UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PRÓ-REITORIA DE PLANEJAMENTO E DESENVOLVIMENTO DIRETORIA DE PROJETOS ESPECIAIS PROJETO “A VEZ DO MESTRE” DOCÊNCIA SUPERIOR SEXUALIDADE: UM DESAFIO PARA PAIS E EDUCADORES JOÃO RODRIGUES DOS SANTOS FILHO Prof.: Nelson José Veiga de Magalhães RIO DE JANEIRO JAN-2005 2 UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PRÓ-REITORIA DE PLANEJAMENTO E DESENVOLVIMENTO DIRETORIA DE PROJETOS ESPECIAIS PROJETO “A VEZ DO MESTRE” DOCÊNCIA SUPERIOR SEXUALIDADE: UM DESAFIO PARA PAIS E EDUCADORES JOÃO RODRIGUES DOS SANTOS FILHO Trabalho monográfico apresentado como requisito parcial para a obtenção do Grau de Especialista em Docência Superior. RIO DE JANEIRO JAN-2005 3 Dedico esta monografia aos meus professores da Candido Mendes que mostram que ensinar não é cortar as asas, mas sim preparar para o vôo. Aos meus pais, marido, filhos, irmãos e sobrinhos pelo apoio durante todo o curso. 4 AGRADECIMENTOS A Deus, pelo privilégio que me deu para fazer uma especialização. A todos os professores e amigos pelo carinho e dedicação que me acompanharam. A minha família: Fátima , Fernando, Renato e Tatiane por me ceder os sábados para esta realização. 5 RESUMO A maioria dos pais tem dificuldade de conversar sobre sexualidade com os filhos. Na verdade, poucas são as pessoas realmente habilitadas a debater este tema com os adolescentes. Muitas escolas que instituíram disciplinas de educação sexual, na prática restringiram-se a transmitir conhecimentos sobre anatomia e fisiologia da reprodução. Os jovens reconhecem quando estão lhe passando orientações de forma incompetente e, muitas vezes, preferem buscar as informações que desejam com os amigos ou em revistas, cuja qualidade, na maioria das vezes, deixa muito a desejar. Para conversar sobre sexualidade com jovens é necessário que o educador tenha certas habilidades, como aceitar novos conceitos, evitar julgamentos e não permitir que seus tabus e dificuldades em sua própria sexualidade influenciem. O ensino da sexualidade não deve restringir-se aos aspectos anatômicos e biológicos, pois precisa incluir necessariamente os sentimentos, o relacionamento entre os indivíduos e a busca da felicidade e da realização pessoal. A orientação deve reforçar a liberdade individual, estimular o jovem a pensar e fazer escolhas, promovendo atitudes responsáveis e de respeito aos demais. 6 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 07 CAPÍTULO I - A CONCEPÇÃO DE MICHEL FOUCAULT SOBRE A SEXUALIDADE 1.1 A scientia sexuali e a construção da idéia de sexo 09 14 CAPÍTULO II - O EXERCÍCIO DA SEXUALIDADE NA NOSSA ÉPOCA 18 CAPÍTULO III - A ABORDAGEM À SEXUALIDADE NO CONTEXTO FAMILIAR 3.1 A adolescência e a sexualidade 21 26 CAPÍTULO IV - A SEXUALIDADE E A ESCOLA 4.1 A educação sexual e o reforço aos papéis sociais/sexuais nas escolas 4.2 A educação sexual e a legislação atual 4.3 Um incentivo à educação sexual escolar 30 30 33 35 CONCLUSÃO 37 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 39 ANEXO 43 7 INTRODUÇÃO Falar de sexualidade significa falar de concepções cristalizadas no homem moderno sobre questões que, numa perspectiva foucaultiana, foram produzidas como verdades nos três últimos séculos na sociedade ocidental. Falar de sexualidade significa também falar de repressão, poder, preconceito, interdição do corpo, desejo, paixão, prazer, vida, morte, controle, gênero, pecado, opção sexual, construção de papéis sexuais, doenças sexualmente transmissíveis e atualmente Aids; enfim, de todas as representações sociais que giram em torno dela na sociedade. Estas questões não estão fora do espaço escolar. Os trabalhos existentes na literatura educacional-pedagógica sobre a temática em questão, geralmente, incluem- na em temáticas bem mais amplas, ficando freqüentemente aquela diluída no âmbito maior destas. Estudos mais específicos referentes à educação sexual, em sua maioria, apontam para uma análise voltada para o cotidiano escolar, discutindo as representações sociais dos atores envolvidos no processo educativo dentro da instituição escolar. Outros nos informam e orientam para como desenvolver um trabalho de educação sexual "adequada" nas escolas. Outros mostram que a questão da sexualidade entra na escola diretamente, via livro didático, num discurso indireto, de forma preconceituosa, moralizadora, conformadora e estereotipada, não só quando se trata de sexo, mas também do corpo, do comportamento, do amor, da paixão e, principalmente, dos papéis sexuais, constituindo-se em uma contribuição peremptória para a manutenção das diferenças sociais e sexuais entre homens e mulheres. E que a sexualidade do homem ainda é apresentada, na educação [sexual] escolar, como uma manifestação anatobiológica que precisa ser controlada e disciplinada, porém (re)velada sob um ponto de vista higienista, moral, religioso, psicológico. O homem é apresentado como constituído por partes (sexuais). E o sexo a ser (re)velado como o segredo. Por outro lado, o Estado, enquanto poder público, ao contrário do que se possa pensar, vem apresentando projetos de educação/orientação sexual e legislando sobre a questão, o que se pode constatar através das fontes primárias de pesquisa e de alguns trabalhos publicados. 8 Assim, de uma forma ou de outra, vem se falando sobre sexualidade na área de educação e nas escolas propriamente ditas. As questões que se colocam são: quem está falando, como se está falando e por que se está falando. Estas incursões preliminares de pesquisa contribuíram, sobremaneira, para a definição precisa do escopo deste trabalho, ou seja, a questão da sexualidade como um desafio para os pais e para a educação. É certo que a questão da sexualidade, antes de ser uma questão na e para a educação, é uma questão da própria sociedade, da própria família. A educação opera dentro da sociedade, por isso não está ilesa às influências que surgem dessa interação. Destarte, para entender as concepções que norteiam os trabalhos da Educação Sexual em nossas escolas se faz mister primeiro buscar as raízes que construíram a atual noção sobre a sexualidade do cidadão na nossa sociedade. 9 CAPÍTULO I A CONCEPÇÃO DE MICHEL FOUCAULT SOBRE A SEXUALIDADE A originalidade do autor é pensar a sexualidade numa ótica até então não discutida, como um dispositivo histórico de poder. O que chama a atenção em sua análise é que ela se distancia da visão tradicional de um poder, centralizado no Estado soberano e na Lei, que reprime o sexo do homem, ou seja, Foucault afasta-se da visão de uma repressão sobre o sexo, operando da mesma forma e em qualquer lugar. Para ele, a sexualidade do homem ocidental não sofreu, nos últimos três séculos, uma grande repressão, mas, ao contrário, o sexo foi colocado numa rede de discurso, incitando-o a (re)velar-se. Desta forma, as sociedades ocidentais falaram, e muito, sobre sexo; isto não significa dizer que não houve uma interdição, e sim, que esta interdição não é o único "objeto" de estudo que possibilita entender como se "inscreveu" a história da sexualidade nestas sociedades a partir da Idade Moderna, o que É necessário deixar claro: não pretendo afirmar que o sexo não tenha sido proibido, bloqueado, mascarado ou desconhecido desde a época clássica; nem mesmo afirmo que a partir daí ele o tenha sido menos do que antes. Não digo que a interdição do sexo é uma ilusão; e sim que a ilusão está em fazer dessa interdição o elemento fundamental e constituinte a partir do qual se poderia escrever a história do que foi dito do sexo a partir da Idade Moderna. (Foucault, 1990, p. 15) Por que dizemos que somos reprimidos? Por que nossa sociedade, há mais de um século, em relação ao sexo, fala de seu silêncio, detalha o que não diz, elabora um discurso acerca do sexo, criando um segredo sobre ele? Por que e a quem interessa falar do que se constitui em segredo? Ao aceitarmos esse discurso como "verdade" não contribuímos para que "ela" (a repressão) se mantenha? Essa aceitação não faz com que controlemos a nós mesmos? Não impede nossa liberação? Ora, falar que o sexo não é reprimido não seria somente contrariar uma tese bem aceita. Seria ir de encontro a toda a economia, a todos os 'interesses' discursivos que a sustentam. Para Foucault, é necessário manter o discurso da 10 repressão sexual. Ao aceitá- lo, aceita-se a existência de um Ser superior sobre outros seres que são inferiores. A concepção de poder de Foucault refuta o que chamou de "hipótese repressiva" sobre o sexo, à medida que não entende o poder como autoritário, centralizador e repressivo, exclusividade do Estado e da Lei. Esta visão de poder ele chamou de "jurídico-discursiva". A soberania do Estado e a imposição da Lei são para ele apenas formas terminais de poder, ou seja, há uma micropolítica de poder que faz com que o Estado e a Lei possam atuar. Devido às desigualdades na correlação de forças existente na sociedade em geral, estamos continuamente em estados de poder sempre localizados e instáveis. Há uma onipresença do poder, mas isto ocorre não porque esteja localizado em um único ponto, mas porque se produz a cada instante, em todos os pontos, ou melhor, em toda relação entre um ponto e outro. Desta maneira, o poder está em toda parte; não porque englobe tudo e sim porque provém de todos os lugares. Por esta concepção, o que existe são dispositivos (mecanismos) de poder atuando sobre o indivíduo e a sociedade, adquirindo caráter "normalizador". Nas palavras de Foucault um dispositivo é “um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas. Em suma, o dito e o não dito são os elementos do dispositivo.” Jurandir Freire Costa, em sua leitura de Foucault, nos ajuda a esclarecer a noção de dispositivo: “Os dispositivos são formados pelos conjuntos de práticas discursivas e não discursivas que agem, à margem da lei, contra ou a favor delas, mas de qualquer modo empregando uma tecnologia de sujeição própria.” (Costa, 1979, p. 50) Eles se caracterizam por um conjunto de práticas discursivas e não discursivas, podendo