○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ iBIZ 2008 Ética em e-learning Ted Brown Martin Methodist College, Estados Unidos RESUMO Tendemos a pensar os negócios em rede em termos de companhias comerciais – produção e troca de bens –, mas a educação também é um empreendimento crescente na internet. Nos Estados Unidos, por exemplo, a educação on-line a distância é o setor de mais rápido crescimento na indústria do ensino superior. Todos os dilemas éticos que os negócios em rede têm que enfrentar também são encontrados nos programas educacionais on-line, porém com uma questão adicional – a qualidade do resultado da aprendizagem. Hoje há escassez de pesquisas sobre a qualidade da aprendizagem na educação em rede e isso representa um desafio significativo para as instituições educacionais. Palavras-chave: Programas educacionais on-line – Dilemas éticos – Qualidade da aprendizagem. RESUMEN Tendemos a pensar en los negocios en red en términos de compañías comerciales – producción y permuta de bienes –, pero la educación es también un emprendimiento creciente en el internet. En los Estados Unidos, por ejemplo, la educación online a distancia es el sector de más rápido crecimiento en la industria de la enseñanza superior. Todos los dilemas éticos que los negocios en red tienen que enfrentar son también encontrados en los programas educacionales online, pero con una cuestión adicional – la cualidad del resultado del aprendizaje. Hay hoy una escasez de pesquisas sobre la cualidad del aprendizaje en la educación en red y eso representa un desafío significativo para las instituciones educacionales. Palabras clave: Programas educacionales online – Dilemas éticos – Cualidad del aprendizaje. ○ Introdução ○ ○ Tendemos a pensar os negócios em rede em termos de companhias comerciais – produção e troca de bens –, mas a educação também é um empreendimento crescente na internet. Nos Estados Unidos, por exemplo, a educação on-line a distância é o setor com crescimento mais rápido no que chamamos a indústria de ensino superior. Todos os dilemas éticos que os negócios em rede têm que enfrentar também são encontrados nos programas educacionais on-line, com pelo menos duas questões adicionais: primeiro, o provedor de ensino e aprendizagem em rede é confrontado com uma quantidade de desafios morais relacionados à qualidade dos resultados de aprendizagem; e segundo, o consumidor de ensino em rede enfrenta uma variedade de desafios morais relacionados ao processo de aprendizagem. Dois exemplos nos ajudam a conceber essas constelações de assuntos éticos que são relativamente únicos ao empreendimento da aprendizagem em rede. O primeiro exemplo vem de uma mensagem de email recebida alguns meses atrás, enviada por uma das organizações com fins lucrativos que oferecem programas de graduação on-line. O email era dinâmico, colorido e trazia a seguinte manchete: “Você já pode ter graduação e nem saber disso”. Sem precisar trabalhar demais esse ponto, a pergunta óbvia que surge a partir dessa mensagem é: “Quanto ensino e aprendizagem ocorrem de fato no processo de obtenção de um título que você não sabia ter?” Esse exemplo realça uma grande variedade de questões morais relacionadas à qualidade das ofertas de ensino e aprendizagem on-line (e-learning), bem como a efetividade dos resultados da aprendizagem. Outro exemplo enfoca temas morais relativos ao consumidor de ensino e aprendizagem on-line (e-learning): uma pesquisa nacional mais recente nos Estados Unidos sobre o perfil dos estudantes indica que até 59% dos estudantes norte-americanos envolvidos em programas de elearning admitem ter realizado algum tipo de fraude acadêmica “muito frequentemente” (27%) ou “frequentemente” (32%) (National Survey of Student Engagement, 2007). Essa é uma preocupação básica dos professores que lecionam a distância – que o aluno de e-learning que realiza o trabalho é de fato a pessoa que se matriculou, e que o aluno não está falsificando seu trabalho. Há que se admitir que os alunos nas faculdades e universidades de hoje foram criados dentro de uma era de declínio na moralidade pública, envolvendo escândalos e corrupção por funcionários públicos, grandes corporações e cidadãos comuns. Esses eventos certamente afetam as atitudes dos alunos no que diz respeito ao comportamento ético. Ademais, o processo de e-learning é bastante diferente da aprendizagem presencial e oferece maior oportunidade para uma falsa representação acadêmica. Esse exemplo realça outra conste- Os alunos nas faculdades e universidades de hoje foram criados dentro de uma era de declínio na moralidade pública O processo de elearning é bastante diferente da aprendizagem presencial e oferece maior oportunidade para uma falsa representação acadêmica 88 Revista de Educação do Cogeime • Ano 17 – n. 32/33 – junho/dezembro 2008 lação de temas morais que devem ser considerados no contexto do empreendimento de e-learning. Num esforço para manter simples esta avaliação, este trabalho destaca duas constelações de assuntos morais de acordo com quem está enfrentando o dilema ético: o professor e o aluno. Embora haja alguma sobreposição de temas mais marginais, no centro as questões éticas mais significativas em e-learning podem ser divididas desta forma. A seguir apresentamos uma pesquisa sobre as preocupações morais mais proeminentes no e-learning a partir desta