Maria Lourdilene Vieira Barbosa
O PROCESSAMENTO DA INFORMAÇÃO NA WEBNOTÍCIA
Belo Horizonte
Faculdade de Letras da UFMG
2015
Maria Lourdilene Vieira Barbosa
O PROCESSAMENTO DA INFORMAÇÃO NA WEBNOTÍCIA
Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação
em Estudos Linguísticos da Faculdade de Letras
da Universidade Federal de Minas Gerais, como
requisito parcial para obtenção do título de
Doutora em Linguística do Texto e do Discurso.
Área de concentração: Linguística do Texto e do
Discurso
Linha de pesquisa: Textualidade e Textualização
em Língua Portuguesa
Orientadora: Prof.ª Dr.ª Regina Lúcia Péret
Dell’Isola
Coorientador: Prof. Dr. Francisco Alves Filho
Belo Horizonte
Faculdade de Letras da UFMG
2015
À memória do Seu Didico, meu pai.
AGRADECIMENTOS
À força maior que nos mantém vivos e que nos guia da melhor forma pelos caminhos que
escolhemos. Ao “Deus te proteja” ao final de cada telefonema [quase diário] da minha mãe,
Dona Antonia. À memória viva e motivadora do meu pai, Seu Didico. Ao orgulho dos meus
irmãos, Adauto, Toinha, Margarida, Nonato, Lorina, Lourdes, Adécio e Neto, da futura irmã
Doutora deles. Às formas simples e atualizadas de dizer “eu te amo” do meu querido Emanoel
Barbosa. Ao sentimento de “quero ser igual a você quando eu crescer” dos meus sobrinhos. À
coragem incentivadora do meu cunhado Naldo. À gentileza da Prof.ª Regina Dell’Isola, em
aceitar me orientar mesmo a distância. À amizade valiosa do Prof. Chico Filho, coorientador
deste trabalho. À leitura atenciosa do texto que levei para a Qualificação feita pela Prof.ª
Beatriz Décat e pela Prof.ª Janice Marinho. Às discussões quinzenais no Cataphora. À leitura
paciente do meu parceiro Emanoel Barbosa, que também acompanhou todo o processo de
preparação e escrita deste trabalho e contribuiu sobremaneira com pequenos e grandes
incentivos todos os dias nos últimos quatro anos. Às palavras carinhosas dos meus alunos. Às
mensagens de motivação dos meus amigos [inclusive os virtuais, no Facebook]. Aos
encontros gastronômicos na casa da Lafi e do Chico. À boa comida acompanhada da
excelente conversa com amigos. Ao tempo disponibilizado pelos jornalistas/repórteres para
contribuir com a minha pesquisa. À concessão de afastamento das atividades docentes, em
2014, pela Universidade Federal do Maranhão...
Agradeço, enfim, a todos os sonhadores que acompanharam este sonho, seja com a palavra
amiga, com o abraço apertado, com o aperto de mão, com a boa gargalhada, com o encontro
feliz no final de semana, com os votos de “boa sorte” ou com a torcida silenciosa e, muitas
vezes, distante. Ah, meus caros, muito certo estava Guimarães Rosa quando escreveu que “a
coisa não está nem na chegada nem na partida, mas na travessia”!
Que Deus permaneça, dia após dia, a iluminar nossos caminhos.
Poema do jornal
O fato ainda não acabou de acontecer
e já a mão nervosa do repórter
o transforma em notícia.
O marido está matando a mulher.
A mulher ensanguentada grita.
Ladrões arrombam o cofre.
A polícia dissolve o meeting.
A pena escreve.
Vem da sala de linotipos a doce música mecânica.
[Carlos Drummond de Andrade]
RESUMO
Nesta tese, estabelecemos como objetivo geral de pesquisa analisar o processamento da
informação na webnotícia, em casos cuja informação é oriunda de um texto-fonte principal e
que, portanto, exemplificam o processo de retextualização. Para isso, baseamo-nos em duas
vertentes teóricas principais. Na perspectiva textual, acerca do processo de Retextualização,
seguimos Marcuschi (2000 [2010]), Dell’Isola (2007) e Matêncio (2002; 2003), e
consideramos ainda os pressupostos de Van Dijk (1990 [1988]) e Gomes (1995), sobre o
processamento da informação. Na perspectiva do gênero, fundamentamo-nos na teoria
Sociorretórica, segundo Miller (2009 [1984]), Devitt (2004) e Bazerman (2005), e nos termos
de Swales (1990), Askehave & Swales (2009) e Bhatia (2009). O corpus de análise foi
organizado seguindo critérios de ordem qualitativa, com 21 exemplares do gênero notícia
publicados em portais jornalísticos e os seus textos-fonte principais. Quanto ao processo de
retextualização, foram analisadas as estratégias de eliminação, acréscimo, substituição e
reordenação, na webnotícia, e quanto ao funcionamento do gênero, consideramos a fusão
entre forma e substância, a situação retórica recorrente, a ação social e o propósito
comunicativo. Nesta etapa, fizemos ainda a análise do conjunto de informações obtidas
através de respostas de jornalistas, usuários experientes da webnotícia, ao questionário por
nós elaborado. Os principais resultados mostraram que as estratégias de retextualização
utilizadas pelo retor para construção da webnotícia têm em vista os condicionamentos e
especificidades do gênero, o que termina por direcionar as estratégias utilizadas para uma
transformação, que resulta numa adaptação da informação do texto-fonte à webnotícia. Essa
adaptação define o processamento da informação na construção da webnotícia e pode ser
analisada no âmbito do gênero, uma vez que acontece em função das características formais e
substantivas deste. A utilização do texto-fonte na webnotícia funciona, dentre outros, para
imprimir veridicidade ao que é noticiado, pois pode ser utilizado como parte ou como a
própria notícia. Porém, os critérios de noticiabilidade estão atrelados à necessidade de
audiência, o que contribui para que a escolha do que tenha mais ou menos relevância para ser
divulgado através de webnotícias esteja mais relacionado à possibilidade de atrair a atenção
dos internautas do que à importância da informação para a sociedade.
PALAVRAS-CHAVE: Webnotícia.
Processamento da informação.
Texto-fonte.
Retextualização.
Sociorretórica.
ABSTRACT
In this thesis, we aim as general objective of research at examining the information processing
in web news, in cases where the information comes from one main source text and thus
exemplify the process of retextualization. For this, we are based on two main theoretical
strands. In textual perspective, about the process of retextualization, we followed Marcuschi
(2000 [2010]), Dell'Isola (2007) and Matêncio (2002; 2003), and still consider the
assumptions of Van Dijk (1990 [1988]) and Gomes (1995), on the processing of information.
From the perspective of genres, we are based on the socio-rhetorical theory according to
Miller (2009 [1984]), Devitt (2004) and Bazerman (2005), and in terms of Swales (1990),
Askehave & Swales (2009) and Bhatia (2009). The analysis corpus was organized according
to criteria of qualitative nature, with 21 examples of the news genre published in journalistic
portals and their main source texts. Regarding to the retextualization process, strategies for
elimination, addition, substitution and reordering in web news were analyzed, and regarding
to the functioning of the genre, we consider the fusion of form and substance, the recurring
rhetoric situation, the social action and the communicative purpose. At this stage, we still did
the analysis of the set of information obtained from responses from journalists, experienced
web news users, to the questionnaire developed by us. The main results showed that the
strategies used by retextualization rhetor for construction of web news have in mind the
constraints and specificities of the genre, which ends by driving the strategies used for
processing, which results in an adaptation of the text information source for web news. This
adjustment sets the processing of information in the construction of web news and can be
examined in the genre, once it happens according to the formal and substantive features of it.
The use of the source text in web news works, among others, to print truthfulness to what is
reported, once it can be used as part or as the news itself. However, the criteria for
newsworthiness are linked to the need for a hearing, which contributes to the choice of having
more or less relevant to be publicized by web news is more related to the possibility to attract
the attention of netizens than the importance of information for society.
KEYWORDS: Web news. Source text. Retextualization. Socio-rhetorical. Information
processing.
RESUMÉ
Dans cette thèse, nous avons fixé comme objectif général de recherche analyser le
déroulement de l’information dans la webnotice, aux cas dont l’information vient d’un textesource principal et qui, donc, exemplifient le procès de retextualisation. Pour cela, nous avons
utilisés deux volets théoriques principales. Dans la perspective textuel, sur le procès de
Retextualisation, nous suivons Marcuschi (2000 [2010]), Dell’Isola (2007), et Matêncio
(2002; 2003) et nous avons considéré encore les présupposés de Van Dijk (1990 [1988]) et
Gomes (1995), sur le déroulement de l’information. Dans la perspective du genre, nous avons
soutenu sous la théorie Socio-rhétorique, selon Miller (2009 [1984]), Devitt (2004) et
Bazerman (2005), et sous les thermes de Swales (1990), Askehave & Swales (2009) et Bhatia
(2009). Le corpus d’analyse a été organisé en suivant les critères d’ordre qualitative, avec 21
exemplaires du genre notice publiés dans les sites journalistiques et leurs textes-source
principaux. Pour le procès de retextualisation, ont été analysées les estratégies d’élimination,
l’ajoute, la substitution et la reordenation, dans la webnotice, et pour le fonctionnement du
genre, nous avons considéré la fusion parmi forme et substance, la situation rhétorique
recourante, l’action sociale et le but communicatif. Dans cette étape, nous avons fait encore
l’analyse de l’ensemble des informations obtenues à travers de réponses chez journalistes,
utilisateurs experts de la webnotice, au questionaire élaboré par nous. Les principaux résultats
ont montré qui les estratégies de retextualisation utilisées par le rhéteur pour la construction
de la webnotice a, en vue, les conditionnements et spécificités du genre, ce que finit par
direcioner les estratégies utilisées pour une transformation, qui résulte dans une adaptation de
l’information du texte-source à webnotice. Cette adaptation défine le déroulement de
l’information dans la construction de la webnotice et peut être analysée dans le contexte du
genre, une fois qui se passe en fonction des caractéristiques formels et substantives de celuici. L’utlisation du texte-source dans la webnotice fonctionne, parmi autres, pour imprimer la
vérité au ce qui est informé, car peut être utilisé comme partie ou comme la notice même.
Cependant, les critères de journalisme sont attachés à la nécessité de l’audience, ce qui
contribue pour que la choix de ce qui ait plus ou moins importance pour être divulgué à
travers de webnotices soit plus relacioné à la possibilité d’appeler l’attention des internautes à
l’importance de l’information pour la société.
MOTS-CLÉS: Webnotice. Texte-source. Retextualisation. Socio-rhétorique. Déroulement de
l’information.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Figura 1: Estrutura hipotética de um esquema informativo ..................................................... 47
Figura 2: Pirâmide invertida ..................................................................................................... 48
Figura 3: Pirâmide deitada com níveis de informação ............................................................. 52
Figura 4: Pirâmide deitada com níveis de leitura ..................................................................... 54
Figura 5: Página inicial de portal jornalístico nacional ............................................................ 64
Figura 6: Esquema do processo de retextualização .................................................................. 87
Figura 7: Sistematização do contexto de utilização de gêneros ............................................. 137
Figura 8: Postagem feita em rede social tomada como fonte principal para webnotícia ....... 186
Figura 9: Processo de retextualização na webnotícia ............................................................. 192
Figura 10: Página de portal jornalístico com notícia publicada com texto-fonte na íntegra
(primeira parte) ....................................................................................................................... 199
Figura 11: Página de portal jornalístico com notícia publicada com texto-fonte na íntegra
(segunda parte) ....................................................................................................................... 200
Figura 12: Exemplo de notícia na configuração original no portal em que foi publicada ..... 242
LISTA DE QUADROS
Quadro 1: Estratégias de processamentos dos textos-fonte, segundo Van Dijk (1990 [1988]) 73
Quadro 2: Possibilidades de retextualização ............................................................................ 90
Quadro 3: Aspectos envolvidos no processo de retextualização .............................................. 96
Quadro 4: Estratégias de Retextualização e desdobramentos destas a partir da análise de
corpus de Gomes (1995) ........................................................................................................ 104
Quadro 5: Corpus geral: notícias e seus respectivos textos-fonte principais ......................... 146
Quadro 6: Trecho de notícia e de texto-fonte: eliminação de informações sem relevância ... 155
Quadro 7: Notícia e depoimento policial: comparação do volume de linguagem.................. 156
Quadro 8: Trecho de notícia e de texto-fonte: eliminação de informações técnicas .............. 160
Quadro 9: Trecho de notícia e de texto-fonte: estratégias de retextualização imbricadas ..... 161
Quadro 10: Trecho de notícia e de texto-fonte: eliminação de informações técnicas de
documento oficial ................................................................................................................... 163
Quadro 11: Trechos de notícias: acréscimos com utilização de figuras de precisão 1 ........... 165
Quadro 12: Trecho de notícia: acréscimos de informações que completam as informações do
texto-fonte............................................................................................................................... 166
Quadro 13: Trechos de notícias: acréscimos com utilização de figuras de precisão 2 ........... 167
Quadro 14: Trechos de notícias e de textos-fonte: acréscimos de avaliações ........................ 168
Quadro 15: Trechos de notícias: acréscimos de informações de outros textos além da fonte
principal .................................................................................................................................. 171
Quadro 16: Trechos de notícias: acréscimos de informações sem a explicitação de fonte .... 172
Quadro 17: Trecho de notícia: substituição de expressão referencial lexical......................... 174
Quadro 18: Trecho de notícia e de texto-fonte: substituição para adaptação ao estilo da notícia
................................................................................................................................................ 176
Quadro 19: Trecho de notícia e de texto-fonte: substituição de termo técnico por expressão
“equivalente” .......................................................................................................................... 178
Quadro 20: Trecho de notícia e de texto-fonte: substituição com ênfase no papel socialmente
valorizado ............................................................................................................................... 179
Quadro 21: Trechos de notícias e de textos-fonte: substituição para adaptação à 3ª pessoa . 180
Quadro 22: Trecho de notícia e de texto-fonte: reordenação de informações ....................... 181
Quadro 23: Trecho de notícia: reordenação e estrutura de relevância da informação 1 ........ 183
Quadro 24: Trecho de notícia: reordenação e estrutura de relevância da informação 2 ........ 184
Quadro 25: Trechos de notícias: estratégia de reordenação no lide ....................................... 185
Quadro 26: Sistematização dos resultados da análise das estratégias de retextualização na
webnotícia .............................................................................................................................. 191
Quadro 27: Notícias diferentes sobre o mesmo evento social e fundamentadas no mesmo
texto-fonte .............................................................................................................................. 196
Quadro 28: Trecho de notícia e de texto-fonte: o processamento de informações ................ 202
Quadro 29: Trecho de notícia e de texto-fonte: adaptação da substância à forma do gênero 205
Quadro 30: Trecho de notícia e de texto-fonte: processamento de informações com eliminação
e substituição 1 ....................................................................................................................... 207
Quadro 31: Trecho de notícia e de texto-fonte: processamento de informações com eliminação
e substituição 2 ....................................................................................................................... 208
Quadro 32: Notícia basicamente constituída por texto-fonte 1.............................................. 210
Quadro 33: Notícia basicamente constituída por texto-fonte 2.............................................. 213
Quadro 34: Exemplo de notícia com reprodução total do texto-fonte ................................... 215
Quadro 35: Exemplo de notícia com reprodução parcial do texto-fonte ................................ 216
Quadro 36: Notícia fundamentada em fontes oficiais ............................................................ 219
Quadro 37: Manchetes das notícias do corpus e gêneros de que seus textos-fonte principais
participam ............................................................................................................................... 222
Quadro 38: Exemplo de notícia e a utilização do gênero como resposta ............................... 230
Quadro 39: Exemplo de notícia com destaque no papel social do sujeito ............................. 233
Quadro 40: Exemplo de notícia com destaque na apresentação do texto-fonte ..................... 237
Quadro 41: Exemplo de notícia e de texto-fonte: as ações diferentes realizadas pelos gêneros
................................................................................................................................................ 245
Quadro 42: Exemplo de notícia com ponto de vista ancorado no ponto de vista do texto-fonte
................................................................................................................................................ 249
Quadro 43: Exemplo de notícia: atendendo à exigência retórica do gênero .......................... 253
Quadro 44: Exemplo de notícia: a realização de uma intenção particular 1 .......................... 256
Quadro 45: Exemplo de notícia: a realização de uma intenção particular 2 .......................... 259
LISTA DE TABELAS
Tabela 1: Relação quantitativa dos gêneros de que participam os textos-fonte das notícias do
corpus ..................................................................................................................................... 221
Tabela 2: Localização espacial do texto-fonte na apresentação da notícia no portal jornalístico
................................................................................................................................................ 226
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ........................................................................................................................ 30
1.
CONSIDERAÇÕES INICIAIS SOBRE A NOTÍCIA JORNALÍSTICA ........................ 36
1.1 Definição(ões) de notícia ................................................................................................ 36
1.2 Considerações sobre a estrutura da notícia impressa e da web ....................................... 42
1.3 O Jornalismo dos portais jornalísticos na internet .......................................................... 56
1.4 A notícia e o processamento dos textos-fonte ................................................................ 65
2.
O PROCESSO DE RETEXTUALIZAÇÃO ..................................................................... 84
2.1 A noção de retextualização ............................................................................................. 84
2.1.1 O legado de Marcuschi para o estudo da retextualização ........................................ 90
2.2 O processo de retextualização como enfoque de pesquisas acadêmicas ........................ 97
3.
O GÊNERO NA PERPECTIVA DA SOCIORRETÓRICA .......................................... 108
3.1 Estudos de gêneros em diferentes tradições ................................................................. 108
3.2 O gênero como ação social ........................................................................................... 111
3.2.1 A classificação do gênero pela ação [retórica] ....................................................... 113
3.2.2 A situação retórica recorrente ................................................................................ 117
3.2.2.1 Gênero e situação [retórica] ............................................................................. 121
3.2.2.2 A questão do suporte ....................................................................................... 125
3.2.3 A [fusão] forma e substância .................................................................................. 127
3.2.4 O propósito comunicativo ou propósito retórico.................................................... 131
4.
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS DA PESQUISA ........................................ 140
4.1 Problematização ........................................................................................................... 140
4.2 Objeto, hipóteses e objetivos ........................................................................................ 142
4.3 Descrição do corpus ..................................................................................................... 144
4.3.1 Coleta dos dados .................................................................................................... 144
4.3.2 O corpus................................................................................................................. 145
4.4 Procedimentos de análise dos dados ............................................................................ 148
5.
RETEXTUALIZAÇÃO
E
PROCESSAMENTO
DA
INFORMAÇÃO
NA
WEBNOTÍCIA ...................................................................................................................... 152
5.1 Estratégias de retextualização na webnotícia ............................................................... 154
5.1.1 Eliminação ............................................................................................................. 154
5.1.2 Acréscimo .............................................................................................................. 164
5.1.3 Substituição............................................................................................................ 174
5.1.4 Reordenação .......................................................................................................... 181
5.2 Processamento da informação na webnotícia e retextualização: sistematização dos
resultados preliminares ....................................................................................................... 188
6.
O PROCESSAMENTO DA INFORMAÇÃO NA WEBNOTÍCIA A PARTIR DE UMA
ANÁLISE SOCIORRETÓRICA DO GÊNERO ................................................................... 194
6.1 A fusão forma e substância na construção da webnotícia ............................................ 195
6.1.1 O processamento da informação e os condicionamentos da forma ....................... 202
6.1.2 A reprodução total ou parcial do texto-fonte ......................................................... 212
6.2 A situação retórica recorrente da webnotícia ............................................................... 227
6.3 A ação social realizada através da webnotícia .............................................................. 244
6.3.1 A ação social [retórica e recorrente] ...................................................................... 244
6.3.2 O propósito comunicativo socialmente compartilhado .......................................... 252
6.4 A webnotícia sob a ótica do usuário experiente............................................................ 263
6.5 Estratégias de retextualização e funcionamento da webnotícia: discussão dos resultados
............................................................................................................................................ 277
CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................. 288
REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 292
APÊNDICE ............................................................................................................................ 300
ANEXOS ................................................................................................................................ 304
INTRODUÇÃO
Uma notícia pode ser construída a partir de um texto1 ou de um conjunto de textos
orais e/ou escritos, visuais, verbo-visuais etc. A fonte representa para esse gênero um fator
preponderante para que o mesmo circule socialmente com credibilidade e idoneidade, haja
vista que o seu funcionamento social está intimamente relacionado à crença de que as notícias
são veiculadoras de fatos, de verdades. Porém, entendemos que mesmo a notícia sendo
comumente caracterizada como um gênero objetivo, essa objetividade está mais ligada às
estratégias linguísticas de apagamento de marcas de subjetividade no texto do que ao
tratamento dado à informação em si.
A notícia produzida para circular na internet é diferente das notícias veiculadas no
rádio, na televisão e no jornal impresso. A identificação dessa notícia, normalmente, está
vinculada ao Jornalismo praticado no meio digital que, dentre outros, é nomeado como
ciberjornalismo, jornalismo online e webjornalismo. Pesquisadores do âmbito do Jornalismo e
da Comunicação Social, como Mielniczuk (2003a), estabelecem diferenças entre esses termos
utilizados para o jornalismo no meio digital, considerando especificidades da prática
jornalística.
Quando pensamos o projeto desta pesquisa, utilizamos, inicialmente, o termo notícia
online, para identificar o tipo específico de notícias que estudaríamos. Todavia, descobrimos,
posteriormente, que tal nomenclatura pode ser relacionada também ao jornalismo online, que,
normalmente, se constitui a partir da reprodução digital do jornal impresso a que se vincula,
de modo que a notícia online pode ser idêntica à notícia impressa do mesmo jornal. Porém,
tínhamos em vista o jornalismo produzido especialmente para a web 2 (ou webjornalismo),
1
Entendemos, segundo Marcuschi (2002, p. 24), texto como “uma entidade concreta realizada materialmente e
corporificada em algum gênero textual” e discurso como “aquilo que um texto produz ao se manifestar em
alguma instância discursiva. Assim, o discurso se realiza nos textos”.
2
Somos conscientes de que os termos internet e web tecnicamente designam objetos distintos. Do ponto de vista
técnico, a internet é uma rede que conecta milhões de computadores pelo mundo, enquanto a web (a World Wide
Web) é uma das ferramentas que dá acesso a esta rede. Porém, neste trabalho, quando nos referimos a web e/ou a
internet temos em vista a mesma coisa: o meio em que circula o nosso objeto de estudo, a webnotícia. Ou seja,
não atentamos para distinções de caráter técnico dos dois termos, porque essas não interferem nos resultados que
alcançamos com nossa pesquisa.
30
mais especificamente as notícias produzidas especialmente para circular na internet. Logo,
com base nas diferenciações de nomenclatura para as práticas jornalísticas, optamos por
utilizar, nesta tese, o termo webnotícia, por entendermos que este rotula melhor o tipo de
notícia que estudamos3.
O webjornalismo e as webnotícias já foram estudados em várias pesquisas de âmbito
acadêmico, mas a maioria dessas pesquisas está voltada para a perspectiva do Jornalismo e da
Comunicação Social. No âmbito dos estudos linguísticos, sempre nos chamou a atenção,
especialmente, os mecanismos linguísticos e discursivos utilizados na produção da
webnotícia, que se apropriam sobremaneira das ferramentas disponíveis na internet tanto para
a construção dos textos como para o atendimento da finalidade destes na sociedade.
Por outro lado, inquietava-nos a relação da notícia (webnotícia) com seus textosfonte principais, haja vista que, em princípio, a notícia informa objetivamente para a
sociedade um fato ou evento de interesse público. De modo que, nos casos de notícia em que
há a utilização de um texto-fonte principal, o conteúdo informativo do texto-fonte é tratado
diferenciadamente em relação ao status que tinha no gênero anterior. No plano
textual/discursivo, temos aí um processo que rearticula linguisticamente informações já
veiculadas.
Todavia, ao atentarmos para o funcionamento sócio-histórico dos gêneros, vemos
que a mudança vai além de uma retextualização, haja vista que essas informações, sendo
veiculadas por gêneros diferentes, são tratadas de forma particular, que é própria do gênero.
Daí, dentre outros, teremos novos propósitos comunicativos, maneiras particulares de
tratamento do tema, intimamente relacionados ao funcionamento histórico e social dos
gêneros. Dessa forma, ainda num primeiro momento, estabelecemos como problema de
pesquisa a seguinte indagação: “o que vira notícia?”.
No desenvolvimento da pesquisa, vimos que, se tínhamos em vista a construção da
notícia, no tocante à transformação de uma fonte em matéria noticiosa, tal pergunta devia ser,
3
Embora tenhamos em vista neste trabalho especificamente a “webnotícia”, que é um tipo de notícia, utilizamos
ainda o termo “notícia”, que também designa e/ou rotula as notícias produzidas especialmente para a internet ou
webnotícias. Nesse sentido, em muitos momentos, referimo-nos a “webnotícia”, utilizando o termo “notícia”.
31
na verdade, outra. Nesse processo de apropriação das informações de um texto-fonte para a
construção da notícia, que atende a propósitos e/ou objetivos específicos, ferramentas
disponíveis no meio digital são incorporadas à produção noticiosa. Passamos então a nos
indagar: “como se constrói uma notícia/webnotícia?”, e vimos que essa pergunta direcionava
a nossa pesquisa para um estudo do processamento da informação na webnotícia. Decorrentes
dessa questão central surgiram outras questões norteadoras: Como se caracteriza o processo
de transformação de uma fonte em webnotícia? Como os padrões textuais e discursivos do
gênero interferem no processo de retextualização do texto-fonte em webnotícia? Qual o papel
do texto-fonte para a produção da webnotícia?
Nesse sentido, consideramos, respectivamente, quatro hipóteses de pesquisa: 1) A
retextualização, na notícia, é um processo que ocorre intimamente relacionado aos
condicionamentos e especificidades do gênero. Logo, a característica da notícia de “trazer
informações novas e relevantes” condiciona os mecanismos linguísticos utilizados pelo
jornalista para divulgar e difundir socialmente a informação como sendo de interesse público.
2) A retextualização está diretamente relacionada aos elementos composicionais da notícia,
como forma e substância. Nesse sentido, as estratégias linguísticas utilizadas colaboram para
o funcionamento social do gênero, havendo tratamento da informação em relação ao textofonte. 3) Na notícia, o texto-fonte pode ser mais que uma fonte, no sentido de que, aparecendo
no portal jornalístico, na mesma página da notícia, ele pode funcionar como parte desta ou,
ainda, como a própria notícia. 4) A presença do texto-fonte na mesma página da internet em
que a notícia é publicada funciona como uma estratégia retórica que dá a ideia de que o
internauta pode ter acesso aos fatos diretamente, imprimindo, assim, credibilidade ao portal
jornalístico. Nesse sentido, ao se apropriar da informação do texto-fonte, o jornalista manipula
essa informação em função de interesses determinados da instituição jornalística a qual está
vinculado, de modo que a informação é divulgada seguindo um parâmetro, próprio da mídia,
de despertar o interesse (chamar a atenção) do interlocutor/internauta.
Logo, organizamos nossa proposta de pesquisa, estabelecendo um objetivo geral,
vinculado à primeira hipótese, que é analisar o processamento da informação na webnotícia,
em casos cuja informação é oriunda de um texto-fonte principal e que, portanto,
exemplificam o processo de retextualização. A partir deste, elencamos três objetivos
32
específicos, que são: 1) examinar condicionamentos e especificidades na construção da
webnotícia a partir do processo de retextualização, analisando as operações de
retextualização utilizadas como estratégias linguísticas dessa construção; 2) caracterizar a
webnotícia do ponto de vista da teoria Sociorretórica, a partir da análise de casos em que o
texto noticioso se constitui fundamentalmente sobre um texto-fonte principal; 3) explicar a
relação entre o processo de retextualização e a webnotícia, examinando as inter-relações
desta com seus textos-fonte.
Optamos por analisar apenas casos em que o conteúdo da webnotícia tem por base
essencialmente um texto escrito, em específico, que participa de outro gênero, e que, por sua
vez, realiza uma ação social de caráter diferenciado da notícia publicada por portais
jornalísticos na internet. Esse recorte de dados permitiu que realizássemos a análise do
processamento da informação do ponto de vista textual/discursivo e genérico de forma
comparativa, examinando como as informações se apresentavam na webnotícia e em seu
texto-fonte principal.
Nossa proposta de pesquisa se fundamentou em um aporte teórico que, a nosso ver,
abarca o processamento da informação na webnotícia no âmbito textual/discursivo e em
relação ao funcionamento do gênero. Na perspectiva textual, fundamentamo-nos na literatura
acerca do processo de Retextualização, em que partimos das considerações de base de
Marcuschi (2000 [2010]), Dell’Isola (2007), Matêncio (2002; 2003), dentre outros autores,
considerando ainda os pressupostos de Van Dijk (1990 [1988]) e Gomes (1995), sobre o
processamento da informação. Entendemos a noção de retextualização nos termos de
Marcuschi como uma transformação, que, no caso específico deste trabalho, resulta numa
adaptação aos padrões formais e substantivos do gênero.
Já na perspectiva do gênero, fundamentamo-nos na teoria Sociorretórica, de base
norte-americana, que parte do posicionamento defendido por Miller (2009 [1984]), e seguido
por outros autores como Devitt (2004) e Bazerman (2005), de que gênero deve ser entendido
como sendo o resultado de uma fusão entre forma e substância, que se fundem para colaborar
com a ação social realizada através dele. Além das noções de forma, substância e ação social,
a situação retórica recorrente, que envolve ainda as noções de tipificação, motivo e exigência,
e a de propósito comunicativo (ou propósito retórico), esta nos termos de Swales (1990),
33
Askehave & Swales (2009) e Bhatia (2009), também são consideradas no âmbito da teoria
Sociorretórica e no contexto desta pesquisa.
Esta tese está desenvolvida em duas partes fundamentais. A primeira é composta por
três capítulos de base teórica, abordando, respectivamente, a notícia jornalística, o processo de
retextualização e a Sociorretórica. A segunda parte é composta por um capítulo em que
detalhamos os procedimentos metodológicos da pesquisa e dois capítulos de análise de dados:
1) examinando as estratégias de retextualização eliminação, acréscimo, substituição e
reordenação na webnotícia; e 2) examinando o funcionamento sociorretórico desse gênero,
em que se analisa a fusão forma e substância, a situação retórica recorrente, a ação social
realizada através do gênero e o propósito comunicativo socialmente compartilhado. Na
análise sociorretórica da webnotícia, levamos em conta ainda o ponto de vista do usuário4
experiente do gênero, jornalistas/repórteres vinculados a portais jornalísticos.
Nesse sentido, temos o Capítulo 1, “Considerações iniciais sobre a notícia
jornalística”, que trata inicialmente de notícia jornalística, do ponto de vista do Jornalismo e
da Comunicação Social e do ponto de vista Linguístico, e se organiza a partir das seções: 1.1,
“Definição(ões) de notícia; 1.2, “Considerações sobre a notícia impressa e da web”; 1.3, “O
jornalismo dos portais jornalísticos da internet”; e 1,4, “A notícia e o processamento dos
textos-fonte”. O Capítulo 2, “O processo de Retextualização”, apresenta a definição e as
características que envolvem tal processo, resgatando considerações da literatura teórica de
base, e está organizado nas seções: 2.1, “A noção de retextualização”, que se desdobra em
2.1.1, “O legado de Marcuschi para o estudo da retextualização”; e 2.2, “O processo de
retextualização como enfoque de pesquisas acadêmicas”. O Capítulo 3, “O gênero na
perspectiva da Sociorretórica”, aborda as noções teóricas que subsidiam essa teoria e
embasam a análise de dados, e se organiza nas seções: 3.1, “Estudos de gêneros em diferentes
tradições”; 3.2, “O gênero como ação social”, que se desdobra em 3.2.1, “A classificação do
gênero pela ação retórica”, 3.2.2, “A situação retórica recorrente”, com as subseções 3.2.2.1,
4
Nesta tese, o termo usuário ou usuário experiente é utilizado por nós a partir da perspectiva Sociorretórica de
análise de gêneros, em que o usuário é aquele que utiliza (produz) determinado gênero para agir socialmente.
Dessa forma, o usuário experiente é quem produz um gênero, por exemplo, em um ambiente profissional,
obtendo sobre o gênero um conhecimento especializado adquirido pela prática.
34
“Gênero e situação [retórica]” e 3.2.2.2, “A questão do suporte”, 3.2.3, “A [fusão] forma e
substância, e 3.2.4, “O propósito comunicativo ou propósito retórico”.
A segunda parte é formada pelo Capítulo 4, “Procedimentos metodológicos da
pesquisa”, que detalha as ações realizadas para a realização do trabalho, e é constituído pelas
seções: 4.1, “Problematização”; 4.2, “Objeto, hipóteses e objetivos”; 4.3, “Descrição do
corpus”, que se desdobra em 4.3.1, “Coleta dos dados” e 4.3.2, “O corpus”; e 4.4,
“Procedimentos de análise dos dados”. O Capítulo 5, “Retextualização e processamento da
informação na webnotícia”, que realiza a primeira etapa de análise de dados, é constituído
pelas seções: 5.1 “Estratégias de retextualização na webnotícia”, que se desdobra em 5.1.1,
“Eliminação”, 5.1.2, “Acréscimo”, 5.1.3, “Substituição”, e 5.1.4, “Reordenação”; e 5.2,
“Processamento da informação na webnotícia e retextualização: discussão dos resultados
preliminares”. Por fim, o Capítulo 6, “O processamento da informação na webnotícia a partir
de uma análise sociorretórica do gênero”, que examina a webnotícia enquanto gênero, está
organizado nas seções: 6.1, “A fusão forma e substância na construção da webnotícia”, que se
desdobra em 6.1.1, “O processamento da informação e os condicionamentos da forma”, e
6.1.2, “A reprodução total ou parcial do texto-fonte”; 6.2, “A situação retórica recorrente da
webnotícia”; 6.3, “A ação social realizada através da webnotícia”, que se desdobra em 6.3.1,
“A ação social [retórica e recorrente]”, e 6.3.2, “O propósito comunicativo socialmente
compartilhado”; 6.4, “A webnotícia sob a ótica do usuário experiente”; e 6.5, “Estratégias de
retextualização e funcionamento da webnotícia: discussão dos resultados”.
35
1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS SOBRE A NOTÍCIA
JORNALÍSTICA
Neste capítulo, apresentamos algumas definições teóricas, considerando o ponto de
vista prescritivo de um manual de redação e estilo, de autores do Jornalismo e da
Comunicação Social, bem como da Linguística, para sistematizarmos o que entendemos,
inicialmente, por notícia. Além de tecermos considerações sobre diferentes definições
teóricas, tratamos ainda dos elementos composicionais e estilísticos que caracterizam esse
gênero do ponto de vista estrutural, a fim de apresentarmos, posteriormente, considerações
sobre a notícia produzida especialmente para a web, que se apresenta como objeto de estudo
desta tese. Para relacionarmos o que consideramos neste capítulo sobre notícia e o que
examinamos mais especificamente sobre esse gênero nesta pesquisa, discutimos, no final do
capítulo, a questão do processamento dos textos-fonte, que é uma prática recorrente no meio
jornalístico e um elemento de análise importante neste trabalho.
1.1 Definição(ões) de notícia
A notícia é um dos gêneros mais comuns da esfera jornalística, sendo muitas vezes
interpretada como detentora do discurso jornalístico como um todo (SOUSA, 2004).
Considerando os meios de circulação dos textos jornalísticos, bem como a importância social
dada a estes, podemos também ver a notícia como um dos gêneros mais comuns da sociedade.
Deparamo-nos em diversos momentos do dia a dia com notícias em diferentes suportes de
informação de massa, bastante comuns e de fácil acesso à maioria da população, como é o
caso das notícias veiculadas por meio impresso, como em jornais ou revistas, por meio
eletrônico, como na TV ou no rádio, ou ainda por meio digital, como as notícias divulgadas
nos, cada vez mais numerosos, portais jornalísticos.
Nesse sentido, aparentemente, lidamos com um objeto de análise tão diverso quanto
são os meios de comunicação em que ele circula, haja vista ainda que existem diferenças
notórias entre os textos rotulados com o nome de notícia, se consideramos, por exemplo, a
36
página ou a seção do veículo de comunicação em que ele se encontra. Este aspecto determina
ainda vários fatores, como os possíveis temas a serem tratados na notícia, se político, ou
esportivo, ou policial, ou de coluna social etc., que já direciona a notícia, por exemplo, a um
público específico.
O Manual de Redação da Folha de São Paulo (1992) define notícia como um texto
que faz um registro puro dos fatos, sem a expressão de opinião. Nessa definição, a exatidão é
apresentada como o elemento-chave da notícia, embora o manual reconheça que vários fatos
descritos com exatidão possam ser justapostos tendenciosamente, bem como admita que a
supressão ou a inserção de informações no texto possam alterar o significado da notícia.
Na definição de lide, parte constituinte do texto noticioso, o referido manual o
apresenta a partir do sentido literal do vocábulo, que consiste numa forma aportuguesada do
vocábulo inglês “lead”, que significa conduzir, liderar. Quanto à caracterização funcional,
esse é o termo utilizado no jornalismo para resumir a função do primeiro parágrafo, que tem a
dupla missão de introduzir e prender a atenção do leitor no texto. Segundo o Manual de
Redação da Folha de São Paulo (1992), há dois tipos básicos de lide. O primeiro é o do tipo
noticioso, e responde às questões consideradas como principais em torno de um fato: o quê,
quem, quando, como, onde e por quê. O segundo é o não-factual, e, portanto, lança mão de
outros artifícios para atingir a função de prender a atenção do leitor.
Do ponto de vista discursivo, a definição de notícia é ambígua (VAN DIJK, 1990
[1988]). Temos, por um lado, uma definição comum geral que concebe notícia como
“informação nova”, incluindo até mesmo informações cotidianas encaradas como novidades,
como quando damos informações sobre algo ou alguém para outra pessoa. Por outro lado,
existem duas acepções, uma relacionada aos meios de comunicação de massa, entendida
como os informes, veiculados no rádio, na TV ou no jornal impresso, e outra que se confunde
com o próprio veículo de informação, como programas de rádio ou TV que contêm
informações jornalísticas.
Portanto, da forma que é entendida por Van Dijk (1990 [1988]), a noção de notícia
engloba, inicialmente, três situações distintas:
1. informação nova e cotidiana sobre pessoas, objetos, eventos etc.;
37
2. programas de televisão ou de rádio com informações jornalísticas;
3. informes jornalísticos, a partir de textos divulgados no rádio, na televisão ou no
jornal impresso, em que são veiculadas informações novas sobre eventos recentes.
A apresentação de acepções mais amplas para notícia serve como um esclarecimento
inicial para o leitor de que a noção de notícia adotada no estudo de Van Dijk (1990 [1988]),
embora se assemelhe a essa definição mais geral, é diferente. Nesse sentido, o autor esclarece
que a notícia da qual trata em seu estudo é aquela apontada no terceiro item, em que é
entendida como informação recente veiculada pelos meios jornalísticos, e rotulada, desde
então, como o “discurso jornalístico” ou “discurso noticioso”5.
Sousa (2004), que é um autor da área de Jornalismo e de Comunicação Social, define
notícia ao mesmo tempo em que propõe uma “teoria do jornalismo” para o seu estudo,
partindo do pressuposto de que as notícias jornalísticas existem e produzem efeitos. Assim, a
“teoria do jornalismo”, segundo o autor, deve centrar-se no produto jornalístico, que é a
notícia jornalística, “explicando como surge, como se difunde e quais os efeitos que gera” (p.
03).
De um modo geral, a teoria do jornalismo consubstancializa-se como uma teoria da
notícia, buscando responder a duas questões centrais: Por que é que as notícias são como são e
por que é que temos as notícias que temos? E quais os efeitos que as notícias geram? Para
Sousa (2004), a notícia é o resultado pretendido do processo jornalístico de produção de
informação, e por isso o autor entende que ela seja “o fenômeno que deve ser explicado e
previsto pela teoria do jornalismo e, portanto, qualquer teoria do jornalismo deve esforçar-se
por delimitar o conceito de notícia” (p. 04).
5
Da forma como é entendida em Van Dijk, a noção de “notícia”, ou ainda “discurso noticioso”, não corresponde
exatamente ao que entendemos em nosso trabalho por gênero notícia. O que é analisado pelo autor em seu estudo
é o “discurso noticioso”, sobretudo aqueles divulgados por meio de textos em jornais impressos, porque a
proposta é a de se fazer um estudo crítico do discurso [jornalístico]. Porém, embora não haja uma
correspondência entre “discurso noticioso” e “gênero notícia”, ainda que a análise de gêneros envolva o discurso
e o discurso até certo ponto analise o gênero, o texto (que participa do gênero notícia) é o material empírico
analisado em ambas as pesquisas. Em todo caso, as definições, metodologias e resultados de Van Dijk (1990
[1988]) auxiliaram sobremaneira no desenvolvimento de nosso trabalho.
38
Depois de apresentar e justificar a teoria do jornalismo proposta por ele, Sousa
(2004) afirma que o conceito de notícia tem duas dimensões, uma tática e outra estratégica.
Segundo o autor:
a dimensão táctica esgota-se na teoria dos géneros jornalísticos. Nessa dimensão,
distingue-se notícia de outros géneros, como a entrevista ou a reportagem. Todavia,
a dimensão estratégica encara a notícia como todo o enunciado jornalístico. Esta
opção é aquela que interessa à teoria do jornalismo enquanto teoria que procura
explicar as formas e os conteúdos do produto jornalístico. (p. 04)
Na concepção de Sousa, a dimensão tática da notícia se esgota na teoria dos gêneros,
pelo fato de esta distinguir a notícia de outros gêneros do âmbito jornalístico, ao passo que a
dimensão estratégica vê a notícia como todo o enunciado jornalístico, entendendo-o como
produto de formas e conteúdos, e por isso é a dimensão abordada em sua teoria. Sousa (2004)
define notícia, afirmando que a definição complementa aquela já feita em Sousa (2000; 2002):
pode dizer-se que uma notícia é um artefacto linguístico que representa
determinados aspectos da realidade, resulta de um processo de construção onde
interagem factores de natureza pessoal, social, ideológica, histórica e do meio físico
e tecnológico, é difundida por meios jornalísticos e comporta informação com
sentido compreensível num determinado momento histórico e num determinado
meio sócio-cultural, embora a atribuição última de sentido dependa do consumidor
da notícia. (p. 4)
Nesse sentido, notícia é entendida como artefato linguístico, que é resultado de um
processo de construção pessoal, social, ideológico, histórico, físico, tecnológico, difundido
pelos meios jornalísticos, apresentando informações relacionadas ao momento histórico e
social com sentido parcialmente atribuído pelo leitor. Por esta definição apresentada por
Sousa (2004), percebemos que, mesmo que o autor diferencie o seu estudo de outros que
estejam “limitados” à notícia enquanto gênero, ele a concebe como gênero. Ainda que a sua
análise não esteja voltada especialmente para a caracterização e explicação do funcionamento
do gênero notícia, quando esse autor apresenta a definição de notícia como “um artefato
linguístico que representa determinados aspectos da realidade” (p. 04), sendo o resultado de
uma interação comunicativa, que é situada no tempo, e na qual interagem fatores de ordem
social, ideológica, histórica etc., ele define e caracteriza a notícia enquanto gênero.
Sousa (2004) afirma que a notícia se esgota no seu consumo, pelo fato de ser nesse
momento que produz efeitos e passa a fazer parte dos referentes da realidade, de modo que “a
39
construção de sentido para uma notícia depende da interação perceptiva, cognoscitiva e até
afetiva que os sujeitos com ela estabelecem” (p. 6). Assim, o autor apresenta dois resultados,
que, segundo ele, são alcançados pelas pesquisas realizadas no campo dos estudos
jornalísticos:
(1) a notícia jornalística é o produto da interacção histórica e presente (sincrética)
de forças pessoais, sociais (organizacionais e extra-organizacionais), ideológicas,
culturais, históricas e do meio físico e dos dispositivos tecnológicos que intervêm na
sua produção e através dos quais são difundidas; e (2) que as notícias têm efeitos
cognitivos, afectivos e comportamentais sobre as pessoas e, através delas, sobre as
sociedades, as ideologias, as culturas e as civilizações. (SOUSA, 2004, p. 16, grifos
do autor)
Pelos resultados apresentados, a notícia jornalística é vista tanto como produto da
interação de sujeitos sociais (que, por serem sociais, são situados ideológica, cultural,
histórica, física e tecnologicamente na produção e difusão dessas notícias) como pelos efeitos
produzidos através dela nos sujeitos e na sociedade em geral. Esses efeitos surtem mudanças
nos planos cognitivos, afetivos e comportamentais dos sujeitos, e a partir disso, por meio das
pessoas, afetam a sociedade, as ideologias, as culturas e as civilizações.
Considerando o que apresenta sobre notícia, Sousa (2004, p. 16) propõe uma Teoria
Multifatorial da Notícia, partindo de um pressuposto matemático. Isso, segundo seu ponto de
vista, permite identificar, delimitar, agrupar, sistematizar e sintetizar, a partir de três equações
multifatoriais interligadas num sistema, tanto “(1) os macrovetores estruturantes das notícias,
ou seja, as forças em que se integram todos os microfatores que geram e conformam as
notícias”, como “(2) os macrovetores estruturantes dos efeitos das notícias, ou seja, os macroefeitos, onde se podem integrar todas as modificações observáveis que as notícias provocam
ou podem provocar nas pessoas e através destas nas sociedades e nas civilizações”.
As equações matemáticas, na verdade, têm mais a função de mostrar como a notícia
é o resultado da soma de vários fatores interligados, como aqueles enumerados no parágrafo
anterior. Na aplicação da teoria, o autor faz uma interpretação das notícias com base nesses
fatores, mostrando a partir do texto as relações entre eles. Dessa forma, as equações
matemáticas propostas como elementares nesta teoria ficam apenas no plano teórico e não se
aplicam efetivamente na análise dos textos.
40
Diferentemente de Sousa (2004), que demonstra entender como limitada a
abordagem da notícia como gênero, simplesmente pelo fato de esta fazer a distinção entre o
gênero notícia e os outros gêneros produzidos pelo meio jornalístico, defendemos que a
abordagem da notícia enquanto gênero não é limitada. A abordagem de estudos de gêneros da
qual partimos não está centrada apenas na forma e/ou função dos produtos linguísticos das
práticas retóricas dos sujeitos. Estes, apesar de apresentarem recorrências que nos fazem
entender que participam de um ou de outro gênero, estão relacionados às práticas sociais e,
nesse sentido, são definidos e determinados por elas.
Contudo, pode haver limitação se o gênero for abordado de forma isolada, sem que
seja feita a relação existente e necessária dele com o meio social e com os sujeitos que o
produzem e o colocam em circulação. No capítulo 3, destacamos as definições teóricas de
gênero que embasam este trabalho, em que discutimos sobre o fato de que produzimos
gêneros para agir socialmente, o que nos permite concluir que os gêneros realizam ações
sociais, mas essas ações são definidas e determinadas pelas práticas sociais, que governam a
comunicação.
Na configuração textual da notícia, há todo um trabalho que objetiva impor o efeito
de sentido de verdade. Isso se faz por meio de estratégias que buscam ocultar o ponto de vista
e as avaliações do enunciador jornalista, segundo Cavalcante (2006). Para a autora, os
jornalistas sabem o que deve se tornar notícia, logo, é feita uma seleção em que se avalia o
que parece ser interessante e significativo para determinada sociedade ou grupo social. Assim,
a relevância eleita desde a escolha do fato noticioso acompanha todo o processo de produção,
na elaboração do material da notícia, “a forma que este deve ser apresentado aos leitores, que
elementos precisam ser enfatizados ou esquecidos” (p. 154).
Cavalcante (2006) afirma que o esquema de produção da notícia não segue a ordem
cronológica dos acontecimentos, pelo fato de que a ordem de apresentação das informações
está atrelada à sua importância e/ou relevância, visão compartilhada por outros autores, como
Van Dijk (1985; 1990 [1988], 1992). Logo, o texto inicialmente apresenta o que é entendido
como elementos essenciais da informação, as respostas às perguntas: Quem? O quê? Quando?
Onde? Porque? e Como?, que marcam o início e caracterizam a linguagem jornalística.
41
Porém, mesmo que a forma (ou estrutura composicional) dos gêneros apresente
recorrência, em uns mais e em outros menos, essa recorrência não corresponde a um esquema
fixo, tendo em vista que os gêneros apresentam diferenças quando consideramos, por
exemplo, os lugares sociais em que eles circulam. Nesse sentido, a notícia do jornal impresso
pode apresentar mais recorrentemente o esquema apresentado acima, mas as condições de
produção da notícia no jornal impresso são distintas das condições de produção da notícia na
internet. Discutimos mais detalhadamente sobre a estrutura da notícia (impressa e da web) na
seção 1.2.
1.2 Considerações sobre a estrutura da notícia impressa e da web
Mais de duas décadas após a publicação de La notícia como discurso: comprénsion,
estructura y producción de la información, de Van Dijk (1990 [1988]), a notícia e o
Jornalismo como um todo, passaram por significativas mudanças. Antes, muito comum via
jornal impresso, televisão e rádio, hoje a notícia também é produzida em larga escala na
internet, popularizada por meio dos portais jornalísticos, blogs de jornalistas e até de outras
pessoas adeptas à prática de divulgar informações correntes e recentes na internet.
Mesmo sabendo e vivendo o avanço do Jornalismo nos últimos anos, há muito o que
se considerar, a partir desse clássico estudo de Van Dijk (1990 [1988]). Muito embora a
perspectiva do autor seja mais para o âmbito do discurso, na teorização deste, encontramos
direcionamentos e discussões importantes para o objeto de pesquisa analisado em nossa tese,
a webnotícia. Um dos direcionamentos importantes diz respeito à própria definição de notícia
como “o discurso jornalístico sobre os acontecimentos políticos, sociais ou culturais” (p. 18),
com a diferenciação de outros textos também produzidos no meio jornalístico. Essa definição
está relacionada ao sentido estrito de notícia, excluindo, por exemplo, informações de
cotações de bolsa de valores, de previsões meteorológicas, que consistem basicamente na
atualização diária de informações.
42
Em seu estudo, Van Dijk (1990 [1988]) utiliza a teoria das superestruturas e das
macroestruturas textuais como fundamento teórico-metodológico na realização da análise dos
dados, apontando para a necessidade de uma compreensão pautada no entendimento global
dos discursos6. Nessa proposta, portanto, o discurso é analisado numa perspectiva macro e
micro-estrutural. No sentido macro, conforme o autor, é preciso que haja uma
macrossemântica, em que se considere os sentidos globais do discurso e permita compreender
os sentidos de parágrafos separados e de discursos completos; e uma macrossintaxe, para
caracterizar as formas globais do discurso, por sua vez, denominadas de esquemas ou
superestruturas.
As superestruturas compreendem “modelos de organização totalizadora” (p. 48), que
consistem, segundo Van Dijk, em categorias convencionais já conhecidas (o autor exemplifica
essas categorias como as formas conhecidas de abertura ou fechamento nos discursos, os
scripts nas histórias, os títulos nas notícias etc.). As formas esquemáticas são entendidas como
formas vazias, que são preenchidas com um conteúdo, formando diferentes sentidos:
Essas formas esquemáticas totalizadoras são preenchidas com significados
macroestruturais totais ou temas de um discurso jornalístico. A categoria de título
em um discurso jornalístico, portanto, é apenas uma forma vazia, em que se pode
inserir significados diferentes (podendo ser o assunto ou o resumo do texto
completo). (VAN DIJK, 1990 [1988], p. 487, tradução nossa8)
Numa primeira comparação, poderíamos nos indagar se o que o autor compreende
como modelos de organização, formados por categorias convencionais conhecidas, pode ser
comparado ao que entendemos por estruturas genéricas ou forma composicional dos gêneros,
no sentido mesmo apresentado por Bakhtin (2003 [1979]), que, de alguma forma, também
podem ser entendidas como categorias convencionais já conhecidas por nós e facilmente
6
Van Dijk (1990 [1988]) não utiliza o termo discurso como sinônimo de texto. Para o autor, o discurso vai além
das estruturas textuais, porque, do ponto de vista pragmático, desempenha uma interação, que também é uma
forma de ação. Logo, na Análise do Discurso, o discurso é analisado a partir de uma integração entre o texto e o
contexto “no sentido de que o uso de um discurso em uma situação social é ao mesmo tempo uma ação social”
(p. 52).
7
No original: “Estas formas esquemáticas totalizadoras se llenan con los significados macroestructurales totales
o temas de un discurso. La categoría de titular en un discurso periodístico, por lo tanto, es sólo una forma vacía,
en la cual podemos insertar diferentes significados (mientras que este significado es un tema o resumen del
significado del texto completo)” (VAN DIJK, 1990 [1988], p. 48).
8
São de nossa responsabilidade as traduções de citações feitas de textos cujos originais estão em língua
estrangeira. Por essa razão, a expressão “tradução nossa” aparecerá apenas nessa primeira ocorrência.
43
identificadas nos textos. Porém, não entendemos a forma como sendo vazia, na qual se
inserem significados (ou conteúdos) diferentes (conforme veremos no capítulo 3). A forma, o
significado e a ação (desenvolvida com o discurso) estão inter-relacionados, tanto no
macronível (o todo discursivo) quanto no micronível (as partes do discurso). A forma não
pode ser vazia de significado.
As macroestruturas são caracterizadas pelo autor em termos de proposições, que, em
linhas gerais, são formadas pelos construtos de significados menores independentes da
linguagem e do pensamento. Isso porque, no nível das macroestruturas, são analisadas as
categorias semânticas, e a semântica não está relacionada apenas à significação, mas ainda à
referência, e do ponto de vista referencial, “proposições são também unidades semânticas
menores que podem ser verdadeiras ou falsas” (VAN DIJK, 1990 [1988], p. 54)9.
Já quando trata das superestruturas dos textos, Van Dijk (1990 [1988]) propõe um
esquema que, segundo o autor, comporta as categorias da notícia. Nesse sentido, argumenta
que a macroestrutura do discurso, que corresponde evidentemente ao seu significado total,
“possui algo mais que seus princípios organizativos próprios” (p. 77)10. Logo, é necessária
uma “sintaxe total” que defina as formas possíveis como os assuntos ou temas podem ser
inseridos e ordenados no texto real. Para o autor, essa forma global do discurso pode se
definir nos termos de um esquema baseado em regras “formado por uma série de categorias
hierarquicamente ordenadas, que podem ser específicas para cada tipo de discurso,
convencionadas e, portanto, diferentes em sociedades ou culturas distintas” (VAN DIJK, 1990
[1988], p. 78)11.
As superestruturas dos textos são estruturas globais, definidas por categorias e regras
superestruturais específicas, que mantêm uma necessária relação com outras estruturas do
discurso, estabelecidas pelas macroestruturas semânticas. Nesse sentido, para assinalar a
forma ou o esquema global do texto, Van Dijk a relaciona com o significado global que pode
9
No original: “las proposiciones son también las unidades semánticas más pequeñas que pueden ser verdaderas
o falsas” (VAN DIJK, 1990 [1988], p 54).
10
No original: “posee algo más que sus principios organizativos propios” (VAN DIJK, 1990 [1988], p. 77).
11
No original: “formado por una serie de categorías jerárquicamente ordenadas, que pueden ser específicas para
diferentes tipos de discurso, y convencionalizadas y en consecuencia diferentes en sociedades o culturas
distintas” (VAN DIJK, 1990 [1988], p. 78).
44
preencher essa forma ou esquema: “assim, cada categoria da superestrutura se associa com
uma macroproposição (tema) da macroestrutura semântica” (VAN DIJK, 1990 [1988], p.
80)12.
Antes de apresentar o esquema que propõe para o discurso jornalístico, Van Dijk
(1990 [1988]) argumenta que nem todos os discursos possuem uma forma convencional fixa.
Ademais, a priori, não pode assegurar que a notícia da imprensa mostra ou não um esquema
convencional fixo. Por outro lado, propõe ver se é possível estabelecer um conjunto de
categorias do discurso jornalístico e, a partir daí, formular regras e estratégias para o seu
ordenamento.
Desse esquema, o autor apresenta uma série de categorias:
1. Resumo: essa categoria da notícia é formada pelas partes título e cabeçalho, de
modo que o título precede o cabeçalho, e título e cabeçalho precedem o restante
do texto. Do ponto de vista estrutural, elas expressam os principais sentidos do
discurso noticioso como um todo, funcionando como um resumo inicial, no qual é
inserido um sentido global variável. A efetivação da categoria título, com o
preenchimento dessa forma, na formulação de um conteúdo executado em uma
oração formada por palavras concretas em um tipo de letra específico (por
exemplo, negritada e grande), transforma a categoria de título em um título real.
Este, por sua vez, pode possuir partes distintas, como, além do título principal, um
sobretítulo (por exemplo, impactante, surpreendente ou chocante) e um subtítulo.
Van Dijk (1990 [1988]) ainda afirma que os cabeçalhos podem aparecer
separadamente e em negrito ou podem coincidir com a primeira oração temática
do texto.
2. Episódio: essa categoria da notícia é formada pelos acontecimentos principais no
contexto e seus antecedentes. Para o autor, o contexto frequentemente se encontra
assinalado por indicadores de tempo, como “enquanto”, “durante” ou por
expressões similares indicadoras de simultaneidade. Nesse sentido, o contexto é o
12
No original: “Así, cada categoría de la superestructura se asocia con una macroproposición (tema) de la
macroestructura semântica” (VAN DIJK, 1990 [1988], p. 80).
45
acontecimento principal no texto jornalístico, sendo diferente dos antecedentes,
que têm uma natureza histórica ou estrutural mais compreensiva, ainda que uma
parte dos antecedentes inclua a história dos acontecimentos atuais e seu contexto.
A categoria de eventos prévios, utilizada frequentemente para recordar ao leitor do
que ocorreu previamente, é considerada parte das circunstâncias atuais dentro das
quais também incluímos o contexto, que também tem uma dimensão histórica.
3. Consequências: essa categoria da notícia é determinada pela seriedade das
consequências do valor informativo dos acontecimentos sociais e políticos, haja
vista que um discurso jornalístico pode outorgar coerência causal aos
acontecimentos informativos, mediante a discussão real ou possível das
consequências. Estas, às vezes, são incluídas como mais importantes que os
próprios acontecimentos informativos principais, podendo, inclusive, converter-se
no tema de mais alto nível e até mesmo se refletir nos títulos.
4. Reações verbais: essa categoria da notícia pode ser considerada, segundo Van
Dijk (1990 [1988]), um caso especial de consequência, porque permite aos
jornalistas formular opiniões que não são necessariamente as opiniões dos
jornalistas, mas aparecem como objetivas, porque são formuladas e apresentadas
como sendo de um terceiro, embora saibamos que não é necessário que a seleção
dos porta-vozes e das citações seja objetiva. A categoria das reações verbais
normalmente vem acompanhada dos nomes e dos papéis sociais dos participantes
e por citações diretas ou indiretas de declarações verbais. No texto, geralmente,
essa categoria se situa no final do discurso jornalístico, apesar de as reações
importantes poderem ser mencionadas anteriormente, com as restrições adicionais
do ordenamento por relevância.
5. Comentário: a última categoria da notícia é constituída pelos comentários, as
opiniões e as avaliações do jornalista ou do próprio jornal. Essa última categoria
aparece frequentemente na notícia, embora, às vezes, de uma forma indireta,
muitos produtores de notícias compartilham a visão ideológica de que o fato e a
opinião não devam se mesclar. Van Dijk (1990 [1988]) divide a categoria dos
comentários em duas subcategorias principais: avaliação e expectativas. A
46
primeira caracteriza as opiniões avaliativas sobre os acontecimentos informativos
atuais; a segunda formula consequências políticas ou de outro tipo sobre os
eventos atuais e a situação, podendo, por exemplo, predizer acontecimentos
futuros.
Partindo dessa série de categorias do “discurso noticioso”, Van Dijk (1990 [1988])
apresenta o esquema (Figura 1) com várias categorias, mas considera que em um discurso
minimamente bem construído somente o título e os eventos principais devem
obrigatoriamente aparecer, podendo as demais ser opcionais:
Figura 1: Estrutura hipotética de um esquema informativo
Fonte: Van Dijk (1990 [1988], p. 86).
Da mesma forma que considera que, embora façam parte da notícia, todas essas
categorias não aparecem em todos os discursos jornalísticos, Van Dijk também argumenta que
as mesmas sequências do texto podem desempenhar várias funções simultaneamente. De
modo que é possível chegarmos à conclusão de que os esquemas jornalísticos existem,
embora todas as categorias não sejam sempre utilizadas, embora, segundo o autor, jornalistas
e leitores utilizam tais esquemas ao menos implicitamente na produção e na compreensão da
notícia.
47
Pelo esquema apresentado em Van Dijk (1990 [1988]), em que as informações mais
importantes aparecem primeiro, lembramos do clássico esquema da pirâmide invertida
estabelecido e estudado por muitos estudiosos do Jornalismo e da Comunicação Social. Tal
esquema é apresentado como correspondente à configuração dos elementos que constituem o
lide da notícia, já mencionado por nós, na seção 1.1, em que se seguem a ele as informações
em ordem decrescente de importância:
Figura 2: Pirâmide invertida
Fonte: GRADIM (2000, p. 62)
A denominação pirâmide invertida se deve justamente pela ordem decrescente de
importância das informações. Assim, conforme observa Gradim (2000), a pirâmide invertida
corresponde à técnica de construção da notícia por blocos, onde “cada parágrafo funciona na
notícia como uma entidade logicamente autônoma” (p. 62). Neste sentido, os parágrafos
seriam, supostamente, elaborados sem relação necessária de dependência lógica de sentido
uns com os outros. Segundo a autora, essa configuração dos parágrafos é duplamente
importante, já que, por um lado, o leitor não é obrigado a ler o texto inteiro para se informar
sobre o fato e, na edição da notícia no jornal, os responsáveis têm mais facilidade mediante a
necessidade de possíveis cortes.
Todavia, essa afirmação vai de encontro ao que Van Dijk (1990 [1988]) apresenta
quanto às superestruturas dos textos, que, segundo este autor, são definidas por categorias e
regras superestruturais específicas, mantendo uma necessária relação com outras estruturas do
discurso que são estabelecidas pelas macroestruturas semânticas. Pelas categorias dispostas no
esquema de Van Dijk (1990 [1988]) vemos que a notícia é um todo formado por partes
interconectadas.
48
Explicando a partir de um viés histórico, Canavilhas (2007), com base em
Fontcuberta (1999), mostra que essa estrutura da notícia (com partes independentes umas das
outras) surgiu durante a Guerra da Secessão, nos EUA. Na época, entre 1961 e 1965, o
telégrafo era a grande invenção tecnológica, usado como instrumento que possibilitava aos
jornalistas o envio diário de suas crônicas de guerra. No entanto, segundo o autor, além de o
telégrafo não ser uma tecnologia que proporcionava fiabilidade técnica, os postes que
suportavam os fios eram alvos das tropas da guerra, o que fazia com que o sistema ficasse
muitas vezes inoperante.
Diante disso, para que se assegurasse iguais condições de envio para todos os
jornalistas, foi estabelecida uma regra de funcionamento para que o trabalho dos profissionais
não fosse prejudicado. Assim, “cada jornalista enviaria o primeiro parágrafo do seu texto e,
após uma primeira ronda, iniciava-se uma outra volta para que todos enviassem o segundo
parágrafo do texto” (CANAVILHAS, 2007, p. 06). Por causa dessa regra estabelecida, a
técnica de redação mais utilizada até então foi alterada e, em vez de os acontecimentos serem
apresentados em ordem cronológica, como era mais comum, começaram a ser divulgados a
partir do seu valor noticioso, para que fosse garantida a chegada das informações essenciais às
redações dos jornais.
Segundo Canavilhas (2007), a técnica foi batizada posteriormente como pirâmide
invertida e terminou se tornando uma das mais conhecidas do Jornalismo. No entanto, embora
essa técnica seja caracterizada pela não apresentação, no texto, dos fatos ou acontecimentos
em ordem cronológica, acreditamos que os parágrafos da notícia mantêm uma relação
semântica entre si e, dessa forma, não são interdependentes, porque, juntos, constituem o
mesmo texto, ainda que cada um desses parágrafos apresente uma unidade de sentido.
Apesar de “otimizar” a produção escrita do jornalista, a técnica da pirâmide invertida
é muito criticada no meio jornalístico, pelo fato de transformar o trabalho do jornalista numa
rotina, engessando a estrutura do texto e deixando pouco espaço para a criatividade.
Canavilhas (2007) afirma que, com o jornalismo na web, tal discussão ficou mais acentuada
ao ponto de existirem autores que pregam o uso da pirâmide invertida nas notícias da web e
outros que são a favor da utilização da técnica apenas em notícias de última hora, pois a
49
técnica é “limitadora quando se fala de outros gêneros jornalísticos que podem tirar partido
das potencialidades do hipertexto” (p. 07).
O autor, defensor da segunda visão apresentada acima, considera que a técnica da
pirâmide invertida está ligada a um jornalismo limitado às características do suporte utilizado,
que, no caso do jornalismo impresso, é o papel. Na internet, é possível “a adoção de uma
arquitetura noticiosa aberta e de livre navegação” (p. 07). Diferentemente do papel, em que o
espaço é finito, nas edições online, segundo Canavilhas, o espaço é tendencialmente infinito,
já que os cortes que podem ser feitos são por razões estilísticas e não mais por questão de
espaço: “em lugar de uma notícia fechada entre as quatro margens de uma página, o jornalista
pode oferecer novos horizontes imediatos de leitura através de ligações entre pequenos textos
e outros elementos multimídia organizados em camadas de informação” (p. 07).
Canavilhas (2007) explica que essa proposta não é inovadora e nem é exclusiva do
Jornalismo, já que o hipertexto aparece com notável importância em outras áreas, como a
publicação acadêmica. O autor considera que a publicação na web implica uma nova
arquitetura, com base na proposta de Darnton (1999), que propõe uma estrutura em pirâmide
por meio de seis camadas de informação:
uma primeira com o resumo do assunto; uma segunda com versões alargadas de
alguns dos elementos dominantes, mas organizadas como elementos autônomos; um
terceiro nível de informação com mais documentação de vários tipos sobre o assunto
em análise; um quarto nível de enquadramento, com referências a outras
investigações no campo de investigação; um quinto nível pedagógico, com
propostas para discussão do tema nas aulas; por fim, a sexta e última camada com as
reações dos leitores e suas discussões com o autor. (p. 08)
O modelo da pirâmide em camadas foi pensado inicialmente para a elaboração de
trabalhos acadêmicos, e Canavilhas (2007), a partir de uma pesquisa empírica com leitores de
notícias na web, fez uma adaptação para o Jornalismo. Segundo o autor, existem duas
variáveis na ação de redigir. A primeira é a dimensão, ligada à quantidade de dados, e a
segunda é a estrutura, ligada à arquitetura da notícia. Assim, na manipulação dessas
variáveis, os jornalistas adotam técnicas de redação que se adequam às características do
meio, e terminam por dar mais relevância a uma ou outra variável.
Canavilhas (2007) conclui que “as prioridades do jornalista da imprensa em papel
sejam diferentes das prioridades do web-jornalista” (p. 10). O jornalista da imprensa em papel
50
dá mais importância à dimensão do texto, pois deve recorrer às estratégias que o ajudarão a
encaixar o seu texto no espaço pré-definido, e o web-jornalista dá mais atenção à estrutura da
notícia, tendo em vista que o espaço disponibilizado para ela não é limitado. Considerando
essa suposta diferença de produção da notícia em diferentes meios, o autor conclui que é
possível pensar numa estrutura para a notícia produzida na web: “estruturar uma notícia na
web implica a produção de um guião que permita visualizar a sua arquitetura, nomeadamente
a
organização
hierárquica
dos
elementos
multimídia
e
suas
ligações
internas”
(CANAVILHAS, 2007, p. 11).
Essa estrutura deve levar em conta as notadamente diversas estruturas hipertextuais,
que, segundo Canavilhas (2007), com base em Noci e Salaverria (2003), podem ser lineares,
reticulares ou mistas. As estruturas lineares são as mais simples e os blocos de textos são
ligados por um ou mais eixos, logo, o grau de liberdade de navegação é condicionado, não
podendo o leitor saltar de um eixo para o outro. As estruturas reticulares não possuem eixos
de desenvolvimento pré-definidos, já que se trata de uma rede de textos de navegação livre,
deixando em aberto todas as possibilidades de leitura. As estruturas mistas possuem tanto
níveis do tipo linear como reticulares, onde o leitor não tem o grau de liberdade como no
modelo reticular, mas encontra “pistas de leitura” bem definidas.
Pelos resultados obtidos em sua pesquisa, Canavilhas (2007) afirma que mesmo a
“notícia [tendo] sido construída numa lógica de camadas de informação, os leitores optaram
por seguir determinados assuntos até ao limite da informação disponível, seguindo links
embutidos e saltando de nível de informação” (p. 11-12). Ou seja, o comportamento dos
leitores sugere que há uma mudança de paradigma em relação ao que se verifica na imprensa
escrita e nos textos da web. Logo, para esse autor, a pirâmide invertida parece não ser tão
eficaz nas notícias produzidas na web, como o é no jornalismo impresso, uma vez que a rotina
de leitura dos textos na web é diferente da rotina de leitura dos textos da imprensa escrita. Por
outro lado, essa posição de Canavilhas é passível de críticas, já que, mesmo no jornalismo
impresso, nada garante que todos os leitores leem na sequência que o texto está escrito, numa
leitura linear.
Assim, como na web o leitor supostamente tem mais liberdade de organizar a
sequência de sua leitura e de selecionar e eleger o que é mais importante para ser lido
51
primeiro, a técnica baseada na organização dos fatos a partir do que o jornalista julga como
importante deixaria de ter sentido, segundo Canavilhas (2007), uma vez que o jornalismo está
sendo feito num meio interativo. Esse autor considera que o webjornalismo deve assentar na
quantidade de informação oferecida aos leitores, e não mais na “importância” dos fatos.
Portanto, no webjornalismo, ao invés da pirâmide invertida, que supõe que o topo é mais
importante que a base, numa hierarquização da notícia a partir da importância dada aos fatos
relatados, a proposta de Canavilhas (2007) é que a pirâmide seja mudada de posição,
conforme mostra a Figura 3:
Figura 3: Pirâmide deitada com níveis de informação
Fonte: Canavilhas (2007, p. 14).
52
A estrutura apresentada na Figura 3 é denominada de pirâmide deitada, pelo fato de
as informações da notícia na web, conforme Canavilhas (2007), serem dispostas em níveis,
partindo de um nível com menos informação e seguindo para sucessivos níveis de
informação, cada vez mais aprofundados e variados sobre o tema em questão. O autor explica
que, mesmo claramente definidos diferentes níveis de informação, na webnotícia, os textos
não são organizados em função da importância informativa, mas a partir de “uma tentativa de
assinalar pistas de leitura” (p. 14). Ou seja, na webnotícia, há diferentes entradas possíveis
para o acesso à leitura, sendo que as pistas disponibilizadas permitem várias trajetórias de
leitura.
De acordo com o modelo apresentado na Figura 3, como numa notícia em pirâmide
invertida, o leitor pode não ler o texto completamente e, ainda assim, manter-se informado
dos fatos. O leitor pode ainda, segundo o autor, escolher seguir um dos eixos de leitura ou
navegar livremente dentro da notícia. Assim como apresenta níveis de informação da notícia
da web, Canavilhas (2007) ainda define quatro níveis para a leitura da mesma, conforme
vemos na Figura 4:
53
Figura 4: Pirâmide deitada com níveis de leitura
Fonte: Canavilhas (2007, p. 15).
Canavilhas (2007, p. 15) propõe a pirâmide deitada, formada a partir de quatro níveis
de leitura: 1) unidade base / lide, que responde às perguntas o quê, quando, quem e onde, de
modo que o texto inicial, segundo o autor, pode ser uma notícia de última hora, que pode
evoluir (ou não) para um formato mais elaborado; 2) nível de explicação, que responde ao
“por quê” e ao “como”, completando a informação essencial sobre o acontecimento; 3) nível
de contextualização, onde são oferecidas mais informações, por meio de textos, vídeos, som
ou infografia animada; 4) nível de exploração, ligando a notícia ao arquivo da publicação ou
mesmo a arquivos externos. Por essa Figura 4, vemos que o autor trabalha com possibilidades
fornecidas ao leitor pelos recursos da web, ou seja, nem todas as notícias que circulam na
internet aparecem com esse nível de detalhamento e riqueza de informações. Na web, é
grande o volume de notícias publicadas diariamente, logo, o jornalista pode não dispor sempre
de tempo para elencar tantas possibilidades de leitura com diferentes níveis de
aprofundamento para os seus leitores.
54
Nesse sentido, pode ser precipitada a ideia de que a pirâmide invertida limita as
possibilidades do leitor e perde completamente o sentido na web, haja vista que o jornalismo
praticado na web não foi criado exclusivamente para esse meio. Sabemos que muito do que se
fazia e que ainda é feito no jornalismo impresso, por exemplo, continua sendo feito na
internet. O próprio esquema da pirâmide deitada proposto por Canavilhas (2007), a nosso ver,
tem por base a técnica da pirâmide invertida. Porém, à pirâmide deitada são acrescentados os
recursos do meio (a internet) que dá ao leitor a possibilidade de ampliar ou expandir a
informação da notícia através de hiperlinks sugeridos pelo próprio sujeito produtor da notícia
ou ainda pelo portal jornalístico.
Logo, a ideia de total autonomia dada ao leitor também é passível de críticas, na
medida em que a liberdade que o internauta tem, na leitura das informações jornalísticas na
web, é de certa forma semelhante a que ele tem no jornalismo impresso. Podemos ler apenas
manchetes nas notícias do jornal, ler apenas as notícias às quais temos algum interesse, ler
apenas parte do texto, e, ainda optar por não ler e fechar o jornal, procurando outra fonte de
informação. A internet proporciona que essa escolha aconteça de outra forma, porém, esta não
é radicalmente diferente da que já existia. Acreditamos ainda que essa “possibilidade de
escolha” dada ao internauta é uma ilusão de liberdade, em que o leitor apenas é levado a
pensar que faz seu próprio caminho de leitura na web quando, na verdade, existe uma prévia
organização e escolha de conteúdos que direcionam essa leitura para diferentes caminhos já
pré-definidos, fazendo com que a mesma não seja livre.
Na web, a produção noticiosa foi acrescida de recursos tecnológicos comuns a esse
meio, permitindo que se construíssem notícias com links para outras notícias, para vídeos e/ou
imagens, com recursos de som, movimento etc. Na verdade, a notícia produzida no meio
impresso foi adaptada para a web, e nesse sentido, assim como tem apresentado mudanças,
para se adaptar a esse ambiente, também mantém características fundamentais para a
definição e o entendimento do gênero dentro ou fora da web. O destaque, na manchete, da
informação principal e, no lide, das informações que contextualizam a notícia: o que? Onde?
Quem? Como? Porque?, são exemplos disso.
Mielniczuk (2003b) afirma que é possível que a estrutura da pirâmide invertida se
mantenha na esfera da célula informativa na web, mas considera que:
55
ao navegar por uma narrativa hipertextual jornalística, o usuário faz suas escolhas –
que são viabilizadas pelo paratextos – e vai construir uma trajetória própria de
leitura. O texto não é mais proposto como um produto acabado, são oferecidas
frações e opções. O usuário é quem termina de construir o texto, no sentido de
compô-lo como uma unidade, um conjunto informativo. (p. 169)
A autora parte do princípio de que o leitor é livre e independente, sendo capaz de
construir o seu caminho de leitura. Porém, é preciso considerar que qualquer um dos
caminhos seguidos pelo leitor é previamente configurado pelo jornalista ao construir a notícia.
Nesse sentido, concordamos que ao leitor são dadas mais de uma opção de leitura - e cabe a
este escolher uma dessas opções -, porém, a trajetória de leitura que é construída não é própria
do leitor, uma vez que ele apenas opta por seguir uma das trajetórias disponíveis.
Dessa forma, acreditamos que a técnica da pirâmide invertida não é, de fato,
praticada na produção da webnotícia como se acredita ser ainda comum no Jornalismo
impresso. Por outro lado, essa parece não ter sido (e nem está sendo) substituída por uma
pirâmide deitada (CANAVILHAS, 2007), que mostraria o caminho da produção noticiosa na
web, e também não é o internauta, em se tratando de texto jornalístico, que constrói sozinho
sua trajetória de leitura na web (MIELNICZUK, 2003b). No capítulo 6, desta tese, em que
realizamos a análise sociorretórica da webnotícia, vemos esta como um tipo específico de
notícia, produzido para um meio específico, a internet.
1.3 O Jornalismo dos portais jornalísticos na internet
Hoje, com o jornalismo na web, as notícias são produzidas e atualizadas a todo
instante, pois os limites de espaço e de tempo são diferenciados do jornalismo impresso.
Neste, há a limitação temporal, normalmente com uma edição para cada dia e o número de
textos e de informações, do ponto de vista físico, é limitado ao tamanho e à quantidade de
páginas do jornal, que, além de notícias, traz outros gêneros jornalísticos, como o editorial, o
artigo de opinião etc., e ainda gêneros que não são exclusivos do meio jornalístico, como
propagandas.
56
Na internet, o jornalista tem mais espaço para produção dos textos, que podem,
inclusive, ser atualizados, com correção e inserção de informações. Por outro lado, notícias
passadas podem ser facilmente visualizadas, inclusive, quando se trata de notícias que
informam sobre desdobramentos do mesmo fato ou acontecimento, é possível se fazer uma
retrospectiva, por meio das notícias anteriores, que, comumente, são disponibilizadas através
de links dispostos na mesma página daquela notícia mais recente sobre o fato.
Mielniczuk (2003b) propõe uma nomenclatura para identificar as diferentes etapas de
evolução do jornalismo na internet. A autora denomina de jornalismo de primeira, segunda e
terceira geração as três etapas que compreendem o surgimento e o desenvolvimento de
práticas jornalísticas realizadas na web. Estas não compreendem exatamente etapas que se
sucedem perfeitamente ou que sejam excludentes entre si, haja vista que é possível encontrar
produções feitas no mesmo período, mas que podem ser enquadradas em diferentes gerações.
Segundo Mielniczuk (2003b, p. 31-32), essa classificação está mais relacionada à “trajetória
de um conjunto de experiências, e não à evolução individual dos webjornais”.
Assim, a primeira geração é aquela caracterizada pela reprodução de partes de jornais
impressos que passavam a ocupar espaço na internet. Dessa forma, o que era chamado de
jornal online, na verdade, era a reprodução de matérias do mesmo jornal na sua versão
impressa, de modo que a atualização de informações, assim como no jornal impresso,
normalmente se dava a cada 24 horas.
Já a segunda geração, conforme Mielniczuk (2003b), surge em decorrência do
aperfeiçoamento da estrutura técnica da internet no Brasil, que, por sua vez, já no final da
década de 1990, segue a dinâmica mundial. Nesse momento, começam a surgir as primeiras
experiências de produção jornalística que explora as características oferecidas pela rede, como
a inserção de links, e de e-mail como ferramenta de comunicação entre leitor e jornalista e
entre leitores. Porém, a produção tendia à vinculação com empresas jornalísticas, com
credibilidade e rentabilidade associadas ainda ao jornal impresso.
A terceira geração, também chamada de fase do webjornalismo, já se configura com
a crescente popularização de uso da internet e também com as iniciativas empresariais e
editoriais exclusivamente para a web. Nessa etapa, a produção jornalística passa efetivamente
57
a explorar e a aplicar as potencialidades da internet: recursos multimídia com sons e
animações; recursos de interatividade, como os chats, enquetes, fóruns de discussões; opções
para configuração do produto jornalístico de acordo com o interesse do leitor; e utilização do
hipertexto ao longo da narrativa dos fatos (MIELNICZUK, 2003b).
A terceira geração compreende o momento atual do webjornalismo, que se
caracteriza, segundo Palácios (2002), por cinco características principais, que são: 1) a
multimidialidade/convergência (de diferentes mídias em um mesmo suporte); 2) a
interatividade (que acontece a partir de uma série de processos interativos do leitor do jornal
na web); 3) a hipertextualidade (possibilidade de conectar/interconectar textos através de
links; 4) a customização ou personalização (configuração de produtos jornalísticos de acordo
com os interesses e preferências do leitor); e a memória (o acúmulo de informações na web é
mais viável técnica e economicamente do que em outras mídias). Mielniczuk (2003b)
acrescenta a essas cinco características uma sexta, a instantaneidade ou atualização contínua
(pela rapidez na atualização de informações, que também são recebidas em tempo real pelo
leitor).
Palácios (2002) considera que algumas dessas características do webjornalismo,
como a multimidialidade e a hipertextualidade, não representam aspectos realmente novos,
haja vista que muitos já existiam em outras mídias e, no caso da internet, sua utilização
representa uma continuidade. Porém, a internet, dada as suas condições, potencializa essas
características a partir da sua facilidade de conjugação dos diferentes formatos de mídia,
como imagem, som e texto, por exemplo.
A produção jornalística mais atualizada e mais interativa se popularizou por meio
dos chamados portais jornalísticos, abordados, primeiramente, pela literatura de Cibercultura,
em 1994, por Javier Echeverría, no livro Telépolis. Inicialmente, segundo Barbosa (2002;
2003), nos anos de 1990, nos EUA, temos como precursores dos portais os mecanismos de
busca, com a função de localizar e classificar informações. Barbosa afirma que a mudança na
configuração dos portais ocorreu pela necessidade de atrair um maior número de internautas.
Assim, esses começam a oferecer gratuitamente, através de seus sites, várias categorias,
organizadas a partir de seu conteúdo, abrigando documentos e sites em grupos pré58
configurados: notícias, esportes, previsão do tempo, turismo, cultura, finanças, serviços de
calendário, religião, saúde etc. Para a autora:
o passo seguinte foi a integração de outras funções, como comunidades virtuais e
suas listas de discussão, chats em tempo real, possibilidade de personalização dos
sítios de busca (My Yahoo!, My Excite, etc.), assim como acesso a conteúdos
especializados e comerciais (BARBOSA, 2003, p. 163).
Essa diversificação de informações e funções dos sites, com a inserção das máquinas
de busca, trouxe uma nova concepção para os sites, que passaram a ser chamados de portais.
O formato de portal, seja em um site jornalístico ou não, é definido por Barbosa (2002) como
“publicações desenvolvidas especificamente para o suporte digital” (p. 64), de modo que a
produção de conteúdos, de serviços e de entretenimento está organizada em torno do critério
de proximidade do leitor/internauta, utilizando-se, para isso, os elementos que caracterizam o
jornalismo no ambiente digital.
Barbosa (2003) afirma que a ideia inicial era a de fazer com que o internauta partisse
do portal e construísse, a partir dele, os roteiros de ‘leitura’ que desejasse ou ainda o seu
próprio hipertexto. Conforme a autora, “o modelo de portal passa a ser o adotado pelos
provedores de acesso à internet, constituídos como tal a partir de 1996 com a possibilidade
criada pela privatização da Embratel e pela abertura da legislação de provimento de acesso no
Brasil” (p. 163). Os portais rapidamente foram se diversificando, atrelados a empresas do
setor da informática e da comunicação ou, ainda, com a fusão destas:
eles centraram os respectivos negócios no provimento de acesso e de conteúdos, ou
só de conteúdos, serviços e entretenimento diversificados dando ao internauta
motivo para ele demorar mais tempo nos [...] sítios. Portal, a partir de então, torna-se
um ponto de partida e, preferencialmente, deve ser o lugar de visita e de estada do
internauta toda vez que ele ‘entrar’ na rede (BARBOSA, 2003, p. 164).
Assim, esse formato de portal, que oferece aplicações variadas, pode ser adotado por
empresas de diferentes fins, adequando-se à estratégia particular de presença digital de cada
uma. O jornalismo, que é uma das maiores fontes de geração de audiência e acesso,
transforma os portais em transmissores de grandes conteúdos, sendo cada vez mais evidente o
crescimento e o uso do formato de jornalismo por meio de portais online.
No caso do Brasil, a adoção e consolidação do modelo de portal por parte de
empresas informativas ou de grupos de comunicação tradicionais, que configuram a sua
59
presença digital através de portais, propiciam a diferença de formato para o jornalismo digital,
que antes era produzido na web apenas pelas edições online dos mesmos jornais impressos.
Os portais proporcionaram um novo formato, contribuindo assim com uma nova categoria
para o jornalismo digital, denominado por Barbosa (2003) como jornalismo de portal.
O jornalismo de portal é caracterizado por apresentar “uma dinâmica mais ágil,
principalmente pela consolidação do modelo de notícias em tempo real ou tempo quase real”
(BARBOSA, 2003, p. 169), conhecidas pelo nome de hard news ou breaking news,
assemelhando-se aos “formatos de conteúdos gerados pelos canais de notícias 24 horas das
redes de TV a cabo, como CNN, Globo News, Band News” (p. 169). O jornalismo de portal
consolida o formato de atualização contínua e em fluxo de notícias, já característico do
ambiente digital, e representa de fato uma nova categoria para o jornalismo. Nesse sentido,
contribui para a alteração do formato da notícia, que, segundo a autora, começa a se
apresentar de um modo mais fragmentado. Barbosa (2003, p. 170) ressalta que o jornalismo
de portal ainda se caracteriza por
uma maior utilização de recursos multimídia para a veiculação de conteúdos
diversificados; [por] ser alimentado por variadas fontes de informação, como
agências de notícias, principalmente, e os sítios parceiros agregando conteúdo
específico em determinadas áreas; [e por] trazer uma nova denominação para a
compartimentação das informações, no caso “Canais”.
Vemos que os portais de notícia agregam uma série de “atrativos” para o internauta,
com recursos que vão além da leitura sobre fatos ou acontecimentos recentes, mas também
curiosidades e especificidades que despertam a atenção, e terminam por fazer com que o
internauta passe mais tempo navegando na web, a partir do que é oferecido pelo portal. As
notícias que são publicadas nos portais seguem um procedimento diferente do que acontece
no jornal impresso ou ainda na TV, conforme Barbosa (2003), elas buscam anunciar fatos e
eventos no instante em que ocorrem. Assim, as informações muitas vezes são dadas pouco a
pouco, em formato de “pílulas”, e são complementadas na medida em que são obtidas mais
informações ou mais detalhes.
A publicação imediata da informação, antes da obtenção de mais detalhes, também é
devida à concorrência entre os portais jornalísticos, onde é muito importante informar
primeiro. Os textos são atualizados e complementados, mas, ainda, novas notícias podem ser
60
publicadas como desdobramentos de uma primeira, podendo gerar uma série de notícias sobre
desdobramentos de um mesmo evento, já que o volume de notícias publicadas no portal
também é muito importante na concorrência desses na disputa por internautas.
Nesse sentido, várias notícias sobre um mesmo fato ou acontecimento vão sendo
acumuladas, podendo, no final, gerar uma série de informações, como numa grande narrativa,
e continuarem disponíveis no portal para o leitor. Em um portal jornalístico nacional, como o
G1.com, há uma variedade de notícias sendo publicadas e atualizadas a todo momento.
Mesmo assim, se o leitor quiser pesquisar sobre notícias passadas de um caso específico, pode
fazer uma busca no site, e encontrará todas as informações publicadas sobre o caso no portal
organizadas cronologicamente. Isso exemplifica o que, em outras palavras, considera Palácios
(2003), quando afirma:
da mesma forma que a “quebra dos limites físicos” na web possibilita a utilização de
um espaço praticamente ilimitado para disponibilização de material noticioso, sob os
mais variados formatos (multi)midiáticos, abre-se a possibilidade de
disponibilização online de toda informação anteriormente produzida e armazenada,
através da criação de arquivos digitais, como sistemas sofisticados de indexação e
recuperação da informação. (p. 25)
Surge, de fato, uma grade de informação disponível para o internauta, por a web
disponibilizar um espaço aparentemente “infinito”, para a disponibilização de material
noticioso dos mais diferentes formatos (multi)midiáticos, que é, inclusive, armazenada para
uma possível recuperação de informações. Mas, juntamente com ela, surge o risco de que essa
grande rede de informações seja mais quantitativa do que qualitativa. Hoje, “qualquer evento”
pode virar notícia, haja vista que, na disputa por internautas, os portais precisam se alimentar
de novas informações a todo instante.
Nesse sentido, podemos observar ainda um outro lado da produção de notícias pelos
portais jornalísticos. Barbosa (2003) chama atenção para a questão da fragmentação excessiva
dos textos, devido a essa necessidade de publicar o maior número de notícias. Para dar a
impressão de que muitas notícias são publicadas a todo instante, as matérias chegam a ser
divididas, para parecerem independentes, sendo construídas para dar a impressão de que são
publicadas no momento em que acontecem os fatos, o que nem sempre corresponde à
verdade.