tais práticas ultrapassarem aquelas instâncias jurídicas de poder - o Estado e a Lei. Atuando numa dinâmica particular de poder, estas práticas possuem uma tecnologia própria de sujeição imperceptível, pois parece permitir o que não permite, fala do que não se pode falar, estimula a vontade de saber, libera para controlar. Os dispositivos de poder atuam como mecanismos articulados, em rede, visando obter um determinado fim, ou seja, o controle sobre a vontade do indivíduo e da sociedade. As práticas discursivas compõem-se de elementos teóricos, a partir dos saberes disponíveis - enunciados científicos e proposições filosóficas. Desta maneira temos então o dito num dispositivo de poder. As práticas não discursivas - o não dito - se inscrevem na materialização do dispositivo como a criação de instituições, as técnicas de organizações arquitetônicas para controle dos corpos dos indivíduos, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas. 11 Assim, um dispositivo pode se constituir em um discurso verbalizado, mas também num não verbalizado, num discurso silencioso, declarado; pode aparecer na sociedade de maneira (re)velada. Estas discursividades são articuladas às táticas e aos objetivos de poder. Desta forma, através da teoria posta e de ações práticas, um dispositivo se impõe na sociedade, "normalizando" a vida do indivíduo e conseqüentemente de todo o corpo social, construindo o cidadão necessário a ela. Neste sentido, Foucault entende que a escola, o quartel, o hospital e a prisão são microespaços de poder, onde o dispositivo se faz presente. Portanto, a sexualidade é um dispositivo histórico muito concreto de poder. Em sua percepção, ela aparece nas sociedades ocidentais como “um ponto de passagem particularmente denso das relações de poder; entre homens e mulheres, entre jovens e velhos, entre pais e filhos, entre educadores e alunos, entre padres e leigos, entre administração e população.” O dispositivo de sexualidade se inscreve nas mais variadas relações de poder existentes na sociedade, do pai para o filho, do homem para a mulher, do professor para o aluno, do médico para o paciente, do governo para a população etc. Desta maneira, a sexualidade mostra ser um dos elementos mais eficazes de controle sobre o sujeito e a sociedade, atuando há mais de três séculos: “nas relações de poder, a sexualidade não é o elemento mais rígido, mas um dos dotados da maior instrumentalidade; utilizável no maior número de manobras, e podendo servir de ponto de apoio, de articulação às mais variadas estratégias.” Na Idade Média, tínhamos um discurso unitário sobre o sexo, pautado nos "pecados da carne", da volúpia, do sacrilégio. Pecados que precisavam ser confessados para serem perdoados. Para Foucault, nos três últimos séculos, este discurso unitário da confissão foi disperso em discursividades distintas, que tomaram forma na demografia, na biologia, na medicina, na psiquiatria, na psicologia, na moral, na crítica política. O discurso cristão foi aos poucos sendo rompido e/ou diversificado pelo discurso científico, que não deixou, no entanto, de aproveitar do referido discurso o que lhe interessava. Ou seja, o discurso unitário da Idade Média em torno da sexualidade foi aos poucos se fragmentando nas diversas ciências surgidas, cada qual discutindo de acordo com o seu "olhar" teórico, sua lógica própria de sujeição, procurando dar respostas para questões que até então não passavam de mais um fato do cotidiano. Assim, para Foucault o dispositivo de sexualidade vem, nos últimos três séculos, atuando sobre os indivíduos e a sociedade em geral, funcionando como uma grande rede de superfície em que a estimulação dos corpos, a intensificação dos prazeres, a incitação ao discurso, a formação dos conhecimentos, o reforço dos controles e das resistências, encadeiam-se uns aos outros, segundo algumas grandes estratégias de saber e de poder. 12 Concretamente, em sua análise, há uma distinção entre a lei e a norma. Para ele, a lei se coloca através de um poder punitivo, coercitivo, excludente, um poder interdito, universal. A lei é repressiva. Ela é criada histórico-politicamente pelo Estado medieval e clássico, tem sua fundamentação na concepção "jurídico-discursiva" do poder. Já a norma surge históricopoliticamente com a ascensão dos Estados modernos nos séculos XVIII e XIX, sendo teoricamente compreendida através da noção de "dispositivo". Então, é pela concepção "jurídico-discursiva" que se vem discutindo a questão da sexualidade nas sociedades ocidentais, à luz da "hipótese repressiva". Foucault abandona esta concepção e analisa a sexualidade à luz da noção de dispositivo de poder que "normaliza" a sociedade, permitindo, com isso, regular e julgar, tendo em vista a "norma" instituída como verdade; estes dispositivos podem ser pedagógicos, religiosos, terapêuticos, médicos, jurídicos, entre outros. Para ele, a partir do século XVIII, os mecanismos de poder vão adquirindo procedimentos novos ao tomarem em mãos a vida do homem, na qualidade de corpo vivo; em relação à vida do homem, esses novos procedimentos são heterogêneos, funcionando, não pelo direito, mas pela técnica, não pela lei mas pela normalização, não pelo castigo mas pelo controle, e que se exercem em níveis e formas que extravasam do Estado e de seus aparelhos. A lei se expõe, é visível, impositiva, corretiva. A norma é perspicaz, preventiva: A lei, através da repressão, busca principalmente negar, desqualificar, obstruir a via de acesso do indesejável. A norma, embora possa incluir em sua tática o momento repressivo, visa prioritariamente a prevenir o virtual, produzindo fatos novos. A regulação é o mecanismo de controle que estimula, incentiva, diversifica, extrai, majora ou exalta comportamentos e sentimentos até então inexistentes ou imperceptíveis, mas sobretudo, pela produção de novas características corporais, sentimentais, sociais. (Costa, 1979, p. 50) Pela hipótese repressiva, o poder que reprime o sexo se apresenta em qualquer lugar ou em qualquer situação com a mesma mecânica. Um poder centrado exclusivamente no enunciado da lei e no funcionamento da interdição. Nesta concepção, todos os modos de dominação, submissão, sujeição se reduziriam, finalmente, ao efeito de obediência. Ao trazer a noção de dispositivo, Foucault nos mostra outra possibilidade de olhar para a questão da sexualidade na sociedade que não se limite à repressão. A origem do saber está no poder e todo o saber garante um exercício de poder; sendo o saber hermético, passa a ser privilégio de alguns poucos, excluindo a maioria do conhecer. Cria-se, então, uma rede discursiva de saber/poder, regulando e criando padrões de comportamentos aceitáveis como sendo o que é certo e bom para o indivíduo e a sociedade. Assim é que a sexualidade aparece como um dispositivo de poder normalizador. 13 As questões colocadas pelo pensador são: por que se colocou o sexo em discurso? Por que a partir da Idade Moderna se constituiu uma Scientia sexualis, que nos incita a falar/calar? Como e de que forma o poder controla o desejo, o prazer, o cotidiano e a cama? Através de que canais? A colocação do sexo em discurso fez com que em vez de fazê- lo se retrair, o tenha incitado a aparecer, a falar de si. Para ele, o Ocidente não escondeu a verdade sobre o sexo: Escondido, o sexo? Escamoteado por novos pudores, mantido sob o alqueire pelas mornas exigências da sociedade burguesa? Incandescente, ao contrário. Foi colocado, já há várias centenas de anos, no centro de uma formidável "petição do saber". Dupla petição, pois somos forçados a saber a quantas anda o sexo, enquanto que ele é suspeito de saber a quantas andamos nós. (Foucault, 1990, p. 76) Ora, o que mais se ouve falar em nossos dias é que há uma imensa repressão sobre o sexo. A literatura é farta. Os marxistas nos informam que no advento da sociedade capitalista houve e há uma repressão sobre o sexo, sobre o corpo do homem, para sujeitá- lo em prol de uma classe sobre a outra. A classe hegemônica, calcada na apropriação dos meios de produção, domina a classe desfavorecida, o proletariado, que tem como "bem capital" sua força de trabalho para negociar, estando esta última sempre em desvantagem em relação à primeira, detentora do poder econômico. O sexo aparece como mais um instrumento de repressão, daquela sobre a última. Marilena Chaui mantém a idéia de que nossa sociedade é repressora em relação ao sexo, refutando a teoria de Foucault sobre a não "repressão sexual": Embora tenhamos insistido no fato de que a repressão sexual não se realiza apenas pelo conjunto explícito de interdições e censuras, mas sobretudo pelas práticas, idéias e instituições que regulamentam o permitido, mantivemos presente a idéia da repressão como um processo de mutilação, desvalorização e controle da sexualidade como pecaminosa, imoral, viciosa.(Chauí, 1985, p. 182) Segundo Chaui, em Freud vamos encontrar esta idéia da repressão sexual colocada em um discurso que, à sua época e à sua maneira, revolucionou tudo o que os "eugenistas" diziam e sabiam sobre sexualidade. Freud afirmou a existência de uma sexualidade infantil, argumentando também que a libido não é a responsável pelas doenças e distúrbios físicos e psíquicos, que têm como causa a repressão sexual. Pretendia inicialmente com a psicanálise colaborar na descoberta das causas desta repressão, visando eliminá- la. No entanto, posteriormente concluiu que a sociedade civilizatória depende da repressão sexual, devido ao caráter agressivo e destrutivo das pulsões sexuais conflitantes e que embora fosse necessário 14 diminuir a ignorância e os preconceitos sexuais, não seria possível, para o bem da humanidade e para a ordem social, eliminar toda a repressão. Mantemos, então, a teoria de que há uma repressão sexual na nossa sociedade. Para Foucault, como vimos, é dela que devemos nos livrar. 