SALA DE AULA ― CADÊ A LUDICIDADE QUE ESTAVA
AQUI?REFLEXÕES SOBRE O BRINCAR NO ENSINO
FUNDAMENTAL.
LIBERALI, Andresa Cristina Damaceno - Colégio CAD
[email protected]
LIBERALI,Júlio César - E.E.Enio Pipino
[email protected]
Eixo Temático: Educação da Infância
Resumo
Esta investigação busca retratar aspectos da ludicidade na sala de aula do primeiro ano do
ensino fundamental, buscando indícios de cerceamento do brincar em favor à aplicação do
conteúdo e sua função com a leitura, escrita e o cálculo. Para tal empreitada, a pesquisa se
encaminhou em moldes etnográficos quando durante quatro meses foi possível investigar o
espaço de duas escolas no município de Sinop, no estado de Mato Grosso, sendo uma da rede
municipal e outra da rede particular de ensino. Recorremos à técnica de observação
participante, fotografia que ilustra e mostra o lócus do estudo além de entrevistas com cinco
pais, duas professoras e quinze alunos, matriculados no primeiro ano do ensino fundamental,
todos com idade de seis anos. Os principais teóricos que referenciaram o estudo foram Gilles
Brougère, Tizuko Kishimoto, Roger Caillois, Philippe Ariès e Walter Benjamin, nos quais
encontra-se produções pertinentes ao tema. Conclui-se que as alfabetizadoras de crianças com
seis anos, admitem a importância de brincar, mas confessam que em sala de aula, o
movimento lúdico tem hora determinada para acontecer, nas aulas de educação física e num
outro momento que as professoras assim decretam: “se sobrar tempo”. Reconhecendo que a
brincadeira deveria fazer parte do cotidiano escolar, as professoras se consideram omissas
diante de tantas obrigações a serem cumpridas na instituição, e não por uma imposição
somente da escola em questão, mas por uma situação que é posta pelo sistema geral da
educação como governo, pais e sociedade, que preconizam um modelo de ensino, como é
visto pelo novo sistema de ensino de nove anos, imposto como uma nova verdade.
Palavras-chave: Infância. Sala de aula. Ludicidade.
11091
Introdução
Este trabalho pretende responder algumas questões que me inquietam e são
desafiadoras na busca de ampliar minhas reflexões enquanto parte integrante do processo
educacional, que até então abrange, a escola, as crianças que aqui especificamente são os
sujeitos da pesquisa (seis anos de idade), e o brincar no espaço institucionalizado da sala de
aula, como forma de movimento e expressão corporal.
Diante do comportamento das crianças na escola, constata-se que em algumas turmas
eram recorrentes a agitação, a vontade de brincar e movimentar-se, então identifiquei as do
primeiro ano do ensino fundamental, agora na lei vigente de nove anos de escolarização1, que
seria justamente um dos ritos de passagens importantes da criança em seus estudos, é uma
etapa de transição no processo de desenvolvimento global do indivíduo enquanto ainda parte
da primeira infância e além, há o fator do desaparecimento do brinquedo e do brincar, que
então são consideradas características específicas da educação infantil e não mais neste núcleo
de ensino, ainda como fato agravante que percebo, está relacionado aos conteúdos
pedagógicos que devem ser trabalhados seguindo orientações do período em que, a partir
daquele momento a criança está inserida, onde em sua maioria são enfadonhos e muito
sistemáticos.
Quando a criança sai da educação infantil e vivencia o espaço do ensino fundamental
como descrito no parágrafo anterior, estas relações com a brincadeira e o movimento ficam
restritas às aulas de educação física e aos recreios, pois a partir daquela fase o ler e escrever
são os conteúdos que está em pauta para o sujeito. Se pensarmos que a criança aprende só
quando é submetida a um ensino sistemático estaremos desconsiderando a criança como um
ser globalizado e totalmente lúdico. A ludicidade é um instrumento de estimulação prático,
utilizado em qualquer fase do desenvolvimento infantil e para qualquer criança, como forma
de aprendizado. É uma maneira global de expressão, comunicação e exploração do mundo
infantil que envolve todos os domínios da natureza.