divisão. Questões éticas para o e-student De acordo com um relatório do Instituto de Justiça Nacional do EUA sobre os desafios éticos inerentes ao uso da informática na educação, há um fenômeno novo descrito como “distância psicológica” (SIVIN, 1992). Ao interagirmos pessoalmente com outras pessoas, nós fazemos uma avaliação imediata sobre os comportamentos impróprios e pouco éticos, mesmo quando se trata de algo tão sutil quanto a linguagem corporal. No uso da informática, inclusive nos atos que poderiam prejudicar outros, o ato parece menos pessoal porque não podemos ver nem ouvir a outra pessoa que participa deste intercâmbio. O relatório observa que os valores morais tradicionais eram aprendidos em casa e normalmente reforçados na escola. Não podemos contar com isso hoje. Os valores não são aprendidos em casa e as escolas são frequentemente restringidas no papel de ensinar valores sociais. Em consequência disso, nossos jovens são psicologicamente distantes em suas interações com os outros. Esse distanciamento psicológico permitiu a prevalência da fraude acadêmica, facilitada pela maneira como os recursos de e-learning são aplicados à aprendizagem tradicional e ao próprio processo de ensino e aprendizagem on-line. Em um estudo para o Conselho Americano sobre Educação, o pesquisador R. A. Fass descreve antigos padrões de comportamento impróprio em e-learning (p. 173-175). Fass identificou as seguintes categorias de fraude acadêmica no ambiente de e-learning: • • • • • • • • ajuda imprópria em exames; má utilização de fontes em documentos e projetos; ajuda para escrever e outros tipos de ajuda impróprios; falsa representação na coleta e registro de dados; uso impróprio de recursos acadêmicos; falta de respeito para com o trabalho de outros; falta de proteção de sujeitos humanos na pesquisa; quebra de ética no uso de computadores; ○ ○ ○ Revista de Educação do Cogeime • Ano 17 – n. 32/33 – junho/dezembro 2008 89 Os valores não são aprendidos em casa e as escolas são frequentemente restringidas no papel de ensinar valores sociais Esse distanciamento psicológico permitiu a prevalência da fraude acadêmica • falta de respeito aos direitos autorais e de proteção de patentes; • auxílio impróprio a outros; • falta de adesão quanto a regulamentos acadêmicos. Os alunos que vêm da educação secundária frequentemente não entendem as questões associadas à ética universitária e integridade acadêmica Essa categorização de fraude acadêmica no ambiente de e-learning é bastante semelhante às fraudes que têm acontecido na academia desde há muitas gerações. O que conduz à fraude acadêmica em e-learning é semelhante à motivação para a fraude no ambiente do campus: pressão para se obterem boas notas, ansiedade no ambiente de provas e testes, falta de conhecimento relacionado aos regulamentos acadêmicos, características de personalidade e falta de desenvolvimento do raciocínio moral. Algumas dessas dinâmicas são acentuadas no ambiente de elearning devido ao fenômeno do distanciamento psicológico. Além disso, também é maior o potencial para a falta de conhecimento de regulamentos curriculares e de códigos acadêmicos de comportamento quando se trata de alunos de e-learning, isto é, e-students. Alguns pesquisadores têm discutido que muitas faculdades e universidades não transmitem adequadamente as informações sobre fraude acadêmica em seus manuais e catálogos, especialmente nos documentos oferecidos a e-students. Os alunos que vêm da educação secundária frequentemente não entendem as questões associadas à ética universitária e integridade acadêmica, especialmente no ambiente de e-learning. Muitos e-students também retornam ao ambiente acadêmico depois de uma longa ausência e devem, portanto, ser reapresentados ao código moral acadêmico. Parece imperativo que nossas instituições tomem três medidas específicas para abordar a ética de e-learning: primeiro, desenvolver e publicar uma declaração clara acerca da fraude acadêmica no ambiente de e-learning; segundo, estabelecer uma política que forneça um código de moral acadêmico específico para os alunos; e terceiro, incorporar no currículo assuntos éticos sobre tecnologia e e-learning. Questões éticas para o e-professor O uso do termo eprofessor realça o fato de que o e-learning baseia-se fundamentalmente em uma relação humana Ao considerar a constelação de temas relativos ao outro lado da equação de e-learning, isto é, relativos ao papel do professor, é importante lembrar que a referência ao e-professor é utilizada aqui em seu sentido mais abrangente – seu verdadeiro significado é o de provedor de ensino e aprendizagem on-line. Embora certamente haja questões éticas confrontadas pelos professores reais em um ambiente de elearning, há muitas outras questões que se referem à instituição que está oferecendo a oportunidade de e-learning. O uso do termo e-professor realça o fato de que o e-learning baseia-se fundamentalmente em uma relação humana, embora se trate de um tipo novo de conexão professoraluno, com padrões diferentes de interação e associação. 