1.1 A scientia sexuali e a construção da idéia de sexo Foucault nos informa que em muitas culturas existe uma ars erotica (arte erótica), ou seja, formas de iniciação e prazer sexuais. Na ars erotica, a "verdade" sobre o sexo é extraída do próprio prazer, e não instituída por uma lei prescrita entre o lícito e o ilícito, o permitido e o proibido. O saber sobre o prazer “deve permanecer secreto, não em função de uma suspeita de infâmia que marque seu objeto, porém pela necessidade de mantê-lo na maior discrição, pois, segundo a tradição, perderia sua eficácia e sua virtude ao ser divulgado.” A China, a Índia, o Japão, as nações árabes- muçulmanas são exemplos de sociedades que adotaram a ars erotica, que é cultural e educativa, passada de geração a geração: A relação com o mestre detentor dos segredos é, portanto, fundamental; somente este pode transmiti- lo de modo esotérico e ao cabo de uma iniciação em que orienta, com saber e severidade sem falhas, o caminhar do discípulo. Arte em grego se diz techné - técnica, então, a ars erotica se constitui de um conjunto de técnicas e ensinamentos secretos (rituais de iniciação e preparação erótica de homens e mulheres) destinados à plenitude sexual. O mais importante é o bem-estar do corpo e da alma; no ato sexual, o gozo perfeito é o que importa, o tempo não conta. A plenitude do prazer sexual significa o elixir da longa vida, contrapondo-se à morte. O Khama Sutra nos traz um exemplo clássico da arte erótica oriental. A nossa cultura cristã européia ocidental produziu uma scientia sexualis, para melhor controlar o corpo e o sexo do homem. Assim, a scientia sexualis é um dispositivo de sexualidade que, ao contrário da ars erotica, nos fala sobre sexo, produziu uma verdade e um discurso científico sobre ele, uma tecnologia, em suma, o sexo aparece como objeto de conhecimento, de uma ciência-confissão, que através de procedimentos técnicos - exames, interrogatórios, observações, entrevistas - nos incita a falar, confessar. Este confessar revela "verdades" não apenas ao ouvinte, mas também ao sujeito que fala; a confissão tem efeitos sobre o próprio sujeito confessor. Neste revelar-se, a confissão é recodificada em forma de 15 terapêutica. Confessa-se para ser examinado, julgado, punido, perdoado, consolado, classificado: A obrigação da confissão nos é, agora, imposta a partir de tantos pontos diferentes, já está tão profundamente incorporada a nós que não a percebemos mais como efeito de um poder que nos coage; parece- nos, ao contrário, que a verdade, na região mais secreta de nós próprios, não 'demanda' nada mais que revelar-se. Neste movimento, nesta normalização da sociedade, a scientia sexuali não está dissociada da relação poder-prazer, não no sentido literal das palavras, mas no sentido de que há prazer em ter poder sobre o sexo - incitar a falar a "verdade", interpretá- la, instituir o normal - e há poder em ter prazer - desviar do instituído como normal. O sexo é colocado em discurso, é alvo de poder e saber através de estratégias que aparecem sob a forma de histerização do corpo da mulher; à mulher são atribuídos dois papéis - o de mãe (mulher procriadora) e o seu negativo, o de histérica (mulher nervosa); e a pedagogização do sexo da criança: inocente em relação ao que vem a ser uma sexualidade saudável, a criança é preocupação de todos, pois sujeita a se dedicar a atividades sexuais indevidas, por isso, perigosas. Essa pedagogização travou guerra contra o risco maior - o onanismo (a prática da masturbação); de socialização das condutas de procriação, controle demográfico através de incitações ou freios à fecundidade dos casais, pelo Estado e pela medicina; e da psiquiatrização do prazer perverso: os vícios e os pecados foram classificados como doenças, sendo patologizados. Esta forma de sexo tinha como contraponto a saúde, a normalidade, a virtude e a lei. Na preocupação com o sexo, no século XIX, quatro figuras se esboçam como objetos privilegiados de saber, alvos e pontos de fixação dos empreendimentos do saber: a mulher histérica, a criança masturbadora, o casal malthusiano, o adulto perverso. Neste sentido, o dispositivo de sexualidade substituiu o critério de sangue pelo de sexo. O sexo é posterior ao dispositivo. No século XIX, o sexo é colocado numa rede discursiva de conhecimento, tornando-se o elemento essencial do dispositivo de sexualidade. É este mecanismo que nos faz pensá- lo apenas pela teoria da repressão. Destarte, a noção de "sexo" permitiu agrupar, de acordo com uma unidade artificial, elementos anatômicos, funções biológicas, condutas, sensações e prazeres e permitiu fazer funcionar esta unidade fictícia como princípio causal, sentido onipresente, segredo a descobrir em toda parte: o sexo pôde, portanto, funcionar como significante único e como significado universal. (..) pode marcar a linha de contato entre um saber sobre a sexualidade humana e as ciências biológicas da reprodução (...) certos conteúdos da biologia e da fisiologia puderam servir de princípio de normalidade à sexualidade humana. (...) a noção de sexo garantiu uma 16 reversão essencial; permitiu inverter a representação das relações entre poder e a sexualidade, fazendo-a aparecer não na sua relação essencial e positiva com o poder, porém, como ancorada em uma instância específica e irredutível que o poder tenta da melhor maneira sujeitar; assim, a idéia "do sexo' permite esquivar o que constitui o 'poder" do poder; permite pensá-lo apenas como lei e interdição. (Foucault, 1990, p. 145) O dispositivo de sexualidade tornou possível a idéia central da psicanálise - o sexo como simbolização. Foucault nos informa que a psicanálise surge como uma teoria da mútua implicação essencial entre a lei e o desejo e, ao mesmo tempo, técnica para eliminar os efeitos da interdição lá onde o seu rigor a torne patogênica. Situada historicamente, ao surgir, a psicanálise não pode se dissociar da generalização do dispositivo de sexualidade e dos mecanismos secundários de diferenciação que nele se produziram. Para Foucault, foi necessário estimular o discurso de que há uma repressão sobre a sexualidade, estimular a "teoria da repressão" sobre o sexo. Essa teoria foi criada pelo dispositivo de sexualidade, e entender que a única possibilidade de discutir a questão da sexualidade, nas sociedades ocidentais, é pela ótica da repressão, é dizer sim ao dispositivo de sexualidade, que vem investindo sobre o corpo do homem há mais de três séculos. Em síntese, a idéia de sexo coloca a sexualidade do indivíduo no centro das atenções. Há um estímulo a se querer o sexo, a se fazer sexo, a desejar o sexo. O que antes era próprio de cada um, passou a ser apropriado por todos. Pelo dispositivo de sexualidade, o sexo se torna necessário, desejável, tendo, neste desejo, sua base de sustentação mais eficaz: Com a criação deste elemento imaginário que é 'o sexo', o dispositivo de sexualidade suscitou um de seus princípios internos de funcionamento mais essenciais: o desejo do sexo desejo de tê- lo, de aceder a ele, de descobri- lo, liberá- lo, articular em discurso, formulá- lo em verdade. Ele constituiu 'o sexo' como desejável. (...) Não acreditar que dizendo-se sim ao sexo se está dizendo não ao poder; ao contrário, se está seguindo a linha geral do dispositivo de sexualidade. Aqui está o ponto central da idéia de Foucault: a alternativa ao dispositivo de sexualidade consiste em dizer não ao desejo, ao desejo construído de sexo. O dispositivo de sexualidade, ao criar o elemento imaginário "sexo", suscitou o desejo de tê- lo, desvendá- lo, liberá- lo, falar sobre, formulá- lo, fazendo dele um elemento essencial do referido dispositivo. Este constituiu "o sexo" como um "objeto" desejável. Desta forma, o contra-ataque ao dispositivo de sexualidade, ou seja, a liberação deste dispositivo histórico, não passa pelo desejo do sexo, e sim pelo abandono deste desejo; para Foucault, o contra-ataque não deve ser o sexo-desejo, mas os corpos e os prazeres. A liberação sexual passa pelo abandono da 17 perspectiva do sexo-desejo, isto é, pela negação do simbólico, do desejo construído pelo dispositivo de sexualidade. Esta alternativa foucaultiana é criticada por Marilena Chaui, ao afirmar que a obra Repressão sexual: essa nossa (des)conhecida é um exemplo claro de discussão desta problemática a partir da submissão à teoria da repressão sexual visto que não só falamos o tempo todo de sexualidade, mas ainda lhe demos um lugar privilegiado na relação com o desejo. Embora considere, assim como nós, que as pesquisas de Foucault iluminam nossa compreensão sobre o tema sexualidade, sobre o seu "objeto" sexo e as práticas da repressão sexual, nos três últimos séculos, a autora não concorda com a solução apresentada pelo pensador francês – “para Foucault, a liberação sexual passa, entre outras coisas, pelo abandono da perspectiva do desejo, isto é, do simbólico. (...) Ainda cremos no inconsciente e no desejo (além de crermos, como ele, no prazer e no amor, evidentemente).” (Chauí, 1985, p. 182) O sexo passa de uma questão de foro íntimo a domínio público, faz parte da saúde pública; daí Foucault descartar o que chamou de "hipótese repressiva". Dizer que há uma repressão sexual na nossa sociedade é um engano, pois em nenhuma outra se falou, se discutiu, se escutou, se estudou tanto sobre o sexo. Até o silêncio sobre ele representa uma estratégia de controle do dispositivo de sexualidade. Para Foucault, a sexualidade é uma figura histórica muito real, e foi ela que suscitou, como elemento especulativo necessário ao seu funcionamento, a noção do sexo. É desta noção de sexo criada pelo dispositivo de sexualidade que ele propõe que se abra mão. 18 CAPÍTULO II O EXERCÍCIO DA SEXUALIDADE NA NOSSA ÉPOCA Não se pode negar que a civilização está vivenciando, neste início de um novo século, uma situação de crise que se manifesta em várias frentes; vivemos uma época de crise dos valores morais e éticos, uma crise econômica e política, etc. Essa situação é resultante de um sem numero de fatos ocorridos em nossa história longínqua ou recente, que condicionaram o surgir da atual fase. Claro é que, a gosto de cada