A ATUAÇÃO DOCENTE NA PERSPECTIVA DO DESENVOLVIMENTO DA MORALIDADE NA CRIANÇA: UM ESTUDO À LUZ DA TEORIA DE PIAGET Valdir Vicente Lago Stefanello1 Taís F.Flores Rosa2 Lissandra Zanon3 Resumo: O objetivo desta pesquisa foi o de investigar a atuação pedagógica das professoras em relação à moralidade em crianças de 04 a 06 anos, em situação de aprendizagem, utilizando, como referência para a análise, a teoria moral piagetiana. O problema ficou assim configurado: a prática docente, em relação aos fatos/problemas de natureza moral, segue uma coerência interna com a teoria de Piaget acerca do desenvolvimento da moralidade na criança, em situação de aprendizagem, e a explicação desta prática e sua fundamentação também estão conforme com essa teoria? As pesquisas deste autor sobre o desenvolvimento moral demonstraram que, assim como a inteligência, a moralidade também é construída através de um processo de interação do sujeito com o meio. Para analisar a atuação das professoras envolvidas na pesquisa, foram feitas observações presenciais e entrevistas com elas, contemplando os conteúdos referentes às características da fase heterônoma no tocante aos elementos da inteligência: egocentrismo, regras e autoridade; e aos elementos da moralidade: obediência, respeito unilateral, justiça retributiva, mentira e delação. Foi constatado que a atuação destas professoras visando ao equacionamento dos fatos/problemas de natureza moral, em parte, está afinada com a teoria moral de Piaget, assim como, algumas de suas explicações estão em conformidade com essa teoria, porém ambas as professoras afirmam não saber fundamentar suas atuações pedagógicas nesta mesma teoria, porque a desconhecem, praticamente. Em conseqüência, elas afirmam que o equacionamento dos problemas de forma pedagógica e suas explicações para e justificar suas práticas docentes estão circunstanciados às experiências de vida e de educadora, aos costumes, à tradição, ao senso comum. Palavras-chave: Moralidade. Criança. Ação pedagógica. 1 - Prof. Centro de educação – UFSM, RS. - Acadêmica do Curso de Pedagogia – UFSM, RS. 3 - Acadêmica do Curso de Pedagogia – UFSM, RS. 2 2 É objetivo desta pesquisa investigar a atuação de professores em suas práticas pedagógicas, tendo como foco a questão da moralidade em crianças de 4 a 6 anos de idade, em situação de aprendizagem, utilizando como referência e ponto de partida para análise a teoria piagetiana acerca do desenvolvimento da moralidade. O problema ficou assim configurado: a prática das professoras em relação aos fatos/problemas de natureza moral segue uma coerência interna com a teoria de Piaget acerca do desenvolvimento da moralidade na criança de 04 a 06 anos, em situação de aprendizagem? E a explicação dessa prática e a respectiva fundamentação também estão em conformidade com essa teoria? As pesquisas de Piaget a respeito do desenvolvimento intelectual da criança e de suas contribuições para a formação na área da moralidade são fundamentais para a compreensão do universo moral da criança e suscitam, por efeito, questões de interesse relativo à prática escolar. Nos cursos de formação de professores, toda a ênfase é dada aos conteúdos concernentes ao desenvolvimento cognitivo da criança, notadamente a partir das contribuições da teoria de Piaget. Enquanto que os conteúdos relativos à questão da moralidade denotam estar relegadas a planos secundários. Sabe-se que Piaget dedicou suas pesquisas com o objetivo principal de explicar como é possível ao ser humano alcançar o conhecimento, ou seja, conhecer como ele conhece. Foi em base a esses estudos relacionados especificamente com a questão da cognição, que ele, então, direcionou seus interesses para investigar a questão do julgamento moral, cuja teoria consta em sua única obra sobre tal temática, O Julgamento Moral na Criança. Segundo suas pesquisas, a moralidade acompanha a atividade do educador em todos os seus momentos e níveis de ensino, independente, inclusive, das influências causadas por possíveis diferenças sócio-econômicas encontradas nos educandos. E que a moralidade não é inata no indivíduo e nem é adquirida, mas construída em um processo de interação similar à própria construção da inteligência. Sendo, portanto, a