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UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ
IZABEL CRISTINA MARTENDAL
LUCIANA ROSA DA SILVA
OS ESTRESSORES DE ADOLESCENTES COM CÂNCER NOS BASTIDORES DE
UMA UNIDADE DE INTERNAÇÃO HOSPITALAR
Biguaçu
2006
1
IZABEL CRISTINA MARTENDAL
LUCIANA ROSA DA SILVA
OS ESTRESSORES DE ADOLESCENTES COM CÂNCER NOS BASTIDORES DE
UMA UNIDADE DE INTERNAÇÃO HOSPITALAR
Monografia apresentada como requisito parcial
para a obtenção de título de Enfermeiro, na
Universidade do Vale de Itajaí, Centro de
Educação Biguaçu.
Orientadora Profª Msc. Nen Nalú Alves das
Mercês.
Biguaçu
2006
2
IZABEL CRISTINA MARTENDAL
LUCIANA ROSA DA SILVA
OS ESTRESSORES DE ADOLESCENTES COM CÂNCER NOS BASTIDORES DE
UMA UNIDADE DE INTERNAÇÃO HOSPITALAR
Esta Monografia foi julgada adequada para obtenção do título de Bacharel em Enfermagem e
aprovada pelo Curso de Enfermagem da Universidade do Vale de Itajaí, Centro de Educação
Biguaçu.
Área de Concentração: Enfermagem
Biguaçu, 8 de Dezembro de 2006.
Profª Msc. Nen Nalú Alves das Mercês
UNIVALI – CE Biguaçu
Orientadora
Profª Msc. Adriana Dutra Tholl
UNIVALI – CE Biguaçu
Membro
Profª Msc. Ivana Fossari
UNIVALI – CE Biguaçu
Membro
3
AGRADECIMENTOS
A Deus, por ser a luz em nossa caminhada, nos dando força, coragem e determinação,
nos guiando sempre pelos caminhos seguros e iluminando nossa vida e nossas decisões.
À Orientadora Nen Nalú, pela paciência, dedicação, incentivo, ensinamentos e
amizade. Você soube nos orientar com tranqüilidade e sabedoria, apontando os caminhos a
serem trilhados.
Às professoras Adriana e Ivana, por terem aceitado com carinho o convite para fazer
parte da banca examinadora, pelas valiosas sugestões e contribuições na construção deste
trabalho. Obrigada.
Aos nossos amigos Antônia, Kátia, Mário e Vanessa, por compartilharem conosco
momentos importantes de nossa vida acadêmica e pessoal, pelos muitos momentos de
descontração, risadas, pela companhia nos finais de semana em que nos encontrávamos para
longas horas de estudo, pela troca experiências. Obrigada amigos.
Aos adolescentes e seus familiares, especialmente aqueles que já partiram, por
depositarem em nós sua confiança, contribuindo para a realização deste trabalho. Muito
obrigada.
À Instituição de Saúde, pela receptividade, por acreditarem em nosso projeto,
contribuindo para a realização deste trabalho.
4
AGRADECIMENTOS DE IZABEL
Um agradecimento especial aos meus pais, João Carlos e Maria Gorete, por todos os
ensinamentos e pela oportunidade de chegar até aqui. Obrigada pelo incentivo, todo amor,
carinho e por compartilharem comigo este momento tão especial em minha vida.
Aos meus irmãos, Jean e Leandro, à tia Nila, e a todos os meus familiares que
acompanharam de perto esta caminhada.
Ao meu namorado Nino, que sempre esteve do meu lado, compartilhando comigo
minhas alegrias, tristezas, angústias, sempre paciente e com palavras de entusiasmo nos
momentos difíceis. Obrigada pelo seu amor, carinho, compreensão, conforto e por tudo o que
você representa em minha vida. Te amo.
À Luciana, pelo convívio durante esta caminhada e pela colaboração na construção
deste trabalho.
Aos meus amigos do anatômico, pela feliz convivência, pelos momentos de
descontração, pelos ensinamentos e pelas lembranças que ficarão guardados para sempre com
muito carinho.
A todas as pessoas que me ajudaram, mesmo que indiretamente, para que este objetivo
fosse alcançado.
5
AGRADECIMENTOS DE LUCIANA
Aos meus pais, Luis e Elisabete, pelo amor, carinho e ensinamentos que me
dedicaram. Agradeço a ajuda e o apoio nos meus projetos de vida, e principalmente as
renúncias que realizaram para poder me dar a oportunidade de hoje estar realizando meu
sonho. Muito Obrigada!
Aos meus irmãos, Marcelo, Ricardo, Anderson e Thiago, por estarem comigo nesta
etapa especial de minha vida.
À Izabel, pela paciência, perseverança, por não me deixar esmorecer, e principalmente
pela sua amizade. Foi um grande prazer trilhar este caminho com você.
Aos meus amigos Maria Antônia, Moisés e Celso, pela paciência, compreensão,
incentivo e principalmente pela amizade.
Aos meus colegas de trabalho da Clínica Cirúrgica Masculina, do Hospital
Florianópolis, pelo incentivo e pelas trocas de plantão.
Aos amigos Manoel e Carminda, pelo apoio, para que eu pudesse concluir meus
estudos.
A todas as pessoas que mesmo de forma indireta, compartilharam esta trajetória
comigo.
6
"As grandes coisas são feitas por pessoas que têm
grandes idéias e saem pelo mundo para fazer com que
seus sonhos se tornem realidades."
Ernest Holmes
7
RESUMO
MARTENDAL, I. C.; SILVA, L. R. Os estressores de adolescentes com câncer nos
bastidores de uma unidade de internação hospitalar. 89 p. Trabalho de Conclusão de
Curso de Graduação em Enfermagem – Universidade do Vale do Itajaí - UNIVALI. Biguaçu,
2006.
O câncer é uma doença crônico-degenerativa considerada um problema de saúde pública
mundial, acometendo todas as faixas etárias. Quando o adolescente tem a doença e necessita
de internação hospitalar para diagnóstico, estadiamento, tratamento cirúrgico, quimioterápico
e/ou radioterápico, isso é motivo de grande apreensão e sofrimento, pois exige um
afastamento de tudo aquilo que lhe é familiar e conhecido, causando-lhe momentos de
estresse. Estresse é definido como uma reação do organismo, com componentes físicos e ou
psicológicos causados pelas reações psico-fisiológicas que ocorrem quando a pessoa se
confronta com uma situação que, de um modo ou de outro, a irrite, amedronte, excite ou
confunda, ou mesmo que a faça intensamente feliz. Assim, o objetivo deste estudo foi
conhecer o significado do estresse para o adolescente portador de câncer internado em uma
unidade hospitalar. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, convergente assistencial. Para a
coleta de dados, utilizou-se uma entrevista, realizada individualmente com doze adolescentes
portadores de câncer, na faixa etária de 15 a 18 anos, internados em uma Instituição de Saúde
Pública, vinculada à Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina, especializada na área
de Oncologia, no período de março a setembro de 2006. As entrevistas foram gravadas, com
autorização prévia dos adolescentes e dos responsáveis legais. Como referencial teórico
utilizamos Betty Neuman, pois os dois principais componentes do seu sistema são o estresse e
a reação ao estresse. Os resultados demonstram que, em geral, os principais estressores dos
adolescentes portadores de câncer internados são o afastamento do convívio social, da família,
das atividades que estavam acostumados a realizar no seu dia-a-dia antes da internação, o
afastamento do colégio e dos amigos e a imposição das regras da rotina hospitalar. Neste
contexto, acreditamos que estudar e conhecer o significado do estresse para o adolescente
portador de câncer é importante, pois, através dos relatos e análise dos dados coletados,
pudemos conhecer os fatores que causam estresse ao adolescente e desta forma fornecer
subsídios, contribuindo para o re-pensar da assistência do adolescente com câncer,
possibilitando assim, a diminuição dos fatores desencadeantes do estresse.
Palavras-chave: Adolescente. Câncer. Estresse.
8
ABSTRACT
MARTENDAL, I. C.; SILVA, L. R. The factors of stress in adolescents with cancer in the
embroidery frames of an unit of hospital internment. 89 p. Final essay of the Graduation
Course in Nursing – Universidade do Vale do Itajaí- UNIVALI. Biguaçu, 2006.
Cancer is a chronic-degenerative illness considered as a world-wide public health problem for
people of all ages. When the adolescent gets the illness and needs hospital admission for
diagnosis, staying in, surgery, chemitherapy and/or radiotherapy, this is cause of a lot of
apprehension and suffering, therefore it demands a removal of everything what is familiar and
known for him or her, causing stress moments. Stress is defined as a reaction of the body
carrying out physical and/or psychological components caused by psychophysiological
reactions that happen when one faces situations of annoyance, fright, excitement and
confusion or even of happiness. Thus, the objective of this study is to know the meaning of
stress for the adolescent with cancer admitted in a hospital unit. It is about a qualitative
research, convergent attendant. Twelve adolescents between fifteen and eighteen years old
admitted in a Santa Catarina public hospital were interviewed for the data collection, from
March till Septemper of 2006. The interviews had been recorded with previous authorization
of the adolescents and their legal responsibles. Betty Neuman was taken as a Theory reference
because of the two main components of her system are stress and the reaction to it. The results
demonstrated that, in general, the main causes of stress in adolescents with cancer admited in
a hospital are their removal of the social and family conviviality, and of the activities they
were accustomed to carry through day-by-day before the internment, the removal of college
and friends and the imposition of rules of the hospital routine. In this context, we believe that
to study and to know the meaning of the stress in adolescents with cancer is important, car
through the stories and analysis of the collected data, we could know the factors which cause
stress in adolescents and, in such way, to supplying subsidies, contributing to rethink the
assistance of the adolescent with cancer, turning out possible a reduction of the causes of
stress.
Key-words: Adolescent. Cancer. Stress.
9
SUMÁRIO
1 INTRODUZINDO A TEMÁTICA............................................................................. 13
1.1 Objetivos.....................................................................................................................
14
1.1.1 Objetivo geral........................................................................................................... 14
1.1.2 Objetivos específicos...............................................................................................
15
2 REVISANDO A LITERATURA................................................................................
17
2.1 Contextualizando o câncer..........................................................................................
17
2.1.1 Fisiopatologia do câncer..........................................................................................
19
2.2 Contextualizando a adolescência................................................................................
20
2.3 O câncer na adolescência............................................................................................
23
2.4 O estresse e o câncer...................................................................................................
30
2.5 O estresse no adolescente com câncer........................................................................
32
3 CONSTRUINDO UM MARCO REFERENCIAL A PARTIR DA TEORIA DE
BETTY NEUMAN..........................................................................................................
34
3.1 Pressupostos filosóficos de Neuman........................................................................... 34
3.2 Definindo os conceitos segundo Neuman...................................................................
36
3.3 Definindo outros conceitos.........................................................................................
37
4 O CAMINHO METODOLÓGICO............................................................................ 40
4.1 Característica geral do estudo.....................................................................................
40
4.2 Caracterização do campo de desenvolvimento do estudo........................................... 41
4.3 Caracterização dos adolescentes do estudo................................................................. 41
4.4 O caminho percorrido.................................................................................................
43
4.5 Evidenciando os aspectos éticos.................................................................................
47
5 APRESENTAÇAO E ANÁLISE DOS DADOS COLETADOS.............................. 50
5.1 O cotidiano do adolescente com câncer hospitalizado................................................ 51
5.2 Desvelando o significado do estresse para o adolescente com câncer hospitalizado:
agentes internos e externos...............................................................................................
53
5.3 O respiradouro do adolescente com câncer hospitalizado..........................................
60
5.4 A imagem corporal e a sexualidade X isolamento social do adolescente com
câncer hospitalizado..........................................................................................................
63
10
6 APROXIMANDO O MODELO DE SISTEMAS DE BETTY NEUMAN E OS
ESTRESSORES DO ADOLESCENTE COM CÂNCER...........................................
68
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS......................................................................................
73
REFERÊNCIAS...........................................................................................................
75
APÊNDICE A - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido..............................
82
APÊNDICE B – Ficha de Identificação.....................................................................
83
APÊNDICE C – Entrevista Semi-estruturada..........................................................
84
ANEXO I – Termo de Aceite de Orientação............................................................
85
11
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 – Modelo de Sistemas de Betty Neuman......................................................... 34
Figura 2 – Denominação dos Adolescentes do Estudo..................................................
44
Figura 3 – Aproximação do estudo com o Modelo de Sistemas de Betty Neuman....... 68
12
"As grandes idéias de sucesso foram criadas por pessoas
que reconheceram um problema e o transformaram em
uma oportunidade."
Joseph Sugarman
13
1 INTRODUZINDO A TEMÁTICA
O processo de saúde-doença vivenciado pelo Ser Humano no decorrer da história,
mostra que há uma contradição em nossa realidade social, principalmente no Brasil, ou seja,
de um lado continua o aumento de doenças próprias da pobreza, encontradas em países do
terceiro mundo ou em desenvolvimento, como a desnutrição, verminose, desidratação, fome,
afecções do período peri-natal e tantas outras, que podem ser abordadas efetivamente com
medidas político-econômicas, desde saneamento básico até os programas de prevenção a
doenças e proteção à saúde em todos os níveis.
Em contrapartida, de outro lado, há as doenças crônico-degenerativas características
dos países mais desenvolvidos, dentre elas, as afecções cardíacas, como a hipertensão arterial
sistêmica, as endócrinas, como o diabetes, as demenciais, como o Alzheimer e, em especial o
câncer, que vem aumentando sua incidência e mortalidade em decorrência de vários fatores,
desde as mudanças no estilo de vida, o aumento da expectativa de vida, a industrialização, e
tantos outros que contribuem para o surgimento de agravos crônicos transmissíveis.
(BRASIL, 2006a).
O câncer é uma doença antiga que acomete todas as faixas etárias, trazendo consigo a
idéia de dor, sofrimento, angústia, morte, causando modificações na vida do indivíduo.
Receber o diagnóstico de câncer, principalmente na adolescência, que é uma fase na qual
ocorrem grandes transformações na vida do indivíduo, seja ela no aspecto físico, emocional,
sexual e afetivo, exige que o mesmo adquira novas estratégias para o enfrentamento deste
processo.
Muitas vezes, a internação é necessária, gerando mudanças bruscas e dolorosas,
causando reações de estresse, por ser algo novo e que requer um aumento das exigências
físicas e psicológicas.
Quando nos propusemos a trabalhar com a temática do câncer, surgiu o desejo de
escolhermos os adolescentes como centro de estudo e esta vontade tornou-se ainda mais
concreta, quando ao realizarmos uma breve revisão de literatura, constatamos que são poucas
as pesquisas direcionadas a este grupo etário, principalmente na área de enfermagem
oncológica. Há uma ênfase em pesquisas na Oncologia voltadas para a infância e
predominantemente nos adultos, configurando uma lacuna na área da adolescência.
14
Acreditamos que, estudar e investigar sobre a temática do adolescente com câncer seja
importante, pois quando ele vivencia o adoecimento pelo câncer, as transformações
(fisiológicas, psicológicas e sociais), que ocorrem no período da adolescência são alteradas. O
impacto frente ao diagnóstico traz ao adolescente, dúvidas, conflitos, angústias e medos
causados pela incerteza do tratamento e do prognóstico.
O cotidiano dos adolescentes com câncer no hospital é marcado por vários eventos,
que são significativos para ele e sua família, dentre eles: o período longo de tratamento, as
internações freqüentes, a separação da família, a perda das atividades educacionais e
recreacionais, o medo do futuro e do que ele possa trazer.
Isto se confirma na fala de Guzman e Cano (2000, p.4) quando descrevem que “os
adolescentes estão vivenciando sentimentos e atitudes próprias dessa fase da vida em uma
realidade com normas, rotinas e horários pré-estabelecidos, levando-os a vários
questionamentos e insatisfações”.
Esta situação problema motiva a busca de resposta para a seguinte questão: Quais os
principais estressores do adolescente com câncer no cenário hospitalar?
