UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA Erika Cristiane da Silva Avaliação da percepção visual de forma e tamanho em voluntários com estresse crônico Recife 2013 Erika Cristiane da Silva Avaliação da percepção visual de forma e tamanho em voluntários com estresse crônico Dissertação apresentada ao curso de Mestrado em Psicologia, do Programa de Pós-Graduação em Psicologia, da Universidade Federal de Pernambuco, como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Psicologia. Orientadora: Dra. Maria Lúcia de Bustamante Simas Recife 2013 Catalogação na fonte Bibliotecária Divonete Tenório Ferraz |Gominho.CRB-4 985 S586a Silva, Erika Cristiane da. Avaliação da percepção visual de forma e tamanho em voluntários com estresse crônico / Erika Cristiane da Silva. – Recife: O autor, 2013. 85 f. il. ; 30 cm. Orientadora: Prof.ª Dr.ª Maria Lúcia de Bustamante Simas. Dissertação (mestrado) - Universidade Federal de Pernambuco, CFCH. Programa de Pós-Graduação em Psicologia, 2013. Inclui bibliografia, apêndices e anexos. 1. Psicologia. 2. Percepção da forma. 3. Percepção de tamanho. 4. Estresse (psicologia). I. Simas, Maria Lúcia de Bustamante. (Orientadora). II. Titulo. 150 CDD (22.ed.) UFPE (CFCH2013-66) UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA CURSO DE MESTRADO Avaliação da percepção visual de forma e tamanho em voluntários com estresse crônico Comissão Examinadora: _________________________________________ Profa. Dra. Maria Lúcia de Bustamante Simas 1º Examinador/Presidente _________________________________________ Profa. Dra. Melyssa Kellyane Cavalcanti Galdino 2º Examinador _________________________________________ Profa. Dra. Ana Cristina Taunay Gusmão Cavalcanti 3º Examinador Recife, 28 de fevereiro de 2013 À minha Mãe, exemplo de coragem, determinação e autoestima. AGRADECIMENTOS Agradeço primeiro a DEUS. É nele que encontro o maior sentido da vida. À minha família que sempre se alegra a cada conquista realizada. Minha mãe, pelo exemplo; minhas duas irmãs, pela amizade, carinho, incentivo; meu irmão, por se alegrar nas minhas conquistas; meu pai, por se orgulhar de mim. Ao meu esposo, pelo cuidado, carinho e apoio. À minha orientadora, pela solicitude em várias ocasiões e pelos ensinamentos. À Ana Cristina Taunay, pela simpatia de sempre e colaborações logo quando iniciei o mestrado. À meiga Aline, pela disponibilidade e por ter partilhado suas experiências acadêmicas que tanto me ajudaram. À Vivi, Geórgia e Adriele que me receberam tão bem no LabVis e sempre se dispuseram a ajudar-me quando precisei. À Flora que esteve sempre disposta a cooperar. À Escola Maria da Conceição do Rêgo Barros Lacerda, especialmente às pessoas: Fernando Santos, Elizete Santos e Ana Cicalese, as quais foram tão hospitaleiras durante a coleta de dados. À Romana, pela disponibilidade de partilhar suas experiências de mestre e apoio de amiga. A tantas pessoas que direta ou indiretamente colaboraram comigo para a concretização desse sonho. “Viu Deus que a luz era boa”. (Genesis 1:4a) RESUMO O estresse crônico é um fator de risco para o desenvolvimento de várias desordens somáticas e/ou psíquicas. O presente estudo buscou investigar se pessoas com estresse crônico apresentam diferenças na percepção visual de forma e tamanho, fazendo uso de pinturas de Salvador Dali como teste experimental e de lâminas do teste de Rorschach. Foi comparado o grupo experimental (GE), composto por professores da rede de ensino público Estadual de Pernambuco, que apresentavam estresse crônico e o grupo controle (GC), que consistiu de pessoas que não apresentaram estresse. Para a triagem dos grupos foram usados o Mini Exame do Estado Mental e o Inventário de Sintomas de Stress para Adultos de Lipp (ISSL). Na etapa de teste foram usadas 10 fotografias de pinturas de Salvador Dali e também fotografias das 10 pranchas do Rorschach. Os voluntários foram instruídos a indicar, em cada fotografia, a figura percebida em primeiro lugar. Posteriormente, o diâmetro das figuras indicadas foi medido em milímetros. Os resultados foram transformados em grau de ângulo visual para análise estatística. A ANOVA, conforme segue: Dalí [(F9,270) = 0,90620, p < 0,52025] e Rorschach [(F9,270) = 0,54865, p < 0,83809], mostrou não haver diferenças entre os dois grupos, GE e GC. Portanto, este estudo não pode afirmar que há uma relação direta entre presença de estresse e alteração na percepção visual de forma e tamanho. Palavras-Chave: Percepção de Forma. Percepção de Tamanho. Estresse Crônico. Dali. Rorschach. ABSTRACT Chronic stress is a risk factor that may result in somatic and/or psychiatric disorders. The present study, investigated whether chronically stressed volunteers have the visual perception of form and size affected. To this end, we used 10 paintings by Salvador Dali and 10 plates of Rorschach's Test. Performance of chronically stressed teachers from a public school in Pernambuco, Recife, Brazil, formed the Experimental Group (EG) that was compared to a Control Group (CG) of volunteers free of chronic stress as assessed through the Mini Exame of Mental State (MMSE) and the Lipp's Inventory of Symptoms of Stress for Adults (LISS) in both groups. We used 10 paintings of Salvador Dali and the 10 plates of Rorschach. Volunteers were asked to point and circle the first image perceived as each figure was shown. The diameters of the pointed pictures were measured in milimeters and subsequently converted to visual angle. Results showed no differences between the groups either for Dalí [(F9,270) = 0,90620, p < 0,52025] or Rorschach [(F9,270) = 0,54865, p < 0,83809]. In conclusion, it is not possible to assume that Chronic Stress affects the visual perception of form and size. Key words: Perception of Form. Perception of Size. Chronic Stress. Dali. Rorschach. LISTA DE ILUSTRAÇÕES FIGURA 1: Os fotorreceptores da retina............................................................................. 20 FIGURA 2: A fóvea............................................................................................................. 21 QUADRO 1: Diferenças funcionais entre os três tipos de células ganglionares................. 22 FIGURA 3: o percurso da informação visual da retina ao córtex visual primário............... 23 FIGURA 4: As camadas do Núcleo Geniculado Lateral (NGL)......................................... 24 FIGURA 5: As regiões corticais do processamento visual, realizado pelas vias dorsal e ventral................................................................................................................................... 26 FIGURA 6: Estimativa do tamanho do grau de ângulo visual em função de 24 estímulos de Dali.................................................................................................................................. 29 FIGURA 7: Estimativa do ângulo visual em função do estímulo...................................... 29 FIGURA 8: Eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA)........................................................ 37 FIGURA 9: Estágios do estresse.......................................................................................... 38 FIGURA 10: Comparação da quantidade da substância cinzenta entre grupo experimental e controle........................................................................................................ 45 FIGURA 11: Média geral dos grupos experimental e controle........................................... 55 FIGURA 12: Médias dos grupos experimental e controle obtidas em cada imagem de Dali....................................................................................................................................... 55 FIGURA 13: Médias dos grupos experimental e controle obtidas em cada prancha de Rorschach............................................................................................................................. 56 FIGURA 14: Estimativa do grau de ângulo visual em função do estímulo (Pinturas de Salvador Dalí) do Grupo Experimental e do Grupo Controle.............................................. 57 FIGURA 15: Estimativa do grau de ângulo visual em função do estímulo (Pranchas do Rorschach) do Grupo Experimental e do Grupo Controle................................................... 57 FIGURA 16: Percentuais dos tipos de estresse do GE........................................................ 58 LISTA DE TABELA TABELA 1: Média e desvio padrão de cada grupo para cada categoria de estímulo...............54 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ACTH Hormônio Adrenocorticotrófico ANOVA Análise de Variância para Medidas Repetidas CBA Complexo Basolateral da Amígdala CID – 10 Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde CPF Córtex Pré-Frontal CRF Corticotropina DSM-IV Quarta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais Dp Desvio padrão GC Grupo Controle GE Grupo Experimental HHA Hipotálamo-Hipófise-Adrenal ISSL Inventário de Sintomas de Stress para Adultos de Lipp LABVIS Laboratório de Percepção Visual LISS Lipp's Inventory of Symptoms of stress for adults K Coniocelular M Magnocelular MEEM Mini-Exame do Estado Mental MMSE Mental State Examination NGL Núcleo Geniculado Lateral P Parvocelular PET Tomografia por Emissão de Pósitrons SNA Sistema Nervoso Autônomo TCLE Termo de Consentimento Livre e Esclarecido TEPT Transtorno de Estresse Pós-Traumático UFPE Universidade Federal de Pernambuco V1 Área Visual Primária V2 Área Visual 2 V3 Área Visual 3 V4 Área Visual 4 IVA Subcamada A da área visual 4 do córtex estriado IVB Subcamada B da área visual 4 do córtex estriado IVC Subcamada C da camada IV do córtex estriado IVCSub-região da subcamada C da área visual 4 do córtex estriado IVCSub-região da subcamada C da área visual 4 do córtex estriado V5 Área Visual 5 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO............................................................................................................... 15 2 A PERCEPÇÃO VISUAL DE OBJETOS................................................................... 18 2.1 Neurofisiologia do processamento visual................................................................... 19 2.1.1 As vias paralelas da retina ao tálamo......................................................................... 22 2.1.2 Processamento cortical, em série ou em paralelo?.................................................... 24 2.2As pesquisas com pinturas de Salvador Dali e as Pranchas de Rorschach como ferramentas de avaliação do processamento visual........................................................ 27 3 O ESTRESSE.................................................................................................................. 31 3.1 Breve histórico do estresse........................................................................................... 31 3.2 Concepções do estresse................................................................................................ 32 3.2.1 A síndrome geral da adaptação.................................................................................. 32 3.2.2 O modelo transacional do estresse............................................................................. 34 3.2.3 O modelo quadrifásico do estresse............................................................................. 35 3. 2.4 O estresse como allostasis ou allostatic load............................................................ 36 3.3 Resposta aos estressores.............................................................................................. 36 3.4 O estresse crônico......................................................................................................... 39 4. O ESTRESSE E A PERCEPÇÃO VISUAL................................................................ 42 4.1 O efeito do estresse em algumas áreas do cérebro.................................................... 42 4.2 O efeito do estresse no córtex visual........................................................................... 45 5 MÉTODO......................................................................................................................... 48 5.1 Objetivos....................................................................................................................... 48 5.1.1 Objetivo geral.............................................................................................................. 48 5.1.2 Objetivos específicos................................................................................................... 48 5.2 Local.............................................................................................................................. 48 5.3 Voluntários.................................................................................................................... 48 5.3.1 Critérios de inclusão................................................................................................... 48 5.3.2 Critério de exclusão.................................................................................................... 49 5.4 Participantes................................................................................................................. 49 5.5 Instrumentos................................................................................................................. 49 5.6 Procedimento de coleta de dados................................................................................ 51 5.7 Dificuldades encontradas............................................................................................. 52 6 RESULTADOS................................................................................................................ 54 7 DISCUSSÃO.................................................................................................................... 59 8 CONSIDERAÇÕES FINAIS......................................................................................... 62 REFERÊNCIAS................................................................................................................. 63 APÊNDICE A - Termo de consentimento livre e esclarecido............................................ 72 APÊNDICE B - Carta de anuência..................................................................................... 75 ANEXO A - Protocolo de entrevista clínica........................................................................ 77 ANEXO B - Mine exame do estado mental........................................................................ 