moralidade construída, ela se configura como sendo conhecimento, o qual depende e é determinado por elementos cognitivos. Por efeito, as noções dos elementos da moralidade se manifestam em conformidade com o estágio de desenvolvimento cognitivo em que se encontra o indivíduo. Piaget classificou as faces do desenvolvimento da moralidade em anomia, heteronomia e autonomia, cujas denominações são decorrentes da tese segundo a qual a construção da moralidade gira em torno das regras. Um aspecto importante da educação é a formação no campo da moralidade. Esta educação se desenvolve em um contexto sócio-educativo e por meio de práticas pedagógicas nas quais a assimilação de regras de convivência é um aspecto priorizado. Para 3 esse pesquisador “toda moral consiste num sistema de regras, e a essência de toda moralidade deve ser procurada no respeito que o indivíduo adquire por essas regras” (Ibid., p. 11). No caso dos elementos cognitivos, ou da inteligência que dão suporte à construção da moral heterônoma, identificam-se o egocentrismo infantil, as regras e a autoridade. Já para a construção da moralidade, os elementos são: a obediência, o respeito, a justiça e a mentira. Considerando, portanto, que a moralidade é construída, conseqüentemente a noção de obediência, de respeito, de justiça e de mentira é diferente em cada uma das fases da moralidade, e são essas diferentes noções que circunstanciam as características da moralidade também em cada uma dessas fases. Segundo a teoria de Piaget, esses elementos são universais porque estão presentes em todo processo de construção da moralidade. Para esta pesquisa, vou utilizar as noções de obediência, respeito, justiça e mentira na fase da moral heterônoma, além da questão da delação por ser uma singularidade encontrada nos atos das crianças também dessa fase. Se no âmbito da inteligência as regras constituem-se no elemento em torno do qual gira toda a construção e desenvolvimento da moralidade no sujeito, no âmbito da moralidade o que tangencia todo o processo de construção é o respeito, ou seja, a moralidade é contingenciada pela presença do elemento respeito. Piaget utiliza os resultados das pesquisas de Bovet, que trata da questão da gênese da obrigação consciente, cuja tese assevera que o sentimento de obrigatoriedade só aparece quando a criança aceita imposições de pessoas pelas quais demonstra respeito (Ibid., p. 46). É em torno do respeito, portanto, que é erigida a noção de justiça e de mentira, e é o motivo que leva uma criança a ter atos de obediência e de delação. O ato de delação é aqui incluído não apenas como um mero apêndice da moralidade e sim como a marca que identifica os atos das crianças nessa mesma fase de desenvolvimento no campo da moralidade, assim é o egocentrismo, uma característica da estrutura mental pré-operacional e a marca peculiar das atitudes da criança nesse estágio. A reflexão sobre a formação do educador e os saberes docentes permite adentrar a profissão que traz no seu bojo características singulares, em razão da complexidade do fazer pedagógico. As pesquisas realizadas principalmente por Gauthier e Tardif vislumbram a possibilidade de que o saber experiencial constitui-se num aspecto fundamental para analisar a performance das educadoras no tocante a sua atuação pedagógica com relação à moralidade na criança. O saber experiencial é emanado das experiências de cada profissional da educação. O saber da ação pedagógica é o saber experiencial dos professores. Para coleta de dados, foram realizadas observações presenciais envolvendo duas professoras e suas respectivas turmas de alunos. Dos fatos/problemas identificados de 4 natureza moral, apenas quatorze (14) foram considerados mais relevantes; após foram realizadas entrevistas com as respectivas professoras (profª. A e profª. B), acerca desses fatos. A profª A afirma que os fatos/problemas declinados são de natureza moral porque neles estão contemplados conteúdos morais como a obediência, a mentira, a delação, a justiça, o respeito. Segundo ela, a origem desses episódios está basicamente relacionado ao não cumprimento de REGRAS estabelecidas pela turma. Ela declara que as regras são construídas em conjunto, professora