61
É inegável a mudança entre os diferentes tipos de suporte para a prática do
jornalismo. Barbosa (2003, p. 171) destaca algumas características que, segundo a autora,
distinguem o “jornalismo de portal” das outras práticas jornalísticas:
 Por causa do espaço ilimitado da web, a memória é facilitada no sentido de que os
textos são publicados de forma cumulativa, possibilitando a recuperação de um texto;
 A atualização contínua dos textos permite uma navegação mais rápida e instantânea;
 Com a hipertextualidade é possível estabelecer a ligação através de links a matérias ou
outros textos relacionados, possibilitando que o leitor se aprofunde sobre determinado
fato ou acontecimento noticiado;
 Há uma maior interatividade entre o que é publicado e o internauta, que também
participa da produção dos conteúdos;
 E, por fim, a disponibilização de material multimídia, como áudio de entrevistas,
gráficos, simulações ou vídeos.
É preciso considerar que as características elencadas acima, com base em Barbosa
(2003), apresentam o “jornalismo de portal” a partir de uma visão entusiasta, que não
problematiza o novo formato de jornalismo. As vezes, vemos o jornalismo da web sendo
tratado como se os recursos oferecidos pela internet fossem suficientes para suprir possíveis
carências existentes anteriormente. Porém, embora existam muitos avanços nessas práticas
comunicativas, possibilitados pelos recursos oferecidos pela internet, há uma sobrecarga de
informações divulgadas, que interfere sobremaneira na qualidade da produção textual
noticiosa. Por outro lado, há a possibilidade de inter-relacionar ainda mais ao jornalismo as
práticas de compra e venda de produtos e serviços.
Hoje, o que é divulgado, em grandes portais jornalísticos nacionais, como G1.com e
R7.com, que são provenientes de grandes redes de televisão, está diretamente relacionado à
programação da TV. Logo, no caso do G1.com, é possível assistir no portal às reportagens
dos telejornais, bem como “se manter informado” sobre os conteúdos do restante da
programação da TV, que aparentemente não está diretamente relacionada ao jornalismo, como
telenovelas e outros programas de entretenimento.
62
Através do portal, o internauta ainda pode ter acesso a conteúdos que são exclusivos
para assinantes, não disponibilizados abertamente na web, bem como adquirir produtos que
aparecem ou são usados pelos profissionais nos programas da TV, como vestimentas,
calçados e acessórios, numa grande rede de venda de serviços e produtos que captam a
atenção do internauta para uma gama diversificada e sofisticada de atrativos. Nesse caso, o
internauta não é atraído apenas pelo jornalismo, mas por outras formas de entretenimento, que
estimula, dentre outros, o consumo de produtos e de serviços.
Mesmo com conteúdos diversificados, conforme observa Barbosa (2003), o
jornalismo é apresentado como a peça-chave dos portais. Incluindo uma série de outros
atrativos, o jornalismo continua sendo o destaque das páginas principais. Os demais atrativos
podem ser acessados em outras páginas, cujos links ou ícones ou ainda imagens podem
aparecer na página principal, porém, secundariamente, às informações de caráter jornalístico.
Vemos, todavia, esse modo de organização dos portais como estratégico, já que o internauta
acaba tendo acesso a outros conteúdos, fora do âmbito jornalístico, mas é atraído inicialmente
por este.
Na Figura 5, vemos uma página, na qual é dado destaque ao jornalismo, inclusive o
slogan que acompanha a identificação do portal é “O portal de notícias da Globo”:
63
Figura 5: Página inicial de portal jornalístico nacional
Fonte: http://g1.globo.com/ (Acesso em 11 de setembro de 2013).
Porém, é possível visualizar a presença de propagandas, principalmente na lateral
direita da página, e uma barra superior que dá acesso a outros conteúdos, como notícias
exclusivas sobre esporte e, ainda, entretenimento e vídeos. Os links da barra superior podem
levar o internauta a outros sites, como o Globo.com, que dá acesso a parte do conteúdo da TV
Globo e a opções de compra de produtos da “Globo Marcas”, todos vinculados ao mesmo
grupo empresarial.
Em todo caso, os portais proporcionaram uma mudança na produção jornalística que,
como vimos, incorporou-se das muitas possibilidades oferecidas pelo suporte da web, para
atingir o objetivo, que é comum das grandes mídias, de atrair um público numeroso e
64
diversificado. Atualmente, vemos que, apesar de diversificados, os portais jornalísticos
apresentam um formato mais ou menos padronizado, inclusive em suas publicações. Uma
notícia publicada em um portal de notícia é comumente “aproveitada” por outros portais, que
se apropriam livremente do texto, fazem algumas modificações (ou não) e o publicam
também, às vezes, informando a fonte original.
Nesse cenário, a webnotícia termina por apresentar características próprias,
considerando que o processo de construção do texto é diretamente relacionado ao lugar de
circulação deste, que, nesse caso, é a web. Dessa forma, uma característica importante da
webnotícia, e que está diretamente relacionada ao trabalho desenvolvido nessa tese, é a
relação entre a webnotícia e seu(s) texto(s)-fonte. Como o espaço na internet é,
aparentemente, ilimitado, o texto-base no qual a notícia se fundamenta, muitas vezes, é
disponibilizado no próprio portal jornalístico, para visualização e leitura do internauta. Restanos, todavia, dentre outros, entender o que a presença do texto-fonte significa para o
funcionamento retórico da webnotícia, já que, teoricamente, o que é dito no texto-fonte de
alguma forma também é dito na notícia.
Na seção 2.4, revisitamos as contribuições de Van Dijk (1990 [1988]), e discutimos
sobre o processamento dos textos-fonte na notícia.
1.4 A notícia e o processamento dos textos-fonte
Na constituição do discurso jornalístico, os acontecimentos podem ser tratados sem
que tenha havido previamente a observação direta por parte do jornalista/repórter ou a
descrição de testemunhas oculares. Logo, as informações são obtidas pelo repórter por outros
meios. Mesmo assim, há o cuidado para que a objetividade sempre apareça, e de diferentes
maneiras, de modo que a estratégia retórica desenvolvida consiste numa utilização sutil e
citação das fontes.
Conforme Van Dijk (1990 [1988]), as fontes para a notícia, em primeiro lugar, são as
primárias, ou seja, os participantes imediatos, tanto para descrição dos atos (como
65
testemunhas oculares) como para a formulação de opiniões. Porém, nem todas as fontes são
igualmente críveis, por isso existe uma hierarquia dessas e graus relacionados com sua
confiabilidade. Logo, as fontes de elite são consideradas de maior valor informativo, como os
atores da notícia, e mais confiáveis, como observadores e emissores de opiniões.
Do ponto de vista retórico, o discurso jornalístico sugere a aparência de verdade,
mediante a utilização de figuras precisas, com a apresentação de detalhes informativos que
indicam precisão do que é noticiado. Segundo Van Dijk (1990 [1988]), esta é uma das razões
de aparecerem em abundância tantas indicações numéricas de diferentes tipos, no discurso
jornalístico, como números de participantes, idade, data e hora dos acontecimentos, descrições
situacionais, descrições numéricas de instrumentos e acessórios (peso, tamanho) etc., já que
poucos recursos retóricos sugerem mais convincentemente fidelidade que esses jogos de
figuras. As figuras, predominantemente, são apresentadas no discurso jornalístico como sinais
de precisão e, em consequência, de verdade.
[...] a retórica jornalística não se limita às figuras usuais da fala. Mas são utilizados
os dispositivos estratégicos que se relacionam à veracidade, à plausibilidade, à
correção, à precisão e à credibilidade [...]. Esses dispositivos incluem o uso
destacado dos dados; um uso seletivo das fontes; modificações específicas nas
relações de relevância (as proposições incompatíveis aparecem no final ou são
completamente ignoradas); as perspectivas ideologicamente coerentes na descrição
dos eventos; os usos de argumentações específicas ou esquemas de atitudes, os usos
seletivos de pessoas e instituições confiáveis, oficiais, bem conhecidas e críveis; a
descrição de pequenos detalhes, concretos; a citação de testemunhas oculares ou
participantes diretos; e a referência ou apelação às emoções (p. 138)13.
Na webnotícia, o recurso retórico de utilização de figuras ganha forças, tendo em
vista que, com a internet, se torna mais fácil constatar a veracidade da informação noticiada,
pois isso pode ser feito com uma simples busca pela web. Por outro lado, com a internet se
torna também mais fácil falsificar documentos e informações. Nesse sentido, quando temos
uma notícia retextualizada, muitas vezes já é disponibilizado, na mesma página do portal
13
No original: “la retórica periodística no se limita a las figuras usuales del habla. Más bien; se utilizan los
dispositivos estratégicos que relacionan la veracidad, la plausibilidad, la corrección, la precisión y la
credibilidad. Los hemos ilustrado con algún mayor detalle, aunque todavía algo informalmente, mediante
ejemplos. Estos dispositivos incluyen el uso destacable de las cifras; un uso selectivo de las fuentes;
modificaciones específicas en las relaciones de relevancia (las proposiciones incompatibles aparecen al final o
son completamente ignoradas); las perspectivas ideológicamente coherentes em la descripción de los sucesos; los
usos de argumentaciones específicas o esquemas de actitudes, los usos selectivos de personas e instituciones
fiables, oficiales, bien conocidas y creíbles; la descripción de detalles cercanos, concretos; la cita de testigos
oculares o participantes directos; y la referencia o apelación a las emociones” (VAN DIJK, 1990 [1988], p. 138).
66
jornalístico, o texto-fonte, cujas informações serviram de base para a constituição da notícia,
de modo que a veracidade da informação já pode, em tese, ser testada na mesma página em
que se lê a notícia.
Conforme postula Van Dijk (1990 [1988], p. 141), a expressão “processamento do
texto” implica dizer que a maior parte da informação utilizada para escrever um texto
jornalístico ingressa na forma discursiva. Geralmente, essa informação chega através de
discursos já codificados e interpretados de outros discursos, por exemplo, de reportagens, de
declarações públicas, de reuniões, de comunicados à imprensa, de debates parlamentares etc.
Para o autor, o processamento de uma grande quantidade de texto e de fala, em forma de input
[entrada], é o que se encontra no centro da produção do discurso jornalístico.
Na produção do discurso jornalístico, existem vários textos input, denominados mais
especificamente como textos-fonte, por Van Dijk (1990 [1988]), que são responsáveis pelo
volume de informações que deverão ser processadas na notícia. O autor nos diz que podemos
formular várias perguntas, para nortear um esquema de análise:
Qual é a natureza desses diferentes textos input, ou textos fonte? Como os escutam e
os leem os jornalistas e como os entendem e os representam cognitivamente? Que
informação procedente desses textos-fonte é focada, selecionada, resumida ou
processada de outra maneira para seu possível uso nos processos de produção do
texto jornalístico? Como ocorre isso? O que está implicado nos muitos tipos de
interação verbal através dos quais os textos-fonte chegam a ser acessíveis: as
entrevistas, as chamadas telefônicas, as conferências de imprensa ou atos similares,
nos quais os jornalistas saem ao encontro de possíveis fontes informativas e
personagens da notícia? Quais são as diferentes regras e as limitações desses tipos
de encontros e em quais situações eles têm lugar? (p. 142)14.
Segundo Van Dijk, é óbvio que as notícias não são produzidas por indivíduos
isolados, sendo que esse pressuposto também é válido para a compreensão e especialmente
para os usos da notícia e das mídias. Portanto, é de fundamental importância que seja dado um
viés social ao estudo realizado com a notícia, no sentido de que as atividades e as interações
14
No original: “¿Cuál es la naturaleza de estos diferentes textos input, o textos fuente? ¿Cómo los escuchan y
leen los periodistas y cómo se entienden y se representan cognitivamente? ¿Qué información procedente de estos
textos fuente se enfoca, selecciona, resume o procesa de otra manera para su posible uso en los procesos de
producción de un texto periodístico?¿Cómo ocorre esto? ¿Quiénes están implicados en los muchos tipos de
interacción verbal a través de los cuales estos textos fuente llegan a ser asequibles: las entrevistas, las llamadas
telefónicas, las conferencias de prensa o hechos similares en los que los periodistas salen al encuentro de
posibles fuentes informativas y personajes de la noticia? ¿Cuáles son las diferentes reglas y las limitaciones de
este tipo de encuentros, y en qué situaciones tienen lugar?” (VAN DIJK, 1990 [1988], p. 142).
67
jornalísticas, assim como a escrita e a reescrita dos textos jornalísticos, são também
inerentemente sociais.
Logo, as transformações do texto-fonte em textos jornalísticos devem se explicar em
termos de cognições sociais dentro de contextos também sociais. Os jornalistas escrevem
textos jornalísticos como integrantes da sociedade, e como membros da sociedade. Na ação de
escrever, estão envolvidos seus conhecimentos, suas crenças, suas atitudes, seus objetivos,
seus planos e suas ideologias, que os caracterizam como sujeitos. Essas características são
ainda, em parte, compartilhadas pelo grupo social profissional do qual o jornalista é membro,
podendo ainda ter um alcance mais amplo, envolvendo outros grupos sociais.
Van Dijk (1990 [1988], p. 145) afirma que:
Demonstramos antes que cada passo do entendimento do discurso e de sua produção
implica características do texto que podem assinalar diretamente a posição social do
falante ou a natureza e o contexto do processo de interação verbal. A natureza
formal do estilo jornalístico ou as implicações persuasivas e atitudinais das opções
de estilo específicas não podem se explicar somente em termos de um modelo
gramatical ou de uma memória cognitiva da compreensão e da representação
individual. Sinalizações similares devem se fazer para os processos de compreensão,
a influência ou outros efeitos do discurso jornalístico sobre os leitores e os
públicos15.
No discurso, boa parte do que é dito já é conhecido, e esse conhecimento está
parcialmente organizado em formas pré-consolidadas, que podem ser denominadas de
esqueletos ou argumentos. Van Dijk (1990 [1988]) afirma que o que entendemos por
esqueletos ou argumentos hoje é, na verdade, uma consequência mais sofisticada dos
esquemas já propostos por Bartlett, em 1932. Essas categorias representam “o conhecimento
estereotipado e consensual que as pessoas têm das ações, dos acontecimentos e dos episódios
da vida social, tal como ir ao cinema ou ir a uma festa de aniversário” (p. 149)16. Logo, parte
15
No original: “Hemos demostrado antes que cada paso del entendimiento del discurso y de la producción
implica características del texto que pueden señalar directamente la posición social del hablante o la naturaleza y
el contexto del proceso de interacción verbal. La naturaleza formal del estilo periodístico, o las implicaciones
persuasiva y actitudinal de las opciones de estilo específicas, no pueden explicarse solamente en términos de un
modelo gramatical o de una memoria cognitiva de la comprensión y la representación individual. Señalizaciones
similares deben hacerse para los procesos de comprensión, la influencia u otros efectos del discurso periodístico
sobre los lectores y los públicos [...]” (VAN DIJK, 1990 [1988], p. 145).
16
No original: “el conocimiento estereotipado y consensual que las personas tienen de las acciones, los
acontecimentos y los episódios en la vida social, tal como ir al cine o acudir a una fiesta de cumpleaños” (VAN
DIJK, 1990 [1988, p. 149).
68
das informações que aparecem nos textos sobre episódios cotidianos da vida social permanece
usualmente implícita devido ao que se pressupõe que o ouvinte já conhece.
Mesmo sabendo que o propósito de Van Dijk não seja fazer um estudo da notícia
enquanto gênero, mas enquanto discurso, mais uma vez parece que estamos já entrando no
terreno de estudos dos gêneros, porque sabemos que os gêneros organizam a vida em
sociedade na medida em que estabilizam e organizam as práticas linguísticas. Assim, essa
organização acontece porque temos um conhecimento social partilhado da ação social que
podemos realizar com cada gênero. Além disso, temos ainda um conhecimento comum de
como são relativamente estruturados os textos a partir do gênero de que participa.
No processamento dos textos-fonte, boa parte do que é dito tem por base
informações julgadas como conhecidas pelo leitor. Assim, no lugar de simplesmente
reformular os modelos transmitidos, em princípio, o jornalista pode copiar o mesmo discurso,
como no caso das citações. Segundo Van Dijk (1990 [1988]), a maioria dos jornalistas, na
realidade, não registra e transcreve completamente os discursos que constituem os
acontecimentos jornalísticos, isso devido às limitações de tempo, que os obrigam a registrar
apenas fragmentos (notas feitas) ou elaborar resumos. Tal entendimento diz respeito apenas
aos casos em que o discurso jornalístico é construído a partir de anotações feitas pelos
jornalistas, em situações em que o texto-fonte é oral, como em entrevistas ou depoimentos,
que exigem do jornalista a habilidade de já ir processando o que é dito pelas fontes.
Para o teórico, essa prática acontece também com os textos-fonte que não são em si
mesmos acontecimentos informativos, em que o jornalista também pode selecionar partes
copiadas, citadas ou resumidas. Quando se dispõe de mais textos-fonte, são utilizadas as
informações de diferentes textos, já que a informação pode ser obtida nas entrevistas, nas
chamadas telefônicas, nos livros-fonte ou ainda noutras mensagens das mídias.
O autor indaga-se sobre como ocorre, exatamente, a utilização e o processamento dos
textos-fonte, bem como sobre quais são as rotinas cognitivas e sociais que permitem aos
jornalistas escrever um texto informativo, baseando-se em tantos e tão diversos materiais. Em
busca de uma resposta, Van Dijk (1990 [1988]) examina algumas estratégias, que podem ser
69
vistas como um direcionamento teórico-metodológico para analisarmos a retextualização de
textos-fonte na construção da webnotícia:
a) A seleção
A estratégia de seleção é apresentada como a mais efetiva do processamento do
texto-fonte. Isso porque a decisão de usar um texto-fonte na íntegra ou um fragmento deste
em vez de outro pressupõe, certamente, critérios empregados na tomada de decisões. Logo, a
seleção já pode ser aplicada em acontecimentos comunicáveis orais, como no caso de
conferências de imprensa ou de entrevistas, ou a textos-fonte já disponíveis, cujo uso na
notícia pode estar baseado na credibilidade ou na autoridade da fonte. Para Van Dijk, a
seleção posterior à leitura e a avaliação da informação pressupõe opiniões do jornalista sobre
as características do conteúdo do texto-fonte.
b) A reprodução
Depois de a seleção ter sido feita, a estratégia empregada é a de reprodução literal do
material selecionado, texto-fonte ou fragmento, para ser utilizado como base de informação.
Conforme Van Dijk (1990 [1988]), a limitação do tempo do jornalista aparece como a
principal condição para a reprodução literal, interferindo ainda na ausência de mais
informações na notícia, na qualidade jornalística do texto-fonte, até mesmo na qualidade da
fonte. Ademais, segundo o autor, a reprodução parcial do texto-fonte pode estar atrelada às
limitações de espaço no jornal, cujas passagens consideradas irrelevantes são suprimidas.
Nesse aspecto, há uma implicação concomitante das estratégias de seleção e de resumo, para a
efetivação da reprodução.
c) O resumo
O resumo é apresentado como a segunda principal estratégia para o processamento
de grandes quantidades de informação do texto-fonte, pois ela indica, segundo o ponto de
vista do jornalista, o que é mais relevante ou importante de um ou mais textos-fonte. Para a
produção do resumo, as estratégias que têm sido estudadas são as de: supressão/eliminação
(aplicada à informação pressuposta para o entendimento do restante do texto, tendo em vista
que se suprime, normalmente, o que é julgado já ser de conhecimento partilhado); de
70
generalização (aplicada quando propriedades similares são relevantes para diferentes atores
ou situações ou quando uma propriedade determinada pode ser aplicada a diferentes membros
de um conjunto); e de construção (que requer a combinação de alguns atos ou
acontecimentos parciais em um macroato ou macroacontecimento global).
Van Dijk (1990 [1988]) argumenta que a importância do resumo na produção
jornalística chega a ser óbvia, se considerarmos que ela facilita a produção jornalística do
repórter em diversos pontos, como:
1) reduzir textos extensos em textos breves; 2) compreender detalhes locais da
informação do texto-fonte relativos as suas macroestruturas; 3) definir a informação
mais importante ou relevante dos textos-fonte; 4) comparar diferentes textos-fonte
na relação com seus temas comuns e prioridades; 5) utilizar o resumo como um guia
já preparado e, em consequência, como um exemplo de controle semântico básico
para escrever o texto jornalístico e para decidir títulos, e 6) utilizar o resumo como
um plano ou desenho para um texto jornalístico e para a discussão com os colegas e
editores (VAN DIJK, 1990 [1988], p. 169)17.
Conforme o autor, o resumo é o processo central de produção e controle jornalísticos,
depois de realizada uma primeira seleção, devido à grande quantidade de possíveis textosfonte e à complexidade de suas informações, já que é a estratégia principal para a redução da
complexidade informativa.
d) As Transformações locais
Na estratégia em que se realizam transformações locais, a supressão/eliminação
aparece como um primeiro movimento estrategicamente eficiente. Nesse sentido, existem
condições internas e externas para a realização de supressões: 1) os critérios internos
relacionam-se às decisões feitas, segundo o ponto de vista do jornalista, sobre a irrelevância
relativa do detalhe ou de detalhes que não são coerentes com os modelos, os argumentos ou as
atitudes dos jornalistas ou dos leitores; 2) os critérios externos relacionam-se às limitações
espaciais ou à impossibilidade de verificar um detalhe importante e controverso, baseando-se
em outras fontes.
17
No original: “1) reducir textos extensos a textos breves; 2) comprender detalles locales de la información del
texto fuente relativos a sus macroestructuras; 3) definir la información más importante o relevante de los textos
fuente; 4) comparar diferentes textos fuente en relación con sus temas comunes y prioridades; 5) utilizar el
resumen como uma guía ya preparada y, en consecuencia, como un ejemplo de control semántico básico para
escribir el texto periodístico y para deducir titulares, y 6) utilizar el resumen como un plan o diseño para un texto
periodístico y para la discusión con los colegas y editores” (VAN DIJK, 1990 [1988], p. 169).
71
O segundo movimento estrategicamente eficiente, apontado por Van Dijk (1990
[1988]), para a realização de transformações locais é a adição/acréscimo, que, por outro lado,
requer a inserção de detalhes relevantes procedentes de outros textos-fonte ou de modelos
prévios, assim como de informações de conhecimento geral do repórter. Com a função de
explicar e de emoldurar as informações do discurso jornalístico, as adições, normalmente, são
utilizadas para proporcionar mais informação sobre acontecimentos prévios, contexto ou
antecedentes históricos. A adição ainda pode aparecer, em maior proporção, quando acontece
a inserção de nova informação relevante de outros textos-fonte, como no caso de citações
precisas, citações ou detalhes similares que pertencem aos critérios gerais do discurso
jornalístico em questão.
O terceiro movimento apontado pelo autor são as permutações/reordenações,
frequentemente utilizadas na produção jornalística quando o texto-fonte não possui uma
estrutura de esquema jornalístico. Por serem basicamente determinadas por critérios de
relevância, as permutações permitem que a informação importante seja movida para diante
(ou para cima), assim como que a informação menos importante seja movida para trás (ou
para baixo). Tais movimentações são devidas ao respeito que o jornalista deve ter com a
estrutura do esquema jornalístico canônico, que apresenta os eventos principais antes do
contexto, dos antecedentes, da reação verbal e dos comentários. Assim, tendo em vista cada
categoria do discurso jornalístico, a informação de nível superior deve aparecer primeiro, o
que faz com que muitas permutações de ingressão de dados do texto-fonte sejam requeridas
devido às limitações do texto jornalístico.
Por último, a substituição, que, como a adição, acontece em grande medida, requer
que uma explicação alternativa dos mesmos fatos esteja disponível em outros textos-fonte.
Logo, para Van Dijk, cláusulas, orações ou parágrafos completos de um dado texto-fonte
podem ser substituídos por fragmentos equiparáveis e encontrados em outro texto-fonte.
e) (Re)Formulação estilística e retórica
Essa é uma estratégia que se desdobra em: 1) mudanças de estilo, que, conforme
argumenta Van Dijk, são os meios mais efetivos de injetar opiniões pessoais ou institucionais
dentro do contexto jornalístico, enquanto se escreve sobre os mesmos eventos; 2)
72
reformulação retórica, que permite ao escritor outorgar mais efetividade a um relato mediante
o uso, por exemplo, de sobre-entendidos ou de exageros, ou ainda de comparações e
metáforas. Aqui o que ocorre efetivamente é a produção de outro texto, e não apenas uma
transformação direta dos textos-fonte.
Organizamos no Quadro 1, o resumo das estratégias apresentadas em Van Dijk (1990
[1988]):
Quadro 1: Estratégias de processamentos dos textos-fonte, segundo Van Dijk (1990 [1988])
ESTRATÉGIA
CARACTERÍSTICAS/PROCESSOS
Seleção
- tomada de decisão, escolha.
Reprodução
- total ou parcial.
Resumo
- supressão/eliminação;
- generalização;
- construção.
Transformações locais
- supressão/eliminação (critérios internos e
externos);
- adição/acréscimo;
- permutação/reordenação;
- substituição.
(Re)Formulação estilística e retórica
- mudanças de estilo;
- reformulação retórica.
Fonte: adaptado de Van Dijk (1990 [1988]).
Depois de apresentar e explicar todas essas categorias de processamento do textofonte na produção do discurso jornalístico, Van Dijk esclarece que “qualquer processo de
seleção, reprodução, resumo ou outras transformações destes textos-fonte pressupõe a
compreensão dos textos-fonte” (p. 171), de modo que o jornalista deve guardar na memória
pelo menos representações parciais dos textos-fonte. Ademais,
de maneira similar, se a compreensão se baseia na ativação e na atualização do
modelo situacional, também se faz a comparação, o resumo e outras transformações.
Na realidade, a mesma decisão de que os textos tratam do mesmo acontecimento se
baseia numa análise do modelo que representa esses textos. As decisões de suprimir
informação se baseiam na avaliação de que um detalhe qualquer não seja relevante
73
na compreensão de um texto jornalístico, ou seja, na construção por parte do leitor
do modelo subjacente. (p. 171)18
Desse modo, qualquer transformação textual que ocorra na produção jornalística
está, essencialmente, baseada em um modelo de construção do discurso jornalístico, mas
também é controlada por planos e objetivos. Logo, é inegável que, pelo fato de esses modelos
conterem experiência e opiniões pessoais, ou mesmo opiniões ou atitudes gerais, toda
transformação de texto-fonte em texto jornalístico implica normas e valores subjetivos, assim
como de base grupal, tanto no que se refere ao profissional quanto ao ideológico.
Van Dijk (1990 [1988]) apresenta os procedimentos metodológicos e os resultados
de uma pesquisa empreendida na primavera de 1984, na Universidade de Amsterdã, que tinha
o objetivo de acompanhar a rotina do jornalista na pesquisa, para mapear todos os textos-fonte
possíveis, as diferentes versões e a versão final de produtos jornalísticos publicados, bem
como a organização e a utilização dos dados. Nesse sentido, texto-fonte é entendido pelo
autor como qualquer material utilizado pelo repórter para a construção da notícia.
No estudo apresentado pelo teórico, depois da classificação dos textos-fonte das
notícias, foram analisadas as transformações textuais que definiam o processo de produção 19.
Van Dijk (1990) empreendeu em seu estudo uma análise minuciosa dos textos-fonte que
deram origem ao texto jornalístico final, examinando “as transformações textuais que
definiam o processo de produção” (p. 182), considerando ainda que, mesmo o jornalista
juntando uma série de informações, com vários textos-fonte, para uma determinada matéria
jornalística, nem sempre usa todas as fontes obtidas na elaboração do texto final.
18
No original: “De manera similar, si la comprensión se basa en la activación y la actualización del modelo
situacional, también lo hacen la comparación, el resumen y otras transformaciones. En realidad, la decisión
misma de que los textos traten del mismo acontecimiento se basa en un análisis del modelo que representan estos
textos. Las decisiones de suprimir información se basan en la evaluación de que un detalle quizá no sea relevante
en la comprensión de un texto periodístico, es decir, en la construcción por parte del lector del modelo
subyacente” (VAN DIJK, 1990 [1988], p. 171).
19
O autor observa que o trabalho de análise das transformações textuais no processamento do texto-fonte para a
produção da notícia é relativamente fácil quando se observam textos-fontes que tenham sido utilizados como
fonte única. Ele ressalta que isso normalmente acontece quando os textos-fonte são provenientes de textos
oficiais, como uma importante declaração política que resulte acessível ao repórter. Na análise que
desenvolvemos, dado o recorte teórico e o objetivo do trabalho, o nosso corpus é composto de webnotícias cujas
informações são oriundas de um texto-fonte principal, que exemplifica o processo de retextualização, e, numa
análise geral, percebemos que documentos oficiais vinculados a personalidades sociais e/ou políticas são muito
comuns como fonte principal, ou mesmo fonte única, em webnotícias.
74
Os textos-fonte encontrados que estavam ao alcance do repórter ou que foram
utilizados por ele, e que constituíram o corpus de análise do estudo empreendido por Van
Dijk (1990 [1988]), foram: despachos de agências de notícias internacionais; despachos da
ANP (Agência Nacional de Imprensa); despachos dos Serviços Informativos Regionais; nota
de uma escola de trabalho social a um comitê parlamentar; uma agenda da Oficina de
Relações Públicas da cidade de Amsterdam; um comunicado de imprensa da cidade de
Amsterdam; um informe do Ministério do Interior; um informe sobre as declarações do
ministro do Interior; comunicados à imprensa da Oficina Nacional de Relações Públicas; um
comunicado à imprensa do Ministério de Relações Exteriores; um comunicado à imprensa de
grandes firmas industriais; documentação de imprensa (publicações anteriores) do próprio
jornal; notas de chamadas telefônicas a diferentes pessoas e organizações; conferência à
imprensa diária de um porta-voz da polícia; notas tomadas durante uma conferência à
imprensa; agenda e materiais de uma reunião do governo provincial; entrevista com o agente
de imprensa da província; agenda e materiais da reunião do Conselho Nacional para o
Emprego; agenda do juizado de operações de Haia; um comunicado à imprensa da Escola de
Auxiliares Médicos; uma carta da Oficina de Relações Públicas da Província; materiais à
imprensa de um hotel de Scheveningen; agenda e materiais para uma reunião do comitê
pessoal do conselho da cidade de Haia; o anúncio de uma conferência à imprensa do
conselheiro de assuntos econômicos da cidade de Haia; a agenda diária do parlamento;
versões impressas de intervenções planificadas de diferentes membros do parlamento durante
um debate; notas de uma entrevista com um representante de uma organização em favor das
minorias éticas; o anúncio de uma obra teatral; uma nota à imprensa e cópia de uma carta da
organização para as minorias ao Ministério de Justiça; uma carta de diretores de organizações
estatais para o trabalho social; uma chamada telefônica ao ministro de Assuntos Sociais; Leis
de bem-estar social; agenda e materiais da reunião do Conselho Nacional para os assuntos
sociais e econômicos; informações sobre um leilão de cães; notas de uma entrevista com
organizadores do leilão de cães; um comunicado à imprensa dos organizadores do “Freak
festival”; entrevista com funcionários policiais sobre um caso de assassinato; agenda do
departamento socioeconômico do jornal; o texto do debate sobre os meios de comunicação no
parlamento.
75
O autor observou que, em grande parte dos textos-fonte, eram utilizados apenas
fragmentos desses na construção da notícia. A partir da variedade dos textos-fonte
diagnosticados como sendo de uso dos jornalistas na produção da notícia, Van Dijk elaborou
uma lista classificatória que apresenta os principais tipos de informações de que os repórteres
fazem uso:
1. Despachos de agências de notícias nacionais e internacionais;
2. Comunicados de imprensa de instituições, organizações, firmas etc.;
3. Conferências de imprensa, incluindo convites;
4. Agendas e materiais de um grande número de corpos legislativos, comitês e
organizações;
5. Informes de diferentes organizações;
6. Entrevistas com representantes de organizações;
7. Chamadas telefônicas a representantes de organizações;
8. Notas sobre entrevistas, chamadas telefônicas, conferências de imprensa etc.;
9. Notas oficiais de organizações (frequentemente dirigidas a outras organizações),
algumas vezes acompanhadas de documentação;
10. Artigos de uma variedade de jornais estrangeiros e locais;
11. Documentação, incluindo a do próprio jornal (recortes);
12. Versões impressas de discursos, intervenções em reuniões e debates.
A partir dessa classificação, Van Dijk (1990 [1988]) observa que há a existência
predominante de textos-fonte oriundos de instituições estatais ou cidadãs, que são préorganizados rotineiramente: “há maneiras uniformizadas para distribuí-los, para pô-los na
agenda e para prepará-los; os jornais e os repórteres recebem regularmente estes anúncios (de
reuniões, de conferências à imprensa, informes)” (p. 185-186)20. As agências e outros meios
de informações desempenham um importante papel na preparação dos artigos jornalísticos,
que pode incluir notas de releitura de artigos anteriores do mesmo jornal. Muitos artigos
jornalísticos se baseiam em diferentes textos-fonte, podendo incluir a combinação típica de
um pré-organizador (como uma agenda, um anúncio ou um convite), os dados-fonte sobre um
20
No original: “[...] hay maneras estándar para distribuirlos, para ponerlos en la agenda o para prepararlos; los
periódicos y los reporteros reciben regularmente estos anúncios (de reuniones, conferencias de prensa,
informes)” (VAN DIJK, 1990 [1988], p. 185-186).
76
acontecimento principal (reunião, conferência à imprensa, exibição etc.), a inclusão de notas
do repórter ou de documentação e, finalmente, a conversação, como uma entrevista ou uma
breve chamada telefônica a um dos atores implicados na notícia.
Portanto, para o autor, “a produção jornalística local estandardizada se caracteriza
pela ordem na percepção, aquisição e uso dos textos-fonte” (p. 186)21, sendo que essa ordem é
definida mediante três categorias principais: 1) preparação (convites, anúncios, agendas); 2)
dados textuais do acontecimento principal (documentação, conferências à imprensa e notas
sobre elas, gravações etc.); e 3) seguimentos ou dados textuais dos antecedentes (entrevistas
ou chamadas telefônicas com os atores da notícia ou representantes de organizações,
documentação etc.). Para Van Dijk, é possível considerar ainda a existência de uma quarta
categoria, no controle dos dados do texto, que inclui chamadas telefônicas adicionais, uma
segunda verificação, conversas com colegas etc.
Do estudo empreendido, o teórico chega à conclusão de que:
[...] o processamento dos textos-fonte é uma imagem mais profunda da organização
das rotinas próprias de elaboração de notícias. Na realidade, em grande medida, a
composição de notícias parece ser um conjunto efetivo de procedimentos que
incluem a recepção, aquisição, seleção, leitura e posterior processamento dos dados
do texto-fonte (VAN DIJK, 1990 [1988], p. 186)22.
Vemos que o estudo da produção da notícia deve levar em conta esse processo de
aproveitamento de informações oriundas de outros textos, que são transformados
(processados, segundo Van Dijk) em textos do âmbito jornalístico. Para o autor, a seleção dos
atores para a produção da notícia se dá a partir da capacidade dessas pessoas de produzir
dados próprios de um texto-fonte que cumpram tanto os requisitos profissionais como os
valores ideológicos de um determinado fato ou acontecimento noticiado.
É importante ainda considerar que chegam ao jornal e aos repórteres muito mais
informações e textos do que os que eles possivelmente possam seguir ou investigar, ou
21
No original: “[...] la producción periodística local estándar se caracteriza por el orden en la recepción,
adquisición y uso de los textos fuente” (VAN DIJK, 1990 [1988], p. 186).
22
No original: “[...] el procesamiento de los textos fuente es una imagen más profunda de la organización de las
rutinas propias de la recopilación de noticias. En realidad, em gran medida, la recopilación de noticias parece ser
un conjunto efectivo de procedimientos que incluyen la recepción, adquisición, selección, lectura y posterior
procesamiento de los datos del texto fuente” (VAN DIJK, 1990 [1988], p. 186).
77
mesmo escrever sobre eles. Ademais, assim como os jornalistas organizam sua produção
informativa em uma sequência de rotinas, as muitas outras organizações privadas ou públicas
seguem essas rotinas, incluindo o envio de declarações ou outros textos aos meios de
comunicação. Logo, o que é publicado diariamente nos jornais já está parcialmente definido
devido à própria organização da instituição jornalística, com a publicação recorrente de temas
e informações rotineiras de interesse social e de instituições sociais diversas que interatuam
com as instituições jornalísticas, sendo estas, muitas vezes, dependentes financeiramente
daquelas.
Van Dijk diz que “isso mostra com algum maior detalhe como e por que a imprensa
produz e reproduz parte do status quo político, social e econômico” (p. 187)23. Dessa forma, o
trabalho do repórter de construção de notícias e de manejo do texto-fonte significa que a
imprensa atua também, até certo ponto, como porta-voz das organizações que proporcionam
os inputs necessários para os textos. Para o teórico,
A falsa liberdade da imprensa consiste na possibilidade de refletir os interesses de
organizações em conflito, em fazer seleções rigorosas a partir da massa de dados
textuais oferecidos baseando nos critérios de valor jornalístico acima mencionados,
em prestar um interesse limitado ou tendencioso aos eventos não institucionais (por
exemplo, manifestações de protestos, despejos, greves) e em transformar os dados
inputs. Ademais, quando os dados empíricos são examinados sobre o input total de
materiais e suas transformações, descobre-se que inclusive esta liberdade está
altamente limitada. (p. 187)24
Assim, a imprensa pode prestar um trabalho tendencioso na medida em que pode
privilegiar determinados grupos durante a escolha dos textos-fonte das notícias, mas essa
liberdade é limitada (falsa liberdade, de acordo com o autor). Isso porque a escolha dos textos
deve também estar baseada em critérios de valor jornalístico, ou seja, qualquer fonte não
serve como texto-fonte na produção da notícia, o que faz, segundo o autor, com que a suposta
liberdade de imprensa seja limitada.
23
No original: “Esto muestra con algún mayor detalle cómo y porqué la prensa produce y reproduce parte del
statu quo político, social y económico” (VAN DIJK, 1990 [1988], p. 187).
24
No original: “La falsa libertad de la prensa consiste en la posibilidad de reflejar los intereses de organizaciones
en conflicto, en hacer selecciones rigurosas a partir de la masa de datos textuales ofrecidos basándose en los
criterios de valor periodístico arriba mencionados, en prestar un interés limitado o tendencioso a los sucesos no
institucionales (por ejemplo, manifestaciones de protesta, desalojos, huelgas) y en transformar los datos input.
Aun así, cuando uno examina los datos empíricos sobre el input total de materiales y sus transformaciones, uno
descubre que incluso esta libertad está altamente limitada” (VAN DIJK, 1990 [1988], p. 187).
78
Fontes alternativas e textos-fonte nem sempre são acessíveis e pode ser que não haja
tempo para transformações independentes desses. Porém, as fontes ou os acontecimentos não
institucionais podem não passar nos testes de credibilidade, de validade jornalística ou de
autoridade. Para o autor, as notícias, a produção informativa e os jornalistas estão atrelados à
mesma rede que eles mesmos teceram para compilar efetiva e rotineiramente suas notícias
diárias.
Podemos, no entanto, indagar-nos se, nos dias de hoje, os jornalistas dos portais
jornalísticos, na internet, ainda seguem esse rigor ou um rigor semelhante para a produção de
suas notícias, tendo em vista que as condições de averiguação da veracidade da informação
divulgada em uma notícia são, notadamente, diversas. Sabemos, no entanto, que nem todos os
leitores estão atentos à veracidade ou idoneidade da informação divulgada em notícias.
Embora a internet tenha viabilizado melhores condições ao leitor, também tem
servido de instrumento que pode conduzir à confusão, uma vez que os leitores podem se
servir de informações distorcidas e/ou adulteradas. Tais práticas têm possibilitado, inclusive,
o surgimento de outros gêneros fundados sobre a regularidade da notícia, porém com outros
propósitos comunicativos, baseados, exatamente, na falta de interesse em ler o texto na
íntegra ou mesmo de atenção do leitor (internauta), como é o caso da notícia satírica (Cf.
SOUSA, 2013).
Os principais resultados a que chegou Van Dijk (1990), na análise e comparação dos
textos-fonte e das notícias organizados em seu corpus, desde a primeira até a última versão
dos informes jornalísticos, foram os seguintes:
1. A maioria do material utilizado nas agências foi copiada literalmente em seis
artigos jornalísticos, cujas origens eram os mesmos despachos, apresentando
apenas algumas variações estilísticas na escrita.
2. No caso da maior parte da informação de uma notícia vinda de uma entrevista, no
lugar da reprodução literal, o artigo jornalístico foi formado a partir de resumos
das declarações feitas durante a entrevista, o que pode ter acontecido pelo fato de
as informações estarem baseadas nas notas feitas pelo jornalista na entrevista.
79
Logo, as notas funcionam como resumos efetivos e chaves de recuperação de
informações.
3. Outros meios de comunicação, frequentemente, servem de fontes para os
informes jornalísticos, de modo que, segundo o autor, o jornal da tarde pode
utilizar informações do jornal da manhã, e vice-versa.
4. Na notícia, as informações consideradas mais importantes devem aparecer antes
das informações consideradas menos importantes.
5. O estilo mais formal ou errático das declarações oficiais (de ministros, por
exemplo) tende a se transformar mais simples e mais direto.
6. Na análise de uma notícia sobre um caso de demissões em uma empresa, somente
apareceram, na versão final, as declarações da empresa; e foram suprimidas, por
exemplo, declarações de líderes sindicais.
7. No caso de um informe baseado numa nota formal de uma organização em defesa
das minorias, acompanhado de um comunicado da organização à imprensa,
ambos serviram como fontes diretas para o informe jornalístico final, que citou,
literalmente, extensas partes da nota.
A partir dos resultados do material analisado, Van Dijk (1990 [1988]) conclui que:
1. os despachos das agências de notícias tendem a seguir os textos-fonte muito de
perto, senão literalmente, em especial quando não se dispõe de outra informação;
2. o texto jornalístico sugere que um ator da notícia realize ao menos uma afirmação
tal como a representam os marcadores da citação literal, porém a afirmação pode
ser um resumo realizado pelo repórter/jornalista;
3. os textos-fonte complexos, como as reuniões, os informes, as notas formais e as
citações, muito frequentemente, são resumidos e traduzidos num estilo menos
formal;
80
4. existe uma tendência a se prestar uma maior e mais destacada atenção às
declarações ou aos comunicados de imprensa de funcionários estatais ou
municipais, de agências ou de instituições nacionais, em detrimento dos informes
ou declarações de grupos ou organizações de gente comum implicadas em
discussões ou decisões oficiais.
Dessa maneira, o processo de produção jornalística se organiza em grande medida a
partir de rotinas eficazes de processamento do texto-fonte. As várias estratégias apontadas e
caracterizadas acima incidem no material adquirido pelo repórter /jornalista para a construção
da notícia. Por outro lado, as rotinas não são precisamente procedimentos profissionais para o
manejo de grande massa de informações de texto-fonte.
Com base em Bie (1984), Van Dijk (1990 [1988]) considera finalmente que “quando
se utilizam textos-fonte, uma parte considerável deles é reproduzida literalmente. A supressão
está basicamente governada por esta regra: os detalhes irrelevantes são omitidos” (p. 192)25. A
supressão é apontada como a principal transformação semântica dos textos-fonte de agência,
pelo fato de que normalmente são omitidos fragmentos dos antecedentes, e especialmente do
contexto, assim como as reações verbais.
As citações são utilizadas frequentemente para estabelecer uma distância (ou para
produzir um efeito de distanciamento!) entre o jornal e a pessoa ou as opiniões citadas. As
hipóteses feitas por Van Dijk (1990 [1988]) sobre a natureza estandardizada do uso da fonte e
do processamento do texto-fonte se coadunam aos resultados do estudo realizado pelo teórico.
O autor afirma que “na maioria das vezes são utilizadas e citadas fontes poderosas e críveis,
especialmente de políticos destacados, de agências estatais e municipais e de representantes
de grandes organizações” (p. 196)26.
25
No original: “Cuando se utilizan textos fuente, una parte considerable de ellos se reproduce literalmente. La
supresión está basicamente gobernada por esta regla: los detalles irrelevantes se omiten” (VAN DIJK, 1990
[1988], p. 192).
26
No original: “La mayoría de las veces se utilizan y citan fuentes poderosas y creíbles, especialmente los
políticos destacados, agencias estatales y municipales, y los representantes de grandes organizaciones” (VAN
DIJK, 1990 [1988], p. 196).
81
Logo, o formato do discurso jornalístico, a relevância do assunto ou tema
determinado e os diferentes valores jornalísticos, comentados anteriormente, segundo Van
Dijk (1990 [1988]), são os principais responsáveis pelas diferenças e transformações
estruturais dos textos-fonte no discurso jornalístico final. Isso de acordo com os resultados
alcançados na pesquisa realizada pelo autor em notícias jornalísticas de jornais impressos na
década de mil novecentos e oitenta.
Na análise que empreendemos em nossa tese, verificamos a utilização e o
processamento dos textos-fonte em notícias de portais jornalísticos. Como vimos em seções
anteriores deste capítulo, as webnotícias têm apresentado diferenças, do ponto de vista formal
e estilístico, das notícias produzidas no jornalismo impresso, por uma série de razões
intimamente relacionadas ao meio em que circulam, a internet. Portanto, o objetivo principal
de nosso trabalho é analisar o processamento da informação na webnotícia, em casos cuja
informação é oriunda de um texto-fonte principal e que, portanto, exemplificam o processo de
retextualização.
Assim, a pesquisa se constitui, prioritariamente, a partir da análise empírica feita em
dois objetos distintos: a notícia, mais especificamente a notícia publicada em portais
jornalísticos da internet, e o texto principal utilizado pelo jornalista como fonte nessa notícia,
que, em sua maioria, exemplificam o processo de retextualização. Nesse sentido, o nosso
trabalho intenta, especificamente: 1) Examinar condicionamentos e especificidades na
construção da webnotícia a partir do processo de retextualização, analisando as operações de
retextualização utilizadas como estratégias linguísticas dessa construção. 2) Caracterizar a
webnotícia do ponto de vista da teoria Sociorretórica, a partir da análise de casos em que o
texto noticioso se constitui fundamentalmente sobre um texto-fonte principal. 3) Explicar a
relação entre o processo de retextualização e a webnotícia, examinando as inter-relações desta
com seus textos-fonte.
As noções e os direcionamentos teóricos que utilizamos em nossa pesquisa, além do
que já apresentamos sobre notícia neste capítulo 1, são discutidos nos dois capítulos seguintes
deste trabalho. No capítulo 2, a seguir, tratamos mais detalhadamente sobre o processo de
retextualização.
82
83
2. O PROCESSO DE RETEXTUALIZAÇÃO
No capítulo 1, dissemos que a notícia é passível de mudanças (assim como qualquer
outro gênero), e essas diferenças podem, inclusive, estar diretamente relacionadas ao meio em
que o texto circula. Nesse sentido, a notícia produzida para circular na internet tem
incorporado características possibilitadas pelos recursos tecnológicos e pelas práticas
discursivas desse meio de produção. Tanto na construção da notícia impressa como na
construção da webnotícia, normalmente, são utilizadas e processadas informações de um ou
mais textos-fonte, e para isso, são utilizadas diferentes estratégias linguístico-discursivas
passíveis de exploração e análise (VAN DIJK, 1990 [1988]).
Neste capítulo, tratamos sobre o processo de retextualização do ponto de vista
teórico, considerando, inicialmente, que a ação de retextualizar está ligada à ação de
textualizar, no sentido de que retextualizar, em princípio, significa textualizar novamente a
partir de uma textualização preexistente. Além da noção de retextualização, discutimos as
contribuições de Marcuschi, a partir dos direcionamentos introdutórios, de âmbito teórico e
metodológico, apontados no livro “Da fala para a escrita: atividades de retextualização”, de
2000, e apontamos algumas pesquisas acadêmicas já desenvolvidas sobre o processo de
retextualização.
2.1 A noção de retextualização
Antes de tratarmos de retextualização, propriamente, é importante tocarmos, ainda
que rapidamente, na noção de textualidade ou mesmo de textualização, revisitando definições
que têm por base clássicos da literatura da área, como Beaugrande e Dressler (1981) e
Beaugrande (1997). Costa Val (2004, p. 01) propõe que o texto seja entendido como
“qualquer produção linguística, falada ou escrita, de qualquer tamanho, que possa fazer
sentido numa situação de comunicação humana, isto é, numa situação de interlocução” –
84
posicionamento semelhante à concepção defendida por Koch (2006, p. 17), que define texto
como “atividade interativa”. Na concepção de ambas as autoras, o ‘fazer sentido’ é fator de
fundamental importância na definição de texto. Por outro lado, precisamos considerar que o
sentido do texto não é constituído nele e por ele mesmo, mas na soma de diferentes aspectos
que abrangem fatores de ordem social, linguística e cognitiva – daí a necessidade de se
considerar a noção de gênero no estudo da (re)construção da textualidade do texto.
Em outras palavras, é isso que Costa Val considera ao afirmar que a definição de
texto por ela apresentada implica duas coisas: “a) nenhum texto tem sentido em si mesmo, por
si mesmo; b) todo texto pode fazer sentido, numa determinada situação, para determinados
interlocutores” (COSTA VAL, 2004, p. 01, grifos da autora). Para falar de textualidade, a
autora retoma o famoso conceito defendido por Beaugrande e Dressler (1981) como “o
conjunto de características que fazem com que um texto seja um texto” (COSTA VAL, 2004,
p. 01).
A partir da proposta de repensar o pensamento de Beaugrande e Dressler (1981) e
baseada em Beaugrande (1997), Costa Val (2004) aprofunda o conceito de textualidade ao
relacioná-lo ao de textualização. Considerando o critério de um mesmo texto poder ser
textualizado de maneiras distintas por diferentes interlocutores, a autora ressalta que,
ultimamente, tem-se preferido usar o termo textualização, ao invés de textualidade. Isso
porque, para a autora, textualidade pode ser definida “como um princípio geral que faz parte
do conhecimento textual dos falantes e que nos leva a aplicar a todas as produções linguísticas
que falam, escrevem, ouvem ou leem um conjunto de fatores capazes de textualizar essas
produções” (p. 02). Textualidade é, portanto, entendida como algo que não se encontra
propriamente nos textos, mas, sobretudo, no saber (partilhado) das pessoas.
Costa Val (2004) destaca ainda os sete fatores apontados por Beaugrande e Dressler
(1981) que são responsáveis pela constituição da textualidade, descritos como “princípios que
fazem parte do conhecimento textual das pessoas, que elas aplicam aos textos que produzem e
esperam encontrar nos textos que ouvem ou leem: coerência, coesão, intencionalidade,
aceitabilidade, situacionalidade, informatividade e intertextualidade” (p. 02). A autora chama
a atenção para a importância de entender a noção de textualidade atrelada à de textualização,
85
ao tratar os sete fatores de textualidade, mencionados primeiramente em 1981, por
Beaugrande e Dressler, e retificados em 1997 por Beaugrande, não como características do
texto, como foram por muito tempo entendidos, mas como princípios que envolvem tanto a
produção como a circulação dos textos.
Já o termo retextualização foi inicialmente utilizado, no Brasil, por Neusa Travaglia
(1993), em sua tese sobre tradução, intitulada A Tradução numa Perspectiva Textual27. A
autora emprega a expressão para tratar de processos de tradução de uma língua para outra, em
que, numa perspectiva textual, traduzir consiste em retextualizar.
Marcuschi (2010 [2000]), em Da Fala para a Escrita: atividades de retextualização,
apresenta a retextualização, incorporando ao termo uma definição mais ampla que aquela
utilizada por Travaglia (1993). O próprio autor, ao mencionar o estudo de Travaglia,
considera que:
O uso do termo retextualização, tal como feito aqui, se recobre apenas parcialmente
com aquele feito por Travaglia, na medida em que aqui também se trata de uma
‘tradução’, mas de uma modalidade para outra, permanecendo-se, no entanto, na
mesma língua (p. 46).
Nesse trabalho, Marcuschi examina os processos envolvidos na transformação da
oralidade em escrita. Por outro lado, sabemos que o conteúdo de determinados textos, sejam
orais e/ou escritos, decorre explicitamente de informações advindas de um texto específico,
oral ou escrito, que é tomado como base de informações. Nesse sentido, o esquema
apresentado na Figura 6 ilustra inicialmente, para nós, um processo de retextualização:
27
Tese que mais tarde foi transformada no livro “Tradução Retextualização: a tradução numa perspectiva
textual” (TRAVAGLIA, 2001).
86
Figura 6: Esquema do processo de retextualização
Nesse sentido, o texto A serve como base informativa (chamado de texto-base ou
texto-fonte) para a construção do texto B (chamado de retextualizado), logo, a existência do
texto B está condicionada à existência prévia do texto A, que é aquele tomado como base de
informação no processo de retextualização. Porém, a retextualização não envolve somente
fatores de ordem textual, haja vista que, nesse processo de construção de um texto a partir de
outro, podemos ter uma nova situação de comunicação, e a “mesma” informação que aparece
no texto-base e no texto retextualizado pode funcionar socialmente de maneira diferente em
razão da situação comunicativa de um e de outro texto.
A Figura 6 foi pensada a partir das considerações de base apresentadas por
Marcuschi (2010 [2000]). O autor afirma que, mesmo o seu trabalho estando voltado mais
especificamente para a transformação da fala em escrita, o processo de retextualização é mais
amplo, pois consiste na transformação de um texto em outro, realizando-se, para isso, as
adaptações necessárias que envolvem a situação de interação. Seguindo as afirmações de
Marcuschi, Dell’Isola (2007) considera que retextualização:
é um processo que envolve operações complexas que interferem tanto no código
como no sentido e evidencia uma série de aspectos da relação entre oralidadeescrita, oralidade-oralidade, escrita-escrita, escrita-oralidade. Retextualização é a
refacção ou a reescrita de um texto para outro, ou seja, trata-se de um processo de
transformação de uma modalidade textual em outra, envolvendo operações
específicas de acordo com o funcionamento da linguagem (p. 36).
87
Diferentemente de Marcuschi, que trabalha com situações concretas de passagem de
textos da modalidade oral para a escrita, Dell’Isola (2007) se preocupa com operações de
retextualização no âmbito dos gêneros escritos. Assim, são trabalhadas situações em que um
texto escrito serve de base para uma nova produção escrita, envolvendo consequentemente a
passagem de um gênero textual escrito para outro também escrito. A autora trata mais
especificamente de situações de trabalho com gêneros e operações de textualização voltadas
para o ensino de linguagem, no contexto da sala de aula.
Como Marcuschi (2010 [2000]), Dell’Isola (2007) defende que a retextualização não
deve ser entendida como “tarefa artificial”, pois ela acontece cotidianamente, correspondendo
a um processo comum da vida prática e podendo ocorrer de maneira bastante diversificada,
em situações rotineiras:
por exemplo, em uma reunião de condomínio debatem-se vários assuntos que
culminam na produção de um regulamento a ser afixado na entrada do imóvel (um
texto oral foi retextualizado em um texto escrito); esse regulamento pode ser
transformado em um documento escrito para ser registrado em cartório como
adendo da convenção do condomínio (um texto escrito para outro texto escrito); esse
documento pode ser assunto de uma conversa entre funcionários do cartório
interessados no assunto tratado no documento (o texto escrito foi retextualizado em
um texto oral); um dos funcionários do cartório conta para seus familiares a respeito
da conversa entre os funcionários sugerindo que no prédio em que mora aconteça
uma reunião de condomínio (trata-se de uma retextualização de um texto oral para
outro texto oral). (DELL’ISOLA, 2007, p. 37).
Ao exemplificar com situações tomadas como eventos comuns da vida social e que
exemplificam bem operações de retextualizações de textos, Dell’Isola considera ainda o fato
de que os exemplos ilustram “que um mesmo conteúdo pode ser retextualizado de muitas
maneiras” (p. 37). A cada vez que o conteúdo de um texto é retextualizado na constituição de
um novo texto, temos uma informação sendo dita de uma forma diferente, na qual
estabelecemos uma nova situação comunicativa e cumprimos diferentes propósitos
comunicativos.
Assim, como vimos, várias operações estão relacionadas ao processo de
retextualização, como observa Dell’Isola (2007). A retextualização envolve operações que
interferem tanto no código como no sentido dos textos, nas relações que estes mantêm entre
si, seja no âmbito da oralidade para a escrita, ou vice-versa, ou mesmo permanecendo na
mesma modalidade, oralidade-oralidade e escrita-escrita. Portanto, um estudo fundamentado
88
sobre a noção de retextualização, tal como viemos discutindo, não pode ignorar o papel do
gênero, já que, numa nova textualização, podemos ter um novo texto, que realiza uma nova
ação retórica, justamente porque participa de um ou mais gêneros, como é o caso dos textos
que compõem o corpus desta pesquisa.
Matêncio (2002 e 2003) considera que a textualização está relacionada ao
agenciamento de recursos linguageiros para a realização de operações linguísticas, textuais e
discursivas, já a retextualização “envolve a produção de um texto a partir de um ou mais
textos-base” (2003, p. 03 e 04). Para a autora, nesse processo, “o sujeito trabalha sobre as
estratégias linguísticas, textuais e discursivas identificadas no texto-base para, então, projetálas tendo em vista uma nova situação de interação, portanto um novo enquadre e um novo
quadro de referência” (2003, p. 04). Afirmar isso significa entender a retextualização como
um processo que envolve relações entre gêneros e textos, e ainda entre discursos.
Nesse sentido, a atividade de retextualizar, segundo a autora, não deve ser
confundida com a de reescrita, já que, para Matêncio, a ação de revisar/reescrever é
significativamente distinta da de produzir um novo texto a partir de um que lhe antecede na
leitura: “as variáveis que interferem nesses dois processos não se comportam de forma
semelhante” (p. 112). Assim, na retextualização, os dois textos, o texto-base e o
retextualizado, são elaborados com propósitos específicos. Matêncio (2002) considera que se
a retextualização consiste em produzir um novo texto, é possível dizer que toda e qualquer
atividade de retextualização implica mudança de propósito.
Por outro lado, Marcuschi (2010 [2000]) e Dell’Isola (2007) não descartam a
possibilidade de haver retextualização a partir da reescrita, onde não há, necessariamente,
mudança de propósito, mas são desenvolvidas operações complexas que não equivalem a uma
simples revisão textual. Porém, a partir do recorte teórico-metodológico que fizemos, o
processo de retextualização que analisamos especificamente neste trabalho implica a
produção de um novo texto a partir de um primeiro, com mudança de gênero, de situação
comunicativa e, portanto, de propósito. Em nossa tese, desenvolvemos um estudo do
89
processamento dos textos-fonte na webnotícia, na retextualização entre textos escritos,
considerando a produção de um texto a partir de um ou mais textos-base28.
Em todo caso, Marcuschi (2010 [2000]) já aponta para a necessidade de ver o
processo de retextualização como uma atividade que envolve diferentes combinações e
variáveis importantes. Tratamos disso mais especificamente na subseção 2.1.1.
2.1.1 O legado de Marcuschi para o estudo da retextualização
Como em Marcuschi (2010 [2000]) o objetivo é tratar mais especificamente das
relações e diferenças entre as modalidades falada e escrita da língua, são analisados casos de
textos orais retextualizados, em situações concretas, para textos escritos. O autor argumenta a
favor da desmistificação de uma suposta supremacia da modalidade escrita da língua sobre a
falada. Para tanto, considera que “a retextualização não é, no plano da cognição, uma
atividade de transformar um suposto pensamento concreto em um suposto pensamento
abstrato” (p. 47-48, grifos do autor).
Assim, Marcuschi mostra que entre fala e escrita é possível que haja diferentes
combinações para ocorrência do fenômeno da retextualização. Reproduzimos o Quadro
elaborado e discutido pelo autor:
Quadro 2: Possibilidades de retextualização
1. Fala
Possibilidades de retextualização
–
Escrita → (entrevista oral – entrevista impressa)
–
Fala
→ (conferência – tradução simultânea)
3. Escrita –
Fala
→ (texto escrito – exposição oral)
Escrita
→ (texto escrito – resumo escrito)
2. Fala
4. Escrita –
Fonte: Marcuschi (2010 [2000], p. 48).
28
Neste trabalho os termos texto-base e texto-fonte são equivalentes.
90
Considerando as diferentes possibilidades de combinação entre as situações de fala e
escrita, Marcuschi assegura que lidamos diariamente com situações automatizadas de
sucessivas reformulações de textos, em diferentes registros, gêneros, níveis linguísticos e
estilos. O autor afirma que o processo de retextualização acontece todas as vezes em que
repetimos ou relatamos a fala de alguém, ou até mesmo em citações ipsis verbis
transformamos, reformulamos, recriamos e modificamos uma fala em outra.
Marcuschi (2010 [2000]) propõe que imaginemos situações corriqueiras do dia a dia,
para pensarmos como estamos sempre lidando com os processos de retextualização, numa
relação diversificada entre a sociedade e seus jogos linguísticos:
veja-se o caso de um documento discutido publicamente e que deve, de uma
primeira versão escrita, chegar a uma versão final. Suponhamos que o documento
seja a proposta governamental de um texto de Lei que vai ser debatido em plenário
na Câmara dos deputados, recebendo emendas; depois será discutido nos jornais, na
TV e no rádio para, finalmente, ir à votação e receber a versão final. Imagine-se
quantas modificações ocorreram nesse processo de retextualização a ‘múltiplas
mãos’ que foi, em princípio, uma ação de reescrita, situada na sugestão (4), com o
movimento de um {texto escritoa} para outro {texto escritob}. O fato é comum no
dia a dia de todos nós (p. 49).
A situação hipotética apresentada, na citação acima, por Marcuschi (2010 [2000]) se
assemelha a muitas outras situações reais, em que vários textos são formados a partir de um
primeiro. Muitas vezes nos apropriamos das informações de um texto X e as reformulamos, já
noutras situações de uso linguístico, com outras finalidades, adaptando, reformulando,
moldando as informações de acordo com o nosso objetivo de comunicar. Nessa intrincada
relação de textos sendo feitos e refeitos a partir de outros, lidamos com a retextualização em
nosso dia a dia, e nem sempre nos damos conta disso.
Olhando para a nossa proposta de pesquisa, analisamos notícias cujas informações
foram retiradas principalmente de um texto-base (ou texto-fonte) específico, ou seja, a
informação principal da notícia consta no texto-base. Logo, a produção dessa notícia se fez,
sobretudo, por um processo de retextualização. Considerando a popularidade do gênero
notícia em nosso meio social, temos um caso em que a retextualização acontece de maneira
bastante automatizada, de modo que o sujeito se utiliza de várias estratégias textuais para
composição rápida do texto, e normalmente tem em vista informações oriundas de outros
textos, que lhe servem de fonte.
91
Marcuschi (2010 [2000]) argumenta que “nossa produção linguística diária, se
analisada com cuidado, pode ser tida como um encadeamento de reformulações, tal o
imbricamento dos jogos linguísticos praticados nessa interdiscursividade e intertextualidade”
(p. 49). Na notícia não é diferente, até porque, como vimos no capítulo 2, a fonte é um fator
de credibilidade, de idoneidade da informação, para que a notícia funcione socialmente como
veiculadora de fatos, de verdades.
No estudo de Marcuschi (2010 [2000]), são analisadas apenas situações presentes
nos processos de retextualização encontradas na primeira situação apontada no Quadro 2, na
passagem do texto falado para o texto escrito, em que o autor sugere uma sistematização para
o estudo dessas operações, que ocorrem naturalmente em nossas experiências diárias. Mesmo
se referindo mais especificamente a situações de passagem da fala para a escrita, Marcuschi
faz considerações importantes acerca da retextualização e chama a atenção para distinções
entre noções teóricas que, embora parecidas, não se confundem.
Dentre essas, o autor faz, por exemplo, a distinção entre a noção de retextualização e
a de transcrição, e afirma que “as mudanças operadas na transcrição devem ser de ordem a
não interferir na natureza do discurso produzido do ponto de vista da linguagem e do
conteúdo” (p. 49). Nesse sentido, transcrever está relacionado a um processo de passar um
texto de sua realização sonora para a forma gráfica, respeitando, para isso, procedimentos
convencionalizados. Já na retextualização “a interferência é maior e há mudanças mais
sensíveis, em especial no caso da linguagem” (MARCUSCHI, 2010 [2000], p. 49).
Com base no trabalho desenvolvido por Rey-Debove (1996) acerca do francês,
Marcuschi (2010 [2000]) entende que as mudanças sensíveis de linguagem estão mais
diretamente relacionas aos planos oral e escrito da língua, como: (1) nível da substância da
expressão ou a materialidade linguística na correspondência entre letra e som, entrando ainda
em questões idioletais e dialetais; (2) nível da forma da expressão, os signos falados e os
signos escritos, na distinção entre a forma do grafema (a grafia usual) e do fonema (a
pronúncia) – diferenças mais acentuadas no francês; (3) nível da forma do conteúdo ou as
relações entre as unidades significantes orais e as correspondentes unidades significantes
escritas que operam como sinônimas no plano da língua, mas de realização diferente na fala e
92
na escrita; e (4) nível da substância do conteúdo ou realizações linguísticas que se equivalem
do ponto de vista pragmático, no uso situacional e contextual específico.
A interpretação é condição necessária na transcrição do texto falado para o texto
escrito e, nessa passagem, o caráter originário e pessoal do texto oral passa por uma
neutralização devido à transcodificação para o escrito com todas as consequências inerentes a
esse processo. No entanto, Marcuschi (2010 [2000]) advoga pela necessidade de distinção
entre a transcodificação, a passagem do sonoro para o gráfico, e a adaptação, “uma
transformação na perspectiva de uma das modalidades e que aqui chamaremos
sistematicamente de retextualização” (p. 52, grifos do autor). Logo, a retextualização deve ser
entendida, basicamente, como adaptação, que consiste, segundo o teórico, na transformação
realizada em uma das modalidades oral e/ou escrita da língua.
A partir dessa definição de retextualização como adaptação, Marcuschi (2010
[2000]) chama atenção ainda para a relevância de algumas variáveis importantes no estudo da
retextualização em situações de fala e escrita:
 O propósito ou objetivo da retextualização;
 A relação entre o produtor do texto original e o transformador;
 A relação tipológica entre o gênero textual original e o gênero da retextualização;
 Os processos de formulação típicos de cada modalidade.
Na primeira variável, o propósito ou o objetivo da retextualização, há uma diferença
acentuada no nível da linguagem do texto, dependendo da finalidade de uma transformação (a
fala formal pode receber uma transformação mais descontraída e a fala informal pode receber
uma transformação mais formal, por exemplo). Para Marcuschi (2010 [2000]), o mais
importante a considerar nesse sentido é que a retextualização não é indiferente aos seus
objetivos ou propósitos. Acrescentamos que, além de atentarmos para o objetivo ou propósito
do autor com a retextualização, é preciso atentar ainda para o objetivo ou propósito do gênero
de que ambos os textos, o texto-base e o retextualizado, participam.
93
Na relação entre o produtor do texto original e o transformador, Marcuschi (2010
[2000]) afirma que há a possibilidade de o texto ser “refeito” pela mesma pessoa que o
produziu ou por outra. Segundo Marcuschi, quando uma “refacção” é feita pelo próprio autor,
a mudança pode ser mais drástica que por outra pessoa, que normalmente demonstra mais
“respeito”, fazendo mais intervenções na forma e menos mudança no conteúdo.
Na imbricada relação de produções textuais e as finalidades para as quais essas
produções são feitas, podemos admitir que é possível também que a transformação do texto
original seja mais acentuada quando o transformador não é o próprio autor do texto original.
Isso vai depender da primeira variável apontada pelo autor, o propósito ou objetivo da
retextualização. Em se tratando de textos midiáticos, a fala de uma personalidade pública,
política ou artística, por exemplo, pode ser reconfigurada para outro sentido, de acordo com
finalidades específicas do sujeito que faz a retextualização.
Sobre a relação tipológica, na transformação de um gênero textual oral para o mesmo
gênero escrito, Marcuschi (2010 [2000]) considera que são percebidas menos mudanças que
de um gênero para outro. Nos processos de formulação, há a questão das estratégias de
produção textual vinculadas a cada modalidade oral e escrita da língua. Mesmo não se
tratando de situações em que há a passagem entre as modalidades oral e escrita, as mudanças
ou transformações vão estar relacionadas ao propósito e ao funcionamento social do gênero,
que de certa forma vai orientar o autor na sua produção.
Já os processos de formulação típicos de cada modalidade, oral e escrita, estão
relacionados aos condicionamentos e especificidades típicos e próprios das modalidades oral e
escrita da língua, que são diversas, sobretudo, quanto ao modo de organização
textual/discursiva, que é própria de cada modalidade. Importante atentar para o fato de que as
quatro variantes estão intimamente relacionadas, ao ponto de não ser possível examinar uma,
e simplesmente desconsiderar as outras.
Mesmo tendo em vista a retextualização da modalidade oral para a modalidade
escrita da língua, Marcuschi (2010 [2000]) nos aponta diretrizes importantes para o estudo de
outros processos de retextualização, que não somente a passagem da fala para a escrita. Uma
consideração importante apontada pelo autor é a de que as operações de retextualização são
94
atividades conscientes que seguem os mais variados tipos de estratégias textuais. Nessas
estratégias, há a possibilidade de uma forma linguística ser eliminada, de outra ser
introduzida, e de outras serem substituídas e/ou reordenadas. Para o autor, “nesse processo de
reescrita (que vai além da transcodificação processada na transcrição inicial da fala), entram
em ação algumas estratégias de regularização linguística” (MARCUSCHI, 2010 [2000], p.
55).
É notável, portanto, que as quatro variáveis, já mencionadas, apresentadas por
Marcuschi (2010 [2000]) para o estudo dos processos de retextualização, em situações de
passagem da fala para a escrita, encontram-se ligadas a uma série de fatores de ordem
linguístico-textual-discursiva e ainda cognitiva, normalmente relacionados ao complexo
processo de produção textual. Um dos fatores mencionados pelo autor é a “corretude
intuitiva” para a norma padrão da língua, que é apontada como uma das mudanças mais
elementares na passagem do texto oral para o texto escrito.
Além dessa, segundo Marcuschi, há operações que afetam diretamente as estruturas
discursivas, o léxico, o estilo, a ordenação tópica, a argumentatividade. Essas se encontram
relacionadas diretamente à reordenação cognitiva e à transformação que ocorre tanto na forma
quanto na substância do conteúdo, processadas devido à mudança na qualidade de expressão.
Vemos, todavia, que essa “corretude intuitiva” para a norma padrão da língua,
mencionada por Marcuschi (2010 [2000]), também acontece na retextualização entre gêneros
escritos. Na notícia, essa “correção” faz parte das características do próprio gênero, cujos
textos, normalmente, são escritos na modalidade padrão da língua. A construção da notícia
tanto pode ter por base um texto oral, um depoimento ou uma entrevista, por exemplo, como
um texto escrito, que não esteja na modalidade padrão da língua. Dessa forma, a
transformação para a modalidade padrão da língua é condicionada pelo próprio gênero.
O Quadro 3 mostra a proposta de Marcuschi (2010 [2000]) de distribuição dos
fenômenos a serem analisados nos processos de retextualização:
95
Quadro 3: Aspectos envolvidos no processo de retextualização
Fonte: Marcuschi (2010 [2000], p. 69).
O autor considera que, devido à dificuldade de precisar os limites entre os aspectos
linguísticos-textuais-discursivos e os cognitivos, há indícios de que tal separação se trate
muito mais de uma gradação. Nesse sentido, os conjuntos A, B e C, do Quadro 3, conduzem
ao entendimento das operações linguísticas-textuais-discursivas como um todo. Já o conjunto
D, do aspecto cognitivo, conduz os processos relativos à compreensão de um modo geral,
levando a operações complexas como as inferências e os falseamentos.
Marcuschi (2010 [2000]) explica que os blocos A e B envolvem processos de
natureza linguística-textual-discursiva, relacionadas a evidências empíricas, de modo que
atuam de forma mais pontualizada na estrutura linguística, porém com repercussão direta no
discurso. O bloco C engloba as operações de citação, no tratamento dos turnos, e aparece
separado porque envolve, segundo o autor, atividades especiais que não são tão corriqueiras
como parecem. O bloco D se relaciona às operações cognitivas e, portanto, é o trabalho mais
complexo, distribuindo-se ao longo de todas as outras operações, e o menos trabalhado.
Marcuschi (2010 [2000]) considera que esse bloco pede um modelo específico, tendo em vista
que, para transformar um texto, é necessário compreendê-lo pelo menos em parte.
Considerando as definições introdutórias de Marcuschi (2010 [2000]), vemos como
um estudo do processo de retextualização realizado conjuntamente a um estudo de gêneros
pode ser produtivo para o entendimento, tanto do processamento de retextualização entre
gêneros diferentes como do funcionamento sociorretórico dos gêneros. Em nossa pesquisa,
analisamos o processo de retextualização entre gêneros escritos, na passagem de um texto
96
escrito, que participa de um ou mais gêneros, para outro texto escrito, que participa da
webnotícia.
2.2 O processo de retextualização como enfoque de pesquisas acadêmicas
Várias pesquisas acadêmicas já foram realizadas acerca da retextualização de textos
falados para textos escritos e as atividades envolvidas nessa transformação, e todas partem das
considerações de base de Marcuschi (2010 [2000]). Por outro lado, pesquisas acadêmicas
também vêm sendo realizadas em torno da transformação que ocorre na passagem de textos
escritos para textos falados e, ainda, na retextualização entre textos escritos. Destacamos nesta
seção alguns trabalhos já desenvolvidos, a fim de situarmos nossa pesquisa tanto em relação a
esses trabalhos como em relação ao aspecto da retextualização que temos em vista
especificamente nesta tese.
Com pesquisa no âmbito da retextualização de textos falados para textos escritos,
Nascimento (2007) investigou, em sua dissertação, o evento Tomada de Depoimento, onde
acusados, testemunhas e vítimas relatam ou esclarecem fatos aos “operadores do direito” (p.
11), que são os sujeitos socialmente autorizados a tomarem depoimento: o juiz ou o delegado.
O evento Tomada de Depoimento pressupõe, portanto, a presença de três atores: o acusado,
que é testemunha e/ou vítima, o delegado/juiz e o escrivão. Assim, o juiz/delegado interroga o
acusado (testemunha e/ou vítima) e, de acordo com o que este fala, retextualiza para que o
escrivão registre o depoimento escrito.
Abasse (2008), com o propósito de fazer uma pesquisa que contribuísse para a
ampliação das possibilidades de trabalho do professor em sala de aula, analisou a produção do
resumo escolar como uma prática escolar resultante da atividade de retextualização, em que se
produz um novo texto a partir de um primeiro, que participa, por sua vez, de outro gênero.
Logo, foram investigados processos envolvidos na retextualização escrita de textos para o
gênero resumo-escolar, com base nas postulações de Marcuschi (2001 [2000]), Matêncio
(2002) e Dell’Isolla (2007), acerca dos processos de retextualização, e de Koch (1992), sobre
97
malha tópica. As conclusões da pesquisa apontaram para a existência de uma reordenação
tópica do texto, com uma notável redução de informações, com omissões e seleções, e que o
aprendizado do gênero resumo pelo aluno por meio da retextualização de outros textos se
mostra como um instrumento eficaz de ensino-aprendizagem da escrita.
Malta (2008), em sua dissertação, analisou a retextualização no conto tradicional,
investigando a existência ou não de “refinamento das narrativas orais e escritas produzidas
pelos alunos de diferentes grupos sociais em relação às narrativas produzidas pelos mesmos,
antes e depois do contato, uso e análise de um conto tradicional” (p. 19). Já a tese de Militão
(2007), também realizada sobre as produções escritas, foca os alunos de graduação. A
pesquisa compreende uma análise dos aspectos cognitivos e culturais na retextualização de
textos acadêmicos, realizando uma descrição dos movimentos cognitivos dos alunos, através
de verificação da relação entre a definição prévia dos objetivos da aula e os movimentos
cognitivos necessários à sua escuta, compreensão e retextualização em textos escritos.
Também situadas na esfera acadêmica, Mata (2009) e Marega (2009) desenvolveram,
respectivamente, um estudo sobre os processos referenciais na retextualização de textos
acadêmicos, na retextualização entre textos escritos, e um estudo comparativo da organização
tópica de palestras e suas retextualizações, considerando a relação entre língua falada e língua
escrita
Com pesquisa realizada também no âmbito acadêmico, mais recentemente, a tese de
Silva (2013) apresenta um estudo do processo de retextualização na exposição oral acadêmica
de alunos da graduação, investigando as relações entre compreensão de textos base e de textos
de apoio e a mobilização de processos de retextualização. A análise de dados mostrou que os
expositores demonstram envolvimento com o conteúdo de textos-base ao se posicionarem
sobre eles ou ao fazerem exemplificações a partir da análise do tema, mas apresentam também
dificuldades na produção da exposição oral acadêmica, sobretudo, no sentido de atender à
formalidade do gênero.
Trabalhando com o gênero notícia, Grijó (2011) partiu do objetivo de estudar e
propor metodologias de ensino que aperfeiçoassem o processo de desenvolvimento das
habilidades de leitura e escrita de alunos e, como outras pesquisas acadêmicas sobre o
98
processo de retextualização, voltou-se para o ambiente da sala de aula. A autora desenvolveu
pesquisa com o processo de retextualização entre gêneros escritos, analisando produções
textuais de alunos da “turma de projetos” (conforme era conhecida na escola em que a
pesquisa aconteceu), de uma escola do estado de Minas Gerais. A turma era formada por
alunos retidos no final do 9º Ano do Ensino Fundamental, por ser observado que eles não
possuíam habilidades e competências desenvolvidas suficientemente para o Ensino Médio.
Para analisar as fábulas e as notícias produzidas pelos alunos, a autora se baseou
teoricamente nas postulações de Mann & Thompson (1983), Decat (2010) e Antonio (2004),
sobre a Teoria da Estrutura Retórica, na concepção de gêneros de Bakhtin (2003 [1979]) e de
Bazerman (2006) e nos pressupostos teóricos e de análises de retextualização de Marcuschi
(2010 [2000]) e Dell’Isola (2007). Metodologicamente, Grijó (2011), em sala de aula com os
sujeitos da pesquisa, utilizou uma primeira proposta de produção textual do livro didático
adotado na escola; posteriormente, propôs aos alunos novas produções textuais baseadas na
retextualização.
Metodologicamente, a pesquisa de Grijó (2010) foi organizada em etapas didáticas:
depois da leitura de uma fábula (O Lobo e o Cordeiro), a autora propôs aos alunos uma
retextualização da mesma narrativa (um reconto) no mesmo gênero, a fábula. Em seguida,
pediu que os alunos retextualizassem mais uma vez, desta vez produzindo um texto no gênero
notícia. A autora chama a atenção para o fato de que a produção textual se deu depois do
contato com o gênero notícia por meio de jornais e revistas diversos. Conforme Grijó, foram
levados em conta os processos de leitura e produção dos textos trabalhados, buscando
envolver os alunos no processo de escrita, com a utilização de textos reais e, dentre outros
aspectos, chamando a atenção para a relativa instabilidade dos gêneros.
O gênero notícia aparece na terceira etapa da pesquisa, em que, numa segunda
retextualização (a primeira, como já dissemos, foi do gênero fábula para o gênero fábula), os
alunos são motivados a produzirem uma notícia a partir da fábula já estudada em sala de aula.
Segundo a autora, os textos produzidos evidenciaram compreensão por parte dos alunos da
proposta textual da pesquisadora, muito embora o fato noticiado, mesmo acrescido de
99
informações reais oriundas do convívio social dos educandos, tenha partido de um fato
construído e já retirado da própria fábula.
Para a sala de aula, a saída utilizada por Grijó (2010) parece ser bastante eficaz, já
que foge de uma rotina de produção escrita que apenas seguia uma proposta de atividade do
livro didático, se enriquece com outras fontes de leituras (como revistas e jornais) e, na leitura
e discussão desses, cria uma situação de produção que, certamente, motiva a produção textual
dos alunos. O trabalho com a produção escrita de forma situada, considerando o gênero que
está sendo produzido e o que está envolvido na produção desse gênero, como o que se diz,
para quem e para quê se diz, decerto otimiza o trabalho do professor e aponta para resultados
positivos no que diz respeito ao aprendizado dos educandos.
Diferentemente de Grijó (2010), em nossa pesquisa, não objetivamos propor
metodologias para o ensino e/ou o trabalho com a produção textual escrita no Ensino Básico,
nem mesmo no Ensino Superior. Mesmo sabendo da importância do trabalho com o processo
de retextualização no ensino, sobretudo no trabalho de desenvolvimento das habilidades de
leitura e escrita dos alunos, nosso estudo vê a retextualização sob outro ângulo. Embora, como
Grijó (2010), trabalhemos também com o gênero notícia, vemos o processo de retextualização
a partir de uma situação real de produção textual, através da análise do processamento da
informação na construção da notícia publicada em portais jornalísticos, na internet.
Pelos trabalhos sobre retextualização mencionados nessa seção 2.2, percebemos que
há uma predominância de estudos com o processo de retextualização voltados para o ensino,
na educação básica e no âmbito acadêmico, com pesquisas sobre organização, compreensão e
produção de textos que participam de diferentes gêneros. A retextualização, normalmente, é
investigada em situações reais de uso linguístico, seja no âmbito educacional ou fora dele, e
utilizada como ferramenta didática na sala de aula, para desenvolver diferentes habilidades
almejadas pelo ensino formal.
Fora das pesquisas realizadas no âmbito educacional e/ou acadêmico, Gomes (1995)
desenvolveu, em sua dissertação, um trabalho sobre jornalismo científico, estudando os
mecanismos linguísticos envolvidos na transposição de entrevistas com cientistas em textos
jornalísticos publicados em jornais impressos. A autora se baseou fundamentalmente em
100
Marcuschi (1993), no texto “Da fala para a escrita”29, precursor do livro “Da fala para a
escrita: atividades de retextualização”, cuja primeira edição data de 2000, e em Van Dijk
(1985; 1989; 1990; 1992) sobre a transformação de textos-fontes em textos jornalísticos.
O objeto de análise da pesquisa de Gomes (1995) foram entrevistas concedidas por
cientistas a jornalistas e as matérias jornalísticas oriundas das informações cedidas nas
entrevistas pelos cientistas. Assim, a autora analisou quatro conjuntos de textos formados por
matérias publicadas na editoria de Ciência / Meio ambiente do Jornal do Commercio, do
Recife, juntamente com as entrevistas orais que as originaram.
Embora reconhecesse a existência e o envolvimento de mais textos, Gomes (1995)
optou por analisar em sua pesquisa apenas a entrevista como constituinte da modalidade de
texto-fonte. Segundo a autora, isso se deu para que não fossem criados problemas
metodológicos, como a falta de uniformidade dos critérios de análise, com a análise de textos
falados para textos escritos, em um momento, e de textos escritos para textos escritos, em
outro, e a dificuldade de controle dos textos-fonte, já que alguns desses, como ligações
telefônicas, para a checagem de informações, são textos cujo acesso se torna difícil.
Na análise dos dados, Gomes (1995) explicou processos resultantes da
retextualização da entrevista oral para o texto jornalístico, no tocante à redução do volume de
linguagem e às operações linguísticas envolvidas nesse processo, bem como as implicações
em relação ao texto-fonte. Foi tratado ainda, na análise, das transformações ocorridas em
citações indicadas como textuais e da estrutura dos textos jornalísticos, formada, basicamente,
pelos títulos, antetítulos, subtítulos e lides.
Gomes (1995) concluiu que a transformação de entrevistas em matérias jornalísticas
tem por princípio a redução informacional (p. 71). Isso foi visto pela autora como um
princípio redutor que se deve a duas razões básicas: a primeira é que o texto produzido na
entrevista jornalística (direcionada a veículos impressos) é excessivamente redundante; e a
segunda se deve às normas do jornalismo, que levam à eliminação de muitas informações.
Para a autora, na retextualização da entrevista jornalística para o texto jornalístico, entram em
29
Trata-se de uma cópia mimeografada.
101
ação operações que suprimem características da fala e adequam estilisticamente o texto às
normas do jornalismo, ocorrendo juntamente com o princípio redutor. Gomes considerou que,
apesar de o princípio redutor se assemelhar às estratégias do resumo, ele vai além da
sintetização, por implicar a supressão de informações. Nesse sentido, a autora elencou três
elementos que dão a base do que ela denomina de princípio redutor: a clareza, a simplicidade
e a concisão.
Esses princípios, conforme a autora, correspondem a necessidades contrárias do
jornalismo de, a partir de uma entrevista extensa, produzir uma matéria curta. Nesse sentido, a
clareza e a simplicidade visam ao público, para que o leitor não faça exercícios complicados
de textos longos, e a concisão, além de considerar o leitor, é devida a pouca disponibilidade
de espaço editorial. Por concisão, Gomes (1995) entende a exposição de ideias de forma
sucinta, mas ainda a eliminação de informações menores, consideradas secundárias.
A análise do trabalho foi baseada nas categorias de eliminação, substituição,
acréscimo e reordenação, considerando os modelos teóricos sugeridos por Van Dijk (1985;
1989; 1990; 1992) e Marcuschi (1993). Os termos utilizados pela autora foram, basicamente,
aqueles apresentados por Van Dijk, porém, as categorias envolviam e englobavam as
apresentadas por Marcuschi. Além dessas categorias, preocupada com a repercussão da
retextualização do texto-fonte, a autora analisou também a conservação do conteúdo e a
alteração do conteúdo. Esses podem ocorrer em níveis de gradação, com a alteração podendo
envolver desde a supressão até o falseamento de informações.
As categorias teóricas para a análise da retextualização, no processamento dos
textos-fonte no texto jornalístico, foram eleitas a partir de uma fusão entre as categorias
propostas por Marcuschi (1993) e as categorias propostas por Van Dijk (1985; 1989; 1990;
1992). Segundo Gomes (1995), embora as categorias propostas por Van Dijk sejam
pertinentes, o autor limita as observações ao aspecto informacional, e Gomes entendeu que as
operações de transformação do texto-fonte em matéria jornalística repercutem também nos
itens lexicais, nos conectivos, e nos tempos verbais e modos empregados, ou seja, mostram a
necessidade que o estudo vá além do nível informacional.
102
A utilização dos modelos teóricos propostos por Marcuschi e Van Dijk também está
relacionada à proposta da pesquisa de Gomes, que lida com a transformação da fala em escrita
e a redução das informações do texto-fonte. Nesse sentido, não vemos a proposta de Van Dijk
como limitada por se ater fundamentalmente ao aspecto informacional, haja vista que o autor
visa ao processamento dos textos-fonte para construção do discurso jornalístico, que é
formado, sobretudo, por informações. Logo, não é a proposta de Van Dijk que é limitada é a
pesquisa de Gomes que se atém mais especificamente à transformação da fala em escrita, um
fenômeno que envolve, além do processamento de informações, outras características
específicas de cada modalidade da língua.
Concordamos com a afirmação de Gomes (1995, p. 91), quando ela diz que nos dois
modelos apresentados, de Marcuschi e Van Dijk, temos operações similares. No modelo
proposto por Van Dijk são apresentadas basicamente quatro operações para a retextualização
de textos-fonte em textos jornalísticos: a eliminação, a substituição, que envolve ainda a
generalização e a integração, o acréscimo e a reordenação. Nas operações para a
retextualização da fala para a escrita, fora aquelas apresentadas por Van Dijk, Marcuschi
acrescenta a seleção. A análise empreendida por Gomes utilizou as operações de Van Dijk e
Marcuschi que coincidem, quais sejam a eliminação, a substituição, o acréscimo e a
reordenação.
Na estratégia de eliminação, Gomes (1995) analisou a eliminação das marcas de
oralidade (na passagem do texto oral para o escrito), a eliminação de informações, a
eliminação sintática (com a reordenação de informações) e a eliminação lexical. Na estratégia
de substituição, analisou a substituição informacional (que visa a atender as normas de escrita
jornalística, que tem como objetivo deixar o texto conciso), a substituição lexical (com a
regularização linguística para atender aos cânones do jornalismo) e a substituição sintática
(que pode ir desde a substituição de um tempo verbal até a reestruturação sintática de
orações). Na estratégia de acréscimo, foram analisados os acréscimos de marcas da escrita, o
acréscimo informacional, o acréscimo lexical e o acréscimo sintático. Na estratégia de
reordenação, que é determinada por critérios de relevância, foram analisadas a reordenação
informacional (localizando as informações julgadas como mais importantes para o início do
103
texto e os detalhes e/ou informações secundárias para o final) e a reordenação sintática (com a
mudança na estrutura sintática das orações).
Assim, vemos organizadas as estratégias de retextualização, e os desdobramentos
dessas, diagnosticadas por Gomes em seu estudo, a partir da análise do corpus, no Quadro 4:
Quadro 4: Estratégias de Retextualização e desdobramentos destas a partir da análise de corpus de Gomes
(1995)
ESTRATÉGIAS DE
RETEXTUALIZAÇÃO
Eliminação
Desdobramentos das estratégias a partir da
análise do corpus
Eliminação das marcas de oralidade;
Eliminação de informações;
Eliminação sintática;
Eliminação lexical.