Conhecer os estressores do adolescente com câncer hospitalizado será trilhar um
caminho novo - a trajetória do processo de adoecer e dos estressores envolvidos nesta
caminhada e, acreditamos que, ao desvelar a realidade destes estressores, o estudo realizado
poderá fornecer subsídios contribuindo para a enfermagem, principalmente para a
enfermagem oncológica no repensar a assistência do adolescente com câncer.
1.1 Objetivos
1.1.1 Objetivo geral
hospitalar.
Conhecer os estressores do adolescente com câncer internado em uma unidade
15
1.1.2 Objetivos específicos
Identificar quais os estressores enfrentados pelo adolescente com câncer
durante a internação hospitalar;
Caracterizar e analisar o cotidiano do adolescente com câncer hospitalizado;
Caracterizar e analisar o significado do estresse para o adolescente com câncer
hospitalizado;
Identificar as atividades que o adolescente com câncer hospitalizado gostaria
de realizar.
16
"A literatura deve ser realmente o lugar onde podem
surgir novas idéias que repensem o mundo."
Salman Rushdie
17
2 REVISANDO A LITERATURA
2.1 Contextualizando o câncer
Os relatos de casos de câncer datam desde a antiguidade, trazendo consigo a idéia de
sofrimento e morte. Segundo Ferrão (2006), os primeiros conceitos sobre o câncer são
descritos na Grécia, no século V, antes de Cristo. A autora cita que, é na escola de Hipócrates,
onde aparece a palavra karcinos, que quer dizer "caranguejo". A relação entre a palavra
câncer e o animal - caranguejo, tem dois significados, um que se relaciona às dores que causa
a picada do animal e o outro está relacionado ao desenho dos vasos sanguíneos dilatados
devido ao tumor, lembrando as patas de um caranguejo.
O câncer é uma doença crônico-degenerativa considerada um problema de saúde
pública mundial. Segundo Carvalho (1994, p.21),
[...] a oncologia é a ciência que estuda o câncer e como ele se forma,
instala-se e progride, bem como as modalidades possíveis de tratamento. É
uma doença que se origina nos genes de uma única célula, tornando-se
capaz de se proliferar até o ponto de formar uma massa tumoral no local e à
distância.
De acordo com Beyers e Dudas (1989 apud Cardozo, 1997, p.15), “nos papiros
egípcios já havia registros a respeito do câncer, sendo então, esta uma doença bem antiga. E
desde a Antigüidade ele carrega o fardo histórico de séculos de mitos, fantasias e temores”.
Segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), no Brasil as estimativas para o ano
de 2006 apontam que ocorrerão 472.050 casos novos de câncer. Os tipos mais incidentes, à
exceção de pele não melanoma, serão os de próstata e pulmão no sexo masculino e mama e
colo de útero para o sexo feminino, acompanhando a mesma incidência observada no mundo.
Serão esperados 234.570 casos novos para o sexo masculino e 237.480 para o sexo feminino.
Estima-se que o câncer de pele não melanoma (116.640 mil casos novos) será o mais
incidente na população brasileira, seguido dos tumores de mama feminina (48.930 mil),
18
próstata (47.280 mil), traquéia, brônquio e pulmão (27.170 mil), cólon e reto (25.360 mil),
estômago (23.200 mil) e colo do útero (19.260 mil). (BRASIL, 2006b).
As estimativas para o ano 2006, no Estado de Santa Catarina, de casos novos por
câncer, em homens, segundo localização primária, totalizarão em 10.250, e em Florianópolis
630 casos. Para o sexo feminino, o total de casos novos será 8.520 no Estado, e em
Florianópolis serão 630 casos. (BRASIL, 2006b).
Observa-se que, as estimativas, tanto para o sexo masculino, quanto para o sexo
feminino, o câncer de pele não melanoma apresenta maior incidência, tanto em Santa
Catarina, como em Florianópolis, seguidos pelo câncer de mama (1.610 mil), próstata (1.540
mil), traquéia, brônquio e pulmão (1.270 mil), estômago (960), cólon e reto (940), colo do
útero (670) e esôfago (520). (BRASIL, 2006b).
De acordo com a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), ao citar o estudo
“Informe Mundial sobre o Câncer”, constatou que a incidência do câncer poderá aumentar em
50% até o ano 2020, a projeção será de 16 milhões de novos casos. Ressalta ainda que, essa
incidência deve-se ao aumento da expectativa de vida, conseqüentemente o envelhecimento
da população mundial, os efeitos do tabagismo e das mudanças no estilo e hábitos de vida.
(BRASIL, 2005a).
Urióstegui, Keever, Gutiérrez (2003), ao realizar um estudo, com o objetivo de revisar
os artigos publicados sobre a epidemiologia de câncer em adolescentes em âmbito mundial,
constataram que, pouco se conhece sobre a estatística de câncer nos adolescentes, devido à
dificuldade dos registros de casos que ocorrem na faixa etária de 12 a 18 anos, pois a maioria
dos registros é realizada na faixa etária de 5 a 14 anos ou entre 15 a 24 anos, tornando-se
assim, difícil a estimativa de câncer entre os adolescentes.
Os autores supracitados trazem ainda que, as principais neoplasias que acometem o
grupo entre 15 a 19 anos de idade são tumores de sistema nervoso central, as leucemias, os
linfomas, os tumores ósseos, os de células germinativas e os carcinomas.
Segundo a Secretaria Estadual de Saúde, no ano de 2005 ocorreram em Santa
Catarina, 21 óbitos na faixa etária de 15 a 19 anos por neoplasia, sendo que 10 foram no sexo
masculino e 11 no sexo feminino. Neste ano, até o momento, ocorreram 8 óbitos na mesma
faixa etária, sendo 4 do sexo masculino e 4 do sexo feminino. (SANTA CATARINA, 2006).
Segundo Folha Online (2004), as pesquisas realizadas pela Agência Internacional na
área do câncer mostraram dados de 19 países, descobrindo que houve um aumento de cerca de
19
1% ao ano no número de casos infantis e de 1,5% anual entre os adolescentes, entre os anos
1970 e 1990.
2.1.1 Fisiopatologia do câncer
O câncer é uma patologia na qual ocorre mutação genética do DNA celular, formando
uma célula anormal que passa a proliferar-se de maneira desordenada, ignorando as
sinalizações de regulação do crescimento no ambiente circunvizinho à célula. (SMELTZER;
BARE, 2002).
De acordo com os mesmos autores, o câncer consiste em um grupo de doenças que
apresentam diferentes causas, manifestações, tratamento e prognóstico.
Segundo Bevilacqua et al (1998) o primeiro evento do processo cancerígeno seria a
desestruturação do DNA celular. A partir deste evento, as células com seu genoma neoplásico
multiplicam-se e agregam-se, formando o cone tumoral primitivo. Os autores destacam
algumas características das células malignas, apontando a:
- multiplicação descontrolada e independente, fugindo dos mecanismos de controle das
células normais;
- apresentação de alterações morfológicas variáveis, sendo assim, quanto maior a
diferenciação do tumor menor o número de mitose e vice-versa;
- as células cancerígenas são perenes, isto é, podem ser cultivadas, por tempo indefinido, o
que não ocorre em células normais;
- destacam-se com facilidade das outras células, pois não têm capacidade de adesão,
facilitando assim, a nidação para os tecidos circunvizinhos;
- proliferação desordenada, devido à perda da capacidade de responder à inibição por contato;
- adquirem funções bioquímicas independentes e diferentes das células que compõe o tecido
original, tendo desta forma a capacidade de produzir proteínas que só são sintetizadas na
vida fetal, bem como produzir e secretar substâncias biologicamente ativas peculiares a
outras populações celulares.
Os autores citam ainda que “o ciclo das metástases inicia-se com o desgarramento de
células neoplásicas do tumor primitivo, penetração nos vasos sanguíneos e linfáticos (veias e
20
capilares especialmente), adesão ao endotélio e trombose com conseqüente necrose tecidual”.
(BEVILACQUA et al, 1998, p.162).
E, descrevem a evolução dos tumores com as seguintes repercussões:
- manifestações locais determinadas pelo crescimento do tumor, que leva a compressão,
deslocamento e distorção de órgãos;
- distúrbios locais e/ou sistêmicos decorrentes dos implantes metastáticos à distância;
- produção de substâncias biologicamente ativas pelas células neoplásicas, levando às
síndromes paraneoplásicas, como por exemplo, a dermatosite, miastenia, osteoartropia
hipertrófica, trombose venosa, etc.
2.2 Contextualizando a adolescência
A adolescência é o período em que o indivíduo vivencia uma nova percepção do seu
próprio ser. Isto se confirma no conceito do Serviço de Assistência ao Adolescente – SASAD,
em que “a adolescência inaugura uma nova visão de si e do mundo em busca de definições de
caráter social, sexual, ideológico e vocacional”. (GUZMAN; CANO, 2000, p.2).
Os primeiros trabalhos envolvendo a questão da adolescência foram feitos por G.
Stanley Hall, um psicólogo americano que considerou a adolescência como uma etapa do
ciclo vital, descrevendo os fenômenos que constituem essa fase, causando grande impacto na
compreensão do adolescente do seu tempo. Publicou em 1904 uma obra de dois volumes
intitulada Adolescência, que ficou como modelo para qualquer trabalho sobre este tema
durante um quarto de século.
Para Audiface (1991 apud Armond, 2003, p.10), afirma que “embora a adolescência
tenha sido durante muito tempo terra de ninguém, hoje ela é considerada a mais nova fronteira
da Pediatria”. Para o autor, a adolescência só começou a ser considerada como um ciclo do
desenvolvimento humano a partir de meados do século XIX, entretanto, encontram-se na
literatura referências da adolescência desde a Antigüidade.
Àries (1981) descreve que na Idade Média, a infância e a adolescência não eram vistas
como ciclos separados do desenvolvimento humano, existindo uma ambigüidade entre eles,
21
tendo que se moldar ao mundo dos adultos, afirmando que os adolescentes começaram a ser
percebidos e valorizados pela sociedade, com o surgimento da burguesia.
No entanto, Armond (2003, p.11) descreve que “os primeiros serviços organizados
para atendimento de saúde dos adolescentes surgiram em 1884, na Grã-Bretanha, com a
fundação da Associação dos Médicos Escolares”.
Todas essas transformações que ocorreram com os adolescentes, ao longo da história
fizeram com que surgisse a necessidade de estudos científicos sobre a adolescência.
A palavra adolescência origina-se do verbo latino “adolescer” que significa a idade
que cresce. Assim, pelos critérios da Organização Mundial da Saúde (OMS), “a adolescência
está compreendida entre 10 e 19 anos.” (ARMOND, 2003, p.12).
As mudanças ocorridas neste período fazem com que os adolescentes procurem a sua
própria identidade, deixando de lado a auto-imagem infantil, e se projetando na imagem de
adulto. (ARMOND, 2003).
Para Erikson (1987), o conceito de adolescência só pode ser compreendido dentro do
contexto de sua “teoria orgânica”, onde o processo de formação da identidade é algo que
[...] está sempre mudando e se desenvolvendo: na melhor das hipóteses, é
um processo de diferenciação crescente que se torna ainda mais abrangente,
à medida que o indivíduo vai se tornando cada vez mais consciente de um
círculo crescentemente mais amplo de outras pessoas que são significativas
para ele, desde a pessoa materna até a “humanidade”. O processo “inicia-se”
em algum momento durante o primeiro encontro verdadeiro da mãe e bebê,
enquanto duas pessoas que podem tocar-se e reconhecer-se mutuamente, e só
“termina” quando se dissipa o poder da afirmação mútua do homem.
(ERIKSON, 1987, p.23).
Neste sentido, Erikson (1987) considera a adolescência a “5ª idade do homem”,
identificado como “identidade X confusão de papéis”. E, será na resolução deste conflito que
o indivíduo determinará sua identidade. Erikson (1987, p.22-23), afirma que
[...] a formação da identidade requer um processo de reflexão e observação
simultâneas, um processo que ocorre em todos os níveis de funcionamento
mental e pelo qual o indivíduo se julga à luz daquilo que percebe ser a forma
como os outros o julgam, em comparação com eles próprios e com uma
tipologia que é significativa para eles. Ao mesmo tempo, ele julga a maneira
como os outros o julgam, de acordo com o modo como ele se vê, em
comparação com os demais e com os tipos que se tornam importantes para
ele.
22
Assim, é importante lembramos que, para os adolescentes, os grupos têm grande
significado, pois são através das gírias, vestuários, comportamentos, que os mesmos adquirem
sua própria identidade.
Armond (2003, p.13), afirma que “é nesse momento da existência que a pessoa inicia a
percepção de seu ser, de seu espaço e do mundo ao seu redor”.
A partir desta afirmação, e sendo a adolescência uma fase, na qual ocorrem várias
transformações (físicas, psicológicas, sociais, dentre outras), acreditamos que os serviços de
saúde e os profissionais deveriam estar preparados para receber estes adolescentes e assim,
assisti-los de acordo com as suas reais necessidades.
Saito (2001 apud Armond, 2003, p.13), descreve que “as primeiras propostas de
atendimento à saúde do adolescente no Brasil surgiram em São Paulo e no Rio de Janeiro, no
início da década de 70”.
Esta proposta ocorreu paralelamente em São Paulo e no Rio de Janeiro, sendo que em
São Paulo, em 1974, o projeto constituía-se basicamente no atendimento ambulatorial, com
foco principal de promover e prevenir os agravos. Já no Rio de Janeiro, a proposta tornou-se
concreta a partir de adolescentes internados e teve como foco principal à abordagem curativa
e a reabilitação. Aconteceram vários marcos no Brasil, que levaram a concretização do
compromisso ao atendimento à saúde do adolescente. Dentre eles, a aprovação em 1989 do
Programa Saúde do Adolescente – PROSAD. Também no mesmo ano, a fundação da
Associação Brasileira de Adolescência – ASBRA. E, em 1990, quando passou a vigorar o
Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA. (ARMOND, 2003).
Segundo Armond (2003, p.14) o ECA “representa hoje, um importante documento na
assistência à criança e ao adolescente, de acordo com as diretrizes internacionais de direitos
humanos”.
Neste contexto, achamos interessante fazer algumas considerações sobre o ECA, tais
como: o direito a permanência em tempo integral dos pais ou responsável em casos de
internações; direito à educação visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para
o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho, atendimento integral à saúde
garantindo o acesso universal e igualitário às ações e serviços para promoção, proteção e
recuperação da saúde. (BRASIL, 2005b).
23
É importante citar também, o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do
Adolescente (CONANDA), na Resolução nº 41 de 17 de Outubro de 1995, a qual descreve
alguns direitos das crianças e adolescentes hospitalizados, dentre eles:
Direito à proteção, a vida e a saúde com absoluta prioridade e sem qualquer forma de
discriminação;
Direito de ser hospitalizado quando for necessário ao seu tratamento, sem distinção de
classe social, condição econômica, raça ou crença religiosa;
Direito de não ser ou permanecer hospitalizado desnecessariamente por qualquer razão
alheia ao melhor tratamento de sua enfermidade;
Direito a ser acompanhado por sua mãe, pai ou responsável, durante todo o período de
sua hospitalização, bem como receber visitas;
Direito de não sentir dor, quando existam meios para evitá-la;
Direito de ter conhecimento adequado de sua enfermidade, dos cuidados terapêuticos e
diagnósticos, respeitando sua fase cognitiva, além de receber amparo psicológico
quando se fizer necessário;
Direito de desfrutar de alguma forma de recreação, programas de educação para a
saúde, acompanhamento do curriculum escolar durante sua permanência hospitalar.
(BRASIL, 2005c).
Para que estes direitos sejam cumpridos, é necessário que existam serviços que
prestem uma assistência voltada para este grupo etário.