e crianças, mas há a predominância da opinião da professora, porque nessa fase “elas não têm total autonomia para discutir o que é o certo e o errado”, afirma. Constata-se um esforço pedagógico, da sua parte, no tocante à construção das regras e dos valores morais, na perspectiva construtivista. Porém, esse empreendimento ainda não está conforme ao nível de desenvolvimento cognitivo da criança. Daí porque prevalece a opinião da professora. Há aqui um aspecto coerente com a teoria de Piaget, relativo à fase da moral heterônoma. Porém, para essa professora, a obediência às regras, ou seja, o dever em cumprir com as regras está relacionado ao fato de não terem sido impostas e sim construídas em conjunto, após discussão. “As crianças respeitam as regras por acreditar que é a melhor forma de convivência no grupo” destaca. Assim, quando se refere tanto ao motivo quanto à finalidade pela qual a criança é levada a obedecer às regras, evidencia-se uma relativa não afinidade com essa teoria. Segundo Piaget, a criança obedece em função das regras e principalmente da presença da autoridade, no caso aqui, da professora. Ass regras se revestem de um poder e de importância inexoráveis às crianças, e a construção de suas vidas, nessa fase, está circunstanciada à obediência às regras e à autoridade. Por isso, descumprir uma regra estabelecida significa, do ponto de vista da criança, fazer algo errado e por esse motivo deve o infrator sofrer alguma punição, a qual lhe é infligida pela autoridade da professora. Ao fazer referência à questão da punição e da obediência, esta professora apresenta uma justificativa teórica que se relaciona com a teoria de Piaget, porque para a criança nessa fase, regras e autoridade pertencem a uma mesma realidade, porém as regras são aceitas porque emanadas da autoridade. Todo seu esforço pedagógico não consegue suplantar a realidade infantil circunscrita às características heterônomas da realidade infantil. Portanto, apesar dessa afinidade com a teoria de Piaget, ela afirma não ter conhecimento de alguma teoria que fundamenta o seu entendimento sobre as regras e a punição. Declara, no entanto, que o conhecimento que possui a respeito dessas temáticas são provenientes das experiências da vida cotidiana e das observações realizadas no exercício do magistério. 5 Essa professora destaca ter conhecimento sobre o egocentrismo infantil, o qual se materializa nas constantes tentativas de a criança realizar seus desejos individuais. A criança tenta transgredir as regras quando a autoridade não está presente, e a possibilidade de satisfazer um desejo pessoal é tangenciada pelo seu egocentrismo. Ao transgredir, mentir, trapacear, a criança entra, muitas vezes, em conflito com as regras estabelecidas. Há motivos para afirmar que esta professora tem um plausível domínio dessa característica do pensamento infantil, domínio mais do seu aspecto cognitivo, do que do moral, mas que tem coerência com a teoria de Piaget. E ela faz referência à sua teoria, assim como a de Vygotsky para explicar o seu entendimento a respeito, sem, contudo, entrar nos pormenores dessas teorias. Em relação à autoridade, ela tece explicações que encontram ressonância na teoria de Piaget. As crianças concebem a professora como um adulto e, por efeito, uma autoridade. É investida dessa performance que ela é procurada e solicitada pelas crianças para resolver seus problemas. Ela é capaz, por exemplo, de fazer justiça diante de um determinado episódio caracterizado como injusto. No entanto, não tem clareza quanto à teoria que explica este seu entendimento sobre a questão da autoridade. Porém, em relação às estruturas cognitivas, as explicações estão nas teorias de Piaget. Com relação à noção de respeito, por parte da criança, as suas manifestações ficam num nível bastante elementar. Contudo, circunstancia essa temática em função das regras e do adulto, havendo com isso uma certa sintonia com as idéias de Piaget, porém não faz nenhuma referência a elas, como também não indica alguma teoria que fundamenta o seu conhecimento, utilizando-se das experiências de vida e de educadora para explicar a sua compreensão a respeito. Para esta professora, a noção de justiça, do ponto de