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Especial
Que civilização é esta
que envenena sua própria comida?
“Faça do alimento sua Medicina, e da Medicina seu alimento”. (Hipócrates)
Sandra Ortegosa
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Você já parou para pensar
porque a incidência de câncer, diabetes, problemas cardíacos, Mal de Alzheimer, de Parkinson e várias outras
doenças, aumentou tanto nas últimas
três décadas, atingindo cada vez mais
pessoas e até crianças e animais? O
que está por trás disso é que, paradoxalmente, com o avanço da indústria
alimentícia, a cada dia torna-se mais
difícil a possibilidade de uma alimentação saudável.
A chamada “Revolução Verde”, que prometia acabar com a fome
no mundo, impôs a monocultura e o
arsenal de produtos químicos que hoje
domina a produção agrícola, passando por cima de todo o conhecimento
acumulado ao longo de 10.000 anos
da agricultura tradicional. Em meados
dos anos 70, durante a ditadura militar, o governo brasileiro condicionou
o crédito rural ao uso obrigatório de
agrotóxicos. Desde então, em nome
de um critério economicista e de produtividade, estamos sendo envenenados diariamente (e em doses nem
tão homeopáticas) por alimentos contaminados por uma enorme variedade
de agrotóxicos, fertilizantes químicos,
pesticidas, herbicidas, antibióticos,
aditivos químicos, conservantes etc.
O maior consumidor de agrotóxicos é o Brasil.
A partir de 2008, o Brasil
tornou-se o maior consumidor de
agrotóxicos do planeta: cada brasileiro ingere em média 5,2 litros desses
venenos por ano. Seu uso é admitido
impunemente (e até estimulado) por
nossos governos como uma necessidade inevitável, passando por cima de
qualquer critério de qualidade da saúde pública. Aqui são tolerados, sem
restrições, agrotóxicos que já foram
banidos de diversos países europeus,
nos EUA, África e China, e que comprovadamente são responsáveis por
danos irreversíveis no sistema nervoso central, pela perda de memória e
de movimentos, pelo enfraquecimento
do sistema imunológico, além de má
formação nos embriões de mulheres
gestantes.
A gigantesca empresa norte-
americana Monsanto destaca-se,
entre outras multinacionais, como a
líder mundial em biotecnologia e é
responsável por 90% dos alimentos
transgênicos produzidos no planeta,
obrigando os agricultores a adquirirem, juntamente com os insumos
químicos e herbicidas, um pacote
com sementes híbridas e transgênicas, criadas artificialmente para
resistir aos efeitos dos herbicidas. O
Roundup, carro-chefe da Monsanto, é o herbicida mais vendido no
mundo nos últimos 30 anos, contaminando de forma avassaladora o
solo, a água, o ar, os alimentos e,
consequentemente, as pessoas e os
animais. Em setembro do ano passado, testes realizados pela Universidade de Caen, na França, com ratos
submetidos a uma alimentação com
milhos transgênicos tratados com
Roundup, apresentaram resultados
alarmantes: mortes prematuras, tumores cancerígenos na pele, rins,
fígados, glândulas mamárias e hipófise, além de danos no coração, nas
glândulas suprarrenais e nos baços.
Um artigo da Food and Chemical
Toxicology mostra imagens de ratos
com tumores maiores que bolas de
pingue-pongue.
E os produtos animais?
Engana-se, porém, quem
imagina que a alimentação à base de
produtos de origem animal está livre
desses problemas: a soja e o milho
transgênicos, usados na alimentação
do gado, contaminam a carne, o leite
e todos seus derivados. Outra questão é que, tanto na indústria da carne
como na do leite, o lucro está acima
de qualquer critério de compaixão ou
de higiene. Na indústria do leite, para
se manter a produção contínua, as
vacas são submetidas a sucessivas
inseminações artificiais. Assim que
os bezerros nascem, eles são arrancados de suas mães e elas passam
a receber hormônios de crescimento
para aumentar a produção de leite,
e antibióticos para combater a inflamação de suas tetas. Quando deixam de produzir, são levadas para
o abate, completando seu triste ciclo
de existência no planeta. Todas essas substâncias são ingeridas pelos
seres humanos através da carne, do
leite e de seus derivados (manteiga,
queijo, iogurte etc).
Hora de olhar para os abatedouros
Além disso, as condições de
higiene da maior parte dos abatedouros são assustadoras. Recentemente, o programa Fantástico apresentou
uma reportagem chocante, mostrando que nesses verdadeiros “circos
de horrores”, onde acontecem atrocidades invisíveis aos olhos do consumidor, muitas vezes não existe nenhum tipo de fiscalização sanitária no
processo de abate: após receberem
marretadas nas cabeças, os animais
são esquartejados (às vezes ainda
semiconscientes) no chão imundo,
onde há insetos mortos, poças secas
de sangue e fezes de ratos, contaminando a carne que vai para os açougues e supermercados. A reportagem
mostrou, também, funcionários manipulando a carne sem o uso de máscaras ou luvas, e transportando-a sem
refrigeração, em tambores de plástico
sem tampas. Estima-se que mais de
30% da carne brasileira é produzida
nessas condições, podendo transmitir
doenças gravíssimas como a cisticercose, que ataca o cérebro, e a toxoplasmose, que provoca problemas no
fígado, pulmão e coração.
Como enfrentar essa situação cada vez mais preocupante? O
consumidor precisa começar a dar
preferência aos produtos orgânicos
e exigir do poder público um maior
estímulo à agricultura orgânica, em
detrimento do apoio que hoje é dado
ao agronegócio, à comercialização de
agrotóxicos e à pecuária. É por falta
de financiamento e de políticas públicas que os alimentos orgânicos não
conseguem competir com os produtos contaminados por agrotóxicos.
Além disso, estão começando a surgir iniciativas interessantes
de grupos de moradores que passaram a praticar a agricultura urbana
com base nos princípios agroecológicos, transformando espaços antes
improdutivos, como terrenos baldios,
quintais, várzeas de rios etc., em hortas orgânicas, pomares e locais de
encontros, convivência e trocas de
aprendizados. Essas experiências,
além de fortalecer os laços comunitários, fornecem pistas para mudanças
em direção à construção de cidades
ecológicas e resgate de uma vida urbana mais saudável. A superação do
atual quadro de insegurança alimentar passa, portanto, pela conversão
do atual modelo agroquímico e mercantil para um modelo de base agroecológica, e pela construção de uma
economia solidária e sustentável,
que resgate e fortaleça os saberes
tradicionais do homem do campo.
Sandra Mara Ortegosa
Arquiteta e socióloga pela USP
Phd em Antropologia pela PUC-SP
Lasanha, Caneloni,
Rondelli, Nhoque,
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