UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ - UECE CENTRO DE HUMANIDADES MESTRADO ACADÊMICO EM POLÍTICAS PÚBLICAS E SOCIEDADE- MAPPS TUANY MARIA SOUSA MOURA PERCEPÇÕES SOBRE ADOECIMENTO E RISCO NO TRABALHO DOS POLICIAIS MILITARES DO CEARÁ. FORTALEZA 2015 TUANY MARIA SOUSA MOURA PERCEPÇÕES SOBRE ADOECIMENTO E RISCO NO TRABALHO DOS POLICIAIS MILITARES DO CEARÁ. Dissertação de Mestrado apresentada ao programa de Pós-Graduação do Mestrado Acadêmico em Políticas Públicas e Sociedade da Universidade Estadual do Ceará - UECE, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Políticas Públicas. Orientador: Prof. Dr. João Bosco Feitosa dos Santos. FORTALEZA 2015 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação Universidade Estadual do Ceará Sistema de Bibliotecas Moura, Tuany Maria Sousa. Percepções sobre adoecimento e risco no trabalho dos Policiais Militares do Ceará. [recursoeletrônico] / Tuany Maria Sousa Moura. – 2015. 1 CD-ROM: il.; 4 ½ pol. CD-ROM contendo o arquivo no formato PDF do trabalho acadêmico com 132 folhas, acondicionado em caixa de DVD Slim (19 x 14 cm x 7 mm). Dissertação (mestrado acadêmico) – Universidade Estadual do Ceará, Centro de Estudos Sociais Aplicados, Mestrado Acadêmico em Políticas Públicas e Sociedade, Fortaleza, 2015. Área de concentração: Políticas Públicas e Sociedade. Orientação: Prof. Dr. João Bosco Feitosa dos Santos. 1.Trabalho. 2. Condições de Trabalho. 3. Sofrimento. 4. Adoecimento. I. Título. AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus, porque acredito que ele é o responsável por promover todas as combinações de encontros, reencontros e partidas que compõe a trajetória de uma vida. E até o presente momento, posso dizer que ele foi muito feliz na disposição e arranjos de personalidades que encontrei nestes caminhos de felicidades e dificuldades. Portanto, todos os nomes ditos a seguir contribuíram direta ou indiretamente para este trabalho, assim como foram e permanecem sendo parte integrada da minha formação enquanto profissional e enquanto pessoa. Primeiramente, permaneço grata, aos meus pais Roberto Fernandes e Maria Imaculada pela dedicação, paciência, amor, carinho e um leque de adjetivos que podem tentar expressar essa gratidão cujos pesos e medidas são incapazes de dimensionar. As minhas tias Cris e Eunice. A memória dos meus avós. Às minhas amigas que cresceram junto comigo dividindo angústias, vitórias, dúvidas, dentre outras coisas, em várias fases da vida: Roseanny, Hayanne, Fernanda e Lorena. Aos meus amigos de faculdade que se transformaram em amigos pra vida toda: Bárbara (espero que um dia me perdoe por perder o dia da apresentação de sua monografia), Rubens, Nettu, Juliana, Dayane, Marcão, Camila, Renato, Irum, Pedro, Hélida, Roberth, Larissa e Bia. Um agradecimento especial também ao Gleison (Gleisim de açúcar), Rubens (Rubinho) e Wendell (Wendellzim) que acompanharam essa trajetória contribuindo imensamente para esse trabalho com suas competências acadêmicas, imaginação sociológica, rigor e criatividade intelectual sem medidas. Além de todo companheirismo, amizade, compreensão e carinho. Agradeço ainda aos componentes dos grupos de estudo que fizeram parte da minha formação ainda na graduação: GPDU (Gestão Pública em Desenvolvimento Urbano) notadamente os participantes do TRECOS (Trabalho e Economia Solidária) Renato Alverne e Larissa por contribuir na construção de conhecimento relacionados ao trabalho. Ao Joaquim Guedes, capaz de um amor, carinho e compreensão que se estende a todas as identidades que assume, seja ela profissional, como filho e como namorado. Dele admiro todo o amor que é capaz de expressar em suas ações. Sou grata a Deus por tê-lo próximo a mim, e assim pretendo que permaneça até quando for saudável e construtiva a felicidade que construirmos juntos. Obrigada por ser tão importante na minha vida, Joaquim. As professoras Angélica Pinheiro e Regina Maciel, por contribuírem para meu aprendizado e experiência em pesquisa. Além da dedicação, profissionalismo, ética que inspiram e são exemplos a seguir. Ao Professor Bosco Feitosa, meu orientador, por ter me ajudado, desde a graduação, nos estudos relativos ao trabalho e acreditar no meu potencial acadêmico, possibilitando-me um aprendizado e um acompanhamento essencial a minha formação. Ao professor Gil Jacó que, assim como a Professora Regina, deram grandes contribuições na fase de qualificação, enriquecendo enormemente as problemáticas que vieram a se desenvolver no trabalho final. A todos os policiais e funcionários do CBS que tive contato durante a pesquisa. Aos entrevistados que acreditaram na importância desse trabalho e responderam com compromisso a todos os questionamentos que lhe foram apresentados. Ao Centro Biopsicossocial por todo apoio dado à realização da pesquisa. Todos sempre solícitos e preocupados em ajudar. A Cristina do MAPPS, que sempre socorreu, nós alunos, nos percalços e dificuldades apresentadas durante o curso do mestrado. Ao Mestrado como um todo por proporcionar a realização dessa pesquisa. A Capes pelo financiamento promovido através da bolsa. A todos que possivelmente esqueci e também aqueles que tornaram minha passagem na Universidade mais feliz ou menos problemática. Meus sinceros agradecimentos. RESUMO Durante os anos de 2012 a 2014 os policiais militares do estado do Ceará tornaram-se, com certa freqüência, manchetes nos jornais locais. Todavia, dessa vez, não ocupavam as páginas policiais, mas preocupações e polêmicas em torno da quantidade de Licenças para Tratamento de Saúde (LTS) concedidas, à categoria, pela Perícia Médica do Estado. Pesquisas (MINAYO, 2008; SILVA, 2008) associam às condições e organização de trabalho as razões para o sofrimento, adoecimento e a insatisfação da categoria. A partir desse cenário, este estudo buscou compreender os significados subjacentes a essas licenças, ou seja, investigar as repercussões e significados que as condições e a organização do trabalho assumem na vida do policial militar. Além disso, observamos como as experiências de vitimizaçao e violência no trabalho são percebidas e representadas pelos policiais militares que estão de Licença a partir do discurso que elaboram a respeito da sua trajetória na instituição. A pesquisa foi realizada no Centro Biopsicossocial da Polícia Militar (CBS) entre junho e agosto de 2014 com a realização de observação participante e entrevistas semi-estruturadas, além de visitas às Associações de Praças dos Policiais Militares. Como resultado, encontramos que, a Licença insere-se nas ações e estratégias que o policial ―desfavorecido‖ no campo, utiliza para resistir ou mesmo refazer suas condições de vida, ainda que temporariamente, apesar da coerção militar e institucional. Além disso, observamos que ela também faz parte da construção de um discurso no qual o policial se coloca como sujeito de direitos no contexto da sociedade civil democrática. Palavras-chaves: condições e organização do trabalho; sofrimento; adoecimento; trabalho; polícia. ABSTRACT During the years 2012-2014 the state of Ceara military police have become, with some frequency, headlines in the local newspapers. However, this time, did not occupy the crime pages, but concerns and controversies surrounding the amount of Licenses for Health Care (LTS) granted to the category, the state medical examiner. Research (MINAYO, 2008; SILVA, 2008) associate the conditions and work organization the reasons for suffering, illness and dissatisfaction category. From this setting, this study aimed to understand the meanings behind these licenses, namely to investigate the implications and meanings that conditions and work organization take the life of the military police. Also, we observe how the experiences of victimization and violence at work are perceived and represented by the military police who are license from the speech that elaborate about his career at the institution. The survey was conducted in Biopsychosocial Center of Military Police (CBS) between June and August 2014 with the completion of participant observation and semi-structured interviews, and visits to the Military Police Squares Associations. As a result, we find that the license is part of the actions and strategies that the police "disadvantaged" in the field, use to resist or even redo their living conditions, even temporarily, despite the military and institutional coercion. In addition, we observed that it is also part of the construction of a speech in which the officer is placed as a subject of rights in the context of democratic civil society. Keywords: conditions and work organization; suffering; illness; work; police SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 9 2. TRABALHO E POLÍCIA ................................................................................................... 17 2.1 A gênese: o estado e a formação da polícia. ................................................................... 17 2.2. A forma social do trabalho: o policial militar enquanto trabalhador. .............................. 28 2.2.1 A categoria trabalho e o policial enquanto trabalhador. ........................................... 29 2.3. O mundo do trabalho e o trabalho policial. .................................................................... 35 2.4. Algumas especificidades do trabalho policial. ............................................................... 46 3. NO RASTRO DA PESQUISA: SOBRE AS INCURSÕES E COLETA DE DADOS EM CAMPO.................................................................................................................................. 51 3.1 A inserção em campo: Desafios e estratégias. ................................................................ 53 3.1.1 A observação como ferramenta metodológica ......................................................... 56 3.1.2. Afetar e ser afetado pelo campo: inserindo-se nas redes de poder. .......................... 63 3.2. A entrevista como técnica de coleta de dados e tentativa de imersão nas experiências individuais dos sujeitos. ...................................................................................................... 67 3.2.1. A seleção e o perfil dos entrevistados. .................................................................... 68 4. O LUGAR DA DOENÇA NA POLÍCIA MILITAR: OS SIGNIFICADOS DAS LICENÇAS PARA TRATAMENTO DE SAÚDE (LTS). ........................................................................... 71 4.1. A espiral do adoecimento na polícia militar, a noção de campo e dominação. ................ 72 4.2. A relação entre As Licenças para Tratamento De Saúde-LTS e a luta por melhores condições de trabalho. ......................................................................................................... 78 4.3. Policiais ―Modernos‖ e Policiais ―Antigos‖, trajetórias, estratégias e enfrentamentos diferenciados. ...................................................................................................................... 85 4.3.1. A LTS e as relações de poder. ................................................................................ 89 4.4. O quadro de formação do ―novo discurso‖. ................................................................... 96 5. NARRATIVAS DE MEDO, SOFRIMENTO E ESTIGMAS. ............................................ 100 5.1. As condições de sofrimento no trabalho policial. ........................................................ 101 5.2. Revendo uma trajetória. .............................................................................................. 106 5.3. Acusação, percepção, estigma e identidade profissional. ............................................. 113 5.4. Vitimização objetiva e subjetiva. ................................................................................ 117 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS. ........................................................................................... 124 7. REFÊRENCIAS BIBLIOGRÁFICAS. .............................................................................. 128 9 1. INTRODUÇÃO O processo de construção desse estudo se deu a partir de uma proposta de encontro entre a sociologia do trabalho e a inserção de sujeitos até então não convencionais a sua análise. Esse encontro foi promovido objetivamente por meio da participação no projeto: POLÍTICAS DE SEGURANÇA PÚBLICA, TRABALHO POLICIAL E CONFLITUALIDADES 1. O projeto tinha como objetivo estudar as dinâmicas da segurança pública a partir das práticas policiais em quatro eixos de investigações, dentre eles2 as condições e organização do trabalho policial. A partir, contudo, da delimitação sugerida inicialmente no projeto, uma série de transformações se seguiu, conforme os encontros entre pesquisadora e sujeitos da pesquisa foram ocorrendo, seja a partir do conhecimento mediado pelos outros, nas leituras específicas sobre polícia, seja por meio do resultado das interações de apresentação e acesso contínuo ao campo. Dessa forma, apesar de não ter sido um campo de estudo acadêmico anterior, a polícia foi-se mostrando um instigante objeto de compreensão, conforme nossa aproximação foi sendo construída. Conforme nos lembra Weber (1991), Oliveira (2006), dentre outros, o olhar do pesquisador é construído a partir de sua orientação epistemológica, suas experiências anteriores, sua formação acadêmica, bem como os universos sociais do qual é parte integrante. Dessa maneira, a subjetividade do pesquisador é expressa nesse olhar que não só seleciona os fenômenos sociais, como também conduz o recorte realizado na realidade social durante processo de delimitação e construção do objeto. Assim, não existe uma neutralidade na relação pesquisador-sujeito da pesquisa, mas uma tentativa de objetivação no decorrer da realização do estudo. Com uma experiência anterior na área de trabalho, minha formação foi orientada a perceber as relações entre trabalho e sociedade, mas desde a graduação, tive experiências na qual a especificidade dos 1 (Processo 552454/2011-7)(Chamada Pública MCT/CNPq/CAPES- Ação Transversal nº 06/2011Casadinho/Procad). 2 Os eixos: (1) formação e práticas de policiamento comunitário; (2) configuração dos papéis das mulheres policiais no exercício laboral; (3) práticas policiais em relação às práticas juvenis em comunidades de periferia e (4) condições e organização do trabalho policial. 10 sujeitos trazia questões pertinentes para a compreensão, como é o caso do estudo com os estivadores do Porto do Mucuripe- CE3. Desse modo, para além das questões estruturais que causam mudanças no mundo do trabalho, assistimos também repercussões internas de uma espécie de ―cultura organizacional‖, que movimentam estratégias, táticas e percepções sobre o meio laboral. Nesse aspecto, a proposta desse estudo foi resgatar uma perspectiva inicial, contestada, atualmente, pelos defensores das teses do ―fim do trabalho‖, de que o trabalho se constitui como um fator preponderante para compreendermos padrões de sociabilidades e identidades, posicionamentos políticos, assim como estilos de vida dos sujeitos que se dedicam a ele (SORJ, 2000). Assim, inserimos os estudos policiais nessa perspectiva, considerando seus sistemas de classificações particulares relativos ao campo militar capazes de produzir uma cultura de diferenciação entre um mundo civil e um mundo militar. Todavia, enfatizamos uma relação entre sujeitos e instituição mediada por uma perspectiva histórica na qual o policial pensa sobre as condições de seu próprio trabalho, bem como a sua própria condição de trabalhador. A organização da polícia militar sofreu ressonâncias da sua aproximação ideológica com o exército durante seu processo de desenvolvimento, principalmente, durante a intervenção do governo militar iniciada em 1964 até 1985. Em razão disso, o trabalho policial é perpassado por mecanismos disciplinares e pela hierarquia, desde o momento da inserção do sujeito na instituição, seja nas patentes referentes às praças ou ao oficialato. Essas duas patentes compõem os quadros hierárquicos da instituição e são separadas por meio da aprovação em concurso público. Ao ingressar na instituição como praça, o policial pode subir de graduação, na seqüência hierárquica: Soldado, Cabo, Terceiro Sargento, Segundo Sargento, Primeiro Sargento até Subtenente. Em relação aos oficiais, a seqüência compreende: Segundo Tenente, Primeiro Tenente, Capitão, Major, Tenente Coronel e Coronel. Contudo, há uma descontinuidade entre oficiais e praças, e, na prática, somente através de outro concurso público, considerando os requisitos de idade e formação em ensino superior, um praça pode tornar-se oficial. 3 Monografia apresentada para obtenção do diploma de bacharel em Ciencias Sociais na Universidade Estadual do Ceará. 11 Subjacente a esta estrutura hierárquica existe a socialização do policial militar que corresponde a incorporação de um ethos guerreiro de valores e hábitos através da formação. Segundo Albuquerque e Machado (2001), no estudo sobre a Jornada de Instrução Militar (JIM), a formação dos policiais compreende uma mudança identitária onde encontramos verdadeiros rituais de passagem para que o indivíduo possa se identificar com o ethos militar e internalizar condutas e disciplinas rígidas da instituição. Esse modelo militar passou, após o processo de redemocratização, a ser questionado por setores da sociedade civil, no que se refere a sua adequação as demandas de uma sociedade democrática. Dessa forma, com o fim da ditadura, uma crise de hegemonia e legitimidade atingiu as ações policiais militares exigindo uma prática policial mais voltada para a cooperação com o exercício da cidadania (MACHADO, MUNIZ, 2010). Contudo, o discurso democrático não atingiu a instituição policial apenas com relação a sua atividade fim, mas também, gerações de policiais, sobretudo, no circulo das praças, que passaram a questionar suas condições de trabalho e vida decorrentes do campo militar. A partir do estudo de ALMEIDA (2010), que descreve o cenário da primeira greve após a ditadura, também conhecido como ―ciclo de protestos‖4 da polícia militar, podemos inferir um marco a partir do qual assistimos a uma reconversão do policial para o seu próprio trabalho, manifestando suas insatisfações com as formas e condições em que esse se realizava. Posteriormente, no final do ano de 2011, assistimos a outra greve de Policiais Militares e Bombeiros do Ceará. Liderados pela figura de um Capitão da polícia, os policiais militares, sobretudo os praças, paralisaram suas atividades por cinco dias, reivindicando, dentre outras coisas, aumento salarial, incorporação de gratificações ao salário, aumento do vale-refeição, estabelecimento de 40 horas semanais de trabalho e a criação de uma comissão paritária entre os representantes do governo e das quatro associações que congregavam os militares, para formular, em 90 dias, novas regras 4 Movimento iniciado em Minas Gerais, mas que se espalhou por todo país, incluindo, dentre outros estados: Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Piauí, Goiás, Paraíba. Para mais detalhes, ver : ALMEIDA (2010). 12 sobre a tabela salarial, além da discussão sobre horas extras trabalhadas e a implantação de novo modelo para promoções e reforma no Código de Ética e Disciplina da PM5. Somando-se a essa contextualização insere-se a problemática do adoecimento. Durante os anos de 2012 a 2014, os policiais militares do estado do Ceará tornaram-se, com certa freqüência, manchetes nos jornais locais. Todavia, dessa vez, não ocupavam as páginas policiais, mas preocupações e polêmicas em torno da quantidade de Licenças para Tratamento de Saúde (LTS) concedidas, à categoria, pela Perícia Médica do Estado. A partir dos dados fornecidos pela Associação de Cabos e Soldados da Polícia Militar do Estado do Ceará, a ASPRAMECE, o número de Licenças vinha aumentando desde 2011. Em 2011 foram solicitadas 53606, com uma média de 450 licenças por mês; em 2012, 6937, média de 578 por mês, e; em 2013, as manchetes apresentavam uma cifra de 3.649 Licenças, no período de janeiro a julho (média de 521 por mês), pressupondo um quadro de adoecimento acentuado naquele ano. Outras manchetes ainda chegaram a noticiar que 46% da tropa já tinham, em algum momento, apresentado Licença para Tratamento de Saúde7. É nesse sentido que segue o trabalho a seguir. O objetivo foi compreender, a partir da problemática do número de Licenças para Tratamento de Saúde- LTS, as repercussões e significados que as condições e a organização do trabalho assumem na vida do policial militar. Iremos conhecer a percepção que os policiais, enquanto sujeitos, elaboram a partir das suas experiências de sofrimento e adoecimento no trabalho, considerando a análise temporal de sua história na instituição, formas e estratégias para conviver, confrontar, superar e/ou resignificar esse processo que se traduziu nos números de Licenças para Tratamento de Saúde- LTS. A princípio, foi planejado um trabalho quantitativo tendo o arquivo das Licenças como fonte documental. O objetivo era investigar aproximações entre unidades de alocação, tais como batalhões, quartéis e o número de Licenças apresentadas, buscando uma possível relação entre condições de trabalho delimitadas pelas especificidades desses locais e determinados tipos de patologias, por exemplo. Assim como outras 5 Fonte: Notícia divulgada no Jornal Diário do Nordeste em 04/01/2012. ―Acordo põe fim à paralisação dos policiais militares‖. 6 Considerando que, na época, o efetivo de policiais girava em torno de 15mil. 7 Tais estatísticas tiveram como fonte a: Associações das Praças e Soldados da PM- ASPRAMECE e a Associação dos Cabos e Soldados- ACSMCE e as noticiais divulgadas nos jornais O povo e Diário do Norteste. 13 relações interessantes que poderiam surgir em análises como essas, que, inclusive, poderia orientar a fase qualitativa do trabalho. Contudo, um montante de dificuldades refreou essas intenções. Primeiro porque, em consulta e conversa à Perícia do Estado, vimos que as documentações não recebiam um cuidado em relação a organização e armazenamento de arquivos. O sistema era desatualizado, as informações recortadas e enviadas a locais diferentes, dentre outros. Ainda segundo as informações dos representantes da Perícia, não se tinha o controle, por exemplo, de quantos policiais entraram de Licença em determinado ano ou período, tinha-se apenas a quantidade de licenças e, como um policial pode solicitar mais de uma licença por ano, conseqüentemente esse número era maior. Isso dificultava também a aplicação da técnica de amostragem. Assim, aos poucos descobrimos que, não só seria difícil, considerando o curto período do curso de mestrado, aplicar os métodos quantitativos com relação ao material, como também nossos objetivos poderiam estar inadequados, tendo em vista o funcionamento da instituição, uma vez que, os policiais mudam de batalhões e departamentos com alguma freqüência durante o tempo que se dedicam a instituição (são transferidos, ou pedem transferência por diversos fatores). Assim, somente a narrativa do policial poderia indicar e explicar suas patologias relacionando ao local de trabalho, com confiabilidade. Desse modo, as narrativas tiveram uma importância central na nossa investigação, cabendo a ela, o acesso às representações do adoecimento na polícia, a situação dos policiais doentes, as estratégias de sobrevivências na instituição diante da possibilidade de adoecer, dentre outros fatores para além do fenômeno biológico. Concordamos com Augè (apud FERREIRA, 1994, p. 103) na afirmação de que: "O paradoxo da doença é que ela é ao mesmo tempo a mais individual e a mais social das coisas". Dessa forma, o autor relata a dicotomia entre a questão da doença no âmbito do indivíduo, o qual experimenta uma sensação íntima, mas, ao mesmo tempo coletiva, uma vez que, a maneira como expressa e identifica sua enfermidade se dá conforme os códigos específicos de cujo grupo compartilha significados. A antropologia nos mostra que, muito embora, todo ser humano seja capaz de sentir dor, o significado que se atribui a ela é plural, bem como sua percepção e tolerância, que variam conforme cada sociedade e seus segmentos. Portanto, dependendo da classificação de sentido que é feita daquela sensação, são expressos 14 comportamentos, opiniões e julgamentos diversos dentro de uma cultura e/ou de um grupo. Por conseguinte, o processo de saúde e doença não pode ser entendido unicamente como um fenômeno anátomo-fisiológico, mas deve considerar também as visões de mundo dos diferentes segmentos da sociedade, assim como suas crenças, cultura e classificações (CANESQUI, 2003). Dessa forma, buscou-se compreender de que forma as noções relacionadas ao sofrimento são elaboradas e pensadas a partir de um grupo específico da nossa sociedade que tem por valores legítimos: a virilidade, a hierarquia e a disciplina militares como elementos fundamentais de seu campo simbólico. Primeiramente, buscamos compreender como o discurso sobre o adoecimento é produzido nesse campo, para em seguida, entender como os agentes apreendem, resignificam e representam esse discurso para explicar sua condição ou mesmo transcendê-la. A pesquisa, de caráter qualitativa, foi realizada com base nas observações registradas a partir da permanência diária no local da pesquisa (durante toda a manhã e alguns dias a tarde), por cerca de 3 meses (junho, julho a agosto) do ano de 2014, além da realização de quinze entrevistas de caráter semi-estruturado8. O campo de investigação consistiu nas interações realizadas pelos e com os policiais militares praças, em um dos seus locais de tratamento, o CBS (Centro Biospiscossocial da Polícia Militar)9 e nas entrevistas com perfis variados de policiais que estavam de LTS ou de Serviços Leves. Essas observações construíram-se da vivencia cotidiana na instituição, conforme foram sendo negociados, apresentados e incluídos os espaços de conversação, recreação e atividades dos policiais. A estratégia pensada para as entrevistas foi que fossem realizadas na forma de uma conversa na qual o interlocutor contasse sua trajetória de trabalho na PM. O objetivo era que a própria organização da fala do entrevistado fosse capaz de dimensionar a importância e o significado das múltiplas relações, interações 8 Além dos entrevistados tivemos contato com outros policiais que utilizavam os serviços do Centro Biopsicossocial da Polícia Militar. Assim como realizamos ainda uma entrevista com um policial que não estava em tratamento. Tivemos contato também com oficiais por meio do CBS. 9 Situado na Rua Tereza Cristina, 1575—Bairro Farias Brito, o CBS, junto com a Célula Odontológica (CEO) compreende a Coordenadoria e Assistencia Social da Polícia Militar. 15 entre os segmentos hierárquicos, condições de trabalho e conflitos na sua trajetória na polícia. O ponto de vista escolhido também é fundamental para compreendermos melhor esse estudo. Partimos da perspectiva daqueles que se situam objetivamente no nível inferior da hierarquia e como estes relatam suas experiências na corporação e a relação com seu estado de sofrimento. Os entrevistados não foram identificados, assim como não foram identificadas as companhias, destacamento e batalhões em que esses policiais estão alocados atualmente ou fizeram referencia durante suas narrativas. Omitimos esses locais indicando como ―Local X‖, ―Local Y‖ e assim por diante. A cada entrevistado foi atribuído um número aleatório de 1 a 13 (apesar de ter realizando quinze entrevistas com policiais em tratamento, duas não foram gravadas). Somente na seção cinco, no qual nos referimos às trajetórias, colocaremos o tempo de trabalho dedicado a instituição, porque consideramos importantes para a compreensão do leitor e não prejudicial aos entrevistados. Na primeira seção, buscamos construir a perspectiva de abordagem desse estudo no que concerne a referência do policial e suas relações com a categoria trabalho. Delimitamos as especificidades da profissão, suas origens nas relações entre (1) dominação; (2) território; (3) monopólio da violência, os principais tipos de policiamento, conceitos e definições. Em seguida situamos o trabalho policial dentro dos estudos sobre o mundo do trabalho, acrescentando à perspectiva de duplo agente classificado por Tavares dos Santos (1997) uma terceira dimensão: a do policial enquanto trabalhador, no sentido daquele que consegue ser protagonista nas suas condições de trabalho, que sofre os constrangimentos decorrentes da organização de trabalho (militar, no caso) e que interage cotidianamente com os usuários de seu serviço, desenvolvendo, com isso um saber prático sobre sua profissão, seu cotidiano, seus limites e possibilidades na instituição. Na segunda seção, explicaremos como se deu o percurso metodológico da pesquisa, explicitando alguns detalhes sobre a inserção em campo, incluindo os desafios e estratégias utilizadas, a ferramenta da observação participante, a abordagem das entrevistas, dentre outros. Na terceira seção, consideramos um dos aspectos dos significados subjacentes as licenças que dizem respeito a sua dimensão e inserção nas relações de poder e luta no 16 interior do campo estudado, através das leituras realizadas pelos praças a respeito da conjuntura e contexto de relações e interações com os oficiais no cotidiano de trabalho policial. Em outras palavras, tratamos do seu uso político, como um recurso dos quais os policiais mais desprivilegiados no campo se utilizam para reconverter as situações de sofrimento, assédio moral e dominação. Além de considerar os modos de subjetivação pelos quais os policiais militares construíram um discurso pautado na sua constituição enquanto sujeitos de direitos. Na seção quatro, em continuidade com a terceira, explicaremos outros aspectos das Licenças para Tratamento de Saúde- LTS. Ressaltamos o trânsito das relações de conflito entre os sujeitos da instituição na constituição do adoecimento e sofrimento no trabalho, mas, dessa vez, com uma ênfase maior no agravamento, na resultante dessas situações, e na (re)produção de acusações que geram as percepções do adoecimento na categoria, confabulando um estigma sob o policial doente. Por outro lado, para além das acusações internas, veremos como essa produção encontra, na sociedade de forma mais ampla, rejeições que amplificam a situação de estigmatizado não apenas do policial doente, mas da categoria como um todo. Por fim, ainda tratando de decompor os aspectos dos sofrimentos advindos do exercício da profissão, buscaremos compreender as condições das vitimizações objetivas e subjetivas, ou seja, a influência das estatísticas, dos casos veiculados na construção do medo e do risco associado à profissão nos dias de hoje, segundo o relato dos entrevistados. 17 2. TRABALHO E POLÍCIA 2.1 A gênese: o estado e a formação da polícia. Weber (2004) explica que é por meio da dominação institucional, no desenvolvimento do processo de formação do Estado moderno, que a polícia, assim como outros servidores do Estado, definiram-se enquanto representantes específicos da ordem estatal burocrática. Ordem que só foi possível a partir do monopólio da violência física, que guarda, com a constituição do Estado Moderno, uma relação direta. Vejamos: O Estado moderno é uma associação de dominação institucional, que dentro de determinado território, pretendeu, com êxito, monopolizar a coação física legitima como meio de dominação e reuniu para este fim, nas mãos de seus dirigentes, os meios materiais de organização, depois de desapropriar todos os funcionários estamentais autônomos que antes dispunham por direito próprio, destes meios e de colocar-se ele próprio, em seu lugar, representado por seus dirigentes supremos (WEBER, p. 529, 2004). Encontramos, nesse trecho, três referências teóricas fundamentais para compreendermos historicamente a razão de ser da polícia, enquanto resultado da articulação entre uma conjuntura histórica e a constituição de um consenso em torno da sua legitimitade. Dessa forma, acompanharemos o desenvolvimento desses três elementos na problemática da polícia moderna, a saber: (1) dominação; (2) território; (3) monopólio da violência. De posse da explicação desses conceitos poderemos seguir às questões que se configuram a partir da complexa articulação entre essas noções e a constituição da força policial. Como menciona ainda a citação anterior, a dominação consiste na relação de poder, que, na visão de Weber (2004), permitiu o surgimento do estado. Ela é o meio pelo qual um indivíduo ou grupo de indivíduos conseguem conduzir ou influenciar a ação social de terceiros sem que a associação direta entre causa e conseqüência apareça de forma clara. Isso só é possível quando essas ações se baseiam em fundamentos considerados legítimos pelos dominados. No caso do Estado, sua legitimidade deriva das bases legais e estatutárias que exercem a dominação institucional por meio da crença, do carisma ou da burocracia. Portanto, a violência do estado é tolerada somente nas condições de suas bases legais, por que é regulamentada e destinada a situações específicas. A reivindicação dessa legitimidade só foi possível mediante um processo de 18 monopolização, pelo estado, de uma série de diferentes tipos de capitais antes distribuídos no espaço social (BOUDIEU, 1996). Mas a primeira e necessária concentração de capital, por parte do estado, foi, primordialmente, a da coação física. Onde já existia o desenvolvimento de uma burocracia (ELIAS, 1993), assistimos ao processo (ao qual o texto de Weber faz referência) de separação entre os dirigentes e os recursos materiais destinados as suas atividades. Essa separação histórica construída, progressivamente, consistiu na desapropriação da aristocracia de sua autonomia política, principalmente, no que diz respeito às conseqüentes da utilização da coação física. No passado, as associações mais diversas- começando pelos clãsconheciam a violência física como meio perfeitamente normal e legítimo na resolução dos conflitos de qualquer natureza. Dessa forma, não havia um controle rígido acerca das regras que regiam seu uso, elas derivavam somente de preceitos morais, passíveis de serem utilizados conforme a organização social de cada época (BAYLEY, 2001). Assim, numa unidade social como o sistema feudal, o controle e o poder sobre a coação física eram distribuídos entre os senhores feudais com conseqüências nas distinções de prestígio e poder político resultante da atuação sobre seu território e os demais. Portanto, a reivindicação desse monopólio pelo Estado, tornou competência específica da polícia, por meio da criação de uma força pública (ou privada, porém regulada pelo Estado10), a autorização para a utilização da coação física com fins de pacificação interna. Esse processo foi acompanhado também por uma mudança de percepção, inspirada nos princípios iluministas e na ideia de ―civilidade‖, em relação a violência, na qual se buscou estabelecer um uso comedido da força. Tentativa essa relativa, tanto à organização da manutenção da ordem nos tempos de paz pelo estado, quanto à incorporação de tais valores no comportamento dos sujeitos. Como lembra Elias (1993), essa configuração se deu através do chamado processo civilizatório no qual os valores de civilidade, tais como a autocoerção, o domínio das emoções e o senso de pudor (tendo como base uma assimilação/imitaçao no estilo de vida da corte), assumiram, progressivamente, uma importância mais efetiva do que o controle externo, reestruturando a personalidade através dos processos de socialização das gerações. 10 Para mais detalhes ver Bayley (2001). Na tentativa de elaborar uma história dos Padrões de policiamento, o autor realiza um esforço de definição da força pública ao longo da história. Cita, por exemplo, o caso de Roma, em que a regulamentação punitiva era mérito do estado, mas a executiva ficava a cargo dos prejudicados no assunto. 19 O resultado desses encaminhamentos em várias dimensões por uma figura centralizadora em sua formação foi o estreitamento da relação entre poder, lei e Estado. Segundo Bobbio (1984), essa articulação que tornou autorizada e legítima a polícia, se iniciou por meio da concentração de todas as outras fontes jurídicas na autoridade da lei, assim como na hierarquização de todos os demais ordenamentos jurídicos ao ordenamento estatal. Dessa forma, a coação física do estado, se insere na lei, através de um poder absoluto do estado, que é o poder de nomear, classificar e produzir normas válidas para todos os membros de seu território. Conforme acrescenta Bourdieu (1996), essa dominação é a própria crença na razão de estado. Utilizando como exemplo a gênese e a estrutura de um dos agentes, no caso, o universo dos juristas, o autor explica como esses agentes se constituíram como uma ―nobreza do estado, ao produzirem um discurso formativo sobre o Estado que, sob a aparência de dizer o que ele é, fez o Estado ao dizer o que ele deveria ser‖ (Idem, p. 109, 1996). Dessa forma, esses agentes produziram uma expressão universal de seus interesses particulares promovendo a criação de uma teoria do serviço público, uma razão de estado, que, com o tempo, ―em razão dos interesses localizados no espaço social, tal discurso constituiu e instituiu o próprio Estado‖11 (Idem, p. 110, 1996). Em outras palavras, o estado estruturou-se, simultaneamente, sob os discursos produzidos em função do interesse dos agentes que ocupavam posições privilegiadas nos campos de estreita relação com sua formação, e sob o reflexo desse discurso, legitimando-o e tornando-o aceito por todos os sujeitos ao seu domínio. É interessante notar, com esses exemplos, que a legitimidade é o próprio efeito do capital simbólico proveniente da monopolização de diversos campos, ao ser constituído, acumulado e apropriado pelo Estado. Assim, o estado em formação, através da relação entre seus agentes e constituição de campos autônomos, construiu, pouco a pouco, sua legitimidade, concentrando poder simbólico. A esse poder simbólico encontra-se inclusa a possibilidade de exercer uma violência simbólica que consiste na ação de produzir discursos legítimos, de classificar e nomear, em outras palavras, de construir os esquemas das estruturas estruturantes, os processos cognitivos que inculcam e mediam os princípios de visão e divisão de mundo nos sujeitos. 11 O direito positivo, racional, deriva também dessa construção. Ele teve um importante papel de pacificação da sociedade em articulação com o processo civilizador e a coação do estado a grupos desviantes (ADORNO, 2002). 