Substituição
Substituição informacional;
Substituição lexical;
Substituição sintática.
Acréscimo
Acréscimo de marcas da escrita;
Acréscimo informacional;
Acréscimo lexical;
Acréscimo sintático.
Reordenação
Reordenação informacional;
Reordenação sintática.
Fonte: adaptado de Gomes (1995).
Pela investigação realizada, Gomes (1995) concluiu que acontecem eliminações de
informações das entrevistas para os textos jornalísticos consideradas relevantes pelos
entrevistados, embora isso não comprometa o conteúdo global do(s) texto(s)-fonte. As
diferenças no enfoque no texto do entrevistado e no texto do jornalista ocorrem devido a
mudança de perspectiva de interesse de ambos os textos. Logo, o texto jornalístico é
altamente parafrástico em relação às entrevistas jornalísticas nas quais está baseado, e isso se
deve tanto para a simplificação do conteúdo como pela necessidade de concisão do texto
jornalístico. Todavia, mesmo nenhuma das citações diretas feitas pelo jornalista
104
correspondendo literalmente à fala do pesquisador, as mesmas preservaram o conteúdo
proposicional do texto original, o que não trouxe “prejuízos significativos ao conteúdo das
supostas ‘citações textuais’” (p. 171). A autora ressalta que muitas construções que
modificavam os enunciados os tornavam mais claros e adequados ao estilo jornalístico.
Na dissertação de Gomes, temos a análise da redução das informações do textofonte, com o estudo da retextualização de entrevistas fornecidas por cientistas a jornalistas
para o texto jornalístico produto das informações veiculadas na entrevista. Logo, nesse estudo,
o processo de retextualização é visto a partir da transformação da fala em escrita, entrevista
jornalística para texto jornalístico.
Por outro lado, embora a nossa pesquisa tenha em vista a construção de textos
jornalísticos, estando focada, especialmente, no gênero notícia, analisamos casos de
retextualização da escrita para a escrita. Nosso estudo vê o processo de retextualização do
gênero notícia, com textos publicados por portais jornalísticos, ou seja, notícias produzidas
especialmente para circularem na internet, chamadas por nós, neste trabalho, de webnotícias.
Vemos o processo de retextualização como uma das ferramentas de produção da webnotícia,
bem como os desdobramentos desse processo para o entendimento do funcionamento do
gênero enquanto artefato social.
Nesse sentido, nosso corpus de trabalho é constituído por notícias publicadas em
portais jornalísticos e pelo texto-base utilizado como fonte principal, pois como nossa
pesquisa tem em vista apenas gêneros escritos, trabalhamos com a transformação de textos
escritos em textos escritos. Assim, empreendemos ao mesmo tempo um estudo do processo de
retextualização da webnotícia e um estudo do gênero, examinando os condicionamentos e as
especificidades do processo de retextualização para a produção e funcionamento desse gênero
notícia.
Logo, a pesquisa feita por Gomes (1995) é importante para o nosso trabalho, porque
nos aponta direcionamentos metodológicos para a análise do processo de retextualização na
notícia, muito embora a pesquisa da autora apresente diferenças notáveis de construção do
objeto de pesquisa em relação a nossa. Ainda assim, acreditamos que a escolha das estratégias
de retextualização a partir daquelas propostas por Van Dijk (1985; 1989; 1990; 1992) e por
105
Marcuschi (1993; 2000) são, conforme afirma a autora, suficientes para uma análise da
retextualização em textos jornalísticos.
No capítulo 5, em que examinamos a retextualização na construção da webnotícia,
analisamos quatro estratégias, entendidas aqui como suficientes para chegarmos a conclusões
importantes sobre o processo de retextualização e, consequentemente, sobre o processamento
da informação na construção da webnotícia. Analisamos as estratégias de eliminação,
acréscimo, substituição e eliminação, na webnotícia, focando mais especificamente no
processamento da informação, através da comparação da webnotícia com o seu textofonte/texto-base principal.
Defendemos, portanto, que o estudo da retextualização, seja no ambiente educacional
ou fora dele, precisa, necessariamente, estar relacionado à noção de gênero, já que as
configurações socialmente compartilhadas do gênero atuam de maneira significativa no
processo de formulação de um segundo texto a partir das informações de um primeiro. Em
nossa pesquisa, como já dissemos, empreendemos um estudo tanto do processo de
retextualização na webnotícia como um estudo do gênero, considerando o processo de
retextualização no processo de produção desse gênero. Apresentamos e discutimos as
definições teóricas de gênero que nortearão nossa tese no capítulo 3.
106
107
3. O GÊNERO NA PERPECTIVA DA SOCIORRETÓRICA
No capítulo 2, tratamos sobre o processo de retextualização, discutindo, inicialmente
sobre a noção de retextualização, a partir das considerações teóricas de autores da literatura de
base da área. Tratamos ainda sobre o legado de Marcuschi (2010 [2000]) para os estudos de
retextualização, em que, além de definir e caracterizar a retextualização, o autor faz reflexões
importantes para os direcionamentos metodológicos das pesquisas centradas nesse processo.
Na seção 2.2, apresentamos algumas pesquisas acadêmicas sobre o processo de
retextualização, dentre elas, a de Gomes (1995), que analisa a retextualização em textos
jornalísticos, com base nos modelos propostos por Marcuschi (1993/2000) e por Van Dijk
(1985; 1989; 1990; 1992), mostrando um caminho metodológico para nossa análise do
processo de retextualização na webnotícia.
Neste capítulo, abordamos a noção de gêneros sob a perspectiva da Sociorretórica,
partindo do princípio de que gênero é ação social, conforme Miller (2009 [1984]). Nessa
concepção, utilizamos os gêneros para realizar ações retóricas que nos aparecem como
recorrentes diante das necessidades comunicativas às quais somos submetidos diariamente.
Dessa forma, tratamos: da noção de gênero como ação social, ressaltando a importância de o
mesmo não ser classificado a partir da forma; da noção de situação retórica, que está
intimamente relacionada com a noção de exigência retórica; de fusão entre forma e substância
e de propósito comunicativo do gênero.
3.1 Estudos de gêneros em diferentes tradições
Muitos dos estudos linguísticos pautados na análise de textos hoje têm em vista a
importância de considerar a noção de gêneros. Ultimamente, fala-se em gêneros a partir de
uma noção que vai muito além da noção aristotélica de gêneros literários, estendendo-se o
conceito para toda e qualquer produção discursiva dos sujeitos sociais.
108
Esse alargamento da noção de gêneros devemos a Bakhtin, filósofo da linguagem
que postulou que as produções discursivas estão intrinsecamente vinculadas às atividades
sociais. Conforme Bakhtin (2003 [1979]), produzimos discursos específicos de acordo com a
atividade social que exercemos em dada circunstância e numa dada esfera social de atividade
humana. A circunstância, nesse caso, determina nossa produção discursiva ao mesmo tempo
em que se realiza, até certo ponto, por meio dela, numa relação de mútua dependência.
Bakhtin (2003 [1979]) considerou o fato de que falamos e escrevemos por meio de
enunciados30 concretos e únicos, produzidos na interação. Para o teórico, o enunciado é a
unidade real da comunicação discursiva, e constitui um elo na cadeia complexamente
organizada de enunciados produzidos pelos sujeitos vinculados às diferentes esferas sociais. É
por ser unidade da comunicação discursiva que o enunciado é tomado como algo concreto,
materializado, ao mesmo tempo em que, também sendo “irrepetível”, único, é produzido por
um locutor numa instância de discurso situada num tempo e num espaço característicos e
próprios de cada enunciado.
Com Bakhtin, aprendemos a ver os gêneros como estruturas sócio-historicamente
construídas e representativas das necessidades comunicativas dos grupos sociais. Segundo seu
posicionamento, cada esfera de atividade humana elabora seus tipos relativamente estáveis de
enunciados, de modo que cada tipo relativamente estável de enunciado é próprio e
representativo de uma necessidade comunicativa específica de determinada esfera social.
Ainda aprendemos com Bakhtin a ver cada tipo de enunciado dotado de três partes que o
constituem e o determinam enquanto gênero de discurso: conteúdo (temático), estilo (da
linguagem) e construção composicional. São fatores que não possuem sentido se entendidos
separadamente, pois na constituição do gênero, segundo o teórico, estão indissoluvelmente
ligados.
O enunciado, como unidade real da comunicação discursiva, constitui a
materialização das estruturas genéricas, algo que faz com que o estudo de gêneros seja
pautado em enunciados que, embora concretos e únicos, como afirma Bakhtin, só se
30
Usamos, como Bakhtin, o termo enunciado como correlato de texto.
109
materializam a partir de uma estrutura genérica, o que os faz interdependentes. Os gêneros são
materializados nos enunciados.
Bawarshi e Reiff (2013 [2010]) destacam o valor das pesquisas de gêneros realizadas
no Brasil a partir da forma como é feita uma síntese das tradições linguísticas, retórica e
social/sociológica, e dos estudos de gêneros nas tradições francesa e suíça. Para as autoras,
isso resulta num modo de ver diferentes “tradições como mutuamente compatíveis e capazes
de proporcionar ferramentas analíticas e teóricas pelas quais se possa compreender o
funcionamento linguístico, retórico e sociológico dos gêneros” (p. 99). Ou seja, pelos
resultados que temos dos estudos realizados sobre os gêneros, vemos que é possível estudar
gêneros considerando posicionamentos e direcionamentos teóricos de diferentes perspectivas,
como um modo de entender o funcionamento do gênero sob diferentes ângulos de observação
e análise.
O destaque dado por Bawarshi e Reiff (2013 [2010]) às tradições francesa e suíça em
relação ao “Interacionismo sociodiscursivo”, teoria originalmente baseada em nomes como
Bakhtin, Vigotsky, Wittgenstein etc., e que tem tido forte influência nos estudos brasileiros de
gêneros, é por essa perspectiva teórica ter se estabelecido “como uma teoria da ação humana
baseada em contextos sociais e discursivos e fundamentada em gêneros” (p. 99).
O Interacionismo sociodiscursivo foi desenvolvido principalmente por Bronckart
(1999 [1997]), Schneuwly e Dolz (2004), dentre outros, e trata as ações humanas em suas
dimensões sociais e discursivas. Logo, a linguagem figura como a característica principal da
atividade social humana, tendo em vista que as ações humanas se consolidam em textos de
diferentes gêneros produzidos com a finalidade de comunicação. Nessa perspectiva, gêneros
são entendidos como produtos das atividades sociais e ao mesmo tempo como ferramentas, já
que possibilitam que as pessoas ajam linguisticamente em diferentes situações sociais.
Essa vertente tem sido utilizada principalmente no desenvolvimento de modelos
analíticos e pedagógicos para os estudos de gêneros, e, no Brasil, é a perspectiva teórica mais
comumente utilizada nos estudos de gêneros. Segundo Bawarshi e Reiff (2013 [2010]), as
pesquisas são feitas a partir de uma abordagem que, geralmente, interconecta o
Interacionismo sociodiscursivo a outras vertentes teóricas, o que pode resultar, segundo o que
110
observam os autores, numa “rica visão do funcionamento dos gêneros e de como podem ser
ensinados em diversos níveis” (p. 101). São incluídas nesta vertente análises que consideram
as noções de sistemas de gêneros e sistemas de atividades, que são comuns nos estudos
retóricos de gêneros.
Quanto aos estudos retóricos de gêneros, o esforço maior, de acordo com Bawarshi e
Reiff (2013 [2010]), é mostrar que os gêneros são mais que ferramentas comunicativas, já que
são também “modos socialmente derivados e tipificados de conhecer e agir” (p. 102). Nessa
perspectiva, os gêneros estão direta e dinamicamente ligados às situações de uso, colaborando
para o bom desempenho das interações sociais. Para as autoras, os estudos de gêneros na
Sociorretórica,
requer[em] tanto o conhecimento de seus traços estruturais e léxico-gramaticais
como o conhecimento das ações sociais produzidas pelo gênero e das tipificações
sociais que embasam essas ações: os motivos, relações, valores e premissas sociais
incorporados no gênero, que delineiam como, por que e quando agir. (BAWARSHI
e REIFF, 2013 [2010], p. 102)
Como vemos, um estudo de gênero do ponto de vista da Sociorretórica envolve
muito mais do que a configuração formal e conteudística, que fornece base para que os
gêneros sejam reconhecidos e utilizados em diferentes situações sociais pelos sujeitos. É
preciso considerar, conforme os autores, além dos traços estruturais que envolvem categorias
de âmbito léxico-gramaticais, por exemplo, as ações sociais tipificadas que realizamos
utilizando o gênero, de modo que agimos considerando motivos, relações, valores e premissas
que são sociais e estão incorporadas ao gênero, que direciona e tipifica nossas ações retóricas.
Assim, os esforços se concentram em explicar como o modo como usamos os gêneros, ao
mesmo tempo em que mantêm as práticas e as realidades sociais, ajudam-nos a reproduzi-las
dinamicamente.
3.2 O gênero como ação social
Os estudos que têm o gênero como foco partem, como vimos, de perspectivas
teóricas distintas, sobretudo, porque preveem aplicações metodológicas diferenciadas para
111
resultados específicos. Neste trabalho, analisamos a webnotícia sob a perspectiva teórica
denominada na literatura como Sociorretórica, que vê o gênero a partir da “ação social”
realizada pelo sujeito inserido numa situação social, que é retórica e lhe aparece como
recorrente. Para entendermos essa definição de gênero, que é a base da teoria, devemos
considerar as várias noções teóricas que ela abarca. Nesta seção, tratamos de cada uma delas.
O ensaio “Gênero como ação social”, de Carolyn Miller, foi publicado inicialmente
em 1984, no Quarterly Journal of Speech, e apresenta a definição de gêneros como ação
social fundada numa situação recorrente a partir de uma síntese teórica de vários conceitos da
Retórica, que é posteriormente assumida por vários outros estudiosos de gênero, como
Bazerman (2005), Devitt (2004), Russel (1997), Alves Filho (2010), dentre outros, que
subsidiam, hoje, a base teórica da Sociorretórica.
O Núcleo de pesquisa em Texto, Gênero e Discurso, Cataphora, coordenado pelo
professor Francisco Alves Filho, da Universidade Federal do Piauí, tem desenvolvido várias
pesquisas no âmbito da Sociorretórica, desde 2008. Algumas pesquisas já foram finalizadas,
com estudos sociorretóricos de gêneros de diferentes meios sociais, como o editorial de jornal
(SOUSA, 2011), a entrevista de emprego (SANTOS-SILVA, 2011), o ofício (BRITO, 2012);
com gêneros da internet, na rede social Twitter: perfis de universidades (CASTRO, 2012),
perfis fake (ALEXANDRE, 2012), perfis de candidatos à prefeituras (VIANA, 2013); e ainda,
com gêneros da internet, a notícia satírica (SOUSA, 2013).
A definição de gênero como ação social vem sendo desenvolvida e demonstrada ao
longo dos anos em vários estudos. Conforme Devitt (2004), os estudiosos, na perspectiva
retórica, “ecoam” Miller e incluem elementos comuns na definição de gêneros, como o
reconhecimento de que gênero é ação, de que a ação é tipificada, de que a tipificação é
oriunda das condições recorrentes, e que todas essas condições envolvem um contexto social,
todas demonstrando, segundo a autora, a complexidade teórica do gênero.
112
3.2.1 A classificação do gênero pela ação [retórica]
Miller (2009 [1984]) inicia seu ensaio “Gênero como ação social” fazendo uma
crítica aos estudos retóricos críticos que, mesmo estudando os gêneros como discursos que
constituem uma classe distintiva, ainda não ofereceram uma orientação consistente sobre o
que constitui um gênero. A autora aponta algumas definições apresentadas pelos estudos que
critica, como a de gêneros retóricos definidos pelas semelhanças nas estratégias ou formas dos
discursos, pelas semelhanças nas audiências, nos modos de pensar, nas situações retóricas, e
afirma que a diversidade de definições constitui um problema para os teóricos e para os
críticos.
Destacando a necessidade da classificação para a linguagem e a aprendizagem, a
autora ressalta que, apesar de as definições apresentadas acima constituírem maneiras de
classificação do discurso, para ela “o termo ‘gênero’ significa alguma coisa teoricamente ou
algo útil criticamente, não pode se referir a qualquer categoria ou tipo de discurso” (p. 21 e
22). A crítica, nesse sentido, está centrada justamente na variedade de definições, de modo
que a crítica é feita como justificativa da sua proposta, com o ensaio de 1984, de apresentar ao
gênero retórico um conceito classificatório estável e assegurar que o conceito apresentado seja
retoricamente válido.
Para desenvolver sua proposta, Miller elabora sua abordagem a partir de Campbell e
Jamieson (1978), na defesa do ponto de vista das autoras de que “o estudo do gênero é valioso
não porque pode permitir a classificação de algum tipo de taxonomia, mas porque enfatiza
alguns aspectos sociais e históricos da retórica que outras perspectivas não o fazem” (p. 22).
O pressuposto básico é que, para que uma definição retórica de gênero seja válida, ela precisa
centrar-se na ação que é usada para sua realização, e não na forma ou na substância do
discurso. Nessa perspectiva, o termo gênero deve ser limitado a um tipo particular de
classificação do discurso, de modo que essa classificação deve ser baseada na prática retórica
e, consequentemente, ser aberta e estar organizada em torno das situações de uso linguístico.
E isso é central na teoria proposta por Miller: o estudo da ação retórica realizada pelo sujeito
para agir socialmente.
113
Devitt (2004) sintetiza parte do conhecimento já construído sobre gêneros retóricos,
sobretudo aqueles apresentados por Miller (2009 [1984]), e apresenta as ideias essenciais da
teoria contemporânea, apontando ainda para novos direcionamentos. Referindo-se às
definições de gênero relacionadas à classificação e à forma, Devitt chama atenção para o fato
de que o modelo de forma como um recipiente do significado tem sido substituído nos
estudos de gêneros por uma noção mais integrada, que vê como o significado é construído
sem que a forma seja separada do conteúdo.
As classificações dos gêneros, de acordo com Devitt (2004), podem aparecer como
um efeito, mas não compreendem uma extensão deles. Dessa forma, estudar o gênero do
ponto de vista retórico não significa procurar responder a questões sobre classificações
genéricas já levantadas, como a quantidade, ou que um gênero é um subgênero de outro, se
um texto pertence a este ou àquele gênero em específico, que respondem a questões que
podem ser interessantes a determinadas propostas investigativas, embora não respondam
sobre a natureza do gênero em si. A forma como os textos são agrupados ou classificados está
muito direcionada ao objetivo da classificação e ao que é selecionado para ser observado:
Moll Flanders, de Daniel Defoe, por exemplo, pode ser classificada como uma
narrativa, um romance episódico, uma pseudo-autobiografia, ou um romance do
século XVIII, de acordo com os interesses do classificador. Trabalhos ainda menos
transitórios podem ser classificados de várias maneiras: um memorando de um setor
departamental pode ser classificado como correspondência comercial, memorando,
correspondência interna, ou escrita acadêmica, dependendo da perspectiva do
classificador. (p. 7)31
Considerar problemas criados pela classificação, segundo Devitt (2004), não
significa afirmar que os mesmos não envolvam classificação, mas os estudos têm mostrado
que diferentes sistemas de classificação servem a propósitos diferentes. De toda forma,
segundo a autora, para uma definição retórica de gênero, as classificações mais importantes
são aquelas em que os rótulos são criados pelas pessoas que utilizam os gêneros. Antes de
serem nomeados pelos analistas, os usuários dos gêneros já o rotularam, em circunstância da
31
No original: “Daniel Defoe’s Moll Flanders, for example, can be classified as a narrative, an episodic novel, a
pseudoautobiography, or an eighteenth-century novel, depending on the classifier’s interests. Even less
transitional works can be classified in multiple ways: a memorandum from a departmental chair can be classified
as business correspondence, memoranda, internal correspondence, or academic writing, depending on the
classifier’s perspective” (DEVITT, 2004, p. 7).
114
ação que realizam com eles. Na verdade, as “pessoas classificam ações exclusivas em rótulos
comuns, e nós, estudiosos, chamamos esses rótulos de ‘gêneros’” (p. 09).
A classificação, segundo Miller (2009 [1984) é importante para a ação humana,
porque por meio do processo de tipificação é que criamos as recorrências, as analogias, de
modo que o que recorre não é a parte material de uma situação, mas a interpretação que
fazemos de um tipo32 ou gênero. Para que uma comunicação seja bem sucedida, é preciso que
compartilhemos tipos de discursos que são comuns; e o compartilhamento dos tipos é possível
porque esses são criados socialmente.
Do ponto de vista de uma teoria retórica, conforme observa Devitt (2004, p. 14), os
gêneros são classificados pelas ações que realizam, tendo em vista que gêneros “são ações
sociais e retóricas, que funcionam quando as pessoas interagem umas com as outras”33. As
ações realizadas pelos gêneros são tipificadas, e, para reconhecer essas ações como sendo
tipificações, é preciso que se reconheça que os gêneros são, ao menos em parte,
classificações, porém, aquelas feitas pelas pessoas que agem socialmente por meio dos
gêneros. Portanto, os rótulos criados pelos usuários, em detrimento daqueles feitos por
críticos ou analistas, são os mais importantes para uma definição retórica de gêneros, porque
são estes que definem exatamente o fator determinante para dizer que um gênero é distinto de
outro (RUSSELL, 1997).
Esse deslocamento é importante porque permite entendermos que quando rotulamos
gêneros estamos classificando ações, e não apenas tipos de textos. Segundo Devitt (2004), são
os estudiosos que classificam esses rótulos em gêneros, mas os usuários classificam ações
exclusivas em rótulos comuns. Aqueles os percebem a partir das ações que realizam no
mundo com a linguagem, estes teorizam essas ações e as relacionam a textos resultantes delas
e os classificam em gêneros. Os usuários utilizam os gêneros e agem com eles naturalmente e
nem sempre têm consciência disso; não têm a percepção [teórica e classificatória] do analista,
por exemplo.
32
Na teoria Sociorretórica de gêneros, “tipo” é utilizado como correlato de “gênero”.
33
No original: “They are also both social and rhetorical actions, operating as people interact with others [...]”
(DEVITT, 2004, p. 7).
115
A adoção dessa perspectiva teórica implica um direcionamento metodológico para o
estudo de gênero. A abordagem etnometodológica é definida por Miller (2009 [1984], p. 28)
como “o conhecimento que a prática cria”, na qual o gênero é definido a partir do
conhecimento empírico do seu usuário. Segundo Devitt (2004), é o usuário que tem o
conhecimento prático para estabelecer as categorias genéricas, a partir do seu conhecimento
implícito dos gêneros. Nesse sentido, são incluídas as compreensões que os retores e as
audiências têm acerca do discurso que usam. Miller argumenta que:
um princípio classificador baseado na ação retórica parece refletir mais claramente a
prática retórica (especialmente porque [...] a ação engloba tanto a substância quanto
a forma). E se o gênero representa ação, tem que envolver situação e motivo, uma
vez que a ação humana, seja simbólica ou não, somente é interpretável num contexto
de situação e através da atribuição de motivos. (MILLER, 2009 [1985], p. 23)
A ação desencadeada pelo gênero faz com que esse seja representado em decorrência
da ação que desenvolve. Pelo fato de a ação ser interpretada a partir do contexto em que é
produzida, Miller (2009 [1984]) defende o envolvimento das noções de situação e motivo na
ação realizada pelo gênero. Os termos situação e motivo são provenientes de Burke (1973),
como esclarece Miller, de modo que a discussão de Campbell e Jamieson (1978) depende
implicitamente desses termos, particularmente da noção de situação. Miller, com base em
Campbell e Jamieson (1978, p. 21), diz que:
um gênero, segundo as autoras não consiste meramente em uma série de atos em que
certas formas retóricas recorrem (...). Antes, um gênero é composto de uma
constelação de formas reconhecíveis ligadas umas às outras por uma dinâmica
interna (MILLER, 2009 [1984], p. 23).
Na definição de Campbell e Jamieson, gênero é entendido a partir de uma visão que
o concebe como portador de formas reconhecíveis. Essas formas reconhecíveis podem ser
definidas como o reconhecimento socialmente definido e compartilhado de similaridades, que
podem ser entendidas como a definição mais direta para o que Miller denomina de
tipificação. Segundo Bawarshi e Reiff (2013 [2010]), essa noção se mostra essencial para
uma concepção de gênero como ação social. Bazerman e Miller (2011) ratificam o
pensamento de 1984 e afirmam que o conceito de tipificação permite que vejamos, além das
similaridades na forma, as similaridades no conteúdo e na ação. De modo que são as
similaridades de forma e conteúdo que nos permitem engajar nas similaridades de ação, e a
116
tipificação se aplica nos três níveis do gênero: a forma, a substância e a ação social [que é
retórica].
E é a recorrência no uso das formas tipificadas que possibilita o reconhecimento
delas, que, segundo Miller (2009 [1984]), são organizadas no gênero a partir de uma dinâmica
interna que “funde” características do âmbito substantivo, ou conteudístico, estilístico e
situacional. Essas características, juntas, dão o caráter de uma “resposta” retórica do retor a
“demandas” situacionais, ou seja, nós respondemos retoricamente às demandas sociais através
de formas de uso linguístico, que são reconhecíveis para nós, dada a recorrência no uso das
mesmas.
Bawarshi e Reiff (2013 [2010]) afirmam que a maior contribuição de Miller para os
estudos retóricos de gênero foi entender que estes precisam ser definidos em termos de fusão
de formas relacionadas a situações recorrentes e em termos das ações tipificadas produzidas
por essa fusão. Já a ideia de ação baseada em situações recorrentes mostra sua importância na
medida em que nos aponta um modo de compreensão da “relação dinâmica entre os gêneros e
as exigências, situações e motivos sociais – em suma, a relação entre os gêneros e a maneira
como construímos, interpretamos e agimos nas situações” (BAWARSHI e REIFF, 2013
[2010], p. 92 e 93).
3.2.2 A situação retórica recorrente
A noção de situação é explorada por Miller (2009 [1984]) a partir de Bitzer (1968),
que aponta um caminho para o estudo do gênero, na observação de que as situações são
recorrentes, muito embora este autor nunca tenha se referido a gêneros. Para Bitzer (1968),
em nosso dia a dia, ocorrem situações que são comparáveis, e por serem comparáveis nos
levam a respostas que também são comparáveis.
Nesse sentido, respostas comparáveis, que podem ser vistas como formas recorrentes
de discurso, tornam-se uma tradição, que tende a restringir a forma de apresentação de novas
respostas, que, por sua vez, são parte da tradição. Miller (2009 [1984]) esclarece que o fato de
os retores responderem de forma semelhante em elogios fúnebres, discursos inaugurais, por
117
exemplo, deve-se à questão de existirem situações com estruturas e elementos semelhantes.
Nesse caso, quando respondemos retoricamente a determinada demanda social, fazemos a
partir daquilo que aprendemos socialmente como sendo o mais apropriado, e de certa forma
agimos/respondemos já sabendo possíveis efeitos que nossas ações terão sobre as outras
pessoas.
Numa teoria de gêneros, conforme Miller (2009 [1984]), é particularmente
importante considerar o fato de que as situações retóricas são recorrentes. A recorrência deve
ser entendida a partir da inferência que fazemos por meio da nossa compreensão social de
situações que nos pareçam comparáveis, similares ou parecidas (análogas) a outras, embora
nenhuma dessas situações seja igual a outra, já que todas são únicas, não se repetem, não
ocorrem novamente, apesar de serem semelhantes.
Pelo fato de a recorrência da situação retórica ser um fenômeno intersubjetivo e de
caráter social, a mesma não deve ser confundida em termos materialistas, haja vista que o que
recorre na situação não é uma configuração material dos objetos, dos eventos ou das pessoas,
nem mesmo uma configuração subjetiva (uma percepção individual), “porque essas também
são únicas de momento a momento e de pessoa a pessoa” (MILLER 2009 [1984], p. 30).
Miller afirma que nossas ações humanas são guiadas por significações advindas das
interpretações que fazemos antes de agir, em que interpretamos “o ambiente material
indeterminado; definimos, ou ‘determinamos’, uma situação”. Nesse caso, chegamos “a
determinações comuns de estados de coisas materiais que podem ter muitas interpretações
possíveis”, pois o nosso estoque de conhecimentos está baseado em tipos:
em outras palavras, nosso estoque de conhecimentos é útil apenas na medida em que
pode ser relacionado a novas experiências: o novo é tornado familiar através do
reconhecimento de similaridades relevantes; aquelas similaridades se constituem
como um tipo. Um novo tipo é formado a partir de tipificações já existentes quando
elas não são adequadas para determinar uma nova situação. Se uma nova tipificação
evidencia ser continuamente útil para o controle de estados de coisas, ela entra no
estoque de conhecimentos e sua aplicação se torna rotineira. (p. 30-31)
Aqui, temos uma reflexão importante sobre o processo de utilização do gênero a
partir da situação: o que nos aparece como novo é oriundo daquilo que entendemos como
fazendo parte de novas experiências. Devitt (2004) afirma que um gênero nasce a partir de
uma necessidade criada por uma situação, mas o nascimento de um gênero acontece a partir
118
de outros gêneros ou tipos preexistentes, quando estes não são mais adequados ou não mais
atendem às determinações da situação. Quando o uso retórico de uma tipificação nova atende
à demanda-resposta de uma situação, a tendência é que haja recorrência de uso e a tipificação
se torne um gênero ou um tipo (de discurso) e passe a fazer parte do nosso estoque de
conhecimento, para ser utilizado quando estivermos diante de uma situação que nos pareça
conveniente ou apropriada. Segundo Devitt (2004, p. 13), “a compreensão de gênero implica a
compreensão de uma situação retórica e seu contexto social”34.
Como já dissemos, a situação retórica recorrente não é material, uma vez que resulta
de uma interpretação que fazemos de situações que nos pareçam comparáveis. Assim,
apresenta em seu seio uma exigência, que também não se localiza numa percepção privada ou
individual, nem numa circunstância material, mas está localizada no mundo social, podendo
também ser caracterizada como um fenômeno retórico e social:
a exigência é uma forma de conhecimento social – uma interpretação mútua de
objetos, eventos, interesses e propósitos que não somente os ligam entre si, mas
também os fazem ser o que são: uma necessidade social objetificada [...].
Inversamente, embora a exigência forneça ao retor um sentido de propósito retórico,
claramente não é a mesma coisa que a intenção do retor, pois esta pode ser malformada, dissimuladora ou diferente do que a situação convencionalmente sustenta.
A exigência fornece ao retor uma maneira socialmente reconhecível para realizar
suas intenções conhecidas. Oferece uma ocasião e assim uma forma, para tornarem
públicas nossas versões privadas das coisas. (MILLER, 2009 [1984], p. 32, grifos
nossos)
A exigência consiste numa necessidade de uso linguístico advinda de uma situação
social. Logo, a exigência retórica é interpretada pelo retor a partir de uma situação social que
lhe aparece como recorrente e o impulsiona a agir por meio da linguagem, utilizando-se, para
isso, de tipos ou gêneros reconhecidos socialmente como capazes de resolver determinado
problema ou de elucidar a necessidade retórica imposta por aquela situação social.
Miller (2009 [1984]) chama atenção para o fato de a exigência retórica apresentada
pela situação não ser confundida com o propósito retórico do retor. A exigência aparece para
o retor como uma maneira reconhecível, e por isso social, para a realização de intenções
conhecidas, que nos apareçam como análogas ou similares a outras intenções [recorrentes], o
34
No original: “[...] understanding genre entails understanding a rhetorical situation and its social contexto”
(DEVITT, 2004, p. 13).
119
que comprova o seu caráter essencialmente social. Já o propósito retórico, conforme observa
Miller, está relacionado ao propósito do retor (por isso retórico), e por causa disso pode ser
diferente ou não coincidir com a exigência que a situação social convencionalmente sustenta.
Todavia, conforme veremos na subseção 3.2.4, em que tratamos do propósito
comunicativo, este também é de natureza social, embora não se confunda com a exigência
retórica, tendo em vista que esta é vinculada à situação retórica e o propósito comunicativo
(ou propósito retórico) ao gênero. Nesse sentido, em nosso trabalho, não abordamos a noção
de propósito como estando vinculada a uma intenção individual do retor, mas ao objetivo que
atingimos (ou pretendemos atingir) quando utilizamos um gênero, logo o propósito, ou o
conjunto de propósitos comunicativos são abordados em nosso trabalho como categorias do
âmbito do gênero.
Um retor pode agir retoricamente por meio da utilização de um gênero, a partir de
uma exigência retórica advinda de uma determinada situação. Porém, mesmo utilizando o
gênero interpretado como apropriado para resolução de uma exigência retórica imposta pela
situação, ele pode optar por utilizar um gênero que satisfaça a exigência retórica da situação,
que é social, e ainda atingir um propósito retórico particular (uma intenção), que é individual.
Daí a importância apontada por Miller de as noções de exigência e propósito não serem
confundidas.
As pessoas constroem a situação recorrente através de seu conhecimento e da
utilização dos gêneros. Essas semelhanças reconhecidas de um discurso para outro acontecem
porque as pessoas têm um estoque tipificado de conhecimento, ou seja, um conjunto de
gêneros socialmente criado. Esse pressuposto, todavia, tem gerado discordância dentro da
própria teoria retórica de gêneros. Miller (2009 [1984]) afirma que a recorrência não decorre
de uma configuração material (de eventos, pessoas, objetos) e nem de uma configuração, ou
“percepção”, subjetiva, “porque essas também são únicas de momento a momento e de
pessoas a pessoas” (p. 30). Devitt (2004), diferentemente de Miller, argumenta que a
percepção individual é a fonte da reincidência, pois o discurso existe em decorrência dos
indivíduos.
120
Dessa forma, Devitt dá destaque ao indivíduo quando afirma que o discurso só existe
quando os indivíduos agem, e de alguma forma essas ações são fundamentadas na
singularidade, na individualidade, bem como na experiência social. Já Miller nega os traços
de individualidade e defende que situações são construtos sociais resultantes de definição e
não de percepção. Acreditamos, porém, que Miller tem razão ao dá primazia ao caráter social
da situação, mas Devitt também tem ao considerar a existência de traços de individualidade a
partir da percepção que os sujeitos têm da recorrência. Ou seja, não podemos negar
completamente a percepção individual, porque, de alguma forma, ela atua, porém, precisamos
reconhecer e destacar o fator social, que é mais forte e, certamente, mais representativo.
Devitt também chama atenção para o papel da cultura. Definida como o conjunto
partilhado de contextos materiais e comportamentos aprendidos, valores, crenças e modelos, a
cultura influencia a forma como a situação é construída e como ela é vista como recorrente
nos gêneros. Nesse sentido, figura como um elemento importante na construção dinâmica do
gênero.
3.2.2.1 Gênero e situação [retórica]
Bitzer (1968) afirma que as situações comparáveis levam a respostas comparáveis.
São essas similaridades que permitem com que nasçam formas retóricas e um vocabulário
específico, estabelecendo gramática e estilo dessas respostas. As situações são recorrentes, e
pelo fato de vivenciarmos tanto as situações como as respostas para elas, estabelecemos uma
forma de discurso (ou forma retórica, o gênero), e damos poder a essa forma nessa tradição.
Assim, a forma de discurso passa a funcionar restringindo as novas respostas à determinada
situação retorica recorrente (DEVITT, 2004). Em outras palavras, são as respostas adequadas
às situações recorrentes que se estabelecem como convenções genéricas.
Para Devitt (2004), é a situação que explica como os usuários desempenham os
papeis de leitor e de escritor, como selecionam um gênero a partir de uma finalidade
específica e, ainda, por que determinados gêneros são mais utilizados em uns grupos sociais
que em outros. Há, na realidade, uma relação recíproca, pois, ao mesmo tempo em que
responde, o gênero restringe a situação. A definição de Bitzer para situação retórica está
121
atrelada à noção de exigência, que se interpõe à situação como um problema para ser
resolvido retoricamente, fazendo com que a exigência seja também retórica. Por outro lado, a
exigência só é retórica quando pode ser resolvida pelo discurso, pois qualquer situação que
requeira uma ação humana que não seja retórica também possui uma exigência.
Dependendo da situação na qual sentimos frio, acendemos uma fogueira, ligamos o
aquecedor ou nos cobrirmos com um cobertor. Essa situação apresenta um problema que pode
ser resolvido a partir de uma ação, porém nem a situação nem a exigência são retóricas,
porque a ação desempenhada pelo sujeito para resolver o problema que se interpõe não
envolve o discurso. Há situações, porém, cuja exigência é retórica, mas que pode ser
“resolvida” sem o uso do discurso, embora não tenha o mesmo efeito. Diante de falta de
energia elétrica, por exemplo, o usuário pode telefonar para a companhia elétrica, para
informar o problema e solicitar que o mesmo seja resolvido, mas também pode apenas
acender uma vela ou uma lanterna para não ficar no escuro. A ação de acender uma vela
“resolve” o problema do escuro, mas não tem o mesmo efeito da ação de ligar para a
companhia, solicitando que se resolva o problema da falta de energia elétrica. Nesse caso, a
vela ou a lanterna funcionariam apenas como uma medida paleativa na resolução do
“problema”.
A noção de situação retórica de Bitzer (1968) é aproveitada pela Sociorretórica ao
mesmo tempo em que é chamada a atenção para o seu caráter determinista. Conforme Devitt
(2004), desde Bitzer, a situação retórica é limitada apenas àquelas situações retóricas que
exigem uma ação discursiva. Esse limite, porém, é pequeno ou estreito diante da variedade
discursiva que deve ser explicada pelos teóricos de gêneros. Até mesmo porque, como vimos,
há situações que não são retóricas, mas que apresentam exigências e há situações retóricas e
que apresentam exigências retóricas, mas que podem ser “resolvidas” sem o uso do discurso.
Logo, é importante entender que a situação e o gênero estão entrelaçados,
interligados, de modo que é possível construir situações a partir de gêneros e gêneros a partir
de situações, com um determinando o outro e vice-versa. A partir do momento em que se
escolhe um gênero em uma situação, este contribui para que a situação seja mais bem
configurada, sendo que o contrário também acontece. Assim, segundo Devitt (2004), ver os
122
gêneros como fortemente [e reciprocamente] interligados à situação, elimina o caráter
determinista e simplista da concepção de situação retórica definida por Bitzer (1968).
Devitt (2004) se esforça em demonstrar essa reciprocidade, mostrando que a situação
muda quando o gênero é alterado e vice-versa. O exemplo utilizado pela autora é o da lista de
compras discutida por Russell (1997): manter uma lista de compras e ir semanalmente ao
supermercado dá a sensação de situação recorrente, já que parece que a situação se repete,
embora isso não aconteça. Com a lista de compras, os usuários repetem a ida ao supermercado
para comprar alimento, mas, ainda que aquela experiência lhes seja única a cada semana,
como as pessoas repetem as “mesmas” atividades da semana anterior, cria-se a sensação de
recorrência, de modo que a lista de compras contribui para isso. Se, por acaso, não formos ao
supermercado, mas a padaria, a situação é alterada, e isso acarreta também uma mudança no
gênero, pois não seria a mesma lista de compras feita para ir ao supermercado.
Bazerman (2011 [2004]) considera que todo texto se encontra encaixado em
atividades sociais estruturadas e é tanto dependente de textos anteriores, que influenciam a
atividade social na qual é produzido e a organização social a que pertence, como estabelece
condições de certa maneira levadas em consideração em atividades subsequentes. Nesse
sentido, é que o autor afirma que os textos criam realidades ou fatos sociais, quando são bem
sucedidos socialmente, de acordo com as finalidades para as quais são produzidos.
Assim, os fatos sociais consistem em ações sociais significativas realizadas por meio
da linguagem, ou atos de fala. Esses atos de fala são realizados através de formas textuais
padronizadas, típicas e, portanto, inteligíveis, ou gêneros, que estão relacionadas a outros
textos e gêneros que ocorrem em circunstâncias relacionadas. Juntos, os vários tipos de textos
se acomodam em conjunto de gêneros dentro de sistemas de gêneros, os quais fazem parte
dos sistemas de atividades humanas (BAZERMAN, 2011 [2004], p. 22).
Os fatos sociais criados pelas ações sociais significativas realizadas por meio da
linguagem se realizam por meio dos gêneros, que, por sua vez, estão relacionados a outros
gêneros e textos que ocorrem em circunstâncias relacionadas. Os textos produzidos por um
sujeito que assume determinado papel social e que são usados em circunstâncias relacionadas
formam um conjunto de gêneros. Vários sujeitos assumindo diferentes papéis sociais
123
produzem, cada um, um conjunto de gêneros, e vários conjuntos de gêneros de sujeitos
relacionados a um mesmo setor da sociedade constituem um sistema de gêneros, que também
são oriundos de relações padronizadas estabelecidas pela produção, circulação e uso dos
textos. Para Bazerman, “um sistema de gêneros captura as sequências regulares com que um
gênero segue um outro gênero, dentro de um fluxo comunicativo típico de um grupo de
pessoas” (2011 [2004], p. 34).
Todo sistema de gêneros se encontra dentro do sistema de atividades (humanas) e
organiza nossa vida em sociedade, conforme Bazerman, já que considerar os sistemas de
gêneros dentro dos sistemas de atividades permite entender o que as pessoas fazem com os
textos e o que os textos ajudam as pessoas a fazer. Portanto, conjuntos de gêneros em
circunstâncias relacionadas constituem um sistema de gêneros que, por sua vez, faz parte do
sistema de atividades humanas, numa rede de relações que mostram quão complexa é a
organização das ações que os sujeitos realizam socialmente, fazendo uso dos textos e dos
gêneros.
Segundo Devitt (2004), a recorrência nas situações é percebida pelas pessoas que
fazem parte do mesmo grupo social, pois as experiências vividas por essas pessoas são
semelhantes ao ponto de estas as perceberem como recorrentes. Jornalistas experientes
interagem com estagiários, fazendo com que estes aprendam a rotina de produção dos gêneros
daquele meio e desenvolvam habilidades de jornalistas, que, dentre outras, é produzir textos
informativos, a partir da interpretação de textos-fonte. Essa dinâmica, em que membros
experientes do grupo interagem com novos membros ensinando os gêneros daquele meio,
segundo Devitt (2004), reforça a identidade do grupo e sua natureza social, a partir dessa
operação coletiva.
Devitt argumenta que assim como os gêneros refletem e constroem situações
retóricas recorrentes, eles ainda refletem e constroem um grupo de pessoas. No jornalismo, o
gênero notícia tanto reflete a situação retórica recorrente, como contribui para que a mesma
seja construída. Por outro lado, notícias, por exemplo, também contribuem para o
estabelecimento de um grupo de pessoas, que têm funções parecidas e, recorrentemente,
produzem textos com propósitos comuns. Toda essa discussão justifica a necessidade de que
124
os gêneros sejam entendidos dentro de suas estruturas sociais e dos grupos que os produzem
(DEVITT, 2004).
Pelo que propõe Bazerman, para a organização social dos gêneros em sistemas de
gêneros, vemos que diferentes nomenclaturas muitas vezes correspondem a noções teóricas
bastante relacionadas, como a de comunidade discursiva, de Swales (2009, p. 204), na qual se
encontram “grupos reais de pessoas com posições consensuais”, e, no mesmo sentido, temos a
noção de comunidade retórica, discutida por Miller (2009 [1994]).
Embora as definições de comunidade discursiva e de comunidade retórica se
encontrem bastante relacionadas ao que Bazerman chama de sistema de gêneros, a noção de
Bazerman foca mais diretamente na relação que os gêneros mantêm entre si em determinado
setor social, cujos sujeitos desenvolvem atividades retóricas e utilizam gêneros comuns. Mais
especificamente, Miller (2009 [1994], p. 55) foca na “atribuição de ações retóricas articuladas
características” e Swales (2009), na atividade sociorretórica ou ainda discursiva dos membros
participantes de comunidades sociais específicas.
Os autores estão se referindo propriamente ao uso compartilhado que fazemos dos
gêneros para fins parecidos em situações parecidas (recorrentes) e relacionadas ao mesmo
ambiente social. Podemos lembrar ainda da noção de esfera ou campo de atividade humana,
de Bakhtin (2003 [1979]), ou ainda de domínio discursivo, de Marcuschi (2002), que também
dizem respeito ao fato de as atividades sociais de uso linguístico serem mais semelhantes de
acordo com o setor da sociedade em que acontecem, de modo que cada campo ou cada esfera
de atividade humana elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados.
3.2.2.2 A questão do suporte
Vimos que os gêneros acontecem em circunstâncias relacionadas e que a ação
retórica realizada por eles pode ser definida em relação aos grupos de pessoas com interesses
comuns, que fazem com que determinados gêneros sejam realizados em uns grupos e outros
em outros. Outra questão relevante de se considerar acerca dos gêneros é o que Marcuschi
125
(2003) denomina de suporte, que, segundo este autor, é imprescindível para a circulação do
gênero na sociedade.
Para Marcuschi, o suporte influencia a natureza do gênero, uma vez que, a depender
do suporte, podemos, com o mesmo conteúdo, identificar gêneros diferentes. Como um
recado, para uma mensagem escrita num pedaço de papel, ou um telegrama, se a mesma for
enviada pelos Correios. Logo, suporte pode ser entendido como “um lócus físico ou virtual
com formato específico que serve de base ou ambiente de fixação do gênero materializado
como texto” ou como “uma superfície física em formato específico que suporta, fixa e mostra
um texto” (p. 11). Nem sempre é fácil separar o suporte do gênero, inclusive isso tem gerado
confusões em análises que identificam o suporte como gênero ao invés do gênero
propriamente. A característica de “fixar” que o suporte tem em relação ao gênero é também a
que se situa como argumento para a diferença entre suporte e canal, serviço, meio etc.,
segundo Marcuschi (2003).
Não entraremos nas discussões sobre o que vem a ser suporte, canal, serviço ou
meio, porque, para este trabalho, é importante destacarmos que entendemos o portal
jornalístico como suporte da webnotícia, já que é ele quem “fixa” o texto para que o mesmo
seja visto pela audiência. É o portal, dessa forma, o lócus físico (e ao mesmo tempo virtual)
que se apresenta como o ambiente de fixação do gênero notícia, que se materializa através do
texto ali publicado. A internet, dessa forma, funciona como o meio ou o canal responsável por
transmitir as informações, semelhantemente aos cabos de fibra ótica do telefone e as ondas
do rádio
Entendermos, assim como Marcuschi (2003), que o suporte não é neutro em relação
ao gênero e vice-versa. De modo que, com os avanços tecnológicos, com inúmeros gêneros
sendo produzidos para circular na internet, o suporte tem ganhado um status mais dinâmico,
haja vista que a internet permite que diferentes suportes “fixem” gêneros, como no caso dos
blogs, das redes sociais, dos portais jornalísticos, institucionais, etc., incorporando a estes
recursos de som, cor e movimento diversos.
Considerando as possibilidades proporcionadas pela tecnologia, Miller (2009), em
Questões da blogosfera para a Teoria de Gênero, discute a noção de affordances, como
126
características ou capacidades tecnológicas específicas que indicam restrições e possibilidades
do meio em que os gêneros circulam. Podendo ser também observada em relação aos gêneros
impressos, tal noção normalmente é mais utilizada para explicar a caracterização e o
funcionamento de gêneros que circulam no meio digital (ALEXANDRE, 2012).
Nesse sentido, em um portal jornalístico, temos a possibilidade de inserir links,
imagens e até mesmo vídeos em uma notícia, que são recursos da internet, aparecendo numa
configuração mais específica através dos sites, que já são pré-configurados para a utilização
de determinados recursos. Juntos, os recursos oferecidos por um meio específico constituem
um conjunto de affordances, que são “configurações específicas de possibilidades ou
capacidades tecnológicas reunidas, geralmente, sob um rótulo comum” (ALEXANDRE;
CASTRO; VIEIRA, 2011, p. 3), como uma rede social ou um portal jornalístico. Cada um
desses sites, como o Facebook ou o G1.com, por exemplo, já são pré-configurados com
possibilidades e restrições para os gêneros que são produzidos ali.
Como a noção de suporte se refere ao lugar de materialização (“fixação”) do gênero
e a de conjunto de affordances às configurações específicas de restrições e possibilidades para
a utilização e fixação dos gêneros nesse lugar, entendemos que o conjunto de affordances está
contido no suporte. A possibilidade de inserir um texto-fonte como componente da
webnotícia é uma affordance do meio, e juntamente com as demais possibilidades e restrições
do portal, temos o conjunto de affordances daquele site, que atua como suporte para os
gêneros que por ali circulam.
3.2.3 A [fusão] forma e substância
No destaque ao caráter aristotélico da proposta de Campbell e Jamieson (1978),
Miller (2009 [1984]) afirma que os três tipos de retórica descritos por Aristóteles, em
Retórica, deliberativo, jurídico e epidídico, têm substâncias, metas e formas apropriadas que
caracterizam e distinguem cada um. Logo, é possível entender que existe uma fusão entre
forma e conteúdo desses discursos que são baseadas nas situações específicas em que os
mesmos são produzidos. Miller (2009 [1984]) faz essa contextualização para apontar dois
127
aspectos destacados como centrais dessa abordagem. O primeiro é que a discussão permite,
segundo a autora, a produção de:
um método de classificação que satisfaz a exigência de relevância para a prática
retórica. Uma vez que “as formas retóricas que estabelecem gêneros são respostas
estilísticas e substantivas às demandas situacionais percebidas”, um gênero se torna
um complexo de traços formais e substantivos que criam um efeito particular numa
dada situação (p. 19). O gênero, dessa maneira, torna-se mais que uma entidade
formal; ele se torna pragmático, completamente retórico, um ponto de ligação entre
intenção e efeito, um aspecto da ação social (p. 24). (MILLER, 2009 [1984], p. 24 e
25)
Esse primeiro aspecto destacado por Miller chama atenção para o fato de que
consideramos o gênero mais do que uma entidade formal, mas, principalmente, como
pragmático e retórico, do ponto de vista da ação social que ele realiza. As demandas sociais
percebidas pelo sujeito constroem uma ponte entre a intenção do retor e a ação desenvolvida
por ele através do gênero. E por serem respostas às demandas sociais percebidas, os gêneros
não são apenas complexos de traços formais e substantivos, pois são acrescidos dos efeitos
particulares gerados pelas situações sociais específicas das quais fazem parte.
O segundo aspecto destacado por Miller (2009 [1984]) do método de Campbell e
Jamieson (1978) é o fato de as autoras oferecerem uma explicação de certos aspectos da
maneira como a realidade social evolui. Assim, temos como resultado o entendimento de que
os gêneros ou os conjuntos de gêneros constituem uma classe aberta, onde membros novos
evoluem e velhos membros decaem, a depender do uso que é feito deles. Miller propõe que o
termo gênero, do ponto de vista da retórica, seja entendido como limitando um tipo particular
de classificação do discurso, de modo que a classificação seja baseada na prática retórica, e
por esse motivo, seja aberta e organizada em torno das ações situadas dos sujeitos. Por ser
situada em torno das ações, a classificação é de âmbito pragmático, e não sintático ou
semântico.
A autora esclarece que a classificação de gêneros proposta por ela é, na verdade,
etnometodológica, porque são os sujeitos que utilizam recorrentemente um gênero que têm o
conhecimento, adquirido pela prática, para uma possível classificação desse discurso como
determinado gênero em específico. Logo, os discursos comuns, segundo Miller (2009 [1984]),
128
ao invés de tornarem o estudo de gêneros trivial, “levam a sério a retórica em que somos
imersos e as situações em que nós nos encontramos” (p. 28).
Para Devitt (2004), o que entendemos sobre os gêneros e o modo como respondemos
a eles reflete muito mais do que um conjunto de características formais ou de convenções
textuais. Quando, por exemplo, recebemos pelos Correios um anúncio promocional disfarçado
de carta pessoal ou uma mensagem importante da empresa que administra nosso cartão de
crédito, rapidamente entendemos, ao abrir o envelope, ou até mesmo sem abri-lo, que se trata
da promoção de um produto que tem a finalidade de nos fazer comprar algo. Logo, quando
reconhecemos o gênero como promocional, ou compramos o produto ou jogamos fora o
anúncio disfarçado que recebemos. Devitt considera que essa prática cada vez mais recorrente
de recebermos gêneros disfarçados em outros indica a possibilidade de separação das
características formais da essência do gênero.
Porém, o que entendemos sobre essas cartas disfarçadas e a forma como as
respondemos indicam muito mais do que um conjunto de características formais ou
convenções textuais. Isso significa, segundo Devitt (2004), que uma teoria retórica de gêneros
deva ver além (bem como o que está por trás) das classificações particulares e das formas, que
indicam e traçam – mas não constituem – o gênero. Estudar os gêneros significa buscar
relacionar e entender as variáveis que o acarretam: propósitos, participantes, temas, situação
retórica, contexto social.
Embora sejam caracterizados pela ação que realizam, os gêneros possuem
características formais. Devitt (2004) afirma que os gêneros se originam nos padrões textuais
recorrentes, em formas. Por outro lado, os ouvintes reconhecem marcadores formais de um
gênero particular e o identificam. Algumas formas, como o “era uma vez”, que é uma marca
formal que inicia alguns contos de fadas, ou “você já ouviu aquela”, que marca formalmente o
início de algumas piadas, são reconhecidas pelos ouvintes. Mesmo que certas formas
identifiquem certos gêneros, é problemático, porém, estudiosos se apegarem a esse tipo de
marcador discursivo para definir gêneros, pois nem todo conto de fadas começa com “era uma
vez” e nem toda piada com “você conhece aquela”, sendo que essas formas também não se
restringem a esses gêneros.
129
Em contrapartida, há gêneros que não apresentam traços comuns entre suas unidades
representativas. Um exemplo é o estudo desenvolvido por Medway (2002) com o architects’
notebook (caderno do arquiteto), um tipo particular de caderno, fisicamente, com tamanho,
cor e material padronizado, bastante utilizado entre estudantes de arquitetura. O estudo
apontou que não existem traços comuns entre eles, sendo que uns incluíam imagens outros
não, uns incluíam frases e parágrafos completos outros não etc.
Outro problema de se caracterizar gêneros pela forma, segundo Devitt (2004), é que
as características formais podem mudar ao longo do tempo ao passo que os rótulos dados
pelos usuários para aquele gênero não. São rotuladas de notícias, por exemplo, textos de
jornais impressos, de telejornais, de rádios e da internet. Quando atentamos para os diferentes
meios em que esses textos são divulgados, notamos diferenças significativas na estrutura
formal deles, diferenças que ficam ainda mais salientes se compararmos textos de diferentes
estágios de tempo. Notícias da década de 1980, como aquelas estudadas por Van Dijk (1990
[1988]), quando comparadas com webnotícias do corpus de análise desta tese, são bastante
diferentes. Em vinte e poucos anos muita coisa mudou no que designamos de notícia, mas
mesmo muita coisa tendo mudado, o rótulo pode ser o mesmo, bem como a ação retórica
realizada pelo gênero.
Há, ainda, subespecificações que indicam ainda mais a complexidade de se estudar
os gêneros. Como as subdivisões chamadas por Bhatia (1997) de constelação de gêneros.
Nesse âmbito, temos, a partir do grande guarda-chuva notícia, as notícias policiais, as de
entretenimento, as políticas, as de economia, as promocionais etc. Por outro lado, talvez seja
ainda possível observar sobre essa noção de constelação de gêneros as notícias que circulam
em diferentes meios, como na TV, no jornal e, mesmo, na internet.
Isso significa que os itens não são rotulados apenas por suas propriedades formais,
mas, sobretudo, por suas propriedades funcionais. Devitt explora essa ideia com a metáfora da
cadeira. Chamamos de cadeira diferentes modelos e formatos de objetos que funcionam para
que nos sentemos neles, muito embora a sensação de estar sentado seja diferente em
diferentes formatos e modelos. Com os gêneros acontece de forma semelhante: as pessoas não
os nomeiam a partir das suas características formais, mas a partir da sua percepção da ação
130
retórica que acontece. Isso justifica o fato de que, mesmo sendo associado à forma, o gênero
não se define por ela. Devitt (2004, p. 11) complementa que:
as características formais marcam fisicamente alguns gêneros, atuam como marcas,
e, portanto, podem ser bem reveladoras. Mas esses traços formais não definem ou
constituem o gênero. O fato de que o gênero se reflete em características formais não
significa que o gênero é essas características formais35.
Nesse sentido, há gêneros que se definem menos assim como outros que se definem
mais pelas características formais, que podem ou não atuar como marcas [formais], mas o
gênero não se resume a isso. Para Campbell e Jamieson (1978), os gêneros são respostas
estilísticas e substantivas às demandas situacionais percebidas. Logo, uma mesma forma pode
aparecer isoladamente em outros gêneros, mas essas formas são ligadas por uma dinâmica
interna, para que um único ato retórico seja criado, que é exatamente o que define o gênero:
um único ato retórico, uma ação, que está além (ou acima) de quaisquer características
formais particulares.
3.2.4 O propósito comunicativo ou propósito retórico
Os gêneros costumam ser definidos essencialmente em relação ao uso que fazemos
da linguagem em contextos comunicativos convencionados. São esses contextos, conforme
Bhatia (2009, p. 161), que dão origem aos “conjuntos específicos de propósitos
comunicativos para grupos sociais e disciplinares especializados, que, por sua vez,
estabelecem formas estruturantes relativamente estáveis”, podendo, inclusive, impor
restrições acerca do emprego de recursos léxico-gramaticais. Bhatia (2009) afirma que pelo
menos três aspectos inter-relacionados têm tido bastante destaque nos estudos sobre gêneros:
a recorrência de situações retóricas, os propósitos comunicativos compartilhados e as
regularidades da organização estrutural.
Como podemos ver, a partir de Bhatia, o conceito de propósito comunicativo é
apontado como um dos pilares dos estudos de gêneros. Já dissemos que os estudos de gêneros
orientados pela perspectiva sociorretórica, na base dos postulados de Miller (2009 [1984]),
35
“[the] formal features physically mark some genres, act as traces, and hence may be quite revealing. But those
formal traces do not define or constitute the genre. The fact that genre is reflected in formal features does not
mean that genre is those formal features” (DEVITT, 2004, p. 11).
131
veem os gêneros a partir da ação social realizada por meio dele. Nesse sentido, a noção de
propósito comunicativo pode ser utilizada com a finalidade de acentuar a questão da ação
social realizada com o gênero. Askehave e Swales (2009) consideram que “os gêneros são
mais bem definidos como entidades orientadas para objetivos ou propósitos” (p. 221).
Afirmação que é resultante da definição de propósito apresentada em Swales (1990, p. 58):
Um gênero compreende uma classe de eventos comunicativos, cujos membros
compartilham um conjunto de propósitos comunicativos. Esses propósitos são
reconhecidos pelos membros experientes da comunidade discursiva e dessa forma
constituem a lógica do gênero. Esse fundamento lógico modela a estrutura
esquemática do discurso e influencia e restringe as escolhas de conteúdo e estilo 36.
Os propósitos comunicativos dos gêneros, conforme Swales (1990), são
compartilhados e reconhecidos pelos membros experientes de uma comunidade discursiva, e
constituem o fundamento lógico dos gêneros, modelando a estrutura esquemática do discurso
(ou a forma do gênero) e influenciando e restringindo as escolhas de conteúdo e estilo (ou de
substância do gênero). Nessa perspectiva, o propósito comunicativo é visto como uma
categoria fundamental e central para a análise do gênero, uma vez que direciona a ação
retórica realizada pelo membro de uma comunidade discursiva, usuário experiente do gênero.
Swales (1990) observa que é o propósito comunicativo que opera na manutenção do escopo
do gênero, por sua vez diretamente relacionado à ação retórica comparável (nos termos de
Swales (1990)) ou ação retórica recorrente (nos termos de Miller (2009 [1984])).
Askehave e Swales (2009) argumentam em torno da definição de gênero proposta
por Swales (1990). Os autores consideram que a mesma vê o gênero a partir de sua função e,
por isso, tem como consequência imediata e positiva o entendimento do gênero como evento
social ou comunicativo, estabelecendo ainda uma relação entre o propósito comunicativo
realizado através do gênero e da estrutura ou forma deste. A abordagem proposta sugere que o
propósito comunicativo modela o gênero, imprimindo a ele uma estrutura interna ou
esquemática.
36
No original: “A genre comprises a class of communicative events, the members of which share some set of
communicative purposes. These purposes are recognized by the expert members of the parent discourse
community, and thereby constitute the rationale for the genre. This rationale shapes the schematic structure of
the discourse and influences and constrains choice of content and style” (SWALES, 1990, p. 58).
132
Outra vantagem dessa abordagem, segundo Askehave e Swales (2009), é que o
propósito comunicativo permite que o analista sustente e defenda um conceito delimitado
(“estreito”) de gênero, no sentido de dois textos, mesmo sendo apresentados de modo
semelhante, mas com propósitos comunicativos diferentes, reconhecidos pelos especialistas
da área pertinente, participarem de gêneros diferentes. Por outro lado, os autores, ainda com
base em Swales (1990), ressaltam que, assim como os nomes dos gêneros utilizados pelas
comunidades podem ser questionados “quanto a sua exatidão, confiabilidade e percepção” (p.
225), dúvidas semelhantes podem surgir em relação aos propósitos comunicativos, sob a visão
dos especialistas ou usuários experientes dos gêneros.
Sabemos que o propósito é uma categoria do gênero menos demonstrável, se
comparada à forma, por exemplo. Logo, é preciso que haja, da parte do analista, conforme
observou Swales (1990), um esforço para que sua análise não caia numa “classificação
simplista apoiada em traços estilísticos e em crenças estabelecidas” (p. 46). Isso significa que
o analista deve estar atento para o fato, apontado por Askehave e Swales (2009), de que,
mesmo na visão de especialistas, os propósitos comunicativos dos gêneros podem não
representar um acordo comum, o que mostra que apontar o propósito comunicativo de um
gênero, nem sempre corresponde a uma tarefa fácil.
Askehave e Swales (2009) consideram as possíveis manipulações estratégicas e
intenções particulares como capazes de acrescentar elementos adicionais ao conjunto de
propósitos comunicativos. Uma intenção particular de um membro da comunidade discursiva
pode ser confundida com o propósito comunicativo do gênero, o que na realidade não
corresponderá a um propósito comunicativo do gênero, mas a uma intenção individual. Da
mesma forma, é possível que seja identificado pelo analista (em situação não oficial, por
exemplo) um propósito do gênero e o mesmo não ser reconhecido (publicamente) ou
certificado pela instituição ou pelos usuários.
É importante que o analista dê atenção para o fato de que, para o especialista usuário
do gênero, o que mais fica evidente é a forma e o conteúdo, muito mais imediatamente do que
o propósito. Isso revela a importância do estudo do gênero não ser feito a partir da
identificação do propósito, em razão de esta não ser uma categoria primária de percepção,
133
tanto para quem produz como para quem analisa, como a forma e/ou a substância. Por outro
lado, conforme observam Askehave e Swales (2009), ainda que o propósito esteja explicitado
textualmente, é temerário que a interpretação aconteça somente da forma como os elementos
se apresentam.
Embora vejam o propósito comunicativo como importante categoria para a análise e
o estudo dos gêneros, Askehave e Swales (2009) propõem uma metodologia de análise do
gênero, onde o propósito comunicativo aparece mais como o resultado da análise, em
detrimento do uso do propósito como método classificatório dos discursos em categorias
genéricas. Destacamos aqui uma das propostas oferecidas pelos autores, que é classificada
como abordagem tradicional (linguística) de análise a partir do texto, apresentada por eles a
partir de cinco passos de análise:
1) O primeiro passo corresponde à análise inicial e conjunta da estrutura, do estilo, do
conteúdo e do “propósito”, que os autores apresentam entre aspas, para mostrar que,
numa primeira análise, os resultados podem indicar um status provisório, ainda não
definitivo de qual seja o propósito ou o conjunto de propósitos do gênero em estudo.
Askehave e Swales (2009) chamam atenção ainda para o fato de que a análise do
conteúdo deve estar atenta para o que não foi dito ou escrito textualmente, mas que é
passível de análise.
2) O segundo passo é o do “gênero”, que é encontrado ou classificado a partir das
informações advindas da análise feita no primeiro passo. Nessa segunda etapa, o
“gênero” também está representado entre aspas para indicar ainda o caráter provisório
de classificação e/ou identificação nesse estágio da análise.
3) O terceiro passo analisa o contexto, ou a situação em que o gênero é produzido, que
não é discutida nem definida pelos autores, mas rotulada por eles de “caixa-preta”, em
que é possível de ser operacionalizada por investigadores de acordo com as
circunstâncias da investigação. Acreditamos que a noção de contexto do gênero,
conforme apresentada em Askehave e Swales (2009), corresponde ao que Miller (2009
[1984]) apresenta como situação retórica recorrente.
134
4) O quarto passo apresenta a noção de re-propósito do gênero, ou re-propósito
comunicativo do gênero, que consiste numa segunda análise de verificação, para
possível constatação (ou não) do “propósito” identificado no primeiro passo.
5) O quinto passo é a revisão do status do gênero, que é apresentada como um “tipo de
categoria aberta, que pode implicar a revisão de fronteiras genéricas, ou a defesa da
existência de um novo gênero ou da atrofia ou descaracterização de um gênero antigo”
(ASKEHAVE e SWALES, 2009, p. 240). A revisão compreende a avaliação final do
analista, com base nos resultados obtidos nas etapas anteriores, do status
sociorretórico do gênero, mostrando a sua situação de permanência, de transformação
etc. na comunidade discursiva.
Sobre a definição de gêneros como “uma classe de eventos comunicativos, cujos
membros compartilham um conjunto de propósitos comunicativos”, e de propósito como “um
critério privilegiado e que opera para manter o escopo de um gênero”, de Swales (1990, p.
58), Askehave e Swales (2009) propõem que o status de “critério privilegiado” do propósito
continue, mas em sentido diferente do que foi apresentado inicialmente. O propósito não deve
ser privilegiado pela centralidade ou proeminência que ocupa sobre o gênero, nem mesmo
“sobre as crenças reportadas pelos usuários de gêneros, mas por sua posição como
recompensa ou retribuição aos investigadores no momento em que chegam a completar o
círculo hermenêutico” (p. 243).
Biasi-Rodrigues e Bezerra (2012) alertam para o perigo de uma análise muito geral
levar a uma falsa identificação de gêneros diferentes, em decorrência de gêneros diferentes
poderem ser identificados como se fossem a mesma coisa. Nesse sentido, “o conceito de
propósito comunicativo terá uma relevância muito maior se for definido de forma a mais
específica possível, devendo e definição ser orientada para o gênero em análise” (p. 247).
Concordamos com a posição dos autores, pois, como eles, entendemos que uma análise muito
geral leva a resultados pouco produtivos. Logo, é preciso considerar que uma mudança, seja
em relação ao retor ou a audiência, ao suporte ou à situação retórica recorrente pode interferir
ou alterar o propósito comunicativo [ou propósito retórico] do gênero ou até mesmo o seu
reconhecimento.
135
Nesta tese, a análise do propósito comunicativo da webnotícia constitui uma das
etapas da análise sociorretórica do gênero. Para tanto, consideramos os resultados obtidos nas
outras etapas da análise para não corrermos o risco de fazermos uma identificação prematura
do propósito, antes mesmo de caracterizarmos o gênero em outros aspectos, como a fusão
forma e substância, a situação e a ação retórica recorrente. Dessa forma, o propósito
comunicativo da webnotícia aparecerá mais como o resultado da análise de etapas anteriores,
conforme preconizam Askehave e Swales (2009).
Como vimos, as noções teóricas principais da Sociorretórica visam explicar a
definição de Miller (2009 [1984]), para gêneros, “como ações retóricas tipificadas fundadas
em situações recorrentes” (p. 34). Logo, a noção de situação retórica de Bitzer (1968) foi
alargada para abarcar a todos os tipos de situação e discurso, pois a natureza do gênero não é
determinista, mas recíproca. Por outro lado, embora a situação retórica seja recorrente, cada
situação é única, pois o que entendemos por recorrência decorre de como as pessoas usam os
gêneros, e são essas pessoas que definem a semelhança, tanto no gênero como na situação. O
gênero e a situação são reciprocamente relacionados porque são construídos mutuamente
(DEVITT, 2004).
Partindo das principais definições da Sociorretórica, Sousa (2013) elaborou uma
figura em que mostra a relação dos elementos envolvidos na ação social realizada com o
gênero. A figura consiste numa tentativa de sistematização da relação entre elementos que
suscitam várias noções teóricas complexas na caracterização de um gênero a partir da ação
social que pode ser desenvolvida com ele. Na Figura 7, vemos a “relação existente entre os
elementos que estão envolvidos com a utilização do gênero em sociedade” (SOUSA, 2013, p.
46):
136
Figura 7: Sistematização do contexto de utilização de gêneros
Fonte: Sousa (2013, p. 47).
A Figura 7 mostra que, no interior de uma situação social, o retor encontra uma
exigência retórica, que lhe aparece como o elemento responsável por desencadear uma ação
retórica. O indivíduo, portanto, como membro participante de uma comunidade retórica,
reconhece a exigência ao mesmo tempo em que entende que pode agir retoricamente,
procedendo à escolha de um gênero. Nessa escolha, é considerado o propósito comunicativo
do gênero, que é convencionado socialmente pelas recorrências das ações retóricas anteriores,
e que, por isso, restringe uma (possível) intenção individual de ação do sujeito.
Pela Figura 7 conseguimos visualizar mais claramente o princípio ativo na utilização
que fazemos dos gêneros. O retor ou usuário do gênero, como membro participante de uma
comunidade retórica, interpreta a situação e faz o uso adequado do gênero muitas vezes sem
137
nem se dá conta disso, pois se trata de algo que acontece naturalmente no seu dia a dia. O
analista, por sua vez, transforma essas ações em dados, a fim de interpretá-las, mas é preciso
estar atento para a complexidade desse processo, já que, diante de uma análise com dados
empíricos, a identificação e/ou a interpretação desses elementos, bem como a função
desempenhada por eles não são fáceis.
Em nossa pesquisa, analisaremos a webnotícia a partir de elementos que compõem e
caracterizam o funcionamento sociorretórico do gênero, inclusive o propósito comunicativo
ou o conjunto de propósitos comunicativos, conforme a análise dos dados nos apontará.
Compartilhamos da ideia de que, embora o propósito comunicativo corresponda a um
elemento importante na descrição de um gênero, a análise não deve partir da identificação do
propósito do gênero, mas do estudo de outros elementos que também compõem o gênero e
que, por sua vez, direcionarão a identificação do propósito ou do conjunto de propósitos.
Propomos, em nosso trabalho, tanto um estudo das operações de retextualização na
webnotícia, como um estudo sociorretórico da webnotícia. Essa escolha nossa requer um
procedimento duplo de análise de corpus: 1) das operações de retextualização e 2) da
caracterização do gênero do ponto de vista sociorretórico. A primeira etapa de análise
(estratégias de retextualização) apontará resultados sobre o processo de elaboração da
webnotícia, no tocante ao processamento da informação, já a segunda (sociorretórica)
examina o funcionamento do gênero do ponto de vista retórico e social.
No capítulo 4, detalhamos os procedimentos metodológicos que subsidiam o
desenvolvimento desta pesquisa.
138
139
4. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS DA PESQUISA
No capítulo 3, tratamos das noções teóricas de gêneros que norteiam este trabalho.
Dissemos que partimos do entendimento de que gênero é ação social, uma noção teórica
defendida por Miller (2009 [1974]) e que constitui a base da teoria Sociorretórica. Para que
entendêssemos essa noção de gênero como ação social, tratamos de questões fundamentais
que estão relacionadas a esse pressuposto, como o fato de que os gêneros são caracterizados
mais pela ação que realizam do que por características formais; que são produzidos dentro de
uma situação retórica recorrente e são respostas a exigências que também são retóricas; que os
elementos de forma e conteúdo que os constituem são o resultado de uma fusão e não
funcionam separadamente; e que o propósito comunicativo é um elemento inerente ao gênero
e representa a finalidade da ação social que realizamos através do mesmo.
Neste capítulo, apresentamos os procedimentos metodológicos que estruturam nossa
tese. Para isso, partimos da pergunta inicial que direciona os passos que seguimos
posteriormente no desenvolvimento da pesquisa, que são o objeto de pesquisa e os objetivos,
estes elencados a partir de hipóteses preliminares. Na apresentação do corpus de pesquisa,
mostramos os critérios definidos para coleta e análise de material, bem como as características
gerais e os gêneros de que participam o conjunto de textos que trabalhamos. Detalhamos
ainda o método que desenvolvemos para a análise dos dados, que está organizado nos dois
capítulos seguintes, um primeiro voltado para a análise de estratégias de retextualização na
webnotícia e um segundo, em que é feita a análise sociorretórica do gênero.
4.1 Problematização
Já dissemos que a notícia é certamente um dos gêneros mais utilizados em nosso
meio social. Como sabemos, na internet, temos notícias sendo produzidas em larga escala por
portais jornalísticos e por portais não jornalísticos, que têm fins diversos. É notável a
popularidade do gênero também em sites de instituições sociais e em blogs pessoais e
140
jornalísticos, que visam atrair a atenção de internautas para diferentes temas e conteúdos.
Importante lembrar que as notícias continuam sendo produzidas, e ainda atraem a atenção de
um grande público, na televisão, no rádio e nos jornais impressos.
Devido ao nosso hábito de assistir a telejornais, de ler informações de jornais
impressos e, mais recentemente, de portais jornalísticos na internet, uma pergunta sempre nos
inquietou mediante ao que observávamos sobre a postura dos jornalistas acerca dos temas que
serviam de matéria de notícia. Antes mesmo de termos ou de pensarmos em desenvolver um
projeto de pesquisa, percebíamos a extrema relevância que alguns temas pareciam ter em
relação a outros, a divergência na abordagem de um mesmo evento por diferentes jornais e a
grande relevância que era dada a assuntos relacionados a indivíduos considerados importantes
ou famosos ou a eventos relacionados a pessoas de classes sociais privilegiadas. Assim, desde
cedo, inquietava-nos a seguinte indagação: o que vira notícia?
Sabemos ainda que as notícias, embora sejam comumente vistas com a função de
trazer informações novas e relevantes para a sociedade e/ou grupos sociais, originam-se sobre
as informações de outros textos. Logo, o que é apresentado como novidade, já é oriundo de
outra fonte, e podemos, inclusive, indagar-nos sobre o porquê de, no texto de origem, a
“mesma” informação não ser vista como nova, como quando aparece na notícia. Nesse
sentido, percebemos que poderíamos chegar a resultados importantes sobre o processo de
produção e funcionamento desse gênero, se estudássemos fenômenos linguísticos e sociais
envolvidos na transformação de texto-fonte em texto jornalístico, mais especificamente, em
notícia.
Assim, no desenvolvimento de uma proposta de pesquisa com o gênero notícia,
aquela nossa indagação inicial foi reelaborada, para que tivéssemos um problema de
pesquisa. Logo, passamos a nos perguntar: como se constrói uma webnotícia? Essa
pergunta pode ser considerada sobre diversas perspectivas, mas, para nossa tese, direcionamola, basicamente, para um estudo do processamento da informação na webnotícia, focando
no processo de produção da notícia, com o tratamento que é dado à informação nesse gênero.
Da questão principal, surgiram as outras questões norteadoras: Como se caracteriza o
processo de transformação de uma fonte em webnotícia? Como os padrões textuais e
141
discursivos do gênero interferem no processo de retextualização do texto-fonte em
webnotícia? Qual o papel do texto-fonte para a produção da webnotícia? Para isso, faremos
uma análise comparativa da webnotícia e do texto utilizado pelo jornalista como fonte
principal de informação.
4.2 Objeto, hipóteses e objetivos
O objeto de nossa pesquisa é recortado neste ponto: o processo de construção na
webnotícia, sendo que o objeto de pesquisa é efetivamente a webnotícia. Do ponto de vista
teórico, realizamos uma análise do processo de retextualização, fazendo uma interface com os
estudos de gêneros. Nesse sentido, o trabalho foi estruturado a partir de uma abordagem
interdisciplinar,
na
qual
conjugamos
duas
perspectivas
teóricas
principais:
a
retextualização, no âmbito dos estudos textuais, e a análise de gêneros, na perspectiva da
Sociorretórica. Consideramos ainda definições teóricas de Van Dijk (1990 [1988]) sobre o
processamento da informação.
As questões centrais de pesquisa nos levaram ao estabelecimento de algumas
hipóteses acerca do processamento da informação na webnotícia e da prática desse gênero na
internet:
 Primeira (decorrente da primeira questão): a retextualização, na notícia, é um processo
que ocorre intimamente relacionamento aos condicionamentos e especificidades do
gênero. Logo, a característica da notícia de “trazer informações novas e relevantes”
condiciona os mecanismos linguísticos utilizados pelo jornalista para divulgar e
difundir socialmente a informação como sendo de interesse público.
 Segunda: a retextualização está diretamente relacionada aos elementos composicionais
da notícia, como forma e substância. Nesse sentido, as estratégias linguísticas
utilizadas colaboram para o funcionamento social do gênero, havendo tratamento da
informação em relação ao texto-fonte.
142
 Terceira: na webnotícia, o texto-fonte pode ser mais que uma fonte, no sentido de que,
aparecendo no portal jornalístico, na mesma página da notícia, ele pode funcionar
como parte da notícia ou, ainda, como a própria notícia, dentre outras.
 Quarta: a presença do texto-fonte na mesma página da internet em que a notícia é
publicada funciona como uma estratégia retórica que dá a ideia de que o internauta
pode ter acesso aos fatos diretamente, imprimindo, assim, credibilidade ao portal
jornalístico. Nesse sentido, ao se apropriar da informação do texto-fonte, o jornalista
manipula essa informação em função de interesses determinados da instituição
jornalística a qual está vinculado, de modo que a informação é divulgada seguindo um
parâmetro, próprio da mídia, de despertar o interesse (chamar a atenção) do
interlocutor/internauta.
Dessa forma, estabelecemos como objetivo geral do trabalho analisar o
processamento da informação na webnotícia, em casos cuja informação é oriunda de um
texto-fonte principal e que, portanto, exemplificam o processo de retextualização. E, a partir
do objetivo geral, os objetivos específicos, que são:
1) Examinar condicionamentos e especificidades na construção da webnotícia a partir do
processo de retextualização, analisando as operações de retextualização utilizadas
como estratégias linguísticas dessa construção.
2) Caracterizar a webnotícia do ponto de vista da teoria Sociorretórica, a partir da análise
de casos em que o texto noticioso se constitui fundamentalmente sobre um texto-fonte
principal.
3) Explicar a relação entre o processo de retextualização e a webnotícia, examinando as
inter-relações desta com seus textos-fonte.
143
4.3 Descrição do corpus
A partir dos objetivos que propomos para esta pesquisa, montamos um corpus,
seguindo critérios de ordem qualitativa, para fazermos a análise de dados. São textos que
participam do gênero notícia publicados em portais jornalísticos, na internet, e os textos-fonte
principais dessas notícias, que obedecem aos seguintes critérios:
 Notícias: construídas fundamentalmente a partir de informações veiculadas num textofonte principal, que exemplificam, para nós, o processo de retextualização.
 Texto-fonte: tomados como fundamentação básica para as notícias e que participam de
gêneros escritos diversos.
As publicações foram feitas por portais jornalísticos brasileiros, sendo dois de
abrangência
nacional
(g1.com
e
folha.com)
e
cinco
de
abrangência
regional37
(cidadeverde.com; portalodia.com; portaldaclube.com; meionorte.com e portalaz.com). A
escolha dos portais se deu de forma intencional. Os dois nacionais têm grande
representatividade jornalística, já que são ligados a grandes empresas com longa tradição no
jornalismo brasileiro. Os portais regionais ou locais são os mais representativos do estado do
Piauí, e, em sua maioria, são ligados a redes de televisão e/ou a jornais locais. A escolha dos
portais regionais do estado do Piauí, em detrimento de outros estados da Federação, foi devida
a esses serem do mesmo estado de origem da pesquisadora, em que foi possível eleger os
portais mais representativos para essa região, bem como chegar mais facilmente aos
jornalistas de portais, para que obtivéssemos dados para análise do gênero do ponto de vista
de usuários experientes, que compreende parte da análise dos dados.
4.3.1 Coleta dos dados
A coleta dos dados aconteceu a partir da seguinte estratégia: utilizamos nossa página
pessoal da rede social Facebook como ferramenta para acompanhar as páginas oficiais dos
portais jornalísticos na mesma rede social, já que, com a difusão das redes sociais, as
instituições jornalísticas também passaram a utilizar-se das mesmas. O acompanhamento
37
Também conhecidos como portais locais.
144
aconteceu pelo recurso oferecido pela rede social de “seguir” as denominadas “fanpages” 38
dos portais, através da opção “like” ou “curtir”. Assim, as principais notícias publicadas
diariamente nas “fanpages” dos portais jornalísticos apareciam em nosso perfil pessoal do
Facebook. As “fanpages” dos portais jornalísticos trazem a manchete das notícias e um link
que direciona o internauta ao site do portal para a leitura dos textos na íntegra. A escolha dos
perfis oficiais dos portais jornalísticos também aconteceu de forma intencional.
Assim, montamos o corpus na medida em que eram publicadas notícias com os
critérios que definimos e quando era possível termos acesso ao texto principal que
fundamentava a notícia. Durante o período de 2010 a 2013, que acompanhamos os portais,
coletamos amostras de notícias fundamentadas sobre uma variedade de textos-fonte. Esses
constituem apenas numa amostra, haja vista que não coletamos todas as notícias publicadas
pelos portais que se enquadravam em nossos critérios, uma vez que não acompanhávamos os
portais 24 horas.
4.3.2 O corpus
Durante o tempo em que montamos o corpus desta pesquisa, surgiram muitos textos
que a priori atendiam aos critérios do nosso trabalho. Como tínhamos em vista notícias
publicadas em portais jornalísticos que exemplificassem um processo de retextualização, os
exemplares que eram publicados e que atendiam a esse critério eram coletados. Dessa forma,
gêneros variados, de comunidades retóricas distintas, surgiam como texto-fonte das notícias
“retextualizadas”, como postagem em rede social, nota de órgão oficial, Lei, notícia de portal
jornalístico estrangeiro, carta pessoal, carta à imprensa, carta pública, portaria, boletim
médico, certificado, panfleto de denúncia, mandado judicial, depoimento policial, laudo
pericial, certidão, biografia autorizada, até mesmo textos-fonte envolvendo outros elementos
semióticos como documentário, filme, anúncio de TV de campanha política etc.
38
Fanpage ou página de fãs é um tipo de página específica do Facebook para empresas, marcas, produtos etc.
que desejam interagir com clientes através da rede social (O QUE É uma fanpage?
http://www.aldabra.com.br/artigo/marketing-digital/o-que-e-uma-fanpage. Acesso em: 12 mar. 2014.).
145
No geral, coletamos mais de cinquenta notícias fundamentadas sobre um texto-fonte
principal. Mas para que operacionalizássemos uma análise dos dados, desse corpus geral,
eliminamos casos que não atendiam exatamente aos nossos objetivos da pesquisa, como
notícias fundamentadas em vídeos, outras que a imagem do texto-fonte não permitia que o
mesmo fosse lido na íntegra ou que repetiam sobremaneira estratégias já identificadas na
amostra. Assim, elegemos 21 casos que, a nosso ver, ilustram o processamento da informação
em relação ao(s) texto(s) no(s) qual(is) se fundamentam e a ação retórica dos portais
jornalísticos ao produzirem notícias.
No total, o corpus é constituído por 43 textos, sendo 21 notícias e 22 textos-fontes,
distribuídos conforme mostra o Quadro 5:
Quadro 5: Corpus geral: notícias e seus respectivos textos-fonte principais
1
2
3
4
5
6
7
8
NOTÍCIA
Portal da Clube tem acesso à carta encontrada na Irmão Guido; Confira!
http://portaldaclube.profissional.ws/portal-da-clube-tem-acesso-a-cartaencontrada-na-irmao-guido-confira.html (acesso em 22/10/2012)
Carta encontrada em presídio ordena rebelião geral; Leia aqui
http://www.cidadeverde.com/carta-encontrada-em-presidio-ordenarebeliao-geral-leia-aqui-116092 (acesso em 22/10/2012)
Agentes interceptam carta que ordenava rebeliões e assassinatos nos
presídios do PI
http://www.portalodia.com/noticias/policia/agentes-interceptam-cartaque-ordenava-rebelioes-e-assassinatos-nos-presidios-do-pi-154172.html
(Acesso em 23/10/2012)
Em cartas, pai e madrasta de Isabella declaram inocência
http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL386926-5605,00EM+CARTAS+PAI+E+MADRASTA+DE+ISABELLA+DECLARAM
+INOCENCIA.html (acesso em 03/04/2008)
Em carta, Bruno pediu para Macarrão assumir assassinato de Eliza
Samudio
http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2012/07/em-carta-brunopediu-para-macarrao-assumir-assassinato-de-eliza-samudio.html (acesso
em 09/07/2012)
Ex-presidente do TJ rebate críticas à sua gestão: "O que realizamos salta
aos olhos"
http://www.portalodia.com/noticias/politica/em-carta-a-eulalia-pinheiroex-presidente-do-tj-rebate-criticas-a-gestao-anterior-150530.html (acesso
em 12/09/2012)
Agespisa divulga nota sobre contratos com empresa fraudadora de
licitações
http://portaldaclube.com/agespisa-divulga-nota-sobre-contratos-com-...
(acesso em 16/11/2012)
Estação é consertada; Agespisa volta a produzir água a partir das 11
horas
http://www.cidadeverde.com/printpage.php?id=116571 (acesso em
TEXTOS-FONTE
CARTA
(Disponibilizada no Portal
veiculador da notícia)
CARTA
(Disponibilizada no Portal
veiculador da notícia)
CARTA (Disponibilizada no
Portal veiculador da notícia)
CARTAS (Disponibilizadas
no Portal veiculador da
notícia)
CARTA
(Não disponibilizada no
Portal veiculador da notícia)
Fonte: Revista Veja, ed. 2277,
jul/12.
CARTA
(Disponibilizadas no Portal
veiculador da notícia)
NOTA
(Disponibilizadas no Portal
veiculador da notícia)
NOTA
(Disponibilizadas no Portal
veiculador da notícia)
146
9
10
11
12
13
14
15
28/10/2012)
Sesapi divulga nota sobre Operação Nosferatu deflagrada pela Polícia
Federal
http://portaldaclube.profissional.ws/sesapi-divulga-nota-sobre-operacaonosferatu-deflagrada-pela-policia-federal-2.html (acesso em 01/10/2012)
CNM lamenta veto na lei de royalties, e divulga nota oficial sobre
decisão
http://www.cidadeverde.com/cnm-lamenta-veto-na-lei-de-royalties-edivulga-nota-oficial-sobre-decisao-119429 (acesso em 02/12/2012)
Chesf e ONS divulgam notas sobre apagão que afetou PI e mais 11
estados
http://portaldaclube.profissional.ws/chesf-e-ons-divulgam-notas-sobreapagao-que-afetou-pi-e-mais-11-estados.html (acesso em 26/10/2012)
Jovem ainda passará por exames para conclusão do inquérito, diz MP
www.portalodia.com/noticias/policia/mp-divulga-nota-sobre-denunciade-jovem-abusada-por-pai-e-padrasto-173168.html (acesso em
22/05/2013)
Paródia de Dilma ameaça 'suicídio digital' após frase apagada pelo
Facebook
http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/05/1286687-parodia-de-dilmaameaca-suicidio-digital-apos-frase-apagada-pelo-facebook.shtml
(Acesso em 29/05/2013)
Tico Santa Cruz presencia acidente em rodovia do PI e faz relato no
Facebook
www.portalodia.com/noticias/policia/tico-santa-cruz-presencia-acidenteem-rodovia-do-pi-e-faz-relato-no-facebook-165681.html (acesso em
22/02/2013)
Tico Santa Cruz desabafa sobre estrada do Piauí no Facebook
www.cidadeverde.com/tico-santa-cruz-desabafa-e-faz-alerta-sobreestrada-do-piaui-no-facebook-125906 (acesso em 22/02/2013)
16
Jovem violentada por 12 anos denuncia caso pelas redes sociais;
acusados são ouvidos
www.cidadeverde.com/piracuruca/index.php (acesso em 22/05/2013)
17
Menor diz em depoimento que ossos de Eliza Samudio foram
concretados
http://g1.globo.com/brasil/noticia/2010/07/menor-diz-em-depoimentoque-ossos-de-eliza-foram-concretados-em-sitio.html
Secretaria de Segurança diz que ex-prefeita não é alvo de investigação
www.portalaz.com.br/blogs/elias_lacerda (acesso em 06/06/2013)
18
19
Edivar é homenageado pelo Unicef
www.portalaz.com.br/blogs/elias_lacerda (acesso em 06/06/2013)
20
MP apura denúncias de contratação irregular de servidores temporários
www.portalaz.com.br/noticia/municipios/269145_mp_apura_denuncias_
de_contratacao_irregular_de_servidores_temporarios.html (Acesso em
04/06/2013)
Hospital divulga boletim e diz que Kleber Eulálio sofreu infarto
http://www.portalaz.com.br/noticia/municipios/276791_hospital_divulga
21
NOTA
(Disponibilizada no Portal
veiculador da notícia)
NOTA
(Não disponibilizada no
Portal veiculador da notícia)
http://www.cnm.org.br/image
s/stories/Links/30112012_not
a_veto_royalties.pdf (acesso
em 02/12/2012)
NOTAS
(Disponibilizadas no Portal
veiculador da notícia)
NOTA
(Disponibilizada no Portal
veiculador da notícia)
NOTA
(Disponibilizada no Portal
veiculador da notícia)
POSTAGEM EM REDE
SOCIAL
(Disponibilizada no Portal
veiculador da notícia)
POSTAGEM EM REDE
SOCIAL
(Disponibilizada parcialmente
no Portal veiculador da
notícia)
POSTAGENS EM REDE
SOCIAL
(Disponibilizada no Portal
veiculador da notícia)
DEPOIMENTO POLICIAL
(Disponibilizado no Portal
veiculador da notícia)
CERTIDÃO
(Disponibilizada no Portal
veiculador da notícia)
CERTIFICADO
(Disponibilizado no Portal
veiculador da notícia)
PORTARIA
(Disponibilizada no Portal
veiculador da notícia)
BOLETIM MÉDICO
(Disponibilizado no Portal
147
_boletim_e_diz_que_kleber_eulalio_sofreu_infarto.html (acesso em
22/09/2013)
veiculador da notícia)
Das 21 webnotícias selecionadas para fazerem parte da pesquisa, temos 22 textosfonte correspondentes às mesmas. Isso significa dizer que não há uma correspondência exata
de um texto-fonte para cada notícia, pelo fato de termos: no caso 4, duas cartas como a fonte
principal da notícia “Em cartas, pai e madrasta de Isabella declaram inocência”, no caso 11,
duas notas oficiais como fonte principal da notícia “Chesf e ONS divulgam notas sobre
apagão que afetou PI e mais 11 estados”, e, no caso 16, três postagens do Facebook como
fonte principal da notícia “Jovem violentada por 12 anos denuncia caso pelas redes sociais;
acusados são ouvidos”39. Já, nos casos de 1, 2 e 3, temos três notícias fundamentadas sobre o
mesmo texto-fonte principal, uma carta interceptada por agentes penitenciários, e, em 14 e 15,
duas notícias fundamentadas sobre uma mesma postagem do Facebook.
