UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES INSTITUTO A VEZ DO MESTRE HÉLIO RICARDO MASCARENHAS FONSECA GESTÃO DE SAÚDE PÚBLICA - UM DESAFIO À CAPACITAÇÃO PROFISSIONAL Rio de Janeiro 2008 HÉLIO RICARDO MASCARENHAS FONSECA GESTÃO DE SAÚDE PÚBLICA - UM DESAFIO À CAPACITAÇÃO PROFISSIONAL Trabalho de Conclusão de curso de PósGraduação “lato sensu” para obtenção do certificado de especialização em Administração em Saúde, promovido pela Universidade Candido Mendes - Instituto A Vez do Mestre. Professora Orientadora: Ana Paula Ribeiro Rio de Janeiro 2008 “Não basta ensinar ao homem uma especialidade, pois, ele se tornará uma máquina e não uma personalidade. É necessário que adquira um sentimento, um senso prático do que vale a pena ser empreendido, daquilo que é bom e moralmente correto”. (Sir Isaac Newton). “Dedico este trabalho a grande amiga e companheira de todas as horas, Maria do Carmo a quem tenho o orgulho de chamar de Mãe”. AGRADECIMENTOS Agradecer significa reverenciar o comportamento, a colaboração, o incentivo, o carinho e amor, sempre demonstrados por pessoas especiais, que direta ou indiretamente, estiveram envolvidas para a obtenção do resultado desejado. É nesta oportunidade que aproveito para agradecer, reconhecendo e tornando publico, o quanto vocês foram importantes, para que eu pudesse realizar mais este sonho. A DEUS, por ser inspiração constante em minha vida, grande colaborador que colocou em meu caminho pessoas extremamente competentes que me trouxeram ate aqui. A Professora Drª. Ana Paula Ribeiro, minha orientadora, por sua sensibilidade e orientação precisa atributos decisivos para o resultado deste trabalho. A minha mãe, por seu apoio incondicional, que guardou o meu mundo em suas mãos, para í-lo como refúgio. A minha namorada, que tantas vezes deixei em segundo plano, por meu tempo ter se tornado tão limitado. Aos Amigos e Familiares, que ficaram tanto tempo esperando uma visita que nunca aconteceu, que se acostumaram com os “parabéns” atrasados. gratidão e o meu muito obrigado! A todos, minha eterna SUMÁRIO INTRODUÇÃO I – DESENVOLVIMENTO 1 – Política de Saúde no Brasil a partir de 1980 2 1.1 – Década de 1980 2 1.2 – Década de 1990 4 2 – O Cenário Atual 9 2.1 – Estrutura do Ministério da Saúde 10 2.2 – A Saúde na Mídia 14 2.3 – O Sistema de Informação 19 2.4 – Gestão de Pessoas 21 2.5 – Recursos Financeiros e Dados Estatísticos do Setor 24 3 – Ferramentas da Administração Eficaz 27 3.1 – Legislação 28 3.2 – Capacitação 30 3.3 – Austeridade 34 CONSIDERAÇÕES FINAIS 36 REFERÊNCIAS 37 RESUMO Este estudo refere-se à elaboração e análise do cenário contemporâneo da gestão de saúde no Brasil, tomando por base pesquisas de dados históricos, notícias, trabalhos acadêmicos, livros, sites, entrevistas e opiniões de profissionais especializados na área de gestão de saúde. Iniciando por um resumo histórico da política de saúde no Brasil a partir da década de 1980, no decorrer do desenvolvimento foram abordados alguns temas relacionados à gestão de saúde pública como: estrutura do Ministério da Saúde, sistema de informação, recursos humanos, recursos financeiros e dados estatísticos. A análise dos fatos possibilitou a constatação de que os motivos da problemática da Saúde não se reduzem apenas à escassez de recursos. Nesse contexto, encontramos inúmeros casos de desvio e desperdício de dinheiro público causado por gestões equivocadas. Como solução, a adequação dos recursos humanos é uma tarefa prioritária que envolve a capacitação profissional e a contratação através de concursos públicos. Considerando a gestão de saúde pública no cenário atual e suas necessidades de ajustes, o resultado final da análise é uma reflexão sobre a legislação, a capacitação e a austeridade como excelentes ferramentas para a redução dos problemas enfrentados no cotidiano da saúde no país, e que devem ser utilizadas por gestores capacitados profissionalmente. Palavras-chave: Saúde, Gestão, e Capacitação. INTRODUÇÃO A crise do sistema de saúde no Brasil está presente no nosso dia a dia podendo ser constatada através de fatos amplamente conhecidos e divulgados pela mídia. Os enfoques mudam de tempos em tempos, mas o tema sempre volta à questão: caos econômico e administrativo, além do péssimo atendimento. Com certeza os problemas da saúde seriam menores se esses recursos tivessem sido geridos de forma profissional. A administração pública brasileira ainda se caracteriza pela morosidade, pela falta de eficácia e eficiência e, principalmente, pelo descaso das autoridades para com os seus deveres. Diante desses fatos, surgem alguns questionamentos: quais seriam as causas desse caos? Falta de formação dos gestores ou excesso de burocracia no sistema? O cargo de gestor da saúde deve continuar sendo ocupado por indicação, ou por concursos? O objetivo deste trabalho é elaborar um cenário da gestão de saúde no Brasil, da década de 1980 até os dias atuais, baseado em pesquisa de dados históricos e notícias recentes divulgadas pela mídia, com ênfase na gestão do Rio de Janeiro. No decorrer do desenvolvimento serão analisados alguns temas relacionados à gestão de saúde pública, como por exemplo, sistema de informação, recursos humanos, recursos financeiros e legislação, que servirão para embasar considerações a respeito de uma nova visão, que estimule a consciência pública sobre o exercício da administração da saúde por profissionais com formação específica. É clara a necessidade dos governos em assumir uma postura empreendedora - voltada para o cidadão como cliente, que busque uma administração por resultados, orientada por processos de avaliação contínua. No caso do setor de saúde no Brasil, em especial no Rio de Janeiro, as notícias falam sobre prejuízos aos cofres públicos e constantemente vemos pessoas assumirem cargos de gestor em saúde no âmbito governamental, cuja formação, na maioria das vezes, é totalmente adversa à atribuição que lhe foi imputada. Sendo assim, a importância desse trabalho é a análise dos fatos sob o ponto de vista da administração moderna, sugerindo a conscientização da sociedade e o envolvimento num processo de mudanças, principalmente no que se refere à atual forma de nomeação de gestores de saúde. A metodologia utilizada consiste na coleta e análise de dados científicos de trabalhos acadêmicos, livros, sites, estudos de casos, entrevistas e opiniões de profissionais especializados na área de gestão de saúde. I – DESENVOLVIMENTO 1. POLÍTICA DE SAÚDE NO BRASIL A PARTIR DE 1980 Analisando a evolução histórica da política de saúde no Brasil, podemos afirmar que ela está relacionada diretamente com a evolução político-social e econômica da sociedade brasileira e que a dualidade entre medicina preventiva e curativa sempre foi uma constante nas diversas políticas de saúde implementadas. Dentro da política do Estado brasileiro, a saúde sempre foi deixada à margem do sistema, como a moldura de um quadro, tanto no que diz respeito à solução dos grandes problemas de saúde que afligem a população, quanto na destinação de recursos direcionados ao setor saúde. Para que possamos analisar a realidade atual é necessário conhecer os determinantes históricos envolvidos, e para tanto, vamos considerar alguns dos principais fatos ocorridos a partir de 1980. 1.1 Década de 1980 Em 1981, aconteceu a criação do Conselho Consultivo de Administração da Saúde Previdenciária (CONASP) ligado ao INAMPS. O CONASP passou a absorver em postos de importância alguns técnicos ligados ao movimento sanitário, tornando mais rigorosa a fiscalização da prestação de contas dos prestadores de serviços credenciados, na tentativa de conter custos e combater fraudes. Entre as propostas do plano estão: reversão gradual do modelo médico-assistencial através do aumento da produtividade do sistema, da melhoria da qualidade da atenção, da equalização dos serviços prestados as populações urbanas e rurais, da eliminação da capacidade ociosa do setor público, da hierarquização, da criação do domicílio sanitário, e montagem de um sistema de auditoria médico-assistencial. O CONASP encontrou oposição da Federação Brasileira de Hospitais e de medicina de grupo, que viam nesta tentativa a perda da sua hegemonia dentro do sistema e a perda do seu status. Esses grupos se opuseram e conseguiram derrotar dentro do governo com a ajuda de parlamentares um dos projetos mais interessantes de modelo sanitário, que foi o PREVSAÚDE, que depois de seguidas distorções acabou por ser arquivado. Devido ao agravamento da crise financeira na época, o sistema redescobriu a existência do setor público de saúde e a necessidade de se investir nesse setor, que trabalhava com um custo menor atendendo a uma grande parcela da população carente de assistência. Em 1983, as foram criadas as Ações Integradas de Saúde (AIS) - Projeto interministerial (Previdência-Saúde-Educação), visando um novo modelo assistencial que incorporava o setor público, procurando integrar ações curativas-preventivas e educativas ao mesmo tempo. Assim, a Previdência passa a comprar e pagar serviços prestados por estados, municípios, hospitais filantrópicos, públicos e universitários. Este período coincidiu com o movimento de transição democrática, com eleição direta para governadores e vitória esmagadora de oposição em quase todos os estados nas primeiras eleições democráticas em 1982. Em 1985, o movimento das DIRETAS JÁ e a eleição de Tancredo Neves marcaram o fim do regime militar, gerando diversos movimentos sociais inclusive na área de saúde, que culminaram com a criação das associações dos secretários de saúde estaduais (CONASS) ou municipais (CONASEMS), e com a grande mobilização nacional por ocasião da realização da VIII Conferência Nacional de Saúde (Congresso Nacional, 1986), a qual lançou as bases da reforma sanitária e do SUDS (Sistema Único Descentralizado de Saúde). Estes fatos ocorreram concomitanmente com a eleição da Assembléia Nacional Constituinte em 1986 e a promulgação da nova Constituição em 1988. A Constituição de 1988 procurou garantir a saúde como um direito de todos e um dever do estado. O SUS é definido pelo artigo 198 da Constituição Federal do seguinte modo: “As ações e serviços públicos de saúde integram uma rede regionalizada e hierarquizada, e constituem um sistema único, organizado de acordo com as seguintes diretrizes”: I Descentralização, com direção única em cada esfera de governo; II - Atendimento integral, com prioridade para as atividades preventivas, sem prejuízo dos serviços assistenciais; III Participação da comunidade. “Parágrafo único - o sistema único de saúde será financiado, com recursos do orçamento da seguridade social, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, além de outras fontes”. O texto constitucional demonstra claramente que a concepção do SUS é baseada na formulação de um modelo de saúde voltado para as necessidades da população, procurando resgatar o compromisso do estado para com o bem-estar social, especialmente no que refere a saúde coletiva, consolidando-o como um dos direitos da cidadania. Esta visão refletia o momento político da sociedade brasileira, recém saída de uma ditadura militar, a sociedade procurava garantir na nova constituição os direitos e os valores da democracia e da cidadania. 