2.3 O câncer na adolescência
De acordo com o INCA, nos Estados Unidos da América (EUA), o câncer constitui a
segunda causa de mortalidade entre crianças e adolescentes abaixo de 15 anos. A incidência
24
anual estimada de câncer infantil é de 124 casos a cada 1 milhão de habitantes brancos, e de
98 casos por milhão de habitantes negros, sendo que são estimados 7 mil casos novos por ano.
(BRASIL, 2005d).
Conforme o INCA, as causas que levam ao aparecimento do câncer nos jovens estão
muito mais ligadas a fatores genéticos do que, propriamente à exposição ambiental e aos
agentes carcinogênicos. (BRASIL, 2005d).
Os tipos de câncer mais comuns na adolescência são:
Leucemia linfoblástica aguda;
Leucemia mielocística aguda;
Tumores cerebrais: gliomas, astrocitomas cerebelar e cerebral, meduloblastoma;
Sarcoma de Ewing;
Tumor de células germinativas;
Linfoma de Hodgkin;
Linfoma de Não-Hodgkin;
Neuroblastoma;
Osteossarcoma;
Rabdomiossarcoma;
Tumor de Wilms e
Sarcoma de tecidos moles.
O tratamento do câncer no jovem tem uma perspectiva diferente em relação ao adulto.
A cura total da doença é sempre o objetivo final do tratamento. Isto se deve ao fato de que o
jovem tem que viver toda uma vida; crescer, trabalhar, construir uma família, enquanto nos
adultos, nem sempre a cura é possível e o objetivo do tratamento transfere-se para
proporcionar uma melhor qualidade de vida. (BRASIL, 2005d).
Os estudos na área de Oncologia tendem a preocupar-se mais com câncer na
população de adultos e de crianças, ficando um espaço vago na literatura no que diz respeito à
abordagem ao adolescente portador de câncer.
Descreveremos a seguir, os tumores encontrados nos adolescentes do estudo:
25
Linfomas Não Hodking (LNH)
O linfoma não-Hodking é um grupo heterogêneo de doenças linfoproliferativas, com
características clínicas e biológicas semelhantes. Apesar de sua etiologia ainda ser
desconhecida, o linfoma parece ter relação com alguns aspectos como: a imunodeficiência do
organismo, aos agentes infecciosos e a exposição ambiental e ocupacional. (FEHER;
SALVAJOLI; VALADARES, 2002).
Este tipo de linfoma pode ocorrer em qualquer parte do corpo, tais como: baço,
linfonodos e tonsilas, pois o tecido linfóide apresenta grande extensão. (PEREIRA;
PASQUINI, 1991).
O linfoma não-Hodking é um grupo complexo de quase 40 formas distintas desta
doença e são agrupados de acordo com o tipo de célula linfóide, se linfócitos B ou T.
(FEHER; SALVAJOLI; VALADARES, 2002).
Dependendo da região acometida, o quadro clínico apresenta algumas características,
dentre elas: adenopatias periféricas indolores e de consistência geralmente elástica; tosse,
dispnéia e dor torácica, podem ser conseqüentes à compressão de vias respiratórias ou por
invasão do parênquima pulmonar; diarréia, constipação, mudança de hábito intestinal e
hemorragia relacionada com o comprometimento intestinal; ascite, como sendo uma
manifestação tardia, devido ao comprometimento peritoneal; alterações neurológicas tardias
relacionadas à topografia da lesão; invasão do encéfalo por metástases. O tratamento indicado
é o uso de quimioterapia, sendo que a radioterapia é realizada somente nos casos
emergenciais, quando a doença está muito avançada. (SASSE, 2006a).
Doença de Hodking
A doença de Hodking é uma neoplasia maligna do tecido linfóide e de etiologia
desconhecida. Acredita-se que, as crianças com menor exposição a doenças infecciosas, os
indivíduos que trabalham com madeira, a amigdalectomia e a apendicectomia prévias, a
presença de alguns antígenos do sistema HLA (Antígeno Leucocitário Humano) e a história
de infecção prévia pelo vírus Epstein-Barr favorece o aparecimento desta patologia.
(PASQUINI; MEDEIROS, 1991).
26
O Linfoma de Hodking pode ser subclassificado de acordo com suas características
histopatológicas em: Predominância Linfocitária forma nodular, Linfoma de Hodking clássico
(Esclerose nodular, Celularidade mista, Depleção Linfocitária e Linfoma de Hodking clássico
rico em linfócitos). (FEHER; SALVAJOLI; LIMA, 2002).
O quadro clínico apresenta-se por linfadenomegalia, principalmente na região cervical
e supraclavicular ou mais raro nas regiões inguinais e axilares. Os linfonodos hipertrofiados
são indolores e de consistência firme. Podem acometer em menor freqüência os linfonodos do
mediastino, especialmente mulheres jovens, levando ao aparecimento de tosse e dispnéia.
(PASQUINI; MEDEIROS, 1991).
Outros sintomas como febre, sudorese noturna, perda de peso, prurido indicam que a
doença encontra-se mais avançada. De acordo com a localização, volume e efeitos
compressivos da hipertrofia dos linfonodos, esses podem determinar manifestações clínicas
variadas. (PASQUINI; MEDEIROS, 1991).
O tratamento é realizado com quimioterapia e radioterapia, sendo que, a escolha
depende do estadiamento inicial da doença. A combinação dos dois tratamentos produz
efeitos significativos na cura da doença. (SASSE, 2006b).
Leucemia Mielóide Aguda (LMA)
A LMA é uma doença na qual ocorre um bloqueio no processo de diferenciação
celular, resultando assim, no acúmulo de células (blastos) na medula óssea ou outros órgãos,
acometendo as células da linhagem mielóide (células vermelhas, células brancas e plaquetas),
necessitando de tratamento imediato devido à rápida evolução da doença. (FEHER;
PEREIRA, 2002).
A etiologia da LMA está relacionada com radiação ionizante, agentes químicos,
desordens genéticas, desordens adquiridas e tabagismo. (FEHER; PEREIRA, 2002).
A classificação da LMA é realizada através do tipo de célula neoplásica predominante.
A French-American-British (FAB) é a classificação mais utilizada: leucemia mieloblástica
aguda, mínima diferenciação; leucemia mieloblástica aguda, sem maturação; leucemia
mieloblástica aguda, com maturação; leucemia promielocítica aguda; leucemia promielocítica
aguda, variante microgranular; leucemia mielomonocítica aguda; leucemia mielomonocítica
27
aguda com eosinofilia; leucemia monocítica aguda; eritroleucemia aguda; leucemia
megacarioblástica aguda. (FEHER; PEREIRA, 2002).
O quadro clínico caracteriza-se por alguns sintomas como: sangramentos, pela
plaquetopenia; febre, pelas infecções secundárias a neutropenia; fraqueza, cansaço e anorexia
relacionados à anemia; infiltração de outros órgãos e outras estruturas (hipertrofia gengival,
hepatoesplenomegalia, tumorações em partes moles), coagulação intravascular disseminada.
(ONSTEN; JOB, 1991).
O tratamento é realizado por quimioterapia, através de duas fases, a indução e a
consolidação. (FEHER, PEREIRA, 2002).
Os pacientes que não respondem à fase de indução, realizarão o transplante de medula
óssea (TMO) se, tiverem um doador compatível. (SASSE, 2006c).
Leucemia Linfocítica Aguda (LLA)
A LLA é uma doença caracterizada pela proliferação de células progenitoras imaturas
da linhagem hematopoiética. (FEHER; NICOLAU, 2002).
Sua etiologia é desconhecida, mas alguns fatores estão relacionados ao seu
desenvolvimento como: alterações genéticas (Síndrome de Down, Klinefelter e anemia de
Fanconi), exposição à radiação ionizante, agentes químicos. Existe uma evidência indireta
com o vírus Epstein-Barr, linfoma de Burkitt e a associação ao HTLV-1. (FEHER;
NICOLAU, 2002).
Os sinais e sintomas da LLA são infiltrações de medula óssea e hematopoiese ineficaz
(palidez cutânea, taquicardia, fadiga, relacionado com anemia; petéquias e quadros
hemorrágicos, relacionados com a trombocitopenia; leucopenia levando a quadros
infecciosos),
infiltração
de
órgãos
e
outras
estruturas
como
esplenomegalia
e
linfadenomegalia; infiltração do sistema nervoso central (cefaléia, rigidez de nuca e déficits
de pares cranianos) e síndrome da lise tumoral (ácido úrico elevado, hiperfosfatemia,
hipercalemia, hipocalcemia, acidose metabólica e insuficiência renal aguda). (FEHER;
NICOLAU, 2002).
A LLA é classificada de acordo com a Franco-Américo-Britânico (FAB) da seguinte
forma: células pequenas, com relação núcleo/citoplasma elevada, ausência de grânulos, tdt +;
células de maior dimensão, nucléolo proeminente, maior volume citoplasmático. Tdt +;
28
grandes células arredondadas, citoplasma fortemente basofílico, intensa vacuolização.
(FEHER; NICOLAU, 2002).
O tratamento é realizado através de duas fases de indução, onde são administrados
agentes quimioterápicos até que a medula óssea não apresente mais células cancerosas; a
profilaxia do sistema nervoso central; a reindução; a consolidação e a manutenção. (FEHER;
NICOLAU, 2002).
Linfoepitelioma
O linfoepitelioma é um tipo de neoplasia maligna da nasofaringe, que apresenta uma
grande quantidade de tecido linfóide. (IKEDA; PELLIZON, 2002).
A etiologia está relacionada ao vírus Epstein-Barr, determinantes genéticos, exposição
ao formaldeído, dieta rica em nitrosaminas (peixe salgado), contato contínuo com
hidrocarbonetos policíclicos (fumaça de madeira queimada), sinusite crônica e higiene
precária. (IKEDA; PELLIZON, 2002).
As neoplasias malignas da nasofaringe são classificadas, de acordo com a OMS, em:
tipo 1 (carcinoma espinocelular queratinizado); tipo 2 (carcinoma espinocelular não
queratinizado) e tipo 3 (carcinoma indiferenciado, linfoepitelioma). (IKEDA; PELLIZON,
2002).
Os sintomas estão relacionados com a localização e a extensão da lesão, dentre os
quais: diminuição da acuidade auditiva, obstrução e ou sangramento nasal, comprometimento
de nervos cranianos, cefaléia, otalgia e queda do estado geral. Muitas vezes o diagnóstico se
dá através do surgimento de metástases cervicais por apresentar uma sintomatologia pobre.
(IKEDA; PELLIZON, 2002).
O tratamento principal do carcinoma de nasofaringe é a radioterapia. A quimioterapia
antineoplásica é utilizada como coadjuvante. (IKEDA; PELLIZON, 2002).
Rabdomiossarcoma
Rabdomiossarcoma é uma classificação dos sarcomas de partes moles (SPM). Os
tecidos de partes moles são de origem mesenquimal extraósseo e extravisceral, que
29
correspondem às estruturas musculares, tendões, tecido fibroso, gordura, sinóvia, bainha de
nervos, entre outros. (CUNHA; THEREZA; MARTINHO, 1991).
O rabdomiossarcoma é um sarcoma de diferenciação para músculo estriado e, devido à
baixa incidência, são poucos os estudos realizados, e assim, muitas vezes, o diagnóstico é
dado tardiamente, o que pode levar a condutas inapropriadas e complicações, como piora na
qualidade de vida, devido à perda do membro. (LOPES et al, 2002).
A etiologia ainda não é conhecida, mas existem alguns fatores de risco como:
linfedema crônico, irradiação prévia, neurofibromatose e Síndrome da Imunodeficiência
Adquirida (SIDA). (LOPES et al, 2002).
Nos sarcomas de partes moles, geralmente não ocorrem sintomas característicos.
Apresentam-se como massas de tecidos, que à medida que vão crescendo, podem comprimir
estruturas nervosas causando dor e estruturas vasculares causando linfedema. (CUNHA;
THEREZA; MARTINHO, 1991).
O tratamento dos SPM é realizado através da combinação de cirurgia, radioterapia e
quimioterapia na tentativa de controlar localmente o tumor e evitar o desenvolvimento de
metástases. As amputações são realizadas somente quando os tumores não respondem ao
tratamento. (CUNHA; THEREZA; MARTINHO, 1991).
Tumor de Ewing
O Sarcoma de Ewing é também chamado de endotelioma difuso do osso, sendo a
segunda neoplasia óssea mais comum na infância e adolescência. (PETRILLI; EPELMAN,
1991).
O sintoma mais comum é a dor persistente e o aumento das partes moles com
alteração da função. Também pode apresentar febre e queda do estado geral. (PETRILLI;
EPELMAN, 1991).
Os locais mais acometidos são os ossos pélvicos, e entre os ossos da extremidade
estão o fêmur, tíbia, fíbula e úmero. A parede torácica, a escápula e as vértebras também
podem ser acometidas. (COSTA et al, 2002).
O tratamento é realizado através de quimioterapia, radioterapia e cirurgia. Esta
interação vem melhorando significativamente a qualidade de vida e a sobrevida destes
pacientes. (COSTA et al, 2002).
30
Osteossarcoma
É um tumor ósseo maligno caracterizado por células malignas do estroma, que
apresentam a formação de osteóide. (PETRILLI; EPELMAN, 1991).
Na adolescência este tumor aparece em áreas de crescimento rápido do osso, ou seja,
ao redor das epífises dos ossos longos. (MENDES; PENNA; LOPES, 2002).
Podemos considerar três fatores como causa do osteossarcoma: papel do crescimento,
na qual se acredita que as células em proliferação rápida seriam particularmente suscetíveis a
agentes oncogênicos, erros mitóticos ou outros acontecimentos que levariam a transformação
neoplásica; fatores genéticos, como casos múltiplos em uma mesma família, retinoblastoma
bilateral (hereditário autossômico dominante), osteogênese imperfeita, exostoses hereditárias
múltiplas e doença de Paget; e, fatores ambientais, aonde o único fator definido é a irradiação
ionizante.
Apesar de muitas pessoas associarem o trauma ao aparecimento do tumor ósseo, não
existem evidências literárias que comprovem esta associação. Na verdade o que acontece é
que, o trauma faz com que o paciente procure assistência médica, devido à dor. (PETRILLI;
EPELMAN, 1991).
O sintoma mais comum é a dor local seguida de edema, calor local, e limitação na
movimentação da articulação comprometida. O tratamento é realizado através da
quimioterapia e cirurgia, sendo que, a radioterapia é utilizada somente em casos paliativos.
(SASSE, 2006d).
2.4 O estresse e o câncer
No transcorrer do processo de doença por câncer, o estresse pode estar presente em
várias etapas da doença. Conforme Lipp (1996, p.20)
[...] o stress é definido como uma reação do organismo, com componentes
físicos e ou psicológicos causados pelas reações psicofisiológicas que
ocorrem quando a pessoa se confronta com uma situação que, de um modo
ou de outro, a irrite, amedronte, excite ou confunda, ou mesmo que a faça
intensamente feliz.
31
Observa-se que, vários fatores podem ser os desencadeadores do estresse. Segundo
Carvalho (1998, p.159)
[...] o câncer é uma doença ainda comumente associada à dor, sofrimento,
degradação. Receber um diagnóstico de câncer equivale muitas vezes, a uma
sentença de morte. O dano psicológico do câncer é grande, pacientes se
vêem diante da morte próxima com sintomas aversivos, perda das
habilidades funcionais, vocacionais, frustração e incerteza quanto ao futuro.
Holmes e Rahe (1967 apud Lipp, 1996, p.20), afirmam que “tudo o que cause uma
quebra na homeostase interna, que exija alguma adaptação pode ser chamado de estressor”.
Segundo os autores, qualquer fato que exige a adaptação a mudanças, constitui-se em
estressores importantes, porque a pessoa necessitará despender energia adaptativa para poder
lidar com este evento.