20 A partir de outra perspectiva, não menos esclarecedora, Foucault (2005), preocupado em compreender os modos de subjetivação, bem como a percepção construída pelos próprios sujeitos, explora a relação entre as práticas discursivas e os dispositivos de poder. Trata-se de uma trilha histórica construída a partir das articulações das redes de poder e do discurso formulado das experiências de saber. No caso do Estado Moderno, a partir do século XVIII, principalmente, temos a governabilidade como essa experiência que concentra o papel da polícia de duas maneiras. A primeira, enquanto agente repressor do estado, legitimador de normas políticas, econômicas e sociais, além de repressor a tudo que não estiver relacionado à ordem; e, em uma segunda dimensão, ele produz um consenso relativo a condição positiva do seu saber, associado ao discurso de proteção, no qual o estado é responsável pela vida dos seus cidadãos (TAVARES DOS SANTOS, 1997). Esta ultima tem na governamentabilidade sua maior expressão. Ao surgimento da governabilidade, podemos também compreender, nas entrelinhas, o delineamento das questões relacionadas ao âmbito do território. A governabilidade é fruto de um princípio e método de racionalização específica proveniente do liberalismo e se caracteriza porque tem a população, e não mais o território, enquanto objeto que governa através dos saberes e dos dispositivos de segurança (CASTRO, 2009). Dessa forma, à uma maneira de governar, podemos associar uma correspondente valoração do território ao longo da história. Durante o processo de formação do estado moderno, a delimitação de um território era de fundamental importância para a constituição desse estado. Sabemos que o processo de centralização econômica, social e jurídica foi uma medida para enfraquecer outras fontes de dominação que concorria com o Estado e legitimar suas ações. Foucault (1992) destaca esse período como relativo ao poder soberano. Existente como uma norma jurídica, o poder soberano, tal como o descrito na obra de Maquiavel, era exercido sobre um território delimitado e considerado como algo divino, exterior aos súditos, ele pairava sobre estes. Por isso, os laços que ligavam o mandante aos subordinados eram frágeis, facilmente ameaçados por guerras, revoltas e lutas internas na família pelo poder. Logo, o único objetivo do príncipe era assegurar o poder dentro de um território delimitado. Sua habilidade consistia nesta manutenção. 21 Contudo, com a ocorrência das transformações sociais, sobretudo, no século XVIII, tais como: a expansão monetária e agrícola, o aumento da densidade demográfica, dentre outros, algumas transformações se operaram nesse sistema. No que concerne ao homem-corpo, observamos uma lenta modificação jurídica dos castigos e suplícios à constituição de um poder disciplinar. Com vistas a um sistema produtivo eminentemente capitalista, houve a substituição dos castigos que condenavam o corpo para aqueles que incidissem sobre as almas dos condenados, buscando medidas restitutivas que preservassem o corpo para o sistema produtivo tornando-o dócil, portanto, útil (FOUCAULT, 1997). No âmbito do governo, observamos, desde o advento do mercantilismo, uma tentativa de racionalização que progressivamente criava aparelhos administrativos para uma mudança nessa própria concepção de governo. A literatura relatava a criação de uma arte de governar que incluía o governo de si, da família (economia) e da moral. A necessidade de controle se apresentava e a inclusão da economia nas atividades do estado representava uma mudança nos seus objetivos. Dessa forma, confrontava-se com o objetivo do poder soberano (que era somente o de se manter no poder) essas mudanças demonstravam uma tendência que se consolidou juridicamente com a noção de contrato social. Assim, a arte de governar consistia, nesse momento, na capacidade dos governos de gerir homens e coisas, ou seja, dispor a produção de riqueza, as relações sociais, os costumes, dentre outros. O estado assume uma função protetora e a máxima soberana de ―fazer morrer deixar viver‖ é invertida a um estado de proteção ―fazer viver deixar morrer‖ (FOUCAULT, 1999). Essa centralização de funções no estado, principalmente, a econômica se realizou concomitantemente a preocupação pela categoria ―população‖. A partir dessa necessidade de gerência, toda uma ciência e um conhecimento foram elaborados nesse aspecto (a estatística), bem como mecanismos de controle e poder. Logo, esse poder incide não apenas no homem-corpo, mas opera no âmbito do que chamamos homemespécie. O controle de natalidade, mortalidade, epidemias, a espiral do trabalho e da riqueza, tudo isso consiste nessa nova versão do poder, agora Biopoder. A governamentalidade aproxima-se do objeto da biopolítica. Trata-se, segundo Foucault, do conjunto constituído pelas instituições, procedimentos, análises e reflexões, cálculos e táticas que tem por alvo a população. A natureza e a tendência 22 histórica desse tipo de poder na sociedade ocidental guardam preeminência sobre os demais (soberania e disciplina). O estado e a governamentalidade são frutos de um mesmo processo histórico e atualmente, se luta pela utilização das táticas da governamentalidade discernindo sobre o que cabe a esfera pública ou privada (FOUCAULT, 1999). Encontramos a função da polícia como um dos agentes que assume essa forma de governo do estado. Para Foucault, a polícia é uma ―técnica de governo própria do estado‖ (CASTRO, 2009) na medida em que engloba ―as relações entre os homens e suas relações com as coisas, a coexistência dos homens em um território, as relações de propriedade, o que produzem, como comerciam. O verdadeiro objeto da polícia é, em definitivo, o próprio homem.‖ Com isso, observamos que a amplitude das ações da polícia consiste na articulação que ela realiza entre as ações estatais de políticas no controle e conhecimento da população no interior de determinado território e o ―governo de si‖, ou seja, a tentativa de determinação das ações individuais, através da produção de um consenso que, por sua vez, consiste na objetivação de um discurso sobre a normalidade compreendido a partir das racionalidades produzidas pelo estado. Ainda nessa perspectiva de duplo agente, Tavares (1997), atenta para essa dupla dimensão na própria lógica histórica de formação da polícia, no que concerne ao desenvolvimento de suas feições e características modernas tal como conhecemos na contemporaneidade. Vimos que a polícia despontou como correlata do poder do Estado, desde fins do século XVII. É o caso, por exemplo, do modelo de polícia Francês. Centralizado e estatal, esse parâmetro representava uma extensão do Estado administrativa e moralmente, no que concerne, a manutenção da ordem e as ações que iam desde o combate a delinqüência e a criminalidade à proteção contra acidentes e epidemias (TAVARES, 1997). Ainda, segundo Muniz (1999) esse tipo de polícia tinha uma tendência totalitária ―Ela consistia nos olhos, nos ouvidos e no braço direito do soberano: ‗deve ela tudo saber para que o governante decida o que permitir ou reprimir‘ ‖ (Idem, p. 20, 1999). Dessa forma, ela abrangia, na época, uma gama de operações que atualmente consistiria em subdivisões, tais como: serviço de espionagem, polícia de defesa territorial, policia dos costumes, judiciária, investigativa, ostensiva, dentre outros; mas que no período de sua criação correspondia a uma necessidade do estado, na manutenção da sua própria existência. 23 Já a policia inglesa buscou a criação de um modelo diferente do Frances. A participação das forças armadas no contexto conturbado de guerra civil neste mesmo país trouxe uma desconfiança para com as forças policiais e sua aproximação com o poder executivo, o que poderiam significar ameaças aos recentes direitos conquistados no âmbito legislativo (MUNIZ, 1999). Contudo, a ocorrência de diversos episódios violentos na cidade, expôs a necessidade de um controle que não partisse das truculências das forças armadas e das milícias de grupos particulares. Dessa forma, a demanda se fazia por uma polícia sem papel paramilitar, em outras palavras, uma organização policial que não realizasse intervenções políticas em torno dos direitos civis e que fosse orientada para o atendimento de uma demanda civil, cidadã. O objetivo da polícia inglesa era também alcançar uma legitimidade através da proximidade com os cidadãos. A partir de acordos entre opositores e aliados, Muniz (1999) relata sobre a pretensão da polícia inglesa: (...) deveria ser um meio de força civil, estruturado sob os princípios da hierarquia e da disciplina paramilitares; com uma administração centralizada e autonomia regional; preparada para a ação em grupo, mas com uma prática cotidiana centrada no indivíduo‖ (MUNIZ, p.28, 1999) As características desse modelo de polícia, assim como o modelo francês, foram implantadas em outros países, influenciando o tipo de policiamento12 que compreendemos atualmente como moderno. Bayley (2001) procura construir uma Teoria do Policiamento realizando uma grande comparação no desenvolvimento da polícia em vários países, a partir dos materiais históricos disponíveis e das características que considerou mais importantes para compreender a polícia contemporanea, buscando analisar seu desenvolvimento. As características de análise escolhidas foram o caráter público, a especialização e a profissionalização, o que considera sinônimo de policiamento moderno. Nesse processo, Bayley (2001), conceitua e estabelece as relações entre força policial pública e privada ao longo da história. Ele considera a polícia 13 como pública a partir do momento em que ela pode ser paga e controlada pelas comunidades, agindo 12 A polícia Pública e Estatal consiste em um tipo de policiamento, caracterizado como moderno. Há outros tipos de policiamento, tais como veremos nesse mesmo texto, na teria de Bayley (2001) anteriores mesmo a burocracia especializada do estado (MACHADO; MUNIZ, 2010). 13 Ele também define polícia como: pessoas autorizadas por um grupo para regular as relações interpessoais dentro deste grupo através da aplicação de força física. Com essa definição ele questiona a noção de entendimento necessária entre força policial e estado ao utilizar como base de legitimidade de uma policia a unidade social, que podem ser famílias, clãs, tribos, grupos de interesse. 24 coletivamente. Nesses termos, ele mostra que o policiamento público não é uma criação moderna, mas existe desde que comunidades soberanas legitimaram a coerção física por agentes criados e mantidos por elas 14. Assim, por exemplo, desde a Roma clássica até a França absolutista existiram sistemas públicos de polícia, bem antes do Estado moderno. Além disso, observamos que o policiamento público sempre conviveu com o policiamento privado, instituindo formas diversas de organização do policiamento. O policiamento público, dessa forma, apenas encontrou maiores desenvolvimentos quando da incapacidade dos grupos privados tradicionais em conter a insegurança, ou seja, quando as bases tradicionais de proteção da comunidade já não respondem mais ao aumento da violência numa determinada sociedade. Fato que pode vim ou não relacionado à urbanização, riqueza e industrialização. Da mesma forma a especialização da polícia pode ou não estar associada a esses fatores, em geral, as polícias anglo-saxões se dedicaram mais precocemente a manutenção exclusiva da lei e da ordem pública do que a polícia européia, a qual exercia essas e outras atribuições. Tais atribuições difusas eram vistas como parte da estrutura de um estado emergente, como parte da corte, e lhe era atribuídas as tarefas que não eram tidas competências eclesiáticas. A remoção dos militares na manutenção da ordem interna foi um aspecto importante para a contribuição da especialização da polícia. Experiências onde o estado já se encontrava mais consolidado, quando na necessidade de resolução de conflitos internos, utilizavam uma polícia especial civil a fim de conter a ação violenta ou política de grupos insatisfeitos. De outro modo, quando a violência ocorre durante o processo de formação desse estado, encontra-se um aumento da influencia do exercito militar nesse policiamento. A desvantagem na utilização dos exércitos era o uso descomedido da força acarretando uma perca de legitimidade do estado perante a população, além disso, o caráter político tornava-se explícito quando o exército tomava as rédeas da situação. A profissionalização seria o atributo mais moderno da polícia, uma tentativa de atingir uma qualidade de desempenho através de critérios de seleção, treinamento, 14 Aqui, podemos notar que, apesar desse autor negar a necessária relação entre o Estado e a polícia, ele admite em seu conceito a relação com a soberania e a autoridade para criar leis, o que existia antes da formação do estado moderno e permitia o controle da força pública e da punição. Trata-se de uma estratégia utilizada por ele para permitir a comparação e uma linha de continuidade da força pública na história. 25 formação de carreira, supervisão e remuneração satisfatória. O objetivo dessa profissionalização é aumentar a confiança na polícia e atentar para uma eficácia de suas ações. Ao período histórico a que corresponde a criação da polícia inglesa-- nas suas tentativas associadas a um padrão de cordialidade, de consenso, e formação de uma polícia mais profissional-- no contexto brasileiro, encontramos a tentativa de uma elite de ultrapassar o período colonial, conter os problemas de ―desordem‖ nas ruas, através da criação de instituições modernas sob a inspiração ideológica das policiais européias. Contudo, Holloway (1997) afirma que a resultante deste ensaio foi uma especificidade estabelecida ―mediante ensaio e erro a partir dos recursos e tradições locais‖. Dessa forma, os modelos europeus sofreram modificações e foram rejeitados, em alguns aspectos, em favor de posturas e procedimentos desenvolvidos internamente. No Brasil, encontramos a emergência da polícia junto às vias de formação de uma nação. Ela ganha destaque com a vinda da família real para o Brasil e seguiu o modelo francês de polícia, pertinente em Portugal, na época. O ponto de fundação da polícia brasileira, segundo Bretas (2013) é a criação da Intendência Geral de Polícia (1808) e da Guarda Real de Polícia (1809). Ainda no período do império a policia atuava sob precárias condições. Ela era uma espécie de porta voz do estado, muito embora a autoridade desse estado passasse por negociações com outras autoridades locais e regionais, principalmente com grupos da elite. Dessa forma, a luta pelo monopólio da violência se fazia em negociação com as práticas de mando local, mas nesse caso, acrescenta Bretas (2013), sem qualquer controle do uso da força física. De forma gradual (principalmente após a Guerra do Paraguai) as forças policiais organizaram-se mais burocráticas, no sentido weberiano, menos dependentes dos poderes locais e inserindo, na sociedade brasileira, um espaço social liberal, no qual a experiência universalista da lei passa a ser uma possibilidade, ainda que com limitações. Segundo Bretas (2013) a montagem dessa matriz weberiana tendo como um dos representantes a força policial, nos fornece indícios para compreender a construção do estado brasileiro. A forma como se deu a institucionalização administrativa, bem como a conquista e imposição da autoridade policial, poderia representar a própria disputa dos 26 valores associados ao estado moderno e sua inserção nas disputas com as outras formas de dominação local15. No entanto, sobre esse período histórico, Holloway (1997), destaca as bases de existência da polícia brasileira não eram o consenso e a legitimidade, mas uma ―imposição de instituições burocráticas de controle aparentemente modernas a uma sociedade carente de outros atributos fundamentais da modernidade (p. 23, 1997)‖. Dessa forma, a sua criação, segundo a autora, estava mais relacionada à repressão, imposição e rearticulação das regras de um comportamento público moderno aceitável, do que a produção de um consenso acerca da proteção do cidadão. Muniz (1999), sobre isso acrescenta que, tratava-se muito mais de uma demanda de proteção do próprio estado emergente. Dessa forma, a polícia brasileira se estabelece progressivamente em consonância com o poder do estado, refletindo o processo de burocratização e institucionalização do espaço público, da lei-- pelo menos no âmbito do discurso 16-- até o advento dos períodos ditatoriais onde sua versão política e repressora tornou-se mais proeminente e visível aos olhos da sociedade. Sua subordinação ao exército e aos Códigos da Doutrina de Segurança Nacional expressou com vigor sua dimensão opressora a expensas da sociedade civil. É importante destacar ainda a conjuntura na qual outro tipo de violência, relativo à exclusão social, constitui e afeta o quadro de violência geral no qual a polícia passou a se ocupar17, exclusivamente, após a ditadura. Paralelamente, a abertura política à redemocratização, constituiu um discurso questionador frente aos resquícios e práticas da Doutrina de Segurança nacional, bem como a importância da influencia do exercito, através do militarismo, e sua utilização nesse novo contexto civil de atuação da polícia. Dessa forma, o policial tornou-se personagem central de estudos e críticas preocupadas com a discussão e utilização do poder discricionário da polícia. 15 Podemos citar, por exemplo, os trabalhos de Jacó (2003) e Barreira (1998) nos quais, encontramos estudos a respeito do cenário nordestino, onde disputas se davam entorno da utilização legítima da violência. Apesar de muito distante da época do império, ainda é expressiva da constante disputa do Estado com outros grupos, pelo monopólio da violência. 16 Assim define Holloway ―um verniz de modernidade a atitudes e relações tradicionais protegendo-as e fortalecendo-as‖ (Idem, p. 19, 1997), no que se refere ao propósito de formação da polícia no contexto do Império. 17 Veremos na próxima sessão, mais especificamente, como o policial também é vitima desse processo de exclusão, que influencia suas escolhas profissionais, subjetivamente. 27 No que concerne a dominação e reprodução da crença, estudos indicam uma cultura policial associada aos setores mais conservadores da sociedade, tendo como referencia as suas práticas truculentas cujos alvos consistem em grupos enquadrados em determinados estereótipos, tidos como desviantes (BECKER, 2008). Em relação aos termos que iniciamos nossa discussão, encontramos na realidade brasileira, uma série de desvios e constituições paralelas que formam um quadro complexo de atuação dessa polícia. Na noção de território, vimos que, na formação do estado, a reivindicação do monopólio era condição fundamental para o seu sucesso, no entanto, tem-se hoje a formação de territórios paralelos e totalmente à parte do poder do estado, entregue a outro tipo de lógica, na qual outros grupos utilizam-se da violência de forma não legítima, não regularizada, o que supõe a falência do estado na sua promessa civilizatória/iluminista. Por outro lado, permanecendo na linha de frente, o policial também é vítima primeira desse estado de guerra no qual se opera a sensação de violência e suas vias de fato, possibilidade que trás ao seu trabalho uma característica perversa. Dessa forma, iremos proceder no decorrer da análise, à caracterização desse trabalho no qual, esse agente de dupla função, opera sob determinadas condições e constrói sobre esses termos, a partir de seu trabalho, a sua realidade. Sob esse viés do trabalho, podemos acrescentar uma terceira dimensão da polícia, àquela responsável pelas greves e reivindicações dos policiais18 em razão das suas condições de trabalho (o que poderia aparecer como uma contradição enquanto representante do Estado e de uma ordem). Trata-se do policial enquanto trabalhador, no sentido daquele que consegue ser protagonista nas suas condições de trabalho, que sofre os constrangimentos decorrentes da organização de trabalho (militar, no caso) e que interage cotidianamente com os usuários de seu serviço. Nossa abordagem também privilegiará a agencia policial no que concerne ao seu estado de sofrimento e adoecimento, ou seja, iremos incluir as ações e estratégias que o policial utiliza para resistir ou mesmo refazer suas condições de vida, mesmo que temporariamente, apesar da coerção militar e institucional. Portanto, o policial não se coloca como passivo à sua doença, ou mesmo ao sofrimento oriundo do seu trabalho. 18 Em política da Policia, Reiner (2004), ao estudar algumas entidades de classe da polícia, já chamava atenção para essa conflitualidade existente entre o Estado e as forças policiais. 28 Mas antes, torna-se necessário delimitar e classificar a especificidade do trabalho policial no interior dos estudos sobre trabalho, articulando aproximações e distanciamentos. 2.2. A forma social do trabalho: o policial militar enquanto trabalhador. Vimos que, apesar de ter sua formação proveniente da necessidade do estado de firmar-se, a polícia não sobrevive tendo como base apenas a repressão, assim, é preciso que se estabeleça um elo com a sociedade civil sustentada pela legitimidade da instituição. Essa seria a positividade acionada a partir do surgimento da governabilidade da qual derivaria o consenso que nortearia a ideia de proteção da vida. Dessa forma, podemos inferir que a forma social do trabalho policial é baseada na crença, por sua vez, advinda do processo de dominação das bases legítimas construídas na sociedade. A partir dessa assertiva faremos uma divisão da classificação desse trabalho nas bases conceituais e analíticas, além de propor que tais referências tenham como base a noção da experiência de trabalho. Tendo em vista que a categoria trabalho carrega em si preceitos relativos a uma produção sociológica tradicional e densa, buscaremos situar o trabalho policial nessa discussão, considerando sua especificidade na abordagem realizada neste estudo. Primeiramente dizendo o que ele não é para depois o reconstruirmos nas delimitações conceituais mais apropriadas. Acreditamos que, dessa forma, poderemos contemplar os objetivos e sujeitos dessa pesquisa apropriando-se ao máximo do material empírico. Além disso, tendo como proposta o estudo da trajetória de trabalho, daremos inicio, mesmo que sumariamente, a compreensão das dimensões objetivas a partir das quais os policiais constroem as percepções do seu trabalho na polícia. Com o termo dimensões objetivas nos referimos ao objetivo de explanação das contingências que contribuíram para seu ingresso na corporação, que balizam, até certo ponto, suas escolhas e, principalmente, constituem o contexto pelos quais seus comportamentos são circunscritos sob uma determinação histórica. Veremos também que o conjunto dessas contingências reflete as transformações que sofrem os trabalhadores do mundo moderno. 29 O entendimento do contexto também contribui para compreendermos porque mesmo vivenciando experiências de sofrimento no trabalho, ou mesmo não se identificando, a priori, com o trabalho policial, os sujeitos permanecem na corporação, o que indica que as circunstancias exercem grande influencia para sua permanência. 2.2.1 A categoria trabalho e o policial enquanto trabalhador. O que se entende, afinal, quando se diz estudar tal objeto sob as categorias do mundo do trabalho? Compreende uma série de aparatos teórico-conceituais que buscam interpretar e associar as mudanças no sistema capitalista e suas correspondências no modo sob o qual vive e sofre diariamente várias categorias de trabalhadores, sob conexões nacionais, multinacionais articuladas aos contextos locais de diferentes níveis de produtividade e outras formas de dominação. Desse modo, existe, segundo Antunes (1995 e 1999), uma classe-que-vive-do-trabalho, ou seja, uma parcela significativa da população mundial que sobrevive da venda de sua força de trabalho no mercado e retira desse modo seu sustento, de onde deriva suas condições de vida, sua reprodução. Também vimos que, objetivamente, ou seja, em se tratando das condições materiais de produção e reprodução, a polícia, como agente do estado, possui um fundamento semelhante aos demais trabalhadores, quando se define enquanto resultado da separação entre agente e os meios de produção. Contudo, o processo histórico que constituiu a polícia enquanto instituição legítima difere das relações diretas entre economia e trabalho; histórico diferente do que sucedeu aos trabalhadores da indústria, rurais e/ou de serviços-- e para os quais se aplicam boa parte da literatura produzida no mundo do trabalho. Para uma instituição com especificidades históricas tão distintas das transformações que ocorreram no mundo do trabalho ocidental, não é cabível reproduzir da mesma maneira, teorias de outras bases empíricas, mas é possível indicar as influencias das transformações que a conjuntura tem criado na formação de um outro discurso no campo policial, a partir das tipificações (perfis de policiais) que explicaremos no próximo tópico. 30 Essa diferença está relacionada à afirmação que fizemos anteriormente na qual explicamos serem, as bases de sustentação da polícia, um produto da crença. Esta, por sua vez, (como vimos no primeiro capítulo) deriva da reivindicação do monopólio da violência, bem como da legitimidade construída em torno da função de pacificação do território pelo estado. Isso significa que suas relações mais diretas então mais próximas da eficácia simbólica do que da produção econômica. O que não quer dizer que o significado ontológico do trabalho enquanto constructo da subjetividade possa ser descartado, mas do contrário, a articulação dessas identidades de uma forma coletiva pode ser associada à noção e a ideologia da profissão. Segundo Marx (1984), o trabalho está na própria definição de subjetividade e identidade. Ao afirmar que o homem modifica a natureza através do seu trabalho e, ao fazê-lo, modifica também a si próprio, ele coloca a relação trabalho e sociedade sob duas dimensões: a primeira, mais geral, diz respeito a sociabilidade fomentada a partir das relações de trabalho e das forças produtivas que compõe o modo de produção; e a segunda, inferimos que, refere-se a constituição subjetiva do homem que trabalha, ou seja, ao realizar a atividade do trabalho o homem empreende uma dedicação de si, consigo mesmo, e, com os outros, constituindo assim, a visão e a representação de si, a partir da referência do trabalho (TARDIF, RAYMOND, 2000). Esse pressuposto teórico elaborado por Marx dá indícios para a compreensão em torno das bases sobre as quais a construção da subjetividade é criada pelo indivíduo. A partir da realidade cotidiana de trabalho, bem como da situação enfrentada pelos seus semelhantes e, em última analise, do universo de relações outras que o cerca, o indivíduo constrói sua percepção sobre realidade e o saber que desprende, a fim de seguir com a realização de suas atividades (BERGER, 1976). Elias (1997) nos lembra que, na medida em que algumas formações tradicionais—clãs, famílias e outros grupos de parentesco--perderam sua função de principais portadoras da identidade de pessoas cujo prolongamento se estende como continuidade cultural para além da morte, outras formações assumiram papel semelhante. Dentre essas formações, podemos indicar o exercício de uma profissão na sociedade moderna, como um plano possível de realização da identidade, a partir da dedicação prolongada a valores e pessoas/grupos associados a essa profissão. 31 Encontramos na sociologia das profissões19 algumas noções interessantes para compreendermos a forma que o trabalho policial assume na sociedade. Na corrente de interpretação funcionalista, assim como a interacionista20, as profissões são vistas como decorrentes de uma divisão moral do trabalho. Sua legitimidade seria proveniente, numa escala de reconhecimento, da proximidade ou distanciamento das funções consideradas sagradas. Diferenciadas entre aquelas destinadas ao sagrado e ao profano, as primeiras gozariam de um prestígio social maior, e, ambas, guardariam, na sua constituição os segredos da profissão, o que Hughes denominou como ―o saber inconfessável‖ (DUBAR, 2005). No interior de cada uma dessas profissões, o mesmo autor afirma que elas tendem a construir uma representação coletiva sobre a sua identidade, a partir das peculiaridades de seu trabalho, influenciando na identidade social dos seus membros. Por outro lado, a própria corrente interacionista problematiza a visão de que esses grupos são homogêneos. Ela reconhece, por exemplo, as disputas decorrentes no interior de cada segmento. Dessa maneira, a forma que o trabalho policial assume na sociedade e a construção que o policial realiza no seu cotidiano em função desse mesmo trabalho constituem duas dimensões relacionadas e expressas nas suas experiências e representações da sua trajetória de trabalho. Em outras palavras, a imagem que a polícia aparece à sociedade e a imagem que o policial tem do seu trabalho contribuem para a percepção da sua identidade social, com implicações que podem causar tanto sofrimento, quanto prazer no trabalho, condicionando ou influenciando a percepção que o sujeito elabora da sua trajetória como um todo21. De uma perspectiva econômica também podemos derivar o aspecto social do trabalho policial. No atual estágio de desenvolvimento do capitalismo, o grande setor de 19 Corrente de estudos americana criada na Escola de Chicago cuja fonte de análise diferia daquela dedicada ao operário e ao empresário, centrando-se na análise das profissões. Muitas críticas são feitas nesse período aos fundadores por considerarem nas suas amostragens e conceituações apenas as profissões das camadas privilegiadas da sociedade (DUBAR, 2008). 20 Provenientes da Escola de Chicago, os interacionistas, contribuíram principalmente no aspecto metodológico na sociologia das profissões. Os principais representantes foram: Everett Hughes e Eliot Freidson 21 Não podemos separar a função social da polícia, ou seja, o papel que ela exerce na sociedade do policial enquanto trabalhador, uma vez que, o julgamento exercido por essa mesma sociedade influencia nas percepções da sua identidade social, como é o caso do estigma (que veremos no capítulo 4) causando sofrimento ou percepções de prazer, quando os policiais acreditam que estão sendo úteis a sociedade. 32 serviços, no qual o trabalho policial se enquadra juridicamente, constitui um dos fatores que compõe a diversificação da classe trabalhadora. Segundo Braverman (1987) o desenvolvimento do capitalismo tornou necessária a multiplicação de diversas atividades em torno do valor, cuja função apropria-se do valor excedente da indústria contabilizando-o de forma a criar setores inteiros dedicados a sua atenção que a tornaram por si mesmas processos de trabalho: Nas formas sociais do capitalismo todos os produtos do trabalho carregam as marcas invisíveis da propriedade, ademais de suas características físicas. À parte sua forma física, há sua forma social como valor. Do ponto de vista do capital, a representação do valor é mais importante que a forma física ou propriedades úteis do produto do trabalho. A espécie de mercadoria à venda significa pouco; o ganho líquido é tudo. Uma parcela do trabalho na sociedade deve, portanto, ser dedicada à contabilidade do valor. À medida que o capitalismo torna-se mais complexo e se desenvolve no sentido do estágio monopolista, a contabilidade do valor torna-se infinitamente mais complexa. (BRAVERMAN, 1987, p. 256) Dessa citação podemos inferir duas proposições importantes para se pensar o trabalho policial. A primeira é que Braverman parece nos indicar, que de certo modo, o trabalho assume contornos sociais e contextuais de conformidade com o estágio capitalista. Dessa maneira, ele não precisa, para ser trabalho 22, estar no chão de fábrica, muito embora existam relações de dependência econômica entre a produção de riqueza e sua distribuição na estrutura do modo de produção capitalista. Visto de outra forma, sob a realidade cotidiana do sujeito que trabalha, no ramo industrial ou não, considerando seu dispêndio de energia, compartilhamento subjetivo e dedicação de uma parte do seu tempo, podemos entender que se trata da sua experiência de trabalho, tendo, portanto, equivalência de significado na sociedade tal qual qualquer trabalhador do setor secundário. 22 SORJ (2000 ) nos lembra os significados outros que o status e patamar da palavra trabalho assumiram no decorrer da história desse campo. Podemos acrescentar ainda, diante da difícil conjuntura que se espreita pela precarização do trabalho em tempos de flexibilização e restrições no mercado de trabalho, mesmo outras atividades assumem o significado de trabalho para os sujeitos porque dessa realidade que partilham é que retiram sua sobrevivência, como é o caso, por exemplo, do trabalho informal, bicos, autônomos em diversos setores. Assim, sob o aspecto histórico, podemos observar também que o próprio surgimento da possibilidade de concepção do policial como trabalhador já é um indício de uma mudança de paradigmas de como se pensa e se percebe a sociedade. Dessa forma, o status de trabalhador ao policial seria a condição histórica, e, portanto, a forma social que a categoria assume nesse contexto. 33 Em outras palavras, independente de seu conteúdo diverso, podemos chamar de trabalho essa dedicação objetiva e subjetiva do sujeito a atividade laboral. No caso da instituição policial, podemos observar que, em nome de sua atividade, o policial modifica a natureza (entendida aqui como uma natureza humanizada já construída por um determinado estágio histórico de desenvolvimento da sociedade) e modifica a si mesmo. Nesta pesquisa veremos o aspecto desse reflexo na construção discursiva do sujeito na medida em que essa transformação é traumática, ou seja, seguida por um processo de adoecimento ou esgotamento do policial. A adoção dessa perspectiva como caminho de compreensão e acesso a análise do trabalho policial tem como elemento central a sua experiência no trabalho, enquanto conjunto de atividades que reclamam uma dedicação objetiva e subjetiva consistindo em espaço central influente nas condições, reprodução de vida e princípios de visão e divisão do mundo (BOURDIEU, 1989). Com isso, não pretendemos negar a influencia que outros campos/espaços sociais possam ter na vida desses agentes, pelo contrário, veremos no capítulo 4 que a própria tensão entre esses campos e a carreira militar é uma fonte de sofrimento para o policial. Mas a centralidade, nesse caso, decorre de dois princípios: o primeiro é a tendência de fechamento da instituição militar aos moldes de uma instituição total (GOFFMAN, 1996); a segunda, é que as condições objetivas de trabalho, o que inclui os preceitos do código disciplinar e os condicionamentos físicos de tempo/lugar aos termos de prontidão 23, interferem na vida dos indivíduos afetando a autonomia que dela disporiam os agentes, exercendo, dessa forma, uma referencia, a partir da qual sua vida é balizada. Assim, consideraremos a polícia militar como um campo que reivindica um espaço maior na vida dos seus participantes, e, por isso, essa imposição assume um papel central na nossa análise. Essa reivindicação é objetiva no sentido de que se dá em termos obrigatórios de: locais de trabalho, tipos de serviços a serem executados, equipe que irá trabalhar, escalas, período de férias, folgas, dentre outros. Muito embora, a partir da articulação de redes informais de poder os sujeitos possuam uma margem de manobra, ainda há um peso decisivo desse fator na sua carreira enquanto militar. 23 A prontidão, característica do trabalho militar, consiste na referencia em estar sempre ―à postos‖, ou seja, sempre disponível à corporação, ainda que, por exemplo, o policial tenha uma folga, caso seja necessário utilizar essa folga para sua composição em determinada escala, ele é obrigado aceitar. 34 É interessante notar, que, algumas definições a respeito do trabalho policial derivam das atividades exercidas por esses agentes. Bayley (2001), por exemplo, descreve o trabalho policial por meio de três parâmetros: o primeiro relacionado ao que a polícia é designada a fazer, ou seja, suas atribuições; o segundo, a aproxima das situações com as quais ela tem que lidar (crimes em andamento, brigas domésticas, busca de armas, etc) e, por fim, as ações executadas que envolvem as práticas de prender, relatar, advertir, dentre outras. Contudo, a partir da fala de um policial entrevistado, introduziremos uma complementaridade: A policia militar são muitos batalhões, muitas companhias, muitas subdivisões. E tem locais bom, como todo lugar, que todo mundo quer ir e Tem locais que são verdadeiros castigos. Não existe esse negocio de todo mundo igual. Se você der azar você vai trabalhar num lugar ruim, trabalhando o dobro do que outro cara que tá em outro local. É tipo uma coisa que, ninguém entende hoje. É uma coisa que deixa todo mundo chateado. E de certa forma é uma forma de punição. (Policial entrevistado) Na policia militar, tem um estatuto que diz q se você fizer algo de errado vão lhe punir assim e assim, mas na coisa prática. Mas por debaixo dos panos, se você descontentar alguém ou arrumar uma inimizade, eles lhe punem. Lhe transferem pra um lugar ruim, longe da sua casa, com escalas de serviços horríveis que você não tem nem condição de ir e voltar, entendeu? É tipo, a maneira que alguns encontram de coagir a gente. Acho que é por isso, que não tem nenhum esforço no nosso comando de mudar as escalas. (Entrevista policial 1) O que podemos inferir desse trecho da entrevista (para o que nos interessa nesse momento), é a diversidade de condições de trabalho dentro de uma mesma instituição. No entanto, também observamos uma relação entre dispositivos de poder e prestígio no interior do campo que hierarquiza as condições de trabalho subordinando-as às relações de interesse dos indivíduos que ocupam posições privilegiadas nesse mesmo campo. Ao atribuir condições de trabalho diferentes a policiais de mesma patente nessa rede informal de poder, isso faz com que se constituam, através dos sujeitos, diferentes universos de realidade e entendimentos em relação a instituição. Por conseguinte, a experiência de trabalho na polícia é vivenciada de maneiras diferenciadas até certo ponto, dependendo da posição formalmente (hierarquia oficial-praça) e informalmente ocupada pelos sujeitos. Contudo, o que constitui elemento comum a todos os policiais, esteja eles na atividade meio ou na atividade fim, e passível de análise, é o 35 funcionamento formal (organização do trabalho) e informal, bem como as regras e sentidos presente nesse espaço social militar. 24 Dessa forma, introduziremos, no capítulo três, o conceito de campo elaborado por Bourdieu que complementa e delimita a análise das especificidades do trabalho policial, sem, contudo, contradizer a perspectiva e a proposta de analisar o policial como trabalhador. 2.3. O mundo do trabalho e o trabalho policial. Howard Becker fez um pequeno ensaio sobre um tema um tanto inusitado na sociologia. Trata-se do acaso. Ao explicar como chegou ao tema, descreve uma seqüência de acontecimentos, dentre eles, o fato de ter lido um artigo da antropóloga Mariza Peirano sobre alguns autores importantes da antropologia brasileira (dentre eles, Antonio Candido, Roberto Cardoso de Oliveira e Florestan Fernandes) e chamou-lhe a atenção o fato de que tais autores tinham como características comum a utilização de um modelo sociológico de explicação causal; mas que, no entanto, nas suas narrativas onde contavam suas trajetórias acadêmicas, expressões como ―foi por acaso‖ ou ―Tratou-se de um fenômeno ocasional‖ surgiam na explicação de momentos cruciais e de mudança de rumo nas suas carreiras. Considerando essas coincidências como um evento, Becker debruçou-se a descobrir ―os elementos que tinham necessariamente que estar presentes para que um evento ocorresse da maneira como ocorreu‖ (p. 7, 1995). Dessa maneira, o evento dependia da co-presença de todos os elementos para que a situação existisse. Elaborando uma adaptação dessa inquietação--que o autor desenvolveu como crítica às explicações deterministas e causais-- em relação as narrativas dos agentes em questão, podemos perguntar: quais as contingências presentes no contexto de decisão para os agentes tornarem-se policiais? Em outras palavras, quais circunstâncias serviriam para situar essa margem de manobra dos sujeitos? 