um, pode-se pinçar este ou aquele acontecimento e listá- lo como de fundamental importância. Alguns deles, entretanto, são tão relevantes que não podemos deixar de considerá-los. Assim, apenas pare registro, podemos citar a exacerbada urbanização, o aperfeiçoamento dos meios e técnicas de comunicação de massa, a uniformização dos costumes e o uso da sensualidade como método de marketing, apenas para ficarmos dos mais importantes. Inegavelmente, a dinâmica de vida humana mudou, e com ela mudaram os costumes, as necessidades, os problemas e a própria organização da família, centro irradiador do processo educacional. Daquela família estendida, em que conviviam num mesmo espaço três ou mais gerações, com grande número de indivíduos e vários colaterais e agregados, passouse à família nuclear, na qual convivem somente os pais e um ou dois filhos, que freqüentemente apenas se vêem rapidamente, na maioria dos dias. Essa mudança da estrutura familiar afrouxou os laços de união entre seus membros e trouxe, como conseqüência, a quase total abolição da transmissão de conhecimentos, tradições e costumes entre as gerações. A cultura, em seu conceito antropológico, deixou de ser transmitida de geração à geração, pela crescente perda de prestígio das gerações mais idosas, que vêem seu papel de transmissor cultural cada vez mais ocupado pelos meios de comunicação de massa. Os fatores aqui tão superficialmente citados contribuem, todos eles, para uma nova maneira de viver; não nos cabe (nem teria qualquer sentido) um julgamento de valores, no sentido saudosista de louvar os velhos tempos, ou de entoar loas às conquistas tecnológicas de nossa época. O que desejamos é, tão somente, assinalar que a sociedade mudou, e com ela mudamos todos nós adultos, crianças e adolescentes. E é dentro dessa linha de mudanças que 19 devemos nos esforçar para compreender os comporta- mentos a atitudes assumidas por nossos contemporâneos. Até bastante recentemente, digamos até há cerca de 50 anos, a sexualidade era vista e vivida como algo de sujo, pecaminoso à culposo. Nesse esquema, o era comum que as pessoas tenham uma noção distorcida da sexualidade, deixando de vê- la como algo positivo, como algo de bom e belo, como um dom. A partir dos movimentos de contestação social surgidos na década de 50, no entanto, muitas coisas mudaram. Embora ainda carregue muito do ranço repressor antigo, a visão social do exercício da sexualidade já começa a ter um mais intenso componente de tolerância, Inegavelmente, nos últimos anos, sexualidade tem sido vista com mais naturalidade e, em certas condições, até mesmo estimulada.Curiosamente, tem-se observado em nível mundial um fenômeno de super-valorização da atividade sexual, apresentando como meta suprema a obrigatória o orgasmo, considerado como o mais precioso bem a que se pode almejar. Em suma, para se considerarem “normais”, as pessoas devem ter intensa vida sexual, atingindo sempre, em todas as relações, o famoso orgasmo. Esse estímulo à sexualidade vem sendo intensamente difundido pelos meios de comunicação de massa e pelas novas e agressivas técnicas de marketing. Hoje em dia é fácil a constatação de serem intensamente utilizados o erotismo e a sexualidade como técnica de incentivo ao consumo. Entretanto, o surgir da AIDS e o melhor conhecimento das possibilidades de dano a saúde de outras doenças sexualmente transmissíveis, como o vírus do HIV, trouxeram para ambos os sexos uma nova consciência sobre as conseqüências do exercício da sexualidade. Ainda que por vezes superestimadas e usadas como fator de repressão por estruturas sociais mais conservadoras, essas doenças sem dúvida levaram, pelo próprio risco a elas inerente, à possibilidade da discussão mais aberta sobre o sexo. Mesmo levando a exageros de interpretação, passando o sexo a ter uma conotação de risco de morte, essas doenças trouxeram como conseqüência o incremento do estudo mais aprofundado das condições de exercício da sexualidade, carreando verbas antes impensáveis para o planejamento da educação sexual e para a difusão de conhecimentos. O exercício da sexualidade para a maioria das pessoas foi sem sombra de dúvida afetado, sendo hoje comum o temor à promiscuidade sexual e à prática inconseqüente do sexo. Dessa forma, a sociedade, através de suas instituições, vem educando o cidadão e atualmente os meios de comunicação, entre outros, aparecem fortemente como um "agente educador". No que diz respeito à sexualidade e ao sexo, a informação chega com uma "velocidade estonteante". A era da modernidade se faz presente avidamente. Nela há as drags 20 queens - travestidos numa versão "pós- moderna". Há pelo rádio, lições de sexo com rainha pornô. Há toda uma literatura erótica, onde livro e CD vêem elementos gays em Rosa, Pedro Nava e Schubert. Há o apelo sexual nas bancas de jornais, na televisão, nas revistas "especializadas", na música etc. Há o culto a um corpo magro, porém, saudável, estético, bonito, "malhado". Há Aids. Há sexo pela Internet, onde estão disponíveis os prazeres da carne via modem, temos, pois, diversos "agentes educadores sexuais". Um personagem bastante presente nos projetos do governo no processo de treinamento dos professores para desenvolver a educação sexual é a figura do sexólogo, presente na escola e na sociedade em geral. Os sexólogos são um fenômeno recente no Brasil, estando presentes nos programas de educação sexual do poder público, sendo membros de muitas ONGs parceiras deste poder público (médicos, psicólogos, sociólogos, voluntários), dando palestras nas escolas, faculdades etc. A educação é um espaço sempre aberto. Na década de 80, por exemplo, surgiu a Sbrash - Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana. A Sociedade vem promovendo encontros, congressos e publicações nesta área, mas seus trabalhos no que tange à Educação sexual ainda se referem mais ao aspecto médico do que político-educacional. Nesta mesma década entramos na "era" dos sexólogos. Especialista para falar de sexo e fazer falar de sexo, quem não se lembra da "TV Mulher"? A sexologia receita como fazer sexo, qual a melhor posição, fala-se nas revistas, na televisão, no cinema, no teatro, as proibições são minimizadas ou até mesmo inexistentes, o que era uma aberração no século XIX, hoje não é mais. Liberdade sexual? Repressão sexual? Ou proliferação de um discurso explícito sobre sexo? Ou A disciplina do amor, encontrada na literatura de Lígia Fagundes Teles: “Mas eis que já vem por aí, como uma cachoeira cobrindo tudo, a moda dos sexólogos. Só se fala em sexologia para crianças, adultos, velhos, alegria, meus velhinhos! que os sexólogos resolvem qualquer problema. Ou, pelo menos, esclarecem.” (Teles, 1980, p. 116) Deixar falar para melhor controlar, o que não significa reprimir, assim regula-se o "irracional sexual". Segundo Foucault, no século XX, “(...)passar-se-ia das interdições sexuais imperiosas a uma relativa tolerância a propósito das relações pré-nupciais ou extramatrimoniais; a desqualificação dos perversos teria sido atenuada e, sua condenação pela lei, eliminada em parte; ter-se-iam eliminado, em parte, os tabus que pesavam sobre a sexualidade das crianças.” (Foucault, 1990, p. 109) 21 CAPÍTULO III A ABORDAGEM À SEXUALIDADE NO CONTEXTO FAMILIAR Grande número de pais estão conscientes que é sua responsabilidade dar informação e debater questões ligadas à sexualidade, mas sentem-se com dificuldades várias e inseguros para o fazer. No entanto, é inquestionável a importância da família na Educação Sexual das crianças e dos jovens: a aprendizagem da sexualidade é um dos elementos do processo de desenvolvimento global da pessoa, no qual a família é um dos principais agentes. A Educação Sexual é construída mesmo quando julgamos que não a fazemos. Ela é inerente à vida, aos pequenos hábitos de todos os dias e está explícita em aspectos tão vastos como as nossas opiniões, entusiasmos e críticas acerca dos acontecimentos, problemas e valores do Mundo. Hoje em dia pensa-se que os Pais são muito importantes na Educação dos filhos e que não devem abdicar de um assunto tão pertinente como este. É no contexto familiar que se realizam as primeiras relações afetivas, de apego e de sociabilidade que em muito influenciarão os ciclos de vida subseqüentes, nomeadamente nas suas dimensões afetiva, amorosa e sexual. Uma das perguntas mais comuns dos Pais é: “O que devem os meus filhos saber acerca da sexualidade e em que idade o devem saber?”. Os pais sentem por vezes receio de dar demasiada informação cedo demais, pensando que os irão ferir de alguma maneira ou encorajá- los a tornarem-se sexualmente ativos. Neste contexto poderão, junto aos professores, tentar esclarecer algumas dúvidas, pedir ajuda ou sugestões no que diz respeito à sexualidade, nomeadamente: - qual a melhor maneira de abordar o tema em casa - como responder às perguntas do filho - que materiais pedagógicos adquirir (e onde) para ajudar na abordagem do tema em casa - que fazer quando o filho ou educando não coloca questões - como tratar da questão da contracepção com filhas adolescentes 22 Na verdade, o fato é que a maior parte da informação que os adolescentes possuem sobre a sexualidade, provém dos próprios colegas. A televisão é também uma fonte de informação, nem sempre adequada. Esta, aliada a filmes e vídeos musicais cada vez mais sexualmente explícitos, proporcionam ao adolescente uns valores e uma imagem da sexualidade que não corresponde à realidade. Portanto, é compreensível que a informação que possuem seja muitas vezes inadequada e repleta de crenças falsas. No entanto, tem-se verificado que elevado número de adolescentes sexualmente ativos, nunca falaram com os seus pais sobre sexualidade, e um número ainda superior sente-se demasiado nervoso ou receoso de tocar no tema. Várias investigações nesta área têm posto em evidência que muitos adolescentes não utilizam métodos contraceptivos ou não os utilizam adequadamente, mesmo quando têm múltiplos parceiros sexuais. Por outro lado, investigações nos Estados Unidos e na Europa apontam, que os adolescentes que falaram com os seus pais ou outros adultos sobre a sexualidade e puderam colocar- lhes suas questões sobre o tema, têm uma maior probabilidade de usarem contraceptivos, de os usarem de forma mais assídua, evitarem uma gravidez não planeada e todos os riscos relacionados com a atividade sexual, e muito importante, é mais provável que adiem o início da sua atividade sexual. É nesse ponto que surge o grande desafio, que pode ser demonstrado nas seguintes questões: 1. como falar sobre sexualidade? Falar de sexualidade com os pais é muitas vezes difícil e embaraçoso para os adolescentes, é por esta razão que, a educação sexual nas escolas e a informação adequada disponível na comunidade, exercem um papel tão importante. Mas para que a comunicação com o adolescente possa ocorrer, tanto em casa como no meio escolar, deve ser proporcionado um ambiente de compreensão ou empatia, de genuinidade e de aceitação e respeito pelo adolescente e suas dúvidas, sem fazer julgamentos de valor sobre as mesmas. A compreensão ou empatia constitui um papel muito importante durante o diálogo sobre o tema, e compreende os seguintes componentes: - Desejo de compreender o adolescente; - Discutir o que é mais importante para ele; - Atender e valorizar as experiências, sentimentos e mensagens (mesmo implícitas), apresentadas pelo adolescente. 