1
Cumprindo as determinações do governo federal, em 2010 todas as redes de ensino do país devem matricular
os alunos de seis anos no 1º ano. Os objetivos do Ministério da Educação (MEC) com o aumento do número de
anos da Educação Básica obrigatória são vistos como um avanço. "A inclusão dessa clientela é um grande passo
para a democratização do acesso escolar. Apenas os filhos das classes mais pobres não estudavam aos seis anos",
analisa Patrícia Corsino, que leciona Prática de Ensino de Educação Infantil na Faculdade de Educação da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)- fonte:Revista Nova Escola (Edição 225 | Setembro 2009 |
Título original: Prepare-se! Um novo aluno está chegando).
11092
Diante da possibilidade de brincar, é permitido à criança identificar, classificar,
agrupar, ordenar, seriar, simbolizar, combinar e estimar, e ao mesmo tempo, desenvolver a
atenção, concentração, socialização sem mesmo a interferência do adulto. A brincadeira é por
si só construtora de um conhecimento.Brincar é uma linguagem infantil, que a coloca em
comunicação com o meio, com o adulto e com outras crianças.
O que percebemos nos espaços considerados sagrados enquanto instituições de ensino,
é que cada vez mais a brincadeira, o jogo, o lúdico e o movimento corporal estão destituídos
do processo de aprendizagem. Questões relacionadas com a escola, à criança e a ludicidade
nortearam o estudo mais propriamente dito, levantando a seguinte problematização:
A sala de aula do primeiro ano do ensino fundamental oportuniza momentos de
brincadeira, favorecendo o movimento lúdico tão requerido pela infância? Onde é permitido
brincar na instituição escolar? Não poderia deixar de mencionar um fato atual na educação e
pensando no ensino de nove anos ― agora com as crianças de seis anos de idade parte do
ensino fundamental e não mais da educação infantil ― é que realizei uma reflexão durante o
trabalho referente ao rito de passagem de um nível de ensino para o outro na visão dos
adultos, aqui me refiro aos pais e professoras, e como as crianças percebem a sala de aula em
seu cotidiano.
A ludicidade, além de fazer parte da infância, apresenta grandes benefícios do ponto
de vista físico, intelectual, social e didático para a criança. Durante as brincadeiras, as
crianças entram em cumplicidade com os objetos, transformando-os de acordo com sua
imaginação, criatividade e de que forma ela quer utilizá-lo. Não é preciso conceitos e normas
para transformar objetos em brinquedos interessantes na infância. A criança cria seus próprios
conceitos e estabelece sentidos para o objeto que de certa forma possuem significados
pessoais.
Sala de aula: cadê a ludicidade que estava aqui?
Falar da sala de aula é preciso também a pensar em quem habita este espaço tão
particular no cenário escolar, e quais as suas aspirações. Habitantes como professores e alunos
compartilham e disputam a cena, na incessante busca de ensinar, para uns e de aprender, para
outros. Para tal, trago os seguintes questionamentos, que a muito me inquieta na escola, De
quem é a sala de aula? Qual sua função no espaço escolar? O que acontece por lá?
11093
Para refletir tais indagações, é importante que se entenda também o que é educar,
assim considero pertinente a definição etimológica do termo apresentada por Novaski2 em
uma de suas produções, onde educar significa “levar de um lugar para outro”, que para o autor
representa densidade de vivências e experiências que se tem, é a interação entre duas pessoas
que configura e fundamenta um processo de ensino-aprendizagem. Quando há esse encontro
de pessoas possibilita uma possível troca de informações a partir de mundos diferentes que se
inter-relacionam e vai se acumulando em conteúdos enriquecedores, propiciando a
aprendizagem que seria a função escolar em sala de aula.
Neste sentido de encontro interpessoal, o mútuo “levar de um lugar para o outro”,
leva-nos a pensar realmente em um processo de ensino e aprendizado humano, de um
“conhecimento que se pode ter cada vez mais do ser humano”, “do mundo humano”
(NOVASKI, 2005), para a filosofia, diz o mesmo autor, “aprender o que é humano é
fundamental nesse sentido: dele derivam todas as aprendizagens” (2005, p. 13).