24 Veremos no capítulo três como as Licenças para Tratamento de Saúde se inserem nesse contexto. 36 Na época que eu terminei não tinha esse foco de vestibular, pelo menos eu não vi isso no período. A pessoa...então era mais concursos militares. Ela (a escola) fazia preparações pra concurso, apesar de que o vestibular na época era um concurso também. (Policial 4) Não, eu fiz por necessidade mesmo de emprego, né? Eu nunca me imaginei policial militar. Nunca me imaginei na rua à caça de bandidos. Eu nunca pensei em ser policial militar não, eu nunca quis ser. Nunca tive vontade ou vocação para ser policial militar, mas me vi nessa situação, né? Teve o concurso e eu fiz. (Policial 9) Tu tem alguém na família que é da polícia?--Parente, próximo só...eu tenho um primo, mais ninguém. Ai depois disso, foi que entrou mais um primo, a minha ex mulher entrou depois também na polícia. Mas na época mesmo eu só tinha um primo, mas não tinha muito contato com ele não. Foi algo meio de....(como se não encontrasse palavras) doidice. De súbito?—Foi! pronto. Apareceu o concurso, ai eu tinha alguns amigos, não parentes, que tavam na policia. Me disseram do concurso, ai acabei fazendo e acabei passando. (Policial 7) Eu entrei já assim, porque meu pai era policial militar. Eu vivi em quartel. Eu achava aquela profissão do meu pai bonita, né? Defender a sociedade..eu sempre me espelhei nisso, não é a toa que eu vivia dentro de quartel, desde uns 6 anos até os 12 anos.(...) Ai meu pai veio com a proposta pra mim. Eu sempre comecei a trabalhar cedo e naquele tempo a polícia ganhava bem, né? Mas só que...no tempo do meu pai era uma coisa, no tempo que eu entrei já era outra coisa...(Policial 10) ` Esses trechos retirados das entrevistas servem para ilustrar as tipificações que vamos incorrer aqui. Eles demonstram justamente algumas coincidências e o contexto que influenciaram seus eventos. Podemos constatar que alguns policiais já vivenciavam, no espaço de socialização da família, uma homologia com alguns valores do campo militar e compartilhavam a continuidade da aspiração da profissão de seus pais, como é o caso do policial 10 e de muitos outros policiais, principalmente, os mais antigos. Assim como o policial 10; mas em situação inversa, encontramos o entrevistado 7, policial mais novo, que não tinha nenhuma influencia consistente na família até tornarse policial, mas após seu ingresso, parentes próximos ingressaram na corporação. Dessa forma, um ciclo se inicia enquanto o outro se encerra. É mesmo o entrevistado 10, policial mais antigo, que nos permite visualizar que a polícia da geração do seu pai já não foi a mesma para ele, exibindo uma movimentação histórica, que, apesar da tendência de reprodução do campo, os sujeitos vivenciaram. 37 Os casos dos policiais 4 e 9 aproximam-se de uma realidade que diz respeito às contingências ditadas pelo processo de precarização do trabalho. Trata-se de peregrinos do mercado de trabalho, ou seja, jovens que vagam entre subempregos ou empregos temporários, geralmente no setor de serviços, e que buscam uma estabilidade, uma ascensão no serviço público como projeto de vida. Pires; Ramalho Neto (2012) apontam que grande parte dos componentes dos quadros da polícia militar ingressaram na instituição com o objetivo de melhorar suas condições materiais. Essa opção pela Força Militar Estadual é demonstrada por alguns aspectos atrativos: a estabilidade no emprego, a ascendência funcional, a mudança do status e as possibilidades reais de aquisição de outras qualificações externas à Corporação, como cursos de graduação. (RAMALHO NETO, 2012, p. 27) A situação para a faixa etária que inclui os aptos a ingressarem na polícia é a mais crítica. São eles os que mais sofrem com o desemprego no Brasil, ou seja, jovens de 15 a 24 e 25 a 29 anos. Segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em 2012, 46% do total de desempregados no Brasil eram jovens e, apesar de uma melhora do país na redução do desemprego nos últimos anos, essa faixa etária continua excluída desse avanço e tem até 3 vezes mais risco de ficar desempregada do que um adulto25. O fato piora para os que não possuem maior qualificação e experiência. Os apontamentos de Rocha (2008) que realizou uma análise no desemprego de jovens a partir dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (IBGE/PNAD) do ano de 2005 conduziram a conclusão de que: O alongamento e a incerteza que cercam o período de transição da juventude certamente geram algum mal-estar individual, que se reverte rapidamente em mal-estar social, se envolver grande número de indivíduos. Parte das dificuldades e incertezas está associada a mudanças estruturais no mercado de trabalho, aos quais todos têm de se adaptar, mas são os jovens os que sofrem seu impacto mais direto: menos emprego tradicional, isto é, o emprego formal a tempo 25 Estudos recentes falam de um prolongamento da juventude em virtude do tempo de dependência em relação aos pais. Para mais detalhes, ver ROCHA (2008). 38 completo, único por toda a vida; mais ocupações temporárias, intercaladas por períodos de inatividade e desemprego; mudança contínua dos requerimentos de qualificação e obsolescência rápida de competências, o que requer formação continuada e resulta em trajetórias profissionais não-lineares. (ROCHA, p. 547, 2008) Desse modo, a estabilidade profissional de um emprego público, acrescido de outros fatores relacionados a essa falta de opções de postos de trabalho para um contingente de jovens com semelhante perfil exigido para o ingresso na corporação militar, torna atraente a carreira de policial. É expressivo desse quadro que, boa parte dos policiais de gerações mais recentes, dentre os entrevistados, não se identificam, a priori, com a profissão, uma vez ingresso na carreira militar vê o trabalho estável como um ―trampolim‖, ou seja, um meio para adquirir capital para realização de outros concursos ou outra formação profissional, através de um curso de graduação, por exemplo. Vejamos: No dia que eu entrei na polícia, eu já entrei com vontade de sair. Só que...é aquela coisa, quando eu entrei na polícia, eu entrei pra ter uma estabilidade pra poder até investir, né, no estudo, pra poder sair. Só que ai veio a escala 6 por 1e ai..se cansava muito sabe. Sei que eu vim empurrando com a barriga, as vezes estudava prum concurso, ai as vezes num dava o gás, ai as vezes, sabia que eu tinha estudado e não ia fazer a prova. Eu penso em sair, mas fica aquela coisa, né? As vezes eu vou estudar, pego o livro e faço é dormir. Cansado, né? Mas eu tenho pretensão de sair sim, da polícia. (...) Tu tem notícia do pessoal..da turma que se formou contigo? -- É, tem um que passou na polícia civil, tem um que...eu conheço um que foi expulso também...(pausa/silêncio). Mas a maioria continuou?—Entrevistado: Durante o curso, a maioria disse que era um trampolim, né? Tava ali só de passagem na polícia, só que ás vezes, chega um desanimo na gente de estudar sabe? Sei que a maioria, era só 1 é..de 30 alunos, 31 de 31 alunos, só 1 dizia que queria ficar na polícia até se aposentar. E os outros 30 disse que não, quer era só passageiro. Só que a gente não vê isso na realidade, né? Hoje, se eu for contar, só 3, 4 saíram. (Policial 12) Encontramos, nesses sujeitos, a intenção de um projeto26 cujo ethos individualista permeia o planejamento de seu futuro, ou seja, o individuo como parâmetro de valor, ―sujeito moral e unidade mínima significativa‖ (VELHO, 1994) que busca a ascensão social em primeiro plano. Dessa forma, segundo a classificação desses sujeitos, imbuídos de um discurso pautado, sobretudo, pela agencia individual, em uma escala de importância, primeiro estaria a garantia de uma estabilidade para provento de 26 Segundo Gilberto Velho (ANO), a noção de projeto busca incluir uma dimensão consciente da vida social, através da constituição, pelos indivíduos de uma ―margem relativa de escolha que os indivíduos e grupos tem e determinado momento histórico de uma sociedade‖ (Idem, p.107, 1994) 39 capital social, e, em segundo plano, uma busca de prestígio moral com a realização de uma possível vocação e reconhecimento social em relação ao trabalho. Trata-se de uma forma diferente de ver o trabalho presente no novo capitalismo (SENNETT, 2010) 27. Semelhante preocupação encontramos na análise de Sennett (2010) em relação as conseqüências dessas circunstancias no mundo do trabalho e nas novas formas de ser, agir e pensar da classe que vende sua força de trabalho. Segundo esse autor, no novo capitalismo é fomentada uma tolerância maior com as noções de flexibilidade, incerteza e identificação com o trabalho, causando, a esses sujeitos, uma estado de ansiedade permanente, um esvaziamento e fragmentação nos aspectos sociais, morais e culturais desenhando um cenário de degradação humana. Bauman (2000) associa esses aspectos a construção social de uma modernidade líquida, na qual a ―nova natureza do trabalho aparece (grifo nosso) separado do grande projeto de missão universalmente partilhada da humanidade e do não menos grandioso projeto de vocação para toda vida.‖ (p.160, 2000) Segundo o mesmo autor, o projeto da modernidade consistia, principalmente, nas ambiciosas construções subjetivas investidas por meio da certeza de que o trabalho era a fonte de toda a riqueza e prosperidade da nação. Quaisquer que tenham sido as virtudes que fizeram o trabalho ser elevado ao posto de principal valor dos tempos modernos, sua maravilhosa, quase mágica, capacidade de dar forma ao informe e duração ao transitório certamente está entre elas. Graças a essa capacidade, foi atribuído ao trabalho um papel principal, mesmo decisivo, na moderna ambição de submeter, encilhar e colonizar o futuro, a fim de substituir o caos pela ordem e a contingência pela previsível (e portanto controlável) sequencia dos eventos. (BAUMAN, p. 157, 2000) Contudo, a sociedade do bem estar social que pensava e apostava na ação conjunta de capital e trabalho prosseguiu uma separação desse acordo que era mediado pelo estado. Esse casamento, cuja interdependência para o funcionamento do sistema era vital, sobreviveu até o estopim das crises ao longo das décadas de 1960 e 1970. A partir de então, uma das partes dessa relação adquiriu maior autonomia e unilateralmente mudou as regas da casa (BAUMAN, 2000). Assim, um conjunto de 27 É importante ressaltar que Gilberto Velho, apresenta, com a noção de projeto, uma forma de compreender o contexto de mudanças sócio-culturais em uma sociedade, através da classificação das escolhas individuais pela sociedade a qual pertence. Portanto, não estamos falando da qualidade dos sujeitos em si, mas das circunstancias construídas e apresentadas na sociedade moderna. 40 perspectivas duvidosas incidiram sobre a classe-que-vive-do-trabalho (ANTUNES, ANO). As medidas adotadas para a recuperação das taxas de lucro ameaçadas pela inserção dos países centrais no mercado mundial modificaram as relações de trabalho, sua organização e condições gerais, efetuando, como vimos anteriormente, as mudanças nas dimensões objetiva e subjetiva da condição de trabalhador. Desse modo, a carreira de policial militar se encontra ainda no que Alves (2007) classifica como núcleo organizado do mundo do trabalho. Diz respeito sobre o trabalho de carteira assinada com direitos conquistados historicamente que ainda permanecem em algumas carreiras do serviço público. Diferente dos que estão sob uma área ainda mais precarizada e desprotegida, ou seja, a periferia da classe trabalhadora, constituída por empregos temporários, informais, mal remunerados e sob condições duvidosas. Dessa forma, mesmo cientes das condições de trabalho hostis, índices de morbidade e adoecimento, para alguns indivíduos, principalmente os menos favorecidos, a profissão militar constitui uma alternativa racionalmente viável. Todavia, como bem podemos observar na ultima entrevista citada, os peregrinos do mercado de trabalho, com uma experiência anterior, com uma lógica anterior, que pensam, se expressam e vivem numa modernidade líquida, de incertezas, de flexibilidade, de padrões de eficiência, quando inseridos no campo militar experimentam uma tendência de vigilância às suas vidas, uma centralização desse tipo de trabalho, ou mesmo uma invasão desse trabalho nos demais espaços sociais que antes eram comuns a sua convivência, e com isso uma exaustão física e mental acompanhada do sentimento de frustração, pois encontra sua agencia limitada aos engessamentos de uma instituição burocrática e hierárquica, encontrando barreiras aos seus projetos individuais. Reconhecidos dentre seus semelhantes como policiais modernos28, esses policiais representam e significam a inserção de um novo discurso no campo militar. Eles diferenciam-se dos demais por inserirem outros valores nesse espaço social, que consistem mesmo no próprio questionamento a respeito dos limites da hierarquia e da disciplina quando traduzidos nos autoritarismo dos seus comandantes. Também são eles 28 Na referencia nativa, a turma que inaugurou o programa Ronda do Quarteirão é a indicada como ―policiais modernos‖, mas essa relação não é exata, por exemplo, policiais que participaram ou apoiaram de alguma forma a greve de 1997 também se consideram‖ modernos‖. O Ronda do Quarteirão foi uma proposta política implantada no governo Cid Gomes, cujo projeto data do ano de 2005. Foi uma tentativa de criação de um Policiamento Comunitário de aproximação da polícia com a população. 41 que expressam uma parcela dos policiais que apresentam Licença para Tratamento de Saúde, recorte deste estudo, cujas implicações serão analisadas no capítulo três. Eles representam de certa forma, uma quebra na homologia dos campos familiar e profissional configurando uma trajetória diferente no habitus. Esse conceito é expresso por Bourdieu como um: (...) princípio gerador de práticas objetivamente classificáveis e, ao mesmo tempo, sistema de classificação de tais práticas. A relação entre as duas capacidades que definem o habitus, ou seja, a capacidade de produzir práticas e obras classificáveis, além da capacidade de diferenciar e de apreciar essas práticas desse produto o que se constitui o mundo social que está representado (...). (BOURDIEU, p 162 , 2007) Segundo DUBAR (2005) o conceito de habitus definido por Bourdieu comporta duas diferenciações sutis. A primeira interpretação seria a cultural, na qual o habitus corresponderia a cultura de um grupo de origem que seria incorporada pelo indivíduo na socialização, no grupo familiar, e, na condição de inserção de um grupo profissional homólogo, o individuo reagiria tal como aprendeu precocemente nas estruturas objetivas que produziram o seu habitus; como é o caso, por exemplo, das gerações de policiais que seguem na corporação. Já a segunda interpretação, veria o habitus nem tanto como uma sincronia direta entre condição social de origem e reprodução correspondente, mas como uma trajetória social, ou melhor, como uma ―orientação da trajetória social da linhagem‖. No caso estudado, seria a realidade dos agentes que nenhuma identificação mais incisiva possuem com o trabalho policial específico, mas advindo de uma condição social mais simples, percebe a oportunidade do trabalho no serviço público como um meio de ascensão social. No segundo caso, ele terá de converter o habitus de origem que é diferente daquele encontrado no ambiente profissional. Essa não continuidade do agente na condição social da família, ou seja, nas estruturas objetivas, estaria relacionada a uma socialização antecipada de um habitus burguês, no qual se produziria o desejo de sair da condição de origem ―subir de vida‖. Esses policiais, sobretudo, assim como os mais antigos, expressaram, com a greve de 201129 e a de 199730, o conjunto das insatisfações que contribuíram para compor o que chamamos aqui de ―novo discurso‖. Esse discurso vincula a imagem do 29 A greve durou cinco dias. Ela teve início em 29 de dezembro de 2011 a 3 de janeiro de 2012. Em 1997 um clico de protestos de Policiais Militares que se iniciou em Minas Gerais e espalhou-se pelo Brasil. Veremos com mais detalhes no capítulo 3. 30 42 policial a de um trabalhador. Ele o posiciona como portador de direitos, expõe a vulnerabilidade em que se encontra as condições de trabalho na polícia, associa às causas das Licenças para Tratamento de Saúde (LTS), essas condições de trabalho e ao assédio moral que os praças sofrem, inserindo, desse modo, um contraponto ao modelo militarizado e rígido relativos ao campo militar. Vejamos algumas comunicações que podem ilustrar os argumentos desse discurso: Nesse dia 04 de janeiro de 2014, completam 2 anos, que os militares estaduais do Ceará (PM e CBM), enceraram o ―Movimento Paredista‖, enganados pelo Governador do Ceará (...)O governo Cid Gomes e os militares estaduais, assinaram um Termo de Acordo e Compromisso, no dia 04 de janeiro de 2012, madrugada do sexto dia de paralisação para depois serem enganados pelo governo que não cumpriu a pauta constante do acordo, além do que, passado um ano (janeiro de 2013) deu iniciou ―a caça as bruxas‖, vindo a expulsar dos quadros da PM mais de dez policiais militares, dentre eles dois dirigentes máximo de entidades de classe dos militares, sem falar das punições disciplinares e muitas transferências para localidades mais longínquas das famílias.O governo não cumpriu as seguintes pautas: 40 HORAS semanais de trabalho fixadas em lei; CÓDIGO DE ÉTICA com combate ao ―assédio moral‖, que é explicito e danoso aos homens dentro dos muros dos quartéis; PROMOÇÃO COMPENSATÓRIA que promova os policiais e bombeiros compensatoriamente, pois muitos estão a mais de 10, 15 e até 20 anos, sem promoção alguma; HORA EXTRA, há policiais que chegam a trabalhar no interior (destacamentos), até 100 (cem) horas por semana, sem compensação financeira alguma. É uma verdadeira exploração de mão de obra humana, tudo em nome da famigerada e equivocada hierarquia e disciplina; e A SEGUNDA e a TERCEIRA parcela da ―CAMPANHA SALARIAL DOS PMs e BMs 2012/2014, que estavam previstas para ser implantadas em janeiro 2013 e janeiro de 2014. ACORDA CEARÁ!!! (Depoimento Presidente da Associação dos Praças e Soldados da Polícia Militar e Bombeiros publicado no facebook, dia 04 de janeiro de 2014) Conforme o Boletim do Comando Geral n° 094, de 22 de maio de 2013, Sabino foi demitido sob a alegativa de ―participação ativa na reunião/assembleia (no dia três de janeiro de 2013) e inequívoca demonstração de liderança no movimento, caracterizando tais atos, como contrários aos valores militares‖. Com a mesma acusação, P. Queiroz também foi desligado da corporação. (Notícia publicada pela Associação de Cabos e Soldados da PM, dia ) Daí quando a gente percebeu em 2011 que mais uma vez ele (referindo-se ao governo) ia empurrar a campanha pra 2012 e na seqüência pra 2013, 2014 sem atender a pauta. A categoria então, somando todos os problemas, claro, né? A questão do número de policiais que estão com patologias graves, os assassinatos contra policiais militares, o fato de muitos policiais estarem trabalhando sob efeito de psicotrópicos, a questão também das licenças médicas. Foram 8 mil licenças médicas só esse ano, né? O governo tava maltratando demais o policial e a gente vinha tentando avisar (...) então foi a soma de tudo isso foi que levou a categoria a ter que parar. (Pedro Queiroz, trecho de entrevista concedida a TV OPOVO em 5 de janeiro de 2012). 43 Por meio desse primeiro depoimento, o líder da associação atualiza seus seguidores da inércia das negociações ao mesmo tempo em que denuncia, a nós, leitores civis, uma condição de exploração do policial que trabalha. Interessante notar, nesse discurso, uma mistura de uma linguagem sindical e historicamente considerada de esquerda--com o uso de termos tais como ―entidades de classe‖ e ―exploração de mão de obra humana‖—seguida por justificativas específicas do meio policial militar: ―punições disciplinares‖; ―aos homens dentro dos muros dos quartéis‖; ―tudo em nome da famigerada e equivocada hierarquia e disciplina‖. E no segundo, a demissão dos quadros da polícia de um dos líderes do movimento grevista, bem como a acusação realizada, expressa os limites e confrontos de duas visões acerca do trabalho policial, do confronto de valores, correspondentes às posições hierárquicas. É interessante notar, em favor da representatividade do que qualificamos como ―novo discurso‖31 expresso nas falas e depoimentos dos líderes das Associações, entre os demais policiais, as eleições de duas figuras que se tornaram públicas devido a greve de 2011. São elas: o Capitão Wagner e o Cabo Sabino. O primeiro foi eleito em 2012 como vereador mais votado de Fortaleza, e, recentemente como Deputado Estadual mais votado; já o segundo, também nessa última eleição, foi eleito como Deputado Federal. Apesar das ambigüidades políticas que permearam o quadro dessas eleições, destacamos o fato reconhecido e articulado da categoria apresentar apoio massivo a esses representantes e, ainda, as idéias expressas por esses líderes políticos. 31 ALMEIDA (2010) a partir do estudo do ciclo de movimentos reivindicatórios dos Policiais Militares brasileiros do ano de 1997, classifica o fenômeno como uma inovação no repertório da ação coletiva dos Policiais Militares. 44 Fonte: site da Associação dos Profissionais da Segurança. 45 Fonte: Site da Associação dos Profissionais de Segurança. A APS (Associação dos Profissionais da Segurança) tem como presidente o referido Capitão Wagner. As figuras acima constituem mais um exemplo onde uma recursividade de aproximação identitária com a figura do trabalhador é acionada na elaboração de notícias e pensamentos das entidades32. Mas, o que nos interessa em específico, é compreender a relação entre adoecimento, greve, condições de trabalho e o policial enquanto trabalhador, na formação de um discurso sobre o adoecimento e a vitimização elaborado, neste estudo, a partir de um ponto de vista específico do campo militar, ou seja, pela percepção dos que ocupam a escala inferior na hierarquia, os praças da polícia militar. Foi com o movimento grevista que esses sujeitos conquistaram o direito de adoecer no que se refere às dimensões simbólicas e políticas. No primeiro aspecto, destaca-se o contexto de vulnerabilidade do policial apresentando seus limites físicos e psicológicos postos a prova diariamente, contestando a imagem do herói inabalável, do guerreiro incansável, construções relativas ao universo militar; no segundo, como uma estratégia diante do sofrimento do trabalho, com todas as implicações decorrentes, que iremos detalhar posteriormente ao longo deste estudo (no capítulo 3). Tudo isso a que 32 A primeira notícia foi publicada para informar sobre a demissão de um dos policiais que participaram de uma reunião informativa a respeito do andamento das negociações da greve. 46 nos referimos teve como marco principal a greve de 2011, porque uma das conquistas foi a incorporação ao salário de uma gratificação de 819,03 reais para os policiais do turno da noite e 533,80 para quem desempenha a função como folguista (além do vale alimentação de 220 reais) que antes só era concedida ao policial em serviço, ou seja, quando e se, o policial entrasse de Licença para Tratamento de Saúde, esse valor não era repassado ao salário que, bruto, correspondia a 1500 reais, na época. Dessa forma, o desfalque na renda familiar relativa a gratificação, fazia com que o policial suportasse ao extremo as situações de sofrimento, agravando seu quadro, dificultando o acesso a tratamentos e medicamentos, devido a redução salarial. Outra conquista da greve foi a inclusão dos policiais militares ao Issec -Instituto de Saúde dos Servidores do Estado do Ceará. Contudo, é recorrente as reclamações na demora de consultas (2 a 3 meses), na falta de alguns especialistas, como médicos psiquiatras (somente 1), que não são suficientes para atender com eficiência e eficácia a demanda dos seus associados. Dessa forma, buscaremos compreender como essa dupla inserção funciona e como o adoecimento se insere nesse contexto, quais seus significados, que linhas de ação seu discurso torna possível, bem como a que circunstancias esse discurso é acionado. Mas antes, conheceremos melhor as especificidades desse trabalho policial, ou seja, os caracteres referidos anteriormente como ―punições disciplinares‖, ―muros dos quartéis‖ para compreender as regras que regem a vida desses sujeitos a fim de conhecermos as estratégias ou mesmo as trajetórias de sofrimento e adoecimento na instituição, além de como esse adoecimento se configura e como se insere nesse campo militar. 2.4. Algumas especificidades do trabalho policial. Juntamente com as demais polícias, a policia militar (civil, polícia federal; polícia rodoviária federal; polícia ferroviária federal; polícias civis e corpos de bombeiros militares) é parte integrante da complexa e burocrática organização do Estado brasileiro inserindo-se no conjunto de instituições da justiça criminal. Em menor 47 âmbito, ela compõe o sistema de segurança pública cuja função é a preservação da ordem publica e da integridade das pessoas e do patrimônio. Art.1º A Polícia Militar do Estado do Ceará - PMCE, instituição permanente, força auxiliar e reserva do Exército, organizada com base na hierarquia e na disciplina, destina-se à preservação da ordem pública, à polícia ostensiva, além de outras atribuições previstas na legislação federal e estadual (...) (Lei de Organização Básica da PMCE) Como força auxiliar e reserva do exército, o modelo de organização da PM ainda sofre ressonâncias desse modelo militar. Ela é organizada em batalhões, companhias e pelotões. Essa organização interna se relaciona intimamente às normas de hierarquia e disciplina militar, assunto do código disciplinar que submete tanto o exército 33 quanto a polícia. Os preceitos desse código versam sobre uma representação do mundo militar baseada em uma superioridade moral, com símbolos de distinções e prestígios em relação aos paisanos (ALMEIDA, 2010). Cada policial possui uma ficha que será usada em momentos decisivos, como uma promoção ou julgamentos, no qual sua trajetória é inscrita nos termos disciplinares. Ao levar uma anotação, ou seja, uma ―parte‖ ou um ―elogio‖, o policial recebe uma pontuação correspondente na sua ficha que irá classificar o seu comportamento como ―bom‖, ―regular‖, ―ruim‖ ou ―ótimo‖. Em casos mais graves a punição recebida pelo policial pode ser a detenção no batalhão, o chamado Recolhimento Transitório. Para termos uma noção do peso relativo das questões de disciplina no interior da corporação, na contagem dessa ficha que corresponde a cada policial, a pontuação que ele ganha pela conclusão de um curso de especialização é quase semelhante a que ele perde por indisciplina, ou mesmo não apresentação com o uniforme em condições adequadas. As principais causas que levam às punições, seja anotação, prisão ou expulsão, são aquelas relativas às transgressões disciplinares. Como vimos, em relação aos casos dos policiais demitidos após participarem da greve de 2011. Isso porque, dentre as normas do código disciplinar, está a proibição do policial participar de manifestações políticas, realizar greve ou mesmo organizar-se em sindicatos. 33 No caso do exército, trata-se do Regulamento Disciplinar do Exército-RDE, a partir do qual se inspira os preceitos do Código Disciplinar da Polícia Militar. 48 O trabalho do policial militar é perpassado pelos mecanismos disciplinares e pela hierarquia, desde o momento da inserção do policial na instituição, seja nas patentes referentes às praças ou ao oficialato. Essas duas patentes compõem os quadros hierárquicos da instituição e são separadas por meio da aprovação em concurso público. Podem se candidatar ao círculo de praças todo cidadão brasileiro a partir de 18 anos, com até 30 anos, que tenham concluído o ensino médio. Já com relação ao circulo dos oficiais, é necessário uma formação superior. Ao ingressar na instituição como praça, a partir dos critérios de antiguidade, merecimento e precedência funcional, o policial pode subir de graduação, na seqüência hierárquica: soldado, cabo, terceiro sargento, segundo sargento, primeiro sargento até subtenente. Em relação aos oficiais, a sequencia compreende: segundo tenente, primeiro tenente, capitão, major, tenente coronel e coronel. É importante destacar que as praças só podem ascender até a graduação de subtenente não podendo seguir ao posto de primeiro tenente senão por via da aprovação em outro concurso público específico para essa seleção 34. Dentre os preceitos da hierarquia, a praça sempre deverá obediência a um oficial, independente de trabalharem juntos ou não, e em muitos casos, inclusive fora do ambiente de horário de trabalho. O policial que é praça deve continência a qualquer oficial, independente do posto, assim como os oficiais dentre as patentes inferiores. São as praças que na atividade fim, operam nas ruas, em viaturas, a pé, dependendo do tipo de policiamento, elas estão a resolver os conflitos, confusões de toda ordem, vigilâncias, dentre outros; na atividade meio, estão empregados no serviço burocrático ocupando os cargos inferiores, dentro da escala hierárquica. Já os oficiais estão no comando dos batalhões, quartéis, em funções de supervisão de praças, realizando o chamado ―serviço de inteligência e organização‖. O que observamos, nas atuais circunstâncias, é que, ao entrar na polícia, o sujeito opta não apenas por uma carreira profissional, mas por uma escolha de vida, na qual, de acordo com o apresentado no código militar, ele deve estar sempre à disposição do Estado. Esse pressuposto da necessidade de disposição em tempo integral tem por conseqüência uma jornada de trabalho não definida (o que varia de acordo com a legislação de cada estado), podendo ser convocado estando de serviço ou de folga. 34 No estatuto há a possibilidade do policial praça subtenente galgar o posto de oficial por meio de algumas seleções internas. Mas, o que os policiais relataram é que trata-se de uma prática pouco recorrente, além disso, os critérios existentes para a seleção são muito seletivos e exigentes. 49 Apesar de não ter uma jornada e escala de trabalho padrão, cada companhia pode possuir uma escala específica. As associações denunciam que, no interior do estado, dada a falta de policiais nesses locais, as escalas chegam a 100 horas semanais. Em relação a atividade policial, Amador (1999) relata que existe um pressuposto de que o policial tem que realizar suas atividades com ―total‖ controle. SetteCamara (2002) explica que, segundo a natureza do trabalho policial, quando este é chamado para atender uma ocorrência, é como se ele entrasse em um ―terreno movediço‖, uma vez que envolve uma situação com pessoas e resolução de conflitos dentro de um contexto geralmente novo a cada ocasião. Silva e Vieira (2008) detalham melhor esse processo de entendimento para o policial em relação a uma situação nova: Quando o PM chega ao local, logo se depara com um cenário complexo: Quem é o bandido, o infrator, a vítima? Quem está certo ou errado? O motivo que suscitou sua presença trata-se de um ato ilícito? E se for preciso utilizar a força – ou a arma –, qual deve ser o limite? Qual o melhor procedimento a adotar? Tudo isso se decide rapidamente. Um erro de avaliação pode lhe ser fatal ou induzi-lo a comportamentos equivocados. (SILVA; VIEIRA, 2008, p. 6) Subjacente a esta estrutura hierárquica existe a ―produção‖ do policial militar que corresponde a incorporação de um ethos guerreiro de valores e hábitos através da formação. Segundo Albuquerque e Machado (2001), no estudo sobre a Jornada de Instrução Militar (JIM), a formação dos policiais compreende uma mudança identitária onde encontramos verdadeiros rituais de passagem para que o indivíduo possa se identificar com o ethos militar e internalizar condutas de disciplinas rígidas da instituição. Dessa forma, o processo iniciado a partir do ingresso na corporação compreende a incorporação de um modo de percepção particular da cultura policial militar que transforma o sujeito que se submete e, as vezes, surpreende-- aqueles que ingressaram na corporação em função somente da busca de uma carreira estável no serviço público— em um representante do poder de governo (FOUCAULT, 1999) do estado. Contudo, conforme observamos no discurso das Associações e nas ações grevistas, uma 50 nova perspectiva é reivindicada em relação ao policial que questiona os próprios fundamentos da sua especificidade, ao mesmo tempo em que os renova em processos de aproximação e distanciamento da figura do trabalhador civil. Todavia, estudar o policial como um trabalhador não é reduzi-lo aos fatores em comum com os trabalhadores do mundo civil, mas, partindo a perspectiva do policial, buscar compreender o modo pelo qual ele percebe o seu próprio trabalho, as formas do fazer e do ser policial. Portanto, estudar a organização do trabalho policial Militar é considerar todo um aparato burocrático e ideológico construído, mas também é, sobretudo, entender suas relações cotidianas vivenciadas pelo sujeito que trabalha, suas margens de manobra, seus códigos partilhados e suas relações possíveis de poder. 51 3. NO RASTRO DA PESQUISA: SOBRE AS INCURSÕES E COLETA DE DADOS EM CAMPO. Temos de estudar o Homem e devemos estudar o que mais profundamente o preocupa, ou seja, aquilo que o liga à vida. Em cada cultura, os valores são ligeiramente diferentes; as pessoas aspiram a fins diferentes, seguem impulsos diferentes, anseiam por diferentes formas de felicidade. Em cada cultura encontramos diferentes instituições através das quais o homem persegue os seus interesses, diferentes costumes pelos quais satisfaz as suas aspirações, diferentes códigos de leis e moralidade que recompensam as suas virtudes ou punem os seus erros (MALINOWSKI, 1976, p. 36) O contexto de referência desse trecho foi o de estabelecimento da antropologia como ciência, na qual, Malinowski35, foi o maior expoente. Nessa breve elucidação, o autor apresenta o objetivo maior da construção desse conhecimento sobre o Homem. Compreender o ponto de vista do nativo, suas aspirações, sua realidade, suas emoções, as razões da sua existência pelas quais cria seu próprio romance (Idem, 1976) significa também acessar as dimensões da natureza Humana através do encontro e choque desse conhecimento com aqueles entendimentos que elaboramos sobre a nossa própria sociedade. Apesar de ser um trecho escrito no século passado e referir-se ao momento histórico no qual a antropologia dedicava-se ao estudo do Outro nas sociedades colonizadas/distantes, ele continua clássico 36 e serve de base para a reflexão e inflexão que a própria disciplina fez em seu objeto de estudo ao voltar-se o para Outro na sua própria sociedade. Esse movimento, resumido em ―tornar o familiar exótico e o exótico 35 Malinowski revolucionou a antropologia como ciência através da construção do método etnográfico, da invenção do trabalho de campo, caracterizando-o sob critérios científicos. Além de avanços em torno da perspectiva evolucionista que predominava na época. 36 Lèvi Strauss (1962), sobre a discussão que se colocava a respeito de um possível crise da antropologia com o desaparecimento, colonização dos ―povos primitivos‖, elucidou a questão ao explicar que a antropologia não se definiria pelo seu objeto, mas sim pela maneira de olhar, compreender e conhecer o Outro, sobre a questão da diferença. 52 em familiar‖ (VELHO, 1994), de proximidade e distância continua tendo a alteridade como base, com a diferença que se aplica às sociedades complexas, contemporâneas 37. Nesse sentido, compartilhamos de um mesmo tempo histórico, porém vivenciado de maneiras diferentes, onde os interesses, projetos de vida, seguem orientações diferentes, conforme os significados que atribuímos, aos grupos sociais que participamos, e principalmente, segundo Bourdieu (1989), segundo as condições objetivas que tendem a reproduzir a posição que ocupamos nos espaços sociais. Bourdieu argumenta que a realidade moderna ocidental é orientada pelas convenções sociais construídas por processos de diferenciações num espaço de semi-autonomia que promove a construção de campos. Ainda, segundo o autor, os sujeitos, tendem a comportar-se, conforme a posição que ocupam na configuração das relações de poder que estruturam os campos dos quais são agentes, sendo assim, seus interesses, aspirações e códigos morais funcionam influenciados pelas características de cada campo. Considerando esses campos como espaços sociais com regras, valores e estruturas específicos, que constituem dimensões da realidade para aqueles inseridos no seu jogo de significados, buscamos compreender de que forma as noções relacionadas ao sofrimento são elaboradas e pensadas a partir de um grupo específico da nossa sociedade que tem por valores legítimos: a virilidade, a hierarquia e a disciplina militares como elementos fundamentais de seu campo simbólico. Em outras palavras, como o trabalho policial enquanto fonte considerável de princípios de visão e divisão, condição objetiva, produção material e simbólica desses sujeitos, e, através deles, atua, se articula e produz discursos, percepções e significados do adoecimento e sofrimento nesse campo. Acompanharemos agora, através da objetivação e reflexão das incursões no trabalho de campo, de que maneira as interações entre pesquisador e pesquisado, além do acesso a outras fontes, foram elucidativas para compreender o funcionamento, a lógica e a reflexividade dos sujeitos estudados, transformando o campo teórico, abstrato, referentes a uma fase pré-campo em um campo de análise: de significado para o ―nativo‖ e inteligível para o pesquisador38. 37 Sobre isso ver Magnani (2003), Gilberto Velho (1994). Rosana Guber (2011), Roberto da Matta (1978) e Marc Augè (1997) são alguns autores que fazem referencia a essa passagem na construção de um campo teórico para sua versão empírica, considerando a passagem e compreensão para reflexividade dos sujeitos estudados. 38 53 Conforme detalharemos a seguir, este estudo resulta de pesquisa qualitativa, com a realização de quinze entrevistas semiestruturadas, participação em encontros semanais de grupos destinados a policiais em tratamento e conversas informais com outros policiais (além dos entrevistados), através das atividades desempenhadas pelo Centro Biopsicossocial da Polícia Militar, local de tratamento e acompanhamento dos Policiais Militares com problemas de saúde e/ou em situação de vulnerabilidade física e/ou psicológica em que a pesquisa foi realizada. A pesquisa também teve como base as observações registradas a partir da permanência diária no local da pesquisa (durante a manhã e alguns dias a tarde), por cerca de três meses (junho, julho e agosto) do ano de 2014. Além disso, também acompanhamos algumas notícias e publicações em sites e redes sociais das Associações39 de policiais militares. Antes de iniciarmos os percursos da pesquisa, avisamos ao leitor que optamos por adotar as duas variações de pessoa verbal na escrita: a primeira do singular e a terceira do plural. Isso porque compartilhamos da ideia de que todo trabalho científico é, sobretudo, um trabalho coletivo nas partilhas de experiências e vivencias, mas, ao mesmo tempo, ele também é individual no sentido de que há momentos em que o pesquisador se encontra só frente a determinadas situações. Diante disso, ver-se-á ao longo do texto que se segue uma seqüência "esquizofrênica" autoral, todavia a não consideramos contraditória, mas sim integrada às diversas fases de composição da pesquisa e do campo proposto. 