O processo de “stress” desencadeia-se em três fases:
Fase de alerta: é a primeira fase do processo e inicia-se quando a pessoa se confronta
inicialmente com um estressor;
Fase de resistência: ocorre quando o estressor é de longa duração. A energia
adaptativa de reserva é utilizada na tentativa de re-equilíbrio. Se o estressor exige uma
adaptação maior do que o possível para o indivíduo, o organismo enfraquece e tornase vulnerável a doenças;
Fase de exaustão: ocorre quando a resistência da pessoa não é suficiente para lidar
com a fonte de stress. É nesta fase que ocorrerá a exaustão psicológica, física e as
manifestações das doenças. (LIPP, 1996).
A intensidade do nível de estresse pode ser variável e ocorrer em qualquer estágio da
doença.
32
2.5 O estresse no adolescente com câncer
A adolescência é a etapa em que ocorrem as maiores transformações no ser humano
durante toda a vida, do nascimento à morte. (GUZMAN e CANO, 2000).
De acordo com estudo realizado pelos autores, os adolescentes quando necessitam de
internação hospitalar, deparam-se com situações angustiantes.
Silveira e Carvalho (2003, p.33) citam em seu estudo que “a internação é um momento
crítico na vida do doente e das pessoas próximas a ele em razão da intensa ansiedade, medo e
insegurança gerada pelo evento”.
Existem poucos estudos dedicados à investigação do estresse no adolescente, sendo
que, a probabilidade de desenvolvê-lo é maior nesta fase, do que em qualquer outra faixa
etária, pois são eles que constituem a população mais suscetível e influenciável às
estimulações externas e psicossociais. (CALAIS; ANDRADE; LIPP, 2003).
Durante a internação hospitalar, além de terem que enfrentar o isolamento de tudo o
que lhe é familiar, a modificação de sua imagem, o rompimento de laços afetivos, o
seguimento de normas e rotinas, os adolescentes ainda enfrentam o despreparo dos
profissionais, que tendem a tratá-los ora como adultos, ora como crianças. (GUZMAN e
CANO, 2000).
Para Bessa (1997 apud Guzman e Cano, 2000), constata que, o isolamento social e o
afastamento dos amigos são os primeiros problemas causados pelas normas hospitalares, uma
vez que a visita destes só poderá ocorrer nos horários pré-estabelecidos pela Instituição de
Saúde.
Outros fatores que são citados por Guzman e Cano (2000), como geradores de conflito
entre os adolescentes e muitas vezes com a equipe de enfermagem, são a padronização de
vestimentas dos pacientes, a questão dos horários impostos pela rotina hospitalar, dentre eles:
para alimentação, para dormir, para levantar, entre outros, que diferem muitas vezes dos seus
horários antes da internação.
A partir destas considerações, acreditamos que este estudo contribuirá para que se
conheçam os estressores presentes durante a hospitalização do adolescente com câncer,
contribuindo para novas pesquisas direcionadas para a assistência ao adolescente com câncer.
33
“Quem quiser alcançar um objetivo distante tem que dar
muitos passos curtos”.
Helmut Scmidt
34
3 CONSTRUINDO UM MARCO REFERENCIAL A PARTIR DA TEORIA DE
BETTY NEUMAN
3.1 Pressupostos filosóficos de Neuman
A teoria de Betty Neuman, ou o modelo de sistemas foi desenvolvido em 1970, na
Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, para auxiliar estudantes de Graduação em
Enfermagem a adquirir uma visão holística dos seres humanos, considerando as variáveis
fisiológicas, psicológicas, sócio-culturais, desenvolvimentistas e espirituais funcionando em
harmonia com o ambiente. (GEORGE, 2000).
Estressor
Estressor
Estressores
Estrutura
Básica
Intra
Extra
Fatores
Pessoais
Graus
de
Reação
Recursos de
Energia da
Estrutura
Básica
Reação
Intra
Extra
Fatores
Pessoais
Reconstituição
Reação
Estressores
Reconstituição
Intra
Extra
Fatores
Pessoais
Figura 1: Modelo de Sistemas de Betty Neuman
35
Seus dois principais componentes são o estresse e a reação ao estresse. Para Neuman,
os estressores são as situações de enfrentamento que provocam automaticamente reações
orgânicas com efeitos simultâneos fisiológicos, psicológicos, sócio-culturais e até mesmo
ambientais. A reação ao estresse é a capacidade de receber através de seu sistema pessoal, as
intervenções de origem extrapessoais e intrapessoais, ajustando o sistema para readquirir
estabilidade, ou para levá-lo à doença. (GEORGE, 2000).
Deste modo, consideramos que este modelo foi importante para o estudo realizado,
pois sustentou a abordagem dos estressores no adolescente com câncer durante a internação
hospitalar.
Neuman utiliza o termo cliente para designar tanto o indivíduo saudável, bem como o
portador de uma doença e o mesmo é considerado um sistema aberto onde existem ciclos
repetidos de entrada, de processo, de saída e de retroalimentação, que buscam uma
estabilidade. A mesma considera que há fatores que podem desestabilizar este sistema. Os
fatores são denominados de estressores, que podem trazer efeitos positivos ou negativos para
o indivíduo. Optamos por utilizar o termo adolescente, não o caracterizando exclusivamente
como um cliente ou paciente, mas como um jovem num processo transitório de doença por
câncer, numa etapa do seu processo de viver.
No sistema de Betty Neuman, conforme a Figura 1, o indivíduo é envolto,
figuradamente, por círculos concêntricos que ela denomina de linha. A primeira delas é a
linha normal de defesa que é considerada como um nível de saúde desenvolvido e adaptado
através do tempo e considerado normal para um indivíduo em particular ou um sistema. É
usada como a linha basal para a determinação de desvios no sistema do cliente. (GEORGE,
2000).
A seguinte, sobre esta, é a linha flexível de defesa, um mecanismo protetor que rodeia
e protege a linha normal da entrada de qualquer invasor (estressor), ou seja, serve como um
amortecedor, ora se expandindo, ora se afastando da linha normal de defesa. À medida que
aumenta a distância entre as linhas flexível e normal de defesa, cresce o grau de proteção
disponível para o sistema. (GEORGE, 2000).
Uma vez ocorrida à invasão, o adolescente lança mão da linha de resistência,
composta por fatores de resistência interna, ativados para proteger e preservar a estrutura
básica contra o agente invasor. Esses fatores diminuem a intensidade do grau de reação do
invasor.
36
A quantidade de instabilidade do sistema resultado da invasão é chamado de grau de
reação. E o retorno e manutenção da estabilidade do sistema após o tratamento da reação
ocasionada pelo invasor podem resultar em um nível maior ou menor de bem-estar.
3.2 Definindo os conceitos segundo Neuman
Os conceitos adotados foram:
Ambiente: Neuman (1995 apud George, 2000), define ambiente como todos
os fatores ou influências internas e externas que circundam o cliente ou o seu sistema. Ela
inclui o ambiente interno, ambiente externo e o ambiente criado.
Este último é desenvolvido pelo adolescente inconscientemente, representando a troca
de energia do sistema aberto, tanto com o ambiente interno, quanto o externo. Está
relacionado às variáveis psicológicas e sócio-culturais. Sua função é de servir como um
enfrentamento protetor.
Estressores: Neuman (1995 apud George, 2000, p.229), define estressores
como “estímulos que produzem tensões e têm o potencial de causar a instabilidade do
sistema”.
Neuman classifica os estressores como de natureza:
- intrapessoais, quando ocorrem dentro dos limites do sistema;
- interpessoais, ocorrem fora dos limites do sistema e estão próximos a ele; e
- extrapessoais, também ocorrem fora dos limites do sistema, mas estão mais distantes a ele.
Saúde: Neuman (1995 apud George, 2000, p.230), identifica a saúde como “a
estabilidade do sistema ou o estado de bem-estar ideal em um determinado momento”.
A saúde também é vista como dinâmica, com níveis de mudança ocorrendo no sistema
do cliente, devido às mudanças exercidas pelos estressores.
37
A autora cita que, “o sistema do cliente move-se em direção à doença e à morte,
quando é necessária mais energia do que a disponível, e em direção ao bem-estar, quando a
quantidade de energia que está disponível excede a necessária”. (GEORGE, 2000, p. 230).
Enfermagem: Neuman também discute a enfermagem como parte de seu
modelo. Afirma que “a principal preocupação da enfermagem é ajudar o sistema do cliente a
atingir, manter ou reter a estabilidade do sistema”. (GEORGE, 2000, p.231).
3.3 Definindo outros conceitos
Adolescente - adolescentes são indivíduos na faixa etária entre os 10 e 19 anos, e
jovens, o grupo compreendido entre 15 e 24 anos. (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA
SAÚDE, 2005).
Adolescente com câncer - entendemos como o ser humano interagindo com seu
processo de doença. Neste processo ele apresenta alterações no seu contexto de vida
necessitando de suporte para o enfrentamento da doença em todos os níveis.
Hospital - corresponde à parte integrante de uma organização Médica e Social, cuja
função básica, consiste em proporcionar à população Assistência Médica Sanitária completa,
tanto curativa como preventiva, sob quaisquer regimes de atendimento, inclusive o domiciliar,
cujos serviços externos irradiam até o âmbito familiar, constituindo-se também, em centro de
educação, capacitação de Recursos Humanos e de Pesquisas em Saúde, bem como de
encaminhamento de pacientes, cabendo-lhe supervisionar e orientar os estabelecimentos de
saúde a eles vinculados tecnicamente. (BRASIL, 2005d).
Hospitalização - entendemos como hospitalização, o período em que o indivíduo
permanece internado em uma instituição hospitalar para o diagnóstico, estadiamento,
tratamento, reabilitação de um processo de doença.
38
Doença/câncer - segundo Ávila (1997, apud Santos e Silva, 2002, p.66-67) define
“doença/câncer em oncologia não representa uma única doença, mas é um processo comum a
um grupo de manifestações não saudáveis que diferem em sua etiologia, freqüência e
manifestações clínicas que alteram a vida numa proporção multidimensional, de acordo com
os critérios pessoais/culturais/situacionais”.
39
“Existiam dois caminhos a serem percorridos. Eu
escolhi o caminho menos percorrido e isto fez toda a
diferença.”
Robert Froy
40
4 O CAMINHO METODOLÓGICO
4.1 Característica geral do estudo
Este estudo constituiu-se, de acordo com o objetivo proposto: conhecer os estressores
do adolescente com câncer internado em uma unidade hospitalar e, se desenvolveu na área de
enfermagem oncológica, tendo como campo uma Instituição de Saúde que assiste a pessoa
com câncer nas diversas etapas do processo de doença, desde o diagnóstico até o óbito, na
cidade de Florianópolis, em Santa Catarina.
Tratou-se de uma pesquisa qualitativa, convergente-assistencial, que “articula a prática
profissional com o conhecimento teórico, pois os seus resultados são canalizados
progressivamente, durante o processo de pesquisa, para as situações práticas”. (TRENTINI e
PAIM, 1999, p.26).
Neste modelo teórico observa-se a relação entre a situação atual, com a
intencionalidade para buscar medidas resolutivas, gerando mudanças e inovações, que
repercutirão na situação social. (TRENTINI E PAIM, 1999).
Também concordamos com Marconi e Lakatos (1982, p.32), quando consideram que o
estudo, de um modo geral, pode tornar possível a observação da realidade, no qual ele está
inserido, ressaltando que
[...] toda pesquisa deve basear-se em uma teoria que serve como ponto de
partida para uma investigação bem sucedida de um problema. A teoria,
sendo instrumento da ciência, é utilizada para conceituar os tipos de dados a
serem analisados. Para ser válida, deve apoiar-se em fatos observados e
provados, resultantes da pesquisa. A pesquisa dos problemas práticos pode
levar à descoberta de princípios básicos e, freqüentemente, fornecer
conhecimentos que tem aplicação imediata.
Optamos pela Teoria de Enfermagem de Betty Neuman, como referencial teórico, para
conhecer os estressores do adolescente com câncer hospitalizado. Esta permitiu a
instrumentalização adequada para se construir uma configuração significativa sobre os
estressores, a partir das falas de um grupo de adolescentes com câncer.
41
4.2 Caracterização do campo de desenvolvimento do estudo
O estudo foi realizado com adolescentes com câncer hospitalizados numa Instituição
de Saúde Pública, vinculada à Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina, referência
estadual na área de oncologia, e na América Latina, em Cuidados Paliativos, pela OMS, que
atua nas áreas de prevenção e detecção precoce, tratamento quimioterápico e radioterápico,
transplante de medula óssea e câncer avançado.
Os adolescentes do estudo se encontravam hospitalizados na Unidade de Oncologia
Clínica que possui 26 leitos, divididos em cinco enfermarias e na Unidade de Transplante de
Medula Óssea, que tem 11 leitos, divididos em seis quartos. O atendimento é exclusivamente
através do Sistema Único de Saúde (SUS) e, possibilita que o adolescente seja acompanhado
pelos familiares.
Nesta instituição o adolescente permanece junto aos demais pacientes adultos e/ou
idosos, pois não existe uma unidade exclusiva para esta faixa etária.
4.3 Caracterização dos adolescentes do estudo
A princípio foi estipulada a faixa etária de 13 a 18 anos, mas no período de coleta de
dados participaram doze adolescentes de 15 a 18 anos, internados neste período. Fizemos o
contato com mais dois adolescentes, porém, quando explicamos que a entrevista seria
gravada, os mesmos recusaram a participar da pesquisa.
Foram estabelecidos os seguintes critérios para a seleção dos adolescentes:
ser portador de câncer;
ter conhecimento do diagnóstico;
ter idade situada entre os 13 e 18 anos;
não ter restrições à comunicação oral;
estar sendo assistido na instituição selecionada, nas etapas de estadiamento,
tratamento ou paliação;
42
concordar em participar do estudo, com consentimento livre e esclarecido pósinformação assinado (Apêndice A), e, também com a concordância e o
consentimento pós-informação assinado, pelo responsável legal.
Após aceitarem participar do estudo, preenchíamos a ficha de identificação (Apêndice
B), na qual foi possível coletar dados referentes a estado civil, escolaridade, profissão,
religião, diagnóstico médico e procedência.
A proposta inicial era abordar adolescentes em diferentes fases da doença, sendo
divididos da seguinte forma: três adolescentes de primeira internação, recém-admitidos na
unidade para estadiamento ou início de tratamento, três adolescentes em fase de tratamento
quimioterápico ou quimioterápico/radioterápico e três adolescentes em fase avançada da
doença, no período de vigência da pesquisa, que aceitassem participar e que também tivessem
a autorização formal do responsável legal.
O Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Instituição de Saúde sugeriu o aumento do
número de sujeitos, conforme o parecer a seguir: “apesar de ser uma pesquisa de caráter
qualitativo, consideramos que um número mais significativo de sujeitos permitirá uma melhor
análise dos dados” (SANTA CATARINA, 2005). Portanto, foi acatada a sugestão e ampliado
para cinco adolescentes de primeira internação, cinco em fase de tratamento quimioterápico
ou quimioterápico/radioterápico e cinco em fase avançada da doença.
Esta especificação enriqueceria nossa proposta de estudo, pois além de conhecermos
os estressores que acometem os adolescentes, estaríamos conhecendo especificamente os
estressores em cada fase da doença.
Porém, devido à baixa demanda de adolescentes internados no período de coleta de
dados não foi possível alcançarmos o que foi proposto. Realizamos duas entrevistas com
adolescentes de primeira internação, recém-admitidos na unidade para estadiamento ou início
de
tratamento,
oito
que
estavam
em
fase
de
tratamento
quimioterápico
ou
quimioterápico/radioterápico e dois que estavam em fase avançada da doença, sendo que, no
período de coleta de dados, fomos informadas de que um deles foi há óbito 45 dias após a
realização da entrevista e o outro 17 dias após.
Apesar de não alcançarmos o número de adolescentes em cada fase da doença, esta
alteração não modificou o que havia sido proposto, pois mesmo assim conseguimos
identificar os estressores do adolescente com câncer internado em uma unidade hospitalar.
