UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO MESTRADO EM ENSINO DE CIÊNCIAS E MATEMÁTICA Um Estudo sobre a Trigonometria no Triângulo Retângulo PAULO ROBERTO DOS SANTOS Orientadora: Profª. Dra. Cintia A. Bento dos Santos Dissertação apresentada ao Mestrado em Ensino de Ciências e Matemática, da Universidade Cruzeiro do Sul, como parte dos requisitos para a obtenção do título de Mestre em Ensino de Ciências e Matemática. SÃO PAULO 2014 AUTORIZO A REPRODUÇÃO E DIVULGAÇÃO TOTAL OU PARCIAL DESTE TRABALHO, POR QUALQUER MEIO CONVENCIONAL OU ELETRÔNICO, PARA FINS DE ESTUDO E PESQUISA, DESDE QUE CITADA A FONTE. FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA CENTRAL DA UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO Um Estudo sobre a Trigonometria no Triângulo Retângulo Paulo Roberto dos Santos Dissertação de mestrado defendida e aprovada pela Banca Examinadora em __/__/2014. BANCA EXAMINADORA: Profª. Dra. Cíntia A. Bento dos Santos Universidade Cruzeiro do Sul Presidente Profª. Dra. Norma Suely Gomes Allevato Universidade Cruzeiro do Sul Prof. Dr. Marcio Eugen Klingenschmid Lopes dos Santos Secretaria Estadual de Educação/SP Dedico este trabalho à minha família, especialmente à minha mãe Maria José. AGRADECIMENTOS A Deus, por me dar força para enfrentar desafios. À minha mãe, Maria, por sempre acreditar em mim. À minha companheira, Ivonete, por me apoiar em horas difíceis. Aos meus filhos, Natália e Paulo, por suportarem longos períodos de minha ausência. A professora Norma Suely Gomes Allevato, por ter aceitado o convite para fazer parte de minha banca e ter contribuído para estruturar meu trabalho. Ao professor Marcio E. K. Lopes dos Santos, por ter aceitado participar de minha banca e suas contribuições. Aos professores do Programa de Mestrado Profissional em Ensino de Ciências e Matemática, pelas contribuições que enriqueceram o curso e meu desenvolvimento. Aos colegas de Mestrado, pelo companheirismo e contribuições que enriqueceram minha jornada. Aos meus alunos, pela participação e responsabilidade. E em especial, à minha orientadora, professora Cíntia A. B. Santos, com quem aprendi e contribuiu muito para realização deste trabalho. “EDUCAÇÃO NÃO TRANSFORMA O MUNDO. EDUCAÇÃO MUDA PESSOAS. PESSOAS TRANSFORMAM O MUNDO”. (PAULO FREIRE, educador) SANTOS, Paulo Roberto dos. Um estudo sobre a trigonometria do triângulo retângulo. 2014. 92 f. Dissertação (Mestrado de Ensino de Ciências e Matemática)Universidade Cruzeiro do Sul, São Paulo, 2014. RESUMO Este estudo é uma pesquisa de Mestrado Profissional em Ensino de Ciências e de Matemática, focando o estudo das relações entre as medidas dos lados de um triângulo retângulo (seno, cosseno e tangente). O objetivo desta investigação é verificar as revelações que alunos de um 2º ano de Ensino Médio de uma escola pública estadual da cidade de São Paulo têm sobre o conhecimento trigonométrico; como mobilizam tal conhecimento, introduzido no Ensino Fundamental, para resolverem tarefas e como este pode ser útil para construção de novos conhecimentos. Como aportes teóricos, será utilizada a Teoria das Situações Didáticas, de Guy Brousseau, e a Teoria dos Campos Conceituais, de Gérard Vergnaud, para estruturar a pesquisa. Para atender ao objetivo, foi utilizada uma pesquisa de método qualitativo, com técnica de análise documental. Por meio de três instrumentos de pesquisa desenvolvidos com os alunos, procurou-se levantar o que os alunos revelam em relação aos conhecimentos matemáticos, referentes ao estudo de trigonometria, verificar como eles demonstram mobilizar tais conhecimentos aprendidos no Ensino Fundamental ao resolverem tarefas de trigonometria no Ensino Médio e, também, como realizam a conexão entre conhecimentos novos e antigos. Após a aplicação do instrumento I, constatou-se que a maioria absoluta dos alunos não dispunha dos invariantes operatórios necessários no que se refere ao triângulo retângulo e à semelhança de triângulo. A análise do instrumento II permitiu inferir que a maior parte dos estudantes conseguiu compreender o conceito de razões trigonométricas que se manteve estabilizado, conforme se verificou após análise da resolução dos problemas do instrumento III. Palavras-chave: Mobilização de conhecimentos matemáticos, Trigonometria no triângulo retângulo, conceituais. Razões trigonométricas, Situações didáticas, Campos SANTOS, Paulo Roberto dos. A study about the Trigonometry of the triangle rectangle. 2014. 92 f. Dissertação (Mestrado de Ensino de Ciências e Matemática)Universidade Cruzeiro do Sul, São Paulo, 2014. ABSTRACT This study is a research of Professional Master in the tuition of Science and Math’s field, focusing on the relation between the measures of the sides of a triangle rectangle (sine, cosine and tangent). The objective of this research is to check the revealing of the amount of Math’s knowledge students from the 2nd year of High School from a public school in the city of São Paulo have about Trigonometry, how they deal with such knowledge, introduced in the elementary school to solve problems and how it can be useful in the construction of new knowledge. The Theory of Didactic Situations from Guy Brousseau and the Theory of Conceptual Fields from Gérard Verhnaud will be used to structure this research. To get into the objective, a research about the qualitative method was used with technique of documentary analysis. Through three research instruments developed with students, it tries to raise what students reveal in relation to their Math’s knowledge, related to the study of Trigonometry, and check how they can demonstrate such knowledge learned in the elementary school when solving some trigonometry tasks in High School and also how they make the connection between the new and the old knowledge. After the use of Instrument I, it was discovered that the great majority of the students did not have the invariant elements necessary in relation to the triangle rectangle and the triangle’s similarity. The analysis of Instrument II allowed to infer that the majority of the students could understand the concept of the Trigonometric ratios which is kept stabilized, according to what was checked after the analysis of the resolution of the problems of Instrument III. Key-words: Mobilization of Math’s knowledge, Trigonometry in the triangle rectangle, Trigonometric Ratios, Didactic Situations, Conceptual Fields. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 Pesquisas por regiões do Brasil ............................................ 41 Figura 2 Triângulo didático.....................................................................51 Figura 3 Atividade 12 – instrumento I ................................................... 65 Figura 4 Atividade 14 – instrumento I ................................................... 66 Figura 5 Atividade 15 – instrumento I....................................................66 Figura 6 Atividade 17 – instrumento I....................................................67 Figura 7 Atividade 16 – instrumento I....................................................68 Figura 8 Atividade 9 – instrumento I......................................................69 Figura 9 Atividade 10 – instrumento I . .. ...............................................70 Figura 10 Estudo das noções referentes à trigonometria ..................... 70 Figura 11 Atividade 11 – instrumento I .................................................. 71 Figura 12 Atividade 11 – instrumento I .................................................. 72 Figura 13 Atividade 12 – instrumento I .................................................. 74 Figura 14 Atividade 12 – instrumento I .................................................. 75 Figura 15 Atividade 12 – instrumento I .................................................. 76 Figura 16 Atividade 12 – instrumento I .................................................. 77 Figura 17 Atividade 13 – instrumento I .................................................. 78 Figura 18 Atividade 13 – instrumento I .................................................. 78 Figura 19 Atividade 13 – instrumento I .................................................. 79 Figura 20 Atividade 14 – instrumento I .................................................. 80 Figura 21 Atividade 14 – instrumento I .................................................. 80 Figura 22 Atividade 15 – instrumento I .................................................. 81 Figura 23 Atividade 16 – instrumento I .................................................. 82 Figura 24 Atividade 17 – instrumento I .................................................. 83 Figura 25 Atividade 17 – instrumento I .................................................. 83 Figura 26 Percentual de acertos por questão ....................................... 85 Figura 27 Atividade 1 – instrumento II ................................................... 90 Figura 28 Atividade 2 – instrumento II – parte 1 .................................... 92 Figura 28 Atividade 2 – instrumento II – parte 2 .................................... 93 Figura 29 Atividade 3 – instrumento II ................................................... 95 Figura 30 Atividade 4 – instrumento II – parte 1 ................................... 97 Figura 30 Atividade 4 – instrumento II – parte 2 .................................... 98 Figura 31 Atividade 4 – instrumento II – aluna I .................................. 100 Figura 32 Atividade 4 – instrumento II – aluna K ................................ 101 Figura 33 Atividade 4 – instrumento II – aluna J ................................. 101 Figura 34 Atividade 4 – instrumento II – aluna F ................................. 102 Figura 35 Atividade 4 – instrumento II – aluna J ................................. 103 Figura 36 Atividade 4 – instrumento II – aluna E – parte 1 ................. 104 Figura 36 Atividade 4 – instrumento II – aluna E – parte 2 ................. 105 Figura 37 Atividade 4 – instrumento II – aluna F ................................. 106 Figura 38 Atividade 4 – instrumento II – aluno P ................................ 106 Figura 39 Atividade 4 – instrumento II – aluna P ................................ 107 Figura 40 Atividade 4 – instrumento II – aluna A ................................ 107 Figura 41 Atividade 4 – instrumento II – aluna F ................................. 108 Figura 42 Atividade 4 – instrumento II – aluna E ................................ 109 Figura 43 Atividade 4 – instrumento II – aluno B ................................ 106 Figura 44 Atividade 4 – instrumento II – aluno G ................................ 110 Figura 45 Atividade 4 – instrumento II – aluno P ................................ 112 Figura 46 Atividade 4 – instrumento II – aluna A ................................ 113 Figura 47 Atividade 4 – instrumento II – aluna K ................................ 113 Figura 48 Atividade 4 – instrumento II – aluna M ................................ 114 Figura 49 Atividade 4 – instrumento II – aluna T ................................. 114 Figura 50 Atividade 4 – instrumento II – aluno G ................................ 115 Figura 52 Atividade 4 – instrumento II – aluna E ................................ 111 Figura 52 Atividade 4 – instrumento II – aluno P ................................ 117 Figura 53 Problema 1 – instrumento III ................................................ 121 Figura 54 Problema 2 – instrumento III ................................................ 121 Figura 55 Problema 3 – instrumento III ................................................ 121 Figura 56 Problema 4 – instrumento III ................................................ 122 Figura 57 Problema 1 – instrumento III – aluno G ............................... 123 Figura 58 Problema 1 – instrumento III – aluna F ............................... 124 Figura 59 Problema 1 – instrumento III – aluna M ............................... 124 Figura 60 Problema 2 – instrumento III – aluna F ............................... 125 Figura 61 Problema 2 – instrumento III – aluna I ................................. 125 Figura 62 Problema 2 – instrumento III – aluna J ................................ 126 Figura 63 Problema 3 – instrumento III – aluno P ............................... 127 Figura 64 Problema 3 – instrumento III – aluno G ............................... 128 Figura 65 Problema 4 – instrumento III – aluno B ............................... 129 Figura 66 Problema 4 – instrumento III – aluna R ............................... 130 Figura 67 Problema 4 – instrumento III – aluna T ............................... 130 Quadro 1 Distribuição do conteúdo de trigonometria.........................29 Quadro 2 Pesquisas selecionadas de trigonometria.......................... 42 Quadro 3 Aplicação do instrumento II.................................................. 89 SUMÁRIO INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 14 CAPÍTULO 1- A PESQUISA E OS PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS......... 178 1.1 Justificativa da Pesquisa ..................................................................................... 18 1.2 Problemática da Pesquisa ................................................................................... 20 1.3 Metodologia da Pesquisa .................................................................................... 20 CAPÍTULO 2 - O ENSINO DE TRIGONOMETRIA .................................................... 25 2.1 Inserção Curricular do Estudo de Trigonometria ................................................. 25 2.2 Pesquisas que discutem o Ensino de Trigonometria ........................................... 31 2.3 Sintetizando o Panorama das Pesquisas ............................................................ 40 CAPÍTULO 3 - QUADRO TEÓRICO ......................................................................... 45 3.1 A Teoria dos Campos Conceituais de Vergnaud................................................. 45 3.2 A Teoria das Situações Didáticas de Brousseau................................................. 50 3.3 Sobre as Teorias dos Campos Conceituais de Vergnaud e das Situações Didáticas de Brousseau ............................................................................................ 61 CAPÍTULO 4 - PESQUISA DE CAMPO .................................................................... 63 4.1 Sobre os Instrumentos ........................................................................................ 63 4.2 Aplicação do Instrumento I .................................................................................. 63 4.3 Análise e Interpretação dos Dados do Instrumento I ........................................... 64 4.4 Análise a Priori e Aplicação do Instrumento II ..................................................... 89 4.5 Análise e Interpretação dos Dados do Instrumento II ........................................ 100 4.6 Síntese da Análise a Posteriori do Instrumento II.............................................. 117 4.7 Aplicação e Análise dos Dados do Instrumento III ............................................ 120 CAPÍTULO 5 – CONSIDERAÇÕES FINAIS.......................................................... 1323 REFERÊNCIAS ....................................................................................................... 139 APÊNDICE A – Instrumento de pesquisa I ............................................................. 143 APÊNDICE B – Instrumento de pesquisa II........................................................... 1477 APÊNDICE C – Instrumento de pesquisa III ......................................................... 1544 14 INTRODUÇÃO Iniciei minha carreira como professor substituto, passando por várias escolas e turnos variados, por um curto período de tempo, na rede estadual na cidade de São Paulo. Como professor efetivo de Matemática, minha carreira teve início há cerca de dez anos, sempre lecionando no Ensino Médio de uma escola pública da cidade de São Paulo, no período da manhã, tarde ou noite. Atualmente, leciono no período noturno. A escola em que leciono é antiga, dispondo de apenas oito salas e com pouca infraestrutura, mas é organizada e a maioria dos alunos é participativa. Nesse ambiente, percebi que, ano após ano, uma parcela significativa desses alunos apresentava dificuldades no aprendizado de trigonometria no triângulo retângulo. Passei, então, a dar mais atenção a esse conteúdo, planejando melhor as aulas, procurando explicar na lousa, de forma mais clara possível, e exigindo a realização de exercícios pelos alunos. As possíveis dúvidas ainda existentes eram esclarecidas com uma revisão da teoria e mais exercícios. Ao final, verificava o aprendizado dos alunos por meio de uma prova mensal ou bimestral. Acreditava, naquele momento, que, dessa forma, conseguiria que os alunos aprendessem melhor as razões trigonométricas no triângulo retângulo. Mesmo empenhando-me, percebia que os resultados ainda eram frustrantes, pois a maioria dos alunos apresentava rendimento insatisfatório nas provas. Havia algo que prejudicava seu aprendizado e que precisava ser descoberto, mas eu não sabia do que se tratava. Essas inquietações fizeram-me ir à busca de aperfeiçoamento, o que resultou no ingresso em um curso de Pós-Graduação de Especialização em Matemática para Professores do Ensino Fundamental II e do Ensino Médio, no qual aprendi mais Matemática, mas não obtive as respostas que procurava. Percebendo, naquele momento, por meio de pesquisas e de leituras, que as respostas almejadas poderiam estar na Educação Matemática, resolvi matricular-me no Programa de Pós Graduação em Ensino de Ciências e Matemática da Universidade Cruzeiro do Sul, para realizar o mestrado profissional. 15 Já no início do mestrado, após um período de reflexão, minha orientadora sugeriu como título de pesquisa “Um Estudo sobre a trigonometria no triângulo retângulo”. Chegamos à conclusão de que a pesquisa seria realizada com dezesseis alunos de duas turmas do segundo ano do Ensino Médio, período noturno, da escola pública da cidade de São Paulo. Os conteúdos discutidos nas disciplinas do curso de mestrado juntamente com as orientações encaminharam-nos ao quadro teórico desta pesquisa, pautado na Didática Francesa, em que tomamos como referência a Teoria das Situações Didáticas, de Guy Brousseau (BROUSSEAU, 1986, 1996, 2008), pois ela permitenos explicar as relações entre saber, professor e aluno. Cabe salientar que Brousseau utiliza a palavra “saber” em sua teoria. Assim, é conveniente fazermos a diferenciação entre saber e conhecimento. Segundo Pais (1999), enquanto o saber caracteriza-se quase sempre por ser descontextualizado, despersonalizado e mais associado a um contexto científico, histórico e cultural, o conhecimento refere-se a um contexto mais individual e subjetivo, associado ao caráter experimental. Brousseau (1988) faz uma distinção entre conhecimento e saber, evidenciando o aspecto da utilidade e remetendo a questão para análise das situações didáticas. Em sua análise, o saber aparece associado ao problema da validação do conhecimento, relacionada à questão do raciocínio lógico-dedutivo. Por outro lado, o conhecimento é vinculado mais ao aspecto experimental, envolvendo algum tipo de ação de contato mais pessoal. Também adotamos a Teoria dos Campos Conceituais, de Gérard Vergnaud (VERGNAUD, 1996, 1998, 2012), a fim de evidenciar as questões relativas à construção de conceitos por parte dos alunos e as relações que alunos estabelecem entre conhecimentos novos e antigos. Em nossa pesquisa, tem-se por objetivo geral verificar as revelações que alunos de um segundo ano de Ensino Médio de uma escola pública estadual da cidade de São Paulo têm sobre o conhecimento trigonométrico e como mobilizam tal conhecimento, introduzido normalmente no 9º ano do Ensino Fundamental, para 16 resolverem tarefas e como este pode ser útil para construção de novos conhecimentos. Para auxiliar o presente trabalho, foi realizado um levantamento sobre pesquisas publicadas a partir de 2006, relacionadas ao foco desta pesquisa. Essa etapa tem por objetivo apresentar o que se tem discutido em relação a esta temática no cenário acadêmico. Considerou-se importante essa etapa do trabalho, pois o mapeamento das pesquisas ajudará a ter clareza sobre o que tem sido discutido em se tratando do estudo de trigonometria. Por último, cabe ressaltar que o pesquisador é professor regente da turma que foi pesquisada e que este estudo também teve como finalidade fazer com que o professor-pesquisador compreendesse melhor as dificuldades de seus alunos, podendo contribuir para o processo de ensino-aprendizagem dos educandos, assim como para o aprimoramento de sua prática profissional. Para responder ao objetivo da pesquisa, estruturou-se o trabalho conforme esta sequência: No primeiro capítulo, apresenta-se a justificativa desta pesquisa, ou seja, a motivação para a escolha da temática abordada. Nesse capítulo, também é apresentada a problemática de pesquisa e a metodologia a ser utilizada (mencionada anteriormente) para desenvolvimento desta investigação. No segundo capítulo, discorre-se sobre o ensino de trigonometria. Nessa etapa, são apresentados alguns aspectos curriculares que corroboram para a importância do tema e são analisadas dissertações relacionadas ao assunto e a livros que tratam diretamente do ensino-aprendizagem de trigonometria no triângulo retângulo a partir de 2006. No terceiro capítulo, discutem-se os aportes teóricos desta pesquisa, a Teoria dos Campos Conceituais, de Vergnaud e a Teoria das Situações Didáticas, de Brousseau. Esses referenciais foram utilizados, a fim de entender como os alunos constroem conceitos e também como fazem as conexões entre conhecimentos novos e antigos, bem como as relações entre saber, professor e aluno. 