Percepção de risco: adolescente gestante
PERCEPÇÃO DE RISCO: O CONTEXTO DA
ADOLESCENTE GESTANTE
PERCEPTION OF RISK: THE PREGNANT TEENAGER
CONTEXT
Valéria da Silva Fonseca*
RESUMO: Este estudo versa sobre a adolescência e gestação em suas dimensões biológicas e
socioculturais. O objetivo deste estudo é analisar a percepção de risco no contexto da gestante adolescente. A pesquisa foi realizada, em 1998, com 20 adolescentes gestantes, com idade entre 12 e 17 anos,
atendidas no Ambulatório de Pré-Natal do Instituto Fernandes Figueira/FIOCRUZ/MS, situado no Município do Rio de Janeiro. Trata-se de uma pesquisa exploratória, de abordagem qualitativa, em que as falas
foram registradas através de entrevista semi-estruturada e os dados analisados à luz da hermenêutica
dialética. Concluiu-se que a adolescente gestante é considerada como uma cliente diferente, entretanto
foram observadas contradições, ora a gestante é aceita com naturalidade pela equipe de saúde e ora é
compreendida como cliente de risco.
Palavras-chave: Adolescente; enfermagem; gestação; risco.
ABSTRACT:: This study examines adolescence and gestation under their biological and social-cultural
ABSTRACT
dimensions. Its purpose was to analyze the perception of risk in the context of the pregnant teenager. The
research has been carried out in 1998, at the Prenatal Clinic of the Institute Fernandes Figueira / FIOCRUZ
/ MS, a federal public institution located at Rio de Janeiro – Brazil. The group studied was composed of 20
pregnant adolescents, with ages from 12 to 17 years old. The exploratory research, of a qualitative
approach, has been conducted using semi-structured interviews. The speeches were registered and data
analyzed at the light of the dialectical hermeneutics. We have concluded that the pregnant adolescent is
considered as a distinct client. However, we have also observed contradictions, sometimes being the
pregnant teenager accepted normally by the health team, and other times viewed as a client under risk.
Keywords: Adolescent, nursing; gestation; risk.
INTRODUÇÃO
As instituições de saúde de caráter público apresentam modalidades de abordagem da adolescente gestante que enfatizam um cuidado diferenciado, uma atenção ímpar, que deposita na figura da adolescente a necessidade de uma intervenção mais cuidadosa no processo de gestação.
Habitualmente, tal postura é contextualizada, com
maior incidência, nos ambulatórios de pré-natal onde se
incorpora, na rotina da instituição, a reserva de um dia
ou um horário específico para a adolescente gestante,
como o que se pôde observar na unidade em que desenvolvemos a pesquisa. Dessa forma, todo o seu convívio
durante o ciclo gestacional se dá somente com outras
adolescentes gestantes e com a equipe de saúde que lhe
presta assistência.
O desenvolvimento aqui apresentado
corresponde a um recorte da Dissertação de
Mestrado em Enfermagem Adolescer Gestando
p.278 •
R Enferm UERJ 2003; 11:278-83.
ou Gestar Adolescendo – Um Confronto do Biológico com o Social que tratou de uma realidade
que permanece imutável na malha da abordagem
à saúde da adolescente gestante.
O objetivo deste estudo é analisar a percepção
do risco no contexto da adolescente gestante.
REFERENCIAL TEÓRICO
Pereira apud Monteiro et al. comprova que
1
a menor ou maior preocupação com o tema da adolescência atravessou a história da humanidade, assumindo características diversas sempre compatíveis
com os valores socioculturais de um dado momento
histórico. A adolescência, de acordo com Ayres apud
Schraiber (p.139)2, só passa a assumir relevância,
“em termos de quantidade e de uma identidade
objetal”, que implicasse sua maior difusão no meio
Percepção de risco: adolescente gestante
Disseram que é porque (pausa) eu fui num posto de
saúde, aí falaram que aqui era melhor porque era prá
adolescente e gravidez de alto risco. (D.15 anos, mãe
aos 14 anos)
O Ministério da Saúde6, ao denominar fator de
risco, é cuidadoso e recomenda critérios cautelosos e
bem construídos ao se nomear essa ou aquela condição como de risco. Fator de risco, assim, é aquela característica ou circunstância que se associa à probabilidade maior de o indivíduo sofrer dano à sua saúde.
Tais fatores podem ser tanto indicadores de risco como
causas de dano à saúde.
O mesmo documento não trata especificamente do fator adolescência como causa de dano à saúde
na gestação, mas como possível indicador de risco,
enquadrado como biológico, pertinente à gestação.