90 Revista de Educação do Cogeime • Ano 17 – n. 32/33 – junho/dezembro 2008 O desafio moral mais importante para o e-professor é certamente manter a qualidade do processo educacional. Como indica o exemplo que demos acima, não há nada que legalmente previna a oferta de programas de graduação ilegítimos e sem valor educacional inerente. Esse é, enfim, um assunto moral. É verdade que os processos de credenciamento são criados para ajudar o provedor e o consumidor de educação on-line a ordenar esses assuntos complexos relacionados à qualidade mínima de ofertas educacionais. Mas o próprio credenciamento tornase um tema altamente complicado para o e-learner, já que as ofertas de cursos vão além dos limites do credenciamento e até mesmo além dos limites nacionais, no caso dos cursos internacionais. Por fim, é de responsabilidade do provedor de e-learning instituir esforços de avaliação que assegurem que os resultados do e-learning sejam de fato efetivos. Um assunto ético relacionado à questão do e-professor, mas ao mesmo tempo distinto, é a divulgação plena de regulamentos acadêmicos e padrões para e-students. Com uma plataforma completamente diferente de interação entre o e-learner e o e-professor, o provedor deve estar atento aos novos modos de transmitir informação e assegurar comunicação genuína. A mera publicação do catálogo acadêmico em um website talvez não seja suficiente. No processo de comunicação, o e-professor deve se assegurar de que está se comunicando com o e-learner real e que nenhuma fraude acadêmica esteja sendo cometida. É como na professor-aluno tradicional; porém, quando esta relação ocorre a distância, ela é muito mais complexa. Os provedores de educação sempre se depararam com o desafio de oferecer recursos apropriados para o processo de aprendizagem, mas para o e-professor existe a necessidade de se estabelecer uma nova camada de infraestrutura educacional, para que o ambiente de e-learning seja plenamente eficaz. Não somente os livros e os equipamentos de aprendizagem são importantes, mas torna-se absolutamente essencial oferecer uma infraestrutura de rede segura com software de aprendizagem efetivo. Com isso surgem questões de segurança de rede, que têm implicações éticas genuínas. Além disso, uma gama de políticas sobre a duplicação e os direitos autorais deve ser estabelecida para proteger contra a “apropriação de software” (softlifting) e o uso ilegal de recursos eletrônicos. Miller, Kupsh e Jones (1994) discutem a necessidade de se incorporarem éticas de software informático no currículo de cada curso de informática e que faça uso de computadores. As instruções sobre o software devem discutir o licenciamento e acordos de garantia limitados, além de incluir terminologia de ética de software. Isso nos traz a uma gama extensa de questões éticas relacionadas à pesquisa. Certamente, uma das oportunidades novas mais significativas para a fraude acadêmica emerge da falta de documentação ou a má documentação de fontes on-line. Os e-professores devem estar atentos para ○ ○ ○ Revista de Educação do Cogeime • Ano 17 – n. 32/33 – junho/dezembro 2008 91 O desafio moral mais importante para o eprofessor é certamente manter a qualidade do processo educacional No processo de comunicação, o eprofessor deve se assegurar de que está se comunicando com o e-learner real e que nenhuma fraude acadêmica esteja sendo cometida educar os e-learners sobre o uso ético de recursos de internet. Também há uma quantidade de implicações éticas relativas ao uso de sujeitos humanos nas pesquisas baseadas na internet. Frankel e Siang (1999) ofereceram um protocolo básico relacionado às implicações éticas e legais de pesquisa com sujeitos humanos na internet. Eles oferecem dois princípios básicos para se administrar tal pesquisa: 1) autonomia – todos os sujeitos devem ser tratados com respeito como agentes autônomos; e 2) benefício – os pesquisadores são obrigados a maximizar os benefícios da pesquisa e minimizar os danos e riscos aos sujeitos, incluindo autorização informada e proteção de privacidade e confidencialidade. Pesquisa Há pouca preocupação explícita com a questão da ética em educação, ensino e aprendizagem on-line Uma pesquisa bibliográfica revela que há pouca preocupação explícita com a questão da ética em educação, ensino e aprendizagem on-line. Os recursos disponíveis são basicamente regulamentos institucionais voltados ao policiamento ou recursos de seminários com foco em objetivos muito pragmáticos. Não há praticamente que se aplique os princípios estabelecidos de investigação ética a essa nova e importante área de exposição moral para instituições educacionais. Além disso, poucas pesquisas enfocam especificamente a qualidade dos resultados da aprendizagem on-line e da educação a distância. Ambas as áreas representam desafios às instituições educacionais modernas e são temas significativos para a área da ética e para os estudiosos da educação. Conclusão Deve-se reconhecer que a intenção básica do e-learning é moralmente correta. Tentar oferecer “o maior bem ao maior número das pessoas” é uma tarefa inerentemente ética. Ninguém poderia duvidar do bem moral de disponibilizar a educação a pessoas que foram privadas desse bem em virtude de localização, custos ou outras circunstâncias particulares. Assim como ocorre com outros bens morais, porém, há riscos éticos e vulnerabilidades que devem ser reconhecidos e considerados no processo. Na medida em que o e-learning torna-se mais difundido, a investigação e a discussão de suas implicações éticas devem se tornar mais sistemáticas e profundas. Referências bibliográficas BENNETT, J. B. 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