17 O quarto capítulo é destinado a tratar da pesquisa de campo. Nele, apresenta-se uma análise a priori da sequência didática e a posteriori da realização da sequência pelos alunos. No quinto capítulo, retoma-se a questão de pesquisa, a fim de respondê-la. Além disso, traçam-se alguns indicativos para o ensino de trigonometria no triângulo retângulo com base nos resultados encontrados. 18 CAPÍTULO 1- A PESQUISA E OS PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Neste capítulo, será apresentada a pesquisa, descrevendo os principais aspectos que a justificam, bem como sua problemática. Será apresentada, ainda, a metodologia de pesquisa adotada para esta investigação. 1.1 Justificativa da Pesquisa A presente pesquisa, desenvolvida no âmbito do Programa de PósGraduação em Ensino de Ciências e de Matemática da Universidade Cruzeiro do Sul, tem como foco o estudo das relações entre as medidas dos lados de um triângulo retângulo (seno, cosseno e tangente) na fase de escolarização do 2º ano do Ensino Médio. Por ser evidente que a trigonometria tem grande participação na sociedade moderna, a apropriação e o domínio desse conhecimento matemático constituem instrumentos básicos para a leitura e compreensão do mundo em que se vive. A importância da trigonometria é comprovada na aprendizagem de alguns conceitos da Física Clássica, bem como no estudo da eletricidade, da mecânica, da música, da medicina, da topografia, da engenharia, de náutica, de telecomunicações, ou ainda em aplicações que envolvem principalmente fenômenos periódicos. A trigonometria é muito utilizada na determinação de distâncias inacessíveis como medições de astros, de distâncias, entre outras coisas. Vários aspectos históricos evidenciam a importância da presença dessa noção matemática no desenvolvimento das civilizações antigas como a egípcia, babilônica, chinesa, grega, estendendo-se até os dias atuais. No entanto, com base na prática docente, pode-se observar que uma parcela significativa de alunos chega ao Ensino Médio sem a devida clareza desse conteúdo; também se observa que a forma como a trigonometria é aprendida nas 19 aulas de Matemática não proporciona uma visão ampla ao aluno acerca de sua inserção nas situações cotidianas. Outro ponto que se verificou na prática docente é o fato de alunos aprenderem durante o Ensino Fundamental conteúdos como, por exemplo, razões, semelhança de triângulos, teorema de Pitágoras, e, quando chegam ao Ensino Médio, não possuírem esses conhecimentos disponíveis, nem os reconhecerem no momento de fazer as devidas conexões no estudo de trigonometria. Sendo assim, apesar de esses conteúdos já terem sido institucionalizados em anos anteriores, os alunos sinalizam não ter desenvolvido autonomia suficiente para lançar mão dos conhecimentos disponíveis quando se fazem necessárias as devidas articulações e conexões entre os conhecimentos já aprendidos e os novos que estão sendo propostos. Essas constatações, observadas, num primeiro momento, na prática docente, motivaram o levantamento de hipóteses sobre a problemática que envolve o conteúdo matemático relacionado à trigonometria. Esta pesquisa permite abrir uma reflexão quanto à necessidade de se dialogar com as dificuldades que os educandos enfrentam em relação ao domínio e à interpretação de conhecimentos sobre a trigonometria no triângulo retângulo. A trigonometria esteve presente na escola secundária ao longo de todo o século XX. Sua inclusão no currículo do Ensino Médio enquanto saber matemático é atualmente um conteúdo obrigatório, destacado nos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio – PCNEM+ (BRASIL, 2006) e, também, presente no currículo da Rede Estadual de Ensino de São Paulo (SÃO PAULO, 2012). No presente estudo, considerou-se relevante averiguar o que alunos de um 2º ano do Ensino Médio de uma escola pública estadual da cidade de São Paulo revelam em relação ao conhecimento matemático de trigonometria e como mobilizam esse conhecimento, iniciado no Ensino Fundamental, para resolverem tarefas, e como este pode ser proveitoso para construção de novos conhecimentos. 20 1.2 Problemática da Pesquisa Com base na justificativa deste estudo e buscando delimitar a investigação, elaborou-se a seguinte questão de pesquisa para nortear o presente trabalho: Como alunos demonstram mobilizar ou ter disponíveis conhecimentos matemáticos aprendidos no Ensino Fundamental ao resolverem tarefas de trigonometria, no que se refere ao triângulo retângulo, no Ensino Médio? 1.3 Metodologia da Pesquisa Nesta investigação, a organização do trabalho está pautada na abordagem qualitativa, com técnica de análise documental. De acordo com Goldenberg (2007), os dados da pesquisa qualitativa têm por objetivo uma compreensão profunda de certos fenômenos sociais apoiados no pressuposto da maior relevância do aspecto subjetivo da ação social. Ainda segundo a autora, os métodos qualitativos enfatizam as particularidades de um fenômeno em termos de seu significado para o grupo pesquisado, sendo esse tipo de pesquisa capaz de possibilitar a compreensão do significado e a descrição dos fenômenos estudados em seus contextos e não à sua expressividade numérica. Para Creswell (2010), a investigação qualitativa emprega diferentes concepções filosóficas, estratégias de investigação e métodos de coleta, análise e interpretação de dados. Para o autor, a investigação qualitativa utiliza diferentes estratégias, as quais têm grande influência sobre os procedimentos qualitativos. Creswell (2010) destaca, também, que a amostragem intencional, a coleta de dados abertos, a análise de textos ou de imagens, a representação de informações em figuras e em quadros e a interpretação pessoal dos achados sugerem procedimentos qualitativos, ou seja, são procedimentos que podem auxiliar na caracterização de uma pesquisa qualitativa, dentre eles, encontram-se os procedimentos a serem utilizados neste estudo. O autor ainda define a pesquisa qualitativa como: 21 [...] um meio para explorar e para entender o significado que os indivíduos ou os grupos atribuem a um problema social ou humano. O processo de pesquisa envolve as questões e os procedimentos que emergem, os dados tipicamente coletados no ambiente do participante, a análise dos dados indutivamente construída a partir das particularidades para os temas gerais e as interpretações feitas pelo pesquisador acerca do significado dos dados. (CRESWELL, 2010, p.26) Para Lüdke e André (2012), a pesquisa qualitativa envolve a obtenção de dados descritivos, por meio do contato direto do pesquisador com a situação pesquisada, enfatiza mais o processo do que o produto e preocupa-se em retratar a perspectiva dos participantes. De acordo com as autoras, a pesquisa qualitativa supõe o contato direto e prolongado do pesquisador com ambiente e a situação que está sendo investigada, em geral, por meio do trabalho intensivo de campo. Lüdke e André (2012) ressaltam, ainda, que, no estudo qualitativo, os problemas são estudados no ambiente em que eles ocorrem naturalmente, sem qualquer manipulação intencional do pesquisador. A pesquisa de campo foi desenvolvida inicialmente com dezesseis alunos de duas turmas do 2º ano do Ensino Médio de uma escola pública da cidade de São Paulo. Durante um período de tempo, o pesquisador verificou os conhecimentos anteriores relacionados à trigonometria no triângulo retângulo. Na sequência, acompanhou a mobilização desses conhecimentos para a construção de conceitos de razões trigonométricas no triângulo retângulo e como essa construção de conceitos se deu em relação à tríade professor, aluno e saber. Por último, verificou como o aluno aplicou o que construiu de conhecimentos na etapa anterior. Para tanto, elaboraram-se três instrumentos de pesquisa (Apêndice A, B e C), que foram desenvolvidos em um total de oito encontros (cada encontro, com duração de duas horas-aula). As características apontadas anteriormente ajudam a reforçar a escolha pela abordagem qualitativa, em que se utiliza a técnica de análise documental. A análise documental será realizada com base em três instrumentos de pesquisa a serem desenvolvidos pelos alunos elaborados à luz do referencial teórico, apoiando-se em Phillips (1974), que considera como documentos “quaisquer materiais escritos que possam ser usados como fonte de informação sobre o comportamento humano” (PHILLIPS, 1974, p. 187). 22 Em Appolinário (2009), encontra-se uma definição mais ampla de documento que vai além do conceito de materiais escritos: Qualquer suporte que contenha informação registrada, formando uma unidade, que possa servir para consulta, estudo ou prova. Incluem-se, nesse universo, os impressos, os manuscritos, os registros audiovisuais e sonoros, as imagens, entre outros. (APPOLINÁRIO, 2009, p. 67) Inicialmente foi desenvolvido com os alunos um instrumento do tipo questionário (Apêndice A), que visa coletar seus conhecimentos prévios em relação às noções matemáticas a serem utilizadas no estudo das razões trigonométricas no triângulo retângulo, a fim de verificar quais intervenções serão necessárias para que esses alunos possam construir conhecimentos de forma a desenvolver autonomia quanto à utilização das ferramentas matemáticas. Em um segundo momento, foi trabalhado o instrumento II (Apêndice B), elaborado à luz da referida fundamentação teórica. Trata-se de uma sequência didática, composta por situações-problema, referentes ao conteúdo de trigonometria no triângulo retângulo, em que se fará a análise dos conhecimentos mobilizados ou disponíveis em decorrência da implementação da proposta didática e que tem por objetivo fazer evoluir os conhecimentos dos alunos em relação ao estudo dessa noção matemática. Posteriormente, foi aplicado o terceiro instrumento (Apêndice C), composto por quatro problemas referentes à trigonometria no triângulo retângulo. O objetivo desse instrumento é verificar como o aluno aplica o que construiu com o segundo instrumento. Além dos instrumentos de pesquisa, foram utilizadas as anotações escritas do pesquisador e o material transcrito de gravações de áudio como apoio na análise documental, fazendo uma análise quanto aos procedimentos e resultados desenvolvidos pelos alunos. Por fim, foram dadas sugestões, apontando caminhos e alternativas que conduzam à superação das dificuldades das relações trigonométricas no triângulo retângulo. 23 Lüdke e André (2012) consideram que uma análise documental busca identificar informações factuais nos documentos a partir de questões ou hipóteses de interesse. De acordo com as autoras, o uso de documentos na pesquisa apresenta uma série de vantagens que se consideram importantes neste estudo, tais como: os documentos podem ser consultados muitas vezes e inclusive servir de referência a outros estudos; são considerados uma fonte de informação contextualizada, fornecendo informações sobre esse mesmo contexto; têm baixo custo; permitem a obtenção de dados quando o acesso ao sujeito é impraticável ou quando a interação com os sujeitos pode alterar seu comportamento ou seus pontos de vista. Além disso, Lüdke e André (2012) atentam que o uso da análise documental é apropriado quando o acesso aos dados é problemático, quando se pretende ratificar e validar informações por outras técnicas de coleta, ou quando o interesse do pesquisador é estudar o problema a partir da própria expressão dos indivíduos. A última situação faz referência a este trabalho, pois os protocolos serão analisados a partir dos registros desenvolvidos pelos próprios alunos. Diante das considerações expostas, destaca-se que a técnica de análise documental tem um papel essencial na presente investigação, subsidiando-a com uma variedade de informações a partir da expressão do aluno. Para Lüdke e André (2012), a tarefa de análise implica organizar todo o material, dividindo-o em partes, relacionando essas partes e procurando identificar nele tendências e padrões relevantes, seguida de uma reavaliação dessas tendências e padrões, buscando-se relações e inferências num nível de abstração mais elevado. Com o desenvolvimento dos instrumentos, foi obtido um total de 208 problemas a serem analisados. Após a organização, a categorização dos dados acontecerá de acordo com os procedimentos de resolução apresentados nos protocolos pelos alunos, seguida de uma análise qualitativa, em que se procurou aprofundar, dentro de cada categoria, a observação quanto às particularidades em relação à resolução dos problemas que compõe os instrumentos de pesquisa apresentados. Sendo assim, 24 procurou-se compreender com profundidade as especificidades em relação à construção de conceitos trigonométricos no triângulo retângulo, com uma interpretação pessoal dos dados pelo pesquisador. A escolha pelo método de pesquisa de abordagem qualitativa justifica-se pelo fato de que os procedimentos desenvolvidos neste trabalho encontram subsídios nos procedimentos de pesquisa qualitativa, ou seja, os dados coletados por meio dos instrumentos de pesquisa serão organizados de modo a buscar sintetizar ideias dentro do cenário da pesquisa. Com os dados categorizados, pretende-se fazer uma análise qualitativa, procurando aprofundar, dentro de cada categoria, à luz da fundamentação teórica utilizada, a observação sobre as especificidades presentes nos protocolos, referentes aos problemas desenvolvidos pelos alunos que compõem os instrumentos de pesquisa. 25 CAPÍTULO 2 - O ENSINO DE TRIGONOMETRIA Conforme já mencionado, o foco desta pesquisa é, sobretudo, o estudo das relações entre as medidas dos lados de um triângulo retângulo e tem-se por objetivo verificar as revelações relativas aos conhecimentos matemáticos que alunos possuem sobre o conteúdo trigonométrico, como mobilizam esse conhecimento para resolverem tarefas e como tais conhecimentos podem servir para construção de novos conhecimentos. Nesse sentido, foram considerados relevantes os seguintes aspectos: o estudo das razões dos lados do triângulo retângulo apresenta-se como proposta inicial desde o 9º ano do Ensino Fundamental e o domínio desse conteúdo facilita a transição para o estudo do ciclo trigonométrico de caráter mais algébrico, ou seja, acredita-se que a institucionalização desse conhecimento minimiza as dificuldades que eventualmente surjam no processo de transição de relações trigonométricas para função trigonométrica. Diante do exposto, serão apresentados, neste capítulo, alguns aspectos curriculares e trabalhos de pesquisas recentes, selecionados por julgar-se que tratam de situações relevantes dentro do presente foco de estudo, as quais corroboram para melhor compreensão de tal importância. 2.1 Inserção Curricular do Estudo de Trigonometria Analisou-se o Currículo do Estado de São Paulo (SÃO PAULO, 2012), pois se trata de uma parte relevante deste trabalho, isto é, refere-se a um documento vigente que dá orientações ao trabalho docente e também norteia a aprendizagem dos alunos que serão nossos sujeitos de pesquisa. Esse documento visa propor um currículo para os níveis de Ensino Fundamental e Médio e, também, garantir a todos uma base comum de conhecimentos e competências para que as escolas funcionem como uma rede. Nele, encontramos alguns princípios orientadores, a fim de promover as competências exigidas no mundo contemporâneo. 26 Nesse sentido, o documento prioriza a competência de leitura e escrita, definindo a escola como espaço de cultura e de articulação de competências e conteúdos disciplinares. Complementando o Currículo, foram elaborados os cadernos do professor, dirigidos especialmente aos docentes, e os cadernos do aluno, organizados por disciplina, ano e bimestre. Neles, encontram-se situações de aprendizagem para orientar o trabalho do professor quanto ao ensino dos conteúdos e à aprendizagem do aluno, com propostas de abordagens e sugestões de materiais disponíveis como textos, softwares, sites, vídeos, os quais o docente pode utilizar para o enriquecimento das aulas. O texto desse documento traz várias informações que se relacionam direta ou indiretamente à importância do objeto deste estudo. Dentre elas, afirma que, há um certo tempo, o foco da educação escolar era o ensino; entretanto, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDBEN (BRASIL, 1996) mudou-o para a aprendizagem (SÃO PAULO, 2012). O mesmo texto ressalta, ainda, que a Matemática é apresentada como uma área específica, distinta das Linguagens e Códigos e das Ciências da Natureza, e, conforme esse documento, “a ninguém é permitido dispensar o conhecimento de Matemática sem abdicar de seu bem mais precioso: a consciência nas ações”. (SÃO PAULO, 2012, p. 29). Nesse currículo, as disciplinas são fundamentais, mas o foco educacional deve estar nas competências a serem desenvolvidas pelos alunos, ou seja, as disciplinas são um meio para a sistematização dos conhecimentos e formação de alunos cidadãos. De acordo com o Currículo: [...] os conteúdos da disciplina Matemática são considerados um meio para o desenvolvimento de competências tais como: capacidade de expressão pessoal, de compreensão de fenômenos, de argumentação consistente, de tomada de decisões conscientes e refletidas, de problematização e enraizamento dos conteúdos estudados em diferentes contextos e de imaginação de situações novas. (SÃO PAULO, 2012, p. 35) O Currículo (SÃO PAULO, 2012) busca a transformação da informação em conhecimento. Mas, para que a construção do conhecimento aconteça, as informações precisam estar articuladas, produzindo visões organizadas da 27 realidade. Nesse sentido, algumas ideias fundamentais são apresentadas, como a ideia de proporcionalidade, de equivalência, de ordem e de aproximação que nortearão o estudo de grande quantidade de conteúdos escolares. Decorrente dos pressupostos, os conteúdos disciplinares de Matemática foram agrupados em três blocos temáticos: Números, Geometria e Relações. De acordo com o Currículo (SÃO PAULO, 2012): • Os Números envolvem as noções de contagem, medida e representação simbólica, sendo constituídos pelas ideias fundamentais de equivalência e de ordem. Esse bloco visa à ampliação da ideia do campo numérico por meio de situações significativas. Espera-se, ao final do Ensino Fundamental, que o aluno reconheça e opere no campo dos números reais, ampliando novas relações no Ensino Médio. • A Geometria refere-se à percepção de formas e de relações entre elementos de figuras planas e espaciais; à construção e à representação de formas geométricas e à elaboração de concepções de espaço. Deve ser tratada ao longo de todos os anos, em abordagem espiralada, com diferentes escalas de tratamento. • Quanto às Relações, seu estudo parece favorecer a interdisciplinaridade, pois suas conexões com os eixos de números e geometria acontecem quase que naturalmente. No Ensino Fundamental, a ideia de proporcionalidade pode ser explorada nas relações entre as grandezas direta e inversamente proporcionais. A ligação das relações métricas com a geometria dá-se pelos cálculos de áreas e volumes. No Ensino Médio, a ampliação de ideias no que se refere a esse bloco acontece de forma significativa, incluindo a investigação da relação entre grandezas que dependem umas das outras, o que propicia um estudo mais sistematizado das funções. Sobre a trigonometria, o Currículo destaca: 28 Também se enquadra nas relações de interdependência todo o estudo da trigonometria, desde as relações métricas no triângulo retângulo até a caracterização das funções trigonométricas, com sua notável potencialidade para representar fenômenos periódicos. As chamadas funções trigonométricas nada mais são do que relações de interdependência que generalizam a ideia de proporcionalidade, fundadora das noções de seno, cosseno e tangente, entre outras. (SÃO PAULO, 2012, p. 44) Em consonância às ideias da citação anterior, a orientação geral do caderno 1 do professor da 2ª série do Ensino Médio ressalta que: A ideia de proporcionalidade está presente no estudo das relações métricas entre lados do triângulo retângulo e a noção de semelhança, base para a aplicação das razões trigonométricas seno, cosseno e tangente. (SÃO PAULO, 2013) A mesma orientação destaca, ainda, que o professor deve avaliar os conhecimentos que os alunos desenvolveram anteriormente sobre tais conceitos. Caso as razões trigonométricas não tenham sido apresentadas aos alunos no 9º ano do Ensino Fundamental e no 1º ano do Ensino Médio, é necessário que esse trabalho inicial não se limite apenas à retomada de conceitos, exigindo, desse modo, maior atenção do professor, pois é fundamental que a base conceitual da proporcionalidade esteja consolidada antes do início do estudo das funções trigonométricas. Ao final do Currículo (SÃO PAULO, 2012), também é apresentado um quadro de conteúdos por ano e por bimestre para os quatro anos finais do Ensino Fundamental e para os três anos do Ensino Médio. O Quadro 1 foi elaborado com base nesse Currículo para o conteúdo de trigonometria, pois esse é o foco desta pesquisa. 