4.4 Procedimentos de análise dos dados
Devido a nossa escolha por mais de uma perspectiva teórica, foi necessário elaborar
mecanismos metodológicos que a abarcassem. Assim, a análise dos dados dessa pesquisa foi
organizada, basicamente, em duas etapas complementares: primeiro com a análise de
estratégias de retextualização na webnotícia, segundo com a análise do gênero, sob o ponto de
vista da Sociorretórica. Nesta etapa, fazemos ainda a análise do conjunto de informações
obtidas através de respostas de jornalistas, usuários experientes da webnotícia, a um
questionário, em que seguimos uma orientação metodológica da teoria Sociorretórica de
análise de gêneros. Nos capítulos 5 e 6, em que analisamos as notícias e seus textos-fonte,
organizamos esses dados em Quadros, para uma melhor visualização e comparação dos
elementos destacados na análise. Assim, sempre que possível, as notícias aparecem na coluna
da esquerda e o seu texto-fonte principal na coluna da direita dos Quadros.
39
Em 4, 11 e 16 temos casos de notícias fundamentadas sobre dois textos-fonte relacionados: são duas cartas de
suspeitos de um mesmo crime, duas notas oficiais tratando do mesmo evento e três postagens feitas num mesmo
perfil de rede social por um mesmo sujeito.
148
Elencamos três objetivos específicos, que foram estabelecidos a partir do que é
pretendido no objetivo geral da pesquisa, que é analisar o processamento da informação na
webnotícia, em casos cuja informação é oriunda de um texto-fonte principal e que, portanto,
exemplificam o processo de retextualização. Para abarcarmos o que propomos em cada um
deles, utilizamos procedimentos metodológicos específicos. Assim, no exame dos
condicionamentos e especificidades, na constituição da notícia de portais jornalísticos a
partir do processo de retextualização, analisamos estratégias de retextualização utilizadas
pelo sujeito na apropriação de informações do texto que serviu de base para a construção da
notícia.
Como investigamos a retextualização em notícias, analisamos as estratégias de
retextualização com base naquelas apresentadas por Van Dijk (1990 [1988) e Marcuschi
(2000 [1993]), e como Gomes (1995), consideramos apenas as quatro principais, formuladas a
partir das estratégias propostas por Van Dijk e por Marcuschi. Importante ainda considerar
que analisamos as quatro estratégias de retextualização, discriminadas a seguir, considerando
os aspectos sintático, semântico e estilístico na passagem da informação do texto-fonte para a
notícia:
a. Acréscimo: em que o locutor insere informações no texto retextualizado, a partir do
que é considerado pelo texto-fonte.
b. Eliminação: em que o autor, basicamente, elimina informações do texto-fonte e
seleciona somente aquelas julgadas como importantes e/ou relevantes de
permanecerem no texto retextualizado.
c. Reordenação: em que o locutor reordena a informação do texto, considerando
elementos estilísticos e composicionais condicionados pelo gênero.
d. Substituição: em que o locutor substitui expressões sintáticas e/ou lexicais do textofonte na reordenação de informações.
O segundo objetivo específico da nossa tese já utiliza os resultados parciais do
trabalho, com a análise das estratégias de retextualização, para a caracterização do gênero
notícia a partir da teoria Sociorretórica. Nesse momento, realizamos a segunda etapa da
pesquisa, analisando, inicialmente, a fusão entre forma e substância, em que consideramos o
processo de adaptação da informação do texto-fonte para que a mesma seja “reproduzida”
149
como informação noticiosa. Neste ponto, analisamos ainda a estratégia de reprodução total
e/ou parcial do texto-fonte para a construção da webnotícia, que é relacionada às condições do
meio em que o gênero circula, a internet.
A análise da situação retórica recorrente da webnotícia dá sequência ao estudo
sociorretórico que fazemos do gênero, em que relacionamos este ao seu contexto de produção
e o identificamos como uma resposta a uma exigência retórica advinda da situação. Em
seguida à situação, analisamos a webnotícia enquanto ação social, que é retórica e recorrente.
Neste ponto, analisamos os dados relacionando as noções de ação social, propósito
comunicativo e intenção individual.
Na explicação da relação entre o processo de retextualização e o gênero notícia,
examinando a relação deste com seus textos-fonte, que constitui o terceiro objetivo
específico desta tese, mesclamos os resultados obtidos através da análise dos dados nas duas
primeiras etapas com as informações advindas das respostas de um questionário respondido
por sujeitos produtores de webnotícia, que são jornalistas/repórteres de portais jornalísticos.
Essa parte cumpre uma etapa da análise sociorretórica, que considera o conhecimento criado a
partir da prática dos usuários dos gêneros, conhecida como abordagem etnometodológica.
A etnometodologia permite que vejamos o gênero em estudo sob a perspectiva de
quem o produz, o usuário/retor, em situações reais de uso. Assim, em nossa pesquisa, os
resultados da análise de dados que mostram o conhecimento do usuário experiente são
somados aos resultados que alcançamos com a análise de corpus, composto por exemplares
do gênero e pelos textos-fonte principais tomados como base para a construção das
webnotícias.
Para a realização desta etapa do trabalho, pesquisamos, a partir dos mesmos portais
jornalísticos em que obtivemos a amostra do corpus de webnotícias e textos-fonte, sobre
jornalistas/repórteres responsáveis pelas matérias (notícias) publicadas naqueles sites, em que,
normalmente são divulgados os nomes e os e-mails profissionais dos mesmos. Elencamos
uma lista de vinte possíveis sujeitos e enviamos através de e-mail, um convite para que os
mesmos participassem da nossa pesquisa (ver em apêndice 1). No convite, deixamos claro que
seria preservada a identidade deles e que a participação na pesquisa se daria através de um
150
questionário (ver apêndice 1), com questões sobre o processo de construção da webnotícia,
que deveria ser respondido por eles.
Obtivemos respostas afirmativas de cerca da metade dos sujeitos convidados, mas, ao
final, somente cinco além de responder positivamente ao convite responderam de fato ao
questionário. Em todo caso, nos trabalhos de base sociorretórica, em que é analisado o ponto
de vista do usuário experiente para a análise de gênero, são consideradas informações que
evidenciam um conhecimento adquirido pela prática de uso. Isso, por sua vez, é feito sob um
viés qualitativo, em que se analisa o conhecimento evidenciado a partir dos depoimentos, o
que não requer um grande volume de informações, gerado pelo depoimento de muitos
sujeitos.
No capítulo 5, realizamos a primeira etapa de análise de dados, em que analisamos as
estratégias de retextualização, acréscimo, eliminação, substituição e reordenação, em notícias
produzidas para circular na internet fundamentadas em um texto fonte principal.
151
5. RETEXTUALIZAÇÃO E PROCESSAMENTO DA INFORMAÇÃO
NA WEBNOTÍCIA
No capítulo 4, detalhamos a metodologia utilizada em nosso trabalho, a partir da qual
desenvolvemos nossa proposta de analisar o processamento da informação na webnotícia,
considerando, para tanto, o texto noticioso e sua fonte principal. Em decorrência dessa
proposta de pesquisa, dissemos, dentre outros, que o corpus selecionado para análise é de
natureza qualitativa, já que temos em vista, sobretudo, notícias fundamentadas em uma fonte
principal. A partir do objetivo geral da pesquisa, estabelecemos os específicos e propomos
desenvolver uma análise das estratégias de retextualização, no capítulo 5, e uma análise do
gênero notícia sob a perspectiva da Sociorretórica, no capítulo 6.
Neste capítulo, desenvolvemos o que propomos no primeiro objetivo específico deste
trabalho e examinamos condicionamentos e especificidades na construção da notícia de
portais jornalísticos a partir do processo de retextualização, analisando operações de
retextualização utilizadas como estratégias linguísticas dessa construção. Para isso,
analisamos quatro tipos de estratégias de retextualização a partir de casos do nosso corpus de
pesquisa. A escolha de tais estratégias não aconteceu de forma aleatória. Nesta etapa de nosso
trabalho, temos por base, principalmente, os trabalhos de Van Dijk (1990 [1988]), de
Marcuschi (2010 [2000]) e de Gomes (1995).
Van Dijk (1990 [1988]) trata mais especificamente sobre a notícia enquanto discurso,
logo, examina o processamento dos textos-fonte na notícia e aponta várias estratégias
(discursivas) utilizadas pelos jornalistas para isso. Marcuschi (2010 [2000]) trata sobre a
retextualização e aponta algumas estratégias de âmbito linguístico, discursivo e cognitivo que
se desenvolvem nesse processo, porém, este autor tem em vista principalmente o processo de
retextualização de textos orais para textos escritos. Por sua vez, Gomes (1995), em sua
pesquisa de Mestrado, analisa, com base em Van Dijk e em Marcuschi, “os fenômenos
linguísticos envolvidos na transposição de entrevistas, realizadas com cientistas, em textos
jornalísticos publicados na imprensa diária” (p. 06).
152
A pesquisa de Gomes (1995) analisa textos jornalísticos e textos-fonte e está focada
nos mecanismos de transposição da oralidade para a escrita. A nossa, por outro lado, analisa
textos jornalísticos, mais especificamente, o gênero notícia, e está focada no processamento
da informação de textos escritos, na transformação do texto-fonte em webnotícia.
Utilizamos algumas das escolhas metodológicas feitas pela autora, adaptando-as à nossa
proposta de pesquisa.
A partir de Gomes (1995), optamos por analisar as quatro principais estratégias de
retextualização, baseados nos modelos propostos por Van Dijk (1990 [1988]) e por Marcuschi
(2010 [2000]), apresentados mais detalhadamente por nós no capítulo 2 deste trabalho,
quando tratamos do processo de retextualização, mais especificamente, na seção 2.2, sobre o
processo de retextualização como enfoque de pesquisas acadêmicas. As estratégias analisadas
são a eliminação, o acréscimo, a substituição e a reordenação, que estão presentes tanto no
modelo proposto por Van Dijk como no modelo proposto por Marcuschi.
No entanto, o trabalho de Van Dijk (1990 [1988]) está mais diretamente relacionado
ao processamento da informação no discurso noticioso ao passo que o de Marcuschi (2010
[2000]) à utilização de mecanismos linguísticos, discursivos e cognitivos das modalidades
oral e escrita da língua. O direcionamento de um e de outro trabalho é devido, basicamente, ao
foco da pesquisa de cada um desses autores. Van Dijk estuda o discurso noticioso e analisa
como ele acontece, logo, foca no processamento da informação, que é a base do discurso
jornalístico. Já Marcuschi analisa a transformação do texto falado em texto escrito, logo, foca
nos mecanismos envolvidos nesse processo. Gomes se baseia nos modelos dos dois teóricos,
mas considera a proposta de Van Dijk limitada, justamente, por esse autor está focado,
principalmente, no processamento da informação, de modo que julga pertinente para sua
pesquisa acrescentar mecanismos que abarquem a análise linguística, como os elementos de
âmbito sintático e lexical.
A nossa pesquisa, por outro lado, não está relacionada apenas ao âmbito linguístico,
haja vista que, no geral, analisamos o processo de construção da webnotícia, que envolve
muito mais que mecanismos linguísticos. Como temos em vista ainda a produção e o
funcionamento do gênero, realizando, inclusive uma análise sociorretórica da webnotícia, no
capítulo 6, não nos detemos detalhadamente em mecanismos linguísticos, como fez Gomes
153
(1995), mas no processamento da informação. Levamos em consideração aspectos
linguísticos e discursivos, numa análise que tem em vista a comparação da informação
apresentada no texto-fonte com a informação que aparece na notícia que se fundamenta nesse
texto-fonte. Ainda assim, julgamos que a nossa pesquisa também se fundamenta nos modelos
propostos por Van Dijk e por Marcuschi, considerando que tanto um como o outro teórico
apontam direcionamentos importantes, de âmbito teórico e metodológico, que colaboram com
a nossa proposta de trabalho.
Na seção 5.1, analisamos as estratégias de retextualização: de eliminação, subseção
5.1.1, de acréscimo, subseção 5.1.2, de substituição, subseção 5.1.3, e de reordenação,
subseção 5.1.4.
5.1 Estratégias de retextualização na webnotícia
Pelo recorte teórico-metodológico que fizemos, analisamos o processo de
retextualização em textos jornalísticos, mas apenas em webnotícias que têm como fonte
principal um ou mais textos escritos, ou seja, nossa pesquisa está relacionada à retextualização
da escrita para a escrita. Na análise das estratégias de retextualização, assim como nas seções
subsequentes, focamos no processamento da informação, numa análise comparativa entre
webnotícia e texto-fonte.
5.1.1 Eliminação
A primeira estratégia de retextualização que analisamos é a que consiste basicamente
na eliminação de informações do texto-fonte, com base no que o locutor do texto
retextualizado julga como pertinente ou não a manutenção. No Quadro 6, temos um primeiro
caso de eliminação de informações na notícia, ocorrendo mais frequentemente porque as
informações eliminadas são aquelas entendidas como sem relevância, descartadas por serem
consideradas sem (ou com pouco) valor informativo:
154
Quadro 6: Trecho de notícia e de texto-fonte: eliminação de informações sem relevância40
TRECHO DE NOTÍCIA
[...] Ele disse que foi convidado por Luiz Henrique
Ferreira Romão, o amigo de Bruno conhecido como
Macarrão, a levar Eliza Samudio ao sítio do goleiro
em Minas Gerais.
[...] Macarrão já tinha planejado tudo e mandou o
adolescente se esconder no porta-malas do carro.
Já com o carro em movimento, o menor conta que
estava na mala do veículo e pulou para o banco de trás
com a arma em punho, rendendo Eliza e dizendo:
"perdeu Eliza".
TRECHO DE DEPOIMENTO POLICIAL
[...] Que ciente de suas garantias constitucionais,
dentre as quais a de ficar em silêncio, após
permanecer na sala com o seu tio, ---, seu
representante legal, refletiu sobre o depoimento
inicialmente prestado e, na presença deste, deseja
esclarecer que está muito arrependido dos fatos e
deseja que todo o ocorrido seja esclarecido; Que
como já foi dito no primeiro depoimento, o
declarante no início do mês de junho, em uma data
que o declarante não sabe precisar, foi convidado
por um funcionário de seu primo BRUNO DE
SOUSA, o qual é goleiro do Flamengo, conhecido
pelo apelido de MACARRÃO, que na realidade se
chama LUIZ HENRIQUE, para ajuda-lo a levar uma
ex-namorada de BRUNO de nome ELIZA para Belo
Horizonte;
(...) Macarrão já tinha planejado tudo e mandou o
adolescente se esconder no porta-malas do carro; Que
o carro utilizado foi o veículo Land Rover, de
propriedade de seu primo BRUNO; Que passaram
em uma lanchonete McDonalds e compraram
sanduíches para que não precisassem parar na
estrada; Que efetivamente, não compareceram a
um flat localizado na Barra da Tijuca, nas
proximidades do Condomínio Riviera, sendo que o
declarante ficou efetivamente escondido na mala,
armado, enquanto MACARRÃO foi pegar ELIZA
no hotel; Que conforme combinado, MACARRÃO
entrou no carro assumindo a direção, enquanto
ELIZA entrou no banco de trás; Que
MACARRÃO tomou direção da praia, e que após
alguns minutos do carro em movimento, o declarante
que se encontrava na mala do veículo, porém com a
tampa aberta, levantou-se e pulou para o banco de trás
do veículo com arma em punho, rendendo ELIZA e
falando “PEDEU, ELIZA”;
Fonte: notícia: http://g1.globo.com/brasil/noticia/2010/07/menor-diz-em-depoimento-que-ossos-de-elizaforam-concretados-em-sitio.html (Acesso em: 15 out. 2010)
Depoimento policial: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/763603-veja-integra-do-depoimento-doprimo-do-goleiro-bruno.shtml (Acesso em: 15 out. 2010, grifos nossos)
A webnotícia em questão, com trechos destacados no Quadro 6, tem suas
informações pautadas fundamentalmente em um depoimento policial. O depoimento conta em
detalhes a versão de um menor suspeito de envolvimento em um assassinato. Como o
40
Devido ao tamanho dos textos, optamos por mostrar nos Quadros apenas os trechos de notícias e textos-fonte
que exemplificam a estratégia por ora analisada. Todavia, no anexo 1, os textos podem ser lidos na íntegra.
155
depoimento é um gênero caracterizado por detalhar as informações, é evidente que todas as
informações ali presentes não “sirvam” para a construção da notícia, considerando que nem
toda informação vira notícia e que o jornalista a priori seleciona aquilo que julga ter maior
valor informativo. Vemos, dessa forma, que a estratégia de eliminação ocorre
concomitantemente a uma estratégia de seleção, na qual o sujeito seleciona o que tem
importância para o seu texto e para o que o mesmo se propõe.
Nesse caso, não interessou para a notícia, por exemplo, a informação presente no
depoimento de que o depoente estava muito arrependido do que fez ou que o depoimento foi
dado mediante um representante legal, pelo fato de se tratar de um menor. O que é julgado
como importante é a versão dada ao suposto crime e o envolvimento do então goleiro de
futebol nisso. Por exemplo, fica claro no depoimento a marca do veículo utilizado para
transportar a vítima, mas a informação que teve importância para a notícia era que esse
veículo pertencia ao suposto mandante do assassinato, que era goleiro de um tradicional time
de futebol do país. Inclusive, nesse trecho da notícia, há a informação de que a vítima seria
levada “ao sítio do goleiro em Minas Gerais”, em que o sujeito faz um acréscimo de
informação, detalhando com mais precisão a indicação de lugar, que aparece no depoimento,
“Minas Gerais”, deixando mais evidente o envolvimento do “goleiro” no evento descrito.
Não interessou também para a construção da notícia as informações do que foi feito
antes e depois do sequestro da vítima, como a compra de sanduíches no “McDonalds”, mas
que o menor se escondeu na mala do carro e, em algum momento, apareceu e rendeu a vítima
com uma arma. Interessante perceber que, na construção da notícia, o sujeito eliminou as
informações que julgou desnecessárias, muito embora a notícia tenha resgatado em grande
medida a narrativa presente no depoimento. Apresentamos, na íntegra, no Quadro 7, a
webnotícia e o depoimento no qual ela se fundamenta, para visualizarmos a redução no
volume de linguagem entre ambos:
Quadro 7: Notícia e depoimento policial: comparação do volume de linguagem
NOTÍCIA
Menor diz em depoimento que
ossos de Eliza Samudio foram
concretados
Jovem disse que ouviu goleiro pedir
DEPOIMENTO POLICIAL
Inquirido, Disse:
Que ciente de suas garantias constitucionais, dentre as quais a de
ficar em silêncio, após permanecer na sala com o seu tio, ---, seu
156
para 'resolverem o problema'. Ele disse
ter visto mão de ex-namorada de Bruno
ser jogada a cães.
O Jornal Nacional teve acesso com
exclusividade ao depoimento que
provocou uma reviravolta no caso
Bruno. Em quatro folhas, o menor
apreendido na terça-feira (6) na casa do
goleiro do Flamengo conta sua versão
dos fatos. Ele disse que foi convidado
por Luiz Henrique Ferreira Romão, o
amigo de Bruno conhecido como
Macarrão, a levar Eliza Samudio ao sítio
do goleiro em Minas Gerais. Macarrão já
tinha planejado tudo e mandou o
adolescente se esconder no porta-malas
do carro.
Já com o carro em movimento, o menor
conta que estava na mala do veículo e
pulou para o banco de trás com a arma
em punho, rendendo Eliza e dizendo:
"perdeu Eliza"
Segundo o adolescente, Eliza conseguiu
pegar a arma e atirou contra o menor,
mas a arma estava sem munição. O
adolescente conseguiu recuperar a arma
e deu três coronhadas na cabeça de
Eliza.
O jovem diz que a viagem continuou até
o sítio de Bruno. O rapaz dormiu em um
quarto. Macarrão em outro. E Eliza, com
o filho, dormiu em um terceiro quarto.
Havia
também
uma
empregada
doméstica.
No dia seguinte, Eliza não permaneceu
trancada. Sérgio Rosa Sales, que chegou
naquele dia, passou a vigiar Eliza,
segundo o menor.
Ele disse que viu Sérgio entregar um
telefone para que Eliza ligasse para uma
amiga de São Paulo. Sérgio mandava
dizer que estava tudo bem, que ela
receberia dinheiro e um apartamento em
Belo Horizonte. Eliza foi ameaçada de
morte caso não dissesse o combinado.
O menor conta que, no dia seguinte,
Bruno chegou de táxi ao sítio, pois tinha
viajado de avião para Belo Horizonte. O
adolescente conta que ouviu Bruno dizer
para Macarrão e Sérgio que era para eles
resolverem o problema. Que não queria
problemas para o lado dele e que ele,
Bruno, não saberia de nada.
Segundo o depoimento, Macarrão e
Sérgio disseram que não poderiam
libertar Eliza, pois o problema seria
representante legal, refletiu sobre o depoimento inicialmente
prestado e, na presença deste, deseja esclarecer que está muito
arrependido dos fatos e deseja que todo o ocorrido seja esclarecido;
Que como já foi dito no primeiro depoimento, o declarante no início
do mês de junho, em uma data que o declarante não sabe precisar, foi
convidado por um funcionário de seu primo BRUNO DE SOUSA, o
qual é goleiro do Flamengo, conhecido pelo apelido de
MACARRÃO, que na realidade se chama LUIZ HENRIQUE, para
ajuda-lo a levar uma ex-namorada de BRUNO de nome ELIZA para
Belo Horizonte; Que MACARRÃO já havia planejado tudo, pedindo
ao declarante que ficasse de posse de uma arma escondido no portamalas do carro que iriam utilizar; Que o carro utilizado foi o veículo
Land Rover, de propriedade de seu primo BRUNO; Que passaram
em uma lanchonete McDonalds e compraram sanduíches para que
não precisassem parar na estrada; Que efetivamente, não
compareceram a um flat localizado na Barra da Tijuca, nas
proximidades do Condomínio Riviera, sendo que o declarante ficou
efetivamente escondido na mala, armado, enquanto MACARRÃO
foi pegar ELIZA no hotel; Que conforme combinado, MACARRÃO
entrou no carro assumindo a direção, enquanto ELIZA entrou no
banco de trás; Que MACARRÃO tomou direção da praia, e que após
alguns minutos do carro em movimento, o declarante que se
encontrava na mala do veículo, porém com a tampa aberta, levantouse e pulou para o banco de trás do veículo com arma em punho,
rendendo ELIZA e falando “PERDEU, ELIZA”; Que EELIZA
tomou um susto, chegando a dar um tapa na arma sendo que a arma
caiu e ELIZA apanhou a arma; Que o declarante anteriormente havia
retirado o carregador da pistola, portanto a mesma estava
desmuniciada; Que ELIZA, ao pegar a arma, tentou efetuar disparos
contra o declarante, porém como já foi dito, a arma estava
desmuniciada; Que em ato contínuo o declarante tomou a arma de
ELIZA e lhe deu três coronhadas na cabeça; Que ELIZA
permaneceu lúcida, porém ensanguentada devido às coronhadas; Que
ELIZA quando entrou no carro, trazia no colo seu filho de poucos
meses; o qual foi acomodado em um bercinho no banco de trás; Que
após ser agredida, ELIZA apesar de lúcida não esboçou nenhuma
reação; Que o declarante já havia recuperado a pistola após a
agressão, municiou a mesma e sob a mira da pistola conduziu ELIZA
por toda a viagem sem qualquer parada; Que ao chegar em Minas
Gerais, se dirigiram até o sítio de propriedade de seu primo Bruno;
Que chegaram na parte da madrugada; Que o declarante dormiu em
um quarto sozinho. MACARRÃO dormiu em outro quarto e ELIZA
ficou com seu filho em outro quarto; Que neste dia também havia
uma empregada doméstica; Que no dia seguinte, ELIZA não
permaneceu trancada no quarto, mas SÉRGIO que havia chegado
neste dia, tinha a incumbência de ficar vigiando ELIZA; Que
SÉRGIO era a única pessoa responsável pela vigia de ELIZA; Que
neste dia, ELIZA aceitou almoçar, mas comeu muito pouco; Que no
período da noite, ELIZA ficou assistindo televisão; Que ELIZA não
tinha acesso ao seu telefone celular ou a qualquer outro telefone, pois
SÉRGIO não permitia que a mesma realizasse telefonemas; Que no
dia posterior, SÉRGIO prosseguiu vigiando ELIZA, pois a mesma
não podia sair do sítio nem realizar ligações; Que o declarante
esclarece que presenciou SÉRGIO ROSA SALES entregar o
telefone para ELIZA para que a mesma realizasse ligação para uma
amiga de São Paulo; Que SÉRGIO mandava ELIZA dizer que estava
157
ainda maior. Bruno disse então que já
tinha acontecido "m...." da primeira vez,
e não queria que o problema se repetisse
com Eliza.
O goleiro permaneceu no sítio por duas
horas e depois chamou um táxi para
levá-lo até o aeroporto, pois queria
voltar para o Rio no mesmo dia.
No dia seguinte, o adolescente,
Macarrão, Sérgio, Eliza e o filho dela
entraram no carro de Bruno e seguiram
rumo a Belo Horizonte.
O adolescente contou que chegaram a
um local que se parecia com um sítio.
Foram recebidos por um homem alto,
negro, chamado Neném.
Vem então a parte mais forte do
depoimento: segundo o menor, Neném
pegou Eliza, amarrou os braços dela com
uma corda e deu uma gravata,
sufocando-a. Neném pediu que todos
deixassem o local. Sérgio carregava o
filho de Eliza.
Logo depois, segundo o jovem, Neném
passou carregando um saco e seguiu em
direção a um canil, onde havia quatro
rotweillers. O adolescente viu o
momento em que Neném retirou a mão
de Eliza e arremessou para os cães.
O adolescente disse que os ossos de
Eliza foram concretados no mesmo
terreno em que ela foi morta. Ele
inocentou a mulher de Bruno, Dayane
Rodrigues,
de
participação
no
assassinato de Eliza.
Segundo o menor, Dayane foi ao sítio de
Bruno depois do crime - e soube apenas
que o bebê de Eliza tinha sido deixado
no local.
O adolescente disse ainda que não falou
com Bruno sobre o que aconteceu com
Eliza, mas acredita que Macarrão tenha
contado o desfecho do sequestro.
tudo bem e que ela receberia dinheiro e apartamento em BH; Que
ELIZA foi ameaçada de morte por SÉRGIO caso não falasse o
combinado; Que durante este período permaneciam na residência o
declarante, MACARRÃO, SÉRGIO, a empregada doméstica,
ELIZA e seu filho; Que no dia seguinte, seu primo BRUNO, goleiro
do Flamengo, chegou do táxi no sítio, pois havia viajado de avião
para Belo Horizonte; Que Bruno ao chegar, constatou que o
declarante, MACARRÃO, SÉRGIO, a empregada doméstica,
ELIZA e seu filho estavam no sítio; Que BRUNO ficou surpreso
quando viu ELIZA assistindo televisão na sala de seu sítio; Que
BRUNO saiu da sala e disse para o declarante, MACARRÃO e
SÉRGIO: “O QUE ESTÁ ACONTECENDO?”; Que o declarante
ficou calado, mas se recorda que MACARRÃO e SÉRGIO
conversaram com BRUNO; Que o declarante ouviu BRUNO dizer
para MACARRÃO e SÉRGIO que era para eles resolverem o
problema, pois não queria problemas para o seu lado, uma vez que
não saberia de nada; Que ouviu MACARRÃO e SÉRGIO
conversarem sobre a forma que iriam resolver o problema, ouvindo
ainda que não poderiam libertar ELIZA pois o problema seria maior
ainda; Que BRUNO disse que “já tinha acontecido uma merda da
primeira vez e não queria que o problema se repetisse com ELIZA”;
Que o goleiro BRUNO permaneceu no s´´itio durante duas horas e
depois chamou um táxi no sítio para levá-lo ao aeroporto de BH, pois
queria voltar para o RJ no mesmo dia; Que no dia seguinte no
período da noite, por volta de 23h00m, SÉRGIO ROSA SALES, que
é primo do declarante disse que ELIZA seria levada para um
apartamento localizado em BH; Que SÉRGIO contou a mesma
história para ELIZA e ela acreditou; Que o declarante também
achava que SÉRGIO também estivesse falando a verdade; Que o
declarante, MACARRÃO, SÉRGIO, ELIZA e seu filho entraram no
veículo Lange Rover, de cor verde, e foram com destino a BH; Que
MACARRÃO foi dirigindo o veículo; Que durante o trajeto
percebeu que SÉRGIO havia mentido para o declarante, pois
MACARRÃO havia entrado em um outro local que se parecia com
um sítio; Que ao chegar neste sítio foram recebidos por um indivíduo
negro, alto, magro, cabelo curto, chamado NENÉM; Que neste
momento percebeu que no local existia uma faca grande no local;
Que logo em seguida, NÉNEM pegou ELIZA, amarrou seus braços
com uma corda e logo em seguida, deu uma “gravata” em ELIZA,
sufocando-a; Que neste momento, NENÉM pediu que o declarante,
MACARRÃO e SÉRGIO saíssem do local; Que todos saíram e
SÉRGIO estava carregando o filho de ELIZA em seus braços; Que
logo depois, NENÉM passou carregando um saco e seguia em
direção de um canil; Que neste canil estavam quatro Rotweillers;
Que o declarante, MCARRÃO e SÉRGIO viram no momento em
que NENÉM retirou a mão de ELIZA e arremessou para dentro do
canil; Que os cachorros no mesmo instante começaram a comer a
mão que havia sido arremessado; Que o declarante, MACARRÃO e
SÉRGIO, após visualizar tal cena, saíram do local e entraram no
veículo Lange Rover com destino ao sítio de BRUNO; Que
MACARRÃO voltou conduzindo o veículo; Que chegaram no sítio e
encontraram a namorada do goleiro BRUNO chamada DAYANE;
Que SÉRGIO entregou a criança para DAYANE; Que DAYANE
indagou sobre ELIZA; Que SÉRGIO disse a DAYANE que haviam
deixado ELIZA em um apartamento em BH e que a mesma havia
entregue a criança para ser entregue ao goleiro BRUNO; Que
158
SÉRGIO disse que havia entregado determinada quantia em
dinheiro para ELIZA e que a mesma não poderia mais cuidar do
filho; Que DAYANE acreditou e todos passaram a noite no sítio;
Que no dia seguinte, no período da manhã, o declarante por iniciativa
própria decidiu limpar o carro Land Rover interna e externamente,
que presenciou MACARRÃO ligar para NENÉM e perguntar se o
mesmo havia ocultado o corpo de ELIZA, que NENÉM respondeu
que havia dado pedaços do corpo de ELIZA para os cachorros e o
restante dos ossos havia concretado no mesmo terreno onde ELIZA
foi morta; Que o declarante e MACARRÃO voltaram para o RJ no
ônibus do time do 1005; Que ao retornar ao RJ, se acomodaram na
residência do goleiro BRUNO; Que SÉRGIO voltou no mesmo dia
para sua casa; Que ao chegar no RJ, não contou nada para BRUNO,
mas acredita que MACARRÃO tenha contado tudo para o goleiro
BRUNO; Que MACARRÃO, no dia de hoje, saiu de casa para
resolver problemas particulares do goleiro BRUNO; Que o
declarante deseja esclarecer que sua intenção era tão somente
auxiliar no transporte de ELIZA até BH, pois MACARRÃO havia
dito que estaria resolvendo os problemas particulares do BRUNO
com ELIZA; Que sabe informar que MACARRÃO havia retirado a
quantia de R$ 3 000,00, pois viu o momento em que MACARRÃO
contou o dinheiro após voltar do banco; Que MACARRÃO havia
dito que esta quantia seria entregue para ELIZA; Que não sabe dizer
para quem o dinheiro foi entregue; Que o declarante não recebeu
dinheiro para a prática dos fatos acima relatados. Que o declarante
foi se surpreendendo com os fatos a medida em que os dias se
passavam, pois percebeu que determinadas decisões fugiam do seu
poder de controle; Que embora estivesse surpreso, participou na
medida do que era solicitado por MACARRÃO, SÉRGIO e
NENÉM; E nada mais disse.
Fonte: notícia: http://g1.globo.com/brasil/noticia/2010/07/menor-diz-em-depoimento-que-ossos-de-elizaforam-concretados-em-sitio.html (Acesso em: 15 out. 2010).
Depoimento policial: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/763603-veja-integra-do-depoimento-doprimo-do-goleiro-bruno.shtml (Acesso em: 15 out. 2010).
Gomes (1995) trata sobre o que ela mesma denomina de princípio redutor. A autora
presume que o princípio redutor, no corpus analisado em sua pesquisa, deve-se a duas razões:
primeiro, que o texto produzido na entrevista oral para ser publicado em um veículo impresso
é muito redundante e, segundo, que existem normas no jornalismo que levam à eliminação de
boa parte das informações. Neste caso, existem regras do jornalismo que a autora entende
como pilares do princípio redutor, que são a clareza, a simplicidade e a concisão. Gomes
destaca que a aplicação de regras como essas no jornalismo satisfaz a necessidade de, a partir
de uma entrevista extensa, se produzir uma matéria curta, visando, fundamentalmente, ao
público. Por outro lado, considera que o jornalista não dispõe de muito espaço no jornal.
159
Trazendo essas considerações teóricas para o nosso contexto de pesquisa, temos
novas condições de produção e novo cenário. Já afirmamos que o jornalista não dispõe de
muito tempo para a produção de suas matérias, mas, nos portais jornalísticos, esse tempo é
diminuído ainda mais pelo fato de a circulação de informações ser ainda mais rápida. Por
outro lado, o jornalista já não está mais preocupado em fazer um texto conciso por falta de
espaço, o que não quer dizer que as notícias que circulam na web não apresentem concisão.
A concisão é aparente, porém, além de ela não está mais relacionada à falta de
espaço, também não está fundamentalmente pensada sobre o leitor. Acreditamos que, na
internet, a simplicidade dos textos está mais diretamente relacionada ao curto espaço de
tempo entre o acontecimento e a divulgação deste nos portais, haja vista que estes precisam
sempre ser alimentados com informações novas, para atrair a atenção dos internautas. Isso
inclusive pode estar contribuindo para que textos-fonte apareçam como parte da notícia ou até
mesmo como a própria notícia, conforme ressaltaremos no capítulo 6, deste trabalho.
Há ainda o inverso, em que o volume de linguagem das notícias pode ser maior que o
do texto-fonte, dada a variedade de gêneros de que estes participam. Em casos desse tipo, a
estratégia de acréscimo fica mais evidente, já que a notícia parte da informação do texto-fonte
principal, e a coloca em destaque, mas completa esta com informações paralelas,
normalmente, vinculadas a textos-fonte secundários.
Outro caso de eliminação de informações encontrado na análise do corpus é a
supressão de informações de âmbito técnico – acontecendo também paralelamente à estratégia
de substituição de informações, conforme veremos na subseção 5.1.3 – que necessitam de um
conhecimento técnico específico de uma área do conhecimento, para que se tornem
inteligíveis. Isso quando se trata de notícias que têm como fonte um documento técnico ou
oficial de algum órgão, instituição ou de um profissional especializado de uma determinada
área do conhecimento. Informações consideradas como de difícil compreensão para o leitor,
muitas vezes são suprimidas, sendo mantida a informação que permite que seja compreendida
a base da informação, como vemos no Quadro 8:
Quadro 8: Trecho de notícia e de texto-fonte: eliminação de informações técnicas
TRECHO DE NOTÍCIA
TRECHO DE NOTA OFICIAL
Nota à Imprensa (26/10/2012)
160
Chesf e ONS divulgam notas sobre apagão
que afetou PI e mais 11 estados
Ocorrência afeta regiões Nordeste e Norte
À zero hora e 14 minutos de 26/10/12 houve um
De acordo com a ONS, o apagão foi provocado por curto-circuito no segundo circuito da linha de
um curto-circuito na subestação Colinas- transmissão em 500 kV Colinas-Imperatriz, que faz
parte
da
interligação
entre
os
sistemas
Imperatriz.[...]
Sul/Sudeste/Centro-Oeste e Norte/Nordeste e que é de
propriedade da empresa transmissora TAESA (uma
Sociedade de Propósito Específico cujos acionistas
majoritários são a CEMIG e um fundo de
investimentos). Este evento ocorreu em uma chave
seccionadora do capacitor série da linha de
transmissão, que ficou danificada. [...]
Fonte:
http://portaldaclube.profissional.ws/chesf-e-ons-divulgam-notas-sobre-apagao-que-afetou-pi-emais-11-estados.html (acesso em: 26 out. 2012, grifos nossos)
No caso mostrado no Quadro 8, o texto-fonte apresenta a informação que o curtocircuito aconteceu “no segundo circuito da linha de transmissão em 500kV Colinas
Imperatriz”. Na retextualização dessa informação, a notícia informa que aconteceu um curtocircuito na subestação de Colinas-Imperatriz, suprimindo a informação “no segundo circuito
da linha de transmissão em 500kV”. Ao mesmo tempo, é feito o acréscimo da informação
“subestação”, para informar que se trata na verdade da subestação da região de ColinasImperatriz.
Já no Quadro 9, além da estratégia de eliminação, é possível percebermos as
estratégias de acréscimo, substituição e reordenação, sendo utilizadas ao mesmo tempo na
retextualização da carta de um desembargador para a construção de uma notícia:
Quadro 9: Trecho de notícia e de texto-fonte: estratégias de retextualização imbricadas
TRECHO DE NOTÍCIA
[...] Na carta, o desembargador, que deixou a
presidência do TJ-PI em maio deste ano, diz que há
"uma tentativa de desqualificar a sua gestão", com
calúnias que questionam a seriedade e o êxito do
seu trabalho, inclusive colocando em dúvida a sua
honradez. [...]
TRECHO DE CARTA
[...] Para demonstrarmos a verdadeira e atual situação
do Judiciário piauiense, infelizmente, ainda longe do
ideal, como a de todos os estados da Federação e a
improcedência das aleivosias de inimigos gratuitos
de determinado órgão de nossa independente e
corajosa imprensa e das apócrifas, injustas e
mendazes insinuações, que questionam a seriedade
e o êxito do nosso biênio administrativo, pondo em
dúvida a honradez e a hombridade de quem
sempre se dedicou inteiramente aos serviços do
Judiciário e à Magistratura [...]
Fonte:
http://www.portalodia.com/noticias/politica/em-carta-a-eulalia-pinheiro-ex-presidente-do-tjrebate-criticas-a-gestao-anterior-150530.html (Acesso em: 12 set. 2012, grifos nossos).
161
Embora estejamos tratando, por ora, mais especificamente da estratégia de
eliminação, vejamos, a partir do Quadro 9, a escrita do desembargador sendo recuperada na
notícia, que elimina informações, sobretudo de âmbito lexical, mais específicas da área do
Direito, ao mesmo tempo em que substitui essas informações por designações mais simples.
A informação, que aparece na carta, “aleivosias de inimigos gratuitos de determinado órgão
de nossa independente e corajosa imprensa e das apócrifas, injustas e mendazes insinuações”
aparece na notícia simplesmente como “calúnias”, o que pode representar a substituição de
uma expressão por outra, mas ainda a redução do volume de linguagem, ou seja, uma
eliminação.
Porém, vemos que apenas a palavra “calúnia” não abarca a informação expressa
originalmente na carta, que, inclusive, acusa a imprensa de “aleivosias”41. Trata-se, além de
substituição, da eliminação de informações, tendo em vista que o volume de linguagem do
texto original aparece reduzido na notícia, e essa redução utiliza da estratégia de substituição
que atua em favor da de eliminação. Nesse caso, temos, conforme apontado por Gomes
(1995), estratégias acopladas, em que acontecem ao mesmo tempo e no mesmo trecho de
texto.
No trecho “uma tentativa de desqualificar a sua gestão”, a notícia destaca entre aspas
a informação, mas não para marcar uma citação direta, e sim para informar ao leitor que essa
informação foi depreendida a partir da compreensão da ação descrita na carta das
aleivosias de inimigos gratuitos de determinado órgão de nossa independente e
corajosa imprensa e das apócrifas, injustas e mendazes insinuações, que questionam
a seriedade e o êxito do nosso biênio administrativo, pondo em dúvida a honradez e
a hombridade de quem sempre se dedicou inteiramente aos serviços do Judiciário e à
Magistratura.
O vocabulário rebuscado e erudito da carta em questão é recuperado parcialmente na
notícia, mas, sobretudo, via citações diretas do texto-fonte (ver em anexo 1). Em geral, há, na
notícia, uma tentativa de simplificar a informação, de modo a tornar o conteúdo inteligível
para o grande público, já que originalmente essa carta foi escrita por um desembargador e está
41
Traição ou crime cometido com falsas demonstrações de amizade (HOUAISS, 2009 [2001]).
162
endereçada a então presidente do Tribunal de Justiça do Piauí. O texto original tem, portanto,
interlocutores definidos e específicos de uma esfera da sociedade, a esfera jurídica.
No Quadro 10, temos um caso parecido com o anterior, no qual a eliminação facilita
o entendimento do conteúdo, simplificando a leitura, por o texto-fonte se tratar de um
documento oficial de uma instituição pública:
Quadro 10: Trecho de notícia e de texto-fonte: eliminação de informações técnicas de documento oficial
TRECHO DE NOTÍCIA
TRECHO DE PORTARIA
[...] CONSIDERANDO que incumbe ao Ministério
Público a defesa do patrimônio público e social, da
moralidade, da legalidade e da eficiência
O ministério público instaurou inquérito civil para administrativas e de outros interesses difusos, na
apurar denúncias sobre a contratação irregular de forma do art. 127, caput, art. 129, III, da CF, art. 25,
servidores temporários para o Município de IV, “a”, da Lei nº 8625/93, art. 36, IV, “a” e “b”, da
Cristino Castro, localizado a 595km de Teresina. De Lei Complementar nº 12/93;
acordo com os documentos apresentados, não houve CONSIDERANDO que foi protocolizada notícia de
processo seletivo para a admissão dos funcionários. irregularidades na efetivação temporária de
servidores no Município de Cristino Castro-PI,
implementada sem a efetivação de processo seletivo,
devidamente acompanhada do rol dos contratados e
dos locais onde exercem suas funções [...];
Fonte:www.portalaz.com.br/noticia/municipios/269145_mp_apura_denuncias_de_contratacao_irregular_
de_servidores_temporarios.html (Acesso em: 04 jun. 2013, grifos nossos).
MP apura denúncias de contratação irregular
de servidores temporários
O Quadro 10 mostra o caso de uma notícia fundamentada numa Portaria do
Ministério Público do estado do Piauí. A Portaria é um documento oficial, e, por isso, precisa
discriminar sua fundamentação legal e estar escrita numa linguagem técnica, embora traga
informações de utilidade pública: a apuração de denúncias por contratação irregular de uma
prefeitura. A notícia, por sua vez, se apropria dessas informações e as transforma, adaptandoas ao seu público-leitor, numa demonstração clara de retextualização. Vemos, nesse caso,
tanto a estratégia de eliminação, como a de acréscimo, de substituição e de reordenação.
Além da eliminação de informações de âmbito técnico, que caracterizam o
documento oficial no qual a notícia se fundamenta, o sujeito as substitui por expressões mais
simples a fim de que as mesmas estejam acessíveis para os leitores. Essa característica de
divulgar informações para o “alcance de todos” está diretamente relacionada ao
funcionamento social do gênero notícia, que, dentre outros, visa a um público numeroso e
163
diversificado. Nesse sentido, desde já, é possível vermos que as estratégias de retextualização
acontecem em favor das recorrências de âmbito formal e substantivo que definem a notícia.
Logo, é possível vermos como a retextualização transforma as informações para
adaptá-las ao objetivo do texto retextualizado. No caso da webnotícia, é extremamente
importante que essa transformação aconteça no sentido de tornar o texto inteligível para
pessoas de diferentes faixas etárias, graus de escolaridade e níveis sociais. Vemos, portanto, a
importância de se considerar o gênero para o estudo da retextualização, haja vista que parte
das estratégias utilizadas nesse processo estão relacionadas à relativa estabilidade dos
gêneros, que circulam em esferas sociais específicas.
Vemos, dessa forma, a eliminação como uma estratégia que faz parte da produção
noticiosa. Nas notícias em que acontece o processo de retextualização, o sujeito se utiliza
dessa (e de outras) estratégia, para construir o seu texto, havendo uma apropriação das
informações do texto-fonte. Porém, essa apropriação se dá apenas para o que é considerado
relevante na produção noticiosa. Vimos, nos Quadros 9 e 10, casos de eliminação, que são
frequentes no jornalismo, diretamente relacionados ao que se pretende com o texto. Por outro
lado, vemos que a eliminação acontece concomitantemente a outras estratégias de
transformação, o que evidencia a complexidade desse fenômeno.
Na subseção 5.1.2, discutimos mais especificamente a estratégia de acréscimo.
5.1.2 Acréscimo
A estratégia de acréscimo na notícia consiste basicamente na inserção de
informações que, de alguma maneira, completam a informação já fornecida pelo texto-fonte,
seja para explicar uma palavra, uma expressão ou um acontecimento, ou mesmo para dar uma
indicação de lugar, tempo, espaço ou, ainda, uma designação de pessoa.
Quando tratamos de notícia e de processamento dos textos-fonte, com base em Van
Dijk (1990 [1988]), na seção 1.4, dissemos que o discurso jornalístico sugere a aparência de
verdade. Para isso, o jornalista se utiliza de “figuras de precisão”, que sugerem exatidão,
sendo essa uma das razões para aparecerem tantas indicações numéricas de diferentes tipos de
164
discursos jornalísticos, como números de participantes, idade, data e hora dos acontecimentos,
bem como descrições de situações, descrições numéricas de instrumentos e acessórios, como
peso, tamanho e etc.
Segundo Van Dijk, poucos recursos retóricos sugerem fidelidade de forma mais
convincente que esses jogos de figuras, já que são apresentados como sinais de precisão e,
consequentemente, de verdade. No Quadro 11, vemos exemplos retirados de notícias do nosso
corpus, que mostram a indicação de “figuras de precisão”:
Quadro 11: Trechos de notícias: acréscimos com utilização de figuras de precisão 1
TRECHOS DE NOTÍCIAS
TRECHOS DE TEXTOS-FONTE
A Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf), A Companhia Hidro Elétrica do São Francisco –
responsável pela produção de energia elétrica no Piauí, Chesf informa que o desligamento ocorrido às
divulgou nota nesta sexta-feira (26), esclarecendo que o 00:14 Hs de hoje (horário de Brasília), dia
desligamento de energia ocorrido no final da noite 26/10/2012, não teve origem nas instalações ou
dessa quinta-feira (25) e início da madrugada de hoje equipamentos desta Empresa. O problema foi
não teve origem nas instalações ou equipamentos da identificado, preliminarmente, na Subestação
empresa. [...]
Colinas, localizada no Estado de Tocantins. [...]
NOTA DE ESCLARECIMENTO:
Paródia virtual da presidente Dilma Rousseff, o perfil
"Dilma Bolada", famoso nas redes sociais, pode sair do
ar. O motivo, segundo nota divulgada nesta quarta-feira Queridos internautas e queridas internautas, venho
(29), é uma suposta censura que o perfil sofreu no por meio deste esclarecer um episódio que ocorreu
Facebook ao ter uma postagem apagada. [...]
no último sábado à noite. [...]
Fontes: 1 http://portaldaclube.profissional.ws/chesf-e-ons-divulgam-notas-sobre-apagao-que-afetou-pi-emais-11-estados.html (Acesso em: 26 out. 2012, grifos nossos).
2
www1.folha.uol.com.br/poder/2013/05/1286687-parodia-de-dilma-ameaca-suicidio-digital-apos-fraseapagada-pelo-facebook.shtml (Acesso em: 29 mai. 2013, grifos nossos).
Nos exemplos do Quadro 11, vemos indicações de nomes de órgãos ou instituições,
de pessoas, de espaço, tempo etc., que sugerem precisão à informação noticiada. A sensação
que temos diante da informação é que o sujeito sabe do que está tratando, tanto que indica
detalhes precisos, que mostram, exatamente, onde, quando e como aconteceram os fatos,
embora saibamos que essa é apenas uma estratégia retórica, podendo, inclusive, serem falsas
essas indicações apontadas como certas. Logo, é a forma como o discurso se apresenta que faz
com que o mesmo apresente credibilidade.
Afirmamos também, na seção 2.4, com base em Van Dijk (1990 [1988]), que
qualquer fonte não “serve” para aparecer na notícia, porque é preciso que tenhamos fontes
críveis, que transpareçam idoneidade, credibilidade. Logo, mesmo que o jornalista tenha
165
acesso a uma informação por fontes não oficiais, o mesmo cuida para que a mesma não seja
destacada como fonte da notícia. Por outro lado, quando a fonte é oficial, ela ganha destaque,
e, nos portais jornalísticos, é cada vez mais recorrente o aparecimento destas na mesma
página da notícia, ora como parte do texto, ora como ilustração etc.
Ainda que a notícia seja construída a partir de um texto-fonte principal, o sujeito faz
acréscimos de informações ao longo do texto, que têm diferentes finalidades. No Quadro 12,
temos o lide de uma notícia feita a partir de um depoimento policial. Mesmo as informações
principais, aquelas que são divulgadas como novas, estando diretamente relacionadas ao
conteúdo do depoimento policial, são feitos acréscimos de informações que completam ou,
mesmo, situam as informações oriundas do texto-fonte principal:
Quadro 12: Trecho de notícia: acréscimos de informações que completam as informações do texto-fonte
TRECHO DE NOTÍCIA
O Jornal Nacional teve acesso com exclusividade ao
depoimento que provocou uma reviravolta no caso Bruno.
Em quatro folhas, o menor apreendido na terça-feira (6) na
casa do goleiro do Flamengo conta sua versão dos fatos.
TRECHO DE TEXTO-FONTE
Inquirido, Disse:
Que ciente de suas garantias constitucionais, dentre
as quais a de ficar em silêncio, após permanecer na
sala com o seu tio, ---, seu representante legal,
refletiu sobre o depoimento inicialmente prestado
e, na presença deste, deseja esclarecer que está
muito arrependido dos fatos e deseja que todo o
ocorrido seja esclarecido; [...]
Fonte:
http://g1.globo.com/brasil/noticia/2010/07/menor-diz-em-depoimento-que-ossos-de-eliza-foramconcretados-em-sitio.html (Acesso em: 15 out. 2010)
As informações que constituem os dois primeiros períodos do trecho da notícia
apresentado no Quadro 12, embora estejam parcialmente relacionadas ao depoimento policial,
fazem, sobretudo, um acréscimo das informações presentes neste. Isso acontece, inicialmente,
por meio da inserção da avaliação do que seja ou o que representa o depoimento para o
processo de investigação do suposto assassinato a ser descrito posteriormente, tanto no
depoimento quanto no corpo da notícia: “o depoimento que provocou uma reviravolta no caso
Bruno”. É claro, nesse trecho, a avaliação que é feita sobre o que representa, de acordo com o
ponto de vista do sujeito, o depoimento em questão para a investigação sobre aquele caso
policial.
166
Em seguida, há o acréscimo de informações que sugerem exatidão, mas que não
estão destacadas no depoimento e/ou já foram apresentadas em notícias anteriores: “Em
quatro folhas, o menor apreendido na terça-feira (6) na casa do goleiro do Flamengo conta
sua versão dos fatos”. Vemos que há o detalhamento da quantidade de páginas do depoimento
tomado como texto-fonte principal, ao mesmo tempo em que é informado que se trata do
depoimento dado por um indivíduo menor de idade, fornece-se o dia da semana (terça-feira) e
a data (6), bem como o lugar (casa do goleiro do Flamengo) da apreensão, dando uma
precisão às informações, com um jogo de figuras que indicam exatidão.
Importante perceber que a informação “goleiro do Flamengo”, que aparece dentro da
expressão “n[a casa do goleiro do Flamengo]” é mostrada na notícia como informação dada,
por meio de uma descrição definida. Supõe-se que o caso de que trata a notícia seja conhecido
pelo leitor, de modo que a novidade aqui aparece mais como um desdobramento de um
acontecimento que já vem sendo “coberto” pela imprensa. Nesse sentido, parte-se do
princípio de que o leitor o conheça, e, supostamente, esteja acompanhando as notícias
publicadas anteriormente com os desdobramentos desse acontecimento.
São frequentes em nosso corpus casos de acréscimos de figuras que indicam
precisão, e que não estão tão claramente evidenciadas no texto-fonte como são na notícia.
Essas figuras constituem uma prática que se configura no que é considerado padrão em
notícias, a designação de pessoas, a indicação de espaço, lugar e outros detalhamentos que,
normalmente, aparecem logo no início do texto, configurando o que conhecemos como lide.
No Quadro 13, vemos mais casos do que estamos, por ora, tratando, são dois trechos de
notícias de dois portais jornalísticos, tratando do mesmo fato:
Quadro 13: Trechos de notícias: acréscimos com utilização de figuras de precisão 2
TRECHOS DE NOTÍCIAS
O vocalista da banda Detonautas, Tico Santa Cruz, fez
um relato em seu perfil no Facebook, na madrugada
de hoje (22), depois de presenciar um acidente na BR343, quando se deslocava de Teresina com destino ao
litoral piauiense, onde fará um show na noite de hoje
(22) na cidade de Parnaíba. [...]
O cantor Tico Santa Cruz, que está no Piauí para uma
TRECHOS DE TEXTO-FONTE
Fazer um relato que considero importante.
Cheguei a Parnaíba-Piauí há pouco mais de 2
horas. Uma viagem longa e cansativa, vindo de
Teresina. Cerca de Quatro horas e meia numa
estrada que tem parte dela em condições precárias e
a outra parte bem sinalizada e com asfalto bom,
porém com um PERIGO MUITO SINISTRO. [...]
Idem.
167
série de shows, fez um alerta em seu Facebook para os
perigos e condições de atendimento policial na BR 343,
onde seguia durante a noite desta quinta-feira (22), com
destino a Parnaíba.
Fontes: 1 www.portalodia.com/noticias/policia/tico-santa-cruz-presencia-acidente-em-rodovia-do-pi-e-fazrelato-no-facebook-165681.html (Acesso em: 22 fev. 2013, grifos nossos).
2 www.cidadeverde.com/tico-santa-cruz-desabafa-e-faz-alerta-sobre-estrada-do-piaui-no-facebook-125906
(Acesso em: 22 fev. 2013, grifos nossos).
O Quadro 13 mostra dois trechos de notícias fundamentadas sobre o mesmo evento.
Em ambos os textos, que foram publicados por portais jornalísticos diferentes, vemos a
utilização de elementos informativos que indicam precisão de quem (“O vocalista da banda
Detonautas, Tico Santa Cruz”), quando (“na madrugada de hoje, 22”), onde (“em seu perfil no
Facebook”), como (“quando se deslocava de Teresina ao litoral piauiense”) e porque (“depois
de presenciar um acidente na BR-343”) aconteceu o fato tratado, compondo o lide de ambas
as notícias, que nesse ponto em específico apresentam poucas variações entre si.
Assim como são frequentes os acréscimos de informações que indicam exatidão e
que contribuem na apresentação precisa das informações na notícia, são frequentes a inserção
de avaliações, julgamentos e opiniões, como já exemplificamos, no Quadro 6, acerca da
avaliação do que seja ou o que representa o depoimento em questão para a investigação
policial do “caso Bruno”. Mesmo a notícia sendo comumente difundida como um gênero
objetivo, sabemos que não é, até porque o uso linguístico se dá através de um sujeito que
atualiza a língua para determinado fim. Com a notícia não é diferente, embora autores do
Jornalismo e da Comunicação Social, em muitos manuais prescritivos, orientem e definam a
notícia como um gênero informativo e isento de subjetividade.
No Quadro 14, temos casos de acréscimos de avaliações feitos em três notícias
diferentes. Pelos exemplos, vemos como são diversificadas as formas de se acrescentar à
informação a avaliação do sujeito sobre o fato noticiado:
Quadro 14: Trechos de notícias e de textos-fonte: acréscimos de avaliações
TRECHOS DE NOTÍCIAS
Tico Santa Cruz desabafa sobre estrada do Piauí no
Facebook (manchete)
TRECHOS DE TEXTO-FONTE
[Postagem] Fazer um relato que considero
importante [...]
[...] O documento enviado pela Secretaria de Segurança deixa
claro que a ex-prefeita de Timon não tem qualquer
[Certidão] CERTIFICAMOS, em resposta a
requerimento, que até a presente data, a
168
envolvimento com o suposto esquema. Assinado por quatro
delegados da Superintendência Estadual de Investigações
Criminais, o documento ressalta que M. d. S. A. W. não é alvo de
qualquer investigação até a presente data por parte daquele
órgão.
O ex-vice-prefeito de Timon, E. R. (foto), recebeu recentemente
uma homenagem que lhe rende motivos de sobra para
comemorar. Ele foi homenageado por ninguém menos que
Gery Stahl, representante do Unicef no Brasil. [...]
requerente M. D. S. A. W. não é alvo de
investigações nesta Comissão.
[Certificado] O Fundo das Nações Unidas
para a Infância – UNICEF reconhece a
dedicação e o compromisso de Edivar de
Jesus Ribeiro [...]
Gery Stahl
Representante do UNICEF no Brasil
Fontes:
1
www.cidadeverde.com/tico-santa-cruz-desabafa-e-faz-alerta-sobre-estrada-do-piaui-nofacebook-125906 (Acesso em: 22 fev.2013, grifos nossos).
2 www.portalaz.com.br/blogs/elias_lacerda (Acesso em: 06 jun. 2013, grifos nossos).
3 www.portalaz.com.br/blogs/elias_lacerda (Acesso em: 06 jun. 2013, grifos nossos).
No primeiro exemplo do Quadro 14, temos uma manchete que afirma “Tico Santa
Cruz desabafa sobre estrada do Piauí no Facebook”. A notícia em questão é construída sobre
uma postagem feita no perfil pessoal da rede social Facebook pelo cantor Tico Santa Cruz.
Nesse sentido, a avaliação é inserida a partir do uso da forma verbal “desabafa”, que remete à
ação do referido cantor de relatar sua experiência de viagem por uma rodovia no Piauí.
Já no segundo exemplo, a notícia acrescenta à informação original do texto-fonte o
adjetivo “claro”, no trecho “O documento enviado pela Secretaria de Segurança deixa claro
[...]”, que qualifica a condição certificada no documento oficial de que o sujeito em questão
não é alvo de investigações até àquele momento. Esse qualificador é reforçado pelo uso
repetido do pronome indefinido “qualquer”, numa dupla negação que mostra a preocupação
do sujeito em deixar bastante aparente na notícia o não envolvimento da pessoa em questão
com o esquema ilícito a que se faz referência e nem em investigações feitas naquele momento
pela Secretaria de Segurança Pública.
No terceiro caso, temos um trecho de notícia construída sobre um Certificado do
Unicef, reconhecendo a dedicação e o compromisso de um ex-vice-prefeito para a realização
de um programa social em prol dos direitos da criança e do adolescente. A notícia recupera
parcialmente as informações contidas no texto-fonte principal, e, ao mesmo tempo, avalia
positivamente as informações que apresenta, por meio das expressões “uma homenagem que
lhe rende motivos de sobra para comemorar” e “homenageado por ninguém menos que
Gery Stahl, representante do Unicef no Brasil”.
169
Nas três situações apresentadas no Quadro 14, são utilizados mecanismos textuais
diferentes para o acréscimo de uma avaliação sobre o fato noticiado. O primeiro caso avalia a
partir da utilização de um verbo que designa a ação descrita na notícia, avaliando como
“desabafo” o que o próprio sujeito autor do texto-fonte ver como “relato”. A avaliação do
segundo caso é feita pela utilização do adjetivo “claro” e pela aparição do pronome indefinido
“qualquer”, que ajudam a reforçar a informação de que a pessoa em questão não tem culpa
alguma, é completamente inocente. Já no terceiro caso, há a utilização de expressões que, de
certa forma, “comemoram” o fato noticiado, apresentando positivamente as informações e a
felicidade do sujeito ao qual elas se relacionam.
Pelos exemplos, percebemos que são diversificadas as formas de fazer avaliação dos
fatos apresentados em notícia. Dos exemplos de texto-fonte apresentados no Quadro 14,
apenas a postagem em rede social é de caráter eminentemente subjetivo, os outros dois são,
respectivamente, trechos de uma certidão e de um certificado, documentos técnicos
elaborados por instituições e/ou órgãos oficiais. Ainda assim, as notícias fundamentadas
nesses documentos utilizam estratégias para acrescentar, às informações de base, avaliações e
julgamentos.
Além dos acréscimos que já tratamos, acréscimos de figuras que indicam precisão,
de informações julgadas como conhecidas do leitor e de avaliações e julgamentos, achamos
importante ainda tratar dos acréscimos de informações oriundas de outros textos-fonte. Essas
são coadunadas às informações fornecidas pelo texto-fonte principal, aquele sobre o qual a
notícia é construída. Sabemos que as notícias normalmente se estruturam a partir de
informações oriundas de outros textos, que são utilizados pelo sujeito como fonte, de modo
que é possível que haja notícias estruturadas sobre várias fontes ou sobre uma fonte principal.
Já afirmamos, com base em Van Dijk (1990 [1988]), que qualquer texto não “serve”
para ser apresentado como fonte de notícias, haja vista que esse tipo de texto é construído
sobre o viés da objetividade dos fatos, como se apresentasse informações idôneas sobre
acontecimentos reais. Logo, depoimentos de pessoas diretamente envolvidas nos fatos, que
sugerem conhecimento de causa, e de autoridades, que sugerem idoneidade, funcionam
melhor para construir essa atmosfera de verdade. Outras fontes como documentos oficiais de
170
órgãos ou instituições estatais também sugerem idoneidade e precisão da informação
noticiada.
Em nosso corpus, temos casos de notícias que têm como fonte principal desde um
depoimento policial a uma postagem em rede social. Porém, é recorrente o fato de que,
normalmente, o texto que é posto em evidência como a fonte principal da informação
noticiada possui uma autoria declarada, de modo que é possível saber quem disse, onde e
quando, ainda que não fique claro como o jornalista ou, mesmo, o portal jornalístico tenha
chegado àquela fonte. Paralelamente ao texto que é destacado como a fonte principal de
informação na construção da notícia, outras informações oriundas de outros textos,
normalmente, são acrescentadas como complemento do que se diz com base no texto
principal. No Quadro 15, temos exemplos de acréscimos de informações de outros textosfonte:
Quadro 15: Trechos de notícias: acréscimos de informações de outros textos além da fonte principal
TRECHO DE NOTÍCIA
Em carta, Bruno pediu para Macarrão assumir assassinato de Eliza Samudio
[...]
Os advogados do goleiro Bruno disseram, nesta segunda (9), que ele foi o autor de uma carta em que pede
ao amigo Macarrão para assumir a responsabilidade pelo assassinato de Eliza Samudio.
A correspondência teria sido interceptada na penitenciária onde Bruno e o amigo Luiz Henrique Romão, o
Macarrão, estão presos há dois anos.
Um dos advogados do goleiro tinha negado a existência da carta quando a revista veja publicou a reportagem.
Nesta segunda (9), o advogado F. S. visitou o goleiro. Disse que ele confirmou a autenticidade e que ela foi
escrita em novembro do ano passado, antes de ele assumir a defesa do jogador.
Na carta, Bruno diz a Macarrão que devido às últimas descobertas da polícia os advogados sugerem que eles
usem um plano B. [...]
Ex-presidente do TJ rebate críticas à sua gestão: "O que realizamos salta aos olhos"
[...]
Após a divulgação de relatório que revela a precariedade dos fóruns do Piauí, o ex-presidente do Tribunal de
Justiça do Piauí (TJ-PI), desembargador Edvaldo Moura, escreveu uma carta endereçada à atual presidente da
Corte, Eulália Pinheiro, em que rebate críticas à sua gestão.
Na carta, o desembargador, que deixou a presidência do TJ-PI em maio deste ano, diz que há "uma tentativa de
desqualificar a sua gestão", com calúnias que questionam a seriedade o êxito do seu trabalho, inclusive
colocando em dúvida a sua honradez.
Edvaldo Moura reconhece que a atual situação do Judiciário piauiense está longe do ideal, mas diz que concluiu
seu mandato com "a consciência tranquila do dever cumprido". Ele citou realizações da sua administração,
como a inauguração de 23 novos fóruns. [...]
No dia seguinte, Eulália Pinheiro desabafou durante coletiva de imprensa. Ela atribuiu o caos nos fóruns a
problemas de gestão, o que foi entendido como uma crítica aos juízes do Tribunal.
Fontes: 1 http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2012/07/em-carta-bruno-pediu-para-macarraoassumir-assassinato-de-eliza-samudio.html (Acesso em: 09 jul. 2012, grifos nossos).
2 http://www.portalodia.com/noticias/politica/em-carta-a-eulalia-pinheiro-ex-presidente-do-tj-rebatecriticas-a-gestao-anterior-150530.html (Acesso em: 12 set. 2012, grifos nossos).
171
Na primeira situação apresentada no Quadro 15, temos o trecho de uma notícia
fundamentada sobre uma carta interceptada em um presídio. Pelo destaque dado na Manchete
“Em carta, Bruno pediu para Macarrão assumir assassinato de Elisa Samudio”, vemos que a
carta é destacada como a fonte principal da notícia, porém, ao longo do texto, são inseridas
informações oriundas de declarações públicas dos advogados de defesa do indivíduo que
supostamente escreveu a carta. São informações adquiridas por meio de pessoas diretamente
relacionadas ao fato, e que, portanto, têm (ou teriam) conhecimento de causa.
Na segunda situação, temos o trecho de uma notícia fundamentada sobre uma carta
escrita por um desembargador do Estado do Piauí. Além das informações principais retiradas
da carta, o jornalista faz uso, dentre outros, de declarações públicas da desembargadora para a
qual a carta (embora divulgada publicamente) foi escrita. As declarações são apresentadas
como desabafos, numa avaliação sobre o que foi informado pela desembargadora.
Vemos, dessa forma, que outras fontes paralelas podem ser usadas como
complemento da informação principal, mesmo que seja declarado, desde a manchete, o
assunto principal da notícia, de modo que quando existe um texto-fonte principal, este
normalmente já é destacado na manchete. No entanto, quando se trata de uma fonte idônea,
segura, a mesma é destacada no texto, com denominação reportada.
Além das informações de fontes paralelas à fonte principal da notícia, temos casos de
inserções de informações que aparecem como uma explicação complementar do que é
informado com base no texto-fonte principal. No Quadro 16, temos exemplos de acréscimos
de informações que não são oriundas do texto-fonte principal e nem aparecem como
provenientes de uma fonte paralela à principal:
Quadro 16: Trechos de notícias: acréscimos de informações sem a explicitação de fonte
TRECHOS DE NOTÍCIAS
A Secretaria de Segurança Pública do Maranhão respondeu petição (veja documento acima) feita pela ex-prefeita
Socorro Waquim onde esclarece sobre informações divulgadas na imprensa local e estadual que apontavam
o suposto envolvimento da administração dela com o esquema de agiotagem no estado. Amplamente
divulgado nos meios de comunicação, o esquema de agiotagem foi acusado de tirar dinheiro das
prefeituras e também responsável pela morte do jornalista Décio Sá.
Em cartas, pai e madrasta de Isabella declaram inocência
Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá divulgaram cartas nesta quinta-feira (3). Justiça de São Paulo
decretou prisão de casal na quarta-feira (2).
O pai e a madrasta da menina Isabella Nardoni, de 5 anos, que caiu ou foi jogada do 6º andar de um
172
prédio na Zona Norte de São Paulo, divulgaram nesta quinta-feira (3) cartas nas quais afirmam não serem
culpados pela morte da criança e dão detalhes do relacionamento com Isabella. [...]
O prefeito foi submetido neste sábado (21) a um cateterismo cardíaco, com desobstrução da artéria coronária
descedente anterior e com implante de Stent (uma estrutura metálica que garante a passagem do sangue)
Fontes: 1 www.portalaz.com.br/blogs/elias_lacerda (Acesso em: 06 jun 2013, grifos nossos).
2
http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL386926-5605,00EM+CARTAS+PAI+E+MADRASTA+DE+ISABELLA+DECLARAM+INOCENCIA.html (Acesso em:
03 abr. 2008, grifos nossos).
3http://www.portalaz.com.br/noticia/municipios/276791_hospital_divulga_boletim_e_diz_que_kleber_eul
alio_sofreu_infarto.html (Acesso em: 22 set. 2013, grifos nossos).
No primeiro caso do Quadro 16, há o acréscimo de informações paralelas às
informações fornecidas pelo texto-fonte principal, que são oriundas de outras fontes. Porém,
essas fontes paralelas são discriminadas apenas de forma genérica: “informações divulgadas
na imprensa local e estadual” e “amplamente divulgado nos meios de comunicação”. Dessa
forma, o leitor recebe a informação de que aquela informação foi amplamente divulgada nos
meios de comunicação locais e estaduais, mas não há como saber quais meios de
comunicação especificamente trataram do assunto.
No segundo caso, a notícia trata de duas cartas de dois suspeitos de um crime, que
declaram publicamente inocência. Porém, juntamente com informações das cartas divulgadas,
há o acréscimo de informações que não se encontram nestas, mas aparecem como uma forma
de contextualização daquilo que está sendo tratado nas cartas, como “Justiça de São Paulo
decretou prisão de casal na quarta-feira (2)” e “O pai e a madrasta da menina Isabella
Nardoni, de 5 anos, que caiu ou foi jogada do 6º andar de um prédio na zona Norte de São
Paulo”. Nesse sentido, as informações acrescentadas aparecem como contextualizadoras das
cartas que estão sendo divulgadas e são apresentadas como já de conhecimento do leitor; e é
evidente que o jornalista teve acesso a essas informações, ainda que em um tempo passado,
em outras fontes.
No terceiro caso, por sua vez, é feito um acréscimo de informação, para explicar um
termo técnico utilizado no boletim médico, sobre o qual a notícia está estruturada. Assim, esta
recupera a informação do boletim médico de que o cateterismo cardíaco feito no ex-prefeito
foi realizado “com desobstrução da artéria coronária descendente e com implante de stent” e
ao mesmo tempo acrescenta a informação de que “stent” se trata de “uma estrutura metálica
173
que garante a passagem do sangue”. Logo, o acréscimo explica a informação do boletim
médico para os leitores, esclarecendo uma informação técnica.
Vemos, portanto, que existe a eliminação de informações técnicas, em uns casos, e,
em outros, o acréscimo de informações, para explicação de termos técnicos. Ambos
constituem estratégias de retextualização, que atuam no sentido de transformar o conteúdo do
texto-base para a adaptação ao texto retextualizado. Logo, a utilização de uma ou outra
estratégia cria efeitos retóricos diferenciados na transformação da informação, para adaptá-la
à nova situação de comunicação.
Na subseção 5.1.3, tratamos da estratégia de substituição.
5.1.3 Substituição
No processo de retextualização, a estratégia de substituição é aquela em que, na
retextualização de um texto, é feita a substituição de uma palavra ou uma expressão por outra
julgada como equivalente àquela substituída ou, ainda, que funcione no texto retextualizado
como equivalente. Assim, como as estratégias de eliminação e de acréscimo, que tratamos nas
subseções 5.1.1 e 5.1.2 deste capítulo, existem casos, na notícia publicada por portais
jornalísticos na internet, que exemplificam a estratégia de substituição de informações a partir
de diferentes construções linguísticas, produzindo diferentes efeitos.
No Quadro 17, temos um caso de substituição de informação em uma notícia
construída a partir de um texto-fonte principal:
Quadro 17: Trecho de notícia: substituição de expressão referencial lexical
TRECHO DE NOTÍCIA
Ele disse que foi convidado por Luiz
Henrique Ferreira Romão, o amigo de Bruno
conhecido como Macarrão, a levar Eliza
Samudio ao sítio do goleiro em Minas Gerais.
TRECHO DE DEPOIMENTO POLICIAL
(...) foi convidado por um funcionário de seu primo BRUNO
DE SOUSA, o qual é goleiro do Flamengo, conhecido pelo
apelido de MACARRÃO, que na realidade se chama LUIZ
HENRIQUE, para ajuda-lo a levar uma ex-namorada de
BRUNO de nome ELIZA para Belo Horizonte;
Fonte: notícia: http://g1.globo.com/brasil/noticia/2010/07/menor-diz-em-depoimento-que-ossos-de-elizaforam-concretados-em-sitio.html (Acesso em: 15 out. 2010, grifos nossos).
Depoimento policial: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/763603-veja-integra-do-depoimento-doprimo-do-goleiro-bruno.shtml (Acesso em: 15 out. 2010, grifos nossos).
174
Na exemplificação do Quadro 17, temos, respectivamente, trechos de uma notícia e
de um depoimento policial, de modo que a notícia é construída fundamentalmente a partir das
informações apresentadas no depoimento. Assim, destacamos a substituição da expressão
referencial lexical “um funcionário”, presente no depoimento policial, pela expressão “o
amigo”, presente na notícia. Essa substituição lexical transforma a relação social existente
entre os sujeitos Bruno e Luiz Henrique, tendo em vista que uma relação de trabalho
estabelecida pela expressão indefinida “um funcionário” não permanece na relação de
amizade sugerida pela expressão definida “o amigo”.
A expressão um funcionário designa um entre todos os funcionários de Bruno,
podendo “um funcionário” ser qualquer um dos funcionários, pois, pelo depoimento, sugerese que o sujeito Bruno tenha mais de um funcionário, e que Luiz Henrique é um desses. Já a
expressão “o amigo” é específica. Além da relação de amizade evidenciada, não é qualquer
amigo, como seria qualquer funcionário, evidenciado na expressão “um funcionário”.
O valor de funcionário não corresponde a amigo, e a oposição entre a indeterminação
e a determinação, no depoimento policial e na notícia, respectivamente, deixa clara uma
tomada de posição do sujeito (ou da empresa jornalística a qual este representa) sobre a
relação entre o sujeito Bruno e Luiz Henrique. Mesmo a base de informações da notícia em
questão sendo o depoimento policial, a opção lexical por “o amigo” mostra que as escolhas
linguísticas não são aleatórias ou mesmo isentas de parcialidade.
No período de publicação da webnotícia que, por ora, analisamos, teve ampla
divulgação na mídia a relação de amizade entre Bruno e Luiz Henrique, e a notícia utiliza a
expressão “o amigo” como informação dada. Em outras palavras, é dito que Luiz Henrique
não é somente um funcionário de Bruno, mas o seu “amigo”, e, ainda, sugere-se que o leitor
tenha conhecimento disso, a partir de seu conhecimento prévio sobre o caso.
Juntamente com o tipo de substituição que sugere uma mudança no valor
informacional relacionado ao texto-fonte principal e ao retextualizado, temos casos de
substituição informacional, evidenciada mais como uma tentativa de adaptação a
condicionamentos e especificidades da notícia, como nos casos destacados no Quadro 18:
175
Quadro 18: Trecho de notícia e de texto-fonte: substituição para adaptação ao estilo da notícia
TRECHO DE NOTÍCIA
Portal da Clube tem acesso à carta
encontrada na Irmão Guido; Confira!
CARTA
Salve rapaziada do anex 2. Aqui e a rapazeada PVC
e o seguinte nós já conversamo com a rapaziada do B
Para justificar a ação, a "rapaziada do PV. C" cita a e do PVD. Pois a rapaziada apoiou a gente vai
Penitenciaria Fontes Ibiapina, em Parnaíba, como começar aqui no PV.C então nos vamos quebrar o
"modelo" de unidade prisional do ponto de vista dos PVB. E o nosso objetivo e pedir nossa regalia que nos
tem direito e mudar a direção do sistema pois a
presidiários
O Portal da Clube teve acesso à carta rapaziada lá da custodia entrou em contato com nos e
interceptada durante vistoria de rotina na disse que eles conseguiram tirar o Wilsin e assim so
Penitenciária Regional Irmão Guido, na zona rural nos se unir que nos vamos conseguir nosso objetivo e
de Teresina. Na carta assinada pela “Rapaziada do só nossa melhoria pois a maioria dos irmão aqui
PV. C” – uma provável referência a Pavilhão C -, o centenciados porque so nos não tem direito pois em
remetente fala em “quebrar o Pavilhão B” para Parnaíba os caras tem direito a TV e ventiladores e
som pois nos so vamos conseguir se nos quebrar esta
conseguir regalias, como televisão, som e ventilador.
Para justificar a ação, a “rapaziada do PV. porra não e para gerrar morte mas para nossa
C” cita a Penitenciaria Mista Juiz Fontes Ibiapina, segurança nós vamos quebrar o PV.A. E o especial
localizada em Parnaíba, como “modelo” de é aí vocês sabe que aí no anex 1 também tem us caras
unidade prisional do ponto de vista dos que não serve que trabalham para a polícia agora
vocês ficam na ativa nos só vamos esperar resposta do
presidiários. [...]
SP. Dependendo do que os irmão decidirem, nós
começamos o bagulho e vamos sustenta para chamar a
atençao da emprensa e das autoridades nós vamos
mandar as responsas para vocês e depois da visita tem
tudo para dar certo. Virmeza ladrões. Fiquem na paz
de um alo no Júnior e no resto da rapaziada. Ass: A
rapaziada do PV.C
Fonte:
http://portaldaclube.profissional.ws/portal-da-clube-tem-acesso-a-carta-encontrada-na-irmaoguido-confira.html (Acesso em: 22 out. 2012, grifos nossos).
A notícia apresentada no Quadro 18 é feita especialmente para divulgação da carta
interceptada no presídio, de modo que, na própria manchete, é destacada a condição do portal
jornalístico de ter tido acesso à carta em questão. Nessa situação de retextualização, temos um
caso em que uma notícia se fundamenta numa fonte que não está escrita na norma padrão da
língua portuguesa, critério normalmente levado em conta no processo de produção da notícia.
Logo, no tratamento dado à informação do texto-fonte pela notícia, vemos que esta destaca
por aspas a fala do locutor reproduzida mais diretamente, sobretudo na parte em que o mesmo
se identifica como “a rapaziada do PV. C”. Em outros trechos há casos de substituição de
palavras e/ou expressões, que analisamos a seguir.
Já no subtítulo da notícia, temos um caso de acréscimo informacional, na inserção da
informação “Penitenciária Fontes Ibiapina”, que contextualiza a designação de lugar feita na
176
carta em questão de que “em parnaíba os caras tem direito a TV e ventiladores e som”.
Paralelamente a esse acréscimo informacional, de que a expressão “em Parnaíba” se refere à
“Penitenciária Fontes Ibiapina”, o jornalista substitui a informação veiculada por essa mesma
expressão “em parnaíba os caras tem direito a TV e ventiladores e som” pela informação de
que “a ‘rapaziada do PV. C’ cita a Penitenciária Fontes Ibiapina, em Parnaíba, como ‘modelo’
de unidade prisional”, e na sequência é feito o acréscimo “do ponto de vista dos
presidiários”.
Vemos que a expressão que aparece em substituição daquela julgada como
equivalente no texto-fonte é decorrente de uma interpretação feita a partir da menção, na
carta, de que “em Parnaíba os caras tem direito a TV e ventiladores e som”. Porém, mesmo
sendo resultado de uma interpretação, a informação de que “Penitenciária fontes Ibiapina, em
Parnaíba, é citada como ‘modelo’ de unidade prisional, do ponto de vista dos presidiários”
(que aparece tanto no subtítulo como no corpo da notícia) é apresentada como sendo,
originalmente, da carta a qual a notícia está fundamentada.
Importante destacar ainda o fato de que a palavra “modelo”, utilizada na notícia,
aparece entre aspas, reforçando a interpretação da referida penitenciária como modelo de
unidade prisional está relacionado ao ponto de vista dos penitenciários. Logo, a mesma é
considerada “modelo” apenas por os presos terem ventiladores, TV e som, por isso o
destaque, “do ponto de vista dos presidiários”, haja vista que outros setores da sociedade se
baseiam em critérios diferentes para considerar uma penitenciária como modelo.
Vimos, no capítulo 2, subseção 2.1.1, de acordo com Marcuschi (2010 [2000]), que a
interpretação é uma condição básica para o processo de retextualização. Dessa forma, vemos
que o sujeito interpreta, fazendo uma rearticulação da informação que aparece no texto-fonte,
mas apresenta essa informação como sendo oriunda deste. Em todo caso, julgamos que essa
substituição está mais diretamente relacionada a uma questão de adaptação linguística e
vocabular da informação, para que a mesma apareça “adequadamente” na notícia.
Chegamos a essa conclusão pelo fato de vermos que, em todo o texto da notícia: 1)
quando a reprodução da informação, na passagem do texto-fonte principal para a notícia em
questão, não pode ser alterada, como nas designações que identificam o remetente, “rapaziada
177
do PV. C”, há o destaque por aspas; 2) quando a mesma reproduz uma informação direta da
carta, também há o destaque por aspas: “quebrar o PV.B”; 3) já quando se reproduz uma
informação direta, porém, sem a opção pelo uso das aspas, há a adaptação para o estilo formal
da língua: “o remetente fala em ‘quebrar o PV. B’, para conseguir regalias, como TV, som e
ventilador”.
Paralelamente aos casos em que há uma substituição da informação do texto-fonte
para adaptação à norma padrão da língua portuguesa, existem substituições de palavras e/ou
expressões que também adaptam a informação ao estilo jornalístico, porém, com a finalidade
de deixar a informação acessível ao grande público. No Quadro 19, temos o caso de uma
substituição de um termo técnico por uma expressão equivalente, conhecida popularmente:
Quadro 19: Trecho de notícia e de texto-fonte: substituição de termo técnico por expressão “equivalente”
TRECHO DE NOTÍCIA
Chesf e ONS divulgam notas sobre apagão que
afetou PI e mais 11 estados
De acordo com a ONS, o apagão foi provocado por
um curto-circuito na subestação Colinas-Imperatriz.
TRECHOS DE NOTAS OFICIAIS
[...] Com o isolamento da região Nordeste, houve uma
queda acentuada de tensão e frequência que provocou
o desligamento total das cargas dessa região, no
montante de 9.500 MW. (ONS)
A Companhia Hidro Elétrica do São Francisco –
Chesf informa que o desligamento ocorrido às 00:14
Hs de hoje (horário de Brasília), dia 26/10/2012, não
teve origem nas instalações ou equipamentos desta
Empresa.[...] (CHESF)
Fonte:
http://portaldaclube.profissional.ws/chesf-e-ons-divulgam-notas-sobre-apagao-que-afetou-pi-emais-11-estados.html (Acesso em: 26 out. 2012, grifos nossos).
O trecho de notícia que apresentamos no Quadro 19 está fundamentado
essencialmente em duas notas oficiais divulgadas publicamente por instituições responsáveis
pelo fornecimento de energia elétrica no Brasil. A informação contida na expressão “o
desligamento” ou “o desligamento total das cargas” a que se faz menção nas notas é
apresentada, em destaque, na manchete da notícia como “o apagão”, numa substituição de
uma informação técnica por uma expressão cunhada pela mídia para designar o mesmo fato.
Nesse caso, como a notícia visa atrair a um grande número de internautas/leitores, a expressão
“o apagão” certamente chama a atenção de mais pessoas, pois tem um impacto maior para a
divulgação do que o termo técnico “o desligamento”.
178
Já o caso de substituição apresentado no Quadro 20 está relacionado à ênfase dada ao
papel social mais valorizado do indivíduo sobre o qual se está noticiando:
Quadro 20: Trecho de notícia e de texto-fonte: substituição com ênfase no papel socialmente valorizado
TRECHO DE NOTÍCIA
TRECHO DE BOLETIM MÉDICO
[...] De acordo com o boletim médico, o procedimento [...] O procedimento transcorreu sem complicações e o
cirúrgico transcorreu sem complicações e o prefeito paciente tem evolução clínica satisfatória.
tem apresentado quadro clínico satisfatório.
Fonte:http://www.portalaz.com.br/noticia/municipios/276791_hospital_divulga_boletim_e_diz_que_klebe
r_eulalio_sofreu_infarto.html (Acesso em: 22 set. 2013, grifos nossos).
O Quadro 20 apresenta o trecho de uma notícia cujas informações se fundamentam
na divulgação do estado de saúde de um prefeito a partir das informações de um boletim
médico. No boletim, a pessoa em foco é tratada como paciente, já a notícia enfoca o papel
social de prefeito ocupado por essa pessoa, justificando a relevância social da notícia. Assim,
a notícia recupera as informações do boletim médico, mas substitui a designação “o paciente”,
do texto-fonte principal, por “o prefeito”, numa adaptação ao tema principal da notícia, que
trata do infarto do prefeito, colocando em evidência a condição ou cargo do indivíduo ao qual
se faz referência.
Os últimos casos de substituição que destacamos com base no nosso corpus são,
basicamente, sobre a substituição sintática que é feita na notícia para criar o efeito de
distanciamento. Sabemos que o discurso noticioso está fundamentado sob uma crença de
objetividade, que pressupõe que os fatos sejam apresentados exatamente da forma que
acontecem (VAN DIJK, 1990 [1988]). Logo, uma das estratégias linguísticas mais comuns
para criar essa impressão de objetividade é o uso da terceira pessoa do singular ou do plural,
que sugere distanciamento do sujeito sobre o que se está tratando.
Na adaptação das informações dos textos-fonte à notícia, muitas vezes são
substituídas construções sintáticas, para adaptá-las a terceira pessoa do discurso. Até mesmo
porque, na fonte original, temos um sujeito dizendo algo, e, na notícia, temos um outro
dizendo o que já foi dito pelo outro sujeito, normalmente apresentado como “ele”. No Quadro
21, temos exemplificações que ilustram nossas afirmações:
179
Quadro 21: Trechos de notícias e de textos-fonte: substituição para adaptação à 3ª pessoa
TRECHOS DE NOTÍCIAS
TRECHOS CORRESPONDENTES DE TEXTOSFONTE
[...] o desligamento de energia ocorrido no final da [NOTA] [...] o desligamento ocorrido às 00:14 Hs de
noite dessa quinta-feira (25) e início da madrugada de hoje (horário de Brasília), dia 26/10/2012, não teve
hoje não teve origem nas instalações ou origem nas instalações ou equipamentos desta
Empresa.
equipamentos da empresa.
[...] o remetente fala em “quebrar o Pavilhão B” para [CARTA] [...] pois em Parnaíba os caras tem direito a
conseguir regalias, como televisão, som e ventilador.
TV e ventiladores e som pois nos so vamos conseguir
se nos quebrar esta porra [...]
[...] Nos textos, Alexandre Nardoni, de 29 anos, e [...] Nós não tínhamos feito nenhuma declaração
Anna Carolina Jatobá, de 24, dizem que não tinham ainda porque acreditávamos que o caso seria
se pronunciado ainda porque acreditavam “que o solucionado. Nós não somos os culpados, e ainda
caso seria solucionado” e que acreditam que a encontrarão o culpado[...]. A verdade sempre
“verdade prevalecerá”. [...]
prevalecerá.
