OBSERVAR AS CRIANÇAS POR MEIO DAS TECNOLOGIAS AUDIOVISUAIS NO PROCESSO DE DOCUMENTAÇÃO PEDAGÓGICA Instituição: UNIVERSIDADE DO ESTADO DO MATO GROSSO - UNEMAT/ PPGEDU-UFRGS Irene Carrillo Romero Beber [email protected] Orientador(a): Maria Carmen Silveira Barbosa [email protected] RESUMO O texto propõe uma discussão sobre o uso das tecnologias audiovisuais no processo de observação e documentação pedagógica das ações autônomas, movimentações e brincadeiras das crianças bem pequenas em espaços de vida coletiva. Destaca a importância de desenvolvermos um olhar perceptivo a cerca das possibilidades das crianças agirem, produzir ações e se relacionarem, bem como de exercerem o protagonismo em suas aprendizagens. Procura refletir sobre a uma dada ação pedagógica centralizada no professor que não reconhece a criança com um ser dotado de possibilidades de agir e atuar com relevância no processo ensinoaprendizagem. Pretende-se argumentar sobre a relevância da documentação pedagógica com uma ferramenta no sentido de evidenciar não somente a importância das observações, mas como os registros das ações das crianças poderão oferecer momentos de reflexão e retroalimentação da ação pedagógica, bem como avaliar os processos de aprendizagem e desenvolvimento das crianças. O texto é produzido a partir da experiência de pesquisa com 25 crianças e 06 adultos (04 professoras e 02 estagiárias) numa Escola de Educação Infantil no município de Sinop, no período de abril a novembro de 2012. A pesquisa procura documentar e evidenciar que a criança aprende a partir dos processos de interação, de manipulação com os objetos e na experimentação direta. Valorizar a competência para aprender que toda criança possui, e que na maioria das vezes não é reconhecida, ao contrário é “sufocada” por uma pedagogia propositiva que desconsidera os jeitos e os saberes das crianças. Ao longo dos nove meses de observação e da utilização das tecnologias audiovisuais (máquina fotográfica, celular e filmadora) para captura das imagens, foi possível a construção de um banco de dados sobre as movimentações, ações e aprendizagens das crianças. Argumenta-se no sentido de valorizar a pratica da documentação como uma ferramenta imprescindível na educação de crianças de 0 a 3 anos. Igualmente reforça-se a importância da documentação pedagógica e do uso dos recursos audiovisuais como um instrumento de interlocução com as crianças, no sentido de procurar apreender melhor os sinais que elas nos enviam, nas suas participações e curiosidades, de como elas exercem o protagonismo em suas ações e formas de apreender o mundo que no qual estão inseridas. Palavras chaves: crianças, movimentação, aprendizagens INTRODUÇÃO: A documentação é uma ferramenta pedagógica que têm como principio a observação atenta e o registro das ações das crianças a partir do pressuposto de que as crianças são capazes e podem compartilhar suas percepções sobre o mundo. Olhar atentamente para o que e como elas realizam as atividades e não apenas narrar sobre as intenções e os objetivos do professor. A ação de documentar pressupõe registrar o que de fato aconteceu e como as crianças agiram, para Malaguzzi, (apud Hoyelos, 2006) a documentação pedagógica é ao mesmo tempo uma estratégia ética para dar voz a criança, a infância e uma estratégia estética porque as documentações apresentam as manifestações das cem linguagens da infância. Em primeiro lugar a documentação é a seleção sistemática ( através de descrições, anotações, fotografias, painéis, vídeos, palavras das crianças, produtos gráficos) dos processos educativos. É uma espécie de crédito, ou testemunho (visual, audiovisual, ou escrito) que dá identidade e expressão cultural a própria escola a que os habitam. Os documentos são as provas (testemunhos documentais) que respeita o trabalho das crianças e o dignificam dando-lhes memória e consistência histórica. (p.198) É uma prática pedagógica que reconhece as crianças como protagonistas de sua aventura do conhecimento. O reconhecimento da criança como sujeito portador de direitos e congrega o reconhecimento de sua identidade de sua capacidade. (p. 285) Neste texto propõe-se uma reflexão sobre a documentação pedagógica como uma ferramenta pedagógica na educação de crianças de 0 a 3 anos e evidencia a importância do uso das tecnologias audiovisuais no processo de observação das ações autônomas, movimentações e brincadeiras das crianças bem pequenas1 em espaços de vida coletiva. 