Adentrando a sala de aula temos que perceber que por vezes os conteúdos a serem
transmitidos e ensinados que devem ser cuidadosamente planejados podem e deve ser vivida a
aprendizagem que antes me referia, e que é uma das aprendizagens mais importantes na vida:
o humano. É importante salientar que o professor em sala de aula, com sua gama de títulos e
conhecimentos, só terá sentido sua presença no espaço discutido se no decorrer da profissão
professor houver encontro com gente, percebe-se que na escola o aprendizado está deixando
de ser humano na iminência de “tornar-se instrumento com o qual me aproprio do outro,
reduzo o outro a mão de obra barata por seu eu o dono do capital intelectual” (NOVASKI,
2005).
A sala de aula é um ambiente multicultural, produtor e mediador destas culturas, nela
observamos multiplicidade de valores e crenças pessoais, conhecimentos e regras familiares
num mesmo espaço coletivo, segundo Cortella (2009), não há ser humano fora de um
processo cultural, temos que admitir que se faça necessário, considerando a escola-sala de
aula um facilitador cultural que é pertinente o conhecimento deste homem, “em suma o
homem não nasce humano, e sim, tornar-se humano na vida social e histórica no interior da
cultura” (CORTELLA, 2009, p.37).
2
Augusto João Crema Novaski: Mestre em filosofia pela PUC de São Paulo, Doutor em Educação pela
UNICAMP, onde leciona e chefia o Departamento de Filosofia e História da Educação, na Faculdade de
Educação. Escreveu um artigo no livro organizado por Regis De Morais intitulado, Sala de aula: Que espaço é
esse?19ª edição, editora Papirus, 2005.
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Anteriormente dissemos que é preciso “conhecer o humano, o mundo humano”, para
tal, a sala de aula deve favorecer este aprendizado propiciando atitudes deste processo de
acessar informações “com o outro” e também ofertar suas perspectivas “para o outro”. Desta
forma abordando uma pedagogia crítica, seria o mesmo que associar a educação e a sala de
aula como um processo de descentralização do professor ou no aluno, mas sim na formação
do homem, “o que se pode fazer pelo homem de amanhã” (NEIRA, 2004, p.15). Se
pensarmos num espaço que contribua para a transformação da própria sociedade já sairemos a
frente na possibilidade de que cada criança presente, é um agente facilitador e transformador
em suas comunidades de origem, saindo do espaço da escola.
O ensino atual é impregnado da atuação do professor na preparação do aluno para o
trabalho, o que nos revela alguns momentos da pesquisa, que cada vez mais cedo, estão
instituindo-se estes valores (digo trabalho) na instituição escolar. É quando nos preocupamos
e com demasiado valor com o ensino de nove anos, cujo, não possuímos opiniões contrárias,
porém, temos reconhecimentos de que a inserção do aluno com seis anos de idade no ensino
fundamental lhe garantirá mais um ano na escola, mas também lhe garantirá mais um ano de
trabalho e menos um ano de brincadeira e ludicidade — que bem ou mal, rege a educação
infantil ― que lhe cabe o direito. É notório e sabe-se dos ideais políticos que envolvem as
mudanças referentes aos níveis de ensino, mas não me remeterei à tamanha discussão, penso
que seria preciso um novo estudo para abarcar especificamente o tema nesta esfera. Prefiro
trabalhar na proposta das conseqüências que acarretam para a criança, a sua antecipação na
entrada para o ensino fundamental.
Como o próprio Postman (1999, p. 18) nos disse, “os jogos infantis, em resumo, são
uma espécie ameaçada”, isso há onze anos, e agora, o que fizemos e faremos com eles, já que
nas ruas não há mais espaço para sua utilização, a escola poderia ser o ambiente de resgate ao
mesmos.