Fontes: 1 http://portaldaclube.profissional.ws/chesf-e-ons-divulgam-notas-sobre-apagao-que-afetou-pi-emais-11-estados.html (Acesso em: 26 out. 2012, grifos nossos).
2
http://portaldaclube.profissional.ws/portal-da-clube-tem-acesso-a-carta-encontrada-na-irmao-guidoconfira.html (Acesso em: 22 out. 2012, grifos nossos).
3
http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL386926-5605,00EM+CARTAS+PAI+E+MADRASTA+DE+ISABELLA+DECLARAM+INOCENCIA.html (Acesso em:
03 mai. 2008, grifos nossos).
Na primeira situação, à direita, do Quadro 21, há a utilização, na nota oficial, da
expressão “desta”, uma forma contraída da preposição “de” mais o pronome demonstrativo
“esta”, que aproxima a referência ao sujeito enunciador, na expressão “desta empresa”. A
notícia fundamentada nessa nota substitui “desta” por “da”, eliminando o pronome
demonstrativo e utilizando a expressão “da empresa”. Na segunda situação do Quadro 21, a
notícia substitui a primeira pessoa do plural, presente, sobretudo, em verbos e pronomes de
uma carta, em construções como “nós só vamos conseguir” e “se nós quebrar”, para a terceira
pessoa do singular, referindo-se, na notícia, a “o remetente fala em quebrar o Pavilhão B”. Já
na terceira situação, assim como na segunda, há a substituição de formas verbais e
pronominais em primeira pessoa do plural, presentes no texto-fonte principal, uma carta, por
construções em terceira pessoa do plural: a expressão que aparece na carta “nós não tínhamos
feito nenhuma declaração ainda porque acreditávamos que o caso seria solucionado” é
substituída, na notícia, por “[...] Alexandre Nardoni [...] e Ana Carolina Jatobá [...] dizem que
não tinham se pronunciado ainda porque acreditavam ‘que o caso seria solucionado’”.
180
Essa forma de substituição, para adaptação a terceira pessoa do discurso está
diretamente relacionada ao funcionamento social da notícia. Logo, a transformação acontece
para adaptar a informação ao gênero. Mais uma vez, vemos que o processo de retextualização
deve ser visto relacionado à noção de gênero, o que justifica boa parte das transformações que
ocorrem na construção de um texto a partir de outro, tomado como base de informação.
Todavia, como vimos, há casos em que a substituição não está relacionada à
adaptação para o gênero, mas para uma tomada de posição ou uma construção específica de
sentido. No geral, seja para adaptação ao gênero ou ao objetivo da comunicação, a estratégia
de substituição, como o processo de retextualização como um todo, é caracterizado como uma
transformação em razão de uma adaptação à nova situação de comunicação.
Na subseção 5.1.4, analisamos casos de reordenação.
5.1.4 Reordenação
A última estratégia de retextualização que analisamos é a de reordenação, que
consiste, basicamente, na reorganização tópica das informações presentes no texto-fonte
principal, para a construção do texto retextualizado. Na notícia, a estratégia de reordenação
está condicionada à característica do gênero de, normalmente, destacar a informação
considerada de maior importância, trazendo-a para o início do texto, sobretudo, para a
manchete, o que não acontece recorrentemente em outros gêneros.
Retomamos essa característica da notícia quando tratarmos do funcionamento social
da webnotícia, no capítulo 6, em que analisamos o gênero sob a perspectiva da Sociorretórica.
Por ora, analisamos a reordenação de informações em casos de notícias retextualizadas a
partir de textos-fontes que participam de outros gêneros. O Quadro 22 mostra o trecho de uma
notícia fundamentada sobre um depoimento policial:
Quadro 22: Trecho de notícia e de texto-fonte: reordenação de informações
TRECHO DE NOTÍCIA
Menor diz em depoimento que ossos de
Eliza Samudio foram concretados
Jovem disse que ouviu goleiro pedir para 'resolverem
TRECHO DEPOIMENTO POLICIAL
[...] Que o declarante ouviu BRUNO dizer para
MACARRÃO e SÉRGIO que era para eles
resolverem o problema [...]
Que o declarante, MACARRÃO e SÉRGIO viram no
181
o problema'. Ele disse ter visto mão de ex-namorada
de Bruno ser jogada a cães.
momento em que NENÉM retirou a mão de ELIZA e
arremessou para dentro do canil (...)
[...] o restante dos ossos havia concretado no mesmo
terreno onde ELIZA foi morta.
Fontes: notícia: http://g1.globo.com/brasil/noticia/2010/07/menor-diz-em-depoimento-que-ossos-de-elizaforam-concretados-em-sitio.html (Acesso em: 15 out. 2010).
Depoimento policial: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/763603-veja-integra-do-depoimento-doprimo-do-goleiro-bruno.shtml (Acesso em: 15 out. 2010).
As informações destacadas na manchete e no subtítulo da notícia, que aparecem no
Quadro 22, têm por base as informações de um depoimento policial, que descreve a trajetória
de um suposto crime. No depoimento, as informações aparecem seguindo a ordem
cronológica dos acontecimentos, que são contados em detalhes. Logo, o trecho do depoimento
em que se conta sobre o que foi feito dos ossos da vítima, por exemplo, aparece já no final da
narrativa, haja vista que até o desfecho da história, o ocultamento do cadáver, desdobrou-se
uma série de acontecimentos. A mesma informação, no entanto, é destacada na manchete da
notícia em questão: “Menor diz em depoimento que ossos de Eliza Samudio foram
concretados”.
Mesmo que no corpo da notícia as informações apresentadas na manchete e subtítulo
sejam resgatadas somente mais para o final do texto, o leitor já é informado desde o início
sobre o que vai acontecer, estratégia utilizada com a finalidade de despertar a atenção da
audiência para a leitura da notícia. Por outro lado, se o leitor não fizer a leitura do corpo da
notícia, somente pela manchete e subtítulo tem acesso ao “conteúdo mais importante” da
mesma.
O caso mais recorrente de reorganização de informações, na notícia, é o de
normalmente se trazer a informação mais importante ou mais impactante para a manchete e,
às vezes, para o subtítulo. Estes, tradicionalmente, costumam destacar as informações
julgadas como capazes de despertar mais a atenção do público-leitor, e que, portanto, são
consideradas de maior valor informativo.
Na seção 1.2, quando tratamos sobre a estrutura na notícia, falamos sobre o critério
de relevância do jornalismo, com base em autores do jornalismo e em Van Dijk (1990
[1988]), que chama tal critério de ordenamento por relevância. Já na seção 1.4, em que
discutimos os processamentos dos textos-fonte, também afirmamos, segundo Van Dijk (1990
182
[1988]), que a estratégia de permutação ou de reordenação acontece na notícia tendo em vista
o critério de relevância, que obedece a um esquema canônico do jornalismo e permite com
que a informação mais importante seja movida para cima, e que a informação menos
importante seja movida para baixo.
O estabelecimento de que uma determinada informação é mais importante e deve
aparecer primeiro, em detrimento de outras consideradas de menor valor informativo, é feito
pelo jornalista e/ou pela instituição jornalística, que é formada por pessoas. Logo, a escolha
do que seja mais ou menos importante é subjetiva. Sabemos que tanto os jornalistas como a
instituição jornalística visam a um público numeroso e diversificado, e, nesse sentido
trabalham para atrair a atenção desse público, desenvolvendo estratégias para atender a esse
propósito.
Logo, assim como existe um critério de relevância dentro do texto noticioso, acerca
do que seja mais e menos importante, para aparecer ou não primeiro, existe um critério de
relevância sobre o que deve ou não ser matéria de notícia, bem como sobre qual ângulo o
evento será abordado. No Quadro 23, temos um trecho de notícia fundamentada numa
postagem feita na página pessoal, da rede social Facebook, do cantor Tico Santa Cruz, na qual
o cantor faz um relato sobre a situação de estradas do estado do Piauí:
Quadro 23: Trecho de notícia: reordenação e estrutura de relevância da informação 1
TRECHO DE NOTÍCIA
Tico Santa Cruz presencia acidente em rodovia do PI e faz relato no Facebook
O vocalista alertou para a grande quantidade de animais na pista e o atendimento precário da polícia
O vocalista da banda Detonautas, Tico Santa Cruz, fez um relato em seu perfil no Facebook, na madrugada de
hoje (22), depois de presenciar um acidente na BR-343, quando se deslocava de Teresina com destino ao litoral
piauiense, onde fará um show na noite de hoje (22) na cidade de Parnaíba. Ele criticou o atendimento precário
dos serviços de emergência e os riscos gerados pelos animais nas pistas piauienses, realidade já conhecida por
quem trafega pelas rodovias. [...]
Fonte:
www.portalodia.com/noticias/policia/tico-santa-cruz-presencia-acidente-em-rodovia-do-pi-e-fazrelato-no-facebook-165681.html (Acesso em: 22 fev. 2013).
A notícia é sobre o fato de o vocalista ter postado em sua página pessoal do
Facebook um relato sobre sua experiência de presenciar um acidente. Vejamos que o acidente
ocorrido numa rodovia federal, devido à existência de um animal de grande porte na pista –
183
que revela a existência de outros animais, que podem provocar outros acidentes graves – não
é o foco principal da notícia. Essas informações aparecem como decorrentes da informação
julgada como principal, que é o fato de o vocalista de uma banda de música de sucesso ter
presenciado o acidente e ter relatado em uma rede social tanto o acidente como a existência de
muitos animais na pista e, ainda, o atendimento de urgência precário do estado do Piauí para o
resgate de vítimas.
Na estrutura de relevância de Van Dijk (1990 [1988]), o que é estabelecido como
mais importante faz parte de uma escolha feita pelo jornalista ou pela instituição jornalística
do que seja mais importante ou considerado de maior valor informativo, conforme já
dissemos. A notícia apresentada no Quadro 23 trata de um problema grave que acontece nas
rodovias do Piauí, mas para atrair a atenção da audiência, o retor coloca em destaque o artista,
daí a retextualização: a notícia a partir do relato pessoal.
O acidente que aconteceu em decorrência dos animais, os problemas causados pelos
animais na pista e a precariedade no resgate de vítimas de acidentes em rodovias são
mostrados como informações secundárias. O que é considerado de maior valor informativo é
o fato de o “Tico Santa Cruz presencia[r o] acidente em rodovia do PI e faz[er] relato no
Facebook”, alertando “para a grande quantidade de animais na pista e o atendimento precário
da polícia”.
No Quadro 24, temos um trecho de notícia publicada em outro portal jornalístico
sobre o mesmo evento:
Quadro 24: Trecho de notícia: reordenação e estrutura de relevância da informação 2
TRECHO DE NOTÍCIA
Tico Santa Cruz desabafa sobre estrada do Piauí no Facebook
O cantor Tico Santa Cruz, que está no Piauí para uma série de shows, fez um alerta em seu Facebook para os
perigos e condições de atendimento policial na BR 343, onde seguia durante a noite desta quinta-feira (22), com
destino a Parnaíba. Segundo o relato, Tico presenciou um acidente envolvendo outro veículo, que fez uma
ultrapassagem e acabou batendo em uma árvore ao desviar de um cavalo que estava na pista.
Fonte: www.cidadeverde.com/tico-santa-cruz-desabafa-e-faz-alerta-sobre-estrada-do-piaui-no-facebook125906 (Acesso em: 22 fev. 2013).
Como no trecho de notícia apresentado no Quadro 24, mais uma vez é colocada em
evidência a informação mais diretamente relacionada ao cantor, o fato de ele ter relatado uma
184
experiência sua no Piauí em uma rede social. Os demais temas que destacamos anteriormente
também aparecem nessa outra notícia, mas também como informações secundárias. No caso
da notícia apresentada no Quadro 24 (ver na íntegra em anexo 1) há, ainda, a utilização de
outras fontes, além da postagem feita pelo cantor, como o depoimento do assessor de
Comunicação Social da Polícia Militar do Piauí, reagindo à denuncia feita, que aparece no
último parágrafo.
Importante considerar que a estratégia de reordenação, seguindo o parâmetro do
discurso noticioso, além de destacar a informação considerada de maior relevância na
manchete, sumariza o conteúdo da notícia no lide, o que também pode ser visto como uma
reordenação. No Quadro 25, ilustramos nossa afirmação com dois exemplos de lide:
Quadro 25: Trechos de notícias: estratégia de reordenação no lide
TRECHOS DE NOTÍCIAS
Jovem violentada por 12 anos denuncia caso pelas redes sociais; acusados são ouvidos
A jovem F. de A. S., 23 anos, resolveu denunciar pelas redes sociais, a suposta violência sexual cometida pelo
padrasto e o pai em São José do Divino e Piracuruca (respectivamente). A vítima relata que os abusos
aconteceram durante 12 anos e reclama da morosidade da Justiça para punir os prováveis culpados. [...]
Paródia de Dilma ameaça 'suicídio digital' após frase apagada pelo Facebook
Paródia virtual da presidente Dilma Rousseff, o perfil "Dilma Bolada", famoso nas redes sociais, pode sair do
ar. O motivo, segundo nota divulgada nesta quarta-feira (29), é uma suposta censura que o perfil sofreu no
Facebook ao ter uma postagem apagada. [...]
Fontes: 1 www.cidadeverde.com/piracuruca/index.php (Acesso em: 22 mai. 2013).
2
www1.folha.uol.com.br/poder/2013/05/1286687-parodia-de-dilma-ameaca-suicidio-digital-apos-fraseapagada-pelo-facebook.shtml (Acesso em: 29 mai. 2013).
No primeiro caso apresentado no Quadro 25, a informação de maior relevância é
destacada na manchete “Jovem violentada por 12 anos denuncia caso pelas redes sociais”, de
modo que a denúncia é feita pelas postagens feitas numa rede social sobre as quais a notícia se
fundamenta principalmente. No primeiro parágrafo, que constitui o lide, o sujeito organiza as
informações principais da história, que desenvolvem a informação apresentada na manchete, e
contextualizam a notícia. A Figura 8 é uma captura de tela feita pelo próprio portal
jornalístico com uma das postagens retextualizadas na notícia:
185
Figura 8: Postagem feita em rede social tomada como fonte principal para webnotícia
Fonte: www.cidadeverde.com/piracuruca/index.php (Acesso em: 22 mai. 2013, grifos nossos).
As informações apresentadas no lide da notícia aparecem ao longo da narrativa feita
na postagem, como as pessoas envolvidas, o lugar e o tempo em que aconteceram os fatos.
Vemos uma reordenação da ordem das informações no texto-base e na notícia. Esta antecipa
as informações principais, e, em seguida, apresenta os desdobramentos dessas informações, de
modo que a postagem conta a história, considerando a ordem dos acontecimentos.
O segundo caso apresentado no Quadro 25 mostra manchete e lide de uma notícia
fundamentada em uma nota de esclarecimento. Como no primeiro caso, as informações que
aparecem no lide contextualizam a informação principal destacada na manchete, também
evidenciando uma reordenação das informações do texto-base. Reproduzimos, em seguida,
um trecho da nota:
186
NOTA DE ESCLARECIMENTO:
Queridos internautas e queridas internautas, venho por meio deste esclarecer um
episódio que ocorreu no último sábado à noite.
Infelizmente é um assunto desagradável que de antemão peço desculpas a todos por
ter que abordá-lo. Pois então, no último sábado à noite, enquanto assistia à novela, vi
algumas inserções comerciais de Aécio no intervalo comercial. No twitter, recebi o
link de um seguidor de uma matéria da Revista Fórum que dizia que o cidadão é
RÉU de um processo por improbidade administrativa. Achei curioso e resolvi fazer
um post aqui no Facebook, mas antes, como de costume, fui checar se a citada
notícia havia sido veiculada em algum lugar, e encontrei no portal Fala MG e no
Bahia Notícias.
Pois bem, então fiz o post por volta das 10 da noite no sábado, euzinha mantive a
linha de sempre, falei que não levava desaforo pra casa e chamei Never de piadista.
A reação foi imediata: o post teve mais de 1300 likes em 10 minutos e 600
compartilhamentos (números surpreendentes para um sábado à noite), as reações
contrárias também foram muitas, estas inclusive me fizeram, naquele momento, não
retomar ao assunto pois sempre levo em consideração a percepção de vocês. Mas
para a supresa de todos, cerca de 3 horas depois, o post foi APAGADO! [...]
Diante de tudo o que foi dito, hoje vou tirar o dia para refletir e tomar a decisão
se continuamos ou não juntos aqui. Por isso, vou analisar todos os pontos e hoje às
20h, eu farei uma nota oficial aqui na página para anunciar se eu, Dilma Bolada, fico
ou se vou. Enfim, tenham certeza que tomarei a melhor decisão para todos nós e
peço que entendam e me apóiem independente de qual seja. [...].
Fonte: www1.folha.uol.com.br/poder/2013/05/1286687-parodia-de-dilma-ameacasuicidio-digital-apos-frase-apagada-pelo-facebook.shtml (Acesso em: 29 mai. 2013,
grifos nossos).
A nota na qual a notícia está fundamentada narra detalhadamente e em ordem
cronológica o que aconteceu até que o sujeito pensasse em “cometer suicídio digital”,
conforme interpretação que aparece na notícia, que substitui através dessa expressão a
informação da nota “vou tirar o dia para refletir e tomar a decisão se continuamos ou não
juntos aqui”. Reproduzimos aqui apenas um trecho da nota, mas essa informação já aparece
no final do texto, que é longo (ver nota, na íntegra, em anexo 1).
A partir das análises dos casos de reordenação, vimos que essa estratégia acontece
em decorrência do que normalmente se faz com o gênero notícia, que é antecipar a
informação principal, trazendo-a para a manchete e contextualizando-a no lide. Porém, a
decisão da informação principal que deve ser destacada é do sujeito que articula a notícia. Em
todo caso, vemos que a estratégia de reordenação, assim como as de eliminação, acréscimo,
substituição, analisadas neste capítulo 5, mostram que, no processo de retextualização entre
gêneros escritos, a transformação acontece mais em relação ao processamento da informação
187
para adaptação ao gênero, haja vista que tanto o texto-base quanto o retextualizado
permanecem na mesma modalidade da língua, a escrita.
Na seção 5.2, sistematizamos mais claramente os resultados a que chegamos com a
análise dessas estratégias.
5.2 Processamento da informação na webnotícia e retextualização: sistematização dos
resultados preliminares
Pelo que analisamos nas subseções 5.1.1, 5.1.2, 5.1.3 e 5.1.4, sobre estratégias
utilizadas na retextualização de notícias publicadas em portais jornalísticos na internet,
chegamos a alguns resultados preliminares, que serão fundamentais para nossas considerações
apresentadas no capítulo 6 desta Tese. Esses resultados são provenientes da análise textual do
processamento da informação, na comparação feita entre textos, o que serviu de fonte
principal e a notícia. O estudo desse processamento de informação aconteceu a partir da
análise de estratégias de retextualização utilizadas na construção de notícias.
As estratégias analisadas foram a eliminação, o acréscimo, a substituição e a
reordenação. Embora realizando a análise sociorretórica do gênero somente no capítulo 6,
pela análise das estratégias de retextualização supracitadas, já vimos que a diversidade de
usos dos textos-fonte na webnotícia acontece, principalmente, para atender às características
funcionais do gênero.
Quanto à estratégia de eliminação, o que acontece mais comumente está direcionado
à regra do jornalismo de reduzir o volume de linguagem, através do resumo da informação
presente na fonte da notícia, em que se aproveita somente o que é considerado de maior
relevância. Nesse sentido, o estabelecimento do que seja de “maior relevância” é feito a partir
do que pode causar maior impacto na sociedade, porque é de extrema importância que a
notícia atraia a atenção dos leitores.
Juntamente com a eliminação de informações julgadas como desnecessárias, existe a
eliminação de expressões ou palavras técnicas que visam à simplificação. Nesse caso, é
188
mantido o fundamento básico e inteligível da informação, e que pode ser entendido por
pessoas de diferentes classes sociais e graus de escolaridade, por exemplo, e eliminadas
palavras e expressões mais específicas de uma área do conhecimento que requerem, por
exemplo, um saber especializado.
Quanto à estratégia de acréscimo, um dos principais fatores depreendidos a partir da
análise de dados é que existe o acréscimo de informações que compõem, principalmente, o
lide da notícia e que dão precisão ao fato noticiado. Isso acontece, segundo o que já
destacamos, com base em Van Dijk (1990 [1988]), com a utilização de “figuras de precisão”,
como a indicação de nomes próprios, papeis sociais, nomes de lugares, datas e horários
específicos, que dão ao discurso jornalístico um efeito de verdade, a partir da suposta
apresentação precisa dos fatos.
Outra característica é o acréscimo de palavras ou expressões que avaliam o fato ou às
pessoas envolvidas neste, e que acontece, mais recorrentemente, acoplado a outras estratégias
de retextualização, sobretudo, a de substituição. Já o acréscimo de informações oriundas de
outros textos que não sejam o texto-fonte principal é utilizado para a complementação do que
se diz. Essa informação pode aparecer com ou sem indicação da fonte, de modo que essa
indicação costuma aparecer quando se trata de uma fonte idônea, como uma declaração ou um
esclarecimento público de uma instituição ou autoridade competente.
A estratégia de substituição foi a que mostrou mais resultados depois das análises.
Isso porque a substituição lexical de uma expressão por outra, na notícia, pode alterar o valor
da informação veiculada no texto-fonte. Às vezes, a substituição se apoia num suposto
conhecimento já divulgado e difundido socialmente sobre um determinado fato, o que
autoriza o aparecimento de uma expressão no lugar de outra sem que haja um estranhamento
por parte dos leitores. No caso que analisamos de substituição da expressão “um funcionário”
por “o amigo”, apresentada no Quadro 17, vimos que existia uma avaliação implícita sobre o
acontecimento noticiado.
Outro caso de substituição é a “adaptação”, que pode ser necessária de acordo com o
texto-fonte principal da notícia. Como é característica desse gênero a utilização de um estilo
de linguagem de acordo com a norma padrão da língua, há a substituição de expressões, por
189
exemplo, escritas de modo coloquial, para outras “equivalentes” na variedade padrão. Por
outro lado, existe a substituição para adaptação a um “estilo de linguagem simples”, com
substituição de termos ou expressões técnicas em detrimento de palavras ou expressões que
possam ser compreensíveis e, desta forma, entendidas por todos.
Outro caso analisado nessa estratégia foi a substituição para dar “destaque ao papel
social” mais relevante do indivíduo tratado na notícia, o que justifica, inclusive, a relevância
social daquela notícia. Como analisamos, a “mesma” informação aparecendo em gêneros
diferentes, o papel social que identifica uma pessoa envolvida num evento e que é relevante
para a ação social realizada a partir de um gênero pode não ser em outra. A notícia, por
exemplo, pode destacar o indivíduo a partir do que considera como mais representativo e que,
portanto, tem relevância e alguma importância para a sociedade, como “o prefeito”, “o
governador”, “o desembargador”, “o goleiro do Flamengo” etc.
O último caso de substituição que destacamos é acerca da criação do efeito de
distanciamento do locutor sobre o que noticia. Para isso, são feitas adaptações na
transformação da informação presente no texto-fonte, para que a mesma apareça na notícia
sempre sendo tratada de forma “impessoal”, em 3ª pessoa, dando ao discurso um efeito
retórico de objetividade na apresentação dos fatos.
A quarta e última estratégia analisada foi a reorganização tópica da informação,
que, como já dissemos, na notícia, acontece pelo destaque que é dado à informação julgada
como principal ou de maior importância. Isso está relacionado ao que conhecemos como
critério de relevância no jornalismo, onde as informações mais importantes aparecem
primeiro, normalmente seguindo numa sequência decrescente de relevância ao longo do texto.
No entanto, como vimos, o que é considerado de maior importância é julgado pelo impacto
social que a informação pode ter ao ser divulgada, no sentido de atrair a atenção de um grande
número de leitores.
Isso acontece pelo destaque da informação considerada de maior relevância logo na
manchete da notícia. Essa informação, normalmente, é contextualizada já no primeiro
parágrafo, em que o lide apresenta resumidamente os principais dados em relação ao evento
ou fato tratado. Numa comparação com os textos-fonte, vemos claramente uma alteração na
190
ordem das informações, que são reorganizadas na notícia para atenderem a um dos objetivos
da nova situação comunicativa, cujas “mesmas” informações aparecem para a realização de
novos propósitos comunicativos.
Vemos, no Quadro 26, uma sistematização dos principais resultados a que chegamos
a partir do que foi analisado até aqui:
Quadro 26: Sistematização dos resultados da análise das estratégias de retextualização na webnotícia
ESTRATÉGIAS DE RETEXTUALIZAÇÃO NA WEBNOTÍCIA
- redução do volume de linguagem, com supressão de informações
Eliminação
julgadas desnecessárias;
- simplificação da informação, com supressão de palavras ou expressões
técnicas.
- indicação de “figuras de precisão”, como espaço, tempo, nomes
Acréscimo
próprios etc.;
- avaliações, julgamentos e/ou pontos de vista;
- informações de outros textos-fonte, com e sem identificação de autoria.
- mudança no valor da informação do texto-fonte;
Substituição
- adaptação à norma padrão;
- uso de expressões de conhecimento geral para simplificação do
conteúdo;
- destaque no papel social de maior relevância do indivíduo;
- efeito de distanciamento, com o uso da 3ª pessoa.
Reorganização - critério de relevância do jornalismo, com destaque na “informação
principal”.
Pelos resultados das análises das estratégias apresentados no Quadro 26, entendemos
que a palavra que define o processo de retextualização na webnotícia é, de fato,
transformação, mas a transformação para adaptação. Na Figura 9, visualizamos essa nossa
afirmação, a fim de ratificarmos o papel preponderante do gênero nesse processo de
adaptação de informação, no sentido de que a “mesma informação”, aparecendo no textofonte e no retextualizado, é apresentada de forma diferente porque está vinculada à realização
de propósitos comunicativos específicos do gênero:
191
Figura 9: Processo de retextualização na webnotícia
Para alcançar o seu objetivo com a comunicação, o sujeito escolhe um gênero que
recorrentemente é utilizado para atender a objetivos ou propósitos similares. Na construção da
notícia, que normalmente se baseia em outros textos-fonte, as informações são processadas,
como vimos neste capítulo 5, sendo que esse processamento está relacionado às características
formais e estilísticas do gênero. Daí a necessidade de complementação da análise das
estratégias de retextualização, que é de âmbito textual, com a análise do gênero em questão, a
notícia. Isso mostrará resultados acerca da produção de textos, mas de textos que participam
de gêneros.
Cada gênero possui regularidades que podem estar diretamente relacionadas ao
propósito ou objetivo da comunicação. Logo, mudanças que percebemos entre a apresentação
de uma “mesma” informação em textos que participam de gêneros diferentes podem ser
melhor explicadas se atentarmos para isto: que os gêneros são diferentes porque realizam
ações retóricas diferentes. Nesse caso, a informação é transformada para atender tanto à
intenção individual do sujeito como ao propósito comunicativo do gênero escolhido.
192
Nesse sentido é que propomos o capítulo 6, no qual fazemos uma análise
sociorretórica da webnotícia e explicamos mais detalhadamente as transformações que
acontecem na passagem da informação do texto-fonte para esse gênero. Assim, entenderemos
o processo de construção da webnotícia, em que o sujeito se apropria de informações de um
ou mais textos-fonte, do ponto de vista do funcionamento social do gênero.
193
6. O PROCESSAMENTO DA INFORMAÇÃO NA WEBNOTÍCIA A
PARTIR DE UMA ANÁLISE SOCIORRETÓRICA DO GÊNERO
No capítulo 5, fizemos uma análise das estratégias de eliminação, acréscimo,
substituição e reordenação que caracterizam a retextualização no processo e construção da
webnotícia, na seção 5.1 e subseções, com base nos modelos propostos por Van Dijk (1990
[1988]) e Marcuschi (2010 [1993; 2000]), e no modelo adaptado por Gomes (1995). Vimos
que, na webnotícia, o processo de retextualização está relacionado ao propósito do sujeito
com a comunicação, que interage socialmente por meio da linguagem. Isso significa que tal
processo está intimamente relacionado ao funcionamento do gênero em sociedade. Logo, a
transformação para adaptação, que define tal processo, acontece tanto em decorrência do
projeto de dizer do sujeito como por condicionamentos e especificidades da webnotícia.
Neste capítulo, realizamos uma análise da webnotícia sob a perspectiva da
sociorretórica, que vê o gênero como uma “ação retórica tipificada fundada em situações
recorrentes” (MILLER, 2009 [1984], p. 34). Assim, nossa análise aqui se fundamenta,
basicamente, nos pressupostos teóricos básicos da Sociorretórica propostos por Miller (2009
[1984]) e desenvolvidos por Devitt (2004) e Bazerman (2005), bem como em Swales (1990),
Askehave e Swales (2009) e Bhatia (1993; 2009 [1997]). Analisamos, na seção 6.1, a fusão
entre forma e substância na webnotícia, a fim de explicar a transformação da informação em
relação ao texto-fonte condicionada pela tipificação do gênero, na subseção 6.1.1, analisamos
o processamento da informação relacionado aos condicionamentos da forma do gênero, que
mostra o processo de fusão entre forma e substância, e, na subseção 6.1.2, analisamos a
reprodução total ou parcial dos textos-fonte, que é uma prática recorrente de portais
jornalísticos, e denunciam uma característica importante na composição formal e substantiva
da webnotícia. Já, na seção 6.2, analisamos a situação retórica recorrente da webnotícia,
considerando o meio de veiculação do gênero, a internet, e o suporte de fixação do mesmo, o
portal jornalístico. Em 6.3, analisamos, respectivamente, a ação social tipificada realizada
através da webnotícia, na subseção 6.3.1, e o propósito comunicativo decorrente dessa ação,
na subseção 6.3.2. Em 6.4, analisamos o conhecimento empírico do usuário experiente da
webnotícia, através da análise de dados obtidos por questionário respondido por jornalistas
194
vinculados a portais. Em 6.5, discutimos os resultados da análise sociorretórica que fazemos
neste capítulo com os resultados obtidos pela análise das estratégias de retextualização, feita
no capítulo 5, elencando os resultados finais deste trabalho acerca do processamento da
informação na webnotícia.
6.1 A fusão forma e substância na construção da webnotícia
Discutimos, na subseção 3.2.3, do capítulo 3, sobre forma e substância dos gêneros,
com base em Miller (2009 [1984]). Vimos que o gênero deve ser caracterizado, sobretudo,
pela ação social que realiza, porque a sua natureza é mais pragmática e retórica do que formal.
Nesse sentido, ao mesmo tempo em que respondem às demandas sociais percebidas pelos
sujeitos, os gêneros são acrescidos dos efeitos particulares gerados pelas situações sociais
específicas das quais fazem parte. Por outro lado, embora sejam caracterizados pela ação que
realizam, os gêneros também possuem características formais.
Miller propõe que a forma e a substância dos gêneros sejam entendidas como o
resultado de uma fusão, de modo que não funcionam separadamente e são fundidas
justamente para colaborar com a ação social a ser realizada através do gênero a partir de uma
situação retórica recorrente. Enquanto analistas, separamos a forma e a substância dos gêneros
apenas para fins didáticos, uma vez que lidamos com categorias que precisam ser estudadas,
inclusive, separadas umas das outras, para que expliquemos o papel e o funcionamento de
cada uma.
Do ponto de vista formal, o gênero notícia possui uma relativa estabilidade,
apresentando, em sua composição, elementos estruturais que são facilmente reconhecidos
pelos usuários. Mesmo sendo produzida para circular especialmente na internet, a webnotícia
mantém as principais características formais que normalmente identificam, no sentido geral, o
gênero notícia. Quando Van Dijk (1990 [1988]) discute a superestrutura da notícia, como
vimos, na seção 1.2, do capítulo 1, o teórico afirma que a estrutura do discurso noticioso é
composta por várias categorias, como o resumo, que pode ser composto por título/manchete e
195
cabeçalho e, ainda, sobretítulo e subtítulo, o episódio, com os acontecimentos principais e os
antecedentes, as consequências, as reações verbais e os comentários. Segundo o autor, tanto
os jornalistas como os leitores utilizam esquemas como esses na produção e na compreensão
da notícia, de modo que uma mesma categoria pode desempenhar mais de uma função.
Porém, todas essas características não estão presentes em todas as notícias, mas todas as
notícias apresentam, pelo menos implicitamente, algumas delas, que são determinantes para
que reconheçamos o gênero.
Pensemos a categoria título ou manchete, por exemplo. Sabemos que a manchete
compreende uma característica fundamental da notícia, ao ponto de não pensarmos esse
gênero sem ela. Ou seja, todas as notícias jornalísticas apresentam manchetes, mas nem todas
apresentam reações verbais e comentários, por exemplo. No Quadro 27, destacamos duas
notícias publicadas em portais jornalísticos, que, do ponto de vista estrutural, são bastante
diferentes entre si:
Quadro 27: Notícias diferentes sobre o mesmo evento social e fundamentadas no mesmo texto-fonte
NOTÍCIA
Portal da Clube tem acesso à carta encontrada
na Irmão Guido; Confira!
NOTÍCIA
Carta encontrada em presídio ordena rebelião
geral; Leia aqui
Para justificar a ação, a "rapaziada do PV. C" cita a
Penitenciaria Fontes Ibiapina, em Parnaíba, como
"modelo" de unidade prisional do ponto de vista dos
presidiários
IRMÃO GUIDO: Sinpoljuspi alerta que os agentes
seriam usados como reféns na ação e pede medidas
urgentes.
Atualizada às 18h44
O Portal da Clube teve acesso à carta interceptada
durante vistoria de rotina na Penitenciária Regional
Irmão Guido, na zona rural de Teresina. Na carta
assinada pela “Rapaziada do PV. C” – uma provável
referência a Pavilhão C -, o remetente fala em
“quebrar o Pavilhão B” para conseguir regalias, como
televisão, som e ventilador.
Para justificar a ação, a “rapaziada do PV. C” cita a
Penitenciaria Mista Juiz Fontes Ibiapina, localizada
em Parnaíba, como “modelo” de unidade prisional do
ponto de vista dos presidiários.
Ao contrário do divulgado mais cedo, a carta
interceptada na Irmão Guido não determina o
assassinato de agentes penitenciários. Em um
determinado momento, o remetente diz que o objetivo
não é matar, mas se proteger.
O Cidadeverde.com teve acesso a uma cópia da carta,
reproduzida abaixo. As observações em parênteses são
da redação do portal, para melhor compreensão do
leitor.
"Salve rapaziada do anex 2 (anexo 2 - triagem). Aqui
e a rapazeada PVC (pavilhão C) e o seguinte nós já
conversamo com a rapaziada do B e do PVD
(Pavilhão D). Pois a rapaziada apoiou a gente vai
começar aqui no PV.C então nos vamos quebrar o
PVB (pavilhão B). E o nosso objetivo e pedir nossa
regalia que nos tem direito e modar a direção do
sistema pois a rapaziada lá da custodia entrou em
contato com nos e disse que eles conseguiram tirar o
Wilsin (vice-diretor da Casa de Custódia e chefe do
grupo de vistoria) e assim so nos se unir que nos
vamos conseguir nosso objetivo e só nossa melhoria
pois a maioria dos irmão aqui centenciados porque so
196
No fim da carta, o remetente faz a sua única referência
a um preso específico. Trata-se de Júnior, mas a carta
não permite identificar com certeza quem ele é.
nos não tem direito pois em Parnaíba os caras tem
direito a TV e ventiladores e som pois nos so vamos
conseguir se nos quebrar esta porra não e para gerrar
morte mas para nossa segurança nós vamos quebrar o
Confira a carta na íntegra clicando AQUI!
PV.A (pavilhão A). E o especial é aí vocês sabe que aí
no anex 1 (triagem) também tem us caras que não
serve que trabalham para a polícia agora vocês ficam
na ativa nos só vamos esperar resposta do SP (seria
uma resposta de São Paulo). Dependendo do que os
irmão decidirem, nós começamos o bagulho e vamos
sustenta para chamar a atençao da emprensa e das
autoridades nós vamos mandar as responsas para
vocês e depois da visita tem tudo para dar certo.
Virmeza ladrões. Fiquem na paz de um alo no Júnior e
no resto da rapaziada. Ass: A rapaziada do PV.C"
Fonte (notícia à esquerda): http://portaldaclube.profissional.ws/portal-da-clube-tem-acesso-a-cartaencontrada-na-irmao-guido-confira.html (Acesso em: 22 out. 2012).
Fonte (notícia à direita): http://www.cidadeverde.com/carta-encontrada-em-presidio-ordena-rebeliaogeral-leia-aqui-116092 (Acesso em: 22 out. 2012).
No caso mostrado a esquerda do Quadro 27, temos uma webnotícia composta por
manchete, subtítulo, lide e episódio, apresentando ainda, ao final, a opção de o internauta
acessar a “carta” sobre a qual trata a notícia a partir de um link, “Confira a carta na íntegra
clicando AQUI!”. Já no caso à direita do Quadro, temos uma webnotícia composta por uma
manchete, um subtítulo e um lide que informa sobre a condição do portal de ter tido acesso a
carta e instrui o internauta para a leitura da mesma na sequência, que, na prática, funciona
como corpo da notícia, ou seja, a porção textual que desenvolve a informação divulgada na
manchete. Nos dois casos, são notícias de portais jornalísticos diferentes, mas que tratam do
mesmo evento, a interceptação de uma carta em um presídio de Teresina, no estado do Piauí.
O primeiro caso atende mais à estrutura canônica da notícia, mas o segundo não.
Todavia, ambos os textos participam desse gênero e apresentam características que o
identificam, como uma manchete, destacando a informação principal, subtítulo e lide.
Importante perceber que, em ambos os casos, o texto-fonte é disponibilizado para leitura,
através de link em um caso e como parte da notícia no outro. Dessa forma, a função
desempenhada pelo texto-fonte nos dois casos não é mais a da “carta” interceptada no
presídio, gênero que o texto-fonte da webnotícia participa.
No caso mostrado à direita do Quadro, por exemplo, a carta aparece como corpo da
webnotícia, sendo que as informações contidas ali, bem como os acréscimos feitos ao longo
do conteúdo, transformam o texto-fonte para que o leitor tenha acesso às informações já
197
tratadas. Além de acrescentar informações que explicam o conteúdo da carta, o retor ainda
digita todo o conteúdo, facilitando assim a leitura para a audiência. No caso mostrado à
esquerda do Quadro, a fonte é disponibilizada através de link, que dá acesso a uma imagem do
texto, que é originalmente manuscrito, e o corpo da webnotícia retextualiza o conteúdo da
carta, compondo a base das informações noticiadas.
Pelos dois casos mostrados no Quadro 27, vemos que a webnotícia, ao mesmo tempo
em que inova, mantém as estruturas formais tipificadas para o gênero notícia. Interessante
notar que as inovações estão relacionadas ao meio em que o gênero circula, que dá a
possibilidade tecnológica de inserir o link para uma imagem, num caso, e a liberdade de o
jornalista apresentar a própria a carta, com poucos acréscimos informativos, compondo o
corpo da notícia, no outro. Em ambas as situações, temos estruturas bastante diversas, mas
também formas recorrentes, que permitem que reconheçamos e classifiquemos os dois textos
como exemplares do gênero notícia.
Conforme vimos, quando tratamos de forma e substância, na subseção 3.2.3, do
capítulo 3, os gêneros ou os conjuntos de gêneros constituem uma classe aberta, onde
membros novos evoluem e velhos membros decaem, a depender do uso que é feito deles,
segundo Miller (2009 [1984]). Não podemos afirmar que a webnotícia evoluiu em relação à
notícia impressa, sendo esta um membro decadente e aquela um membro novo do conjunto de
gêneros jornalísticos. A webnotícia não é, ainda, um novo gênero, muito embora apresente
particularidades acerca do seu funcionamento social (como veremos nesta e nas próximas
seções e subseções deste capítulo 6), mas um tipo de notícia produzida especialmente para
circular num meio específico, a internet, que lhe dá possibilidades que o papel não dá ou que
dá de outra forma, para as notícias do jornal impresso, por exemplo.
As Figuras 10 e 11 mostram uma página de portal jornalístico com uma das
webnotícias que constituem o corpus deste trabalho:
198
Figura 10: Página de portal jornalístico com notícia publicada com texto-fonte na íntegra (primeira parte)
199
Figura 11: Página de portal jornalístico com notícia publicada com texto-fonte na íntegra (segunda parte)
Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/05/1286687-parodia-de-dilma-ameaca-suicidio-digitalapos-frase-apagada-pelo-facebook.shtml (Captura de tela feita em: 22 mai. 2014).
200
A partir do que nos mostram as Figuras 10 e 11, vemos que o texto noticioso em
questão é construído basicamente pela retextualização do texto-fonte principal, que também é
reproduzido na íntegra, na sequência. A reprodução total do texto fonte, portanto, é um
recurso que pode ser utilizado na construção da webnotícia e que é possibilitado pelo meio no
qual esse gênero circula, a internet. A notícia em si é formada pela composição textual do
retor, com base na nota, e ainda pela nota, que já é utilizada em função da notícia, que a
divulga publicamente. A inserção da nota, na íntegra, é uma condição do portal jornalístico,
uma vez que a limitação de espaço não é um fator relevante na produção da webnotícia.
Além da possibilidade de mais espaço para publicação e de o texto ser atualizado
constantemente ou sempre que necessário, mais notícias podem ser publicadas nos portais. Ou
seja, a internet dá a possibilidade de mais fatos e situações terem valor de notícia e alguma
relevância para serem divulgados publicamente. Nas Figuras 10 e 11, temos a divulgação,
através de uma notícia, de uma nota escrita por um responsável de um perfil fake famoso no
Facebook (“Dilma Bolada”), questionando o fato de uma postagem sua ter sido retirada ou
apagada da sua página naquela rede social, sendo que o portal jornalístico responsável por
essa notícia está ligado a um dos jornais impressos mais representativos da imprensa nacional,
a Folha de São Paulo.
Embora seja aparentemente irrelevante, a informação divulgada atende tanto ao
propósito comunicativo do gênero como a intenções individuais e particulares, mas o mais
importante de considerarmos nesta seção é o amplo espaço concedido no portal para essa
notícia. A imagem da página da internet teve que ser recortada ao meio para que coubesse em
duas páginas deste trabalho. Noutro suporte fora da internet, como, por exemplo, um jornal
impresso, dificilmente todo esse espaço físico fosse disponibilizado para essa notícia, ainda
que se tratasse da mesma instituição jornalística.
Muito embora o espaço físico não seja mais um fator representativo na produção de
webnotícias, não há dados que mostrem que os textos, consequentemente, tendem a aparecer
maiores, pelo contrário. Tem se tornado recorrente, contudo, a prática de se publicar notícias
curtas, muitas vezes constituídas apenas pela manchete e pelo lide, em que a informação, às
vezes, é desenvolvida pelo próprio texto-fonte inserido ipsis litteris na sequência, como corpo
201
da notícia, ou não, como no caso mostrado no Quadro 27. Por outro lado, o texto noticioso
pode ser publicado e, aos poucos, conforme a obtenção de detalhes do que está sendo tratado,
ser completado (ampliado ou atualizado) posteriormente, tanto em relação ao texto em si
como na divulgação de imagens e documentos que detalhem e estejam diretamente
relacionados ao fato noticiado.
6.1.1 O processamento da informação e os condicionamentos da forma
Quando analisamos as estratégias de retextualização, no capítulo 5, vimos que as
informações são processadas na notícia, para que as mesmas sejam adaptadas a esse gênero.
Nessa adaptação, as informações são transformadas, haja vista que, no texto-fonte em que são
oriundas, elas não têm status de notícia e nem funcionam como tal. Para aparecerem como
notícia, essas informações são processadas, e isso constitui a base do que discutiremos nesta
subseção, uma vez que tal processamento se dá para adaptação da “substância” proveniente de
um texto que participa de outro gênero à forma da notícia. Na fusão dessa substância à forma
do novo gênero, a substância é transformada, para que se adapte e “caiba” na forma.
Mostramos, no Quadro 28, um primeiro exemplo sobre esse processamento de
informações. Aqui repetimos uma das notícias já discutidas, inicialmente, em 6.1:
Quadro 28: Trecho de notícia e de texto-fonte: o processamento de informações
NOTÍCIA
Portal da Clube tem acesso à carta encontrada
na Irmão Guido; Confira!
Para justificar a ação, a "rapaziada do PV. C" cita a
Penitenciaria Fontes Ibiapina, em Parnaíba, como
"modelo" de unidade prisional do ponto de vista dos
presidiários
O Portal da Clube teve acesso à carta interceptada
durante vistoria de rotina na Penitenciária Regional
Irmão Guido, na zona rural de Teresina. Na carta
assinada pela “Rapaziada do PV. C” – uma provável
referência a Pavilhão C -, o remetente fala em
“quebrar o Pavilhão B” para conseguir regalias, como
televisão, som e ventilador.
Para justificar a ação, a “rapaziada do PV. C” cita a
Penitenciaria Mista Juiz Fontes Ibiapina, localizada
CARTA
Salve rapaziada do anex 2. Aqui e a rapazeada PVC
e o seguinte nós já conversamo com a rapaziada do B
e do PVD. Pois a rapaziada apoiou a gente vai
começar aqui no PV.C então nos vamos quebrar o
PVB. E o nosso objetivo e pedir nossa regalia que nos
tem direito e mudar a direção do sistema pois a
rapaziada lá da custodia entrou em contato com nos e
disse que eles conseguiram tirar o Wilsin e assim so
nos se unir que nos vamos conseguir nosso objetivo e
só nossa melhoria pois a maioria dos irmão aqui
centenciados porque so nos não tem direito pois em
Parnaíba os caras tem direito a TV e ventiladores e
som pois nos so vamos conseguir se nos quebrar esta
porra não e para gerrar morte mas para nossa
segurança nós vamos quebrar o PV.A. E o especial
é aí vocês sabe que aí no anex 1 também tem us caras
que não serve que trabalham para a polícia agora
202
em Parnaíba, como “modelo” de unidade prisional do
ponto de vista dos presidiários.
Ao contrário do divulgado mais cedo, a carta
interceptada na Irmão Guido não determina o
assassinato de agentes penitenciários. Em um
determinado momento, o remetente diz que o objetivo
não é matar, mas se proteger.
vocês ficam na ativa nos só vamos esperar resposta do
SP. Dependendo do que os irmão decidirem, nós
começamos o bagulho e vamos sustenta para chamar a
atençao da emprensa e das autoridades nós vamos
mandar as responsas para vocês e depois da visita tem
tudo para dar certo. Virmeza ladrões. Fiquem na paz
de um alo no Júnior e no resto da rapaziada. Ass: A
rapaziada do PV.C
No fim da carta, o remetente faz a sua única referência
a um preso específico. Trata-se de Júnior, mas a carta
não permite identificar com certeza quem ele é.
Confira a carta na íntegra clicando AQUI!
Fonte: http://portaldaclube.profissional.ws/portal-da-clube-tem-acesso-a-carta-encontrada-na-irmaoguido-confira.html (Acesso em: 22 out. 2012, grifos nossos).
No Quadro 28, ambos os textos, a priori, compartilham as “mesmas” informações, já
que, nesse caso, a carta é, especificamente, a base informativa da notícia. Porém, tais textos
são decorrentes de situações retóricas diferentes e participam de gêneros que realizam ações
sociais distintas. Logo, temos, na notícia, uma manchete, supostamente, destacando a
informação considerada como mais relevante: “Portal da Clube tem acesso à carta encontrada
na Irmão Guido; Confira!”. A manchete, nesse caso, não dá destaque a uma informação
específica da carta, ela informa sobre a condição do portal de ter tido acesso a um dado
material e que este pode ser conferido (lido) ali naquele suporte jornalístico. Assim, o
internauta pode ter acesso, a partir daquele portal, à carta encontrada na “Irmão Guido”,
ficando já pressuposta a interceptação da carta pelos agentes penitenciários, tratada como
informação dada.
Em seguida, no subtítulo, as informações de conteúdo da carta já começam a ser
processadas na notícia: “Para justificar a ação, a ‘rapaziada do PV. C’ cita a Penitenciaria
Fontes Ibiapina, em Parnaíba, como "modelo" de unidade prisional do ponto de vista dos
presidiários”. Vemos que a informação que é reproduzida diretamente, sem transformação, é
colocada entre aspas, “rapaziada do PV.C”, indicando que se trata de uma citação direta, ao
passo que as outras informações do subtítulo são tratadas, sendo assim adaptadas à notícia. O
jornalista faz uma interpretação das informações da carta e conclui que quando o remetente
diz que “em parnaiba os caras tem direito a TV e ventiladores e som” ele está citando, na
verdade, “a Penitenciária Fontes Ibiapina, em Parnaíba, como ‘modelo’ de unidade prisional”,
sendo ainda reforçado que essa informação se trata “do ponto de vista dos presidiários”.
203
Porém, a palavra “modelo” também é destacada por aspas, mas não indica uma
citação direta. Nesse caso, “modelo” reforça a informação da interpretação feita sobre a
penitenciária de Parnaíba ser vista como modelo de unidade prisional, sendo que esse
“modelo” é apenas do ponto de vista dos presidiários. Logo, já percebemos que a
transformação da informação não é isenta de tomadas de posição por parte do retor. Nesse
caso, a interpretação feita a partir do texto-fonte é apresentada como fato.
Na sequência, no corpo da notícia, temos mais propriamente a retextualização do
conteúdo da carta. Em quatro parágrafos são destacadas as informações classificadas como
principais, e sempre que uma informação da carta é reproduzida mais diretamente é feita pelo
destaque por aspas, como em “Rapaziada do PV.C” e “quebrar o Pavilhão B” ou é
transformada para a norma padrão da língua, como em “o remetente fala em ‘quebrar o
Pavilhão B’, para conseguir regalias como televisão, som e ventilador”. Há ainda descrições
que explicam informações da carta, como em “Em um determinado momento, o remetente diz
que o objetivo não é matar, mas se proteger”, para justificar uma informação equivocada e
possivelmente divulgada numa notícia anterior àquela sobre o mesmo evento: “Ao contrário
do divulgado mais cedo, a carta interceptada na Irmão Guido não determina o assassinato de
agentes penitenciários”. A carta, na íntegra e da forma como foi escrita pelo remetente, pode
ser acessada e lida pelo internauta através de um link, possibilidade que é, inclusive, destacada
já na manchete da notícia, mas no corpo da notícia as informações destacadas da carta são
adaptadas para estarem ali, para fazerem parte daquele texto.
A partir do que vimos no Quadro 28, podemos pensar inicialmente que essa
transformação é óbvia, haja vista que a carta que fundamenta a notícia não está escrita na
norma padrão e a notícia precisa adequar aquela informação ao padrão para que a mesma
apareça ali. Mas só fazemos essa reflexão porque entendemos como esse gênero funciona
socialmente, assim como reconhecemos no mesmo uma forma recorrente e a naturalizamos
para esse gênero, ao ponto de autorizarmos o tratamento de uma informação oriunda de outro
texto para que a mesma seja adaptada à forma da notícia.
Por outro lado, vemos que, de fato, forma e substância do gênero são fundidas e não
funcionam separadamente. Nesse caso, temos uma substância constituindo tanto as
informações da carta, como as da notícia, que são provenientes da carta. Porém, na construção
204
do texto, que participa de um gênero, essa substância necessariamente se incorpora à forma,
ou seja, forma e substância se fundem para que uma ação social possa ser realizada através do
gênero. Na fusão da substância à forma, é preciso que haja adaptações dessa substância, para
que ela possa caber numa forma específica.
Logo, nessa adaptação que envolve transformação e, portanto, mudança, poderíamos
nos indagar se, depois desse processo, já se trata da mesma substância oriunda do outro texto.
Lendo apenas a notícia, temos acesso ao conteúdo desta cuja base é proveniente da carta, mas
todo o conteúdo da carta não é retomado na notícia, que, inclusive é acrescida de outras
informações que não estão na carta. Isso nos autoriza a pensar que a forma e a substância da
carta são diferentes da forma e da substância da notícia, muito embora tenha havido
claramente uma apropriação das informações de um texto para a construção de outro.
É possível ainda observarmos a transformação da substância para adaptação à forma
do gênero em outros casos de notícia, que, inversamente ao caso mostrado no Quadro 29,
simplificam tanto o vocabulário como as informações do texto-fonte, ao mesmo tempo em
que resumem estas, a fim de torna-las inteligíveis e acessíveis para todos os leitores:
Quadro 29: Trecho de notícia e de texto-fonte: adaptação da substância à forma do gênero
NOTÍCIA
Ex-presidente do TJ rebate críticas à sua gestão:
"O que realizamos salta aos olhos"
A carta é endereçada à atual presidente do Tribunal,
Eulália Pinheiro
CARTA
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO PIAUÍ
GABINETE DO DESEMBARGADOR EDVALDO
MOURA
Após a divulgação de relatório que revela a
precariedade dos fóruns do Piauí, o ex-presidente do
Tribunal de Justiça do Piauí (TJ-PI), desembargador
Edvaldo Moura, escreveu uma carta endereçada à
atual presidente da Corte, Eulália Pinheiro, em que
rebate críticas à sua gestão.
Prezada Presidente do Tribunal de Justiça do Piauí,
Desembargador Eulália Pinheiro,
Na carta, o desembargador, que deixou a presidência
do TJ-PI em maio deste ano, diz que há "uma tentativa
de desqualificar a sua gestão", com calúnias que
questionam a seriedade o êxito do seu trabalho,
inclusive colocando em dúvida a sua honradez.
Foi com essa sensação, que concluímos, em 31 de
maio do fluente ano, a nossa ingente e desafiadora
missão de Presidente do Tribunal de Justiça e,
concomitantemente, do Poder Judiciário do Piauí,
hoje, indiscutivelmente, mais ágil, mais transparente,
mais democrático, mais eficiente e mais próximo do
seu destinatário - o povo - a que temos a inafastável
obrigação de servir, com desprendimento e
inexcedível zelo pastoral.
Edvaldo Moura reconhece que a atual situação do
Judiciário piauiense está longe do ideal, mas diz que
concluiu seu mandato com "a consciência tranquila do
dever cumprido". Ele citou realizações da sua
administração, como a inauguração de 23 novos
Não há travesseiro mais macio - já o disse alguém do que aquele de que se utiliza quem tem a
consciência tranquila do dever cumprido.
Não nos referimos, apenas, aos 23 prédios de fóruns
205
fóruns.
Para reforçar seu discurso, ele lembrou declarações da
ministra Eliana Calmon à imprensa e a avaliação do
Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que apontou o
Departamento de Precatórios do TJ-PI como modelo
para o Brasil.
(foto)
No trecho da fala de Calmon transcrito por Moura, a
ministra diz que "viu tribunais saírem do chão e
conseguirem se soerguer" e que "as transformações
ocorridas nos tribunais de justiça de Tocantins,
Amazonas, Mato Grosso, Piauí e São Paulo, são
exemplos de sucesso".
O desembargador encerra a carta afirmando: "O que
realizamos no curso de nossa atividade bienal, não
pode ser escondido, porque salta aos olhos de todos. O
reconhecimento do Conselho Nacional de Justiça põe
por terra qualquer tentativa de desqualificar tudo que
fizemos". [...]
No dia seguinte, Eulália Pinheiro desabafou durante
coletiva de imprensa. Ela atribuiu o caos nos fóruns a
problemas de gestão, o que foi entendido como uma
crítica aos juízes do Tribunal.
Dois dias depois, a desembargadora recuou. Negou
que tivesse criticado os juízes e disse, ainda, que os
problemas estruturais "foram acumulados ao longo do
tempo, sendo inimputável a qualquer administração
anterior, menos ainda aos meus 95 dias na Presidência
do poder judiciário".
Confira a carta do desembargador Edvaldo Moura na
íntegra: [...]
construídos, reformados, inaugurados e devidamente
equipados, alguns iniciados na gestão do emérito
Desembargador
Raimundo
Alencar,
mas,
principalmente, ao espantoso número de servidores
concursados nomeados, a significativa quantidade de
material permanente e de equipamentos de
informática por nós adquiridos, através de licitação e
por força de doação do CNJ e da Receita Federal,
ainda em garantia e ao expressivo aumento do
número de audiências e de julgamentos, na 1ª e 2ª
instâncias, como revelam os dados e as informações
de que dispomos e que se encontram em
circunstanciado Relatório, que acabamos de
concluir.
Incluímos entre os prédios de fóruns, o parcialmente
inaugurado Fórum Cível e Criminal de Teresina,
Desembargador Joaquim de Sousa Neto, com 87%
das obras concluídas, conforme documento em nosso
poder, sonho centenário de todos os operadores
jurídicos e da nossa sofrida, mas valorosa população
teresinense, malgrado as forças ocultas, que se
antepunham, por razões até certo ponto
inconfessáveis, ao cumprimento dessa importante e
audaciosa meta, projetado e construído de acordo
com orientação do CNJ, para abrigar todas as nossas
varas cíveis e criminais.
Para demonstrarmos a verdadeira e atual situação do
Judiciário piauiense, infelizmente, ainda longe do
ideal, como a de todos os estados da Federação e a
improcedência das aleivosias de inimigos gratuitos
de determinado órgão de nossa independente e
corajosa imprensa e das apócrifas, injustas e
mendazes insinuações, que questionam a seriedade e
o êxito do nosso biênio administrativo, pondo em
dúvida a honradez e a hombridade de quem sempre
se dedicou inteiramente aos serviços do Judiciário e
à Magistratura, transcrevo, a seguir, parte da
entrevista concedida pela eminente Ministra Eliana
Calmon, ao jornalista Manoel Carlos Montenegro,
datada de 04 de setembro último, por ocasião de sua
despedida da egrégia Corregedoria Nacional de
Justiça, que subscreve o que estamos afirmando, in
verbis:
"Saio com a sensação do dever cumprido. Fiz o que
me foi possível fazer. Atribuo ao trabalho da
Corregedoria e à parceria firmada com alguns
tribunais, as mudanças positivas observadas em parte
do Poder Judiciário. Vi tribunais saírem do chão e
conseguirem se soerguer. As transformações
ocorridas nos tribunais de justiça de Tocantins,
Amazonas, Mato Grosso, Piauí e São Paulo, são
exemplos de sucesso". [...]
O que realizamos no curso de nossa atividade bienal,
206
não pode ser escondido, porque salta aos olhos de
todos. O reconhecimento do Conselho Nacional de
Justiça, graças ao incondicional apoio de todos os
colegas juízes e desembargadores, dos abnegados
servidores efetivos e comissionados e dos demais
operadores jurídicos, todos com a autoestima elevada,
põem por terra qualquer tentativa de desqualificar
tudo que fizemos, sempre norteado pelo
inquebrantável desejo de tornar a Justiça piauiense
mais respeitada e mais intangível. [...]
Fonte:
http://www.portalodia.com/noticias/politica/em-carta-a-eulalia-pinheiro-ex-presidente-do-tjrebate-criticas-a-gestao-anterior-150530.html (Acesso em: 12 set. 2012, grifos nossos).
A notícia (à esquerda do Quadro 29) tem como texto-fonte principal uma carta (à
direita do Quadro) escrita por um desembargador e endereçada a uma então Presidente do
Tribunal de Justiça do Piauí. O estilo de escrita da carta é rebuscado e a mesma é escrita sob
um vocabulário erudito, já que é oriunda de uma comunidade retórica, que zela para que os
textos produzidos ali apresentem esse tipo de vocabulário, a judiciária. Diferentemente da
carta – que antes tinha um destinatário bastante específico e especializado, a então presidente
do Tribunal de Justiça do Piauí – a notícia divulga essas informações para os seus leitores
(internautas), a sua audiência, que além de numerosa é heterogênea. Logo, a informação
divulgada precisa estar ao alcance da audiência almejada pelo suporte jornalístico.
Nesse sentido, no processo de transformação da informação, essas são mais
evidentemente resumidas e consequentemente simplificadas, haja vista que a carta escrita pelo
desembargador é detalhada, e a notícia não se prende a esses detalhes, que são eliminados e
substituídos por expressões mais simples tomadas como equivalentes. Assim, todo o
parágrafo em que o desembargador detalha os feitos de sua gestão no Tribunal de Justiça é
substituído por um período simples, como visualizamos no Quadro 30:
Quadro 30: Trecho de notícia e de texto-fonte: processamento de informações com eliminação e
substituição 1
TRECHO DE NOTÍCIA
Ele citou realizações da sua administração, como a
inauguração de 23 novos fóruns.
TRECHO DE CARTA
Não nos referimos, apenas, aos 23 prédios de fóruns
construídos, reformados, inaugurados e devidamente
equipados, alguns iniciados na gestão do emérito
Desembargador
Raimundo
Alencar,
mas,
principalmente, ao espantoso número de servidores
concursados nomeados, a significativa quantidade de
material permanente e de equipamentos de
informática por nós adquiridos, através de licitação e
por força de doação do CNJ e da Receita Federal,
ainda em garantia e ao expressivo aumento do
207
número de audiências e de julgamentos, na 1ª e 2ª
instâncias, como revelam os dados e as informações
de que dispomos e que se encontram em
circunstanciado Relatório, que acabamos de concluir.
É destacada na notícia a informação principal do parágrafo “a inauguração de 23
novos fóruns”, onde já são eliminados mais detalhes acerca disso, e todo o restante dos feitos
da gestão do desembargador, detalhados na carta, é substituído por “Ele citou realizações da
sua administração”. Embora tenha havido a eliminação de detalhes do parágrafo do textofonte, foi mantido o núcleo informativo principal deste, e de forma bastante simplificada para
o leitor.
A transformação que acontece no exemplo do Quadro 30 ocorre a partir de
eliminações e de substituições de informações e de termos e expressões presentes na carta
original por outros mais simples, o que pode também ser observado no trecho de texto do
Quadro 31:
Quadro 31: Trecho de notícia e de texto-fonte: processamento de informações com eliminação e
substituição 2
TRECHO DE NOTÍCIA
Na carta, o desembargador, que deixou a presidência
do TJ-PI em maio deste ano, diz que há "uma tentativa
de desqualificar a sua gestão", com calúnias que
questionam a seriedade e o êxito do seu trabalho,
inclusive colocando em dúvida a sua honradez.
TRECHO DE CARTA
Para demonstrarmos a verdadeira e atual situação do
Judiciário piauiense, infelizmente, ainda longe do
ideal, como a de todos os estados da Federação e a
improcedência das aleivosias de inimigos gratuitos
de determinado órgão de nossa independente e
corajosa imprensa e das apócrifas, injustas e
mendazes insinuações, que questionam a seriedade e
o êxito do nosso biênio administrativo, pondo em
dúvida a honradez e a hombridade de quem sempre
se dedicou inteiramente aos serviços do Judiciário e
à Magistratura [...]
O que realizamos no curso de nossa atividade bienal,
não pode ser escondido, porque salta aos olhos de
todos. O reconhecimento do Conselho Nacional de
Justiça, graças ao incondicional apoio de todos os
colegas juízes e desembargadores, dos abnegados
servidores efetivos e comissionados e dos demais
operadores jurídicos, todos com a autoestima elevada,
põem por terra qualquer tentativa de desqualificar
tudo que fizemos, sempre norteado pelo
inquebrantável desejo de tornar a Justiça piauiense
mais respeitada e mais intangível. [...]
208
A partir do Quadro 31, vemos que toda a sequência “a improcedência das aleivosias
de inimigos gratuitos de determinado órgão de nossa independente e corajosa imprensa e das
apócrifas, injustas e mendazes insinuações, que questionam a seriedade e o êxito do nosso
biênio administrativo, pondo em dúvida a honradez e a hombridade de quem sempre se
dedicou inteiramente aos serviços do Judiciário e à Magistratura” é substituída por “calúnias
que questionam a seriedade e o êxito do seu trabalho, inclusive colocando em dúvida a sua
honradez”. Do ponto de vista da retextualização, nesta e na outra passagem destacada no
Quadro 30, acontecem ao mesmo tempo as estratégias de eliminação e de substituição de
informações, que são processadas e transformadas, de modo que não fica mais tão evidente,
na notícia, o rebuscamento e a erudição bastante presentes na carta.
Por outro lado, a simplificação, a favor da notícia, também elimina detalhes
informativos da carta que podem não ser favoráveis ao portal, como a menção a supostas
acusações ao desembargador feitas por um órgão da imprensa (“nossa independente e
corajosa imprensa”). Esse detalhe é generalizado na afirmação da notícia “calúnias que
questionam a seriedade e o êxito do seu trabalho”, que resume uma grande porção do textofonte.
Tanto na notícia que retextualiza a carta de um desembargador como na notícia que
retextualiza a carta escrita por um presidiário há transformações de informações. Porém,
como vimos, essas transformações ocorreram de forma diferenciada, sobretudo devido ao
nível de escrita de ambas as cartas. Na carta do desembargador, houve a necessidade de
simplificação da informação, ao passo que, na carta do presidiário, o conteúdo foi, dentre
outros, adaptado para a norma padrão da língua. Todavia, em ambas as notícias, foram
utilizadas estratégias de retextualização similares, sobretudo as de eliminação e de
substituição, feitas a partir da interpretação do jornalista para os textos-fonte.
Dessa forma, vemos que a transformação da informação do texto-fonte, mesmo
acontecendo para textos bastante diferentes entre si, como no caso das notícias dos Quadros
28 e 29, em que os textos participam do “mesmo” gênero, mas são elaborados por retores
pertencentes a grupos sociais bastante distintos, acontece para a adaptação ao gênero notícia,
em que é preciso fundir uma substância à forma recorrente em notícias. Na base da
Sociorretórica, a noção de forma compreende tanto elementos que constituem a
209
macroestrutura de um gênero, como a presença de manchete, lide e episódio numa notícia,
como elementos estilísticos, relacionados às escolhas lexicais e às construções sintáticas que
formam uma sequência textual.
É importante percebermos que, independente do gênero que participe o texto-fonte,
as operações de adaptação da substância à forma da notícia são similares, muito embora, às
vezes, seja o próprio texto-fonte que constitua basicamente o corpo da notícia. No Quadro 32,
temos um caso em que a notícia está fundamentada em uma nota oficial divulgada pela
Secretaria Estadual de Saúde do Piauí:
Quadro 32: Notícia basicamente constituída por texto-fonte 1
NOTÍCIA
Sesapi divulga nota sobre Operação Nosferatu deflagrada pela Polícia Federal
A Secretaria de Estado da Saúde divulgou nota sobre Operação Nosferatu deflagrada pela Polícia Federal, na
manhã desta segunda-feira (1º ). Segundo o comunicado, a operação ocorreu após denúncia feita pelo próprio
Secretário de Estado da Saúde, Ernani Maia.
NOTA DE ESCLARECIMENTO
A Secretaria de Estado da Saúde informa que a operação deflagrada pela Polícia Federal, no que diz respeito
à Sesapi, ocorreu após denúncia feita pelo próprio Secretário de Estado da Saúde Ernani Maia.
No dia 02 de julho, após tomar conhecimento de um relatório de auditoria da Controladoria Geral do Estado
(CGE), que detectou irregularidades na aplicação de recursos públicos, o secretário comunicou o fato ao
superintendente da PF, Nivaldo Farias de Almeida, e ao procurador-chefe do Ministério Público Federal
(MPF), Marco Túlio Lustosa Caminha.
A CGE estava investigando aplicação de recursos públicos operacionalizados pelo Sistema de Informação
Hospitalar, com irregularidades nos pagamentos efetuados a diversas empresas, conforme consta dos autos do
Processo PGE/2012105590-0.
No dia 27 de setembro, o secretário de Saúde Ernani Maia publicou portaria no Diário Oficial do Estado,
instaurando processo administrativo disciplinar para apurar conduta funcional irregular de servidor que
ocupa o cargo de auxiliar administrativo.
A Comissão de Processo Administrativo Disciplinar é composta pelas servidoras, Ana Cecília Elvas Bohn –
Procuradora do Estado, e Artur Willame Veras e Silva, Analista Técnico da Procuradoria Geral do Estado do
Piauí e Fátima Maria de Freitas Barros, Servidora Estadual. A comissão tem 60 dias para concluir o processo.
A nova gestão da Sesapi, desde que assumiu em janeiro de 2011, não admite condutas irregulares de quem
quer que seja. A Secretaria de Estado da Saúde trabalha incansavelmente para levar melhorias à população e,
graças a uma gestão comprometida com o serviço público, vem conseguindo. Prova disso são as inúmeras
ações realizadas em 1 ano e 10 meses de atuação. Hospitais foram reaparelhados, Unidades de Saúde foram
construídas em todo o Piauí, além de laboratórios, hemocentros e outros serviços. A Sesapi é comprometida
com a Saúde do Piauí e a atuará de forma enérgica contra qualquer ato que venha prejudicá-la.
O secretário Ernani Maia concederá entrevista coletiva às 11h30, em seu gabinete, na sede Sesapi do Centro
Administrativo ao lado da APPM.
Fonte: http://portaldaclube.profissional.ws/sesapi-divulga-nota-sobre-operacao-nosferatu-deflagradapela-policia-federal-2.html (Acesso em: 01 out. 2012).
A partir da notícia mostrada no Quadro, vemos que a informação destacada na
manchete divulga uma nota da Sesapi e sobre o que a mesma se trata: “Sesapi divulga nota
210
sobre a Operação Nosferatu deflagrada pela Polícia Federal”. Na sequência, o corpo da notícia
é formado pelo lide, que apresenta e contextualiza a nota em questão, e pela própria nota.
Nesse caso, na manchete e no lide, temos um resumo das principais informações, sendo
destacadas ainda, no lide, figuras de precisão, que indicam lugar e tempo, e ainda o nome
próprio de um participante direto do evento tratado. Mesmo havendo um aproveitamento do
texto-fonte no corpo da notícia, a manchete e o lide são elaborados a partir da forma tipificada
dos demais exemplares do gênero notícia.
Embora sejam caracterizados pela ação que realizam, os gêneros possuem
características formais, conforme já dissemos. Devitt (2004) afirma que os gêneros se
originam nos padrões textuais recorrentes, em formas. Por outro lado, os ouvintes reconhecem
marcadores formais de um gênero particular e o identificam. Isso significa que os itens não
são rotulados apenas por suas propriedades formais, mas, sobretudo, por suas propriedades
funcionais. Na análise da fusão da forma e substância do gênero notícia fica mais evidente
percebermos a adaptação da informação do texto-fonte ao estilo que recorrentemente
caracteriza a notícia, como nas escolhas lexicais e nas construções linguísticas comuns a esse
gênero.
Porém, se a nossa análise não examinasse esse processo do ponto de vista do
funcionamento do gênero, diríamos apenas que a notícia é escrita segundo a norma padrão da
língua, que prioriza a ordem direta na construção dos períodos, que faz uso de verbos no
passado e da 3ª pessoa do discurso etc.. Logo, qualquer informação que apareça numa notícia,
independente do texto-fonte, normalmente aparece nesse estilo, assim, a transformação da
informação aconteceria apenas em decorrência dessas características. Seria uma análise
bastante generalizada, que não perceberia, por exemplo, peculiaridades relacionadas ao
funcionamento social do gênero, sobretudo a notícia feita especialmente para circular na
internet.
Baseados em Miller (2009 [1984]) e Devitt (2004), defendemos que a webnotícia,
assim como as demais notícias, caracteriza-se muito mais pela ação retórica tipificada que
realiza do que pelos elementos formais e substantivos que a constituem, muito embora estes
signifiquem e constituam retoricamente essa ação. Sendo definida mais por suas propriedades
211
funcionais do que pelos seus elementos formais, a webnotícia também se apresenta como uma
ação social fundada a partir de uma situação retórica recorrente.
Do ponto de vista retórico, segundo Miller (2009 [1984]), o termo gênero limita um
tipo particular de classificação do discurso. Por sua vez, essa classificação é baseada na
prática retórica, por esse motivo, é aberta e organizada em torno das ações situadas dos
sujeitos. Nesse sentido, a classificação dos gêneros é feita em torno das ações dos sujeitos,
sendo, portanto, de âmbito pragmático, e não sintático ou semântico. O que entendemos sobre
os gêneros e o modo como respondemos a eles reflete muito mais do que um conjunto de
características formais ou de convenções textuais (DEVITT, 2004).
Sendo assim, o que dizer acerca da fusão forma e substância de notícias que, ao
mesmo tempo em que se constituem a partir da transformação de informações de outros
textos-fonte, apresentam essa mesma fonte, muitas vezes incluindo todo o texto na sua
composição? Essa é uma característica da grande maioria dos textos que compõem o corpus
deste trabalho, a presença do texto-fonte, mas, a nosso ver, não corresponde a uma questão de
forma e substância do gênero apenas, nem mesmo está relacionada propriamente à fusão
desses. A presença do texto-fonte relaciona-se principalmente à ação social realizada através
da webnotícia, bem como ao lugar social em que esta circula. Nesse sentido, como veremos,
trata-se muito mais de uma estratégia retórica atrelada a função social do gênero do que a uma
propriedade formal.
6.1.2 A reprodução total ou parcial do texto-fonte
Na seção 2.4, do capítulo 2, afirmamos, com base em Van Dijk (1990 [1988]), que a
estratégia mais fácil de reprodução do material selecionado pelo jornalista é a literal. Para esse
autor, a principal condição para a reprodução literal é a limitação de tempo, de modo que a
reprodução parcial do texto-fonte pode estar condicionada à limitação de espaço do jornal,
onde é suprimido, por exemplo, o que é considerado sem relevância. Nesse caso, Van Dijk se
reporta às condições de produção do jornalismo impresso.
Quando tratamos de notícia de portais jornalísticos, na seção 1.3, dissemos também
que a limitação de espaço, que tanto interferia na elaboração dos textos jornalísticos de jornais
impressos, não é mais relevante quando se trata de textos produzidos para serem publicados
212
na internet, porque, neste meio, a priori, não há uma limitação física de espaço para o texto.
Assim, o volume de notícias publicadas pelos portais jornalísticos é bem maior se comparado
aos jornais impressos, de modo que o intervalo de tempo entre o acontecimento do fato e a
divulgação deste diminuiu consideravelmente. Inclusive muitas notícias são construídas para
dar a impressão de que são publicadas em tempo real, no mesmo instante do acontecimento.
Na notícia reapresentada no Quadro 33, o jornalista tem o cuidado de digitar o
conteúdo do texto-fonte, e, no decorrer disso, ir fazendo pequenos acréscimos de informações.
Estes, explicam para o leitor sobre o que o locutor da carta está tratando mais diretamente,
como no caso de informar que “anex 2” se refere ao “anexo 2”, onde é feita a “triagem”, que
PV.A, PV. B, PV. C e PV. D se referem aos pavilhões A, B, C e D, respectivamente, que o
“Wilsin” se trata do “do vice-diretor da Casa de Custódia e chefe do grupo de vistoria”. De
modo que ainda é feito um acréscimo, que pode ser entendido como uma especulação do
jornalista de que “a resposta do SP” estaria relacionada a “uma resposta de São Paulo”:
Quadro 33: Notícia basicamente constituída por texto-fonte 2
NOTÍCIA
Carta encontrada em presídio ordena rebelião geral; Leia aqui
IRMÃO GUIDO: Sinpoljuspi alerta que os agentes seriam usados como reféns na ação e pede medidas urgentes.
Atualizada às 18h44
O Cidadeverde.com teve acesso a uma cópia da carta, reproduzida abaixo. As observações em parênteses são da
redação do portal, para melhor compreensão do leitor.
“Salve rapaziada do anex 2 (anexo 2 - triagem). Aqui e a rapazeada PVC (pavilhão C) e o seguinte nós já
conversamo com a rapaziada do B e do PVD (Pavilhão D). Pois a rapaziada apoiou a gente vai começar aqui
no PV.C então nos vamos quebrar o PVB (pavilhão B). E o nosso objetivo e pedir nossa regalia que nos tem
direito e modar a direção do sistema pois a rapaziada lá da custodia entrou em contato com nos e disse que
eles conseguiram tirar o Wilsin (vice-diretor da Casa de Custódia e chefe do grupo de vistoria) e assim so nos
se unir que nos vamos conseguir nosso objetivo e só nossa melhoria pois a maioria dos irmão aqui
centenciados porque so nos não tem direito pois em Parnaíba os caras tem direito a TV e ventiladores e som
pois nos so vamos conseguir se nos quebrar esta porra não e para gerrar morte mas para nossa segurança nós
vamos quebrar o PV.A (pavilhão A). E o especial é aí vocês sabe que aí no anex 1 (triagem) também tem us
caras que não serve que trabalham para a polícia agora vocês ficam na ativa nos só vamos esperar resposta do
SP (seria uma resposta de São Paulo). Dependendo do que os irmão decidirem, nós começamos o bagulho e
vamos sustenta para chamar a atençao da emprensa e das autoridades nós vamos mandar as responsas para
vocês e depois da visita tem tudo para dar certo. Virmeza ladrões. Fiquem na paz de um alo no Júnior e no
resto da rapaziada. Ass: A rapaziada do PV.C”
Fonte: http://www.cidadeverde.com/carta-encontrada-em-presidio-ordena-rebeliao-geral-leia-aqui-116092
(Acesso em: 22 out. 2012).
No processamento da informação do texto-fonte para a construção do texto da
notícia, a rearticulação da informação é mínima, pois o conteúdo da carta, que dá base ao
213
corpo do texto da notícia, aparece em forma de citação direta, é a própria carta em si, mesmo
que se tenha tido o trabalho de digitar o conteúdo. Em todo caso, do ponto de vista da
webnotícia, é importante observar que, nos portais jornalísticos, tem se tornado cada vez mais
recorrente a utilização do texto-fonte como corpo da notícia ou como parte deste.
Nesse caso, muito mais importante do que noticiar sobre o evento de interceptação
da carta no presídio é ter a carta para mostrar para os leitores42, já que a condição do portal de
ter tido acesso à carta é, inclusive, destacada tanto na manchete como no lide da notícia.
Assim, formula-se uma notícia constituída por uma manchete, que pode conter ainda um
subtítulo e/ou um lide. Este, ao invés de fazer a apresentação dos que podem ser considerados
elementos essenciais da notícia (O quê? Quando? Quem? Onde? Por quê?), formula uma frase
de apresentação do texto-fonte que é disponibilizado para leitura a seguir. Por sua vez, este
acaba por desenvolver mais do que o papel de fonte, já que a notícia é construída,
basicamente, pela própria fonte, no sentido de que o texto-fonte é utilizado como citação
direta depois de uma manchete e uma breve apresentação da informação principal.
Tal prática, além de ser possibilitada pelo espaço amplo disponibilizado ao jornalista
na página do portal e pelos recursos multimídia do meio digital, pode estar relacionada ainda
à pressa que os portais têm para divulgar e fazer circular informações. Porém, para a
audiência, ela pode funcionar como mais um fator de idoneidade e de credibilidade, fazendo
ainda com que os leitores se sintam parte do processo de construção da notícia, já que,
acessando a informação diretamente da fonte, podem pensar que estão elaborando suas
próprias interpretações e conclusões.
Van Dijk (1990 [1988]) afirma que de todos os elementos apontados como sendo
parte da notícia, título/manchete, subtítulo, lide, episódio, reações verbais, comentários etc., a
manchete (ou título) e os eventos principais são os elementos obrigatórios que, na ausência de
outros, devem ser mantidos, para que se tenha uma notícia minimamente bem formulada.
Assim, mantém-se o que é reconhecido como mais importante para a apresentação da
informação nova, a partir da manchete, que é contextualizada no lide e desenvolvida
42
Temos três notícias que tratam deste mesmo evento de interceptação da carta no presídio. Nos três casos, a
carta apareceu reproduzida totalmente seja como parte da notícia ou posteriormente a esta, “ilustrando” o que
havia sido informado, e ainda através de link.
214
posteriormente no corpo do texto pelo episódio. Porém, no caso que mostramos no Quadro
33, o corpo do texto é formado pela própria fonte, que, em tese, desenvolve a informação
noticiada na manchete.
Mesmo que a apresentação da fonte na webnotícia se assemelhe ao papel da
fotografia do jornalismo impresso, já que muitas vezes é mostrada uma imagem do textofonte, o efeito não é o mesmo, até mesmo porque a fotografia também é utilizada no
webjornalismo. No jornalismo impresso, a fotografia sempre teve mais a função de ilustração
do que se dizia, e no caso da webnotícia, mesmo que o texto-fonte seja apresentado a partir de
uma fotografia, ele desempenha ainda outras funções retóricas, como veremos nesta subseção.
O Quadro 34 mostra um caso de notícia fundamentada sobre um único texto, que é
totalmente reproduzido posteriormente:
Quadro 34: Exemplo de notícia com reprodução total do texto-fonte
TRECHO DE NOTÍCIA
Tico Santa Cruz presencia acidente em rodovia do PI e faz relato no Facebook
O vocalista alertou para a grande quantidade de animais na pista e o atendimento precário da polícia
O vocalista da banda Detonautas, Tico Santa Cruz, fez um relato em seu perfil no Facebook, na madrugada de
hoje (22), depois de presenciar um acidente na BR-343, quando se deslocava de Teresina com destino ao litoral
piauiense, onde fará um show na noite de hoje (22) na cidade de Parnaíba. Ele criticou o atendimento precário
dos serviços de emergência e os riscos gerados pelos animais nas pistas piauienses, realidade já conhecida por
quem trafega pelas rodovias.
Leia abaixo o relato completo:
"Fazer um relato que considero importante.
Cheguei a Parnaíba-Piauí há pouco mais de 2 horas. Uma viagem longa e cansativa, vindo de Teresina. Cerca
de Quatro horas e meia numa estrada que tem parte dela em condições precárias e a outra parte bem
sinalizada e com asfalto bom, porém com um PERIGO MUITO SINISTRO.
Animais cruzam a pista durante TODO O PERCURSO. Todo tipo de animal, de cachorros e galinhas a Porcos,
bois e CAVALOS. MUITOS CAVALOS Soltos por uma rota escura. Presenciei um acidente que por sorte não
foi uma tragédia.
Um carro em alta velocidade nos ultrapassou em pista de mão dupla e uns 50 metros a frente perdeu a direção
e saiu da pista batendo numa árvore. Nós conseguimos desviar dele e eu vi um CAVALO andando na pista no
sentido contrário. Era um Cavalo PRETO, de modo que no Escuro ficava muito difícil de identificar de longe.
Foi por este motivo que o carro que nos ultrapassou perdeu a direção. O motorista conseguiu desviar dele, mas
não conseguiu desviar da árvore.
Como estava tarde da noite e num local inóspito, liguei para a Polícia IMEDIATAMENTE - 190 - e fui
atendido por um Policial TOTALMENTE DESPREPARADO E DE MÁ VONTADE. Eu estava muito assustado
e tentei ser bem claro com o atendente notificando o acidente e tentando passar as coordenadas do local. Ele
disse que não poderia fazer nada, que eu precisaria ligar de um TELEFONE PÚBLICO OU FIXO, porque do
meu celular estava caindo na CENTRAL DE TERESINA e de lá ele não podia oferecer ajuda. (...)
Fonte: www.portalodia.com/noticias/policia/tico-santa-cruz-presencia-acidente-em-rodovia-do-pi-e-fazrelato-no-facebook-165681.html (Acesso em: 22 fev. 2013).
215
Vemos, a partir do exemplo do Quadro 34, que o corpo da notícia, em que há o
desenvolvimento das informações apresentadas na manchete, no subtítulo e no lide, é
constituído pela postagem feita pelo cantor “Tico Santa Cruz”, numa reprodução total do
texto-fonte. Tal exemplo revela um caso diferenciado daquele discutido e analisado por Van
Dijk (1990 [1988]) sobre a utilização e o processamento das fontes no jornalismo impresso.
Nesse caso, houve a reprodução direta do texto-fonte, com a fonte sendo publicada na íntegra,
de modo que o único trabalho do jornalista foi copiá-lo do suporte onde ele foi originalmente
publicado (o perfil pessoal no Facebook do cantor em questão).
Muito embora o autor da fonte faça uma denúncia grave por meio de sua postagem,
através dela o portal pode tanto denunciar e criticar indiretamente os setores sociais
denunciados e criticados na postagem, como pode atrair a atenção dos internautas pelo fato de
se tratar de uma postagem feita pelo “Tico Santa Cruz”, o vocalista de uma banda musical de
sucesso. Outro portal jornalístico também divulgou uma notícia sobre o mesmo evento,
também fundamentado, principalmente, na postagem da rede social. Porém, a segunda notícia
faz apenas uma reprodução parcial da postagem, que aparece no texto ora através de citação
direta e indireta ora como imagem:
Quadro 35: Exemplo de notícia com reprodução parcial do texto-fonte
TRECHO DE NOTÍCIA
Tico Santa Cruz desabafa sobre estrada do Piauí no Facebook
O cantor Tico Santa Cruz, que está no Piauí para uma série de shows, fez um alerta em seu Facebook para os
perigos e condições de atendimento policial na BR 343, onde seguia durante a noite desta quinta-feira (22), com
destino a Parnaíba. Segundo o relato, Tico presenciou um acidente envolvendo outro veículo, que fez uma
ultrapassagem e acabou batendo em uma árvore ao desviar de um cavalo que estava na pista.
Foto: Rayldo Pereira/ Cidadeverde.com
"Um carro em alta velocidade nos ultrapassou em pista de mão dupla e uns 50 metros a frente perdeu a direção
e saiu da pista batendo numa árvore. Nós conseguimos desviar dele e eu vi um CAVALO(sic) andando na pista
no sentido contrário. Era um Cavalo PRETO(sic), de modo que no Escuro ficava muito difícil de identificar de
longe. Foi por este motivo que o carro que nos ultrapassou perdeu a direção. O motorista conseguiu desviar
dele, mas não conseguiu desviar da árvore.", relatou o cantor.
216
Ainda em seu desabafo, Tico comenta que entrou em contato com a Polícia, para comunicar o fato. O cantor
denuncia "despreparo e má vontade" do policial que atendeu a ocorrência ao telefone. "Perguntei ao mesmo se
não poderia acionar uma ambulância ou comunicar aos bombeiros sobre o acidente. O homem repetiu de forma
curta e grossa que não poderia me ajudar. COMO ASSIM? VOCÊ LIGA PARA 190 NA EMERGÊNCIA E O
POLICIAL NÃO PODE AJUDAR????????????????? (sic) Que tipo de profissional é esse que é colocado para
prestar um serviço de emergência sem PREPARO ALGUM?????????(sic)", desabafou o músico.
Após a tentativa frustrada, o cantor acionou a Polícia Rodoviária Federal, através do 191. Tico e a equipe foram
até o posto da PRF onde passaram as informações sobre o acidente. O músico afirma que não aconteceu nada
grave com os tripulantes do carro, e que a Polícia informou que todos foram removidos do local. [...]
Fonte: www.cidadeverde.com/tico-santa-cruz-desabafa-e-faz-alerta-sobre-estrada-do-piaui-no-facebook125906 (Acesso em: 22 fev. 2013).
Vemos, a partir do caso apresentado no Quadro 35, que a construção do corpo da
notícia é feita pela citação direta de longos trechos da postagem, destacados por aspas, pela
retextualização de trechos da postagem e ainda pela utilização de imagem, feita por meio de
captura de tela, da postagem em questão. A imagem apresenta trechos do texto, que ilustram o
que é afirmado na notícia e ainda apresentam outros detalhes informativos. Nesse sentido,
embora haja uma diversificação na presença do texto-fonte, essa também é feita de forma
mais literal.
217
Das 21 notícias selecionadas para constituírem o corpus deste trabalho, apenas em
três casos (incluindo este apresentado no Quadro 35) o texto-fonte principal não foi
reproduzido na íntegra pelo portal, seja através de uma única citação direta de todo o texto,
que aparece como parte da notícia, seja através de uma imagem do texto na íntegra, disposta
também como parte da notícia, seja ainda através de um link, que dava acesso a uma segunda
janela do mesmo portal jornalístico ou que redirecionava o leitor para outro site.
Sabemos, no entanto, que uma “mesma” informação em gêneros diferentes está
relacionada a propósitos ou objetivos específicos. Logo, a presença na íntegra do texto-fonte
na webnotícia, seja como complemento do texto ou não, adquire, no portal jornalístico, uma
nova configuração. Por exemplo, a carta que fazia um chamado para uma rebelião, na
webnotícia, perde o seu propósito inicial e, literalmente, vira notícia. A utilização de textosfonte sempre fez parte da situação retórica recorrente do gênero notícia, já que a informação a
ser divulgada é, normalmente, oriunda de outros textos. Assim, a utilização desse gênero
como uma resposta retórica a uma situação retórica recorrente envolve a ação de transformar
a informação do texto-fonte para que a mesma funcione socialmente com status de
informação noticiosa.
A presença do texto-fonte é proporcionada pelo conjunto de affordances do portal,
que é pré-configurado para a possibilidade de utilização de imagens, de links e, até mesmo, de
vídeos, sendo que, no portal, o jornalista dispõe de mais espaço para incorporar à notícia
textos escritos, vídeos e imagens. Porém, uma vez fixado no portal, juntamente com a notícia,
o texto-fonte passa a fazer parte da notícia e funciona como tal, sendo destituído de sua
situação retórica recorrente de origem e passando a colaborar, assim, para uma estratégia
retórica realizada a partir do gênero notícia.