29 Quadro 1 - Distribuição do conteúdo de trigonometria Ano 9º ano EFII Bimestre 3º Bimestre Conteúdo Proporcionalidade na geometria • 1º ano EM 4º Bimestre Geometria-Trigonometria • 2º ano EM 1º Bimestre 3º Bimestre Razões trigonométricas retângulos nos triângulos Trigonometria • • • • 3º ano EM Razões trigonométricas Fenômenos periódicos Funções trigonométricas Equações e inequações Adições de arcos Estudo das funções • Gráficos: funções trigonométricas, exponenciais, logarítmicas e polinomiais Fonte: Currículo do Estado de São Paulo (SÃO PAULO, 2012, p. 57-70) A leitura dos cadernos evidencia uma proposta de trabalhar conteúdos de forma contextualizada, buscando fundamentalmente as competências individuais. Pela grade curricular, percebe-se que a trigonometria aparece a partir do último ano do Ensino Fundamental. É possível perceber que, durante as fases de escolarização, a trigonometria é tratada em diferentes etapas e por meio de temas distintos. No último ano do Ensino Fundamental, trabalha-se a fundamentação da trigonometria, abordada principalmente por meio da exploração das regularidades encontradas em triângulos semelhantes. No 1º ano do Ensino Médio, estuda-se a relação entre a geometria e a trigonometria, isto é, consolidam-se ideias já vistas no 9º ano do Ensino Fundamental, com contextualização em diferentes situações práticas e a extensão de seu significado para ângulos superiores a 90º. No 2º ano do Ensino Médio, a proposta é a trigonometria estabelecer uma conexão entre geometria e funções. As ideias fundamentais que estão por trás 30 desses elementos são, respectivamente, a proporcionalidade e a periodicidade. A ideia de proporcionalidade deveria ser apresentada aos alunos no 9º ano do Ensino Fundamental e no 1º ano do Ensino Médio. Cabe ao professor avaliar se tais conhecimentos foram sistematizados pelos alunos, devendo retomá-los, se houver necessidade, já que se trata da base conceitual da trigonometria. A ideia fundamental, nessa etapa, é a do estudo da periodicidade a partir da observação de determinados fenômenos naturais e a possibilidade de modelá-los por equações. Em seguida, tem-se o estudo das funções trigonométricas, o estudo de gráficos de senos e cossenos e, por fim, o estudo de equações, em que são propostas atividades contextualizadas como o movimento aparente do Sol e o comprimento das sombras, do período de claridade ou temperatura de uma localidade, da periodicidade da pressão sanguínea e do fenômeno das marés. No 3º ano do Ensino Médio, a ideia de função, que já foi apresentada em anos anteriores, é retomada. No ano anterior, revelou-se que, nas funções trigonométricas senx e cosx, enquanto os valores de x podem variar livremente ao longo de toda a reta real, os valores correspondentes de f(x) repetem-se periodicamente, compreendidos entre 1 e -1. No 3º ano, as características dessas funções são exploradas de modo mais sistematizado, ampliando-se as possibilidades de construção de gráficos e da compreensão das formas de crescimento ou decrescimento. Pôde-se observar, assim, que o documento pretende que sejam estabelecidas conexões entre os conteúdos de trigonometria nas fases de escolarização dos alunos, porém verifica-se, na prática, que essas conexões não têm sido uma realidade. As considerações de trigonometria encontradas no Currículo (SÃO PAULO, 2012) mostram a importância da sistematização da ideia fundamental de proporcionalidade, sustentando o trabalho com as razões trigonométricas, antes do estudo da periodicidade e das funções trigonométricas abordadas no 2º ano do Ensino Médio, justificando, portanto, o presente estudo nessa etapa de escolarização. 31 2.2 Pesquisas que Discutem o Ensino de Trigonometria Neste tópico, apresentam-se algumas pesquisas que discutem o ensino de trigonometria. Para isso, realizou-se um levantamento de 23 dissertações (16 de mestrado profissional e 7 de mestrado acadêmico), as quais foram publicadas, a partir de 2006, neste país. Essas pesquisas foram levantadas no banco de dissertações e teses da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Optou-se, ainda, por buscar na literatura autores que discutam os processos de ensino e aprendizagem de trigonometria no triângulo retângulo. Até início de 2013, foi encontrado apenas o livro de Fonseca (2010), publicado pela editora Universidade Federal de Sergipe, o qual será abordado após a análise das dissertações. Para seleção das pesquisas levantadas, foram seguidos os seguintes critérios: • Pesquisas que abordam aspectos conceituais de seno, cosseno e tangente no triângulo retângulo ou que contenham partes relacionadas a esse assunto. • Pesquisas que utilizam a informática como uma ferramenta de apoio, sem ser o objeto de estudo em si. • Foram descartadas desta seleção as pesquisas que tratam das funções trigonométricas; trabalhos que visam puramente à pesquisa informática; ou de abordagem totalmente histórica ou filosófica. Considerou-se que esses estudos não são adequados ao foco desta pesquisa. Com relação aos critérios estabelecidos anteriormente, foram filtradas 8 pesquisas das 23 levantadas a princípio. Esse número chamou a atenção, pois, em um período de sete anos, parece ainda pequeno o número de pesquisas de mestrados acerca dessa temática. Com base nesses dados iniciais, tem-se como hipótese que poucas pesquisas têm sido desenvolvidas visando atender a fase de escolarização do Ensino Médio. 32 Para a análise das pesquisas selecionadas, foram adotadas as seguintes categorias: • Contribuições para os processos de ensino e aprendizagem das noções propostas; • Fundamentação teórica utilizada; • Metodologia adotada; • Desenvolvimento da pesquisa de campo. Dentre os trabalhos pesquisados, o de Oliveira (2006) parece bem direcionado e traz contribuições relevantes. Com enfoque no construtivismo e fundamentado na metodologia de Engenharia Didática (ARTIGUE, 1996; PAIS, 2001), analisa as dificuldades de ensino de trigonometria apresentadas pelos professores de Ensino Médio por meio de atividades. A pesquisa de campo se deu em uma escola de Natal, capital do Rio Grande do Norte. Sua pesquisa destaca-se, por exemplo, quando comenta os trabalhos de outros estudiosos. Nessa seção, o autor aponta as dificuldades de domínio de conceitos trigonométricos apresentadas, também, por professores em um curso de formação, algumas relacionadas a lado e ângulos do triângulo retângulo e até relacionadas à medição pelo uso de instrumentos. Oliveira (2006) argumenta que, dentro da sala de aula, a abordagem construtivista é um pouco “barulhenta”, isto é, os alunos buscam inquietamente solucionar problemas e fazer descobertas, mas defende que a verdadeira matemática é aprendida. Dentre as dificuldades exibidas pelos alunos, o autor descreve as de caráter atitudinal, comportamental e de habilidade; destaca, ainda, o obstáculo didático observado durante a aplicação da primeira atividade “medindo sombras”, provavelmente devido à incompreensão do conceito de proporcionalidade que deveria ter sido aprendido nos anos anteriores. Segundo o autor, apesar de seu trabalho não ter como objeto de discussão as vantagens do uso de atividades, suas ações estavam no caminho certo, pois, comparada a outra turma cujas aulas foram somente expositivas, alguns alunos mostraram rendimento e motivação maiores. Ao final, o pesquisador deixa algumas 33 recomendações organizacionais no âmbito da escola, resultantes das dificuldades que parecem ter surgido durante o desenvolvimento das atividades. A pesquisa de Huanca (2006) teve como objetivo verificar a Metodologia de Ensino-Aprendizagem-Avaliação de Matemática por meio da Resolução de Problemas, apresentando um caminho alternativo para a construção de conceitos e conteúdos trigonométricos pelos alunos do Ensino Médio. Os temas trabalhados foram conceitos básicos e trigonometria no triângulo retângulo, a circunferência e arcos trigonométricos, funções trigonométricas e resolução de triângulos. A pesquisa ocorreu em 2005, numa escola pública com 37 alunos de Ensino Médio, na cidade de Rio Claro/SP. Huanca (2006) adotou em seu trabalho a orientação metodológica de Romberg (1992) e, para a coleta de dados, recorreu a várias técnicas da pesquisa qualitativa, tais como: observações diretas, diário de campo do pesquisador, material escrito de trabalhos de alunos, entrevistas semiestruturadas e conversas informais. O pesquisador constatou que houve um aumento tanto da motivação dos alunos em aprender quanto da professora em ensinar. Esse trabalho mostra-se interessante, visto que a pesquisa trabalha o ensino e a aprendizagem de Matemática por meio de resolução de problemas, mas também oferece uma ideia da Educação Matemática vista de acordo com o National Council of Theachers of Mathematics – NCTM, dos Estados Unidos. O trabalho de Barbosa (2009) também contribui dentro de uma perspectiva construtivista, mas fundamentado na teoria de Simon (1995). Toma como base a noção de Trajetórias Hipotéticas de Aprendizagem – THA. Foi desenvolvida com alunos do 2º ano do Ensino Médio da rede pública do Estado de São Paulo. Focando as razões e as funções trigonométricas, sua pesquisa tem por objetivo analisar a possibilidade de conciliar perspectivas de aprendizagem junto ao plano de ensino, bem como verificar o comportamento do professor diante de uma proposta construtivista. Como metodologia, optou-se pela pesquisa qualitativa com dados coletados com base nas observações em sala de aula por meio de relatórios. O autor afirma que é possível conciliar a perspectiva de aprendizagem e a 34 planificação de ensino1, mas destaca que, para ocorrer aprendizagem nesse modelo, a participação do professor da disciplina é importante. Por fim, conclui que a THA não basta por si; no modelo construtivista, tem que haver interação entre os envolvidos, professores e alunos, para que haja uma aprendizagem com significado. A pesquisa de Klein (2009) tem por objetivo propor uma metodologia de ensino que possibilite contribuir para construção dos conceitos envolvidos em trigonometria com significado. Seu referencial teórico é apoiado na Teoria da Aprendizagem Significativa de Ausubel (1980) e na Teoria dos Campos Conceituais de Vergnaud (1993), as quais a autora considera complementares entre si. Segundo a autora, a teoria de Ausubel (1980) considera importante a questão dos conhecimentos prévios dos alunos para sua aprendizagem, sendo que o professor deve subsidiá-los com materiais potencialmente significativos; enquanto, para Vergnaud (1993), o que dá sentido aos conceitos é a situação e, por meio dela, o aluno pode explicitar seus conhecimentos-em-ação e transformá-los em conhecimentos científicos. O trabalho foi realizado com uma turma do 2º ano do Ensino Médio, de 28 alunos, em uma escola particular de Novo Hamburgo/RS, em que a pesquisadora era professora. Assim, as atividades para levantar os conhecimentos prévios foram desenvolvidas por meio de um questionário, servindo de base para a elaboração da proposta de situações. A proposta é composta de sete situações de aprendizagem, iniciando-se com a definição de razões trigonométricas até chegar à última visualização gráfica das mudanças causadas na imagem da função seno e cosseno, utilizando o software Graphmática. Na última parte, as habilidades e competências alcançadas foram verificadas por meio de avaliações formais. Optou-se pela metodologia qualitativa, utilizando-se diferentes instrumentos de coleta de dados como o registro oral e escrito dos conhecimentos prévios, o registro das observações em sala de aula, o registro escrito de várias situações-problema e avaliações formais. 1 Construção do planejamento, desenvolvimento das atividades e avaliação dos objetivos. (BARBOSA, 2009) 35 Relatou que um fator limitante é o tempo, pois algumas das atividades programadas necessitaram de tempo maior. Pelos resultados obtidos, ressaltou que é possível compatibilizar perspectiva de aprendizagem e planificação de ensino. Ao final, a pesquisadora concluiu que, para haver uma aprendizagem significativa construtivista, é necessária uma interação ativa entre os envolvidos, alunos e professores, e não apenas uma boa sequência de ensino. A pesquisa de Trindade (2009) objetivou verificar se uma proposta de material didático tratando do teorema de Pitágoras e das relações trigonométricas do triângulo retângulo é significativa para satisfazer às necessidades de aprendizagem da matriz de referência para o Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM (BRASIL, 2002). A proposta foi realizada em uma escola particular de Soledade/RS, com 14 alunos de segundo ano de Ensino Médio e utilizados como aportes teóricos a Teoria Significativa de Ausubel (2000) e também as propostas dos Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1999) e a Matriz de Referência para o Exame Nacional do Ensino Médio (BRASIL, 2002). O material da pesquisa é composto por um pré-teste, registros escritos produzidos pelos alunos e pelo professor durante as aulas e um pós-teste. Em suas considerações, o autor destaca que a apropriação da teoria de Ausubel (2000) foi importante, pois subsidiou sua prática pedagógica, produzindo reflexos a cada novo conteúdo. Com a análise do material, percebeu-se que houve progresso em relação ao estado inicial em que os alunos se encontravam. Foi possível perceber a transformação dos alunos, passando a ver a Matemática com outros olhos. Já o pós-teste evidenciou uma melhora na organização do pensamento na resolução das questões, com respostas mais coerentes, que levaram os alunos a aumentarem o número de acertos. Apesar do trabalho também ter como foco o teorema de Pitágoras e a elaboração de material pedagógico significativo com base no ENEM (BRASIL, 2002), ainda assim, poderá auxiliar esta pesquisa, ao fornecer evidências de como se dá a construção do conhecimento de trigonometria pelos alunos, pois se trata de estudar um conhecimento prévio necessário à formação de tal conceito. 36 Oliveira (2010), em sua pesquisa, teve por objetivo investigar uma abordagem de ensino da trigonometria desde o triângulo retângulo até o Ciclo Trigonométrico. Para atingir os objetivos, foram elaboradas quatro atividades com dinâmicas diversas (experimentos concretos, História da Matemática e material manipulativo), que exploram a trigonometria e uma sequência com seis aplicativos, utilizando o software de geometria dinâmica Geogebra, que aborda o ciclo e as funções trigonométricas. As atividades e a sequência de aplicativos foram aplicadas em turmas do Ensino Médio de duas escolas particulares dos municípios de Mogi Guaçu e Mogi Mirim, nas quais a professora era docente. Como fundamentação teórica, a autora parte dos pressupostos descritos nos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio – PCNEM (BRASIL, 2003) e se apoia no pensamento de Shulman (1986). De todo o trabalho, a parte que se refere a esta pesquisa é a primeira atividade experimental sobre as regularidades dos triângulos retângulos semelhantes e a construção das razões e tábuas trigonométricas, manipulando triângulos, transferidor, régua e calculadora; e a segunda, em que se procura determinar distâncias inacessíveis com auxílio de um inclinômetro. No entanto, todo o trabalho é enriquecedor, pois procura oferecer um conjunto de atividades com dinâmicas diferenciadas a partir de outros conhecimentos, visando superar a dificuldade na relação ensino-aprendizagem de trigonometria, percebida pela autora docente. Ao final, a pesquisadora concluiu que, com base em seus referenciais teóricos, foi possível alcançar satisfação por meio de uma atividade que motivasse mais os alunos ao estudo da Matemática. Santos (2011) investigou o uso de materiais manipuláveis como ferramenta para exploração de conteúdos matemáticos na resolução de problemas trigonométricos. Por meio de maquetes, verificou que alunos podem despertar as habilidades de questionar, elaborar hipóteses e resolver com autonomia problemas de trigonometria. O grupo era composto por 25 alunos de reforço do 2º ano do Ensino Médio de uma escola estadual de Uruguaiana/RS. O pesquisador adotou uma abordagem qualitativa utilizando questionários e observações. Dentre as quatro atividades propostas, as três primeiras envolviam problemas de triângulos retângulos e a última tratava da determinação do valor de pi. 37 Como metodologia, adaptou a resolução de problemas com base nas ideias de Polya (1977, 1997), Onuchic (1999) e Allevato e Onuchic (2006). Santos (2011) concluiu que os materiais manipuláveis permitem explorar conteúdos matemáticos, de uma maneira que motiva os alunos e ainda permite que esses estudantes desenvolvam soluções autônomas dos problemas, com a mediação do professor e a discussão com seus pares. Silva (2011) investigou as contribuições de uma abordagem envolvendo modelagem e diferentes tecnologias no ensino de trigonometria. Buscou utilizar atividades de modelagem, associando modelos matemáticos trigonométricos no triângulo retângulo e no círculo trigonométrico a situações práticas, utilizando tecnologias variadas. A pesquisadora adotou como metodologia a Engenharia Didática, compreendendo as etapas de análises prévias, concepção e análise a priori, implementação, análise a posteriori e validação de sequência didática de 23 atividades, que foi proposta com o objetivo de motivar os alunos, a descobrirem propriedades trigonométricas. O estudo ocorreu em uma escola pública do estado de Minas Gerais, envolvendo 70 alunos de duas turmas da 2ª ano do Ensino Médio. Com base nos resultados, a proposta contribuiu para que os alunos atribuíssem significado aos conteúdos trigonométricos, incentivando seu envolvimento e empenho na aprendizagem desse assunto. Essa pesquisa é interessante, porque mostra o tema do triângulo retângulo sendo utilizado como modelo matemático para abordar situações reais, por meio de uma sequência didática, ou seja, o uso da modelagem é colocado em ação para descobrir suas propriedades, fato não visto em outras pesquisas. O livro de Fonseca (2010) resulta de sua dissertação de Mestrado em Educação pela Universidade Federal de Sergipe, realizada com alunos da 1º ano do Ensino Médio, no ano de 2001, na antiga Escola Técnica Federal de Sergipe. O universo de pesquisa foi composto de 18 alunos e 8 alunas, com faixa etária entre 15 e 27 anos. O autor partiu da hipótese de que a não ocorrência de conexões “bem feitas” entre as várias partes do conteúdo pesquisado, geraria o que chamou de “desconexão de aprendizagem”. Para tanto, Fonseca (2010) apoiou seu trabalho na 38 história da trigonometria e na aprendizagem em trigonometria como elementos norteadores, buscando caminhos para superar as dificuldades que o aluno tem nessa aprendizagem, considerando o fato de a aprendizagem em trigonometria encontrar-se desconectada em currículos do Ensino Fundamental e Médio, da História da Matemática e até do mundo cotidiano. Fonseca (2010) estruturou seu livro em três capítulos. A seguir, foram destacadas as ideias mais importantes de cada um deles. No capítulo 1, Fonseca (2010) faz recortes do desenvolvimento da trigonometria ao longo da História das Civilizações. O autor apoia-se, sobretudo, nas obras de Boyer (1974), Kennedy (1992), Struik (1989) e procura compreender a exploração da trigonometria, seu desenvolvimento, os fatos que a promoveram e os estudiosos envolvidos; além do momento em que houve a ruptura da geometria, ocorrendo a sistematização de seu estudo. Para o autor, talvez em função da sistematização do conhecimento matemático grego inspirado em Euclides, a trigonometria tenha perdido, em parte, as conexões entre teoria e prática. No capítulo 2, o autor faz reflexões sobre a aprendizagem da trigonometria, discutindo sobre os problemas de ensino-aprendizagem da trigonometria, o currículo de Matemática, o livro didático e a distribuição do espaço físico nas aulas de Matemática. Sobre os problemas de ensino-aprendizagem da trigonometria, Fonseca (2010) acredita que os docentes poderiam usar o conhecimento como meio para ensinamentos socioculturais. Pensa que o vestibular tem servido para treinar conteúdos. Comenta que boa parte do ensino trigonométrico é apresentada de forma congelada, morta, privilegiando apenas a exposição de conteúdos trigonométricos cristalizados. Em seu ponto de vista, não se pode falar em ensinoaprendizagem da trigonometria desconsiderando a história e os experimentos, sem incentivar a criatividade a partir de jogos, sem fazer relações com o cotidiano, sem manipular instrumentos para medir ângulos, sem incentivar os alunos à resolução de situações-problema ou levá-los a visualizarem os movimentos ondulatórios das funções seno e cosseno. 