1.2 Década de 1990 Em 1990, o governo editou as Leis 8.080 e 8.142, conhecidas como Leis Orgânicas da saúde. Apesar do SUS ter sido definido pela Constituição de 1988, ele somente foi regulamentado em 19 de setembro de 1990 através da Lei 8.080. Esta lei define o modelo operacional do SUS, propondo a sua forma de organização e de funcionamento. O SUS é concebido como o conjunto de ações e serviços de saúde, prestados por órgãos e instituições públicas federais, estaduais e municipais, da administração direta e indireta e das fundações mantidas pelo Poder Público. A iniciativa privada poderá participar do SUS em caráter complementar. Foram definidos como princípios doutrinários do SUS: Universalidade – o acesso às ações e serviços deve ser garantido a todas as pessoas, independentemente de sexo, raça, renda, ocupação, ou outras características sociais ou pessoais; Equidade – é um princípio de justiça social que garante a igualdade da assistência à saúde, sem preconceitos ou privilégios de qualquer espécie. A rede de serviços deve estar atenta às necessidades reais da população a ser atendida; Integralidade – significa considerar a pessoa como um todo, devendo as ações de saúde procurar atender a todas as suas necessidades. Destes, derivaram alguns princípios organizativos, que são: Hierarquização – Entendida como um conjunto articulado e contínuo das ações e serviços preventivos e curativos, individuais e coletivos, exigidos para cada caso em todos os níveis de complexidade do sistema; referência e contra-referência; Participação Popular – Democratização dos processos decisórios consolidado na participação dos usuários dos serviços de saúde nos chamados Conselhos Municipais de Saúde; Descentralização Política Administrativa – consolidada com a municipalização das ações de saúde, tornando o município gestor administrativo e financeiro do SUS; Pela abrangência dos objetivos propostos e pela existência de desequilíbrios socioeconômicos regionais, a implantação do SUS não tem sido uniforme em todos os estados e municípios brasileiros, pois para que isto ocorra é necessária uma grande disponibilidade de recursos financeiros, de pessoal qualificado e de uma política efetiva a nível federal, estadual e municipal para viabilizar o sistema. No período de 1991 a 1994, com a eleição do Fernando Collor de Mello é implementada com toda a força uma política neoliberal-privatizante, com um discurso de reduzir o Estado ao mínimo. Embora no discurso as limitações dos gastos públicos devessem ser efetivadas com a privatização de empresas estatais, na prática a redução de gastos atingiu a todos os setores do governo, inclusive o da saúde. Neste período o governo começou a editar as chamadas Normas Operacionais Básicas (NOB), que são instrumentos normativos com o objetivo de regular a transferência de recursos financeiros da união para estados e municípios, o planejamento das ações de saúde, os mecanismos de controle social, dentre outros. Em 1993, em função da criação do SUS e do comando centralizado do sistema pertencer ao Ministério da Saúde, o INAMPS tornou-se obsoleto e foi extinto em 1993. Nesse mesmo ano, em decorrência dos péssimos resultados da política econômica especialmente no combate do processo inflacionário, da falta de uma base de apoio parlamentar, e de uma série de escândalos de corrupção, o Presidente Fernando Collor de Mello sofreu um processo de Impeachment e perdeu seu mandato presidencial, assumindo a presidência o então vicepresidente, Itamar Franco. Em 1994, o então Ministro da Previdência Antônio Brito, em virtude do aumento concedido aos benefícios dos previdenciários do INSS, e alegando por esta razão, não ter recursos suficientes para repassar para a área de saúde, determinou que os recursos recolhidos da folha salarial dos empregados e empregadores seriam destinados somente para custear a Previdência Social. Apesar de estar descumprindo três Leis Federais que obrigavam a previdência a repassar os recursos financeiros para o Ministério da Saúde, o Ministério da Previdência a partir daquela data não mais transferiu recursos para a área da saúde, agravando a crise financeira do setor. Em 1995 Fernando Henrique Cardoso assume o governo, mantendo e intensificando a implementação do modelo neoliberal, atrelado à ideologia da globalização e da redução do “tamanho do Estado”. Em 1996, a crise de financiamento do setor saúde se agrava e na busca de uma alternativa econômica como fonte de recurso exclusiva para financiar a saúde, o então Ministro da Saúde - Adib Jatene - propõe a criação da CPMF (contribuição provisória sobre movimentação financeira). O imposto foi aprovado Congresso Nacional, passando a vigorar a partir de 1997. É importante mencionar que o imposto teria vigência de um ano, e que os recursos arrecadados somente poderiam ser aplicados na área de saúde. No final de 1996, o ministro da saúde sentiu que os seus esforços para aumentar a captação de recursos para a saúde tinham sido em vão, pois o setor econômico do governo deduziu dos recursos do orçamento da União destinados para a saúde, os valores previstos com a arrecadação da CPMF, seu pedido de demissão aconteceu em decorrência desse fato. Foram freqüentes as denúncias de desvios, por parte do governo, na utilização dos recursos arrecadados para cobrir outros déficits do tesouro, desde a implantação da CPMF. Em 1997 o governo Fernando Henrique Cardoso intensificou as privatizações de empresas estatais (a Companhia Vale do Rio Doce é privatizada) e agendou no Congresso Nacional a reforma previdenciária, administrativa e tributária na busca do chamado “Estado mínimo”. A crise de financiamento do SUS agrava a operacionalização do sistema, principalmente no que se refere ao atendimento hospitalar. A escassez de leitos nos grandes centros urbanos passa a ser uma constante. Os hospitais filantrópicos, especialmente as Santas Casas de Misericórdia, de todo o país tomam a decisão de criar planos próprios de saúde, atuando no campo da medicina supletiva A Santa Casa de Belo Horizonte faz o mesmo e lança o seu plano de saúde, o que implica numa diminuição de leitos disponíveis para o SUS. Os Hospitais Universitários, último reduto da assistência médica hospitalar de excelência à nível do SUS, também entram em crise. “São forçados” a reduzir o número de atendimentos, e induzidos pelo próprio governo à privatização como solução para resolver a crise financeira do setor. O motivo da crise foi o baixo valor pago pelos serviços prestados pelos hospitais conveniados ao SUS e a demora na liberação desses recursos. O governo editou a Norma Operacional Básica (NOB)96 – que passou a vigorar efetivamente somente a partir de janeiro de 1998, dividindo as condições em: Gestão Plena do Sistema Municipal, que incorpora a gestão de média e alta complexidade e Gestão Plena de Atenção Básica, onde os municípios se responsabilizam pela gestão dos serviços básicos de saúde. Para garantir a operacionalização desses novos procedimentos, em 1998 foi criado o Piso de Atenção Básica (PAB), no qual os recursos passaram a ser diretamente proporcionais ao número de habitantes do município, possibilitando uma maior estabilidade no planejamento das ações de saúde local. Em 1998 as privatizações alcançam o setor de energia elétrica e sistema de telecomunicações (Telebrás). No congresso foram aprovadas a reforma administrativa e da previdência. Apesar de assumir todos os compromissos com a agenda econômica da globalização, o país sofreu as conseqüências de ataques especulativos de investidores internacionais, que lucraram com as altas taxas de juros oferecidos pela política econômica do governo. Em outubro de 1998, Fernando Henrique Cardoso foi reeleito para mais 4 anos de governo. Tendo em vista a crise econômica vivida pelo Brasil e outros países “emergentes” o governo FHC aumenta ainda mais os juros para beneficiar os especuladores internacionais e propõe para o povo um ajuste fiscal prevendo a diminuição de verbas para o orçamento de 1999, inclusive na área de saúde. O corte previsto nesta área foi de cerca de R$ 260 milhões. Ao longo da década de noventa, sob indução institucional combinada à ação de grupos ativos, foram também organizados conselhos multipartites (os conselhos de saúde) como entes voltados a compartilhar com o executivo funções de formulação e regulação na política de saúde. Associações civis, organizações não governamentais, grupos religiosos, clientelas organizadas, entre outros, convergiram para esses organismos, assim como entidades de defesa de direitos do consumidor. Os conselhos de saúde previstos pela Constituição de 1988 e regulamentados pela Lei 8.142 de 1990 são compostos por representantes governamentais, de profissionais de saúde e de entidades comunitárias. Constituídos ao longo da década de noventa, o escopo de sua intervenção dá-se por nível de governo. Assim, existe o Conselho Nacional de Saúde e os Conselhos Estaduais e Municipais. Segundo a regulamentação em vigor, possuem caráter deliberativo para questões ligadas ao setor saúde e relacionadas a cada executivo governamental. A dinâmica desses conselhos é bastante associada à agenda política local e seu papel na regulação é bastante variável. Nos locais, onde o organismo funciona como um efetivo colegiado político, o papel regulatório envolve desde o estabelecimento de normas e prioridades para a política de saúde, mediante conferências anuais e o estabelecimento de um plano de intervenção, até funções de ouvidoria pública e fiscalização da qualidade dos serviços prestados pelo sistema público. Os conselhos de saúde estão consolidados no país e seu funcionamento é um dos requisitos para o acesso a recursos da união para estados e municípios. Eventos recentes no setor saúde demonstram a implementação da agenda reformadora com a criação de novas agências regulatórias para a vigilância sanitária e saúde suplementar. O setor de saúde suplementar está sujeito a dois macro-regimes regulatórios (estatal normativo e tripartismo), em que o padrão normativo foi exercido inicialmente de forma competitiva pelo Ministério da Saúde, por meio do Departamento de Saúde Suplementar, e Ministério da Fazenda, pela SUSEP. No caso, as funções dos dois organismos foram transferidas para a agência reguladora na órbita do Ministério da Saúde. A transição esperada no caso, em função da alta pulverização do mercado de planos e seguros de saúde, está na transferência de elementos da