Van Dijk (1990 [1988]) observa que a presença de textos-fonte na notícia faz parte
da construção da atmosfera de verdade em que o discurso noticioso é apresentado. Por isso
são tão abundantes declarações de pessoas públicas ou de autoridades, bem como a utilização
de documentos oficiais. Estes, normalmente, são destacados na notícia como as fontes desta e
funcionam como um fator que imprime idoneidade e veridicidade à informação. No caso da
webnotícia, a presença do texto-fonte na íntegra é possível graças às possibilidades do meio,
218
mas também tem a função de imprimir credibilidade à notícia, pois leva a audiência
diretamente à fonte da informação.
No Quadro 36, ilustramos nossas afirmações, com uma notícia fundamentada em
duas notas oficiais divulgadas, respectivamente, pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico
(ONS) e pela Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf), sobre um desligamento de
energia que afetou vários estados do Brasil em 2012:
Quadro 36: Notícia fundamentada em fontes oficiais
NOTÍCIA
Chesf e ONS divulgam notas sobre apagão que afetou PI e mais 11 estados
De acordo com a ONS, o apagão foi provocado por um curto-circuito na subestação Colinas-Imperatriz.
A Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf), responsável pela produção de energia elétrica no Piauí,
divulgou nota nesta sexta-feira (26), esclarecendo que o desligamento de energia ocorrido no final da noite
dessa quinta-feira (25) e início da madrugada de hoje não teve origem nas instalações ou equipamentos da
empresa.
Conforme informou em nota, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), houve um curto-circuito no
segundo circuito da linha de transmissão em 500 kV Colinas-Imperatriz, que faz parte da interligação entre os
sistemas Sul/Sudeste/Centro-Oeste e Norte/Nordeste.
Ainda segundo a ONS, o defeito foi eliminado pela atuação das proteções de retaguarda da subestação Colinas,
que resultou no desligamento de oito circuitos de 500 kV a ela conectados.
De acordo com a Chesf, no momento da ocorrência, a região Nordeste estava importando cerca de 2.500
megawatts de energia. Com a instabilidade provocada pelo defeito, o Sistema de Proteção da Chesf foi
automaticamente acionado, desligando os demais equipamentos associados. Por volta das 2h29 de hoje, (horário
de Brasília), as cargas começaram a ser restabelecidas.
Devido ao curto-circuito o fornecimento de energia afetou os nove estados do Nordeste, além de parte do Pará,
Tocantins e Distrito Federal.
A ONS informou ainda que haverá, às 11 horas de hoje, em Brasília, uma reunião do Comitê de Monitoramento
do Setor Elétrico para avaliação do evento e suas consequências. No Rio de Janeiro, às 14 horas, será realizada
uma reunião entre o ONS e os agentes envolvidos para a análise técnica da ocorrência.
Leia as notas da Chesf e ONS na íntegra:
Nota à Imprensa (26/10/2012)
Ocorrência afeta regiões Nordeste e Norte
À zero hora e 14 minutos de 26/10/12 houve um curto-circuito no segundo circuito da linha de transmissão em
500 kV Colinas-Imperatriz, que faz parte da interligação entre os sistemas Sul/Sudeste/Centro-Oeste e
Norte/Nordeste e que é de propriedade da empresa transmissora TAESA (uma Sociedade de Propósito
Específico cujos acionistas majoritários são a CEMIG e um fundo de investimentos). Este evento ocorreu em
uma chave seccionadora do capacitor série da linha de transmissão, que ficou danificada.
O defeito foi eliminado pela atuação das proteções de retaguarda da subestação Colinas, que resultou no
desligamento de oito circuitos de 500 kV a ela conectados.
219
Essa ação causou a separação do sistema Norte/Nordeste do restante do Sistema Interligado
Nacional (SIN) e, em seguida, a separação dos sistemas Norte e Nordeste.
Com o isolamento da região Nordeste, houve uma queda acentuada de tensão e frequência que provocou o
desligamento total das cargas dessa região, no montante de 9.500 MW.
Na região Norte, houve o desligamento de 3.400 MW, correspondendo a 77% da carga total. A cidade de
Belém não foi afetada, sendo suprida diretamente pela usina hidrelétrica de Tucuruí.
As regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste não foram afetadas pela perturbação.
No processo de recomposição do sistema, cerca de 4 horas após a ocorrência, 70% das cargas estavam
restabelecidas.
Haverá hoje, às 11 horas, em Brasília, uma reunião do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico para
avaliação do evento e suas consequências. No Rio de Janeiro, às 14 horas, será realizada uma reunião entre o
ONS e os agentes envolvidos para a análise técnica da ocorrência.
Assessoria de Planejamento e Comunicação
Operador Nacional do Sistema Elétrico
Nota Chesf
A Companhia Hidro Elétrica do São Francisco – Chesf informa que o desligamento ocorrido às 00:14 Hs de
hoje (horário de Brasília), dia 26/10/2012, não teve origem nas instalações ou equipamentos desta Empresa. O
problema foi identificado, preliminarmente, na Subestação Colinas, localizada no Estado de Tocantins.
No momento da ocorrência, a Região Nordeste estava importando cerca de 2.500 megawatts de energia. A
interrupção brusca provocou instabilidade, acionando automaticamente o Sistema de Proteção da Chesf, que
operou corretamente, desligando os demais equipamentos associados. As cargas começaram a ser
restabelecidas a partir de 02:29 Hs de hoje, (horário de Brasília), dia 26/10/2012.
Ademais, o Operador Nacional do Sistema Elétrico – ONS é o órgão responsável pela coordenação e controle
da operação das instalações de geração e transmissão de energia elétrica no Sistema Interligado Nacional –
SIN, sob a fiscalização e regulação da Agência Nacional de Energia Elétrica – Aneel, e repassará
oportunamente as informações sobre origem do desligamento em comento.
Portanto, todo o Sistema Elétrico Brasileiro está, no momento, reunido no esforço de compreender as causas
deste evento. Estima-se para ainda hoje a divulgação oficial que deverá ser feita pelo ONS.
Cordiais saudações,
Engº Aírton Freitas Feitosa
Gerente Regional de Operação Oeste
Companhia Hidro Elétrica do São Francisco
Fonte: http://portaldaclube.profissional.ws/chesf-e-ons-divulgam-notas-sobre-apagao-que-afetou-pi-emais-11-estados.html (Acesso em: 26 out. 2012).
A notícia do Quadro 36 utiliza as notas oficiais das duas companhias para
fundamentar a informação divulgada, ou seja, o que é dito na notícia de alguma forma
também é dito nas notas, embora as informações destas, na notícia, sejam simplificadas, como
a substituição da expressão “desligamento de energia” por “apagão” e a eliminação de
220
informações técnicas e outras julgadas como desnecessárias. A presença da fonte imprime
idoneidade e seriedade à informação e, por outro lado, desperta a atenção ou a curiosidade da
audiência, dando a essa a possibilidade de ter acesso ao documento oficial divulgado pelas
empresas.
A utilização de fontes oficiais não é novidade no jornalismo, haja vista que esse tipo
de texto contribui sobremaneira para a apresentação da notícia como veiculadora de fatos e
isenta de parcialidade. Esse discurso é ainda reforçado pela suposta objetividade apresentada,
do ponto de vista linguístico, com o texto escrito na 3ª pessoa do discurso. Dessa forma, a
utilização de uma fonte oriunda de uma instituição pública ou privada que goza de certa
representatividade perante a sociedade ajuda a imprimir no texto noticioso essa característica
tão cara ao gênero notícia e ao jornalismo em geral. Na Tabela 1, mostramos a relação dos
gêneros de que participam os textos-fontes principais das notícias do nosso corpus e a
quantidade/porcentagem para o total das 21 notícias com as quais trabalhamos nesta tese:
Tabela 1: Relação quantitativa dos gêneros de que participam os textos-fonte das notícias do corpus
Gêneros dos textos-fonte
Quantidade de notícias
Porcentagem aproximada
Notas
7
33%
Cartas
6
28,5%
Postagens em rede social
3
14,2%
Depoimento policial
1
4,7%
Certidão
1
4,7%
Certificado
1
4,7%
Portaria
1
4,7%
Boletim médico
1
4,7%
Total
21
100%
Pela tabela, é possível percebermos que existe uma preferência pela utilização de
documentos oficiais ou ainda por textos oriundos de setores representativos ou, mesmo,
privilegiados da sociedade. Como dissemos, a utilização desse tipo de texto como fonte
contribui para a apresentação da notícia sob a atmosfera de verdade, como um gênero que
221
veicula fatos simplesmente. Por outro lado, a apresentação ou a utilização do texto-fonte
como parte da notícia pode estar sendo feita apenas como uma forma de intensificar esse
efeito de verdade construído na notícia. Acreditamos, todavia, que é possível identificarmos
outras funcionalidades para isso, já que a utilização de fontes idôneas não é uma prática nova
no jornalismo, mas a possibilidade de inserir o texto-fonte na íntegra na construção da notícia
tem se tornado mais recorrente com o jornalismo sendo praticado na web.
O Quadro 37 mostra mais detalhadamente o tipo de fonte predominante no texto
noticioso, enumerando as manchetes das 21 notícias do corpus de trabalho desta tese e os
gêneros que os seus textos-fonte principais participam:
Quadro 37: Manchetes das notícias do corpus e gêneros de que seus textos-fonte principais participam
MANCHETES DAS NOTÍCIAS
Portal da Clube tem acesso à carta encontrada na Irmão
Guido; Confira!
Carta encontrada em presídio ordena rebelião geral; Leia
aqui!
Agentes interceptam carta que ordenava rebeliões e
assassinatos nos presídios do PI
Em cartas, pai e madrasta de Isabella declaram inocência
Em carta, Bruno pediu para Macarrão assumir assassinato de
Eliza Samudio
Ex-presidente do TJ rebate críticas à sua gestão: "O que
realizamos salta aos olhos"
Agespisa divulga nota sobre contratos com empresa
fraudadora de licitações
Estação é consertada; Agespisa volta a produzir água a partir
das 11 horas
Sesapi divulga nota sobre Operação Nosferatu deflagrada
pela Polícia Federal
CNM lamenta veto na lei de royalties, e divulga nota oficial
sobre decisão
Chesf e ONS divulgam notas sobre apagão que afetou PI e
mais 11 estados
Jovem ainda passará por exames para conclusão do
inquérito, diz MP
TEXTOS-FONTE
CARTA
(Disponibilizada no Portal
veiculador da notícia)
CARTA
(Disponibilizada no Portal
veiculador da notícia)
CARTA (Disponibilizada no
Portal veiculador da notícia)
CARTAS (Disponibilizadas
no Portal veiculador da
notícia)
CARTA
(Não disponibilizada no
Portal veiculador da notícia)
CARTA
(Disponibilizadas no Portal
veiculador da notícia)
NOTA
(Disponibilizadas no Portal
veiculador da notícia)
NOTA
(Disponibilizadas no Portal
veiculador da notícia)
NOTA
(Disponibilizada no Portal
veiculador da notícia)
NOTA
(Não disponibilizada no
Portal veiculador da notícia)
NOTAS
(Disponibilizadas no Portal
veiculador da notícia)
NOTA
(Disponibilizada no Portal
222
Paródia de Dilma ameaça 'suicídio digital' após frase
apagada pelo Facebook
Tico Santa Cruz presencia acidente em rodovia do PI e faz
relato no Facebook
Tico Santa Cruz desabafa sobre estrada do Piauí no
Facebook
Jovem violentada por 12 anos denuncia caso pelas redes
sociais; acusados são ouvidos
Menor diz em depoimento que ossos de Eliza Samudio
foram concretados
Secretaria de Segurança diz que ex-prefeita não é alvo de
investigação
Edivar é homenageado pelo Unicef
MP apura denúncias de contratação irregular de servidores
temporários
Hospital divulga boletim e diz que Kleber Eulálio sofreu
infarto
veiculador da notícia)
NOTA
(Disponibilizada no Portal
veiculador da notícia)
POSTAGEM EM REDE
SOCIAL
(Disponibilizada no Portal
veiculador da notícia)
POSTAGEM EM REDE
SOCIAL
(Disponibilizada parcialmente
no Portal veiculador da
notícia)
POSTAGENS EM REDE
SOCIAL
(Disponibilizada no Portal
veiculador da notícia)
DEPOIMENTO POLICIAL
(Disponibilizado no Portal
veiculador da notícia)
CERTIDÃO
(Disponibilizada no Portal
veiculador da notícia)
CERTIFICADO
(Disponibilizado no Portal
veiculador da notícia)
PORTARIA
(Disponibilizada no Portal
veiculador da notícia)
BOLETIM MÉDICO
(Disponibilizado no Portal
veiculador da notícia)
Como vemos no Quadro, no total de 21 notícias e seus respectivos textos-fonte
principais, temos: 1) Sete notícias fundamentadas em sete notas: seis de órgãos ou instituições
públicas e uma do responsável por um perfil fake de sucesso em redes sociais; 2) Seis notícias
fundamentadas em cinco cartas: duas cartas interceptadas em presídios, escritas por
indivíduos presos; duas escritas por um casal suspeito de um assassinato; uma escrita por um
desembargador, ex-presidente do Tribunal de Justiça do Piauí; 3) Três notícias fundamentadas
em quatro postagens na rede social Facebook: uma postagem de um cantor relatando uma
experiência sua no estado do Piauí, e outras três notas, em que uma jovem denunciava abusos
sexuais sofridos na infância e na adolescência pelo pai e pelo padrasto; 4) Uma notícia
fundamentada em um depoimento policial de um menor envolvido em um assassinato; 5)
Uma notícia fundamentada em uma certidão expedida pela Secretaria de Segurança do
Maranhão, informando que uma ex-prefeita não está envolvida em investigação por parte
223
daquele órgão; 6) Uma notícia fundamentada em um certificado expedido pelo Fundo das
Nações Unidas para a Infância – Unicef, com a homenagem do Selo Unicef Município
Aprovado; 7) Uma notícia fundamentada em uma portaria expedida pelo Ministério Público
do Piauí, apurando denúncias de contratação irregular de servidores públicos; 8) Uma notícia
fundamentada em um boletim médico sobre o estado de saúde do então prefeito de Picos, no
Piauí.
Assim, cerca de 57,1% das notícias do corpus estão fundamentadas em textos
vinculados a instituições ou órgãos que gozam de certa representatividade na sociedade e
participam de gêneros que funcionam socialmente como idôneos, como a nota oficial, o
certificado, a certidão, a portaria, o boletim médico, o depoimento policial. A presença desse
tipo de texto certamente contribui para que a informação veiculada seja recebida pela
audiência como séria, como se tratando de um fato, e isso é fortalecido ainda mais quando o
leitor pode conferir a informação no próprio documento de origem, quando este aparece
juntamente com a notícia.
A estratégia de apresentar a imagem do documento destacado como sendo o textofonte fundamental daquela notícia funciona ainda como uma “prova” do que está sendo dito.
Por outro lado, o texto da notícia pode ser altamente tendencioso e parcial, e a utilização do
texto-fonte como “prova” do fato pode inclusive funcionar para “encobrir” ou “disfarçar”
isso. É possível considerar ainda que essa presença do texto-fonte como documento ou como
“prova” do que se diz favorece a crença na suposta independência do internauta para trilhar
seus próprios caminhos na leitura das notícias dos portais, na qual este pode se sentir
independente pelo fato de poder optar por ler a notícia ou o texto-fonte que, supostamente,
compartilham as mesmas informações.
Já as cartas que aparecem em 28,5% das notícias do corpus não são documentos
oficiais, sendo algumas direcionadas à imprensa e outras a destinatários particulares, mas
estas, quando possuem um remetente declarado também podem funcionar como um
documento, em que a veracidade ou não da informação é de responsabilidade do remetente.
Dos casos presentes no corpus, apenas uma carta interceptada por agentes penitenciários em
um presídio não tem remetente definido, mas aparece na notícia como uma prova da polícia
224
para a existência de preparação de uma rebelião, e isso é tratado com bastante relevância, haja
vista que está relacionado a uma questão de segurança social.
Cartas também funcionam para chamar a atenção do leitor, despertando neste a
curiosidade para ver ou ler o que alguém em específico escreveu, principalmente, quando se
trata de cartas relacionadas a pessoas famosas ou de classe alta ou média alta. Podemos citar
como exemplos a carta escrita pelo goleiro do Flamengo envolvido no assassinato de uma
modelo e as cartas escritas pelo pai e pela madrasta de Isabella Nardoni, até então suspeitos de
assassinato da mesma, que são casos que tiveram uma grande repercussão social ao serem
cobertos pela imprensa brasileira.
Uma novidade de texto-fonte, que está intimamente relacionada ao meio digital, é a
postagem em rede social. As redes sociais estabeleceram-se com notável destaque nas
“novas” práticas comunicativas da web. Assim, ultimamente têm proporcionado a
comunicação em rede de milhões de pessoas em todo o mundo, de modo que a maioria das
pessoas que utilizam a internet para diferentes fins mantém ou já fez alguma página pessoal
ou profissional em algum desses sites. Nesse sentido, as instituições jornalísticas, assim como
outras empresas, também migraram para esses lugares, adequando-se, assim, as suas práticas
comunicativas e aos seus usuários.
Logo, a utilização de postagem em rede social como fonte de informação é
relativamente recente, já que as redes sociais no meio digital também são relativamente
recentes. Assim como a maioria das cartas, as postagens que, normalmente, são utilizadas
como fontes para as notícias apresentam casos curiosos ou polêmicos, como as postagens da
jovem que denunciou abuso sexual do pai e do padrasto, ou estão vinculadas a uma
declaração ou comentário de uma personalidade pública ou de pessoa famosa, como a
postagem do Tico Santa Cruz, vocalista da banda de pop rock Detonautas. Importante
observar que notícias que apresentam esse tipo de fonte atraem sobremaneira a atenção de
leitores.
A forma como a fonte aparece disposta na apresentação da notícia no portal
jornalístico também pode dar indícios sobre o funcionamento retórico do texto-fonte aliado à
ação recorrente realizada pela webnotícia, ao propósito comunicativo e, ainda, à realização de
225
intenções individuais ou particulares. A Tabela 2 apresenta uma relação, com base nas 21
notícias do corpus, da localização espacial do texto-fonte na apresentação da notícia no portal
jornalístico:
Tabela 2: Localização espacial do texto-fonte na apresentação da notícia no portal jornalístico
Presença/ausência do texto-fonte na
webnotícia
Imagem
Início
Meio
Fim
2 (9,5%)
1 (4,7%)
3 (14,2%)
Citação integral
--
--
9 (42,8%)
Citação parcial
--
1 (4,7%)
--
Citação integral e link para imagem
--
1 (4,7%)
--
Link para o mesmo site
--
--
1 (4,7%)
Link para outro site
--
--
1 (4,7%)
Ausência do texto-fonte
--
--
2 (9,5%)
Pelo que vemos na tabela, assim como são variados os modos de utilização dos
textos-fonte são também os de apresentação destes na notícia. Essa variedade nas formas de
apresentação espacial da fonte é possibilitada pelo meio em que circula, a webnotícia. Dessa
forma, é possível a presença de uma imagem do texto que fundamenta a notícia logo depois
da manchete, antes do corpo da notícia ou no meio do texto, com imagens intercaladas entre
os parágrafos e, ainda, no final.
O espaço que o retor dispõe no portal jornalístico para sua notícia ainda permite que
o mesmo utilize o texto-fonte na íntegra, ao final do texto noticioso ou parcialmente ao longo
da notícia, bem como, além de citar integralmente o texto-fonte, fornecer uma imagem
original do texto, com um link para o mesmo site ou para um site diferente. O retor pode
também optar por construir sua notícia a partir da utilização de um texto-fonte principal e não
inserir o texto-fonte para leitura direta do leitor, cabendo este, caso queira ter acesso,
pesquisar, na web, pelo texto-fonte a partir das pistas deixadas na notícia.
Acreditamos que a localização desse texto-fonte pode ainda colaborar na produção
de sentidos da notícia, uma vez que sua presença na configuração do texto noticioso não é
devida apenas ao espaço disponibilizado ao jornalista pelo portal. Assim, a maneira como os
226
elementos estruturais se organizam na webnotícia fazem parte da estratégia do retor para a
ação que o mesmo realiza através desse gênero. Essa ação, por sua vez, tanto está relacionada
aos elementos de forma e substância da notícia, como à situação retórica e ao propósito
comunicativo a ser alcançado através do gênero. Nesse sentido, a análise da situação retórica
recorrente da webnotícia se mostra como um passo fundamental para uma descrição
sociorretórica desse gênero, uma vez que é através dela que poderemos entender e
contextualizar as práticas sociais recorrentes realizadas com o gênero.
6.2 A situação retórica recorrente da webnotícia
Os gêneros respondem às exigências que aparecem como um problema a ser
resolvido através do discurso dentro de uma situação retórica recorrente. A noção de situação
retórica apresentada por Miller (2009 [1984]) é aproveitada de Bitzer (1968), que reflete sobre
o fato de que situações comparáveis nos levam também a respostas comparáveis. Logo, essas
respostas comparáveis constituem-se a partir de formas recorrentes de discurso, que, por sua
vez, vão restringindo o modo de apresentação de novas respostas, e formando, assim, uma
tradição. Segundo Miller (2009 [1984]), nós aprendemos formas apropriadas de responder
retoricamente às demandas sociais, e, quando agimos, de alguma forma já sabemos possíveis
efeitos que a nossa ação retórica terá sobre as outras pessoas.
A teoria de gêneros denominada, na literatura da área, de Sociorretórica parte do
princípio que as situações retóricas são recorrentes, de modo que a recorrência é entendida
acerca da compreensão social que os sujeitos fazem das situações que lhes aparecem como
comparáveis, similares, a outras situações, por sua vez, únicas, “irrepetíveis”, muito embora
sejam semelhantes. Nesse sentido, como descrever e entender a situação retórica recorrente da
webnotícia? Primeiramente, precisamos entender o contexto de produção desse gênero.
Como vimos, no capítulo 1, os chamados portais de notícia são ambientes ou sites da
internet que nasceram em decorrência do avanço tecnológico que propiciou uma revolução
nos sistemas de comunicação e nos padrões de interação das pessoas. Hoje, são extremamente
227
diversificadas as formas de interação entre os usuários da web, de modo que, para um
estudioso de gêneros, ao mesmo tempo em que a internet se mostra como um campo fértil de
estudo, é um terreno ainda desconhecido, bastante complexo, onde gêneros nascem e
desenvolvem-se e, até mesmo, desaparecem muito rapidamente. Assim, torna-se mais difícil
explicar o funcionamento e classificar práticas sociais e retóricas bastante mutáveis.
Já no caso dos portais jornalísticos, muito do que se fazia nas redações de jornais
impressos foi adaptado para o ambiente online. Nesse sentido, as novas práticas nasceram
apoiadas nas velhas, mas a internet deu a possibilidade de esses portais incorporarem, as suas
práticas comunicativas, recursos tecnológicos do meio, fazendo com que o jornalismo
praticado na web se diferenciasse cada vez mais do jornalismo praticado fora da web. Por
outro lado, estando na internet, o jornalismo foi se adaptando às demandas situacionais que
exigiam “respostas diferentes” daquelas normalmente utilizadas fora daquele ambiente.
A webnotícia, por sua vez, funciona como uma resposta retórica a uma exigência
retórica, decorrente de uma situação que também é retórica. Até o final desta seção
buscaremos explicar essa afirmação. Inicialmente, pensemos a webnotícia como uma
resposta. Mas resposta a quê? Historicamente, as notícias informam sobre acontecimentos,
eventos e pessoas que apresentam alguma relevância para a sociedade. Dessa forma, podemos
perceber que os temas tratados em notícias são recorrentes, no sentido de que esses temas
podem ser organizados em diferentes categorias, como notícias sobre política, economia,
ocorrência policial, esporte, entretenimento, promoção, moda etc. Essas categorias já
direcionam parcialmente as notícias para a audiência visada pelo retor.
Por outro lado, embora a webnotícia seja um tipo específico do gênero notícia, sua
caracterização não acontece principalmente a partir dos temas que a mesma aborda, haja vista
que também existem webnotícias policiais, políticas, de esporte, de entretenimento etc.. É
preciso considerar sobremaneira o meio, a internet, bem como o suporte onde a notícia é
fixada, o portal jornalístico. São notícias que ao mesmo tempo em que representam o gênero
notícia no sentido definido por Van Dijk (1990 [1988]), como informações recentes
veiculadas pelos meios jornalísticos, são distintas porque são produzidas para circular na
internet.
228
No caso das webnotícias que formam o corpus deste trabalho, temos exemplares de
textos que respondem (ou responderam) a uma situação retórica recorrente, mas esses textos
são construídos, basicamente, a partir de outros, porque juntamente com o funcionamento
social da webnotícia, investigamos o processo de retextualização acontecendo numa situação
real de comunicação, na construção da notícia. Os textos-fonte tomados como base de
informação, na situação social em que foram originalmente produzidos, certamente
funcionaram como respostas retóricas, mas essas respostas são diferentes da resposta retórica
da notícia.
Então, poderíamos pensar que, nesse caso, temos uma “mesma” informação sendo
utilizada em situações retóricas diferentes e respondendo a exigências retóricas também
diferentes. O texto-fonte que fundamenta a notícia participa de um gênero e é produzido numa
situação retórica específica, cumprindo uma função. Mas esse mesmo texto desencadeia um
novo texto, que, noutra situação retórica específica, cumpre outra função.
Essa “mesma” informação em diferentes situações tem efeitos diferentes. Logo a
informação expressa a partir desse conteúdo ou substância está diretamente relacionada ao
lugar social em que o gênero no qual ela será expressa circula. Esse lugar social, por sua vez,
é quem fornece, por exemplo, as bases para a escolha do gênero em que a informação vai se
apresentar e, portanto, ao que este vai responder. Essa dinâmica nos faz perceber que, de fato,
são as práticas sociais que governam a comunicação e que o gênero se define basicamente
pela ação social que realiza. No Quadro 38, apresentamos um primeiro exemplo a partir do
qual começamos a discutir essa utilização do gênero como resposta:
229
Quadro 38: Exemplo de notícia e a utilização do gênero como resposta
NOTÍCIA
Edivar é homenageado pelo Unicef
O ex-vice-prefeito de Timon, Edivar Ribeiro (foto), recebeu recentemente uma homenagem que lhe rende
motivos de sobra para comemorar. Ele foi homenageado por ninguém menos que Gery Stahl, representante do
Unicef no Brasil.
Através de um certificado que lhe foi enviado, o Fundo das Nações Unidas para a Infância diz reconhecer a
dedicação e compromisso dele quando dirigiu a Secretaria Municipal de Assistência Social, a SEMDES.
A gestão do ex-vice-prefeito e secretário foi aprovada pelo UNICEF no período de 2009 a 2012, sendo
apontado o município de Timon como um dos que mais avançou nas garantias dos direitos das crianças e
adolescentes.
Embora seja datado de novembro do ano passado, Edivar Ribeiro contou que somente nesta quarta-feira o
certificado chegou a sua casa.
"Já tinhamos ganho o Selo Suas, do Sistema Único de Assistência Social, agora com o certificado do Unicef
ficamos com o sentimento do dever cumprido", avalia ele.
Fonte: www.portalaz.com.br/blogs/elias_lacerda (Acesso em: 06 jun. 2013).
A notícia mostrada no Quadro 38 é devida a um certificado do Fundo das Nações
Unidas para a Infância e a Juventude (UNICEF), reconhecendo a dedicação e o compromisso
de um indivíduo para a realização de atividades do Programa Selo Unicef Município
Aprovado Edição 2009-2012. Nesse caso, a notícia está fundada basicamente sobre esse
230
certificado, cuja imagem está destacada entre a manchete e o corpo da notícia. Teoricamente,
temos aí dois textos cumprindo diferentes papeis.
O certificado reconhece o trabalho do indivíduo, em prol das crianças e adolescentes
da cidade de Timon, no Maranhão. Assim, sempre que um gestor dos municípios do
semiárido e da Amazônia Legal Brasileira se destaca no desenvolvimento de ações,
programas e políticas públicas em favor da criança e do adolescente, mostrando resultados
positivos, o UNICEF premia essa pessoa com o Selo UNICEF Município Aprovado através
da expedição de um certificado que reconhece formalmente o trabalho desenvolvido.
Logo, podemos ver que a situação retórica é constituída em decorrência dos
resultados positivos do trabalho de gestores públicos em prol das crianças e dos adolescentes,
e a recorrência é percebida através das outras situações similares em que outros gestores
públicos também desenvolveram trabalhos com resultados semelhantes. Nesse caso, a
exigência nasce, justamente, a partir da “necessidade”, interpretada pelo UNICEF como tal,
de se reconhecer formalmente esse tipo de trabalho, e o fato de o Fundo das Nações Unidas
para a Infância e a Juventude certificar retoricamente essas pessoas contribui ainda mais para
a recorrência da situação.
O certificado responde retoricamente à necessidade de reconhecimento do trabalho
dos gestores instaurada por essa situação que se configurou mais especificamente a partir do
momento em que o UNICEF criou o Selo UNICEF Município aprovado. Dessa forma, temos
um caso em que o gênero inicialmente cria a situação, favorecendo o aparecimento e o
fortalecimento de uma exigência retórica que se configurou sobre as bases de uma
determinada situação.
A partir do certificado, temos a webnotícia que divulga publicamente a informação e
o próprio certificado, favorecendo, com isso, o indivíduo em questão. O propósito de
divulgação do certificado é tão claro que a imagem do mesmo aparece destacada entre a
manchete e o corpo da notícia. Nesse caso, o texto-fonte perde a sua função inicial, de
reconhecimento do trabalho de alguém, e se torna um instrumento de promoção e divulgação
pública de uma imagem positiva dessa pessoa noutra ocasião. A manchete destaca que
“Edivar é homenageado pelo Unicef” e, no corpo da notícia, somos informados que Edivar é
231
ex-vice-prefeito de Timon. Vejamos que o certificado destaca a pessoa Edivar de Jesus
Ribeiro, ao passo que a notícia destaca a condição social deste de ser ex-vice-prefeito de
Timon e secretário municipal e de ter sido homenageado “por ninguém menos que Gery Stahl,
representante do Unicef no Brasil”.
Podemos afirmar que, a priori, a situação retórica é a “mesma” para todas as
webnotícias. Elas são divulgadas sob o pressuposto da necessidade de divulgar, de tornar
pública uma informação relevante, que chame a atenção ou que desperte o interesse de uma
determinada audiência. Os portais jornalísticos têm grupos de pessoas especializadas em
realizar esse trabalho de “utilidade pública”, que é levar informações recentes e relevantes às
pessoas. Já faz parte da cultura das sociedades, a existência desses grupos, bem como de suas
práticas retóricas, sendo que a audiência, inserida nessa cultura, vê nesses grupos a missão de
divulgar informações em prol de um bem comum.
Acontece que, dentro da recorrência da situação em que se observa a necessidade de
se informar sobre acontecimentos recentes, desenvolvem-se ainda intenções particulares e
propósitos específicos que são mesclados a essa configuração ideal da situação retórica
recorrente da notícia e são realizados através da ação social desenvolvida pelo gênero. Logo, é
necessário entendermos que a análise de casos específicos nos mostra que, dentro da situação
retórica recorrente, que exige que informações sejam divulgadas para a sociedade,
determinadas intenções são realizadas, envolvendo o favorecimento ou o beneficiamento de
atores sociais.
Na notícia mostrada no Quadro 38, o fato de o ex-vice-prefeito ter tido um trabalho
reconhecido pelo Unicef foi avaliado como tendo relevância e, portanto, sendo digno de ser
divulgado para o grande público, através de uma notícia, que, supostamente, apenas cumpre o
papel de divulgar objetivamente essa informação. Assim, tal fato é considerado como fazendo
parte da situação retórica recorrente, que exige que informações importantes sejam
divulgadas, sendo que o gênero mais utilizado nessa comunidade retórica para cumprir esse
papel é a notícia. Porém, são os sujeitos que fazem parte da comunidade retórica que
escolhem e decidem o valor informativo dos acontecimentos e quais desses atendem à
exigência retórica a ser resolvida através do gênero notícia. Nesse caso, o gênero notícia vai
moldar essa informação como resposta à exigência retórica gerada pela situação.
232
Assim, na notícia, mais importante do que a informação divulgada é a ação social
realizada com essa informação, haja vista que a escolha do que é recente e suficientemente
relevante para ser divulgado numa notícia não somente atende a uma exigência retórica
gerada a partir da situação. Por ser produzida pelos sujeitos da comunidade retórica, estes
podem optar por divulgar uma informação para atender a interesses particulares, individuais
ou do grupo, favorecendo ou desfavorecendo a imagem de alguém ou de algo.
O Quadro 39 mostra uma notícia fundamentada sobre um boletim médico. Ambos os
textos informam sobre o estado de saúde de uma pessoa específica, nesse caso, o paciente
Kleber Dantas Eulálio, no boletim médico, e o prefeito de Picos Kleber Eulálio, na notícia:
Quadro 39: Exemplo de notícia com destaque no papel social do sujeito
TRECHO DE NOTÍCIA
Hospital divulga boletim e diz que Kleber
Eulálio sofreu infarto
sábado, 21 de setembro de 2013 • 16:56
[...]
Em boletim médico sobre estado de saúde do prefeito
de Picos, médicos confirmam que Kleber Eulálio
sofreu infarto agudo do miocárdio. O prefeito foi
submetido neste sábado (21) a um cateterismo
cardíaco, com desobstrução da artéria coronária
descedente anterior e com implante de Stent (uma
estrutura metálica que garante a passagem do sangue).
De acordo com o boletim médico, o procedimento
cirúrgico transcorreu sem complicações e o prefeito
tem apresentado quadro clínico satisfatório.
BOLETIM MÉDICO
BOLETIM MÉDICO
O paciente Kleber Dantas Eulálio apresentou quadro
de Infarto Agudo do Miocárdio na noite de dia
20/09/2013 na cidade de Picos. Foi transferido para o
Hospital de Terapia Intensiva (HTI Norte) onde foi
submetido a Cateterismo Cardíaco com desobstrução
da Artéria Coronária Descendente Anterior com
implante de Stent. O procedimento transcorreu sem
complicações e o paciente tem evolução clínica
satisfatória.
Kleber Eulálio foi internado no final da noite de
ontem, sexta-feira (20), por volta das 23h, com dores
no peito e sudorese, que segundo os médicos eram
decorrentes de uma angina. Esta é causada pelo
estreitamento das artérias que conduzem sangue ao
coração.
Veja o boletim:
Fonte:
http://www.portalaz.com.br/noticia/municipios/276791_hospital_divulga_boletim_e_diz_que_kleber_eulal
io_sofreu_infarto.html (Acesso em: 22 set. 2013, grifos nossos).
O boletim médico informa sobre o estado de um paciente que sofreu um problema
grave de saúde e precisou passar por uma intervenção cirúrgica. As informações do boletim,
por sua vez, são transformadas na notícia cuja manchete é “Hospital divulga boletim e diz que
233
Kleber Eulálio sofreu infarto”, em que o mesmo paciente do boletim é apresentado como o
prefeito na notícia, justificando, com isso, a relevância da informação publicada. Todos os
dias, várias pessoas enfartam e são internadas por causa disso, muitas são submetidas a um
cateterismo e a outros procedimentos, e outras morrem. Nesse caso, porém, quem enfartou foi
o prefeito de Picos e isso é interpretado como relevante para a sociedade, nem que seja para a
sociedade de Picos.
Assim, mais uma vez, essa notícia é encaixada como uma resposta à exigência
decorrente da situação retórica recorrente da webnotícia. O fato de muitas pessoas enfartarem,
mas somente o infarto do prefeito ser suficientemente relevante para constituir matéria para
uma notícia, nos mostra uma questão importante acerca do gênero notícia e da situação
retórica em que essa é produzida. Os valores informativos das notícias estão relacionados às
estruturas bastante definidas da sociedade e aos papeis sociais desenvolvidos pelos sujeitos.
A necessidade de informar “relevâncias” para a sociedade é construída pelas práticas
sociais que constituem a situação retórica recorrente da notícia, que, por outro lado,
determinam o que é ou não relevante e, portanto, o que vai ser veiculado através desse gênero.
Essa determinação, por sua vez, é condicionada ainda pela necessidade de chamar a atenção
da audiência, haja vista que essa é disputada por vários portais jornalísticos que desenvolvem
a mesma atividade de “informar” através de notícias.
Logo, informar sobre acontecimentos envolvendo pessoas públicas, como políticos,
artistas, desperta a atenção da audiência. Não podemos esquecer que existem diferentes
padrões ou perfis de audiências, mas também existem diferentes padrões e perfis de notícias,
que acabam por atender as “necessidades” de pessoas com diferentes interesses. Mesmo sendo
coletadas na página identificada como “Geral” nos portais, onde são publicadas notícias sobre
conteúdos diversos, cerca de 50% das que constituem o corpus deste trabalho envolvem casos
policiais ou de investigação. Abaixo, listamos os assuntos abordados por elas:
 Intercepção de uma carta em presídio de Teresina, ordenando rebelião geral.
 Divulgação de depoimento de menor envolvido no assassinato supostamente
encomendado pelo ex-goleiro do Flamengo, famoso time de futebol no país.
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 Especulações sobre carta escrita pelo ex-goleiro do Flamengo ao amigo “Macarrão”,
ambos envolvidos no assassinato de uma modelo.
 Divulgação de cartas em que um casal de classe média alta, até então suspeito, declara
inocência do assassinato de uma menina.
 Divulgação de nota da Secretaria de Saúde do Piauí (Sesapi) sobre operação realizada
pela Polícia Federal.
 Divulgação de postagens em rede social de uma jovem que denunciava abusos sexuais
do pai e do padrasto.
 Divulgação de nota do Ministério Público sobre investigação sobre o caso da jovem
que denunciou em rede social abusos sexuais do pai e do padrasto.
 Divulgação de certidão de Secretária de Segurança informando que uma ex-prefeita
não é alvo de investigação.
 Divulgação de portaria do Ministério público sobre apuração de denúncias de
contratação irregular de servidores públicos.
 Divulgação de nota da Sociedade de Águas e Esgotos do Piauí S.A (Agespisa) sobre
contratos fraudulentos de licitações.
 Divulgação de nota da Agespisa sobre reabastecimento de água na capital Teresina.
 Divulgação de nota da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), lamentando o
veto da Presidência à Lei dos Royalties.
 Divulgação de notas de esclarecimento da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco
(Chesf) e do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) sobre desligamento de
energia que afetou 12 estados da Federação, incluindo o Piauí.
 Divulgação de carta de desembargador, rebatendo críticas a sua gestão no Tribunal de
Justiça do Piauí.
 Divulgação de certificado do Unicef homenageando um ex-vice-prefeito.
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 Divulgação de boletim médico sobre infarto de um prefeito.
 Divulgação de nota de um responsável por um perfil fake em redes sociais,
denunciando censura a uma postagem sua no Facebook.
 Divulgação de postagem em rede social de um cantor famoso, relatando uma
experiência sua numa rodovia do Piauí.
A partir da lista dos assuntos abordados pelas notícias, vemos que há uma
predominância no tratamento de eventos relacionados a casos policiais e a investigações, bem
como a informações oficialmente divulgadas ou relacionadas a instituições públicas ou que
desenvolvem serviços de utilidade pública ou para o bem coletivo (Secretaria de Saúde,
Secretaria de Segurança, Ministério Público, Confederação Nacional dos Municípios (CNM),
Sociedade de Águas e Esgotos do Piauí (Agespisa), Companhia Hidro Elétrica do São
Francisco (Chesf), Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Fundo das Nações Unidas
para a Infância (Unicef)). Outros casos destacam mais especificamente atores sociais, pessoas
que são conhecidas socialmente e que têm certa representatividade perante algum grupo
social, o desembargador, o prefeito, o ex-vice-prefeito, o responsável pelo perfil fake famoso
no Facebook, o cantor.
Sobre esses atores sociais, temos também duas notícias de âmbito policial, tratando
de um assassinato associado a um ex-goleiro do Flamengo, que recebeu destaque da imprensa
na época em que aconteceu, justamente, por estar relacionado ao então goleiro de um dos
times de futebol mais famosos do país. Normalmente, notícias que envolvem escândalos de
pessoas famosas ou conhecidas chamam a atenção do público, porque despertam neste a
curiosidade sobre a intimidade ou a vida de uma pessoa pública. Logo, qualquer novidade
sobre algo que tenha acontecido vai contribuindo para a construção de novas notícias sobre o
caso, que, muitas vezes passa a ser coberto pela imprensa com certo sensacionalismo, atraindo
cada vez mais a atenção da audiência.
Por outro lado, há eventos abordados pelas notícias que se destacam pela
originalidade ou ainda por não se tratar de algo comum, como a denúncia numa rede social de
abusos sexuais sofridos, ou que causam comoção social, como o assassinato de uma criança
pelo próprio pai e pela madrasta. Em alguns desses casos, as pessoas envolvidas, antes
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anônimas, passam a ser conhecidas da audiência através das notícias sobre o caso que as
envolve, de modo que também passam a receber uma atenção especial tanto pelas notícias
como pela audiência.
Como os portais procuram mostrar que as informações divulgadas ali têm
credibilidade, ao mesmo tempo em que é preciso fazer crer que aquela informação é
relevante, é preciso fazer crer que a notícia divulga fatos sociais. Assim, a situação retórica da
webnotícia tem contribuído para que o texto-fonte seja aproveitado como uma estratégia
retórica, não somente no sentido de se apropriar das informações deste para construir a
notícia, mas na utilização deste, tal como foi escrito na sua situação de origem, em função da
notícia e da ação social realizada através desse gênero.
Logo, dá ao leitor a possibilidade de ter acesso ao texto-fonte da informação
publicada torna a notícia mais atrativa. Em muitos casos, parece que a notícia, em si, é
secundária, porque a presença do texto-fonte tem mais relevância do que o fato noticiado, de
modo que a fonte já é apresentada como destaque na manchete da notícia, como mostra o
exemplo do Quadro 40:
Quadro 40: Exemplo de notícia com destaque na apresentação do texto-fonte
NOTÍCIA
Em cartas, pai e madrasta de Isabella declaram inocência
Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá divulgaram cartas nesta quinta-feira (3). Justiça de São Paulo
decretou prisão de casal na quarta-feira (2).
O pai e a madrasta da menina Isabella Nardoni, de 5 anos, que caiu ou foi jogada do 6º andar de um prédio na
Zona Norte de São Paulo, divulgaram nesta quinta-feira (3) cartas nas quais afirmam não serem culpados pela
morte da criança e dão detalhes do relacionamento com Isabella.
Veja a íntegra da carta do pai
Veja a íntegra da carta da madrasta
Nos textos, Alexandre Nardoni, de 29 anos, e Anna Carolina Jatobá, de 24, dizem que não tinham se
pronunciado ainda porque acreditavam “que o caso seria solucionado” e que acreditam que a “verdade
prevalecerá”.
O casal teve a prisão temporária decretada na quarta-feira (2) pelo 2º Tribunal do Júri do Fórum de Santana.
Segundo o delegado-adjunto do 9º Distrito Policial (Carandiru), Frederico Rehder, os advogados do casal foram
notificados da decisão no final da noite de quarta. De acordo com a assessoria de imprensa do Tribunal de
Justiça (TJ), a prisão é de 30 dias e pode ser prorrogada por mais 30.
O pai de Isabella já foi procurado pelos policiais na casa de seu pai. Sem entrar na residência, a polícia foi
informada que nenhum dos suspeitos estava lá. Equipes policiais buscam o pai e a madrasta de Isabella nas
casas de familiares. De acordo com a polícia, eles serão considerados foragidos depois de todas as
possibilidades de encontrá-los se esgotarem.
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Leia a íntegra da carta do pai:
"Eu, como pai de três filhos, posso dizer sem dúvida uma coisa: que a Isabella é o maior tesouro da minha vida.
Tenho outros filhos meninos, mas a minha menininha era a princesa da casa. A Isabella sempre foi muito
carinhosa comigo e com os irmãos dela. Costumava dizer que era a mamãe do meu filho mais novo, o Cauã, e
defendia o do meio, Pietro, acima de tudo. Quando me dei conta que tinha perdido minha Isabella, senti naquele
momento que meu mundo acabou. Não sei como caminhar.
Todos estão me julgando sem ao menos me conhecer. Não faria isso com ninguém, muito menos com minha
filha. Amo a Isabella incondicionalmente e prometi a ela, em frente ao seu caixão, que, enquanto vivo, não
sossego enquanto não encontrar esse monstro. Tiraram a vida da minha princesa de uma maneira trágica e não
me permitem sentir falta dela, pois me condenam por algo que não fiz. Minha filha, como os irmãos dela, são
tudo na minha vida. Eu estou sem rumo, mas confio que Deus me dará forças para vencer esses obstáculos,
mostrando o caminho certo para a justiça.
Quero a minha filha bem, em paz, e tenho plena certeza, e consciência tranqüila do meu amor, amor que tenho
por ela. Pois por mais que me julguem, só eu e minha filhinha sabemos a dor que estamos sentindo. E o mais
importante é que 'Isa' sabe o pai que fui para ela. Minha mãe está à base de calmante por falta do nosso 'botão
de rosa', como ela diz. Meu pai chora quando lembra dela e quando assiste a cada reportagem. Minha irmã e
minha mãe choram pelo que estão fazendo.
Tenho muito mais a dizer, mas espero que um dia me escutem como pai que sofre por sua filha, e não como um
monstro, que não sou. Nós não tínhamos feito nenhuma declaração ainda porque acreditávamos que o caso seria
solucionado. Nós não somos os culpados, e ainda encontrarão o culpado. Dessa forma, não precisaríamos
mostrar a nossa imagem, porque o nosso sofrimento é muito grande. Só que nos acusam e queremos mostrar o
que realmente estamos sentindo. A verdade sempre prevalecerá."
Leia a íntegra da carta da madrasta:
“Amor da minha vida, você é e sempre será tudo na minha vida, na do Titi e do Alemão. Isa, a Tia Carol te ama
muito e te amarei. Sei que a palavra madrasta pesa ao ouvido dos outros, mas para ‘Isa’ sei que eu era a Tia
Carol. Amo ela como amo aos meus filhos. Eu tenho minha consciência tranqüila do carinho com que sempre a
tratei.
Ela adorava me ajudar a cuidar dos irmãos e até ensinou o mais novo a andar. Ele trocava meu colo para ficar
com ela.
O Pietro chamava a ‘Isa’ todos os dias e só passou a ir à escola quando a ‘Isa’ estudava lá. Adorava fazer tudo
para agradá-lo. Ela e o Pietro ligavam sempre para que eu a buscasse. Brincávamos ela, eu e o Pietro de
musiquinhas, ciranda e casinha.
Eu, Alexandre e minha sogra fizemos o quarto dela como ela sempre sonhou. Compramos o baú do Hello Kitty.
Ela adorava as princesas da Disney e compramos um abajur. Mas, acima de tudo isso, o carinho era o que mais
contava.
Então, o que tenho a dizer, é que Isabella era tudo para todos nós e tenho fé que encontraremos quem fez essa
crueldade com nossa pequena.
Não tínhamos dado nenhuma declaração, pois acreditávamos que o caso seria solucionado. Somos inocentes e a
verdade sempre prevalecerá.”
Fonte: http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL386926-5605,00EM+CARTAS+PAI+E+MADRASTA+DE+ISABELLA+DECLARAM+INOCENCIA.html (Acesso em:
03 mai. 2008).
O conteúdo abordado na notícia mostrada no Quadro 40 traz um desdobramento de
um acontecimento que já vinha sendo coberto pela imprensa, tanto que a manchete apresenta
os envolvidos no caso como pessoas conhecidas do leitor. A imprensa em geral, tendo em
vista a comoção da audiência em relação à morte da criança, transformou esse caso num
grande acontecimento, que passou a receber bastantes especulações e julgamentos, tanto por
parte dos jornais quanto das audiências.
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A notícia em questão trata basicamente da divulgação de cartas escritas pelo pai e
pela madrasta até então suspeitos da morte da criança Isabella, mas o texto noticioso recupera
informações desses textos e também de outras fontes a fim de contextualizar o conteúdo das
cartas. Em todo caso, o que é mais importante nessa notícia é a apresentação dos textos-fonte
para o leitor, que são disponibilizados para leitura direta tanto dos manuscritos, a serem
visualizados através de links (“Veja a íntegra da carta do pai”; “Veja a íntegra da carta da
madrasta”) que abrem duas novas janelas com as imagens dos textos e, ainda, do mesmo
conteúdo digitado, que pode ser lido logo abaixo do texto da notícia (“Leia a íntegra da carta
do pai”; “Leia a íntegra da carta da madrasta”).
Importante perceber que o portal não faz claramente uma tomada de posição se os até
então suspeitos são culpados ou não, mas destaca no subtítulo e no corpo da notícia que a
prisão dos dois já foi decretada desde a quarta-feira (2), embora o casal suspeito tenha
divulgado os textos na quinta-feira (3), momento em que já era procurado pela polícia. Ainda
assim, o leitor é motivado a ver e a ler as cartas, supostamente, chegando as suas próprias
conclusões sobre o envolvimento ou não dos suspeitos no assassinato da menina.
Ressaltamos, no capítulo 1, que um dos diferenciais apontados pelos estudiosos do
Jornalismo e da Comunicação Social para o jornalismo na internet ou webjornalismo é que o
leitor tem independência de trilhar seu caminho na leitura das notícias, devido as
possibilidades do hipertexto proporcionadas por aquele meio digital. Porém, naquele mesmo
capítulo, argumentamos que, diferentemente do que esses autores defendem, o leitor já tinha
independência na sua leitura desde o jornal impresso, até mesmo porque nada garante que
neste são feitas sempre leituras lineares.
No caso dos portais jornalísticos, as notícias são elaboradas para fazer com que o
leitor se sinta mais independente, quando este é levado a crer que, lendo a notícia e/ou a fonte
em que esta se fundamenta, está podendo ter acesso aos fatos e constatar o que realmente
aconteceu. Na verdade, trata-se de uma estratégia para atrair a atenção da audiência e para
imprimir idoneidade e credibilidade à instituição jornalística. Por outro lado, com o textofonte aparecendo como parte da notícia, o jornalista ganha tempo na elaboração do seu texto,
favorecendo, assim, a rapidez que caracteriza a produção e circulação de informações do
jornalismo da web.
239
A notícia, sendo um dos gêneros jornalísticos, é produzida por um domínio
discursivo bem consolidado, que é mantido e fortalecido, basicamente, com a publicação de
notícias e de outros gêneros vinculados a essa esfera social. Nesse caso, a recorrência da
situação retórica do gênero notícia é percebida pela recorrência das práticas jornalísticas na
produção desse gênero, que, vinculadas à nossa cultura, são vistas como fazendo parte da
sociedade e, dessa forma, como sendo necessárias para a vida das pessoas. Conforme Devitt
(2004), a cultura influencia a forma como a situação é construída e como ela é vista como
recorrente nos gêneros, já que, simplificadamente, pode ser entendida como o conjunto
partilhado de contextos materiais e comportamentos aprendidos, valores, crenças e modelos.
Podemos afirmar que nos acostumamos a ler jornais, a ouvir as notícias no rádio ou
vê-las na televisão, de modo que isso foi se transformando na forma recorrente de ter acesso
às informações “atuais”, vistas como recentes, importantes ou, até mesmo, bizarras. Com a
internet, nos acostumamos a acessar os portais jornalísticos para ter acesso a essas
informações, repetindo nossos velhos hábitos e, ao mesmo tempo, incorporando a esses as
novidades proporcionadas pelo meio virtual.
Não sabemos, porém, exatamente, quando e como tudo isso começou a fazer parte da
nossa cultura, porque, enquanto sujeitos participantes, temos consciência que os costumes, os
valores e as práticas sociais são mutantes, mas não paramos para avalia-los ou ainda para
observar quando começam ou quando surgem na nossa vida. Assim, nós também
contribuímos para a recorrência da situação retórica da webnotícia, pois fazemos parte dela,
inclusive no sentido de perceber e reconhecer a notícia como um tipo de discurso que possui
uma funcionalidade social e que é produzida em determinadas circunstâncias por retores
específicos. Nesse sentido, o retor percebe uma exigência retórica que se apresenta como um
problema a ser resolvido por meio da linguagem, a notícia é escolhida como a forma
discursiva mais adequada para isso, mas a audiência também recebe essa resposta como
válida porque reconhece nesta uma forma discursiva adequada para desempenhar uma função
já conhecida, realizando assim uma ação social.
Miller (2009 [1984]) afirma que, como nosso estoque de conhecimentos está baseado
em tipos, por isso fazemos determinações comuns de estados de coisas materiais, que podem
ter muitas interpretações possíveis. Mas o que recorre na situação não é uma configuração
240
material dos objetos, dos eventos ou das pessoas, nem mesmo uma configuração subjetiva ou
individual, mas uma percepção coletiva fundamentada nas similaridades das situações. Para
agir retoricamente, nós interpretamos uma situação, mas nós também interpretamos as
situações para reconhecer, enquanto audiência, a ação dos retores.
O que nos aparece como novo é entendido como fazendo parte de novas
experiências, segundo Devitt (2004). Mesmo que o gênero nasça vinculado a uma situação, o
seu nascimento acontece a partir de outros gêneros ou de tipos preexistentes, quando os
gêneros mais velhos não atendem ou não mais se adequam às determinações da situação.
Normalmente, há recorrência quando o uso retórico de uma tipificação nova atende à
demanda-resposta de uma situação. O “novo” tipo discursivo passa, portanto, a fazer parte do
nosso estoque de conhecimento, para ser utilizado quando estivermos diante de uma situação
que nos pareça conveniente ou apropriada (DEVITT, 2004).
Na webnotícia, não podemos afirmar que temos um novo gênero, embora a situação
retórica recorrente da notícia produzida no jornalismo impresso seja parcialmente diferente da
notícia produzida pelo jornalismo na internet. Mas com a situação retórica sendo parcialmente
alterada, a tendência foi que o gênero se adaptasse às “novas” exigências, fazendo com que a
notícia do portal se tornasse diferente da notícia do jornal. Não temos o objetivo de comparar
essas duas modalidades do gênero, mas é importante destacarmos que a notícia produzida
especialmente para circular na internet se utiliza de recursos do meio digital que podem não
ser possíveis no meio impresso. A Figura 12 mostra uma das notícias que trabalhamos nesta
Tese no suporte em que foi publicada, em sua configuração original:
241
Figura 12: Exemplo de notícia na configuração original no portal em que foi publicada
Fonte: http://www.portalodia.com/noticias/policia/mp-divulga-nota-sobre-denuncia-de-jovem-abusadapor-pai-e-padrasto-173168.html (Captura de tela feita em: 22 mai. 2014).
242
A partir do que mostra a Figura 12, vemos a notícia fixada no seu suporte original, o
portal jornalístico. A estrutura do texto é formada basicamente por manchete, subtítulo, corpo
da notícia e nota oficial do Ministério Público do estado do Piauí, que é o texto-fonte
principal. Além desses, ainda existe um link que redireciona a página para notícias publicadas
anteriormente sobre o mesmo caso. No processamento da informação para a construção da
notícia, a presença total ou parcial do texto-fonte faz parte das possibilidades que dispõe o
retor para a ação social a ser realizada a partir daquele gênero, que, nesse caso, tem como
suporte o portal jornalístico.
Importante ainda perceber que, quando montávamos o corpus deste trabalho, essa
notícia foi coletada no dia 22 de maio de 2013, e, nesse dia, ela tinha como manchete “Jovem
ainda passará por exames para conclusão de inquérito, diz MP”. Porém, já no dia seguinte, a
notícia tinha sido atualizada e se apresentava com outra manchete “Jovem que denunciou pai
e padrasto ainda passará por exame”, e nossa captura de tela não foi feita no momento da
coleta do texto. Embora o restante do texto permanecesse exatamente igual, a atualização da
notícia, com a alteração da manchete, foi possibilitada pelo conjunto de affordances do meio,
algo que não é comum no jornal impresso, por exemplo, de a mesma notícia aparecer com um
título num dia e outro no dia seguinte.
Normalmente, nos portais jornalísticos, são informados a data e o horário da última
atualização das notícias, e isso é feito recorrentemente, sendo, inclusive, uma característica da
webnotícia. Como essas são constantemente atualizadas, com o acréscimo, correção, alteração
e eliminação de informações, a data e o horário da última atualização na publicação faz parte
da exigência da situação retórica recorrente do gênero.
Como já dissemos, a exigência retórica não é de âmbito individual e nem material,
mas está localizada no mundo social e, basicamente, consiste numa necessidade de uso
linguístico advinda de uma situação retórica recorrente. O retor, inserido numa determina
situação social, interpreta a exigência, que o impulsiona a agir por meio da linguagem. Essa
ação, por sua vez, se dá pela escolha de um gênero reconhecido socialmente como capaz de
atender a essa exigência, resolvendo determinado problema ou elucidando a necessidade
retórica imposta pela situação.
243
Todo texto se encontra encaixado em atividades sociais estruturadas, sendo
dependente de textos anteriores e estabelecendo condições levadas em consideração em
atividades subsequentes, como já disse Bazerman (2005). A webnotícia é parte constituinte do
jornalismo praticado na web, e essa prática tem possibilitado que esse gênero se defina e
reproduza peculiaridades próprias do meio, apresentando-se como resultado de práticas
sociais específicas, estando vinculadas a um domínio discursivo bastante consolidado. Assim
como os gêneros refletem e constroem situações retóricas recorrentes, eles ainda refletem e
constroem grupos de pessoas.
6.3 A ação social realizada através da webnotícia
Conforme Devitt (2004), a complexidade teórica do gênero é percebida a partir do
reconhecimento de que este é uma ação tipificada oriunda de situações recorrentes. Miller
(2009 [1984]) entende que a validade de uma definição retórica de gênero, necessariamente,
estar atrelada à ação que é usada para a sua realização. Como o termo gênero limita ou
determina um tipo particular de classificação do discurso, tal classificação deve, também,
basear-se na prática retórica e, portanto, ser aberta e organizada em torno das situações de uso
linguístico. Assim, com os gêneros sendo entendidos como ações sociais e retóricas
tipificadas, que funcionam quando as pessoas interagem umas com as outras, é central na
Sociorretórica o estudo da ação realizada pelo sujeito para agir retoricamente.
6.3.1 A ação social [retórica e recorrente]
Pensemos, portanto, agora sobre a ação realizada pelo jornalista para agir
retoricamente por meio da webnotícia. Já vimos que os textos que constituem o corpus desta
pesquisa são fundados sobre uma fonte principal que lhes fornece a base informativa para o
que é apresentado para a audiência com valor de notícia. Porém, o valor de notícia é
construído na situação retórica recorrente deste gênero, uma vez que, no texto-fonte, essa
informação não tem essa configuração. A situação retórica recorrente de onde a mesma é
244
oriunda é outra e, portanto, a ação realizada com o gênero de que participa o texto-fonte é,
também, outra.
Logo, como o texto-fonte é produzido em um contexto social com uma finalidade
específica, quando aproveitado como a base informativa de uma notícia, ele é “retirado” de
seu contexto social de origem para atender a novos propósitos e servir como “substância” para
a ação a ser realizada através de outro gênero. Essa ação, por sua vez, está relacionada a
práticas recorrentes de uso linguístico, que já são reconhecidas socialmente como possuidoras
de uma finalidade específica. Essa reflexão fornece a base para percebermos algo importante
acerca da webnotícia.
A ação retórica tipificada realizada através desse gênero explica porque não
percebemos a informação do texto-fonte com valor de notícia como a percebemos na notícia.
Fazendo parte de textos que participam de gêneros diferentes, a “mesma” informação,
aparecendo em diferentes situações, é moldada pela forma estrutural prototípica de um gênero
e é transformada na substância adequada para a nova situação, porque a ação retórica a ser
realizada nesta também está relacionada a vários fatores que colaboram para que a ação seja
realizada e entendida de uma forma e não de outra.
No Quadro 41, temos uma webnotícia e o seu texto-fonte principal, a partir dos quais
discutimos essa mudança de percepção acerca da informação que ora é entendida de uma
forma ora de outra devido ao fato de aparecer em um e em outro gênero:
Quadro 41: Exemplo de notícia e de texto-fonte: as ações diferentes realizadas pelos gêneros
NOTÍCIA
Em carta, Bruno pediu para Macarrão
assumir assassinato de Eliza Samudio
A correspondência teria sido interceptada na
penitenciária onde Bruno e o amigo Luiz Henrique
Romão, o Macarrão, estão presos há dois anos.
Os advogados do goleiro Bruno disseram, nesta
segunda (9), que ele foi o autor de uma carta em que
pede ao amigo Macarrão para assumir a
responsabilidade pelo assassinato de Eliza Samudio.
A correspondência teria sido interceptada na
penitenciária onde Bruno e o amigo Luiz Henrique
Romão, o Macarrão, estão presos há dois anos.
Um dos advogados do goleiro tinha negado a
CARTA
Para meu querido irmão
Maka, eu não sei como dizer isso, mas conversei
muito com os nossos advogados, inclusive o
[inelegível], e eles então chegaram numa conclusão,
devido os últimos acontecimentos sobre o processo e
investigações.
Nós conversamos muito e eles acham que a melhor
forma de resolver isso e usando o plano B, eu
sinceramente nunca pediria isso pra você, más hoje
não temos que pensar em nós somente! temos uma
grande responsabilidade que são nossas crianças,
então meu irmão peço que pense nisso e do fundo do
245
existência da carta quando a revista Veja publicou a
reportagem. Nesta segunda (9), o advogado Francisco
Simim visitou o goleiro. Disse que ele confirmou a
autenticidade e que ela foi escrita em novembro do
ano passado, antes de ele assumir a defesa do jogador.
Na carta, Bruno diz a Macarrão que devido às últimas
descobertas da polícia os advogados sugerem que eles
usem um plano B.
O goleiro cita que eles devem pensar nos filhos. E fala
sobre a conversa que tiveram na penitenciária quando
Macarrão disse a ele que se precisasse ficaria preso e
pediu para Bruno nunca abandoná-lo.
“A carta é real. Ele escreveu essa carta. Plano B seria
que
o
Macarrão
realmente
assumisse
a
responsabilidade. Se foi ele, ele teria que assumir a
responsabilidade do evento criminoso”, disse o
advogado de Bruno, Francisco Simin.
De acordo com a polícia, Eliza foi morta em junho de
2010. Ela foi vista pela última vez no sítio do goleiro
Bruno, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. O
corpo nunca foi localizado.
O advogado de Macarrão, Leonardo Diniz, não negou
nem confirmou a existência da carta e disse que não
vai se pronunciar porque ela não está incluída no
processo. Segundo a Secretaria de Defesa Social toda
correspondência dos presos passa por um setor de
censura e se o conteúdo for considerado suspeito a
carta é interceptada e pode ser encaminhada à Justiça.
A secretaria declarou que o goleiro foi ouvido na
segunda e que ele disse ter entregue a carta a outro
detento da penitenciária para que ela chegasse até
Macarrão. E, por isso, a carta não passou pelos
procedimentos formais. Agora, a administração da
penitenciária vai investigar como a carta saiu da
unidade.
coração me perdoe, fui e sempre serei homem com
você, mas essa decisão tem que partir de você! E
como um dia lá no C.O.C nós conversamos a respeito,
e você mesmo disse para mim que se precisasse você
ficaria aqui e que era pra mim nunca te abandonar,
então irmão chegou a hora. [trecho riscado]. Me
perdoe irmão.
[Assinatura]
Por mais longa e escura que seja a noite o sol sempre
voltará a brilhar!
Me perdoe irmão.
Fonte da notícia: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2012/07/em-carta-bruno-pediu-paramacarrao-assumir-assassinato-de-eliza-samudio.html (Acesso em: 09 jul. 2012).
Fonte da carta: Revista Veja, ed. 2277, jul/12.
A notícia mostrada no Quadro 41 está fundamentada em mais de uma fonte, são
declarações de advogados dos presos, da polícia, da Secretaria de Defesa Social, mas a
principal fonte é uma carta escrita pelo presidiário “Bruno de Sousa”, endereçada ao seu
amigo “Macarrão”, na qual, além de desculpas, o remetente pede que seja utilizado “o plano
B”. Este não é explicado claramente no texto, já que o mesmo é endereçado a um destinatário
específico, e há informações que são compartilhadas apenas entre emissor e receptor. Por sua
vez, a notícia faz uma interpretação do que aparece na carta como “plano B” e apresenta essa
informação como sendo “assumir a responsabilidade pelo assassinato de Elisa Samudio”, que
não está explicitada no texto-fonte.
246
A carta em questão realiza uma ação social, endereçada a um remetente individual e
particular, ela faz pedidos de caráter pessoal, “[...] a melhor forma de resolver isso é usando o
plano B, eu sinceramente nunca pediria isso pra você, mas hoje não temos que pensar em nós
somente” e “Me perdoe irmão”. A notícia também realiza uma ação social a partir da mesma
carta, divulgando e tornando públicas as informações que, em seu texto de origem, eram
pessoais e particulares. O que antes, numa situação, estava relacionado a dois sujeitos é
tratado e divulgado, noutra situação, como de interesse público, como uma informação
relevante para ser divulgada publicamente e conhecida por mais pessoas.
Logo, a ação social que é realizada através dessa notícia é a de divulgar informações
interpretadas e apresentadas como relevantes para a sociedade, baseadas, principalmente, no
conteúdo de uma correspondência entre presos até então suspeitos de um assassinato. Um
desses, o remetente da correspondência, é o ex-goleiro de um importante time de futebol
brasileiro, o que de alguma forma justifica a relevância da divulgação do conteúdo da carta,
ou ainda a relevância da informação. Na situação retórica da notícia, aquela informação
particular na qual se fazia um pedido pessoal, é transformada em mais um desdobramento de
um evento social já acompanhado pela imprensa nacional e já tratado como escândalo: o
envolvimento do goleiro do time de futebol famoso no assassinato da modelo.
De um modo geral, vemos que a ação de divulgar está relacionada a todos os tipos
de notícias, sejam notícias produzidas para circular na web, no jornal impresso ou no rádio e
na televisão, de modo que, em cada meio de circulação, são utilizados recursos disponíveis
que possam contribuir para essa ação de divulgar ou tornar públicas informações. No caso da
notícia da web, devido aos recursos e ao espaço disponibilizados pelo meio, o retor pode além
de divulgar ou tornar públicas informações, mostrar, através do texto-fonte, dados que
comprovem e, dessa forma, contribuam para o efeito de verdade construído através do
discurso jornalístico.
Nesse sentido, a ação de mostrar acontece imbricada à ação de divulgar ou tornar
público, de modo que é possível afirmarmos que a ação retórica realizada através da
webnotícia é uma: divulgar ou tornar públicas informações para a sociedade. Porém, nesse
único ato, são incorporados recursos possibilitados pelo meio, como a inserção de links, para
vídeos, imagens etc. que atuam para que o propósito comunicativo do texto noticioso seja
247
ainda mais bem sucedido. Na webnotícia apresentada no Quadro 7, além do texto que divulga
informações do depoimento, há o link para o depoimento, na íntegra. A audiência é informada
a partir da notícia, que divulga determinadas informações fundamentadas num texto-fonte
específico e ao mesmo tempo mostra esse texto-fonte, como um documento comprobatório do
que está sendo afirmado.
Já dissemos que quando rotulamos gêneros, estamos classificando ações, no sentido
de que nossa percepção acerca dos tipos discursivos está intimamente relacionada à ação
social que realizamos quando utilizamos a linguagem para interagir socialmente. Em geral, no
gênero notícia, a ação realizada sempre parte do princípio de tornar pública, de fazer saber
sobre determinado evento, fato ou pessoa interpretados como sendo representativos de alguma
relevância social. Na webnotícia, esse princípio permanece, mas devido às condições do meio
de circulação, a possibilidade de mostrar é incorporada a essa ação, tornando-a mais
específica para essa modalidade do gênero, que é produzido especialmente para circular na
internet e visa sobremaneira chamar a atenção da audiência.
A informação que aparece como substância no texto-fonte sempre vai colaborar com
a ação social realizada na notícia, porque forma, substância e ação social realizam um único
ato retórico. Por outro lado, é importante deixar claro que a origem da informação que dá base
à webnotícia é fundamental para que a ação de divulgar da notícia seja bem sucedida, uma vez
que é sobremaneira importante que a notícia seja recebida pela audiência como veiculadora de
verdades, de fatos. Dessa forma, mesmo que a informação seja transformada em substância da
notícia, a explicitação de sua origem é fundamental, quando a mesma pode atuar na
construção dessa credibilidade. Assim, muito embora a ação social realizada pela notícia seja
diferente da ação social realizada pelo texto-fonte em seu contexto de origem, informar sobre
a procedência da informação ou até mesmo mostrá-la, ipsis litteris, para a audiência, colabora
para que a notícia seja aceita como um fato social.
Todavia, como os jornalistas são os retores da situação retórica da webnotícia, são
eles que, normalmente, determinam o que é relevante e que, portanto, tem valor de notícia
para a sociedade. Notadamente, essa escolha não está atrelada apenas à relevância da
informação divulgada para a sociedade, haja vista que a divulgação da notícia faz parte da
manutenção e do fortalecimento da comunidade retórica da qual a notícia faz parte, que não se
248
mantém apenas pela divulgação de informações “úteis” para a sua audiência. Muitos fatores
estão envolvidos na ação retórica de tornar públicas informações através de notícias, que são
relacionados, principalmente, à necessidade e à possibilidade de atrair a atenção de um grande
número de pessoas às notícias publicadas e, consequentemente, ao portal jornalístico.
Essa possibilidade que os portais têm de atrair a atenção das pessoas é o que faz com
que notícias sejam divulgadas sob o pressuposto geral de levar objetivamente informações
úteis à sociedade, mas é possível que, ainda, promovam e/ou beneficiem algo ou alguém. O
Quadro 42 mostra uma notícia que “lamenta” o veto na Lei de royalties pelo Governo Federal,
a partir da retextualização de uma nota da Confederação Nacional dos Municípios (CNM):
Quadro 42: Exemplo de notícia com ponto de vista ancorado no ponto de vista do texto-fonte
NOTÍCIA
CNM lamenta veto na lei de royalties, e divulga nota oficial sobre decisão
Órgão relembra que lei nasceu de "amplo" acordo com Governo Federal.
Mesmo com o apelo dos municípios brasileiros, a lei dos royalties foi sancionada com o veto do artigo terceiro,
que definia a justa partilha para todos os Estados e Municípios. O anúncio feito na tarde desta sexta (30),
durante coletiva de imprensa com a ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann; o ministra de Relações
Institucionais, Ideli Salvatti; e do ministro da Educação, Aloízio Mercadante.
A Confederação Nacional de Municípios (CNM) lamenta a decisão, e divulga nota oficial sobre a decisão. O
texto pontua os motivos da posição. São eles:
O projeto agora vetado nasceu de um amplo acordo envolvendo representantes do governo federal, os
presidentes da Câmara e do Senado, líderes partidários e representação da sociedade civil. Este acordo foi
construído para evitar a apreciação do veto que o ex-presidente Lula fez ao projeto aprovado pelo Congresso
Nacional em 2010. A CNM não compreende a mudança de posição do governo federal, que descumpre o
acordo firmado em outubro de 2011.
A justificativa do veto, fundamentada no argumento de quebra de contratos, é um verdadeiro absurdo, uma vez
que os instrumentos celebrados entre as empresas e a Agência Nacional de Petróleo (ANP), não sofreriam
qualquer tipo de alteração. As alterações propostas pelo projeto vetado mudavam a forma de distribuição das
receitas de royalties entre a União, Estados e Municípios. Por sinal, alterações com estas já aconteceram quatro
vezes desde o início da exploração.
O veto manterá o privilégio injustificado de dois Estados e 30 Municípios, que receberão até o final da década,
R$ 201 bilhões, enquanto que o restante do país, ou seja, 170 milhões de brasileiros, receberão apenas R$ 17
bilhões. É, portanto, inaceitável, a perpetuação deste modelo que promove tamanha concentração de recursos.
A decisão tomada significa, na prática, um veto á educação, pois, a regra mantida com o veto não possibilita
investimentos na área. Da forma como decidiu o governo federal, o Brasil terá de esperar mais de 10 anos para
poder realizar investimentos em Educação, já que, o regime de partilha só gerará recursos neste prazo. De
acordo com estimativas da Agência Nacional de Petróleo (ANP), serão cerca de R$ 400 bilhões fora da
Educação.
Com a divulgação, o presidente da CNM, Paulo Ziulkoski, já convoca para uma cruzada nacional, todos os
gestores municipais e os 170 milhões brasileiros que foram excluídos da distribuição dos royalties para
mobilizarem-se desde já pela derrubada do veto pelo Congresso Nacional.
Fonte:
http://www.cidadeverde.com/cnm-lamenta-veto-na-lei-de-royalties-e-divulga-nota-oficial-sobredecisao-119429 (Acesso em: 02 dez. 2012).
249
A manchete “CNM lamenta veto na lei de royalties e divulga nota oficial sobre
decisão” já apresenta uma tendenciosidade em relação ao que é noticiado, porém o “lamento”
é divulgado como sendo apenas da CNM, cuja nota publicada oficialmente é utilizada como
fonte principal da notícia. Porém, a informação é apresentada de forma tendenciosa, na qual
se questiona o veto do governo Federal a um artigo da lei que “definia a justa partilha para
todos os Estados e Municípios”. Essa “justa partilha”, no entanto, é de acordo com o ponto de
vista da CNM, que é o mesmo do retor da notícia, já que este faz parte de uma das regiões que
não foram beneficiadas com o veto em questão, o Nordeste. Dessa forma, a estratégia
utilizada para que a informação seja vista como idônea e objetiva é a utilização da nota da
CNM, que mesmo sendo tendenciosa, é de caráter oficial e, dessa forma, pode ser apresentada
como veiculadora de fatos. No entanto, trata-se, na verdade, do ponto de vista ou da opinião
da instituição sobre uma decisão do Governo Federal, opinião que é também compartilhada
por meio da notícia.
Vemos, dessa forma, que a ação social desenvolvida através da webnotícia pode ser
normalmente e geralmente identificada como a de tornar públicas informações recentes e
relevantes para a sociedade, em que se assume, tanto por parte do retor quanto da instituição
jornalística que este representa, uma postura objetiva e, consequentemente, idônea. Todavia,
essa configuração da ação social desenvolvida através da webnotícia, na verdade, é construída
retoricamente, sobretudo, através de escolhas linguísticas para a construção do texto
noticioso. No caso da notícia fundamentada na nota oficial da Confederação Nacional dos
Municípios, é a CNM quem aparece se posicionando sobre o evento referido, mas como se
trata de uma instituição séria, fica sugerido que, realmente, ela tem razão, pressuposto que,
inclusive é reforçado pelo fato de a audiência da notícia ser, a priori, pessoas do estado do
Piauí, que supostamente foram prejudicadas com o veto do artigo da referida Lei.
Essa reflexão nos lembra o que Miller (2009 [1984]) diz quando afirma que são as
similaridades de forma e conteúdo que nos permitem engajar nas similaridades de ação, sendo
que a tipificação deve ser entendida nos três níveis do gênero, a forma, a substância e a ação
social. Logo, a forma fundida à substância da webnotícia já apresenta uma tipificação, que é
reconhecida como formas (ou tipos) de discurso. Mas somente isso não constitui a
webnotícia, já que forma e substância só passam a ter sentido quando utilizadas para a
250
comunicação, ou seja, quando são utilizadas para a realização de uma ação social em uma
situação retórica recorrente. Como a situação é recorrente e a forma e a substância são
tipificadas, a ação social realizada através dessas também é reconhecida, tanto pelos retores
como pela audiência, como recorrente e tipificada.
Assim, mesmo que ações paralelas, ou até mesmo secundárias, como a promoção de
algo ou alguém ou a tomada de posição sobre um evento, sejam incorporadas à ação mais
geral, a webnotícia sempre é inicialmente caracterizada e reconhecida como um tipo de
discurso através do qual são divulgadas pública e objetivamente informações recentes e
relevantes de interesse comum. Dessa forma, a noção de tipificação é essencial para a
concepção de gênero como ação social, e, portanto, fundamental para a concepção da ação
social desenvolvida através da webnotícia.
Através da concepção de ação social tipificada, vemos que a utilização da webnotícia
para outras finalidades que não unicamente a de informar não compromete o status quo
socialmente conhecido e reconhecido da notícia. Inclusive, pode ser que essa condição da
notícia de ser normalmente recebida como um tipo de discurso com credibilidade tenha
contribuído para que esse gênero venha sendo utilizado cada vez mais para o favorecimento
de terceiros e, mesmo, para a divulgação (promoção) de produtos e serviços43. Nesse sentido,
podemos entender que a notícia realiza uma ação social que a define e a institui socialmente,
que é divulgar objetivamente informações recentes e relevantes para a sociedade. Mas, por
outro lado, o retor aproveita dessa sua condição para realizar intenções, como promover
eventos, produtos, serviços pessoas e, ainda, posicionar-se em relação às informações
divulgadas.
A maneira como construímos, interpretamos e reagimos às situações mostra a relação
dinâmica existente entre os gêneros e as exigências, situações e motivos sociais, conforme
Bawarshi e Reiff (2013 [2010]). A webnotícia deve ser entendida em termos de formas
relacionadas a situações recorrentes e, ainda em termos de ações tipificadas produzidas por
43
A notícia satírica é um gênero digital que satiriza o real a partir da divulgação de falsas informações
veiculadas socialmente como idôneas e verdadeiras. Muitas vezes essas “falsas notícias” são confundidas como
verdadeiras, e a apresentação do texto sob a estrutura canônica e séria da notícia contribui sobremaneira para
isso.
251
essa fusão. Esses três elementos, forma, substância e ação social, na perspectiva da teoria
sociorretórica, devem ser entendidos como elementos constituintes do gênero, de modo que
há gêneros que se definem mais e outros que se definem menos pelas características formais,
mas, como vimos, o gênero não se resume a isso. Entendemos que a esses três elementos deve
ser acrescentado um quarto, haja vista que o propósito comunicativo se apresenta como a
finalidade das ações sociais recorrentes realizadas através de um gênero e, portanto, deve
também ser entendido como elemento constituinte deste.
A notícia é um dos gêneros que se define bastante pelas características formais,
inclusive sua estrutura é aproveitada em outros gêneros, numa intergenericidade, para criar
determinados efeitos retóricos. Porém, sabemos que embora uma mesma forma aparecendo
isoladamente em outros gêneros, ela está ligada a uma dinâmica interna, para que um único
ato retórico seja criado, definindo o gênero como uma “única ação”, que está acima de
quaisquer características formais.
6.3.2 O propósito comunicativo socialmente compartilhado
A exigência retórica não deve ser confundida com o propósito retórico, segundo
Miller (2009 [1984]). Para a autora, a exigência é a maneira reconhecível para a realização de
intenções conhecidas e recorrentes que são de caráter eminentemente social, ao passo que o
propósito pode apresentar uma intenção individual. A exigência retórica se apresenta no
interior de uma situação como um problema para ser resolvido através da linguagem e, para
tanto, um gênero é escolhido para atuar como resposta retórica, resolvendo o problema e,
consequentemente, satisfazendo a exigência.
Entendemos que exigência e propósito comunicativo não se confundem também pelo
fato de aquela se encontrar na situação retórica e de este ser do âmbito do gênero, sendo que a
intenção individual ou particular é do indivíduo. Logo, mesmo que uma intenção individual se
realize através da utilização de um gênero, numa situação particular, ela não elimina o caráter
social e recorrente do propósito comunicativo socialmente compartilhado daquele gênero.
Partindo desse princípio é que analisamos o propósito comunicativo ou o conjunto de
252
propósitos da webnotícia, considerando, ainda, o que já analisamos sobre esse gênero, nas
seções e subseções precedentes deste capítulo 6.
No Quadro 43, apresentamos um exemplo de webnotícia a fim de entendermos,
empiricamente, a diferença que estabelecemos entre exigência retórica, intenção individual e
propósito comunicativo:
Quadro 43: Exemplo de notícia: atendendo à exigência retórica do gênero
NOTÍCIA
Estação é consertada; Agespisa volta a produzir água a partir das 11 horas
Previsão é de que produção de água volte após testes nas instalações elétricas. Abastecimento recomeça à
tarde.
A Agespisa informou na manhã deste domingo (28) que todos os reparos na estação de tratamento de água,
danificada pela segunda vez em apenas um mês, foram feitos ao longo da madrugada. A expectativa é de que a
produção seja retomada após 11h da manhã, sendo o abastecimento restabelecido gradualmente.
(foto)
A estação de tratamento de água localizada no Distrito Industrial, zona Sul, é a única de Teresina e responsável
por 85% da população da capital. Na tarde de ontem (27), um incêndio atingiu o transformador e forçou a
interrupção do abastecimento para 700 mil consumidores. No dia 16 de outubro, um incidente semelhante
atingiu o local.
Após o incêndio, o Corpo de Bombeiros foi acionado e controlou as chamas. Técnicos da Agespisa e da
Eletrobras foram ao local acompanhar o problema. A companhia energética emprestou um transformador de
força para substituir o danificado e viabilizar o retorno do abastecimento o quanto antes.
(foto)
No início da manhã, técnicos da Eletrobras fizeram testes exigidos por normas do fabricante do transformador,
para evitar novos danos. A previsão é de que o sistema elétrico volte a funcionar às 10h. Depois disso, a
Agespisa volta a captar água do rio Parnaíba para ser tratada. O processo é lento e as torneiras da capital devem
ser reabastecidas na tarde deste domingo.
A Agespisa já acionou a Polícia Federal e a Secretaria Estadual de Segurança Pública para investigarem se
houve alguma interferência externa na causa do segundo acidente.
Atualmente, a estação de tratamento da Agespisa produz 235 milhões de litros por dia, sendo que 250 milhões
são consumidos por Teresina. A capital ainda conta com 15 milhões de litros gerados por 60 poços,
concentrados na Santa Maria da Codipi, zona Norte.
Fonte: http://www.cidadeverde.com/printpage.php?id=116571 (Acesso em: 28 out. 2012).
A situação retórica da notícia mostrada no Quadro é similar às das outras notícias já
analisadas por nós neste capítulo. Podemos perceber que o conjunto de informações
apresentado através desse gênero realiza uma ação retórica: a de informar sobre uma situação
de interesse comum, portanto, de relevância para a sociedade teresinense, que é o
reabastecimento de água pela companhia responsável por isso. Nesse sentido, inserido numa
253
situação, o retor (jornalista) interpreta uma exigência para ser resolvida retoricamente, que é
informar para a população teresinense sobre a falta e o reabastecimento de água na capital. O
retor escolhe um dos gêneros da comunidade retórica da qual faz parte, que, recorrentemente,
é utilizado em situações similares.
Logo, a webnotícia é divulgada, atendendo a exigência retórica da situação e
cumprindo o propósito comunicativo socialmente conhecido para aquele gênero, que,
geralmente, é levar informações recentes e relevantes para a sociedade em que o texto circula,
para a sua audiência. Dessa forma, a ação social realizada pelo gênero e o propósito
comunicativo deste estão intimamente relacionados, já que o propósito não equivale à ação,
mas é a finalidade desta, uma vez que sempre que agimos retoricamente, temos uma
finalidade com a nossa comunicação.
Quando analisamos a ação social realizada pela webnotícia, concluímos que embora
ações secundárias sejam realizadas paralelamente em vários casos de utilização do gênero, a
ação mais geral e compartilhada é a de informar ou divulgar informações interpretadas como
recentes e/ou que tenham alguma relevância para a sociedade. Por outro lado, quando
pensamos no propósito comunicativo do gênero, normalmente definimos essa categoria como
o objetivo ou a finalidade da comunicação, que se realiza através de um gênero. No caso da
webnotícia, o propósito comunicativo socialmente compartilhado é o de informar ou divulgar
informações interpretadas como recentes e/ou que tenham alguma relevância para a
sociedade. Isso faz com que, imediatamente, nos indaguemos se a ação social coincidiria com
o propósito, uma vez que a descrição de ambos para o gênero notícia, a priori, é a mesma.
A “mesma” descrição só confirma mais uma vez a relação íntima dessas duas
categorias, tendo em vista que, muito embora o gênero seja definido basicamente pela ação
que realiza, essa ação é realizada para uma finalidade precípua, que a justifica. A coincidência
na descrição dos dois termos pontua que ambos fazem parte de um mesmo processo complexo
de utilização situada da linguagem para determinado fim. Agimos socialmente através da
utilização dos gêneros, mas nossas ações são justificadas porque têm um objetivo, uma
finalidade. Por outro lado, o propósito comunicativo de um gênero é percebido e reconhecido
a partir das ações retóricas recorrentes realizadas através daquele gênero (SOUSA, 2013).
254
É importante percebermos que quem exige é a situação, o gênero é utilizado para
atender a exigência da situação, mas, concomitantemente, satisfaz um propósito
comunicativo, que é a finalidade precípua da ação social realizada através do gênero. Ao
mesmo tempo, este pode ser utilizado para atender a propósitos ou a intenções particulares,
que não correspondem ao propósito comunicativo socialmente compartilhado, uma vez que
são de caráter individual. Todavia, se uma intenção particular se tornar recorrente para um
determinado gênero, de modo que outras pessoas passem a utilizar o mesmo gênero para
atender a mesma finalidade, ela então deixa de ser intenção e passa ao status de propósito
comunicativo.
Um exemplo é a própria notícia, que começou a ser utilizada também com a
finalidade de promover serviços, produtos, pessoas e etc., e a recorrência dessa prática
favoreceu o aparecimento não somente de um novo propósito comunicativo, mas de uma nova
categoria do gênero. A notícia promocional é feita basicamente para promover, divulgar e/ou,
até mesmo, vender algo ou alguém, muito embora nem sempre isso seja reconhecido pelos
membros experientes da comunidade retórica que são produtores desse gênero. Esse tipo de
notícia, inclusive, muitas vezes é divulgado socialmente como se a finalidade fosse,
sobretudo, a de informar objetivamente.
No Quadro 43, a notícia tem um objetivo, uma finalidade, mas não apresenta uma
intenção particular ou individual aparente. Em todo o texto, as informações são apresentadas
supostamente para informar objetivamente. No conjunto de notícias que analisamos, nenhuma
delas tem o propósito comunicativo de promoção de algo ou de alguém, uma vez que
entendemos que o propósito comunicativo está relacionado ao gênero e é socialmente
compartilhado. Mas é possível percebermos intenções particulares a partir das escolhas do que
é abordado e divulgado através dos textos, do tratamento que é dado às informações e, ainda,
aos sujeitos relacionados a elas.
Ilustramos nossas afirmações com uma notícia, mostrada no Quadro 44, em que o
texto-fonte principal é uma Certidão expedida pela Secretaria de Segurança Pública do Estado
do Maranhão, certificando que uma pessoa não é alvo de investigação daquela Comissão
Investigadora:
255
Quadro 44: Exemplo de notícia: a realização de uma intenção particular 1
NOTÍCIA
Secretaria de Segurança diz que ex-prefeita não é alvo de investigação
quinta, 06 de junho de 2013 • 11:42
A Secretaria de Segurança Pública do Maranhão respondeu petição (veja documento acima) feita pela ex-prefeita
Socorro Waquim onde esclarece sobre informações divulgadas na imprensa local e estadual que apontavam o
suposto envolvimento da administração dela com o esquema de agiotagem no estado. Amplamente divulgado
nos meios de comunicação, o esquema de agiotagem foi acusado de tirar dinheiro das prefeituras e também
responsável pela morte do jornalista Décio Sá.
O documento enviado pela Secretaria de Segurança deixa claro que a ex-prefeita de Timon não tem qualquer
envolvimento com o suposto esquema. Assinado por quatro delegados da Superintendência Estadual de
Investigações Criminais, o documento ressalta que Maria do Socorro Almeida Waquim não é alvo de qualquer
investigação até a presente data por parte daquele órgão.
Nas notícias publicadas na imprensa estadual, 41 prefeituras estariam envolvidas nas fraudes. O suposto
esquema funciona mais ou menos assim: Alguns prefeitos, endividados, chegavam a assinar cheques em branco
da prefeitura para pagar os agiotas ou preenchidos e endossados pelo prefeito para que os agiotas pudessem fazer
os saques. O dinheiro saía direto de contas de programas federais – como o programa nacional de alimentação
escolar (Pnae) e o Fundo de Participação dos Municípios (FPM).
256
A ex-prefeita de Timon conta que ao ver seu nome incluído na lista tomou um susto e logo a notícia sobre o caso
tomou conta de praticamente todos os veículos de comunicação do estado, trazendo-lhe um prejuízo na sua
imagem difícil de ser reparado. Mesmo assim, a ex-prefeita conta que vai procurar os meios legais na busca
deste ressarcimento. Para tanto, já acionou sua assessoria jurídica para tomar todas as medidas cabíveis contra
blogs, portais, TVs e até páginas no Facebook que exploraram de forma negativa a falsa informação do seu
envolvimento com o suposto esquema de agiotagem.