3.1 A inserção em campo: Desafios e estratégias. As primeiras incursões exploratórias: fase pré-campo40 As primeiras experiências que acompanharam a trajetória de compreensão e formulação do campo resultaram das visitas e materiais recolhidos das associações de policiais militares e da perícia médica. Apesar de não ocupar um espaço no qual foram destinadas incursões prolongadas, não passando do caráter de ―visitas‖ tal como 39 ASPRAMECE- Associação de Praças da Polícia Militar e Corpo de Bombeiros; ACSMCE- Associação dos Cabos e Soldados Militares do Estado do Ceará e APS- Associação dos Profissionais de Segurança 40 Podemos dizer que a fase da pesquisa exploratória relativa à busca pela autorização (acima descrita) marca o que Damatta vai chamar de fase ou plano ―teórico-intelectual‖ (1978, p. 24). Segundo o autor, nesta fase, o pesquisador não tem nenhum contato ainda com o grupo que deseja estudar, a não ser pelo conhecimento teórico produzido por outros intelectuais sobre o grupo até o momento. Trata-se, portanto, de um ―abuso da cabeça‖ onde temos acesso a um conhecimento que é teórico, universal, intelectual e mediatizado pelo abstrato e não pela experiência, pelo específico e vivenciado. 54 qualificamos, esses locais foram importantes para compreender o contexto no qual a pesquisa estaria sendo realizada. A exposição na mídia de um problema social sugerido pelo aumento de Licenças para Tratamento de Saúde (LTS) concedidas aos policiais militares pela Perícia Médica circunscreveria a pesquisa num determinado período histórico, balizado pela atuação e expressão dessas Associações na última greve (entre 2011 e 2012), pela utilização da mídia e as repercussões disso na corporação militar. Assim, conhecemos e fomos recebidas41 de bom grado, pela Associação de Cabos e Soldados da Polícia Militar e Bombeiros- ASPRAMECE e pela Associação de Cabos e Soldados—ACSPMCE as quais apresentaram as reivindicações e causas da categoria policial, sobretudo, do ponto de vista dos praças, os últimos na hierarquia de comando da instituição. Também são estes os mais afetados pelos casos referentes às Licenças. Coincidentemente, no dia em que uma das Associações foi visitada, tivemos a oportunidade de conversar brevemente, enquanto aguardava para falar com o representante legal da instituição, com um policial que também esperava ser atendido. Após saber o interesse da pesquisa, o policial relatou que esteve de Licença para tratar de problemas psicológicos, dizia não conseguir dormir a noite, ter problemas em casa, sofrer com estados de agressividade e estresse. Ele trabalhava na Beira Mar, no BPTUR (Batalhão de Turismo) e, segundo ele, a primeira medida que seus superiores tomaram quando o prazo da sua licença acabou, foi transferi-lo para trabalhar no presídio, o que segundo sua classificação, seria um dos piores locais para uma pessoa com problemas psicológicos trabalhar. Esse foi o primeiro contato de outros que viria a ter com outros policiais em situação semelhante. As visitas as associações foram importantes para conhecermos as queixas gerais a respeito das condições de trabalho e a forma como elas eram apresentadas. Quando associadas às noticiais vinculadas as LTS, denunciavam uma dimensão de exaustão do policial enquanto trabalhador e do sistema hierárquico disciplinar abusivo que pesava sobre eles. Nesse espaço de tempo, tivemos conhecimento, por meio de algumas 41 Durante a pesquisa exploratória, realizei as visitas às Associações com outra pesquisadora integrante do Projeto Casadinho (Processo 552454/2011-7) (Chamada Pública MCT/CNPq/CAPES- Ação Transversal nº 06/2011- Casadinho/Procad) do qual esta pesquisa é parte. 55 indicações nas visitas e através de pesquisas na internet, de um espaço que a própria instituição destinava ao tratamento dos policiais que apresentavam LTS, o Centro Biopsicossocial, mais conhecido como CBS. Ele está subordinado à Coordenadoria de Assistência Social da Polícia e formam, junto com o Centro Odontológico, o composto assistencial que a corporação disponibiliza aos seus policiais e dependentes. Marcamos uma visita por telefone ao CBS, já ensaiando pretensões de fazer a pesquisa no local. No dia marcado, fui recebida por dois funcionários 42 (um homem e uma mulher) que faziam, na verdade, um serviço social naquele órgão, ambos cumpriam funções como: realizar visitas aos policiais de LTS, ministrar grupo terapêutico, auxiliar nas internações, dentre outros. Eles tinham muito a dizer acerca do trabalho que realizavam e das condições de trabalho em geral da polícia, contudo, por mais proveitosa que fosse essa conversa primeira, ela não passava de um primeiro encontro institucional, no qual, minha figura era traduzida como a de uma pesquisadora, membro de uma instituição, que tinha como propósito a realização de um estudo, e meus interlocutores se apresentavam como autoridades, porta-vozes que atuavam indicando uma pauta de direito, moralidade e responsabilidade (GUBER, 2011) do assunto em questão. Depois de mencionada a intenção de realizar a pesquisa no local, eles me conduziram à sala do oficial responsável no momento. Na conversa com o oficial, expliquei novamente a pesquisa. Ele consentiu verbalmente que eu poderia realizar o trabalho de campo no local, somente pediu que eu oficializasse minha solicitação. Ocorre que algumas mudanças aconteceram enquanto o ofício ia sendo repassado para o Comando Geral. O oficial com que conversei estava substituindo outro, o ofício foi encaminhado com rapidez, mas a resposta tardou a chegar. Entre idas e vindas, e com a ajuda de um oficial do CBS, a autorização foi consentida quase cinco meses depois. Em seis folhas, acompanhou a burocracia pela qual passou desde o CBS à assinatura por fim do secretário Adjunto na época, em maio de 2014. 42 No Centro Biopsicossocial trabalham policiais e funcionários terceirizados. Esses policiais que trabalham no Centro também constituem fonte de conhecimento sobre a polícia, sobretudo, em relação ao funcionamento da instituição, uma vez que, apesar de estarem ―afastados das ruas‖, eles acumulam experiências de outros Batalhões, destacamentos, dentre outros. Eles têm a expertise de sobrevivência no trato com a instituição hierarquizada e ajudaram muito na compreensão da polícia como um todo. Contudo, a fim de evitar confundir os policiais que utilizam o serviço do CBS com os que trabalham nele, incluiremos esses policiais na categoria de ―funcionários‖ junto com os terceirizados. 56 Segundo os relatos de alguns policiais, essa demora se deveria ao contexto de repercussão das denúncias das associações com relação às Licenças que tornava uma pesquisa dessa natureza, naquele contexto político, algo indesejável. O receio 43, segundo suas especulações, era de que, de algum modo, o resultado da pesquisa poderia chegar às mídias e disso resultar uma rejeição e avaliação negativa ainda maior da instituição policial pela sociedade, prejudicando aqueles que falam em seu nome. Eles não consideravam comum que o Comando Geral repassasse uma autorização dessa natureza à Secretaria de Segurança Pública, o que aumentava as suspeitas e especulações. Nesse período, entrei em contato com trabalho de uma colega de profissão que fez seu estudo também no CBS e constatei que ambas realizamos o mesmo procedimento (SALES, 2013). O ofício dela foi encaminhado da Coordenadoria de Assistencia Social – CSAS (Parte administrativa do CBS) ao Comando Geral e, com menos de um mês, obteve o parecer positivo do comando geral. Ao tomar conhecimento dos acontecimentos, reforçou-se a possibilidade de que, talvez, de fato, o momento político não fosse dos melhores. Mas depois da ajuda dos oficiais, com suas influencias, suas articulações na instituição, a autorização enfim foi consentida. 3.1.1 A observação como ferramenta metodológica Apesar de não considerar esse trabalho aos moldes de uma etnografia, fizemos valer o uso de sua principal ferramenta metodológica, ou seja, a observação. A ideia inicial era um período de vivencia e experiência (observação direta que resultou em observação participante) antes ou concomitante a realização das entrevistas. Dada a conjuntura das dificuldades44 não foi possível um período mais prolongado de trabalho de campo, mas por outro lado, considerei que o tempo empregado se deu de forma bastante intensa. Dessa forma, dediquei durante cerca de três meses (junho e julho), quase todas as minhas manhãs (com exceção somente das sextas no primeiro mês) e alguns dias da tarde para o trabalho de campo no Centro Biopsicossocial, local em que, 43 Inicialmente, tínhamos a pretensão de realizar também uma pesquisa quantitativa em relação as Licenças alocadas na perícia médica. Contudo, posteriormente, essa proposta tornou-se inviável devido as disposições de organização do material. 44 As obrigações acadêmicas, o prazo do mestrado, a não familiaridade com os estudos da violência e a demora com a autorização. 57 imaginei, poderia ter um acesso privilegiado, estável e contínuo aos policiais de Licença. O CBS- Centro Biopsicossocial, localizado na rua Tereza Cristina, bairro de Fátima, foi criado após o repasse do Hospital da Polícia Militar para o SUS- Sistema Único de Saúde. Alguns funcionários que trabalhavam no hospital passaram a integrar esse Centro que teria o objetivo de substituir o Hospital da Polícia no quesito assistencial. O panfleto informativo sobre o Centro diz: O Governo do Estado do Ceará, através da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social, em sua busca incessante pela excelência de suas atividades, atenta para uma visão holística de HOMEM enquanto um ser biopsicossocial, onde o foco não é apenas a doença e o tratamento em si, mas todos os aspectos relacionados ao fenômeno do adoecer (sejam eles fisiológicos, psicológicos, sociais, ambientais ou espirituais) os quais também devem ser considerados para que o tratamento seja eficaz, visando a promoção à saúde e focando no tratamento integrado com ênfase na ética e no sigilo absoluto. Esses pensamentos representam a necessidade de aperfeiçoamento da atual política de Segurança Pública, onde há a preocupação com a qualidade de vida do policial militar e dos seus dependentes, sendo que em um ato de responsabilidade institucional e social apoiou a inauguração no dia 26 de novembro de 2009 o Centro Biopsicossocial—CBS da PMCE, vinculado a CSAS45, que funciona como um órgão sanitário, congregando em um espaço único os serviços de psicólogos e assistentes sociais, proporcionando um atendimento biospsicossocial de qualidade e excelência a toda família policial militar. Conforme indicado no panfleto, o CBS oferece atendimentos psicológicos individuais (geralmente são atendidos nove pacientes por dia), dispõe de dois grupos terapêuticos; um destinado aos policiais com problemas de álcool e outras drogas, chamado Recomeçar (todas as quintas) e o outro, chamado Resgate de auto-estima, ministrado por uma psicóloga, que acontece de quinze em quinze dias, às sextas e é destinado a todos os policiais e dependentes. Além disso, sob condições normais 46, há a realização de visitas aos policiais de LTS diariamente, com exceção do dia do grupo terapêutico Recomeçar. Essas configuram as principais atividades, mas também encontramos o serviço de um médico clínico geral às tardes e uma endocrinologista. A proposta ideológica encontra limitações político-financeiras. O Centro sofre algumas carências, considerando as motivações que se propõe, uma das principais 45 Coordenadoria de Assistencia Social – CSAS (Parte administrativa do CBS) Com isso quero dizer, quando não há algum impedimento urgente, tais como internação, falta de carro disponível para a visita, relatório incompleto com endereço, dentre outros. 46 58 consiste na falta de mão-de-obra. A carência de profissionais em determinados setoreschaves compromete o avanço das metas e até mesmo a realização de tarefas diárias. Para o atendimento de policiais e dependentes, o CBS contava apenas com uma profissional de psicologia e nenhuma assistente social (na época de estadia em campo), cabendo a dois policiais somente, realizar todas as demais exigências burocráticas e profissionais da instituição (realizar visitas, preparar palestras, ministrar um dos grupos terapêuticos e elaborar relatórios de acompanhamento). Além disso, é um local de constantes mudanças no quadro de funcionários e direção. Trata-se, portanto, de uma zona intermediária entre o local da hierarquia militar e a tentativa de construção de um ambiente de cuidado. No entanto, pesa sobre seu discurso e propósito ideal, indicando algumas limitações, tensões decorrentes das relações de poder para com a corporação. Isso porque suas atividades compreendem o território de outros batalhões, companhias, destacamentos que nem sempre cooperam de forma efetiva, por vezes, dificultando o trabalho, seja por omissão, seja por desconfiança, interesses diversos na lógica de funcionamento das redes de poder da instituição. Essas tensões se estabelecem na relação macro e micro, indicando que, apesar de seu propósito, qualquer que seja suas intenções, seu funcionamento está integrado a uma organização maior, a da polícia militar, que exerce, em todas as instancias, uma lógica específica de funcionamento. Sobre como me inseri nesse funcionamento, explicarei agora. Objetivamente, ficou acordado que iria acompanhar os grupos terapêuticos, primeiramente, o Recomeçar e, nos outros dias, iria também trabalhar com a possibilidade dos dados e ambientar-me com o trabalho realizado no Centro. Essa programação foi negociada com a psicóloga responsável pelo setor de psicologia. No primeiro dia, um dos oficiais me explicou alguns conflitos que já tinham ocorrido entre ele e outra funcionária a respeito de divergências sobre o propósito e o funcionamento de algumas atividades do CBS. Foi o primeiro comentário que sugeria um ambiente de tensão num espaço, até então tranqüilo na visão do visitante. Também indicava conflitos que representavam visões diferentes acerca da percepção sobre a doença e sobre os policiais militares. 59 O percurso metodológico pode ser associado, de certo modo, aos espaços que me foram sendo liberados, conforme minha presença foi sendo, numa escala: tolerada, aceita, e, até desejável. A princípio, passava boa parte do tempo na sala de espera e na sala destinada a algumas operações burocráticas e de planejamento dos funcionários que ministravam os grupos e faziam as visitas. Quando da minha chegada, os funcionários apresentaram o espaço como um local que eu poderia usar constantemente, fosse para as entrevistas, fosse para algum planejamento ou atividade. De fato, foi um espaço bastante aproveitado. Geralmente, o combinava com a sala de espera. Nesta, os sujeitos da pesquisa chegavam, se acomodavam, se informavam sobre seu lugar na fila para o atendimento psicológico, assistiam TV e conversavam. Interessava essa ultima atividade, sobretudo, quando contavam casos seus ou de terceiros, dividiam suas angústias ou expressavam, de alguma forma, suas opiniões, seus julgamentos ou mesmo acusações. Pelas conversas que presenciei (em algumas até interagi) foi possível perceber que o CBS conseguia ser, até certo ponto, principalmente, para os que utilizavam com regularidade os seus serviços, um espaço de confiança, desejável, com vínculos de afeto dos policiais com os funcionários e outros policiais que trabalhavam no CBS. Assim, dediquei dias na prática de observação na sala de espera. Nesta apenas observava, tentava concentrar-me nos assuntos e depois anotava o que mais interessava na sala de ―planejamento‖. Optei, a princípio por não fazer anotações na frente de todos, por receio que me confundissem com alguém que estivesse lá para fazer uma avaliação, ou algum tipo de fiscalização. A razão dessa atitude pareceu sensata depois de alguns comentários dos funcionários. Alguns deles deram dicas de como lidar com algumas pessoas, o que fazer ou o que não fazer para não ter problemas de relacionamento que poderiam interferir na pesquisa ou mesmo no dia-a-dia; outros denunciavam o clima de desconfiança com relação à figura do pesquisador. Tal como ocorreu na primeira semana, quando cheguei pela manhã, um dos funcionários falou em tom de brincadeira: ―Ow Dona Tuany, estão todos gostando do seu rostinho bonitinho, mas estão com medo da sua canetada‖. Eram constantes também por parte de alguns funcionários preocupações em relação à metodologia da pesquisa, perguntas que buscavam uma exatidão pragmática semelhante ao que se esperava de uma pesquisa quantitativa. Perguntas do tipo: o que 60 exatamente você quer? Quantos policiais você quer entrevistas? Assim, todos os dias eu formulava uma resposta, respondendo o que fosse possível a altura dos meus conhecimentos adquiridos. O espaço primeiramente ―proibido‖ pra mim era o que ficava os prontuários dos pacientes, próximos a recepção, em frente a sala de espera. Embora não fosse, em nenhum momento, interesse ou objetivo da pesquisa ter acesso aos prontuários 47, essa proibição velada, expressa por um comentário ―é melhor ela nem chegar perto daí, porque se funcionário X ver...‖ demonstrava, claramente, que, naquele momento minha figura não era de confiança, senão para alguns. Por outro lado, esses conselhos e comentários, exprimiam, ambiguamente, um espaço de proteção, talvez uma solidariedade para com um ―recém-chegado‖. Segundo Guber (2011) as interdições, assim como os ―erros‖ cometidos pelo pesquisador em campo constituem importante fonte de compreensão da lógica local, pois a repreensão indica aspectos do funcionamento daquela realidade, dos códigos morais e das relações de poder. Aos poucos minha presença foi deixando de ser tolerada para ser aceita. Em relação aos espaços, podemos incluir também o auditório dos grupos terapêuticos. O primeiro grupo que comecei a acompanhar, havia uma liberdade maior, um clima de descontração para discutir os temas e relatar os problemas cotidianos. Em relação ao CBS passei a ajudar em alguns pequenos serviços, como preenchimento de formulários, distribuição de materiais, dentre outros. Começamos o tópico falando sobre a estratégia da observação e como podemos acompanhar através dos casos relatados, concordamos com alguns autores, no que concerne a impossibilidade da observação como uma ferramenta neutra, imparcial. É impossível não ser percebido, objeto de tensões, expectativas, ou seja, somente no plano ideal, a observação não interfere na realidade estudada. 47 Até porque essa prática seria anti-ética. 61 Acredito que a participação em pequenos detalhes cotidianos ajudaram a tornar minha presença mais inteligível naquela realidade aos olhos dos funcionários do CBS e aos olhos dos policiais que utilizavam seus serviços 48. Certo dia, estava conversando com um funcionário do CBS quando uma aglomeração começou na sala de espera. Era dia de grupo terapêutico, mas os policiais que ministravam o grupo estavam de folga e por alguma razão, esqueceram de desmarcar o dia do grupo ou algo semelhante (era época da copa do mundo e os calendários tinham sido todos alterados). Foi então que a funcionária teve a ideia de que, naquele dia, eu conduziria o grupo. Assim, os policiais não dariam ―viagem perdida‖. Apesar da surpresa, aceitei o desafio. A maioria dos policiais do grupo já me conhecia, então, não seria tão difícil. A funcionária me deu um texto, uma fábula, sobre alcoolismo, fizemos uma discussão e ao final falamos sobre a pesquisa. Dessa forma, em alguns momentos fiz algumas substituições ou complementei umas faltas, realizando pequenas atividades. Outro episódio foi quando ocupei, por alguns dias, a função da recepcionista, preenchendo um momento de transição, período em que a funcionária entrou de férias e a empresa terceirizada mandaria outra em seu lugar. Nessa atividade eu trabalhava direto com a psicóloga e tinha acesso a sala que antes era ―proibida‖ para mim. Atendia telefonemas, agendava os pacientes junto com a psicóloga, ligava para confirmar consultas, verificava números de prontuários para preenchimentos, enfim, um trabalho contínuo que ocupava bastante o tempo no local, mas foi uma experiência positiva, porque de algum modo, demonstrava uma relação de confiança. Espaços que não poderia antes me aproximar, como a sala dos prontuários, era, nesse período, local de acesso constante, já que teria que separá-los quando da chegada do paciente. No período das entrevistas havia conquistado outro espaço. Uma sala, antes inutilizada, mas devidamente equipada, com mesa, ar condicionado, que solicitei para realizar as entrevistas no local, uma vez que, dividir a sala de ―planejamento‖ não pareceu uma metodologia adequada para o estudo. 48 Segundo Oliveira (2006) a observação participante é quando o pesquisador ―assume um papel perfeitamente digerível pela sociedade observada, a ponto de viabilizar uma aceitação senão ótima pelos membros daquela sociedade, pelo menos afável, de modo a não impedir a necessária interação‖. 62 Existia ainda uma sala para realizar o acolhimento dos recém-chegados, que deveria ser realizado antes da consulta com a psicóloga, mas como os funcionários estavam constantemente atarefados em suas alocações, em virtude da escassez de mãode-obra, a sala encontrava-se ocupada com entulhos e o acolhimento ficava a cargo de haver ou não um profissional disponível na hora. Por duas vezes realizei o acolhimento. A princípio achei que, naquele momento, iria realizar uma entrevista da pesquisa, mas percebi que não se tratava de um momento oportuno, pois o policial se encontrava em uma situação delicada com o problema que motivara sua visita/ consulta. Além disso, após esse acolhimento, a psicóloga pedia um pequeno relatório sobre a situação do que viria a ser seu paciente. Então o que acontecia era uma conversa sobre sua situação. Não podemos dizer que se tratava de uma situação confortável, pois, apesar de explicitar que a minha formação era em sociologia, os sujeitos esperavam uma ―resposta de uma especialista‖ que fosse de alguma maneira resolver seus problemas. Por outro lado, se aquele momento de ―crise‖ impossibilitava que o policial tivesse uma visão mais elaborada sobre a relação da doença com seu trabalho, assim como era também um momento delicado; por outro, facilitava uma aproximação para um segundo momento, quando em melhores condições o policial retornava sua consulta. Ainda em relação a contribuição dos ―erros‖ cometidos pelo pesquisador no trabalho de campo iremos expor um caso acontecido que mudou o rumo das estratégias utilizadas na pesquisa, além de chamar atenção para dois aspectos decisivos na produção desta dissertação; primeiramente, me refiro às articulações das redes de poder no CBS e como o seu funcionamento poderia ser representativo do funcionamento da corporação de modo geral, portanto metonímico, e, segundo; a inserção do pesquisador nessas redes, como figura passível de manipulação, segundo os interesses envolvidos. 63 3.1.2. Afetar e ser afetado 49 pelo campo: inserindo-se nas redes de poder. Como relata Guber ―La investigación no se hace ‗sobre‘ la población sino ‗con‘ y ‗a partir de‘ ella, esta intimidad deriva, necessariamente, en uma relación idiosincrática‖ (GUBER, p. 2011). Assim, as relações interpessoais e a particularidade das interações constituem experiências entre o pesquisador e a realidade social a partir das quais serão construídas as abstrações que irão compor a leitura realizada pelo pesquisador sobre a realidade estudada. Dessa forma, iremos analisar um episódio resultante de uma série de eventos seguidos, pelos quais as interações seqüenciais inseriram o pesquisador numa rede de poderes conflituosa exigindo um posicionamento. Dessa forma, utilizamos o termo afetação, pois não consistiu em uma observação, muito menos numa participação almejada (quero dizer que o conflito em si não foi um objetivo/desejo do pesquisador), mas resultante de uma seqüência de pequenos episódios que ―arrebataram‖ a figura do pesquisador para um conflito e um contexto de funcionamento já existente na instituição. Esse conflito, como já indicado anteriormente, personalizado em alguns funcionários, constituía-se do resultado de duas visões diferentes sobre as questões relativas ao tratamento e classificação do fenômeno do adoecimento na corporação. Essa disputa pelo discurso legítimo sobre o adoecimento dividia duas visões: uma criticava as formas de tratamento existentes na instituição no que se refere à eficácia dos tratamentos, a manutenção de rituais e a postura em relação ao que a polícia considerava como ―maceteiros e enrolões‖. Tudo isso relacionado a uma forma específica de 49 O termo se refere à experiência etnográfica da antropóloga Jeanne Favret-Saada (SIQUEIRA, P.; TANIA, L. 2005). Ao estudar feitiçaria em 1968, na França, a autora explica como se deu sua aceitação e vivencia no campo. Ela conta que, a princípio, estudava o efeito e a crença na feitiçaria em uma comunidade do Sul da França de uma perspectiva ―de fora‖, até que um dia, em um incidente, a autora bate o carro. Imediatamente a população nativa explica o fenômeno em meio às crenças que cultivava, atribuindo à feitiçaria, as razões para que o tal incidente tivesse ocorrido. A princípio, a antropóloga se mostra descrente, mas outras coisas acontecem. Ela passa a sonhar com os fenômenos, quando, finalmente percebe que a feitiçaria afeta não só a vida dos sujeitos estudados, como sua própria também, no sentido de que, de alguma forma, apenas quando o antropólogo se envolve e vê-se, de certo modo, afetado por aquela realidade, ele consegue compreender a lógica do outro. Portanto, somente quando ela permitiu ser afetada pela feitiçaria, ou seja, quando vivenciou/experimentou determinada ―variedade particular da experiência humana‖ que o mundo do nativo passou a ser compreensível para a autora. De algum modo aquele universo no qual estava inserida, no caso, a feitiçaria, passou a incluí-la e por outro lado, ela passou a incluí-lo também em suas imagens e percepções. No caso estudado, a proposta é fazer uma analogia pelo fato do pesquisador ter sido inserido involuntariamente nas redes de poder que existiam antes de sua entrada e a partir de então, essa experiência mudou a forma de se posicionar, e de se relacionar com os outros, a partir desse entendimento. Isso exigiu um posicionamento, um redimensionamento estratégico a lógica de funcionamento do campo. 64 administrar esse tipo de estrutura. O outro posicionamento buscava manter os vínculos morais e afetivos com os policiais participantes, a manutenção desses rituais e à inserção de outro tipo de legitimitade, baseada não na hierarquia, mas na obrigação das relações morais50. A outra visão questionava dizendo que esse tipo de tratamento não promovia a cura e sim a manutenção do policial na condição de doente e não apto ao serviço ativo. A tudo isso se somava também uma busca por posições e prestígios institucionais, ou seja, pelo posicionamento oficial, pelo discurso legitimado internamente. Quando ingressei na instituição, essa disputa já tinha atingido o seu ápice e encontrava-se em um equilíbrio instável correspondendo a primeira visão apresentada. A princípio, apenas fui informada que existiam determinados conflitos e sobre algumas situações tensas no CBS, mas até então isso não tinha me afetado. Foi quando cometi uma ―infração‖. Durante o tempo que estive realizando o trabalho de campo negociei um cronograma com uma funcionária que um oficial destinou para me orientar nos assuntos que diziam respeito a sua área de atuação. Assim ficou combinado que: a primeira semana seria de ambientação e participação no grupo Recomeçar;a segunda semana para as estatísticas; e, somente, então, por fim, as entrevistas, mais ou menos no segundo mês. Contudo, à principio, esse cronograma aparecia na minha visão como uma sugestão, que não impediria a espontaneidade de certas ações, como, por exemplo, a realização de uma entrevista antes do segundo mês. Assim, quando do primeiro dia de participação no grupo terapêutico, o policial que ministrava o grupo me concedeu um tempo, no final, para que eu apresentasse a pesquisa. Então, expliquei o vínculo com a universidade, a abordagem da pesquisa, os objetivos e a metodologia ―conhecer o ponto de vista do policial acerca das condições de trabalho por meio das entrevistas‖, mas que essas entrevistas tinham como intento se aproximar mais de uma conversa do que um questionário; evidenciei o sigilo com relação a identidade dos entrevistados, e, por fim, terminei minha fala dizendo que quem ―se sentisse a vontade para conversar comigo depois, eu estaria disponível e seria grata pela boa vontade‖. 50 Nos referimos aqui a ideia de manutenção de vínculos sociais de uma maneira geral, tais como os descritos na Dádiva de Marcel Mauss (2003), na máxima ―dar, receber e retribuir‖. A relação de empatia com os funcionários que ministravam os grupos, às vezes, era a responsável pela manutenção e participação desses pacientes no tratamento, assim como o contato com os policiais com problemas semelhantes. 65 Depois da minha fala os policiais ressaltaram a importância do estudo e começaram a contar algumas de suas experiências. No final, dois deles vieram falar comigo, se voluntariando a participar. Fiz a entrevista com um deles (com mais ou menos uma semana depois), quando fui marcar com o segundo, ocorreu uma falha de comunicação. Havíamos marcado a entrevista para uma sexta-feira. No dia anterior entrei em contato com o mesmo por telefone para confirmar a entrevista e seu filho atendeu transmitindo o recado de que ele não poderia ir. Então, como nesse dia eu só iria ao CBS em razão da entrevista, tendo em vista que a mesma havia sido desmarcada, não compareci. Contudo, o entrevistado foi. A funcionária o viu e então me ligou. O problema se estabeleceu porque, segundo a funcionária, eu não estaria autorizada a iniciar as entrevistas ainda, sem pedir sua permissão. O que se seguiu a partir de então foi uma série de tentativas de retomar o frágil vínculo abalado desde então. Contudo, durante o percurso dessa tentativa, alternativas outras me foram oferecidas, como a do confronto direto à autoridade da funcionária 51-apoiado pelo outro lado do conflito (mencionado anteriormente)--através da utilização da obrigatoriedade hierárquica objetivada na autorização oficial da pesquisa cedida pelo Comando Geral52. No ―calor das emoções‖ buscando me desvencilhar de ser conduzida por um dos lados, um dos policiais que conversava comigo no momento diz ―quando você levou o ofício pra lá (Comando Geral), querendo ou não você já estabeleceu um confronto‖. Nesse momento, pude perceber que a situação de neutralidade era insustentável e que minha inserção naquele ambiente já permeado por situações de disputas e constante tensões, acabaria, de algum modo, me envolvendo e exigindo de mim uma posição. Posteriormente, refletindo sobre o caso, percebi também que, possivelmente, aquela situação iria além do evento ocorrido, ela dizia respeito ao funcionamento das relações de poder presentes naquela instituição estudada, na qual a representação da minha figura poderia legitimar ou refutar um lado do conflito. Além de inserir a dimensão de um confronto entre duas autoridades diferentes, a autoridade formalhierárquica e a autoridade moral, que, apesar de hierarquicamente inferior, conseguia 51 A funcionária compartilhava da visão vigente. A partir do momento em que um superior hierárquico autoriza e assina o ofício da pesquisa, pela autoridade da hierarquia, todos os que se encontram em postos e graduações menores tem por dever acatar a decisão vinda do Comando Geral. Conforme me explicou um oficial ―passa a ser uma ordem, algo de interesse da instituição, até segunda ordem‖. 52 66 acionar uma rede de relações interpessoais com efeitos de poder tão eficazes quanto sua outra versão. Portanto, não era um caso isolado motivado pelo interesse da pesquisa, mas uma expressão do funcionamento da instituição cujos membros estão sempre em disputas e acionam vários dispositivos para manterem sua posição, seja através do prestígio do saber, seja o da autoridade, seja o das relações interpessoais. No meu caso, embora estivesse com uma autorização assinada pelo Secretário de Segurança Adjunto o que, em tese, me daria ―plenos poderes‖, o campo exigiria um engajamento, uma articulação, um ―jogo de cintura‖ que permitisse, dentro daquela malha de poder e interesses, visualizar a realização do interesse da pesquisa, que, por sua vez, estaria condicionado pelos demais. Dessa forma, a hierarquia facilitaria meu trabalho, mas não permitiria que se estabelecessem relações de confiança mínimas se fosse por imposição. A minha decisão com relação a situação foi conversar com a funcionária e operar uma segunda negociação expondo o desencadeamento dos fatos (menos as que comprometiam ou poderiam causar conflitos desnecessários). Foi uma conversa extremamente difícil tanto emocionalmente, quanto racionalmente, mas necessária e produtiva, por outro lado. Terminamos por tentar recomeçar nossa relação e ceder um voto de confiança a outra. Dessa forma, precisei passar pelo estresse dessa situação e vivenciar essa ansiedade que, de certo modo, está presente quando seu destino está condicionado ao resultado das articulações e alianças que se pode solicitar a seu favor. Parece que experimentei, naquele momento, da pior maneira, todos os conselhos que os demais funcionários e policiais me davam no começo sobre como lidar com o fenômeno ―situações, pessoas e hierarquia‖ na polícia. Melhor, pude perceber e sentir um pouco o funcionamento e as características de um campo de entrelaçamento entre hierarquias e relações de poder e como se articulam numa espécie de jogo onde o prestígio depende de um quantum desses recursos você consegue articular. Depois do episódio, as entrevistas seguiram sem nenhum empecilho. 67 3.2. A entrevista como técnica de coleta de dados e tentativa de imersão nas experiências individuais dos sujeitos. A observação participante compõe o que Roberto Cardoso de Oliveira (2006) classificou como uma das faculdades do entendimento antropológico e sociológico referente à construção do olhar. Ao conceituar esse olhar, o autor faz referência as questões epistemológicas de orientação do pesquisador que disciplinam seu modo de ver, classificar e diferenciar os eventos cotidianos vivenciados na pesquisa de campo que potencialmente irá contribuir para a produção do conhecimento sobre o contexto estudado. Mas, como o próprio autor explica, o ato de observar por si só não é suficiente; há de se ter acesso também as interpretações, ou seja, é preciso atentar para ―a compreensão do sentido e significado das práticas observadas‖ (p. 22, 2006). O entendimento que os próprios membros elaboram acerca dessas práticas constitui o ato cognitivo de ouvir. No caso em específico deste estudo, o exercício do ouvir, incluía não só a necessidade de descobrir a relação entre as práticas observadas e sua lógica, mas também o acesso, por meio do discurso, a outras situações que não poderiam ser observadas pelas limitações do campo físico escolhido 53. Oliveira (2006) relata ainda que, assim como o olhar, o ouvir também necessita de uma preparação disciplinar orientada, teórica e epistemologicamente, a fim de ―evitar ruídos‖. Dessa forma, e incluindo também o caráter prático, o tipo semiestruturado de entrevista serviu de guia pra iniciar e pontuar a conversa com os interlocutores deste estudo, sem, contudo, limitarmos a ele. A estratégia do roteiro consistia em seguir o raciocínio de uma conversa que se estabeleceria a partir do fim proposto, no caso, a trajetória de trabalho. Porém, como já presumido, a intenção do roteiro era auxiliar e não trazer rigidez ao processo, de modo que alguns interlocutores tinham uma maneira própria de organizar sua narrativa e explicar a ordem dos acontecimentos e circunstancias e isso foi respeitado e bem vindo. 53 Assim só poderíamos acompanhar as condutas dos policiais no espaço de tratamento do CBS, portanto, somente com as entrevistas podíamos ter um acesso mais ampliado ao universo da polícia, por meio das narrativas de seus representantes. 68 Essa necessidade de flexibilidade na entrevista decorre da consideração de que ela também corresponde a uma relação que pressupõe uma interação entre pesquisador e pesquisado. Oliveira (2006) classifica esse caráter de interação quando na perspectiva pesquisador/informante como de natureza ilusória, em função do poder 54 exercido pela figura do pesquisador para com o informante. Considerando essa crítica do autor, podemos dizer, em relação às situações vivenciadas, que nem todas as entrevistas tiveram o mesmo ―nível de interação‖. Assim, algumas entrevistas— geralmente, as que foram realizadas com policiais para os quais minha presença já era de algum modo mais freqüente—foram mais próximas do diálogo, enquanto, outras prevaleciam certas desconfianças55. No entanto, essa relação de antiguidade de convivência e interação não foi uma regra, pois, às vezes, numa primeira conversa de explicação da pesquisa, o entrevistado relatava conteúdos que surpreendiam, na suposição de que semelhante informação acreditava que só conseguiria depois de muito tempo de dedicação ao campo. Portanto, sobre as interações, devo mencionar que foram tão variáveis quanto o número, perfil e experiência dos interlocutores. 3.2.1. A seleção e o perfil dos entrevistados. O fato da pesquisa de campo ser realizada numa unidade da instituição da polícia militar apresentou algumas preocupações. A primeira era quanto ao efeito que o ambiente poderia ter na seleção de respostas dos entrevistados; a segunda era de que todas as entrevistas fossem realizadas pelas indicações de funcionários que tivessem mais autoridade no Centro56 e a terceira era a possibilidade que as entrevistas ficassem restritas àqueles que utilizavam costumeiramente o espaço do CBS, em contraste ao 54 Em trecho específico do autor: Esse poder, subjacente as relações humanas—que autores como Foucault jamais se cansaram de denunciar—já na relação pesquisador/informante desempenhará uma função empobrecedora do ato cognitivo: as perguntas feitas em busca de respostas pontuais lado a lado da autoridade de quem as faz—com ou sem autoritarismo—cria um campo ilusório de interação. (Oliveira, p. 23, ANO). 55 Dois policiais, por exemplo, não permitiram a gravação das entrevistas. 56 Em Segredos e Truques de Pesquisa, Becker (2007) chama atenção para a influência dos dirigentes da organização que estudamos e as complicações teóricas provenientes da aceitação tácita e exclusiva de seus pontos de vistas e orientações. 