política regulatória do padrão normativo para o tripartite. O tripartismo aparece como solução única ou combinada para três segmentos da política regulatória: saúde suplementar; prestadores privados do SUS; e as próprias relações entre níveis de governo no SUS. O processo de descentralização da saúde, não ocorreu de forma homogênea no país. De acordo com dados do Nepp (Núcleo de Estudos de Políticas Públicas) da Unicamp, em seu relatório do ano de 2000, pesquisas permitiram observar "modelos próprios" de descentralização, isto é, estados e municípios tentando buscar nos recursos locais - físicos, financeiros e humanos - a melhor maneira de se adaptar às novas regras. A criação e a implementação de uma série de programas com a descentralização e a municipalização da saúde, permitiu a cada município, conhecedor de seus problemas, agir de acordo com as suas necessidades. Os resultados da descentralização também não são homogêneos. São diversas as razões: dimensão continental do país, diferenças regionais e uma enorme quantidade de municípios existentes, dos quais a maioria de pequeno porte. Segundo Gerschman, "a implementação da política de saúde do SUS é marcada por procedimentos clientelísticos, patrimonialistas, associados ao tráfico de influências no exercício da política pública e muito arraigados na cultura política e institucional". O papel do estado no processo de descentralização é o de formulação de políticas e programas, de orientação quanto às políticas e aos programas já existentes, e o comprometimento com a melhora na qualidade dos serviços prestados. Porém, no processo de descentralização da saúde, a maioria dos estados ainda é ausente. A grande maioria oferece pouco ou nenhum empenho na organização e no desenvolvimento de áreas supramunicipais de saúde, e usam a prática de levar "seus doentes" para serem atendidos em cidades vizinhas, que acabam ficando sobrecarregadas, uma prática que prejudica o atendimento dos moradores locais. A falta de investimento de muitos estados e municípios, principalmente nas ações de prevenção, formação e desenvolvimento de capacitação de recursos humanos, levou vários municípios do país a enfrentarem verdadeiras epidemias, sem que seus hospitais estivessem preparados para receber os doentes. Um exemplo a ser citado é o episódio da dengue, no qual a falta de estrutura para agir na prevenção, mediante a eliminação do mosquito transmissor, levou muitos lugares a um verdadeiro "estado" de calamidade pública. Analisando todo o contexto de evolução histórica, podemos afirmar que de um modo geral, os problemas de saúde tornam-se foco de atenção quando se apresentam como epidemias e deixam de ter importância quando os mesmos se transformam em endemias. Somente nos momentos em que determinadas endemias ou epidemias se apresentam como importantes em termos de repercussão econômica ou social dentro do modelo capitalista proposto é que passam a ser alvo de uma maior atenção por parte do governo, transformandose pelo menos em discurso institucional, até serem novamente destinadas a um plano secundário, quando deixam de ter importância. 2. O CENÁRIO ATUAL No cenário atual, podemos considerar os seguintes aspectos: a transferência dos serviços públicos potencialmente lucrativos ao setor privado; a concentração da ação direta do Estado em programas de baixo custo voltados para as populações pobres; a ampliação dos recursos dos "planos de saúde" para as camadas médias da população, submetendo-os a uma certa "regulação" para refrear a voracidade das empresas do setor. Entre outros mecanismos de privilégio de interesses corporativos, essa política mantém ainda uma matriz tributária que sobrecarrega a população mais pobre e garante estímulos ao capital, em detrimento de uma arrecadação mais justa que permitiria aumentar o volume de recursos para as áreas sociais. Uma das conseqüências, além de outras, é o aumento da demanda por ações e serviços de saúde. O setor da demanda é composto pela população que necessita de atenção à saúde. Sendo possível considerar três grandes grupos: classes de baixa, média e alta renda. As classes de baixa renda são constituídas por grande parcela da população carente de atenção médica, que procuram serviços de assistência médica da Previdência Social ou Medicina de Grupo, são alvo das ações preventivas do Ministério da Saúde e buscam atenção nos postos de saúde da rede municipal e/ou estadual das Secretarias de Saúde. As pessoas da classe média procuram utilizar a assistência médica da previdência social, mas também consomem serviços ligados a seguros privados de saúde. Além disso, buscam (progressivamente menos) o setor privado, enquanto as classes de alta renda significam pequena minoria que, predominantemente, paga diretamente pelos serviços do setor privado. Paralelamente, o setor da oferta é constituído pelos seguintes componentes: o sistema previdenciário de atenção médica; o Ministério da Saúde, responsável basicamente por ações preventivas e controle de doenças; a rede de secretarias municipais e estaduais de saúde, atuando tanto em ações preventivas como em assistência médica (através de postos de saúde) e a medicina privada, representada por policlínicas (medicina de grupo), casas de saúde, médicos particulares. O pagamento dos serviços pode ser direto (pelo usuário) ou indireto (pela Previdência Social). Considerando a desproporção entre a demanda e a oferta dos serviços de saúde, estaremos abordando alguns temas relacionados à gestão de saúde pública no cenário atual e suas necessidades de ajustes. 2.1 Estrutura do Ministério da Saúde Muito embora a história da Saúde Pública Brasileira tenha início em 1808, o Ministério da Saúde só veio a ser instituído no dia 25 de julho de 1953, com a Lei nº 1.920. Ao longo destes mais de cinqüenta anos de existência, o Ministério da Saúde passou por diversas reformas na estrutura. Do final da década de 1980 em diante, destaca-se a Constituição Federal de 1988, que determinou ser dever do Estado garantir saúde a toda a população e, para tanto, criou o Sistema Único de Saúde. Em 1990, o Congresso Nacional aprovou a Lei Orgânica da Saúde que detalha o funcionamento do Sistema. A missão institucional do Ministério da Saúde é promover a saúde da população mediante a integração e a construção de parcerias com os órgãos federais, as unidades da Federação, os municípios, a iniciativa privada e a sociedade contribuindo para a melhoria da qualidade de vida e para o exercício da cidadania. Sua função é dispor de todas as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, reduzindo as enfermidades, controlando as doenças endêmicas e parasitárias, melhorando a vigilância à saúde e dando qualidade de vida ao brasileiro. É por causa destas atribuições que o Ministério da Saúde impõe-se o desafio de garantir o direito do cidadão ao atendimento à saúde e prover condições para que esse direito esteja ao alcance da população, independente da condição social de cada um. Resumindo, compete ao Ministério da Saúde: Ø Política nacional de saúde; Ø Coordenação e fiscalização do Sistema Único de Saúde; Ø Saúde ambiental e ações de promoção, proteção e recuperação da saúde individual e coletiva, inclusive a dos trabalhadores e dos índios; Ø Informações de saúde; Ø Insumos críticos para a saúde; Ø Ação preventiva em geral, vigilância e controle sanitário de fronteiras e de portos marítimos, fluviais e aéreos; Ø Vigilância de saúde, especialmente drogas, medicamentos e alimentos; Ø Pesquisa científica e tecnologia na área de saúde. Estrutura Regimental Básica, aprovada pelo Decreto 5.974, de 29 de novembro de 2006. Organograma Fonte: Ministério da Saúde - http://portal.saude.gov.br/saude/area.cfm?id_area=378 O Atual Ministro da Saúde (a partir de 16/03/07) JOSÉ GOMES TEMPORÃO, 55 anos, formou-se em medicina pela Faculdade de Medicina da UFRJ em 1977. Especializou-se nesta Universidade em Doenças Tropicais. É Mestre em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública da FIOCRUZ e Doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ. Destaca-se em sua trajetória profissional técnico - política, a participação no denominado Movimento da Reforma Sanitária Brasileira junto a Sérgio Arouca, David Capistrano, Eleutério Rodrigues Neto, Gastão Wagner de Sousa Campos, Sônia Fleury, José Noronha e Hésio Cordeiro entre outros. Este movimento foi o responsável pela implantação da maior política de inclusão social desde o governo Vargas inscrita na Constituição de 1988: O Sistema Único de Saúde com sua máxima "saúde como direito de todos e dever do Estado". As Secretarias e seus respectivos gestores Ø A Secretaria Executiva – SE Auxilia o Ministro da Saúde na supervisão e coordenação das atividades das demais Secretarias do Ministério da Saúde – MS e suas entidades vinculadas. No âmbito do MS, ela supervisiona e coordena as atividades relacionadas aos sistemas federais de planejamento e orçamento; de organização e modernização administrativa; de contabilidade; de administração financeira e de recursos humanos; de informação e informática; e de serviços gerais. Além disso, a SE também assessora o MS na formulação de estratégias de colaboração com organismos internacionais e supervisiona e coordena as atividades relativas aos sistemas internos de gestão e aos sistemas de informação relativos às atividades fins do SUS. Secretária Executiva - MÁRCIA BASSIT LAMEIRO DA COSTA MAZZOLI - Graduada em Administração de Empresas e em Economia pela Universidade de Brasília (UNB), Mestre em Administração na área de Planejamento Estratégico, possui várias especializações, em nível de pós-graduação, nas áreas de Planejamento, Formulação de Políticas Públicas, Administração, Finanças e Auditoria, dentre outras. Ø A Secretaria de Vigilância em Saúde – SVS É responsável, no Ministério da Saúde, por todas as ações de vigilância, prevenção e controle de doenças. Suas atividades incluem a coordenação nacional de programas relevantes como os de prevenção e controle das doenças sexualmente transmissíveis e AIDS, da dengue, malária, hepatites virais, hanseníase e da tuberculose, entre outras; além da investigação e resposta aos surtos de doenças de relevância nacional. Cabe à SVS ainda coordenar o Programa Nacional de Imunizações (PNI), a rede nacional de laboratórios de saúde pública e as atividades de vigilância em saúde ambiental. Secretário – GERSON OLIVEIRA PENNA - Graduado em Medicina pela Universidade Federal do Pará, especialista em Planejamento Estratégico, doutor em Medicina Tropical, pela Universidade de Brasília. Presidente do Conselho Consultivo da Agencia Nacional de Vigilância Sanitária. Médico e Pesquisador Adjunto do Núcleo de Medicina Tropical, da Universidade de Brasília e Pesquisador Associado do Centro de Referência Nacional em Dermatologia Sanitária D Libânia (Fortaleza-CE) e Fundação Alfredo da