Esse contexto, de fato, atende aos modelos conceituais
de saúde e doença que residem no modelo biomédico
e, indubitavelmente, impregnam o cotidiano de tal
maneira que a própria população de adolescentes gestantes estabelece uma associação imediata de seu estado fisiológico com a possibilidade do patológico. Tal
situação é ressaltada no depoimento a seguir:
Porque a minha colega teve o nenén dela aqui, que nasceu com os intestinos para fora. Aí foi, ela falou que
aqui cuidava também de adolescentes, mas vim prá cá já
tava com quatro meses. (E.16 anos, mãe aos 16 anos)
Kleinenbaum apud Cunha (p. 44)7 afirma
que a expressão fator de risco é usada pelos
epidemiologistas para indicar “uma variável que se
acredita esteja relacionada com a probabilidade do
desenvolvimento de uma doença ou do evento em
um indivíduo”. Prossegue propondo duas formas de
abranger a questão: a primeira versando sobre os fatores envolvidos para a ocorrência do evento da gravidez na adolescência; a segunda, já em presença da
gravidez, estuda condições e/ou fatores que possam
interferir no curso ou no resultado final.
Fletcher8, ao refletir sobre a denominação de risco, no contexto do setor saúde, destaca que esse termo refere-se, genericamente, à probabilidade de algum evento não desejado, embora no decorrer da discussão apresente um sentido mais restrito, centrando
o enfoque na probabilidade de que pessoas expostas a
certos fatores considerados de risco possam adquirir
posteriormente uma doença.
Kuschnir9, ao analisar a evolução dos conceitos, abrange desde a “epidemiologia da constituição
pestilencial e dos miasmas”, passando pela era
bacteriológica do final do século passado até os anos
50, chegando enfim “a epidemiologia dos fatores de
p.280 •
R Enferm UERJ 2003; 11:278-83.
risco”; aponta os dois caminhos fundamentais da
atualidade por onde seguem seus estudos: da promoção à saúde e prevenção à doença em termos coletivos; e ao aspecto clínico que valoriza o diagnóstico
e a terapêutica, ou seja, imbricada em uma perspectiva biomédica.
A presença de um ideário de risco, ainda que
nenhuma das participantes tenha apresentado qualquer indicador biológico de risco durante o pré-natal, está impregnado em todas as falas, a exemplo do
registrado a seguir:
[...] o pessoal me falou que aqui é médico de adolescente, porque o pessoal lá da Rocinha, disse que podia
fazer o pré-natal aqui e ter o nenén aqui, me falaram
que aqui tinha grupo de adolescente e pré-natal arriscado. (A. 16 anos, mãe aos 14 anos)
Kuschnir9 destaca em seus estudos que reconhece a existência do que chamou “uma cultura de riscos” e de “um medo de riscos” na abordagem dos programas direcionados à saúde do adolescente, pois
evidenciam o medo que os profissionais da saúde sentem deles.
Porque eu tentei vaga em tudo e me diziam que não
tinham vaga, num sei se eles tinham medo por causa da
minha idade. Minha irmã faz tratamento aqui, no filho
dela, aí ela me trouxe prá cá....aí marcaram a consulta e
eu comecei a vir. (E.17anos, mãe aos 16 anos)
Ora, se passássemos a considerar a doença
como um dado natural, sem passado, fruto de um
desequilíbrio momentâneo ou de um descompasso,
estaremos inserindo-a na clínica. E de que forma
seria mais adequado promover esse ser adolescente
alçado às instâncias da vulnerabilidade? É incontestável que o enfoque de risco faculta essa visão.
Se o risco é a probabilidade de que um evento indesejável ocorra, deveríamos, sim, estar refletindo de que forma tais rótulos biológicos mascaram o compromisso social do Estado, camuflando suas responsabilidades e deficiências na educação em saúde, que permite e regulamenta as
proles precoces.
Canguilhem10, quando organiza e compreende o significado de doença através da visão da fisiologia e da patologia, parece aventar a possibilidade de subverter um status quo, construindo um relevante histórico dos recortes da doença. Ao ponderar sobre a normatividade biológica, considera:
Se existem normas biológicas, é porque a vida, sendo
não apenas submissão ao meio, mas também instituição de seu meio próprio, estabelece, por isso
mesmo valores não apenas no meio, mas também
Percepção de risco: adolescente gestante
Monteiro et al.1, referindo-se à equipe, chamam
a atenção para o fato de que esse pré-natal deva ser
realizado numa unidade de saúde que disponha de
Pré-Natal Especial Multidisciplinar para Adolescentes. Entretanto, essa equipe deverá estar sensibilizada e capacitada para assistir essa faixa etária com características específicas, consideradas de risco principalmente psicossocial e em fase de grandes transformações. Observamos o que é ressaltado a seguir:
Aqui (na enfermaria), acho que eu não me senti tratada como uma adolescente, não porque, inclusive uma
enfermeira quando veio me dar um remédio, eu disse
que não queria não. Aí ela disse: B., você já é mãe.