81 15 1 INTRODUÇÃO O presente trabalho é fruto de um estudo exploratório que teve o objetivo de avaliar a percepção visual de forma e tamanho em voluntários com estresse crônico. O estresse crônico pode afetar várias áreas de funcionamento biopsíquico (ANDERSEN et al., 2008; CHOI et al., 2012; GONZÁLEZ; ESCOBAR, 2006; HANSON et al., 2012; JOËLS; KRUGERS; KARST, 2008; JOËLS; MORALES-MEDINA et al., 2009; LOVALLO et al., 2010; McEWEN, 2006; TOMODA et al., 2009, 2012; YANG et al., 2008). Em seres humanos, um dos principais marcadores fisiológicos do estresse é a ativação do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA), caracterizado pela liberação da adrenalina, na fase inicial do estresse, e do glicocorticóide cortisol, o qual tenta promover a resistência do organismo à ação do(s) estressor(es) (CHROUSOS, 2009; DEDOVIC et al., 2005; KLOET; JOËLS; HOLSBOER, 2005). Esses reguladores químicos promovem uma reação de adaptação em busca da homeostase (SELYE, 1965). Se esta busca persistir por um longo período de tempo, o estresse passa a ser prejudicial, caracterizando o estresse crônico e podendo comprometer o bom funcionamento orgânico (CHROUSOS, 2009; McEWEN; ULRICH-LAI; HERMAN, 2009; WINGFIELD, 2010). O estresse crônico tem sido relacionado, entre outras coisas, à redução de neurônios no córtex visual (CHOI et al., 2012; OLIVARES, et al., 2010; TOMODA et al., 2009, 2012). Tomoda et al. (2009; 2012) propuseram que este efeito, produzido pelos estressores, ocorreu devido a uma cascata de eventos que incluem a excessiva exposição a hormônios, como o cortisol. Se o estresse crônico provoca mudanças morfológicas numa das mais importantes áreas do processamento visual, tais efeitos também acarretariam disfunções na percepção visual? Estudos recentes têm sugerido que as pinturas de Salvador Dali podem ser uma ferramenta favorável na detecção de alterações na percepção visual de forma e tamanho em portadores de Esquizofrenia (MENEZES, 2008; NOGUEIRA, 2006; SIMAS et al., 2011). Considerando que o estresse crônico é um fator de risco que antecede surtos psicóticos (CORCORAN et al., 2003; CORTEZ; SILVA, 2007; LISTON; McEWEN; CASEY, 2009), buscou-se investigar, neste trabalho, se as pessoas com estresse crônico submetidas ao mesmo teste experimental apresentariam respostas semelhantes às encontradas no estudo com portadores de esquizofrenia. 16 Embora as alterações sensoriais na esquizofrenia estejam sendo amplamente abordadas e discutidas na literatura ainda são necessários mais estudos que contribuam para a prevenção de tais surtos (MAJ; SARTORIUS, 2005; LOUSÃ, 2007). Nesta perspectiva, as pesquisas que investigam os aspectos antecedentes da instalação da psicose, como exemplo, o estresse crônico, podem trazer colaborações importantes. (CORCORAN et al., 2003; CORTEZ; SILVA, 2007; LISTON; McEWEN; CASEY, 2009). Tal como ocorre com as patologias listadas na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10) e na quarta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV), não encontramos o estresse como doença física ou psíquica. Ele é referido como um dos itens que compõe as prováveis causas de uma enfermidade (BRADLEY; DINAN, 2010; CORCORAN et al., 2003; CORTEZ; SILVA, 2007; McEWEN, 2007; LIPP, 2006; LISTON; McEWEN; CASEY, 2009). Desse modo, é a forma crônica do estresse que pode ser disparadora de inúmeras doenças geneticamente programadas, como a Esquizofrenia, as quais permaneceriam latentes na ausência de estressores contínuos; de doenças oportunistas que se aproveitam da queda da imunidade para instalar-se no organismo; e de doenças cardíacas, gastrointestinais e etc. (BRADLEY; DINAN, 2010; LIPP, 2006). Além disso, a exposição ao estresse crônico pode alterar morfologicamente áreas do processamento visual (CHOI et al., 2012; OLIVARES, et al., 2010; TOMODA et al., 2009, 2012). Feitas as considerações acima, vale ressaltar que presente dissertação está subdividida em oito capítulos. O primeiro refere-se à introdução em pauta. Os capítulos 2, 3 e 4 juntos compõe o marco teórico. Eles tratam, respectivamente, da percepção visual de objetos, do estresse e da relação entre estresse e percepção visual. No capítulo dedicado a percepção visual, é descrito o processamento visual desde a retina até as áreas associativas. No final, é discutido sobre as pesquisas com o uso das fotografias das pinturas de Salvador Dali como instrumento de avaliação da percepção de forma e tamanho. O capítulo reservado ao estresse traz inicialmente um breve histórico do mesmo, passando pelas suas principais concepções teóricas, a resposta aos estressores e o estresse crônico. E o capítulo que relaciona estresse a percepção visual discute algumas pesquisas que relacionam o estresse crônico a alterações morfofisiológicas em algumas áreas cerebrais, destacando, no final, as alterações no córtex visual. 17 O quinto capítulo trata do método, explanando os objetivos deste trabalho, bem como o local da coleta de dados, os critérios de inclusão e exclusão que os voluntários foram submetidos, os participantes do estudo, os instrumentos e procedimentos utilizados para a coleta de dados e por fim as dificuldades encontradas durante tal coleta. O sexto e o sétimo capítulos trazem, respectivamente, os resultados e discussão dos dados coletados. Na discussão é feita uma reflexão sobre o estresse em professores (sujeitos da pesquisa). Em seguida é feita uma comparação dos resultados desta pesquisa com resultados de pesquisas anteriores que utilizaram as fotografias de pinturas de Salvador Dali como ferramenta de investigação da percepção visual. Por fim, no oitavo capítulo, a conclusão traz sugestões sobre futuras pesquisas que possam contribuir para ampliar as reflexões do presente estudo, e quem sabe, responder a questões suscitadas pelo mesmo. 18 2 A PERCEPÇÃO VISUAL DE OBJETOS A psicologia, quando emergiu como ciência, apoiou-se no estudo da sensação e percepção. Nessa época, o médico e fisiologista Wilhelm Wundt (1832-1920) conduziu uma série de estudos neste campo, fundando a Psicologia Experimental. Continua sendo interesse da Psicologia Experimental a investigação de algo tão amplo e complexo como a percepção, notadamente o fascinante campo da percepção visual (SCHIFFMAN, 2005). Várias abordagens teóricas surgiram ao longo da história para investigar a percepção visual, dentre elas: o Estruturalismo, a Psicologia da Gestalt, a Abordagem Computacional e a Psicologia Sensorial. Esta última, devido ao enfoque deste trabalho, receberá mais atenção. O estruturalismo tem como base o método de estudo das ciências naturais, a qual tinha como objetivo descobrir a estrutura dos elementos básicos da matéria. Edward Bradford Titchener (1986-1927), um dos mais influentes alunos de Wundt, influenciado por tal método, decidiu pesquisar a estrutura da percepção. Sendo assim, ele propôs que a psicologia deveria se preocupar com os elementos constituintes da percepção, ou seja, com as sensações elementares (SCHIFFMAN, 2005). Eram característicos dos estudos de Wundt, tal como era de se esperar de um método quantitativo das ciências naturais, a construção de hipóteses, a verificação experimental e o elementarismo1 (ENGELMANN, 2002). No entanto, por mais que esta metodologia e seus resultados tenham tradição, a mesma não agradou a muitos pesquisadores da psicologia da época e de épocas posteriores. Tal insatisfação fez com que outras formas de estudar e compreender a percepção fossem se desenvolvendo e eclodindo, como a abordagem denominada Gestalt. A Teoria da Gestalt nasceu por volta de 1910 na Alemanha, partindo da oposição à visão elementarista do estruturalismo. Esse estudo começou com a investigação da sensação e percepção do movimento, realizado por Max Wertheimer (1880-1943), em parceria com Wolfgang Köhler (1887-1967) e Kurt Koffka (1886-1941). Em linhas gerais, a partir dos experimentos psicofísicos realizados por eles, defenderam a tese de que a gestalt2 é anterior à existência das partes. Com efeito, a gestalt vai se opor ao status quo da época, ao estruturalismo (ENGELMANN, 2002; SCHIFFMAN, 2005). 1 Metodologia, utilizada por grande parte de cientistas da época, que estudavam o objeto de interesse partindo dos seus elementos constituintes (ENGELMANN, 2002) 2 Configurações articuladas, indivisíveis, organizadas (ENGELMANN 2002). 19 Outra forma de explicar a percepção é a abordagem computacional, a qual é baseada na monografia de David Marr (1945-1980). Ele propôs “que a percepção de características como as formas requer do observador um modo de resolução de problemas ou de processamento de informações dos estímulos ambientais” (SCHIFFMAN, 2005, p.6). Esses estímulos ambientais são quinas, bordas, contornos, movimento e outras descontinuidades. Esta forma de explicar a percepção é similar ao processamento de informações tal como ocorre com programas de computadores. Para uma compreensão acerca da percepção visual é imprescindível uma análise dos processos neurofisiológicos nela envolvidos (BEAR; CONNORS; PARADISO, 2008, LENT, 2010). 2.1 Neurofisiologia do processamento visual O olho humano é um órgão que apresenta uma anatomofisiologia especializada para a detecção, localização e fototransdução da luz. Descrevendo brevemente o caminho da luz até a formação da imagem no fundo do olho, pode-se dizer que ela incide na córnea, superfície vítrea transparente, passando pela pupila, abertura cercada pela íris, atravessando o humor aquoso, fluido que nutre a córnea. Em seguida os raios luminosos passam pelo cristalino, estrutura transparente localizada por detrás da íris, pelo humor vítreo, o qual é viscoso e gelatinoso, até chegar à retina, local que possui fotorreceptores, responsáveis pela transformação da energia luminosa em sinais neurais (BEAR; CONNORS; PARADISO, 2008; LENT, 2010; SCHIFFMAN, 2005). Todas as estruturas anatômicas do olho colaboram de alguma forma para que a imagem de determinado campo visual3 seja formada sobre a retina. Esta é especializada na detecção de diferenças na intensidade da luz incidente. A retina consegue isso graças a dois tipos celulares que especialmente a constitui, os fotorreceptores, conhecidos como bastonetes e cones. Eles estão localizados na última camada da estrutura laminar que perfaz toda a retina (Figura 1) (BEAR; CONNORS; PARADISO, 2008; LENT, 2010; PURVES et al., 2010; SCHIFFMAN, 2005). 3 Campo visual é o espaço total que pode ser visto pela retina quando o olhar está fixo em um ponto à frente. (BEAR; CONNORS; PARADISO, 2008). 20 FIGURA 1: Os fotorreceptores da retina A luz atravessa todas as camadas da retina até atingir os fotorreceptores, os quais são sensíveis à luz. Em destaque, as células que constituem a retina. Fonte: http://sites.ifi.unicamp.br/lf22/curiosidades2/olho-humano/ Tanto bastonetes como cones apresentam um segmento celular contendo uma pilha de discos membranosos, local onde é realizada a fototransdução. Morfologicamente, o que os diferenciam é o fato do seguimento do primeiro ser longo e cilíndrico, com mais discos membranosos, enquanto o segundo apresenta um seguimento mais curto que gradualmente diminui de espessura, com menor quantidade de discos membranosos (BEAR; CONNORS; PARADISO, 2008; LENT, 2010). Considerando que tais discos apresentam fotopigmentos (sensíveis à luz), acoplados à sua membrana, os bastonetes são capazes de responder a baixos níveis de estimulação luminosa, enquanto os cones respondem a níveis mais elevados de iluminação. O que cada receptor capta é um determinado comprimento de onda. Além de receber a luz, os receptores tem a tarefa de traduzi-la em alterações do potencial de membrana, para assim o estímulo luminoso poder ser transformado em sinal neural (BEAR; CONNORS; PARADISO, 2008; GAZZANIGA; IVRY; MANGUN, 2006; LENT, 2010; PURVES et al., 2010). Cones e bastonetes são distribuídos diferentemente na retina. A retina, na sua porção periférica, é rica em bastonetes, o que faz tal região retiniana ser mais sensível à luz e em contrapartida com menos poder de resolução visual. No centro da retina, exatamente na fóvea, uma pequena depressão torna a retina mais delgada. Neste ponto, que é constituída somente 21 por fotorreceptores, há uma grande densidade de cones (Figura 2). Estes, por detectarem luz de diferentes faixas de comprimentos de onda são especialistas na visão de cores e de alta resolução (LENT, 2010; PURVES et al., 2010). FIGURA 2: A fóvea Na fóvea há um afastamento permanente das células bipolares e ganglionares, permitindo que a luz incida diretamente nos cones, o que o torna especializado na visão de cores e de alta resolução. Fonte: http://ocularis.es/blog/?p=16 A resolução da visão é medida em graus de ângulo visual, ou seja, a capacidade do olho em distinguir a separação angular entre dois pontos no espaço (BEAR; CONNORS; PARADISO, 2008). É a alta resolução da fóvea que permite a acuidade visual. Esta costuma ser testada nos consultórios oftalmológicos e em estudos envolvendo a percepção visual4. Durante percepção de uma cena natural, passamos nossos olhos cerca de três vezes a cada segundo através de movimentos oculares rápidos (sacadas), de modo que o objeto de interesse seja centrado na alta resolução fóvea (PAJAK; NUTHMANN, 2013). Essa exploração do campo visual permite selecionar informações a serem extraídas de uma cena (SCHIFFMAN, 2005). O tamanho dos objetos percebidos através do sistema visual é codificado pelo ângulo visual sobre a retina. Tal abertura depende da distância do objeto. Através de um mecanismo visual chamado "constância de tamanho”, o sistema visual executa um reescalonamento automático de abertura visual, conforme a distância do objeto, sem que o objeto percebido 4 Para Bicas (2002), o teste da acuidade visual adequar-se principalmente à medida da capacidade de discriminação de formas e contrastes. Este autor ressalta que o registro de um valor de acuidade visual depende dos componentes da percepção e da cognição. 22 pareça se encolher ou se expandir enquanto sua distância muda. (HEINRICH; WIEGREBE, 2013; SCHIFFMAN, 2005). 