Matta (ManausAM). Ø Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa – SGEP Sua função é formular e implementar a política de gestão democrática e participativa do Sistema Único de Saúde – SUS e fortalecer a participação social. Além disso, a SGEP articula as ações do Ministério da Saúde, referentes à gestão estratégica e participativa, com os diversos setores, governamentais e não-governamentais, relacionados com os condicionantes e determinantes da área saúde. A SGEP também apóia o processo de controle social do SUS, para o fortalecimento da ação dos conselhos de saúde; e promove, em parceria com o Conselho Nacional de Saúde – CNS, a realização das Conferências de Saúde e das Plenárias dos Conselhos de Saúde, com o apoio dos demais órgãos do MS. Atualmente, o médico ANTONIO ALVES DE SOUZA, exerce a titularidade da Secretaria. Ø Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos – SCTIE Tem como principais competências a formulação implementação e avaliação da Política Nacional de Ciência e Tecnologia em Saúde. Cabe à SCTIE viabilizar a cooperação técnica a estados, municípios e DF, no âmbito da sua atuação; e articular a ação do MS – no âmbito das suas atribuições – com as organizações governamentais e não-governamentais, com vistas ao desenvolvimento científico e tecnológico em saúde. Além disso, a Secretaria também formula, implementa e avalia as Políticas Nacionais de Assistência Farmacêutica e de Medicamentos, incluindo hemoderivados, vacinas, imunobiológicos e outros insumos relacionados; participa da formulação e implementação das ações de regulação do mercado da Saúde; e fomenta, realiza e avalia estudos e projetos no âmbito das suas responsabilidades. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos. Secretário: REINALDO FELIPPE NERY GUIMARÃES - Graduado em Medicina e mestre pela UFRJ. Ø Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde – SGTES Na estrutura ministerial é um sinal visível da importância do movimento em direção à valorização dos trabalhadores. Análise de projetos, propostas e políticas para a desprecarização dos vínculos de trabalho no sistema de saúde e mesa nacional de negociação permanente do SUS. O objetivo é garantir uma oferta efetiva e significativa de cursos de formação técnica, de qualificação e de especialização para o conjunto dos profissionais da saúde e para diferentes segmentos da população. Secretário: FRANCISCO EDUARDO DE CAMPOS, médico e pesquisador. 2.2 A Saúde na Mídia É inquestionável o poder de influência da mídia, levando mensagens a milhões de pessoas que de comum possuem apenas o fato de estarem sendo atingidas pelas mensagens. Assim, ela se transforma num forte instrumento de socialização, influenciando, e oferecendo modelos de comportamento. Dela ressurgem vários assuntos comentados em diversos locais e níveis da sociedade. O que difere é o ângulo como esses assuntos são vistos, processados e aplicados em sua realidade. Esta realidade é modelada pelo poder da comunicação e seu efeito não pode ser medido facilmente. A saúde sempre ocupou grandes espaços na mídia numa postura crítica em relação às definições de políticas públicas de saúde, cobrando a melhoria da qualidade de vida da população, abordando temas correlatos e responsáveis pela saúde do cidadão tais como moradia, saneamento, transporte, qualidade do ar e da alimentação. Bernardo Kucinski afirma: A concepção desse novo direito de cidadania ativa, no campo da saúde, confere à informação jornalística sobre saúde, sobre políticas públicas e terapias de saúde, um valor político na esfera da cidadania, além, de seus valores pedagógicos tradicionais em campanhas sanitárias e na medicina preventiva, ou de seu entendimento como “jornalismo de serviço”. Por extensão, tornam-se objetos privilegiados de cobertura jornalística, vigilância e crítica, as políticas públicas de saúde dirigidas a grupos populacionais, como as campanhas de prevenção da AIDS ou de detecção do câncer de mama (Kucinski, 2000, p. 183). Sendo assim, apresentaremos uma coletânea de notícias relacionadas ao cenário contemporâneo da administração da saúde pública, que se juntaram ao trabalho de pesquisa como argumentação e contextualização da realidade vivida no país, incluindo opiniões de profissionais da área, médicos, gestores e políticos. Caos nas emergências dos Hospitais do Rio Jornal do Brasil, 24/01/2003 Falta de material humano – médicos, enfermeiros e auxiliares de enfermagem – equipamentos danificados ou obsoletos, superlotação, demora no atendimento, deficiência na triagem e um precário sistema de transporte de pacientes da rede hospitalar, foram alguns dos pontos citados em dossiê sobre a situação caótica dos hospitais do Rio, principalmente nos setores de emergência. O Trabalho foi entregue em janeiro de 2003, ao então secretário municipal de Saúde, Ronaldo César Coelho, pelo presidente do Conselho Regional de Medicina (Cremerj), Aloísio Tibiriçá Miranda. O documento foi elaborado com dados obtidos numa série de inspeções feitas nos hospitais públicos pela Comissão de Fiscalização do Cremerj em conjunto com o Ministério Público. No hospital do Andaraí os elevadores que transportam material contaminado eram usados no transporte de pacientes e alimentos. No Miguel Couto faltava material médico cirúrgico, macas, equipamentos de raio-x e outros equipamentos. No Salgado Filho, faltavam alguns equipamentos, enquanto as condições de iluminação e higiene eram precárias. No Hospital Lourenço Jorge e no Paulino Werneck, foi constatado a necessidade de contratação de profissionais na área de enfermagem. Falência da Rede de Saúde Jornal Extra, 16/06/2004 Em junho de 2004, o Hospital Souza Aguiar foi obrigado a funcionar mediante liminar judicial, sob pena de prisão do secretário municipal de saúde e do diretor do hospital em caso de descumprimento. O então secretário Ronaldo César Coelho afirmou que o problema ocorreu devido à precariedade dos equipamentos utilizados continuamente, e da superlotação do hospital. Na mesma semana, médicos e funcionários denunciaram as precárias condições de funcionamento do centro cirúrgico, responsável pelo cancelamento de mais de cem operações. Hospital de Luxo para as moscas Jornal Extra, 30/09/2007 Em setembro de 2007, o jornal Extra teve acesso ao interior do Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, em Acari. O quadro que presenciamos comprova o luxo e a modernidade das instalações. O funcionamento pleno do hospital estava previsto para 2004, porém devido a problemas judiciais entre a secretaria municipal de saúde e o sindicato dos médicos, isso não ocorreu. Praticamente pronto desde 2006, o hospital ainda é para a população de Acari e arredores apenas uma expectativa. A unidade mesmo parada, já custou aos cofres públicos pelo menos R$80,9 milhões. Congresso de Emergência Pública apresenta atualizações e discussões em Saúde Cremerj Notícias, 05/07/2007 O Congresso Médico dos Hospitais Públicos de Emergência, promovido pelo Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj) reuniu cerca de mil médicos e autoridades para tratar de diversos temas que envolvem as emergências dos hospitais do Estado. Para ilustrar a situação das emergências dos hospitais no Rio de Janeiro, tratando-se de municipais, estaduais e federais, três casos foram demonstrados. Representando o Souza Aguiar (municipal), Dr. Marcelo Autran definiu como principal problema a falta de condições de atendimento digno à população. “Enfrentamos, ainda, uma grande desmotivação dos profissionais de saúde em razão da sobrecarga de trabalho, dos baixos salários e da precariedade dos contratos de trabalho”, argumentou. Em relação ao Carlos Chagas (estadual), Dr. Aramis Martins Costa Filho caracterizou o momento atual como motivo de angústia e sofrimento para os profissionais de saúde e para a população em geral. Por sua vez, a Dra. Regina Pinheiro Macedo, do hospital Geral de Bonsucesso (federal), ressaltou que a unidade não tem instalações físicas para atendimento de emergência, contando com apenas 20 leitos para adultos e 9 para crianças. Diante dos cenários apresentados, o subsecretário municipal de Saúde, Dr. Valmir Peçanha, e o coordenador-geral dos hospitais federais do Rio de Janeiro, Dr. Mário Bueno, reforçaram a disposição dos órgãos que representam em solucionar as deficiências na área. (http://www.cremerj.com.br/noticias/mostraNoticia) Mais Saúde: concurso a partir de 2008 Ministério da Saúde – Notícias 10/12/2007 O Ministério da Saúde vai contratar cerca de cinco mil servidores até 2011. A realização de concursos públicos no âmbito federal para analistas de gestão em saúde, auditores federais do SUS e agentes administrativos é uma das metas previstas no Mais Saúde – política do governo federal lançada na última quarta-feira (5), pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo ministro da Saúde, José Gomes Temporão. “A recomposição da força de trabalho com a criação de carreiras específicas voltadas para a gestão e controle do SUS é estratégica para atingir as metas do programa Mais Saúde”, afirma Márcia Bassit, secretária-executiva do Ministério da Saúde. Para a realização do concurso e contratação dos profissionais, projeto prevê um investimento de cerca de R$ 967,6 milhões. A recomposição da força de trabalho ocorrerá a partir de julho de 2008, após a realização de concursos para as carreiras mencionadas. A recomposição da força de trabalho faz parte do pilar estratégico, chamado Gestão, Trabalho e Controle Social, que tem como objetivo qualificar os profissionais e gestores, formando recursos humanos para o SUS. Investimentos em saúde no Brasil são os mesmos de 15 anos atrás, diz estudo. Agência Brasil, 16/02/2008 Brasília - Os R$ 50 bilhões investidos pelo governo brasileiro na área da saúde em 2007 e o valor semelhante previsto para 2008 representam o mesmo gasto por pessoa custeado pelo poder público no início da década de 90: o equivalente a US$ 280 anuais por pessoa. O valor está acima da média registrada na América Latina, mas não chega à metade da média mundial de US$ 806 per capita. Considerado o percentual dos recursos investidos em relação ao que os países arrecadam, o gasto brasileiro cai para pouco mais da metade do registrado nos vizinhos latinoamericanos. Os dados fazem parte de um estudo que acaba de ser concluído pela Fundação Instituto de Administração (FIA), ligada à Universidade de São Paulo (USP). (http://noticias.correioweb.com.br/materias.php?id=2733264&sub=Brasil). Conselho de Saúde comenta desvio de recursos do setor Jornal da Mídia/BA, 09/03/2008 Brasília - O “desvio” dos recursos preocupa o Conselho Nacional de Saúde, segundo o presidente da entidade, Francisco Batista Junior. Ele afirmou que a entidade que já vem apontando há algum tempo a necessidade de rediscutir o financiamento da saúde. Batista Junior deu as informações ao