Quem é mãe não é mais criança, você já é de maior!
Eu não me senti tratada como adolescente, me senti
tratada mais como uma mulher adulta: Se você quiser
tomar, você toma, você é dona do seu nariz. (B. 17 anos,
mãe aos 16 anos)
Este é o savoir-faire envolvido na inculcação
massiva da ideologia da classe dominante. É o confronto do dominador com o desigual e manutenção
da desigualdade, pois, na medida em que lhe é outorgado um papel social, para o qual ela não vem,
nem havia sido preparada; não perdeu o referencial
biológico de que ainda é adolescente - porque de
fato o é. O recorte a seguir ilustra tal situação:
Mais como adolescente no pré-natal e mais como mulher aqui em cima, na internação. Por causa que na hora
que eu fui ter nenén, elas (as médicas no pré-parto)
falaram assim, uma com a outra: Ah, ela é igual às
outras.Porque eu nunca senti dor, aí eu fiquei gemendo
muito, sabe. Aí, a outra (profissional de saúde) falou:
Ela grita muito. Ah! Mas ela é igual às outras mulheres
quando vão ter neném, é assim mesmo. (A. 15 anos,
mãe aos 14 anos)
Bocardi16 , ao dissertar sobre o parto como
espaço de medo para a adolescente, observou que
os profissionais da área de saúde, como médicos e
auxiliares de enfermagem, não se preocupam com
a questão da dor no trabalho de parto das adolescentes, por acreditarem que a dor é natural e
peculiar ao parto e que, para as adolescentes, a
dor se intensifica no momento do trabalho de parto
devido ao medo que esses profissionais associam
à insegurança e ao despreparo que tais jovens
apresentam para a maternidade.
Araújo apud Monteiro et al.1 enfatiza que o
atendimento diferenciado à adolescente não se
baseia no pressuposto de gravidez de risco potencial,
já que considera seu desempenho gestacional semelhante ao das adultas, mas atenção especial deve ser
dispensada em função das condições psicológicas.
p.282 •
R Enferm UERJ 2003; 11:278-83.
Essas condições influenciariam positiva ou negativamente, o que propiciaria à adolescente ver o parto como um castigo, quando o papel do profissional
deve ser o inverso, demonstrando-lhe que ali se inicia um grau de responsabilidade maior. O depoimento
a seguir reforça tal problemática:
Depois que eu tive neném, eu fui tratada como mulher
adulta, eu acho que só fui tratada como adolescente lá
embaixo, onde eu fiz o pré-natal. Sei lá, porque antes
eles falavam de um jeito, depois que eu tive filho aí eles
falavam assim: Mãe. Entendeu? Falavam mais assim
prá mim entender as coisas, porque eu tava grávida eu
não entendia nada, eu fazia pré-natal, mas não entendia
nada.(E. 15 anos, mãe aos 13 anos)
Essas falas, com destaque da fala a seguir,
não traduzem somente o despreparo para a maternidade, refletem a possível ineficiência de um
pré-natal que pensa prepará-las para o parto e para
a maternidade, expressam o despreparo dos profissionais fora do contexto pré-natalício na relação com essa adolescente gestante.
No pré-natal, o cuidado era comigo, com carinho, eu
pegava era muito médico, Drª. S., uma doutora que
tava lá e já tinha me examinado de uma outra vez. Na
hora de eu me internar foi totalmente diferente, a que
me tratou(a médica) foi igual ela tratasse as outras
mulheres adultas, assim mais adultas. (A 16 anos, mãe
aos 14 anos)
O que toma forma em tais depoimentos é
de fato de que a manutenção do status quo permanece velado, uma desigualdade temporária
com nuanças de permanente, onde os indivíduos são desiguais por valores atribuídos, entre eles,
a idade. O atendimento às necessidades,
freqüentemente, está voltado mais para as próprias instituições do que para as necessidades
mais implícitas da clientela.
CONCLUSÃO
Ser diferente é um atributo de difícil sustentação, especialmente quando é um referencial que
demanda do coletivo para o individual, portanto,
construído de fora para dentro. Existe um conflito
histórico, determinado socialmente, que poderia
explicar as contradições observadas no decorrer do
estudo, em que a adolescente gestante ora é aceita
com naturalidade e ora remetida ao discurso do anormal, isto é, de risco.
As observações efetuadas na política
institucional não são privilégio exclusivo de uma úni-
Download

o contexto da adolescente gestante