1 Este texto assume a nomenclatura adotada no relatório do Projeto de Cooperação Técnica MEC/UFRGS para construção de orientações curriculares para a Educação Infantil ao destacar as A discussão tem o intuito de refletir sobre a importância do olhar perceptivo a cerca das possibilidades das crianças exercerem o protagonismo em suas ações e aprendizagens. Os argumentos teóricos tem como pressuposto a percepção de que em nossa cultura pedagógica ainda não temos suficientemente desenvolvido a prática da documentação, ou seja, não temos a prática de sistematizar nossas observações das crianças, com a intenção de avaliar os seus processos de desenvolvimento e aprendizagem. Registrar as ações das crianças através do uso dos recursos audiovisuais, poderá oferecer elementos para a reflexão e retroalimentação da ação pedagógica na educação de crianças de 0 a 3 anos. No entanto, alerta Wallon que a observação não é uma prática neutra, mas evidencia uma opção, está condicionada pelas nossas concepções e objetivos. Não há observação sem escolha ou sem alguma relação, implícita ou não. A escolha é dirigida pelas relações que possam existir entre o objeto ou o acontecimento e nossa expectativa, em outras palavras, nosso desejo, nossa hipótese ou mesmo nossos simples hábitos mentais. Seus motivos podem ser conscientes ou intencionais, podem também nos escapar, pois se confundem antes de tudo com nossa capacidade de formulação mental. Só podem ser escolhidas as circunstancias em si mesmas exprimíveis. E, para exprimi-las, temos de remetê-las a algo que nos seja familiar ou inteligível, ao quadro de referências que utilizamos intencionalmente ou sem saber (Wallom, 2007, p.17). A documentação pedagógica implica uma ação de abertura e compartilhamento do comando das ações com as crianças, na medida em que observamos o que fazem e do modo que realizam suas ações, reconhecemo-las como parceiras na aventura de desvendamento do saber e as colocamos no centro do processo de suas aprendizagens. Observar, reconhecer suas possibilidades, documentar e registrar são ações docentes que evidenciam a concepção que temos das crianças. 2. A METODOLOGIA A discussão do texto tem como referencia a experiencia de observação desenvolvida durante a pesquisa de doutorado que buscou registrar as especificidades requeridas pela faixa etária de 0 a 3 anos. Compreendendo os bebês como crianças de 0 a 18 meses e crianças bem pequenas como crianças de 19 meses a 3 anos e 11 meses. manifestações da corporeidade das crianças. A pesquisa de caráter etnográfico se desenvolveu numa Escola de Educação Infantil no município de Sinop, numa turma de crianças de 2 a 3 anos durante de 9 (nove) meses de abril a novembro de 2013. Os dados foram gerados a partir da observação direta da pesquisadora, com auxilio de filmagens, fotografias e anotações no diário de campo. Utilizou-se como instrumento de captura das imagens: a máquina fotográfica, o celular, a filmadora bem como o um caderno para registros e anotações. O estudo procurou compreender a partir da documentação das observações, dos registros no diário de campo, fotos e nos vídeos como as crianças vivenciam sua corporeidade, como elas através das ações autônomas, criativas produzem sentido aos seus fazeres, significam os objetos e os espaços. A geração de dados através da documentação propiciou a dimensão dos mapas das interações das crianças entre elas e delas com os adultos2. O registro em vídeo e as fotografias foram utilizados como um recurso técnico para apreensão dos fazeres das crianças, seus movimentos, brincadeiras, das formas em que estas ocupam os espaços. Estes recursos técnicos foram imprescindíveis para a composição de um banco de dados que possibilita analisar e compreender que a criança aprende a partir dos processos de interação, de manipulação com os objetos e na experimentação direta. A criança tem habilidades e possibilidades que na maioria das vezes é silenciada por uma pedagogia propositiva que desconsidera os jeitos, as metodologias e os saberes das crianças. A documentação pedagógica como trataremos a seguir é um recurso pedagógico muito importante para aprendermos a valorizar as capacidades da criança. 