vista da criança, também está vinculada ao cumprimento das regras estabelecidas por pessoas de mais idade. Ao afirmar que para a criança a justiça é “pagar na mesma moeda”, deixa claro que seu entendimento está em conformidade com a justiça retributiva apregoada por Piaget. Porém, afirma não conhecer alguma teoria que fundamenta esse entendimento. Já no episódio “Jonatas” (um dos fatos/problemas declinados), ficou constatado que as explicações da professora, em parte, estão conforme com a teoria de Piaget, pois as outras crianças julgam o ato de Jonatas pela sua ação concreta e não pela intenção. Esta justificativa se enquadra claramente no conceito de justiça retributiva piagetiana. Mas declara não conhecer alguma teoria que fundamenta esse entendimento. Segundo essa professora, a criança nessa idade mente com a finalidade de satisfazer um desejo pessoal, em virtude de seu egocentrismo. “É próprio da criança nessa fase mentir 6 para evitar algum tipo de punição. A mentira é uma forma de defesa...”, afirma. Essa manifestação encontra ressonância em Piaget, o qual destaca que a proibição de mentir permanece exterior à consciência da criança e a obrigação de não mentir é imposta pela coação adulta. Uma mentira é o que não está de acordo com a verdade, independentemente, das intenções do indivíduo. A professora afirma não ter conhecimento algum de teorias que fundamentam este seu entendimento. Quanto à questão “delação”, esta professora entende como sendo uma atitude normal da criança nessa fase, e atribui como possível causa, a influência da sociedade, da família. A criança estaria reproduzindo a atitude da mãe porque essa fala de outras mães. A explicação que a criança delata por imitar um adulto, não encontra, entretanto, sustentação na teoria de Piaget. Porém, não é esse o entendimento que prevalece no curso das entrevistas e sim que a criança procura uma autoridade para delatar um ato errado porque um colega infringe uma regra. A presença da autoridade, representada pela professora, é a condição necessária para se efetivar um ato de delação. A criança delata com a expectativa de que o colega infrator seja punido. Segundo ela, há uma variedade de situações que caracterizam um ato punitivo, mas desde que seja emanado de uma autoridade. O entendimento predominante das crianças é de que a professora é uma autoridade e, por efeito, cabe a ela a solução dos problemas. Em virtude de um determinado problema ter sido resolvido, as crianças não guardam algum tipo de hostilidade entre elas. Neste sentido, os argumentos estão afinados com a teoria de Piaget, que sustenta a tese segundo a qual o ato de delatar é próprio do pensamento moral infantil, na fase heterônoma, porque está vinculado à noção do respeito unilateral e da obediência à autoridade adulta. Essa professora, porém, não faz menção nem a essa e nem a outras teorias e sim que utiliza as suas experiências de vida e de educadora como fontes para fundamentar suas explicações a respeito. Por fim, essa professora manifesta convicção de que os fatos/problemas declinados nesta pesquisa foram todos solucionados e de maneira pedagógica. Com base no diálogo, ela justifica seus procedimentos pedagógicos. Assim, suas expectativas são realizadas “porque as crianças chegaram a um entendimento”, e a solução ocorre de maneira pedagógica, “porque a partir dos questionamentos feitos com as crianças, ou seja, com o diálogo elas chegaram a uma conclusão”. Porém, quanto às expectativas de solucionar os fatos de forma pedagogicamente adequada, por se tratar de problemas morais, o diálogo aparece como solução predominante. Esse diálogo, na perspectiva freireana, é a base teórica que sustenta suas ações pedagógicas para o equacionamento de alguns desses problemas. A rigor, não sabe justificar a sua intervenção para o equacionamento dos problemas, segundo a teoria de Piaget. 