23 O desejo de compreender implica ouvir o adolescente e certificar-se de que conseguiu perceber a sua idéia, mesmo que incorreta. Outro aspecto importante é, não contornar a questão que é central para o adolescente, mesmo que seja difícil ou constrangedora. Por exemplo, um adolescente pergunta: " O que é o diafragma?"; uma resposta a evitar seria: "O diafragma é um contraceptivo, mas há outros mais fáceis de serem utilizados!" Algumas questões apresentadas podem ter um peso emocional muito grande ao serem expressas pelo adolescente, a coragem de as apresentar deve ser valorizada, mesmo que de forma não verbal. Comportamentos como: manter o contacto visual, direcionar o corpo para o adolescente (aumentando um pouco a proximidade), manter uma postura aberta (sem cruzar os braços), podem ajudar neste sentido Ter genuinidade consiste em ser-se como se é. Isto permite colaborar com o adolescente, aumentar a proximidade emocional e demonstrar que se é humano. Inclui os seguintes aspectos: - Adotar um comportamento verbal e não verbal adequado; - Congruência; - Espontaneidade; - Abertura e auto-revelações. Em relação ao comportamento este deve acompanhar, dentro do razoável, o do adolescente, por exemplo: sorrir se ele sorri. Mas sempre, sendo congruente com os próprios sentimentos e espontâneo em relação aos comportamentos. Por vezes os adolescentes pedem que sejam contadas experiências pessoais - autorevelações, ser capaz de contar demonstra abertura e por vezes poderá ajudar. Por exemplo, um adolescente pode dizer: "Eu tenho muitas dúvidas sobre o que sinto quando estou nessa situação. A ti também te acontece?"; uma resposta de auto-revelação poderia ser: "Eu também nem sempre tenho a certeza do que sinto, nessa situação!" No entanto, é necessário algum cuidado em relação à abertura e auto-revelação. Nunca deve ocorrer se se sentir constrangido ou invadido na vida pessoal. Igualmente, por norma, é necessário ter em consideração as seguintes três regras: - Quantidade de informação revelada; - Quantidade de tempo despendido na auto-revelação; - Grau de intimidade da mesma. 24 O respeito, é talvez, um dos aspectos mais importantes e ao qual o adolescente é mais sensível. Respeitar significa valorizar o adolescente como pessoa, com dignidade e valor, aceitando-o tal e como é. Numa atitude de respeito, consideram-se os seguintes aspectos: - Compromisso e esforço por compreender; - Ausência de julgamentos de valor; - Criar um ambiente acolhedor. Pode demonstrar-se verdadeiramente interessado em ajudar e compreender o adolescente, se evitar conclusões precipitadas. Pode evitá- las colocando questões específicas, com o objetivo de obter a informação importante que lhe permita compreender completamente qual a dúvida ou idéia que o adolescente está a tentar transmitir- lhe. Não fazer julgamentos de valor, não significa aceitar ou concordar com tudo o que o adolescente diz! Mas sim, ser capaz de adiar o julgamento, evitando condenar os pensamentos, sentimentos ou ações do adolescente. Por exemplo, um adolescente diz: "Não gosto de usar o preservativo, por isso, não o vou usar!"; uma resposta poderia ser: "Compreendo que não gostes de o usar, e estás no direito de não o fazer, mas deves estar consciente que colocas em risco não só a tua saúde como a de outros.". Um ambiente acolhedor, que permita ao adolescente colocar suas dúvidas e expressar suas opiniões consegue-se pelo conjunto dos vários aspectos referidos. Mas pode maximizarse com elogios merecidos, que apontem os aspectos positivos do adolescente, seus comportamentos, pensamentos ou sentimentos. Reforçando igualmente a intenção positiva de intervenções menos felizes. Um aspecto eminentemente prático para facilitar a comunicação em meio escolar, é respeitar a intimidade dos adolescentes e a sua dificuldade em colocar determinadas dúvidas. Assim, permitir a colocação de dúvidas de forma anônima, através de jogos ou outros meios, permitirá ajudar um maior número de jovens. Igualmente em meio escolar, é necessário estar consciente, que não é aconselhável particularizar a experiência pessoal apresentada por um adolescente. Nestes casos, valoriza-se a experiência e aproveita-se para generaliza- la. Por exemplo, um adolescente pode dizer: "Foi muito bom, quando eu e a minha namorada, descobrimos que gostávamos de acariciar-nos."; uma resposta possível seria: "Portanto, foi muito positiva essa descoberta para vocês. Algumas pessoas gostam muito de ser acariciadas, como é o vosso caso, outras não gostam tanto." 25 2. Que informações devem ser transmitidas? Existe um conjunto de informações muito importantes a ser transmitidas: - Educar sobre sexualidade ( órgãos e fisiologia/funcionamento, coito, gravidez, parto); - Ensinar o adolescente a tomar decisões de caráter sexual; - Contemplar a comunicação com os parceiros; - Informar sobre os riscos de saúde da atividade sexual ( doenças sexualmente transmissíveis); - Esclarecer quais os riscos e conseqüências da gravidez na adolescência; - Informar quais os métodos contraceptivos; - Explicar onde encontrar mais informação e ajuda médica; - Aumentar a auto-estima do adolescente; - Motivar o jovem a investir no seu futuro. Existem dois objetivos principais quando se fala de sexualidade e se transmite informação sobre o tema. Encorajar o adolescente a adiar o início da sua atividade sexual e melhorar a utilização dos métodos contraceptivos entre os adolescentes que já são sexualmente ativos. 3. Até que ponto informar? Não existe um limite para a informação a ser transmitida, que não a compreensão do adolescente sobre o que está a ser informado e necessidade de esclarecimento sentida pelo mesmo. Deste modo, é preciso que os pais estejam atentos à reação do adolescente, não só em relação ao que diz - informação verbal, como igualmente à cara e gestos que apresentainformação não verbal. Em relação à ultima, alguns exemplos poderão ser: o adolescente olha para nós mas a sua expressão facial não interage, ou seja, que não reage ao que se lhe diz; franze a testa, levanta as sobrancelhas, etc.. Considerar a idade do adolescente, é também muito importante. Os adolescentes jovens, têm muitas dúvidas a maior parte delas relativamente simples, mas a sua capacidade de compreensão e memorização é mais limitada, ao contrário dos adolescentes mais velhos. Mas a própria experiência de vida de cada adolescente é diferente na sua extensão e qualidade. É possível avaliar a necessidade de esclarecimento do adolescente, atendendo às próprias questões colocadas e compreensão das respostas dadas às mesmas. 26 3.1 A adolescência e a sexualidade A adolescência é um período privilegiado da existência humana, período este no qual as mudanças orgânicas, cognitivas, sociais e afetivas interferem largamente em seus relacionamentos interpessoais quer de ordem familiar, escolar e social, entre outras tantas dimensões possíveis onde possa haver relacionamento e diálogo. Dizemos ser um período privilegiado porque é um momento único entre as vivências do ser humano, momento em que o adolescente descobre a vida dentro e fora de si, descobre o mundo que tem à frente para conquistar. Descobre também tanto as agruras e dificuldades de um relacionamento afetivo mais profundo quanto as delícias de se sentir amado e querido por outra pessoa. Vive a busca por seu espaço na teia social, ao mesmo tempo que desejaria voltar à tenra infância. Estas e muitas outras vivências, por vezes contraditórias e angustiantes, influem decisivamente no desenvolvimento do adolescente e no seu amadurecimento pessoal (Monesi, 1993). - Adolescência e mudanças No corpo dos adolescentes, ou melhor, do púbere, se processam largas mudanças hormonais, que aceleram seu crescimento físico e também o desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários. O crescimento físico acelerado e não igualado - já que algumas partes do corpo se desenvolvem mais rapidamente que outras - surpreende o adolescente, que passa a não se reconhecer em seu próprio corpo. Seu esquema corporal ainda não se adaptou ao crescimento, de modo que ele começa a esbarrar em alguns objetos, a derrubar coisas, a abraçar forte demais a outras pessoas, porque perdeu, ou melhor, ainda não redimensionou a sua percepção de espaço, tempo e força ao novo corpo que passou a possuir. O aparecimento de caracteres sexuais secundários reforça este ponto, influindo largamente na auto imagem do adolescente, na forma como ele vê seu corpo modificado e em processo de modificação. Devido a estas mudanças bruscas, que trazem em si um caráter vital de desenvolvimento, de amadurecimento e de