Se nos preocuparmos com as definições etimológicas das palavras “jogo e brincar e
brincadeira”, veremos o caráter frívolo, de alegria, associados com a improdutividade com o
prazer acabariam abarcando ideais banalizadores em relação e utilização dos mesmos nos
espaços escolares, o que acontece nas salas de aulas pesquisadas, os reducionismos do jogobrincadeira.
O brincar é visto na escola pelos professores e equipe diretiva como um recurso
mediador no processo de ensino-aprendizagem em sala de aula, tornando-o mais fácil
11095
enriquecendo o processo das relações sociais na sala de aula, possibilitando um
fortalecimento da relação entre o ser que ensina e o ser que aprende.
Na aula tradicional, o professor tem a palavra como poder e a autoridade como reforço
e condutor do conhecimento onde é necessário para dar-lhe segurança perante a turma. Não
obstante, o brincar ganha espaço na aula modelada pela criatividade, espontaneidade e desafio
do pensamento da criança, numa perspectiva mais moderna. Em tal aula, busca-se criar um
ambiente de plena estimulação, envolto num clima de respeito mútuo, no qual o professor
procura ajudar o seu aluno a estruturar sua personalidade, autonomia, auto-estima, iniciativa
própria e conhecimentos.
Todavia, o brincar, na sala de aula, acrescenta ao currículo escolar uma série de
situações que ampliam as possibilidades de o aluno aprender e construir e estruturar o
conhecimento. O brincar permite que o aprendiz tenha liberdade de pensar e de criar para
desenvolver-se plenamente.
O movimento lúdico oferecido pela possibilidade de brincar em sala de aula gera
realmente um desconforto no professor, que é habituado a manter-se no controle destes corpos
em suas disciplinas, como língua portuguesa, matemática, ciências e outros, onde predomina a
situação do poder já dito no parágrafo anterior, submetendo à disciplinarização dos corpos e
do espaço da sala de aula dos alunos que se encontram subdivididos em compartimentos em
determinadas horas do seu dia, para executar tarefas já estabelecidas. Essa prerrogativa de
transformar o indivíduo em departamentos e separar os corpos no tempo e espaço é relatada
por Foucault. Segundo o autor, “esses métodos que permitem o controle minucioso das
operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma
relação de docilidade-utilidade, são o que podemos chamar as ‘disciplinas’” (FOUCAULT,
1987, p. 126).
Nota-se o predomínio de atividades preparatórias para a leitura e escrita em detrimento
do brincar, desde os primeiros estágios infantis: desenhos preparados, cópias de frases da
lousa seguidas de um desenho relativo à frase, recorte, colagem, entre outras atividades
consideradas pertinentes na sala de aula. A ideia de brincar está muito associada à Educação
Física, ao movimento e à atividade externa à sala de aula (pátio e parque) exemplifica, de
modo geral, as concepções dos profissionais de educação. Não se concebe o brincar no
interior da sala de aula, esse é o espaço privilegiado da atividade pedagógica, caracterizando a
função da escola como espaço para aquisição de conteúdos. Favorecer um espaço agradável
11096
para a brincadeira é função do adulto, no caso da discussão, função das professoras que
administram suas salas de aula.
Ainda existem professores que relacionam o movimento lúdico, momentos de
descontração pelos educandos à bagunça e não a um aprendizado. É comum observar-se cenas
em que as crianças brincam sentadas em suas cadeiras retratando a imobilidade e o silêncio
como desejo do adulto do controle do corpo, como que para aprender a ler e escrever sempre
fosse necessário acontecer entre quatro paredes e em absoluto silêncio oral e corporal.
Um ponto a ser relatado e que faz diferença, é a relação entre o universo vivencial dos
alunos e o que é feito em sala de aula pelos professores que causa tanta resistência pelos
alunos, assim nos diz Cortella (2009, p. 96)
[...] é só observar a alegria com a qual chegam, algazarra no portão, os gritos no
pátio; de repente, toca o sinal e vão, cabisbaixas, para a sala de aula, onde ficarão
quietinhas (à força?). Toca o sinal do intervalo, saem correndo, esfuziantes,
colocando em risco até a própria segurança; acabando o intervalo, retornam
melancólicas [...].