7 Em síntese, nos tópicos relativos aos elementos cognitivos: egocentrismo, regras, e autoridade, e aos elementos da moralidade: obediência, respeito, justiça, mentira e delação, em todos eles, constata-se que raramente essa professora faz referência à teoria de Piaget para explicar teoricamente os conhecimentos que dão suporte a sua atuação pedagógica. Assim, o equacionamento dos problemas e suas explicações estão circunstanciados às experiências de vida e de educadora, aos costumes, à tradição, ao senso comum. A profª B manifesta o desejo de dar a atenção a todas as solicitações das crianças, porque elas estão num processo de formação, de construção de suas personalidades. As crianças ainda não têm consciência do que é certo, errado, respeito, mentira, verdade etc. Procura estabelecer um diálogo com as crianças com a finalidade de suscitar algum tipo de provocação que as levem a refletir sobre os conteúdos que compõem os fatos/problemas, principalmente os de natureza moral, porque envolvem valores que devem ser, sobretudo, vivenciados por elas, como o respeito, a honestidade, a verdade, a justiça, a solidariedade, liberdade etc. Para a professora todos os fatos/problemas declinados, de forma mais explícita ou não, estão vinculados ao não cumprimento das regras estabelecidas. Neste sentido, ela está de acordo com a teoria de Piaget, cuja construção da moralidade está vinculada à maneira como as regras são concebidas pelo sujeito. Ao se referir, contudo, às regras em sala de aula, ela afirma que estas foram construídas em conjunto com as crianças, através de um processo de discussão, pois assim, “elas tendem a vivenciar estas regras de maneira mais presente”, afirma. Ao manifestar o ponto de vista da criança sobre o que é respeito, o seu entendimento é que a criança respeita porque as regras lhe são impostas por uma autoridade, mesmo que participe de sua construção. Embora as regras são construídas coletivamente, as crianças ainda não reúnem as condições para elaborá-las, com convicção. Portanto, com relação à construção das regras e à questão do respeito, esta professora estabelece uma coerência com a teoria de Piaget, segundo a qual as crianças nesta idade ainda respeitam as regras em virtude da presença da autoridade. É por isso que elas são submissas à coação externa, necessitando de alguém que as induza a elaborar as respectivas regras para sua convivência no grupo. Afirma não ter conhecimento de alguma teoria que fundamenta o seu entendimento sobre esses temas. As observações na vida cotidiana e ao longo do exercício do magistério lhe permitem ter esse tipo de compreensão. Sobre o egocentrismo, ela demonstra conhecimentos que são coerentes com a teoria de Piaget, inclusive cita-o como alguém que tem feito pesquisas sobre esta temática. E demonstra convicção que a sua forma de conceber o egocentrismo e a aquela de Piaget têm algumas semelhanças. Ao afirmar, por exemplo, que a criança é egocêntrica e simultaneamente 8 obedece à autoridade “porque ela não tem ainda uma estrutura cognitiva para fazer frente a algumas coisas bastante fortes”, ela está em sintonia com a teoria de Piaget. Explica, contudo, que este entendimento não é emanado de estudos sobre esta teoria - mesmo porque declara que nunca estudou Piaget, mas em base às suas experiências de educadora. Neste sentido, a professora é uma autoridade. E como autoridade ela tem poder, é forte. “A criança se sente incapaz de resolver problemas que surgem em seu convívio. Já a autoridade tem que resolvê-los. A criança espera da autoridade uma solução”. A criança obedece à autoridade porque essa detém a verdade. Além disso, indica a possibilidade de a criança vir a mentir, também em função da autoridade: ela mente de medo da autoridade e para evitar algum tipo de punição infligido por esta autoridade. Mas a criança não mente apenas motivada pela autoridade, mas por não ter ainda superado a fase egocêntrica, por não querer assumir a culpa de seus atos e para satisfazer suas fantasias. Há nessas manifestações uma certa coerência com a teoria de Piaget, apesar de ela afirmar não conhecer nenhuma teoria que fundamenta esse seu entendimento, e que suas explicações são provenientes de suas vivências, observações, experiência como educadora. Com relação à noção de justiça, do ponto de vista da criança, ela afirma que a criança tem uma concepção de justiça em base à lei do dente por dente e olho por olho. Assim, se alguém é agredido, também deve agredir na mesma medida. É a justiça de responder com a mesma moeda. Este entendimento está afinado com a