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Dissatisfaction with medical practice
Insatisfação com a prática da medicina
Zuger A
N Engl J Med. 2004;350(1):69-75.
Comentado por: Eurípides Ferreira. Professor Emérito da Faculdade de Medicina da
Universidade de Santa Maria (RS).
Qualquer reunião entre médicos leva sempre a um
tema: como a medicina está difícil de ser exercida hoje
e como a satisfação profissional cai a cada dia. Isto é
verdade mesmo? Se sim, por quê?
Este artigo de Zuger mostra que nos EUA há realmente
um aumento da insatisfação profissional, que por enquanto
não levou muitos médicos a abandonar a profissão nem
diminuiu o número de ingressantes nas Faculdades de
Medicina. Não há relação entre especialidade e
insatisfação, apesar de um dos problemas mais sérios
levantados por todos os médicos americanos, o número de
processos por malpractice, seja setorial – algumas
especialidades como obstetrícia, ortopedia e neurocirurgia
pagam prêmios proibitivos e aí sim, temos exemplos de
médicos que mudam de especialidade e locais onde esses
profissionais simplesmente não querem mais trabalhar.
Um fenômeno novo nos EUA é a sindicalização dos
médicos e organização destes como outros trabalhadores
– isto aqui no Brasil é muito antigo... Um ponto também
comum a médicos nos EUA e no resto do mundo é a
dificuldade em lidar com expectativas irrealistas dos
pacientes. Um médico indiano sintetiza numa frase bem
esse drama: “os pacientes de meu pai achavam que ele
era um Deus: meus pacientes não acham que eu seja,
mas exigem que eu faça milagres...”.
Um ponto crítico para os médicos americanos que os
deixa muito angustiados é a demanda que é feita do seu
tempo: eles consideram que não estão dando ao paciente
o tempo devido, que é consumido em burocracias,
papeladas e lidar com as HMO (os convênios locais...)
Também a insatisfação de alguns médicos melhora quando
a sua carga de pacientes é menor, ainda que a entrada de
dinheiro também diminua... Outro ponto que deixa
médicos infelizes é quando a sua lealdade e o foco no
paciente competem com com exigências de seguradoras,
HMOs, agências governamentais e órgãos da justiça, que
fazem com que eles se sintam manipulados em detrimento
da atenção ao paciente e do trabalho clínico.
A autora acha que a alta satisfação com a profissão
que vigorava entre os médicos norte-americanos no meio
do século 20 foi apenas algo transitório, tanto que não
ocorreu o mesmo em outros países. A insatisfação dos
médicos não é exclusiva destes profissionais liberais:
engenheiros, advogados, arquitetos também a têm cada
vez mais, por restrições progressivas à autonomia
profissional; e a das enfermeiras é ainda mais intensa.
A autora recomenda seriamente que para diminuir esta
insatisfação profissional as Escolas de Medicina dêem aos
seus alunos durante o curso uma perspectiva realista de
como vão trabalhar. A era dourada da liberdade profissional
quase que absoluta – que na verdade não era para todos
os médicos, e que nem sempre resultava nos melhores
resultados para os pacientes – definitivamente acabou.
einstein. 2004; 2(3):243
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EMC Einstein 3.P65