43
4.4 O caminho percorrido
1º momento: após a assinatura do termo de aceite de orientação (Anexo I), a proposta
do estudo foi apresentada e aprovada pela Instituição de Saúde, com a assinatura da folha de
rosto para pesquisa envolvendo seres humanos e encaminhada à Coordenação do Curso de
Graduação em Enfermagem e CEP da UNIVALI. Esta foi aprovada e submetida ao CEP da
Instituição de Saúde para apreciação e aprovação.
2º momento: após aprovação, foi agendada uma reunião com a Gerente de
Enfermagem para apresentação do projeto de pesquisa e, posteriormente apresentado para as
equipes de enfermagem das Unidades de Oncologia Clínica e Transplante de Medula Óssea.
3º momento: a seleção dos adolescentes atendeu aos critérios estabelecidos. Para a
busca dos sujeitos do estudo, mantínhamos contato telefônico com as Unidades
semanalmente. Quando havia adolescente internado, realizávamos uma visita à Unidade e
entrávamos em contato com o jovem expondo a proposta e os objetivos do estudo. Caso o
adolescente e o responsável legal aceitassem participar, explicávamos o projeto e o termo de
consentimento livre e esclarecido deixando claro que poderiam desistir em qualquer etapa do
estudo. Após o esclarecimento, o adolescente e o responsável legal assinavam o termo.
4º momento: para a coleta de dados, optou-se pela técnica de entrevista semiestruturada (Apêndice C), com a utilização de um gravador. Foi realizado um teste piloto de
validação com dois adolescentes, para verificar a viabilidade da aplicação do instrumento da
pesquisa e treinamento das acadêmicas de enfermagem. Foi utilizado também, um diário de
campo para registros de nossas observações, dos comentários que ouvimos da equipe das
unidades e dos adolescentes e seus familiares, como também as impressões, o sentir, que
tivemos durante a coleta de dados.
A coleta de dados, após a aprovação do CEP, estava prevista para ocorrer no período
de março a julho de 2006, na Unidade de Internação. Porém, devido à baixa demanda de
adolescentes internados, prorrogamos este período até o dia 01 de setembro de 2006, com o
objetivo de aumentar o número de sujeitos. As entrevistas ocorreram numa situação
44
assistencial, pois os adolescentes estavam sendo assistidos nas unidades, na qual se escolheu o
momento oportuno para o procedimento, principalmente com agendamento prévio.
Para assegurar o anonimato e o sigilo dos adolescentes foi adotada uma escala de
convenção. Para tanto, levando em consideração que a adolescência é uma fase na qual se
busca a própria identidade, acreditamos que seria interessante deixarmos que os mesmos
escolhessem a sua denominação, conforme o quadro abaixo:
Beatriz – 18 anos
Geovani – 18 anos
Samuel – 18 anos
Inter – 15 anos
Juninho – 17 anos
Mestre – 17 anos
Juliano – 17 anos
Dinho – 16 anos
Fonte: www.grupo-esteco.com
Pedro – 16 anos
João – 17 anos
Fernando – 16 anos
Maisa – 16 anos
Figura 2. Denominação dos Adolescentes do Estudo
Identificação dos adolescentes
A identificação foi realizada, através dos codinomes escolhidos pelos próprios
adolescentes. Além disso, através da fala de cada adolescente, procuramos identificá-los com
uma imagem representando uma atividade que gostariam de estar realizando fora do hospital.
Juninho – Adolescente de 17 anos
“...Andar de skate...”
Entrevista realizada no dia 13 de março de 2006.
Diagnóstico de Rabdomiossarcoma em maio de 2005. No dia
da entrevista já tinha realizado 8 internações anteriores. Estava
há 26 dias internado no dia da entrevista. Realizou
Quimioterapia (QT). Foi à óbito em 30/03/2006.
45
Beatriz – Adolescente de 18 anos
Entrevista realizada no dia 20 de março de 2006.
Diagnóstico de Osteossarcoma de joelho direito em fevereiro de
2006. No dia da entrevista já havia realizado uma internação.
Estava há 6 dias internada no dia da entrevista. Realizou QT.
“...Cuida da minha filha,...
brincar com ela...”
Geovani – Adolescente de 18 anos
“Sai, vê os amigos,
passear.”
Entrevista realizada no dia 20 de março de 2006.
Diagnóstico de Sarcoma de Ewing em dezembro de 2004. No
dia da entrevista já tinha realizado 2 internações. Estava há 7
dias internado no dia da entrevista. Realizou QT.
Pedro – Adolescente de 16 anos
Entrevista realizada no dia 06 de maio de 2006.
Diagnóstico de Osteossarcoma de fêmur direito em março de
2006. No dia da entrevista já tinha realizado 4 internações.
Estava há 2 dias internado no dia da entrevista. Realizou QT.
“Fica
computador.”
Fonte:no
www.esec-s-antonio.rcts.pt/.../computador
.jpg
João – Adolescente de17 anos
Entrevista realizada no dia 25 de maio de 2006.
Diagnóstico de Linfoepitelioma em abril de 2005. No dia da
entrevista já tinha realizado 4 internações. Estava há 1 dia
internado no dia da entrevista. Realizou QT. Foi há óbito em
17/07/2006.
“Saí, dá umas volta.”
Samuel – Adolescente de 18 anos
“...Eu gostaria de tirar a
carteira de motorista...”
Entrevista realizada no dia 03 de julho de 2006.
Diagnóstico de Leucemia Linfócita Aguda em maio de 2005.
No dia da entrevista já tinha realizado 6 internações. Estava há
1 dia internado no dia da entrevista. Realizou QT.
46
Fernando – Adolescente de 16 anos
Entrevista realizada no dia 03 de julho de 2006.
Diagnóstico de Leucemia Mielóide Aguda em julho de 2005.
No dia da entrevista já tinha realizado 4 internações. Estava há
20 dias internado no dia da entrevista. Realizou QT.
“Jogar bola.”
Juliano – Adolescente de 17 anos
“Andava de bicicreta...”
Entrevista realizada no dia 17 de julho de 2006.
Diagnóstico de Leucemia Linfócita Aguda em fevereiro de
2005. No dia da entrevista já tinha realizado 6 internações.
Estava há 4 dias internado no dia da entrevista. Realizou QT.
Maisa – Adolescente de 16 anos
Entrevista realizada no dia 27 de julho de 2006.
Diagnóstico de Osteossarcoma coxa direita em março de 2006.
No dia da entrevista já tinha realizado 2 internações. Estava há
1 dia internada no dia da entrevista. Não havia realizado QT.
“...eu quero fazê faculdade...”
Mestre – Adolescente de 17 anos
Entrevista realizada no dia 01 de setembro de 2006.
Diagnóstico de Linfoma Hodking em novembro de 2005.
Esteve internado em outra instituição para realização de QT.
“...Saí com os amigos, tá
fazendo festa...”
Inter – Adolescente de 15 anos
“...jogo vídeo game...”
Entrevista realizada no dia 01 de setembro de 2006.
Diagnóstico de Leucemia Mielóide Aguda em janeiro de 2006.
No dia da entrevista já tinha realizado 1 internação. Estava há 9
dias internado no dia da entrevista. Realizou QT.
47
Dinho – Adolescente de 16 anos
Entrevista realizada no dia 01 de setembro de 2006.
Diagnóstico de Leucemia Mielóide Aguda em agosto de 2006.
1ª internação. Estava há 10 dias internado no dia da entrevista.
Realizou QT.
“Namorar um
pouco também.”
5º momento: análise e interpretação dos dados coletados. Iniciamos com a transcrição
das entrevistas e, após a leitura, a discriminação do material para a análise. Os dados
coletados foram codificados, classificados, categorizados e interpretados, de acordo com o
proposto por Neuman. Transcrevemos as observações do diário de campo que julgamos
pertinentes.
6º momento: confecção do relatório do projeto - monografia/Trabalho de Conclusão
de Curso (TCC) – e submissão à banca avaliadora e a comunidade acadêmica da Universidade
do Vale de Itajaí (UNIVALI).
7º momento: apresentação da monografia/TCC na Instituição de Saúde.
4.5 Evidenciando os aspectos éticos
Este estudo envolveu seres humanos e seguiu alguns aspectos éticos que são
fundamentais. Os aspectos éticos que se apresentaram no decorrer do estudo foram:
o direito do adolescente ao acesso à informação;
à vontade do adolescente como norma;
o respeito à autonomia do adolescente;
o respeito com a privacidade do adolescente.
Foram respeitados todos os princípios éticos determinados na Resolução 196/96, do
Conselho Nacional de Pesquisa em Seres Humanos. (BRASIL, 2005f).
48
O adolescente participou após a informação e discussão da proposta de estudo com ele
e o responsável legal. O termo de Consentimento Livre e Esclarecido foi redigido na 3ª pessoa
incluso o responsável legal no tratamento de Sr. (a) e o adolescente, com a designação de o(a)
filho (a). A assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido foi realizada pelo
adolescente e pelo responsável legal.
A utilização de denominações (apelidos) foi nomeada pelos próprios adolescentes,
como formas de garantir o anonimato da identidade e as informações são confidenciais.
Foi garantida a desistência no estudo a qualquer momento, inclusive sem nenhum
motivo, bastando para isso informar, de maneira que achasse mais conveniente, a desistência.
As divulgações dos resultados no meio acadêmico e científico até o momento foram e
continuarão sendo anônimas e em conjunto com as respostas do grupo de adolescentes, que
participaram do estudo. E, puderam solicitar informações durante todas as fases do estudo,
bem como poderão solicitá-las após a sua publicação.
Foram respeitados também, alguns aspectos éticos que estão descritos no Código de
Ética dos Profissionais de Enfermagem (COREN, 2003, p.66-67):
Art. 35: Solicitar consentimento do cliente ou de seu representante legal, de
preferência por escrito, para realizar ou participar da pesquisa ou atividade de
ensino em enfermagem, mediante apresentação da informação completa dos
objetivos, riscos e sua liberdade de participar ou declinar de sua participação no
momento que desejar;
Art. 36: Interromper a pesquisa na presença de qualquer perigo à vida e à
integridade da pessoa humana;
Art. 37: ser honesto no relatório dos resultados da pesquisa.
49
“O que encontramos depende principalmente do que
estamos procurando”
John Lubbock
50
5 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS COLETADOS
O estudo foi realizado com 12 adolescentes com câncer que no momento
encontravam-se hospitalizados. Na ficha de identificação observamos que, de acordo com o
estado civil, todos os adolescentes do estudo eram solteiros, sendo que uma das adolescentes,
de dezoito anos tinha uma filha de dois anos.
No que se referem à escolaridade e à profissão, dois dos adolescentes apresentavam o
1º Grau Incompleto, ambos afastados da escola; um com o 1º Grau Completo que também,
trabalhava (auxiliar de serviços gerais), mas estava afastado; seis tinham o 2º Grau
Incompleto, sendo que cinco deles estavam afastados e apenas um continuava freqüentando a
escola, um deles trabalhava, mas estava afastado da atividade profissional (auxiliar de
estamparia); dois com o 2° Grau Completo, sendo que um trabalhava (caixa de supermercado)
e um com 3º Grau Incompleto, cursando matemática.
Em relação à religião, houve predominância da católica, sendo que somente um
adolescente pertencia à religião evangélica.
Todos os adolescentes entrevistados tinham diagnóstico de câncer: um com Linfoma
Não-Hodking, um com Linfoma Hodking, três com Osteossarcoma, dois com Leucemia
Linfócita Aguda, dois com Leucemia Mielóide Aguda, um com Linfoepitelioma, um com
Rabdomiossarcoma e um com Sarcoma de Ewing.
Os adolescentes são procedentes de diversos municípios de Santa Catarina. De acordo
com as microrregiões do Estado, cinco são da microrregião de Florianópolis, um da
microrregião de Criciúma, um da microrregião de Joaçaba, dois da microrregião de Xanxerê,
um da microrregião de Blumenau, um da microrregião de São Miguel do Oeste e um da
microrregião de Campos de Lages.
Para a coleta de dados, utilizamos a técnica de entrevista com um roteiro de questões
focando o estresse, o cotidiano do adolescente durante a internação hospitalar, e os eventos
estressores durante a hospitalização.
A partir dos dados coletados levantamos as categorias que serão descritas a seguir:
51
5.1 O cotidiano do adolescente com câncer hospitalizado
Durante a hospitalização, as atividades realizadas no cotidiano do adolescente são
limitadas, tanto pelo espaço físico do ambiente, assim como pelas suas condições físicas e
psicológicas, levando-o a sofrer com as inúmeras mudanças de suas relações e de seu
cotidiano.
Segundo Pimentel (2005), o cotidiano é a sucessão das atividades realizadas pelo
homem em seu dia-a-dia, aonde se insere o tempo, espaço e sujeitos envolvidos nessa
dinâmica.
Assim, realizamos a seguinte pergunta para os adolescentes: “Como é o seu dia-a-dia
durante a internação hospitalar?” Destacamos a televisão e o vídeo-game, sendo os recursos
visuais e as atividades decorrentes deles mais citadas pelos adolescentes, como demonstram
as falas a seguir:
“Ah, eu fico o dia inteiro deitado, vendo televisão, jogando vídeo game que
eu trusse,[...]” (Juninho)
“[...] assisto TV.” (Pedro)
“Fico deitado e quando tem televisão fico vendo televisão[...]” (João)
“Assisti televisão [...]” (Fernando)
“[...] assisto TV.” (Maisa)
“[...] jogo vídeo game [...]” (Inter)
“[...] eu jogo vídeo game [...]” (Dinho)
“[...] a noite sempre assisto a novela [...]” (Mestre)
De acordo com Rizzini et al (2005), ao citar um estudo que teve como objetivo
pesquisar a interação entre jovens e adolescentes com as novas mídias nos seus espaços de
convivência e relacionamentos, como a família, escola e os grupos de amigos, realizado no
52
Rio de Janeiro, no ano de 2001 e 2002, envolvendo 949 jovens, com idades entre 11 e 17
anos, de cinco escolas do município, revela que, a televisão é o equipamento de comunicação
mais difundido, sendo citado por 97% dos adolescentes que participaram do estudo. Em
segundo lugar, o equipamento que está presente nos lares de 72% dos adolescentes que
participaram do estudo, foi o vídeo game, sendo que os meninos são os principais usuários.
Isto se confirma também em nosso estudo, pois os adolescentes que citaram jogar
vídeo game são todos do sexo masculino.
Outras atividades realizadas pelos adolescentes hospitalizados foram: ler revistas,
escutar música, dormir, como descrevem as falas a seguir:
“[...] leio revista, escuto música [...]” (Pedro)
“Eu procuro ler algum livro, escutar música e procuro preencher todo o meu
tempo dormindo, porque quanto mais eu durmo, mais rápido o tempo
passa.” (Samuel)
“[...] dormi, [...], escutar música, só.” (Fernando)
“[...] escuto música no radinho [...]” (Dinho)
As atividades dos adolescentes são bastante restritas no hospital, como podemos ver,
através dos resultados encontrados. O adolescente gosta de liberdade, espaço, pessoas da
mesma idade para que possa realizar as suas atividades, e isto não acontece durante a
internação hospitalar, pois esta instituição de saúde não é referência para o atendimento ao
adolescente.
Feriotti (2003 apud Pimentel, 2005) descreve a terapia ocupacional como um meio de
aproximar o cotidiano do paciente durante a internação, através de atividades que utilizam a
criatividade para superar os limites enfrentados durante a hospitalização.
Assim, podemos observar a importância de um serviço de saúde especializado, onde o
adolescente possa dispor de atividades que fazem parte de seu mundo, mesmo que adaptadas
ao cotidiano hospitalar.
53
5.2 Desvelando o significado do estresse para o adolescente com câncer hospitalizado:
agentes internos e externos
O estresse atualmente, vem sendo alvo de diversos estudos nas diversas faixas etárias,
pois com o passar dos anos, a incidência vem aumentando significativamente. Acreditamos
que um dos fatores para esta ocorrência, deve-se à mudança no estilo, repercutindo na
qualidade de vida, principalmente do jovem.