teoria de Piaget denominada de justiça retributiva, materializada através de sanções por reciprocidade.Essa professora afirma não conhecer alguma teoria que fundamenta o seu entendimento, e utiliza as suas experiências do cotidiano e das atividades de educadora para criar suas convicções a respeito. Quanto ao ato de delação, ela se refere como sendo uma atitude própria dessa fase da criança, a qual procura a autoridade para delatar um colega que praticou um ato errado em função de infringir uma regra. A criança delata com a expectativa de ver punido este colega infrator. A presença da autoridade, representada pela professora, é a condição necessária para que se efetive um ato de delação. Assim que a autoridade punir o culpado, a criança vê realizadas suas expectativas de solução dos problemas. As explicações da professora estão coerentes com a teoria de Piaget, mas ela mesma afirma não ter conhecimento de alguma teoria que fundamenta esse seu entendimento, utilizando-se para isso de toda a sua experiência de longos anos de educadora e das observações cotidianas. Segundo suas manifestações, praticamente todos os fatos/problemas acima declinados foram equacionados de forma satisfatória, cujas ações pedagógicas viabilizaram a realização de suas expectativas como educadora. A razão principal dessa convicção é porque as crianças 9 não reincidiram em seus erros. E com exceção de um fato, os demais foram solucionados também de forma pedagógica, porque se efetivou através do diálogo e do questionamento, levando as crianças a refletir sobre suas atitudes, sobre os fatos ocorridos. E por serem esses fatos de natureza moral, a professora tem convicção de que em parte o equacionamento ocorreu também de maneira pedagogicamente adequada, pois houve diálogo e questionamentos. Reconhece não possuir muito embasamento teórico quando o assunto é de ordem moral. Declara não conhecer alguma teoria que fundamenta as suas ações pedagógicas com a finalidade de equacionar esses fatos/problemas. Para a sustentação de sua prática pedagógica, ela busca a explicação na experiência profissional e de vida, nos costumes, na tradição, no senso comum. Tão pouco sabe justificar a sua intervenção para o equacionamento desses mesmos fatos/problemas, a partir da teoria da moralidade, segundo Piaget. As manifestações das duas professoras expressam convicção de que os problemas de natureza moral, que ocorrem em sala de aula e em outras situações de aprendizagem, são todos pedagogicamente equacionados, em virtude de suas ações serem permeadas pelo processo de diálogo e questionamento. Indicam haver afinidade com a teoria de Piaget acerca do desenvolvimento da moralidade na criança, tanto aos aspectos referentes aos elementos cognitivos quanto aos morais. Porém, raramente elas fazem referências a essa teoria com o intento de fundamentar suas atuações pedagógicas e explicar seus conhecimentos a respeito de suas práticas pedagógicas. Entretanto, elas criam convicção e pontuam as suas próprias experiências de vida e principalmente as experiências no exercício da atividade de educadora como fontes de seus saberes para justificar as suas atuações e principalmente suas explicações. Já foi referido que uma das fontes da formação do educador é o saber experiencial, cujo conhecimento utilizado para o exercício da profissão de educador também é originado e construído dos saberes da experiência. A par dos conhecimentos já produzidos em escala significativa sobre o desenvolvimento cognitivo, afetivo e psicomotor da criança, e em menor escala, no que tange ao desenvolvimento da moralidade na criança, presume-se importante que haja a apropriação de um arcabouço teórico da última questão, por parte dos educadores, a fim de fazer frente aos desafios que permeiam o trabalho do profissional da educação. Isto leva a inferir que há necessidade do professor organizar seus procedimentos pedagógicos de forma a ter coerência com os conhecimentos acadêmicos, os quais supostamente proporcionariam uma maior eficiência e eficácia pedagógica. 10 Referências bibliográficas ANDRÉ, Marli Eliza Dalmazo Afonso de. Etnografia na prática escolar. Campinas, SP: Papirus, 1995. 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