Vol. 2, No. 2, Abril-Junho de 2012 ARTIGO ORIGINAL DESIGN E SIMULAÇÃO DE UMA EMBALAGEM OURIÇO DA CASTANHA-DO-BRASIL Ana Paula Lívero Sampaío1, Gabriela Souza Alves2, Camila Aparecida Zavolski2, Thiago Rafael de Almeida3, Etney Neves4,5, Marney Pascoli Cereda6 ¹ Acadêmica do Curso de Arquitetura e Urbanismo, Ciências da Computação e Engenharia de Alimentos, UNEMAT - Universidade do Estado de Mato Grosso, Campus Barra do Bugres – MT, Brasil. Rua Florianópolis, JD Elite II, CEP 78390000. 2 Acadêmicos do Curso de Engenharia de Alimentos, UNEMAT - Universidade do Estado de Mato Grosso, Campus Barra do Bugres – MT, Brasil. Rua Florianópolis, JD Elite II, CEP 78390000. 3 Acadêmico do Curso de Ciência da Computação, UNEMAT – Universidade Estadual de Mato Grosso, Campus Barra do Bugres – MT, Brasil. Rua A, s/nº - Cohab São Raimundo, CEP 78390-000. 4 Professor Visitante do Departamento de Engenharia de Alimentos, UNEMAT.- Universidade do Estado de Mato Grosso, Campus Barra do Bugres – MT. 5 Pesquisador Associado a Associação Nacional Instituto Hestia de Ciência e Tecnologia, HESTIA.Brasil. 6 Professora do Departamento de Ciências Agrárias e Ciências Biológicas, UCDB - Universidade Católica Dom Bosco, Campo Grande – MS. Resumo O presente trabalho tem como objetivo analisar dados e características do ouriço da castanha-do-brasil (Bretholletia excelsa H.B.K), como parte da avaliação do design de uma embalagem. Esta se definiu em uma linguagem projetual, sofisticada e complexa, atendendo todas as exigências técnicas, estéticas e mercadológicas. Partindo desse pressuposto, se estudou o processo de simulação de embalagens através do software SolidWorks. Esta ferramenta de projeto permitiu a modelação em 3D, fundamentada nas características e propriedades do elemento estético. Uma simulação adequada levou ao estudo de métodos, para uma futura prototipagem de elevada definição. Palavras-chaves: embalagem, simulação, ouriço da castanha-do-brasil. 1. Introdução Este artigo se refere ao estudo gráfico, estrutural e de design, do ouriço da castanha-do-brasil, para elaboração de uma embalagem alimentícia, a qual terá como função a armazenagem de castanhas desidratadas, sem casca, para comercialização. O estudo indicará processos de simulação através de softwares existentes, para a criação do protótipo. [email protected] Vol. 2, No. 2, Abril - Junho 2012, Página 17 A elaboração da embalagem acontece através de uma parceria com o Instituto Kabu, uma associação civil de direito privado, constituída por membros indígenas da etnia Kayapó, subgrupo Mekrangnoti, que desenvolvem o projeto de manejo tradicional Kayapó na Terra Indígena Baú e Mekrangnotire, com intuito da coleta e comercialização da castanha-do-brasil. Os Kayapó pertencem ao tronco linguístico macro-Jê, onde ocupam e protegem cerca de onze milhões de hectares da floresta amazônica.4 Bioma este que a castanheira-do-brasil (Bretholletia excelsa H.B.K) é originária. Apresentando porte majestoso e frondoso, a árvore adota aspecto inconfundível pela sua copa larga.1 As dimensões são notáveis, chegando a medir sessenta metros de altura. O seu fruto, conhecido como ouriço, tem casca lenhosa e rígida, possui forma esférica e massa variável entre 500 e 1.000 gramas. O seu interior contém 12 a 30 sementes, recobertas por uma casca lenhosa, mais fina, que cobre a amêndoa. Esta é bem consistente, branca, oleosa, comestível, deliciosa e nutritiva, de grande utilidade e alto valor econômico. Os frutos maduros caem inteiros no solo, de onde são coletados para extração das amêndoas.2 Figura 1. Índia Kayapó coletando os ouriços de castanha-do- Brasil. Fonte: Instituto Kabu (2010). 2. Design de Embalagem e as Funções Estéticas do Ouriço da Castanha-do-brasil A embalagem tem como objetivo ser condicionante de proteção do alimento in natura, da matéria-prima alimentar ou do produto alimentício, temporária, no decorrer de suas fases de elaboração, armazenamento e consumo.3 Partindo desse pressuposto, o sistema embalagem é o conjunto de operações e processos organizados por sequência, que exige especificações e controle de parâmetros, para que resulte em produto final alimentício protegido até o consumo. Neste estudo multidisciplinar, o design está presente em todas as etapas, quando é necessário conhecer os objetivos, características e identidade do projeto, para qual será destinada a embalagem.4 Sendo assim, a pesquisa tem como objetivo analisar as funções estéticas do ouriço da castanha-do-brasil a serem aplicadas. O ouriço, fruto da castanheira-do-brasil, apresenta forma arredondada, extremidades de bases irregulares, dimensões de 12 a 18 centímetros de diâmetro, com textura bastante rugosa e rígida.2 Foram analisadas algumas amostras de ouriços, para subtração de propriedades que poderiam ser aplicadas na embalagem. Com maior riqueza de detalhes, identificamos divisões naturais na parte interna do