um aumento das responsabilidades e atribuições do adolescente, podemos caracterizar a adolescência como uma situação, como um período de crise. Etimologicamente a palavra "adolescência" é composta pelos prefixos latinos ad (para a frente) e dolescere (crescer com dores), definindo claramente este período (Zimerman, 1997). A palavra crise, por sua vez, deriva-se do radical grego krinen , significando basicamente uma separação de caráter brusco e duradouro. Caplan (1961) define crise como um período de 27 comportamento alterado, onde ocorre um desequilíbrio em relação ao estado normal ou mais usual da pessoa, sendo sempre acompanhado de perturbações emocionais. O referido autor relaciona um período de crise com a percepção da possível emergência de circunstâncias desagradáveis ou problemáticas, que representam uma ameaça ou uma perda. Na adolescência, estas características se fazem muito presentes. Na adolescência as questões emocionais se fazem de extrema importância, visto que repercutem direta e profundamente na formação da identidade do mesmo. Há diversos aspectos que permeiam as suas vivências emocionais. O adolescente vivencia emocionalmente diversos lutos. Ele perde a noção de seu próprio corpo que se modifica, não sendo mais um corpo infantil. Sua relação com seus pais se torna diferente, já que ele não é mais criança, e a sua identidade infantil também se dissipa, fazendo-o buscar uma nova noção de si mesmo. Deste modo, a relação idealizada com os pais se quebra, surgindo diversas vezes conflitos com os mesmos, que geralmente gravitam nos pólos dependência/independência, no gradual assumir de sua própria vida e liberdade. Há também uma transformação na convivência social. O adolescente começa a se relacionar com as turmas, inicialmente só de meninos ou meninas, e a exercitar sua possibilidade de relacionamento com os outros. Como em todas as outras esferas da vida do adolescente, enfrentar esta situação nova desperta medos e receios, ao mesmo tempo que ocasiona o desejo de conhecer, de buscar o novo, e de conseguir se relacionar com os demais. O medo e o desejo causados pelas mudanças impostas ou obtidas são uma constante na vida de um adolescente. - Re-Descoberta da sexualidade e a escola Acompanhando e participando deste mesmo processo, a sexualidade do adolescente também sofre intensas mudanças: podemos dizer que a adolescência é um momento de (re) descoberta da sexualidade. Frisamos (re) descoberta, porque acreditamos que a sexualidade é construída ao longo da vida, da história pessoal de cada indivíduo, desde sua infância, na teia de relações interpessoais que se estabelecem entre o indivíduo e o ambiente no qual vive (Monesi, 1993) sendo permeado por ideologias e visões de mundo diferenciadas. Foucault (1977, 1985a) salienta largamente este ponto em sua obra, frisando que a sexualidade se constrói não apenas no biológico, mas principalmente no imaginário: a sexualidade se coloca não apenas no palpável, mas sim no discurso que sustenta o palpável, na ideologia subjacente aos padrões de "normalidade" impostos na convivência social. 28 Ora, a escola é, por excelência, uma instituição onde, além de informações, transitam livremente os valores sociais vigentes e é certo que a sexualidade também tem nela seu espaço. Não fosse assim, a escola não falaria tanto de sexualidade, quer através de um discurso semi aberto, frisando mais os aspectos biológicos da sexualidade em detrimento do prazer , quer através de uma política de repressão, onde a sexualidade é relegada a piadas, pichações em banheiros e coisas deste gênero. O certo é que a escola , quer sob a forma de repressão ou de biologização, passou a falar incessantemente do sexo (Souza, 1997), mais ainda no contato com os adolescentes, que exalam sexualidade vinte e quatro horas por dia. Uma das tentativas da escola (e diga-se apenas de passagem, de todo um sistema ideológico do qual a escola é um instrumental de persuasão), para controlar esta situação foi a biologização da sexualidade, sob o resguardo das ciências médicas, vinculando o exercício da sexualidade ao exercício das funções reprodutoras. Neste ponto, a equivalência imposta entre sexualidade e reprodução, essencialmente um fenômeno biológico, objetivo, palpável através dos filhos gerados, ocasiona uma cisão entre a sexualidade e a subjetividade. Sob influência deste momento histórico, a escola passa a dar cada vez mais informações sobre reprodução, funcionamento hormonal, ciclo menstrual, caracteres sexuais secundários, AIDS, contracepção, muitas vezes deixando de lado a subjetividade, seja da criança ou do adolescente. Houve também outra saída, milenar, mas não muito saudável: vincular a sexualidade à sujeira, ao pecado, à imoralidade. Hoje estes aspectos sofreram um modificação transformando-se no discurso de que "sexo é perigoso, que pode pegar AIDS a qualquer hora ou qualquer outra doença". Na verdade, passou-se a ligar, muitas vezes com maior intensidade, o sexo, que pode ser fonte de vida tanto física quanto afetiva entre um casal, com situações de risco de perda da vida, com situações de perda da liberdade e mesmo de morte física real. Não que não haja este aspecto e que a AIDS não seja uma realidade em nosso meio. Mas apenas estamos assinalando que os aspectos benéficos e saudáveis do exercício da sexualidade são por vezes minimizados frente a seus pontos negativos. O que é certo é que, de um modo ou de outro, a escola procurou domar este cavalo bravio chamado sexualidade. Porém , isto não foi o suficiente: se fosse, os mecanismos de controle existentes na escola conseguiriam dar conta de reprimir as manifestações da sexualidade. Não foi suficiente porque ao privilegiar o aspecto informativo (que poderíamos chamar até mesmo de profilático, visto que o caráter das informações sobre sexualidade visam prevenir a ocorrência de gravidez indesejada e a contaminação por HIV) a escola deixa de lado o aspecto subjetivo, afetivo da sexualidade. Kornblit e colegas (1996), numa pesquisa sobre a percepção de risco e 29 condutas preventivas à gravidez, em estudantes de 15 a 20 anos, encontraram um resultado interessante: as informações sobre conduta contraceptiva (uso de camisinha, pílula, etc) e de prevenção a AIDS não asseguram sua eficácia no meio escolar. Porque isso ocorreria? Os autores levantam, entre outras hipóteses, que isto ocorre porque a subjetividade tem mais influência que as informações dadas aos adolescentes. Não queremos com o exposto acima afirmar enfaticamente que a escola serve de instrumento passivo a correntes ideológicas, reprimindo a sexualidade de todas as formas sem qualquer reflexão crítica. Hoje vemos que esse tema tem se difundido largamente no sistema escolar e a questão da sexualidade, seja dentro ou fora da escola, tem sido muito discutida. O que apontamos é que há uma visão distorcida da sexualidade que permeia a escola e que muitas vezes funciona como um mecanismo muito mais de regulador da sexualidade dos adolescentes que como um catalisador de discussões e de reflexões críticas sobre essa realidade. E esse mecanismo permeia toda a sociedade, englobando o universo de relações sociais e afetivas do adolescente. Dentro deste contexto, que engloba uma problemática entre sexualidade, adolescência e sociedade, é que propomo- nos a realizar um trabalho de orientação sexual. Frisamos orientação sexual e não educação sexual, seguindo a literatura existente à respeito, levando em conta que a educação vem desde a infância e supõe, muitas vezes, um processo de assimilação de informações e, sobretudo de valores morais, que ocorre muitas vezes sem uma visão questionadora e crítica das informações recebidas. Já na orientação ocorre um trabalho informativo, mas não restrito a isto: a crítica, o questionamento de valores, preconceitos e estereótipos auxiliam a pensar outras formas de compreender a sexualidade e a própria vida, porém, mantendo a liberdade de escolha do adolescente enquanto sujeito de sua própria história. 30 CAPÍTULO IV A SEXUALIDADE E A ESCOLA 4.1 A educação sexual e o reforço aos papéis sociais/sexuais nas escolas A educação sexual surge, no século XX, trazendo em seu bojo, significativamente, as concepções médico- higienistas, que influenciaram profundamente a política educacional oficial no século XIX, mesmo passando a ser uma reivindicação da sociedade civil organizada. Nasce a educação sexual objetivando o cambate `a masturbação, às doenças venéreas e ao preparo da mulher para o papel de esposa e mãe. Sempre com objetivos de "saúde pública" e de "moral sadia", procurando assegurar-se a saudável reprodução da espécie. Mas a educação sexual existe de fato ou de direito? Na década de 20, o movimento feminista liderado por Berta Lutz, uma bióloga formada pela Sorbonne, tentou a implantação da Educação Sexual oficial nas escolas, tendo como objetivos principais a proteção à infância e à maternidade. Entre os educadores, um Congresso Nacional de Educadores, em 1928, defendeu a aprovação de um Programa oficial de Educação Sexual nas escolas, a ser aplicado apenas a crianças acima de 11 anos. Vê-se que a questão da idade da criança a ser alvo de um dispositivo sempre é ponto central. A influência higienista nos discursos pró e contra a implantação oficial da educação sexual nas escolas era evidente. A literatura que aborda o assunto - educação sexual - é significativamente clara no que se refere às suas funções higienistas. Marilena Chaui (1984) aponta o livro de Oswaldo Brandão Silva, editado no Rio de Janeiro, já em 1938, intitulado Iniciação sexual - educacional (leitura reservada). Segundo o autor, o livro não seria obsceno, leitura reservada significaria dizer que se destinava apenas aos meninos. As meninas só deveriam ser iniciadas no sexo por seus maridos. O conteúdo discriminatório e controlador desse livro é apenas um exemplo do moralismo vigente. A contestação à educação sexual nas escolas também ocorre num livro de 1954 intitulado, Obras completas do padre Leonel Franca, SJ.; o