2.1.1 As vias paralelas da retina ao tálamo Os fotorreceptores estabelecem conexões com as células bipolares, as quais estabelecem via direta até as células ganglionares. As células amácrimas e horizontais influenciam o processamento visual atuando nos fotorreceptores, células bipolares e células ganglionares (voltar à figura 1) (BEAR; CONNORS; PARADISO, 2008). Três tipos morfofuncionais de células ganglionares parecem desempenhar diferentes papéis no processamento visual: (1) as células do tipo M (magnocelular), aproximadamente 10% das células ganglionares, apresentam soma e dendritos grandes; (2) as células tipo P (parvocelular), perfazendo cerca de 80%, apresentam soma pequeno, comparado as células tipo M, porém árvores dendríticas bem ramificadas. E (3) as células tipo K (coniocelular), menos frequentes, são células menores que as do tipo P (LENT, 2010). Os axônios das células M, P e K são projetados ao NGL (Núcleo Geniculado Lateral) de uma forma interessante. Os tipos celulares citados se trifurcam rumo ao tálamo (local onde se localiza o NGL), constituindo três vias ou canais de processamento de informações visuais: o canal M, o canal P e o canal K. A tabela a seguir mostra as diferenças entre eles (LENT, 2010; PURVES et al., 2010). Quadro 1: Diferenças funcionais entre os três tipos de células ganglionares Magnocelular Parvocelular Coniocelular - Apresentam-se em menor quantidade. - Parece está ligado à detecção de objetos em movimentos. - Maiores campos receptivos. - Condução rápida de potenciais de ação no nervo óptico. - São mais sensíveis a estímulos com baixos contrastes. - Respondem à estimulação dos centros de seus campos receptivos com uma série rápida e transitória de rajadas de potenciais de ação. - São abundantes em quantidade; - Apresenta função possivelmente ligada à detecção e análise fina da forma dos objetos. - Detecta e analisa a cor de objetos. - Menores campos receptivos. - Respondem à estimulação do centro de seus campos receptivos com uma descarga sustentada de potenciais de ação, que persiste enquanto persistir o estímulo. - Possui função relacionada à detecção de cores. Fonte: BEAR, M. F.; CONNORS, B. W.; PARADISO, M. A. Neurociências: desvendando o sistema nervoso. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2008. 23 As células ganglionares apresentam sensibilidade a contrastes e comprimentos de ondas de luz. Elas são as únicas na retina a dispararem potencial de ação, sendo também únicas a projetar axônios da retina para o restante do encéfalo. São estes axônios que constituem o nervo óptico. Parte das fibras que o constitui dirige-se para o diencéfalo, na região do tálamo, especificamente para o NGL, o qual recebendo fibras nervosas provenientes das células ganglionares retinianas, de cada olho, envia radiações ópticas ao córtex visual primário (Figura 3) (LENT, 2010; PURVES et al., 2010). FIGURA 3: o percurso da informação visual da retina ao córtex visual primário A informação visual que vem da retina passa pelo NGL, o qual as envia para o córtex visual primário. Fonte: adaptado de BEAR, M. F.; CONNORS, B. W.; PARADISO, M. A. Neurociências: desvendando o sistema nervoso. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2008. Vistos em uma secção transversal, macroscopicamente, cada NGL é constituído por seis camadas. Convencionou-se que elas fossem enumeradas de 1 a 6, sendo que cada qual recebe aferências de axônios do trato óptico e envia eferências até o córtex visual. Tendo em vista o grande tamanho de seus neurônios, as camadas 1 e 2 (inferiores ou ventrais) são denominadas sistema magnocelular, o qual recebe aferências de axônios M. As camadas 3, 4, 5 e 6 (superiores ou dorsais) constituem o sistema parvocelular, já que apresentam neurônios pequenos e recebem aferências das células P. Nos espaços interlaminares dessas camadas há neurônios ainda menores, os coniocelulares, os quais recebem aferênicas de axônios ganglionares K (Figura 4) (BEAR; CONNORS; PARADISO, 2008; GAZZANIGA; IVRY; MANGUN, 2006; LENT, 2010; PURVES et al., 2010). 24 FIGURA 4: As camadas do Núcleo Geniculado Lateral (NGL) NGL Parvocelular NGL Magnocelular Fonte: Adaptado de BEAR, M. F.; CONNORS, B. W.; PARADISO, M. A. Neurociências: desvendando o sistema nervoso. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2008. 2.1.2 Processamento cortical, em série ou em paralelo? As vias M e P dispõem-se de forma segregada em todo o sistema retino-geniculoestriado. As mesmas funções, descritas anteriormente (Quadro 1) sobre as células ganglionares M e P continuam igualmente no NGL e nas suas aferências de axônios até o córtex estriado5 (BEAR; CONNORS; PARADISO, 2008). Esta região cortical é constituída por cerca de seis camadas, conforme a convenção estabelecida por Brodmann, cada uma referida por um algarismo romano. A camada IV é atualmente subdividida em três camadas (IVA, IVB e IVC, esta última subdividida em IVC e IVC) (BEAR; CONNORS; PARADISO, 2008; KANDEL; SHUARTZ; JESSEL, 2002). É na camada IVC que terminam a maioria dos axônios oriundos do NGL. Os fluxos da informação visual, presentes nas camadas magno e parvocelulares do NGL, permanecem anatomicamente segregados na camada IVC. As camadas II e III recebem eferências de axônios das camadas coniocelulares do NGL (BEAR; CONNORS; PARADISO, 2008). É 5 É no lobo occipital do cérebro dos primatas que se localiza o córtex estriado, também conhecido por córtex visual primário, área 17 de Brodmann e área visual 1 (V1). (BEAR; CONNORS; PARADISO, 2008). 25 bom lembrar que se deve aos estudos pioneiros, no início da segunda metade do século XX, realizados por Hubel e Wiesel6, as bases sistemáticas da fisiologia do córtex estriado. Pesquisas realizadas por eles, estudando o campo receptivo7 de células do córtex estriado de gato e depois de macaco, evidenciaram que as células da área 17 respondiam preferencialmente para estímulos que apresentavam uma determinada orientação e configuração de formas. É com base nesses estudos que se fala no processamento hierárquico ou serial (HUBEL; WIESEL, 1962, 1968). Foi proposta a existência de uma hierarquia de áreas, partindo de V1, com complexidade crescente, visto que os campos receptivos vão se tornando progressivamente mais complexos, na medida em que vão se direcionando às regiões extra-estriadas do córtex. Vale considerar que nessas áreas as células respondem seletivamente a formas mais complexas e movimentos de objetos (BEAR; CONNORS; PARADISO, 2008). Diferente do modelo hierárquico, estudos com primatas, que sofreram lesões em áreas do córtex extra-estriadas, mostraram existir duas vias corticais (vias paralelas) para a percepção visual. São as vias dorsal e ventral. Essas regiões partem do córtex extra-estriado e frequentemente recebem aferências da área para a qual se projetam, ocorrendo extensos padrões de convergências e divergências de vias de processamento visual (GAZZANIGA; IVRY; MANGUN, 2006; GOODALE; MILNER, 1992; KANDEL; SHUARTZ; JESSEL, 2002). A via dorsal, que se direciona ao lobo parietal, parece relacionar-se a análise do movimento visual, bem como para o controle visual da ação. Esta via permite, por exemplo, a determinação de onde está um objeto (Figura 5) (GAZZANIGA; IVRY; MANGUN, 2006; GOODALE; MILNER, 1992). 6 As contribuições dadas por eles conferiu-lhes o Prêmio Nobel de medicina e fisiologia, em 1981. (SCHIFFMAN, 2005) 7 Campo receptivo é região do campo visual ou a região correspondente da retina que, quando adequadamente estimulada, excita ou inibe o padrão de disparo do potencial de ação de uma célula sensorial. (SCHIFFMAN, 2005). 26 FIGURA 5: As regiões corticais do processamento visual, realizado pelas vias dorsal e ventral. Fonte: Adaptado de KANDEL, E. R.; SHUARTZ, J. H.; JESSEL, T. M. Princípios da Neurociência. 4 ed. São Paulo: Manoele, 2002. Por outro lado, a via ventral parte de V1 em direção ao lobo temporal. As propriedades de seus neurônios parecem está ligadas ao reconhecimento de objetos, envolvendo a percepção tanto da forma quanto da cor, determinando o quê se está olhando (BEECK et al., 2008; GOODALE; MILNER, 1992; ). Para Gazzaniga, Ivry e Mangun (2006), a percepção da forma é o objetivo essencial da visão, visto não existirem registros clínicos de paciente cegos à forma. Eles argumentam que a percepção da cor serve a forma, já que não podemos falar em cor, sem antes existir uma forma para mesma. Estudos com indivíduos que apresentam lesões restritas nas áreas corticais extraestriais da via ventral indicam que a análise da forma dos objetos é apenas iniciada pelo córtex estriado, continuando ao longo da via mencionada. O córtex ínfero-temporal parece conter céulas gnósicas (do grego gnosis, saber), relacionadas à percepção visual da forma, visto que lesões nesse local fazem indivíduos perderem a capacidade de reconhecer objetos, desenhos e faces, sem, contudo, perder a percepção espacial (BEECK et al., 2008; LENT, 2010; PURVES, 2010). Gazzaniga, Ivry e Mangun (2006) preferem chamar o processamento de duas vias de processamento convergente (termo cunhado por David Van Essen, Universidade de Washington), o qual enfatiza a natureza analítica da percepção, com a estratégia de dividir (divisão de trabalho) para conquistar (ESSEN; GALLANT, 1994). É como se as informações visuais fossem dividas em subsistemas especializados, os quais, de forma interativa, trabalham para constituírem a cena visual. Nesse sentido, Bear, Connors e Paradiso, (2008) assemelham a percepção visual a uma orquestra de áreas visuais. 27 Conforme Lent (2010), pesquisas fundamentadas no modelo hierárquico e no modelo paralelo continuam coexistindo. Diante do fato das pesquisas sobre percepção visual estarem ainda na tentativa de elucidar muitos problemas ainda não respondidos, é mais razoável não escolher um modelo como o único capaz de explicar a neurofisiologia visual. Alternativa é considerar que o entendimento do processo de reconhecimento dos objetos pode ter dois modos de processamentos: o bottom-up e o top-down. O primeiro acredita que as informações sensoriais fornecidas pelos receptores se combinam com mecanismos involuntários do sistema visual para construir e formar padrões e formas identificáveis. Já o segundo envolve níveis de análise abstrata, superiores e globais, relacionados com a experiência, o conhecimento, o significado e as expectativas que o observador atribui às imagens percebidas (GOLDSTEIN, 2010; SCHIFFMAN, 2005). Estudos recentes utilizando as pinturas de Salvador Dali como estímulos visuais (SIMAS et al.,2011), conforme será discutido a seguir, parecem lançar mão desses dois modos de processamento. 2.2 As pesquisas com pinturas de Salvador Dali e as Pranchas de Rorschach como ferramentas de avaliação do processamento visual Como já foi dito anteriormente, o processo de reconhecimento dos objetos do mundo a nossa volta pode lançar mão de dois mecanismos de processamentos visuais: o bottom-up e o top-down. Um caso interessante de integração entre esses dois processamentos ocorre na pareidolia, “a percepção equivocada de algo claro e distinto a partir de um estímulo vago e obscuro” (MARANHÃO-FILHO; VINCENT, 2009, p.1117). Esse fenômeno está presente nas síndromes psicóticas (também podendo ser observada, com intencionalidade, por pessoas saudáveis) e pode ser bem ilustrado nas pinturas de Salvador Dalí (SIMAS et al., 2011). Simas et al.(2011) vem realizando estudos nesse sentido, utilizando as pinturas de Dali. Os achados desses estudos revelam que a população estudada, portadores de Esquizofrenia, escolheram imagens que requerem bordas de vários objetos para formar uma única figura, o que resulta em proporções muito ampliadas da imagem escolhida. Simas et al. preferem chamar esse fenômeno de concatenação de formas, para não ser confundido com a pareidolia, apesar de ambos fenômenos serem semelhantes. Para estes pesquisadores a concatenação de formas ocorre durante o agravamento dos sintomas positivos da Esquizofrenia, ou seja, delírios, alucinações e ilusões. 28 Nogueira (2006), pioneira a realizar estudos testando os quadros de Salvador Dali, revelou na sua pesquisa que as pessoas acometidas pela Esquizofrenia viam tamanhos de figuras em média três vezes maiores do que as indicadas pelo grupo controle. Para esta pesquisadora, uma das explicações hipotéticas para a preferência por figuras maiores entre o grupo experimental seria uma alteração nos canais visuais parvocelular. Déficits no processamento visual, em portadores de Esquizofrenia já são confirmados por estudos científicos (KIM et al., 2006; KANTROWITZ et al., 2009; NOGUEIRA, 2010). O resultado desse estudo motivaram outras pesquisas que replicaram e aprimoraram o primeiro estudo. Uma dessas pesquisas procurou verificar se os quadros do pintor Salvador Dali podem ser ferramentas para investigar possíveis alterações na percepção visual, relacionadas a episódios depressivos, tal como parece ter sido útil no estudo de pessoas com Esquizofrenia. No entanto, não foi encontrada diferença estatisticamente significante nas respostas dos sujeitos experimental e controle (LACERDA, 2008). Outro estudo replicou este estudo pioneiro e encontrou mais uma vez a diferença de escolhas de tamanhos entre grupo experimental (GE), pessoas com Esquizofrenia, e controle (GC), pessoas saudáveis. Os resultados indicaram que pessoas com Esquizofrenia escolheram figuras em média 1,51 (pelo menos uma vez e meia) maiores que as figuras escolhidas pelas pessoas saudáveis (figura 6) (MENEZES, 2009). Diante dos resultados dos três estudos citados, Modesto (2012) realizou uma pesquisa, semelhante as três acima, realizadas por Nogueira (2006), Lacerda (2008) e Menezes (2009). Ela acrescentou mais dois grupos de estímulos visuais para investigar a percepção visual de pessoas com Esquizofrenia. Foram eles, as pranchas do Rorschach8 e pinturas de Bev Doolittle9. Os resultados (figura 7) mostraram que o GE escolheram figuras maiores do que o GC, nos três grupos de estímulos, reforçando os achados dos estudos de Nogueira (2006) e Menezes (2009). 8 É um teste projetivo, elaborado por Hermann Rorschach em 1918, composto por 10 lâminas com manchas de tinta simétricas, o que lhe confere a característica de proporcionar a percepção de figuras ambíguas. (JACÓVILELA et al., 2010). Modesto (2012) utilizou as pranchas de Rorschach da mesma forma como utilizou Dali, ou seja, ela fez uso dele como ferramenta para a avaliação de possíveis alterações na percepção visual de forma e tamanho. 9 Nas palavras de Modesto (2012, p.72), ”Uma das características mais marcantes em suas obras é a utilização de técnicas de camuflagem em que alguns detalhes de sua arte podem ser vistos de maneiras distintas”. Numa mesma pintura deste artista, cada observador pode observar uma forma, uma figura diferente. 29 FIGURA 6: Estimativa do tamanho do grau de ângulo visual em função de 24 estímulos de Dali. Situações experimentais e controle (Menezes, 2009). FIGURA 7: Estimativa do ângulo visual em função do estímulo (A) 30 (B) (A) Dalí e (B) Rorschach, mostrando os resultados do Grupo Experimental e do Grupo Controle (MODESTO, 2012). Tanto os tamanhos escolhidos em Dali, como em Rorschach pelo GC são em torno de 10 (dez) graus de ângulo visual. Simas et al. (2011) consideram que as alterações cognitivas na Esquizofrenia são precedidas por alterações sensoriais. Além disso, argumentam que este efeito de percepção de forma e tamanho alterados pode servir como marcador no diagnóstico precoce de sintomas positivos na Esquizofrenia, o que pode conferir a essas pinturas um relevante instrumento de avaliação, detectando a possibilidade do surto antes do mesmo ocorrer e prevenindo o agravamento dos sintomas cognitivos. As alterações sensoriais, típicas nos quadros de Esquizofrenia, já estão bem descritas e discutidas na literatura. Entretanto, pesquisadores apontam que ainda são necessários estudos que contribuam para a prevenção de tais surtos (MAJ; SARTORIUS, 2005; LOUSÃ, 2007). Nessa perspectiva, parece relevante investigar aspectos antecedentes da instalação da psicose, como exemplo, o estresse crônico (CORCORAN et al., 2003; CORTEZ; SILVA, 2007; LISTON; McEWEN; CASEY, 2009). Uma possibilidade interessante seria utilizar os mesmos estímulos dos estudos citados acima em pessoas que apresentem estresse e avaliar as respostas dos sujeitos, comparando com estes estudos anteriores. 