Maquiavel escreveu O príncipe em 1513, em
sua propriedade nos arredores de Florença, na região
italiana da Toscana. Naquele ano, depois da dissolução
do governo da cidade e do retorno da família Médici
ao poder, Maquiavel foi preso, acusado de conspiração.
Perdoado pelo papa Leão X, ele se retirou da vida
pública e passou a escrever suas grandes obras. O
príncipe foi publicado postumamente, em 1532.
O contexto histórico em que Maquiavel escrevia
era de grande instabilidade política. O exercício do
poder e sua manutenção já não dependiam apenas da
hereditariedade e dos laços de sangue. Por isso, o autor
escreve um tratado sobre a conduta do príncipe, sobre
as melhores formas de o soberano tomar o poder e
conservá-lo.
O autor vai colher na História variados exemplos
para comprovar seus pontos de vista, a começar pela
conduta de alguns de seus contemporâneos, como
César Borgia, Francesco Sforza e o papa Júlio II. Mas
Maquiavel recorre também ao conhecimento de outras
épocas, como a Antiguidade e a Idade Média, e à sua
vastíssima erudição sobre os romanos, os gregos e outros
povos, de diversas regiões.
Em estilo direto, límpido e por vezes levemente
irônico, Maquiavel recomenda ao soberano cultivar
certas qualidades - ou, se não for possível, que pelo
menos aparente ter virtudes, pois ostentá-las é útil
para manter o poder. As cinco principais qualidades de
caráter aconselhadas ao soberano dizem respeito ao seu
espírito: ser piedoso, fiel, humano, íntegro e religioso.
Ainda assim, reconhece o autor, para preservar o Estado
muitas vezes é necessário operar contra a fé, contra a
caridade, contra a humanidade, contra a religião.
Algumas concepções de Maquiavel parecem
paradoxais. É o caso também das ideias sobre a conduta
do príncipe em relação a seus súditos e ao povo. O
autor chama a atenção para a necessidade de oprimir
os primeiros, mas também reafirma a necessidade
1
de ser querido pelo povo e protegê-lo. Apesar de
contraditórias, suas ideias se harmonizam quando se
tem em vista que os dois conceitos mais importantes do
livro são “fortuna” e “virtude”.
Segundo o autor, um bom príncipe é aquele que
sabe aproveitar os momentos de fortuna, isto é, a sorte
e os momentos propícios à ação. Não se trata, porém,
unicamente de acaso ou de oportunidade. É necessário
também virtude, ou seja, caráter e habilidade. Como
diz o próprio Maquiavel, ao Príncipe é necessário
“que ele tenha um espírito disposto a voltar-se para
onde os ventos da fortuna e a variação das coisas lhe
ordenarem; e [...] não se afastar do bem, se possível,
mas saber entrar no mal, se necessário”.
1. Qual é a principal distinção que Maquiavel faz
sobre o caráter dos principados? No que consiste a
fortuna e a virtude, características que determinam o
sucesso de um príncipe na tomada e manutenção do
poder?
Maquiavel distingue os principados em hereditários,
nos quais a linhagem familiar e de sangue determina
a sucessão do poder, e em principados novos, isto
é, conquistados por armas próprias ou alheias. Na
prática da guerra e no exercício do poder, os príncipes
são guiados pela fortuna, ou seja, pela sorte e pelas
circunstâncias, ou por virtude, isto é, por seus méritos,
valores e qualidades. (capítulo I)
2. Por que, segundo Maquiavel, é mais fácil manter
o poder nos Estados herdados e sujeitos ao sangue
de seus príncipes do que nos Estados novos? Por que
nestes é inevitável ao príncipe oprimir seus súditos?
Porque nos principados em que a sucessão do poder é
hereditária basta não infringir a ordem sucessória da
estirpe e saber lidar com os imprevistos. O soberano
2
natural, segundo Maquiavel, é aceito por seus súditos
mais facilmente. Uma vez guindado ao poder, o príncipe
que assumiu graças aos seus laços de sangue se manterá
soberano com mais tranquilidade, a menos que uma
força maior o destitua. A continuidade do poder também
tende a apagar as demandas por inovações e mudanças,
as quais geram intranquilidade. Já os principados novos
são mais instáveis, pois o príncipe que tomou o poder
será imediatamente avaliado pelos novos súditos, que
acreditam poder melhorar de condição se pegarem
novamente em armas contra o soberano. O príncipe,
assim, precisará submeter os novos seguidores. Ao
mesmo tempo, o príncipe não pode apenas oprimi-los,
pois é preciso agradá-los e honrar a dívida para com os
provincianos que dominou. (capítulos II e III)
3. Quais as principais dificuldades de um soberano
que conquista ou anexa outro Estado? Quais são
as condições que determinam o sucesso de um
governante de um principado misto?
As principais dificuldades são os contrastes entre
as línguas, os costumes e as leis entre o principado
original e o novo. Por isso, é preciso grande habilidade
para manter um principado misto. Um dos meios mais
eficazes para conservar o poder sobre o novo principado
é que o conquistador vá habitar as terras anexadas,
tornando mais seguro e mais durável seu domínio.