Na opinião da ex-prefeita, toda essa repercussão negativa com a citação de seu nome no caso teve como
principal objetivo trazer prejuízos políticos a sua pessoa e ao seu grupo político em Timon.
Fonte: www.portalaz.com.br/blogs/elias_lacerda (Acesso em: 06 jun. 2013).
No Quadro 44, temos uma notícia publicada em um portal jornalístico que,
supostamente, apenas informa objetivamente sobre o não envolvimento de uma ex-prefeita
em investigações, e para tanto, a mesma se baseia numa Certidão expedida pela Secretaria da
Segurança Pública do Maranhão. Logo depois da manchete “Secretaria de Segurança diz que
ex-prefeita não é alvo de investigações”, a imagem do texto-fonte principal é inserida como
ilustração, sendo que o corpo da notícia, detalhando e contextualizando a informação
apresentada na manchete, aparece somente depois dessa ilustração.
Segundo Bhatia (2009), são os contextos comunicativos convencionados que dão
origem aos conjuntos específicos de propósitos comunicativos para grupos sociais e
disciplinares especializados. A webnotícia herdou parte do contexto comunicativo
convencionado do jornalismo impresso, formado por grupos sociais e disciplinares
especializados com propósitos comuns. Nesse sentido, o propósito comunicativo da
webnotícia mantém a tradição da notícia jornalística de fora da internet, assim, intenções
individuais são realizadas, justamente, porque o retor se apropria da credibilidade social
conferida às notícias em geral, normalmente vistas como veiculadoras de verdades.
Entendidas socialmente como o gênero que divulga fatos, a realização de uma
intenção particular se torna ainda mais bem sucedida, haja vista que ela pode ser realizada,
sem que a audiência perceba que está sendo “enganada”. Ou seja, a audiência recebe uma
informação como sendo objetiva, quando, na verdade, ela está sendo divulgada através
daquela notícia para o beneficiamento de alguém ou para expressar um posicionamento ou,
ainda, uma tomada de posição do retor ou da instituição jornalística a qual este representa.
Esse jogo entre propósito e intenção mostra quão complexa e dinâmica é a relação de
utilização dos gêneros para a realização de ações sociais, uma vez que o gênero pode ser
257
utilizado para cumprir um propósito social compartilhado e/ou para cumprir uma intenção
individual, e a separação entre os dois nem sempre é possível de ser feita, pelo fato de que
eles podem estar imbricados de tal forma que não seja possível separá-los.
Quanto a isso, analisemos a notícia mostrada no Quadro 44. A Certidão expedida
pela Secretaria de Segurança Pública é um documento oficial, o que faz com que a
informação divulgada pela notícia seja idônea, a ex-prefeita, realmente, não é alvo de
investigações daquela Secretária de Segurança. De um modo geral, o propósito comunicativo
da notícia estaria sendo cumprido, já que a informação é idônea, porque está fundamentada
em um documento verdadeiro. Por outro lado, uma intenção individual também é realizada
através do gênero, a partir do momento em que uma notícia é feita apenas para divulgar uma
Certidão expedida pela Secretaria de Segurança, supostamente, depois de boatos sobre o
contrário do que afirma o documento. Em se tratando de uma pessoa pública, a notícia tem a
intenção de divulgar a informação da certidão, para beneficiar a imagem da ex-prefeita em
questão perante a sociedade.
Logo, a intenção, que é individual, está imbricada ao propósito comunicativo, que é
social, e é este quem favorece para que a intenção seja alcançada através dele. A intenção é
ainda mais reforçada pela utilização do documento que certifica a autenticidade da
informação, como ilustração, posicionada entre a manchete e o corpo da notícia.
Retoricamente, essa “ilustração” é utilizada como instrumento para comprovar a verdade do
que é afirmado, tanto que é posicionada em destaque na configuração do texto da notícia.
A chamada linguagem jornalística, na qual a principal característica é a escrita do
texto em terceira pessoa, confere à notícia uma suposta impessoalidade que, do ponto de vista
linguístico, marca uma objetividade, justamente, devido à ausência das marcas de
subjetividade. Por outro lado, do ponto de vista retórico, a ausência de marcas de
subjetividade funciona como uma estratégia de construção do texto, para que este atenda mais
eficientemente ao objetivo ao qual está destinado, que é contribuir para “limpar” a imagem da
ex-prefeita, sendo que isso precisa ser feito através de um texto “sério” e, aparentemente,
objetivo.
258
A utilização de uma fonte idônea, para fundamentar a informação, colabora com a
intenção de fazer com que as pessoas saibam que o sujeito tratado na notícia não possui
envolvimento algum com o esquema de agiotagem, conforme divulgado anteriormente na
imprensa e lembrado no texto noticioso. No Quadro 45, separamos partes diferentes do texto,
a fim de percebermos como o mesmo foi montado, estrategicamente, para atender a uma
intenção individual através do propósito socialmente compartilhado do gênero notícia:
Quadro 45: Exemplo de notícia: a realização de uma intenção particular 2
TRECHOS DE NOTÍCIA
DESCRIÇÃO DOS TRECHOS DE
NOTÍCIA
Secretaria de Segurança diz que ex-prefeita não é alvo Manchete com destaque na voz da
de investigação
Secretaria de segurança, afirmando
que ex-prefeita não é alvo de
investigação.
Imagem da Certidão da Secretaria de
Segurança,
apresentada
como
documento comprobatório da notícia.
A Secretaria de Segurança Pública do Maranhão respondeu
petição (veja documento acima) feita pela ex-prefeita Socorro
Waquim onde esclarece sobre informações divulgadas na
imprensa local e estadual que apontavam o suposto
envolvimento da administração dela com o esquema de
agiotagem no estado. Amplamente divulgado nos meios de
comunicação, o esquema de agiotagem foi acusado de tirar
dinheiro das prefeituras e também responsável pela morte do
jornalista Décio Sá.
Lide,
com
as
informações
que
resumem e contextualizam o caso
tratado na notícia.
259
O documento enviado pela Secretaria de Segurança deixa claro
que a ex-prefeita de Timon não tem qualquer envolvimento
com o suposto esquema. Assinado por quatro delegados da
Superintendência Estadual de Investigações Criminais, o
documento ressalta que Maria do Socorro Almeida Waquim
não é alvo de qualquer investigação até a presente data por
parte daquele órgão.
Nas notícias publicadas na imprensa estadual, 41 prefeituras
estariam envolvidas nas fraudes. O suposto esquema funciona
mais ou menos assim: Alguns prefeitos, endividados,
chegavam a assinar cheques em branco da prefeitura para pagar
os agiotas ou preenchidos e endossados pelo prefeito para que
os agiotas pudessem fazer os saques. O dinheiro saía direto de
contas de programas federais – como o programa nacional de
alimentação escolar (Pnae) e o Fundo de Participação dos
Municípios (FPM).
A ex-prefeita de Timon conta que ao ver seu nome incluído na
lista tomou um susto e logo a notícia sobre o caso tomou conta
de praticamente todos os veículos de comunicação do estado,
trazendo-lhe um prejuízo na sua imagem difícil de ser
reparado. Mesmo assim, a ex-prefeita conta que vai procurar os
meios legais na busca deste ressarcimento. Para tanto, já
acionou sua assessoria jurídica para tomar todas as medidas
cabíveis contra blogs, portais, TVs e até páginas no Facebook
que exploraram de forma negativa a falsa informação do seu
envolvimento com o suposto esquema de agiotagem.
Retextualização da Certidão expedida
pela Secretaria de Segurança.
Retomada de informações anteriores,
justificando
a
necessidade
de
divulgação da certidão.
Voz do sujeito envolvido, enfatizando
sua inocência e ressaltando o “prejuízo
na sua imagem” que precisa ser
recuperada.
Na opinião da ex-prefeita, toda essa repercussão negativa com
a citação de seu nome no caso teve como principal objetivo
trazer prejuízos políticos a sua pessoa e ao seu grupo político
em Timon.
Na constituição dessa notícia, temos, inicialmente, na Manchete, a apresentação de
uma informação de responsabilidade da Secretaria de Segurança, é este órgão quem afirma
que a “ex-prefeita não é alvo de investigação”. Na sequência, já há uma ilustração com a
imagem do documento, que é o texto-fonte principal e, supostamente, a razão que justifica a
relevância daquela notícia. O lide, por sua vez, contextualiza o documento apresentado na
imagem e o caso a qual o mesmo se refere, fazendo referência a um “esquema de agiotagem”
que envolve ainda o assassinato de um jornalista.
No desenvolvimento do texto, há, inicialmente, a retextualização das informações da
Certidão já apresentadas na imagem, onde o jornalista faz acréscimos de expressões que
reforçam e enfatizam a afirmação do texto-fonte principal, como “o documento [...] deixa
claro” e “não tem qualquer envolvimento com o suposto esquema”. Em seguida, após a
ressalva de que foi amplamente divulgado na mídia o envolvimento de 41 prefeituras no
260
esquema de agiotagem que se faz referência, é explicado como este funciona (ou funcionaria).
Finalmente, é apresentada a voz do sujeito principal, em discurso indireto (livre) e em
discurso direto, com a sua versão dos fatos, que apenas reforça o que já vinha sendo
apresentado ao longo do texto em defesa da “ex-prefeita”.
Linguisticamente, temos um texto objetivo, estruturalmente bem construído,
apresentando elementos formais básicos de uma notícia: manchete, lide, episódio, reações
verbais e, ainda, uma ilustração relacionada ao que está sendo, especificamente, tratado no
texto. Porém, atentando para o funcionamento social desse texto, enquanto exemplar de um
gênero situado numa situação retórica, ao mesmo tempo em que realiza uma ação social, o
mesmo satisfaz uma intenção através do propósito comunicativo.
Vemos que essa notícia é construída, especialmente, para deixar [bastante] claro que
a ex-prefeita em questão não possui envolvimento no esquema de agiotagem ao qual é feito
referência, e que essa informação pode, inclusive, ser comprovada pela Certidão expedida
pela Secretaria de Segurança do Maranhão. Todavia, isso se configura mais como uma
intenção individual ou particular, alcançada através da utilização do gênero notícia, que,
normalmente, já apresenta um propósito comunicativo claro e definido socialmente,
intimamente relacionado à ação social realizada por este gênero. Logo, a intenção se realiza
disfarçada de propósito, o que faz com que o texto seja bem sucedido e seja recebido pela
audiência como mais um exemplar do gênero notícia.
Conforme Askehave e Swales (2009), os gêneros são mais bem definidos como
entidades orientadas para objetivos ou propósitos. Nesse sentido, a webnotícia já é
interpretada como um tipo de discurso a ser utilizado com uma finalidade precípua, sendo que
essa finalidade é, normalmente, entendida no sentido positivo de que as notícias mantêm as
pessoas informadas. Logo, de um modo geral, esse gênero goza de certo prestígio social,
sendo que nem sempre as pessoas percebem que a informação que está divulgada num portal
jornalístico através de uma webnotícia pode estar sendo utilizada para outras finalidades que
não somente as de informar e deixar a sociedade atualizada.
A noção de propósito comunicativo pode ser utilizada para acentuar a questão da
ação social realizada através do gênero. Podemos dizer que o propósito comunicativo
261
direciona a ação retórica realizada pelo membro de uma comunidade discursiva, uma vez que
está centrado na finalidade da ação realizada através do gênero. Para Swales (1990), o
propósito está diretamente relacionado à ação retórica comparável ou recorrente, porque é
quem opera na manutenção do escopo do gênero, ou seja, é o seu objetivo, o seu alvo. Logo, o
retor utiliza a webnotícia, por exemplo, como uma forma de agir retoricamente, mas sua ação
é realizada porque o mesmo interpreta que aquele gênero é adequado para satisfazer ao
objetivo da sua comunicação.
Diferentemente da forma, o propósito é uma categoria do gênero menos
demonstrável, o que exige cuidado por parte do analista para que a classificação feita a partir
da análise não seja simplista, já que a mesma não pode apoiar-se apenas em traços estilísticos
e em crenças já estabelecidas acerca do gênero, conforme Swales (1990). Segundo esse autor,
mesmo na visão do especialista, os propósitos comunicativos podem não representar um
acordo comum. É possível que, recorrentemente, um gênero seja utilizado para determinado
fim e, ainda assim, este permaneça sem ser reconhecido ou autenticado, por estar relacionado
a uma prática escusa, por exemplo.
Na análise dos textos, que são exemplares de webnotícia, ficam mais evidentes a
forma e a substância do que a ação social e o propósito, já que estes, mesmo sendo categorias
do gênero, não são palpáveis e materiais e tão facilmente percebidos como aquelas. Isso
explica, portanto, porque a análise não deve partir da identificação do propósito comunicativo,
pois, muito embora este esteja textualmente explicitado, sua identificação não pode considerar
apenas a maneira como os elementos se apresentam.
No caso da notícia, que é um gênero bastante utilizado pelo jornalismo e por outras
instituições sociais, a análise do propósito comunicativo se torna mais produtiva quando
investigamos as estratégias realizadas pelos usuários experientes para a realização de
intenções. O propósito comunicativo socialmente compartilhado deste gênero mostra ser uma
categoria generalizada, a priori comum e facilmente reconhecida, mas que permite com que
intenções se realizem a partir do que já é preconcebido do gênero.
Na metodologia proposta por Askehave e Swales (2009), o propósito comunicativo
aparece mais como o resultado da análise. Neste trabalho, embora não tenhamos seguido os
262
cinco passos sugeridos pelos autores, o propósito comunicativo foi o último elemento do
gênero por nós analisado, e, neste ponto, consideramos o que já foi feito nas etapas
precedentes. Resta-nos, agora, analisar ainda, juntamente com as demais categorias, o
propósito comunicativo do ponto de vista dos usuários experientes do gênero que estudamos,
que são os jornalistas que produzem notícias para os portais. Nessa parte, levamos em conta o
conhecimento empírico adquirido pelo usuário nas suas experiências de utilização do gênero.
Esse momento compreende a última etapa de análise desta tese.
6.4 A webnotícia sob a ótica do usuário experiente
Nesta seção, conforme já apontamos no capítulo 4, faremos uma abordagem da
webnotícia sob o ponto de vista de jornalistas que trabalham em portais jornalísticos e que
são, dessa forma, usuários experientes de webnotícias. De acordo com Miller (2009 [1984]) a
abordagem etnometodológica leva em conta o conhecimento criado pela prática do usuário do
gênero. Os usuários de um gênero têm um conhecimento empírico, adquirido pela prática de
uso, que pode ser usado, pelo analista, como um dado sobremaneira importante para o estudo
de um gênero. Para Devitt (2004), os rótulos de gêneros mais importantes são aqueles criados
pelas pessoas que utilizam os gêneros, porque esse rótulo leva em conta a ação realizada com
eles.
Para obtermos os depoimentos que analisamos nesta seção, fizemos uma pesquisa a
partir dos mesmos portais jornalísticos piauienses que coletamos as notícias do corpus, que,
comumente, disponibilizam endereços de e-mail de trabalho dos jornalistas/repórteres
responsáveis pela produção das matérias. Após elencarmos uma lista de possíveis sujeitos,
elaboramos um questionário online, que seria colocado como anexo de um convite, a ser
enviado por e-mail, para que os mesmos respondessem às perguntas. Das cerca de vinte
mensagens enviadas, obtivemos cinco respostas. Porém, como é comum nos estudos
sociorretóricos de gêneros, os dados dos usuários experientes obtidos não são analisados de
um ponto de vista estatístico, mas considerando o conhecimento sobre o gênero em questão,
263
que aparece nos depoimentos, razão que faz com que as informações dos cinco usuários sejam
suficientes para as considerações que fazemos nesta seção.
O questionário é composto por onze perguntas relacionadas ao processo de produção
da webnotícia (ver em Apêndice 1). Retomamos aqui alguns resultados já alcançados por nós,
neste capítulo, a fim de os relacionarmos aos depoimentos e, desta forma, chegarmos a
conclusões mais profícuas acerca do processamento de informações para a construção da
webnotícia.
A primeira questão “Um portal jornalístico é mesmo importante para a sociedade?
Ele trouxe vantagens para os leitores? Quais?” é mais geral e se desdobra em três perguntas
que estão mais diretamente relacionadas ao suporte do gênero. Neste ponto, começamos a
questionar os sujeitos sobre a relevância social e as vantagens de um portal jornalístico, que é
onde estão fixadas as webnotícias. Foi unânime entre os depoimentos a ênfase na importância
dos portais para o jornalismo, que, dessa forma, pode estar aliado à rapidez ou à velocidade de
informações proporcionadas pela internet. Os sujeitos acreditam que a internet democratizou a
informação, no sentido de que pode divulgar mais informações e mais rapidamente, além de
ser vista por mais pessoas:
S2: Muitas, mas a principal delas foi a democratização da informação. O conteúdo
informativo deixou de ser somente dos grandes conglomerados de comunicação.
S3: Todo avanço tecnológico é acompanhado por diversas áreas de atuação e com o
jornalismo não seria diferente. Ficar de fora dessa revolução da internet seria um
atraso para o jornalismo, apesar de tudo na vida envolver prós e contras. A
rapidez na prestação das informações é a principal vantagem para o leitor. [...]
S4: Sem dúvidas o surgimento e ascensão dos portais noticiosos em todo país,
trouxeram benefícios para a sociedade, principalmente no que se refere à
portabilidade, ou seja, capacidade de acessar e estar bem informado em
qualquer lugar e a qualquer hora do dia e da noite.
S5: Sim. O acesso a informação se tornou mais rápido e em tempo real. Além
disso, os portais ampliaram as fontes de informações que antes se reduziam a
reduzidos grupos de comunicação.
Pelos exemplos, vemos que S2 ressalta que a principal vantagem dos portais
jornalísticos foi a democratização da informação, que deixou de ser reproduzida apenas pelas
grandes empresas jornalísticas. Já S3 diz que o jornalismo não poderia ficar de fora desse
avanço tecnológico, que já é acompanhado por outros setores sociais, de modo que a principal
vantagem está relacionada à rapidez na divulgação de informações. S4 afirma que o principal
264
benefício é a portabilidade, que dá condições de o leitor ter acesso às informações
jornalísticas em diferentes lugares e horários, ao passo que S5 chama a atenção para a rapidez
na divulgação da informação (que pode ser divulgada “em tempo real”) e para o aumento das
fontes de informação do leitor.
A partir dessas primeiras declarações de usuários que lidam diariamente com o
jornalismo na internet, produzindo notícias dentro de uma situação retórica recorrente,
bastante conhecida e reconhecida por eles, vemos que os mesmos ressaltam características
ligadas especificamente àquele meio, a fim de enfatizar as diferenças das práticas de outros
meios, e acentuar (até mesmo de um ponto de vista otimista) as ações realizadas a partir dos
portais jornalísticos. Dessa forma, características como democratização e rapidez na
divulgação da informação, portabilidade e aumento dos veículos de comunicação social são
destacadas como próprias do jornalismo produzido na internet. Lembramos que essas
informações vão ao encontro do que já discutimos no Capítulo 1 desta tese, com base em
autores do Jornalismo e da Comunicação social.
A segunda pergunta do questionário “Para você, que mudanças ocorreram entre o
jornalismo impresso e o jornalismo na internet, principalmente acerca do que é praticado nos
portais?” aborda as diferenças entre o jornalismo impresso e o online, especialmente o
jornalismo praticado através dos portais jornalísticos. A partir dos depoimentos, vimos que os
próprios sujeitos veem ganhos e perdas em relação a isso, haja vista que ao mesmo tempo em
que se ganha agilidade e recursos tecnológicos, se perde em “qualidade” tanto de informações
quanto de elaboração textual:
S1: O impresso divulga notícias mais atrasadas, porém mais detalhadas e
apuradas. A internet divulga em tempo real.
S2: Ao mesmo tempo que democratizou a informação, pioraram os textos. A
linguagem jornalística na internet é superficial demais, influenciando, claro, nos
leitores.
S3: Agilidade para divulgação da notícia, apesar do prejuízo da apuração das
informações em muitos casos. A dimensão dos conteúdos também mudou em razão
da audiência. Um jornal jamais cortaria duas páginas de política para colocar
notícias do mundo das celebridades no lugar.
Em S1, temos ressaltado o fato de o jornal impresso divulgar a informação “mais
atrasada” que o portal jornalístico. Muito embora aquela seja mais apurada e mais detalhada,
265
o sujeito acredita que a internet divulga “em tempo real”. Já S2 chama a atenção para o fato
de que, mesmo tendo havido uma democratização da informação, os textos tenham “piorado”,
no sentido de que a linguagem da internet é sobremaneira artificial e, por sua vez, tem
influenciado os leitores. S3 também lembra a rapidez na divulgação da informação, mas
ressalta o prejuízo na apuração das informações, por outro lado enfatiza a mudança na
dimensão dos conteúdos em favor da audiência.
Através da internet, vemos que a informação jornalística divulgada a partir dos
portais atinge uma audiência maior e mais diversificada, por um lado, e, por outro lado, essa
informação visa a uma audiência maior e mais diversificada. Logo, é uma via de mão dupla,
ao mesmo tempo em que atinge mais pessoas, esses portais também visam a atrair mais
pessoas, porque a audiência é responsável pela sobrevivência dos mesmos. Então, para
chamar a atenção da audiência os portais trabalham para que muitas notícias sejam publicadas
como se o que é informado estivesse acontecendo concomitantemente ao fato (quase “em
tempo real”), e essa prática, como é reconhecido pelos próprios sujeitos, causa prejuízo na
apuração mais detalhada dos fatos.
Além de menos detalhamento, devido ao menor tempo entre o acontecimento e a
divulgação deste nos portais, os sujeitos reconhecem que os textos apresentam-se numa
linguagem mais simples e abordam conteúdos mais diversificados, para atingir um público
maior. Em S3, temos a observação de que, no portal jornalístico, para chamar a atenção da
audiência, é possível publicar mais notícias sobre o “mundo das celebridades”, algo que é
mais restrito no jornal impresso, devido ao fato de este dispor de menos espaço, e, dessa
forma, para abordar mais sobre um determinado assunto, precisa eliminar outras informações.
Assim, do ponto de vista dos usuários, o jornalismo na internet, possui mais agilidade, mas
não acompanha o nível de detalhamento na apuração das informações do impresso. Ao
mesmo tempo em que proporciona uma maior democratização na divulgação de informações
e dispõe de mais espaço para isso, apresenta-se numa linguagem mais simples (“superficial”)
e divulga informações que, normalmente, não são vistas como relevantes no jornalismo
impresso, apenas para atrair mais audiência.
O terceiro questionamento “O principal material produzido pelos portais jornalísticos
são as notícias. Em sua opinião, qual a finalidade ou o objetivo da notícia ou webnotícia?”
266
está mais diretamente relacionado ao gênero, focando no propósito comunicativo deste. No
questionamento feito para os usuários, o propósito comunicativo aparece como a finalidade ou
o objetivo da ação social realizada a partir da webnotícia. Pelos depoimentos, vimos que a
crença social de que a notícia visa simplesmente informar à sociedade também perpassa pelos
sujeitos produtores desse gênero:
S1: Sim, notícias. O principal objetivo é informar a sociedade.
S5: Não importa qual é o canal usado pelo jornalista. A notícia sempre terá a
finalidade de informar a sociedade. Essa é a função do jornalista
Os próprios sujeitos produtores do gênero contribuem para reforçar a informação de
que o objetivo das notícias é pura e simplesmente informar à sociedade, atrelando à esfera
jornalística uma função social altamente relevante, uma vez que, supostamente, é prestado um
serviço para o bem comum. Por outro lado, também há o reconhecimento de que a notícia visa
a uma grande audiência, e, dessa forma, o que é noticiado pode está condicionado a esse
critério:
S2: Depende de quem escreve ou da política do portal. O principal objetivo seria
informar, mas como em todos os meios de comunicação, cada um tem sua política
de informação. Entretanto, mesmo com todos esses problemas, a notícia na internet
ainda é a mais valiosa em termos de atingir maior público.
S3: O objetivo do online hoje se confunde entre a real função da notícia, que deve
seguir os critérios naturais de noticiabilidade, e a necessidade de audiência, que
provoca o surgimento de conteúdos irrelevantes. Acho que no momento atual isso se
divide.
S4: Informar e entreter, a concorrência na web é muito grande e o público é muito
seleto, então em um portal de notícias, apesar da segmentação de mercado, deve
haver uma quantidade X de conteúdo que possa atingir o maior número de pessoas.
Vemos que S2 diz textualmente que “o principal objetivo seria informar”, mas esse
objetivo está atrelado a uma espécie de “política de informação” dos meios de comunicação, e
ao poder de atingir mais audiência. Já S3 diz que, na internet há confusão entre a “real
função” da notícia, que seria noticiar a partir de critérios de noticiabilidade, e a necessidade de
atrair leitores, divulgando, para isso, “conteúdos irrelevantes”. Em S4 temos destacado dois
objetivos ou finalidades principais da webnotícia: “informar e entreter”, que surgem em
decorrência de, na internet, haver um grande e diversificado público, o que acarreta a
necessidade de se divulgar mais informações para atingir e atender uma audiência maior.
267
Nesse sentido, o propósito ou o objetivo da webnotícia, a priori, é informar. Porém,
já no momento da escolha da informação se observa se a mesma é capaz de atrair público, que
além de variado precisa ser numeroso. Logo, a ação social de informar através de notícias na
internet (que seria objetiva) não é tão simples, porque os critérios de noticiabilidade estão
atrelados à necessidade de audiência (que é altamente subjetiva). Isso contribui para que a
escolha do que tenha mais ou menos relevância para ser divulgado através de notícias nos
portais esteja mais relacionado à possibilidade de atrair a atenção do leitor do que à
importância do fato ou acontecimento em si para a sociedade. Para serem vistos, é preciso que
se produzam notícias que atraiam a atenção de mais pessoas, logo, mais temas são
transformados em matérias de notícias, provocando, conforme o depoimento de um dos
sujeitos “o surgimento de conteúdos irrelevantes”.
O quarto questionamento “A notícia do jornal impresso costuma seguir um padrão
estrutural facilmente reconhecido pelos usuários. Essa estrutura permanece na notícia
produzida especialmente para circular na internet ou tem havido alterações?” está voltado
para a forma estrutural da webnotícia, que, nesse ponto, é normalmente comparada à forma
estrutural da notícia do jornal impresso. O conhecimento de quem faz a notícia produzida
especialmente para circular na internet mostra que as diferenças estão mais relacionadas ao
fato de o texto feito para a internet ser mais curto e, consequentemente, mais simplificado.
Isso acontece em decorrência da pressa em publicar e fazer circular a informação:
S1: Tenho percebido muitas alterações, o texto de internet é mais simplificado e
infelizmente muitas vezes por conta da pressa chega a deixar muito a desejar.
S2: Tem havido alterações demais. A linguagem jornalística na internet tem suas
características próprias e embora conservando alguns princípios e normas do
jornal impresso, é muito diferente.
S3: A notícia da internet é direta ao ponto. O texto tem sido mais curto não só pela
agilidade na hora da produção, mas pela velocidade do internauta em querer
consumir esse produto.
S4: Cada veículo de comunicação tem seu público, sua linguagem, suas
caraterísticas e para identificá-las é preciso conhecer cada um. O usuário que acessa
um portal de notícias ele não tem tanto tempo para parar e ler uma notícia
quanto no impresso, por isso temos que ter cuidado em deixar o texto mais enxuto
possível, sem deixar que ele seja conciso e claro e principalmente que não seja
superficial, daí algumas práticas como deixar o lead mais completo possível se torna
imprescindível.
268
Vemos que S1 destaca o fato de a notícia produzida para a internet ser mais
simplificada e que, muitas vezes, deixa a desejar e S2 reconhece que há muitas diferenças,
pelo fato de que, embora conserve algumas características, o texto da internet tem
características próprias. S3 afirma que o texto é normalmente mais curto por duas razões:
velocidade de produção e velocidade de consumo; já S4 complementa afirmando que o
usuário que acessa um portal não tem muito tempo para ler os textos, dessa forma é que o
jornalista já trabalha para que o mesmo apareça mais “enxuto” para o leitor.
Nesse ponto, mais uma vez, é ressaltada a questão da “simplicidade” que envolveria
a notícia produzida para a web. Esta seria condicionada por dois elementos centrais: o
jornalista (retor), que dispõe de menos tempo para a elaboração textual, e o internauta
(audiência) que, supostamente, tem mais pressa em consumir a informação divulgada a partir
dos portais. Por outro lado, a webnotícia, ainda se “enriquece” com as possibilidades
tecnológicas oferecidas por esse meio, que dão condições de se incluírem recursos como
vídeos, sons e imagens, tornando o texto ainda mais atrativo, na busca pela audiência:
S5: São dois canais de comunicação diferentes e com isso a estrutura muda. O
jornalismo online possibilita o uso dos multimeios que torna a notícia mais rica e
possibilita ao jornalista usar vários recursos que atendem a necessidade de diversos
públicos.
Já vimos, no Capítulo 1, que a possibilidade de utilização de recursos multimodais é
uma característica do jornalismo na web como um todo, haja vista que, nesse meio, é possível
que, numa mesma notícia sejam utilizados vários recursos ao mesmo tempo. Essa
possibilidade tem sido utilizada como uma ferramenta para atrair audiência, que pode ler a
notícia, ver um vídeo de alguma forma relacionado a esta ou uma imagem ou ir para outro site
a partir de um link etc.
A quinta questão “Como é feita a escolha dos assuntos tratados nas notícias do
portal? É o próprio jornalista que realiza essa escolha ou há um direcionamento por parte da
instituição jornalística? Em caso afirmativo, como ocorre esse direcionamento?”, que se
desdobra em três perguntas, está relacionada à substância, que fundida à forma, constitui a
base textual da webnotícia. O questionamento feito aos usuários aborda mais especificamente
a escolha dos assuntos tratados nos textos, e os depoimentos mostram-se divididos entre
269
sendo o próprio portal, enquanto instituição jornalística, quem faz esse direcionamento e o
jornalista/repórter44 pautando-se, independentemente:
S1: No local onde eu trabalho há um direcionamento sim por parte da
coordenação do portal, mas os repórteres tem toda liberdade de sugerirem
pautas.
S2: No meu caso quem faz a minha pauta sou eu mesmo. Não trabalho para o
portal, mas apenas para meu blog. Estou apenas hospedado no portal [--], mas o
conteúdo que publico sou eu mesmo que escolho.
S3: Os próprios jornalistas se pautam. Porém, como em qualquer empresa, há o
interesse do patrão em determinados assuntos de interesse comercial do grupo
jornalístico. Nas pautas, a empresa tem cobrado da web o cuidado para se garantir
todas as versões da notícia, em tempos de correria para publicação de notícias. Há
preocupação com processos judiciais.
Pelas informações dos depoimentos, vemos que são produzidas matérias pensadas
apenas pelos repórteres/jornalistas e outras pelas instituições as quais os mesmos estão
vinculados. S1 afirma que embora haja o direcionamento por parte da empresa jornalística
responsável pelo portal, os repórteres têm liberdade de sugerirem pautas. Já para S2, que é
responsável por um blog hospedado em um portal jornalístico, sempre quem dá o
direcionamento é ele mesmo, que, especificamente, cumpre os dois papéis. S3 afirma que, no
seu caso, os jornalistas se pautam, mas há o direcionamento por parte da empresa em torno de
determinados assuntos de interesse comercial. A empresa também tem cuidados com
possíveis processos judiciais decorrentes das matérias publicadas.
Os sujeitos não fizeram menção à transformação que é feita da informação para que a
mesma seja adaptada para o gênero notícia, mas vemos que, em se tratando de pautas para
matérias, no processo de produção de webnotícias, muitos conteúdos podem constituir alguma
relevância para serem publicados através dos portais. Já ficou claro, para nós, nos
depoimentos relacionados às questões anteriores, que os portais precisam produzir muitas
notícias, que, por sua vez, abordem muitos temas, porque eles precisam de muitos leitores.
Assim, muito mais importante do que apresentar informações julgadas como relevantes e/ou
importantes, é apresentar informações julgadas como capazes de atrair a atenção de mais
pessoas.
44
No webjornalismo, normalmente quem apura as informações é que elabora e publica a notícia. Logo, as
distinções entre repórter e jornalista perdem força, e os próprios sujeitos ora se veem como repórteres ora como
jornalistas.
270
A questão sexta “Você costuma se basear em outros textos que serviriam de uma
fonte para uma notícia? Faz diferença ter um texto-fonte para construir uma notícia?” está
voltada para a utilização de textos-fonte. Os depoimentos mostram que não é sempre que as
notícias se baseiam em textos-fonte, mas esses são bastante presentes no processo de
produção de notícias:
S1: As vezes sim, para pegar informações.
S3: Pela demanda de notícias e de editorias a serem atualizadas, informações de
releases são comumente aproveitadas, em especial frases de entrevistados. Mas o
texto-fonte, especificamente no meu trabalho, não faz diferença.
S5: Quando vou escrever a respeito de um assunto que não domino tenho que
recorrer a textos que tratam sobre aquilo. Escrevo sobre política e quando sou
pautada para tratar de assuntos como economia (ligado a política) preciso
recorrer a textos da área econômica. Isso faz toda diferença. Ajuda na qualidade
da notícia passada ao leitor
S1 destaca que se utiliza de textos-fonte para “pegar informações”, S2 afirma que,
devido a demanda de produção ser grande, aproveita informações de “releases”, sobretudo
trechos de entrevistas, já S3 diz que recorre a textos-fonte para se informar sobre conteúdos
que não domina, porque isso ajuda na qualidade da informação divulgada através da notícia.
Nesse sentido, vemos que o texto-fonte auxilia o jornalista tanto no sentido de fornecer
informações para construção da notícia, como otimiza o trabalho deste, quando possibilita que
informações já coletadas sejam aproveitadas em outros textos.
De toda forma, sabemos que, no processo de produção da notícia, são os textos-fonte
que fornecem, em sua maioria, as informações-base que o jornalista utiliza para compor os
seus textos. A questão sétima “Há tipos de fonte mais comumente buscados e selecionados
para embasar as webnotícias? Por quê?”, que também trata da utilização de textos-fonte, está
mais voltada para a escolha desses textos-fonte:
S1: Geralmente outros sites na internet, pessoas envolvidas na pauta, etc.
S3: Fontes oficiais são priorizadas, em especial pela preocupação da empresa em
evitar processos.
S5: A principal fonte é o personagem envolvido diretamente naquela informação.
Depois acredito que são outros textos que circulam na própria internet.
Como já apontamos na análise de dados que fizemos neste Capítulo 6, as fontes
oficiais são priorizadas, porque estas são sobremaneira importantes na construção do efeito de
271
verdade construído nas notícias e, ainda, pela preocupação de eventuais problemas judiciais
futuros. Os participantes diretos dos fatos também são importantes, e ainda são utilizados
textos que circulam na própria internet. Dessa forma, vemos que mesmo a internet tendo
possibilitado que se diversificassem mais as fontes de informação dos textos noticiosos,
mantém-se ainda muito próxima do jornalismo impresso essa prática de priorização de fontes
oficiais ou de pessoas ligadas ao acontecimento tratado.
Por outro lado, e de extrema relevância de ser considerado, é o fato de textos que
circulam na própria internet aparecerem como fontes de notícias. Esses textos são bastante
variados e circulam em diferentes sites de diferentes finalidades, até mesmo em sites
jornalísticos, que são utilizados como base informativa para construção de notícias para outros
sites informativos. Como já vimos neste Capítulo 6, o texto-fonte pode inclusive ser
reproduzido na íntegra na notícia ou também ser disponibilizado através de um link que
direciona o leitor para outro site ou para uma outra página do mesmo site.
A oitava questão “De que maneira as informações das fontes são aproveitadas no
texto da webnotícia? Como a internet auxilia no trabalho do jornalista na utilização dessas
fontes?” faz referência ao aproveitamento das fontes, que pode estar aliado aos recursos
tecnológicos oferecidos pela internet. Os depoimentos mostram que as informações das fontes
embasam as notícias e podem ser obtidas através de sites de pesquisa, entrevistas online,
feitas através de e-mail e até por redes sociais:
S2: Ferramentas de pesquisas como google ou outras são importantíssimas e
servem para nos embasar sobre um assunto em que tratamos.
S3: A internet agiliza as informações enviadas por qualquer fonte. Isso proporciona
que desde textos a até vídeos sejam aproveitados.
S4: O encurtamento das entrevistas e a facilidade, pois as entrevistas podem ser
feitas online, através de redes sociais e e-mail.
O depoimento de S2 destaca a facilidade que ferramentas de pesquisa como o Google
trouxeram para o trabalho do jornalista de pesquisar informações para embasar os seus textos.
S3 afirma que a internet agiliza a informação fornecida por qualquer tipo de fonte, no sentido
de que textos escritos e até vídeos possam ser utilizados na composição da notícia. Já S4
afirma que a internet proporcionou um “encurtamento” de entrevistas ao mesmo tempo em
272
que as facilitou, haja vista que as mesmas já podem ser feitas online, seja através de e-mail ou
até mesmo de redes sociais.
Assim, o jornalista pode trabalhar mais em menos tempo, pois tem condições de
conseguir informações sobre determinado evento ou caso a ser noticiado sem precisar se
deslocar fisicamente para outros locais. Por outro lado, essa “facilidade”, aliada a alta
demanda de produção e publicação de informações, oferece grandes riscos, que estão ligados
ao que já destacamos acima sobre a diminuição do tempo de apuração dos fatos para
publicação destes. Nesse sentido, além dos textos estarem se tornando mais simples e mais
curtos, em que são cada vez mais reproduzidas informações dos textos-fonte através de
citações diretas, mais equívocos podem ser divulgados como fatos, onde falsas informações
são cada vez mais divulgadas como verdadeiras.
A nona questão “Um único texto-fonte pode constituir uma notícia? Em que
condições?” faz menção ao critério mais especificamente abordado em nossa tese, que analisa
principalmente notícias constituídas fundamentalmente sobre um mesmo texto-fonte. Embora
os depoimentos se dividam entre “sim” e “as vezes”, vemos que os textos que são utilizados
como fontes principais de notícias são normalmente oficiais, para prestação de serviços, que
são de interesse público, por exemplo, ou mesmo para atrair leitores, como uma sentença
judicial de um acusado por um crime:
S2: Pode sim. Basta que o jornalista saiba que ele é de interesse do leitor.
S3: Em alguns casos sim, em se tratando de informações oficiais, em especial de
prestação de serviço.
S4: Sim, quando um juiz vai divulgar a sentença de um acusado de homicídio que
já foi condenado, por exemplo.
S5: Seria preciso confiar muito em uma fonte para construir uma matéria com base é
um único texto-fonte. Se um jornalista fizer isso deve ter uma relação muito boa
com a fonte. Isso não seria correto. O jornalista deve ouvir todos os lados, os
envolvidos na notícia. Quando se constroi uma notícia com base em uma única fonte
o profissional limita a informação e o leitor vai perceber e irá buscar mais
informações em outras fontes.
O depoimento de S2 é categórico, um único texto-fonte é utilizado para construção
de uma notícia quando o mesmo é de interesse do leitor. S3 afirma que, em geral, são
utilizados como fonte única textos que contêm informações oficiais, sobretudo em se tratando
de prestação de serviço. S4 diz que a sentença de um acusado (já condenado) pode ser vista
273
como um exemplo de um caso em que se pode utilizar uma única fonte para se produzir uma
notícia. Já S5 considera que é preciso ter uma relação muito boa com a fonte para que a
mesma seja utilizada como única, nesse caso, o sujeito se reporta a uma fonte humana.
Pelos depoimentos, é possível percebermos que podem ser várias as situações e as
formas de utilização de um único texto-fonte para construção de notícias. São muitos os casos
de notícias que “prestam serviço” através da divulgação de documentos oficiais ou que se
baseiam em documentos públicos ou oficiais para divulgar fatos e acontecimentos, cuja
responsabilidade pela informação é do documento oficial, como a sentença de um acusado por
um crime, ressaltada no depoimento de S4. No geral, todas essas informações divulgadas
visam ao leitor, assim, ao mesmo tempo em que uma informação oriunda de um documento
oficial contribui para a veridicidade da notícia ela atrai a atenção da audiência.
A décima questão “O texto-fonte às vezes aparece na mesma página da webnotícia.
Por exemplo, uma notícia trata de um depoimento dado por uma testemunha e o depoimento é
reproduzido na íntegra na mesma página da notícia. Qual a finalidade disso? Que diferença
teria se esse texto-fonte não fosse publicado?” também está voltada para a utilização de
textos-fonte. Nesse caso, volta-se, mais especificamente, para a reprodução integral deste na
construção da notícia. Os depoimentos mostram que existem várias razões para que o textofonte seja utilizado como parte da notícia:
S1: O depoimento serve para detalhar mais ainda a notícia, dar mais
credibilidade a mesma.
S2: Ele traz mais veracidade ao fato. É a testemunha declarando, o que isenta o
jornalista.
S3: Alguns veículos optam por colocar o depoimento em outra página na tentativa
de gerar cliques que em tese dão audiência. Mas manter tudo na mesma página
aumenta o tempo de permanência do internauta na mesma, o que também rende
bons índices em termos comerciais.
S4: Para a comprovação dos dados
S5: Acredito que se o depoimento for reproduzido na íntegra o leitor terá mais
informação.
Nos trechos de depoimentos destacados acima, S1 considera que essa prática
contribui para o detalhamento da notícia e para dar mais credibilidade a ela; S2 afirma que dá
mais veridicidade ao fato ao mesmo tempo em que isenta o jornalista; S3 explica que quando
274
o depoimento é colocado noutra página ele gera mais cliques, quando colocado na mesma
página da notícia aumenta o tempo de permanência do leitor, em termos comerciais, os dois
casos são favoráveis; S4 afirma que a prática favorece a comprovação dos dados e S5 que o
leitor dispõe de mais informações.
Os cinco depoimentos permitem percebermos que a reprodução total de um textofonte na construção de uma webnotícia não é aleatória e não está relacionada apenas ao
espaço maior que o jornalista tem na internet para a produção dos seus textos. Dessa forma,
critérios como detalhamento de informações, credibilidade, veracidade, imparcialidade,
comprovação de dados, tão caros ao jornalismo, são reforçados diante dessa prática. Logo,
trata-se de uma (ou várias) ferramenta(s) da web sendo utilizada(s) em favor de uma prática
social já conhecida no jornalismo produzido fora da web, que é a criação do “efeito de
verdade”, já abordado por nós no capítulo 1, com base em Van Dijk (1990 [1988]).
Por sua vez, a décima primeira e última questão “Faça um relato, com base na sua
experiência diária, sobre o processo de produção de uma notícia a ser publicada no portal
jornalístico que você trabalha” solicita ao sujeito que relate sobre sua experiência diária de
produzir webnotícias. Os depoimentos tenderam mais para a descrição da rotina de pesquisa,
escrita e publicação:
S1: No meu caso, especificamente que lido com política regional, sempre
buscamos conversar com as pessoas envolvidas via telefone ou até mesmo em
um encontro pessoalmente. Usamos como fonte ainda órgãos que trabalham na
área como o TJ e o TRE. Em seguida vem a parte de construção do texto e
postagem.
S2: Jornalista tem que está antenado com os fatos, ligado nos acontecimentos,
entretanto o mais importante é saber o que é notícia. O que é de interesse dos
leitores. Às vezes uma conversa sem pretensões com um amigo pode revelar uma
pauta fantástica e de grande interesse dos leitores. No meu caso, tenho um banco de
informações com várias sugestões de matéria. Dou preferência por aquelas que
entendo ser de maior interesse público. Após checar todas as informações sobre
a pauta elaboro a notícia.
S3: Como todos os repórteres do veículo, faço rondas diárias para qualquer
editoria e analiso as denúncias recebidas através de email, mensagem do
Whatsapp e outras ferramentas. Em caso de fato urgente, como incêndio ou
acidente, o fato é noticiado de imediato. Notícias com denúncias demandam
investigação, in loco ou não, e procura pelo responsável pelo problema relatado. A
postagem dos repórteres é direta, sem edição. A coordenadora normalmente orienta
o enfoque e só altera o titulo sugerido.
275
No depoimento de S1 temos descrita uma rotina de um repórter/jornalista de notícia
política, e dessa forma segue o processo de pesquisar entre pessoas envolvidas na pauta, seja
presencialmente ou por telefone e órgãos públicos vinculados aos temas recorrentemente
noticiados, como o Tribunal de Justiça e o Tribunal Regional Eleitoral, de escrever e publicar
o texto. Já o depoimento de S2, que é responsável por um blog hospedado em um portal
jornalístico, coloca em destaque o interesse da audiência, sendo que todo o processo de
produção das notícias sempre leva em conta a possibilidade de atrair a atenção de leitores. S3,
também seguindo a rotina de pesquisa/apuração, escrita e publicação, chama a atenção para
ferramentas de comunicação, como e-mail e outros aplicativos de bate-papo online, como o
whatsapp, que são utilizadas para denúncias e investigações.
Pelos depoimentos apresentados e analisados nessa seção, vemos que o usuário
experiente da webnotícia tem um conhecimento implícito do gênero, adquirido a partir da sua
prática, que nem sempre é tão óbvio para o pesquisador identificar através da análise dos
textos exemplares daquele gênero. Para o usuário experiente, a produção de webnotícias faz
parte de uma rotina, muitas vezes transformada numa ação mecânica de reconhecer o fato,
pesquisar sobre ele, produzir um texto, contendo determinadas características, e publicá-lo no
portal jornalístico.
Esses sujeitos reconhecem que a notícia produzida por eles para ser publicada no
portal é diferente do que se faz noutros meios jornalísticos, mas, ao mesmo tempo, entendem
que essa diferença não torna a notícia da internet independente da notícia produzida fora da
internet, existem limites e os sujeitos sabem respeitá-los, mesmo que nem sempre tenham
consciência desses limites. Entender isso significa pensar no que é discutido por Miller (2009
[1984], p. 28) acerca do “conhecimento que a prática cria”, em que o conhecimento empírico
do usuário experiente de um gênero estabelece as categorias genéricas e compreensões acerca
dos discursos que não são tão passíveis de serem identificadas e analisadas através de textos
pelo analista.
O reconhecimento do usuário experiente de que a webnotícia é “diferente” da notícia
do jornal impresso, por exemplo, está centrado na sua prática retórica com o gênero, que,
segundo Miller (2009 [1984]), engloba substância, forma e ação social. Essa ação, por sua
vez, engloba situação e motivo, porque as ações humanas são interpretadas dentro de um
276
contexto de situação e “através da atribuição de motivos” (p. 23). Logo, como a situação
retórica recorrente e a ação retórica da webnotícia são conhecidas pelos usuários experientes,
isso é vivenciado de forma naturalizada dentro de um contexto de produção específico, em
que os sujeitos entendem ser diferente do contexto de produção da notícia produzida fora dele.
6.5 Estratégias de retextualização e funcionamento da webnotícia: discussão dos
resultados
Diante de tudo que analisamos sobre o processo de construção da webnotícia, no
tocante ao processamento da informação, podemos considerar que as hipóteses elencadas no
início desta pesquisa foram confirmadas diante dos resultados das análises. A hipótese geral
de que a retextualização, na notícia, é um processo que ocorre intimamente relacionado aos
condicionamentos e especificidades do gênero, considerada a partir do objetivo geral de
pesquisa, foi confirmada já na análise das estratégias de retextualização, realizada no Capítulo
5.
Consideramos, inicialmente, a partir dessa hipótese, que a característica da notícia de
“trazer informações novas e relevantes” condicionaria os mecanismos linguísticos utilizados
pelo jornalista para divulgar e difundir socialmente a informação como sendo de interesse
público. Nas análises, vimos que as estratégias de retextualização utilizadas pelo retor para
construção da notícia têm em vista os condicionamentos e especificidades do gênero, o que
termina por direcionar as estratégias utilizadas para transformação da informação, que sempre
tem em vista uma adaptação às formas discursivas recorrentes da notícia. É preciso adaptar a
substância (conteúdo/informação), para que a mesma seja fundida à forma recorrente do
gênero, e isso sintetiza a retextualização do texto-fonte para a notícia.
No capítulo 5, analisamos quatro estratégias de retextualização principais elencadas a
partir do corpus deste trabalho. Concluímos que a eliminação está relacionada à “regra do
jornalismo” de redução do volume de linguagem das informações do texto fonte principal, em
que são eliminadas informações julgadas como desnecessárias ou palavras e expressões de
277
âmbito técnico, que podem ou não ser substituídas por outras “similares”.
O que é
considerado de “maior relevância” é, normalmente, aproveitado e estabelecido em
decorrência do poder de atrair a atenção da audiência.
Na estratégia de acréscimo, são inseridas informações na composição do lide da
notícia, e que dão precisão ao fato noticiado, a partir da utilização de “figuras de precisão”
(VAN DIJK, 1990 [1988]), com a indicação de nomes próprios, de papeis sociais dos sujeitos
envolvidos, nomes de lugares, datas e horários específicos. Essas informações colaboram com
a construção do efeito de verdade do discurso jornalístico, a partir da suposta apresentação
precisa dos fatos. Outros acréscimos são decorrentes da utilização de palavras e/ou expressões
que avaliam o fato noticiado ou de informações de outros textos, com ou sem indicação da
fonte.
Já a substituição lexical de uma palavra ou expressão por outra pode alterar o valor
da informação veiculada no texto-fonte, embora o locutor se apoie num conhecimento comum
(ou compartilhado) socialmente sobre determinado fato ou assunto, que, de alguma forma, faz
com que uma palavra ou expressão no lugar de outra apareça sem que haja um
“estranhamento” por parte dos leitores. Já a substituição para “adaptação” da informação é
julgada como necessária de acordo com o texto-fonte da notícia, podendo ocorrer para atender
ao uso da norma padrão, que é característico do gênero notícia, ou para substituir termos ou
expressões de âmbito técnico, simplificando a linguagem. Há casos de substituição ainda para
ser dado destaque ao papel social do indivíduo envolvido no que é noticiado e para a
construção do efeito de distanciamento, na apresentação do discurso em terceira pessoa.
A estratégia de reorganização acontece na webnotícia a partir do destaque que é dado
à informação julgada como principal, seguindo o critério de relevância do jornalismo, em que
as informações mais importantes aparecem primeiro, numa ordem decrescente de relevância
ao longo do texto. A relevância pode, inclusive, ser julgada pelo impacto social da informação
ao ser divulgada, no sentido de esta ser capaz de atrair mais a audiência.
A partir da análise dessas quatro estratégias, concluímos que o processo de
retextualização que acontece na passagem da informação do texto-fonte para a webnotícia tem
em vista uma transformação, nos termos de Marcuschi (2000 [2010]), que resulta numa
278
adaptação da informação do texto-fonte ao gênero notícia. Essa adaptação, por sua vez, é o
que define o processamento da informação na construção da notícia, podendo ser analisada no
âmbito do gênero, uma vez que acontece em função das características formais e substantivas
deste. Nesse sentido, realizamos uma análise sociorretórica da notícia, no capítulo 6,
considerando ainda os textos-fonte principais tomados como base informativa na produção
desse gênero.
A segunda hipótese de pesquisa, relacionada ao primeiro objetivo específico desta
tese, foi confirmada na análise das estratégias de retextualização, no capítulo 5, e ratificada na
análise sociorretórica da webnotícia, no capítulo 6. A hipótese é que a retextualização está
diretamente relacionada aos elementos composicionais da notícia, como forma e substância,
no sentido de que as estratégias linguísticas utilizadas colaboram para o funcionamento social
do gênero, havendo tratamento da informação em relação ao texto-fonte. Vimos que as
estratégias linguísticas utilizadas são decorrentes do conhecimento tipificado do gênero, que
faz com que este seja reconhecido de uma forma em detrimento de outras. A tipificação do
gênero envolve o reconhecimento de uma forma e de uma substância atreladas a uma ação
social. Esses três elementos constituem o gênero e organizam as práticas discursivas
realizadas recorrentemente através dele.
A webnotícia, vista aqui sob a perspectiva da sociorretórica, é analisada sob o
pressuposto de que gênero é ação social e, portanto, deve ser caracterizado como tal, porque
sua natureza é mais pragmática e retórica do que formal (MILLER, 2009 [1984]). Por outro
lado, consideramos também o fato de que os gêneros possuem características formais. Porém,
a forma dos gêneros está intimamente relacionada à substância, que devem ser entendidas
como sendo o resultado de uma fusão, no sentido de que não funcionam separadamente.
Logo, forma e substância são fundidas no gênero para colaborar com a ação social a ser
realizada através dele.
Na composição formal do gênero notícia, vemos uma relativa estabilidade, com
elementos estruturais reconhecidos facilmente pelos usuários. A webnotícia é produzida
especialmente para circular na internet, mas mantém as principais características formais que
identificam a notícia fora desse meio, como manchete, eventos principais etc. Na construção
da webnotícia, a substância necessariamente se incorpora à forma, ou seja, elas se fundem
279
para que uma única ação seja realizada através do gênero. Nesse ponto, é que podemos
perceber mais claramente as adaptações sendo feitas na “substância” (conteúdo/informação)
do texto fonte, para que a mesma seja fundida à forma específica da notícia.
A terceira hipótese de que na webnotícia, o texto-fonte pode ser mais que um textofonte, no sentido de que, aparecendo no portal jornalístico, na mesma página da notícia, ele
pode funcionar como parte da notícia ou, ainda, como a própria notícia, dentre outras,
decorrente do nosso segundo objetivo específico, também foi confirmada. Nas análises, vimos
que o texto-fonte além de funcionar como parte da notícia ou como a própria notícia, ele
funciona como uma estratégia retórica vinculada ao jornalismo como um todo, que se
fortaleceu com as possibilidades tecnológicas da internet. Logo, a utilização do texto-fonte na
webnotícia funciona para comprovação de dados, para o detalhamento de informações, para
imprimir veridicidade ao que é noticiado, para contribuir com o efeito de imparcialidade etc.
Por outro lado, ainda facilita e otimiza o trabalho de produção textual do jornalista, já que
pode ser utilizado como parte da notícia ou como a própria notícia.
A reprodução total ou parcial do texto-fonte é uma questão relevante e considerada
na análise da webnotícia, em que, muitas vezes, parece ser mais importante a presença da
fonte do que o fato noticiado. Na formulação de uma notícia constituída por manchete, lide,
eventos principais e texto-fonte, vemos que este acaba por desenvolver mais do que o papel
de fonte, uma vez que a notícia é construída, basicamente, pela própria fonte ou em função
desta. Mesmo sendo uma prática possibilitada pelo espaço aparentemente indeterminado que
o jornalista tem na página do portal para a sua notícia e pelos recursos multimidiáticos do
meio digital, a mesma pode estar relacionada ainda à pressa que os portais têm para divulgar e
fazer circular informações, sendo que a presença do texto-fonte ainda funciona como um fator
de credibilidade e idoneidade da informação noticiada.
Por outro lado, mesmo que a informação seja reproduzida exatamente como se
apresenta no texto-fonte, a “mesma” informação em gêneros diferentes está relacionada a
propósitos ou objetivos específicos. Assim, o texto-fonte, reproduzido na íntegra, como
complemento da notícia, ou como a própria notícia, já adquire, quando publicado no portal
jornalístico, uma nova configuração. Nesse caso, a utilização do texto-fonte como uma
resposta à situação retórica recorrente da notícia faz com que esse funcione socialmente com
280
status de informação noticiosa. Quando fixado no portal, o texto-fonte passa a fazer parte do
gênero notícia e funciona como tal, sendo destituído de seu propósito comunicativo inicial e
sendo utilizado para a realização da ação social da notícia.
A natureza dos textos-fonte que dão base às notícias analisadas por nós neste
trabalho contribui sobremaneira para a construção da atmosfera de verdade em que o discurso
noticioso é construído. A utilização de documentos oficiais e de textos pessoais com autoria
declarada funciona como um fator que imprime idoneidade e veridicidade à informação. No
caso específico da webnotícia, que, além de se basear nas informações de textos-fonte, pode
reproduzi-los integralmente, a estratégia de imprimir credibilidade ao que é noticiado a partir
da utilização de documentos e fontes oficiais é ainda mais eficaz, pois isso contribui
diretamente na construção do efeito de verdade.
Embora a utilização de fontes idôneas não seja uma prática nova no jornalismo, a
possibilidade de inserir o texto-fonte na íntegra tem se tornado mais recorrente no
webjornalismo. O documento reproduzido na íntegra contribui sobremaneira para despertar a
atenção da audiência, funcionando como “prova” do que está sendo noticiado, ainda que o
texto da notícia seja tendencioso e parcial. A presença da fonte ainda favorece a crença de que
o leitor da web (internauta) é independente para construir sua leitura, optando por ler a notícia
ou o texto-fonte que a priori compartilham as mesmas informações.
Partindo do pressuposto de que as situações retóricas são recorrentes, muito do que
se fazia nas redações dos jornais impressos foi adaptado para as redações dos portais
jornalísticos, o que significa dizer que novas práticas nasceram apoiadas em outras. Porém, os
sujeitos vinculados ao webjornalismo incorporam recursos tecnológicos do meio as suas
práticas comunicativas, que também foram (e continuam) se adaptando às demandas
situacionais que exigem respostas diferentes de outras utilizadas fora da web.
Em se tratando de notícia, é possível dizermos que a situação retórica recorrente, no
geral, é uma, já que todos os exemplares do gênero são divulgados sob o pressuposto da
necessidade de tornar pública e de divulgar uma informação que é relevante e que desperte a
atenção de uma audiência. Porém, dentro dessa mesma situação, existem ainda intenções
particulares e propósitos específicos que são imbricados ao propósito comunicativo
281
socialmente compartilhado da notícia e são colocados em prática pela ação social realizada
através do gênero. A análise de casos específicos mostra que determinadas intenções são
realizadas, envolvendo o favorecimento ou o beneficiamento de sujeitos específicos.
Sendo produzida por sujeitos vinculados a uma comunidade retórica, esses podem
divulgar informações que atendam a interesses particulares e que favoreçam ou desfavoreçam
alguém ou algo. Essas informações são apresentadas socialmente como uma suposta resposta
à exigência retórica da situação retórica recorrente da notícia e, de um modo geral, funcionam
como tal. Importante atentar ainda para o fato de que o que é definido como possuidor de
valor informativo em notícias se relaciona intimamente às estruturas sociais, bem como aos
papeis sociais desenvolvidos pelos sujeitos. Isso já é tão comum que notícias que informam
sobre pessoas públicas, normalmente, chamam mais a atenção da audiência, mesmo que
existam diferentes padrões e perfis de leitores.
Por outro lado, em se tratando de gênero notícia enquanto ação social, é importante
considerar o porquê de não percebermos a informação do texto-fonte com valor de notícia
como percebemos na notícia. Uma “mesma” informação aparecendo numa nova situação
retórica realiza uma nova ação retórica, porque participa de um novo gênero e já está
“moldada” para uma forma estrutural prototípica que, nessa nova situação, colabora para que
a ação seja realizada e entendida de uma forma e não de outra.
Logo, toda notícia, seja produzida para circular na web ou fora dela, realiza a ação de
divulgar ou tornar pública uma informação, sendo que cada meio, online, impresso etc.,
utiliza os recursos disponíveis que favoreçam essa ação de divulgar. Na webnotícia,
especificamente, o retor incorpora à ação de divulgar informações a possibilidade disponível
no meio online de mostrar dados que, dentre outros, comprovem o que se noticia e, dessa
forma, contribuam para a construção do efeito de verdade, através da reprodução total ou
parcial do texto-fonte principal. Embora a ação de divulgar e/ou tornar publicas informações
aconteça imbricada à ação de mostrar, a ação social realizada a partir da webnotícia continua
sendo uma. Nesse único ato, recursos do meio, como a possibilidade de utilização de links,
vídeos, imagens, longos textos escritos, são incorporados para colaborarem com a ação social
e com a finalidade desta, o propósito comunicativo.
282
Portanto, ainda que intenções paralelas ou secundárias, como promoção, tomada de
posição, favorecimento e/ou beneficiamento, sejam realizadas através da ação geral, a notícia
sempre é inicialmente reconhecida e caracterizada como um tipo de discurso que divulga
pública e objetivamente informações recentes e relevantes de interesse comum. A utilização
do gênero notícia para finalidades outras que não somente a divulgação objetiva de
informações não elimina o status quo atrelado a esse gênero que é conhecido e reconhecido
socialmente.
Quanto ao propósito comunicativo, este aparece como a finalidade da ação social
realizada através do gênero, e é socialmente compartilhado, sendo que esse caráter pode
favorecer a realização de intenções particulares. Na construção da notícia, a escrita em
terceira pessoa já confere ao discurso uma suposta impessoalidade, que favorece a
apresentação da informação como sendo objetiva. A ausência de marcas linguísticas de
subjetividade contribui para que a intenção particular se realize como propósito comunicativo
do gênero. A credibilidade social conferida às notícias faz com que intenções particulares se
realizem mais eficientemente.
Finalmente, decorrente do nosso terceiro objetivo específico, a quarta e última
hipótese de que a presença do texto-fonte na mesma página da internet em que a notícia é
publicada funciona como uma estratégia retórica que dá a ideia de que o internauta pode ter
acesso aos fatos diretamente, imprimindo, assim, credibilidade ao portal jornalístico foi
ratificada a partir dos depoimentos dos usuários experientes do gênero. Na hipótese, também
consideramos que o jornalista manipula a informação em função de interesses determinados
da instituição jornalística a qual se vincula e divulga a informação para chamar a atenção do
interlocutor, o que já é próprio dos gêneros midiáticos.
Confirmamos essa hipótese a partir do desenvolvimento de uma etapa da pesquisa
prevista desde a escolha da perspectiva teórica para análise da webnotícia, em que colhemos
depoimentos de jornalistas/repórteres de portais jornalísticos sobre o processo de produção da
webnotícia, considerando tanto o meio em que o mesmo circula (a internet), o suporte em que
é fixado inicialmente (o portal) e o contexto de produção. Já no primeiro questionamento, foi
unânime entre os usuários a ênfase na importância dos portais para o jornalismo, que se
“enriquece” da rapidez e da velocidade com que as informações podem circular na web.
283
Segundo os sujeitos, existe a partir do jornalismo na internet, uma democratização da
informação, já que é possível alcançar mais pessoas.
Porém, ao mesmo tempo em que é possível divulgar informações para mais pessoas
também se busca atingir mais pessoas com essa informação, pois é a audiência que mantém
“vivos” os portais jornalísticos. Logo, segundo os próprios sujeitos, os portais buscam
publicar “em tempo real”, o que causa prejuízo na apuração detalhada dos fatos. Nesse
sentido é que, embora tenha mais agilidade, o jornalismo online não acompanha o nível de
detalhamento na apuração das informações do impresso. E, para os sujeitos, por levar
informações para mais pessoas e dispor de mais espaço para publicação de mais notícias, a
linguagem se torna mais simples (“superficial”) e muitas informações são divulgadas apenas
para atrair a atenção da audiência.
Por outro lado, vemos que os próprios sujeitos produtores de webnotícias reforçam a
crença de que as notícias têm o objetivo de informar à sociedade, atribuindo à esfera
jornalística uma função social altamente relevante, por prestar um serviço para o bem comum.
Todavia, os mesmos se contradizem ao reconhecerem que a webnotícia visa a uma grande
audiência, de modo que o que é noticiado está condicionado a isso. Assim, embora se afirme
que o propósito ou objetivo da notícia seja apenas informar, já no momento da escolha da
informação a ser noticiada, se observa se a mesma é capaz de atrair público. Portanto, os
critérios de noticiabilidade estão atrelados à necessidade de audiência, o que contribui para
que a escolha do que tenha mais ou menos relevância para ser divulgado através de
webnotícias esteja mais relacionado à possibilidade de atrair a atenção dos internautas do que
à importância daquela informação para a sociedade.
A “simplicidade” do texto noticioso da web, atribuída à pressa em publicar e fazer
circular informações, é sempre ressaltada pelos sujeitos como um critério relevante de ser
observado na comparação com a notícia do jornal impresso. Por outro lado, essa
“simplicidade” pode ser condicionada por dois elementos centrais: o retor (jornalista), que
tem menos tempo para produzir suas notícias, e a audiência (internauta), que tem mais pressa
em consumir informações divulgadas a partir das notícias de portais, que além de mais
“simples”, normalmente, apresentam complementos de informação (como vídeos, imagens,
links etc.), para atrair o leitor.
284
Nesse contexto de larga produção e divulgação de webnotícias que atraiam a atenção
de audiência, o texto-fonte surge para auxiliar o jornalista na produção textual, tanto no
sentido de fornecer informações como no de agilizar o trabalho deste, que utiliza informações
(idôneas) já organizadas em outros textos. Portanto, mesmo que tenham se diversificado as
fontes para as notícias (e as formas de utilização destas) a partir da utilização de ferramentas
da internet, a prática de priorização de fontes oficiais ou de pessoas ligadas ao fato ou ao
evento noticiado é mantida, semelhantemente ao que é feito no jornalismo praticado fora na
web.
No tocante à utilização de uma fonte principal ou única na construção de uma
webnotícia, são várias as situações. Até mesmo as notícias que “prestam serviço” ou que se
baseiam em documentos oficiais, no geral, visam ao leitor. Logo, a reprodução parcial ou total
de um texto-fonte como parte ou até mesmo como a própria notícia não é aleatória e nem se
relaciona ao espaço aparentemente ilimitado que o jornalista tem no portal para o seu texto.
Critérios como detalhamento de informações, credibilidade, veridicidade, imparcialidade,
comprovação de dados aparecem nos depoimentos dos sujeitos produtores da webnotícia
como relacionadas ao aparecimento da fonte. Em outras palavras, as ferramentas da web são
utilizadas em favor de uma prática já conhecida do jornalismo de fora da web.
Importante observar que o conhecimento implícito dos usuários experientes acerca
da webnotícia mostra que os mesmos veem a notícia produzida especialmente para circular na
internet como diferente das que são produzidas para circular fora desse meio, e, logo, apontam
naturalmente semelhanças e diferenças dessas com as demais. Esse conhecimento é adquirido
a partir da rotina desses sujeitos produtores do gênero, que acaba por se tornar numa ação
mecânica de reconhecimento do fato, de pesquisa e de produção textual, em que se
consideram as características do meio e se utilizam das ferramentas disponibilizadas por este.
Por outro lado, mesmo sendo diferentes e se considerando as particularidades que
envolvem o contexto de produção da webnotícia, as mesmas continuam sendo
recorrentemente rotuladas como notícias. Esse rótulo ou classificação pontua definitivamente
a ação que é realizada através do gênero notícia em geral e mostra que a notícia para a internet
não é um novo gênero, mas uma modalidade ou um tipo de notícia, que ao mesmo tempo em
285
que apresenta particularidades devido ao meio em que circula, mantém a ação social realizada
pelos gêneros nos diferentes meios em que são produzidos ou em que circulam.
Finalmente, reiteramos o que já assumimos desde o início deste trabalho, segundo
Marcuschi (2010 [2000]), de que, em nosso dia a dia, as informações são moldadas de acordo
com o nosso objetivo de comunicar, em que nos apropriamos de informações de um texto e as
reformulamos em outros textos, noutras situações comunicativas, adaptando-as às nossas
necessidades. Assim, lidamos diariamente com a retextualização, ainda que não nos demos
conta disso. Logo, na construção de uma notícia a partir da apropriação das informações de
um texto-fonte, como vimos neste trabalho, também realizamos um processo de
retextualização.
Marcuschi (2010 [2000]) fez considerações importantes sobre o que entendemos por
Retextualização neste trabalho, apontando direcionamentos para o entendimento e o estudo
desse fenômeno. O autor define retextualização, basicamente, como um processo de
adaptação textual (que acontece através de transformações feitas a partir do texto-base). Nesse
processo, deve-se dar relevância para algumas variáveis importantes, como o propósito ou
objetivo da retextualização, a relação entre o produtor original e o transformador, a relação
tipológica entre o gênero do texto-base e o gênero da retextualização e os processos de
formulação típicos das modalidades oral e escrita da língua.
Na retextualização, entram em ação várias operações que fazem a regulação
linguística de acordo com a necessidade comunicativa. Logo, existem operações que afetam
diretamente as estruturas discursivas, o léxico, o estilo, a ordenação tópica, a
argumentatividade. Estes, por sua vez, estão ligados à reordenação cognitiva e à
transformação que ocorre na forma e na substância do conteúdo, que são processadas em
decorrência da mudança na qualidade de expressão.
Dessa forma, reafirmamos que as variáveis apontadas por Marcuschi (2010 [2000])
constituem-se em diretrizes fundamentais para o estudo da retextualização em geral, e não
somente em casos de passagem da fala para a escrita. Quando analisamos o processamento da
informação do ponto de vista do gênero, vimos, na prática, a importância, ou mesmo as
implicações, que variáveis, como o propósito ou o objetivo da comunicação ou a relação entre
286
o gênero do texto-fonte e o gênero do texto retextualizado, por exemplo, têm para o processo
de retextualização ou para o processamento da informação em geral, numa produção textual
baseada em uma outra preexistente.
287
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Por termos investigado neste trabalho o processo de retextualização de um texto
vinculado a determinado gênero textual em webnotícia chegamos a resultados importantes,
pelo fato de termos explicado mais detalhadamente o fenômeno da retextualização, no tocante
às operações de retextualização feitas pelos sujeitos e de termos entendido mais sobre o
funcionamento social da notícia, fazendo relação dela com textos que participam de
determinados gêneros, cujas informações o jornalista se apropriou para fazer a notícia.
Diante do nosso objeto de pesquisa e do ponto de vista que o abordamos, vimos que
embora noutros gêneros uma mesma informação seja novidade, ela só adquire essa
característica na notícia, pois isso está vinculado ao funcionamento social do próprio gênero, à
ação social realizada através dele. Isso pôde ser observado mais diretamente quando
analisamos a informação do texto-fonte sendo transformada em notícia.
Na última seção do capítulo 6, discutimos os resultados deste trabalho, e uma das
conclusões mais importantes que ressaltamos nesta parte final foi que a relação entre a
webnotícia e seus textos-fonte é, fundamentalmente, uma relação de transformação.
Transformação essa que define o processo de retextualização que analisamos na webnotícia a
partir dos textos que compõem o nosso corpus de análise. Examinamos essa transformação
como uma adaptação aos padrões formais e substantivos da webnotícia, que preserva as
principais características que identificam o gênero notícia no seu sentido geral, produzido em
diferentes meios.
Para entendermos os detalhes desse processo de transformação para adaptação,
fizemos uma análise sociorretórica da webnotícia, que mostrou características importantes
acerca do funcionamento social desse gênero. As análises do ponto de vista da retextualização
e do funcionamento sociorretórico mostraram que o processamento da informação na
webnotícia acontece em decorrência das práticas sociais, que determinam as práticas
discursivas (ao mesmo tempo em que são determinadas por elas).
288
O processo de transformar um texto-fonte em webnotícia também tem se apropriado
das ferramentas disponibilizadas pelo meio e as utilizado para atender ao propósito
comunicativo socialmente compartilhado da notícia e, ainda, a intenções particulares. Quando
o retor retextualiza no corpo da webnotícia as informações do texto-fonte e ao mesmo tempo
o reproduz em sequência, ele potencializa o efeito dessa notícia para a audiência, que, dentre
outros, apresenta mais recursos para atrair mais a atenção desta.
Todavia, podemos concluir que, de fato, o que caracteriza o gênero é a ação social
realizada através dele. Isso justifica, portanto, o fato de a notícia da web ser ao mesmo tempo
tão diferente da notícia de fora da web e ainda ser rotulada como notícia, porque a ação social
realizada é, no geral, a mesma. Os próprios sujeitos produtores da webnotícia a veem como
notícia e a rotulam como tal, porque os mesmos rotulam ações (DEVITT, 2004), e dessa
forma, muito embora uma notícia produzida para circular na web seja parcialmente diferente
da notícia de um jornal impresso, por exemplo, em ambos os casos temos notícias. É evidente
que a produção do gênero tende a ser diferenciada, porque o retor se utiliza das ferramentas
disponibilizadas em cada meio, mas tanto a ação social como a finalidade desta é a mesma.
Os resultados semelhantes nas análises do processamento da informação nas
pesquisas realizadas por Van Dijk (1990 [1988]), na década de 1980, por Gomes (1995), na
década de 1990, e por esta tese mostram isso. Existem particularidades que devem ser
consideradas sobremaneira, na análise dos dados, mas mesmo que existam particularidades
não significa dizer que em cada meio de produção temos um gênero particular ou um novo
gênero. No caso da notícia, temos um mesmo gênero circulando em vários meios sociais,
sendo que, cada meio, oferece condições diferentes, para que a ação social seja realizada
através do gênero, a partir das ferramentas disponíveis.
Por outro lado, outros gêneros também são utilizados cada vez mais para comporem
as webnotícias. São exemplares de textos, que participam de gêneros diversos e que, quando
fixados no portal, são destituídos da sua função primeira e utilizados, por um lado, para
compor e fundamentar a webnotícia e, por outro, para atrair a atenção da audiência. A
presença de textos-fonte atrai a audiência para a webnotícia ao mesmo tempo em que gera
“cliques” para o portal e/ou aumenta o tempo de permanência do internauta na página.
289
Do ponto de vista linguístico e/ou retórico, muitos aspectos ainda podem ser
pesquisados acerca da notícia produzida para a internet, a webnotícia, ou ainda acerca do
webjornalismo como um todo. Existem vários aspectos relacionados a produção, a circulação
e a recepção da webnotícia que estão ainda para ser explicados, até mesmo pelo fato de
circularem em um meio em que as práticas sociais e discursivas mudam muito rapidamente.
Assim, como o jornalismo e os gêneros jornalísticos em geral sempre representaram um
campo de estudo bastante profícuo para o estudo textual, discursivo e de gêneros, no espaço
da web, esse domínio discursivo e esses gêneros continuam representando um campo fértil
para pesquisas.
Percorremos um longo caminho até o estabelecimento de um tema de pesquisa,
objetivos, estabelecimento de um corpus e quadro teórico-metodológico, pelo fato de que as
webnotícias são produzidas em larga escala e publicadas em diferentes suportes na web. Os
portais jornalísticos representam apenas um dos lugares onde são fixadas as webnotícias,
sendo esse o lugar onde a webnotícia pode ser fixada apenas inicialmente.
Primeiramente sendo publicada em um portal jornalístico, muitas notícias são
copiadas por outros portais jornalísticos e por blogs de jornalistas e de pessoas afins etc. e
ainda são divulgadas nas redes sociais, onde são propagadas pelos portais que as publicam
inicialmente e por outras pessoas que de alguma forma fazem parte da complexa rede desses
portais. É preciso, portanto, que seja feito um recorte para o estabelecimento do aspecto que
vai ser pesquisado, devido a grande quantidade de notícias produzidas diariamente para a web
e para serem fixadas em diferentes suportes.
Para o pesquisador, pelo fato de os textos estarem disponíveis na web, esses podem
ser coletados rapidamente, facilitando o trabalho de coleta de dados textuais. Porém, como os
temas abordados pelas webnotícias são escolhidos geralmente para atrair a atenção de muitas
pessoas, com diferentes interesses, muitas vezes são publicadas informações particulares e/ou
textos-fonte particulares, que expõem a privacidade de pessoas públicas. Isso pode gerar,
inclusive, processos judiciais da pessoa envolvida à instituição jornalística que publicou a
informação.
290
Quando entramos em contato com os jornalistas, solicitando que os mesmos
respondessem ao questionário dessa pesquisa, muitos responderam positivamente, mas depois
desistiram de colaborar, antes mesmo de verem o teor das perguntas. Mesmo ressaltando que
se tratava de um estudo linguístico, que analisava apenas o processo de construção de notícias
para a web, os mesmos desistiram, acreditamos que devido ao receio de investigarmos sobre
determinados temas ou casos já noticiados que pudessem comprometer o portal jornalístico ou
o próprio jornalista.
Neste trabalho, focamos no processamento da informação na webnotícia, e
analisamos exemplares do gênero e do texto-fonte principal e, ainda, o conhecimento do
usuário experiente, o jornalista. Mas um aspecto importante que ainda pode ser analisado ou
desenvolvido em pesquisas futuras gira em torno da recepção, com o ponto de vista da
audiência (internauta), haja vista que a mesma tem um papel fundamental na produção de
notícias para circularem na internet. Dessa forma, seria importante examinar a influência que
o internauta exerce no processo de produção da webnotícia, tanto em relação à escolha dos
temas abordados como no processo de produção textual em si.
Por outro lado, as redes sociais aparecem como uma “vitrine” para as notícias e, no
contexto da web, são ferramentas importantes de divulgação das webnotícias, já que boa parte
da audiência dessas (os internautas) se encontra nesses espaços. Nesse sentido, portais
jornalísticos vinculados a grandes redes de comunicação, pequenos portais regionais, blogs de
jornalistas e afins têm, cada vez mais, migrado para grandes redes sociais, como o Facebook,
para chegar à audiência e, consequentemente, serem vistos por mais pessoas.
291
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298
APÊNDICE
QUESTIONÁRIO PARA JORNALISTAS: SOBRE A CONSTRUÇÃO DA NOTÍCIA
DE PORTAL
Este questionário é parte de uma pesquisa de Doutorado, na qual é investigado o processo de
construção da notícia produzida especialmente para circular na internet a partir de um portal
jornalístico. A colaboração dos usuários experientes, que são os jornalistas/repórteres que
produzem esse tipo de notícia, é fundamental para o cumprimento de uma das etapas da
metodologia que estrutura o nosso trabalho. Nesse sentido, contamos com a sua contribuição
e, de antemão, agradecemos imensamente a gentileza e a disposição de tempo.
Este é um convite para preencher o formulário QUESTIONÁRIO PARA JORNALISTAS:
SOBRE A CONSTRUÇÃO DA NOTÍCIA DE PORTAL. Para preenchê-lo, visite:
https://docs.google.com/forms/d/1PxPZ6I9CnpxQ0hTDIQ4kYDGZ50ABoF4bVkXmRvhp_I/viewform?c=0&w=1&usp=mail_form_li
nk
QUESTÕES:
1. Um portal jornalístico é mesmo importante para a sociedade? Ele trouxe vantagens
para os leitores? Quais?
2. Para você, que mudanças ocorreram entre o jornalismo impresso e o jornalismo na
internet, principalmente o que é praticado nos portais?
3. O principal material produzido pelos portais jornalísticos são as notícias. Em sua
opinião, qual a finalidade ou o objetivo da notícia ou webnotícia?
4. A notícia do jornal impresso costuma seguir um padrão estrutural facilmente
reconhecido pelos usuários. Essa estrutura permanece na notícia produzida
especialmente para circular na internet ou tem havido alterações?
5. Como é feita a escolha dos assuntos tratados nas notícias do portal? É o próprio
jornalista que realiza essa escolha ou há um direcionamento por parte da instituição
jornalística? Em caso afirmativo, como ocorre esse direcionamento?
6. Você costuma se basear em outros textos que serviriam de uma fonte para uma
notícia? Faz diferença ter um texto-fonte para construir uma notícia?
7. Há tipos de fonte mais comumente buscados e selecionados para embasar as
webnotícias? Por quê?
8. De que maneira as informações das fontes são aproveitadas no texto da webnotícia?
Como a internet auxilia no trabalho do jornalista na utilização dessas fontes?
9. Um único texto-fonte pode constituir uma notícia? Em que condições?
10. O texto-fonte às vezes aparece na mesma página da webnotícia. Por exemplo, uma
notícia trata de um depoimento dado por uma testemunha e o depoimento é
reproduzido na íntegra na mesma página da notícia. Qual a finalidade disso? Que
diferença teria se esse texto-fonte não fosse publicado?
11. Faça um relato, com base na sua experiência diária, sobre o processo de produção de
uma notícia a ser publicada no portal jornalístico que você trabalha.
ANEXOS
ANEXO 1: CORPUS DE PESQUISA
Portal da Clube tem acesso à carta encontrada na Irmão Guido; Confira!
Para justificar a ação, a "rapaziada do PV. C" cita a Penitenciaria Fontes Ibiapina, em
Parnaíba, como "modelo" de unidade prisional do ponto de vista dos presidiários
O Portal da Clube teve acesso à carta interceptada durante vistoria de rotina na Penitenciária
Regional Irmão Guido, na zona rural de Teresina. Na carta assinada pela “Rapaziada do PV.
C” – uma provável referência a Pavilhão C -, o remetente fala em “quebrar o Pavilhão B” para
conseguir regalias, como televisão, som e ventilador.
Para justificar a ação, a “rapaziada do PV. C” cita a Penitenciaria Mista Juiz Fontes Ibiapina,
localizada em Parnaíba, como “modelo” de unidade prisional do ponto de vista dos
presidiários.
Ao contrário do divulgado mais cedo, a carta interceptada na Irmão Guido não determina o
assassinato de agentes penitenciários. Em um determinado momento, o remetente diz que o
objetivo não é matar, mas se proteger.
No fim da carta, o remetente faz a sua única referência a um preso específico. Trata-se de
Júnior, mas a carta não permite identificar com certeza quem ele é.
Confira a carta na íntegra clicando AQUI!
Fonte: http://portaldaclube.profissional.ws/portal-da-clube-tem-acesso-a-carta-encontrada-nairmao-guido-confira.html (acesso em 22/10/2012)
Carta encontrada em presídio ordena rebelião geral; Leia aqui
IRMÃO GUIDO: Sinpoljuspi alerta que os agentes seriam usados como reféns na ação e
pede medidas urgentes.
Atualizada às 18h44
O Cidadeverde.com teve acesso a uma cópia da carta, reproduzida abaixo. As observações em
parênteses são da redação do portal, para melhor compreensão do leitor.
"Salve rapaziada do anex 2 (anexo 2 - triagem). Aqui e a rapazeada PVC (pavilhão C) e o
seguinte nós já conversamo com a rapaziada do B e do PVD (Pavilhão D). Pois a rapaziada
apoiou a gente vai começar aqui no PV.C então nos vamos quebrar o PVB (pavilhão B). E o
nosso objetivo e pedir nossa regalia que nos tem direito e modar a direção do sistema pois a
rapaziada lá da custodia entrou em contato com nos e disse que eles conseguiram tirar o
Wilsin (vice-diretor da Casa de Custódia e chefe do grupo de vistoria) e assim so nos se unir
que nos vamos conseguir nosso objetivo e só nossa melhoria pois a maioria dos irmão aqui
centenciados porque so nos não tem direito pois em Parnaíba os caras tem direito a TV e
ventiladores e som pois nos so vamos conseguir se nos quebrar esta porra não e para gerrar
morte mas para nossa segurança nós vamos quebrar o PV.A (pavilhão A). E o especial é aí
vocês sabe que aí no anex 1 (triagem) também tem us caras que não serve que trabalham para
a polícia agora vocês ficam na ativa nos só vamos esperar resposta do SP (seria uma resposta
de São Paulo). Dependendo do que os irmão decidirem, nós começamos o bagulho e vamos
sustenta para chamar a atençao da emprensa e das autoridades nós vamos mandar as responsas
para vocês e depois da visita tem tudo para dar certo. Virmeza ladrões. Fiquem na paz de um
alo no Júnior e no resto da rapaziada. Ass: A rapaziada do PV.C"
Fonte: http://www.cidadeverde.com/carta-encontrada-em-presidio-ordena-rebeliao-geral-leiaaqui-116092 (acesso em 22/10/2012)
Agentes interceptam carta que ordenava rebeliões e assassinatos nos
presídios do PI
Ações seriam respostas às transferências de presos da Casa de Custódia realizada neste
domingo
Uma carta ordenando ações orquestradas em todos os presídios piauienses foi interceptada por
agentes penais no início da tarde desta segunda-feira, dia 22, na penitenciária Irmão Guido,
zona Rural de Teresina. A informação foi divulgada pelo Sindicato dos Agentes
Penitenciários do Piauí (Sinpoljuspi) por meio do seu perfil oficial do Facebook.
Segundo a página da rede social, agentes penitenciários que estavam no plantão encontraram
a carta durante uma vistoria de rotina. A carta, além de orquestrar uma rebelião geral nas
unidades penais do Piauí, continha a ordem de matar agentes penitenciários e presos que
trabalham na área administrava dos presídios, considerados os de bom comportamento.
O diretor administrativo do Sinpoljuspi, Cleiton Holanda, informou não ser a primeira vez
que agentes prendem cartas do tipo: "Esta foi a segunda carta. Na quinta-feira [passada, dia
18] os agentes encontraram uma [carta] que chamava outros detentos para adesão às
rebeliões". Segundo Cleiton, as duas correspondências foram repassadas ao diretor do
presídio, capitão Anselo Portela.
Reprodução da carta interceptada pelos agentes penitenciários(imagem da carta)
As ações seriam uma resposta às transferências de presos da Casa de Custódia de Teresina
para outras unidades prisionais, realizadas neste domingo, dia 21. A Secretaria Estadual de
Justiça (Secjus) não informou a quantidade e os nomes dos presos transferidos, apenas disse
que se tratava dos líderes dos últimos motins realizados no presídio.
Homens do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (BOPE) fizeram uma
operação pente fino no presídio à procura de outros documentos que fornecessem maiores
informações sobre o plano. A diretoria do Sinpoljuspi pede que os agentes redobrem a atenção
em todas unidades do Estado. A partir desta tarde, as visitas no presídio Irmão Guido estão
temporariamente suspensas.
Ainda nesta segunda-feira, dia 22, o Diretor-presidente do Sinpoljuspi, Vilobaldo Carvalho,
protocolou ofício solicitando uma reunião com o governador Wilson Martins "para tratar da
situação ora existente no Sistema Penitenciário do Estado, especialmente relacionado à
gestão, recursos humanos, superlotação e condições de trabalho nas Unidades Prisionais".
A Secretaria de Justiça informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que a carta desta
segunda-feira já está com o serviço de inteligência do órgão, que deverá identificar seus
possíveis autores.
Governador assegura melhorias pra presídios
Em decorrências das recentes rebeliões e motins em penitenciárias por todo o Piauí, o
governador Wilson Martins (PSB) prometeu uma série de medidas para reestruturar os
presídios do Estado. O anúncio foi realizado nesta segunda-feira, dia 22, durante reunião com
os gestores da Secretaria de Justiça, Secretaria Estadual de Segurança Pública, Polícia Militar,
Gabinete Militar e Secretaria Estadual de Administração.
As obras compreendem a reforma da Penitenciária Regional Luiz Gonzaga Rebelo, em
Esperantina, cuja estrutura física foi depredada após rebelião ocorrida no último dia 16 e
ampliação da Casa de Custódia de Teresina. Em Esperantina, devem ser investidos R$ 200
mil na unidade que tem capacidade para abrigar 130 presos. Já em Teresina, estão sendo
construídos dois pavilhões de segurança máxima. Em Altos, R$ 4 milhões estão sendo
investidos na construção de um presídio de segurança máxima que deve abrigar 130 presos.
"Precisamos dar celeridade às obras já em andamento e iniciar rapidamente a recuperação do
presídio de Esperantina. O Governo tem tomado as medidas necessárias para garantir o bom
funcionamento do sistema prisional e feito investimentos importantes como a construção da
penitenciária de São Raimundo Nonato, com 300 vagas e que atende a padrões nacionais de
segurança", destacou Wilson Martins por meio da Coordenadoria de Comunicação do
governo.
Segundo o secretário estadual de justiça, Henrique Rebelo, nos próximos dias, deve ser aberto
o processo licitatório para a construção de outros dois presídios, um em Parnaíba e outro em
Floriano.
Fonte: http://www.portalodia.com/noticias/policia/agentes-interceptam-carta-que-ordenavarebelioes-e-assassinatos-nos-presidios-do-pi-154172.html (Acesso em 23/10/2012)
CARTA INTERCEPTADA EM PRESÍDIO
Fonte: http://portaldaclube.profissional.ws/portal-da-clube-tem-acesso-a-carta-encontrada-nairmao-guido-confira.html (acesso em 22/10/2012)
Em cartas, pai e madrasta de Isabella declaram inocência
Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá divulgaram cartas nesta quintafeira (3). Justiça
de São Paulo decretou prisão de casal na quarta-feira (2).
O pai e a madrasta da menina Isabella Nardoni, de 5 anos, que caiu ou foi jogada do 6º andar
de um prédio na Zona Norte de São Paulo, divulgaram nesta quinta-feira (3) cartas nas quais
afirmam não serem culpados pela morte da criança e dão detalhes do relacionamento com
Isabella.
Veja a íntegra da carta do pai
Veja a íntegra da carta da madrasta
Nos textos, Alexandre Nardoni, de 29 anos, e Anna Carolina Jatobá, de 24, dizem que não
tinham se pronunciado ainda porque acreditavam “que o caso seria solucionado” e que
acreditam que a “verdade prevalecerá”.
O casal teve a prisão temporária decretada na quarta-feira (2) pelo 2º Tribunal do Júri do
Fórum de Santana. Segundo o delegado-adjunto do 9º Distrito Policial (Carandiru), Frederico
Rehder, os advogados do casal foram notificados da decisão no final da noite de quarta. De
acordo com a assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça (TJ), a prisão é de 30 dias e pode
ser prorrogada por mais 30.