39 No entanto, Fonseca (2010) argumenta que o processo de aprendizagem não pode ser estruturado focalizando apenas a metodologia, pois outros fatores podem implicar em sua aprendizagem. A história da trigonometria é, portanto, imprescindível para poder compreender os avanços tecnológicos e poder acessá-los quando disponíveis. Propõe, ainda, um enfoque ligado a situações mais imediatas, pois o que interessa ao aprendiz em geral é aquilo que tem apelo às suas percepções materiais e intelectuais mais imediatas. O autor também mostra que a individualização da instrução também deveria ser considerada e cita como sugestão o docente preparar uma justificativa para cada um dos tópicos do programa, mas justificativas contextualizadas no mundo do presente e do futuro. Acerca do currículo, Fonseca (2010) acredita que o ensino de trigonometria consta apenas como parte do currículo de Matemática, principalmente para dar suporte às disciplinas como Física e Química, e também como item para seleção de futuros universitários, ou seja, o ensino está “abandonado”. A reorganização desse currículo seria uma das alternativas encontradas pelos pesquisadores da área. Outro ponto destacado é a avaliação que, em sua visão, deveria ser ampla, composta pelos depoimentos dos alunos, seus registros, sua produção literária, seus modos de representação e outras formas de expressão. A respeito do livro didático, publicado por editoras de maior circulação em Sergipe, no período de 1988 a 1992, conclui que, na maior parte dos livros, a trigonometria é apresentada de forma “desarticulada” de qualquer aspecto “prático”. Refletindo sobre a distribuição do espaço físico nas aulas de Matemática, propõe seis layouts de sala de aula que acredita serem planejados para possibilitar uma participação efetiva de todos os membros da turma. No capítulo 3, Fonseca (2010) apresenta o que considera uma proposta metodológica na perspectiva da Educação Matemática composta por um conjunto de 10 experimentos, com o objetivo de mostrar aos alunos o desenvolvimento histórico da trigonometria, a partir de dúvidas ou problemas do cotidiano. O autor elaborou uma prova, denominada de pré-teste, a fim de analisar a quantidade de erros de aprendizagem e os conhecimentos prévios que os alunos traziam, desde o 9º ano, sobre os conceitos importantes para a compreensão da trigonometria, razões 40 trigonométricas, relações e identidades fundamentais. O conjunto das 10 atividades funcionaria como indicador de alguma desconexão de aprendizagem trigonométrica, sendo essas atividades desenvolvidas a partir da história da trigonometria até o uso de software. Para desenvolvimento das atividades, o autor optou por trabalhar com grupos, formados por 5 alunos e distribuídos em 7 grupos de cores, acreditando numa produção maior. Ao final, foi aplicado o pós-teste (similar ao pré-teste), a fim de verificar o nível de assimilação e acomodação dos conceitos de trigonometria estudados pelos alunos. Fonseca (2010) afirmou que, apesar do cansaço físico e mental apresentado pelos alunos no último dia de aula e de alguns dos conceitos não terem sido assimilados por uma parte dos alunos, minimizaram-se as “desconexões de aprendizagem” quando foi possível perceber os alunos “desejando aprender”. Ressaltou, também, que nenhum dos 26 alunos obteve média inferior a 6 no conjunto de atividades. Concluiu que as principais causas das possíveis “desconexões” foram o modelo sistemático dado à trigonometria, práticas de aulas idênticas às de anos anteriores para alunos “diferentes”, um ensino de trigonometria pautado em conjecturas e abstrações num ritmo acelerado, um currículo sem priorização do conhecimento trigonométrico, livros que não atendem ao desenvolvimento da trigonometria e instituições de ensino sem estrutura adequada para que a aprendizagem seja atingida. 2.3 Sintetizando o Panorama das Pesquisas Para ter-se um panorama geral da produção de pesquisas que foram filtradas no que se refere à trigonometria no triângulo retângulo, é apresentado, a seguir, um gráfico que sintetiza a quantidade porcentual de dissertações produzidas por regiões do Brasil. Nesta pesquisa, constatou-se que, das 8 dissertações de mestrado, uma foi realizada no estado do Rio Grande do Norte, três no Rio Grande do Sul, três em São Paulo e uma em Minas Gerais. 41 Figura 1 – Pesquisas por regiões do Brasil 50,0% 37,5% 12,5% 0,0% 0,0% Norte Nordeste Centro-Oeste Sudeste Sul Fonte: Elaborado pelo pesquisador Analisando os trabalhos pesquisados em relação a conteúdos, estratégias, metodologias e resultados, resultados percebe-se que, em m relação a conteúdos e estratégias, estratégias Oliveira (2006) e Trindade (2009) concentram seus estudos somente nas razões trigonométricas no triângulo retângulo; retângulo entretanto Trindade (2009) direciona sua pesquisa à produção de material especifico. especifico Santos (2011) também centraliza a maior parte das pesquisas pesquisa nas relações trigonométricas no o triângulo retângulo, retângulo mas busca investigar alunos com dificuldades dific em Matemática,, propondo todas as atividades apoiadas em maquetes. maquetes Oliveira (2010) e Silva (2011) abordaram desde o triângulo retângulo até o círculo trigonométrico,, enquanto e Oliveira (2010) fez uso, em sua investigação, investigação de atividades diferenciadas (experimento, História da Matemática,, material manipulativo e software Geogegra), usando material manipulativo (triângulo, transferidor, transfer régua e calculadora) e inclinômetro no estudo das razões trigonométricas; trigonométricas Silva (2011), entretanto, buscou focar sua investigação na modelagem. Por fim, Huanca (2006), Barbosa (2009), Klein (2009) foram mais adiante, chegando ao estudo das funções trigonométricas. Huanca verificou verific se, por meio da Resolução de Problemas, Problemas é possível a construção ão de conceitos trigonométricos. trigonom Barbosa (2009) fez uso de Trajetórias Hipotéticas de Aprendizagem Aprendizagem (THA) em seu estudo enquanto Klein (2009) utilizou 7 situações de aprendizagem. aprendizagem Dessas situações propostas por Klein, Klein interessa mais a esta pesquisa a primeira situação, a qual aborda as razões es trigonométricas que utiliza trinta triângulos retângulos feitos com E.V.A, e a segunda,, na qual utiliza-se se o astrolábio em uma atividade prática. 42 No quadro a seguir, apresentam-se as pesquisas levantadas, indicando as principais referências utilizadas. Quadro 2 – Pesquisas selecionadas de trigonometria Autor Oliveira (2006) Referência utilizada Estratégias de ensino Pesquisa com Engenharia didática – Artigue (1996); Pais (2001) Sequência didática Professores Huanca (2006) Metodologia de Romberg (1992) Resolução de problemas Alunos Barbosa (2009) Teoria de Simon (1995) Uso de THA Alunos Klein (2009) Teoria da Aprendizagem Significativa de Ausubel (1880) / Teoria dos Campos Conceituais de Vergnaud (1993) Situações de aprendizagem Alunos Trindade (2009) Teoria Significativa de Ausubel (2000), PCN (BRASIL,1999), ENEM (BRASIL, 2002) Pré e pós-testes, situações-problema Alunos Oliveira (2010) Pensamento de Shulman (1986), PCNEM (BRASIL, 2003) Conjunto de atividades (experimentos concretos, História da Matemática, material manipulativo) e sequência de aplicativos Alunos Santos (2011) Resolução de problemas Resolução de problemas - Polya (1977), Onuchic por meio de maquetes (1999), Allevato e Onuchic (2006) Alunos Silva (2011) Engenharia didática Artigue (1988, 1996) Sequência didática Alunos Conjunto de Experimentos (atividades), pré e póstestes Alunos Fonseca (2010) História da Matemática (livro) Boyer (1974), Kennedy (1992), Struik (1989) Fonte: Dados da pesquisa 43 Sendo assim, a análise das dissertações pesquisadas evidencia que somente o trabalho de Oliveira (2006) concentra toda a pesquisa nas razões trigonométricas no triângulo retângulo e que outros trabalhos perpassam pelo tema, no entanto buscam investigar metodologias diferenciadas para a relação ensinoaprendizagem da trigonometria, valorizando a participação ativa do aluno no processo de aprendizagem e o trabalho coletivo. Percebe-se que as estratégias escolhidas pelos pesquisadores foram estas: sequência de atividades, resolução de problemas, THA, situações-problema, experimentos, materiais manipulativos (transferidor, régua, material de E.V.A., maquetes), instrumentos (inclinômetro / astrolábio), modelagem e, como apoios, História da Matemática e software (Graphmática, Geogegra). Nas pesquisas analisadas, tivemos a utilização da Engenharia Didática (dois casos), a metodologia de Romberg, a teoria de Simon, a teoria da Aprendizagem Significativa de Ausubel (dois casos), a teoria dos Campos Conceituais de Vergnaud, o pensamento de Shulman e propostas de Resoluções de Problemas. Com isso, é possível perceber que houve somente três trabalhos dentro da abordagem da Didática da Matemática Francesa e que apenas um recorreu à teoria dos Campos Conceituais de Vergnaud. Pela leitura das dissertações, podem-se notar evidências de que um número pequeno de trabalhos apresenta (ou aborda) problemas de ordem organizacional ou dificuldades de aprendizagem pelos alunos. Alguns pesquisadores destacam a importância da interação entre alunos e professores no processo de ensinoaprendizagem; em seus trabalhos, deixam transparecer, em suas considerações finais, que, em geral, o nível de aprendizado dos alunos cresceu, aumentando a motivação e o rendimento de forma autônoma e coletiva. Reafirma-se que a análise dos trabalhos sobre trigonometria permite inferir algumas conclusões que se consideraram significativas para esta pesquisa. Após a discussão, percebeu-se que, das 8 pesquisas, apenas Oliveira (2006) tratou exclusivamente da trigonometria no triângulo retângulo, recorrendo como ferramenta metodológica ao estudo da Engenharia Didática (ARTIQUE, 1996; PAIS, 2001). Nesse aspecto, as outras pesquisas perpassaram pelo tema, mas a maioria focou seus estudos em metodologias diferenciadas. 44 O livro de Fonseca (2010) também contempla o triângulo retângulo e as relações trigonométricas, tendo como norte a história da trigonometria e a Aprendizagem em trigonometria. Contribui essencialmente com as “desconexões de aprendizagem”, tentando superar suas causas por meio de recursos inseridos nas linhas de pesquisa da Educação Matemática (História, Laboratório, Informática, Vídeos, Jogos, Resolução de Problemas, Etnomatemática e Modelagem). Baseado nas considerações anteriores, percebeu-se que o tema deste estudo ainda precisa ser mais explorado. Diante desse cenário, considera-se o presente estudo importante, pois pode contribuir para ampliar os conhecimentos de razões trigonométricas nos triângulos retângulos, considerando a relação professor, aluno e saber, e também como se dá a aquisição desse conhecimento trigonométrico, à luz da teoria dos Campos Conceituais. 45 CAPÍTULO 3 - QUADRO TEÓRICO Neste capítulo, apresentam-se as teorias que norteiam este trabalho de pesquisa: a teoria dos Campos Conceituais, de Gerard Vergnaud, e a Teoria das Situações Didáticas, de Guy Brousseau. A finalidade principal deste capítulo é descrever alguns elementos fundamentais de cada referencial teórico da didática francesa e abrir uma reflexão sobre como cada teoria pode auxiliar na busca de solução para a problemática desta pesquisa. Serão estudadas as noções de Situações Didáticas e Contrato Didático, que estruturam a teoria de Brousseau e a formação de conceitos que compõe a teoria de Vergnaud, elementos fundamentais na condução desta pesquisa. 3.1 A Teoria dos Campos Conceituais de Vergnaud Um dos quadros teóricos em que se apoia a presente investigação é a teoria de Vergnaud (1996, 1998, 2012) sobre os Campos Conceituais. A escolha dessa vertente teórica para fundamentar a elaboração desta pesquisa se deu porque, para Vergnaud (2012), parte de nosso conhecimento é resultante de habilidades e a utilização da linguagem é especialmente importante para realizar a simbolização e a conceitualização. Outro ponto que se destaca na Teoria dos Campos Conceituais é que, para Vergnaud (2012), o desenvolvimento do conhecimento de Matemática não pode se reduzir ao desenvolvimento das operações lógicas. Pretende-se, com essa teoria, entender como alunos constroem conceitos e como fazem as conexões entre conhecimentos novos e antigos. Segundo Vergnaud (1996), a principal finalidade da Teoria dos Campos Conceituais é fornecer um quadro que permita a compreensão das filiações e rupturas entre conhecimentos novos e antigos, nas crianças e nos adolescentes, entendendo por “conhecimento” tanto o saber fazer, quanto os saberes expressos. Com base na consideração anterior e pensando no campo desta pesquisa, imagina-se que, na aprendizagem de trigonometria, alunos tenham dificuldades em relacionar os conhecimentos já aprendidos aos novos e, por consequência, não conseguem desenvolver autonomia no momento de realizar tarefas distintas 46 daquelas aprendidas na sala de aula, sob o auxílio do professor. Acredita-se que as filiações e rupturas são processos inerentes à atividade matemática. O autor considera que essa teoria não é específica da Matemática, mas foi inicialmente elaborada com o intuito de desvendar o processo de conceitualização progressiva das estruturas aditivas e multiplicativas, além das relações númeroespaço, pertencentes à álgebra. Em sua teoria, Vergnaud (1996) refere-se a campos conceituais porque, para ele, um conceito depende de várias situações e uma situação depende de um conjunto de conceitos, pois uma situação não se forma a partir de um único conceito. Na referência anterior a campos conceituais, Vergnaud (1996) utiliza os termos conceito e situação. Segundo Vergnaud (1996), um conceito é a reunião de três conjuntos: • conjunto das situações que dão sentido ao conceito; • conjunto de invariantes operatórios (objetos, propriedades e relações) de que o indivíduo fará uso para compreender as situações (o significado); • conjunto das representações simbólicas (linguagem natural, símbolos, gráficos, diagramas) que o indivíduo utilizará para representar o conceito, as suas propriedades e as situações (o significante). Para estudar o desenvolvimento e o funcionamento de um conceito, é necessário considerar simultaneamente os três conjuntos. O conceito de situação, conforme Vergnaud (1996), está associado ao sentido de tarefa, isto é, uma situação complexa pode ser analisada como uma combinação de tarefas, sendo importante conhecer a sua natureza e as dificuldades próprias. O desempenho em cada subtarefa é importante para o desempenho final, ou seja, o fracasso em uma subtarefa implica o fracasso global, mas a dificuldade de uma tarefa não é constituída pela soma ou multiplicação das dificuldades de cada subtarefa. Portanto, são as situações que dão sentido aos conceitos. 47 De acordo com Vergnaud (1996), o sentido é uma relação do sujeito com as situações e os significantes, ou seja, são os esquemas evocados. Como exemplo, o autor cita que o sentido da adição para um sujeito é o conjunto dos esquemas de que ele pode se utilizar diante das situações a serem confrontadas e implicam a ideia de adição, assim como o conjunto de esquemas que ele pode pôr em prática para operar sobre os símbolos numéricos, algébricos, gráficos e de linguagem, que representam a adição. Tem-se por hipótese que o estudo de trigonometria, como tantos outros conteúdos matemáticos, relaciona-se à construção de conceitos que dependem de várias situações. No presente caso, as noções de triângulo retângulo são apresentadas em uma situação ao aluno, mas há a necessidade de gerar um conjunto de conceitos que, futuramente, os alunos devem ter disponíveis para fazer conexões entre conhecimentos aprendidos e novos conhecimentos. Além disso, devem utilizá-los em outras disciplinas como, por exemplo, a Física ou ainda fazer relações com situações de seu próprio cotidiano. Para Vergnaud (2009), pode-se aprender e se desenvolver em qualquer idade, pois um indivíduo é capaz de adaptar-se às situações por meio de uma evolução da organização de sua atividade. Sobre a atividade em situação, realizada pelo indivíduo, Vergnaud defende que: [...] a análise da atividade em situação é um meio essencial para compreender os processos de aprendizagem, por mais delicada e difícil que ela seja. Ela passa notadamente pela análise dos erros, das hesitações e dos desfuncionamentos, assim como pela identificação das diferentes etapas pelas quais se constrói uma forma nova de organização da atividade. (VERGNAUD, 2009, p. 14) Com base na referida citação e aproximando-a do contexto desta pesquisa, pode-se compreender que, quando se analisa a atividade em situação, ou seja, os procedimentos, as ações e as representações realizadas pelo aluno, consegue-se verificar em que etapa se dá sua aprendizagem, e deve-se observar e analisar os erros, os acertos e também as dificuldades demonstradas. Vergnaud (2009) defende que o aluno organiza sua atividade por meio de esquemas e um esquema está sempre associado a uma situação. Referindo-se ao esquema, Pais (2005) destaca que: 48 “[...] é uma forma estruturada e invariante de organizar as atividades relacionadas à aprendizagem de conceitos, diante de uma classe de situações vivenciadas pelo aluno. O reconhecimento dos invariantes é uma passagem crucial para que a formação do conceito evolua.” (PAIS, 2005, p. 55) Franchi (1999) ressalta que é importante observar que o caráter da invariância não se refere aos elementos formais ou até mesmo às ações do sujeito, mas sim, à forma como as ações são organizadas diante da classe de situações, visando a uma estratégia de aprendizagem do conceito. Vergnaud (2012) afirma que é nos esquemas que se devem procurar os elementos cognitivos os quais permitem a ação do sujeito ser operatória, ou seja, cada esquema tem a ver com uma variedade de situações. O desenvolvimento cognitivo do sujeito está relacionado à quantidade e à diversidade de esquemas que o mesmo possui. Isso só é possível, porque o esquema comporta: • invariantes operatórios (teoremas-em-ação e conceitos-em-ação) que pilotam o reconhecimento pelo sujeito dos elementos pertinentes à situação e à recolha de informação sobre a situação a tratar; • antecipações do objetivo a atingir, dos efeitos a considerar e das eventuais etapas intermediárias; • regras de ação do tipo “se...então...”, que permitem gerar a sequência de ação do sujeito; • Inferências (ou raciocínios), que permitem calcular as regras e as antecipações a partir das informações e do sistema de invariantes operatórios de que o sujeito dispõe. Vergnaud (1996) considera, também, que um conceito não pode ser reduzido à sua definição, pois é por meio das situações e dos problemas a resolver que um conceito ganha sentido diante dos alunos, ou seja, o conceito está fortemente ligado à resolução de problemas. Esse processo de elaboração pragmática é essencial, caso se queira avaliar a medida da função adaptativa do conhecimento. Pode-se distinguir duas classes de situações, conforme Vergnaud (1996): 49 • classes de situações para as quais o sujeito dispõe das competências necessárias ao tratamento de determinada situação; • classes de situações para as quais o sujeito não dispõe de todas as competências, o que o levará a um tempo de reflexão e de exploração, a hesitações, conduzindo-o ao sucesso ou ao fracasso. O conceito de esquema é interessante para as duas classes, mas não funciona da mesma forma. No primeiro caso, tem-se condutas automatizadas, organizadas em um único esquema; no segundo caso, são observados diversos esquemas sendo utilizados e os mesmos devem ser acomodados, descombinados e recombinados para que possam, até mesmo, competir entre eles. De acordo com Vergnaud (1996), as competências matemáticas também são sustentadas por esquemas organizadores da conduta. Todas as condutas contêm uma parte automatizada e uma parte de decisão consciente. Como exemplo, o autor cita que os algoritmos são formas de esquemas. Nesse sentido, Vergnaud destaca que “como Piaget, podemos dizer que os esquemas se encontram no centro do processo de adaptação das estruturas cognitivas: assimilação e acomodação” (VERGNAUD, 1996). Ainda segundo Vergnaud (1996), o funcionamento cognitivo de um sujeito ou de um grupo de sujeitos em situação apoia-se em um conjunto de esquemas disponíveis, formados anteriormente por cada um dos sujeitos. O esquema é, portanto, um conceito fundamental, pois é uma função temporalizada com argumentos, que permitem gerar várias sequências de ações e de tomadas de informação, em função dos valores das variáveis da situação. O esquema é composto, essencialmente, pelos conhecimentos de conceitoem-ação e teorema-em-ação, denominados de invariantes operatórios, e por inferências (indispensáveis à prática do esquema). O conceito-em-ação não é um conceito, nem um teorema-em-ação é um teorema, pois conceito e teorema devem ser necessariamente explícitos. Um conceito-em-ação é um conceito implícito válido como pertinente, e um teorema-em-ação é uma proposição válida como verdadeira. Ambos constroem-se em estreita interação. Portanto, o reconhecimento de invariantes é a chave da generalização de um esquema. 