69 grande número de policiais que não buscam seus serviços. Todos esses fatores poderiam construir uma amostragem tendenciosa e condenar os resultados do estudo. Contudo, esse receio foi se desfazendo no decorrer do trabalho de campo. Em relação às indicações, percebi que eram aleatórias e dependiam de uma série de variáveis, tais como: marcações de consultas, lotação na sala de espera, estado de inquietação ou emocional de alguns pacientes, remarcações de consultas, tempo de espera do atendimento, dentre outros. Dessa forma, como as indicações ficavam condicionadas a essas múltiplas variáveis, era pouco provável que fosse realizada de maneira tendenciosa. Em relação ao fato das entrevistas serem realizadas no CBS, ou seja, numa unidade da Policia Militar, não percebi grandes receios por parte dos entrevistados em relação a isso, até porque a entrevista era realizada numa sala a parte, portas fechadas e nenhuma interrupção. Além disso, como coloquei anteriormente, entre os policiais pacientes e os policiais que trabalham no CBS, assim como os funcionários, parecem se estabelecer relações de cordialidade e confiança. O próprio ambiente é construído de modo a afastar a imagem militar para aproximar-se de um lugar dedicado ao cuidado: Ao abrir a porta para ter acesso ao ambiente, o policial é convidado a esperar numa sala, onde está disposto um sofá, coberto com uma manta e alguns travesseiros, um gelágua, um ventilador, e uma fila de 5 cadeiras de escritório (onde uma é ocupada pelo ventilador). Também podemos visualizar um tapete para receber os que chegam, e alguns elementos de decoração como: um jarro com plantas e simpáticas bandeirinhas do Brasil que foram colocadas por causa da proximidade com a copa do mundo. Referências a religião cristã também estão presentes como o adesivo com o nome ‗Jesus‘ em uma das passagens da sala de espera. O policial é recebido por um cumprimento da recepcionista e se informa quanto aos procedimentos que o motivou até ali. (Diário de Campo) Ao lado da recepcionista se encontram os avisos sobre as reuniões dos grupos e outros serviços que o Centro oferece. No meio da manhã, geralmente, a copeira passa oferecendo chá. Alguns policiais já conhecem os funcionários do centro e conversam com eles. Outros que estão na sala de espera não se conhecem, mesmo assim começam a falar sobre seus problemas ou sobre a situação de um terceiro policial. (Diário de Campo) Dessa forma, com exceção dos dias conturbados, quando os conflitos eclodem por razões diversas--desde conflitos representativos das redes de poder na organizaçao (entre policiais e/ou terceirizados), até pacientes (policiais ou dependentes) que chegam 70 surtados ou ficam nervosos por causa da espera—o ambiente no CBS aparenta ser estável para o policial que utiliza os seus serviços57. A superação da ultima preocupação se deu pela possibilidade de entrevistar não somente os mais assíduos ao tratamento, como também novos pacientes e policiais de fora do CBS (ao todo foram 15 entrevistas gravadas com exceção de duas). Além disso, por meio da fala da maioria dos policiais, é possível ter acesso a representação que alguns outros policiais têm do Centro, vislumbrar situações semelhantes contadas pelos entrevistados sobre outros policiais, bem como compreender classificações desse fenômeno a partir do ponto de vista do próprio policial. Fatos possíveis, uma vez que, os policiais não se encontram enclausurados. Eles conhecem as opiniões dos seus semelhantes, assim como julgamentos e valores, situando-se a partir deles. A estratégia pensada para as entrevistas é que elas fossem realizadas na forma de uma conversa na qual o interlocutor contasse sua trajetória de trabalho na Polícia Militar. A seqüência das perguntas do roteiro buscou seguir a um raciocínio cronológico que facilitasse a construção da narrativa de vida dos sujeitos, mas, por outro lado, buscamos respeitar também a seqüência que cada policial estabelecia para si, seu raciocínio e reflexão acerca dos fatos, uma vez que, era igualmente importante considerar a própria organização da fala pelo entrevistado. Acreditamos que, com isso, os sujeitos foram capazes de dimensionar a importância e o significado da doença, bem como do trabalho na sua vida, ao realizar sua sistematização de maneira consciente. Assim, ele mesmo pôde selecionar o espaço em que a doença ou o sofrimento ocupam no seu cotidiano, bem como a percepção dos seus semelhantes a respeito desses fatores. Gostaríamos de ressaltar ainda que a identificação dos entrevistados foi preservada através da omissão do nome, sendo representado por um número aleatório. Assim como as identificações de companhias e batalhões que trabalharam recentemente. No capítulo quatro faremos referencia somente ao tempo de trabalho na instituição por acreditarmos ser item importante para compreensão do lugar de suas falas. 57 Por mais que existissem tensões na administração cotidiana, em grande parte ela não era repassada aos policiais que faziam os tratamentos. 71 4. O LUGAR DA DOENÇA NA POLÍCIA MILITAR: OS SIGNIFICADOS DAS LICENÇAS PARA TRATAMENTO DE SAÚDE (LTS). No primeiro capítulo, vimos que, na sociedade moderna, a polícia aparece como duplo agente: aquele que fala em nome do estado, ou seja, agente repressor, cuja função é a manutenção das estruturas de dominação e, sua segunda versão, correspondente ao seu papel de formador de consenso, normalização e proteção do cidadão. Acrescentamos a esse esquema, um terceiro, ou seja, a dimensão do policial enquanto trabalhador. De forma que o foco deste trabalho não está no papel do policial enquanto agente do estado, nem das práticas de normalização da sociedade, mas nas condições objetivas e subjetivas em que realiza seu trabalho, nas percepções entorno do papel que assume integrando sua relação com o adoecimento e sofrimento no trabalho. Ao ingressar na instituição, o sujeito que se torna policial passa a fazer parte de uma engrenagem com posições objetivas bem delimitadas e regras de funcionamento próprias envolvendo um campo de lutas com troféus58 (BOURDIEU, 1996) específicos que tornam seu trabalho, por sua vez, um resultado da atuação nesse campo 59. Nesse entendimento, as experiências provenientes do trabalho rotineiro na polícia, ou seja, das condições de trabalho concretas, são diferenciadas e orientam-se conforme se estabeleçam as relações de poder no campo militar de modo que, o senso prático do jogo exige um constante esforço de consenso e reconversão subversiva das relações entre oficiais e praças a fim de angariar pequenas melhorias, tais como: locais de trabalho, melhores escalas, gratificações, dentre outros fatores, que influenciam nas suas condições de vida. A conquista ainda que temporária desses troféus se traduz em melhor qualidade de vida para o policial, uma vez que, eles podem significar a possibilidade de estar próximo da família, de ajustar compromissos civis com o trabalho militar (como, por 58 Segundo Bourdieu (2003) uma das caracterizações que expressa o conceito de campos é a existência de sujeitos que lutam por troféus específicos do campo em que se situam no espaço social. Nesse caso, estamos nos referindo não só aos troféus do campo legal-jurídico e militar da polícia, como premiações e promoções, mas ―benefícios‖ que se relacionam diretamente as condições de trabalho cotidianas que, por sua vez, repercutem nas condições de produção objetivas e subjetivas do policial. Consideramos troféus, porque são objetos de disputas que resultam das inter-relações que se estabelecem entre os sujeitos, principalmente, no relacionamento entre oficiais e praças, praças e praças, e oficiais e oficiais— em que essa mesma interação interfere nas situações de saúde-doença do policial. 59 Segundo Bourdieu (2003), a realidade é orientada por convenções sociais e distinções dos agentes em relação uns aos outros. A base dessas distinções se encontra no interior das estruturas entre as pessoas e os grupos de pessoas configurando espaços sociais que irão se constituir em diversos campos. 72 exemplo, a realização de um curso universitário), a tranqüilidade de trabalhar em um bairro ou local menos violento, reduzindo, dessa forma, o estresse, a ansiedade e os medos decorrentes da profissão e causadores de transtornos a saúde. Desse modo, neste capítulo, estudaremos um aspecto dos significados subjacentes as licenças que dizem respeito a sua dimensão e inserção nas relações de poder e luta no interior do campo estudado com o objetivo de angariar esses pequenos ―benefícios‖ decisivos na qualidade de vida60 do policial. Em outras palavras, trataremos aqui do seu uso político, como um recurso dos quais os policiais mais desfavorecidos de capitais simbólicos se utilizam para reconverter as situações de sofrimento e dominação. Os desfavorecidos aos quais nos referimos correspondem a posição objetiva que os praças assumem na estrutura do campo estudado e dos quais provém a maioria das entrevistas utilizadas para análise, ou seja, partimos do ponto de vista daqueles que se situam objetivamente no nível inferior da hierarquia e como estes relatam suas experiências na corporação e a relação com seu estado de sofrimento. 4.1. A espiral do adoecimento na polícia militar, a noção de campo e dominação. A escolha pela análise dos significados das Licenças tendo como subsídio a teoria dos campos, formulada pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu (1996), está mais relacionada a busca de uma análise na qual as relações de poder obedecem a uma direção orientada e estruturada de forma correlata as posições e as tomadas de posições a elas associadas em relação ao adoecimento e sofrimento na policia do que a um possível esforço de caracterização aos limites da corporação policial ao conceito de campo. Dessa forma, buscamos tão somente enfatizar o ponto de partida empírico que conduz à espiral de sentido teórica, ou seja, veremos como a utilização das licenças reflete ou são conduzidas nesse campo de relações, ao invés de buscarmos explicar em 60 Ao usar esse termo nos referimos, de um modo geral, a influencia que as condições de trabalho têm na constituição da vida dos sujeitos na medida em que ela pode proporcionar o acesso e um estabelecimento construtivo entre trabalho, saúde e subjetividade que resulte na prevalência de uma satisfação com o trabalho e uma experiência positiva de avaliação do mesmo. 73 profundidade as dimensões da polícia militar que podem ser caracterizadas como um campo. Bourdieu (1996) explica que a noção de campo corresponde a um estado de posições sociais que se baseia num principio diferenciador cuja estrutura configura a distribuição do poder de acordo com os capitais relacionados às posições objetivas que os agentes ocupam. Segundo a definição, o campo Isto é, ao mesmo tempo, como um campo de forças, cuja necessidade se impõe aos agentes que nele se encontram envolvidos, e como campo de lutas, no interior do qual os agentes se enfrentam, com meios e fins diferenciados conforme sua posição na estrutura do campo de forças, contribuindo assim para a conservação ou a transformação de sua estrutura. (BOURDIEU, p. 50, 1996) Em relação a polícia, encontramos uma estrutura rígida de posições hierárquicas61 entre os círculos de oficiais e praças que correspondem também as funções no sistema organizacional da corporação que condicionam as disposições práticas dos sujeitos. As regras de funcionamento (como já introduzimos no primeiro capítulo) encontram-se rigidamente escritas na Lei de Organizaçao Básica-LOB, assim como no Código Disciplinar da Polícia Militar, que apreciam e prescrevem punições, premiações, descrições precisas de cargos, postos e seus requisitos à semelhança do exército, ou seja, a militarização possui intima relação com a organização interna da instituição. Essa estrutura burocrático-legal militar garante as condições de reprodução objetiva do campo estudado. Ela é materializada na figura impessoal da Lei, contudo, na prática, a sua utilização vai além do campo institucional. A policia militar são muitos batalhões, muitas companhias, muitas subdivisões. E tem locais bom, como todo lugar, que todo mundo quer ir e tem locais que são verdadeiros castigos. Não existe esse negocio de todo mundo igual. Se você der azar você vai trabalhar num lugar ruim, trabalhando o dobro do que outro cara que tá em outro local. É tipo uma coisa que, ninguém entende hoje. É uma coisa que deixa todo mundo chateado. E de certa forma é uma forma de punição. (Policial entrevistado 1) 61 A hierarquia é o princípio de diferenciação que primeiro constitui a estrutura da distribuição e das formas de poder no campo estudado. A divisão entre oficial e praça estabelecida nos critérios do concurso, assim como na aprovação, objetiva uma série de distinções que vão se iniciar desde o curso de formação da polícia, até as ultimas divisões arbitrárias de ocupações de postos, de status, de salário, de socialização, dentre outras. 74 Na policia militar, tem um estatuto que diz que se você fizer algo de errado vão lhe punir assim e assim, mas na coisa prática...mas por debaixo dos panos, se você descontentar alguém ou arrumar uma inimizade, eles lhe punem, lhe transferem pra um lugar ruim, longe da sua casa, com escalas de serviços horríveis que você não tem nem condição de ir e voltar, entendeu? É tipo a maneira que alguns encontram de coagir a gente. Acho que é por isso, que não tem nenhum esforço no nosso comando de mudar as escalas. (Entrevista policial 1) Podemos observar com esse depoimento que a relação entre dispositivos de poder e prestígio no interior do campo hierarquiza as condições de trabalho subordinando-as às relações de interesse dos indivíduos que ocupam posições privilegiadas nesse mesmo campo. Ao atribuir condições de trabalho diferentes a policiais de mesma patente nessa rede informal de poder, isso faz com que se constituam, através dos sujeitos, diferentes universos de realidade e entendimentos em relação a instituição. Ademais é interessante notar como a dominação (WEBER, 2004) funciona dentro dessa estrutura legal, através da materialização da burocracia na instituição. A própria legalidade permite que se incluam mecanismos ―velados‖ de punição interna, subjetivas, da qual o policial, enquanto integrante desse sistema encontra-se sujeito. Dessa forma, a burocracia não é usada para tornar mais eficientes as ações policiais, mas é passível a subversões e à dinâmica das relações de outras naturezas entre os agentes do campo. Esse controle das cartas do jogo62 que um oficial pode exercer sob as praças está relacionado ao seu capital dentro do campo 63 que, por sua vez, corresponde a um acúmulo na quantidade e qualidade de privilégios e punições que pode manipular. Dessa forma, observamos que a estrutura burocrático-legal militar não abriga, nem explica todo o funcionamento da corporação e do trabalho policial, ou seja, apesar das posições guardarem alguma relação com a estrutura legal, ela não encerra a dinâmica das disposições sociais dos sujeitos e interações resultantes, embora sirva de comparação entre a norma e as situações reais. Assim, iremos aqui tentar compreender as relações entre as redes de poder e os significados que orientam a conduta desses 62 Fazemos analogia no sentido empregado em Bourdieu (1996) quando ele explica o comportamento dos agentes no campo. Essa metáfora do jogo relaciona-se as disputas e aos interesses dos agentes em investir em determinadas atitudes que visam um alvo que resulte em posições melhores no campo. Essas cartas do jogo que identificamos na figura dos oficiais se relacionam aos ganhos que se expressam tanto em uma condição de trabalho melhor, como em iguais posições de prestígio. 63 Quanto maior o posto, maior tende a ser a influencia de suas decisões, repercussões e efeitos para com os praças sob seu comando ou sob sua influencia. 75 agentes no campo estudado em relação ao adoecimento e sofrimento no trabalho, incluindo o peso e as distinções relativas acumuladas na sua trajetória dentro do campo militar. Nas práticas cotidianas uma posição hierárquica superior, como Capitão, Tenente coronel e Major, entre os círculos dos oficiais, permitem, no âmbito organizacional, por meio das funções de comando, o controle e a manipulação de determinados troféus almejados pelos policiais localizados no círculo das praças, assim como punições--desde aquelas indicadas oficialmente, até as que se apresentam apenas em um contexto específico, como por exemplo, uma transferência indesejada. Tal como podemos observar no depoimento acima. Os privilégios podem ser desde trabalhar em um local de trabalho mais disputado, uma escala melhor, um batalhão ou uma função em que a gratificação seja maior ou até um elogio que possibilitará, posteriormente, uma posição melhor na fila de uma futura promoção. Os mais novatos que tinham peixada, ficavam trabalhando em funções melhores e você que já tem muito tempo não tinha valorização nenhuma. (...) Era o Ronda e eram outros que eram só ―peixada‖, mas não eram do Ronda, aí era motorista do coronel, era parente de alguém e isso.. era aquilo que a gente chama de ― quem indica‖,né?! Sei que todo canto tem isso, mas o nosso era desgastante. Eu entrava na escala três vezes seguida enquanto que aquele cara, ou aquela pessoa que entrou agora, que era pra ta fazendo a mesma coisa ou então dividindo aquela carga comigo, não fazia. (Policial 3) É interessante destacar o porquê de se utilizar a palavra ―privilégios‖ nesse contexto. Tais benefícios constituem um troféu, uma vez que, não estão na qualidade de direitos de fato. Em outras palavras: uma quantia a mais no salário, um ambiente de trabalho mais adequado, entre outros fatores que propiciam uma melhor qualidade de vida são disputados dentro da profissão como pequenos benefícios a serem conquistados na economia informal de poderes, ao invés de se constituírem direitos. Já que, estes últimos não são tão facilmente manipuláveis 64. A distinção do título é um fator preponderante na distribuição do capital simbólico e possíveis articulações recursivas nas redes de poder. Mas há ainda capitais, 64 Por exemplo: a incorporação da gratificação ao salário na greve de 2011 foi uma conquista que possibilitou que o policial, porventura, enfermo entrasse de licença e continuasse a receber renda semelhante. Nesse sentido, quando a gratificação passou a fazer parte do soldo, ela tornou-se um direito. 76 associados também a essas posições, mas não totalmente dependentes dela em todos os casos que conformam uma determinada economia de poder no campo. Esses capitais são as influencias políticas, as relações de favores ou mesmo a propina que, segundo os entrevistados, constituem estratégias e táticas de angariar ―vantagens‖ como locais de trabalho desejado, escalas melhores, cargos com melhores gratificações. Ai você tá em um local ruim ―ah eu quero sair daqui. Já to aqui há muito tempo, já ta estressante. Tão me obrigando a trabalhar todo dia e é um serviço ruim, um local ruim e carga horária, enfim.‖ Ai você vai pra uma companhia como a de Lugar X (grifo nosso) que a escala é boa, porque o efetivo de pessoas é maior. Você fica lá um pouco de tempo e, de repente, alguém de alguma dessas cidades vizinhas dos destacamentos quer ir pra Lugar X. Ele tem alguma amizade, alguma influencia e te derruba de onde você ta, em Lugar X, e te coloca onde você ta no lugar dele, ou seja, numa cidade um pouco mais distante, numa escala muito pior. (Policial 1) Se você tem uma amizade política, um deputado, um vereador forte em tal cidade, como eu já cansei de ver. Ele fala com um amigo que fala com outro que conhece um coronel que conhece alguém que trabalha no Comando ai ele transfere dum local, lhe bota pra outro local. É uma coisa muito aberta entre a gente, sabe? (Policial 1) Como um capital que atravessa as relações sociais na instituição, ele não se encerra no âmbito das praças, mas funciona também entre os oficiais, ou seja, entre as patentes mais altas que estruturam o campo, sendo um recurso passível de utilização para a conquista de mais capital ou de posições, conforme podemos perceber na fala de um dos entrevistados: Nós temos um equivoco enorme de não conseguir ler essas estruturas na corporação. Entendeu? E a estrutura simbólica é a mais forte, porque administrativamente as coisas funcionam, não funcionam. Então quer dizer que na polícia tem muita gente boa, tem muito oficial bom, competente. Mas muitos deles cansam, porque o sistema é...tem muitos oficiais, não é só soldado não, temos oficiais ai com muitos anos sem uma promoção, porque um cara que é amigo do senador fulano de tal ou de um juiz fulano de tal, passou na frente dele, porque ele não ganhou a medalha e a medalha conta ponto. (Policial 2) Essa relação entre política e polícia, já explorada por Reiner (2004), mostra que são campos com uma taxa de conversão bastante compatível, uma vez que, ainda que os sujeitos que podem recorrer a esse capital não integre oficialmente o campo 77 político, ele pode conseguir vantagens diretas com isso. O que, embora isso não constitua exclusividade do campo policial, essa relação direta pode caracterizar, de certa forma, o campo em análise. Contudo, as redes de poder influenciadas ou não pelo capital político parecem configurar a realidade de modo a desafiar a própria eficácia simbólica da estrutura do campo quando, por exemplo, se espera um reconhecimento dos agentes sob uma trajetória de capital adquirido que não se cumpre na realidade. Nós temos uma estrutura simbólica: soldado, cabo, sargento de exercito, enquanto que na prática você vê um soldado comandando viatura e um sargento tirando policiamento a pé na praça. Cadê essa questão hierárquica? (Policial 2) Atualmente eu estou sentindo este tipo de situação. São...mudanças de escala repentina. Então assim, eu to no Batalhão desde 2007, quando a gente entra na policia a gente aprende que antiguidade é posto, ou seja, se eu tenho mais tempo de polícia do que você é um direito meu, por exemplo, se tem um canto pra ir lá, então vão perguntar primeiro pra mim, se eu quero ir ou não, entendeu? Então foi uma conversa que eu tive: cara eu já to aqui desde 2007, né? Já tenho tanto tempo de polícia, dá pra me deixar no canto que eu tava? (Na escala e no local) Ai passou uma semana e me mudaram de novo, ai eu: ―ah não vou atrás mais não que eu também não sou de pedir não.‖Ai começou: num dia eu tava num canto, noutro dia em outro. Olhava a escala tava lá e pronto, tem que ir. --Quando tu falou com ele, ele disse que ia te voltar pro local? Foi, foi, mas ele não cumpriu. Não cumpriu porque ele já recebe ordem de outra pessoa e eu via claramente que não tinha necessidade daquilo. Simplesmente o local lá que eu era pra estar, tinha um cara naquele local e o que eu fui também tinha, então era só me deixar no local que eu estava antes. Ai eu comecei a não digerir isso ai. Foi me fazendo mal, me fazendo mal, porque é uma coisa que você não pode chegar, que você não pode falar, porque você fica visado. Porque se você vai muito, leva muito problema pro seu comandante você fica muito visado. Ai pra isso não acontecer...o quê que tava acontecendo comigo? Eu não tava conseguindo dormir, irritabilidade. (Policial 5) Se você tiver amizade, se não tiver você cria alguns problemas, entendeu? E não é só com os soldados, eu já vi capitães que estavam num local que eles queriam, felizes da vida e de repente outro oficial querendo o comando deles, falou com um e com outro, deu uma volta, derrubou. Isso é quase que...sei lá, as coisas acontecem abertamente, entendeu? (Policial 3) É interessante que o campo militar se constitua simbolicamente sob as bases da hierarquia e da disciplina, mas de fato, seja mais influenciado pelo capital político 78 que se insere informalmente nas redes de poder e que, formalmente, se apresenta como transgressão. No Código de disciplina da polícia militar a representação política em sindicatos e a manifestação pública são vedadas ao policial sob pena de expulsão, como foi o caso de policiais que participaram da greve de 2011. Mas na realização de suas atividades diárias dentro da corporação a importância dessa articulação possivelmente irá refletir nas condições de realização do seu trabalho. Na fala do segundo policial, podemos observar um exemplo disso, ele atribui essa situação a um possível desagrado do comandante ou a uma situação em que o seu superior hierárquico não transforma objetivamente aquilo que considera ser uma aspiração legítima de sua posição. Veremos que os que não dispõem desses tipos de capitais percebem a Licença como uma possibilidade, um recurso dentre outros, para conseguir algum tipo de alívio ou contraprestação de suas condições de trabalho e do sofrimento causado pelas perseguições internas, abusos de autoridade, até mesmo insatisfações ou inconvenientes do local de trabalho que se encontram atualmente, e encontram opção na utilização da legitimidade do discurso médico objetivado no atestado. 4.2. A relação entre As Licenças para Tratamento De Saúde-LTS e a luta por melhores condições de trabalho. Se acompanhássemos uma seqüência fotográfica de uma rua qualquer por anos a fio, observaríamos que, na primeira imagem, uma seqüência de três construções aparece na foto. São pequenos sobrados de uma arquitetura característica. Na segunda imagem, um sombreiro é colocado no primeiro sobrado, um ponto de táxi é transformado em um local para guardar bicicletas e uma das fachadas muda de cor. Na terceira imagem, as construções que poderíamos observar atrás dos sobrados mudaram de aspecto, algumas sumiram, enquanto outras apontaram na paisagem. A rua continua sendo a mesma. A delimitação daquele espaço ainda permite reconhecer facilmente as construções com sua arquitetura, suas estruturas de ferro, admitindo a mesma seqüência e disposição espacial; mas, em aparente paradoxo, os pequenos detalhes, fizeram com que aquela rua da terceira imagem já não fosse mais a mesma que se apresentara na primeira foto. 79 A percepção da polícia para os entrevistados pode construir uma imagem semelhante a da rua com suas construções. A polícia permanece ainda com suas estruturas políticas, seus sistemas de funcionamento baseadas no capital político manipulável referente ao funcionamento da instituição, mas ao mesmo tempo, certas mudanças nessa paisagem, fazem com que ela já não seja mais a mesma65, tendo como base a trajetória que marca o inicio da carreira de muitos policiais, principalmente, os mais antigos; e o uso político das Licenças para Tratamento de Saúde –LTS se inserem nesse contexto de detalhes que expressam mudanças, a partir de outras conquistas precedentes que mudaram a perspectiva do policial na sua relação com o trabalho. Seguiremos na análise para compreendermos a matriz subjetiva historicamente construída a partir da qual a utilização das Licenças se tornou uma realidade política recursiva dos policiais submetidos ao ultimo patamar da pirâmide hierárquica. Nem se compara ao que está hoje! Hoje eu vi o Sub (subtenente), uns dias atrás, à procura de um companheiro pra entregar um libero, que era um documento de você justificar disciplinarmente uma conduta que você fez errada, que você foi comunicado. Então se o policial foi indisciplinado e teve uma punição-- em virtude de ser militar, existem normas, né?--então foi feito a Parte. Antigamente não tinha essa forma da gente recorrer não, o regulamento, estatuto existia, só que a gente não tinha acesso. O oficial não ia...não era cedido pra gente isso ―oh, vai ali que..‖ não era dado, como o código do consumidor tem nas lojas, como tem hoje, né? Está lá, se o cliente se sentir lesado de alguma forma tem o código pra ele olhar e tudo. Está lá, acessível, eu não tinha não. Na formação não era passado não. Era como foi dito, né? Os direitos era uma folha de papel em branco. Jamais passava pela cabeça você colocar a instituição na justiça, achar-se lesado por um superior e dizer que vai entrar com uma representação. Jamais na face da terra você ia dizer um negócio desses! Quando o bel prazer do psicológico (do comandante oficial, superior) vinha com o pé esquerdo, ele lhe punia.Ele dizia ―ta detido sexta, sábado e domingo‖ e você ficava. Era verbalmente, não tinha documentação nenhuma e você ficava impedido de ir pra família por causa de um problema, às vezes você nem tinha culpa da situação, a maioria das vezes era assim. (POLICIAL 4) Eu acho assim que é porque hoje você tem mais liberdade de expressão, não é verdade?Hoje você tem mais a questão de você lutar pelo...dentro do militarismo. Antigamente não, era um negócio mais reprimido, entendeu? Às vezes o policial trabalhava doente, porque se ele pegasse uma licença médica ele podia ser transferido num sei pra onde. Hoje não, hoje todo mundo tem conhecimento da lei e sabe o que pode e o que não pode. Você sabe o limite que o outro pode vim em relação a você, coisa que antigamente você não podia. Quando eu entrei, eu fiz prova de matemática, português, ciências, 65 Na realidade, a analogia com o cenário da rua e suas construções demonstra que não existe uma essência de um determinado espaço social, mas um constante processo que obedece a interesses e lógicas específicas. Dessa forma, não estariamos essencializando a rua de antes, em relação a rua de hoje, mas entendo que ambas são componentes variados de uma mesma situação. O mesmo se aplica a polícia. 80 história e geografia. Hoje em dia, o quê que se estuda pra entrar dentro da polícia? Você estuda português, você estuda a legislação completa, você não entra leigo, você estuda tudo. Você é obrigado a conhecer a constituição, então é diferente. Naquela época eu não sabia o que era um código disciplinar. Se dissessem pra mim ―você vai ficar preso‖ eu ficava. É diferente de hoje. (POLICIAL 4) Os policiais com mais de 18 anos de polícia experimentaram mudanças com relação à postura da categoria, principalmente os praças, perante a corporação militar. Esse movimento de mudanças ocorreu por meio da apropriação do espaço das associações. Segundo o relato dos entrevistados, inicialmente, as associações eram omissas funcionando apenas como órgão burocrático, assistencialista. Contudo, após a greve de 1997 esse espaço passou a expressar as insatisfações da categoria, aproximando-se mais da função de sindicato. Ai as pessoas começaram a lutar com as associações, porque na época que eu entrei não tinha esse peso. As associações não tinham esse peso que tem hoje de bater de frente, sabe? O comando mandava. Tava ali só pra dizer que existia a associação, mas era sempre omisso. Essas mudanças começaram a partir de quando?Depois da primeira greve que teve na polícia que eu não lembro qual foi o ano, porque não foi uma organizada. Então, houve uma situação de manifestações dos policiais, eu até participei indiretamente também com receio das represálias, mas não teve uma organização, um líder como tem hoje com suas lideranças à frente. Não teve, então, não tivemos muito sucesso. (Policial 7) Como foi indicado na entrevista, podemos acompanhar, por meio do trabalho de Almeida (2010), o inicio e o trânsito da greve a partir dos depoimentos de praças que participaram efetivamente do movimento. O ciclo grevista começou com as praças da polícia militar de Minas Gerais e influenciou 14 outros estados, dentre eles, os efetivos do Ceará. Acompanhando os protestos em todo o território nacional, o presidente da Associação de Cabos e Soldados da PM-CE, na época, convocou os policiais para uma manifestação no dia 29 de junho de 1997. Segundo o depoimento de um cabo, o presidente não esperava que ocorresse uma aglomeração tão grande de policiais em frente a sede da Associação, cerca de 500. Depois, os policiais seguiram fazendo uma passeata até a Av. Beira mar, próximo ao local onde acontecia o carnaval fora de época de Fortaleza, o Fortal. No dia houve confrontos e por volta das 16hs do mesmo dia os policiais decidiram por deflagrar uma greve (ALMEIDA, 2010). 81 A manifestação foi duramente reprimida pelo então governador da época, Tasso Jereissati, os policiais que participaram foram expulsos ou demitidos (no caso dos policiais civis) e no dia seguinte, a polícia militar publicou uma seleção para contratação imediata de reservistas de primeira categoria do Exército, Marinha ou Aeronáutica para atuarem imediatamente como policiais (ALMEIDA, 2010). A greve teve fim com inúmeras prisões e 70 policiais expulsos sem conseguir alcançar a pauta das reivindicações, no caso, aumento salarial de 65% sob o valor do piso de 333,00 reais da época. Acrescenta-se ao salário outras demandas apresentadas pelos policiais de outros estados, nos quais, Almeida (2010) apresenta: 1) a inserção do policial como sujeito de direitos com liberdade de expressão e manifestação; 2) a visibilidade de uma crise na instituição polícia militar, após a redemocratização; 3) as denuncias a respeito das adversas condições de vida e trabalho dos policiais. Portanto, em 2011, não foi a primeira vez, após a redemocratização, que a polícia militar realiza uma greve. Como vimos, desde 1997, o policial militar reivindicava a situação de sujeito de direitos tendo como base a sua cidadania no espaço democrático brasileira. Nas suas demonstrações de 1997 também é possível observar nessa aproximação, da cultura militar e da cultura política, o sincretismo no qual elementos simbólicos de uma cultura ―paisana‖, grevista, é associada a ícones militares. Segundo Almeida (2010), o ciclo grevista de 1997 inaugurou o que considerou como novo repertório de ação coletiva da polícia militar. Trata-se de ―uma interação possível entre atores que buscam um conjunto de meios para a ação em defesa de interesses compartilhados‖ (ALMEIDA, p. 32, 2010). É importante destacar que ao policial militar, em função do Código disciplinar, é proibida a participação em sindicatos e manifestações políticas. Ele tem por base o Regulamento Disciplinar do Exército e é válido até os dias atuais. Assim, legalmente, as associações possuem um caráter assistencial, mas na rede cotidiana de relações com a sociedade, ou seja, nas disputas informais que se estabelecem, as mesmas buscam influir nas reivindicações de interesses da categoria, seja de forma direta, por meio das solicitações formais à secretaria de segurança pública ou ao governador, ou de forma indireta, pressionando a opinião pública e a sociedade em favor dos interesses da categoria. 82 Relembrando a pauta de reivindicações, vimos que as condições de trabalho aparecem como um dos itens a ser considerados na negociação a respeito do trabalho policial na greve de 2011. A mesma pauta volta a aparecer, revestida nos fatores que poderiam possibilitar uma melhor qualidade de vida ao policial, por meio da incorporação da gratificação ao soldo, o que não necessariamente significaria um aumento de salário, mas uma redução do capital manipulável elaborando, desse modo, uma reconversão para a condição de direitos do que antes eram tidos como privilégios, conforme explica o depoimento abaixo: Então, o que aconteceu na época é que existia a gratificação do ronda, mas a gratificação era por dia trabalhado, é por escala. Você cumpriu a escala? Então pronto, está ai a gratificação. Então, se você não trabalha, perde. Foi um absurdo. Na época, vários policiais eram feridos em atividade policial. Feridos de bala, uma queda de moto. Não iam trabalhar e perdiam a gratificação, porque iam entrar com uma licença, porque a perna, porque levou um tiro, caiu da moto quase morreu! Perdia a gratificação ai vários, doentes, foram pro quartel pra trabalhar, doentes. Sem poder andar, sem poder sentar, pra não perder a gratificação. Porque é covarde uma gratificação que você coloca com um valor de 50% do seu salário. Na época um soldado ganhava 1300 reais, a maior gratificação do ronda era de 600 e pouco. Isso é covardia. Como é que você vai explicar pra sua esposa que você ta ganhando agora mais 600 reais e ta pagando agora uma prestação de um carro e que você não vai mais poder pagar a prestação do carro. Que você passou anos e anos juntando dinheiro pra pagar a prestação do carro. Então, você tem que rezar pra não ficar doente. (Policial 9) Então quando houve a greve, a greve fez o quê? Incorporou a gratificação, como sendo uma gratificação fixa. Parte da remuneração e ele passou a ganhar aquela gratificação. Então tanto faz você ficar doente ou não, você ganha e isso salvou muita gente. (Policial 9) Após a greve, em 2013 e 2014, os policiais militares do estado do Ceará tornaram-se novamente manchetes nos jornais locais. Dessa vez as preocupações e polêmicas centravam-se em torno da quantidade de Licenças para Tratamento de Saúde (LTS) concedida, à categoria, pela Perícia Médica do Estado66. Segundo os jornais e funcionários da perícia médica a razão dessas licenças está dividida nos códigos legais referente às lesões e problemas psicológicos, contabilizando quase uma divisão de 50% para cada uma das partes. Contudo, essa 66 Um indício da utilização das Licenças como um recurso nas redes de poder foi o aumento no número de solicitações após a greve de 2011, uma vez que a polícia começou uma temporada de “caça às bruxas” a fim de promover punições oficiais e/ou não-oficiais aos policiais suspeitos de participaram da greve. Uma delas foi a transferência em massa de policiais para o interior, modificando toda a rotina dos policiais que trabalhavam na capital, além de outras perseguições internas. 83 divisão pode constituir, na verdade, duas faces de um mesmo problema. Elas se relacionam, uma vez que, a quantidade de lesões explica ou podem estar relacionada às condições de trabalho e, portanto, à vitimizaçao objetiva do trabalho policial, enquanto a outra está relacionada aos significados que preenchem os casos de ansiedade, medos e dos transtornos mentais associados à vitimização subjetiva da profissão. Assim quanto mais lesões, mortes, tiroteios com vitimas, acidentes com veículos durante o trabalho, mais é alimentada a constante imaginária do risco da profissão, a possibilidade de ser a qualquer momento acometido por problemas semelhantes reiniciando o ciclo do medo e da angústia. Contudo, para além da vitimização, as licenças também adquiriram um significado político de resistência, um indício disso foi o aumento no número de solicitações após a greve de 2011, uma vez que a polícia começou uma temporada de ―caça às bruxas‖ a fim de promover punições oficiais e/ou não-oficiais aos policiais suspeitos de participaram da greve. Uma delas foi a transferência em massa de policiais para o interior, modificando toda a rotina dos policiais que trabalhavam na capital, além de outras perseguições internas. Um segmento da polícia que aderiu de forma maciça a greve passou a sofrer também perseguições: O ronda ele não era tão perseguido, né? Ai começaram, depois da greve. Porque foi o ronda que fez a greve, praticamente. Então depois da greve começou a ser mal visto. Tanto pelos oficiais quanto pelo governador. Ai começaram a questão de botar câmera nas viaturas pra saber o que você tava fazendo. Ai você tirava a boina eles lhe chamavam a atenção. Se você tava sem o nome, você recebia uma comunicação. Se você parasse 10 min no local. Já chegava uma mensagem dizendo que era pra você rondar. Você rondar 8hs por dia sem poder nem descer. Pra almoçar, os 4 tinha q almoçar em meia hora.O ronda começou a ficar insuportável depois da greve. Comunicado por tudo depois da greve. Ai, ronda: único que não ganhou gratificação. O raio ganhou gratificação, trabalha 6hs por dia. O choque ganha gratificação e trabalha menos que a gente. Entendeu? Começou a fazer isso. Ai começou a aumentar os LTS. até guarda já se matou por causa disso. Por causa de questão de perseguição. (Policial 10) A partir dos dados fornecidos pela Associação de Cabos e Soldados da Polícia Militar do Estado do Ceará, a ASPRAMECE, o número de Licenças tem aumentado desde 2011. Em 2011 foram solicitadas 536067, com uma média de 450 licenças por mês; em 2012, 6937, media de 578 por mês, e em 2013 (de Janeiro a Julho) 3649, média de 521por mês. 67 Nesse período o efetivo era de aproximadamente 15mil policiais. 