comentar dados de um estudo divulgado no início do ano pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), vinculado ao Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, que avaliou os gastos sociais federais considerando a política econômica adotada no país. Segundo o estudo, de 1995 a 2005, os gastos do governo federal com saúde passaram de R$ 28,7 para R$ 35,9 bilhões, descontados já descontados os efeitos da inflação, mas caíram de 1,79% para 1,59%. Na avaliação de Batista Junior, os recursos deveriam ser empregados para fortalecer a rede pública estatal, principalmente na área de prevenção, com a implantação e aparelhamento de centros de saúde que custam bem menos do que bancar serviços de alta complexidade, hoje oferecidos por meio de contratações na rede privada. “O poder público está completamente refém dos grupos privados contratados que exigem valores cada vez mais condizentes com a lógica do capital, por isso a tendência é o financiamento ficar cada vez mais insuficiente. Ou nós passamos defender o fortalecimento e a reestruturação do sistema estatal para diminuir a dependência do setor privado contratado ou o sistema vai ser inviabilizado”, argumentou. Opinião do Ministro da Saúde sobre a rede pública Ministério da Saúde – Notícias, 12/03/2008 A rede pública perde diversas oportunidades de enfrentar os problemas de saúde da população, pois não acompanha integralmente a evolução e tratamento das pessoas que buscam o SUS, afirmou o ministro José Gomes Temporão. "Nos 20 anos de SUS, conseguimos avançar muito, mas ainda estamos distante de duas questões importantes para que o sistema mostre a sua eficácia e importância: a estruturação de redes efetivamente integradas, tendo como base de organização o espaço social, onde as pessoas vivem e trabalham, e a questão de responsabilização do cuidado e garantia de que o paciente, de qualquer ponto que acesse o sistema, tenha o seu processo de atenção e cuidado seguido e atendido", afirmou Temporão. 2.3 O Sistema de Informação Muitos autores vinculam o acesso e a percepção dos diferentes agentes sobre a informação técnico-científica ao processo de tomada de decisão, enquanto um conjunto de práticas institucionais tendem a reproduzir e legitimar relações de poder, principalmente no caso das instituições públicas. A informação é um elemento imprescindível para democratização da Saúde e o aprimoramento de sua gestão. O papel e o impacto da incorporação da informação no processo de tomada de decisão em saúde têm sido crescentes desde o processo de descentralização da saúde. A diversidade de experiências na gestão municipal apresenta características específicas devido aos diferentes graus de dependência das outras esferas de governo, seja em termos financeiros, técnicos e de disponibilidade de equipamentos. Em muitos municípios, independentemente do porte, do grau de autonomia para a definição de sua política de saúde e da capacidade instalada de que dispõem, verifica-se que a informação utilizada se resume ao domínio de dados simples por parte de alguns agentes administrativos estratégicos, geralmente funcionários mais antigos ou relativamente mais estáveis. O que se destaca é o fato da informação estar sistematicamente atrelada à busca de recursos financeiros adicionais – programas federais específicos – ou à prestação burocrático-administrativa de contas. As informações que mais interessam à prefeitura, à direção geral da saúde e ao conselho de saúde, geralmente, são dados sobre financiamento e faturamento, que se configuram como do tipo burocrático e gerencial. As mais utilizadas, portanto, são quase sempre aquelas produzidas pelas próprias Secretarias e Departamentos de Saúde, pelas unidades de saúde e pelos hospitais, e que coincidem por ser exatamente aquelas que alimentam os bancos de dados do Ministério da Saúde. Embora o processo de busca de informação tenha como vetor a busca de recursos financeiros adicionais em detrimento da formulação de projetos voltados para as necessidades e potencialidades da realidade local, prevalece sempre o interesse político de acompanhar os acontecimentos. Em decorrência disso, prefeitos, secretários e vereadores apontam jornais e outros meios de comunicação como fonte privilegiada de atualização, enquanto a utilização dos grandes bancos de dados (Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde Datasus, Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - FIBGE, Fundação Estadual de Análise de Dados - FSEADE, Centro de Estudos e Pesquisas de Administração Municipal - CEPAM, Instituto Brasileiro de Administração Municipal - IBAM, dentre outros) só é feita potencialmente, em função de um interesse momentâneo diante de uma questão específica. Apesar de todos os municípios terem acesso aos bancos de dados, e seus técnicos no geral declararem não ter dificuldade para encontrar livros especializados, o grande problema é a ausência de alimentação do sistema de informação. Existe um consenso sobre a insuficiência quantitativa de equipamentos de informática e de pessoal treinado para operá-los adequadamente, recaindo maior preocupação com a capacitação dos recursos humanos. Por outro lado, a informação disponibilizada em Internet ou impressa pelos sistemas públicos de informação, além de não ser incorporada aos processos políticos, não atende parcial ou totalmente às necessidades dos agentes responsáveis pelas decisões municipais e às especificidades dos municípios. Daí a aproximação entre a fonte e os sistemas de informações parecer se configurar como fator importante para que estas sejam incorporadas no processo de decisão. Conforme um artigo do Dr.Clovis Ricardo Montenegro de Lima, Doutor em Ciência da Informação pelo IBICT/ECO/UFRJ e Professor-adjunto do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Federal de Santa Catarina: O compartilhamento de informações é uma forma privilegiada de interação social, que possibilita a construção de modos de organização inteligentes e generosos, e modos de produção que podem não depender dos interesses mediadores do capitalismo. O compartilhamento de informação pode produzir o comum, em comum. O processo de melhoria contínua a partir do código aberto dos softwares livres é um exemplo de relação social produtiva, na qual a informação e o conhecimento são produzidos, disseminados e usados de modo compartilhado. (Trabalho imaterial, compartilhamento de informação e produção colaborativa na sociedade da informação. Encontros Bibli: Revista Eletrônica de Biblioteconomia e Ciência da Informação, UFSC, v. 23, 2007 p. 114) A importância do sistema de informação no processo de decisão política e administrativa, e a ausência de meios efetivos e articulados para incluí-lo no trabalho cotidiano, reforçam a necessidade de se investir numa oferta acessível ao grande público e de fácil compreensão. No caso dos técnicos e dos tomadores de decisão dos órgãos públicos, em particular, deve-se priorizar a disposição de material que se destine à atualização do sistema de informação. Destacamos, portanto, a capacitação dos gestores para atuar, propiciando um sistema de informação atualizado e confiável, a partir daí exercer políticas de saúde compatíveis. 2.4 Gestão de Pessoas O grande desafio da atualidade é criar condições para a reconstrução da administração pública em bases modernas e racionais, com ênfase na qualidade e produtividade do serviço público. O processo de descentralização não tem sido fácil. As mudanças necessárias à sua concretização supõem a existência de capacidade para operar um sistema gerencial complexo e, sobretudo, de recursos humanos qualificados, nem sempre encontrados nas instituições de saúde. Nosso objetivo nesse item é a apresentação e reflexão de práticas de gestão de pessoal utilizadas no ambiente das organizações de saúde pública no cenário atual. Ø Recrutamento e seleção - Conforme estudos anteriores, a contratação de empresas especializadas em seleção de pessoal tem sido uma prática bastante utilizada pelas organizações de saúde. São repetidas as observações sobre o distanciamento entre o perfil dos profissionais selecionados e as necessidades que se apresentam nos serviços. Considerando o tema em discussão, alguns aspectos podem ser ressaltados: • Dificuldade dos gerentes dos serviços em indicar, com precisão, a necessidade de pessoal. • São raros os gerentes que se preocupam com o perfil do cargo a ser preenchido. Esta informação, usualmente, fica indevidamente sob a responsabilidade exclusiva da coordenadoria de recursos humanos. • São raras as Secretarias de Saúde que possuem um sistema de informação que permita diagnosticar, com agilidade e precisão, a insuficiência de recursos humanos no serviço; • É comum o público (candidatos em potencial) procurar as instituições promotoras dos processos seletivos, em busca de informações sobre os mesmos. Em geral, as citadas organizações não atentam para esta demanda e, conseqüentemente, não se organizam para atendê-las, ficando, muitas vezes, as informações centralizadas em uma única pessoa da coordenadoria de recursos humanos. • Algumas instituições de saúde entregam todo o processo, desde a primeira fase do recrutamento até a divulgação dos resultados, para a empresa contratada. Ø Etapa da admissão – Nesta etapa, também é relevante destacar a importância da informação ao público (candidatos reprovados e aprovados). A lista de classificação deve ser rigorosamente seguida; os departamentos de pessoal precisam distribuir as tarefas, de modo que todos possam informar, a qualquer hora, os documentos exigidos para a admissão e o que o selecionado deve providenciar para a contratação ou nomeação. O setor de lotação deve estar munido com o mapa de necessidades de pessoal, por local de trabalho, para proceder à lotação de acordo com os critérios previamente estabelecidos. Ø Cadastro e folha de pagamento – Estes dois instrumentos representam duas das mais importantes fontes de dados de recursos humanos, nas secretarias de saúde. Usualmente são apontados como motivos de insatisfação pelos servidores. Vários tipos de cadastro podem ser utilizados como fonte para o banco de dados de recursos humanos, por exemplo: cadastro de pessoal, constituído pelos dados pessoais sobre cada empregado; cadastro de seções, que informa os dados dos empregados de cada seção; cadastro de cargos, composto por dados dos ocupantes de cada cargo; cadastro de remuneração, que contém dados salariais e incentivos; cadastro de treinamentos realizados; cadastro de candidatos a treinamento, e outros. O isolamento destes setores costuma provocar alienação dos técnicos em relação aos objetivos da instituição e, conseqüentemente, o trabalho desenvolvido torna-se mecânico e de discutível qualidade. Podemos citar alguns problemas como: erro na folha de pagamento; atraso nas solicitações de aposentadorias, licenças e