fruto, composta de quatro partes salientadas. Outra característica a ser considerada é a pigmentação, que se apresenta em Vol. 2, No. 2, Abril - Junho 2012, Página 18 sua casca lenhosa externa e interna, com uma coloração marrom claro, com pontos escuros. Divisões internas (A) Textura rugosa (B) Figura 2. Ouriço da Castanha do Brasil, (A) Vista interna, (B) Vista Externa. Fonte: Arquivo pessoal (2011). Dentre as metodologias adotadas, os desenhos técnicos de estudos realizados possuem um importante papel, na definição do corpo da embalagem. Figura 3. Desenhos técnicos: estudo de medidas para embalagem. Fonte: Arquivo pessoal (2011). O ouriço da castanha-do-brasil, além de inspirar os princípios dimensionais da embalagem, influenciou na definição dos parâmetros para os estudos correlatos, como: a seleção de um material leve e biodegradável, a manufatura, e a pigmentação para o material sintético industrial. Considerando as inspirações naturais do projeto, foram selecionadas as inovações que ajudassem a reduzir o impacto ambiental, e a valorização do trabalho das comunidades indígenas Kayapó Mekrãgnoti, dentro das desejáveis incorporações de significados de sustentabilidade na embalagem. 3. Dados técnicos da embalagem O material escolhido para o desenvolvimento da embalagem foi denominado neste estudo como “Bioman”, material biodegrável, produto polimerizado da fécula de mandioca. Vol. 2, No. 2, Abril - Junho 2012, Página 19 A densidade () calculada para o material foi de 0,12 g/cm3. Considerando as dimensões da embalagem e uma espessura de parede 0,35 cm, e simplificando sua forma para uma esfera oca, através da equação (1): (1) se obtém o volume (V), que o material ocupará. O valor encontrado foi de 655,21 cm3. Considerando a equação (2), utilizada para o cálculo da densidade dos materiais, isolando m e aplicando e V, foi obtido 78,63 g como a quantidade de massa por embalagem primária (unidade do produto). (2) Em média, o material Bioman é 4 vezes mais denso que o poliestireno expandido (EPS) e 7 vezes mais leve que os polímeros PET e PP. Considerando uma bandeja de Bioman e EPS, ambas com as dimensões de 22,5 x 18,0 x 3,0 cm (volume ocupado de material = 157,5 cm³), os custos dos materiais são respectivamente R$0,03 e R$0,01, por bandeja. Estes valores estão diretamente relacionados ao valor comercial da tonelada de PS9 em comparação com a tonelada da fécula de mandioca. 10 A manufatura de embalagens Bioman, em relação ao EPS tradicionalmente utilizado para embalagens de alimentos, é favorecida por sua característica sustentável superior. A mobilidade da embalagem representa boa parte de sua viabilidade tecnológica. Este critério deve considerar especialmente a massa, custo material e transporte. Em um contexto técnico geral, Bioman atende economicamente estes pré-requisitos. Outros aspectos também podem ser avaliados como positivos como suas características protetivas por absorção de vibrações e impactos, quando considerado os esforços aplicados sobre os produtos nas operações de estocagem, transporte e distribuição. 4. Softwares para simulação de embalagem A partir das características e propriedades do elemento estético definido, foi aplicado o processo de simulação da embalagem através de softwares. Estas ferramentas permitem para o projeto a modelação de sólidos em 3D. O SolidWorks, software de simulação adotado na pesquisa, apresenta ferramentas de projeto que utiliza a modelação paramétrica de sólidos. Baseada nas características e propriedades de cada elemento e ação é possível alterar em qualquer altura do processo, o projeto da modelagem. Adicionalmente, o SolidWorks oferece ferramentas recursos que proporciona maior agilidade e eficaz.5 A execução do projeto em SolidWorks foi realizada em três etapas distintas, a primeira (parts), é a concepção das várias peças em ficheiros separados, a segunda (assembly), é a montagem das mesmas num novo ficheiro e a terceira (drawing), é a criação das vistas das várias peças e da montagem.5 Com a execução das peças separadas, o simulador nos concede maior riqueza de detalhes e precisão, fornecendo parâmetros de qualidade para a futura prototipagem do produto. Vol. 2, No. 2, Abril - Junho 2012, Página 20 4.1. Processos da simulação A embalagem consiste em duas partes, que se une por um fechamento rosqueável. Ambas têm como função, armazenar amêndoas de castanha-do-brasil desidratadas. Sendo assim são fechadas separadamente por selos, que tem como objetivo dar maior segurança ao produto em seu manuseio. Os selos vêm exercer também a função estética, trazendo consigo maior campo para exibição de propaganda e informativos do produto. Como podemos analisar a primeira parte (parts), que se deu ao desenvolvimento das peças separadas. (A) (C) (B) (D) Figura 4. Etapa parts, peças que compõe a embalagem, (A) e (B) vistas isométricas, (C) e (D) seções da parte inferior e