50 Para Vergnaud (1996), a tese subjacente à Teoria dos Campos Conceituais é a de que uma boa representação didática, necessariamente, sustenta-se no conhecimento da dificuldade das tarefas cognitivas, nos obstáculos com que se depara, do repertório dos procedimentos, e das possíveis representações. 3.2 A Teoria das Situações Didáticas de Brousseau O outro quadro teórico em que esta investigação tem referência é a Teoria das Situações Didáticas de Brousseau (1986, 1996, 2008). De acordo com Pommer (2008), a teoria de Brousseau (1996) permite compreender as interações sociais que ocorrem dentro da sala de aula entre alunos e professores, as condições e a forma como o conhecimento matemático pode ser aprendido; o controle dessas condições permitiria reproduzir e otimizar os processos de aquisição de conhecimento matemático escolar. Para Brousseau (2008), o modelo de interação de um sujeito e um meio específico que determina esses conhecimentos é denominado de situação. O autor considera que a situação didática é todo o contexto que cerca o aluno, nele incluídos o professor e o sistema educacional. Segundo definição dada por Brousseau (1986): Uma situação didática é um conjunto de relações estabelecidas explícita e ou implicitamente entre um aluno ou um grupo de alunos, num certo meio, compreendendo eventualmente instrumentos e objetos, e um sistema educativo (o professor) com a finalidade de possibilitar a esses alunos um saber constituído ou em vias de constituição. (BROUSSEAU, 1986). Pommer (2008) ressalta que o objeto central de estudo nessa teoria é a situação didática, na qual são identificadas as interações entre professor, aluno e saber. Ainda segundo o autor, é por meio de uma série de situações didáticas que se estabelecem os fatores determinantes para a evolução do comportamento dos alunos. Nesse sentido, Brousseau (2008) representa a situação de ensino conforme o “triângulo” a seguir: 51 Figura 2 – Triângulo didático Fonte: Brousseau (BROUSSEAU, 2008, p. 54) Nesse esquema, a situação de ensino é constituída por três elementos – o aluno, o professor e o saber – estabelecendo uma relação complexa, resultante das interações entre professor e aluno, mediadas pelo saber. Referindo-se a esse triângulo didático, Pommer (2008) cita que o professor e o aluno possuem um relacionamento assimétrico quanto ao saber; o que se espera da relação didática é mudar esse quadro inicial face ao saber. Sendo assim, faz-se necessário discutir inicialmente os papéis do professor, do aluno e do saber na relação didática. Para Brousseau (2008), a teoria de Piaget, baseada nos esquemas de assimilação e acomodação, em que o aluno aprende adaptando-se a um meio que é fator de desequilíbrio, corre o risco de tirar do professor a responsabilidade didática, pois um meio sem intenções didáticas é incapaz de induzir o aluno a adquirir todos os conhecimentos culturais que se espera que obtenha. Sobre a aprendizagem por adaptação, Pais (2005) comenta que o aluno é desafiado a adaptar seus conhecimentos anteriores às condições de solução de um novo problema, sendo necessário o aluno ultrapassar o seu próprio nível de conhecimento, revelando a operacionalidade dos conteúdos dominados até então. De acordo com Brousseau (2008), as concepções atuais do ensino exigirão que o professor provoque o aluno, por meio da seleção adequada dos problemas que propõe para que se atinjam as adaptações desejadas. Esses problemas, escolhidos de modo que o estudante possa aceitá-los, devem fazer, pela própria dinâmica, com que o aluno atue, fale, reflita e evolua. É a partir da devolução ou do aceite do problema pelo aluno que se inicia o processo de aprendizagem. Segundo o mesmo autor, o professor não deve fornecer conhecimentos desde a devolução 52 até o momento em que se produz a resposta, o aluno deve saber que esse conhecimento é justificado pela lógica interna da situação e que pode prescindir de razões didáticas para construí-lo. Nessa relação didática, o meio é capaz de provocar no aluno comportamentos que motivem a manifestação de seu conhecimento, correspondendo às necessidades desse elemento. Brousseau (2008) considera o meio como subsistema autônomo, antagônico ao sujeito, sendo constituído pelas peças de um jogo, um desafio, um problema, inclusive um exercício, fichas, etc. Em síntese, cabe ao professor regular a relação aluno e meio, organizandoa e estabelecendo as condições que levem o sujeito a “construir” a Matemática, por meio de problemas, sem a influência das condições didáticas direcionadas pelo professor. Esse saber que o aluno consegue usar fora do contexto de ensino e sem nenhuma indicação intencional, Brousseau (2008) denominou situação adidática. Nessa situação, o aluno atua de forma autônoma. Na definição dada por Brousseau (1986): Quando o aluno se torna capaz de pôr em funcionamento e utilizar por si mesmo o saber que está construindo, em situação não prevista em qualquer contexto de ensino e também na ausência de qualquer professor, está ocorrendo, então, o que pode ser chamado de situação adidática. (BROSSEAU, 1986). Freitas (1999) considera que as situações adidáticas representam os momentos mais importantes da aprendizagem, pois o sucesso alcançado pelo aluno significa que ele conseguiu sintetizar um conhecimento por seu próprio mérito. Não se deve confundi-las, portanto, com as situações não didáticas, aquelas que não foram planejadas visando a uma aprendizagem. Assim, toda atividade pedagógica deve ser planejada pelo professor no sentido de direcionar o aluno para o principal que é a situação adidática. No processo de ensino-aprendizagem, o professor deve fornecer as condições para que o aluno mobilize seus conhecimentos e explicite raciocínio e procedimentos. Pela prática em sala de aula, sabe-se das dificuldades que os alunos apresentam em relação ao estudo de trigonometria referente a conceitos e a suas mobilizações. Pensando nessas dificuldades, adotou-se essa teoria como uma 53 forma de auxiliar a elaboração dos instrumentos desta pesquisa, com a finalidade de propor uma sequência didática, constituída por problemas de trigonometria; tudo isso para resultar na apreensão de conceitos por parte dos alunos. Para isso, devese levar em consideração que a interação do aluno com o meio proposto deve ser um elemento facilitador na construção do conhecimento de trigonometria, sem depender apenas da influência direta do professor. Normalmente, o professor seria visto como um transmissor de informações na relação didática, mas, nessa nova postura, ele teria o papel fundamental de iniciar um conhecimento científico no aluno. Segundo Brousseau (1996), o professor deve “propor ao aluno uma situação de aprendizagem para que (esse) elabore seus conhecimentos como resposta pessoal a uma pergunta e os faça funcionar ou os modifique como resposta às exigências do meio e não a um desejo do professor” (BROUSSEAU, 1996, p. 49). A devolução é a etapa inicial pela qual o professor transfere responsabilidades ao aluno. Para Brousseau (2008), a devolução é o ato pelo qual o professor faz com que o aluno aceite a responsabilidade de uma situação de aprendizagem ou de um problema, assumindo ele mesmo as consequências dessa transferência. Dessa forma, há uma mudança de procedimento por parte do professor e do aluno: o professor deixa de ter o controle pedagógico sobre o aluno, que passa a trabalhar de forma efetiva e autônoma na construção de seu próprio conhecimento, mobilizando as informações, fazendo inferências e apropriando-se de seu conhecimento. Nessa nova postura metodológica, o professor não fica alheio à situação, mas deve incentivar o aluno em direção à sua aprendizagem, por seu próprio esforço e meios, proporcionando, nessa fase, situações enriquecedoras. A partir da devolução, têm-se as situações de ação, formulação, validação e institucionalização. Essa sucessão de situações unidas pode acelerar as aprendizagens e levar à construção do saber. As intervenções do professor nas situações de ação, formulação e validação são praticamente nulas, entretanto, a institucionalização fica sob sua responsabilidade. 54 A situação de ação caracteriza-se pelo predomínio do aspecto experimental e pela produção de um conhecimento de natureza operacional; os alunos apresentam uma solução sem a preocupação de justificá-la ou explicitar como chegaram a tal solução. Na situação de formulação, o aluno troca informações com o meio, empregando uma linguagem adequada, ou seja, procura explicar sua resposta na forma escrita ou oral. A situação de validação caracteriza-se pela veracidade das afirmações por meio de provas e demonstrações, por meio de linguagem matemática apropriada. A situação de institucionalização tem por objetivo estabelecer um caráter de objetividade e universalidade ao conhecimento, conduzida pelo professor, por meio da formalização e generalização. Em seu estudo da teoria das situações didáticas, Brousseau (2008) também discute que toda relação didática é regida por um determinado tipo de contrato didático, ou seja, conjunto de regras implícitas e explícitas que permeiam as relações entre o professor, os alunos e um saber entreposto. Conforme Brousseau (1986): Chama-se contrato didático o conjunto de comportamentos do professor que são esperados pelos alunos e o conjunto de comportamentos do aluno que são esperados pelo professor. Esse contrato é o conjunto de regras que determinam, uma pequena parte explicitamente, mas, sobretudo implicitamente, o que cada parceiro da relação didática deverá gerir e aquilo que, de uma maneira ou de outra, ele terá de prestar conta perante o outro. (BROSSEAU, 1986). Para Brousseau (2008), não há possibilidade de pactuar um contrato didático entre o professor e o aluno ou tampouco existirem cláusulas de quebra, ou seja, é uma ilusão tentar estabelecer contratos reais. Segundo o autor, o contrato didático impõe-se a professores e alunos e não pode ser explicado pelo mau desempenho dos mesmos. Mas o contrato didático revela-se principalmente quando se dá a transgressão de suas regras e, na situação didática, influencia as situações de ação, de formulação, de validação e de institucionalização. Dessa forma, torna-se essencial analisar a influência do contrato didático dentro de uma relação didática. 55 Silva (1999) afirma que o contrato didático depende da estratégia de ensino adotada, adaptando-se a diversos contextos, tais como: as escolhas pedagógicas, o tipo de trabalho solicitado aos alunos, os objetivos do curso, as condições de avaliação, etc. O autor também observa que o contrato didático em que um professor dá aula expositiva, com definições e listas de exercícios é muito diferente daquele em que os alunos realizam atividades propostas e, ao final, o professor procura institucionalizar coletivamente o conceito trabalhado. Nessa estratégia de ensino, o aluno trabalha individualmente ou em duplas, seguindo orientações contidas em sequências didáticas organizadas pelo professor, e a institucionalização do saber se dá por meio de sessões coletivas. Cabe, então, analisar alguns modelos de contratos didáticos. Brousseau (1986) apresenta três exemplos de contratos. O primeiro tipo de contrato enfatiza o conteúdo por meio da relação professor e aluno. Tem como características o fato do professor considerar deter o monopólio do conhecimento; escolher os conteúdos, sem a participação do aluno; impor um único método de organização e apresentação do conteúdo, por meio de definições, demonstrações e exercícios. O professor tem a convicção de que o aluno não tem nenhum conhecimento a respeito do que será ensinado e de que quanto mais clara for sua exposição, melhor será para a aprendizagem, desprezando totalmente a metodologia de ensino. No segundo tipo de contrato didático, enfatiza-se o relacionamento entre o aluno e o saber, isto é, o aluno deve assumir uma postura ativa no aprendizado, enquanto o professor apenas o acompanha, deixando de ser o transmissor dos conhecimentos. A maior parte das atividades é realizada em grupos com poucas intervenções pelo professor. Nesse tipo de contrato, não existe um controle pedagógico efetivo sobre o funcionamento dos processos de ensino e aprendizagem, ocorrendo uma confusão entre saber cotidiano e saber escolar. No terceiro tipo de contrato didático, continua-se a ênfase do relacionamento entre o aluno e o saber, mas há um comprometimento maior no nível de intervenção do professor. Nesse caso, cabe ao professor planejar as situações didáticas, escolhendo situações desafiadoras, compostas por problemas, jogos, atividades, 56 trabalhos de pesquisa, adequados à realidade e ao nível intelectual dos alunos. Esse tipo de contrato proporciona a participação ativa do aluno na elaboração dos conceitos matemáticos por meio de uma valorização da resolução de problemas. De acordo com Pais (2005), deve-se considerar que certas características do saber matemático, tais como formalismo, abstração e rigor, condicionam algumas regras implícitas do contrato didático, expressas pelas diferenças habituais de concepções dos professores de matemática. Conforme Silva (1999), resultados de investigações demonstram que, diante de certos problemas, os alunos internalizam regras que conduzem a uma grande quantidade de erros dos alunos e a incoerências no tratamento desses erros pelos professores, ou seja, grande parte das dificuldades dos alunos tem como causa os efeitos do contrato didático mal colocado. Nessa perspectiva, é fundamental que sejam conhecidos alguns dos efeitos do contrato didático provocados nos sujeitos envolvidos no processo de ensinoaprendizagem, pois, conhecendo melhor tais efeitos didáticos, tem-se condições de propor um outro tipo de contrato didático o qual será implementado por meio da sequência didática proposta nesta pesquisa, a fim de tentar superar ou, no pior dos casos, amenizar seus efeitos didáticos negativos. A seguir, serão sintetizados alguns dos principais efeitos do contrato didático. Um desses comportamentos que Brousseau (2008) destaca é denominado de efeito Topaze. É um tipo de situação que se manifesta quando o professor facilita uma situação de aprendizagem até chegar ao momento em que fornece a resposta do problema pelo aluno. Nesse caso, o professor facilita as perguntas para tentar obter o máximo de aprendizado da maior quantidade de alunos, perdendo por completo os conhecimentos em questão. É considerada uma postura inadequada do professor, pois impede a participação ativa do aluno na elaboração de seu próprio conhecimento. O efeito Jourdain se dá quando o professor reconhece um saber culto na manifestação de uma resposta banal do aluno. É uma degeneração de efeito Topaze, pois, além do professor fornecer a resposta antecipadamente, ainda reconhece um conhecimento escolar válido uma resposta ingênua do aluno. 57 O efeito da Analogia pode ser causado pelo uso inadequado de uma analogia. Ela pode ser utilizada como um recurso didático eficiente nos processos de ensino e aprendizagem, mas a Teoria das Situações Didáticas mostra que seu uso impróprio pode levar a um efeito Topaze e, consequentemente, a um efeito Jourdain. O efeito do Deslize Metacognitivo surge quando o aluno não compreende um determinado problema e o professor já esgotou quase todas as possibilidades pedagógicas. Diante disso, por meio de seus próprios argumentos, o professor assume suas próprias concepções como saber científico válido. É um tipo de efeito que se torna ameaçador, porque decorre da falta de domínio. O efeito Dienes decorre da forma como o professor concebe a disciplina de matemática, associando-a à sua epistemologia espontânea, ou seja, suas ações passam a ser associadas a uma estrutura matemática de base tecnicista. Nessa visão, o docente não está envolvido no sucesso ou no fracasso da aprendizagem, que é justificado pela estrutura epistemológica do saber ensinado. Brousseau (2008) também ressalta o envelhecimento das situações de ensino, em que o professor encontra dificuldade para reproduzir a mesma aula, mesmo para novas turmas de alunos. Sintetiza que situações de aprendizagens que não exigem intervenções do professor envelhecem mais lentamente. Em relação ao contrato didático, Brousseau (1986) observa que o mais importante é delinear alguns de seus possíveis pontos de ruptura, pois determinar todas as regras do contrato didático é uma tarefa impossível pelo fato de que a natureza do contrato envolve condições explícitas e interpretações subjetivas pelos envolvidos. Apesar dessa dificuldade, convém avaliar algumas situações que comprometem os processos de ensino e aprendizagem no que se refere à quebra do contrato didático. Pais (2005) descreve alguns casos em que há a ruptura do contrato didático: um primeiro exemplo pode ser dado quando o aluno mostra desinteresse pela resolução dos problemas propostos ou falta de envolvimento pelas atividades propostas. Essa situação exige a verificação das razões do desinteresse. Um segundo exemplo ocorre quando o professor propõe a resolução de um problema para o qual a estratégia de resolução é incompatível com o nível intelectual e 58 cognitivo do aluno; nesse caso, uma grande parte dos alunos, sem perceber, apresenta uma solução para o problema utilizando dados incoerentes, geralmente, uma regra implícita no contrato didático. Um terceiro exemplo é quando o professor apresenta postura pedagógica incompatível com a sua função, como aplicar retaliações ao aluno que se comportou inadequadamente. As considerações anteriores sobre o contrato didático levam a entender que, sendo um elemento fundamental na Teoria das Situações Didáticas e conhecendo o tipo de relação didática entre o professor e seus alunos, com base nesse estudo teórico, será proposta, nesta investigação, um outro tipo de contrato didático baseado nas situações didáticas, a fim de superar as dificuldades de comportamentos enraizados por contratos vigentes. Dessa forma, serão objetos de intenso trabalho nesta investigação a identificação e a análise de alguns dos possíveis pontos de ruptura do contrato didático que porventura surjam, caso sejam identificados após análise dos instrumentos de pesquisa. O conhecimento do contrato didático não explica todos os problemas da relação didática, mas pode esclarecer alguns, auxiliando a compreender as noções trigonométricas no triângulo retângulo. Desse modo, no planejamento deste trabalho, buscou-se levar em consideração todos esses aspectos no desenvolvimento das atividades de trigonometria e na organização dos trabalhos em sala de aula. A busca por compreender as dificuldades dos alunos em relação às noções de trigonometria no triângulo retângulo e tentar ajudá-los a superá-las direcionou o olhar para a relação professor, aluno e saber. Diante de todas as considerações anteriores, pode-se perceber que a Teoria das Situações Didáticas pode ajudar a problemática abordada, pois explica as interações da relação didática que ocorrem na sala de aula, caracterizando alguns dos elementos que podem contribuir para promover ou prejudicar a relação de ensino-aprendizagem. A análise das situações didáticas auxiliará a investigar a problemática da aprendizagem matemática, quanto ao conteúdo de trigonometria no triângulo retângulo. Sobre as situações didáticas, concorda-se com as palavras de Freitas (1999), salientando que: 59 [...] Através da análise das situações didáticas, é possível investigar toda a problemática da aprendizagem matemática e desvelar aspectos que ocorrem durante a resolução de problemas e a elaboração de conceitos pelos alunos. (FREITAS, 1999, p. 67) Nessa teoria, as situações didáticas ainda podem ser trabalhadas por meio da abordagem socrática que valoriza os conhecimentos prévios dos alunos, os quais deverão surgir por meio de perguntas apropriadas. Esse método pode ser aperfeiçoado, permitindo uma evolução de seus conhecimentos. Como toda relação didática é regida por um contrato didático, essa noção desempenha um papel central nesta teoria, pois o conhecimento e o domínio desse elemento auxiliam a análise e a construção de situações para o ensino e a aprendizagem de Matemática, em particular, para o ensino dos conteúdos de trigonometria no triângulo retângulo. A Teoria das Situações Didáticas mostra que o contrato didático pode ser uma porta de entrada para outros efeitos didáticos e, segundo Pais (2005), “trata-se de situações que podem acontecer em uma sala de aula e que se caracterizam como momentos cruciais para a continuidade do processo de aprendizagem”. (PAIS, 2005, p. 89). Logo, o conhecimento de tais efeitos ajudará dentro da dinâmica que se estabelecerá dentro da sala de aula o desenvolvimento da proposta desta pesquisa, evitando fundamentalmente os efeitos Topaze e o Deslize Metacognitivo, pois estes são, quase sempre, decorrentes da falta de competência do professor. Procurou-se elaborar a sequência didática de trigonometria, pensando na conexão entre a abordagem pedagógica deste trabalho e a Teoria das Situações Didáticas, buscando, nos pressupostos dessa teoria, os elementos para análise e fundamentação da produção dos alunos. O planejamento de situações didáticas ricas no aspecto adidático pode levar à construção de uma matemática mais significativa pelos alunos; pode revelar, também, que o sucesso do aprendizado do aluno foi obtido por seu próprio mérito. Isso motivou a elaboração de uma sequência didática própria, referente às noções de trigonometria no triângulo retângulo. A situação adidática contribui para despertar atitudes no aluno que o levem a reconhecer a presença dos elementos trigonométricos ao seu redor. Pode ajudá-lo a 60 perceber a importância da aplicação desse conhecimento em seu entorno e ainda contribuir para a fase de devolução. Nessa situação, os alunos serão incentivados a comentarem suas percepções, o que auxiliará as conexões entre as situações de formulação, validação e institucionalização. Dessa forma, espera-se que, nessa fase, os alunos percebam os elementos que estruturam a trigonometria no triângulo retângulo, dando-lhes autonomia para aplicá-la em situações-problema. A fase de ação é composta por uma atividade a qual se acredita que conduza o aluno ao reconhecimento do triângulo retângulo, que é elemento base da trigonometria. Reconhece-se que uma identificação correta desse triângulo e de suas partes, bem como a determinação de suas medidas, são fundamentais para o uso das razões trigonométricas. Conforme já mencionado, nessa etapa, os alunos apresentam suas soluções sem justificá-las. A conexão com a fase posterior se dá com a explicitação da estratégia, passando ao estudo das medidas do triângulo retângulo. A fase de formulação é composta por uma situação que leve o aluno a perceber que a semelhança de triângulos é o conceito fundamental que está “por trás” das razões trigonométricas no triângulo retângulo. Nesse momento, os alunos são instigados a comunicar suas estratégias em linguagem simples, sem se prender à linguagem formal da Matemática. Acredita-se, nesse ponto, que o aluno tenha construído o conceito de seno, cosseno e tangente de um ângulo agudo e ter condições de aplicar esse conhecimento na fase seguinte em algumas atividades de cálculo ou em situações-problema. A validação é constituída por uma atividade de cálculo que envolve seno, cosseno e tangente de um ângulo agudo. Essa fase objetiva estabelecer a conexão entre o conhecimento construído de razões trigonométricas (seno, cosseno e tangente) e sua aplicabilidade em diversas situações-problema. A afirmação do aluno agora tem de ser demonstrada por uma linguagem matemática formal. Por último, a fase de institucionalização requer uma situação que conduza a fase anterior a um caráter generalista, sendo o professor o instrumento facilitador no processo de socialização desse conhecimento. Pensou-se em uma atividade experimental que se acredita resumir todas as fases anteriores e ter a significação 61 que a fase de institucionalização requer. Pode-se considerar essa etapa alcançada ou não após análise do material produzido pelos alunos. 