31 3 O ESTRESSE Quando o homem não consegue responder satisfatoriamente às pressões do meio, pode ocorrer uma ameaça à sua homeostase, tendendo ao desequilíbrio orgânico e/ou psíquico. Não obstante, o ser humano dispõe de mecanismos biológicos para lidar neuroquimicamente com as situações adversas (CHROUSOS, 2009; CORTEZ; SILVA, 2007; 2008; ULRICH-LAI; HERMAN, 2009). Vale lembrar que os reguladores químicos que ajudam o organismo no enfrentamento de estressores, se acionados por um longo período, em algum momento reduz sua produção, o que deixa o organismo mais susceptível às doenças (somáticas e/ou psicológicas) (CORTEZ; SILVA, 2007; 2008; HERMAN et al., 2012; McEWEN, 2008). É no contexto acima que o termo estresse costuma ser empregado, ou seja, como sendo um considerável fator de risco para o desenvolvimento de inúmeras doenças, já que pode afetar vários órgãos. Essa idéia tem recebido muito destaque, tanto pela mídia popular, como meios de comunicação científicos (BAUER, 2002; GLEI et al., 2007; LIPP, 2006; McEWEN, 2005). De um modo geral, o termo estresse é muitas vezes utilizado como sinônimo de estressores e adoecimento. Por isso, vale ressaltar que os três estão ligados entre si, porém, cada qual possui suas próprias características, como está explicado adiante (CORTEZ; SILVA, 2007). 3.1 Breve histórico do estresse A palavra estresse é a versão em português do vocábulo inglês stress. Esse termo foi inicialmente utilizado na Física e significa literalmente tensão. Nesta ciência, tensão é conceituada como o grau de deformidade sofrido por um material quando submetido a um esforço ou pressão (HALLIDAY; RESNICK;WALKER, 2001). Sem encontrar uma palavra que melhor caracterizasse o resultado de seus experimentos, o endocrinologista Hans Selye fez uso do termo stress para falar da soma de todas as reações sistêmicas não específicas que surgiram nos animais estudados (ratos), após uma longa e continuada exposição a diversos estressores. Reações não específicas, porque elas eram independentes do estímulo estressor utilizado (frio, exercícios físicos intensos e etc). 32 É provável que Selye não imaginasse que sua descoberta iria se popularizar tanto. A partir dele surgiram outros estudos utilizando o termo estresse como vocábulo científico. Alguns estudos continuaram a falar de estresse privilegiando a sua base original, a fisiologia, o que promoveu avanços nos conhecimentos sobre a regulação endócrina promovida a partir de estímulos estressores (ANTUNES-RODRIGUES, et al., 2005; CHARMANDARI; TSIGOS; CHROUSOS, 2005; McEWEN, 2008). Outros, a exemplo Lazarus e Folkman (1984), propuseram uma vertente cognitiva de conceber o estresse. Estes foram além, propondo uma ferramenta que investiga o modo como o indivíduo enfrenta os estressores. Ainda surgiram pesquisadores, a exemplo Marilda Lipp (2005), no Brasil, que criaram instrumentos de detecção do estresse, bem como estratégias cognitivas de preveni-lo e enfrentá-lo. Somado a popularização do termo estresse (McEWEN, 2000), críticas surgiram em torno do emprego do mesmo na ciência (CASTIEL, 2005; FIGUEIRAS; HIPPERT, 1999; WITTER, 2003). Figueiras e Hippert (1999) salientam que não se tem muita clareza do que é estresse, já que existem muitas definições para o mesmo termo. Vários autores (FIGUEIRAS; HIPPERT, 1999; McEWEN, 2005; WITTER, 2003) chamam a atenção para o fato de se tomar os agentes estressores como sinônimo de estresse, é o que torna o termo um tanto ambíguo. McEwen (2005) também lembra que é comum o termo estresse ser utilizado para referir tanto ao estresse bom (eutresse) como ao estresse mau (distresse). E ainda, Cortez e Silva (2007) argumentam que a ansiedade costuma ser confundida com estresse, embora, lembram estes, que ela esteja presente num quadro de estresse. Tentando evitar a desconfiança acerca da cientificidade da palavra estresse, McEwen (2000) optou por adotar dois novos termos que pudessem separar o estresse adaptativo (allostasis), que é positivo, da sobrecarga de estresse (allostact load), que gera adoecimento e até morte. Ele criou sua própria saída para firmar o fenômeno do estresse como algo que pudesse ser mencionado sem ambiguidades. 3.2 Concepções de estresse É relevante diferenciar estressor de estresse, já que por vezes, este último é referido como sendo um estímulo, ou uma resposta desenvolvida pelo estímulo (CORTEZ; SILVA, 2007; FIGUEIRAS; HIPPERT, 1999; MARGIS, 2003). Estressor, fisiologicamente empregado, é qualquer estímulo ou evento capaz de provocar estresse (HOUAISS, VILLAR; FRANCO, 2001). Estressores (ver figura 8) podem promover uma reação biológica que tem 33 por finalidade adaptar o organismo aos mesmos, ou às mudanças ocasionadas por eles (McEWEN, 2008). No presente estudo, utilizou-se a definição de estresse apontada por Marilda Lipp (2005): Stress é uma reação do organismo com componentes psicológicos, físicos, mentais e hormonais que ocorre quando surge a necessidade de uma adaptação grande a um evento ou situação de importância. Este evento pode ter um sentido negativo ou positivo. Essa reação não é algo instantâneo que logo acaba; diferente disso, é um processo que aciona um conjunto de respostas orgânicas e/ou comportamentais, mediadas pela ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA). Com a persistência dos estressores, ocorre um aumento da produção de glicocorticóides (GC), como o cortisol, que permite que o organismo responda ao estressor (CORTEZ; SILVA, 2007). O uso do termo estresse é normalmente empregado de modo unívoco, sem informar em qual concepção o mesmo se apóia. Neste capítulo serão abordadas quatro concepções de estresse. A primeira é ancorada na fisiologia; a segunda, na cognição, a terceira, em ambas e a quarta é uma concepção recente do estresse. Esta última busca diferenciar com muita clareza o estresse adaptativo do estresse que leva ao adoecimento. 3.2.1 A síndrome geral da adaptação O endocrinologista Hans Selye (1907-1982) foi o primeiro a estudar cientificamente o estresse. Como já foi brevemente citado, ele realizou experimentos com ratos na Universidade McGill, no Canadá, buscando investigar as respostas fisiológicas dos mesmos quando expostos a diversos tipos de estressores, tais comos: frio, lesão cirúrgica, choque medular espinhal, excesso de exercício muscular, ou intoxicações com doses subletais de drogas diversas (adrenalina, morfina, etc). Os resultados da sua pesquisa mostraram respostas fisiológicas foram que tais independentes da natureza do agente nocivo ou o tipo farmacológico de droga empregada (SELYE, 1936). A partir desse estudo, Selye (1936) lança o seguinte conceito de estresse: à soma de todas as reações sistêmicas não específicas que surgem em respostas a uma longa e continuada exposição ao estressor. Selye entendeu que essa resposta parecia representar um esforço generalizado do organismo para se adaptar às novas condições. Por isso, chamou o fenômeno observado de Síndrome Geral de Adaptação (SGA). 34 Ele dividiu a SGA em três estágios: alarme, no qual há uma excitação do sistema nervoso autônomo e liberação de catecolaminas (adrenalina, por exemplo) pela adrenal; resistência, o qual depende ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA), quando o organismo tenta adaptar-se ao estressor, com a liberação do hormônio cortisol; e exaustão, caracterizado pela baixa imunidade, levando o indivíduo ao adoecimento ou até a morte (CORTEZ; SILVA, 2007; LIPP, 2005; SARDÁ, et al., 2004). O próprio Selye, como o nome dado ao fenômeno sugere, já reconheceu que a SGA leva a adaptação. Entretanto, como o indivíduo não pode suportar um longo período exposto ao estressor sem apresentar sequelas, ocorre a exaustão, fase negativa do estresse. Considerando que o estresse pode levar a adaptação ou causar doenças, Selye (1975) faz uma difenciação do estresse positivo, chamado por ele de eutresse, e estresse negativo, por ele denominado, distresse. O primeiro é um nível de estresse saudável para o indivíduo, ou seja, refere-se ao estresse adaptativo, o qual leva naturalmente a homeostase. Já o segundo indica a situação em que a exigência do ambiente é maior do que os meios para enfrentá-la, o que resulta num esgotamento do indivíduo. 3.2.2 O modelo transacional do estresse Lazarus e Folkman (1984) se utilizam de uma perspectiva cognitiva para conceber o estresse. Consideraram-no como uma transação entre o indivíduo e o ambiente. Para eles, o estresse é resultado da associação entre fatores relacionados a pessoa e os que se relacionam a situação. Fatores como personalidade, autoestima, avaliação cognitiva, estilo individual de enfrentamento, intensidade e duração dos estressores , entre outros, irão interferir no modo como cada pessoa vivenciará a ação dos estressores. Se um evento precipitante (interno ou externo) é avaliado cognitivamente pelo indivíduo como algo que excede os seus recursos, o estresse pode ocorrer como consequência. Por exemplo, pessoas com auto-estima elevada tendem a perceber o estresse como um desafio e não como uma ameça. Já pessoas mais ansiosas tendem a identificar mais estresse nas situações (McEWEN, 2006). Lazarus e Folkman (1984) consideram que a avaliação cognitiva sobre os estressores vai determinar a ocorrência ou não de estresse. Para eles, fatores internos também podem agir como estressores. Nesse processo o indivíduo realiza uma avaliação primária e uma secundária. A primeira refere-se ao jugamento que o indivíduo faz da situação. Já a segunda consite numa 35 análise das capacidades, meios e estratégias de que o indivíduo dispõe e se utlilizará para lidar com ela. Lazarus (1993) chamou de coping as estratégias que são utilizadas pelo indivíduo para o enfrentamento de estressores, a fim de preservar a sua integridade psicológica. 3.2.3 O modelo quadrifásico do estresse Conforme Lipp (2001), toda mudança que exija adaptação por parte do organismo causa certo nível de estresse. Para ela, estresse é uma reação do organismo, com componentes físicos e/ou psicológicos que ocorre quando a pessoa se confronta com uma situação desencadeadora de irritação, amedrontamento, excitação ou confusão, ou mesmo uma imensa felicidade (LIPP, 2003). Lipp (2005) propôs o modelo quadrifásico do estresse, acrescentando mais uma fase às decritas por Selye, a fase de quase-exaustão. É nesta fase que o processo de adoecimento se inicia, atingindo os órgãos que possuem uma maior vulnerabilidade genética ou adquirida. Esta nova fase do estresse, proposta por Lipp fica entre a fase da resistência e a fase da exaustão. Lipp (2006) considera o alarme como uma fase saudável, positiva do estresse, ou seja, eutressse. Nessa fase o ser humano sente-se cheio de energia devido a produção de adrenalina. Opostamente, pode ocorrer o estresse negativo ou distresse, que acontece quando a resistência aos estressores chega ao seu limite máximo. É após esse momento que o indivíduo fica mais susceptível a enfermidades, ou seja, chega à fase de exaustão. Em cada fase do modelo quadrifáfico do estresse se pode encontrar sintomas físicos e sintomas psicológicos. O estresse físico ocorre quando os estressores atingem diretamente o organismo, por exemplo, aumento da sudorese, nó no estômago, tensão muscular, taquicardia, hipertensão, aperto da mandíbula e ranger de dentes, mãos e pés frios e náuseas. O estresse psicológico ocorre quando acontecimentos afetam o indivíduo psíquica ou emocionalmente, como por exemplo, ansiedade, angústia, insônia, dúvidas quanto a si próprio, preocupação excessiva, inabilidade de concentrar-se em outros assuntos que não o relacionado ao estressor, dificuldades de relaxar, tédio, ira e hipersensibilidade emotiva (LIPP, 2005). Lipp (2001) classifica o conjunto de fatores contribuintes para o estresse psicológico ou emocional em internos ou externos, conforme a sua natureza. Como exemplos do primeiro, ela cita: pensamentos estressógenos, crenças irracionais, vulnerabilidades psicológicas e vulnerabilidade genética. O segundo são eventos externos, como a competição excessiva no mundo do trabalho, a pressa, a pressão diária que as pessoas sofrem e se impõem e etc. 36 Para mensurar o estresse, Lipp, juntamente com Guevara (1994), elaborou, no Brasil, o Inventário de Sintomas de Stress (ISS). Quase uma década depois, ela validou o Inventário de Sintomas de Stress para Adultos de Lipp (ISSL), o qual difere do ISS, já que este divide o processo de estresse em três fases, enquanto aquele divide em quatro, incluindo a fase da quase exaustão (LIPP, 2005). 