demissões; conivência com os servidores que não retornam à instituição após o término do seu afastamento; processos mal instruídos, quer seja pela inexistência da informação, quer seja pela imprecisão e pouca fidedignidade da mesma e dificuldade para a tomada de decisão gerencial. A trajetória dos dados, até chegar ao setor responsável pela confecção da folha de pagamento, nem sempre ocorre de forma rápida. Por exemplo, é comum reclamações sobre a morosidade das unidades de saúde em enviar os dados referentes à freqüência do pessoal e às modificações nas escalas de plantão. Resultado: não é raro encontrar, nas Secretarias de Saúde, servidores que não retornam ao trabalho, porém, continuam recebendo mensalmente o seu salário. Ø Movimentação de pessoal - Nas Secretarias de Saúde, a intensa movimentação de pessoal costuma ser uma prática corriqueira. Diariamente as pessoas saem do seu setor de trabalho por diferentes motivos: são remanejadas, se aposentam, pedem licenças (gestante, interesses particulares, doenças, e outras), se afastam para curso. Alguns aspectos têm sido apontados como responsáveis pelo ineficiente gerenciamento desta questão; ressaltamos os mais repetidos: •Inexistência de critérios e normas administrativas referentes ao remanejamento de pessoal; •Desconhecimento das leis que ordenam o afastamento do servidor; •Indefinição do quantitativo de profissionais necessários aos serviços, considerando as atividades previstas para cada unidade ou setor. Ø Processos de Avaliação de Desempenho das instituições de saúde – Geralmente, os processos de avaliação restringem-se ao momento de preenchimento dos formulários que, na maioria das vezes, são elaborados por profissionais da área de recursos humanos, desarticulados das metas da instituição. Além desse, podemos citar outros problemas que impedem o êxito esperado, tais como: • Centralização do processo na área de recursos humanos. • Não articulação da coordenadoria de recursos humanos com os outros setores, visando ao esclarecimento e fortalecimento do processo em andamento. Esta situação pode resultar na existência de diversas interpretações sobre os objetivos da avaliação. • Inexistência de mecanismo que possibilite à chefia e ao subordinado a negociação do desempenho esperado (explicitação das atribuições, atividades, tarefas sob a responsabilidade do servidor, nível de qualidade esperado e os prazos para a apresentação dos resultados). • Ligação intrínseca com as políticas de punição e premiação do servidor, caracterizando a avaliação, exclusivamente, como um instrumento de controle. • Critérios padronizados e demasiados rígidos, desconsiderando as particularidades de cada unidade de trabalho e as metas estabelecidas. • Despreparo dos gerentes para a administração dos recursos humanos. • Descaso na tabulação das informações, análise e recomendações dos avaliadores. • Repetidas seqüências de formulários preenchidos – processos interrompidos – formulários engavetados - descrédito do servidor. Ø Falta de profissionais – Muitas vezes, a redução do quadro funcional e a sobrecarga de trabalho geram insatisfação por parte dos servidores, reproduzindo-se assim um ciclo incessante de atendimento ineficaz, insuficiente e desumano. Uma das facetas das dificuldades na relação usuário/profissional é a desinformação dos pacientes: a equipe não transfere conhecimento básico nem informa sobre suas ações. Há, também, falta de proximidade do profissional e da equipe de saúde com os problemas de saúde de seu local de trabalho. Resumindo, a modernização dos instrumentos de gestão de pessoas deve ocupar lugar destacado na agenda de necessidades dos gestores do setor de saúde. Discussões referentes à ineficiência dos recursos humanos tornaram-se constantes nos fóruns sobre as políticas de saúde e no cotidiano das instituições. É indiscutível a necessidade de se aprofundar os debates sobre as questões de recursos humanos, não somente em questões que fazem referência direta à valorização do servidor, mas também, às relacionadas com a organização do trabalho. 2.5 Recursos Financeiros e Dados Estatísticos do Setor A gestão financeira no sistema público de saúde está experimentando nos últimos anos mudanças importantes, que devem se acelerar no futuro próximo. Dois fatores condicionam essa evolução: a descentralização do processo decisório e gerencial em direção ao nível operacional e a pressão no sentido da racionalização e eficiência do setor. O processo de municipalização do sistema público de saúde, os desafios impostos pela crise estrutural do setor e a globalização tornam imprescindível uma reformulação radical dos métodos e estratégias de gerenciamento dos recursos financeiros na área. Como qualquer empresa de bens ou serviços, um prestador de serviços de saúde – público ou privado – pode ser visto como uma entidade transformadora de recursos: ela utiliza os recursos físicos, humanos e tecnológicos de que dispõe para produzir serviços de saúde que, por sua vez, são entregues à população, seja gratuitamente ou contra pagamento. Na maioria dos municípios, é a Secretaria Municipal de Saúde que desempenha esse papel de transformação de recursos em serviços. Os insumos utilizados incluem recursos humanos, materiais médicos ou hospitalares, equipamentos e instalações e a tecnologia para operá-los; eles têm, necessariamente, um custo, mesmo que a unidade ou instituição que os utilize não realize nenhum desembolso direto por eles. Esse custo pode ser ressarcido quando da entrega do serviço ao usuário (quando este paga ao prestador pelo serviço), coberto mediante algum sistema de prépagamento ou seguro (como é comum nos serviços privados puros, ou seja, aqueles não contratados pelo SUS), ou financiado por impostos ou contribuições arrecadados pelo poder público, como é o caso, no Brasil, da assistência à saúde no âmbito do SUS. Qualquer que seja a forma de financiamento dos serviços, porém, o custo é arcado pela população, seja via pagamento direto ao prestador, prêmio de seguro ou mensalidade, ou via impostos e contribuições. Os recursos são escassos e em um sistema crescentemente descentralizado como o SUS, o gestor local dos serviços necessita ter um entendimento claro do funcionamento, características e implicações dessa dimensão econômico-financeira. A progressiva abertura do país à competição internacional e a sua inserção no contexto econômico mundial vêm impondo novas pressões. A área da saúde se insere nesse novo panorama de três maneiras distintas: se abre à competição internacional com a chegada de empresas multinacionais da saúde; representa um componente significativo e crescente do custo de produção de bens e serviços comerciais, influindo decisivamente na competitividade de cada país no cenário internacional; e finalmente, a diminuição da capacidade de financiamento do setor público torna cada vez mais difícil manter o financiamento público de serviços de saúde sem mudanças profundas na organização, financiamento e gerenciamento do sistema de saúde. Devido a essas razões, os serviços de saúde, se vêem obrigados a melhorar sua eficiência, racionalizar o uso de recursos e controlar ou reduzir custos. Para o setor público, o desafio é brutal: ou muda decisivamente e se torna mais eficiente, racional e confiável, ou corre o risco de se tornar progressivamente menos relevante, com implicações negativas claras sobre a eqüidade do sistema de saúde como um todo e principalmente sobre o acesso aos serviços por parte das populações mais pobres. Para muitas prefeituras, os recursos repassados por conta do SUS representam muitas vezes o valor anteriormente despendido pela Secretaria Municipal da Saúde, e às vezes, é tão grande ou maior que o orçamento global do município antes da implantação do SUS. O montante desses novos recursos cria obviamente dificuldades de gestão, mas também rivalidades políticas entre as SMS (em princípio, gestoras diretas desses recursos) e as demais secretarias. As circunstâncias da gestão financeira que acompanham a municipalização diferem consideravelmente de um município a outro, devido ao tamanho e características próprias do município, os instrumentos utilizados (existência, forma e gestão do Fundo Municipal de Saúde), o grau de autonomia gerencial de que a SMS desfruta e os recursos humanos e gerenciais de que dispõe. Alguns gestores não investem na profissionalização, e por isso, não dispõem de um diagnóstico das necessidades e possibilidades do sistema local de saúde, gerando dificuldade para garantir a adequada organização e administração dos serviços. Muitas vezes são realizados investimentos desnecessários em construções de unidades hospitalares, que depois ficam sem conclusão ou operam com baixa resolutividade, pela falta de equipamentos ou de profissionais, deixando de fazer investimentos nos serviços de média complexidade, que dariam respostas a muitas necessidades da população, sem tanta despesa. As novas responsabilidades dos gestores da saúde exigem novas competências, seja na gestão de recursos financeiros, na negociação para transferência de recursos, no gerenciamento de contratos com prestadores públicos e privados, na articulação de serviços diversificados, ou na coordenação intersetorial e interinstitucional. Essas competências eram tradicionalmente pouco enfatizadas ou desenvolvidas, mas no Sistema Unificado de Saúde tornaram-se imprescindíveis, envolvendo necessidades de formação e treinamento de recursos humanos específicos e instrumentos apropriados de gestão e informação. Estatísticas do setor de saúde no Brasil HOSPITAIS NO PAÍS Federal Hospitais Públicos Estadual Municipal Sem Fins Lucrativos Hospitais Privados Lucrativos Hospitais Universitários e de Ensino TOTAL Fonte DATASUS - 02/2008 26 593 2.120 1.769 2.905 127 2.739 4.674 127 7.540 HOSPITAIS DISPONIBILIZADOS AO SUS Federal Estadual Municipal Hospitais Públicos 26 586 2.116 127 Hospitais Universitários TOTAL Filantrópicos Lucrativos Hospitais Privados 1.703 1.535 TOTAL Fonte DATASUS - 02/2008 2.728 127 2.855 3.238 6.093 LEITOS DE HOSPITAIS LEITOS Leitos SUS Leitos não SUS TOTAL Fonte DATASUS - 05/2007 LEITOS Leitos UTI Leitos Cirúrgicos Leitos Psiquiatria Leitos Reabilitação TOTAL Fonte DATASUS - 05/2007 2005 380.572 123.430 504.002 2006 375.682 122.915 498.697 SUS 14.437 76.184 45.097 1.148 136.866 2007 372.811 130.414 503.225 Não SUS 10.317 36.268 9.303 207 56.095 TOTAL 27.940 112.452 54.400 1.355 196.147 3. FERRAMENTAS DA ADMINISTRAÇÃO EFICAZ O debate acerca das ferramentas de gestão na saúde não é recente. A partir da década de 1980, ainda existiam resquícios de instituições de distintos formatos anteriormente à implantação do SUS que precisavam ser incorporados ao sistema. As administrações municipais tiveram que enfrentar a complexidade, sem contar a conjuntura econômica, relativa ao impacto do ajuste fiscal, durante a