superior. Fonte: Arquivo pessoal (2012). Ao unir as partes, a embalagem se remete esteticamente a forma de um ouriço, porém com mais simetria. As extremidades chatas da embalagem ganham finalidades de base de apoio e exibição do rótulo e informações nutricionais. Na parte superior, denominada tampa, foram incorporados baixos relevos em suas laterais frontais. Este detalhe tem por objetivo proporcionar uma maior aderência no manuseio do produto. Já a parte central da embalagem, onde ocorre a união dos hemisférios e o fechamento, é formado um anel de fases planas, favorecendo o encaixe dos dedos. Esta segunda parte (assembly), da execução do projeto, demonstra com maior detalhe os encaixes, relevos, fechamento e suas finalidades. (A) (B) Vol. 2, No. 2, Abril - Junho 2012, Página 21 (D) (C) Figura 5. Parte superior da embalagem, (A) Vista isométrica, (B) Seção, (C) Vista lateral, (D) Vista Frontal. Fonte: Arquivo pessoal (2012). A composição da embalagem se dá na terceira parte, onde toda a estrutura do projeto se une e se harmoniza. A embalagem recebeu em seu design exterior, desenhos de grafismos indígenas típicos. Estes aumentam a aderência no manuseio da embalagem, além de tornar a superfície do material biodegradável mais rígido e menos frágil. A arte em relevo é composta por linhas simétricas e lineares, que remete ao grafismo corporal dos indígenas Kayapó Menkrãgnoti. Figura 6. Vista Isométrica da embalagem de amêndoas de castanha-do-brasil. Fonte: Arquivo pessoal (2012). 5. Prototipagem Prototipagem é uma operação importante e vital, no processo de desenvolvimento final de homologação de um projeto de embalagem. Seu principal objetivo é auxiliar na especificação, e validação de requisitos do projeto, permitindo a verificação de futuros problemas, e reduzindo os riscos da inovação.6 O protótipo pode ter seu desenvolvimento manual, se tornando essencialmente um trabalho artesanal. De outra forma, pode ser desenvolvido através de softwares, utilizando o método da prototipagem rápida.7 Um conjunto de tecnologias usadas para se manufaturar objetos físicos diretamente, partindo de uma base de dados gerados pelo sistema de projeto (C.A. D), que integra a modelação em 3D.8 Este estudo apresenta os métodos possíveis, para realização de uma prototipagem de elevada definição. 6. Conclusão Vol. 2, No. 2, Abril - Junho 2012, Página 22 O ouriço, fruto da castanheira-do-brasil (Bretholletia excelsa H.B.K), originária da floresta amazônica, apresenta forma arredondada, extremidades de bases irregulares, dimensões de 12 a 18 centímetros de diâmetro, textura rugosa e rígida. Os frutos maduros caem inteiros no solo, de onde são coletados para extração das amêndoas. O interior dos ouriços contém de 12 a 30 sementes em média, recobertas por uma casca lenhosa, mais fina, que cobre as amêndoas. Estas são consistentes, brancas, oleosas, comestíveis e nutritivas. Outra característica considerada do ouriço é a pigmentação, que se apresenta em sua casca externa e interna, por coloração marrom claro, com pontos escuros. Partindo destas características, o projeto da embalagem respeita os princípios estéticos, da forma natural do ouriço da castanha-do-brasil. O material escolhido para o desenvolvimento da embalagem se denomina “Bioman”, material biodegrável, definido como o produto da polimerização da fécula de mandioca. Em média, o material Bioman é 4 vezes mais denso que o poliestireno expandido (EPS) e 7 vezes mais leve que os polímeros PET e PP. A manufatura de embalagens Bioman é favorecida por sua característica sustentável superior. A densidade () calculada para o material polimerizado de fécula de mandioca, foi de 0,12 g/cm3. O SolidWorks, software de simulação 3D, foi adotado no desenvolvimento da pesquisa, onde a execução do projeto foi realizada em três etapas distintas: parts, assembly e drawing. O projeto da embalagem consiste em duas partes, que se une por um fechamento com rosca. Cada hemisfério ou meia esfera possuem selos, que mantém protegidas as amêndoas de castanha-do-brasil. Foi incorporado desenhos de grafismos indígenas em todo seu contexto esférico, que se remete ao grafismo corporal dos indígenas Kayapó Mekrãgnoti. O estudo apresenta métodos possíveis para realização de uma prototipagem, que específica e torna válidos os requisitos do projeto, permitindo a elaboração do produto. 7. Referências bibliográficas [1] SOUZA, M. L., Processamentos de amêndoa e torta de castanha-do-Brasil e farinha de mandioca: parâmetros de qualidade. Ciência e Tecnologia de Alimentos, Campinas, V.24, p.120-128, 2004. [2] CHAVES, N., Dossiê Técnico do Cultivo da Castanha-do-Brasil. Centro de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Universidade de Brasília, CDT/UNB, 2007. [3] MESTRINER. F., O Design e sua integração com o Sistema Embalagem, Revista Embanews, 2009. [4] SAMPAIO, A. P. 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