3. A AÇÃO PEDAGÓGICA DE DOCUMENTAR: O OLHAR PEDAGÓGICO SOBRE AS MANIFESTAÇÕES DAS CRIANÇAS 2 A pesquisa se desenvolveu numa Escola de Educação Infantil de Sinop. A turma observada num total de 25 crianças, uma professora regente, três professoras de projetos que atuam com as crianças nos momentos de hora atividade da professora regente. Além das quatro professoras (graduadas em pedagogia) haviam 2 auxiliares que auxiliavam no cuidado das crianças. Rinaldi (2012) ressalta o valor da documentação pedagógica como elemento constitutivo da ação pedagógica é uma ação que acontece durante o processo de aprendizagem encenado na sala de aula. “A documentação é, em primeiro lugar e acima de tudo uma ferramenta educacional” (p.119). Sendo assim, a autora confirma o valor da documentação como ferramenta para a avaliação e apreciação dos processos vividos. Momentos para reorganização e retroalimentação da ação pedagógica docente, bem como para conhecer e interpretar o que as crianças podem fazer por elas mesmas e do que precisam da ajuda e subsídio da ação adulta. Nesse contexto a documentação pode ser interpretada e utilizada por seu valor como “ferramenta para recordar: isto é, como possibilidade para reflexão” (idem, p.119). Igualmente, (Dahlber; Moss; Pence, 2003, p.193) reforça a importância da documentação como um recurso pedagógico. O que documentamos representa uma escolha, uma escolha entre muitas outras escolhas, uma escolha de que os próprios pedagogos estão participando [...] a documentação nos diz algo sobre como construímos a criança, assim como nós mesmos como pedagogos. Por isso, nos permite enxergar como nós mesmos entendermos e interpretamos o que está acontecendo na prática; partindo daí, é mais fácil perceber que as nossas próprias descrições como pedagogos são descrições construídas. A pedagogia italiana utiliza a documentação pedagógica como parte fundamental de avaliação dos processos de aprendizagem e desenvolvimento das crianças. A documentação oferece ao educador uma oportunidade única de tornar a escutar, ver e visitar (recognição), individualmente ou com os outros, eventos processos nos quais foi co-protagonista, tanto direta quanto indiretamente. [...] a documentação pedagógica proporciona às crianças valiosa oportunidade de revisitação, reflexão e interpretação e autoorganização do conhecimento. [...] aos pais uma extraordinária oportunidade, pois lhes dá a possibilidade de saber não só o que o filho está fazendo, mas também como e o porquê, conhecendo o significado do que a criança faz e os significados compartilhados com outras crianças. ( Rinaldi, p.113). Nesta perspectiva, a documentação não deixa de ser uma forma de transgredir as tradições e construir outras formas de interação com as crianças, uma prática alternativa centrada na alteridade e no respeito pelo que a criança é capaz de produzir. É o reconhecimento da criança como uma interlocutora capaz. O que aponta (Dahlber; Moss; Pence, 2003, p.190) “muitos pedagogos de todo o mundo atualmente começaram a usar a documentação pedagógica como um instrumento para a reflexão sobre a prática pedagógica e como um meio para construção de um relacionamento ético com nós mesmos, com o outro e com o mundo – o que temos denominado de ética do encontro”. Ao aceitarmos esta dimensão criadora da criança, compreenderemos a importância da documentação pedagógica, como uma ferramenta que nos possibilita avaliarmos nossas ações para com as crianças, nossos modos de agir, “reconfigurar nosso olhar”. O que implica em considerarmos a força da tradição pedagógica centrada na transmissão do conhecimento, e que por razões históricas, bem como epistemológicas se perpetuam nos modos de fazer e agir dos educadores na Educação Infantil. Uma forma de organização dos saberes centrada no adulto, nas suas proposições. Nestas formas de organização do trabalho pedagógico, o brincar, o experimentar, o manipular e o movimentar não são entendidos como formas de expressão e linguagem da criança, nem mesmo a criança é percebida como capaz de interagir com o mundo e produzir interpretações sobre ele desde o momento que nasce. Romper com esta tradição da transmissão implica igualmente rever o uso das tecnologias,quando utilizadas, estão igualmente centrados nas ações do adulto que controla os usos, os objetivos