Segundo Houaiss e Franco (2001 apud Margis et al, 2003, p.65)
[...] o termo estresse denota o estado gerado pela percepção de estímulos que
provocam excitação emocional e, ao perturbarem a homeostasia disparam
um processo de adaptação caracterizado, entre outras alterações, pelo
aumento de secreção de adrenalina produzindo manifestações sistêmicas
com distúrbios fisiológicos e psicológicos.
Para conhecermos o significado do estresse para o adolescente internado em uma
unidade hospitalar, utilizamos a seguinte pergunta: “Qual o significado do estresse para
você?”.
Obtivemos, através do questionamento realizado com os adolescentes, que o
significado do estresse se apresenta sobre dois aspectos, os agentes internos e os agentes
externos.
No que diz respeito aos agentes internos, a palavra estresse representa, para os
adolescentes do estudo, desmotivação, fadiga, insatisfação e alterações emocionais como
nervosismo, ansiedade, angústia, tédio e preocupação. Quanto aos agentes externos, o estresse
está relacionado com a imobilidade, hospitalização, distanciamento dos seus grupos,
ociosidade, submissão a rotinas hospitalares e ao tratamento, atendimento da equipe de
enfermagem, falta de atividades recreativas, bem como algo que não dá certo.
Houaiss, Villar e Franco (2001, p.1264) definem o termo estressor como um “evento
ou estímulo que provoca ou conduz ao estresse”.
Portanto, podemos afirmar que, os eventos ou estímulos que conduzem ao estresse no
adolescente portador de câncer internado em uma unidade hospitalar estão extremamente
relacionados com a situação vivenciada por eles, e isto pode ser confirmado através das
seguintes falas:
54
“Ah, estresse eu acho que é uma angústia de ficar trancado aqui sem pode
fazer certas coisas [...]” (Dinho)
“Ah, estresse é fica parado aqui sem fazer nada [...]” (Juninho)
“Fica internada aqui, é muito, é triste fica internada [...]” (Beatriz)
Outro aspecto importante refere-se ao significado do estresse estar relacionado às
alterações emocionais, como demonstra a fala:
“Nervosismo, ansiedade, angústia, assim, fazê algo que não gosta ou
mesmo por demorar.” (Pedro)
Muitas vezes, o fato de estar hospitalizado, submetendo-se a procedimentos
terapêuticos, tendo que dividir o seu espaço com pessoas diferentes, acaba provocando
diversas alterações no estado emocional do adolescente.
Mass e Zagonel (2006) relatam também em seu estudo, o impacto da hospitalização
sobre
o
adolescente,
trazendo
sentimentos
como,
insegurança,
isolamento,
e
conseqüentemente, uma modificação na sua rotina diária.
Para Maldonado e Canela (2003 apud Mass e Zagonel, 2006) apesar da hospitalização
representar para o adolescente perdas e instabilidades, resultando em impacto emocional
profundo, este evento pode representar também, o alcance da maturidade, obtido através da
adaptação da situação vivenciada durante a hospitalização.
O estresse do adolescente com câncer transita entre os significados sociais já
internalizados, bem como os novos significados que a vivência e a permanência no ambiente
hospitalar proporcionam.
Durante a hospitalização, os adolescentes necessitam adaptar-se a certas rotinas que
lhe são impostas, como por exemplo, o horário da alimentação, das medicações, das visitas.
As atividades ocupacionais também se tornam um problema porque o jovem não pode assistir
televisão até tarde, jogar videogame e nem ouvir música muito alta. Isto porque, durante a
hospitalização tem que dividir o mesmo espaço, com outros pacientes, muitas vezes mais
velhos, tirando-lhe a sua privacidade.
Neste contexto, ao perguntarmos aos adolescentes se sentiam estressados durante a
internação hospitalar, três disseram que sim, três às vezes e seis relataram que não se sentem
55
estressados. Dentre aqueles que afirmaram sentir-se estressados, a ociosidade, a longa
permanência no leito, a falta ou às vezes a inexistência de atividades recreacionais, o fato de
sentir-se trancado no hospital e ter que respeitar as rotinas hospitalares, tornam-se fatores
estressantes. Assim, identificamos as seguintes falas:
“Porque eu não faço nada né, aí o cara fica aqui deitado o dia inteiro, só
vendo televisão, estressa mesmo.” (Juninho)
“[...] quando a televisão não tá ou não funciona, daí fica o dia todo sem fazê
nada, isto também é muito estressante.” (Samuel)
“Muito trancada, não pode sai e nada. Aí a gente quer sair, ouvi música,
mas não pode, assistir TV mais alto até mais tarde também não pode, daí a
gente se sente [...]” (Maisa)
Armond (2003) no estudo intitulado “Convivendo com a hospitalização do filho
adolescente”, relata que, o impacto da hospitalização atinge não só o jovem, mas também seus
pais. Refere que, o mundo do hospital é um desafio para ambos, sendo que, para os
adolescentes é muito difícil a hospitalização, pois se vêem privados do seu mundo anterior, ao
qual estavam acostumados.
Aqueles que relataram sentir-se às vezes estressados citaram que: a ociosidade, a
hospitalização e o afastamento do convívio social, são os fatores que os levam a sentir-se
estressados. As seguintes falas demonstram esta constatação:
“Pouco, porque não pode sair, não pode ver os amigos.” (Geovani)
“Tem vezes que sim, tem que fica muito tempo parado.” (Pedro)
“Às vezes, porque de vez em quando tem. Eu posso jogar vídeo game que
isso anima a gente, jogar baralho, fazer certas coisas assim que não deixa a
gente tão estressado.” (Dinho)
Por outro lado, há os adolescentes que não se sentem estressados, pois dizem gostar do
atendimento da equipe e sentem-se bem na unidade:
“Aqui eles atendem bem as pessoas, eles atendem bem e é bom ficar aqui.”
(Beatriz)
56
Segundo Vieira e Lima (2002), o hospital tem dois significados para o adolescente,
um que traz sofrimento e o outro, que traz a cura, aonde serão realizados todos os
procedimentos necessários, buscando não só salvar a sua vida, mas também trazendo a sua
saúde de volta.
Assim, acreditamos que, o fato do adolescente gostar de ficar internado esteja
relacionado à segurança, ao acolhimento que recebem durante a internação hospitalar.
Sentem-se amparados, seguros, pois no hospital sabem que serão bem cuidados, receberão a
medicação no horário certo, sempre terá alguém por perto, e o mais importante no momento, é
cuidar de sua saúde.
Muitos jovens são procedentes de Municípios do interior de Santa Catarina, e muitas
vezes os serviços de saúde não prestam uma assistência adequada e direcionada para ele.
Portanto, este é mais um fator que leva o adolescente a gostar de ficar internado na instituição
de saúde onde a pesquisa foi realizada.
Acrescentamos que, apesar da metade dos jovens relatarem que não se sentem
estressados durante a internação hospitalar, percebemos que, ao serem questionados sobre as
situações que os estressam no hospital, apenas um deles não relatou nenhuma situação, os
outros cinco referiram algum incômodo.
Segundo Pimentel (2005), durante a internação hospitalar, o indivíduo vivencia
diversas sensações, dentre elas, o sofrimento, a solidão, a dependência de outras pessoas, o
medo, as incapacidades, e várias outras situações.
Ao perguntarmos para os adolescentes quais eram as situações de estresse durante a
internação hospitalar, percebemos que os incômodos referem-se às rotinas hospitalares, aos
procedimentos realizados, ao confinamento e a falta de atividades recreativas:
“[...] tem que fica deitado o dia inteiro, por causa do repouso [...] não pode
comer fruta, quando a dieta, assim, tem que ser como eles querem.”
(Juninho)
“[...] só fica trancado aqui dentro, coisa que não é acostumado a fazer.”
(Geovani)
“Hora da quimioterapia, tê que fica bastante tempo parado, dá uma angústia
[...]” (Pedro)
“O que mais me estressa é agulha. Porque todo o meu tratamento é a base
de agulha [...]” (Samuel)
57
“[...] Andar com o soro né, porque o soro a gente tem que andar direto, daí
incomoda um pouco.” (Dinho)
A hospitalização e a submissão aos procedimentos invasivos, como por exemplo, o
implante de cateteres, o tratamento quimioterápico, dentre outros se tornam fatores de estresse
para o adolescente.
Isto porque, segundo Paterson e Zderad (1979 apud Oliveira, Costa e Nóbrega, 2006),
quando o cliente encontra-se em uma instituição de saúde, percebe-se como um ser estranho,
onde tudo é novo. Afasta-se do convívio familiar, e passa a conviver rodeado por
equipamentos comuns do ambiente hospitalar, como por exemplo, equipamentos, máquinas,
instrumentos, dentre outros. Em meio há tantas modificações, o adolescente pode sentir
diversos sentimentos, como medo, insegurança, tristeza, podendo levar ao estresse.
Outro aspecto que também é fator de estresse, para os adolescentes internados é o
atendimento da equipe de enfermagem. Como demonstram as falas a seguir:
“[...] aqueles enfermeiros meio doidos né, que sai bagunçando, balançando,
dando lambada, derrubando as coisa. Daí fico com medo, será que ele vai
derrubar meu soro?” (Samuel)
“Quando um amigo meu, por exemplo, chama algum enfermeiro que
demora a vir.” (Juliano)
“[...] quando as enfermeiras abrem a porta muito rápido de noite, assim, daí
eu me acordo [...] é difícil pegar no sono.” (Inter)
Consideramos importante citar Mass e Zagonel (2006), quando descrevem que a
integralidade da assistência ao adolescente hospitalizado, envolve a compreensão da tríade:
adolescer, adoecer e hospitalizar-se.
Assim, acreditamos que o cuidar é a essência da enfermagem, e para que esse cuidado
torne-se integral, a equipe de enfermagem além do conhecimento técnico-científico, deverá
ter a sensibilidade de ver o adolescente em todas as suas dimensões, para poder criar um
vínculo de confiança entre eles e assim, poder ser a promotora da adaptação do adolescente na
unidade hospitalar, com isso, amenizando as situações de estresse.
Outras situações rotineiras, durante a internação hospitalar que, podem ser
provocadoras de estresse, observamos que estas situações estão relacionadas com a perda
transitória da auto-determinação do adolescente. Os adolescentes se sentem impotentes e
58
dependentes do outro. A falta ou diminuição de sua auto-determinação, os leva a insegurança
e também a falta de autonomia. Estão à mercê da técnica, dos profissionais, da terapêutica,
que tiram o poder de se auto-determinar. A diminuição da privacidade, o sentir-se invadido
tanto fisicamente, quanto psicologicamente, leva ao estresse e a sentir-se envergonhado, pela
dependência e exposição. Como podemos observar nas seguintes falas:
“[...] ficar ali parado, tendo que fica toda a atenção em cima de ti, de certa
forma tu depende dos outros, tu não podes agir por conta própria, qualquer
coisa que precisa tem que chamar o enfermeiro, isto te deixa assim com
sentimento de impossibilidade.” (Samuel)
“[...] um pouco as enfermeiras que chegam demais aqui...dá uma vergonha,
assim coisa ruim não é acostumada, fica toda hora chegando um estranho.”
(Maisa)
Através destas falas, nos referimos à Mandú e Paiva (2005), quando descrevem que na
relação entre o adolescente e o profissional da saúde, deve haver uma troca, respeitando o
modo de ser do adolescente. Esta troca deve ser realizada através do diálogo, no qual o
profissional de saúde deve saber ouvir e estar sempre disposto às expressões do adolescente.
Os profissionais devem respeitar o espaço, a privacidade do adolescente, e através do
diálogo envolver o mesmo, sempre que possível, na tomada de decisões no que diz respeito ao
seu tratamento, minimizando desta forma, os sentimentos de impossibilidade, dependência, os
quais trazem tanto incômodo para o adolescente.
Ainda são situações de estresse para o adolescente: o confinamento, espaço restrito no
quarto, tratamento, permanência no leito, rotinas da unidade e isolamento
“Fica deitado, tomando os remédios [...]” (Juninho)
“Cê te que fica tomando soro, fechado aqui dentro sem poder sair.”
(Geovani)
“[..] hora da quimioterapia [...]” (Pedro)
O adolescente está sempre em busca da liberdade, para poder fazer o que quiser. Neste
sentido, observamos que, ao encontrar-se hospitalizado, vê sua liberdade limitada, pois não
pode andar por onde quer, pois muitas vezes necessita ficar deitado em um leito hospitalar
para realizar tratamento, e estes acontecimentos causam muito incômodo para o adolescente,
59
que vê tudo isso como se fosse um confinamento, afastando-lhes de tudo e todos, e com isso
dificultando a sua adaptação às rotinas hospitalares.
Na adolescência as interações sociais ampliam-se, e os adolescentes começam a
participar de diferentes grupos sociais, dentre os quais: na escola, na igreja, grupos de esporte,
de passeios, dentre outros. Assim, com a hospitalização o adolescente se afasta de seus
grupos, e através de sua fala percebemos que isto lhe causa certo incômodo:
“Falta de espaço...falta assim de pessoal que só pode vim no horário de
visita [...] quando vem.” (João)
“Só o isolamento, longe de tudo, de todos [...]” (Maisa)
Mass e Zagonel (2006, p.39), também discutem estes incômodos, e trazem que “para o
adolescente, a hospitalização provoca mudanças radicais em todos os aspectos de sua vida. O
ambiente hospitalar habitualmente pautado numa configuração institucional com regras
enraizadas e indiscutíveis leva o adolescente a um cenário geralmente distante de sua
realidade”.
No estudo realizado pelas mesmas autoras, a ausência de espaço físico próprio para
esta faixa etária, a padronização de roupas (pijamas), a falta de privacidade e de atividades,
foram alguns fatores citados pelos adolescentes como desencadeadores de desconforto.
Acrescentam ainda que, o desconhecimento das peculiaridades da adolescência, faz com que
este seja mais um fator de incômodo para os adolescentes.
Assim, todos estes acontecimentos são fatores desencadeantes do estresse, que
segundo Margis et al (2003), a resposta do organismo ao estresse, é o resultado da diferença
do meio externo e interno e a percepção do indivíduo quanto a sua capacidade de resposta.
De acordo com os autores, acreditamos que, o surgimento da doença, as
hospitalizações freqüentes e todas as modificações decorrentes deste processo podem levar a
este desequilíbrio entre o meio interno e o externo, levando a instabilidade biopsicosocial.
Dentre todas estas alterações e sendo a adolescência, uma fase onde o indivíduo busca
a sua própria identidade, é também uma etapa que são influenciados facilmente. O
adolescente busca desenvolver sua auto-determinação para ser autônomo e consequentemente
livre.
60
5.3 O respiradouro do adolescente com câncer hospitalizado
Durante o período de hospitalização, o adolescente vivencia momentos de angústia,
ansiedade, e um dos motivos que leva a estas alterações psicológicas são as modificações que
ocorrem devido à internação, como por exemplo, a falta de atividades recreacionais,
educacionais e ocupacionais, de convívio social e familiar, observado nas seguintes falas:
“Sair, vê os amigos, passear.” (Geovani)
“Sai, dá umas volta.” (João)
“Sair com os amigos, tá fazendo festa [...]” (Mestre)
“Jogar bola [...] ir nos rio. Brinca com os amigos.” (Fernando)
“[...] sai de noite com o namorado, dançar [...]” (Maisa)
“[...] tá se relacionado com outras pessoas [...] conversando, fazendo novas
amizades [...] arranjar uma namorada.” (Samuel)
A interrupção dos estudos, o distanciamento dos amigos, o afastamento de casa, a
forte ligação com a dor e sofrimento, o administrar o tratamento, o conviver com as condutas
invasivas, o lidar com a mudança no ritmo e estilo de vida, o abandono de projetos
configuram a transição de saúde-doença. (MASS; ZAGONEL, 2006).