década de 1990. O momento era de enxugar a máquina pública, diminuir os gastos, reduzir a contratação de pessoal, não criar cargos, nem reajustar os salários. Surgiram então, novas modalidades de gestão para flexibilizar a máquina pública e driblar a contenção de gastos, através do controle rigoroso do orçamento público. O paradigma gerencial contemporâneo, fundamentado nos princípios da confiança e da descentralização da decisão, exige formas flexíveis de gestão, horizontalização de estruturas, descentralização de funções, incentivos à criatividade. Contrapõe-se à ideologia do formalismo e do rigor técnico da burocracia tradicional. O modelo gerencial tornou-se realidade através da definição clara de objetivos para cada unidade da administração, da descentralização, da mudança de estruturas organizacionais e da adoção de valores e de comportamentos modernos no interior do Estado. Portanto é preciso gestores capazes tecnicamente e legítimos politicamente para comandarem a busca de novas alternativas de superação das dificuldades que hoje se apresentam para a administração do sistema público de saúde brasileiro. A adequação dos recursos humanos constitui-se, desta forma, em tarefa prioritária neste contexto de mudança, exigindo uma política que oriente desde a captação de novos servidores, o desenvolvimento de pessoal, um sistema remuneratório adequado que estimule o desempenho através de incentivos, e a instituição de carreiras compatíveis com as necessidades do aparelho do Estado modernizado. Carreiras que hoje são formadas por servidores estatutários no núcleo estratégico do Estado e empregados celetistas, utilizados na administração indireta e nos serviços operacionais inclusive do núcleo estratégico. Juntamente com a estruturação dessas carreiras, é necessária uma política de concursos regulares que permita uma lotação adequada ao pleno desenvolvimento das atividades e a recomposição regular e permanente da força de trabalho. 3.1 Legislação O Direito representa um elemento facilitador no planejamento, gestão e avaliação de políticas de saúde, na medida em que estabelece parâmetros de comparação e julgamento entre situações desiguais e interesses conflitantes, principalmente quando se objetiva promover a equidade entre os cidadãos que se beneficiam das políticas públicas. Exemplo disso é a legislação abrangente do Sistema Único de Saúde, que define os princípios a serem observados no setor público, sua relação com a iniciativa privada que opera no setor, e a responsabilidade de cada esfera de governo na execução e avaliação das políticas de saúde. O conhecimento e a aplicação correta das leis favorecem o trabalho dos gestores através da prática do planejamento orientado por definições estratégicas. As Normas básicas do Sistema Único de Saúde são: Constituição Federal de 1988. (Artigos 196 a 200). Destaca-se no Artigo 200: Ao Sistema Único de Saúde compete, além de outras atribuições, nos termos da Lei: III – ordenar a formação de Recursos Humanos na área da saúde; V – incrementar em sua área de atuação o desenvolvimento científico e tecnológico. Destacamos nesse trecho da lei, a competência do SUS, tanto na ordenação da formação de Recursos Humanos quanto no desenvolvimento científico e tecnológico, uma responsabilidade para com a formação de pessoal de saúde de modo geral, e de produção específica de conhecimento e tecnologia no âmbito do próprio Sistema. Ao conceber a área de formação como a ação educativa de qualificação de pessoal e a ação investigativa da pesquisa e inovação, a lei prevê que os órgãos gestores do SUS estruturem mecanismos de atuação educacional, que dêem conta de ambas as funções. Lei 8.080 – Sistema Único de Saúde Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências. Lei 8.142 – Controle Social e Financiamento do SUS Dispõe sobre a participação da comunidade na gestão do Sistema Único de Saúde (SUS) e sobre as transferências intergovernamentais de recursos financeiros na área da saúde e dá outras providências. Emenda Constitucional 29 Altera os arts. 34, 35, 156, 160, 167 e 198 da Constituição Federal e acrescenta artigo ao Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, para assegurar os recursos mínimos para o financiamento das ações e serviços públicos de saúde. Norma Operacional Básica - NOB 1/96 Aprova, nos termos do texto a esta portaria, a NOB 1/96, a qual redefine o modelo de gestão do Sistema Único de Saúde constituindo, por conseguinte, instrumento imprescindível a viabilização da atenção integral a saúde da população e a disciplina das relações entre as três esferas de gestão do sistema. Norma de Assistência à Saúde - NOAS/SUS - 01/ 2002 Aprova, na forma do anexo desta portaria, a Norma Operacional da Assistência à Saúde – NOAS SUS 01/2002 que amplia as responsabilidades dos municípios na atenção básica; estabelece o processo de regionalização como estratégia de hierarquização dos serviços de saúde e de busca de maior equidade; cria mecanismos para o fortalecimento da capacidade de gestão do sistema único de saúde e procede a atualização dos critérios de habilitação de estados e municípios. Pacto pela Saúde 2006: Consolidação do SUS e suas Diretrizes Operacionais Divulga o Pacto pela Saúde 2006 - consolidação do SUS e aprova as diretrizes operacionais do referido pacto. 3.2 Capacitação A organização dos serviços de saúde no Brasil significa novos desafios para a capacitação dos profissionais de saúde pública que atuam nos diversos serviços de saúde. Em março de 1998, José Serra, Ministro da Saúde na época, afirmou em seu discurso de posse: “Há uma área onde o Brasil tem tido bons avanços pontuais, mas é preciso ir muito além: a formação de recursos humanos. Refiro-me a especialistas em política de saúde e administradores de saúde”. Com relação ao assunto, Paim afirma: Tendo em conta a natureza coletiva do objeto e a diversidade dos meios de trabalho pode-se afirmar, resumidamente, que o agente das práticas de saúde coletiva tende a ser simultaneamente um ‘técnico de necessidades sociais de saúde’ e um ‘gerente de produção de serviços’. No geral, este profissional está em vinculação com o Estado, tendo suas atividades básicas voltadas para: vigilância e controle das necessidades sociais de saúde; planificação, gestão, controle e avaliação de práticas de saúde; elaboração e difusão de concepções sobre saúde (consciência sanitária). (1993:9) Portanto, qualquer projeto de capacitação de profissionais de saúde no campo da saúde pública deve levar em conta esse conjunto de premissas, visando o desenvolvimento de competências que construam instrumentalização técnica e política, articulada com a ética. Ø A Educação Continuada É um processo de qualificação profissional que pode ser planejado a médio e longo prazo, atendendo as demandas do mercado e as necessidades que o profissional sente na medida em que vão acontecendo mudanças nos processos de trabalho. Segundo Ricas (1994), a educação continuada “englobaria as atividades de ensino após o curso de graduação com finalidades mais restritas de atualização, aquisição de novas informações e/ou atividades de duração definida e através de metodologias tradicionais”. Mejia, citado por Davini (1994), conceitua a educação continuada como “o conjunto de experiências que se seguem à formação inicial e que permitem ao trabalhador manter, aumentar ou melhorar sua competência para que ela seja compatível com o desenvolvimento de suas responsabilidades”. Sob esta ótica, caracteriza-se a competência como atributo individual vinculado ao domínio de conhecimento e habilidades para a qual, sem dúvida, as ações de educação continuada podem contribuir e de forma valorosa. De forma freqüente, as demandas oriundas das esferas de gestão dos serviços e das necessidades sentidas pelos profissionais têm uma resposta comum sob a perspectiva da educação continuada. Ø A Educação Permanente A Educação Permanente em Saúde, ao mesmo tempo em que disputa pela atualização cotidiana das práticas segundo os mais recentes aportes teóricos, metodológicos, científicos e tecnológicos disponíveis, insere-se em uma necessária construção de relações e processos que vão do interior das equipes em atuação conjunta. A Educação Permanente em Saúde pode corresponder à Educação em Serviço, quando esta coloca a pertinência dos conteúdos, instrumentos e recursos para a formação técnica submetidos a um projeto de mudanças institucionais ou de mudança da orientação política das ações prestadas em dado tempo e lugar. Pode corresponder à Educação Continuada, quando esta pertence à construção objetiva de quadros institucionais e à investidura de carreiras por serviço em tempo e lugar específicos. Pode, também, corresponder à Educação Formal de Profissionais, quando esta se apresenta amplamente porosa às multiplicidades da realidade de vivências profissionais e coloca-se em aliança de projetos integrados entre o setor/mundo do trabalho e o setor/mundo do ensino. Além da velocidade com que conhecimentos e saberes tecnológicos se renovam na área da saúde, a distribuição de profissionais e de serviços segundo o princípio da acessibilidade para o conjunto da população o mais próximo de sua moradia, faz com que se torne muito complexa a atualização permanente dos trabalhadores. Problemas como a baixa disponibilidade de profissionais, a distribuição irregular com grande concentração em centros urbanos e regiões mais desenvolvidas, a crescente especialização e suas conseqüências sobre os custos econômicos e dependência de tecnologias mais sofisticadas, o predomínio da formação hospitalar e centrada nos aspectos biológicos e tecnológicos da assistência demandam ambiciosas iniciativas de transformação da formação de trabalhadores. Um dos entraves à concretização das metas de saúde tem sido a compreensão da gestão da formação como atividade meio, secundária à formulação de políticas de atenção à saúde. Não é dirigida às políticas de gestão setorial ou das ações e dos serviços de saúde e nem é compreendida como atividade finalística da política setorial. Para produzir mudanças de práticas de gestão e de atenção, é fundamental que sejamos capazes de dialogar com as práticas e concepções vigentes, que sejamos capazes de problematizá-las no trabalho de cada equipe e de construir novos pactos de convivência e práticas, que aproximem os serviços de saúde dos conceitos da atenção integral, humanizada e de qualidade, da eqüidade e dos demais marcos dos processos de reforma do sistema brasileiro de saúde. Ø Política Nacional de Educação Permanente em Saúde A Política Nacional de Educação Permanente em Saúde (PNEPS) é uma proposta de ação estratégica que visa a contribuir para transformar e qualificar as práticas de saúde, a organização das ações e dos serviços de saúde, os processos formativos e as práticas pedagógicas na formação e desenvolvimento dos