e fins a ser atingido, o que implica em refletirmos que não importa o instrumento utilizado, prevalece uma dada concepção do saber, da criança e da ação pedagógica. Na escola pesquisa em várias ocasiões as crianças foram registradas (em fotografias ou pequenos vídeos), em atividades propostas pela professora, o que elas denominavam de “atividades pedagógicas”. Nestes momentos as crianças assumiam um papel passivo. Estes registros eram produzidos com o intuito, na maioria das vezes, para serem apresentados nas “amostras pedagógicas”, momentos em que a ações com as crianças eram compartilhadas com a comunidade. Ao puxarmos os fios históricos que traçaram as características da nossa cultura escolar percebe-se em que medida a organização dos saberes escolares, as ações pedagógicas dos professores na atualidade, estão alicerçadas no pensamento racionalizador-científico, nos quais ainda predominam os processos de disciplinarização, a divisão dos saberes, e a racionalização dos recursos, pilares da racionalidade moderna. Para Veiga Neto (2004), o pensamento moderno, consolida uma maneira de pensar a ordem, de pensar o que significa ordenar e como deve ser dar a ordenação das coisas. É inegável que estes pressupostos também irão influenciar a constituição dos saberes da educação infantil, dentre eles pode-se evidenciar a dualidade entre os cuidar e o educar. O modo em que estas instituições se organizam é representativo da concepção de infância que predominou ao longo do renascimento e da modernidade, qual seja a criança percebida como ser infante, sem fala, que ainda não é. Esta percepção, segundo Sarmento, (2008, p.20) é uma concepção de infância, que não reconhece na criança um ser de direito. As crianças não sendo consideradas como seres sociais plenos, são percepcionadas como estando em vias de o ser, por efeito da ação adulta sobre novas gerações, “se as crianças são o “ainda não”, o “em vias de ser”, não adquirem um estatuto ontológico social pleno, no sentido em que são verdadeiros entes sociais, completamente reconhecíveis em todas as suas características, interativos, racionais, dotados de vontade e com capacidade de opção entre valores distintos, nem se constituem, como um objeto epistemologicamente válido, na medida em que são sempre a expressão de uma transição, incompletude e dependência. Para Vinão Frago, (2005, p.7), a cultura escolar, enquanto conjunto de aspectos institucionalizados que caracterizam a escola como organização possui várias modalidades ou níveis, “os aspectos institucionalizados” incluem práticas de condutas, modos de vida, hábitos e ritos, a história cotidiana do fazer escolar, objetos, materiais, função, uso, distribuição no espaço, materialidade física, simbologia, introdução, transformação, desaparição, e modos de pensar, assim como significados e idéias compartilhadas. Neste sentido, precisaríamos “reciclar, ou reconfigurar nosso olhar”, como o autor acima citado, afirma refletirmos em que medida, o espaço, o tempo e a linguagem ou modos de comunicação afetam o ser humano, na sua própria consciência interior, em todos os seus pensamentos e atividades, de modo individual, grupal e como espécie relativa à natureza de que faz parte. Conformam sua mente e suas ações. Conformam e são conformados, por sua vez, pelas instituições educativas. Romper a formatação do olhar é um dos grandes desafios da pedagogia para educação de crianças bem pequenas. Refinar nosso olhar e construir junto com as crianças uma escola de educação infantil que seja um espaço social de convivência, de sociabilidade, mais flexível, valorizando seus saberes e aprendizagens. Neste contexto os usos das tecnologias audiovisuais poderiam auxiliar a “dar voz” às ações das crianças. Falamos de uma criança forte e competente, uma criança que tem o direito de ter a esperança e de ser valorizada, não uma criança pré- definida como frágil, carente incapaz. Temos uma forma diferente de pensar e tratar a criança: nós a enxergamos como sujeito ativo, com a qual podemos pesquisar tentar compreender as coisas do dia a dia, encontrar um significado, um pedaço da vida. (Rinaldi, 2012, p. 123) O que implica não apenas repensar as nossas observações, mas também as nossas concepções a cerca do que podem as crianças, das duas capacidades como afirma Rinaldi. Repensar a forma