3.2.4 O estresse como allostasis ou allostatic load Como já brevemente mencionado, McEwen (2000, 2005, 2006) considera que estresse é uma palavra ambígua. Para evitar tal ambiguidade, ele adotou o uso de dois termos para falar de estresse: allostasis e allostatic load. Allostasis é um termo introduzido por Sterling e Eyer (1988) e significa literalmente "alcance da estabilidade através da mudança.” Refere-se aos processos adaptativos que mantem a homeostase através da produção de mediadores, tais como cortisol, adrenalina e outros mensageiros químicos. Esses mediadores da resposta ao estresse promovem a adaptação no processo de estresse agudo. Em contrapartida, se a busca pela homeostase persistir por um longo período de tempo, pode ocorrer uma sobrecarga alostásica. O termo allostatic load foi introduzido por McEwen e sua equipe de pesquisas. Eles criaram esse termo para referir-se a forma crônica da allostasis, uma sobrecarga alostásica, caracterizada pelo desgaste no corpo e no cérebro produzido por uma resposta fisiológica a fim de manter o equilíbrio biológico (McEWEN, 2008; McEWEN; WINGFIELD, 2010). Nesse caso, o estresse passa a ser negativo, prejudicando o bom funcionamento orgânico, como por exemplo, diminuindo significativamente as funções sensoriais e perceptivas (SARDÁ JÚNIOR; LEGAL; JABLONSKI JÚNIOR, 2004). Lipp (2005) parece concordar primeiro com Selye (1975), quando ela também emprega a designação de estresse positivo e negativo, cunhada por ele, e com McEwen, já que, ainda que ele não adote tais termos, a noção de positivo na sua fase inicial, portanto adaptativo, remete a allostasis e a noção de negativo (estresse prejudicial se persistir por um tempo maior do que a capacidade de enfrentamento do organismo) remete a allostatc load. 3.3 Resposta aos estressores A resposta fisiológica aos estressores é mediada pelo sistema nervoso autônomo (SNA) e pela ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA), bem como a consequênte 37 produção de glicocorticóides e catecolaminas (figura 8) (CORTEZ; SILVA, 2007; 2008; CHROUSOS, 2009; KLOET; JOËLS; HOLSBOER, 2005; McEWEN, 2008; TSIGOS; CHROUSOS, 2002). FIGURA 8 – Eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA). PRODUÇÃO DE CATECOLAMINAS PRODUÇÃO DE GLICOCORTICÓIDES Fonte: Adaptado de Guizzo (2011). O cérebro é um alvo do estresse, já que sofre mudanças químicas e estruturais em resposta a estressores agudos e crônicos. O hipotálamo, região do encéfalo que desempenha um importante papel na integração entre os sistemas nervoso, endócrino e imunológico, controla a liberação do hormônio adrenocorticotrófico (ACTH) pela hipófise através do fator liberador de corticotropina (CRF) (CORTEZ; SILVA, 2007; 2008; HERMAN et al., 2012). A presença do ACTH na corrente sanguínea atua no córtex da glândula adrenal, localizada acima do rim. Esta atuação consiste na liberação de glicocorticóides, que em humanos é 95% de cortisol. Este, por sua vez, entre várias ações no organismo, atua no metabolismo dos carboidratos, disponibilizando grande quantidade de glicose (50 %, ou mais, acima do normal) no plasma sanguíneo, sendo um hormônio muito relevante durante o jejum prolongado; reduz as proteínas celulares, o que pode deixar os músculos mais fracos; mobiliza ácidos graxos (lipídios) para o plasma, aumentando a sua concentração sanguínea; atua no combate a inflamações e reações alérgicas; e reduz a produção de anticorpos, impactando 38 diretamente a imunidade (GONZÁLEZ; ESCOBAR, 2006; GUYTON; HALL, 2006; McEWEN, 2008; TSIGOS; CHROUSOS, 2002). A estimulação provocada por estressores tanto físicos, como mentais, atua no eixo HHA, fazendo com que a secreção de cortisol se eleve 20 vezes do seu nível basal. O ritmo circadiano do cortisol, em condições normais, apresenta taxas altas no início da manhã e vai diminuindo a noite, mais expressivamente horas depois do adormecer (CHROUSOS, 2009; GUYTON; HALL, 2006; HERMAN et al., 2012; TSIGOS; CHROUSOS, 2002). É relevante esclarecer que o estresse não é uma doença. A função do estresse consiste em promover a resistência do organismo aos estressores. Entretanto, o excesso do estágio de resistência diminui a resposta imunológica, o que torna o indivíduo vulnerável a várias doenças (figura 9) (GONZÁLEZ; ESCOBAR, 2006). FIGURA 9: Estágios do estresse Destaque para o estado de estresse no estágio de resistência. Fonte: produzido especificamente para este trabalho. Evidências crescentes demonstram que o estresse crônico pode contribuir para doenças somáticas, como: autoimune, gastrointestinal, cardiovascular e etc., as quais têm sido exaustivamente exploradas (ver revisão de PURDY, 2013). Stojanovich (2010), num estudo de revisão, destacou que o estresse psicológico tem sido sugerido como fator precedente da doença autoimune, uma vez que numerosas estudos em animais e humanos demonstraram o efeito de estresse sobre a função imunológica. Além disso, o estresse crônico pode intensificar a inflamação e aumentar o risco de 39 desenvolvimento de infecções e outras doenças inflamatórias (SHOENFELD, 2008; TSATSOULIS, 2006). Há muitas evidências experimentais e clínicas, de acordo com Taché et al., (2001), de que o estresse influencia a motilidade gastrointestinal. Um exemplo consistente de alterações motoras gastrintestinais induzidas por vários fatores de estresse agudo é o de retardar o esvaziamento gástrico. Além disso, a presença elevada de cortisol na corrente sanguínea, devido à ativação do eixo HHA, parece está ligada ao aumento da gordura abdominal (DAUBENMIER et al., 2011; LEVY et al., 2006). Ainda, conforme revisão realizada por Houpe (2013), o estresse psicossocial é um importante fator de risco e prognóstico para doenças cardiovasculares. Känel (2012) classifica os fatores de riscos da doença cardiovascular em três domínios, os quais podem ganhar o status de estressores psicossociais se a pessoa percebe uma quantidade de ameaça e desafio que ele ou ela avalia sobrecarregar os recursos de enfrentamento: (1) o ambiente social, (2) os traços de personalidade e (3) afetos negativo. O primeiro engloba fatores como baixo nível sócio-econômico, experiências adversas na infância, estresse familiar e no trabalho e baixo apoio social. O segundo está ligado à personalidade tipo D (ver DENOLLET; SCHIFFER; SPEK, 2010) e o último refere-se à depressão, ansiedade, desespero e perdas. Loures et al. (2002) chamou a atenção de que “o estresse mental pode agir como causador de doenças cardiovasculares de forma crônica e aguda” (p. 529). Outros pesquisadores como: Nóbrega, Castro e Souza (2007), Fonseca et al. (2009), entre outros estudos, tem mostrado que o estresse mental crônico é um importante fator na gênese da hipertensão arterial. Não é foco do presente trabalho aprofundar sobre as doenças causadas e/ou influenciadas pelo estresse. Por isso, as considerações feitas acima são utilizadas para uma visão geral e convidativa para interessados aprofundarem, valendo-se das revisões acima, as quais abordam tanto a forma aguda como crônica do estresse. 3.4 O estresse crônico O cérebro é um alvo do estresse, já que sofre mudanças químicas e estruturais em resposta a estressores agudos e crônicos (McEWEN, 2008). O estresse agudo cessa logo após o afastamento do agente estressor. Já o estresse crônico “refere-se a um estado de tensão prolongado que pode levar ao desenvolvimento de várias doenças e prejuízos para a qualidade de vida do ser humano” (LIPP, 2006, p. 83). 40 O estresse crônico pode ser o disparador de inúmeras doenças geneticamente programadas, as quais permaneceriam latentes na ausência do estresse, e de doenças oportunistas que se aproveitam da queda da imunidade para instalar-se no organismo. Essas doenças podem ser tanto físicas como psicológicas (BRADLEY; DINAN, 2010; LIPP, 2006). A exposição ao estresse pode precipitar ou agravar muitas doenças mentais, como o Transtorno Depressivo Maior, o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) e a Esquizofrenia (BRADLEY; DINAN, 2010; CORCORAN et al., 2003; CORTEZ; SILVA, 2007; McEWEN, 2007; LISTON; McEWEN; CASEY, 2009). Por exemplo, uma extensa revisão da literatura, realizada por Bradley e Dinan (2010), relaciona estresse crônico e a Esquizofrenia. Eles citam que pessoas com Esquizofrenia experienciam períodos de elevadas secreções de cortisol. Isso regularmente acontece no primeiro episódio da doença, sendo verificado também em alguns pacientes crônicos com mais estabilidade clínica. O uso de medicação e o tipo de sintoma podem interferir no nível de cortisol do paciente. Conforme Lipp (2006, p. 83), “o ser humano, cronicamente estressado, apresenta cansaço mental, dificuldade de concentração, perda de memória imediata, apatia e indiferença emocional”, o que compromete as relações do sujeito com o mundo. Três fatores podem contribuir para o estresse crônico evoluir para estágios prejudiciais como quase-exaustão e exaustão, quais sejam: (1) permanência de um estressor na história de vida de uma pessoa, (2) acúmulo de estressores e (3) estresse recorrente. Um exemplo de categoria profissional que é acometida por estresse crônico são os professores. Diversos estudos apontam que professores sofrem de estresse crônico. Entretanto, os estressores parecem atingir diferentemente homens e mulheres, visto que mulheres, conforme resultados de pesquisas, apresentam maior número de sintomas de estresse (CALAIS; ANDRADE; LIPP, 2003; GOULART JÚNIOR ; LIPP, 2008; MARTINS, 2007). Para exemplificar, conforme pesquisa realizada na Alemanha, o estresse crônico e a exaustão estão associados com maior carga alostática nos professores do sexo feminino, tendo em vista que a profissão docente pode gerar um potencial elevado de estresse (BELLINGRATH; WEIGT; KUDIELKA, 2009). Estudos realizados no Brasil também confirmam a prevalência de estresse em professoras, com percentuais que passam dos 50% de cada amostra investigada. Pesquisas utilizando o Inventário de Sintomas de Stress para adultos de Lipp (ISSL), demonstram que 41 há predominância de sintomas psicólogicos e de stress na fase da resistência (ALBUQUERQUE et al., 2010; GOULART JÚNIOR ; LIPP, 2008; MARTINS, 2007). A fase de resistência, de acordo com Lipp, é caracterizada pela persistência dos estressores (SADIR; BIGNOTTO; LIPP, 2010). Conforme Goulart Júnior e Lipp (2008, p. 848): A fase de resistência ocorre quando, sendo o estressor de longa duração ou de grande intensidade, o organismo tenta restabelecer o equilíbrio interno de um modo reparador. O organismo se utiliza das reservas de energia adaptativa, na tentativa de se reequilibrar. Se a reserva de energia adaptativa for suficiente, a pessoa se recupera e sai do processo de estresse. Se, por outro lado, o estressor exige mais esforço de adaptação do que é possível para aquele indivíduo, então o organismo se enfraquece e torna-se vulnerável a doenças. É possível verificar muita semelhança no que se chama fase de resistência e estresse crônico. De acordo com Lipp (2006, p. 83), o estresse crônico, como já colocado, é um “estado de tensão prolongado que pode levar ao desenvolvimento de várias doenças”. Comparando e relacionando os conceitos de fase de resistência e estresse crônico, infere-se que a fase de resistência pode servir como parâmetro para identificar o estresse crônico num indivíduo. Por isso, no presente estudo, os indivíduos identificados na fase de resistência serão considerados sujeitos em condição de estresse crônico. 42 4 O ESTRESSE E A PERCEPÇÃO VISUAL Um grande número de achados científicos tem mostrado que a exposição prolongada a estressores provoca mudanças químicas e estruturais em várias regiões cerebrais. Estudos em humanos e de modelo animal têm demonstrado essas alterações em áreas como: o hipocampo (ADMON et al., 2009; ANDERSEN et al., 2008; RADLEY, 2005; GRASSI-OLIVEIRA; ASHY; MILNITSKY, 2008), a amígdala (ANDERSEN et al., 2008; MORALES-MEDINA et al., 2009), o núcleo acumbens (MORALES-MEDINA et al., 2009), o córtex pré-frontal (CPF) (ANDERSEN et al., 2008; ARNSTEN, 2009) e o córtex visual (CHOI et al., 2012; HANSON et al., 2012; OLIVARES, et al., 2010; TOMODA et al., 2009, 2012). 4.1 O efeito do estresse em algumas áreas do cérebro Conforme revisões realizadas, as perdas celulares ocasionadas pelo estresse atua principalmente no sistema límbico, provocando a retração de processos dendríticos, a inibição da neurogênese, e até mesmo a morte de neurônios, como por exemplo, diminuição do volume do hipocampo (ADMON et al., 2009; RADLEY, 2005; GRASSI-OLIVEIRA; ASHY; MILNITSKY, 2008; MORRISON, 2005; SAPOLSKY; UNO; REBERT; FINCH, 1990; SAPOLSKY, 2003; ULRICH-LAI; HERMAN, 2009). Considerando que os glicocorticóides ligam-se aos receptores em diversas áreas do cérebro, como por exemplo, o hipocampo e a amígdala (PEAVY et al., 2009), um estudo com ressonância magnética funcional (fMRI), para investigar a evolução temporal e o locus de efeitos da hidrocortisona (cortisol) sobre estruturas cerebrais, em humanos adultos em repouso, observou no grupo da hidrocortisona reduzida atividade no hipocampo e amígdala em relação ao grupo controle (uso de placebo) (LOVALLO et al., 2010). Esses resultados funcionais encontram correspondência anatômica com outros achados anteriores, como são colocados a seguir. Mulheres que sofrearam abuso sexual na infância e adolescência apresentaram diminuição do volume do hipocampo e amigdala, da substância cinzenta do córtex pré-frontal e do corpo caloso (também uso de ressonância magnética) (ANDERSEN et al., 2008). O uso de corticosteroide, conforme um estudo de modelo animal, provocou remodelação dendrítica na amígdala basolateral, no hipocampo e no núcleo accumbens (MORALES-MEDINA et al., 2009). Em outro estudo animal, ratos foram selecionados conforme a diferença entre o volume do complexo basolateral da amígdala (CBA). O grupo 43 que apresentava CBA pequeno mostrou significativamente maiores respostas de liberação corticosterona ao estresse do que o grupo que apresentava CBA maiores. Nesse caso, a maior liberação de glicocorticóides parece está associado com o volume de CBA pequena (YANG et al., 2008). Revisões realizadas por Arnsten (2009); Lupien et al.(2009) e Grassi-Oliveira, Ashy e Milnitsky (2008) trazem mais resultados de estudos que corroboram esses achados. Como sugere os resultados da pesquisa de Andersen et al.(2008), o CPF também é um alvo da ação dos hormônios glicocorticóides. Uma revisão sobre a ação do estresse no CPF em roedores, realizada por Holmes e Wellman (2009) destaca que neurônios piramidais, em várias regiões do córtex pré-frontal, sofrem considerável remodelação com a exposição a estressores, mesmo os de natureza breve ou ostensivamente leve. Para estes pesquisadores, essas alterações estruturais provavelmente resultam em importantes alterações funcionais, ou seja, comprometimentos nas funções executivas, como a memória de trabalho, que são processadas no CPF. Para Arnsten (2009), o PFC, além de ser a região do cérebro mais evoluída, pelo fato de ser o âmbito de nossas mais altas habilidades cognitivas, é também a região do cérebro que é mais sensível a efeitos prejudiciais da exposição ao estresse. O PFC regula nossos pensamentos, ações e emoções através de extensas conexões com outras regiões do cérebro. Nesse sentido, Peavy et al.(2009) fizeram um estudo longitudinal para investigar se a exposição prolongada a eventos estressantes e cortisol poderia provocar alterações na cognição (tanto global, como na memória) em idosos (idades 65-97), divididos em dois grupos, (1) normais e (2) com comprometimento cognitivo leve. Este estudo concluiu que o estresse crônico afeta o funcionamento cognitivo de modo diferente nos grupos investigados. O cortisol relacionou-se a efeitos neurotóxicos a longo prazo no primeiro grupo, enquanto que no segundo ao aumento da função cognitiva. Diferentemente, uma pesquisa examinou os efeitos da supressão de glicocorticóides endógenos por adenectomia da adrenal na memória de trabalho de ratos, e explorou no córtex pré-frontal a atividade dopaminérgica envolvida na memória. A adenectomia prejudicou a memória de trabalho, diminuindo a dopamina liberada e aumentado os receptores D1 no córtex pré-frontal (MIZOGUCHI et al., 2004). Estudos já evidenciam que a dopamina atua para o bom funcionamento da memória de trabalho (BROZOSKI et al., 1979; BUBSER; SCHMIDT, 1990; LANGE et al., 1992; SIMON et al., 1980). Nesse sentido, um estudo bem recente com adolescentes (uso de ressonância magnética) procurou avaliar se o estresse crônico afeta morfologicamente o córtex pré-frontal, local responsável pela memória de trabalho. Além de uma diminuição do volume das 44 substâncias brancas e cinzentas, especificamente entre o cingulado anterior e os pólos frontais do córtex pré-frontal, outras regiões do cérebro apresentaram comportamento semelhantes, como por exemplo o lobo occipital direito (HANSON et al., 2012). Relacionando os achados de Mizoguchi et al.