Percebe-se a partir deste relato que os meninos adoram ir para a escola, mas não
gostam de entrar para suas salas de aula, que ali caracteriza o momento de estudar, o “estado
de esquina de rua”, como nomeia McLaren (1991) caracterizado por comportamentos
descontraído, sem vigilância, é a expressão exuberante dos corpos contorcidos emanados em
contatos físicos e desgovernados. Os alunos são donos do seu próprio tempo. É uma atitude
que pode ser observada nas ruas, pátio da escola, parques que são transferidos para dentro das
escolas em momentos descontraídos, se é que eles existem em tal ambiente.
McLaren nos relata também o momento de sala de aula como sendo o “estado de
estudante”, onde se processa o poder de dominação dos professores em relação aos alunos
sem o uso da força. É a adoção de gestos, disposições, atitudes e hábitos de trabalho esperado
de ser estudante, cujo principal tema é “trabalhar duro”. Constitui também pelo desconforto
dor e opressão, provindo da grande quantidade de tempo em que as crianças passam sentadas
nas carteiras, ao serem vigiadas pelo professor:
Venho ressaltar que a escola consequentemente os professores nas salas de aula,
devem buscar uma harmonia entre seus métodos e estratégias de ensino na preocupação de
equilibrar o “estado de estudante” e o “estado de esquina de rua”, equilibrar as ânsias dos
alunos com o que nós professores queremos transmitir relacionados aos conhecimentos das
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disciplinas e informações sistematizadas. Deixar o ambiente da sala de aula mais lúdico,
autônomo, propiciando a fala dos alunos, novas ideias, movimento de interação e
comunicação. Uma sala de aula onde o conhecimento caminha livremente. O estado de
“esquina de rua” é muito animado, alegre e preferido pelos estudantes.
É correto afirmar que há momentos dentro da sala de aula em que os alunos rompem
as convenções pré-estabelecidas e se expressam como se fossem donos do seu próprio tempo
naquele cenário.
Metodologia
Tendo em vista o foco de estudo ser no ambiente educacional e abranger uma pesquisa
de foro sócio-pedagógico, a investigação foi realizada através da abordagem qualitativa, com
aspectos do tipo etnográfica, onde nos foi possível coletar os dados em forma de palavras e de
imagens, detalhando as situações observadas como gestos, conversas, comportamentos e,
detalhes vividos na sala de aula. Além da observação participante, outros instrumentos foram
fundamentais para a análise dos dados juntamente com as descrições de campo, entre eles
fotos e entrevista semi-estruturada com as professoras e alunos das duas escolas.
Participaram deste estudo quarenta e cinco crianças matriculadas no primeiro ano do
Ensino Fundamental, todos com seis anos. Os sujeitos foram escolhidos entre dois espaços de
pesquisa, uma escola da rede particular e outra da rede municipal de ensino da cidade de
Sinop no Estado de Mato Grosso.
Discussão dos dados: escola, para que te quero?
Pretende-se discutir as intenções de se frequentar a instituição escolar, os conflitos
existentes entre a visão dos pais, dos alunos-crianças e das professoras. Pretende-se mostrar o
que a escola representa para tais sujeitos, e o que dizem os autores.
Sabe-se que a escola é o local que naturalmente há um grande encontro de culturas
diferenciadas que culminam muitas vezes em uma mesma sala de aula, e cabe ao professor e
equipe escolar trabalhar para respeitar a diversidade cultural ao invés de homogeneizar, ou
padronizar este encontro. O trabalho do professor é o de socializar questões sociais, políticas,
psicológicas ou ideológicas trazidas pelas crianças. Em uma “sala de aula tudo envolve, tudo
reúne, tudo implica” (ARAÚJO, 1988 apud MORAIS, p. 43), é preciso assim que a sala de
11098
aula seja compreendida como um processo dinâmico, em constante mudanças, que receba a
criança como parte da cultura e produtora da cultura lúdica.