84 Devemos considerar, após os relatos já explicitados do histórico de lutas da polícia, que esse aumento no numero de licenças está relacionado não só a quantidade de policiais doentes, mas também a uma mudança no entendimento acerca da doença e do sofrimento na polícia que, por sua vez, deve-se a construção de um discurso relacionado às reações do segmento mais desprestigiado na hierarquia militar, os praças, nas articulações das relações de poder, através dos espaços das Associações, que impulsionaram uma visibilidade das condições de trabalho da categoria. Para além de uma luta por melhores salários, esses movimentos significaram uma busca por melhores condições de trabalho e a construção de um discurso do policial enquanto sujeito de direitos. As construções discursivas expõem às vulnerabilidades em que se encontram os policiais submetidos às condições de trabalho na polícia associando suas causas a quantidade das Licenças para Tratamento de Saúde (LTS). Com isso, a perspectiva de que o sofrimento deveria incorporar a identidade policial passou a ser questionada, assim como os casos de assédio moral decorrentes da possibilidade de personificação da estrutura de dominação burocrática. Dessa forma, no cotidiano das relações de poder, a Licença passou a ser utilizada como uma estratégia de agencia em face às situações de conflito que submetem, por meio da dominação burocrática, os policiais que se encontram na condição de praças68. No âmbito da instituição, o processo de adoecimento segue duas vias, possíveis de combinações, com exceção do estágio da reforma 69. De acordo com o regimento militar, caso o policial militar entre de licença por 2 anos seguidos, ele será agregado podendo, em seguida, ser reformado. Se ele for reformado proporcionalmente, como o nome já indica, só receberá como aposentadoria o valor referente ao tempo que dedicou a polícia. Caso seja julgado incapaz, ele é reformado com valor integral. Outra alternativa para o caso é a readaptação para Serviços Leves. Nesse caso o policial que trabalha na atividade meio, ou seja, no serviço burocrático, não ―tira o 68 O acordo conquistado na greve de 2011 estipulou a incorporação ao salário de uma gratificação de 819,03 reais para os policiais do turno da noite e 533,80 para quem desempenha a função como folguista (além do vale alimentação de 220 reais) que antes só era concedida ao policial em serviço, ou seja, quando e se, o policial entrasse de Licença para Tratamento de Saúde, esse valor não era repassado ao salário que, bruto, correspondia a 1500 reais, na época. Dessa forma, o desfalque na renda familiar relativa a gratificação, fazia com que o policial suportasse ao extremo as situações de sofrimento, agravando seu quadro, dificultando o acesso a tratamentos e medicamentos, devido a redução salarial, contendo também o número de licenças forçosamente. 69 A reforma refere-se ao processo semelhante à aposentadoria no âmbito civil. 85 serviço de rua‖ e os que trabalham na atividade fim podem ser realocados na atividade meio. Dito isto observamos que Licença médica é uma forma burocratizada legitimada pelo discurso médico e desenvolvida a partir da construção do seu saber. Contudo, seus usos e significados não seguem essa mesma padronização e variam conforme o contexto em que cada policial se insere. Como veremos a seguir, seus significados variam conforme a visão que o policial tem da corporação, da sua posição, dos capitais que consegue manipular nas redes de poder e, principalmente, da leitura que realiza da sua situação em relação aos outros, ou seja, as experiências subjetivas e às interações conflituosas. 4.3. Policiais “Modernos” e Policiais “Antigos”, trajetórias, estratégias e enfrentamentos diferenciados70. A primeira participação no grupo Resgate de Auto Estima estava condicionada à leitura de um livro 71 que contava a história do Cavaleiro Preso na Armadura. Naquele dia todos acompanhariam o último capítulo da saga. A fábula contava a história do cavaleiro mais bondoso, gentil e destemido do reino. Ele resgatava donzelas, combatia dragões e inimigos perigosos, sua armadura reluzia sua fama e seu ofício de estar sempre lutando e buscando novas aventuras. Em função disso, sua família, filho e esposa quase não compartilhavam da sua presença. Aos poucos, o cavalheiro percebeu que, de tanto dedicar-se ao seu ofício, ele tinha preso, a seu corpo, a sua armadura. A armadura, que representava seu trabalho, o impedia de ser reconhecido pelo filho e esposa, assim como o impedia de comer e sentir. A narrativa segue numa seqüência de várias etapas rumo ao autoconhecimento que culmina com o retorno à sua humanidade através do desfazer-se simbólico de cada pedaço da armadura. A saga que conta a história do cavalheiro pode ser comparada aquelas que constituem a trajetória dos sujeitos que adoecem no campo policial. O policial pode 70 A concepção “Moderno”, assim como “Antigo” correspondem também as classificações feitas pelos próprios policiais. Os policiais “Modernos” são indicados pela turma do Ronda, dessa forma reproduzimos essas classificações. 71 A referencia do livro é: FISHER, Robert. O Cavaleiro Preso na Armadura: Uma fábula para quem busca a Trilha da Verdade. 13ª Ed. Rio de Janeiro: Record, 2010. 86 identificar-se em qualquer estágio de incorporação do sofrimento no trabalho, mas, certamente, os policiais que tem mais tempo na instituição, colecionam mais experiências na construção da sua ―armadura‖. Todo esse tempo objetivo e subjetivo dedicado à construção da sua ―armadura‖ na instituição, todo esse dispêndio de energia constitui e faz com que a farda, representação objetiva do trabalho, seja um local de morada, um plano de constituição de sua identidade. Nesse processo de construção da armadura, ou seja, a qualidade e quantidade de investimentos relativos à trajetória dentro do campo militar, configura uma relação assim como uma percepção diferenciada no que diz respeito ao sofrimento e adoecimento no trabalho entre os policiais mais velhos e os policiais mais novos (os policiais ―modernos‖), aqueles que têm até, cerca de, oito anos de polícia, representados pela turma do Ronda do Quarteirão 72. No primeiro capítulo indicamos uma dimensão objetiva que configurava a conjuntura do mercado de trabalho brasileiro e a influência, desse quadro, na percepção e perspectivas dos sujeitos que ingressaram na corporação. Vimos que, apesar de esse fator não constituir um sentido unívoco com relação as aspirações dos policiais entrevistados, eles sugerem a construção de um quadro cognitivo em relação ao mundo do trabalho através da noção de projeto individual (VELHO, 1994). Esse conceito, inclui, portanto, uma perspectiva história de construção do individualismo, do contexto de uma modernidade líquida e também da construção social a respeito da instituição policial gestando expectativas de estabilidade e crescimento na instituição. Dessa forma, o campo que buscamos identificar como relativo à policia militar, apesar da busca por uma constante autonomização 73, é também recortado por subuniversos sociais que compõe camadas no habitus (BOURDIEU, 2011) dos agentes sociais orientando as percepções e práticas dos indivíduos, conforme uma conjuntura de posições, experiências anteriores e expectativas . 72 O Ronda do Quarteirão foi uma proposta política implantada no governo Cid Gomes, cujo projeto data do ano de 2005. Foi uma tentativa de criação de um Policiamento Comunitário de aproximação da polícia com a população. Na referencia nativa, a turma que inaugurou o Ronda é a indicada como ―policiais modernos‖, mas essa relação não é exata, por exemplo, policiais que participaram ou apoiaram de alguma forma a greve de 1997 também se consideram‖ modernos‖. 73 A característica da prontidão, por exemplo, podemos associar a uma tentativa de fazer com que a policia constitua o único ou mais proeminente espaço de realização e convivência do policial militar. Assim como a possibilidade de transferências a qualquer momento sob justificativa legal, assim como as mudanças de escalas, dentre outros. 87 Ao inserir-se objetivamente nas estruturas da corporação como praças, esses indivíduos passam a conviver com gerações de policiais mais antigos que já possuem uma trajetória dentro da instituição. Eles já desprenderam uma energia objetiva e subjetiva considerável no interior do mundo policial, na ambientação das práticas, na incorporação de um modos operanti (BOURDIEU, 1989), na construção de relações de amizade, de influencia política ou mesmo uma identificação tão próxima com o que classifica como ser policial que tal fator é imprescindível para compreender sua identidade social. Dessa forma, a trajetória dentro da instituição, assim como a composição de habitus referentes aos diferentes espaços sociais de convívio associada a incorporação dos valores e modus operanti da policia militar constituem uma postura diferenciada em relação às práticas que dizem respeito às situações de sofrimento no trabalho contribuindo para tomadas de posições diferentes no campo estudado. Conforme podemos acompanhar pelo raciocínio de um Policial Moderno: Eles não me perseguem tanto, porque se eu me senti perseguido eu boto de novo o atestado. Eles sabem quem faz isso. Agora tem gente que segura, tem gente que agüenta. Eu não, se me prejudicarem eu vou me tratar de novo. -porque tem gente que agüenta?Porque tem gente que é presa a esse trabalho aqui. Não pode sair. Porque se perder esse trabalho aqui não vai saber fazer nada. Eu pelo menos estudo, mas tem gente aqui que tem três filhos, não tem mais....e já é dependente demais daqui não tem mais saco pra estudar já ta abalado. Ai pra uma pessoa dessa sair, ser expulsa, demitida. Ai vai trabalhar de que? A pessoa com 10, 15 anos aqui já. Ai já tem 30 e tantos anos. Entendeu? Ai muita gente agüenta. Muita gente dessa ai não foi nem pra greve com medo de ser expulso por isso. E eu não tiro a razão não, né? Porque tem filho pra criar, tem essas coisas, né? E a maioria é assim, né? Poucos são ainda os que buscam outra coisa...a maioria quer ficar, né? A maioria quer ficar não. A maioria se torna dependente, porque perde aquela vontade de sair, de estudar ai infelizmente é ficar aqui até...coisa que, a maioria quando entra não quer, mas a maioria perde o controle, né?ai acabam ficando. (Policial 1) Boudieu (1996) explica que existe uma certa taxa de conversão entre campos, e quanto mais energia se desprende a fim de conquistar determinadas posições no campo em que se encontra, mais difícil será a conversão a outro campo. Em geral, a perspectiva do policial antigo que adoece na corporação é permanecer de Serviços Leves em um setor administrativo da polícia ou continuar trabalhando doente até aposentar-se. 88 Já o policial moderno 74, como um recém-chegado, desfavorecido nas dimensões de prestígio no campo, tende a comporta-se de modo a reagir instantaneamente às situações de sofrimento, traduzidas pelas leituras que realiza sobre o que considera perseguição, abusos de poder ou indícios de um quadro de estresse agudo. Enquanto se encontra na situação de desprestígio no campo, menores são as coerções morais que os prendem a todo tipo de constrangimento. Contudo, reações desse tipo às situações de sofrimento no campo produzem uma reação ambígua na fala de seus semelhantes, eles são vistos tanto como ―os que fizeram a greve e trouxeram melhorias para a categoria‖ como ―os veste farda‖. Essa condição de desprestígio pode ser representada na fala de um dos entrevistados: É o que na polícia nós chamamos de veste farda. Ele tava desempregado e fez um concurso. Ai entrou. O cara entrou, porque tava desempregado e fez o concurso. Se ele acredita, se ele não acredita é outra história. Ele ta preocupado apenas com o salário no final do mês. E se toda vez que ele entra, volta pra casa inteiro. Não tem compromisso com nada. O único compromisso dele é não se enrolar. Tem desses que ainda são um pouco mais responsáveis ainda fazem o feijão com arroz. A turma do ronda é basicamente isso. Você vai ver que muita gente nova no Ronda envolvido com a questão do fazer policiamento..tem muita gente boa, é importante dizer isso, mas a maioria, a maioria, a maioria entrou por causa de um concurso. (Policial 2) Boa parte, ai você vai ver os policiais do Ronda pra cá, tiram muitas licenças. Quando você vai ver isso é porque, as primeiras turmas. Foi proibido, quase que proibido, a carga horária da doutrina militar foi consideravelmente diminuída. Ai na gestão do César Barreira na academia ai que foi que ele diminuiu, porque ―num é polícia militar, esse negócio de militarismo aqui não existe‖. ta entendendo? Ai o quê que acontece? O indivíduo vai pra rua sem esse rigor da disciplina ai não respeita mais ninguém. Ai mete atestado. Trás atestado de fora pra validar, ta entendendo? Quando se tinha uma estrutura dentro da filosofia militar, você tinha uma cultura a manter e cultuar, certo? Ir ao médico somente o necessário...essa questão. Ai não, o cara entrou pra um concurso ai ali é só um emprego ―só um emprego enquanto to passando a chuva, porque, na verdade, o meu interesse é a polícia federal que ganha 3x mais ‖. É o que eu vejo hoje como um problema. Transforma-se num problema severamente banal, o cara tira uma licença de qualquer jeito. Óbvio, alguns de fato estão doentes. (Policial 2) 74 Os policiais do Ronda, tiveram alguns “prestígios” quando o programa foi criado. As escalas eram menores em relação aos outros, os equipamentos mais novos, uma gratificação e uma carga de trabalho menor. Contudo, essa mesma distinção criada na polícia fizeram com que os mesmos fossem também mal-vistos pelo restante da tropa. 89 É como se o comportamento dos policiais mais modernos em relação a doença os fizessem ser de uma condição menor, uma qualidade menor de polícia. Uma percepção que minimiza os agravos a saúde relacionados às condições de trabalho policial ao mesmo tempo em que os naturaliza na ideia de que ―ser um verdadeiro policial‖ é agüentar as adversidades do trabalho até o limite. Outra fala que demonstra essa diferença é a que o policial explica que enfrentou algumas dificuldades no trabalho que realizava em determinado Batalhão, porque, segundo ele, os policiais mais velhos aceitavam que determinadas arbitrariedades fossem consumadas, e como ele chegou depois (portanto novato no local), sentindo essa situação desconfortável, na qual a própria hierarquia não era respeitada, já que os policiais mais antigos deveriam ter mais privilégios de escolha em relação aos mais velhos, foi reclamar com o comandante e então obteve essa resposta: ―Mas comandante, assim e assim...‖ E o comandante ― não, mas porque fulano de tal tem 30 anos‖ e eu só tenho 20, ou seja, o cara é mais antigo. Como ele não fala, se eu falar ele vai dizer que eu cheguei agora e to falando enquanto, que o cara tem mais tempo do que eu e não fala. Mas porque? Por que se acostumou. O pessoal de antigamente qualquer coisinha era cadeia. Era submisso de certa forma...o que mandasse ele fazia. Não contestava nada...tanto que a nossa geração é de fazer greve e já melhorou muito. (Policial 3) Do primeiro depoimento deste tópico podemos observar como a LTS aparece como uma estratégia de negociação inserindo-se nas redes de poder que permeiam o cotidiano de trabalho policial, sobre isso falaremos a seguir. 4.3.1. A LTS e as relações de poder. Apesar de a Licença ser um documento, com todas as características aparentes da impessoalização burocrática, observamos que ela compreende sentidos que correspondem a respostas diferenciadas para um problema semelhante: o processo de adoecimento, assédio moral, sofrimento, ou insatisfação no trabalho da polícia. Vimos que, a escolha na sua utilização possui uma relação com as posições ocupadas pelos agentes no campo militar. Veremos agora, como ela pode ser utilizada como uma carta 90 no jogo das relações de poder75, ou seja, de que maneira sua utilização constitui uma estratégia para angariar os troféus, que compreendem melhores condições de trabalho, e/ou uma busca por uma contraprestação ao sofrimento ou um sentimento de esgotamento até uma certa indiferença com relação aos valores do campo 76militar. Mas os sentidos não são unívocos, muito menos isolados, eles compreendem uma leitura do policial em torno de uma rede de relações que constituem o contexto no qual o atestado e a licença constituem uma alternativa. A conjunção de fatores faz com que, naquele momento, a possibilidade de utilização da licença seja razoável, segundo a leitura do policial. Desse modo, as situações desagradáveis podem começar pelo acesso às condições desfavoráveis no trabalho, no enfrentamento cotidiano das ruas, no estresse gerado pela carga de trabalho e somar-se às interpretações realizadas pelos praças relativas à perseguições, autoritarismos ou desprestígio dos comandantes. Esses fatores configuram um quadro de estresse, ansiedade, constituindo uma situação de sofrimento no trabalho a partir da qual a licença pode aparecer como uma contraprestação, alívio, aos fatores que poderiam causar um quadro de adoecimento mais grave, com conseqüências mais profundas. Conforme podemos acompanhar na fala de um dos policiais: 75 Faremos agora uma referencia ao entendimento de Foucault acerca do poder. Em entrevista localizada no livro de Rabinow, P; Drefiws. A. (1995), o autor explica que o objetivo da sua obra bibliográfica não é estudar as formas de poder, ou o poder em si, mas compreender as formas pelas quais o homem se constitui enquanto sujeito, ou seja, investigar os modos de objetivação do sujeito a partir das práticas divisoras e de normalização, da dicotomia ―sujeito e os outros‖. Assim, o conceito de poder em Foucault é passível de ser apresentado nesse contexto, na medida em que ele só existe por meio de uma relação, que nesse caso, pauta-se em uma relação objetivada pela estrutura hierárquica que divide: oficiais e praças. Todavia, a contribuição desse conceito está justamente na possibilidade de compreensão em que a natureza dessa estrutura é, até certo ponto, flexível e móvel, capaz até, em alguns casos, de subverter momentaneamente a hierarquia, através da articulação de um contexto de redes e circunstancias de poder, conforme veremos alguns exemplos nessas seções do texto que seguem em ―A LTS e as relações de poder‖ e ―O quadro de formação de um ‗novo‘discurso‖. Além disso, esse conceito explica a construção discursiva de um sujeito de direitos concernente à figura do policial, através da composição de elementos diversos relativos ao militarismo e aos signos utilizados historicamente pela classe trabalhadora civil. Nessa relação o adoecimento constitui uma manobra a ser utilizada pela categoria na construção desse novo discurso. Veremos mais detalhes sobre isso em ―O quadro de formação de um ‗novo‘discurso‖. 76 É importante acrescentar que essas tipificações são realizadas com o objetivo de melhor compreender os sentidos e fatores cujo maior peso contribuiu, segundo a experiência da entrevista e das observações, para a objetivação daquela ação através da Licença, mas é preciso dizer que esses elementos não encontram-se isolados na realidade, ou seja, o policial, por exemplo, que pode se mostrar indiferente aos valores do campo, alegando que tirou uma licença sem de fato estar doente, pode significar também um processo de sofrimento ou frustração das suas aspirações a realidade do trabalho policial. Em outras palavras, os sentidos não são unívocos, mas sua composição refletem um estado de circunstancias que tornaram a utilização de uma Licença pelos agentes, naquele momento, uma ação razoável e dotada de significado. 91 E o fato de tu voltar pro operacional tem te prejudicado em alguma coisa? Não tem porque a área lá é muito calma. A área lá, a única coisa que eu pego, assim, pra dar problema é som alto. Não tem roubo, não tem nada. Ai, justamente, pra mim, não tem como prejudicar. Antes eu trabalhava no Lugar X. Lá é ocorrência, homicídio direto e a questão de ser... tipo: eu via criança morta, eu já me sentia..eu via as pessoas mortas bestamente por causa de tráfico. Entrava na casa do pessoal lá pra dar assistência, por exemplo, ai você via criança de dois, três anos dentro da casa ai você via ―vixe Maria, como é que vai se criar? Só com a mãe e a mãe usuária com um bocado de filho‖, ai eu ficava só somando, via suicídio também. O que eu menos gostava de ver era suicídio, porque era enforcamento ai eu me sentia meio assim. (Policial 1) Como foi que tu descobriu teu problema?Assim, eu já tinha bem pouco, esse problema de pressão e ansiedade, mas ai quando eu comecei a ver assim essas coisas na policia, ai eu comecei a sentir mesmo. Ai eu descobri isso ai na polícia, na época, eu tava com uns 3 anos de polícia foi quando eu completei 4 anos. Ai fiquei até 4 anos de licença e voltei, foi quando eu descobri que eu tava me sentindo muito ansioso, mal tava querendo trabalhar, pelo fato do Major. Já tinha essas coisas, mas pelo fato de começar as perseguições chatas ai eu tive que me tratar. O major saiu. Ai quando ele saiu, eu voltei. (Policial 1) O acaso realiza um papel importante nas situações experimentadas pelo entrevistado. A princípio, o praça trabalhava em um bairro perigoso, com alto índice de violência e a exposição diária a essas ocorrências lhe causaram um mal-estar e fizeram com que ele colecionasse na memória estados de precariedade humana que contribuíram para aumentar sua ansiedade. Todavia o fator primordial para a atitude de solicitar a licença foi a perseguição que sofria do referido Major, tanto que, após sua saída do comando, ele retorna à companhia no serviço ativo. Ao voltar para o serviço ativo, sua Licença desencadeia uma transferência não solicitada pelo policial, mas que, resultou em ―algo bom‖, uma vez que, a área para a qual o policial foi alocado constituía um ambiente calmo. Portanto, apesar das condições de trabalho diárias, o policial atribui um peso considerável aos casos de perseguição sofridos e a licença constitui um jogo arriscado, pois se sua transferência foi, segundo o policial, causada pela sua utilização da licença, ela poderia ter direcionado sua alocação para uma companhia indesejável, mas, por sorte, não foi o que aconteceu e o policial organizou seu pensamento de modo a fazer um balanço positivo da sua ação. E o serviço depois que foi transferido? Continua fazendo o operacional? Sim, o operacional, até porque eu falei da situação que estava ai ele ―cara, oh, tu não tem condições de ta na BM, mas eu vou te botar numa área que é bem calma‖. Ai o capitão realmente me botou. Só que assim, né? Acho que Ele me botou justamente pra eu não botar LTS de novo pra mim voltar ao tratamento, porque eu acho que ele me prefere assim meio doente, mas trabalhando numa ;área 92 calma do que eu ta parado um ano? Entendeu? Por isso que ele não me persegue, mas ai com outros eu ja percebi que ele já é ruim. Como esse caso que o rapaz precisava viajar com a família e não pode. Por causa dele, ele não quis autorizar a permuta. Qual a justificativa que ele deu? Nenhuma, ele disse ―não dou, não dou. Não faz mais permuta‖. Ai não disse que foi por causa do atestado, mas todo mundo subentende que foi. (Policial 1) Nessa situação, podemos visualizar que a licença se tornou um recurso implícito para negociar um local de trabalho com o comandante, além de constituir um fator de tratamento diferenciado dos demais. Assim a licença se apresenta como uma carta no jogo, porém ambígua e que possui restrições de acordo com as regras do campo. Nesse segundo trecho de entrevista observamos que não é um recurso utilizável77 sem uma condenação moral que se objetive na transferência e também há um limite legal no tempo de utilização. (...) fiquei até março agora, porque se passar de um ano é agregado ai o interessante é que você volte a ser, pelo menos, Serviços Leves. Porque assim, eles não estão preocupados se você está doente não. Faz um ano, mas se passar de um ano eles podem lhe dar licença e lhe aposentar proporcionalmente. Só que você sendo aposentado proporcionalmente, eu perco e eu não posso mais fazer nenhum tipo de concurso. (Policial 1) Como já indicamos, o peso das licenças recai pelo estigma das acusações morais que podem trazer prejuízos objetivos para aqueles que compõem a ultima escala da hierarquia. Isso se traduz em um senso prático a respeito dos limites na utilização desse recurso dentro das relações oficiais e praças que pode ser encontrado no trecho relatado acima, como nos que seguem: Então foi uma conversa que eu tive (com o comandante): cara eu já to aqui desde 2007, né? Já tenho tanto tempo de polícia, dá pra me deixar no canto que eu tava? (Na escala e no local) Ai passou uma semana me mudaram de novo, ai eu: ―ah não vou atrás mais não que eu também não sou de pedir não.‖ 77 Como um recurso utilizável de forma consciente e passível de sansão moral no campo, saímos um pouco das construções teóricas de Bourdieu e encontramos, na teoria de Giddens (2009), uma fonte de análise, através do conceito de reflexividade e agencia dos sujeitos. Assim, apesar de formados e socializados em uma determinada matriz subjetiva e cultural, os sujeitos possuem um grau de reflexibilidade e tentam agir a favor ou contra as estruturas que lhe integram. Assim, no caso dos policiais, tanto as condições de sujeição das relações entre oficiais e praças, quanto as de dominação burocático-militar são reconduzidas, resignificadas e reconvertidas através do uso político da Licença como uma estratégia. 93 (...)Quando tu falou com ele, ele disse que ia te voltar pro local? Foi, foi, mas ele não cumpriu. Não cumpriu porque ele já recebe ordem de outra pessoa e eu via claramente que não tinha necessidade daquilo. (...). Ai eu comecei a não digerir isso ai. Foi me fazendo mal, me fazendo mal, porque é uma coisa que você não pode chegar, que você não pode falar, porque você fica visado. Porque se você vai muito, leva muito problema pro seu comandante você fica muito visado. (Policial 5) Quando começou tudo isso? Quando foi tua primeira licença? Eu entrei de licença, eu não queria entrar de licença. Eu pedi férias. Porque tu não queria entrar de licença?Existe um estigma que o policial que entra de licença ele ta enrolando e eu não queria essa imagem. Mas quando eu tava de férias, que o médico detectou o problema ai eu resolvi entrar de licença. (Policial 6) Eu sempre relutei em tirar essa licença, sempre relutei mesmo só que ai o pessoal começou a notar que eu não tinha mais condições que tinha dias que eu vinha arrastando a perna ai todo mundo dizia ―não procura um médico e tal‖ faz uns exames. Ate o meu próprio chefe disse ―olha, ta vindo uma copa do mundo ai e você desse jeito, procure um médico‖. Ai foi realmente quando eu fui atrás, porque eu já estava mesmo puxando da perna. (Policial 7) Portanto, a Licença também carrega um estigma (GOFFMAN, 1991) e, por isso, deve ser usada com parcimônia por aqueles que se encontram inseridos no campo policial e compartilham de seus valores. Levar uma Licença para seu comandante é, de algum modo, levar um problema para sua administração, uma vez que, a quantidade de policiais de licença irá reordenar a alocação e a escala de outros policiais. Além disso, dependendo do caso, quando, por exemplo, há histórico de conflitos entre o comandante (oficial) e o praça, este fica ―visado‖ como informa nosso entrevistado. Configurando um extremo, podemos nos referir ao blefe 78. Chamaremos de ―blefe‖ a situação em que o policial relata não estar doente e não aparenta nenhuma preocupação no que diz respeito às repercussões do caso. Encontramos alguns desses casos na referência de relatos das entrevistas obtidas em campo (quando um policial refere-se a situações que ocorrem com seus pares). Nesses casos, observamos uma certa ―indiferença‖em relação a opinião do policial que ―blefa‖ com os outros policiais, assim como uma preocupação menor com a vinculação da sua imagem a um estigma dentro da corporação. Eles estão envolvidos no jogo, mas ao mesmo tempo são indiferentes a ele no aspecto da acusação, pois não se preocupam e não se sentem afetados moralmente. 78 Fazendo uma alusão ao jogo político do campo, usamos como ―blefe‖ como referencia aos casos encontrados nos quais o policial finge estar doente. 94 É sabido que a dinâmica do jogo de cartas consiste não somente na combinação favorável que possui o jogador, mas também na observação do outro, na tentativa de estudar as circunstancias, nas experiências acumuladas, nas suspeitas de ação levantadas, ou seja, no trato com o sentido do jogo e da sua relação com o outro, considerando cartas já lançadas a mesa. Em outras palavras, as condições de trabalho são conhecidas, as possibilidades podem se encontrar estáveis, de modo que, o jogador com a combinação mais desfavorável pode virar a partida, através de uma leitura acertada dos adversários. Nesse contexto se inserem as licenças, vejamos outro caso no qual o policial descreve o cenário e o desencadear dos fatos que o levou a solicitar a LTS. Mas de fato, o fato de eu ter colocado a LTS foi por causa da perseguição. Porque às vezes eu saía de casa até num horário bom, mas o ônibus atrasava. Eu tinha que pegar 2 ou 3 ônibus ai, as vezes, eu chegava em cima da hora. Ai eles começaram a olhar pra mim, né? Eu entrei em evidencia pra eles. Eles chamavam minha atenção só que eu não tinha culpa, eu saía mais cedo. Num desses atrasos nós tínhamos que ir direto pra companhia pra ‗tirar falta‘ e de lá ir pro jogo. Ai como eu tive um problema na família, acabei saindo tarde e, pra não chegar atrasado, tentei ligar pra ele (comandante) mais não consegui avisar que eu ia direto pro estádio. Chegando no estádio, eu me encontrei com 9 policiais. Comigo fazia 10. Ai eu fiquei lá com eles, eles também foram direto e, com pouco tempo, o ônibus chega com todos os policiais lá da companhia. Ai o capitão viu que tinha 10 policiais ali próximo onde tira as faltas e pediu pro tenente saber por que nós tínhamos ido direto. Quando ele foi perguntar, ai os policiais começaram a sair, começaram a sair, se dispersar...ai sobrou eu e o cabo. Ai ele foi perguntar ―ei, porque que você veio direto, pro estádio?‖ai ele‖porque eu ia chegar atrasado‖, ei ele se virou e perguntou pra mim ―e você, porque que você veio direto?‖, ai eu ―pelo mesmo motivo do cabo‖ai fui saindo, né? Falei isso e fui saindo, mas parece que ele não gostou muito ai falou ―ei, eu tava falando contigo. Quando eu tiver falando com você, você não de as coisas pra mim não.‖ Ai eu: ―ta certo ―ai fui saindo. Fui saindo pra ir tirar minha falta. Ai ele foi atrás de mim de novo dizendo ―ei to falando com você‖ ai ele ―olha quando eu tiver falando com você, você não dê as costas pra mim não, ta certo? Fique na posição de sentido!‖. Ai eu não fiquei, né? Ai ele pediu umas 5x ameaçando me levar preso pro batalhão se eu não ficasse. Ai eu vendo que ele tava sendo assim autoritário, me recusei. Falei ‖ você ta querendo me envergonhar, né? Perante a tropa?‖ ai ele‖não, to pedindo pra você ficar na posição de sentido‖ .Ai eu‖não, o senhor quer me envergonhar perante a tropa. O senhor ta me envergonhando na frente dos meus colegas de trabalho.‖ai ele ―você quer ficar preso no batalhão?‖ ai eu: ―O que q você acha melhor?--eu acho melhor você ficar na posição de sentido‖ai eu fiquei na posição de sentido. Eu: ―pronto, fiquei. Satisfeito?‖ ai ele ―satisfeito.‖ Pronto?-- Eu posso ir agora pro meu serviço? –pode. (Policial 8) Essa situação de conflito narrada pelo policial resultou em três punições para o praça em questão. Dessas três, ele conseguiu recorrer e restou duas que incorriam em 95 permanência disciplinar por seis dias, ou seja, ele teria que ficar preso no quartel sem prejuízo do serviço. Indaguei porque os outros não sofreram a mesma punição, mas eles não responderam. Eu sei que resumindo chegou o dia que eu teria pagar a punição. Cheguei lá, liguei pro diretor da associação. Ele disse que eu tinha um jeito de eu não cumprir essa pena ai eu falei pro tenente e ele ―oh você já fez todos os tramites, tudo que você tinha que recorrer, você recorreu. Eu desconheço alguma forma de você não pagar essa punição, mas, se o diretor ta dizendo que se você for lá ele vai dar um jeito eu vou lá..‖ eu sei que ele abriu essa exceção e deixou que eu fosse lá pra associação, ai chegando lá eu falei com o diretor, ai ele foi olhar. Ai ele disse que eu conversasse com um advogado. Ai eu percebi que não ia dar em nada, sabe? Ai vendo que eu ia pagar por uma coisa que era injusta, ai procurei um médico psiquiatra, porque eu já tava entrando em depressão já, sofrendo perseguição. (Policial 8) Ai esse atestado. Essa licença durou um ano, porque eu não queria mais voltar pra lá. Fiquei tentando transferência e tudo, não conseguindo. Consegui uma permuta pra Lugar X (grifo nosso). Só que demorou muito e chegou o dia de renovar a licença e o médico (perito) passou SL. Ai quando eu cheguei em casa que eu abri o boletim ai saiu a transferência. Eu já tava com uma licença aqui de SL, mas ai eu me senti até melhor pra trabalhar. Quando eu cheguei lá o comandante falou ―mas, rapaz aqui tem Serviços Leves‖. Ai eu: ―não, eu to melhor, sentindo melhor, depois eu vou pedir pro perito me deixar trabalhar total‖. Quando eu comecei a trabalhar, me sentindo melhor, com pessoas que eu vi que tinham um tratamento melhor com os outros. (Policial 8) Dentro desse contexto no qual todas as outras possibilidades foram esgotadas, a leitura do policial acerca da sua situação o conduziu a assumir o uso político de uma identidade estigmatizada por meio do uso da licença na tentativa de conseguir, ainda que provisoriamente, um alívio à situação de sofrimento, que, por sua vez, surgiu e complexificou-se no próprio decorrer do conflito e suas repercussões. Nesses casos as licenças se mostram como uma possibilidade ativa de realizar uma mudança ―independente‖ na realidade do seu trabalho de modo a evitar ou reverter uma piora no quadro de estresse e sofrimento vivenciado no trabalho. Essa possibilidade assume um risco dentro do campo militar. Contudo, a situação aparece tão insuportável do ponto de vista do policial praça que ela se torna uma alternativa razoável79. Segundo as distribuições de distinções morais entre Policiais Modernos e Policiais Antigos, os primeiros tendem a solicitar mais Licenças que os segundos por motivos de perseguição ou assédio moral. Enquanto os segundos resistem mais aos 79 Importante observar que a tática de recorrer a uma licença, embora pareça uma forma de simular o adoecimento, já demonstra um indício de adoecimento, uma vez que, na fala do praça ele afirma que já estava “entrando em depressão” devido a perseguição. Esses casos podem se configurar em situações e estados de assédio moral. 96 sofrimentos no trabalho em função de dependerem mais, tanto, objetivamente, quanto subjetivamente do trabalho na polícia. Veremos agora, de que maneira, politicamente, essas licenças se articulam a um discurso diferenciado sobre o trabalho policial. 4.4. O quadro de formação do “novo discurso”. Em seu estudo sobre a História da Loucura, Foucault (2010) reconstrói a forma com que os discursos sobre a loucura foram sendo construídos historicamente na razão em que formaram-se também parâmetros de normalidade. No decorrer dessa história podemos perceber de que maneira os discursos e as relações de poder se entrelaçam de forma a categorizar ou inaugurar uma percepção do homem sobre si e sobre o outro. Dessa forma, o outro refere-se ao diferente, ao louco, à desrazão e aos discursos e saberes relacionados à sua produção. Com isso podemos perceber que a dimensão da doença não se restringe a sua qualidade biológica, mas se insere numa gama de relações sociais que irão classificá-la, relacioná-la a outras, descobrir sua natureza e seus efeitos nas relações com os outros e na sociedade como um todo. Nesse aspecto, chama atenção esse efeito social que o discurso sobre a doença pode produzir nos sujeitos, mas também a dinâmica que estas produções podem assumir nas configurações de uma rede de poderes articuladas em cada época. A instituição policial caracteriza-se historicamente como uma corporação militarizada, rígida, autoritária e impassível a mudanças. Boa parte dos policiais entrevistados disseram não identificar-se com a ideia do ―ser policial‖, associada a noção de que isso significaria um soldado em constante preparação para guerra. Nesse contexto, existe uma demanda na sociedade brasileira, reforçada após a redemocratização, que vem buscando uma aproximação com um modelo de polícia comunitária aliando a ideia de participação da população na iniciativa da segurança pública e a figura policial como um mediador de conflitos. Em contraste com essa visão, a realidade manifesta e estampa em alguns jornais a ação truculenta de alguns 97 policiais no período em que exige-se do mesmo uma ação racional, direcionada pelos direitos humanos e uma prática cidadã. Estando suas práticas cotidianas envoltas de uma reclamação de direitos em relação aos direitos dos outros, das minorias, dos desviantes, a fim de um processo de democratização da sociedade, esse policial que é um meio, um objeto, um mediador do direito de outros também se vê enquanto sujeito de direitos. Nesse aspecto veremos agora de que maneira o policial se vê enquanto sujeito de direitos e sua relação com o adoecimento. Na esteira desse pensamento veremos como os significados subjacentes as Licenças para Tratamento de Saúde podem indicar a produção de um discurso que reflete às condições de formação do policial enquanto sujeito. Conforme indicamos nas sessões anteriores, o campo constitui um espaço de disputas entre os agentes que ocupam posições diferenciadas e tendem a agir atualizando as disposições provenientes de seu lugar nesse espaço. Veremos agora um caso que ilustra a situação de um processo de conflito sob as condições históricas de produção de um discurso iniciado com a explosão nacional da greve de 1997 80. Certa vez, em reunião convocada pelo CBS a qual tinha como objetivo melhorar a qualidade de informações contidas no relatório feito pelos comandantes e enviado às visitas, um dos comandantes fez uma pergunta, a princípio, inusitada. Ele perguntou se quem estava de LTS poderia dirigir. Ele queria saber se havia alguma norma do DETRAN que proibia a condução de veículo sob duas rodas, para esse caso em especial. Sabia o comandante que não estava presente na reunião nenhum representante desse órgão estatal e que, dificilmente, alguém saberia lhe dar uma informação tão específica. Mas, então, ele prosseguiu altivo, sem microfone, ao caso que, de fato, queria contar. Disse que, no efetivo do seu batalhão, 20% dos praças estavam de licença médica; desses, a maioria em afastamento para tratamento de doença de natureza psicológica. Em tom de revolta, explicou que um desses policiais que, segundo ele, estaria de Licença por problemas psicológicos, usava seu tempo destinado ao tratamento para participar de corridas de moto. Tomando conhecimento dessa 80 Nesse caso é importante ressaltar a dinâmica maior do processo social. O discurso que apresentaremos busca, para além dos valores reconhecidos do campo policial, legitimidade e aproximação com outros elementos civis estranhos ao universo militar e, nesse momento, a atualização das disposições dos agentes encontra-se aberta a outras possibilidades que não excluem a reprodução, mas abre margem para a inserção de outros elementos. 