(2004) com este não há dúvidas do papel dos glicocorticóides na função cerebral em pauta, assim como parece que é o excesso desse hormônio que causa os prejuízos mencionados. Para inferir disfunções da percepção visual tendo em vista a memória visual, em pacientes com Esquizofrenia, uma recente pesquisa utilizou o CANTAB tests10 como instrumento de avaliação neuropsicológica e revelou que pacientes com tal psicose apresentaram um déficit de aprendizagem mais acentuada corresponde à via visual magnocelular (M), ou seja, relacionado ao processamento de objetos grandes. (KÉRI et al., 2012). Baseando-se em estudos que revelaram hipoativação no córtex occipital de pessoas com TEPT, mas não com outras desordens de ansiedade (ETKIN; WAGER, 2007), uma pesquisa recente avaliou a memória, atenção, habilidades visuo-espaciais, linguagem e processamento de informação visual básicas em pacientes com Esquizofrenia com ou sem TEPT. Este estudo fez uso da bateria repetível para a avaliação do estado neuropsicológico (RBANS) e tarefas de sensibilidade ao contraste visual (HALÁSZ et al., 2013), os quais revelaram que o TEPT pode estar associado com piores funções neuropsicológicas, enquanto isso não afeta o processamento básico da informação visual. O Transtorno do estresse pós-traumático (TEPT) também está associado a uma diminuição do volume do hipocampo. Conforme revisões realizadas, muitas formas de psicopatologia, incluindo transtornos de humor, Esquizofrenia, transtornos de ansiedade e dependência, são frequentemente associadas com história de trauma e stress e também são caracterizadas por prejuízos nas funções executivas (ANDREESCU, 2008; HAINS; ARNSTEN, 2008; HERMAN et al., 2012; JURUENA; CLEARE; PARIANTE, 2004; HOLMES; WELLMAN, 2009; PERES; NASELLO, 2005). Lupien et al.(2009) numa vasta revisão sobre os efeitos do estresse do pré-natal a velhice, a partir de pesquisas tanto em modelos animais como em humanos, encontrou que a exposição crônica aos glicorticóides têm um impacto em estruturas do cérebro envolvidas na cognição e na saúde mental. O alvo da ação dos hormônios do estresse dependerá dos diferentes períodos da vida de uma pessoa (pré-natal, infância, adolescência, fase adulta, 10 Para mais informações sobre este teste, acessar: http://www.cantab.com/cantab-test.asp?id=1 45 velhice), com maior impacto sobre as estruturas que estão em desenvolvimento no momento da exposição stress. 4.2 O efeito do estresse no córtex visual Como foi colocado no capítulo I, o córtex visual primário é uma área importante no processamento de informações visuais. E parece não ser imune a ação dos efeitos de estressores (BREMNER et al., 2004; DEDOVIC et al., 2005; OLIVARES, et al., 2010; TOMODA et al., 2009, 2012). Evidências de neuroimagens, utilizando ressonância magnética, demonstraram que jovens (18-22 anos) universitários, saudáveis, sem uso de medicações, que foram submetidos a graves estressores na infância (abuso sexual), apresentaram uma redução da substância cinzenta no córtex visual primário e no córtex visual associativo. Quanto maior o período de tempo exposto ao agente estressor, maior foi verificado a perda da substância cinzenta com a maioria das diferenças proeminentes aparecendo no giro lingual direito e giro fusiforme esquerdo (figura 10) (TOMODA et al., 2009). FIGURA 10: Comparação da quantidade da substância cinzenta entre grupo experimental e controle. Fonte: Tomoda et al. (2009). Semelhantemente, Hanson et al. (2012) também encontraram diminuição do volume das substâncias brancas e cinzentas no lobo occipital direito (uso de ressonância magnética /adolescentes como amostra). 46 Recentemente, outro achado muito próximo a estes citados, uma análise Morfométrica Baseada em Voxel (uso de ressonância magnética) identificou uma associação significativa entre a exposição a violência doméstica e a redução do volume da substância cinzenta no giro lingual direito do córtex visual (TOMODA et al., 2012). Este giro lingual direito desempenha um papel crítico no reconhecimento de aspectos globais de uma imagem (FINK et al., 1996). A redução do volume da substância cinzenta no córtex occipital também foi encontrado por Fennema-Notestine et al.(2002), associada com uma história anterior de abuso infantil. Parece que a exposição à violência doméstica age como um estressor traumático para alterar o desenvolvimento do córtex visual. Como se pode observar num estudo de tomografia por emissão de pósitrons (PET), mulheres com história de abuso sexual na infância relacionada ao TEPT, tiveram uma ativação diminuída de certas áreas visuais de associação (BREMNER et al., 2004). Corroborando com este achado, provas meta-analítica revelaram hipoativação no córtex occipital de pessoas com TEPT, mas não com outras desordens de ansiedade (ETKIN; WAGER, 2007) Outro estudo, que procurou investigar os efeitos do estresse crônico no córtex visual primário de ratos machos, demonstrou a partir de imagens microscópicas da região dorsomedial da área 17, que os ratos submetidos a estresse crônico apresentou uma menor densidade neuronal se comparado ao grupo controle, o qual não foi submetido ao estressor. Os autores desse estudo acreditam que essa alteração morfológica pode ter um impacto sobre o processamento visual (OLIVARES, et al., 2010). Tomoda et al.(2009), considerando seu estudo em particular, propuseram que os efeitos produzidos pelos estressores se deu devido a uma cascata de eventos que incluem a excessiva exposição a hormônios como o cortisol. Fazendo uma revisão da literatura (ANDERSEN et al., 2008; BRADLEY; DINAN, 2010; CHOI et al., 2012; HANSON et al., 2012; JOËLS; KRUGERS; KARST, 2008; JOËLS; McEWEN, 2008; MORALES-MEDINA et al., 2009; KRUGERS; KARST, 2008; LOVALLO et al., 2010; OLIVARES, et al., 2010; PEAVY et al., 2009; TOMODA et al., 2009, 2012; YANG et al., 2008) do tema em pauta, encontra-se que a contínua produção de cortisol, característica da fase resistência do estresse, está associada a mudanças morfológicas e funcionais em vários tecidos do corpo humano. Parece, com isso, que a proposição de Tomoda et al. tem fundamento, ainda que necessite de mais pesquisas para ser confirmada. Esses estudos revelam evidências anatômicas do efeito nocivo do estresse crônico na morfologia do córtex visual. Sabe-se que a estrutura morfológica de uma molécula, uma célula, um órgão, até um sistema, está intrínseco a sua função (BEAR; CONNORS; 47 PARADISO, 2008). Diante disso, é provável, como os próprios autores desse estudo também indagaram, que a redução da substância cinzenta da área 17, bem como a consequente diminuição dos corpos celulares que são típicos nessa região, pode acarretar em prejuízos na fisiologia esperada dessa área cortical. 48 5 MÉTODO 5.1 Objetivos 5.1.1 Geral Avaliar a percepção visual em indivíduos acometidos por estresse crônico, comparando o tamanho das formas percebidas em primeiro lugar nos quadros de Salvador Dali e nas pranchas de Rorschach. 5.1.2 Específicos • Relacionar o tamanho das figuras percebidas com o resultado do Inventário de Sintomas de Stress para adultos de Lipp (ISSL). • Investigar diferenças nos padrões de respostas aos estímulos, comparando os grupos experimental e controle. 5.2 Local O local escolhido para a realização do estudo foi a Escola Maria da Conceição do Rêgo Barros Lacerda. É uma escola estadual, situada na região metropolitana do Recife, que, no período da coleta de dados, contava com 70 professores. 5.3 Voluntários 5.3.1 Critério de inclusão Foram incluídos no grupo experimental (GE) 14 professores, sendo 03 do sexo masculino e 11 do sexo feminino, com faixa etária variando de 19 a 38 anos, escolaridade mínima de ensino médio. Foram incluídos os voluntários, avaliados por meio do Inventário de Sintomas de Stress para Adultos de Lipp (ISSL) que se apresentaram na fase de resistência, o que caracteriza o estresse crônico, conforme já foi explicado no capítulo II. Foram incluídos no grupo controle (GC) 16 voluntários, sendo 09 participantes do sexo masculino e 07 do sexo feminino, com faixa etária de 18 a 40 anos. Puderam participar 49 funcionários da escola que não são professores e outros voluntários que atenderam aos seguintes critérios: faixa etária entre 18 a 40 anos e escolaridade maior ou igual ao ensino médio, não apresentar estresse crônico, não fazer uso de medicações psicotrópicas e/ou substâncias tóxicas. 5.3.2 Critério de exclusão Foram excluídos do grupo experimental (GE) professores com idade fora da faixa etária de 18 a 40 anos, escolaridade inferior ao ensino médio e/ou com histórico de doença psiquiátrica diagnosticada, histórico de doença oftalmológica não corrigida, doença cerebral orgânica, estado de intoxicação, dependência, abstinência de álcool ou outras drogas e os que apresentaram estresse positivo ou estresse na fase de exaustão11. Identificou-se a fase do estresse como uso do ISSL. Foram excluídas do grupo controle (GC) pessoas com histórico de doença psiquiátrica diagnosticada e/ou histórico de doença oftalmológica não corrigida, doença cerebral orgânica, estado de intoxicação, dependência, abstinência de álcool ou outras drogas. 5.4 Participantes Fizeram parte da amostra 30 voluntários selecionados na etapa de triagem, sendo 14 que apresentaram estresse crônico (GE) e 16 que não apresentaram o mesmo (GC), conforme o ISSL. 5.5 Instrumentos A) Entrevista clínica (ANEXO 1) Entrevista semi-estruturada que serviu de base para subsidiar os critérios de inclusão e exclusão da pesquisa. B) Mini-Exame do Estado Mental (MEEM) (ANEXO 2) O Mini-Exame do Estado Mental é um dos testes de rastreio cognitivo mais utilizado em todo o mundo (LOURENÇO; VERAS, 2006). Ele contém 11 questões que avaliam, de forma breve, funções cognitivas específicas (orientação no tempo e espaço, linguagem, 11 Nesta fase, o indivíduo já entrou em adoecimento (psíquico, somático ou ambos). 50 memória e capacidade construtiva visual). O escore total vai de 0 a 30 pontos. A adaptação e validação da versão brasileira foi primeiro realizada por BERTOLUCCI et al. (1994). C) Tabela de Snellen É utilizada para avaliar a acuidade visual. É muito comum a acuidade visual ser testada nos consultórios oftalmológicos e estudos envolvendo a percepção visual. Para Bicas (2002), o teste da acuidade visual adéqua-se principalmente à medida da capacidade de discriminação de formas e contrastes. D) Inventário de Sintomas de Stress para Adultos de Lipp - ISSL O ISSL foi validado em 1994 por Lipp e Guevara e tem sido utilizado em dezenas de pesquisas na área de estresse (LIPP, 2005). Esse instrumento visa identificar de modo objetivo se há a presença de estresse, o tipo de sintoma presente (somático ou psicológico) e a fase em que se encontra (alerta, resistência, quase-exaustão e exaustão). O ISSL é subdividido em três quadros: (1) Quadro 1, o qual apresenta uma lista de 15 sintomas da fase de alerta, vivenciados nas últimas 24 horas; (2) Quadro 2, uma lista de 15 sintomas da fase de resistência, vivenciados na última semana e (3) Quadro 3, uma lista de 23 sintomas da fase de quase-exaustão e exaustão, vivenciados no último mês. Em cada quadro é avaliado separadamente os sintomas físicos e psicológicos. Este inventário leva cerca de dez minutos para a sua aplicação. E) Pinturas de Salvador Dalí Dez fotos coloridas de quadros do pintor Salvador Dali, nas dimensões de 10 x 15 cm, especificamente aqueles que apresentam diversidade e disparidade de tamanhos nas figuras neles representadas. Dentre as obras escolhidas que compuseram esta pesquisa estão: “A metamorfose de Narciso”, “Cabeça ao estilo de Rafael” e “Crânio atmosférico”. Dentre as vinte e quatro fotos de quadros de Salvador Dali, a presente pesquisa selecionou os dez que, conforme resultados das pesquisas anteriores (NOGUEIRA, 2006; LACERDA, 2008; MENEZES, 2009; MODESTO, 2012), apresentaram maior diferença entre os grupos controle e experimental. Tal procedimento colaborou para reduzir o tempo da coleta de dados, já que nas pesquisas anteriores eram apresentados os vinte e quatro estímulos mencionados. F) Teste de Rorschach O Teste de Rorschach, elaborado por Hermann Rorschach (1921), consiste em 10 lâminas com borrões de tinta (fotografadas e impressas em tamanho 10 x 15 cm) que obedecem a características específicas quanto à proporção, angularidade, luminosidade, equilíbrio espacial, cores e pregnância formal. Estas características facilitam a rápida 51 associação, intencional ou involuntária, com imagens mentais que, por sua vez, fazem parte de um complexo de representações que envolvem ideias ou afetos, mobilizando a memória de trabalho. Tradicionalmente, este teste é feito individualmente, uma lâmina de cada vez, sendo solicitado ao examinando que diga com o que acredita serem parecidos os borrões de tinta. Esse teste pode ser aplicado em pessoas de qualquer faixa etária e qualquer nível sócioeconômico-cultural (desde que tenha condições de se expressar verbalmente e que tenha acuidade visual normal). As associações estimuladas pelos borrões impressos nas pranchas colocam à prova as funções psíquicas de percepção, atenção, julgamento crítico, simbolização, linguagem, emocionais e motores-conativos. As respostas ao Rorschach, portanto, revelam o status da representação da realidade em cada indivíduo, trazendo dados a respeito do desenvolvimento psíquico, das funções e sistemas cerebrais, dos recursos intelectuais envolvidos na construção das diferentes imagens, das articulações intrapsíquicas e da natureza das relações interpessoais. Como o Teste de Rorschach avalia primordialmente a dinâmica de personalidade, não foi feito, neste estudo, uso deste instrumento de modo pleno. A sua utilização restringiu-se, apenas, a avaliação do tamanho da primeira forma percebida, já que este instrumento apresenta uma diversidade de possibilidades de formas. 