capítulo XV: a formação da Personalidade é sinalizador. O autor discute o que entende como "educação sexual" e coloca a 31 quem, em sua percepção, cabe o dever de propiciar esta educação para os infantes e adolescentes. Nesta obra, em nome da moral e dos bons costumes, defende veementemente que a família cumpra esse papel orientador e não a escola, ou o Estado enquanto poder público. Além de que a sexualidade aparece como um mistério a ser desvendado: Parece-nos de capital importância excluir qualquer iniciação sexual feita coletivamente nas escolas. Nos mistérios da vida quem deve iniciar os adolescentes são os pais. Só o lar reúne as condições psicológicas e morais para uma educação sadia e eficiente em matéria tão delicada. Contrariando os ativistas pró-educação sexual, a qual declina como iniciação sexual, diz que a propaganda em favor da iniciação sexual nas escolas é toda baseada num falso postulado pedagógico: isto é, na opinião de que a corrupção nasce da ignorância. Para ele, este postulado não passa de um engano. Trata-se aqui muito mais de 'força moral' do que de 'saber'. Segundo o autor, a iniciação sexual nas escolas, ao contrário daqueles que apregoam seus benefícios, é maléfica, despertando pensamentos e desejos pecaminosos nas mentes em formação. Em sua concepção, uma "verdadeira pedagogia sexual" concentra seus esforços na formação da vontade e na educação do caráter e evita despertar imagens e curiosidades malsãs a que não resistiriam as consciências ainda mal formadas das crianças. Isto só a família pode proporcionar. Em nome da higiene, da pedagogia e da moral, conclui dizendo que julga ser necessário suprimir dos programas de ensino uma iniciação coletiva, feita nas escolas públicas. De fato, embora não oficializada em Lei federal a Educação sexual foi paulatinamente sendo implantada nas escolas, com vistas a higiene corporal, a defesa do sexo (da virgindade) das meninas, e da boa reprodução da espécie, reforçando os papéis sexuais de homens e mulheres. A responsabilidade pela educação sexual ficava a cargo de um educador sanitário, que também atuava sobre os pais e professores. Tanto que ainda: No período de 1954 a 1970, o serviço de Saúde Pública do departamento de Assistência ao Escolar de São Paulo ministrou orientação sexual a meninas das quartas séries primárias. As meninas e suas mães recebiam orientação sobre as mudanças sexuais que ocorrem na puberdade, gravidez e parto, quando solicitavam. O orientador sanitário era responsável por essas aulas, que ele tentava passar também para os professores. (...). (...)os pais e participantes avaliavam esses programas como excelentes, (...) as mães consideravam importante que as filhas se instruíssem para se defenderem das "más intenções" dos rapazes. (Saboya, 1992, p. 112) Observe-se que eram as mulheres - filhas e mães -, em primeira instância, o alvo da educação sexual escolar. Nessa "orientação sexual", o papel de macho, do sexo forte e viril do 32 homem, está consolidado. O homem é o que ataca, pode e deve atacar a mulher, sexo frágil, que tem de ficar na defensiva em relação às "más intenções" masculinas, precisando de "orientação sexual" para se defender. A concepção higienista também está presente nos livros didáticos, que, em sua maioria, ainda hoje, reforçam os papéis sexuais. Maria de Lourdes Chagas Deiró Nosella, ao analisar os livros didáticos de 1ª a 4ª séries do 1º grau, observou o reforço social dos papéis sexuais de homens e mulheres. A autora nos informa que a figura do pai em tais livros aparece como sendo aquele que vai dar o sustento da família, que vai para o trabalho, é autoridade, a pessoa mais forte; em contrapartida, a figura da mãe aparece como a que geralmente fica em casa, não trabalha, cuida do lar, do marido e dos filhos, ou seja, desempenha na sociedade o papel de esposa- mãe, bondosa, não medindo sacrifícios pelo bem da família. Historicamente, pois, a escola aparece como um agente reforçador dos papéis sociais/sexuais do homem e da mulher, com a supremacia masculina. Eliane Vasconcellos Leitão, discutindo a questão numa perspectiva da linguagem, chama a atenção para o papel que a escola desempenha no reforço dos papéis sexuais impostos para homens e mulheres, sobretudo, como vimos, pela concepção médico-higienista, através de seu discurso científico e que a escola tão bem assimilou de maneira acrítica. Em A mulher na língua do povo, ela observa que: Os meninos são educados para se tornarem seres adultos, homens (cf. Dos meninos se fazem homens), enquanto que as meninas são educadas para se tornarem mocinhas/moças, jamais mulheres. Os agentes socializadores (pais, professores (grifo meu), parentes etc.) não falam para os meninos: Comporte-se como um senhor, como um donzelo, como um senhorito, mas, sim, comporte-se como um homem, porém o mesmo não ocorre com as meninas. O falante do português não usa para o sexo feminino o enunciado paralelo - comporte-se como uma mulher; ele substituiu por: comporte-se como uma moça/mocinha (...) A língua também, seja a culta ou a popular, reforça a diferenciação desses papéis sociais/sexuais; se isoladamente a linguagem não parece conter nenhum elemento de controle sobre o indivíduo, analisada numa perspectiva social se constitui em mais um mecanismo de controle sobre os indivíduos, sendo a escola espaço privilegiado de sua atuação, pois é lá que ela é ensinada. 33 4.2 A educação sexual e a legislação atual A década de 60 foi marcada em nosso país por mudanças políticas radicais. O golpe de 1964 levou os militares ao poder. Certamente este período repressivo também deixou marcas no processo de implantação oficial nas escolas de uma educação sexual. Neste período, independentemente da concepção que se tinha sobre a educação sexual, alguns legisladores insistiram em implantá-la nas escolas oficiais. Em 1968, a deputada Júlia Steimbruck apresentou um projeto de lei propondo a introdução da educação sexual em todas as escolas de nível primário e secundário do país. Neste mesmo ano, editou-se o Ato Institucional nº 5 marcando, entre outras coisas, um forte poder à censura, afetando, entre outras instituições, as educativas. Tanto as universidades quanto as escolas chamadas renovadoras tiveram seu trabalho interrompido e o projeto da referida deputada foi arquivado. Até então, dentro das escolas, os trabalhos de educação sexual, quando existentes, eram coordenados pelo orientador educacional e/ou ficavam sob a responsabilidade dos professores de Ciências ou de Programas de Saúde. Estes trabalhos, embora não proibidos pelo poder da lei, até porque não havia nenhuma lei educacional que os amparasse, pararam. No que se refere à legislação oficial, em 1971, com o surgimento da lei 5.692/71, aparece a obrigatoriedade da Orientação Educacional, a cargo do orientador educacional, agora com formação de nível superior. Neste momento, como já vinha de uma forma ou de outra sendo elemento articulador das atividades voltadas para a educação sexual nas escolas, esse profissional tomou para si a responsabilidade sobre ela, mesmo de forma tímida, embora a função não estivesse explicitada em lei. A opção é encontrada na literatura sobre orientação educacional, como podemos verificar a seguir: Num livro dirigido aos Orientadores Educacionais, não podiam faltar umas das idéias esquemáticas sobre o problema sexual dos adolescentes e umas palavras sobre a delinqüência. Retomando a discussão sobre a legislação observamos que, na lei nº 5.692/71, que fixa as diretrizes e bases para o ensino de 1º e 2º graus, não havia nenhuma proibição formal contra a educação sexual, embora tampouco seja mencionada. O que vamos encontrar na legislação é o parecer nº 2.264/74 do Conselho Federal de Educação, aprovado em agosto de 1974, onde se menciona a educação sexual como um objetivo a ser desenvolvido nos programas de Educação da Saúde para o 2º grau. Portanto, falar ou não falar sobre sexualidade, ou desenvolver um trabalho de orientação sexual, ficava a cargo, principalmente, dos "especialistas" da educação e da saúde. 34 Em nível oficial é só em 1995 que a educação sexual escolar ganha impulso com a proposta de implantação dos PCN - Parâmetros Curriculares Nacionais, que objetivam oferecer diretrizes mais claras às políticas para a Educação no âmbito do ensino fundamental. Nos PCNs a educação sexual aparece como orientação sexual dentro da Área Convívio Social e Ética no Ensino Fundamental. Assim, a educação sexual escolar surge oficialmente como orientação sexual, aparecendo no currículo de forma transversal, ou seja, não como uma disciplina específica a cargo de um professor, mas como responsabilidade de todos, devendo ser discutida em todas as disciplinas. Orientação sexual, ética, meio ambiente e estudos econômicos constituem-se nas quatro disciplinas que o Ministério da Educação e do Desporto quer implantar nas quatro primeiras séries do 1º grau. Consistem do trabalho Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental, anunciado pelo ministro da Educação e do Desporto, Paulo Renato Souza. Essas matérias serão chamadas de transversais porque serão discutidas em todas as disciplinas e não em uma específica. A proposta virá a ser discutida pelas secretarias estaduais e municipais de Educação e, em seguida, submetida ao Conselho Nacional de Educação (CNE), em maio. As crianças matriculadas na 7ª e 8ª séries do 1º grau deverão ter informações sobre anatomia e formas de prevenir a transmissão da Aids. A Orientação Sexual então deverá proporcionar informações sobre a anatomia do corpo e sobre as formas de prevenção e transmissão do HIV e Aids. Esta intenção é evidenciada na justificativa de implantação da orientação sexual nas escolas encontrada no texto preliminar sobre o PCN referente a ela: A partir de meados dos anos 80, a demanda por Orientação Sexual nas escolas se intensificou devido à preocupação dos educadores com o crescimento da gravidez indesejada entre adolescentes e com o risco da contaminação pelo HIV (vírus da Aids) entre os jovens. A questão da Aids e das DSTs - que tornam as pessoas mais sujeitas a Aids - está posta na necessidade de implantação de uma educação sexual escolar. Entendendo que a escola é um espaço de convivência social, amorosa, emocional do jovem, onde ele permanece bom tempo de sua vida, ela não pode se omitir diante da gravidade da doença, considerando a sua principal via de transmissão - a via sexual; por isso a necessidade de um trabalho de educação sexual escolar junto aos alunos, pelo aspecto sistematico e organizado daquele espaço específico. O certo é que se reconhece na escola, através da "orientação sexual", uma possibilidade de debelar a doença: “A existência de um trabalho sistemático e sistematizado de Orientação sexual dentro da escola possibilita também a realização de ações preventivas às Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) e à Aids de forma mais eficaz.