3.3 Sobre as Teorias dos Campos Conceituais de Vergnaud e das Situações Didáticas de Brousseau Conforme já mencionado, esta pesquisa fundamenta-se na Teoria das Situações Didáticas de Brousseau (1986, 1996, 2008) e na Teoria dos Campos Conceituais de Vergnaud (1996, 1998, 2012). Por um lado, Brousseau permite entender as interações entre os envolvidos no processo de aprendizagem, podendo, a partir disso, contribuir para a criação de propostas metodológicas em sala e aula; por outro lado, as ideias de Vergnaud dão subsídios à compreensão da construção do conhecimento matemático, ou seja, buscam-se respostas para a problemática desta pesquisa à luz dessas teorias, pois, a princípio, julgou-se apresentarem caráter complementar para os propósitos deste trabalho. Dessa forma, serão destacados os aspectos principais de cada teoria dentro do contexto desta pesquisa. A Teoria das Situações Didáticas subsidiará fundamentalmente a elaboração de situações, por meio da sequência didática trigonométrica proposta nesta pesquisa. Ela permite estudar a dinâmica entre os envolvidos nos processos de ensino e aprendizagem, fornecendo elementos que possibilitam romper contratos anteriormente estabelecidos e evitar efeitos didáticos. A ideia é que tais atividades contemplem as situações de ação, formulação, validação e institucionalização, permitindo preparar o aluno essencialmente para as situações adidáticas. É na fase de institucionalização que, efetivamente, as razões trigonométricas no triângulo retângulo serão aprendidas pelo aluno, pois o saber será identificado, sistematizado e reconhecido pelo professor, isto é, ter-se-á o saber como um conhecimento institucionalizado. A Teoria dos Campos Conceituais auxiliará a compreensão da formação conceitual da trigonometria no triângulo retângulo. Será analisada a atividade em situação, por meio das soluções apresentadas pelos alunos em seus protocolos de respostas, verificando a etapa de aprendizagem, pois, segundo Vergnaud (1996), é nos esquemas que se devem encontrar os elementos cognitivos. 62 Diante de todas as considerações, pensou-se que as duas teorias se complementam neste estudo, justificando, portanto, a opção pelas mesmas. 63 CAPÍTULO 4 - PESQUISA DE CAMPO Neste capítulo, será apresentada a pesquisa de campo, que foi desenvolvida inicialmente, com 16 alunos de duas turmas do 2º ano, período noturno, de uma escola pública estadual da cidade de São Paulo. 4.1 Sobre os Instrumentos A pesquisa foi separada em três etapas, sendo cada etapa composta por um instrumento de pesquisa. Por meio de cada instrumento, teve-se a pretensão de atingir os seguintes objetivos: • Instrumento I (Apêndice A) – Levantar perfil e conhecimentos trigonométricos prévios dos alunos. • Instrumento II (Apêndice B) – Construir conceitos de trigonometria no triângulo retângulo. • Instrumento III (Apêndice C) – Verificar como o aluno aplica o que construiu de conhecimentos na etapa 2. Um ponto a ser destacado na elaboração dos instrumentos de pesquisa seria a necessidade de articulação entre tais instrumentos, ou seja, seria levada em consideração a análise do Instrumento I para elaboração do instrumento II, assim como seria feita a construção do instrumento III, considerando a análise dos instrumentos anteriores. Após a explicação deste trabalho de pesquisa na sala de aula, foram convidados todos os discentes de duas turmas, com aproximadamente 40 alunos por sala, a participarem deste estudo. Dezesseis alunos se prontificaram a participar, compondo o universo de pesquisa do instrumento I. 4.2 Aplicação do Instrumento I O desenvolvimento do instrumento I ocorreu em um horário diferente das aulas, durante duas horas-aula, no período noturno. 64 Após a organização do grupo, o instrumento I foi distribuído para que os alunos começassem a respondê-lo. Os alunos foram instruídos de que as atividades deveriam ser resolvidas individualmente, sem consulta a outros participantes ou a outros materiais, visto que se almejava saber essencialmente o que cada aluno trazia de conhecimento anterior referente às noções de trigonometria no triângulo retângulo. Eles deveriam utilizar somente os materiais fornecidos pelo professor, no caso: a régua, o esquadro e o transferidor. Desde o momento em que o grupo começou a responder o instrumento I, procurou-se acompanhar atentamente o desenvolvimento das atividades dos alunos. Esse acompanhamento foi registrado em um diário de bordo, em que o professor pesquisador tomou nota das dúvidas, questionamentos e/ou comentários que surgiram durante o processo de resolução. Apesar de, nesse primeiro momento, focar-se nos conhecimentos prévios dos alunos, esses registros foram fundamentais, pois, na Teoria das Situações Didáticas, o controle das condições em que o conhecimento pode ser aprendido permite melhorar e reproduzir os processos de aquisição de conhecimento matemático. Trazendo essa ideia para o presente contexto, os resultados da análise dos registros do diário de bordo e dos protocolos dos conhecimentos prévios dos alunos norteariam a pesquisa no processo de melhoria na aquisição do conhecimento das noções de trigonometria no triângulo retângulo, que seria implementado por meio do instrumento de pesquisa II. 4.3 Análise e Interpretação dos Dados do Instrumento I De acordo com Lüdke e André (2012), “analisar os dados qualitativos significa ‘trabalhar’ todo o material obtido durante a pesquisa, ou seja, os relatos de observação, as transcrições de entrevistas, as análises de documentos e as demais informações disponíveis”. (LÜDKE; ANDRÉ, 2012, p. 45). Visando a uma melhor compreensão, a análise dos registros do diário de bordo foi dividida em duas partes: a análise dos questionamentos, referentes a como responder o instrumento de pesquisa, e à análise dos questionamentos sobre os conteúdos. 65 As perguntas sobre como responder o instrumento I (Apêndice A) foram pontuais como, por exemplo: como fazer para indicar um determinado elemento da resposta, se era necessário justificar determinada escolha ou sobre a dificuldade para responder à questão 12, pois seu enunciado encontrava-se no final da página do instrumento I, e alguns alunos não perceberam que as figuras encontravam-se na página seguinte. Vale ressaltar que a solicitação de justificativa, como nas questões 11 e 12, foi particularmente interessante, pois se pôde notar que a maior parte dos alunos apontou suas escolhas, no entanto demonstrou muita dificuldade para justificá-las, ou seja, parece haver indícios de que os conceitos de reconhecimento de triângulo retângulo e de semelhança de triângulos não foram completamente apreendidos. A seguir, são apresentados os principais questionamentos dos alunos, referentes aos conteúdos. Foram utilizadas as letras A, B, C, D, E, F, G, H, I, J, K, L, M, P, R, T, em substituição aos seus nomes verdadeiros, de modo a garantir o anonimato dos estudantes envolvidos. • O aluno B questionou a falta de indicação da medida de um dos ângulos em alguns dos triângulos do problema 12, de enunciado: Figura 3 – Atividade 12 – instrumento I Fonte: Dados da pesquisa 66 Observou-se que o aluno não percebeu ou desconhecia ser possível determinar a medida de um ângulo desconhecido em um triângulo qualquer, dadas as medidas dos outros dois. • A aluna R perguntou sobre os lados do triângulo isósceles, sem associar a pergunta a qualquer problema. Nesse caso, a aluna pode ter esclarecido uma dúvida que tinha sobre as propriedades dos triângulos. • O aluno P perguntou se os valores ao lado do desenho do triângulo do problema 14, presente na figura a seguir, referiam-se às medidas dos lados do triângulo. Figura 4 – Atividade 14 – instrumento I Fonte: Dados da pesquisa Esse questionamento levou a crer que o aluno não tinha certeza se o valor se referia à medida parcial ou total do lado do triângulo, mostrando que talvez faltasse familiaridade com esse tipo de representação do triângulo. • A aluna I indagou sobre o que são ângulos agudo, reto e obtuso, referindo-se ao problema a seguir: Figura 5 – Atividade 15 – instrumento I Fonte: Dados da pesquisa 67 Esclareceu-se que ângulos agudos são aqueles cuja medida está compreendida entre 0º e 90º; ângulos retos são aqueles cuja medida é 90º e ângulos obtusos são aqueles de medida entre 90º e 180º. Essa informação mostrou-se irrelevante, pois se verificou que nenhum dos alunos acertou totalmente a questão 15, o que pode corroborar com a ideia a respeito da dificuldade dos alunos em perceber que não há ângulos internos obtusos nos triângulos retângulos ou em reconhecer visualmente ângulos de 0º a 90º e de 90° a 180°. Observou-se, também, que nenhum dos alunos utilizou o transferidor para fazer as medições dos ângulos internos dos triângulos. • A aluna F comentou que não lembrava de maneira alguma as fórmulas para o cálculo do valor do seno, cosseno e tangente, referindo-se ao problema 17, que consta na figura 6 a seguir. Figura 6 – Atividade 17 – instrumento I Fonte: Dados da pesquisa Esse comentário deixou transparecer que, em algum momento, a aluna estudou as razões trigonométricas no triângulo retângulo, mas o conteúdo não foi institucionalizado. Observou-se que o desenvolvimento da atividade ocorreu em um clima tranquilo, mas foi possível perceber que a maior parte dos alunos teve grande dificuldade na resolução do problema 17, de enunciado já descrito, e do 16, apresentado a seguir. 68 Figura 7 – Atividade 16 – instrumento I Fonte: Dados da pesquisa Essas dificuldades tornaram-se evidentes, ao fazerem perguntas do tipo “como se determina” ou “como se faz”; ou por meio de seus comportamentos, quando pronunciavam palavras como “eu não sei” ou “eu não lembro”. O tempo foi outro indicador de tais dificuldades, pois a maioria utilizou apenas uma hora-aula para responder o questionário; apenas 3 alunos continuaram na aula posterior. Ao entregar os questionários, a maioria dos alunos afirmava que já tinha respondido o que sabiam. Foram analisados, a seguir, os protocolos dos alunos, dividindo as análises em duas partes: o perfil dos alunos e os conhecimentos prévios de trigonometria. O levantamento do perfil dos alunos permitiu verificar alguns aspectos: dentro do universo de pesquisa composto por 16 alunos de 2 salas, 7 alunos pertencentes à sala H e 9 alunos pertencentes à sala I, ou seja, houve praticamente equilíbrio na quantidade de alunos por sala. Desse universo, observou-se que 6 eram do sexo masculino e 10 eram do sexo feminino, ou seja, a participação das meninas foi quase o dobro da participação dos meninos. Quanto ao ano de nascimento, pôde-se verificar que 5 alunos estavam no ano adequado de estudo, 7 alunos estavam atrasados um ano, 2 alunos estavam dois anos atrasados, e 2 alunos estavam três anos defasados. Sobre os motivos que levaram os alunos à escola, verificou-se que a quase totalidade dos alunos descreveu o que se julga ser próximo à “busca de conhecimento” e à “necessidade futura ou profissional”. 69 Em relação ao local de estudo do Ensino Fundamental, constatou-se que 6 alunos cursaram escola municipal, 3 alunos frequentaram escola particular e 2 alunos estudaram em escola estadual, ou seja, a maioria cursou o Ensino Fundamental em escola pública. Sobre o gostar da disciplina de Matemática, obteve-se o resultado: 12 alunos que gostam de Matemática, 3 alunos que não gostam da disciplina e 1 aluno ora gosta, ora não. Quanto às justificativas dos alunos que disseram gostar de Matemática, foram sintetizadas em: “serve para descobrir áreas/encarar desafios”, “utilidade (profissional)”, “facilidade com Matemática”, “presença da Matemática no dia a dia”. Verificou-se, ainda, que quase metade dos alunos respondeu gostar por “utilidade (profissional)”, ou seja, para eles, a Matemática tem alguma utilidade ou a usarão futuramente em suas formações e atuações profissionais. As justificativas dos alunos por não gostar de Matemática foram principalmente devido à dificuldade de aprendizado. Iniciou-se o levantamento de conhecimentos prévios de trigonometria com a questão 8, perguntando se o aluno já havia ouvido falar de trigonometria. Constatou-se que 15 alunos disseram “sim” e apenas 1 aluno disse “não”, indicando que a quase totalidade dos alunos já tinha ouvido falar do assunto. A questão seguinte perguntava em qual série o aluno estudou trigonometria, conforme a figura a seguir. Figura 8 – Atividade 9 – instrumento I Fonte: Dados da pesquisa Nessa questão, foram obtidas 7 respostas para o “9º ano do Ensino Fundamental”, 7 respostas para o “1º ano do Ensino Médio” e 6 respostas para “nunca estudou”. Percebeu-se haver um equilíbrio entre as três escolhas A atividade 10 apresentou o seguinte enunciado: 70 Figura 9 – Atividade 10 – instrumento I Fonte: Dados da pesquisa Para formulá-la, foi feito um levantamento no Currículo do Estado de São Paulo (SÃO PAULO, 2012) dos conteúdos que se relacionavam à noção de razões trigonométricas no triângulo retângulo. Os alunos, então, deveriam confirmar se haviam estudado, não haviam estudado ou não se lembravam. O gráfico, a seguir, mostra os resultados obtidos: Figura 10 – Estudo das noções referentes à trigonometria 14 14 12 8 5 1 Estudou Razões Não estudou Pitágoras Teorema de triângulos Semelhança de 0 semelhança 0 Conceito de 3 2 trigonométricas 3 2 Não lembra Fonte: Dados coletados pelo pesquisador Pelo gráfico, verificou-se que os dados sobre o conceito de semelhança eram preocupantes, pois mostravam que a maioria absoluta dos alunos não lembrava que estudou esse conceito, considerando que é um pré-conhecimento básico para o estudo da semelhança de triângulos. Por outro lado, o número de estudantes que afirmaram ter estudado o teorema de Pitágoras e razões trigonométricas foi significativo. A seguir, fez-se a análise do problema 11, ilustrado a seguir: 71 Figura 11 – Atividade 11 – instrumento I Fonte: Dados da pesquisa Esse problema permitiu verificar o conhecimento acerca da identificação dos triângulos retângulos com suas devidas justificativas. Dados 6 triângulos diferentes sem os valores dos ângulos internos, os alunos deveriam localizar 2 Triângulos Retângulos. Verificou-se que 11 alunos erraram, 1 aluno não respondeu e 4 alunos acertaram parcialmente o problema, ou seja, localizaram o triângulo retângulo visualmente mais fácil; mas o segundo triângulo retângulo, cuja base era a hipotenusa, não foi reconhecido por nenhum estudante. Nesse caso, teve-se por hipótese que o aluno não está acostumado com esse tipo de disposição do triângulo retângulo ou não tem o hábito de confirmar a medida de um ângulo reto, indicando como reto um ângulo próximo de 90º. Dentre os alunos que acertaram parcialmente, três apresentaram justificativas corretas, indicando saberem o que é um triângulo retângulo, e apenas um não justificou. É mostrado, a seguir, um protocolo de um aluno que acertou parcialmente, evocando corretamente o teorema-em-ação: 72 Figura 12 – Atividade 11 – instrumento I Fonte: Dados coletados pelo pesquisador Dentre os estudantes que responderam incorretamente, 3 apresentaram as seguintes justificativas: • “Se você completar o triângulo retângulo com outro igual a ele mesmo, ele se torna um retângulo”; • “Acho que são esses três, pois começo a seguir a linha do retângulo”; • “Pela semelhança ao retângulo, e ser a mais aproximada.”. Nesses casos, os alunos associaram o triângulo retângulo à figura geométrica de um retângulo. Isso fez refletir que a palavra “retângulo”, usada para qualificar um tipo de triângulo, poderia ser vista por alguns alunos como nome, o que caracterizaria um conceito-em-ação em situações em que o conceito de triângulo retângulo fosse evocado. Também justificativas: se observaram, nas respostas incorretas, as seguintes 73 • “Todos são triângulos, todos, além de triângulos, têm suas três pontas”; • “Triângulo retângulo é que todos os lados têm a mesma medida”; • “Por ter lados iguais, o nº 1, 2 e 3”. No primeiro caso, é possível que o aluno não tenha percebido que se tratava de um triângulo específico, e, nos demais, os alunos podem ter tomado o triângulo retângulo pelo equilátero. As outras respostas foram: • “Os dois (triângulos escolhidos pela aluna) são parecidos”; • “Os três últimos são, eles não deixam de ser um triângulo, mas eles são compridos e, por isso, são triângulos retângulos”; • “São triângulos retângulos porque não são equiláteros e isósceles”. Considerando que, para Vergnaud, “os conceitos-em-ação permitem identificar os objetos, as propriedades e as relações” (VERGNAUD, 2009, p. 22), observou-se que os alunos mobilizaram os seguintes conceitos-em-ação quanto ao conhecimento do triângulo retângulo: • Ângulo de 90º; • Triângulo; • Retângulo. Pôde-se, também, reconhecer alguns teoremas-em-ação que foram evocados: • “Triângulo retângulo possui um ângulo de 90º”; • “Se completar um triângulo retângulo com outro igual, ele se torna um retângulo”; • “São triângulos retângulos, pois seguem a linha do retângulo”; • “São triângulos retângulos, pela semelhança ao retângulo”. Sendo assim, pôde-se considerar que apenas uma pequena parte do grupo sabia corretamente o que é um triângulo retângulo, entretanto, a disposição da figura ou a necessidade de confirmação do ângulo reto poderia ser um elemento a dificultar o reconhecimento. 