5.6 Procedimentos da coleta de dados A pesquisa só teve início após a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Após a leitura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (duas vias por voluntário) e o aceite em participar da pesquisa, os participantes responderam, nesta ordem, aos seguintes instrumentos, fazendo alusão à ordem apresentada na secção instrumentos acima: A, B e C (triagem para participar do estudo); D (triagem para separar os grupos experimental e controle), E e F (instrumentos que avaliaram o processamento visual). Todos esses procedimentos foram realizados numa sala reservada e duraram em média 40 minutos. A triagem para participar do estudo utilizou-se de três instrumentos, os quais se proporcionaram a avaliar se os voluntários atendiam aos critérios de inclusão/ exclusão do presente estudo. O primeiro instrumento utilizado foi uma entrevista clínica, semiestruturada; o segundo foi um teste de rastreio cognitivo, o qual serviu para avaliar se os voluntários estavam cognitivamente em condições de participar desta pesquisa. E o terceiro instrumento 52 foi um teste de acuidade visual, a partir do qual foi avaliado se o voluntário com visão normal ou corrigida estava apto a ser participante da pesquisa. A triagem para separar o grupo experimental (GE) do grupo controle (GC) foi feita após a coleta de dados, conforme o resultado do Inventário de Sintomas de Stress para Adultos de Lipp (ISSL). Participantes que apresentaram estresse na fase de resistência compuseram o GE, já que a fase da resistência caracteriza o estresse crônico, conforme já foi visto no capítulo II. E os participantes que não apresentaram estresse, conforme o ISSL, foram considerados como GC. Para a avaliação do GE e do GC, foram feitas a apresentação de dez fotografias das pinturas de Salvador Dali e dez fotografias das pranchas do Rorschach, com dimensões 10X15. Tais fotografias foram apresentadas em slides, numa tela de notebook (15’), encima de um birô, e estando a uma distância de 30 cm do olho do observador, num ângulo de 90º. Antes de começar a apresentação das figuras, foi dada a seguinte instrução: “Você vai ver dez fotografias de quadros de um pintor e dez manchas de tintas e depois de olhar cada uma, você deverá contornar com o dedo sobre a tela, a primeira figura que você viu”. Os procedimentos envolveram a apresentação de cada série de quadros, de forma sucessiva, sem limite de tempo para observação/resposta. Após o participante contornar a primeira figura que viu, o pesquisador marcava com uma linha reta (ferramenta da própria Microsoft Office Excel 2007) toda a figura, partindo de um extremo que privilegiasse o maior perímetro da figura ao chegar ao outro extremo. Esse procedimento foi realizado em todas as figuras apresentadas. 5.7 Dificuldades encontradas Inicialmente estimou-se que se iria encontrar o número de 40 sujeitos para participar deste estudo, já que o local escolhido para a realização do mesmo contava com um grande número de professores (70). Entretanto nem todos os sujeitos se adequaram ao critério idade máxima para participar do estudo (até 40 anos), o que dificultou encontrar o número de sujeitos planejado. Além disso, nem todos os professores convidados para participar deste estudo tiveram agenda disponível, já que a coleta de dados tinha a duração de 40 minutos. E alguns que se disponibilizaram a participar, foram excluídos por questões próprias do critério de exclusão, como: não apresentar acuidade visual normal ou corrigida; tomar remédio controlado, não apresentar a fase resistência do estresse e etc. 53 Desse modo a presente pesquisa tem uma amostra de 30 sujeitos (14 experimentais e 16 controles). Para equiparar esses números, a fim de realizar a análise estatística, utilizou-se a média do grau de ângulo visual do GE, de modo que esta média representou cada um dos dois sujeitos que igualaria GE (14+2=16) com GC (16). 54 6 RESULTADOS A amostra desta pesquisa apresentou as seguintes características gerais. A média de idade do GE foi de 28 anos (Dp= 7,5). Considerando que o GE foi composto por pessoas que apresentaram estresse, conforme o ISSL, a maioria dos seus participantes foi do sexo feminino, correspondendo a 79% do total. Em relação ao GC, a média de idade foi de 27 anos (Dp= 7,4). O GC foi composto de pessoas que não apresentaram estresse, conforme o ISSL e os seus participantes tiveram uma distribuição quase equitativa do sexo masculino e feminino, os quais corresponderam, respectivamente, a 56% e 44%. Posterior à coleta de dados, as marcações dos voluntários12 foram medidas em milímetros para cada quadro apresentado. As medidas de cada figura foram transformadas em grau de ângulo visual numa planilha eletrônica do Microsoft Office Excel 2007 (Windows XP), utilizando a fórmula matemática a seguir: Tang a = Tamanho da figura (mm) / Distância do observador (30 cm). Nessa planilha foram calculadas as médias e o desvio padrão dos ângulos visuais de cada categoria de estímulo, tanto do Grupo Experimental (GE) quanto do Grupo Controle (GC) (Tabela 1). Estímulos Grupos GE GC Média Desvio Padrão Média Desvio Padrão SALVADOR DALI 9,95 5,91 9,96 3,05 RORSCHACH 4,37 9,02 2,91 9,01 TABELA 1: Média e desvio padrão de cada grupo para cada categoria de estímulo Comparando as médias do grau de ângulo visual entre GE e GC, observadas na tabela 1, percebe-se quase nenhuma diferença entre os grupos. Essa semelhança das médias de ambos os grupos ocorreu tanto nas respostas aos estímulos de Salvador Dali, como nos estímulos de Rorschach. O gráfico (Figura 11) a seguir ilustra esses resultados: 12 Todos apresentaram acuidade visual, normal ou corrigida, medida pela Tabela de Snellen. 55 FIGURA 11: Média geral dos grupos experimental e controle. De acordo com a figura 11, a média geral do grau do ângulo visual dos GE e GC, para os dois tipos de estímulos, é entre 9 e 10 graus de ângulo visual. Observando-se as médias de cada estímulo de Dali e Rorschach, conforme as figuras 12 e 13, respectivamente, notam-se um intervalo de tamanhos escolhidos entre 6 e 14 graus de ângulo visual. FIGURA 12: Médias dos grupos experimental e controle obtidas em cada imagem de Dali. 56 FIGURA 13: Médias dos grupos experimental e controle obtidas em cada prancha de Rorschach Após passar no teste de normalidade, foi feita a análise estatística a partir da análise de variância para medidas repetidas (ANOVA). Foram utilizadas as médias do grau de ângulo visual de cada sujeito para cada estímulo apresentado. Conforme a análise estatística, não foi encontrada diferenças, ao comparar o GE ao GC, para os dois tipos de estímulos. Os resultados foram: Dalí [(F9,270) = 0,90620, p < 0,52025] e Rorschach [(F9,270) = 0,54865, p < 0,83809], como respectivamente, nas Figuras 14 e 15. pode-se observar, 57 FIGURA 14: Estimativa do grau de ângulo visual em função do estímulo (Pinturas de Dalí) do Grupo Experimental e do Grupo Controle QUADRO*GRUPO; LS Means Current ef f ect: F(9, 270)=,90620, p=,52025 Ef f ectiv e hy pothesis decomposition Vertical bars denote 0,95 conf idence interv als TAMANHO (ÂNGULO VISUAL) 30 25 20 15 10 5 0 Dalí 1 Dalí 3 Dalí 2 Dalí 5 Dalí 4 Dalí 7 Dalí 6 Dalí 9 Dalí 8 Dalí 10 QUADRO GRUPO Controle GRUPO Experimental FIGURA 15: Estimativa do grau de ângulo visual em função do estímulo (Pranchas do Rorschach) do Grupo Experimental e do Grupo Controle QUADRO*GRUPO; LS Means Current effect: F(9, 270)=,54865, p=,83809 Effective hypothesis decomposition Vertical bars denote 0,95 confidence intervals 25 20 15 10 QUADRO Rorschach 10 Rorschach 9 Rorschach 8 Rorschach 7 Rorschach 6 Rorschach 5 Rorschach 4 Rorschach 3 Rorschach 2 5 Rorschach 1 TAMANHO (ÂNGULO VISUAL) 30 GRUPO Controle GRUPO Experimental 58 Quanto aos resultados do ISSL, não foi pretensão deste trabalho expor e analisar dados referentes ao mesmo. O uso deste instrumento restringiu-se a separar GE de GC, como já foi colocado anteriormente no item método. Sendo assim, após a correção do caderno de aplicação do ISSL, todos os participantes que apresentaram a fase de resistência compuseram o GE e todos os que não apresentaram estresse compuseram o GC. Não foram encontrados sujeitos na fase de alerta, os quais também poderiam compor o GC, nem sujeitos na fase de quase-exaustão e exaustão. Para colaborar na caracterização da amostra, abaixo (figura 15) é apresentado o percentual dos sintomas físicos (29%) e psicológicos (71%) do GE, conforme o ISSL. FIGURA 16: Percentuais dos tipos de estresse do GE. Os sintomas físicos que mais ocorreram no GE foram: problemas com a memória (71%13); sensação de desgaste físico constante (64%); cansaço constante (57%); mal-estar generalizado sem causa específica (29%); mudança de apetite (29%) e aparecimento de problemas dermatológicos (21%). Os psicológicos foram: pensar constantemente em um só assunto (71%); sensibilidade emotiva excessiva (50%); dúvida quanto a si próprio (43%) e irritabilidade excessiva (29%). Quanto ao resultado do teste de rastreio cognitivo utilizado, o Mini Exame do Estado Mental (MEEM), tanto GE como GC apresentaram integridade cognitiva, apresentando pontuação acima do ponto de corte (24 pontos) estabelecidos para rastrear demência (BERTOLUCCI et al.,1994). 13 Os percentuais entre parênteses deste parágrafo referem-se à quantidade de participantes do GE que apresentaram os sintomas físicos e psicológicos. 59 7 DISCUSSÃO Este estudo investigou a possibilidade de voluntários com estresse crônico perceber tamanhos maiores de estímulos visuais, quando comparados ao grupo controle. Indivíduos com estresse crônico aqui são pessoas que apresentam estresse na fase da resistência, conforme o ISSL (LIPP, 2005). A amostra do presente estudo foi composta basicamente por adultos jovens (média de 28 anos de idade). A triagem que separou as pessoas que apresentavam estresse (GE) de pessoas sem sintomas de estresse (GC), por meio do ISSL, forneceram algumas informações relevantes sobre o GE, composto por professores de uma escola estadual metropolitana. A maioria dos seus participantes foi do gênero feminino, correspondendo a 79% do total, enquanto que o GC apresentou 44% de mulheres. Os sintomas predominantes do GE foram do tipo psicológico (71%, comparado aos sintomas físicos). Esses dados, que dizem respeito à caracterização da amostra, serviram para endossar pesquisas anteriores que relacionam o estresse à profissão docente e ao gênero feminino. Sendo assim, tendo em vista que tal profissão pode gerar um potencial elevado de estresse, as mulheres parecem apresentar uma maior vulnerabilidade ao mesmo, com predomínio de sintomas psicológicos, apoiando, assim, estudos anteriores (GOULART JÚNIOR ; LIPP, 2008; MARTINS, 2007). Para corroborar a relação estresse-professor-gênero feminino, vale citar uma pesquisa realizada na Alemanha, a qual encontrou mais professores do gênero feminino acometidas por estresse crônico do que do gênero oposto. (BELLINGRATH; WEIGT; KUDIELKA, 2009). Estudos realizados no Brasil também confirmam a prevalência de estresse em professoras, com percentuais que passam dos 50% de cada amostra investigada. Pesquisas utilizando o ISSL, demonstram que há predominância de sintomas psicólogicos e de estresse na fase resistência (ALBUQUERQUE et al., 2010; GOULART JÚNIOR ; LIPP, 2008; MARTINS, 2007). Os resultados do ISSL do presente estudo apontou na mesma direção. Até mesmo os sintomas que mais apareceram no presente estudo, como problemas com a memória, cansaço constante, sensação de desgaste físico constante, pensar constantemente em um só assunto e sensibilidade emotiva excessiva, também correspodem aos resultados de pesquisas de Goulart Júnior e Lipp (2008) e Martins (2007). Isso pode ter relação com o modo de vida da sociedade moderna, a qual, entre outras coisas, é marcada pela dupla jornada de trabalho das mulheres (CALAIS; ANDRADE; LIPP, 60 2003), as quais acabam sendo expostas a um maior número de estressores (McEWEN, 2008). Tal condição pode gerar o que McEwen (2008) chama de allostatic load, ou seja, desgaste do corpo e cérebro, produzido por uma resposta fisiológica a fim de manter o equilíbrio biológico. Essa resposta apresenta as características da fase de resistência (LIPP, 2006). De acordo com Goulart Júnior e Lipp (2008, p. 848), na presença de um estressor de longa duração ou de grande intensidade, “o organismo tenta restabelecer o equilíbrio interno de um modo reparador” (fase de resistência). Por outro lado, “se o estressor exige mais esforço de adaptação do que é possível para aquele indivíduo, então o organismo se enfraquece e torna-se vulnerável a doenças”. Para Lipp (2006, p. 83), o estresse crônico é um “estado de tensão prolongado que pode levar ao desenvolvimento de várias doenças”. Comparando e relacionando os conceitos de fase de resistência e estresse crônico, infere-se que a fase de resistência pode servir de parâmetro para identificar o estresse crônico num indivíduo. Por isso, no presente estudo, os indivíduos identificados na fase de resistência foram considerados sujeitos em condição de estresse crônico. Tendo em vista a caracterização da amostra e as delimitações conceituais acima, o presente estudo foi formulado com base em duas considerações. A primeira parte de estudos que mostram o estresse crônico como possível disparador de mudanças anatômicas na morfologia do córtex visual primário e no córtex visual associativo (BREMNER et al., 2004; FENNEMA-NOTESTINE et al., 2002; HANSON et al.; OLIVARES, et al., 2010; TOMODA et al., 2009, 2012). Sabe-se que a estrutura morfológica de uma molécula, uma célula, um órgão, até um sistema, está intrínseca a sua função (BEAR; CONNORS; PARADISO, 2008). Sendo assim, se supôs que por o estresse crônico afetar áreas do processamento visual, ele poderia afetar o próprio processamento visual (TOMODA et al., 2009, 2012). A segunda considera que sendo o estresse um dos itens que faz parte da etiologia de uma psicose (CORCORAN et al., 2003; CORTEZ; SILVA, 2007; LISTON; McEWEN; CASEY, 2009) e que o mesmo afeta áreas de processamento visual (BREMNER et al., 2004; FENNEMA-NOTESTINE et al., 2002; HANSON et al.; OLIVARES, et al., 2010; TOMODA et al., 2009, 2012), estudá-lo poderia colaborar com os estudos que tem encontrado déficits no processamento visual de pacientes com Esquizofrenia (KIM et al., 2006; KANTROWITZ et al., 2009; NOGUEIRA, 2010; SIMAS et al., 2011). Resultados de pesquisas de Simas et al.