pela qual “olhamos3” para as crianças. No que diz respeito ao uso das tecnologias é importante destacar a o encantamento das crianças pelas mídias, a desejo, a curiosidade de “ver/perceber” o que estava acontecendo através do uso do equipamento. Na experiencia de pesquisa, as mídias foram um instrumental imprescindível no processo de interação entre mim a pesquisadora e as crianças quando elas se aproximavam e diziam “deixa eu ver?” e queriam observar o que estava anotando ou utilizando4 os equipamento para capturar as imagens, as crianças seguravam na minha mão e queriam observar pela tela da filmadora ou do celular, ou mesmo quando estava fotografando e elas diziam “agora eu” para que registrasse o que elas estavam fazendo. A interação com os recursos tecnológicos proporcionou ricos momentos de intimidade com as crianças. Os momentos em que permitia que elas participassem dos processos de geração de dados elas se “abriam” para uma relação mais próxima e afetiva, bem como afinavam seus olhares sobre as ações dos colegas, 3 Não cabe neste texto uma reflexão mais aprofundada sobre o olhar. Mas na minha tese procuro ampliar a percepção do olhar. A partir da perspectiva fenomenológica procuro ampliar o olhar que se dá não apenas com os olhos, mas de corpo inteiro, uma posição de escuta, que está atento a todos os processos, que implica numa profunda relação de afetividade, emoção, respeito e aceitação do outro. 4 No decorrer da pesquisa a captura das imagens foram feitas diretamente pela pesquisadora. desenvolviam suas linguagens, interagiam com as mídias e com o que estava acontecendo com as outras crianças. O desprendimento no qual se expunham a ser registrado em seus fazeres, sorriam e continuavam a realizar suas atividades, evidencia a geração midiática da qual elas fazem parte, tudo é registrado, ou por uma câmera ou por um celular. Os usos das mídias não as perturbavam, pelo contrário se constituíam em momentos de interação e valorização do outro, de perceber a atividade das outras crianças num outro ângulo de observação. 3.2 O CORPO EM MOVIMENTO: AS TECNOLOGIAS AUDIOVISUAIS NO PROCESSO DE DOCUMENTAÇÃO DAS EXPERIÊNCIAS DE APRENDIZAGEM DAS CRIANÇAS. Ao acolhermos pedagogicamente que o movimento humano se reveste de intencionalidades e que através do movimento, desde muito pequena, a criança se comunica, conhece, compreende, desvenda o mundo das coisas e das pessoas, cabe então, ao educador a tarefa de decodificar esses processos e nesta perspectiva o uso das mídias, das tecnologias audiovisuais são um excelente recurso. Ao abordarmos a ações das crianças muito pequenas é fundamental ressaltarmos que o corpo é eminentemente um espaço expressivo. Assim expressa. Merleau-Ponty, (1996, p.202) Eu quero pegar um objeto e, em um ponto do espaço no qual eu não pensava, essa potência de preensão que é minha mão já se levanta em direção ao objeto. Movo minhas pernas não enquanto elas estão no espaço a oitenta centímetros de minha cabeça, mas enquanto sua potência ambulatória prolonga para baixo a minha intenção motora. O movimento compreendido como constitutivo e significativo do ser humano, ou seja, desde os aspectos biológicos, fisiológicos, das atividades físicas modificam as estruturas de desenvolvimento. O organismo humano sempre que submetido às situações de estímulo, se reorganiza para atender às novas exigências, ampliando as condições fisiológicas de atender as necessidades de atividades e circunstâncias no mundo vivido pela criança. Sendo assim, as crianças vivenciam situações motoras de intensidade variadas através de brincadeiras, jogos e estas experiências são ricas oportunidades de desenvolvimento e aprendizagem. E o registro destas ações na forma de geração de imagens poderá se tornar um potente instrumento de avaliação e acompanhamento dos processos vividos pelas crianças e um recurso pedagógico significativo para organização das práticas pedagógicas. Para Merleau-Ponty, o simbólico é característico do homem, permite-lhe transcender a situação, antecipando através da intenção seu próprio futuro. O humano não vem dotado de uma conduta preestabelecida, rígida, está aberto a respostas improvisadas e criativas, vai além do real, concebendo uma multiplicidade de possíveis. Seu corpo é visto como expressão e realização de intenção, desejos e