74 A seguir, analisou-se a questão 12. Figura 13 – Atividade 12 – instrumento I Fonte: Dados coletados pelo pesquisador Esse problema solicitava localizar 3 triângulos semelhantes dentre 6 triângulos dados. Nesse caso, observou-se que o número de alunos que deixou a questão em branco aumentou para 3. Dez alunos indicaram incorretamente: 5 justificaram que eram semelhantes por serem triângulos retângulos, e 5 responderam que eram semelhantes devido a ângulos semelhantes, ou seja, mais da metade dos alunos não escolheu e também não apresentou justificativas adequadas. Houve 3 escolhas corretas, no entanto justificaram que os triângulos eram semelhantes por possuírem ângulos semelhantes, ou seja, os estudantes podem ter associado ângulo semelhante a ângulo congruente. A seguir, apresenta-se um protocolo de uma aluna que indicou corretamente os 3 triângulos semelhantes: 75 Figura 14 – Atividade 12 – instrumento I Fonte: Dados coletados pelo pesquisador Observou-se que os alunos mobilizaram os seguintes conceitos-em-ação nesse problema de semelhança: • Ângulos; • Triângulos; • Triângulos retângulos; • Soma das medidas dos ângulos internos de triângulos. Nos 3 problemas indicados corretamente, pôde-se reconhecer os seguintes teoremas-em-ação evocados pelos alunos: “Os triângulos [...] são semelhantes, pois todos os resultados da soma • de seus ângulos equivalem a 180º, e possuem 50º, 38º, e 92º graus”, ou seja, a soma das medidas dos ângulos internos é 180º e possuem ângulos internos correspondentes congruentes; “Porque a soma dá 180°”, isto é, porque a soma das medidas dos • ângulos internos é 180º; “[...] Por ter ângulos semelhantes”, isto é, por ter as medidas dos • ângulos internos correspondentes congruentes. Nos 5 problemas com indicações parcialmente corretas, observou-se que, em um dos casos, o aluno justificou “pois parecem ter a mesma forma, porém invertidos de maneiras diferentes”, e, nos demais, os alunos apresentaram as justificativas seguintes: • “Pelas dimensões, ângulos são semelhantes”; • “[...] Eles se assemelham em graus”; • “São semelhantes por causa dos ângulos”; 76 • “Porque cada um tem a mesma medida e somando-as dá 180º” Nesses casos, pôde-se considerar que os alunos evocaram o teorema-emação “os triângulos são semelhantes, então as medidas dos ângulos internos correspondentes são iguais”, embora também se tenham observado referências às dimensões dos triângulos e à soma das medidas dos ângulos internos. Verificou-se que, em quatro das indicações, um dos três triângulos escolhidos não indicava a medida dos ângulos internos e, em uma das indicações, o triângulo escolhido apresentava as medidas de dois ângulos internos de 45º, ou seja, mesmo evocando corretamente o teorema-em-ação, os alunos indicaram incorretamente um dos triângulos. Esse erro poderia estar relacionado à determinação da medida de um dos ângulos internos de qualquer triângulo, dados os outros dois, sabendo que a soma de suas medidas é 180º. Como exemplo, apresenta-se um dos protocolos parcialmente correto a seguir: Figura 15 – Atividade 12 – instrumento I Fonte: Dados coletados pelo pesquisador Nos 3 problemas com indicações incorretas, obtiveram-se as seguintes justificativas: 77 • “[...] pois contém os mesmos ângulos (90º) e é um ângulo reto”; • “Todos são triângulos retângulos.”; • “Porque triângulos retângulos são sempre iguais” Pode-se dizer que, nesses casos, os alunos evocaram o teorema-em-ação “os triângulos são semelhantes, porque são triângulos retângulos (ou possuem um ângulo reto)”. A seguir, ilustrou-se um protocolo incorreto: Figura 16 – Atividade 12 – instrumento I Fonte: Dados coletados pelo pesquisador Descartaram-se 5 problemas, pois, em 2 deles, os alunos não indicaram os 3 triângulos semelhantes e, nos outros, escreveram que não sabiam resolver ou não lembravam. Apesar do fato do problema dar destaque aos ângulos e não aos lados, verificou-se que nenhum aluno mencionou a propriedade da proporcionalidade. Tal fato poderia estar relacionado ao seu desconhecimento ou esquecimento; o gráfico da Figura 10 já havia mostrado que o número de alunos que afirmou estudar o conceito de semelhança foi nulo. 78 No problema 13, os alunos deveriam determinar a medida da hipotenusa de um triângulo retângulo, aplicando o teorema de Pitágoras, dadas as medidas dos catetos na malha quadriculada. Figura 17 – Atividade 13 – instrumento I Fonte: Dados da pesquisa Nesse problema, 4 alunos não responderam, 11 alunos responderam incorretamente e apenas 1 aluno pôde-se considerar que acertou a questão, pois evocou o teorema corretamente, errando apenas no final para determinar o valor da raiz quadrada. A seguir, apresenta-se o protocolo do aluno cuja resposta foi considerada correta: Figura 18 – Atividade 13 – instrumento I Fonte: Dados coletados pelo pesquisador Dentre os alunos que apresentaram respostas incorretas, duas alunas tentaram resolver: a primeira aluna não conseguiu explicitar corretamente o teorema de Pitágoras; e a segunda resolveu o problema fazendo uso da razão entre os lados 79 do triângulo retângulo, ou seja, não conseguiu fazer a conexão entre a solução do problema e o teorema de Pitágoras. O restante dos alunos apresentou as soluções incorretas, sem explicitar os cálculos, o que impossibilitou qualquer análise dos esquemas desenvolvidos por eles. Esses índices alarmantes parecem remeter fundamentalmente à Educação Matemática, pois os dados do gráfico da Figura 10 indicam que 14 alunos estudaram esse conceito, entretanto, o que se pôde ver é que somente um aluno conseguiu realizar a tarefa pedida — os demais nem mesmo chegaram a enunciar o teorema de Pitágoras, ou seja, o conteúdo pode ter sido estudado, mas não foi assimilado. Apresenta-se, a seguir, o protocolo de resolução da aluna que resolveu o exercício por meio de razão. Figura 19 – Atividade 13 – instrumento I Fonte: Dados coletados pelo pesquisador Observou-se a mobilização dos seguintes conceitos-em-ação nesse tipo de problema: • Teorema de Pitágoras; • Medidas em malhas quadriculadas. O problema 14 permitiu determinar a medida de um dos lados de um triângulo menor sobreposto a outro maior, utilizando os conhecimentos de razão e proporção. A questão é mostrada a seguir: 80 Figura 20 – Atividade 14 – instrumento I Fonte: Dados da pesquisa Entende-se que, para o grupo ter êxito nesse tipo de problema, era essencial dominar os conhecimentos do teorema de Tales ou de semelhança de triângulos. Verificou-se que 10 alunos deixaram a questão sem resposta, 4 alunos responderam incorretamente (3 deles apresentaram somente o resultado final, sem cálculos e 1 utilizou o que parecia ser o teorema de Pitágoras) e 2 alunos apresentaram a resposta final correta, mas um deles chegou ao resultado por procedimento incorreto (adicionou 1,6 a 1,6). Observou-se, portanto, que esse é outro problema que apresentou índice de acerto baixo, já que apenas uma aluna montou as razões corretamente e chegou ao resultado final. O protocolo da aluna é mostrado a seguir: Figura 21 – Atividade 14 – instrumento I Fonte: Dados coletados pelo pesquisador Foi observada a necessidade da mobilização dos seguintes conceitos-emação pelos alunos para resolução de problema de semelhança de triângulos: • Razão; • Proporcionalidade. 81 Esse problema é uma aplicação direta dos conceitos de semelhança de figuras planas; o aluno tende a se sair melhor nesse tipo de situação quando os conceitos de semelhança já foram bem formalizados, mas, como se pôde notar, não foi o caso dos participantes deste estudo. O problema 15 permitiu verificar se os alunos sabiam classificar os ângulos em agudos, obtusos ou retos em dois triângulos retângulos em posições diferentes. Figura 22 – Atividade 15 – instrumento I Fonte: Dados da pesquisa Verificou-se que 3 alunos não responderam a esse problema e 13 alunos responderam incorretamente. Dentre os treze, 7 estudantes localizaram o ângulo reto, mas não os 2 ângulos agudos. Nesse problema, foi observada a mobilização do conceitos-em-ação seguinte: • Ângulos (classificação). Como já mencionado, mesmo diante da informação do significado de ângulos agudo, reto e obtuso dada pelo professor, os alunos indicaram ao menos um ângulo como obtuso. Diante das informações registradas no diário de bordo em conjunto com esses dados, pôde-se afirmar que os participantes não conseguiram reconhecer visualmente medidas de ângulos maiores ou menores que 90º e não se sentiram estimulados em medi-los com os instrumentos fornecidos. 82 O problema 16 solicitava a identificação dos lados (hipotenusa, cateto oposto e cateto adjacente) de um triângulo retângulo em relação aos dois ângulos agudos. Figura 23 – Atividade 16 – instrumento I Fonte: Dados da pesquisa Foram obtidas 3 respostas corretas, 3 respostas em branco e 11 respostas incorretas, sendo 5 delas parcialmente corretas. Constatou-se que, nas respostas parcialmente corretas, a posição do ângulo agudo influenciou, de alguma forma, as respostas dos alunos, pois todos já tinham apontado corretamente os lados do triângulo em relação ao primeiro ângulo. Observou-se que, nessa questão, os alunos mobilizaram os seguintes conceitos-em-ação: • Ângulos; • Triângulo retângulo (nomes dos lados). O problema 17 pedia para que fossem calculadas as razões trigonométricas seno, cosseno e tangente em relação a um dos ângulos agudos em 2 triângulos retângulos em posições diferentes. 83 Figura 24 – Atividade 17 – instrumento I Fonte: Dados da pesquisa Nesse caso, foi obtida apenas uma resposta considerada correta, 2 respostas parcialmente corretas, 5 respostas incorretas e 8 atividades ficaram sem respostas. Segue o protocolo da resposta considerada correta: Figura 25 – Atividade 17 – instrumento I Fonte: Dados coletados pelo pesquisador Observou-se que os 2 casos parcialmente corretos ocasionaram-se do fato de que os alunos não haviam respondido a todos os itens, no entanto, os itens já respondidos estavam corretos. Dentre os 5 casos de respostas incorretas, em 4 deles, os alunos apresentaram as medidas dos lados dos triângulos retângulos como se fossem os valores do seno, cosseno e tangente, ou seja, mobilizaram os conceitos-em-ação de seno, cosseno e tangente como sendo as medidas dos lados do triângulo retângulo. 84 Para resolver esse problema, os alunos necessitavam dos conceitos-emação mobilizados no problema anterior. A falta de tais conceitos pode ter dificultado a resolução desse problema, piorando ainda mais o índice de acerto. O estudo das situações didáticas mostrou que alguns efeitos do contrato didático podem prejudicar o aprendizado dos alunos. Dessa forma, nesta pesquisa, houve a intenção de localizá-los e evitá-los durante todo o processo de desenvolvimento dos instrumentos de pesquisa de trigonometria no triângulo retângulo utilizados neste estudo. Nesse problema, em particular, percebe-se haver indícios de manifestação de alguns comportamentos enraizados por contratos vigentes. Alguns dos alunos insistiam em perguntar ao professor como “resolver a questão”, ou diziam “não se lembrar”, como se esperassem, em algum momento, a resposta ou a facilitação do professor. Nesse caso, percebe-se o indício do que Brousseau (BROUSSEAU, 2008) denominou de efeito Topaze. Nesse contexto, o aluno, diante de uma situação que não consegue resolver, geralmente, apela para o professor, esperando que este lhe forneça alguma dica ou facilite a resposta. O efeito Topaze concretiza-se quando o professor minimiza os conhecimentos do aluno, facilitando a situação de aprendizagem até fornece-lhe a resposta por completo. Outro comportamento que se observou em alguns problemas, quando foram analisados os protocolos, foi o fato de que uma parte dos alunos apresentou a solução do problema, mesmo sem apresentar algum cálculo ou sem saber resolvê-lo corretamente. Nesse caso, a teoria explica que os estudantes sentem-se compelidos a apresentar uma resposta esperada pelo professor, efeito do contrato didático. No final da primeira hora-aula, percebeu-se o que é possível chamar de início de ruptura do contrato didático, pois a maior parte dos participantes começou a desistir e a entregar seus questionários. As razões que os levaram a essa situação foram perceptíveis na sala de aula e confirmadas na análise dos protocolos de resolução: tratava-se da dificuldade enfrentada para a resolução dos problemas. Essa situação foi ruim para os alunos, entretanto, para Brousseau (2008), a ruptura 85 de contrato didático é considerada boa, pois é o momento de renegociar e estabelecer um novo contrato didático. Sintetizando as considerações desta investigação, tem-se o seguinte: o grupo de pesquisa do qual foram levantados os conhecimentos prévios sobre trigonometria tem como característica de 75% possuírem entre 16 e 17 anos de idade, sendo 62,5% composto por alunas. Nesse universo de 16 estudantes, 81,25% estudaram a maior parte do Ensino Fundamental em escola pública (estadual ou municipal), 75% gostam de Matemática e vão à escola, principalmente, em busca de conhecimento e por necessidade. O gráfico a seguir mostra os percentuais de acertos dos conhecimentos prévios dos alunos. A partir disso, fez-se uma síntese desses conhecimentos e foram traçadas as diretrizes para construção do instrumento II. Figura 26 – Percentual de acertos por questão 25,0% 18,8% 12,5% 6,3% 0,0% 6,3% 0,0% Fonte: Dados da pesquisa Os dados do gráfico sobre acertos por problema oferecem uma visão bastante preocupante acerca dos conhecimentos prévios que os alunos deveriam saber, visto que o gráfico mostra o repertório de conhecimentos anteriores que os participantes detinham. Assuntos como o reconhecimento de triângulo retângulo, o reconhecimento dos lados do triângulo retângulo e classificação de ângulos tiveram percentuais de acertos nulos. Entretanto não se pode deixar de considerar que os dados não mostram se os estudantes acertaram totalmente o problema ou não, ou 86 seja, aqueles que acertaram uma parte da questão não estão incluídos nesse universo. Pensando dessa forma, observa-se que os alunos não estão “vazios” de tudo, mas trazem consigo algum conhecimento sobre esses assuntos. Verificou-se, também, que conteúdos como, reconhecimento de semelhança de triângulos tiveram índice de acerto de 25%, mas as justificativas não foram satisfatórias; e temas como o teorema de Pitágoras, que aproximadamente 90% dos alunos afirmaram terem estudado, tiveram índice de acerto de apenas 6,3%, demonstrando que o mesmo não havia sido assimilado pela maior parte dos alunos. Diante do exposto, os dados mostraram que os conteúdos mínimos referentes às noções do triângulo, dos quais os alunos já deveriam ter-se apropriado em anos anteriores, foram insuficientemente assimilados. Com base nos estudos teóricos desta pesquisa, reconhece-se que esses conhecimentos precedentes são considerados na teoria de Brousseau (1986), pois a aprendizagem por adaptação é uma das noções utilizadas para estruturar a Teoria das Situações Didáticas. Segundo Pais (2005), “[...] em tal aprendizagem, o aluno é desafiado a adaptar seus conhecimentos anteriores às condições de solução de um novo problema” (PAIS, 2005, p. 69), ou seja, admite-se a possibilidade de expansão do domínio cognitivo. Algumas noções que estruturam a teoria de Brousseau (1986, 1996, 2008) e permeiam a relação didática, como o contrato didático, emergiram durante esta investigação. Segundo Brousseau (2008), “[...] o contrato didático se impõe a todos e não pode ser explicado pelo mau desempenho de professores ou alunos”. (BROUSSEAU, 2008, p. 79). Nesta investigação de campo, foram identificados alguns dos efeitos negativos provocados por contratos didáticos em vigor, como a apresentação de soluções com dados inadequados e o início de um efeito Topaze. O efeito Topaze é um dos mais interessantes, pois quase sempre está associado à competência do professor e, de acordo com Pais (2005), “[...] a ocorrência de um efeito Topaze sinaliza para a direção oposta à postura didática 87 defendida pelo pressuposto de que é necessário o aluno participar ativamente na elaboração de seu próprio conhecimento”. (PAIS, 2005, p. 91). Neste trabalho, o início do efeito Topaze foi controlado pelo professor, evitando tomar para si a responsabilidade de fazer a tarefa e realizando as devidas orientações aos alunos. Nesse sentido, teve-se por objetivo superar esses e outros comportamentos que porventura surgiram nesta pesquisa, propondo um novo tipo de contrato a ser implementado na próxima fase de pesquisa. Os conhecimentos prévios também são fundamentais na Teoria dos Campos Conceituais de Vergnaud (1996), pois, segundo Pais (2005), “a formação de um conceito é realizada a partir de componentes anteriores, por meio de uma síntese coordenada pelo sujeito. Esses componentes podem ser noções fundamentais ou ainda outros conceitos elaborados anteriormente [...]”, (PAIS, 2005, p. 61), ou seja, para a construção do conceito de razões trigonométricas no triângulo retângulo, podem-se destacar os conteúdos precedentes de ângulos, razões, proporções, semelhança e o teorema de Pitágoras que, normalmente, deveriam ter sido aprendidos até o 9º ano do Ensino Fundamental. Neste instrumento, a Teoria dos Campos Conceituais pôde ajudar na análise das dificuldades, evidenciando alguns dos invariantes operatórios mobilizados pelos alunos. Quando foi possível, foram evidenciados os teoremas-em-ação verdadeiros em que se deseja a construção pelos estudantes e, também, os teoremas-em-ação falsos, passíveis de serem construídos. A seguir, apresenta-se uma síntese dessa análise: • Relativamente à identificação dos Triângulos Retângulos, constatouse que três alunos mobilizaram o teorema-em-ação verdadeiro: “triângulo retângulo possui um ângulo de 90º”; percebeu-se que alguns dos teoremas surgidos tinham alguma relação com a palavra retângulo. • Quanto à localização dos triângulos semelhantes, verificou-se que, dos três estudantes que escolheram corretamente, apenas dois fizeram referência “a ângulos internos correspondentes congruentes”. 88 Em 5 casos de indicações parcialmente corretas, o teorema-em-ação evocado relacionava-se ao que se denomina como “ângulos semelhantes”; em 3 casos de indicações incorretas, justificaram “por serem triângulos retângulos”; 5 casos ficaram sem análise por falta de indicação ou resposta. • Sobre o problema que pedia a medida da hipotenusa na malha quadriculada, concluiu-se que apenas um estudante mobilizou o teorema de Pitágoras corretamente e fez inferências. Dois alunos não conseguiram explicitar corretamente o teorema, nove alunos apresentaram soluções erradas sem realização de cálculos e quatro alunos não responderam. • Em relação ao problema que solicitava a medida de um dos lados de um triângulo menor sobreposto a outro maior, apenas um estudante chegou à solução corretamente, mobilizando o teorema de Tales. • Na situação que permitiu verificar a classificação dos ângulos em agudos, obtusos ou retos, observou-se que nenhum aluno acertou completamente o problema. No entanto, sete alunos localizaram o ângulo reto. • Sobre a identificação dos lados de um triângulo retângulo, tendo como referência seus ângulos agudos, obtiveram-se três respostas satisfatórias, entretanto, notou-se que, nos casos parcialmente corretos, a posição do ângulo influenciou as respostas dos alunos. • Houve somente uma resposta considerada correta no problema que pedia as razões seno, cosseno e tangente. Em quatro casos, os alunos mobilizaram os conceitos-em-ação de seno, cosseno e tangente como sendo os lados do triângulo retângulo. Diante das considerações anteriores, teve-se convicção de que tais conteúdos precisariam ser priorizados na elaboração do instrumento de pesquisa II, para que esses alunos pudessem evoluir em seus conhecimentos. 89 4.4 Análise a Priori e Aplicação do Instrumento II No instrumento II, houve a participação de 12 alunos (A, B, E, F, G, I, J, K, M, P, R, T), pois 4 alunos (C, D, H, L) desistiram em razão de indisponibilidade de tempo ou de motivos particulares. A aplicação desse instrumento ocorreu conforme ilustrado no quadro 2, a seguir: Quadro 3 – Aplicação do instrumento II Dia Situação de Sequência de atividades Horas-aula 10/10/2013 Ação Atividade 1 3 11/10/2013 Formulação Atividade 2 3 16-19/10/2013 Validação Atividade 3 4 20/10/2013 Institucionalização Atividade 4 2 Fonte: Dados da pesquisa Assim, foram programadas 12 horas-aula para desenvolvimento de todo instrumento de pesquisa II. A sequência de atividades desse instrumento, elaborada com base na Teoria das Situações Didáticas de Brousseau (1986, 1996, 2008), teve por objetivo construir conceitos trigonométricos no triângulo retângulo. As atividades que compuseram esse instrumento foram constituídas em quatro partes (atividades 1, 2, 3 e 4), pensando numa articulação com as situações de ação, formulação, validação e institucionalização que, segundo Brousseu (2008), “[...] podem conjugar-se para acelerar as aprendizagens (sejam elas espontâneas ou provocadas)”. (BROUSSEAU, 2008, p. 32). Na primeira parte, foi ilustrada a figura de uma rampa com o desenho de um triângulo retângulo sobreposto, mostrando que, a partir de um percurso, podem-se associar uma altura e um afastamento. Em seguida, foi definido índice de subida e pediu-se para os alunos desenharem a representação de uma rampa e calcularem suas razões, utilizando a nomenclatura proposta. Em um segundo momento, 90 perguntou-se o tipo de triângulo desenhado em relação ao ângulo e solicitou-se, também, a verificação da validade da relação de Pitágoras em relação aos lados medidos. A seguir, é mostrada a atividade proposta: Figura 27 – Atividade 1 – instrumento II Fonte: Dados da pesquisa Nessa fase da sequência, pensou-se na ideia de trazer o elemento básico da trigonometria para o contexto do aluno, ou seja, possibilitar o reconhecimento da figura do triângulo retângulo, associando-o a elementos próximos de seu cotidiano, nesse caso, as rampas de acesso. Nessa situação de ação, o aluno trabalharia o aspecto experimental, desenhando a representação de uma rampa e medindo seus lados com instrumentos adequados e, também, produziria conhecimento de natureza operacional, realizando alguns cálculos de razões de lados do triângulo retângulo e de verificação do teorema de Pitágoras, sem necessitar explicá-los. 91 Esperava-se que o aluno, nessa fase, conseguisse associar a representação do triângulo retângulo a elementos que estão ao seu redor e também que retomasse conteúdos já estudados em anos anteriores, como razões e o teorema de Pitágoras, conseguindo realizar cálculos de natureza operacional, ou seja, esperava-se que o aluno mobilizasse conceitos-em-ação fundamentais, como o de triângulo retângulo, de razões e do teorema de Pitágoras, para a construção dos conceitos de razões trigonométricas no triângulo retângulo. Na segunda parte, dado um triângulo retângulo maior ABC, dividido em outros dois triângulos retângulo menores, de vértice B comum a todos os triângulos retângulos, solicitou-se aos alunos medirem os lados e calcularem todas as razões entre os lados. Em seguida, pediu-se para que os alunos calculassem todas as razões dos possíveis triângulos retângulos que conseguissem perceber. A atividade proposta foi a seguinte: 92 Figura 28 – Atividade 2 – instrumento II – parte 1 Fonte: Dados da pesquisa 93 Figura 28 – Atividade 2 – instrumento II – parte 2 Fonte: Dados da pesquisa O objetivo dessa atividade era fazer o aluno perceber que, nos triângulos retângulos semelhantes, a razão entre dois lados correspondentes quaisquer de um dos triângulos é igual e as medidas de seus ângulos internos correspondentes são congruentes. Nessa fase de formulação, o aluno interagiria com o meio, trocando informações quanto a razões e a ângulos internos dos triângulos retângulos observados, sendo estimulado a explicar, de forma escrita, sua conclusão a respeito da semelhança dos triângulos estudados. Como o conceito de proporcionalidade é essencial para a constituição dos conceitos de razões trigonométricas no triângulo retângulo, foi reforçada, ao final, a formação desse conceito, solicitando aos estudantes a construção de um par de triângulos retângulos semelhantes com as devidas justificativas. Dessa forma, procurou-se sanar quaisquer dúvidas ainda existentes sobre a semelhança dos triângulos retângulos estudados. 