevista serão gravados com seu consentimento. Esperamos que essa pesquisa os possibilite reflexões acerca dos serviços e sua relevância em sua vida pessoal e profissional. Os Resultados dessa pesquisa serão publicados nos meios científicos e em nenhum momento o Senhor (a) será identificado, não terá nenhum gasto ou custeio financeiro para participar da presente pesquisa. Não há riscos decorrentes da sua participação e o Sr.(a) possui a liberdade de retirar sua permissão a qualquer momento, seja antes ou depois da coleta dos dados, independente do motivo e sem nenhum prejuízo a sua pessoa e nem ao seu atendimento ou tratamento na Instituição. Não há despesas pessoais para o(a) participante em qualquer fase do estudo. Também não há compensação financeira relacionada à sua participação. Se existir qualquer despesa adicional, ela será paga pelo orçamento da pesquisa. Os pesquisadores assumem o compromisso de utilizar os dados somente para esta pesquisa. Os resultados da pesquisa serão analisados e publicados, mas sua identidade não será divulgada, sendo guardada em sigilo. Em qualquer etapa do estudo, poderá contatar os pesquisadores para o esclarecimento de dúvidas ou para retirar o consentimento de utilização dos dados coletados com a entrevista: Moíza Sibéria Silva de Medeiros: fone: (85) 86357476 e Yara Viana Martins pelo fone: (85) 87482465. Consentimento Pós–Informação Eu,___________________________________________________________, fui informado sobre o que o pesquisador quer fazer e porque precisa da minha colaboração, e entendi a explicação. Por isso, eu concordo em participar do projeto, sabendo que não vou ganhar nada e que posso sair quando quiser. Este documento é emitido em duas vias que serão ambas assinadas por mim e pelo pesquisador, ficando uma via com cada um de nós. ________________________________________ Assinatura do Participante __________________________________________ Assinatura do Pesquisador Responsável Data: ___/ ____/ ____ 103 APÊNDICE C – SOLICITAÇÃO PARA ENTRADA NO CAMPO DE PESQUISA Eu, Yara Viana Martins, aluna do curso de graduação de Serviço Social da Faculdade Cearense, orientadora da professora Ms. Moíza Sibéria Silva de Medeiros, vimos por meio desta, solicitar autorização da Secretária de Assistência Social de Itaitinga para realizar a pesquisa intitulada: “Analisar o Programa Bolsa Família no enfrentamento à vulnerabilidade sócio-familiar: um estudo realizado com as famílias atendidas pelo CRAS Angorá – Itaitinga – CE”. A referida pesquisa visa identificar a importância do Programa Bolsa Família na perspectiva dos usuários assistidos no CRAS/Angorá de Itaitinga. Ressalta-se que serão respeitadas as questões éticas e que antes de iniciar a pesquisa com as usuárias serão fornecidas todas as informações sobre o estudo a fim de que as mesmas possam ter clareza e tranqüilidade para decidir se devem ou não aceitar o convite. Caso esse convite seja aceito as participantes deverão formalizar sua participação através de um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Os dados coletados, analisados contribuirá para a pesquisa referida. Agradecemos antecipadamente,