projetos. Aprender, em seu sentido amplo, dirá Merleau-Ponty, (1996, p.275) não significa apenas tornar-se capaz de repetir o mesmo gesto, mas fornecer à situação uma resposta adaptada através de diversas maneiras. Sendo necessário criar situações de vivencias das mais variadas em que as múltiplas dimensionalidades da criança poderão se desenvolver. A corporeidade é a posse indivisa do ser “eu sei a posição de cada um dos meus membros por um esquema corporal em que eles estão todos envolvidos”. A criança não percebe apenas como órgãos dos sentidos nas suas especialidades, mas também pela percepção corpórea, nas experiências e nos sentidos vividos. Não apenas olhos para ver, ouvidos para ouvir, mas aprendem com o corpo inteiro inicialmente e somente depois realiza a síntese. “eu não poderia apreender a unidade do objeto sem a mediação da experiência corporal”, conclui Merleau-Ponty, (1996, p.275). A ação pedagógica do educador deve estar focada em propiciar momentos de compartilhar situações de aprendizagens, onde o brincar e o movimentar-se e o desenvolvimento da corporeidade são elementos constitutivos das rotinas, são conhecimentos/saberes, inerentes a este espaço-tempo educativo e não apenas nos intervalos das atividades ou nos tempos no parque. Compreendendo-se desta maneira que as manifestações e vivências motoras serão momentos de aprendizagem para a vida, para a criança e não uma percepção de ações com teleológicas, com fins definidos, brincar pelo prazer de estar junto, pela alegria do brincar e não apenas que estas experiências desenvolvam esta ou aquela potencialidade. A escola de Educação Infantil talvez necessite de repensar a cultura da utilidade, da razão instrumental, que pedagogizou os fazeres da criança, valorizando em excesso os processos que potencializam a alfabetização, ou seja, a criança é introduzida desde muito cedo para criança nos ritos da escola, no ficar quieto, sentado, ouvindo e obedecendo, brincar só lá fora no parque. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os argumentos apresentados no texto foram elaborados com o obejtivo de defender a prática sistematizada da documentação pedagógica como uma ação pedagógica imprescindível nos espaços de vida coletiva. A valorização da documentação a partir dos usos dos recursos audiovisuais como um recurso a mais no processo de interlocução com as crianças, no intuito de capturar, apreender os sinais que elas nos enviam de suas participações, curiosidades e de como elas exercem o protagonismo em suas aprendizagens. A documentação pedagógica é um instrumental pedagógico valioso para rompermos com a cultura pedagógica que nos impede de perceber a potência exploradora da criança e de reconhecê-la como ser capaz de interagir e produzir sentidos para mundo. O “estar com as crianças” oportunizou a possibilidade de pensar os tempos e os espaços da escola de Educação Infantil. Refletir sobre a importância da organização da prática pedagógica, neste sentido, o uso sistemático das tecnologias audiovisuais é um recurso tecnológico considerável para se construir um banco de dados sobre as aprendizagens das crianças, bem como reprogramar toda a ação pedagógica a partir de um olhar que perceba as crianças em suas movimentações, as multiplicidades de possibilidades e intencionalidades contidas nas ações e interações das crianças bem pequenas. É notório que em nossa cultura escolar a compreensão da documentação pedagógica está muito mais restrita às apresentações ou “amostras pedagógicas” do que como uma ferramenta cotidiana partilhada com as crianças como afirma Rinaldi (2012). Esta perspectiva precisa ser refletida, resignificada. Uma das grandes aprendizagens que as crianças propiciaram no decorrer da pesquisa está relacionada aos processos de observação. Da necessidade de “reciclar” o olhar para perceber a criança potente e neste aspecto, o tempo foi um elemento fundamental no processo de abertura para apreender as mensagens enviadas por elas. Como pesquisadora vivenciei um longo processo de abertura para interação, reconhecendo o que a criança tinha a me dizer, e não apenar “enxergar ” o que os objetivos da pesquisa me impeliam a perceber. Uma percepção tridimensional, ou seja, olhar não somente com os olhos, mas uma relação afetiva, corporal de presença e interação com as crianças, para