A escola e a sala de aula é o lócus privilegiado onde se desenvolve a escolaridade. Ao
transitar por ela o aluno, quando tem acesso à instrução e ao conhecimento sistematizado e
organizado em forma das disciplinas ― é o espaço da educação formal da sociedade. Na sala
de aula não tem espaço para a entrada de coisas que não sejam “sérias”, é vista como soberana
nas questões do saber, o que eu discordo, penso a sala de aula como uma via de mão dupla,
onde deva haver uma cumplicidade entre educando e educador que buscam simultaneamente
construir o conhecimento e oportunizar a aprendizagem partindo da visão do aluno, da nossa
criança, compreendendo a escola pelo olhar da infância. Concordo com Novaski (2005),
quando ele diz que educar é levar o indivíduo de um lugar ao outro, é dar dinamismo no
processo, é transformar comportamentos e atitudes.
Ouvindo os pais nas entrevistas, é possível analisar quais as exigências que fazem de
uma escola, quais as competências necessárias são atribuídas por eles a uma escola. Vale
salientar que os pais entrevistados fazem parte dos sujeitos da rede particular de ensino.
Pai 1: “A escola serve para orientar e ensinar meus filhos, além da
alfabetização, a formação do caráter da criança.Busco uma estrutura
adequada para a idade do meu filho, com bons materiais didáticos e
professores qualificados”.
Pai 2: “De formar a criança para ser um indivíduo com condições
futuras de bons empregos. Bons materiais didáticos e bons
professores”.
Pai 3: “Quero que a escola ajude a orientar os alunos e nós pais na
difícil arte de formar indivíduos mais íntegros, no sentido de aprender
a conviver em sociedade”.
Pai 4: “A função da escola é dar aos alunos oportunidades de
desenvolvimento do processo intelectual e despertar o senso crítico e
a opinião própria”.
Confesso que não me assustei ao transcrever as respostas dos pais dos alunos,
referentes ao que buscam na escola dos seus filhos, “nós professores sentimos na pele e cada
vez mais a responsabilidade que a escola pegou para si”. Ficam evidentes, na voz dos pais dos
alunos que não se contentam somente em atribuir funções de aprendizagem a escola, como
11099
também em solicitar ajuda ao que lhes cabe como função, como por exemplo, orientação a
respeito de drogas.
Outro aspecto bastante recorrente na fala dos pais, diz respeito ao desejo dos filhos
serem bem sucedidos. Questionei o que eles entendem por “ser bem sucedidos”, e mais uma
vez não me surpreendi com a resposta. “Ser bem sucedido” é sinônimo de ter uma profissão
que lhes atribua uma condição de vida financeira satisfatória, enfim que a escola prepare sim
as crianças para o mercado de trabalho, numa visão capitalista, competitiva exigida pela
sociedade. Infelizmente segundo Maturana e Verden-Zoller, nossa cultura ocidental moderna,
Desdenhou o brincar como uma característica fundamental generativa na vida humana
integral. Talvez ela faça ainda mais: negue o brincar como aspecto central da vida humana,
mediante sua ênfase na competição, no sucesso e na instrumentalização de todos os atos e
relações. (2004, p. 245)
Concordo com os autores quando adiantam que para recuperar uma melhor
convivência na sociedade de forma geral ― crime, opressão ― devemos devolver ao brincar
o seu papel central na vida humana. Para Maturana e Verden-Zoller, para que isso aconteça
teremos que aprender a viver novamente nesta atmosfera.
Muitos pais reconhecem o fato de que as crianças brincam, mas hesitam em
compactuar que é essa maneira pela qual seus filhos aprendem. Isso é um reflexo do que os
pais pensam verdadeiramente sobre o brincar, todavia, encaram a brincadeira como perda de
tempo, consequentemente não verão importância na mesma ao ser adotada na escola como
forma de construção do conhecimento. Quando retrato que o brincar é essencial para o
desenvolvimento humano, não quero dizer que é imediato e que a criança vai aprender a ler e
escrever diretamente com a brincadeira. Quero explicitar que brincar, favorece habilidades de
manipulação, descobertas, capacidade de resolução de problemáticas durante um jogo,
raciocínio, relações interpessoais, enfim abre caminhos para que aprender a ler e escrever, a
criança estabelece conceitos, constroem relações, expressam sentimentos e através das ações
motoras tomam consciência de seu corpo e do meio em que habita.