(...)” 35 Devido ao tempo de permanência dos jovens na escola e às oportunidades de trocas, convívio social e do despertar para o relacionamento amoroso, a escola não pode se omitir frente à relevância dessas questões, constituindo-se em local privilegiado para a abordagem da prevenção às D.S.T./Aids. Uma pergunta se impõe: se a Aids não tivesse surgido, e infelizmente surgiu, a educação sexual escolar estaria, no momento, sendo incentivada tão veementemente? 4.3 Um incentivo à educação sexual escolar Hoje há um grande incentivo a educação sexual nas escolas, seja pública ou privada. Por quê? Há uma questão que coloca a educação sexual escolar na cena contemporânea - a Aids. Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), a educação sexual nas escolas não leva à sexualidade precoce, tampouco estimula a promiscuidade, chegando a esta conclusão através de uma análise de trinta e cinco estudos feitos por vários países sobre o tema. A OMS lamenta que esta crença exista, constituindo-se em uma barreira contra a introdução de programas de prevenção contra o HIV e a Aids para a juventude. Dezesseis dos estudos analisados por esta instituição indicaram que a abordagem do sexo nas escolas chegava a retardar a iniciação sexual. Mostrou-se também que, entre os jovens sexualmente ativos, a educação sexual levou a uma diminuição da atividade ou estimulou a adoção de práticas mais seguras. Este estímulo da OMS à educação sexual nas escolas se deve, provavelmente, aos índices alarmantes de infectados pelo vírus HIV. No Brasil, a Portaria Interministerial nº. 796, de 29 de maio de 1992, dos Ministérios da Educação e da Saúde estabelecia em seu art 2º: Recomendar a implantação, onde não existia, e a manutenção e ampliação, onde já se executa, de projeto educativo, enfatizando os aspectos de transmissão e prevenção da infecção pelo HIV e AIDS, dirigido a professores, pais e alunos, funcionários e dirigentes das redes oficial e privada de ensino em todos os níveis (...). Ainda em 1991, em nível estadual, a lei nº 1.892, de 20 de novembro de 1991, dispõe sobre a inclusão, no programa da disciplina Ciências Físicas e Biológicas, de informações e orientações científicas sobre a Síndrome de Insuficiência Imunológica Adquirida-AIDS (sic), nas Escolas de 1º e 2º graus situadas no Estado do Rio de Janeiro. Em seu artigo 1º, inciso 1º, estabelece que constarão obrigatoriamente as informações do programa de "Ciências" da 36 8ª série do 1º grau, da 1ª série do 2º grau, e no inciso 2º - Serão veiculadas as citadas informações e orientações através de palestras e conferências mensais proferidas por professores de Ciências ou médicos especialistas na matéria. E em seu artigo 2º - Caberão às Secretarias de Estado de Educação e de Saúde, em conjunto ou isoladamente, a divulgação das palestras e conferências através de cartazes ilustrativos em todas as escolas localizadas no território do Estado do Rio de Janeiro. A sexualidade humana constitui um dos temas amplamente investigados nos últimos 30 anos, por causa de sua importância para os diversos campos da ciência. Mas, recentemente, esta investigação tem-se voltado para a educação, uma vez que a humanidade contemporânea se vê estarrecida diante de uma ameaça chamada Aids. (Cabral, 1995, p. 45) A sexualidade é "objeto" de diversos campos da ciência, mas, no que concerne à educação a produção "científica" nesta temática ainda é escassa e, em sua maioria, reprodutora acrítica, do dizer de verdades postas por outros cientistas. No que se refere à questão da Aids especificamente, os educadores, professores, e as faculdades de educação, em sua maioria, não estão assumindo nem participando desta discussão, ficando à margem, apenas recebendo as informações sobre os efeitos da doença vindas de outros profissionais e agentes sociais, que passaram a indicar a "Orientação Sexual" como alternativa viável para debelar a doença. Assim, ao se omitirem desta discussão deixam espaço para que: Correntes médico-higienistas, políticos oportunistas, entre outros desinformados, passaram a indicar a educação como saída possível para minimizar ou afastar o fantasma dessa doença que, por usa vez, também é transmitida pelo contato sexual. O que se é de lamentar é que novamente a sexualidade do homem é pensada pela educação sexual, não como parte integrante de sua vida, de sua condição de cidadão, mas como um dispositivo para atacar um momento histórico determinado principalmente pela doença. Como um dispositivo que tem como função principal responder a uma urgência. 37 CONCLUSÃO No Brasil a educação sexual escolar surge marcadamente por práticas médicohigienistas influenciadas pela medicina social surgida na Europa do século XVIII. Sem dúvida que a força destas concepções não é a mesma daquele século XIX, porém elas estão presentes na escola, de uma forma ou de outra, até os dias atuais. A escola ainda reforça os papéis sociais/sexuais, pune os "delitos", ensina e prescreve os preceitos da higiene de forma científica, entendendo que com esta atitude educativa resolverá os "problemas de higiene" (sexual) individual das crianças, sem discutir as questões sócio-político-econômicas que provocam a "falta de higiene" de seus educandos. A escola ainda constitui um microespaço de poder onde se fala em sexo, porém, valorizando-o como o segredo - fala de sexo de maneira (re)velada. A educação sexual escolar informa como se constitui anatomicamente a genitália feminina e masculina, suas funções biológicas e reprodutivas; fala sobre o uso de contraceptivos e prevenção da gravidez, sobre a prevenção das DSTs e, atualmente, da Aids. São questões que devem ser discutidas, mas não isoladamente, devem ser associadas a uma análise global. A sexualidade é uma questão da própria sociedade, uma questão de cidadania. Neste sentido, a educação sexual escolar deve proporcionar uma reflexão voltada para as múltiplas formas de manifestações da sexualidade humana e o lugar que estas manifestações ocupam em nossa sociedade: o sexo, o desejo, o medo, o amor, o corpo biológico, o corpo social, o corpo cultural, a paixão, a sensibilidade, os papéis sociais/sexuais. O espaço da escola vem sendo valorizado para se discutir questões em torno da sexualidade, principalmente após o surgimento da Aids. Então cabe à escola se fazer presente, não como controladora da vontade do sujeito, mas como instância propriciadora de reflexão sobre a temática. A educação sexual é antes de tudo Educação e, como Educação, tem o papel de provocar mudanças. Alunos, professores e/ou educadores podem juntos buscar construir um conhecimento sobre a sexualidade humana para darem, ou não, novos significados a suas vivências. Necessariamente não deve existir um agente "credenciado" dentro da escola, como 38 o professor de ciências, o psicólogo, o orientador educacional explanando sobre sexualidade. O trabalho de educação sexual escolar tem de ser pensado numa perspectiva metodológica interdisciplinar, pensado coletivamente. Na escola o homem vem aparecendo como um ser compartimentalizado. Um corpo constituído por partes (sexuais), esvaziado de suas dimensões histórica, cultural, social, humana, sexual. É necessário que se olhe para esse homem de outra forma. Se faz mister uma reflexão sobre uma política pública para a educação sexual escolar, que não pode perder de vista o homem professor(a), aluno(a), diretor(a), especialista, faxineiro, pai, mãe etc..., que, antes de se constituir em um papel social/profissional dentro da instituição educativa é um cidadão que pensa, ama, deseja, sente prazer, odeia, tem medo e que traz para a escola a concepção sobre sexualidade existente na sociedade na qual está inserido. Uma política que leve em consideração o caráter de historicidade do discurso sobre sexualidade na sociedade ocidental como um caminho possível a uma Educação que se pretende transformadora e emancipatória. A escola é um local de produção de conhecimento, no entanto, o currículo de formação do professor e do "especialista" se exime do tema. Afinal, falar sobre sexualidade significa mexer com quem ouve e com quem fala - o homem, sujeito e "objeto", fazendo com a abordagem ao tema “sexualidade” não se torne também um desafio para as futuras famílias. Por fim, a análise apresentada não visa exaurir todas as questões que poderiam ser suscitadas sobre a temática sexualidade, mas sim, contribuir para se (re)pensar a prática da Educação sexual escolar, como ela vem sendo desenvolvida, e por quem. 39 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDRADE, Carlos Drummond. O amor natural. Rio de Janeiro, Record, 1992. ______.Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro, Companhia Aguilar Editora, 1964. ANDRADE, Mário de. Amar, verbo intransitivo. São Paulo, Círculo do Livro, [s.d.]. ARAÚJO, Rosa Maria Barboza de. A vocação do prazer: a cidade e a família no Rio de Janeiro republicano. Rio de Janeiro, Rocco, 1993. AZEVEDO, Fernando. A cultura brasileira: introdução ao estudo da cultura no Brasil. São Paulo, Edições Melhoramentos, 1963. 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