Mass e Zagonel (2006, p.79) também discutem estas modificações que ocorrem no
período da hospitalização, e descrevem que, “a alteração do desempenho social é percebida e
referida pelo adolescente como significativa, pois planos se rompem, principalmente aqueles
ligados às atividades escolares, esportivas e de lazer, aspectos importantes de socialização
nessa fase”.
Para os adolescentes o importante é viver bem o presente, mas para que isso se torne
possível é necessário que participem de grupos com suas mesmas características, para
compartilharem suas angústias, medos, desejos, através disso buscando sua identidade.
(MACHADO; MEIRA; MADEIRA, 2003).
61
Para Mass e Zagonel (2006) além dos amigos, que representam importância
significativa na vida do adolescente, surgem também às relações amorosas, que quando
presentes trazem outro sentido de perda na ocorrência da doença e hospitalização.
Como podemos observar nas falas acima, o lúdico, o relacionamento inter-pessoal e
especificamente o amoroso ficaram evidenciados, como sendo o querer, a busca, a
normalidade para esses jovens. As atividades do cotidiano pertinentes à faixa etária, o lugar
comum para o adolescente e o início das relações amorosas.
Outro aspecto também referido por alguns adolescentes como sendo uma atividade
que gostariam de estar realizando fora do hospital, foi o trabalho, demonstrado nas falas a
seguir:
“[...] trabalhar [...]” (Juninho)
“Em casa, ajudando pai no mercado [...]” (Dinho)
“[...] tá voltando a minha vida normal, né, [...] ta trabalhando [...]” (Samuel)
De acordo com Fischer et al (2003), o trabalho para os adolescentes tem um
significado mais profundo, ligado intimamente com a maturidade e a emancipação
econômica. Um outro motivo citado pelos autores que leva os adolescentes ao trabalho é a
situação socioeconômica em que se encontra a família.
Para os autores, o trabalho precoce pode promover efeitos negativos tanto no
desenvolvimento físico, quanto educacional, impedindo o jovem de dedicar-se a atividades
extracurriculares, como atividades lúdicas e sociais próprias da sua idade, sendo responsável
muitas vezes, pelo atraso escolar.
Segundo Villela e Doreto (2006), ao citar um estudo realizado pelo Ministério do
Planejamento, Orçamento e Gestão/Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, em 2005,
descrevem que
[...] aproximadamente três quartos dos jovens de renda mais baixa
ingressam no mercado de trabalho antes dos 15 anos, com média salarial
inferior à do conjunto dos trabalhadores. Entre as camadas mais pobres,
23% dos jovens conseguem trabalhar e estudar, mas 17,1% não trabalham
nem estudam. Entre as meninas o percentual de não trabalho e não estudo
chega a 26%.
62
O trabalho precoce na adolescência pode levar ao abandono, dificuldade do
acompanhamento escolar, trazendo sérias repercussões no desenvolvimento deste adolescente,
visto que tem grande importância na vida do adolescente, pois através dela o jovem adquire
novos saberes, mantêm diariamente contato com novas pessoas, e assim, vai conquistando sua
própria identidade.
Segundo Feizi (2004), a escola exerce vários efeitos sobre o aluno, além de transmitir
um conteúdo pedagógico. É um espaço aonde o aluno adquire uma grande experiência de
socialização e de convívio com as diferenças, convivendo com outros adultos além de seus
pais, identificando assim, outros modelos de referência, tanto no sentido positivo quanto no
negativo. A partir da fala de alguns adolescentes, vemos a importância da educação na vida
dos mesmos:
“[...] eu quero faze faculdade, daí queria faze um cursinho [...]” (Maisa)
“[...] ir pro colégio [...]” (Juninho)
“Ir pra escola também, porque eu gosto né?” (Dinho)
“Eu gostaria de [...] ta estudando [...] lê eu leio livro de história e tudo, mas
não é a mesma coisa de ta lá estudando [...]” (Samuel)
Portanto, apesar do trabalho ser atualmente um dos fatores que leva o adolescente
muitas vezes a abandonar a escola, no nosso estudo isto não se confirma. Ao serem
questionados sobre o motivo pelo qual, não freqüentam mais a escola, a grande maioria
relatou que é devido às várias internações muitas vezes prolongadas, fazendo assim com que,
se afastem dos estudos.
Esta situação revela-se também em um estudo com crianças e adolescentes com
doença crônica: convivendo com mudanças, realizado por Vieira e Lima (2002). As autoras
quando descrevem a alteração da rotina hospitalar citam que, quando a criança e o adolescente
se ausentam frequentemente da escola, isto lhes causa desmotivação, levando à dificuldade
entre ele, os professores e demais estudantes, dificultando assim, seu ajustamento escolar.
Lembramos que, como foram citados anteriormente, os adolescentes têm o direito de
acompanhamento do curriculum escolar durante sua permanência no hospital.
63
Temos conhecimento de que, em alguns hospitais, existe este tipo de trabalho para
crianças, possibilitando que os mesmos, durante o período que se encontram internados,
freqüentem a escola dentro do próprio hospital.
No entanto, esta não é uma realidade que ocorre na Instituição de Saúde aonde o
estudo foi realizado. Acreditamos que, isto se deve ao fato de que, a grande maioria dos
adolescentes, são procedentes de Municípios do interior de Santa Catarina, e também, porque
a Instituição não está preparada para fornecer este tipo de programa, visto que, não é uma
Instituição voltada para a assistência ao adolescente. A assistência é realizada em decorrência
da demanda derivada de outra Instituição de Saúde especializada no atendimento a criança e
ao adolescente, que possui um Serviço de Oncologia em nível ambulatorial e de internação,
mas que não supre as necessidades da demanda existente.
Portanto, é imprescindível, que se oportunize a continuidade dos estudos, das aulas,
podendo utilizar método de ensino a distância, com um professor para orientar e esclarecer
dúvidas na unidade de Internação para os adolescentes, e para isso, é necessário à definição de
competências entre os Serviços, a sensibilização e a conscientização de todos os profissionais,
dos diversos segmentos da estrutura hospitalar, da Secretaria de Saúde e da Secretaria de
Educação, para a sua viabilização.
5.4 A imagem corporal e a sexualidade X isolamento social do adolescente com câncer
hospitalizado
O tratamento quimioterápico, radioterápico e cirúrgico, leva a alteração transitória ou
permanente, provocada pelas toxicidades, complicações ou mesmo seqüelas e mutilações no
caso de cirurgias não conservadoras, utilizadas, por exemplo, na ressecção de tumores ósseos,
em que a amputação é freqüente. A preocupação com a imagem corporal faz com o
adolescente hospitalizado exclua-se do convívio social por não estarem dentro dos padrões
exigidos pela sociedade.
Segundo Mataruna (2004, p. 1), “a imagem corporal é a figuração do próprio corpo
formada e estruturada na mente do mesmo indivíduo, ou seja, a maneira pela qual o corpo se
apresenta para si próprio”.
64
Para Cano et al (1999), o adolescente enfrenta grandes dificuldades devido às diversas
modificações que ocorrem no seu corpo, sendo freqüentes os sentimentos de estranheza do
seu próprio eu.
Vieira e Lima (2002) se referem à preocupação que o adolescente tem com o seu
corpo. Os autores trazem que, a representação do corpo perfeito, tem grande valor em nossa
sociedade. Quem tem o corpo em perfeito funcionamento, é considerado saudável.
Assim, podemos perceber como o padrão estabelecido pela sociedade influencia o
comportamento das pessoas, que se sentem incomodadas, levando-as muitas vezes ao
isolamento social.
Os adolescentes com câncer passam a ser alvo de discriminação e comparação, visto
que, sua aparência física muitas vezes está modificada, e, portanto, não se encontram dentro
do padrão de beleza estabelecido pela sociedade.
Muitos adolescentes quando submetidos ao tratamento quimioterápico, sofrem com a
alopecia. Porém, no nosso estudo, dentre os doze adolescentes entrevistados, esta situação não
foi citada em nenhum momento, sendo que dentre os doze, dez apresentavam alopecia.
Talvez esta questão não tenha aparecido pelo fato de que, a maioria dos entrevistados
era do sexo masculino, e somente duas adolescentes do sexo feminino e, ambas não
apresentavam alopecia, uma por não ter iniciado o tratamento quimioterápico e, a outra
devido ao protocolo de quimioterapia, menos agressivo.
Trazemos esta colocação, pois acreditamos que, para uma jovem, talvez a perda dos
cabelos fosse um evento mais significativo do que para os adolescentes do sexo masculino,
devido à própria vaidade feminina.
Podemos perceber a importância do cuidado ao corpo na fala adolescente a seguir:
“Muita comida eu acho, daí a gente engorda muito [...]” (Maisa)
A sociedade atual reforça a imagem ideal do corpo, a mídia exerce grande influência
sobre os adolescentes, e estes refletem aquilo que é transmitido através dos meios de
comunicação - o culto do corpo. A jovem acima, demonstra a sua preocupação com o suporte
nutricional recebido. Não quer engordar. Isso nos parece, a princípio estranho, pois com o
início do tratamento haverá o emagrecimento, mas para jovem, que está na fase de
estadiamento, sem saber que a própria doença e o tratamento levarão ao emagrecimento, a
65
ingesta de alimentos mais calóricos levam ao temor do aumento de peso e consequentemente
torna-se um fator de estresse.
Parece-nos que este grupo no momento da coleta de dados, não apresentava tantos
conflitos com a imagem corporal, talvez por ser um grupo predominantemente de rapazes,
talvez por não querer expressar de forma mais clara os enfrentamentos com a auto-imagem.
Também, há o fato de estarem hospitalizados, em contato com outros pacientes com
alterações corporais semelhantes as suas e, talvez por este motivo não se sentissem
fisicamente diferentes, então os conflitos naquele momento não eram evidenciados.
Além da imagem corporal, a sexualidade também é um evento marcante na vida do
adolescente. De acordo com Cano et al (1999), é na adolescência que as relações afetivas
modificam-se, com a evolução das características sexuais secundárias. Assim, ocorre uma
modificação dos sentimentos, e a relação afetiva mais importante deixa de ser a família.
Atualmente vivemos em um mundo, onde os adolescentes participam das decisões que
dizem ao seu respeito e muitas vezes influenciam os próprios pais em relação a estas decisões.
Antigamente, o namoro restringia-se aos olhares e o toque nas mãos, mas atualmente,
são comuns, o início precoce da atividade sexual e em conseqüência o risco da gravidez na
adolescência. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e
a Cultura - UNESCO (2004, apud Villela e Doreto, 2006), apontam que 32,8% dos jovens
brasileiros, na faixa etária de 12 e 17 anos, já tem uma vida sexual ativa, sendo que destes,
61% são do sexo masculino e 39% são do sexo feminino.
A gravidez precoce, segundo Ballone (2003) é um dos eventos mais preocupantes
relacionadas à sexualidade da adolescência, trazendo sérias conseqüências para a vida dos
adolescentes envolvidos, de seus filhos que nascerão e de suas famílias.
Em nosso estudo entrevistamos uma adolescente de 18 anos, mãe de uma menina de 2
anos. Percebemos através de sua fala, que o distanciamento do convívio familiar e de suas
atividades como mãe, lhe causava grande tristeza, sendo um fator de estresse. Não queremos
aprofundar a discussão dos motivos que levaram a uma gravidez precoce, mas sim, como um
fator de estresse para uma adolescente com câncer, cheia de incertezas sobre o seu amanhã e o
futuro de sua filha.
Segundo Osório (1992), é na adolescência que se iniciam as primeiras experiências
sexuais. Para o autor a sexualidade não significa apenas a transformação fisiológica que
acontece em nosso organismo, mas também todas as transformações psico-sociais existentes.
66
Os adolescentes estudados demonstravam o interesse por ter uma namorada e, que a
hospitalização e a doença dificultavam o relacionamento com o sexo oposto,
“[...] sai de noite com o namorado, dançar [...]” (Maisa)
“[...] arranjar uma namorada.” (Samuel)
A sexualidade apresentou-se no grupo de adolescentes, como algo adiado, para após o
tratamento. Parece-nos que no momento atual, suas energias se concentram na busca da cura,
na realização do tratamento, e mesmo sendo um fator gerador de estresse em âmbito
hospitalar pelo afastamento de seus afetos, ou mesmo da possibilidade de sair, passear e
paquerar, suas atenções estão concentradas na luta pela vida.
67
"A principal meta da educação é criar homens que sejam
capazes de fazer coisas novas, não simplesmente repetir
o que outras gerações já fizeram. Homens que sejam
criadores, inventores, descobridores”.
Jean Piaget
68
6 APROXIMANDO O MODELO DE SISTEMAS DE BETTY NEUMAN E OS
ESTRESSORES DO ADOLESCENTE COM CÂNCER
Neste momento para melhor compreensão deste estudo e, tendo o Modelo de Sistemas
de Neuman, elaboramos um esquema para o adolescente com câncer internado em uma
unidade hospitalar.
Variáveis Sócio-culturais
Pouca ou ausência de atividades recreacionais/lazer/terapia ocupacional afastamento do convívio
social e familiar afastamento dos hábitos de lazer, afastamento das atividades do lar, afastamento
da escola, restrição a freqüentar ambientes, afastamento das atividades ocupacionais/laborais.
Variáveis
Fisiológicas
ESTRESSORES
Fadiga, imobilidade,
restrição da dieta,
reações ao tratamento.
Variáveis Psicológicas
Desmotivação, nervosismo, ansiedade,
angústia,
tédio,
preocupação,
insatisfação, impotência, dependência,
falta de autonomia, medo de algo que não
dá certo, apreensão com a qualidade no
atendimento da equipe de saúde, falta de
privacidade,
imagem
corporal
prejudicada.
Variáveis
Desenvolvimentistas
Impossibilidade e/ou
adiamento
da
habilitação para a
carteira de motorista,
adiamento da escolha
profissional e inserção
no
mercado
de
trabalho,
relacionamento
afetivo-amoroso.
ADOLESCENTE
Recursos utilizados para minimizar os estressores
Dormir além do necessário, jogar
vídeo game, assistir TV, escutar
música, ler livros e revistas.
REAÇÃO AO
ESTRESSE
Figura 3. Aproximação do estudo com o Modelo de Sistemas de Betty Neuman
69
Ressaltando que para Neuman, os estressores são as diversas situações de
enfrentamento, e que no nosso estudo são aquelas que provocam automaticamente reações
orgânicas com efeitos simultâneos, tanto em nível fisiológico, psicológicos, sócio-culturais e
até mesmo ambientais. A reação do jovem aos estressores demonstra a sua competência ou
capacidade de receber através de seu sistema pessoal, as intervenções de origem extrapessoais
e intrapessoais, ajustando o sistema para readquirir estabilidade, ou quando o enfrentamento
não é positivo no agravamento de suas condições físicas, psíquicas, ou mesmo da piora de seu
quadro geral.
De acordo com o modelo de sistemas de Betty Neuman, o indivíduo apresenta uma
estrutura básica e recursos de energia. No estudo realizado esta estrutura é representada pelos
adolescentes, que se encontram suscetíveis aos diversos fatores que podem desequilibrar este
sistema.
No entanto, estes fatores são designados por Neuman como estressores, que podem
invadir as linhas de defesa do sistema. Dentre os estressores referidos pelos adolescentes do
estudo, podemos afirmar que os mesmos se apresentam de acordo com as variáveis do
adolescente.
No que se referem à variável fisiológica, os estressores relatados foram a fadiga,
resultado muitas vezes dos protocolos quimioterápicos, e até mesmo relacionado à
imobilidade prolongada no leito. Isto porque, muitas vezes o adolescente não pode deambular,
devido ao tipo de tumor, como por exemplo, osteossarcoma de fêmur, como demonstra a fala:
“É ruim, porque tenho que fica o dia todo deitada, não posso anda.”
(Beatriz)
Outro aspecto seria relacionado ao tratamento, pois muitas vezes o adolescente está
“preso” a uma bomba de infusão, dificultando a sua mobilidade, levando-o a permanecer um
longo período no leito.