98 situação, ele enviou um relatório a Junta Médica, mas esse não surtiu efeito. Segundo o comandante, o policial disse ainda que não iria procurar nenhum Centro Social indicado pelo oficial, pois já estava sendo acompanhado por psicólogo. Além disso, o policial dizia nas redes sociais que iria cometer suicídio e que enviaria a habilitação dele como presente ao oficial. Isso visivelmente perturbava o comandante que, durante a reunião, se justificava seguidamente, argumentando sua imagem de bom comandante perante o resto de sua tropa. Independente de conhecermos a veracidade dos fatos narrados pelo comandante, essa situação, que embora possa parecer exagerada ou extrema, é bastante ilustrativa para compreendermos, a partir dela e outras, uma dimensão das relações entre oficiais e praças, assim como suas repercussões nas percepções sobre o adoecimento resultantes dessas interações e leituras construídas no cotidiano das relações. Primeiramente, o caso surpreende os ouvintes por consistir em uma espécie de inversão subjetiva da hierarquia. O oficial, ocupante de uma posição de comando e prestígio estruturalmente maior do que o ―acusado‖ é colocado em uma posição de constrangimento em razão de suas atitudes julgadas por ele como corretas. Ele reclama o desamparo da instituição frente ao seu prestígio, a legitimidade de seu capital acumulado no campo, objetivado na atitude de ter recorrido à Junta médica e não ter obtido sucesso, e ainda, por meio de uma possível inversão momentânea de valores, ver-se constrangido em razão do recurso discursivo utilizado pelo praça acusando-o, sutilmente, de perseguição. Para compreendermos o efeito de poder desse discurso precisamos considerar seu contexto de produção. Como já havíamos indicado de modo disperso ao longo da dissertação (e também nos deteremos mais especificamente a ele no próximo capítulo), a vitimização objetiva e subjetiva que acomete o policial criando um imaginário acerca da profissão associada ao risco, a estigmatização, a veiculação de casos e comentários diversos em veículos de jornais e revistas, ao surgimento de comentadores autorizados frente a essas demandas, a atuação das associações, enfim, toda essa dinâmica que teve como estopim a greve de 1997 e suas repercussões, tornaram o discurso do policial acusado como acreditável, e, por isso, ―ameaçador‖. Assistimos, dessa forma, a relação entre poder e saber indicados por Foucault (2009) do qual as Licenças podem representar a sua forma mais objetiva e facilmente 99 observável dentro do contexto de funcionamento da instituição policial relativa as condições de sofrimento, assédio moral e adoecimento no trabalho. Se por um lado, o policial pode ser visto como ―maceteiro‖ ou ―enrolão‖, por outro pode ser visto como vítima das condições de trabalho na polícia. A manipulação desse discurso consiste, dessa forma, na própria polivalência tática dos discursos (FOUCAULT, 2009). A formação desse discurso nesse contexto de disputas baseia-se nas explicações a respeito do adoecimento associando-as às condições de trabalho, ao policial como um sujeito de direitos. Assim, a qualidade da licença como um recurso de poder recorre a outros valores diferentes daqueles dominantes do campo, ou seja, a associação dos policiais às condições de trabalho ardis, a aproximação do policial à figura do trabalhador. A polivalência dessa tática permite, desse modo, que ao mesmo tempo em que essa ela seja vista como um desvio aos pilares simbólicos, ela dialogue com uma estratégia política que se efetiva através da obtenção das licenças. Assistimos a uma ambigüidade no interior da própria corporação em relação a doença, encontrada, por exemplo, nas acusações dentro do próprio campo em relação aos Policiais Modernos. Contudo, no que se refere a um discurso maior, em relação as condições de trabalho atreladas as causas das LTS, encontramos uma proximidade e um consenso, em meio as dissidências, em geral, os policiais identificam-se com as possibilidades da vitimização em todas as suas dimensões e sua associação ao trabalho construindo um discurso, mediado pelas Associações, cuja imagem associa-se ao mundo civil, a atuação política, que é o caso do fenômeno apresentado no primeiro capítulo. 100 5. NARRATIVAS DE MEDO, SOFRIMENTO E ESTIGMAS. Acompanhamos no primeiro capítulo o conjunto de situações que compuseram o contexto de influencias pelas quais os sujeitos decidiram ingressar na instituição policial. Ao ser socializado nesse universo militar, o policial insere-se em um sistema de regras estruturadas e hierarquizadas que constituem o campo militar e, de certo modo, permite caracterizá-lo, além de garantir sua reprodução. Contudo, apesar dessa estrutura, observamos que as relações sociais, com suas interações cotidianas entre oficiais e praças constituem, através da construção de uma rede de influencias e capitais, momentos importantes definidores de processos que atravessam a trajetória desses sujeitos. Neste quarto capítulo continuaremos a ressaltar o trânsito dessas relações na constituição do adoecimento e sofrimento no trabalho, mas, dessa vez, com uma ênfase maior no agravamento, na resultante dessas situações, e na (re)produção de acusações que geram as percepções do adoecimento na categoria, confabulando um estigma sob o policial doente. Por outro lado, para além das acusações internas, veremos como essa produção encontra, na sociedade de forma mais ampla, rejeições que amplificam a situação de estigmatizado não apenas do policial doente, mas da categoria como um todo. Observaremos também as metamorfoses subjetivas no entendimento dos agentes na instituição policial acerca da sua trajetória, após a experiência de determinadas situações vivenciadas no exercício da profissão, bem como a repercussão dessas situações na relação com os pares e com a instituição. Considerando, assim, os processos identitários de aproximação e recuo da relação nós/eu no entrelaçamento instituição e sujeito. Por fim, ainda tratando de decompor os aspectos dos sofrimentos advindos do exercício da profissão, buscaremos compreender as condições das vitimizações objetivas e subjetivas, ou seja, a influência das estatísticas, dos casos veiculados na construção do medo e do risco associado à profissão nos dias de hoje, segundo o relato dos entrevistados. 101 5.1. As condições de sofrimento no trabalho policial. “Vou ter que voltar a trabalhar, procurar um local que dê pra estudar com mais tranqüilidade, uma transferência, pra, aí sim, eu botar a vida em ordem; porque é difícil organizar a vida na policia, parece que a desorganização da policia vai pra sua vida pessoal, sabe?” (Entrevista Policial 9) A referida desorganização da polícia na ordem cotidiana pode não ser a mesma para todos os policiais ou pelo menos não de forma constante, mas é fato que os demais espaços da vida dos que se dedicam à instituição são definidos por ela. Dessa forma, o trabalho policial se torna uma das principais referências na constituição e na percepção dos sujeitos, fundamento que já exploramos anteriormente. Todavia, iremos retratar agora como esse trabalho pode ser fonte de sofrimento e/ou prazer dependendo das situações, dos locais de trabalho e das relações que se estabelecem entre os sujeitos. Em Mal estar na Civilização, Freud (2010) argumenta que atividade do homem é direcionada por dois princípios: a busca da ausência de sofrimento e desprazer, e da experiência intensa de prazer. O progresso e incorporação da civilização direcionada pelas pressões sociais constantes condicionam o homem à repressão do princípio do prazer. Este, por sua vez, está relacionado a satisfação de necessidades em alto grau pelo sujeito que, apenas episodicamente, é capaz de expressar-se devido às pressões contrárias da civilização. No que se refere aos conceitos aplicados à civilização do trabalho, Dejours (1994) acrescenta que o prazer estaria relacionado à descarga psíquica proporcionada pela execução da atividade, enquanto que o sofrimento se daria pela sensação desagradável da não satisfação dessas mesmas necessidades. Essas, por sua vez, encontram sua origem no inconsciente e são arrebatadas à consciência por meio das expectativas de vida, na forma de projetos. Ainda segundo Dèjours (1989), as condições de trabalho 81 tende a fazer do corpo o principal alvo das conseqüências do trabalho, enquanto que a organização do trabalho 81 Dèjours define condições de trabalho como: ―ambiente físico (temperatura, pressão, barulho, vibração, irradiação, altitute etc.); ambiente químico (produtos manipulados, vapores e gases tóxicos, poeiras, fumaças etc); ambiente biológico (vírus, bactérias, parasitas, fungos), as condições de higiene, de segurança e as características antropométricas do posto de trabalho. (Dejours, 1992, p.25) Enquanto que a 102 seria a responsável pelo sofrimento psíquico. Na polícia, a hierarquia militar rígida limita a autonomia dos agentes no controle das suas condições de trabalho e a permanência da situação torna, o que era um trabalho prazeroso para os policiais, algo extenuante devido ao excesso. Como é o caso do policial abaixo que explica o motivo de solicitação da sua Licença Para Tratamento de Saúde-LTS. Podemos perceber que o policial faz uma distinção entre seu estado antes de depois de ter sido transferido. O motivo foi estresse...eu não sei bem dizer, mas....eu sou um cara muito alegre, mas depois que você começa a morar naquela farda verde da polícia. Porque é morar. Você fica lá 3 dias direto. Trabalhando, trabalhando, trabalhando, porque não se engane, nem todo interior é calmo. Tem alguns interiores, pelo menos alguns que são piores que alguns bairros de fortaleza. É morte direto, é boca de fumo direto. É trabalho direto. Não que seja ruim. No primeiro dia você vai com gás, no segundo dia você fica mais triste. No terceiro dia você ta puto da vida, entendeu? Ai isso tudo, você tem que esperar o cara que vai lhe render chegar pra você começar a pensar na viagem de volta pra casa. Ai você fica, já perdeu metade do primeiro dia de folga. Então, em vez de você trabalhar 3, folgar 2, você trabalha 3 e meio praticamente, porque tem viagem de volta e folga um e meio, ai tem q voltar. Ai fica 2 dias, folga 3 ai vai aquela escala..os alojamentos são ruins. É complicado entendeu? Então com o tempo, você acaba, sabe... você n consegue mais dormir direito. Fica estressado, ai acontece alguma coisa de madrugada, algum assalta o banco vizinho a sua cidade e você tem que dar apoio. Ai você vai dormir, as vezes você se acostuma até a dormir com farda pra não ter que tirar, caso alguém lhe chame. Então você acaba ficando estressado. Porque a rotina é pesada depois que você fica muito tempo nela. Porque você fica direto naquele negócio. Ai você tenta permutar com alguém e não consegue. Ai você não consegue transferir e continua lá, acaba que você fica bem estressado, mas demais mesmo, você nem lembra mais como é que é você fora daquela farda. (Policial 2) No trecho o policial retrata objetivamente como funcionam as rotinas dos policiais que trabalham no interior do estado. Situação diversas vezes denunciada pelas Associações de Cabos e Soldados (ASPRAMECE). A falta de efetivo no interior do Estado sobrecarrega os policias alocados nessas companhias e os expõe a todo tipo de riscos decorrentes dessa falta de reforço necessária, como o policial do depoimento expôs. Além disso, como não há escala de trabalho fixa na polícia a demanda de serviço faz com que os policiais que trabalham nesses locais cumpram muito mais que as 44horas estabelecidas em acordo na greve de 2011, sem nenhuma remuneração a mais por isso. organização do trabalho é expressa, segundo o autor: na divisão do trabalho, o conteúdo da tarefa (à medida que ele dela deriva), o sistema hierárquico, as modalidades de comando, as relações de poder, as questões de responsabilidade (Déjours, 1992). 103 Subjetivamente é necessário notar como a supressão de outros espaços de convívio e sociabilidade, impossibilitados pela dedicação objetiva e subjetiva ao trabalho, expressa simbolicamente pela farda, configura uma fonte de sofrimento para o policial, considerável a tal ponto de o mesmo ver reprimido um plano de realização da sua identidade. Como se o sujeito assistisse a imagem que faz de si ser diluída na identidade profissional que exerce, de modo a não se reconhecer mais, ou seja, não encontrar mais uma coincidência, na memória, entre a representação de si e a situação em que se encontra no trabalho. Nas narrativas de alguns policiais, principalmente os mais novos, encontramos um entendimento de que a organização militarizada descarrega maior peso nos fatores relativos às situações de sofrimento do policial do que as condições de trabalho nas ruas da cidade. Nossos problemas psicológicos, devido ao estresse, não é bem o que a gente faz. É mais devido a organização interna da corporação. Internamente, eu posso dizer que a maioria dos policiais tem má vontade com você. Em vez de fazer de tudo p facilitar sua vida, transformar sua rotina de trabalho em algo melhor. É o oposto. Não sei por que é uma cultura da policia de ninguém se ajudar, entendeu? Quando você tem algum problema e normalmente algum companheiro sabe de patente maior ou igual sabe e não tenta ajudar. Às vezes acabam lhe atrapalhando. Então grande parte do estresse não é o serviço de rua. Pelo contrário, o serviço de rua tira o estresse. (Policial 5) Essa ―cultura organizacional‖ descrita pelo policial incrustada pelos interesses divergentes no espaço de luta no campo que divide não apenas oficiais e praças, como pares da mesma patente na busca dos melhores locais de trabalho, dos troféus explicitados no capítulo anterior, existem em vários círculos e circuitos causando distinções morais e objetivas. O ronda ele não era tão perseguido, né? Ai começaram, depois da greve. Porque foi o ronda que fez a greve, praticamente. Então depois da greve começou a ser mal visto. Tanto pelos oficiais quanto pelo governador. Ai começaram a questão de botar câmera nas viaturas pra saber o que você tava fazendo. Ai você tirava a boina eles lhe chamavam a atenção. Se você tava sem o nome, você recebia uma comunicação. Se você parasse 10 min no local. Já chegava uma mensagem dizendo que era pra você rondar. Você rondar 8hs por dia sem poder nem descer. Pra almoçar, os 4 tinha q almoçar em meia hora.o ronda começou a ficar insuportável depois da greve. Comunicado por tudo depois da greve. Ai o Ronda. Único que não ganhou gratificação. O raio ganhou gratificação, trabalha 6hs por dia. O choque ganha gratificação e trabalha menos que a gente. Entendeu? Começou a fazer isso. Ai começou a aumentar as LTS, até guarda já se matou por causa disso. (Policial 11) 104 Essa distinção no interior da própria policia gera uma sensação de descontentamento e insatisfação no trabalho, uma ausência de reconhecimento pelo trabalho realizado. Ademais, essa insatisfação é proveniente de valores que dizem respeito a busca de direitos na categoria, vista como uma afronta aos pilares e princípios militares. Dessa forma, vistas como injustas por motivos diversos, essas perseguições encarnam um ódio reprimido ao outro e um sofrimento investido individualmente em razão da manutenção hierárquica. (...) então assim, quando eu falava eu era queimado.. ―esse cara fala demais é problemático. Bota escala ruim pra ele‖. Era tipo um perseguido. Chegou um ponto de uma cara me perseguir tanto que eu tive vontade de varias vezes matar ele... mas é verdade.. porque era toda vez que eu chegava no quartel...(Policial 11) Ai fiquei até ano passado lá, quando chegou um capitão lá, quando eu voltei de LTS. Porque justamente esse Major tava na minha Cia. Era ele e o Sargento. Tinha só o sargento, ai quando esse Major entrou lá e começou a me prejudicar. Ai eu tive que botar uma LTS, porque, senão, eu era capaz de fazer alguma besteira, não comigo, mas com ele. (...) (Policial 13) Esses relatos lembram as condições de conflito do Massacre dos Gatos, descritos no livro de Robert Darnton (1988). Esta obra constitui uma série de ensaios sobre as representações culturais da história francesa no Século XVIII e deve ser lida considerando esse cenário histórico, mas pode também servir como uma analogia para observar o ápice descrito nessas relações conflituosas submetidas a um sistema hierárquico. O autor utiliza a descrição de um episódio narrado pelo operário Nicolas Contat, quando do seu estágio em uma gráfica em Paris, no início da década de 1730. No relato, ele descrevia as dificuldades enfrentadas pelos aprendizes no seu contexto de trabalho e vida: Dormiam num quarto sujo e gelado, levantavam-se antes do amanhecer, saíam para executar tarefas o dia inteiro, tentando furtar-se aos insultos dos oficiais (assalariados) e aos maus-tratos do patrão (mestre), e nada recebiam para comer, a não ser as sobras. Achavam a comida especialmente mortificante. Em vez de jantar à mesa do patrão, tinham de comer os restos de seu prato na cozinha. Pior ainda, o cozinheiro vendia, secretamente, as sobras, e dava aos rapazes comida de gato – velhos pedaços de carne podre que não conseguiam tragar e, então, passavam para os gatos, que os recusavam [...] Uma paixão pelos gatos parecia ter tomado conta das gráficas, pelo menos entre os patrões, ou burgueses, como os chamavam os operários. Um certo burgês tinha vinte e cinco gatos. Mandou pintar seus retratos e os alimentava com aves assadas. Por outro lado, os aprendizes tinham que aturar uma profusão de gatos de rua, e eles também proliferavam no distrito das gráficas, infernizando a vida dos 105 rapazes. Uivavam a noite toda, no telhado do sujo quarto de dormir dos aprendizes, impossibilitando uma noite tranqüila de sono [...] eles começavam o dia num estado de exaustão, enquanto o burguês dormia até tarde. (DARNTON, p. 103, 1988). Diante dessas condições precárias e do ódio alimentado pelo tratamento que recebiam os gatos, um dos aprendizes resolveu ludibriar seus patrões. Ele esgueirou-se até a janela mais próxima do quarto do casal e ―começou a uivar e miar, de maneira tão terrível que o burguês e sua mulher não pregaram o olho‖. Por noites a fio sem dormir, acreditando terem sido vítimas de alguma bruxaria, os patrões ordenaram que os aprendizes ―dessem fim‖ aos gatos enfeitiçados, com exceção de uma, a ―la grise‖, gata preferida da mulher do patrão. Satisfeitos com a ordem, os aprendizes iniciaram a matança dos gatos, sem poupar nenhum deles, inclusive ―la grise‖. Eles encenaram um julgamento improvisado com executores, guardas e confessores, e colocaram os gatos semi-mortos em forcas improvisadas. Tudo se deu em meio a delírios de alegria e desordem. Como chama atenção o próprio autor, a raiva direcionada aos gatos, continha todo o ódio endereçado aos seus patrões e às condições injustas de tratamento que recebiam os aprendizes em contraste com as condições de vida dos burgueses, assim como a ostentação que estes dedicavam aos seus gatos, enquanto os operários tinham uma sobrevida. Obviamente, essa descrição tenebrosa que, como já dissemos, deve ser lida à luz da lógica em que foi produzida, não é reproduzível como tal a nossa realidade, mas pode ser indicativa para pensar como um tipo de organização e condições de trabalho pode produzir e introjetar projeções de violência nos indivíduos presos às suas articulações82. Dejours (1994) explica que o sofrimento no trabalho também pode ser reconfigurado a partir de algumas alternativas criadas pelos sujeitos, no qual incluímos a Licença como uma dessas táticas, como uma alternativa de contraprestação imediata a cessação das causas do sofrimento, ou seja, uma busca a interromper o desprazer no ambiente de trabalho e, possivelmente, transformá-lo criativamente em fonte de prazer. 82 No caso policial, em que a hierarquia estabelece condições de privilegiados e desprivilegiados no campo, quem seriam os gatos, nessa relação? 106 Veremos agora a representação desse conjunto de momentos de prazer, desprazer e sofrimento no trabalho são percebidos pelos policiais na narrativa de construção acerca da sua trajetória na instituição policial. 5.2. Revendo uma trajetória. As percepções da própria trajetória são justificadas conforme as configurações da época, bem como as fases de uma vida dedicada a farda e, principalmente, o acaso de eventos traumáticos ou complicadores que podem ou não ter ocorrido em serviço, mas que tiveram repercussões dentro da corporação. Sobre isso iremos tratar aqui. Num tem aquelas pedras de calçamento? Eles davam umas faquinhas pra tirar as graminhas e eles davam umas pazinhas (pás) pra gente tirar aquelas gramas, ta entendendo?Aquelas coisas todas. Se você fosse entrar num restaurante, podia arrastar os pés não. Se arrastasse os pés e o fiscal visse ou o sargento que tem lá ele ―ei, rapaz, sexta, sábado e domingo‖. Já começou por ai. Ai já perdia o final de semana, se eu tinha uma namorada, ficava preocupado, já não ia sair com ela. (...) No meu tempo, três desistiram, mas eu agüentei, né, porque meu pai dizia ―vai, fica‖. Fizeram eu rolar, no tempo ele nem era major, na época era sargento, monitor da gente. Ele fez eu rolar de uma trava até outra assim (imitou o formato de um rolo) que eu peguei uma coceira no corpo por castigo. Onde já se viu isso? Então você já entra assim com agressão.. Então você já entra tipo assim, recalcado, revoltado, mas eu não tinha esse pensamento não. Eu não sai assim não, eu saí foi alegre porque me formei soldado, aquela coisa toda. .(Entrevistado com 28 anos de polícia) No momento da narrativa o policial realiza um julgamento de valor sobre o acontecido que não foi o mesmo entendimento do momento em que a ação ocorreu. Isso porque a memória, como lembra Halbwachs (1990), é uma construção selecionada a partir da demanda do tempo presente. Mas isso também remete a socialização violenta dos cursos de formação na polícia que tem por objetivo a incorporação do ethos militar, guerreiro. A mortificação do eu (GOFFMAN, 1974) incluída no ritual de passagem inseria o policial nas dimensões do mundo militar de obediência e ordem hierárquica. O começo da carreira também é lembrado com entusiasmo por outro policial entrevistado: Começo tudo é lindo e maravilhoso. Vibração. Daí até 10 anos, era doação de sangue, vestir mesmo a camisa. Achava bonito a função, a farda. (...) (Sobre o tempo que passou no Batalhão de Choque) Exige muito da pessoa. 107 Policiamento diferenciado. Muita gente não entendia o treinamento. A escala era 24 por 72, então quando a gente trabalhava 24, amanhecia o dia, a gente tinha o dia todinho de folga. No outro dia a gente ia pro quartel e passava a manhã treinando ou era corrida..algum tipo de treinamento que somasse pra que na rua a gente pudesse desenvolver melhor. Fora os cursos né, tinha que ir pra mata, dormir, ser acordado com bomba. Eu gostava, gostava mesmo. Mas ai chega um momento em que você...é como se a gente fosse uma laranja e a instituição tira o suco, depois de tirado o suco, sobra o que? Você só é mais um número. Então o quê que eu ganhei com tanta vibração? Doença. Eu tenho problema no joelho, eu tenho problema na bacia, porque os cursos eram muito puxados. Ai então o que acontece? Eles começam a deixar você de lado. Se você tinha uma equipe, fazia parte daquela equipe de uma hora pra outra você não pertencia mais aquela equipe. Você ficava no alojamento de molho, vamos dizer assim..ficava na geladeira ou era transferido. Porque assim, dentro do batalhão de choque, existem varias companhias e em cada uma é um patamar, por exemplo, se você for pro choque agora você fica na guarda, abrindo e fechando os portões. Eles não dão...num é porque vocês estão no choque que você vai entrar numa viatura e assumir. Ai com o tempo você fica a margem disso. (Entrevistado com 19 anos de polícia). O policial bem representou a metáfora que a doença carrega na instituição. A doença como uma fraqueza recaí sob a instituição militar cujos pilares simbólicos fazem referencia ao corpo altivo, viril, disciplinado e disciplinador. Na medida em que, por algum motivo o policial não se encaixa mais nesse padrão, ele é substituído ou transferido à atividades menores. Considerando que o policial ainda compartilha daqueles valores, uma vez que foi socializado para concordar com ele, isso passa a ser uma fonte de sofrimento. Como acompanhamos na fala a seguir: O tempo foi passando e eles não promoviam, você começava a se desgastar. Você começava a criar uma situação dentro da sua família. Você trazia toda uma carga pra dentro da família. Passava o período de promoção e não promoviam..ai as pessoas começavam a se desgastar, a se desgostar, as vezes ate no caso de entrar de licença.e geralmente isso levava o que? A um desligamento, se você tava num grupo desses, se você levava uma licença, com certeza você era transferido pra uma companhia dessas pequenas, que era uma forma de retaliação que eles faziam. (Entrevistado com 19 anos de polícia). Desenvolver algum tipo de ―fraqueza‖ seja ela física ou moral requeria uma punição: Ai foi onde eu fui ver os relatórios. Eu via que tinha gente que ficava no presídio militar só porque tinha alcoolismo. Alcoolismo é uma doença, ai o quê que os oficiais faziam? Não todos, né? Pegavam, ai pegavam um policial numa situação, recolhia e botava no presídio, quer dizer, do alcoolismo, desenvolviam outro tipo de doença. (Entrevistado com 19 anos de polícia). 108 Interessante analisar essa percepção que o policial coloca como uma prática da instituição para com seus policiais que sofriam de alcoolismo. O livro de Costa (2015) nos ajuda a pensar a relação entre as práticas de consumo, produção e circulação de álcool e os discursos e saberes relativos a esse público-alvo responsáveis pelo seu consumo. Apesar de a pesquisa ter como base o período de 1915 a 1935, a consciência da natureza histórica de formação desses discursos, considerando o período e as condições sociais da sua produção, nos ajuda a identificar elementos ainda existentes e reproduzíveis sobre essas práticas. Além disso, podemos perceber que essa atitude da instituição para com os casos de alcoolismo consistia numa reprodução de valores e discursos existentes na sociedade como um todo, da época. Segundo Costa (2015) o consumo excessivo de bebidas alcoólicas sempre esteve, historicamente, associado a problemas sociais, mas, é no desenvolvimento do espaço da cidade, mais especificamente, nas reformas urbanísticas do país (Final do séc. XIX e início do séc XX) que essa prática cultural tornou-se uma preocupação. Essa problemática é tida como tal na medida em que o consumo de álcool impede a efetivação dos preceitos do corpo útil, sóbrio e disponível para o trabalho. O consumo alcoólico na cidade tornou-se um objeto sujeito a discursividades de diversas áreas de saber, tais como a religião, a medicina, a economia, o direito, dentre outros. Apesar disso, essas formações, ainda em construção, nas primeiras décadas do século XX, não distinguiam precisamente embriaguez, alcoolismo e consumo de álcool. As campanhas antialcoólicas realizadas, nessa época, em Fortaleza tinham, dentre outras categorias profissionais, a dos policiais do Estado como público específico. Esse privilégio dado a certas categorias sociais como público-alvo condizia com a preocupação crescente a uma gestão, governo das populações, do corpo e da ordem social (COSTA, 2015). Em outras palavras, a polícia das práticas, das normalizações (FOUCAULT, 1997), teria que ter como exemplo e exercício as ações dos agentes responsáveis pela segurança pública 83. 83 Além disso, a distinção através das práticas de consumo eram realizadas com uma associação aos espaços, sujeitos e tipos de bebida. A tradicional cachaça, por exemplo, era tida como prejudicial a saúde e fonte de todos os males, uma vez que, estava associada ao consumo das camadas populares, ao passo que o consumo do vinho e da cerveja seguiam discursos de profilaxia e vitalidade, tendo em vista seu consumo ambíguo realizado pelas classes abastardas da sociedade. (COSTA, 2015). 109 Interessante notar também que, apesar das tentativas de construções discursivas formuladas por essas campanhas antialcoólicas, as práticas reais, costumeiras, enviesadas desses valores, encontravam no consumo de álcool a expressão de uma atividade extremamente associada à masculinidade, uma construção afirmativa que se configurava, portanto sobre outra lógica que não ao discurso médico ou moralprodutivo. Beber e freqüentar ambientes do espaço público criando ou desatando laços de sociabilidade, por sua vez, violentas ou não, fazia parte do cotidiano da cidade em si dos quais os policiais não consistiam seres apartados. Contudo, quando esse consumo torna-se excessivo, dependente, o policial com esse problema, assim como quando da utilização de outras drogas, sofria (e ainda sofre) duplamente com esse discurso, tanto na sociedade de uma forma geral, quanto no interior da instituição. Estamos falando do discurso moral que se estabelece devido a sua função, ou seja, como agente normalizador de práticas, cuja identidade social associa-se a repressão das ações de desordem e todos os tipos de desvios, o policial descobre-se, ele mesmo, uma pessoa sujeita a vícios e, portanto, próximo daquilo que ele considera o alvo de suas ações. Essa aparente contradição moral é experimentada pelos policiais com esses problemas. Um deles relata esse estranhamento em uma das suas fontes de tratamento, um dos CAPS de Fortaleza. Primeiro pro CAPS eu tinha receio, porque as vezes tem gente lá que é..teve um caso que teve um cara que eu prendi, tu acredita? Ele ia entrando quando ele me viu. Ai quando ele me viu ele ficou ali tal..e eu também ali e tal. Ai ele saiu e nunca mais apareceu que eu to com X anos no CAPS de lá. Tem canto ai que não atendia nem policial devido esses fatos assim, né. (Entrevistado com 28 anos de polícia). Os policiais relatam que a probabilidade de, quando forem procurar ajuda nesses espaços destinados a sociedade como um todo, encontrar sujeitos com os quais eles já tiveram alguma relação, seja em conflito direto ou na instauração de um potencial conflito, e assim, criar problemas de aceitação, constrangimentos e desconfianças de ambas as partes dificultando o acesso a esses locais de tratamento. Desse modo, o policial novamente é ambivalente ao produzir, reproduzir um discurso que associa o consumo de drogas a criminalidade. Então a trajetória dos policiais com problemas de alcoolismo e outras drogas dependeram muito da compreensão de alguns comandantes, ou ficaram subjugados as 110 suas condições. Como já indicamos nos capítulos dedicados à Licença, sua utilização passou a ser mais evidente somente com a atenção dos policiais aos seus direitos e garantias constitucionais. Conforme a fala de um dos policiais: Eu tenho uma filha, do primeiro casamento, que tem transtorno bipolar. Sabe o quê que é, né? Mudança de hábito. Ela deu a primeira com 13 anos. Quando começou, que eu chegava pra um oficial, pra pedir um tempo pra minha filha, porque ela passava de mês em mês sem dormir e eu também não dormia, e tinha que dormir pra trabalhar no outro dia, né? Isso eu já tava com uns 3 anos de policia quando ela começou a dar. Ai eu chegava prum oficial pra explicar, e ele dizia na minha cara: você é médico? Ela não tem mãe não? Então tinha que trabalhar. Naquele tempo não tinha tu tirar uma licença pra acompanhante não? Naquele tempo, licença era uma coisa muito difícil, ta entendendo? Tinha junta médica, né? Mas essa licença pra acompanhamento familiar, eles indagavam logo: tem ninguém não? Num tem irmã, não? Tem a mãe dela não? Então a gente ficava naquela, né? Porque tinha que trabalhar. (Entrevistado com 28 anos de polícia). Mas eu tive sorte também de oficial bom, porque meu caso, Tuany, foi o álcool. Porque que eu cheguei a beber o alcool? Porque eu não via solução, ninguém me dava solução. Talvez naquele tempo, se tivesse esse tratamento aqui, porque eu cheguei a beber mesmo impulsivamente, mas se um oficial ver um tratamento desse vai dizer ―isso é um bebarrão‖. Irmão meu mesmo, ia lá em casa e dizia ―Isso é um irresponsável‖. Eu precisava de alguém pra me ajudar. Foi só depois que eu conheci a Dra, porque oficial nenhum me encaminhou pra nada. Então não tinha isso ai, né? Uma assistente social que acompanhasse o policial. Eles diziam que os direitos da gente eram uma folha de papel em branco. (Entrevistado com 28 anos de polícia). No caso dos policiais que já chegaram ao limite no número de licenças há a opção da readaptação, porque, dependendo do tempo de serviço a aposentadoria não compensaria o tempo de vida dedicado a instituição, como podemos acompanhar na fala do policial: Conversando com a doutora eu disse ―doutora eu vou me aposentar mesmo.‖ Ela: pelo tempo de serviço que você trabalhou... [Tuany: ―Tu já tem quanto tempo?‖] 20 anos. Aí o que acontece? São 20 dias. Se o mês é 30, aí iam ser só 20 dias. Aí o salário ia... [Tuany: ―baixar‖] muito. No caso se fosse três mil, ia baixar pra dois mil, entendeu? Aí... não, eu vou procurar de alguma forma. Chego e volto pra trabalhar, tudo bem. (Entrevistado com 20 anos de polícia). Dessa forma, o caminho mais viável para esses policiais é a readaptação, através da condição de Serviços Leves. Segundo os próprios policiais, essa opção é recente na polícia: 111 E hoje em dia eu me sinto feliz pelo meu trabalho, O que eu faço lá no quartel, que eu trabalho hoje em dia nos Serviços Leves, na época que eu entrei, só era eu de serviços Leves, há 6 anos atrás. Hj em dia lá na minha companhia são 7. Eu acho que eu sou um dos primeiros em Serviços Leves. Antes não tinha essa opção. (Entrevistado com 28 anos de polícia). Antes dessa opção, a readaptação oficialmente não era reconhecida. No caso do nosso entrevistado acima, ele retornou ao serviço antigo e, junto com isso, sofreu recaídas com seu problemas com o álcool, até que descobriu essa opção e começou a trabalhar na atividade meio, ou seja, no serviço interno, através dessa possibilidade de utilização dos Serviços Leves. Contudo, essa readaptação se torna complexa quando entra em contradição com as aspirações subjetivas dos policiais e/ou, quando o cargo exercido não condiz com a efetivação de um Serviço Leve. Vejamos: Isso aí também me machuca muito. Eu entrei na policia pra ser policial, comecei a gostar, fiz cursos e mais cursos. De repente, quando eu me acidento, aí eu vou ser reaproveitado. Tudo bem, mas a minha fratura não permite certas coisas. Aí eles me taxam de enrolão, de macetoso. Eu tô tentando dizer uma coisa que eu tô sentindo, aí quando eu tenho que falar uma coisa que eu tô sentindo as pessoas dizem que eu sou enrolão. ―Joga esse negócio ali, Rodrigo‖. Comandante eu não posso, não. ―Que é isso, rapaz. Não pode porque?‖ Porque eu tô... ―Não, mas isso aqui não é pesado, não‖. Pois faça. Dá vontade de dizer isso: pois faça você! Entende? E outra coisa: faxina. Eu nunca fiz nem faxina lá em casa. Vou fazer faxina, lavar banheiro. Não o faxineiro tá aí. Uma besteirinha que dava pra todo mundo fazer... o faxineiro tá aí. Aí é como eu tô dizendo, eu não entrei pra polícia pra ser faxineiro. Tô sendo reaproveitado, mas eu não queria tá como faxineiro. Na verdade eu queria tá como um policial normal, só que dentro da minha delimitação não posso. Aí eles não entendem e fica um negócio chato. Eu tava até falando, vou voltar, se eu não aguentar a pressão...se eles não entenderem que dá pra eu ficar de LTS, me colocam pra reforma. Aí eu vou fazer outra coisa. (Entrevistado com 17 anos de polícia). Como podemos ver, o esforço de readaptação consiste somente em retirar o policial do serviço de rua e destiná-lo a um serviço na esfera administrativa, não levando em consideração suas aptidões, aspirações e necessidades. O policial se torna um problema a ser ―empurrado‖, um símbolo da própria marginalização às missões da corporação e a incompreensão do seu caso aumenta sua identificação como estigmatizado. Enquanto esse policial foi direcionado para um serviço que considera insignificante e não condizente com a imagem que faz de si, outras situações, 112 igualmente inadequadas, são relatadas, dessa vez pelo excesso de trabalho administrativo, como podemos observar: Mas a solução que a policia encontrou pra mim na época foi pra que eu trabalhasse interno novamente, só que eu tinha uma carga de responsabilidade muito grande. Eu trabalhava em escala e não tinha hora pro meu telefone tocar, era meia noite..enfim, porque antigamente tinha o turno C (de 22 as 6 da manha) e pra eles era normal estar ligando pra mim naquele horário ai eu tive uma carga de estresse muito grande e isso se refletiu na minha pele. Era tipo um pó que caía da minha pele, muito ressecada. Fiz um tratamento dermatológico, mas ai a gente queria descobrir a causa, porque tava tratando só a conseqüência. A dermatologista não tinha encontrado nada demais, fui no gastroenterologista deu um pouco de intolerância a lactose ai, enfim, quando fui no psiquiatra ele disse que era algo emocional e, realmente, quando eu me afastei, esses sintomas desapareceram. Assim, passei a ter convulsões, as convulsões continuaram, mas passei a tomar medicação, então ta controlado. Mas sempre que eu sinto uma tensão, uma crise de ansiedade eu sinto meu corpo mudar e eu não tenho hoje um emocional que tinha..sei lá, antes de entrar na polícia. (Entrevistado com 11 anos de polícia). Os policiais que tiveram experiências traumáticas dentro da instituição e, principalmente, por causa da instituição, relataram uma sensação de desgaste físico e emocional que atribui às condições, à organização e às relações sociais de conflito com os oficiais, assim como os pares com os quais conviveram na sua trajetória. Como se essa dedicação usurpasse seus sentimentos e extraísse suas defesas emocionais. E eu comparo a vida do policial hoje como uma mola, que ela sofre ali uma pressão e existem duas situações em que a mola ela combina essa pressão que ela sofre: ou ela perde a força e não serve mais pra nada é descartada é o que eu acho que acaba ocorrendo comigo. Hoje eu não tenho o emocional para ta lhe dando com o serviço de polícia. (Entrevistado com 11 anos de polícia). A comparação que eu faço da mola é justamente por isso. É uma pressão que a gente sofre, mas a partir do momento que essa pressão ela é liberada ela sofre uma propulsão em que as vezes é descontrolada. Ela pode atingir um olho, ela...enfim ela vai pra qualquer direção, mas também ela pode perder essa força, de tão pressionada que ela está. (Entrevistado com 11 anos de polícia). 