produção e geração de dados este processo foi fundamental. Igualmente proponho que na ação pedagógica com crianças pequenas este movimento de abertura deve estar presente no reconhecimento da criança como um interlocutor capaz, o que Pikler (2010) denomina de “dar presença”, ou seja, o adulto cria um ambiente seguro, acolhedor e oferece sua presença física, sem interferir diretamente nas possibilidades de interação da criança como meio físico e social. Uma presença física que oferece segurança, mas não necessariamente interfere, propõe, mas acolhe as iniciativas autônomas das crianças. Essa percepção implica em repensar a tradição pedagógica da transmissão e centralização dos processos nos adultos, significa acolher o protagonismo da criança nas suas aprendizagens. Para Pikler (2010) o desenvolvimento da criança dependerá da criação de relações humanas adequadas, que estes momentos sejam afetuosos e intensos, que um esteja atento ao outro, captem bem os significados do comportamento um do outro. “É preciso prestar atenção a suas iniciativas. [...]Temos que satisfazer suas curiosidades mediante respostas e explicações e acima de tudo, reconhecê-los como interlocutores. [...] estimular-lhes, para que os sinais que nos enviem sejam cada vez mais numerosos, que se sintam seguros e cada vez mais ativos e propositivos (p.16) A experiência de pesquisa ensina que o uso das tecnologias audiovisuais podem ser um recurso importante a ser utilizado para compreender os sinais e as ações das crianças pequenas. Fica o desafio a educação infantil de romper com as matizes da tradição escolar e promover através de experiências do corpo vivido significações da corporeidade, nos espaços/tempo e nas rotinas destas crianças nas instituições de educação infantil, uma vez que há grande dificuldade em perceber/aceitar que a criança aprende brincando, se movimentando, mexendo, exercendo sua autonomia. Para o adulto muitas vezes é difícil acolher o protagonismo da criança, para Malaguzzi (1999) a ação pedagógica deveria estar centrada no desafio de criar ambiências que favoreçam aprendizagens significativas e o desenvolvimento das cem linguagens na criança A criança é feita de cem. Criança tem cem mãos Cem pensamentos Cem modos de pensar De jogar e de falar Cem sempre cem Modos de escutar As maravilhas de amar. Cem alegrias para cantar e compreender Cem mundos Para descobrir Para inventar Cem mundos para sonhar A criança tem cem linguagens (Malaguzzi, 1999 ) Reconhecer as dimensões complexas nas quais se potencializa o desenvolvimento da criança, significa igualmente reconhecer que a criança possui múltiplas linguagens, múltiplas possibilidades de se desenvolver. Seria reconhecer como aponta Morin (2008, p.199) que “a linguagem depende das interações entre os indivíduos, as quais dependem da linguagem”. Nessa percepção há uma dimensão de circularidade em que a sociedade faz a linguagem que a faz, o homem faz a linguagem que o faz e fala a linguagem que o exprime. Sendo assim a documentação pedagógica através dos usos das mídias pode ser ricos momentos de avaliação e compreensão das manifestações da corporeidade. Não como uma forma apenas de expor os resultados nas “amostras” pedagógicas, mas como um instrumental cotidiano de interação e conhecimento da criança. Estes aspectos poderiam ser mais evidenciados nos processos de formação das educadoras que atuam com crianças de 0 a 3 anos. REFERÊNCIAS DALHLBERG. Gunilla; MOSS Peter; PENCE, ALAN. Qualidade na Educação da Primeira infância: Perspectivas pós-modernas. Porto Alegre: Artmed, 2003. HOYELOS, Alfredo. La estética en El pensamiento y obra de Loris Malaguzzi, Barcelona: Octaedro- rosa Sensat, 2004. MALLAGUZZI, Loris. História, idéias e filosofia básica. In EDWARDS Carolin (et al) As cem linguagens da criança. Porto Alegre, 1999. MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo:Martins Fontes, 1996. MORIN, Edgar. O método – as idéias: habitat, vida, costumes, organização. Porto Alegre: sulina, 2008. PIKLER, Emmi. Moverse em Liberdad: Deserrollo de La motricidad Global. Madri: Narcea, 2010. RINALDI, Carla. Diálogos com Réggio Emília: escutar, investigar e aprender. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 2012. SARMENTO, Manuel; GOUVEIA Maria Cristina Soares. 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