Será que a escola atende a todas as exigências sociais? Quero dizer, será que a escola
realmente ensina a ler e a escrever? Afinal, qual é a função da escola?
No olhar e nas vozes das crianças a escola serve sim para aprender a ler e a escrever,
além de ensinar a pensar, a não ficar burro, veja nos trechos abaixo citados.
11100
AL 1- P-M: “Escola é pra ficar inteligente, senão fica burro e tem que capinar
mato, se ficar em casa, aprende um pouco, só a brincar (em casa pode brincar).
Mas o que mais gosto de fazer é ir na areia e na quadra, jogar futebol”.
AL2 - P- F: “Pra aprender, estudar, ler, escrever. E o que eu mais gosto de fazer
lá, é brincar no recreio e na educação física, pular corda”
AL3 P-F: “Pra aprender, ler escrever fazer continhas. Eu gosto de ir na escola,
porque tem dias que tem piscina e parque”.
AL4-M-F: “Para aprender a ler e escrever. Olha, a escola deixa a gente
inteligente. A escola parece um computador, que entre na nossa cabeça e nunca
mais sai, a escola é legal a gente conversa com as amigas, dança na hora do
recreio”.
Percebe-se que as crianças sabem da função da escola, criada e construída pelo adulto,
na visão do adulto e tal conceito já foi associado pela criança. Mas é preciso perceber que em
nas falas, ficam subtendido que a escola é para aprender a ler e escrever, mas o que nós
gostamos nela é ir à quadra, brincar na areia, jogar futebol, pular corda... Estudar é preciso, é
atribuído como fundamental para que o ser humano sobreviva no mundo capitalista, mas
brincar é essencial no olhar da criança.
Faz-se imprescindível, que o professor conheça seu aluno na essência, não somente
identificando as fases em que a criança se encontra, mas também descobrindo como e do que
os alunos brincam e gostam de brincar, considerando que a criança
É um sujeito histórico e social, capaz de expressar idéias, sentimentos e de produzir
cultura [...] Se considerarmos que a criança é protagonista do seu processo de
socialização nos espaços culturais em que vive e que produz cultura, precisamos
pensar numa concepção de escola que atenda às especificidades deste sujeito.3.
Percebendo a criança como sujeito cultural, é possível conceber uma escola muito
mais voltada para atender as necessidades da infância.
Quero salientar que na visão das duas professoras há uma grande diferença do que
pensam a respeito da utilização da ludicidade, da brincadeira e do movimento em sala de aula,
primeiro devido a própria personalidade diferenciada de cada uma delas, uma mais alegre,
lúdica, brincalhona e muito carinhosa com as crianças pequenas, a outra, da escola municipal,
mais séria, reservada, teve uma formação acadêmica e pessoal mais tradicional, não deixa de
3
GARANHANI, Marynelma Camargo e NADOLNY, Lorena de Fatima. Cultura e escola & movimento e
linguagem na educação de crianças pequenas.
11101
ser carinhosa com os alunos, porém nunca a vi em uma situação mais próxima, nem do tipo,
segurar na mão dos alunos para escrever, ou sentar-se no chão com as crianças.
PROF-P: “Brincar é ótimo, maravilhoso! Principalmente nas atividades de
matemática, eu uso as crianças para fazer a contagem, diminuição, separar grupo,
adição, pego o jogo do corpo para fazer isso, e sempre falo “vocês lembram aquele
dia que nós brincamos de tal jogo... então vamos fazer agora no caderno”. Eles
buscam na memória e lembram, e é bem legal isso ai, eu gosto muito. É proveitoso e
tem bons resultados, mas na cabeça das crianças elas estão apenas brincando. Eu
faço assim, se a atividade já está no material eu já sei que tenho que fazer mesmo,
mas quando não está, eu invento, imagino um jogo, algo que eu possa aproveitar e
levá-los lá fora... Dificilmente não dá certo... Sempre dá certo, e eles gostam”.