113 5.3. Acusação, percepção, estigma e identidade profissional. Conforme explicamos durante este trabalho, os casos de doença sempre existiram na polícia (ela poderia não ser acompanhada em todo caso sob o conceito de doença e receber tratamento enquanto tal, como é o caso do alcoolismo, dentre tantos outros que porventura não alcançamos nesta pesquisa), mas o fato é que, apesar de se encontrarem casos referentes ao adoecimento, apenas recentemente esses eventos ganharam visibilidade, na medida em que esses agentes passaram a ver a si mesmo, enquanto categoria, como sujeitos de direitos. A esse respeito encontramos ainda uma série de ambigüidades dentro da própria categoria sobre o policial doente, que é discriminado como ―maceteiro‖, ―enrolão‖ ou mesmo é associado a um grupo específico dentro da polícia, como é o caso do Ronda e dos policiais Modernos, os chamados ―veste farda‖. Mas essa distinção--criada, possivelmente, para diferenciar ou segregar internamente perante a busca de uma ―não contaminação‖ e um recrudescimento dos valores de resistência e fidelidade da corporação-- não encontra barreiras quando se referem à representação política da categoria como um todo. Quando, por exemplo, a associação denuncia e reclama melhores condições de trabalho em função do número de licenças. Dessa forma, acreditamos que a doença estabeleça uma relação nós/eles (no que diz respeito a sociedade civil e o campo militar) que supera, até certo ponto, as desagregações internas vivenciadas mesmo entre os praças em função de disputas internas. Trabalharemos com o conceito de estigma desenvolvido por Goffman (1991) em duas dimensões. A que se aplica ao indivíduo doente ou em condição de sofrimento dentro da polícia, e à categoria policial como um todo, através da percepção que os policiais elaboram a respeito dos comportamentos entre sua identidade social e a sociedade civil. Consideramos, contudo, problemática a generalização da relação entre estigma e identidade profissional, tendo em vista a fonte específica das entrevistas, ou seja, os policiais já estigmatizados dentro do campo estudado. Assim não sabemos ao certo se toda a categoria sente que carrega um estigma nas relações com a sociedade civil, mas podemos perceber que os estigmatizados desse campo se referem às acusações formuladas à categoria como um todo, quando explicam sua condição de sofrimento. 114 Em relação à sociedade civil, esta, por sua vez, de maneira geral, somente há alguns anos, após a exposição das condições do trabalho policial na imprensa, assiste à exposição dos policiais como sujeitos passíveis à violência física e simbólica que vivenciavam cotidianamente. Isso porque, até então, o imaginário construído sob a categoria os classificava entre assassinos ou heróis, de forma que as pessoas ou membros desse grupo devessem corresponder em atributos mais ou menos compatíveis com essa imagem. Assim, por exemplo, quando um policial diz que não consegue mais ver casos de homicídios, acidentes que envolvem vítimas fatais, sem ter com isso uma crise de nervos, ele se torna um desacreditável (GOFFMAN, 1991) perante a sociedade civil, uma vez que ele não tem os atributos que se imagina de um policial-padrão84. Cheguei no local, ele foi embora, ai a perícia chegou. Ai o cara tava morto lá, aquele pano coberto, ai quando tiraram o pano, eu comecei a passar mal denovo, porque? Tinha um buraco deste tamanho nas costas dele, um tiro de 12. A cabeça dele foi esmagada, com os tiros que ele levou de 12, afundou assim o crânio, só por causa dos tiros, afundou. Ai eu vi aquela cena, comecei a passar mal já. Começou o coração acelerar, a vista ficar turva denovo, embaçada, minhas pernas tremendo quase sem força. Quando virou o corpo, o olho dele caiu assim. Ai pronto, eu não agüentei mais, sai de perto. Ai o subtenente foi e falou ―o que foi? O que foi?‖. E eu ―eu to passando mal aqui‖. Ai me levaram no hostpital eu comecei a chorar. (Policial 8) Eu sei que eu fui empurrando com a barriga, e todas essas ocorrências que tinha morte, essas coisas, eu passava mal. (...) Resumindo, hoje eu não posso ver morto, se eu ver um morto aqui eu..teve uma época que era pior..se minha esposa dissesse ―a fulano morreu‖ só em ouvir a palavra ―morreu‖ eu já passava mal, mas ai graças a Deus isso ai já melhorou, se falar em morto, em morreu, tudo bem, mas se eu chegar a ver um morto eu passo mal. (Policial 8) Dessa forma, sua condição de desacreditável é percebida duplamente: primeiro entre os próprios policiais que os coloca na condição de ―maceteiro‖, de fraco, além de o excluir de seus círculos de sociabilidade comuns aos policiais, dentre outras situações, e; entre a sociedade quando percebe que sua imagem, associada a categoria, não corresponde aos predicativos atribuídos. Assim, a fraqueza e a fragilidade atribuída à doença é um estigma dentro do campo de significações policiais e elemento de acusações entre pares. 84 Segundo Goffman (1991), acontece o estigma quando todos os lados entendem, tanto os estigmatizados quanto os normais, que os que se encontram em determinada categoria não deveriam apenas apoiar uma norma, mas também cumpri-la. Assim, o sofrimento decorre, também, porque os estigmatizados tendem a compartilhar das mesmas crenças que os normais a respeito da sua identidade social. Dessa forma, por incorporar os mesmos padrões, os sujeitos acabam concordando que, no quesito de sua categoria, eles deixaram a desejar. No caso estudado, esses indivíduos acabam enquadrando-se numa categoria de achar que são ―menos policiais‖ do que os outros. 115 Ai eu falei lá pra Dra, a juíza, que não adiantava eu atirar. Ai ela ―não, não era pra você atirar mesmo não. Se você atira pra baixo e uma bala daquelas pega em alguém? O quê que você ia alegar? Ele não tava fugindo não, era uma briga que tava acontecendo‖. Ai foi quando me aliviou mais né? Porque a pressão dos outros ―ai é frouxo, não sei o quê‖. Porque os outros falam também e se a gente for acumular, a gente briga. Eles vem dizer que o cara ta com macete. ―É cara vai enrolando ai, usa esse macete até..‖porque uma doença que a gente trás pra outros, pra companheiros amigos da gente é o velho macete. Pra uns pode ser até uma fuga, mas pra mim não, eu tive mesmo. Tinha horas que eu pegava a vassoura e ia..pegava a enxada e ia capinar e era quando eu voltava a viver denovo. (Policial 12) Eu fiquei com tão com medo assim dessa questão da farda que, com essas pessoas, eu não me misturo mais não. Quando era eu e Fulano a gente não se misturava, terminava o serviço, a gente saía, não ficava ouvindo fofoca. (Policial 12). A repercussão na tropa do caso problemático em que o entrevistado estava presente, com a acusação de ―frouxo‖, foi, para o policial, uma questão tão perturbadora que, somente quando ele ouviu uma opinião favorável a sua, ele encontrou uma alivio a acusação moral que sofreu dos seus semelhantes. A repercussão desse caso, assim como o de outros na sua carreira na polícia, resultou nesse afastamento e repulsão ao relacionamento entre ele e os outros policiais. O estigma corresponde a um tipo especial de relação entre o atributo esperado, o estereótipo, e a imagem social real (GOFFMAN, 1991). Ainda segundo o autor, o estigma pode tornar os sujeitos desacreditados ou desacreditáveis dependendo das características desse estigma, se ele é visível ou não visível. O policial doente pode se encontrar na categoria de desacreditado e/ou desacreditável nas relações sociais. A condição de desacreditável acontece dentro da própria categoria, quando o policial carrega um estigma não visível que só pode ser revelado por ele ou por terceiros nas interações sociais, como é o caso, por exemplo, de um histórico com o alcoolismo ou problemas psicológicos. Ele também pode ser incluído na condição de desacreditado na medida em que consideramos a percepção que esses sujeitos elaboram, durante suas carreiras, a partir das experiências com os outros, ou seja, com a sociedade civil que pode discriminá-lo por sua identidade social objetivada na farda. Para percebermos como isso funciona, podemos analisar as falas: Então quando eu vim pra cá era o mesmo serviço, só que lá era outro ambiente, o pessoal respeitava mais. Gostava mais de polícia. Aqui não. Lá o pessoal tinha um respeito, tinha um carinho ―Bom dia seu policial.‖ Lá.no interior. Era respeitado, querido. Quando vc chegava é como se chegasse alguém da fam;ilia. Aqui não, aqui as pessoas olhavam pra ti, já faziam uma cara feia. 116 Aqui tinha uma diferença, uma antipatia gratuita, sem a pessoa nunca ter lhe visto. (Policial 3) Porque às vezes a gente se sentia mal, ainda me sinto, né? Porque às vezes você entra pela frente no ônibus com a carteira da polícia, tem pessoas que te olham com um olhar..assim, mas tem outras que te rejeitam. Tanto que eu tive a experiência de entrar no ônibus, tu senta numa cadeira, ai onde tu tem tem um lugar. Nos outros vai ter outros lugar vago, mas todo mundo vai preencher aquele lugar vago, o ultimo que vai preencher vai ser o do policial que ta lá? Tu acredita? Eles tem receio de sentar perto da gente. Vão preencher todas as vagas, a tua vai ser a ultima. Ai eu te pergunto: você não se sente assim rejeitado? É horrível você se sentir rejeitado. (Policial 10). Na primeira fala o policial faz uma comparação sobre como ―ser policial‖ em algumas cidades, pode resultar em experiências diferentes. Ele faz uma comparação entre Fortaleza e uma cidade do interior que já trabalhou. Observamos que o policial percebe uma recepção diferente com relação a sua identidade social, de forma que o estigma é situado em espaços sociais, ou seja, ele é envolto em construções sociais. Assim, por exemplo, ser policial no interior não significa carregar um estigma com a farda, do contrário, a mesma se mostra como um símbolo de prestígio, de ―bem-quisto‖ entre a sociedade. O que não pode ser dito com relação a capital, conforme observamos no depoimento do segundo policial. No contexto de estigmatização, o desacreditado e o desacreditável podem buscar estratégias de acobertamento ou encobrimento da sua identidade social e pessoal, a fim de manipular informações e reduzir tensões na interação com os outros. Ta com 6 anos que eu não ando fardado, a farda fica no quartel. Ai eu vou a paisano, pego meu ônibus desse jeito quando vou pro quartel, a farda ta lá e tudo. Vesti a farda segunda-feira retrasada pra ir pra uma missa e de lá ir trabalhar, mas quando eu vesti, que eu saí no bairro, o pessoal...Sabe aquele pessoal que faz muito tempo que não te vê de farda ai tem aquelas perguntas, civil, ―tu ainda ta na policia?‖ Essas coisas ai, né? Hoje em dia mesmo que eu voltei a morar aqui denovo, né? O pessoal chega pra mim e pergunta ―tu ainda ta na policia?‖. Ai eu digo ―To, por quê?‖. Às vezes dá vontade de eu pegar a carteira e dizer assim ―ta aqui macho eu to‖. Mas eu fiz uma vez isso ai a pessoa disse ―rapaz, qualquer um tem essa carteira‖ai eu disse ―Qualquer um pode ter essa carteira é? Porque vc diz isso?‖. Já não é visto mais a gente como uma pessoa assim, séria, né? Às vezes, quando o policial mata alguém essas coisas todas, ai todos nós somos julgados (Policial 10). A inserção na condição de Serviços Leves com o afastamento do serviço de rua trouxe para o policial a possibilidade de acobertamento parcial de sua identidade social, contudo, no dia em que é necessária a utilização da farda, no contato com os civis, o 117 mesmo percebe uma ―invasão de privacidade‖ incorrendo na manipulação da sua identidade pelos outros (GOFFMAN, 1991). Assim, a percepção que o policial tem da sua profissão hoje, o que ele sente, é uma espécie de acusação moral gratuita, simplesmente pelo fato de ser policial. Todos se sentem a vontade para acusar ou desqualificar qualquer membro da categoria, esquecendo sua condição humana. Esse é o grande prejuízo do estigma. Segundo Goffman (1991) costumamos acreditar que uma pessoa com um estigma não seja completamente um humano, a ponto de o isolarmos, evitarmos uma interação, uma aproximação, ou mesmo fazer dele um alvo de uma antipatia relativa a uma categoria como um todo. 5.4. Vitimização objetiva e subjetiva. Fonte: jornal Opovo. Charge Clayton 29/05/2014. O policial que tem por função, no estado democrático de direito, promover a proteção ao cidadão, obviamente, não está isento da probabilidade igualmente de ser vítima de violência física. Essas situações, quando acontecem com um policial, tende a terminar em tragédia para um dos lados envolvidos. Minayo (2008), em pesquisa realizada a respeito dos riscos, agravos à saúde e mortes nas categorias de trabalhadores relacionados à segurança pública, destaca que 118 esses profissionais estão submetidos a taxas de mortalidade e morbidade muito mais elevadas que a população em geral. Além do mais, as agressões e boa parte desses agravos acontecem fora da jornada de trabalho, portanto, o risco não se restringe ao ambiente de trabalho, e, sua identidade parece sobrepor às demais do trabalhador enquanto sujeito, já que nos horários de folga ele não deixa de ser policial podendo atuar ou sofrer consequências por isso. Dessa forma, vamos acompanhar alguns casos de vitimização objetiva e subjetiva pelos quais alguns policiais entrevistados presenciaram e compreender as repercussões desses casos na construção de um imaginário ou um sentimento coletivamente estruturado e vivenciado pela categoria (BAIERL, 2004). Segundo Barreira (2008) As pesquisas de vitimização surgiram, no Brasil, como um complemento às tradicionais pesquisas oficiais. O objetivo era realizar levantamentos relacionando variáveis geralmente ignoradas por essas pesquisas. Buscava-se compreender ―os efeitos da violência e da criminalidade na produção de sentimentos de insegurança e medo social‖ (Barreira, p. 20, 2008). Nesse sentido, a violência percebida divide-se em duas dimensões: a objetiva e a subjetiva. A primeira refere-se aos relatos já ocorridos, enquanto a segunda, as expectativas, a probabilidade que os sujeitos alimentam de virem a sofrer algum tipo de crime. No caso dos policiais, é interessante, na busca de uma tentativa de compreensão do trabalho da categoria, observar por meio das suas próprias narrativas e experiências à dimensão que o risco apresenta na profissão, assim como o sofrimento associado a essa possibilidade. Teve outra situação que eu acho que foi um dos agravantes para o meu problema...em que eu passei a ter síndrome do pânico. Foi em 2010, eu já estava trabalhando interno. Eu tava à paisana, normal. Fui pela manhã trabalhar...e eu fui abordado por dois assaltantes que queriam levar minha moto. Ai um deles entrou na frente da moto, mandando parar, aliás ele, os dois, na hora... Eles tavam armados? Sim. Ai...no momento, a moto estancou e eu tentei argumentar com eles: ‗porque que eles queriam uma moto tão velha, né?‘ Ai ele: ―cala boca! Desce da moto!‖. Aí o armado foi pra trás da moto e eu perdi a visão dele, e o outro ficou à frente segurando o guidon da moto dizendo pra eu descer. Tinha um pequeno adesivo na moto que me identificava como polícia. Quando ele viu o adesivo ele falou ―Queima que é cana! Queima que ele é cana!‖ (silencio) (emocionado continua..) É porque foi muito tenso...o cara que tava atrás chegou a disparar a arma. Por sorte, por Deus, a arma veio a dar a bater 119 catolé..e eu me virei, a minha reação foi atirar. Eu andava armado na época e eu me virei atirando efetuei dois disparos. Ai o cara correu, disparando e...soltou a arma, com os dois disparos ele soltou a arma. Só que...ele soltou a arma e embrenhou nuns matos que tinha perto de um riacho..ai eu resolvi não atirar mais, porque do outro lado tinha uns apartamentos, enfim. Na hora passou um carro ai eu imaginei que fosse comparsas, enfim. Passou mil coisas pela minha cabeça, mas...foi rápido, mas ao mesmo tempo, parece uma eternidade. Entao eu recolhi a arma... O que fez eles desistirem? Só existiam 2 munições no revolver. Uma foi deflagrada, não sei em que momento. Eu não lembro de ter visto (ouvido?) o estampido, a adrenalina foi lá pra cima e a outra tava picotada, ou seja, não funcionou de jeito nenhum. Eu acho que foi isso que fez eu me salvar, porque se eles tivessem com a arma em condição de uso, eles teriam ceifado a minha vida a queima-roupa de costas e ainda teria levado a minha arma. Né? E a moto. Enfim, peguei a arma, subi novamente na moto e (...) Depois que a ficha caiu da situação...e eu fiquei com muito medo de..enfim de ser polícia, né? Ai a gente foi p delegacia eu entreguei a arma que tinha sido apreendida e o que aconteceu que...eu tirei meu expediente normal como se fosse um dia comum. Depois que eu voltei da delegacia, né? Ai..acompanhando casos e casos que o bandido parte, pra matar o policial, né? Eu fiquei com medo de sair de casa, enfim. Eu tava evitando, por exemplo, dirigir, mas eu..eu preferia pagar até passagem do que subir na frente (do ônibus) e me identificar como polícia, enfim. Chegou a uma situação que eu não queria sair de casa mesmo. (Policial 6) Um percurso qualquer foi interrompido abruptamente por um eventual assalto. Acaso do qual todos os que preenchem ruas, cidades e campos estão sujeitos, mas no caso relatado, uma informação em específica desencadeou, segundo a narrativa do policial, um agravamento da situação que poderia ter resultado em morte. A identificação com a polícia, representada pelo adesivo, que antes parecia ser um atributo voluntário, consentido e desejado, passou a ser objeto de um trauma e, posteriormente, de uma relação de negação. Negar a identidade, omitir um processo de identificação em função da expectativa de vir a ser uma vitima em potencial, preocupa muitos policiais que diariamente enfrentam ―o serviço de rua‖. Creditados a função de proteger, os policiais sentem-se desprotegidos pelo estado e pela corporação, onde toda e qualquer atitude pode retornar para si mesmo como uma acusação formal ou moral. (...)pra completar vem um rapaz me assaltar no meu bairro, fui reagi e dei um tiro nele. Um tiro na perna. Ele deu dois em mim, só que graças a Deus não pegou. (...) Eu chamei a ambulância, chamei a polícia e fiz todo o procedimento. Fui na delegacia e tal... ai entra a historia que me deixou muito depressivo e revoltado...um dos caras que eu prendi, eram dois, um saiu correndo, esse que caiu e tal, eu consegui tomar a arma dele. Ele tinha um patota lá e ficaram me ameaçando, tinha traficante e tudo..aí eu fui... a noite eles passavam ( 8, 9, 10 horas) e gritavam‖ vai morrer gente nessa rua‖ ( em 120 frente a minha casa) ― ta pensando que porque é polícia não morre?‖ . Só que eu não escutava. Os meus vizinhos que diziam: ― olha, passou um pessoal aqui de moto ameaçando‖. E aí eu levei ao conhecimento dos meus comandantes lá. Ai ele me disse que me daria cadeia. Eu perguntei o porque. Ele disse que eu estava afrontando um comandante. Eu tava explicando... eu vou me sentir bem trabalhando na beira-mar, ou na aldeota, que eu trabalhava nessa área de 2009 pra cá, e a minha família lá abandonada? E eu ficava todo tempo no telefone ―Como é que ta aí?‖, ― passou alguém?‖. Ele disse ― Não. Se mude de lá‖ Como é que eu vou me mudar? Eu vou morar aonde? Aí eu entendi que a policia virou as costas pra mim. Eu sendo uma agente dela, trabalhando direito, tendo a minha conduta bem legal, no dia que eu preciso, que eu reajo, que eu preciso da policia, ela vira as costas pra mim, ta entendendo? Aí me mandaram me mudar. Falei com o major do Raio, falei com o Coronel, falei com uma pessoa lá do meu bairro, que é da companhia, e ficaram de mandar umas pessoas lá. Mas nunca foram. Aí eu comecei a me revoltar, me revoltar... sonhava com isso... você não dormir pensando que esses caras podem entrar na minha casa e pegar meus filhos? E de repente, eu me acordava assustado pensando que tinha gente dentro de casa. Tinha pesadelo. Comecei a entrar em depressão e revolta... fui morar de aluguel...tendo a minha casa, as minhas coisas, porque a mulher perturbou de certa forma ― se você não for eu vou só‖. Mas aí vão me taxar de medroso, que saí por causa de vagabundo. Não o que tava preso, mas os que estavam soltos que era amigo dele. Eu sei que passou esse tempo. Eu vim ser acompanhado pela doutora. E ai eu to melhorando. Retorno pra trabalhar. Tava com um mês só, eu me acidento de moto. Ai começou o meu problema de novo. Acidentado de moto. Voltei a morar lá de novo porque era 400 reais o aluguel, e tinha luz e energia e eu pagando uma coisa que eu já tinha. (Policial 3). O policial espera um aparato especial em função da profissão e, enquanto cidadão que precisa da própria categoria, vê-se muitas vezes frustrado nessas condições. Além disso, torna-se um alvo das repercussões de suas ações, alvo de ameaças e encontra-se sozinho na possibilidade de ser vitimado a qualquer momento. No caso do policial citado, na busca de um apoio, recebe uma advertência e precisa mudar todo seu cotidiano em função das ameaças sofridas. Segundo Baierl (2004), o medo é um sinal de alerta, um aviso biológico à situação de perigo, mas a reação a essa sensação, ou seja, os comportamentos, eles não são naturais, mas condicionados socialmente, frutos de um processo de aprendizagem sociocultural. Assim, o policial quando se encontra em situações de conflito direto, se ele assume sua identificação social de policial, está sempre predisposto a reagir, pois do contrário acredita que será o alvo. Nesses casos, ele está sempre submetido aos julgamentos de toda natureza, independente da sua atuação, por opiniões diferentes jurídicas e moralmente, da sociedade, dos colegas de profissão, da família. Além disso, aquela situação não se limita ao momento do conflito, mas ela se propaga em todas as 121 instancias. Os julgamentos que se seguem, fazem retornar a ansiedade sentida, rememorar a tensão da ocorrência e as conseqüências da ação. Por exemplo, tá marcado uma reunião... a tua audiência tá marcada pra 10 de agosto. Eu já começo a sentir: 10 de agosto eu tenho que ir, 10 de agosto eu tenho que fazer essa reunião, o que eu vou dizer lá? E se eles questionarem? E se eles colocarem palavras na minha boca? tá entendendo? Se o entendimento for errado? Então tudo isso me dá uma ansiedade. Maltrata demais. (Policial 3) Esse ano já fui duas vezes pro juiz, porque ele ainda tá sendo julgado, aí tem instrução, audiência de instrução, juntada das testemunhas que viram. Porque eu não sei se o advogado de defesa colocou dúvidas se o cara tinha vindo me assaltar... porque que eu dei um tiro nele. Isso aí me revoltou mais ainda, sabe? O juiz veio e me perguntou: ―me diga uma coisa, você conhecia ele de algum lugar?‖. Nunca vi esse rapaz. ―porque você atirou nele?‖. Porque ele queria me assaltar. Como é que o senhor queria que eu reagisse? Os tiros pegaram na parede... aí já foi o advogado de defesa... ―você viu quantos tiros pegaram na parede?‖ Não contei não, só ouvi os estampidos... cavar o tiro na parede.. eu não vi não. . As perguntas foram questionando como se eu tivesse errado. Então isso aí me abalou muito também. Como é que pode? Então eu só fiz reagir. Se fosse maldade eu tinha matado ele. Ele mesmo sabe. Tinha dado um tiro na testa dele. Mas não, eu dei um tiro na perna dele e ele deu dois em mim. [Tuany: ―mas ele foi preso, né?‖] foi preso, mas tá... última vez que eu vi ele tá normal... branco... bem direitinho. Andando normal, inclusive ficou olhando pra mim. E eu não disse nada, não. Isso lá no fórum. (..) Como eu tenho uma amiga advogada, eu tive que contratar ela, de certa forma. Ela foi e disse ―não, não vai dar em nada pra ele. Ele já tá trabalhando, foi relaxada a prisão dele e tudo.‖ Eu disse não, por mim eu não tinha ido nem mais atrás de nada. Porque dá uma...te digo, uma ansiedade. (Policial 3) Ai me deixaram a noite com uma composição que eu só conhecia um, o outro não conhecia foi quando aconteceu outro problema na minha composição que meu patrulheiro atirou num cara, na cabeça dele, saiu até massa cefálica. Ai como eu te disse, eu tava numa recuperação, de repente, aquilo me caiu. Ai o cara morreu né, ai o outro disse ―liga ai pro CIOPS e diga logo tudo‖. Só que nessa hora a gente cai tanto que, o pessoal fica dizendo ―rapaz, era pra ter feito isso, era pra ter feito aquilo‖. Ai pronto. Vem aquela culpa, como se eu fosse o culpado de tudo e levei aquilo por muito tempo. . Parece que ele era um operacional muito bom, só que não tinha motivo pra ele ter descido da viatura e feito aquilo. Porque ele já tinha abordado os caras, os caras já tavam indo embora, um negócio que veio pra dizer assim que num dava pra mim não. Mas eu sofri, depois foi que eu vim superando, quando eu ia pras audiências eu ficava perturbado mesmo, pedia a Deus que eu morresse logo pra acabar logo tudo. (Policial 13). Conforme as vivencias citadas acima, fica evidente que, em relação as situações de confronto que o policial enfrenta, se o mesmo consegue manter sua integridade física numa situação de troca de tiros, por exemplo, não se pode dizer que a mesma condição estará assegurada com seu aparato psíquico e moral, já que sentimentos de culpa podem surgir do caso. Trata-se de uma situação de vitimização e condição de dor no trabalho policial. Essa dor inevitável pode permanecer gerando um sofrimento em torno da 122 situação, em razão, não apenas do agravamento do caso pisíquico, mas das medidas organizacionais desencadeadas após tais situações. Isso porque, as punições e as providencias judiciais que decorre após alguns casos causam uma segunda punição, é como se cada ação administrativa em torno do caso fizesse o policial reviver a situação, a aflição e a ansiedade sofrida no momento do ocorrido. É comum existir também esses boatos em torno da ameaça de quadrilhas de bandidos que vitimizam especialmente policiais. (...) Ai foi também o tempo de uns caras que tavam perseguindo lá por onde eu morava, um tal de Mel e Kel uma quadrilha que tinha que matava policial. Ai um colega meu de frente conversando comigo disse que ―rapaz fica com teu revolver ai, porque qualquer coisinha, porque tu anda desarmado‖ai tinha hora que vinha aquele pensamento ―se suicida agora, se suicida‖. Só que eu botava as balas prum lado, a arma pro outro ai quando vinha essas pensamentos eu corria pra mulher lá em casa e dizia pega essa arma e bota pra lá. (Policial 13) De fato ser policial é assumir um risco, mas esses não decorrem somente da jornada que se inicia depois do quartel, mas também na leitura do policial sobre as potencialidades existentes numa dada realidade de trabalho. E é uma cidade de 30mil, 25mil/hab tem uma droga de viatura com 2, 3 policiais ai você fica nessa, ―pow, se acontecer alguma coisa mais grave a gente não vai dar conta, entendeu? Como já aconteceu várias vezes, uma vez eu tava dormindo, o alojamento era muito ruim, eu dormia vizinho ao rádio e estavam roubando Palmácia. Tinha q ir lá dá um apoio, porque Palmácia são 3 homens pra uma cidade enorme e todo mundo roubava aquele banco e tem que ir lá pra ajudar o companheiro e acaba tendo que ir lá e não dorme direito. E a gente fica pensando, ―se for a gente como é que vai ser?‖. Qualquer um chega aqui com uma metralhadora, metralha a gente. Então basicamente você fica um pouco tenso, sabe? De certo modo, você acaba que com o tempo aquele serviço que era bom, gostoso e você tirava tranqüilo, você acaba ficando paranóico ―pow macho, eu to numa cidade de difícil acesso, se alguém for fazer alguma coisa não precisa de muita gente. É só pegar a gente de noite, ai como é que vai ser? O apoio não vai chegar tão rápido, porque vem de outra cidade ai você acaba dormindo mal, enfim‖. É uma serie de coisas que, conforme o tempo for passando você acaba se estressando. (Policial 12). Essa ansiedade experimentada pelo policial individualmente é vivenciada coletivamente pela categoria. Ela é um produto das condições em que o fazer policial se 123 traduz atualmente e subjuga qualquer que ocupe lugar semelhante, principalmente, na condição de desprestigiado no campo. No caso do policial entrevistado, a busca de uma alívio para seu sofrimento foi a transferência, como não foi possível, ele fez a solicitação de uma Licença para Tratamento de Saúde. O suicídio também é recorrente na fala dos policiais estando atrelado aos casos de sofrimento no trabalho e assédio moral, principalmente. Trata-se de exemplos usados para explicar o limite, ou melhor, a falta de limite, em relação ao autoritarismo legitimado na hierarquia que sujeita a organização do trabalho na instituição e as perseguições. O caso mais recorrente foi o do policial que se suicidou, após a repreensão de um oficial. No trecho que segue, podemos observar, além das informações do caso, as palavras de acusação de um blog policial que explica o caso: Perseguição! esse foi o motivo que levou o jovem policial militar Helias Silva Lima Junior, 28 anos, do Programa Ronda do Quarteirão a cometer suicídio ontem de noite. Esse é o reflexo de uma fase negra na história da polícia militar que já tinha levado dois militares esse ano, e agora vitimizou outro. Já faz muito tempo que o Comando da Polícia Militar esqueceu-se de perseguir bandidos e está totalmente dedicado a perseguir seus próprios comandados, até a morte como estamos vendo. Esse caso não foi diferente. O jovem policial, cujos testemunhos dizem que era pacato e retraído, foi chamado à atenção por estar sem a boina durante o trabalho. Ele teria um problema sério de caspa e explicou ao (seu superior) (omitido) que estava de serviço no dia. Porém, como é próprio desse oficial, chamou o policial e o ameaçou de todas as formas, e disse ainda que o iria perseguir por onde estivesse. A vítima recebeu dias após um Termo Acusatório e fez sua defesa (ele tinha um atestado médico comprovando seu problema), porém seu superior (...), que já teria sido orientado,(...) disse que seu caso já estava julgado. Isso queria dizer que por mais que o soldado estivesse certo e sua defesa perfeita ele iria ser punido. Desesperado o policial começou a ficar cada dia mais ansioso. Eram cinco dias de permanência disciplinar (prisão) por conta de uma cobertura. Segundo fontes que estavam no IJF (instituto dr. josé frota) o policial estaria na casa de um amigo e reclamava muito, em desespero, por conta de sua punição injusta. Tentou se enforcar, mas não conseguiu. Foi então que ele disparou contra sua própria cabeça. O militar perdeu massa encefálica e iria precisar passar por uma cirurgia. Porém, não resistiu. (fonte: http://blogdocavaleirotemplario.blogspot.com.br/2013/05/policial-militar-sesuicida-por-conta.html) O fenômeno do suicídio para o policial corresponde ao medo de fazer alguma coisa contra si mesmo, em função, do estresse, da raiva acumulada, da perda de controle e do caos em que encontra sua vida, oriundo das condições de trabalho e vida na polícia. Podemos recorrer, novamente, a analogia do Massacre dos Gatos, citada anteriormente, para compreender, possivelmente, como a violência potencializada na relação 124 conflituosa e moralmente vexatória, para um dos lados da relação, pode ser descarregada na violência contra si mesmo. 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS. Diante do exposto nesse trabalho, interessa-nos realizar algumas breves discussões essenciais que tem por objetivo não esgotar as reflexões, do contrário, convidar o leitor a exercitar a dúvida e pôr em cheque as certezas construídas sobre uma categoria tão comum ao cenário cotidiano na metrópole, mas ao mesmo tempo tão distante quanto ao universo social que filtra suas percepções sobre o trabalho, a vida e sobre a realidade. Iniciamos esse estudo fazendo uma série de tentativas de aproximações e distanciamentos com a sociologia do trabalho. Consideramos o policial enquanto um trabalhador que pensa as condições do ser policial que se traduz no funcionamento do campo no qual sua atividade se exerce. Vimos que, de todo modo, as disputas no interior desse campo militar se traduzem em uma luta pela sobrevivência em duas dimensões, uma externa e a outra interna. Externamente quando se refere ao confronto da realidade no mundo do trabalho, no qual, o trabalho policial aparece como uma alternativa de sobrevivência no sentido de que garante as condições objetivas de produção e reprodução de vida dos sujeitos, sem a qual o policial não teria como prover meios para se manter. Internamente, consiste na sobrevivência em relação às condições e organização em que o trabalho policial se realiza, ou seja, os confrontos provenientes das relações hierárquicas, bem como as repercussões da situação de vitima ou vitimizador. Essa luta aparece sob o caráter individual, mas reflete um fenômeno coletivo em relação a postura dos policiais a respeito da tolerância/intolerância em relação ao autoritarismo e aos casos de assédio moral, bem como às situações de sofrimento no trabalho. O ingresso na instituição, muitas vezes atribuído ao acaso pelos policiais, mas também condicionados por um encontro entre projetos individuais (VELHO, 1994) e perspectivas no mercado de trabalho, vem mudando o perfil do policial na instituição militar, fato que é classificado entre os policiais como o fenômeno do ―veste farda‖ e do 125 policial moderno. A esse policial moderno são associadas também as transgressões no âmbito militar: são esses policiais, que questionam, que fazem as greves e que tendem a utilizam as Licenças como estratégias de defesa frente à organização militarizada e disciplinadora. Nesse sentido, a Licença aparece como um recurso de agência (GIDDENS 2009) no campo militar. Diante de uma organização de trabalho exercida por um sistema burocrático de dominação, a Licença Médica surge como uma resposta, também burocrática, mas passível de resignificação, uma solução ―autônoma‖, capaz de converter situações de sofrimento ou proporcionar um alívio imediato. Para alguns, pode ser é a única forma pela qual o sofrimento no trabalho pode expressar alguma importância na visão daqueles que detém o poder de decisão na organização do trabalho policial. É uma forma de comunicação com o outro de ―igual para igual‖ por meio da utilização do discurso da autoridade médica. No entanto, se, no cotidiano das práticas policiais, as licenças aparecem como uma forma individual de ―resolução de problemas‖; somadas, elas indicam uma nova perspectiva em relação à representação do adoecimento no campo militar que acompanha as campanhas e a articulação política da categoria por melhores condições de trabalho. De um modo geral, acompanhamos, através das narrativas apresentadas, um reconhecimento progressivo de alguns problemas na instituição, como é o caso do uso de drogas. O que no inicio da carreira dos policiais era atribuído a uma fraqueza moral, hoje, burocraticamente, assistimos a uma facilidade maior de reconhecimento desse problema como de natureza médica. Apesar de que isso não resguarda moralmente os sujeitos com esse problema, já que podem ser alvos de acusações e estigmas, como observamos no capítulo 4. Também, com a relação a atitude dos policiais modernos, podemos perceber também que o sacrifício e o sofrimento não são mais naturalizados e aceitos como eram pelos policiais das gerações anteriores. Nesse aspecto é interessante observar a ambigüidade relativa às posturas que os policiais mais antigos têm relação aos policiais modernos. Estes últimos, representados, em sua maioria, pelas turmas do programa Ronda do Quarteirão, compõe uma geração cuja promessa de um policiamento comunitário configurou um carro chefe das eleições 126 em 2011. Ele tinha como proposta a realização de um tipo de policiamento de aproximação com a comunidade, de prevenção de crimes e desordens. Foi uma grande promessa de campanha que recebeu várias críticas tanto no meio acadêmico, como dentro da própria polícia, uma vez que, o batalhão de polícia comunitária tinha algumas ―regalias‖ que os policiais mais antigos não tinham, tais como escala comercial, gratificações, dentre outros. O Ronda foi alvo de várias críticas, pois, o programa que buscava modernizar a polícia, viu-se desenvolver as mesmas práticas truculentas associadas aos policiais mais antigos. Internamente, por um lado, a tropa criou uma espécie de desdém por esses novos policiais, criando esquemas de acusações morais, tais como a expressão de ―veste farda‖ que continha uma crítica quanto a incorporação do ethos guerreiro, da resistência, típicas de um policial padrão. Contudo, por outro lado, há também um certo reconhecimento na sua atuação política no movimento paredista de 2011 que retomou a insatisfação frustrada da greve de 1997 e direcionou expoentes, figuras políticas de representação da categoria por direitos. É interessante que, ironicamente, o programa que o governador do estado criou para se eleger, foi o que mais participou em massa da greve que contribuiu para fazê-lo decair em popularidade. A ironia da situação também é pertinente para chamar atenção dos direcionamentos e sentidos múltiplos das mudanças sociais. Os policiais modernos, são acusados pela sociedade civil de reproduzir as mesmas práticas antigas do campo, por um lado; por outro lado, ou seja, internamente, na tropa, esses mesmos policiais são acusados de serem ―fracos‖, ―veste farda‖, insurgentes e ―atrevidos‖ . Trata-se, portanto, de uma ―revolução‖ que não foi direcionada pelo fim a que se propôs, mas de alguma maneira contribuiu para modificar ou intensificar um contexto já instável com relação as insatisfações dos policiais por melhores condições de vida e trabalho. Essa movimentação política fruto de subjetivações acerca da visão sobre o trabalho policial é a mesma que aproxima o policial da figura do trabalhador civil, compondo um léxico interessante de adjetivos e representações do mundo civil e militar, como vimos no capítulo primeiro. O policial reclama também um desamparo para com o exercício da sua profissão, principalmente, nos dilemas a que está sujeito cotidianamente como vitimizador ou como vitima. Como vitimizador, o policial acredita estar se defendendo 127 de um inimigo, seja um inimigo aos seus valores, seja um inimigo que pode vim a tirar sua vida. Nesse caso, o medo encontra-se pela possibilidade de se prejudicar nos processos que pode vim a sofrer internamente na instituição. Como vítima, vemos que há complicadores em função da sua profissão, ameaças específicas que podem dar um fim trágico aos dramas e acasos de ocorrências nas ruas, tanto estando o policial fardado ou a paisana, mas identificado. A profissão policial lhe aufere um estigma que o torna permanentemente vulnerável a retaliações de atos violentos. Tudo isso se traduz na construção de um segundo medo em relação essa sua dupla potencial condição. É relativo ao medo da própria instituição prejudicá-lo nos processos, punições diversas que prolongam a dor a uma categoria de sofrimento, marcando sua trajetória e carreira na instituição, estigmatizando-o por meio das acusações internas a tropa e externas em relação a sociedade civil. Tornar-se policial é investir um tempo de vida. É fundir a um só tempo homem e instituição e, ao mesmo tempo, lutar para que um não anule o outro. O sofrimento acontece quando essa luta se encontra de forma mais perceptível na vida dos policiais e pode ou não agravar para um quadro de adoecimento. As conversas e observações que utilizamos aqui têm em comum o momento em que essa crise se encontra em curso, ou seja, em que os policiais estão se readaptando a instituição, através do quadro de Serviços Leves ou interrompendo temporariamente a sua trajetória com uma Licença Para Tratamento de Saúde. Pensamos ainda que a categoria trabalho pode ser ressiginifcada de várias formas, considerando, como é o caso da polícia, a forma social que o trabalho assume na sociedade e não somente a divisão ortodoxa entre trabalho produtivo e improdutivo. Dessa forma, torna-se necessário considerar certos contextos profissionais que alteram a forma de subjetivação do fazer trabalho, aqui representado pelo policial, mas que não descarta a possibilidade de estudos nessa perspectiva. 128 7. REFÊRENCIAS BIBLIOGRÁFICAS. ADORNO, S. O Monopólio estatal da violência na sociedade brasileira contemporânea. In: O que ler na ciência social brasileira 1970-2002. Volume IV. Organizado por Sérgio Miceli. ALBUQUERQUE, Carlos; MACHADO, Eduardo. Sob o signo de Marte: modernização, ensino e ritos da instituição policial militar. Sociologias, Porto Alegre, ano 3, n 05, p. 214-237, 2001. ALMEIDA, Juniele Rabêlo. 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