A restrição da dieta também é citada como um estressor, principalmente em pacientes
portadores de câncer hematológico, submetidos ao tratamento quimioterápico, que apresentam
o sistema imunológico debilitado, e assim, algumas restrições na dieta são necessárias, como
por exemplo, os alimentos crus:
“[...] quando não pode comer fruta, quando a dieta, assim, tem que ser como
eles querem.” (Juninho)
70
Na variável sócio-cultural podemos citar como estressores, a ausência ou pouca
atividade recreacional/lazer/terapia ocupacional na instituição, causando grande apreensão no
adolescente, pois precisa adaptar-se a esta nova situação. O afastamento do convívio social,
familiar, dos hábitos de lazer, das atividades do lar, também são estressores que invadem o
sistema do adolescente. O afastamento do colégio, a restrição para freqüentar certos
ambientes, como por exemplo, sair à noite com o namorado, fazer festa, são algumas
impossibilidades enfrentadas pelo adolescente durante a internação. O afastamento das
atividades ocupacionais e laborais também são citadas por eles, isto porque, é próprio dessa
faixa etária o início das primeiras experiências no trabalho, caracterizando o início da
independência do adolescente.
Assim, com todas estas impossibilidades, restrições, afastamentos, surgem os
estressores referentes à variável psicológica. Dentre eles temos a desmotivação, muitas vezes
causada pelas incertezas quanto ao diagnóstico e tratamento. As alterações emocionais, como
o nervosismo, ansiedade, angústia, tédio, preocupação, insatisfação, também decorrentes do
desconhecimento de certos procedimentos, tempo que permanecerão hospitalizados,
prognóstico, causando-lhes grandes expectativas. A impotência, sentimento de dependência,
falta de autonomia e privacidade são alguns aspectos citados, pois o adolescente
hospitalizado, passa a ser tratado ou como criança ou como adulto, visto que ainda há uma
grande dificuldade por parte dos profissionais referente à abordagem ao paciente adolescente.
Nas variáveis desenvolvimentistas, os estressores referem-se à impossibilidade ou
adiamento de atividades próprias de sua faixa etária, como por exemplo, a habilitação da
carteira de motorista, o adiamento da escolha profissional, pois muitos adolescentes quando
necessitam de internações freqüentes, acabam afastando-se do colégio ou não conseguem
acompanhar o currículo escolar.
No que se referem as variáveis espirituais, os adolescentes não citaram nenhum
estressor.
Diante disso, após o sistema dos adolescentes – estrutura básica - serem invadidos por
estes estressores, os mesmos terão uma reação, sendo que esta poderá ser positiva, onde o
adolescente busca meios com o objetivo de minimizar os estressores, que desestabilizam o seu
sistema, ou então, não conseguem arranjar meios para enfrentar estes estressores, e o sistema
entra em desequilíbrio.
71
No estudo realizado os adolescentes citaram alguns meios utilizados por eles, como
forma de enfrentarem esta situação:
“Internado eu procuro sempre facilitar o máximo pra mim não me
incomodar e pra não me deixa levar pelas coisas piores [...]” (Mestre)
“[...] procuro preencher todo o meu tempo dormindo, porque quanto mais
eu durmo, mais rápido o tempo passa.” (Samuel)
A partir do momento em que o adolescente consegue achar meios para enfrentar os
problemas, o sistema está reconstituindo-se, e assim, haverá possibilidades para retornar ao
equilíbrio.
É importante lembrar que, à medida que o adolescente vivencia situações, a linha
normal de defesa vai ficando cada vez mais fortalecida, pois é através das experiências
vividas, que o adolescente poderá utilizar através de suas características pessoais, meios
necessários para que estes estressores não invadam o seu sistema.
Como por exemplo, para um adolescente, a primeira internação hospitalar poderá
significar momentos de angústia, tristeza, ou então, o adolescente poderá vivenciar de outra
maneira, pois ainda não enfrentou esta situação. Portanto, as reações dependerão dos
acontecimentos anteriores, e assim cada adolescente reage de uma maneira.
Portanto, forma-se um círculo vicioso, pois se o adolescente não está bem
psicologicamente, conseqüentemente a variável fisiológica também estará comprometida,
logo, um adolescente com um estado fisiológico comprometido, como por exemplo, a fadiga,
decorrente do tratamento quimioterápico, levará ao comprometimento da variável
desenvolvimentista, pois o adolescente terá dificuldades para desempenhar suas atividades
recreacionais, ocupacionais.
Neste contexto, cabe a Enfermagem, a partir do modelo de Neuman, auxiliar o
adolescente a manter a estabilidade do sistema. Para isso, é fundamental que os profissionais
da saúde mantenham-se atualizados, objetivando o desenvolvimento de habilidades técnicocientíficas no que se refere ao cuidado ao adolescente.
A Enfermagem deve auxiliar, ensinar, ouvir, compreender a adolescência como uma
fase própria da vida, facilitando a comunicação interpessoal e ajudando assim, a tornar as
linhas de defesa do sistema do adolescente fortes, evitando com que os estressores invadam o
seu sistema e causem o desequilíbrio.
72
“Quando acreditamos em nós mesmos, nada consegue
nos deter, e é isto que devemos fazer todos os instantes
de nossas vidas; acreditar que estamos fazendo o melhor
que podemos fazer, com afinco, com determinação e com
amor.”
(J. Della Monica)
73
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao darmos conclusão a este estudo, e ao analisarmos toda a trajetória percorrida para a
concretização do mesmo, acreditamos que muito se tem a fazer no que diz respeito à
assistência ao adolescente inserido em uma instituição de saúde.
Quando este adolescente é também um portador de câncer, a atenção deve ser
redobrada, pois além deste jovem estar passando pelas principais transformações de sua vida,
em todos os aspectos, sejam eles fisiológicos, psicológicos ou sociais, defronta-se com esta
patologia, exigindo do adolescente a adaptação a este processo de saúde-doença.
Acrescentamos assim, a grande importância da equipe de enfermagem estar preparada
para ajudar este adolescente a enfrentar este processo de saúde-doença, ao mesmo tempo
compreendendo os anseios, as críticas, os sentimentos próprios desta faixa etária.
Percebemos durante a realização do estudo, a dificuldade de interagir com o
adolescente, pois ao realizarmos as perguntas os mesmos respondiam frases curtas e objetivas,
e assim, para conseguirmos fazer com que expressassem seus sentimentos, foi necessário o
estímulo constante ao diálogo.
No entanto, acreditamos que o instrumento utilizado para a aplicação deste estudo
merece destaque, pois foi através da entrevista, com um roteiro de perguntas semiestruturadas e na interação com os adolescentes, que conseguimos captar verdadeiramente, o
que tínhamos proposto: conhecer os estressores do adolescente com câncer internado em uma
unidade hospitalar. Conseguimos alcançar o objetivo proposto.
Destacamos também, a importância de utilizarmos a teoria de Betty Neuman como
referencial para realização da análise dos dados coletados, visto a estreita relação que a
mesma apresenta com o estudo proposto.
Apesar de enfrentarmos algumas dificuldades na trajetória do estudo, como por
exemplo, a baixa demanda de adolescentes internados no período da coleta de dados,
acreditamos que o número de adolescentes não influenciou na análise dos dados, pois uma
pesquisa de caráter qualitativo, não importa a quantidade de sujeitos envolvidos, e sim os
dados em si e a profundidade com que os dados coletados são analisados.
Os resultados demonstraram que, a grande maioria dos adolescentes não soube definir
corretamente a palavra estresse, sendo que relacionavam a palavra com os seus sentimentos,
74
com aquilo que estavam sentindo no momento. Alguns relataram que não se sentem
estressados durante a internação hospitalar, porém, quando questionados, em relação aos
incômodos, apenas um dos adolescentes referiu que não sente nenhum incômodo durante a
internação hospitalar.
Neste contexto, podemos afirmar que, em geral, os principais estressores dos
adolescentes portadores de câncer internados, em uma unidade hospitalar são o afastamento
do convívio social, da família, das atividades que estavam acostumados a realizar no seu diaa-dia antes da internação, o afastamento do colégio e dos amigos e a imposição das regras da
rotina hospitalar.
Portanto, acreditamos que este estudo contribuiu significativamente para conhecermos
a vivência deste grupo de adolescentes durante a internação hospitalar. No entanto,
acrescentamos que os serviços de saúde e os profissionais precisam trilhar muitos caminhos
para alcançar este objetivo.
Para finalizarmos o estudo, destacamos neste momento, alguns aspectos que, em nossa
concepção, merecem ser pensados e re-pensados, como por exemplo, unidades específicas,
destinadas para o acompanhamento de adolescentes que necessitam de internação hospitalar,
garantindo uma assistência voltada para esta faixa etária; a inserção de um programa que
garanta a continuidade das atividades escolares durante as internações hospitalares, assim
como está instituído no ECA; a inserção de atividades recreativas, terapias ocupacionais, com
o objetivo de minimizar o impacto gerado no adolescente quando este necessita de internação
hospitalar, enfim, estes são alguns problemas que trazemos com destaque para refletirmos
sobre a importância de transformações, com o objetivo principal, assistir o adolescente
portador de câncer, de forma integral em todo o seu processo de saúde-doença.
Porém, salientamos que, é através de estudos como este que será possível conhecer as
melhores opções para seguir esta trajetória de transformações.
75
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Tradução de Dora Flaksman.
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2006.
82
APÊNDICE A
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
83
TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO
Nome do Adolescente: ________________________________________________________
Idade: ___________ Sexo: ________________ Naturalidade: _______________________
Nome do responsável legal: Sr (a) ________________________________________
___________________________________________________________________________
Profissão__________________________Identidade: _______________________________
Endereço: AV/R: ___________________________________________________ nº: ______
Apto:_________Bairro: ______________________Cidade: _____________ Estado: _______
O(a) senhor(a) foi informado detalhadamente sobre a pesquisa intitulada: Os Estressores do
Adolescente Portador de Câncer Internado em uma Unidade Hospitalar.
O(a) senhor(a) foi plenamente esclarecido de que seu filho(a) será submetido a uma pesquisa
com o objetivo de conhecer os estressores do adolescente com câncer durante a internação
hospitalar.
O(a) senhor(a) foi informado de como se desenvolverá a pesquisa, sendo que seu filho(a) será
entrevistado(a) em local adequado, no Centro de Pesquisas Oncológicas – CEPON (Unidade
de Transplante de Medula Óssea ou Unidade Hospitalar). Serão realizadas 6 perguntas
relativas ao cotidiano - dia-a-dia - do seu filho(a) na Unidade Hospitalar, as respostas serão
gravadas, com gravador mini cassete. A sua identificação será através do código de
identificação, que será escolhido pelo próprio adolescente, gênero (masculino / feminino) e
idade em anos. Concordando em participar o(a) seu filho(a) se encontrará no Centro de
Pesquisas Oncológicas – CEPON (Unidade Hospitalar ou Unidade de Transplante de Medula
Óssea), com uma das acadêmicas de enfermagem: Izabel Cristina Martendal ou Luciana Rosa
da Silva, em data e horário pré-estabelecido com o(a) senhor(a) e seu filho(a). O(a) senhor(a)
poderá permanecer junto ao seu filho(a) durante a entrevista, caso seja do seu interesse ou do
interesse do seu filho(a). A entrevista ocorrerá em torno de até 50 minutos.
O(a) senhor(a) também foi informado que seu filho(a) participará da pesquisa, através das
respostas as perguntas que lhe serão realizadas, e que poderá responder as perguntas se
desejar e terá liberdade para questionar as acadêmicas Izabel Cristina e Luciana.
O(a) senhor(a) foi informado que se manterá o anonimato, quanto a identidade e as
informações obtidas de seu filho(a) serão confidenciais.
84
Pelo fato desta pesquisa ter única e exclusivamente interesse científico, a mesma foi aceita
espontaneamente pelo(a) senhor(a) e pelo seu filho(a), que no entanto, poderão desistir a
qualquer momento da mesma, inclusive sem nenhum motivo, bastando para isso informar, de
maneira que achar mais conveniente, a sua desistência. Por ser voluntária e sem interesse
financeiro o(a) senhor (a) e seu filho(a) não terão direito a nenhuma remuneração. A
participação na pesquisa não incorrerá em riscos e prejuízos de qualquer natureza. Os dados
referentes ao seu filho(a) serão sigilosos e privados, e a divulgação dos resultados visará
apenas mostrar os possíveis benefícios obtidos pela pesquisa em questão. A divulgação das
informações no meio científico serão anônimas e em conjunto com as respostas do grupo de
adolescentes que participarão da pesquisa, sendo que o(a) senhor(a) poderá solicitar
informações durante todas as fases desta pesquisa, inclusive após a publicação da mesma.
Serão respeitados todos os princípios éticos determinados na Resolução 196/96, do Conselho
Nacional de Pesquisa em Seres Humanos.
Biguaçu,
de
de 2006.
_________________________________________________________
Assinatura do Entrevistado (Adolescente)
_________________________________________________________
Assinatura do responsável legal
___________________________________________________________
Assinatura do entrevistador (Acadêmico de Enfermagem)
85
APÊNDICE B
Ficha de Identificação
86
FICHA DE IDENTIFICAÇÃO
Código de Identificação
Nome: ____________________________________________________________
Data de nascimento: _______________ Escolaridade: _____________________
Naturalidade: _____________________ Procedência: _____________________
Profissão: ________________________ Afastado: Sim (
)
Não (
)
Estado Civil: ______________________ Religião: ________________________
Filiação: __________________________________________________________
__________________________________________________________
Endereço: _________________________________________________________
Telefone: ______________________________
FICHA DE IDENTIFICAÇÃO
Código de Identificação
Nome: ____________________________________________________________
Data de nascimento: _______________ Escolaridade: _____________________
Naturalidade: _____________________ Procedência: _____________________
Profissão: ________________________ Afastado: Sim (
)
Não (
)
Estado Civil: ______________________ Religião: ________________________
Filiação: __________________________________________________________
__________________________________________________________
Endereço: _________________________________________________________
Telefone: ______________________________
87
APÊNDICE C
Entrevista Semi-estruturada
88
ENTREVISTA
Auto-denominação do Adolescente: ______________________________________________
Data: ______/ _______/ ________.
1) O que significa estresse para você?
2) Você se sente estressado durante a internação hospitalar?
Sim/Não. Comente.
3) Como é o seu dia-a-dia (a sua vida) durante a internação hospitalar?
4) Quais as situações que te estressam durante a internação hospitalar? Fale sobre elas.
5) O que você gostaria de fazer, mas que não pode por estar internado nesta unidade
hospitalar?
6) Há alguma coisa que te incomoda durante a internação hospitalar?
Sim/Não. No caso de sim: Quais os incômodos e por que te incomodam?
89
ANEXO I
Termo de Aceite de Orientação
90
TERMO DE ACEITE DE ORIENTAÇÃO
EU, Nen Nalu Alves das Mercês, orientadora do Projeto de Trabalho de Conclusão de Curso
de Graduação em Enfermagem da Universidade do Vale do Itajaí – Centro de Educação –
Campus Biguaçu, concordo orientar a monografia de conclusão de curso das acadêmicas
Izabel Cristina Martendal e Luciana Rosa da Silva no decorrer do desenvolvimento da
pesquisa intitulada: Os Estressores de Adolescentes com Câncer nos Bastidores de uma
Unidade de Internação Hospitalar, conforme projeto ora submetido à aprovação.
A orientadora está ciente das Normas para Elaboração do trabalho monográfico de Conclusão
do Curso de Graduação em Enfermagem.
Biguaçu, 24 de novembro de 2005.
_____________________________________________
Nen Nalu Alves das Mercês
Professora Orientadora
__________________________
____________________________
Izabel Cristina Martendal
Luciana Rosa da Silva
Acadêmica de Enfermagem
Acadêmica de Enfermagem
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0 universidade do vale do itajaí izabel cristina martendal