PROF-M: “Acho que as crianças podem sim aprender brincando, você dá um
joguinho pra eles pensando no aprendizado, mas pra eles, é brinquedo, é brincar. Eu
gostaria que tivesse na minha sala mais brinquedo, pra eu aproveitar, é igual livro,
aqui não tem, eu tenho que pegar livro de uma sala, de outra, e eu tenho que me
virar do jeito que dá, até que os professores oferecem (de outras salas), mas é
complicado, porque eles não gostam de emprestar. Eu acho que toda vez, toda vez,
fica muito rotineiro trabalhar a brincadeira, não sei, sempre, sempre, eles também
não se interessam tanto, então eu trabalho, duas vezes por semana, pra não enjoar,
senão acaba banalizando a brincadeira e não motiva ninguém”.
Entende-se assim que enquanto uma professora da rede particular de ensino adota e é
totalmente favorável aos momentos lúdicos e corpóreos em sua prática pedagógica, a outra
pensa a brincadeira no aspecto da motivação e encara a ludicidade rotineira como entediante
por parte dos alunos, se é que é possível entediar-se com algo que é prazeroso, alegre,
divertido. Vejo maior possibilidade de entediar-se com uma cena mostrada nesta última foto,
do que uma cena onde a expressão corporal é evidenciada.
Considerações finais
O que se constata nas escolas investigadas, independentemente se particular ou
municipal, as ações do sistema como um todo, são voltadas para a preparação do aluno para o
mercado de trabalho, pois os rituais estabelecidos nas instituições são igualados aos ritos
criados nas empresas ou locais de trabalho, com hora para entrar, fazer oração, abrir o
caderno, lanchar, conversar com os colegas, principalmente horários determinados para
brincar, e sair da escola.
Retratando um pouco mais a brincadeira, na escola ela não aparece como um aspecto a
ser levado em consideração, pois em favor da leitura, da escrita e do cálculo, a ludicidade é
deixada para um segundo plano, isto é, “quando sobra tempo”. As crianças brincam quando é
11102
permitido pelas professoras, porém aproveitam alguns momentos como corrigir caderno,
passar conteúdo no quadro e atender a porta para saírem dos lugares, arremessarem objetos, e
viverem personagens a partir de suas fantasias.
As crianças mostraram indícios da necessidade de se movimentar e se expressar
corporalmente, mas, as escolas não adotam a ludicidade e o movimento em seu planejamento
efetivo, como fonte metodológica ou estratégia de ensino em sua sala de aula, somente nas
aulas de educação física estes corpos são trabalhados, pois se considera pela escola que tudo
que é movimento não cabe em sala de aula e sim nas quadras, e que a partir do momento em
que conhecemos melhor as áreas psicomotoras podemos aperfeiçoar as atividades para que a
criança possa adquirir habilidades e capacidades, cujas lhes trarão benefícios, tanto para sua
escolarização como para sua vida social, afirmando assim que as aulas de educação física são
também colaboradoras na aquisição do aprendizado escolar.
REFERÊNCIAS
BRASIL.
Ministério
da
Educação
e
Cultura.
Disponível
<http://www.portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/Ensfund/ensifund9anobasefinal.pdf>.
Acesso em: jun. 2007.
em:
BROUGÈRE, Gilles. Brinquedo e Cultura. Questões da Nossa Época. 5ª ed. São Paulo:
Cortez, 2004.
______. Brinquedos e Companhia. São Paulo: Cortez, 2004.
CORTELLA, Mario Sergio. A escola e o conhecimento: fundamentos epistemológicos e
políticos. 13ª edição. São Paulo. Editora Cortez, 2009.
FRIEDMANN, A. O universo simbólico da criança: olhares sensíveis para a infância.
Petrópolis, RJ: Vozes, 2005.
GARANHANI, Marynelma Camargo. Concepções e práticas pedagógicas de educadoras
de pequena infância: os saberes sobre o movimento corporal da criança. 2004. Tese
(Doutorado em Psicologia da Educação) Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São
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