O pai de Isabella já foi procurado pelos policiais na casa de seu pai. Sem entrar na residência,
a polícia foi informada que nenhum dos suspeitos estava lá. Equipes policiais buscam o pai e
a madrasta de Isabella nas casas de familiares. De acordo com a polícia, eles serão
considerados foragidos depois de todas as possibilidades de encontrá-los se esgotarem.
Leia a íntegra da carta do pai:
"Eu, como pai de três filhos, posso dizer sem dúvida uma coisa: que a Isabella é o maior
tesouro da minha vida. Tenho outros filhos meninos, mas a minha menininha era a princesa da
casa. A Isabella sempre foi muito carinhosa comigo e com os irmãos dela. Costumava dizer
que era a mamãe do meu filho mais novo, o Cauã, e defendia o do meio, Pietro, acima de
tudo. Quando me dei conta que tinha perdido minha Isabella, senti naquele momento que meu
mundo acabou. Não sei como caminhar.
Todos estão me julgando sem ao menos me conhecer. Não faria isso com ninguém, muito
menos com minha filha. Amo a Isabella incondicionalmente e prometi a ela, em frente ao seu
caixão, que, enquanto vivo, não sossego enquanto não encontrar esse monstro. Tiraram a vida
da minha princesa de uma maneira trágica e não me permitem sentir falta dela, pois me
condenam por algo que não fiz. Minha filha, como os irmãos dela, são tudo na minha vida. Eu
estou sem rumo, mas confio que Deus me dará forças para vencer esses obstáculos, mostrando
o caminho certo para a justiça.
Quero a minha filha bem, em paz, e tenho plena certeza, e consciência tranqüila do meu amor,
amor que tenho por ela. Pois por mais que me julguem, só eu e minha filhinha sabemos a dor
que estamos sentindo. E o mais importante é que 'Isa' sabe o pai que fui para ela. Minha mãe
está à base de calmante por falta do nosso 'botão de rosa', como ela diz. Meu pai chora quando
lembra dela e quando assiste a cada reportagem. Minha irmã e minha mãe choram pelo que
estão fazendo.
Tenho muito mais a dizer, mas espero que um dia me escutem como pai que sofre por sua
filha, e não como um monstro, que não sou. Nós não tínhamos feito nenhuma declaração
ainda porque acreditávamos que o caso seria solucionado. Nós não somos os culpados, e
ainda encontrarão o culpado. Dessa forma, não precisaríamos mostrar a nossa imagem, porque
o nosso sofrimento é muito grande. Só que nos acusam e queremos mostrar o que realmente
estamos sentindo. A verdade sempre prevalecerá."
Leia a íntegra da carta da madrasta:
“Amor da minha vida, você é e sempre será tudo na minha vida, na do Titi e do Alemão. Isa, a
Tia Carol te ama muito e te amarei. Sei que a palavra madrasta pesa ao ouvido dos outros,
mas para ‘Isa’ sei que eu era a Tia Carol. Amo ela como amo aos meus filhos. Eu tenho minha
consciência tranqüila do carinho com que sempre a tratei.
Ela adorava me ajudar a cuidar dos irmãos e até ensinou o mais novo a andar. Ele trocava meu
colo para ficar com ela.
O Pietro chamava a ‘Isa’ todos os dias e só passou a ir à escola quando a ‘Isa’ estudava lá.
Adorava fazer tudo para agradá-lo. Ela e o Pietro ligavam sempre para que eu a buscasse.
Brincávamos ela, eu e o Pietro de musiquinhas, ciranda e casinha.
Eu, Alexandre e minha sogra fizemos o quarto dela como ela sempre sonhou. Compramos o
baú do Hello Kitty. Ela adorava as princesas da Disney e compramos um abajur. Mas, acima
de tudo isso, o carinho era o que mais contava.
Então, o que tenho a dizer, é que Isabella era tudo para todos nós e tenho fé que
encontraremos quem fez essa crueldade com nossa pequena.
Não tínhamos dado nenhuma declaração, pois acreditávamos que o caso seria solucionado.
Somos inocentes e a verdade sempre prevalecerá.”
Fonte:
http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL386926-5605,00EM+CARTAS+PAI+E+MADRASTA+DE+ISABELLA+DECLARAM+INOCENCIA.html
(acesso em 03/04/2008)
Em carta, Bruno pediu para Macarrão assumir assassinato de Eliza
Samudio
A correspondência teria sido interceptada na penitenciária onde Bruno e o amigo Luiz
Henrique Romão, o Macarrão, estão presos há dois anos.
Os advogados do goleiro Bruno disseram, nesta segunda (9), que ele foi o autor de uma carta
em que pede ao amigo Macarrão para assumir a responsabilidade pelo assassinato de Eliza
Samudio.
A correspondência teria sido interceptada na penitenciária onde Bruno e o amigo Luiz
Henrique Romão, o Macarrão, estão presos há dois anos.
Um dos advogados do goleiro tinha negado a existência da carta quando a revista veja
publicou a reportagem. Nesta segunda (9), o advogado Francisco Simim visitou o goleiro.
Disse que ele confirmou a autenticidade e que ela foi escrita em novembro do ano passado,
antes de ele assumir a defesa do jogador.
Na carta, Bruno diz a Macarrão que devido às últimas descobertas da polícia os advogados
sugerem que eles usem um plano B.
O goleiro cita que eles devem pensar nos filhos. E fala sobre a conversa que tiveram na
penitenciária quando Macarrão disse a ele que se precisasse ficaria preso e pediu para Bruno
nunca abandoná-lo.
“A carta é real. Ele escreveu essa carta. Plano B seria que o Macarrão realmente assumisse a
responsabilidade. Se foi ele, ele teria que assumir a responsabilidade do evento criminoso”,
disse o advogado de Bruno, Francisco Simin.
De acordo com a polícia, Eliza foi morta em junho de 2010. Ela foi vista pela última vez no
sítio do goleiro Bruno, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. O corpo nunca foi
localizado.
O advogado de Macarrão, Leonardo Diniz, não negou nem confirmou a existência da carta
disse que não vai se pronunciar porque ela não está incluída no processo. Segundo
Secretaria de Defesa Social toda correspondência dos presos passa por um setor de censura
se o conteúdo for considerado suspeito a carta é interceptada e pode ser encaminhada
Justiça.
e
a
e
à
A secretaria declarou que o goleiro foi ouvido na segunda e que ele disse ter entregue a carta a
outro detento da penitenciária para que ela chegasse até Macarrão. E, por isso, a carta não
passou pelos procedimentos formais. Agora, a administração da penitenciária vai investigar
como a carta saiu da unidade.
Fonte:
http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2012/07/em-carta-bruno-pediu-paramacarrao-assumir-assassinato-de-eliza-samudio.html (acesso em 09/07/2012)
CARTA INTERCEPTADA EM PRESÍDIO
Para meu querido irmão
Maka, eu não sei como dizer isso, mas conversei muito com os nossos advogados, inclusive o
[...], e eles então chegaram numa conclusão, devido os últimos acontecimentos sobre o
processo e investigações.
Nós conversamos muito e eles acham que a melhor forma de resolver isso e usando o plano B,
eu sinceramente nunca pediria isso pra você, más hoje não temos que pensar em nós somente!
temos uma grande responsabilidade que são nossas crianças, então meu irmão peço que pense
nisso e do fundo do coração me perdoe, fui e sempre serei homem com você, mas essa
decisão tem que partir de você! E como uma dia lá no C.O.C nós conversamos a respeito, e
você mesmo disse para mim que se precisasse você ficaria aqui e que era pra mim nunca te
abandonar, então irmão chegou a hora. (trecho riscado). Me perdoe irmão.
Assinatura.
Por mais longa e escura que seja a noite o sol sempre voltará a brilhar!
Me perdoe irmão.”
(Revista Veja, ed. 2277, jul/12)
Ex-presidente do TJ rebate críticas à sua gestão: "O que realizamos salta
aos olhos"
A carta é endereçada à atual presidente do Tribunal, Eulália Pinheiro
Após a divulgação de relatório que revela a precariedade dos fóruns do Piauí, o ex-presidente
do Tribunal de Justiça do Piauí (TJ-PI), desembargador Edvaldo Moura, escreveu uma carta
endereçada à atual presidente da Corte, Eulália Pinheiro, em que rebate críticas à sua gestão.
Na carta, o desembargador, que deixou a presidência do TJ-PI em maio deste ano, diz que há
"uma tentativa de desqualificar a sua gestão", com calúnias que questionam a seriedade o
êxito do seu trabalho, inclusive colocando em dúvida a sua honradez.
Edvaldo Moura reconhece que a atual situação do Judiciário piauiense está longe do ideal,
mas diz que concluiu seu mandato com "a consciência tranquila do dever cumprido". Ele
citou realizações da sua administração, como a inauguração de 23 novos fóruns.
Para reforçar seu discurso, ele lembrou declarações da ministra Eliana Calmon à imprensa e a
avaliação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que apontou o Departamento de Precatórios
do TJ-PI como modelo para o Brasil.
(foto)
No trecho da fala de Calmon transcrito por Moura, a ministra diz que "viu tribunais saírem do
chão e conseguirem se soerguer" e que "as transformações ocorridas nos tribunais de justiça
de Tocantins, Amazonas, Mato Grosso, Piauí e São Paulo, são exemplos de sucesso".
O desembargador encerra a carta afirmando: "O que realizamos no curso de nossa atividade
bienal, não pode ser escondido, porque salta aos olhos de todos. O reconhecimento do
Conselho Nacional de Justiça põe por terra qualquer tentativa de desqualificar tudo que
fizemos".
O relatório sobre a situação dos fóruns, que contém mais de 10 mil imagens, foi divulgado no
último dia 3, pelo Corregedor Geral de Justiça, desembargador Francisco Paes Landim, que
classificou como "deplorável" as condições encontradas. O documento mostra, por exemplo, a
situação do fórum do município de Bocaina, onde os processos judiciais estão empilhados em
um armário dentro do banheiro. Em outras unidades, foram encontrados sapos, uma casa de
maribondo, papéis empilhados no chão e infiltrações.
No dia seguinte, Eulália Pinheiro desabafou durante coletiva de imprensa. Ela atribuiu o caos
nos fóruns a problemas de gestão, o que foi entendido como uma crítica aos juízes do
Tribunal.
Dois dias depois, a desembargadora recuou. Negou que tivesse criticado os juízes e disse,
ainda, que os problemas estruturais "foram acumulados ao longo do tempo, sendo inimputável
a qualquer administração anterior, menos ainda aos meus 95 dias na Presidência do poder
judiciário".
Confira a carta do desembargador Edvaldo Moura na íntegra:
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO PIAUÍ
GABINETE DO DESEMBARGADOR EDVALDO MOURA
Prezada Presidente do Tribunal de Justiça do Piauí, Desembargador Eulália Pinheiro,
Não há travesseiro mais macio - já o disse alguém - do que aquele de que se utiliza quem tem
a consciência tranquila do dever cumprido.
Foi com essa sensação, que concluímos, em 31 de maio do fluente ano, a nossa ingente e
desafiadora missão de Presidente do Tribunal de Justiça e, concomitantemente, do Poder
Judiciário do Piauí, hoje, indiscutivelmente, mais ágil, mais transparente, mais democrático,
mais eficiente e mais próximo do seu destinatário - o povo - a que temos a inafastável
obrigação de servir, com desprendimento e inexcedível zelo pastoral.
Não nos referimos, apenas, aos 23 prédios de fóruns construídos, reformados, inaugurados e
devidamente equipados, alguns iniciados na gestão do emérito Desembargador Raimundo
Alencar, mas, principalmente, ao espantoso número de servidores concursados nomeados, a
significativa quantidade de material permanente e de equipamentos de informática por nós
adquiridos, através de licitação e por força de doação do CNJ e da Receita Federal, ainda
em garantia e ao expressivo aumento do número de audiências e de julgamentos, na 1ª e 2ª
instâncias, como revelam os dados e as informações de que dispomos e que se encontram em
circunstanciado Relatório, que acabamos de concluir.
Incluímos entre os prédios de fóruns, o parcialmente inaugurado Fórum Cível e Criminal de
Teresina, Desembargador Joaquim de Sousa Neto, com 87% das obras concluídas, conforme
documento em nosso poder, sonho centenário de todos os operadores jurídicos e da nossa
sofrida, mas valorosa população teresinense, malgrado as forças ocultas, que se
antepunham, por razões até certo ponto inconfessáveis, ao cumprimento dessa importante e
audaciosa meta, projetado e construido de acordo com orientação do CNJ, para abrigar
todas as nossas varas cíveis e criminais.
Para demonstrarmos a verdadeira e atual situação do Judiciário piauiense, infelizmente,
ainda longe do ideal, como a de todos os estados da Federação e a improcedência das
aleivosias de inimigos gratuitos de determinado órgão de nossa independente e corajosa
imprensa e das apócrifas, injustas e mendazes insinuações, que questionam a seriedade e o
êxito do nosso biênio administrativo, pondo em dúvida a honradez e a hombridade de quem
sempre se dedicou inteiramente aos serviços do Judiciário e à Magistratura, transcrevo, a
seguir, parte da entrevista concedida pela eminente Ministra Eliana Calmon, ao jornalista
Manoel Carlos Montenegro, datada de 04 de setembro último, por ocasião de sua despedida
da egrégia Corregedoria Nacional de Justiça, que subscreve o que estamos afirmando, in
verbis:
"Saio com a sensação do dever cumprido. Fiz o que me foi possível fazer. Atribuo ao trabalho
da Corregedoria e à parceria firmada com alguns tribunais, as mudanças positivas
observadas em parte do Poder Judiciário. Vi tribunais saírem do chão e conseguirem se
soerguer. As transformações ocorridas nos tribunais de justiça de Tocantins, Amazonas,
Mato Grosso, Piauí e São Paulo, são exemplos de sucesso".
Em outra oportunidade, o CNJ apontou o Departamento de Precatórios do Tribunal de
Justiça do Piauí, graças à colaboração da Juíza de Direito Agamenildes Dantas, do vizinho
Estado da Paraíba, ao engajamento, ao descortino e à competência do Juiz Auxiliar da
Presidência, Oton Mário Lustosa, do Desembargador Erivan Lopes, da servidora Jacira
Almeida e de sua eficiente equipe técnica, como um de atuação modelar para o Brasil.
Não temos a veleidade de imaginar que fizemos tudo, porque apesar dos inquestionáveis
avanços alcançados por nós e pelos que nos antecederam, tarefa gigantesca ainda deverá ser
enfrentada pela atual gestão do Tribunal, que sempre irá contar com o nosso entusiástico
apoio, dos demais colegas desembargadores e juízes, todos empenhados em ver um
Judiciário cada vez mais eficiente e em sintonia com as preconizações dos novos tempos,
julgando em tempo razoável e respeitando, assim,
um dos direitos fundamentais do cidadão, trazido pela Emenda Constitucional 45, de 2004.
Como soldado, estamos à disposição da responsável e atual Presidente, do digno Corregedor
Geral, do diligente Vice-Presidente desta egrégia Corte, sempre que precisarem da nossa
humilde colaboração.
Não desejamos polemizar, contestando tais injustificáveis discordâncias, insultos e
provocações, mas sentimos que não podemos nos furtar ao dever de prestar esses
esclarecimentos à população do Piauí, que acompanhou de perto e com vivo interesse, as
realizações por nós alcançadas, durante o nosso exitoso biênio administrativo.
Estamos certos e convencidos de que a diferença de opinião, as objeções, as divergências, os
inconformismos e as oposições, são da essência da democracia e é preciso que com elas
aprendamos a conviver. Afinal, as coisas são vistas como são e onde estão, mas sempre e de
acordo com o instrumental de quem as vê.
John F. Kennedy, em síntese lapidar e com a autoridade de um dos mais conceituados
estadistas do mundo, pontificou: "Sempre se ouvirão vozes em discordância, expressando
oposição sem alternativa, descobrindo o errado e nunca o certo, encontrando escuridão em
toda parte e procurando exercer influência sem aceitar responsabilidade".
O que realizamos no curso de nossa atividade bienal, não pode ser escondido, porque salta
aos olhos de todos. O reconhecimento do Conselho Nacional de Justiça, graças ao
incondicional apoio de todos os colegas juízes e desembargadores, dos abnegados servidores
efetivos e comissionados e dos demais operadores jurídicos, todos com a autoestima elevada,
põem por terra qualquer tentativa de desqualificar tudo que fizemos, sempre norteado pelo
inquebrantável desejo de tornar a Justiça piauiense mais respeitada e mais intangível.
O nosso Tribunal, como sabemos todos nós, está pacificado e pelo que percebemos não existe
mais aqui espaço para conflitos intestinos, cizânias e desarmonias, por mais que se
empenhem os inimigos da Justiça e os que defendem o quanto pior melhor.
Humildemente, tomamos a liberdade de encaminharmos esses esclarecimentos à ilustre
amiga.
Atenciosamente,
Desembargador Edvaldo Pereira de Moura
Ex-Presidente e Supervisor da Justiça Itinerante
[...]
Fonte: http://www.portalodia.com/noticias/politica/em-carta-a-eulalia-pinheiro-ex-presidentedo-tj-rebate-criticas-a-gestao-anterior-150530.html (acesso em 12/09/2012)
Agespisa divulga nota sobre contratos com empresa fraudadora de
licitações
Em meio a um novo escândalo, a Companhia de Águas e Esgotos do Piauí S.A. (Agespisa)
divulgou uma nota explicando a ligação com a empresa Allsan Engenharia – apontada como
líder no esquema de fraude de licitações em companhias de água estatais, que culminou na
deflagração da Operação Águas Claras, em Sorocaba (SP).
Segundo a denúncia, 29 empresários são acusados de formarem cartel para fraudar licitações
de autarquias e companhias de água em municípios de cinco estados (São Paulo, Santa
Catarina, Ceará, Piauí e Goiás), entre eles o empresário piauiense Lourival Ferreira Nery
Junior, diretor financeiro da Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), vinculada ao
Ministério das Cidades, faz lobby para a Allsan Engenharia.
O relatório de inteligência informa que Nery ocupa cargo público de confiança, “indicação do
senador da Republica pelo Estado do Piauí, Ciro Nogueira (PP)”. No Piauí, a Allsan é
comandado por Raimundo Neto, irmão do senador.
A investigação revela que Nery estaria recebendo o equivalente a 14% do faturamento mensal
da Allsan pelo contrato com a Agespisa, firmado em “caráter emergencial” em dezembro de
2011, prorrogado por mais 180 dias em junho de 2012.
Confira a nota na íntegra:
A Agespisa esclarece que a Allsan Engenharia e Administração LTDA foi contratada
emergencialmente porque o contrato com a Fimm Brasil estava vencido e não havia tempo
hábil para a abertura de processo licitatório. A licitação aberta em 2011 para a escolha da
empresa que faria a emissão das contas de água foi suspensa pela Justiça e o presidente
Raimundo Neto decidiu anular o processo.
A direção da companhia já está providenciando uma nova licitação. Para contratação da
Allsan, a Agespisa realizou cotação de preços e avaliou a qualidade do serviço a ser
prestado, com equipamentos modernos, que tornam o serviço mais ágil e eficiente. A
Agespisa decidiu reaproveitar parte do pessoal que trabalhava para a Fimm Brasil a fim de
evitar demissões.
Audiência
A direção da Agespisa foi convidada para uma audiência pública na próxima quinta-feira
(22), na Assembleia Legislativa do Piauí (Alepi). Na reunião, a companhia terá que dar
maiores informações sobre os contratos investigados na operação.
Fonte: http://portaldaclube.com/agespisa-divulga-nota-sobre-contratos-com-... (acesso em
16/11/2012)
Estação é consertada; Agespisa volta a produzir água a partir das 11 horas
Previsão é de que produção de água volte após testes nas instalações elétricas. Abastecimento
recomeça à tarde.
A Agespisa informou na manhã deste domingo (28) que todos os reparos na estação de
tratamento de água, danificada pela segunda vez em apenas um mês, foram feitos ao longo da
madrugada. A expectativa é de que a produção seja retomada após 11h da manhã, sendo o
abastecimento restabelecido gradualmente.
(foto)
A estação de tratamento de água localizada no Distrito Industrial, zona Sul, é a única de
Teresina e responsável por 85% da população da capital. Na tarde de ontem (27), um incêndio
atingiu o transformador e forçou a interrupção do abastecimento para 700 mil consumidores.
No dia 16 de outubro, um incidente semelhante atingiu o local.
Após o incêndio, o Corpo de Bombeiros foi acionado e controlou as chamas. Técnicos da
Agespisa e da Eletrobras foram ao local acompanhar o problema. A companhia energética
emprestou um transformador de força para substituir o danificado e viabilizar o retorno do
abastecimento o quanto antes.
(foto)
No início da manhã, técnicos da Eletrobras fizeram testes exigidos por normas do fabricante
do transformador, para evitar novos danos. A previsão é de que o sistema elétrico volte a
funcionar às 10h. Depois disso, a Agespisa volta a captar água do rio Parnaíba para ser
tratada. O processo é lento e as torneiras da capital devem ser reabastecidas na tarde deste
domingo.
A Agespisa já acionou a Polícia Federal e a Secretaria Estadual de Segurança Pública para
investigarem se houve alguma interferência externa na causa do segundo acidente.
Atualmente, a estação de tratamento da Agespisa produz 235 milhões de litros por dia, sendo
que 250 milhões são consumidos por Teresina. A capital ainda conta com 15 milhões de litros
gerados por 60 poços, concentrados na Santa Maria da Codipi, zona Norte. Ampliada às 9h39
Agespisa divulga nota
Sistema elétrico da ETA será restabelecido em instantes
A Agespisa vai restabelecer o sistema elétrico da ETA agora de manhã, por volta das 11h, e
deve, em seguida, retomar a produção de água. Técnicos da Agespisa, Eletrobrás e Chesf
continuam no local trabalhando para colocar em funcionamento a Estação de Tratamento de
Água, localizado no Distrito Industrial, zona sul de Teresina.
Durante toda a noite, os técnicos trabalharam ininterruptamente na substituição do
transformador e da fiação elétrica, que foram danificados durante um novo incêndio no
local, ocorrido ontem à tarde. A causa foi o rompimento de um fio de alta tensão que atingiu
a subestação 69, responsável pelo sistema elétrico da ETA. A subestação faz parte da
estrutura da Agespisa, mas é alimentada pela energia fornecida pela Eletrobrás.
Fonte: http://www.cidadeverde.com/printpage.php?id=116571 (acesso em 28/10/2012)
Sesapi divulga nota sobre Operação Nosferatu deflagrada pela Polícia
Federal
A Secretaria de Estado da Saúde divulgou nota sobre Operação Nosferatu deflagrada pela
Polícia Federal, na manhã desta segunda-feira (1º ). Segundo o comunicado, a operação
ocorreu após denúncia feita pelo próprio Secretário de Estado da Saúde, Ernani Maia.
NOTA DE ESCLARECIMENTO
A Secretaria de Estado da Saúde informa que a operação deflagrada pela Polícia Federal, no
que diz respeito à Sesapi, ocorreu após denúncia feita pelo próprio Secretário de Estado da
Saúde Ernani Maia.
No dia 02 de julho, após tomar conhecimento de um relatório de auditoria da Controladoria
Geral do Estado (CGE), que detectou irregularidades na aplicação de recursos públicos, o
secretário comunicou o fato ao superintendente da PF, Nivaldo Farias de Almeida, e ao
procurador-chefe do Ministério Público Federal (MPF), Marco Túlio Lustosa Caminha.
A CGE estava investigando aplicação de recursos públicos operacionalizados pelo Sistema
de Informação Hospitalar, com irregularidades nos pagamentos efetuados a diversas
empresas, conforme consta dos autos do Processo PGE/2012105590-0.
No dia 27 de setembro, o secretário de Saúde Ernani Maia publicou portaria no Diário
Oficial do Estado, instaurando processo administrativo disciplinar para apurar conduta
funcional irregular de servidor que ocupa o cargo de auxiliar administrativo.
A Comissão de Processo Administrativo Disciplinar é composta pelas servidoras, Ana Cecília
Elvas Bohn –Procuradora do Estado, e Artur Willame Veras e Silva, Analista Técnico da
Procuradoria Geral do Estado do Piauí e Fátima Maria de Freitas Barros, Servidora
Estadual. A comissão tem 60 dias para concluir o processo.
A nova gestão da Sesapi, desde que assumiu em janeiro de 2011, não admite condutas
irregulares de quem quer que seja. A Secretaria de Estado da Saúde trabalha
incansavelmente para levar melhorias à população e, graças a uma gestão comprometida
com o serviço público, vem conseguindo. Prova disso são as inúmeras ações realizadas em 1
ano e 10 meses de atuação. Hospitais foram reaparelhados, Unidades de Saúde foram
construídas em todo o Piauí, além de laboratórios, hemocentros e outros serviços. A Sesapi é
comprometida com a Saúde do Piauí e a atuará de forma enérgica contra qualquer ato que
venha prejudicá-la.
O secretário Ernani Maia concederá entrevista coletiva às 11h30, em seu gabinete, na sede
Sesapi do Centro Administrativo ao lado da APPM.
Autor: Portal da Clube
Fonte:
http://portaldaclube.profissional.ws/sesapi-divulga-nota-sobre-operacao-nosferatudeflagrada-pela-policia-federal-2.html (acesso em 01/10/2012)
CNM lamenta veto na lei de royalties, e divulga nota oficial sobre decisão
Órgão relembra que lei nasceu de "amplo" acordo com Governo Federal.
Mesmo com o apelo dos municípios brasileiros, a lei dos royalties foi sancionada com o veto
do artigo terceiro, que definia a justa partilha para todos os Estados e Municípios. O anúncio
feito na tarde desta sexta (30), durante coletiva de imprensa com a ministra-chefe da Casa
Civil, Gleisi Hoffmann; o ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti; e do ministro da
Educação, Aloízio Mercadante.
A Confederação Nacional de Municípios (CNM) lamenta a decisão, e divulga nota oficial
sobre a decisão. O texto pontua os motivos da posição. São eles:
O projeto agora vetado nasceu de um amplo acordo envolvendo representantes do governo
federal, os presidentes da Câmara e do Senado, líderes partidários e representação da
sociedade civil. Este acordo foi construído para evitar a apreciação do veto que o expresidente Lula fez ao projeto aprovado pelo Congresso Nacional em 2010. A CNM não
compreende a mudança de posição do governo federal, que descumpre o acordo firmado em
outubro de 2011.
A justificativa do veto, fundamentada no argumento de quebra de contratos, é um verdadeiro
absurdo, uma vez que os instrumentos celebrados entre as empresas e a Agência Nacional de
Petróleo (ANP), não sofreriam qualquer tipo de alteração. As alterações propostas pelo
projeto vetado mudavam a forma de distribuição das receitas de royalties entre a União,
Estados e Municípios. Por sinal, alterações com estas já aconteceram quatro vezes desde o
início da exploração.
O veto manterá o privilégio injustificado de dois Estados e 30 Municípios, que receberão até o
final da década, R$ 201 bilhões, enquanto que o restante do país, ou seja, 170 milhões de
brasileiros, receberão apenas R$ 17 bilhões. É, portanto, inaceitável, a perpetuação deste
modelo que promove tamanha concentração de recursos.
A decisão tomada significa, na prática, um veto á educação, pois, a regra mantida com o veto
não possibilita investimentos na área. Da forma como decidiu o governo federal, o Brasil terá
de esperar mais de 10 anos para poder realizar investimentos em Educação, já que, o regime
de partilha só gerará recursos neste prazo. De acordo com estimativas da Agência Nacional de
Petróleo (ANP), serão cerca de R$ 400 bilhões fora da Educação.
Com a divulgação, o presidente da CNM, Paulo Ziulkoski, já convoca para uma cruzada
nacional, todos os gestores municipais e os 170 milhões brasileiros que foram excluídos da
distribuição dos royalties para mobilizarem-se desde já pela derrubada do veto pelo
Congresso Nacional.
Fonte:
http://www.cidadeverde.com/cnm-lamenta-veto-na-lei-de-royalties-e-divulga-notaoficial-sobre-decisao-119429 (acesso em 02/12/2012)
Fonte:
http://www.cnm.org.br/images/stories/Links/30112012_nota_veto_royalties.pdf
(acesso em 02/12/2012)
Chesf e ONS divulgam notas sobre apagão que afetou PI e mais 11 estados
De acordo com a ONS, o apagão foi provocado por um curto-circuito na subestação ColinasImperatriz.
A Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf), responsável pela produção de energia
elétrica no Piauí, divulgou nota nesta sexta-feira (26), esclarecendo que o desligamento de
energia ocorrido no final da noite dessa quinta-feira (25) e início da madrugada de hoje não
teve origem nas instalações ou equipamentos da empresa.
Conforme informou em nota, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), houve um
curto-circuito no segundo circuito da linha de transmissão em 500 kV Colinas-Imperatriz, que
faz parte da interligação entre os sistemas Sul/Sudeste/Centro-Oeste e Norte/Nordeste.
Ainda segundo a ONS, o defeito foi eliminado pela atuação das proteções de retaguarda da
subestação Colinas, que resultou no desligamento de oito circuitos de 500 kV a ela
conectados.
De acordo com a Chesf, no momento da ocorrência, a região Nordeste estava importando
cerca de 2.500 megawatts de energia. Com a instabilidade provocada pelo defeito, o Sistema
de Proteção da Chesf foi automaticamente acionado, desligando os demais equipamentos
associados. Por volta das 2h29 de hoje, (horário de Brasília), as cargas começaram a ser
restabelecidas.
Devido ao curto-circuito o fornecimento de energia afetou os nove estados do Nordeste, além
de parte do Pará, Tocantins e Distrito Federal.
A ONS informou ainda que haverá, às 11 horas de hoje, em Brasília, uma reunião do Comitê
de Monitoramento do Setor Elétrico para avaliação do evento e suas consequências. No Rio
de Janeiro, às 14 horas, será realizada uma reunião entre o ONS e os agentes envolvidos para
a análise técnica da ocorrência.
Leia as notas da Chesf e ONS na íntegra:
Nota à Imprensa (26/10/2012)
Ocorrência afeta regiões Nordeste e Norte
À zero hora e 14 minutos de 26/10/12 houve um curto-circuito no segundo circuito da linha
de transmissão em 500 kV Colinas-Imperatriz, que faz parte da interligação entre os sistemas
Sul/Sudeste/Centro-Oeste e Norte/Nordeste e que é de propriedade da empresa transmissora
TAESA (uma Sociedade de Propósito Específico cujos acionistas majoritários são a CEMIG e
um fundo de investimentos). Este evento ocorreu em uma chave seccionadora do capacitor
série da linha de transmissão, que ficou danificada.
O defeito foi eliminado pela atuação das proteções de retaguarda da subestação Colinas, que
resultou no desligamento de oito circuitos de 500 kV a ela conectados.
Essa ação causou a separação do sistema Norte/Nordeste do restante do Sistema Interligado
Nacional (SIN) e, em seguida, a separação dos sistemas Norte e Nordeste.
Com o isolamento da região Nordeste, houve uma queda acentuada de tensão e frequência
que provocou o desligamento total das cargas dessa região, no montante de 9.500 MW.
Na região Norte, houve o desligamento de 3.400 MW, correspondendo a 77% da carga total.
A cidade de Belém não foi afetada, sendo suprida diretamente pela usina hidrelétrica de
Tucuruí.
As regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste não foram afetadas pela perturbação.
No processo de recomposição do sistema, cerca de 4 horas após a ocorrência, 70% das
cargas estavam restabelecidas.
Haverá hoje, às 11 horas, em Brasília, uma reunião do Comitê de Monitoramento do Setor
Elétrico para avaliação do evento e suas consequências. No Rio de Janeiro, às 14 horas, será
realizada uma reunião entre o ONS e os agentes envolvidos para a análise técnica da
ocorrência.
Assessoria de Planejamento e Comunicação
Operador Nacional do Sistema Elétrico
Nota Chesf
A Companhia Hidro Elétrica do São Francisco – Chesf informa que o desligamento ocorrido
às 00:14 Hs de hoje (horário de Brasília), dia 26/10/2012, não teve origem nas instalações
ou equipamentos desta Empresa. O problema foi identificado, preliminarmente, na
Subestação Colinas, localizada no Estado de Tocantins.
No momento da ocorrência, a Região Nordeste estava importando cerca de 2.500 megawatts
de energia. A interrupção brusca provocou instabilidade, acionando automaticamente o
Sistema de Proteção da Chesf, que operou corretamente, desligando os demais equipamentos
associados. As cargas começaram a ser restabelecidas a partir de 02:29 Hs de hoje, (horário
de Brasília), dia 26/10/2012.
Ademais, o Operador Nacional do Sistema Elétrico – ONS é o órgão responsável pela
coordenação e controle da operação das instalações de geração e transmissão de energia
elétrica no Sistema Interligado Nacional – SIN, sob a fiscalização e regulação da Agência
Nacional de Energia Elétrica – Aneel, e repassará oportunamente as informações sobre
origem do desligamento em comento.
Portanto, todo o Sistema Elétrico Brasileiro está, no momento, reunido no esforço de
compreender as causas deste evento. Estima-se para ainda hoje a divulgação oficial que
deverá ser feita pelo ONS.
Cordiais saudações,
Engº Aírton Freitas Feitosa
Gerente Regional de Operação Oeste
Companhia Hidro Elétrica do São Francisco
Fonte:
http://portaldaclube.profissional.ws/chesf-e-ons-divulgam-notas-sobre-apagao-queafetou-pi-e-mais-11-estados.html (acesso em 26/10/2012)
Jovem ainda passará por exames para conclusão do inquérito, diz MP
O Ministério Público afirma que o caso não foi arquivado e que a Polícia Civil está
investigando as denúncias
22/05/2013 - Atualizado em 22/05/2013 12:52
O Ministério Público do Piauí publicou nota de esclarecimento acerca das notícias divulgadas
sobre as denúncias feitas pela estudante Franciele Silva, 23, que afirma ter sido vítima de
abuso sexual de seu padrasto e seu pai, durante 12 anos, no município de Piracuruca. De
acordo com a nota, a Polícia Civil aguarda ainda que a jovem passe por exames que
possibilitarão uma investigação mais detalhada.
De acordo com o delegado geral James Guerra, um inquérito já foi concluído no fim do mês
de março deste ano, mas a justiça solicitou que retornasse à polícia para que novas diligências
fossem executadas, como a realização de exames e oitivas,
As denúncias de Franciele aconteceram em setembro do ano passado, quando procurou o
Ministério Público de Piracuruca para relatar os abusos que afirma ter sofrido. Hoje, oito
meses depois, a jovem diz temer que seus agressores fiquem impunes, pela demora no
posicionamento da justiça, que não repassa a ela informações sobre seu caso.
Leia abaixo a nota na íntegra:
O Ministério Público do Estado do Piauí, em face das notícias veiculadas sobre a atuação
das Promotorias de Justiça de Piracuruca em relação à apuração de denúncia de abuso
sexual, vem prestar os esclarecimentos que se fazem necessários.
O Ministério Público tem como missão defender a ordem jurídica, o regime democrático e os
interesses sociais e individuais indisponíveis a fim de garantir a cidadania plena e o
desenvolvimento sustentável. Para cumprir essa missão, os Promotores de Justiça rendem
especial atenção aos cidadãos que precisam dos serviços da instituição. Os membros do
Ministério Público são orientados a prestar atendimento igualitário, célere e eficaz a todas
as pessoas, pois temos consciência de que muitas demandas são delicadas e exigem medidas
de caráter urgente.
Sobre o caso em tela, esclarecemos que não foi arquivado: o inquérito está sob os cuidados
da Polícia Civil, que tem se esforçado continuamente para reunir a maior quantidade
possível de informações. Os responsáveis pela investigação estão elaborando relatórios e
aguardando que a reclamante se submeta aos exames necessários, para que os laudos
possibilitem a aferição de conclusões.
Mesmo sem ter a guarda direta, o Ministério Público tem acompanhado o inquérito e está a
par de todas as informações, rendendo especial atenção ao caso, que encontra-se em fase de
investigação. A Defensoria Pública também está ciente e empreende esforços para que a
situação seja esclarecida o mais brevemente possível.
Ressaltamos que o Ministério Público do Estado do Piauí exerce suas funções de forma
independente e imparcial, atuando em prol da defesa da ordem jurídica e social, zelando pela
garantia dos direitos constitucionais, pela defesa da sociedade e pela proteção da pessoa
humana;
Por fim, lembra também que está à disposição dos seus membros e servidores, e de toda a
sociedade, para dirimir qualquer dúvida, bem como para receber denúncias de quaisquer
possíveis irregularidades de modo a tomar as providências legais cabíveis.
1ª Promotoria de Justiça da Cidade de Piracuruca
Ministério Público do Estado do Piauí
Fonte:
www.portalodia.com/noticias/policia/mp-divulga-nota-sobre-denuncia-de-jovemabusada-por-pai-e-padrasto-173168.html (acesso em 22/05/2013)
Paródia de Dilma ameaça 'suicídio digital' após frase apagada pelo
Facebook
Paródia virtual da presidente Dilma Rousseff, o perfil "Dilma Bolada", famoso nas redes
sociais, pode sair do ar. O motivo, segundo nota divulgada nesta quarta-feira (29), é uma
suposta censura que o perfil sofreu no Facebook ao ter uma postagem apagada.
A frase fazia referência a um processo contra o senador Aécio Neves (PSDB-MG).
"Inventar mentira contra mim é mole, querido", dizia a piada, como se fosse escrita pela
petista, conforme noticiou a coluna Mônica Bergamo.
Após ter a frase apagada, Jeferson Monteiro, criador da paródia, afirmou à coluna ter "ficado
frustrado". O perfil "Dilma Bolada" tem 336 mil seguidores no Facebook.
Monteiro afirma que a retirada da postagem o fez refletir e avaliar se mantém a página no ar.
Ele também cita os ataques que sofre nas redes sociais por causa das brincadeiras feitas pela
Dilma Bolada, na maioria das vezes em tom provocativo à oposição.
"Hoje vou tirar o dia para refletir e tomar decisão se continuamos ou não juntos aqui
[Facebook]. Por isso, vou analisar todos os pontos e hoje às 20h, eu farei uma nota oficial
aqui na página para anunciar se eu, Dilma Bolada, fico ou se vou", diz a nota divulgada pelo
perfil.
Procurado pela coluna, o Facebook, que se reserva o direito de excluir postagens que
descumpririam suas regras, declarou que não comenta casos específicos.
Segundo a nota, o autor de Dilma Bolada postou a frase sobre Aécio após assistir, no último
sábado (25), às inserções do PSDB e receber pelo Twitter um link de um reportagem sobre o
tucano, que seria réu em um processo por improbidade administrativa.
"Achei curioso e resolvi fazer um post [...] por volta das 10 da noite no sábado, euzinha
mantive a linha de sempre, falei que não levava desaforo para casa e chamei Never [referindose a Aécio] de piadista. [...] As reações contrárias também foram muitas. [...] Para a surpresa
de todos, cerca de 3 horas depois, o post foi APAGADO!", diz a nota.
Para o autor do perfil, "não houve nenhum descumprimento à política de privacidade" do
Facebook na postagem.
Veja a íntegra da nota:
NOTA DE ESCLARECIMENTO:
Queridos internautas e queridas internautas, venho por meio deste esclarecer um episódio que
ocorreu no último sábado à noite.
Infelizmente é um assunto desagradável que de antemão peço desculpas a todos por ter que
abordá-lo. Pois então, no último sábado à noite, enquanto assistia à novela, vi algumas
inserções comerciais de Aécio no intervalo comercial. No twitter, recebi o link de um
seguidor de uma matéria da Revista Fórum que dizia que o cidadão é RÉU de um processo
por improbidade administrativa. Achei curioso e resolvi fazer um post aqui no Facebook, mas
antes, como de costume, fui checar se a citada notícia havia sido veiculada em algum lugar, e
encontrei no portal Fala MG e no Bahia Notícias.
Pois bem, então fiz o post por volta das 10 da noite no sábado, euzinha mantive a linha de
sempre, falei que não levava desaforo pra casa e chamei Never de piadista. A reação foi
imediata: o post teve mais de 1300 likes em 10 minutos e 600 compartilhamentos (números
surpreendentes para um sábado à noite), as reações contrárias também foram muitas, estas
inclusive me fizeram, naquele momento, não retomar ao assunto pois sempre levo em
consideração a percepção de vocês. Mas para a
supresa de todos, cerca de 3 horas depois, o post foi APAGADO!
Fiquei chatiadíssima com essa situação e sem entender o que havia ocorrido. No twitter, na
segunda, meus seguidores pediram que eu refizesse o post e decide por refazer. Ainda na
segunda, a coluna da Mônica Bergamo da Folha me procurou para saber o que havia ocorrido.
Eles entraram em contato com o Facebook Brasil que disse que não comentaria o caso, o que
me causa ainda mais indignação. O Facebook é uma rede social livre e tem suas próprias
regras e diretrizes, por isso tomo todos os cuidados necessários para obedecê-los, e ao meu
ver não houve nenhum descumprimento à sua política de privacidade. Pelo contrário, eu acho
que meu post era um belíssimo caso de liberdade de expressão em nosso país que já teve
tempos muito difíceis onde as pessoas eram oprimidas.
Em tempo, ultimamente tem sido complicado estar aqui com vocês, não digo nem por mim
afinal competência, simpatia, conexão e beleza sempre me acompanham, mas falo pelo jovem
fake golpista Jeferson Monteiro, apesar dos pesares me preocupo com cada um de vocês e
com ele não tem seria diferente, tenho observado há muito que ele vem sofrendo constantes
ataques de pessoas opositoras e contrárias ao meu Governo, membros do PSDB e da
"Juventude" do Partido estão numa intensa e incessante perseguição a ele, todos os dias
ofendendo, usando duras palavras, fazendo acusações infundadas e ameaçado de processos
quando se pensa em responder à altura. É muito complicado que tenhamos pessoas com
pensamentos tão limitados e conspiratórios que só pensem que as pessoas fazem as coisas por
dinheiro. Dirijo-me ao Presidente deles e peço que aconselhe seus filhotes e que eles tenham
um pouco mais de bom senso e educação.
Exposto tudo isso, gostaria de reafirmar: esta rede é minha, apenas minha sem vínculo com
ninguém mais. É extremamente desagradável que eu tenha que parar no meio do meu
expediente para escrever isso para vocês. Também peço desculpas a todos aqueles que,
independente do partido, tenham que se deparar com essas declarações. O meu compromisso
é com vocês, dilmetes, independente se você é do time dos vermelhos, dos tucanos, do dudu
ou dos sustentáveis. Sou a Presidenta de todos!
Diante de tudo o que foi dito, hoje vou tirar o dia para refletir e tomar a decisão se
continuamos ou não juntos aqui. Por isso, vou analisar todos os pontos e hoje às 20h, eu farei
uma nota oficial aqui na página para anunciar se eu, Dilma Bolada, fico ou se vou. Enfim,
tenham certeza que tomarei a melhor decisão para todos nós e peço que entendam e me
apóiem independente de qual seja.
Por fim, faço um apelo ao Facebook, ao Alexandre Hohagen, que conhece nossa página, e a
imprensa para que todos saibamos o que ocorreu. Vivemos num país livre e nossa maior rede
social não pode nos privar o direito ao acesso à informação e a liberdade de expressão e
opinião. Informo ainda que hoje, excepcionalmente, não atenderei demandas da imprensa.
Espero que compreendam.
Em tempo, agradeço a Folha e a coluna pela ajuda no caso.
"Prefiro o barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras."
Brasil, país rico é país onde é assegurado o direito de manifestar livremente opiniões, ideias e
pensamentos.
Fonte: www1.folha.uol.com.br/poder/2013/05/1286687-parodia-de-dilma-ameaca-suicidiodigital-apos-frase-apagada-pelo-facebook.shtml (Acesso em 29/05/2013)
Tico Santa Cruz presencia acidente em rodovia do PI e faz relato no
Facebook
O vocalista alertou para a grande quantidade de animais na pista e o atendimento precário
da polícia
O vocalista da banda Detonautas, Tico Santa Cruz, fez um relato em seu perfil no Facebook,
na madrugada de hoje (22), depois de presenciar um acidente na BR-343, quando se
deslocava de Teresina com destino ao litoral piauiense, onde fará um show na noite de hoje
(22) na cidade de Parnaíba. Ele criticou o atendimento precário dos serviços de emergência e
os riscos gerados pelos animais nas pistas piauienses, realidade já conhecida por quem trafega
pelas rodovias.
Leia abaixo o relato completo:
"Fazer um relato que considero importante.
Cheguei a Parnaíba-Piauí há pouco mais de 2 horas. Uma viagem longa e cansativa, vindo
de Teresina. Cerca de Quatro horas e meia numa estrada que tem parte dela em condições
precárias e a outra parte bem sinalizada e com asfalto bom, porém com um PERIGO MUITO
SINISTRO.
Animais cruzam a pista durante TODO O PERCURSO. Todo tipo de animal, de cachorros e
galinhas a Porcos, bois e CAVALOS. MUITOS CAVALOS Soltos por uma rota escura.
Presenciei um acidente que por sorte não foi uma tragédia.
Um carro em alta velocidade nos ultrapassou em pista de mão dupla e uns 50 metros a frente
perdeu a direção e saiu da pista batendo numa árvore. Nós conseguimos desviar dele e eu vi
um CAVALO andando na pista no sentido contrário. Era um Cavalo PRETO, de modo que no
Escuro ficava muito difícil de identificar de longe. Foi por este motivo que o carro que nos
ultrapassou perdeu a direção. O motorista conseguiu desviar dele, mas não conseguiu
desviar da árvore.
Como estava tarde da noite e num local inóspito, liguei para a Polícia IMEDIATAMENTE 190 - e fui atendido por um Policial TOTALMENTE DESPREPARADO E DE MÁ
VONTADE. Eu estava muito assustado e tentei ser bem claro com o atendente notificando o
acidente e tentando passar as coordenadas do local. Ele disse que não poderia fazer nada,
que eu precisaria ligar de um TELEFONE PÚBLICO OU FIXO, porque do meu celular
estava caindo na CENTRAL DE TERESINA e de lá ele não podia oferecer ajuda.
Perguntei ao mesmo se não poderia acionar uma ambulância ou comunicar aos bombeiros
sobre o acidente. O homem repetiu de forma curta e grossa que não poderia me ajudar.
COMO ASSIM? VOCÊ LIGA PARA 190 NA EMERGÊNCIA E O POLICIAL NÃO
PODE AJUDAR?????????????????
Um amigo que estava no carro comigo teve a calma de pedir o telefone da POLÍCIA
RODOVIÁRIA, foi então que o HOMEM QUE ESTAVA ME ATENDENDO PEDIU UM
MINUTO - ELE NÃO SABIA O TELEFONE DA POLÍCIA RODOVIÁRIA? Que tipo de
profissional é esse que é colocado para prestar um serviço de emergência sem PREPARO
ALGUM?????????
Voltou em seguida e passou o telefone 191 da Polícia Rodoviária Federal. Liguei e fui
prontamente atendido, passei as localização do acidente e fui informado que mandariam uma
viatura. O local onde ocorreu o problema era entre uma cidade e
outra na BR-343 totalmente deserta.
Nós não poderíamos fazer nada, pois o carro estava fora da pista e nós não sabíamos quais
as condições das vítimas.
Fomos em direção a um posto da Polícia Rodoviária que encontramos 30 minutos depois.
Fiquei muito preocupado e angustiado com a situação, e pensando em como numa hora
dessas é importante ter um serviço de RESGATE EFICIENTE.
Pois bem, notificamos pessoalmente o Policial que nos informou que uma viatura já
havia seguido para o local. Fiquei monitorando pelo Telefone através do 191 e a atendente
me passando as informações.
Liguei há pouco e soube que a princípio não aconteceu NADA GRAVE com os tripulantes do
carro. Que quando a viatura chegou uma pessoa avisou que os passageiros tinham sido
removidos do local aparentemente sem nenhum ferimento grave.
Enfim, deixo 2 ALERTAS.
PRIMEIRO AS AUTORIDADES DA REGIÃO para que investiguem que TIPO DE SERVIÇO
É ESSE PRESTADO PELO ATENDIMENTO 190.
SEGUNDO para quem TRAFEGA PELA REGIÃO: tomem MUITO CUIDADO NESSA
ESTRADA POIS OS ANIMAIS ESTÃO PERMANENTEMENTE NA PISTA. A noite não é
possível vê-los com clareza. Andar em alta velocidade e fazer ultrapassagens sem a vista
total da pista é loucura!!!!!!
Soube que muitos DONOS DESTES ANIMAIS SOLTOS já foram multados por este tipo de
acontecimento, MAS AINDA SIM PERMANECEM MUITOS DELES SOLTOS
POR ALI.
Graças as energias que nos protegem, nada aconteceu e no sábado voltaremos de dia para
TERESINA onde a noite farei meu show no Planeta Diário.
Fonte: www.portalodia.com/noticias/policia/tico-santa-cruz-presencia-acidente-em-rodoviado-pi-e-faz-relato-no-facebook-165681.html (acesso em 22/02/2013)
Tico Santa Cruz desabafa sobre estrada do Piauí no Facebook
O cantor Tico Santa Cruz, que está no Piauí para uma série de shows, fez um alerta em seu
Facebook para os perigos e condições de atendimento policial na BR 343, onde seguia durante
a noite desta quinta-feira(22), com destino a Parnaíba. Segundo o relato, Tico presenciou um
acidente envolvendo outro veículo, que fez uma ultrapassagem e acabou batendo em uma
árvore ao desviar de um cavalo que estava na pista.
Foto: Rayldo Pereira/ Cidadeverde.com
"Um carro em alta velocidade nos ultrapassou em pista de mão dupla e uns 50 metros a frente
perdeu a direção e saiu da pista batendo numa árvore. Nós conseguimos desviar dele e eu vi
um CAVALO(sic) andando na pista no sentido contrário. Era um Cavalo PRETO(sic), de
modo que no Escuro ficava muito difícil de identificar de longe. Foi por este motivo que o
carro que nos ultrapassou perdeu a direção. O motorista conseguiu desviar dele, mas não
conseguiu desviar da árvore.", relatou o cantor.
Ainda em seu desabafo, Tico comenta que entrou em contato com a Polícia, para comunicar o
fato. O cantor denuncia "despreparo e má vontade" do policial que atendeu a ocorrência ao
telefone. "Perguntei ao mesmo se não poderia acionar uma ambulância ou comunicar aos
bombeiros sobre o acidente. O homem repetiu de forma curta e grossa que não poderia me
ajudar. COMO ASSIM? VOCÊ LIGA PARA 190 NA EMERGÊNCIA E O POLICIAL NÃO
PODE AJUDAR????????????????? (sic) Que tipo de profissional é esse que é colocado para
prestar um serviço de emergência sem PREPARO ALGUM?????????(sic)", desabafou o
músico.
Após a tentativa frustrada, o cantor acionou a Polícia Rodoviária Federal, através do 191. Tico
e a equipe foram até o posto da PRF onde passaram as informações sobre o acidente. O
músico afirma que não aconteceu nada grave com os tripulantes do carro, e que a Polícia
informou que todos foram removidos do local.
Foto
Tico finaliza deixando dois alertas, às autoridades e aos motoristas, primeiro para uma
investigação do tipo de serviço prestado no atendimento da Polícia. E depois aos motoristas,
para que dirijam com cuidado pois os animais estão sempre atravessando a pista." A noite não
é possível vê-los com clareza. Andar em alta velocidade e fazer ultrapassagens sem a vista
total da pista é loucura!!!!!! Soube que muitos DONOS DESTES ANIMAIS SOLTOS(sic) já
foram multados por este tipo de acontecimento, MAS AINDA SIM PERMANECEM
MUITOS DELES SOLTOS POR ALI."(sic), concluiu o cantor.
PM reage a denúncia
O assessor de Comunicação Social da Polícia Militar do Piauí, major Jorge Lima, respondeu
as críticas feitas pelo cantor Tico Santa Cruz através do Facebook. O artista denunciou
descaso por parte do atendimento promovido pelo telefone 190. “O número [190] atende
Teresina e o interior dia e noite. Todas nossas ligações são gravadas e a denúncia do cantor
será apurada. Se a polícia não puder resolver o problema, deveremos ao mínimo encaminhar
para a autoridade competente. Posso garantir que vamos dar uma resposta para o cantor e para
a sociedade”, atesta o militar.
Fonte: www.cidadeverde.com/tico-santa-cruz-desabafa-e-faz-alerta-sobre-estrada-do-piauino-facebook-125906 (acesso em 22/02/2013)
Jovem violentada por 12 anos denuncia caso pelas redes sociais; acusados
são ouvidos
Atualizada às 11h15
A jovem Franciele de Almeida Silva, 23 anos, resolveu denunciar pelas redes sociais, a
suposta violência sexual cometida pelo padrasto e o pai em São José do Divino e Piracuruca
(respectivamente). A vítima relata que os abusos aconteceram durante 12 anos e reclama da
morosidade da Justiça para punir os prováveis culpados.
(foto)
Através de seu Facebook, Franciele de Almeida conta que denunciou o caso ao Ministério
Público ainda em 2012 e que o mesmo foi arquivado.
"O Ministério Público de Piracuruca me recebeu pela primeira vez com minha denúncia em
setembro de 2012 e de lá pra cá não fizeram nada. Eu tenho uma gravação onde meu pai diz
tudo em alto e bom som, confessa todos os seus crimes, mesmo sabendo que não pode ser
utilizada como prova de acusação nem sequer deram se ao trabalho de ouvir minha gravação",
escreveu a jovem que hoje mora em Parnaíba, após ter passado no vestibular.
Ao Cidadeverde.com, a promotora Everângela Barros revela que o processo não foi arquivado
e está em fase de investigação. "Infelizmente este tipo de crime é difícil de ser elucidado pois
acontece sempre às escondidas. Já se passou muito tempo, mas não estamos parados",
declarou.
A representante do Ministério Público conta ainda que o delegado de Piracuruca pediu a
prorrogação de prazo devido a necessidade de mais diligências. "Já se passaram mais de 10
anos o que dificulta a coleta de provas para embasar a ação penal, mas estamos
acompanhando de perto e todas as providências estão sendo tomadas", finaliza a promotora.
Pais foram ouvidos
O delegado regional de Piracuruca, Ricardo Oliveira, ressalta que as investigações são
complexas e que até o próximo dia 20 de julho entregará um vasto material sobre o caso.
"Alguns fatos apresentados pela vítima datam ainda de 2006, mas tudo já está bem
encaminhado e corre em segredo de Justiça", reitera.
Oliveira conta que, além do pai e do padrasto, outras testemunhas já foram ouvidas pela
polícia. "O padrasto mora no povoado Tranzual no município de São José do Divino e já
prestou depoimento. O pai reside em Piracuruca foi ouvido apenas informalmente, devendo
comparecer para prestar declaração formal nos próximos dias", finaliza o delegado de
Piracuruca.
Fonte: www.cidadeverde.com/piracuruca/index.php (acesso em 22/05/2013)
Menor diz em depoimento que ossos de Eliza Samudio foram concretados
Jovem disse que ouviu goleiro pedir para 'resolverem
Ele disse ter visto mão de ex-namorada de Bruno ser jogada a cães.
o
problema'.
O Jornal Nacional teve acesso com exclusividade ao depoimento que provocou uma
reviravolta no caso Bruno. Em quatro folhas, o menor apreendido na terça-feira (6) na casa do
goleiro do Flamengo conta sua versão dos fatos. Ele disse que foi convidado por Luiz
Henrique Ferreira Romão, o amigo de Bruno conhecido como Macarrão, a levar Eliza
Samudio ao sítio do goleiro em Minas Gerais. Macarrão já tinha planejado tudo e mandou o
adolescente se esconder no porta-malas do carro.
Já com o carro em movimento, o menor conta que estava na mala do veículo e pulou para o
banco de trás com a arma em punho, rendendo Eliza e dizendo: "perdeu Eliza"
Segundo o adolescente, Eliza conseguiu pegar a arma e atirou contra o menor, mas a arma
estava sem munição. O adolescente conseguiu recuperar a arma e deu três coronhadas na
cabeça de Eliza.
O jovem diz que a viagem continuou até o sítio de Bruno. O rapaz dormiu em um quarto.
Macarrão em outro. E Eliza, com o filho, dormiu em um terceiro quarto. Havia também uma
empregada doméstica.
No dia seguinte, Eliza não permaneceu trancada. Sérgio Rosa Sales, que chegou naquele dia,
passou a vigiar Eliza, segundo o menor.
Ele disse que viu Sérgio entregar um telefone para que Eliza ligasse para uma amiga de São
Paulo. Sérgio mandava dizer que estava tudo bem, que ela receberia dinheiro e um
apartamento em Belo Horizonte. Eliza foi ameaçada de morte caso não dissesse o combinado.
O menor conta que, no dia seguinte, Bruno chegou de táxi ao sítio, pois tinha viajado de avião
para Belo Horizonte. O adolescente conta que ouviu Bruno dizer para Macarrão e Sérgio que
era para eles resolverem o problema. Que não queria problemas para o lado dele e que ele,
Bruno, não saberia de nada.
Segundo o depoimento, Macarrão e Sérgio disseram que não poderiam libertar Eliza, pois o
problema seria ainda maior. Bruno disse então que já tinha acontecido "m...." da primeira vez,
e não queria que o problema se repetisse com Eliza.
O goleiro permaneceu no sítio por duas horas e depois chamou um táxi para levá-lo até o
aeroporto, pois queria voltar para o Rio no mesmo dia.
No dia seguinte, o adolescente, Macarrão, Sérgio, Eliza e o filho dela entraram no carro de
Bruno e seguiram rumo a Belo Horizonte.
O adolescente contou que chegaram a um local que se parecia com um sítio. Foram recebidos
por um homem alto, negro, chamado Neném.
Vem então a parte mais forte do depoimento: segundo o menor, Neném pegou Eliza, amarrou
os braços dela com uma corda e deu uma gravata, sufocando-a. Neném pediu que todos
deixassem o local. Sérgio carregava o filho de Eliza.
Logo depois, segundo o jovem, Neném passou carregando um saco e seguiu em direção a um
canil, onde havia quatro rotweillers. O adolescente viu o momento em que Neném retirou a
mão de Eliza e arremessou para os cães.
O adolescente disse que os ossos de Eliza foram concretados no mesmo terreno em que ela foi
morta. Ele inocentou a mulher de Bruno, Dayane Rodrigues, de participação no assassinato de
Eliza.
Segundo o menor, Dayane foi ao sítio de Bruno depois do crime - e soube apenas que o bebê
de Eliza tinha sido deixado no local.
O adolescente disse ainda que não falou com Bruno sobre o que aconteceu com Eliza, mas
acredita que Macarrão tenha contado o desfecho do sequestro.
Fonte: http://g1.globo.com/brasil/noticia/2010/07/menor-diz-em-depoimento-que-ossos-deeliza-foram-concretados-em-sitio.html
DEPOIMENTO POLICIAL
Costumes:
Contradita (SEM)
Compromisso Legal:
Inquirido, Disse:
Que ciente de suas garantias constitucionais, dentre as quais a de ficar em silêncio, após
permanecer na sala com o seu tio, ---, seu representante legal, refletiu sobre o depoimento
inicialmente prestado e, na presença deste, deseja esclarecer que está muito arrependido dos
fatos e deseja que todo o ocorrido seja esclarecido; Que como já foi dito no primeiro
depoimento, o declarante no início do mês de junho, em uma data que o declarante não sabe
precisar, foi convidado por um funcionário de seu primo BRUNO DE SOUSA, o qual é
goleiro do Flamengo, conhecido pelo apelido de MACARRÃO, que na realidade se chama
LUIZ HENRIQUE, para ajuda-lo a levar uma ex-namorada de BRUNO de nome ELIZA para
Belo Horizonte; Que MACARRÃO já havia planejado tudo, pedindo ao declarante que
ficasse de posse de uma arma escondido no porta-malas do carro que iriam utilizar; Que o
carro utilizado foi o veículo Land Rover, de propriedade de seu primo BRUNO; Que
passaram em uma lanchonete McDonalds e compraram sanduíches para que não precisassem
parar na estrada; Que efetivamente, não compareceram a um flat localizado na Barra da
Tijuca, nas proximidades do Condomínio Riviera, sendo que o declarante ficou efetivamente
escondido na mala, armado, enquanto MACARRÃO foi pegar ELIZA no hotel; Que
conforme combinado, MACARRÃO entrou no carro assumindo a direção, enquanto ELIZA
entrou no banco de trás; Que MACARRÃO tomou direção da praia, e que após alguns
minutos do carro em movimento, o declarante que se encontrava na mala do veículo, porém
com a tampa aberta, levantou-se e pulou para o banco de trás do veículo com arma em punho,
rendendo ELIZA e falando “PERDEU, ELIZA”; Que EELIZA tomou um susto, chegando a
dar um tapa na arma sendo que a arma caiu e ELIZA apanhou a arma; Que o declarante
anteriormente havia retirado o carregador da pistola, portanto a mesma estava desmuniciada;
Que ELIZA, ao pegar a arma, tentou efetuar disparos contra o declarante, porém como já foi
dito, a arma estava desmuniciada; Que em ato contínuo o declarante tomou a arma de ELIZA
e lhe deu três coronhadas na cabeça; Que ELIZA permaneceu lúcida, porém ensanguentada
devido às coronhadas; Que ELIZA quando entrou no carro, trazia no colo seu filho de poucos
meses; o qual foi acomodado em um bercinho no banco de trás; Que após ser agredida,
ELIZA apesar de lúcida não esboçou nenhuma reação; Que o declarante já havia recuperado a
pistola após a agressão, municiou a mesma e sob a mira da pistola conduziu ELIZA por toda a
viagem sem qualquer parada; Que ao chegar em Minas Gerais, se dirigiram até o sítio de
propriedade de seu primo Bruno; Que chegaram na parte da madrugada; Que o declarante
dormiu em um quarto sozinho. MACARRÃO dormiu em outro quarto e ELIZA ficou com
seu filho em outro quarto; Que neste dia também havia uma empregada doméstica; Que no dia
seguinte, ELIZA não permaneceu trancada no quarto, mas SÉRGIO que havia chegado neste
dia, tinha a incumbência de ficar vigiando ELIZA; Que SÉRGIO era a única pessoa
responsável pela vigia de ELIZA; Que neste dia, ELIZA aceitou almoçar, mas comeu muito
pouco; Que no período da noite, ELIZA ficou assistindo televisão; Que ELIZA não tinha
acesso ao seu telefone celular ou a qualquer outro telefone, pois SÉRGIO não permitia que a
mesma realizasse telefonemas; Que no dia posterior, SÉRGIO prosseguiu vigiando ELIZA,
pois a mesma não podia sair do sítio nem realizar ligações; Que o declarante esclarece que
presenciou SÉRGIO ROSA SALES entregar o telefone para ELIZA para que a mesma
realizasse ligação para uma amiga de São Paulo; Que SÉRGIO mandava ELIZA dizer que
estava tudo bem e que ela receberia dinheiro e apartamento em BH; Que ELIZA foi
ameaçada de morte por SÉRGIO caso não falasse o combinado; Que durante este período
permaneciam na residência o declarante, MACARRÃO, SÉRGIO, a empregada doméstica,
ELIZA e seu filho; Que no dia seguinte, seu primo BRUNO, goleiro do Flamengo, chegou do
táxi no sítio, pois havia viajado de avião para Belo Horizonte; Que Bruno ao chegar,
constatou que o declarante, MACARRÃO, SÉRGIO, a empregada doméstica, ELIZA e seu
filho estavam no sítio; Que BRUNO ficou surpreso quando viu ELIZA assistindo televisão na
sala de seu sítio; Que BRUNO saiu da sala e disse para o declarante, MACARRÃO e
SÉRGIO: “O QUE ESTÁ ACONTECENDO?”; Que o declarante ficou calado, mas se
recorda que MACARRÃO e SÉRGIO conversaram com BRUNO; Que o declarante ouviu
BRUNO dizer para MACARRÃO e SÉRGIO que era para eles resolverem o problema, pois
não queria problemas para o seu lado, uma vez que não saberia de nada; Que ouviu
MACARRÃO e SÉRGIO conversarem sobre a forma que iriam resolver o problema, ouvindo
ainda que não poderiam libertar ELIZA pois o problema seria maior ainda; Que BRUNO
disse que “já tinha acontecido uma merda da primeira vez e não queria que o problema se
repetisse com ELIZA”; Que o goleiro BRUNO permaneceu no s´´itio durante duas horas e
depois chamou um táxi no sítio para levá-lo ao aeroporto de BH, pois queria voltar para o RJ
no mesmo dia; Que no dia seguinte no período da noite, por volta de 23h00m, SÉRGIO
ROSA SALES, que é primo do declarante disse que ELIZA seria levada para um apartamento
localizado em BH; Que SÉRGIO contou a mesma história para ELIZA e ela acreditou; Que o
declarante também achava que SÉRGIO também estivesse falando a verdade; Que o
declarante, MACARRÃO, SÉRGIO, ELIZA e seu filho entraram no veículo Lange Rover,
de cor verde, e foram com destino a BH; Que MACARRÃO foi dirigindo o veículo; Que
durante o trajeto percebeu que SÉRGIO havia mentido para o declarante, pois MACARRÃO
havia entrado em um outro local que se parecia com um sítio; Que ao chegar neste sítio foram
recebidos por um indivíduo negro, alto, magro, cabelo curto, chamado NENÉM; Que neste
momento percebeu que no local existia uma faca grande no local; Que logo em seguida,
NÉNEM pegou ELIZA, amarrou seus braços com uma corda e logo em seguida, deu uma
“gravata” em ELIZA, sufocando-a; Que neste momento, NENÉM pediu que o declarante,
MACARRÃO e SÉRGIO saíssem do local; Que todos saíram e SÉRGIO estava carregando o
filho de ELIZA em seus braços; Que logo depois, NENÉM passou carregando um saco e
seguia em direção de um canil; Que neste canil estavam quatro Rotweillers; Que o declarante,
MCARRÃO e SÉRGIO viram no momento em que NENÉM retirou a mão de ELIZA e
arremessou para dentro do canil; Que os cachorros no mesmo instante começaram a comer a
mão que havia sido arremessado; Que o declarante, MACARRÃO e SÉRGIO, após
visualizar tal cena, saíram do local e entraram no veículo Lange Rover com destino ao sítio de
BRUNO; Que MACARRÃO voltou conduzindo o veículo; Que chegaram no sítio e
encontraram a namorada do goleiro BRUNO chamada DAYANE; Que SÉRGIO entregou a
criança para DAYANE; Que DAYANE indagou sobre ELIZA; Que SÉRGIO disse a
DAYANE que haviam deixado ELIZA em um apartamento em BH e que a mesma havia
entregue a criança para ser entregue ao goleiro BRUNO; Que SÉRGIO disse que havia
entregado determinada quantia em dinheiro para ELIZA e que a mesma não poderia mais
cuidar do filho; Que DAYANE acreditou e todos passaram a noite no sítio; Que no dia
seguinte, no período da manhã, o declarante por iniciativa própria decidiu limpar o carro Land
Rover interna e externamente, que presenciou MACARRÃO ligar para NENÉM e perguntar
se o mesmo havia ocultado o corpo de ELIZA, que NENÉM respondeu que havia dado
pedaços do corpo de ELIZA para os cachorros e o restante dos ossos havia concretado no
mesmo terreno onde ELIZA foi morta; Que o declarante e MACARRÃO voltaram para o RJ
no ônibus do time do 1005; Que ao retornar ao RJ, se acomodaram na residência do goleiro
BRUNO; Que SÉRGIO voltou no mesmo dia para sua casa; Que ao chegar no RJ, não contou
nada para BRUNO, mas acredita que MACARRÃO tenha contado tudo para o goleiro
BRUNO; Que MACARRÃO, no dia de hoje, saiu de casa para resolver problemas
particulares do goleiro BRUNO; Que o declarante deseja esclarecer que sua intenção era tão
somente auxiliar no transporte de ELIZA até BH, pois MACARRÃO havia dito que estaria
resolvendo os problemas particulares do BRUNO com ELIZA; Que sabe informar que
MACARRÃO havia retirado a quantia de R$ 3 000,00, pois viu o momento em que
MACARRÃO contou o dinheiro após voltar do banco; Que MACARRÃO havia dito que esta
quantia seria entregue para ELIZA; Que não sabe dizer para quem o dinheiro foi entregue;
Que o declarante não recebeu dinheiro para a prática dos fatos acima relatados. Que o
declarante foi se surpreendendo com os fatos a medida em que os dias se passavam, pois
percebeu que determinadas decisões fugiam do seu poder de controle; Que embora estivesse
surpreso, participou na medida do que era solicitado por MACARRÃO, SÉRGIO e NENÉM;
E nada mais disse.
Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/763603-veja-integra-do-depoimento-doprimo-do-goleiro-bruno.shtml
Secretaria de Segurança diz que ex-prefeita não é alvo de investigação
quinta, 06 de junho de 2013 • 11:42
A Secretaria de Segurança Pública do Maranhão respondeu petição(veja documento acima)
feita pela ex-prefeita Socorro Waquim onde esclarece sobre informações divulgadas na
imprensa local e estadual que apontavam o suposto envolvimento da administração dela com
o esquema de agiotagem no estado. Amplamente divulgado nos meios de comunicação, o
esquema de agiotagem foi acusado de tirar dinheiro das prefeituras e também responsável pela
morte do jornalista Décio Sá.
O documento enviado pela Secretaria de Segurança deixa claro que a ex-prefeita de Timon
não tem qualquer envolvimento com o suposto esquema. Assinado por quatro delegados da
Superintendência Estadual de Investigações Criminais, o documento ressalta que Maria do
Socorro Almeida Waquim não é alvo de qualquer investigação até a presente data por parte
daquele órgão.
Nas notícias publicadas na imprensa estadual, 41 prefeituras estariam envolvidas nas fraudes.
O suposto esquema funciona mais ou menos assim: Alguns prefeitos, endividados, chegavam
a assinar cheques em branco da prefeitura para pagar os agiotas ou preenchidos e endossados
pelo prefeito para que os agiotas pudessem fazer os saques. O dinheiro saía direto de contas
de programas federais – como o programa nacional de alimentação escolar
(Pnae) e o Fundo de Participação dos Municípios (FPM).
A ex-prefeita de Timon conta que ao ver seu nome incluído na lista tomou um susto e logo a
notícia sobre o caso tomou conta de praticamente todos os veículos de comunicação do
estado, trazendo-lhe um prejuízo na sua imagem difícil de ser reparado. Mesmo assim, a exprefeita conta que vai procurar os meios legais na busca deste ressarcimento. Para tanto, já
acionou sua assessoria jurídica para tomar todas as medidas cabíveis contra blogs, portais,
TVs e até páginas no Facebook que exploraram de forma negativa a falsa informação do seu
envolvimento com o suposto esquema de agiotagem.
Na opinião da ex-prefeita, toda essa repercussão negativa com a citação de seu nome no caso
teve como principal objetivo trazer prejuízos políticos a sua pessoa e ao seu grupo político em
Timon.
Fonte: www.portalaz.com.br/blogs/elias_lacerda (acesso em 06/06/2013)
Edivar é homenageado pelo Unicef
quarta, 05 de junho de 2013 • 18:48
O ex-vice-prefeito de Timon, Edivar Ribeiro (foto), recebeu recentemente uma homenagem
que lhe rende motivos de sobra para comemorar. Ele foi homenageado por ninguém menos
que Gery Stahl, representante do Unicef no Brasil.
Através de um certificado que lhe foi enviado, o Fundo das Nações Unidas para a Infância diz
reconhecer a dedicação e compromisso dele quando dirigiu a Secretaria Municipal de
Assistência Social, a SEMDES.
A gestão do ex-vice-prefeito e secretário foi aprovada pelo UNICEF no período de 2009 a
2012, sendo apontado o município de Timon como um dos que mais avançou nas garantias
dos direitos das crianças e adolescentes.
Embora seja datado de novembro do ano passado, Edivar Ribeiro contou que somente nesta
quarta-feira o certificado chegou a sua casa.
"Já tinhamos ganho o Selo Suas, do Sistema Único de Assistência Social, agora com o
certificado do Unicef ficamos com o sentimento do dever cumprido", avalia ele.
Fonte: www.portalaz.com.br/blogs/elias_lacerda (acesso em 06/06/2013)
MP apura denúncias de contratação irregular de servidores temporários
terça, 04 de junho de 2013 • 15:37
O ministério público instaurou inquérito civil para apurar denúncias sobre a contratação
irregular de servidores temporários para o Município de Cristino Castro, localizado a 595 km
de Teresina. De acordo com os documentos apresentados, não houve processo seletivo para a
admissão dos funcionários.
A Constituição Federal prevê que o serviço público só pode ser exercido por pessoas que
foram aprovados em concurso público, o descumprimento da lei configura crime de
responsabilidade. Além disso, só podem ser efetivadas contratações em caráter temporário se
existir comprovada necessidade excepcional de interesse público.
O Ministério Público expediu ofício ao Poder Público Municipal, fixando o prazo de dez dias
para que sejam prestados esclarecimentos. A Promotora de Justiça requereu cópias das folhas
de pagamento do funcionalismo público de Cristino Castro, referentes ao primeiro trimestre
de 2013, e também solicitou a relação atualizada dos servidores municipais, com os
respectivos vínculos e as funções que exercem. O ministério público também verificará, junto
ao Tribunal de Contas, se foi realizado registro de contratação de servidores.
Fonte:
www.portalaz.com.br/noticia/municipios/269145_mp_apura_denuncias_de_contratacao_irreg
ular_de_servidores_temporarios.html (Acesso em 04/06/2013)
Hospital divulga boletim e diz que Kleber Eulálio sofreu infarto
sábado, 21 de setembro de 2013 • 16:56
Notícia
Em boletim médico sobre estado de saúde do prefeito de Picos, médicos confirmam que
Kleber Eulálio sofreu infarto agudo do miocárdio. O prefeito foi submetido neste sábado (21)
a um cateterismo cardíaco, com desobstrução da artéria coronária descedente anterior e com
implante de Stent (uma estrutura metálica que garante a passagem do sangue).
De acordo com o boletim médico, o procedimento cirúrgico transcorreu sem complicações e o
prefeito tem apresentado quadro clínico satisfatório.
Kleber Eulálio foi internado no final da noite de ontem, sexta-feira (20), por volta das 23h,
com dores no peito e sudorese, que segundo os médicos eram decorrentes de uma angina. Esta
é causada pelo estreitamento das artérias que conduzem sangue ao coração.
Veja o boletim:
Fonte:
http://www.portalaz.com.br/noticia/municipios/276791_hospital_divulga_boletim_e_diz_que
_kleber_eulalio_sofreu_infarto.html (acesso em 22/09/2013)
ANEXO 2:
RESPOSTAS DOS USUÁRIOS EXPERIENTES (JORNALISTAS/REPÓRTERES DE
PORTAIS JORNALÍSTICOS) A PARTIR DAS PERGUNTAS DO QUESTIONÁRIO:
1. Um portal jornalístico é mesmo importante para a sociedade? Eles trouxeram
vantagens para os leitores? Quais?
S1: Sim, muito importante, ao meu ver a principal vantagem é a proximidade do leitor com a
notícia, a expansão da internet está proporcionando isso.
S2: Muitas, mas a principal delas foi a democratização da informação. O conteúdo
informativo deixou de ser somente dos grandes conglomerados de comunicação.
S3: Todo avanço tecnológico é acompanhado por diversas áreas de atuação e com o
jornalismo não seria diferente. Ficar de fora dessa revolução da internet seria um atraso para o
jornalismo, apesar de tudo na vida envolver prós e contras. A rapidez na prestação das
informações é a principal vantagem para o leitor. Outra: minha mãe é deficiente auditiva e lhe
garanto que a vida dela é outra após aprender a acessar os portais de notícias.
S4: Sem dúvidas o surgimento e ascensão dos portais noticiosos em todo país, trouxeram
benefícios para a sociedade, principalmente no que se refere à portabilidade, ou seja,
capacidade de acessar e estar bem informado em qualquer lugar e a qualquer hora do dia e da
noite.
S5: Sim. O acesso a informação se tornou mais rápido e em tempo real. Além disso, os portais
ampliaram as fontes de informações que antes se reduziam a reduzidos grupos de
comunicação.
2. Para você, que mudanças ocorreram entre o jornalismo impresso e o jornalismo na
internet, principalmente acerca do que é praticado nos portais?
S1: O impresso divulga notícias mais atrasadas, porém mais detalhadas e apuradas. A internet
divulga em tempo real.
S2: Ao mesmo tempo que democratizou a informação, pioraram os textos. A linguagem
jornalística na internet é superficial demais, influenciando, claro, nos leitores.
S3: Agilidade para divulgação da notícia, apesar do prejuízo da apuração das informações em
muitos casos. A dimensão dos conteúdos também mudou em razão da audiência. Um jornal
jamais cortaria duas páginas de política para colocar notícias do mundo das celebridades no
lugar.
S4: Diferentemente do impresso, não trabalhamos com pautas marcadas, na redação nós
cobrimos o factual, com a velocidade em que acontecem os fatos e a agilidade que a web
proporciona podemos divulgar as notícias que cobrimos quase instantaneamente, claro que
sempre com a preocupação de apurar antes de divulgar e preservando a ética, contudo existem
momentos em que precisamos nos retratar em algumas situações específicas.
S5: O modo de fazer jornalismo foi modificado com o surgimento dos portais. O fazer
jornalistico se tornou mais dinâmico com a possibilidade de em uma única matéria vc usar
vídeo, fotos, aúdio e uma série de outros recursos. No jornal impresso isso não é possível e
ainda é preciso esperar o outro dia. Para não perder os leitores, o jornal impresso precisa se
reiventar. Se os portais já deram as matérias ontem o jornal de hj deve ir além do factual.
Deve se aprofundar no assunto e trazer aquilo que a instantaneidade do online não permite
que o jornalismo se aprofunde na apuração das informações
3. O principal material produzido pelos portais jornalísticos são as notícias. Em sua
opinião, qual a finalidade ou o objetivo da notícia ou webnotícia?
S1: Sim, notícias. O principal objetivo é informar a sociedade.
S2: Depende de quem escreve ou da política do portal. O principal objetivo seria informar,
mas como em todos os meios de comunicação, cada um tem sua política de informação.
Entretanto, mesmo com todos esses problemas, a notícia na internet ainda é a mais valiosa em
termos de atingir maior público.
S3: O objetivo do online hoje se confunde entre a real função da notícia, que deve seguir os
critérios naturais de noticiabilidade, e a necessidade de audiência, que provoca o surgimento
de conteúdos irrelevantes. Acho que no momento atual isso se divide.
S4: Informar e entreter, a concorrência na web é muito grande e o público é muito seleto,
então em um portal de notícias, apesar da segmentação de mercado, deve haver uma
quantidade X de conteúdo que possa atingir o maior número de pessoas.
S5: Não importa qual é o canal usado pelo jornalista. A notícia sempre terá a finalidade de
informar a sociedade. Essa é a função do jornalista
4. A notícia do jornal impresso costuma seguir um padrão estrutural facilmente
reconhecido pelos usuários. Essa estrutura permanece na notícia produzida
especialmente para circular na internet ou tem havido alterações?
S1: Tenho percebido muitas alterações, o texto de internet é mais simplificado e infelizmente
muitas vezes por conta da pressa chega a deixar muito a desejar.
S2: Tem havido alterações demais. A linguagem jornalística na internet tem suas
características próprias e embora conservando alguns princípios e normas do jornal impresso,
é muito diferente.
S3: A notícia da internet é direta ao ponto. O texto tem sido mais curto não só pela agilidade
na hora da produção, mas pela velocidade do internauta em querer consumir esse produto.
S4: Cada veículo de comunicação tem seu público, sua linguagem, suas caraterísticas e para
identificá-las é preciso conhecer cada um. O usuário que acessa um portal de notícias ele não
tem tanto tempo para parar e ler uma notícia quanto no impresso, por isso temos que ter
cuidado em deixar o texto mais enxuto possível, sem deixar que ele [não] seja conciso e claro
e principalmente que não seja superficial, daí algumas práticas como deixar o lead mais
completo possível se torna imprescindível.
S5: São dois canais de comunicação diferentes e com isso a estrutura muda. O jornalismo
online possibilita o uso dos multimeios que torna a notícia mais rica e possibilita ao jornalista
usar vários recursos que atendem a necessidade de diversos públicos.
5. Como é feita a escolha dos assuntos tratados nas notícias do portal? É o próprio
jornalista que realiza essa escolha ou há um direcionamento por parte da instituição
jornalística? Em caso afirmativo, como ocorre esse direcionamento?
S1: No local onde eu trabalho há um direcionamento sim por parte da coordenação do portal,
mas os repórteres tem toda liberdade de sugerirem pautas.
S2: No meu caso quem faz a minha pauta sou eu mesmo. Não trabalho para o portal, mas
apenas para meu blog. Estou apenas hospedado no portal (...), mas o conteúdo que publico
sou eu mesmo que escolho.
S3: Os próprios jornalistas se pautam. Porém, como em qualquer empresa, há o interesse do
patrão em determinados assuntos de interesse comercial do grupo jornalístico. Nas pautas, a
empresa tem cobrado da web o cuidado para se garantir todas as versões da notícia, em
tempos de correria para publicação de notícias. Há preocupação com processos judiciais.
S4: Cobrimos o factual, porém sem deixar de atender outros áreas, existe hierarquia dentro da
redação e respeitamos sempre a questão do valor notícia
S5: Todo veículo de comunicação possui sua linha editorial. Nenhum jornalista em nenhum
veículo tem liberdade para escolher as notícias. Tudo é determinado pela linha editorial,
mesmo quando o profissional se pauta, ele só pode cobrir o que o veículo permite. Alguns
veículos fazem reuniões semanais para discutir o direcionamento das pautas. Em outros as
notícias vão chegando e naquele momento o jornalista procura o editor para saber se é viável
ou não cobrir aquele assunto. Mas em nenhum existe liberdade do profissional. Ele tem que
seguir a linha editorial.
6. Você costuma se basear em outros textos que serviriam de uma fonte para uma
notícia? Faz diferença ter um texto-fonte para construir uma notícia?
S1: As vezes sim, para pegar informações.
S2: As vezes sim outras não.
S3: Pela demanda de notícias e de editorias a serem atualizadas, informações de releases são
comumente aproveitadas, em especial frases de entrevistados. Mas o texto-fonte,
especificamente no meu trabalho, não faz diferença.
S4: Acredito que todo profissional tenha tipo de textos de sua preferência, ou profissionais
que tenham como base, mas ao construir uma matéria jornalística devemos sempre nos
preocupar com a imparcialidade, neutralidade, objetividade, enfim características conhecidas
para o profissional de comunicação, creio que seja mais importante do que se basear em
outros textos
S5: Quando vou escrever a respeito de um assunto que não domino tenho que recorrer a textos
que tratam sobre aquilo. Escrevo sobre política e quando sou pautada para tratar de assuntos
como economia (ligado a política) preciso recorrer a textos da área econômica. Isso faz toda
diferença. Ajuda na qualidade da notícia passada ao leitor
7. Há tipos de fonte mais comumente buscados e selecionados para embasar as
webnotícias? Por quê?
S1: Geralmente outros sites na internet, pessoas envolvidas na pauta, etc.
S2: Sou editor de um jornal impresso e tenho meu blog, mas não faço essa distinção de fontes.
As do jornal são as mesmas que uso para o blog.
S3: Fontes oficiais são priorizadas, em especial pela preocupação da empresa em evitar
processos.
S4: Não, quanto as fontes são as oficiosas e não-oficiosas como nos outros veículos de
comunicação
S5: A principal fonte é o personagem envolvido diretamente naquela informação. Depois
acredito que são outros textos que circulam na própria internet
8. De que maneira as informações das fontes são aproveitadas no texto da webnotícia?
Como a internet auxilia no trabalho do jornalista na utilização dessas fontes?
S1: De grande proveito, quando se trata de uma pessoa especialmente, são informações
exclusivas geralmente.
S2: Ferramentas de pesquisas como google ou outras, são importantíssimas e servem para nos
embasar sobre um assunto em que tratamos.
S3: A internet agiliza as informações enviadas por qualquer fonte. Isso proporciona que desde
textos a até vídeos sejam aproveitados.
S4: O encurtamento das entrevistas e a facilidade, pois as entrevistas podem ser feitas online,
através de redes sociais e email
S5: Com base na linha editoria do meio de comunicação o jornalista seleciona as fontes e as
informações repassadas por elas.
9. Um único texto-fonte pode constituir uma notícia? Em que condições?
S1: Nem sempre, no nosso dia a dia procuramos ampliar essa apuração.
S2: Pode sim. Basta que o jornalista saiba que ele é de interesse do leitor.
S3: Em alguns casos sim, em se tratando de informações oficiais, em especial de prestação de
serviço.
S4: Sim, quando um juiz vai divulgar a sentença de um acusado de homicídio que já foi
condenado, por exemplo.
S5: Seria preciso confiar muito em uma fonte para construir uma matéria com base é um
único texto-fonte. Se um jornalista fizer isso deve ter uma relação muito boa com a fonte. Isso
não seria correto. O jornalista deve ouvir todos os lados, os envolvidos na notícia. Quando se
constroi uma notícia com base em uma única fonte o profissional limita a informação e o
leitor vai perceber e irá buscar mais informações em outras fontes
10. O texto-fonte às vezes aparece na mesma página da webnotícia. Por exemplo, uma
notícia trata de um depoimento dado por uma testemunha e o depoimento é reproduzido
na íntegra na mesma página da notícia. Qual a finalidade disso? Que diferença teria se
esse texto-fonte não fosse publicado?
S1: O depoimento serve para detalhar mais ainda a notícia, dar mais credibilidade a mesma.
S2: Ele traz mais veracidade ao fato. É a testemunha declarando. o que isenta o jornalista.
S3: Alguns veículos optam por colocar o depoimento em outra página na tentativa de gerar
cliques que em tese dão audiência. Mas manter tudo na mesma página aumenta o tempo de
permanência do internauta na mesma, o que também rende bons índices em termos
comerciais.
S4: Para a comprovação dos dados
S5: Acredito que se o depoimento for reproduzido na íntegra o leitor terá mais informação
11. Faça um relato, com base na sua experiência diária, sobre o processo de produção de
uma notícia a ser publicada no portal jornalístico que você trabalha.
S1: No meu caso, especificamente que lido com política regional, sempre buscamos conversar
com as pessoas envolvidas via telefone ou até mesmo em um encontro pessoalmente. Usamos
como fonte ainda órgãos que trabalham na área como o TJ e o TRE. Em seguida vem a parte
de construção do texto e postagem.
S2: Jornalista tem que está atenado com os fatos, ligado nos acontecimentos, entretanto o
mais importante é saber o que é notícia. O que é de interesse dos leitores. Às vezes uma
conversa sem pretensões com um amigo pode revelar uma pauta fantástica e de grande
interesse dos leitores. No meu caso, tenho um banco de informações com várias sugestões de
matéria. Dou preferência por aquelas que entendo ser de maior interesse público. Após checa
todas as informações sobre a pauta elaboro a notícia.
S3: Como todos os repórteres do veículo, faço rondas diárias para qualquer editoria e analiso
as denúncias recebidas através de email, mensagem do Whatsapp e outras ferramentas. Em
caso de fato urgente, como incêndio ou acidente, o fato é noticiado de imediato. Notícias com
denúncias demandam investigação, in loco ou não, e procura pelo responsável pelo problema
relatado. A postagem dos repórteres é direta, sem edição. A coordenadora normalmente
orienta o enfoque e só altera o titulo sugerido.
S4: Bem, a rotina em um portal de notícias é bem com jornalistas que chegam às 6h da manhã
e já começamos a produzir conteúdo, pois temos um pico de acessos muito grande nas
primeiras horas do dia. Como trabalho em um sistema integrado de comunicação temos a
colaboração dos repórteres da TV, jornal e rádio que passam flashs da rua e ainda
acompanhamos os programas da casa para cobrir as entrevistas e matérias que são veiculadas,
além de fazer coberturas em tempo real de eventos dos mais variados assuntos e temas, além
de fazer uma filtragem do que acontece no interior do Piauí, com o intuito de levar sempre a
melhor informação para nosso leitor. Além da edição e reprodução das principais notícias
nacionais e internacionais.
S5: Na minha rotina jornalística recebo uma notícia por meio de uma font que pode ser uma
pessoa (que me liga, manda e-mail, whatsapp, etc), vou conferir com os envolvidos naquela
informação se procede. Se for verdade informo meu editor e pergunto se o meio de
comunicação no qual trabalho tem interesse naquela informação. Se a resposta for positiva.
Vou apurar mais a fundo. Marco entrevistas, converso com pessoas que possam me ajudar por
telefone, e-mail, whatsapp ou outros meios. Depois de apurada escrevo.
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o processamento da informação na webnotícia