trabalhadores de saúde. A implantação desta Política implica em trabalho intersetorial capaz articular desenvolvimento individual e institucional, ações e serviços e gestão setorial, e atenção à saúde e controle social. Instituída pela Portaria GM/MS nº 198, de 13 de fevereiro de 2004, foi alterada recentemente pela Portaria GM/MS nº 1.996, de 20 de agosto de 2007, que dispõe sobre novas diretrizes e estratégias para a implementação da Política Nacional de Educação Permanente em Saúde. Pode-se dizer que os processos baseados na Educação Permanente em Saúde: • Destinam-se a públicos multiprofissionais. • Possuem enfoque nos problemas cotidianos das práticas das equipes de saúde. • Inserem-se de forma institucionalizada no processo de trabalho, gerando compromissos entre os trabalhadores, os gestores, as instituições de ensino e os usuários para o desenvolvimento institucional e individual. • Objetivam as transformações das práticas técnicas e sociais. • Utilizam-se pedagogias centradas na resolução de problemas, geralmente por meio de supervisão dialogada, oficinas de trabalho, realizadas preferencialmente, no próprio ambiente de trabalho. • São contínuos dentro de um projeto de consolidação e desenvolvimento do SUS. Com a implementação do Pacto de Gestão e aproveitando os resultados da Pesquisa de Avaliação e Acompanhamento da Política Nacional de Educação Permanente, desenvolvida pelo Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), foi realizado um trabalho de pactuação nas diferentes instâncias da gestão federal do SUS, para a necessária adequação às diretrizes e regulamentação do Pacto pela Saúde e para a redefinição da sua operacionalização. Ø Investimentos em Capacitação A partir da criação da Secretaria da Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, o Ministério da Saúde assumiu seu papel de gestor federal do SUS no que diz respeito à formulação das políticas orientadoras da formação, distribuição e gestão dos trabalhadores de saúde no Brasil. O Departamento de Gestão da Educação na Saúde é responsável pela proposição e formulação das políticas relativas à formação e educação permanente dos trabalhadores de saúde em todos os níveis de escolaridade e à capacitação de profissionais de outras áreas e da própria população para favorecer a articulação intersetorial e o controle social no setor da saúde. Nos últimos anos, além do investimento significativo para a capacitação em saúde da família, houve também um importante crescimento de outras atividades de capacitação para profissionais da saúde. No âmbito da atenção, as iniciativas, majoritariamente definidas no âmbito central, estiveram por conta das diversas áreas programáticas (hipertensão, diabetes, tuberculose, Aids, emergências clínicas e traumáticas, gestação de risco etc.). No âmbito da gestão, houve três iniciativas mais significativas: o Gerus (dirigido aos gestores das unidades básicas de saúde), o curso de gestão para secretários municipais de saúde e o curso para equipes gestoras. Cada uma dessas iniciativas obedeceu a uma lógica distinta em relação à concepção, metodologia, parceiros e possibilidades de levar em conta as necessidades locais e suas particularidades. O Ministério da Saúde vai oferecer cursos à distância para especialização dos profissionais nas áreas de Saúde da Família, capacitação gerencial e cuidado com o idoso. A meta da Universidade Aberta do Sistema Único de Saúde (Unasus) é qualificar, até 2011, 52 mil trabalhadores e oferecer capacitação gerencial para outros 100 mil. Hoje, dos 71 mil profissionais de nível superior envolvidos na Saúde da Família, 96% não têm especialização na área. Algumas experiências isoladas de educação à distância em saúde já acontecem no país, mas a proposta é formar profissionais em larga escala, num programa de dimensão nacional que incentive a carreira dentro do programa Saúde da Família. A princípio, os cursos serão divididos em três áreas: Saúde da Família, Formação Gerencial e Saúde do Idoso. Para suporte dos usuários, os profissionais poderão contar com centenas de pólos da Universidade Aberta do Brasil, coordenada pelo MEC, e de pontos do Programa Nacional de Telessaúde, além de diversas outras instituições habilitadas em sua localidade. Aqueles que não tiverem acesso à internet não sairão prejudicados. As informações chegarão por rádio, correio, DVDs, videolocadoras e outros materiais didáticos. 3.3 Austeridade A austeridade se refere à otimização de recursos e à eliminação de desperdícios. Ser austero significa cuidar e utilizar eficientemente o que temos. Gastar o necessário e limitar o inútil ou supérfluo. Uma das principais características observadas em empresas sólidas e duradouras é o profundo e arraigado espírito de austeridade presente nos funcionários e dirigentes da organização. Parece incoerente empresas prósperas e lucrativas lutarem para economizar, mas na verdade não é. Ao contrário, esse é um dos fatores que explica a rentabilidade e a longevidade dessas organizações. No caso da gestão de saúde no Brasil, observamos através da análise histórica e do cenário contemporâneo, a existência de inúmeros casos de desperdício de dinheiro público que poderiam ser evitados. O maior problema não está na ausência de recursos, mas sim na forma com que esses recursos estão sendo utilizados. O fato é que os gestores precisam utilizar melhor os recursos disponíveis. Em estudo divulgado em junho de 2008, especialistas do Banco Mundial reprovam os hospitais brasileiros, públicos e particulares, e dizem que, no Brasil, o setor de saúde gasta mal, desperdiça e é mal gerido. Após cinco anos de estudos, os pesquisadores Gerard La Forgia e Bernard Couttolenc apresentaram um escore de eficiência dos hospitais. No estudo "Desempenho hospitalar brasileiro", a rede de hospitais mereceu apenas a nota 0,34, numa escala de 0 a 1. Mais de 30% das internações são desnecessárias, o que causa desperdício de R$ 10 bilhões por ano. Os pesquisadores dizem que os hospitais são ineficientes e caros, e defenderam uma reforma profunda no modelo atual. “Não adianta apenas ter recursos a mais. É preciso gastar bem o dinheiro” disse o professor Couttolenc, um dos autores do relatório, referindo-se à Contribuição Social para a Saúde (CSS), a nova CPMF aprovada pela Câmara. “No sistema brasileiro de saúde, o centro do universo são os hospitais. É a maior fonte de gastos do sistema, mas há pouca informação sobre gastos e desempenho. São serviços muito caros e que nem sempre contribuem para a boa saúde da população” disse Gerard La Forgia, o principal especialista em saúde do BIRD. Para La Forgia, há importantes observações que podem resumir seus cinco anos de pesquisa no sistema hospitalar brasileiro: “É um problema sistêmico, não unicamente do SUS. A maioria dos hospitais é ineficiente em escala e produtividade. Poderia fazer muito mais com os recursos de que dispõe”. Os modelos de governança, seja público ou privado, que têm mais autonomia, com responsabilização dos gestores, são melhores em termos de desempenho que os demais. No escore de eficiência, de acordo com os especialistas, quanto maior o hospital brasileiro, mais ele obteve boa pontuação. Os hospitais que obtiveram nota superior a 0,45 têm mais que 250 leitos. Os que têm 99 leitos ficaram abaixo de 0,35. Do total da rede nacional, foram testados 488 hospitais. Segundo o especialista Couttolenc, os nomes das instituições não foram divulgados. Foram usados dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e os hospitais foram identificados apenas por números. Para uma gestão de saúde eficaz, é preciso desenvolver linhas de investigação compostas pela análise de gastos públicos, financiamento, custo, ofertas e demanda, administração de recursos, informação sobre determinantes financeiros e orçamentos do setor e conhecimento da base econômica, seguido por um prognóstico a partir do qual serão definidos os objetivos e metas, os programas e projetos e os mecanismos de ação. Em síntese, a austeridade financeira significa uma excelente ferramenta para a redução dos problemas enfrentados no cotidiano da saúde no país e deve ser utilizada por gestores competentes e capacitados profissionalmente. CONSIDERAÇÕES FINAIS Após analisar o conteúdo histórico e o cenário contemporâneo da Saúde no Brasil, consideramos que a situação caótica constatada ao longo dos anos, não se originou apenas de ausência de recursos, mas sim da existência de inúmeros casos de desperdício de dinheiro público, causados por gestões equivocadas, desvio de recursos, mecanismos de privilégio de interesses corporativos e aumento da demanda por ações e serviços de saúde. O paradigma gerencial contemporâneo, fundamentado nos princípios da confiança e da descentralização da decisão, exige formas flexíveis de gestão, horizontalização de estruturas, descentralização de funções, incentivos à criatividade. O grande desafio da atualidade é criar condições para a reconstrução da administração pública em bases modernas e racionais, com ênfase na qualidade e produtividade do serviço público. A adequação dos recursos humanos constitui-se, desta forma, em tarefa prioritária neste contexto de mudança, exigindo uma política que oriente desde a captação de novos servidores, o desenvolvimento de pessoal, um sistema remuneratório adequado que estimule o desempenho através de incentivos, e a instituição de carreiras compatíveis com as necessidades do aparelho do Estado modernizado. Por esse motivo é fundamental qualificar e capacitar o quadro de gestores e servidores, tanto que os programas de capacitação e a realização de concursos públicos no âmbito federal para analistas de gestão em saúde, auditores federais do SUS e agentes administrativos são propostas já estabelecidas pelo governo. A recomposição da força de trabalho com a criação de carreiras específicas voltadas para a gestão e controle do SUS é uma estratégia para atingir as metas do programa de saúde. A prática cotidiana de gestão do Sistema Único de Saúde, em qualquer nível de governo, seja federal, estadual ou municipal, coloca um enorme desafio aos gestores: identificar e selecionar os conhecimentos, métodos, técnicas e instrumentos de trabalho que o ajudem a tomar decisões e a conduzir o processo de implementação das políticas, planos, programas e ações de saúde sob sua responsabilidade. Portanto é preciso gestores capazes tecnicamente e legítimos politicamente, que adotem um modelo de gestão baseado em profissionalismo e austeridade, para comandarem a busca de novas alternativas e conseqüente superação das dificuldades existentes na administração do sistema público de saúde brasileiro. REFERÊNCIAS CARVALHO, Antonio Vieira de & NASCIMENTO Luiz Paulo do. Administração de Recursos Humanos. São Paulo: Pioneira, 1993. v.1. 339 p. CASTRO, Janete Lima de. 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