(2011) mostraram que as pinturas de Salvador Dali podem ser uma ferramenta favorável na detecção de alterações na percepção visual de forma e tamanho em pacientes com Esquizofrenia. Diante disso, o presente estudo utilizou-se 61 da mesma ferramenta dos estudos de Simas et al., a fim de avaliar a percepção visual de indivíduos acometidos por estresse crônico, comparando GE e GC. Adicionalmente, assim como na pesquisa de Modesto (2012), também foram usados aqui os estímulos de Rorschach. Estes foram usados por apresentarem diversas possibilidades de formas nas suas características manchas de tintas. Enquanto que nos estudos anteriores, realizados por Nogueira (2006), Menezes (2009) e Modesto (2012), com pessoas acometidas por Esquizofrenia, a maioria das respostas aos estímulos de Dali e Rorschach14 correspondem ao intervalo médio de tamanho de 15-20 e até mais de 20 graus de ângulo visual, os resultados da presente pesquisa mostraram que pessoas com estresse crônico apresentam uma média de tamanho de figuras de até 10 graus de ângulo visual. Esses resultados assemelham-se aos resultados do GC dos estudos anteriores. Dessa forma, o grupo experimental e o grupo controle do presente trabalho tiveram resultados semelhantes aos dos grupos controles dos trabalhos de Nogueira (2006), Menezes (2009), Modesto (2012) e Lacerda (2008). Além disso, de acordo com a análise estatística do presente estudo, não houve diferença significativa entre grupos. Ao comparar as respostas dos estímulos de Dali e Rorschach, nas condições experimentais e controle, a partir da análise estatística que usou ANOVA, percebe-se um comportamento muito semelhante entre os grupos, o que indica que os voluntários da presente pesquisa não diferem quanto às respostas dadas aos estímulos. Parece tratar-se de um mesmo grupo, como se pode perceber nas figuras 14 e 15. Assim sendo, percebe-se que os sujeitos desta pesquisa tiveram respostas tão idênticas aos estímulos apresentados, que não foi possível relacionar a presença do estresse ou a ausência do mesmo a alterações visuais. Ademais, as respostas dos sujeitos, como colocado acima, foram identicas aos voluntários saudáveis para transtornos mentais (GC) de estudos anteriores (NOGUEIRA, 2006; MENEZES, 2009; MODESTO, 2012). Não se sabe se o nível de estresse dos sujeitos do grupo experimental contribuiu para tal resultado. Já que o tamanho das figuras escolhidas pelos participantes não diferenciou entre o GC e GE, este estudo não pode afirmar que há uma relação direta entre presença de estresse e alteração na percepção visual de tamanho, o que, por enquanto, não confirmou a hipótese do presente trabalho. 14 Somente usado no estudo de Modesto (2012) 62 8 CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante dos resultados desta pesquisa e considerando que os estímulos visuais utilizados, até então, só detectam alteração na percepção visual de indivíduos com Esquizofrenia (SIMAS et al., 2011), recomenda-se novas pesquisas testando sujeitos com níveis mais elevados de estresse (quase-exaustão e exaustão). Além disso, sugerem-se amostras que tenham sido submetidas a estresse intenso, como pessoas com carga horária de trabalho caracterizada por muito desgaste físico e/ou emocional, por exemplo, médicos, enfermeiros plantonistas, controladores de voo, e etc. Vítimas de violência durante a infância e/ou diagnosticadas com TEPT poderia ser outra possibilidade de amostra. Essa recomendação toma como referência as pesquisas que encontraram alterações no córtex visual de vítimas de abuso sexual e pessoas que foram expostas à violência doméstica na infância (BREMNER et al., 2004, TOMODA, 2009, 2012). Espera-se assim buscar evidências de que o estresse promove prejuízos na percepção visual. 63 REFERÊNCIAS ADMON, R.; LUBIN, G.; STERN, O.; ROSENBERG, K.; SEL, L.; BEN-AMI, H.; HENDLER, T. Human vulnerability to stress depends on amygdala’s predisposition and hippocampal plasticity. Neuroscience, v. 106, n. 33, 14120–14125, 2009. ALBUQUERQUE, E. E.; COSTA, S. L.; RIBAS, V. R.; ALMEIDA, P. I. 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Em caso de recusa você não será penalizado (a) de forma alguma. Em caso de dúvida você pode procurar o Comitê de Ética em Pesquisa Envolvendo Seres Humanos da UFPE no endereço: Avenida da Engenharia s/n – 1º Andar, Sala 4 - Cidade Universitária, Recife-PE, CEP: 50740-600, Tel.: 2126.8588 – e-mail: [email protected]. INFORMAÇÕES SOBRE A PESQUISA: Título do Projeto: “Avaliação da percepção visual de forma e tamanho em voluntários com estresse crônico”. Pesquisador Responsável: Erika Cristiane da Silva. Endereço para correspondência: LabVis-UFPE, Departamento de Psicologia, CFCH, 9º andar, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, Cep: 50670-901. E-mail: [email protected]. Telefone: (81) XXXX-XXXX Objetivos: avaliar a percepção visual de formas e tamanhos em pessoas em condições de estresse crônico. Duração do Estudo: Os experimentos serão conduzidos no decorrer de três meses. Cada estudo individual dura cerca de 40 minutos. Descrição do Estudo: “Comparação do tamanho de imagens percebidas em primeiro lugar em 24 pinturas de Dali, nas 10 pranchas do Rorschach, apresentados a adultos em condições de estresse crônico e a adultos saudáveis”. Testaremos a hipótese de que quanto maior a o tamanho da primeira figura percebida, maior o nível estresse. Avaliaremos o desempenho de voluntários acometidos por estresse crônico e voluntários sem apresentar tal condição, fazendo uso de 10 pinturas de Dali, do teste de Rorschach e de duas escalas de avaliação psicológica: Mini Exame do Estado Mental (MEEM) e o Inventário de Sintomas de Stress para adultos de Lipp (ISSL). Procedimentos: O participante será instruído a indicar a primeira figura que lhe chamou a atenção primeiramente, em cada quadro. A instrução será padronizada: “Você vai ver fotografias de quadros de um pintor e depois de olhar cada uma, você deverá indicar a primeira figura, que mais lhe chamou atenção”. Neste procedimento, o participante indicará a primeira figura que percebeu contornando a mesma sobre a tela de um ipod. Riscos e Desconforto: Estudos desta natureza trazem baixo risco para os voluntários. O único desconforto possível seria decorrente de cansaço/fadiga resultante de esforço mental ou de exposição à luminosidade da tela do computador, no qual serão visualizadas as imagens. Em relação ao uso do Teste de Rorschach, ainda que o mesmo, originalmente, avalie a dinâmica da personalidade, não se fará tal uso nesta pesquisa. Pretende-se, apenas, medir, em centímetros, o tamanho da primeira forma percebida, tal qual se procederá com as pinturas de Salvador Dali, não envolvendo riscos para o voluntário. Benefícios: Os benefícios diretos ao participante dessa pesquisa são dois: (1) orientação ao voluntário que procure um oftalmologista (a critério do participante), uma vez detectado algum prejuízo visual e (2) devolução do resultado da escala quantitativa de estresse, 74 imediatamente após o término da participação voluntária do sujeito, orientando o mesmo, quando da provável necessidade, a buscar ajuda de um psicólogo. Além disso, a contribuição da pesquisa consistirá na produção de conhecimentos sobre a relação entre alterações na percepção visual e o estresse crônico. Espera-se também que este estudo subsidie a elaboração de um instrumento de avaliação (pinturas de Salvador Dali) que poderá ser utilizado no diagnóstico precoce da Esquizofrenia. Confidencialidade: A identificação dos voluntários é confidencial. Os dados da pesquisa serão armazenados, sob responsabilidade do pesquisador responsável no laboratório de Percepção Visual- LabVis, 9ª andar, Departamento de Psicologia, CFCH-UFPE, por um período mínimo de cinco anos. Os resultados poderão ser publicados, porém, a identidade do voluntário será preservada. Ressarcimento e de Indenização: Não são previstos recursos para indenizações ou pagamento pela participação do voluntário. Participação Voluntária: A participação de todos os sujeitos será de acordo com as suas disponibilidades e voluntariedade e somente depois de ler, entender e assinar este Termo de Consentimento. Todos os resultados da pesquisa serão repassados posteriormente aos participantes, caso manifestem interesse. Garantias: Os voluntários terão liberdade para retirar o consentimento sem qualquer tipo de penalização e/ou prejuízo. CONSENTIMENTO DA PARTICIPAÇÃO DA PESSOA COMO SUJEITO Eu,_____________________________________, RG/ CPF/____________________/ ________________________, abaixo assinado, concordo em participar do estudo: “Avaliação de alterações na percepção visual de forma e tamanho em condição de estresse crônico”, como sujeito. Fui devidamente informado(a) e esclarecido(a) pela pesquisadora Erika Cristiane da Silva sobre a pesquisa, os procedimentos nela envolvidos, assim como os possíveis riscos e benefícios decorrentes de minha participação. Foi-me garantido que posso retirar meu consentimento a qualquer momento, sem que isto leve a qualquer penalidade. Local e data ______________________________ ___________________________________________ ______________________ Nome do voluntário Assinatura do voluntário Declaro que fiz os devidos esclarecimentos sobre esta pesquisa. __________________________________________ ___________________________ Nome do Pesquisador Assinatura do Pesquisador Presenciamos a solicitação de consentimento, esclarecimentos sobre a pesquisa e aceite do sujeito em participar (02 testemunhas não ligadas à equipe de pesquisadores): ____________________________________________ ______________________ Nome Assinatura ____________________________________________ ______________________ Nome Assinatura 75 APÊNDICE B – CARTA DE ANUÊNCIA 76 77 ANEXO A – PROTOCOLO DE ENTREVISTA CLÍNICA 78 PROTOCOLO DE ENTREVISTA CLÍNICA Data: ____ / ___ / ____ I. Hora:______________ Identificação Nome: ___________________________________________________________________________ Data de Nascimento: ____ / ____ / _____ Idade:_____________ Sexo: F ( ) M ( ) Nacionalidade: Brasileiro ( ) Outro ( ) Natural de (Cidade, Estado) : __________________________________________________ Estado civil:_______________________ Quantos:_______________________ Filhos: Sim ( ) Não ( ) Endereço:_____________________________Complemento:__________________________ Bairro: ______________________ ___________________________ Cidade: ___________________ CEP: Telefones: Residência ( )_________Celular ( ) ___________ Outro ( )________________ Escolaridade:_________________________________________________________________ Formação:___________________________________________________________________ Profissão:_________________________________________Nível de ensino 15: Fundamental ( ) Médio( ) Carga horária semanal:________________Tempo de exercício profissional:_____________________________ Profissões anteriores:__________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ II. Antecedentes Patológicos Pessoais: 1. Diabetes ( ) Há quanto tempo?_______________________ Controlado (Sim) (Não) 2. Hipertensão arterial ( ) Há quanto tempo?______________ Controlado (Sim) (Não) 3. AVC ( ) Área tempo?__________________ 15 Somente para professores afetada ____________________________ Há quanto 79 Apresentou seqüelas?___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 4. Infarto ( ) / Angina ( ) 5. Epilepsia ( ) Tipo____________ Tratamento ___________________________________________ 6. Meningite ( ) _____________________________________________________________________ 7. TCE ( ) Teve perda de consciência? (Sim) (Não) Quantas vezes? ___________________________________________________________________________ Apresentou seqüelas?_________________________________________________________ 8. Transtorno psiquiátrico ( )_______________________________________________ ___________________________________________________________________________ Tempo:_____________________________________________________________________ Tratamento ___________________________________________________________________________ 9. Faz ou fez uso de substâncias tóxicas? • Álcool ( ) Freqüência:____________________ Por quanto tempo?_________________________ • Tabaco ( ) Freqüência:____________________ Por quanto tempo?_________________________ • Outras drogas ( ) Tipo____________________________________________________________ Freqüência:______________________________ Por quanto tempo?____________________________ 10. Distúrbio Visual: _______________________________________________________ 11. Distúrbio Auditivo: ______________________________________________________ 80 12. Medicações: ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ III. Antecedentes Patológicos Familiares: ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ IV. Queixas Principais: ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 81 ANEXO B - MINI EXAME DO ESTADO MENTAL 82 MEEM- Mini Exame do Estado Mental Questões/ Pontos 1. Orientação temporal - pergunte ao indivíduo: (ponto para cada resposta correta) ( 5 ) ( ) Que dia é hoje? Em que mês estamos? Em que ano estamos? Em que dia da semana estamos? Qual a hora aproximada? (considere a variação de mais ou menos uma hora)? 2. Orientação espacial - pergunte ao indivíduo: (ponto para cada resposta correta) ( 5 ) ( ) Em que local nós estamos? (consultório, dormitório, sala . apontando para o chão) Que local é este aqui? (apontando ao redor num sentido mais amplo: hospital, casa de repouso, própria casa). Em que bairro nós estamos ou qual o nome de uma rua próxima. Em que cidade nós estamos? Em que Estado nós estamos? 3. Nomeie três objetos (carro, vaso, tijolo) levando 1 segundo para cada. Depois, peça ao paciente que os repita para você. Repita as respostas até o indivíduo aprender as 3 palavras (5 tentativas). (3) ( ) OBS_________________________________________________________________________________ 4. 7s seriados: Subtraia 7 de 100. Subtraia 7 desse número, etc ( 5 ) ( ) Interrompa após 5 respostas ( 5 ) (100-7, 93-7, 86-7, 79-7, 72-7,65) Alternativa: Soletre "MUNDO" de trás para frente. 5. Peça ao paciente que nomeie os 3 objetos aprendidos. (3) ( ) 6. Mostre uma caneta e um relógio. Peça ao paciente que os nomeie conforme você os mostra. (2) ( ) 7. Peça ao paciente que repita "nem aqui, nem ali, nem lá" ( 1 ) ( ) 8. Peça ao paciente que obedeça sua instrução: "Pegue o papel com sua mão direita. Dobre-o ao meio com as duas mãos. Coloque o papel no chão" ( 3 ) ( ) 9. Peça ao paciente para ler e obedecer o seguinte: "Feche os olhos" ( 1 ) ( ) 83 10. Frase: Peça ao indivíduo para escrever uma frase. Se não compreender o significado, ajude com: alguma frase que tenha começo, meio e fim; alguma coisa que aconteceu hoje; alguma coisa que queira dizer. Para a correção não são considerados erros gramaticais ou ortográficos ( 1 ) ( ) 11. Peça ao paciente que copie o seguinte desenho mostre o modelo e peça para fazer o melhor possível. Considere apenas se houver 2 pentágonos interseccionados (10 ângulos) formando uma figura de quatro lados ou com dois ângulos ( 1 ) ( ) 84 MEEM- comando verbal (folha de aplicação) FECHE OS OLHOS Resposta_____________________________________________________________ 85 MEEM- cópia do desenho (folha de aplicação)