94 Esperava-se, nessa fase, ampliar a visão do aluno para a representação geométrica de um triângulo retângulo, a fim de que percebesse que, nos triângulos semelhantes, as razões entre dois lados correspondentes quaisquer seria a mesma, registrando todos os argumentos na forma escrita e, por fim, desenvolvendo autonomia para percepção de semelhança em triângulos retângulos quaisquer. Dessa forma, acreditava-se, sobretudo, que o aluno conseguiria por si mesmo construir o teorema-em-ação “se dois triângulos são semelhantes, então, as medidas dos ângulos correspondentes são congruentes e as razões entre os lados correspondentes são iguais”. Na terceira parte, foi pedida, inicialmente, a construção de um triângulo retângulo ABC com os ângulos agudos Aˆ , B̂ (com a horizontal) e reto em Ĉ , indicando o cateto oposto, adjacente e a hipotenusa a partir do ângulo B̂ . Após, foi proposta uma mudança de nomenclatura, ou seja, solicitou-se que os alunos trabalhassem com a nomenclatura matemática da trigonometria. A partir disso, estabeleceram-se os conceitos de seno, cosseno e tangente dos ângulos agudos Aˆ e B̂ . A seguir, apresenta-se a atividade proposta: 95 Figura 29 – Atividade 3 – instrumento II Fonte: Dados da pesquisa 96 Essa parte da sequência didática teve por objetivo elaborar o conceito das razões trigonométricas (seno, cosseno e tangente). Tinha-se a convicção de que a incorporação da nomenclatura trigonométrica é importante para sistematização das fórmulas das razões trigonométricas no triângulo retângulo. Além disso, na fase de validação, o aluno poderia utilizar a linguagem matemática para as devidas comprovações, isto é, por meio do seno, cosseno e tangente de um ângulo agudo, o aluno oportunamente faria as demonstrações e as provas que permitiriam ampliar seus conhecimentos sobre trigonometria no triângulo retângulo. A validação desses conhecimentos foi proposta ao aluno por meio de três situações: Na primeira, percebendo que a soma das medidas dos ângulos Aˆ e B̂ era 90º, o aluno deveria provar que a relação é válida para qualquer triângulo retângulo, usando a soma das medidas dos ângulos internos; a segunda pedia para o aluno justificar o que aconteceria com o ângulo agudo B̂ , seno, cosseno e tangente de B̂ quando aumentasse o lado AC; e a terceira situação pedia para escrever as relações de tg B̂ e tg Aˆ , a partir das razões sen B̂ /cos B̂ e sen Aˆ /cos Aˆ . Nessa fase da sequência, espera-se que o aluno fizesse uma prova simples da soma (igual a 90º) dos ângulos agudos de um triângulo retângulo, ou seja, espera-se que o mesmo fizesse a demonstração, manipulando algebricamente os termos da equação da soma das medidas dos ângulos de um triângulo qualquer, e percebesse o teorema-em-ação envolvido na situação: “se dois ângulos agudos são complementares, então, o seno de um ângulo agudo é igual ao cosseno de seu complemento”, generalizando, dessa forma, a noção de complementaridade para qualquer triângulo retângulo. Quanto ao estado do seno, cosseno e tangente de B̂ e ao próprio ângulo agudo, aumentando o lado AC, deseja-se que o aluno, no desenvolvimento de seu raciocínio, mobilizasse os invariantes operatórios, demonstrando as mudanças aritmeticamente a partir das razões ou, o mais esperado, utilizando algum esquema geométrico. E, por último, almeja-se que o aluno demonstrasse que as razões sen B̂ /cos B̂ e sen Aˆ /cos Aˆ são iguais a tg B̂ e tg Aˆ por meio de manipulação algébrica. Pensava-se, entretanto tratar-se de uma questão que talvez poucos alunos conseguissem realizar, não por ser uma questão considerada difícil, mas por 97 envolver uma divisão de frações algébricas, operação que os alunos geralmente evitam. Na quarta parte da sequência, pediu-se a construção de vários triângulos retângulos, dado um como modelo, com o ângulo B̂ aumentando de 10º em 10º. Feitas as medidas dos lados dos triângulos, solicitou-se ao aluno preencher uma tabela determinando os valores do sen B̂ , cos B̂ e tg B̂ . A seguir, apresenta-se a atividade desenvolvida: Figura 30 – Atividade 4 – instrumento II – parte 1 Fonte: Dados da pesquisa 98 Figura 30 – Atividade 4 – instrumento II – parte 2 Fonte: Dados da pesquisa 99 Essa atividade teve por objetivo determinar os valores das razões trigonométricas (seno, cosseno e tangente), variando de 10º em 10º, e analisar o comportamento dessas razões para B̂ , variando de 0º a 90º. Essa fase de institucionalização seria ministrada fundamentalmente pelo professor para formalizar coletivamente as noções de um triângulo retângulo, de sen, cos e tg de um ângulo agudo, generalizando essas razões para futuras aplicações desses conhecimentos matemáticos. A atividade ainda ofereceu oportunidades para o aluno construir triângulos retângulos, inscritos em ¼ de circunferência de raio 1 dm (10 cm), medindo seus lados, comparando as medidas, e analisar, também, os valores do sen B̂ , cos B̂ e tg B̂ da tabela a ser preenchida, possibilitando-o refletir sobre o comportamento das razões trigonométricas quando B̂ aumenta de 0º a 90º. Esse modelo de construção de triângulos retângulos ainda permitiria ao aluno fazer analogias com os modelos já estudados e também possibilitaria os primeiros contatos do aluno com os comportamentos dos triângulos retângulos no ciclo trigonométrico. Conduzida pelo professor, essa atividade possibilitaria ao aluno perceber que o cálculo das razões (seno e cosseno) tornar-se-ia mais simples se a medida da hipotenusa fosse igual a um e ainda era possível relacionar o seno e o cosseno de um ângulo agudo do triângulo retângulo por meio do teorema de Pitágoras, noção da qual o aluno, naquele momento, já dispunha. Ao final dessa atividade, esperava-se que o aluno percebesse que, aumentando B̂ , o valor do sen B̂ tenderia a aumentar e cos B̂ tenderia a diminuir. Quando B̂ atingisse 90º, o valor do sen B̂ seria máximo e valeria um, enquanto cos B̂ teria valor mínimo igual a zero. Mas, nessa situação, a figura do triângulo retângulo deixaria de existir. O professor também poderia explorar a mesma ideia para o caso de B̂ igual a 0º. Era esperado, ainda, que o aluno compreendesse que, na Matemática, as representações e fórmulas não surgem ao acaso, o uso da hipotenusa unitária facilitaria o estudo das razões seno e cosseno e a relação do seno e cosseno poderia ser explicada a partir do teorema de Pitágoras. 100 4.5 Análise e Interpretação dos Dados do Instrumento II Para o desenvolvimento deste instrumento de pesquisa, foi permitido o uso de calculadora com orientação para o uso de duas casas decimais na resolução de todos problemas. Na situação de ação (atividade 1) que consistia em trabalhar com o triângulo retângulo, explorando o aspecto experimental, considerou-se que o problema foi resolvido satisfatoriamente por 8 alunos (B, E, F, G, M, P, R, T). O aluno G escreveu como resposta 4,6 (ao invés de 0,46) à razão entre a altura e o percurso, mas podese atribuir esse erro à falta de atenção. Dentre quatro casos insatisfatórios observados, constatou-se que as alunas I e L não conseguiram verificar o teorema de Pitágoras. Apresenta-se o protocolo da aluna I, a seguir: Figura 31 – Atividade 4 – instrumento II – aluna I Fonte: Dados coletados pelo pesquisador Analisando seu esquema, notou-se que a aluna não conseguiu verificar a validade do teorema, embora tenha afirmado que a relação era válida. Verificou-se que ela calculou as potências, multiplicando-se a base pelo expoente, obtendo valores finais distintos. Nesse caso, percebeu-se que faltou o conceito-em-ação de potenciação para o desenvolvimento da relação de Pitágoras. A seguir, apresenta-se o protocolo da aluna K. 101 Figura 32 – Atividade 4 – instrumento II – aluna K Fonte: Dados coletados pelo pesquisador Pôde-se verificar que a aluna não usou corretamente a medida da hipotenusa do triângulo retângulo na relação de Pitágoras, indicando que a aluna não dispunha completamente do conceito-em-ação de triângulo retângulo. Os outros casos insatisfatórios apresentaram erros de medidas na construção do triângulo retângulo, mas as alunas calcularam as razões corretamente. A seguir, está o protocolo da aluna J. Figura 33 – Atividade 4 – instrumento II – aluna J Fonte: Dados coletados pelo pesquisador Nesse caso, percebeu-se que ocorreu um erro de medida, pois a aluna indicou 9 cm para um dos catetos e também para a hipotenusa. Verificou-se, ainda, pelo esquema da relação de Pitágoras, que a aluna trocou a medida da hipotenusa pela medida de um dos catetos, ou seja, o conceito-em-ação de triângulo retângulo que a aluna deveria dispor para resolução do problema estava incompleto. 102 No último caso insatisfatório, a aluna A incorreu em erros de medida, indicando 1 cm e 5,2 cm para as medidas dos catetos, quando deveriam ser 2 cm e 4,6 cm, respectivamente, resultando valores incorretos na relação de Pitágoras. Na situação de formulação (atividade 2), trabalhou-se, essencialmente, o conceito de semelhança de triângulos retângulos. Também foi pedida a soma das medidas dos ângulos internos dos triângulos retângulos, a fim de que os alunos percebessem que tal soma era 180º. Considerou-se, de modo geral, que 8 alunos (B, E, F, G, M, P, R, T) conseguiram responder corretamente o problema. Perceberam mais dois triângulos retângulos, além do ABC, e que o teorema-em-ação “se dois triângulos são semelhantes, então, as medidas de seus ângulos correspondentes são congruentes e as razões entre os lados correspondentes são iguais” é válido. Todos os alunos também responderam que a soma das medidas dos ângulos internos dos triângulos retângulos é 180º. A seguir, mostra-se, como exemplo, o protocolo da aluna F: Figura 34 – Atividade 4 – instrumento II – aluna F Fonte: Dados coletados pelo pesquisador Duas alunas (E e M) cometeram erros de medição dos lados do triângulo ABC, comprometendo parcialmente o cálculo das razões. A aluna E mediu 4,4 cm no lado AC (o correto seria 4,9 cm) e a aluna M mediu 7,8 cm (o correto seria 8,9 cm) no lado AB. A aluna E respondeu que os triângulos observados eram 103 “semelhantes, pois seus agudos (ângulos) são iguais, e suas razões são diferentes”, mas esse erro pode ser resultante das razões calculadas serem bem próximas, que ela entendeu como sendo razões diferentes. Ao final, as duas alunas conseguiram desenhar os dois triângulos semelhantes. As alunas A, I, J, e K mostraram dificuldades parecidas. Perceberam mais um triângulo retângulo, além do ABC, e o teorema-em-ação envolvido, mas não conseguiram construir dois triângulos semelhantes. Como exemplo, ilustra-se o protocolo da aluna J: Figura 35 – Atividade 4 – instrumento II – aluna J Fonte: Dados coletados pelo pesquisador Analisando o esquema, percebeu-se que, embora a aluna tenha indicado 30º e 50º para os ângulos agudos nos dois triângulos retângulos, verificou-se que as medidas eram 25º e 65º. Constatou-se que, na construção dos triângulos semelhantes pedidos, as 4 alunas (A, I, J, K) erraram as medidas dos ângulos agudos, evidenciando uma dificuldade de obter ângulos utilizando o transferidor. A aluna A também deixou em branco a pergunta que pedia a soma das medidas dos ângulos internos do triângulo ABC e que solicitava, também, a soma das medidas ângulos internos dos outros triângulos observados. No entanto, mesmo diante da falta do conceito-em-ação de medidas por alguns alunos, pôde-se considerar a percepção do teorema-em-ação de semelhança de triângulos retângulos por todos os estudantes. A partir de agora se faz a análise da situação de validação (atividade 3) que teve por objetivo elaborar os conceitos de seno, cosseno e tangente e ainda fazer 104 algumas provas que pudessem ampliar os conhecimentos de trigonometria no triângulo retângulo, conforme já mencionado. Verificou-se que somente as alunas E e I responderam corretamente a essa parte da atividade, conforme é mostrado, como exemplo, no protocolo da aluna E: Figura 36 – Atividade 4 – instrumento II – aluna E – parte 1 Fonte: Dados coletados pelo pesquisador 105 Figura 36 – Atividade 4 – instrumento II – aluna E – parte 2 Fonte: Dados coletados pelo pesquisador 106 As atividades de razões trigonométricas foram desenvolvidas satisfatoriamente por todos os alunos, permitindo elaborar os conceitos de seno, cosseno e tangente, levando-os a perceber a igualdade entre o seno de um dos ângulos agudos e o cosseno do outro, ou vice-versa. Com relação às atividades de validação (atividade 3), constatou-se, na primeira situação, que os alunos B, E, F, G, I, J, K, M, P, R, T perceberam que a relação entre as medidas dos ângulos internos é de 90º, mas apenas 5 alunos (E, J, M, P, R) mostraram que essa relação é válida para qualquer triângulo retângulo; 6 alunos (E, F, I, J, K, R) apoiaram-se nos ângulos medidos nos triângulos que foram construídos no início da etapa de validação como forma de demonstração; os alunos E e P demonstraram escrevendo na língua natural, ou seja, nenhum aluno utilizou escritas algébricas como meio de generalização da relação. A seguir, como exemplos, tem-se os protocolos dos alunos F e P: Figura 37 – Atividade 4 – instrumento II – aluna F Fonte: Dados coletados pelo pesquisador Figura 38 – Atividade 4 – instrumento II – aluno P Fonte: Dados coletados pelo pesquisador Por último, notou-se que a aluna A não conseguiu perceber a complementaridade entre as medidas dos ângulos agudos, afirmando que “eles são praticamente próximos e os ângulos dão 180 graus”. Sobre a relação entre o seno e o cosseno, analisando o item h, verificou-se que os alunos E, I, P e R responderam corretamente, percebendo o teorema-em- 107 ação envolvido na situação que se pode inferir como “se dois ângulos agudos são complementares, então, o seno de um ângulo é igual ao cosseno de seu complemento”. Será mostrado, a seguir, como exemplo, o protocolo do aluno P: Figura 39 – Atividade 4 – instrumento II – aluno P Fonte: Dados coletados pelo pesquisador Pôde-se inferir, também, que a maioria dos alunos evocou o teorema-emação “o seno e o cosseno são iguais”, ou seja, para alguns alunos, a atividade não conseguiu conduzi-los à percepção da complementaridade entre o seno e o cosseno. Ilustra-se a seguir, como exemplo, o protocolo da aluna A. Figura 40 – Atividade 4 – instrumento II – aluna A Fonte: Dados coletados pelo pesquisador Na segunda situação de validação, solicitou-se que o aluno justificasse o que aconteceria com o ângulo agudo B̂ , seno, cosseno e tangente de B̂ quando aumentasse o lado AC do triângulo retângulo ABC. Verificou-se que os alunos E e F responderam corretamente à atividade. A seguir, apresenta-se o protocolo da aluna F, que foi considerado correto: 108 Figura 41 – Atividade 4 – instrumento II – aluna F Fonte: Dados coletados pelo pesquisador Dentre os acertos parcialmente corretos, os alunos G e I responderam que a ) tangente de B diminuiu, mas, verificando os cálculos realizados e comparando à situação anterior, notou-se que, na verdade, a tangente aumentou. Analisando os esquemas dos alunos E, F, G e I, percebeu-se que os estudantes iniciaram a resolução fazendo um esboço da situação proposta e, na sequência, passaram à realização dos cálculos, ou seja, mobilizaram corretamente os conceitos de seno, cosseno, tangente e os conceitos-em-ação de ângulo, triângulo retângulo, razão, envolvidos na situação, obtendo inferências. No entanto, os alunos G e I, por motivo desconhecido, justificaram a tangente incorretamente. Segundo Vergnaud, “a automatização é evidentemente uma das manifestações mais visíveis do caráter invariante da organização da ação. [...] De fato, todas as nossas 109 condutas comportam uma parte de automaticidade e uma parte de decisão consciente”. (VERGNAUD, 1996, p. 158) Observou-se, também, que dois alunos não indicaram o aumento ou ) diminuição do seno, cosseno e tangente: a aluna R respondeu que o ângulo B e as ) razões aumentaram, e o aluno P explicou que o ângulo B aumentou, alterando o seno, cosseno e tangente. Foram obtidas, também, duas respostas incompletas: a ) aluna M escreveu que o ângulo B aumentou, e a aluna A respondeu que todos os ângulos aumentaram. Apesar desses alunos não explicitarem seus esquemas, deve) se ressaltar que todos perceberam um aumento no ângulo B , entretanto, esses alunos não conseguiram explicitar todos os conhecimentos que contribuíram com a organização racional de suas atividades. Por último, deixou-se de analisar as respostas dos alunos B, J, K e T, pois algumas delas continham partes corretas, mas sem justificativas coerentes. A última situação de validação consistia em escrever as relações de tg B̂ e tg Aˆ , a partir das razões sen B̂ /cos B̂ e sen Aˆ /cos Aˆ . Considerou-se que os alunos A, E, F, I, J, K, M, e P responderam corretamente. Os alunos A e M escreveram que os valores das razões e a tangente eram aproximados; o aluno K respondeu que, em relação ao ângulo Aˆ , era igual; mas, em relação ao B̂ , era diferente. No entanto, tais situações foram consideradas corretas e devidamente esclarecidas pelo professor, pois eles mobilizaram os invariantes operatórios corretamente, porém deixando de perceber que tais diferenças apresentadas eram constituídas por erros de medida e de aproximação. Como exemplo, apresenta-se o protocolo da aluna E. Figura 42 – Atividade 4 – instrumento II – aluna E Fonte: Dados coletados pelo pesquisador 110 Em seu esquema, pôde-se notar a presença de invariantes operatórios (teoremas-em-ação e conceitos-em-ação) e de inferências. Ao final, o aluno concluiu que a tangente (de um ângulo agudo) era o valor da divisão do seno pelo cosseno. Percebeu-se, também, que a aluna R não conseguiu inferir corretamente as relações entre as razões obtidas e os valores das tangentes, respondendo que “a razão sen B̂ /cos B̂ era congruente com o valor da tg B̂ e a razão sen Aˆ /cos Aˆ era aproximadamente o valor da tg Aˆ ”. O fato que levou ao erro encontrava-se no cálculo do cos Aˆ , pois a aluna utilizou equivocadamente o valor da hipotenusa igual a 5,8, quando o correto seria 6,3. Por último, foram constatadas três respostas sem as relações pedidas entre as razões e os valores das tangentes: • A aluna T não fez o cálculo das razões. Obter inferências a partir das razões era uma parte essencial para chegar-se às relações solicitadas. • O aluno G inferiu corretamente, mas não apresentou a relação. Percebeu-se que esse aluno obteve inferências, mas não soube por qual caminho seguir, indicando, dessa forma, a ausência de regras de ação; • O aluno B fez somente o cálculo da razão entre o seno e o cosseno do ângulo Aˆ . A seguir, apresenta-se o protocolo desse aluno: Figura 43 – Atividade 4 – instrumento II – aluno B Fonte: Dados coletados pelo pesquisador Esse aluno pode ter inferido que o quociente de 0,8 por 0,6 é igual ao de 0,6 por 0,8, ou ter se esquecido de dividir 0,6 por 0,8. Mesmo com esse caminho equivocado, foi possível perceber a ausência das regras de ação. ERROR: undefined OFFENDING COMMAND: ‘~ STACK: