XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 2 JOGAPREND: REFLEXÕES SOBRE A FORMAÇÃO LÚDICA DO PROFESSOR Fernando Donizete Alves Departamento de Educação Física e Motricidade Humana - UFSCar Aline Sommerhalder Departamento de Teorias e Práticas Pedagógicas – UFSCar Resumo O objetivo dessa pesquisa foi investigar as percepções de professores(as), em formação inicial e continuada sobre brincar, a partir de suas experiências na participação em uma atividade lúdica. Os dados foram coletados mediante a vivência de uma atividade lúdica (‘jogo dos toquinhos’). Foram participantes da pesquisa 229 professores do ensino básico e alunos de cursos de graduação e pós-graduação em duas cidades do interior do Estado de São Paulo, Brasil. As experiências vividas no jogo e relatadas pelos participantes traduzem aspectos da vida pessoal (realidade interna) e aspectos da vida coletiva ou sócio-cultural (realidade externa) tais como medos, ansiedade, prazer, tensão, crenças, valores, atitudes, preconceitos, regras etc. Os depoimentos apontam, em linhas gerais, para ambivalências que constituem as relações intersubjetivas dos participantes tais como eu e o nós, o público e o privado, ganhar e perder, adulto e criança, razão e emoção. O ‘como se’ do jogo, aponta para elementos da realidade psíquica dos participantes (subjetividades) que podem afetar sua prática pedagógica e que refletem concepções/percepções em torno do brincar e da criança: a criança das fases do desenvolvimento e, consequentemente, o brincar que corresponde a estas fases, uma infância que é improdutiva e, portanto, um brincar não sério, também improdutivo. É fundamental reatar os laços do brincar com o mundo adulto, sensibilizando e conscientizando professores para vivenciarem um papel de facilitadores da ludicidade na Educação Infantil. Uma compreensão mais ampla do processo formativo na Educação Infantil indica que o encaminhamento das situações cotidianas depende do binômio formação mais identidade profissional do professor, assim como o reconhecimento do valor e das implicações das ações docentes na construção da subjetividade da criança. Palavras-chave: Jogo. Intersubjetividade. Professor. Processos educativos. Educação escolar. INTRODUÇÃO Os jogos, as brincadeiras, os brinquedos, enfim, as atividades lúdicas acompanham o desenvolvimento da civilização humana desde seus primórdios. Em Homo Ludens, Huizinga (1980) argumenta que o jogo puro e simples é o princípio vital de toda a civilização, é uma função da vida. São antigos os indícios de existência de brinquedos, brincadeiras e jogos criados e vivenciados pelo homem nas mais diferentes culturas, em todos os cantos do Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006327 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 3 mundo. Vasconcelos (2006) apresenta alguns exemplos: o Museu Britânico, em Londres, possui em seu acervo brinquedos com mais de cinco mil anos, pertencentes à civilização egípcia e, no Brasil, as cavernas de São Raimundo Nonato no Piauí, guardam figuras gravadas que representam brinquedos e possíveis brincadeiras que envolviam crianças e adultos, datados de dez mil anos. Diante da incontestável história, cabe concluir que o jogo acompanha o trajeto da humanidade “demonstrando que o homem brinca e joga independente de seu tempo” (MELLES DE OLIVEIRA, 2005, p. 40). Isso nos remete à ideia de que o jogo é produção da Cultura, ou seja, representa símbolos, signos, valores, hábitos e costumes, comportamentos e objetos produzidos pela sociedade, pela coletividade, antecedendo e transcendendo os indivíduos que dela fazem parte. O jogo traz consigo elementos de nossa identidade pessoal e coletiva. Assim como nós inventamos, criamos, transformamos e/ou reproduzimos uma infinidade de jogos e brincadeiras, também somos inventados, (re)criados, transformados por eles. Nesse sentido, o valor do jogo (assim como de outros elementos da cultura corporal de movimento) para nossa aprendizagem e desenvolvimento é inestimável. Podemos pensar, então, que o jogo é nosso ponto de partida: é a partir dele que iniciamos nossa fantástica relação com o mundo da Cultura. É a partir do jogo e da brincadeira que nós ampliamos nossas experiências para outras atividades como o esporte, a dança, as lutas, a ginástica, o teatro, a literatura etc. Como diz Winnicott (1975) o jogo ou o brincar conduz naturalmente à experiência cultural; na verdade, constitui seu fundamento. A experiência cultural, portanto, surge como extensão direta da atividade lúdica das crianças. É nossa primeira forma de comunicação com o mundo que nos cerca. É assim, por exemplo, que o bebê estabelece suas primeiras relações com sua mãe: um jogo de olhares, toques, expressões que permitem que bebê e mãe se relacionem, se conheçam, se reconheçam. Cria-se um espaço intermediário entre bebê e mãe onde as necessidades do bebê se encontram com o desejo da mãe de satisfazê-las, de acolhê-las, possibilitando ao primeiro segurança e suporte para enfrentar as vicissitudes de um mundo que está além de si mesmo. É nesse espaço intermediário (que Winnicott chama de espaço transicional) que se constitui o brincar, que aos poucos vai ampliando seu espectro de alcance e, consequentemente ampliando as possibilidades de relação da criança com o mundo (sócio-cultural) que a cerca. Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006328 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 4 Aos olhos da criança o mundo é um grande parque de diversões, é o elo dela com o mundo maior que a cerca, portanto, espaço potencialmente educativo e/ou formativo. Esse é um dos motivos, talvez o mais importante, que possibilita a inserção do jogo ao cenário escolar. O jogo é a prova evidente e constante da capacidade criadora, de modo que “os adultos contribuem, nesse ponto, pelo reconhecimento do grande lugar que cabe à brincadeira e pelo ensino de brincadeiras tradicionais, mas sem obstruir nem adulterar a iniciativa própria da criança” (WINNICOTT, 1997, p. 163). O professor pode contribuir para a ampliação das experiências lúdicas das crianças, fornecendo-lhes materiais e ideias, mas sem exageros, uma vez que elas são capazes de encontrar objetos e inventar brincadeiras com muita facilidade, o que lhes proporciona prazer. Dolto (1998) aponta que as crianças precisam brincar tanto quanto precisam de contatos afetivos, de fazer, de falar, de ouvir respostas às suas perguntas. Impedindo-as de mexer em tudo, o adulto priva-as de tornarem-se inteligentes, de adquirirem um vocabulário. Para Kishimoto (1999, p. 36) “[...] utilizar o jogo na Educação Infantil significa transportar para o campo do ensino-aprendizagem condições para maximizar a construção do conhecimento [...]”. Para essa autora, essa união é possível desde que sejam respeitadas e mantidas as condições para a expressão do jogo, ou seja, a ação intencional da criança para brincar. Apesar da incessante busca por alternativas à prática pedagógica tradicional, a resistência de professores a inovações ainda é acentuada. Neste contexto, Camargo (1998) chega a afirmar que, que na atualidade, “poucas noções são tão vítimas de tanto preconceito quanto o lúdico” (p.16). Vasconcelos (2006) explica que o brincar na atualidade continua sendo visto pelos professores como lazer e passatempo infantil, como consequência da consolidação dos sistemas nacionais de ensino na Europa e América do século XIX (conhecida como Escola Tradicional), que tinha por objetivo transmitir o conhecimento científico e cultural acumulado, valorizando o professor como figura central do processo pedagógico. Essa educação tradicional valorizou demasiadamente o conhecimento pela razão menosprezando a dimensão emocional. Nesse contexto, as descobertas sobre o brincar e seu valor educativo não foram consideradas no espaço de educação institucionalizada, pois o brincar permaneceu na esfera menos valorizada que é a afetiva. Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006329 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 5 Porém, isso não significa que o adulto não possa se envolver com as brincadeiras das crianças, pois mesmo diante da resistência ao jogo e a brincadeira, subsiste em nós (adultos) uma carência lúdica, um desejo de reencontrar e deixar sair a criança que existe, insiste, resiste e não desiste de chamar dentro de cada um (EMERIQUE, 2003). Dessa forma, o (re)encontro com o brincar é inevitável para aqueles que assumem a função docente particularmente na Educação Infantil e, em consonância com a constatação de Emerique, muitos professores reconhecem uma carência lúdica, apresentando uma vontade de dinamizar suas aulas e envolver corajosamente as crianças numa aprendizagem mais significativa. Nosso maior desafio, como professores, é acolher a brincadeira da criança, entrar em seu mundo. Nessa direção, temos tentado recuperar o lúdico no mundo adulto, sensibilizando e conscientizando professores para vivenciarem um novo papel, o de facilitadores do lúdico no ambiente escolar. A formação lúdica do professor implica na necessidade de compreensão do brincar por parte do professor. Contudo, somente brincado é que se pode saber sobre o brincar (WASSERMAN, 1982). Assim, é essencial que o professor possa vivenciar o jogo e a brincadeira, sem se infantilizar, de modo que ele possa começar a observar o seu ser brincante, assumindo suas dificuldades iniciais (resistência) na perspectiva de provocar uma mudança de postura frente ao universo lúdico. O objetivo dessa pesquisa foi investigar as percepções de professores(as), em formação inicial e continuada sobre brincar, a partir de suas experiências na participação em uma atividade lúdica. METODOLOGIA Para esta pesquisa elaborou-se um jogo de regras nomeado de ‘jogo dos toquinhos’. É composto por 13 pedaços de madeira, de cor amarela, nas dimensões de 4x2 centímetros e 17 pedaços da mesma madeira, de cor vermelha, nas dimensões de 2x2 centímetros, todos da mesma espessura (1,7 cm), totalizando 30 peças. Sobre as regras do jogo: antes de iniciar o jogo cada participante deveria escrever, em uma folha de papel, uma estimativa de quantos toquinhos achava que conseguiria empilhar, um sobre um, durante o tempo de 30 segundos. Se durante este tempo, a pilha caísse, o participante poderia recomeçar ou reconstruir a pilha até o Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006330 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 6 tempo final, valendo ao final, somente os toquinhos que ficassem na pilha. Os pontos foram contados da seguinte forma: 2 pontos para cada toquinho estimado e colocado na pilha, 1 ponto a mais para cada toquinho não estimado e colocado na pilha, um ponto a menos para cada toquinho estimado e não colocado na pilha. Os participantes desta pesquisa foram alunos(as) dos cursos de graduação em Educação Física (licenciatura) e Pedagogia e de pós-graduação na área da educação de uma Instituição de Ensino Superior pública, no Estado de São Paulo. Também participaram do estudo professores(as) da rede pública de ensino básico do interior do Estado de São Paulo. No total, foram 229 pessoas participantes. A coleta de dados foi realizada mediante a vivência da referida atividade lúdica pelos participantes, que aconteceu em diferentes dias e horários, de acordo com a disponibilidade dos grupos. Foram explicadas as regras da atividade, sendo permitida a possibilidade de escolherem a ordem de cada um jogar. Os toquinhos eram dispostos sobre uma mesa, em uma sala de aula, de modo que os participantes pudessem realizar a atividade, ressaltando que a realização do jogo foi acompanhada pelos demais participantes. Assim que o participante estivesse preparado, acenava positivamente a um dos pesquisadores que iniciava a contagem do tempo de 30 segundos. Durante esse tempo, o objetivo do participante era empilhar os toquinhos um sobre outro. Ao término do tempo de 30 segundos, os pontos foram contados e o participante anotava, em sua folha, o número real (toquinhos efetivamente empilhados) e número de pontos alcançados. Neste momento, era solicitado ao participante que fizesse uma nova estimativa, na hipótese de uma nova participação no jogo. Depois que todos jogaram, foram apresentadas três questões, cuja resposta cada um deveria escrever em sua folha: “Se (eu) estivesse sozinho...” (como seria jogar sozinho, sem a presença de outras pessoas), “O que eu ganhei ou/e o que eu perdi nesse jogo?” e “Se fosse uma criança...” (como você se sentiria se fosse uma criança participando desse jogo). Os dados apresentados e discutidos neste trabalho, referem-se as respostas dos participantes sobre estas três questões. Os dados foram analisados e discutidos a luz da psicanálise como fundamentação teórica. PERCEPÇÕES SOBRE O JOGO E A CRIANÇA A vivência do ‘jogo dos toquinhos’ pelos participantes desta pesquisa, colocou em cena, ou seja, no ‘como se’ do jogo, elementos da experiência de cada um no que Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006331 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 7 tange a sua relação com o universo lúdico e, por conseqüência, com o universo da infância. Jogando, eles amarram passado, presente e futuro na tentativa de dar sentido às experiências vividas na realidade. Viver uma experiência significa ser afetado por alguma coisa, pessoa ou situação. Esta vivência é perfeitamente perceptível para o sujeito, ou seja, é consciente. Contudo, isso não que dizer que o sujeito saiba de todos os aspectos que a envolvem e nem que ele esteja imune às facetas inconscientes de sua ação ou de sua reação (MEZAN, 2002). As experiências vividas no jogo e relatadas pelos participantes traduzem aspectos da vida pessoal (realidade interna) e aspectos da vida coletiva ou sócio-cultural (realidade externa). Em outras palavras: medos, ansiedade, prazer, tensão, crenças, valores, atitudes, preconceitos, regras etc, que dizem respeito ao sujeito que, por sua vez, é parte de um determinado contexto social e cultural. Portanto, as percepções apresentadas pelos participantes a partir da vivência do ‘jogo de toquinhos’ reflete experiências (conhecimentos e saberes) constituídas nas relações intersubjetivas. Na primeira pergunta ‘Se (eu) estivesse sozinho...’ coloca em questão a relação entre o eu e o nós, entre o público e o privado, entre o particular e o coletivo. Como principais respostas, temos: estaria tranquilo/à vontade, teria melhor desempenho, estaria brincando e pouco ou nenhum nervosismo. Caracterizando-se esta atividade de empilhar toquinhos a partir de uma estimativa como um jogo com regras, pode-se afirmar que a regra é o olho do outro. Assim, a regra impera colocando a todos como fazer, ou seja, aquele que quiser brincar terá que seguir as regras (LAJONQUIÈRE, 1999). No jogo, busca-se realizar o desejo de um outro, que criou a regra, pois é a regra que ordena a relação com o outro e consigo mesmo. Na questão “O que eu ganhei e perdi nesse jogo”, a maioria dos sujeitos reconheceu que ganhou auto-confiança, experiência, consciência do limite, prazer de brincar, superação, satisfação e também perdeu medo, ansiedade, timidez. Em relação à perda, esta se mostra como condição necessária e permanente da vida humana. Viorsti (1999) afirma que não há perda que não possa levar a um ganho. E conclui: perder é o preço que pagamos para viver e é também a fonte de grande parte de nosso crescimento e de nossos ganhos. Diante disso, a perda estaria associada ao sofrimento, a solidão, ao abandono, ao fracasso? Ela estaria interditada a partir de um ideário que manda levar vantagem em tudo, que compromete com o sucesso, que obriga Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006332 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 8 a satisfação? Essas são questões que ficam para serem refletidas por cada leitor deste texto. Na questão “Se fosse uma criança” os participantes disseram seria brincadeira, não se sentiria pressionada, exploraria/criaria/imaginaria, seria espontânea, empilharia e derrubaria ou teria dificuldade em realizar a atividade, sentir-se-ia pressionada, teria pouco interesse pela brincadeira. Nestas falas, pode-se reconhecer, por um lado, a imagem do adulto projetada nessa criança e, por outro, o adulto permitindo-se sentir criança. Quanto à imagem que o adulto faz da criança brincando, pode-se dizer que, muitas vezes, o adulto atribui sentidos e significações prévias ao brincar infantil e ao brinquedo da criança como sendo os verdadeiros sentidos e significados das brincadeiras e jogos infantis. Ao invés deste adulto, principalmente pais e professores, descobrirem como cada criança brinca, os tipos de brinquedos e jogos preferidos, como se relacionam com outras pessoas em momentos de brincadeira, emergem em seu lugar, respostas prévias originárias das diferentes teorias. Estas teorias acabam por naturalizar o brincar, enquadrar o mesmo em fases de desenvolvimento ou apresentar as elaborações que os adultos fizeram a respeito desta ludicidade infantil (MRECH, 1998). O reconhecimento do valor educativo do brincar é de domínio público desde Rousseau. Não é nenhum segredo a contribuição do brincar na aprendizagem e conquistas de desenvolvimento pela criança. Esse é o discurso dos professores da educação básica, em especial da Educação Infantil. Mas quando olhamos as práticas pedagógicas notamos a desarticulação com esse discurso, principalmente quanto a acolher as construções/produções elaboradas pelas crianças em suas brincadeiras. Além da marginalização do brincar nas escolas, o professor emprega um tipo de atividade comumente denominada de ‘jogo didático ou educativo, como um mecanismo facilitador/didático da aprendizagem. Pode-se dizer que isso é um tipo de engodo, uma forma de seduzir as crianças tal como propunha Erasmo (1466-1536). Para Erasmo brincar é um meio, um suporte para seduzir as crianças, para trazê-las e mantê-las motivadas para o estudo. A proposta é enganar a criança “para fazê-la trabalhar, sem que se dê conta realmente disso [...] o trabalho deve se assemelhar, de maneira subjetiva, ao jogo, porém não se trata de um jogo, só guarda sua aparência” (BROUGÈRE, 2003, p. 55). Embora a criança acredite que esteja brincando, trata-se de uma atividade totalmente dirigida, controlada, direcionada para um determinado propósito/objetivo educativo. É uma excelente Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006333 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 9 estratégia de transmitir às crianças as informações desejadas, assim como valores e normas sociais como, por exemplo, brincadeiras e brinquedos para meninos e meninas. Isso é possibilitado em razão do grande interesse que elas demonstram pela atividade lúdica. Assim, sua exploração é puramente técnica (mecânica) e tem que garantir a transmissão de conteúdos pré-estabelecidos pelo professor, fato este que distancia da verdadeira valorização da cultura lúdica infantil. Para que o professor aceite o brincar infantil, é fundamental que ele permita-se brincar e sentir-se como uma criança. Isso porque o encontro com o brincar exige disponibilidade (interna) para acolher a brincadeira das crianças em toda sua plenitude, com toda a curiosidade própria da infância, que é colocada em jogo. Esse é o desafio para o professor, acolher as criações expostas pelas crianças e compartilhar com elas essa busca por saber e conhecer. Brincar é ‘brincar com’, como lembra Winnicott (1975). Dessa forma, brincamos com mais facilidade quando a outra pessoa (por exemplo: o professor) pode e está livre para brincar. Nossa experiência com uma educação e formação de educadores lúdicos tem mostrado que o jogo pode resgatar o valor da fantasia e do imaginário, fundamentais na educação, particularmente na educação para a(s) infância(s). Para tanto, não é suficiente dar a criança o direito ao jogo, é preciso despertar e manter nelas e também no professor o desejo pelo jogo (SOMMERHALDER E ALVES, 2011). CONSIDERAÇÕES FINAIS Segundo o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI), cabe ao professor o papel de estruturar o campo das brincadeiras na vida das crianças, disponibilizando objetos, fantasias, brinquedos ou jogos e possibilitando espaço e tempo para brincar (BRASIL, 1998). Este documento argumenta ainda que o brincar é uma atividade fundamental para o desenvolvimento da criança. Brincando as crianças podem desenvolver algumas capacidades importantes como a atenção, a memória e a imaginação. Além disso, por meio da atividade lúdica, “os professores podem observar e constituir uma visão dos processos de desenvolvimento das crianças em conjunto e de cada uma em particular [...]” (BRASIL, 1998, p. 28.). Inúmeros são os estudos (livros, artigos, dissertações, teses, documentos públicos) que fortalecem o valor educativo do brincar para a infância. Contudo, nem sempre essa relação entre jogo e educação, entre o professor, a criança e o jogo se dá de Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006334 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 10 maneira harmônica ou sem dificuldades. Muito ao contrário, há um hiato grande entre o discurso de valorização do brincar no espaço de educação escolar e aquilo que se observa no cotidiano das instituições de ensino básico, particularmente na Educação Infantil. Emerique (2004) alerta para o uso utilitário e pedagógico da atividade lúdica, tendência de muitos educadores que enxergam no lúdico somente um meio para se alcançar outros objetivos fora e além dele. Talvez se refira à didatização do lúdico em prol da transmissão de determinados conteúdos ou de determinadas saberes/conhecimentos. Portanto, não é o lúdico que está em questão, nem aquilo que ele fertiliza. Na mesma direção, Wajskop (1999) sinaliza que boa parte das instituições escolares tem didatizado a atividade lúdica, restringindo suas possibilidades educativas a objetivos pré-determinados. Com isso, além de cercear a exploração, a descoberta e a criação da criança, a escola toma a brincadeira como uma via facilitadora para a transmissão de uma determinada visão de mundo, estabelecida a priori por ela. Segundo Wajskop (1996, p. 206) a utilização do lúdico como instrumento didático “resulta numa intervenção intencional e prescritiva do professor, através da oferta de materiais e jogos didáticos [a partir dos quais] acredita-se que as crianças possam ser preparadas para as aprendizagens futuras”. Ao mesmo tempo, a autora aponta para situações em que o lúdico é ausente ou proibido dado sua associação ao prazer e a liberdade o que o torna um ‘estorvo’ para as situações de aprendizagem. Não é sem razão que Bacha (2003, p. 197) afirma que “nas nossas escolas as crianças não brincam mais, elas trabalham”. Segundo a autora, isso denota uma cisão entre brincar e estudar, de modo que ao primeiro é concedido direito de existência em hora e lugar determinados, fora dos quais assume ares de transgressão. Haverá o tempo para o sério (a aprendizagem) e o tempo para a recreação ressalta Oliveira (2006), sugerindo uma incompatibilidade entre o brincar e a educação escolarizada. Emerique (2003) ressalta ainda que nascemos e crescemos imersos em uma cultura antilúdica que costumeiramente diz: “deixe de brincadeira’ ou ‘você só pode estar brincando comigo’. Uma cultura antilúdica que estimula a deixar para trás a infância e a alegria: ‘isso é coisa de criança’ ou ‘muito riso, pouco siso (juízo)!’. Na escola, diz o autor, ouvimos: ‘vamos parar de brincar que vai começar a aula!’. Essas observações do autor o levam a questionar o distanciamento da escola em relação ao prazer da criança e do professor. Bacha aponta que: “talvez não haja nada mais Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006335 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 11 característico das escolas que sua estranheza para com o prazer da criança e do professor” (EMERIQUE, 2003, p. 13). Lajonquière (1999) aponta o distanciamento do adulto em relação à criança, cujo eixo de movimento é a criança que vive no inconsciente do professor, isto é, a criança a sua frente, com a qual se depara o professor lembra inconscientemente a criança que um dia foi para outros e que permanece recalcada. De certa forma, lembra o adulto de sua fragilidade e incompletude própria da complexidade humana. Para esse autor, o sucesso da educação está na relação que se estabelece entre o adulto e a criança cuja palavra de ordem está no desejo. Por isso, em defesa do eu, o adulto formula prescrições, proibições e restrições sempre justificadas sobre o que fazer com as crianças. Talvez aí resida a tentativa de se reduzir a infância a uma fase do desenvolvimento evolutivo do humano e de enquadrá-la em teorias que produzem a infância em que nada pode restar. Mas a criança, em seu território, é desarmônica e não se encaixa em nenhuma forma, técnica ou estágio prefixado (BACHA, 2002). Considerando que a criança não é matéria inerte, ela reage à ação do professor, colocando em cena desejos e demandas que podem se chocar com os desejos e demandas do professor. A criança pode apresentar empatia ou antipatia às ações e à própria figura do professor, considerando que ele é suporte de investimento afetivo daquela. Na mesma medida, o professor também é afetado pela criança, pelo simples fato de que o trabalho sobre e com seres humanos faz retornar sobre si a humanidade de seu objeto. O professor se vê diante de sua própria humanidade espelhada na criança que está à sua frente. Uma suposta neutralidade do professor sobre as relações e as práticas educativo-pedagógicas desmonta-se diante da incontornável realidade de sua humanidade. Jogar e/ou brincar reflete a infância, o desejo e a incompletude humana. Não se trata simplesmente de um professor organizador das condições e situações sociais adequadas para que a criança interaja com as pessoas, com a cultura e seus objetos do conhecimento. Na educação escolarizada da primeira infância, o modo como este profissional alimenta, aceita, recusa, investe ou negligencia as vicissitudes que o bebê e a criança enfrentam e descrevem sob as diversas formas e linguagens, fortalece ou enfraquece a construção e a preservação do eu. Mais do que arrolar orientações sobre o comportamento do professor, é preciso discutir e considerar o valor da educação/cuidado como pertencente a um espaço que inaugura a constituição do Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006336 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 12 sujeito, esta intersubjetividade e, por consequência, o desenvolvimento emocional do humano (SOMMERHALDER E ALVES, 2012). O fato de se compreender que a prática docente não está neutralizada pelo dinamismo psíquico não implica tornar a profissão do professor mais complicada e mais difícil. “Trata-se de acolher a complexidade da experiência educativa abrindo espaço para a presença da vida desejante, tratando da dor e da delícia de ser educador, esse ofício implicado na formação de um outro e de uma cultura” (OLIVEIRA, 2008, p. 9). A complexidade do processo formativo e a especificidade da Educação Infantil exigem uma reconsideração da prática educativa, reconhecendo a presença, nesse processo, da subjetividade dos sujeitos implicados (professor e crianças). Uma compreensão mais ampla do processo formativo na Educação Infantil indica que o encaminhamento das situações cotidianas depende do binômio formação mais identidade profissional do professor, assim como o reconhecimento do valor e das implicações das ações docentes na construção da subjetividade da criança. Um desafio que se estabelece nesse percurso da docência é o de possibilitar ao professor a autoria do seu fazer docente, construindo um caminho autêntico, animado muito mais pela sua sensibilidade e pela sua alma, do que pelas certezas pedagógicas já consolidadas e postas sobre ele. REFERÊNCIAS BACHA, M.N. A arte de formar: o feminino, o infantil e o epistemológico. Petrópolis: Vozes, 2002. ______ Psicanálise e educação: laços refeitos. Campo Grande: Ed. UFMS, 2003. BRASIL. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO. Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil – v. 1. Brasília: MEC/SEF, 1998. BROUGÈRE, G. Jogo e educação. Porto Alegre: Artes Médicas, 2003. CAMARGO, L. de L. Educação para o lazer. São Paulo: Moderna, 1998. EMERIQUE, P.S. Brincaprende: dicas lúdicas para pais e professores. Campinas, SP: Papirus, 2003. ______ O lúdico e a escola. In: SCHWARTZ, G. M. (Org.) Dinâmica lúdica: novos olhares. Barueri, SP: Manole, 2004, p. 1-17. Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006337 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 13 HUIZINGA, J. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. São Paulo: Perspectiva, 1980. KISHIMOTO, T.M. . Jogo, brinquedo, brincadeira e a educação. 3ª ed. São Paulo: Cortez, 1999. LAJONQUIÈRE, L. Infância e ilusão: escritos de Psicanálise e educação. Petrópoles: Vozes, 1999. MELLES DE OLIVEIRA, G. G. Brincando com sucata: a espontaneidade em jogo. 2005. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Universidade Estadual Paulista, Assis, 2005. MEZAN, R. Interfaces da psicanálise. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. MRECH, L.M. Além do sentido e do significado: a concepção psicanálitica da criança e do brincar. In: KISHIMOTO, T.M. (Org.) O brincar e suas teorias. São Paulo: Pioneiras, 1998. p. 155-72. OLIVEIRA. M. L. Notas introdutórias. In: ______ (Org.) Pesquisa em educação e psicanálise. 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