A presença do soberano evita que seus prepostos ou
representantes espoliem a província e permite que
os súditos recorram diretamente ao governante. Para
o autor, é preciso extinguir a linhagem de sangue do
príncipe anterior e não alterar as leis vigentes nem
o regime de impostos. Assim, em pouco tempo, o
principado novo será totalmente incorporado ao antigo.
(capítulo III)
3
4. Apesar de ter se pautado pela ponderação e pelo
diálogo em sua trajetória intelectual e política,
Maquiavel tem uma visão contundente a respeito da
guerra. Segundo ele, por que não é possível evitar a
guerra?
Maquiavel diz que o desejo de conquista é algo natural
e que a guerra não se evita, apenas se adia em favor de
outrem. Portanto, já que ela é inevitável, e postergála só traz vantagens ao adversário, ele recomenda
que, a fim de evitar um conflito prejudicial, jamais
se deve deixar que um distúrbio se alastre. É um erro
empreender uma guerra quando ainda não se tem força
para tanto. (capítulo III)
Mas o príncipe não deve ter outro objetivo nem outro
pensamento que não a guerra, pois ela é a arte de quem
comanda, uma atitude esperada e inerente ao exercício
do poder. É por ela que se mantêm os que já nasceram
príncipes, mas também chegam ao poder os homens de
fortuna pessoal. (capítulo XV)
O autor recomenda ainda que o príncipe cultive a fama
de cruel, pois isso ajuda a manter o exército unido e
disposto ao combate. (capítulo XVII)
A guerra, além disso, traz prestígio e não há nada
que faça um príncipe mais estimado que empreender
grandes campanhas militares para legar memoráveis
exemplos de si mesmo. (capítulo XXI)
5. Maquiavel expõe dois modos de passar de homem
privado a príncipe, sem que se deva atribuir tudo à
fortuna ou à virtude. Quais são eles? Explique.
Há casos em que se ascende ao principado por meios
“nefandos e celerados” e casos em que um homem
comum se torna príncipe de sua pátria “graças ao favor
de outros concidadãos”. No primeiro caso, incluemse os soberanos que tomaram o poder por atitudes
criminosas, como massacres, assassinatos, traições,
crueldades e atrocidades. No segundo caso, por favor de
4
seus concidadãos, o soberano constitui um “principado
civil”. Para chegar a ele, não é preciso virtude nem
fortuna, mas astúcia e apoio popular ou dos poderosos.
Segundo Maquiavel, esta é uma característica de todas
as cidades assistir a tendências opostas: de um lado,
o povo, que não quer ser comandado nem oprimido
pelos poderosos; de outro os poderosos, que querem
comandar e oprimir o povo. Segundo o autor, esses
dois desejos antagônicos trazem uma das seguintes
consequências: principado, liberdade ou desordem.
(capítulos VIII e IX).
6. Apesar de não se mostrar favorável ao modo de
obter o poder por meios criminosos, o autor tece
considerações sobre os procedimentos para manter-se
no poder, mesmo nesses casos. O que ele recomenda
a um príncipe usurpador?
Ao tomar um Estado, o príncipe usurpador deve praticar
a violência de um só golpe, para não ter de renovar as
atitudes de opressão. Com isso, tranquiliza os súditos e
os seduz com benefícios. Para o autor, as injúrias devem
ser executadas todas de uma só vez, com brevidade,
para que “ofendam menos ao paladar”. Já os benefícios
devem ser feitos aos poucos, “para que sejam mais bem
saboreados”. (capítulo VIII)
7. Por que o autor evita debruçar-se sobre os
chamados principados eclesiásticos?
Porque, segundo ele, esses principados são sustentados
por leis antigas, radicadas na religião. São tão poderosos
que conseguem conservar seus príncipes no poder
não importa como estes se comportem ou vivam. São
também governados por razões superiores, “que a
mente humana não alcança”. Uma vez que são louvados
e mantidos por Deus, para Maquiavel discorrer sobre
eles seria “presunçoso” e “temerário”. (capítulo XI)
5
8. Nos capítulos XII, XIII e XIV, o autor chama a
atenção mais uma vez para a importância da guerra e
descreve os principais tipos de tropa de que se pode
dispor. Quais são elas? Segundo o autor, é preferível
dispor de armas próprias ou mercenárias?
As armas com as quais um príncipe defende seu Estado
ou são próprias, ou são mercenárias e auxiliares, ou
uma mistura de ambas. As mercenárias e auxiliares
são aquelas que combatem não por lealdade, mas
por interesse ou pelo soldo, isto é, pelo pagamento.
As armas auxiliares - igualmente ruins e até mais
perigosas, segundo o autor - são aquelas solicitadas
a outro poderoso para que o defendam. As armas
próprias são aquelas compostas de súditos, de cidadãos
ou de vassalos. Para o autor, as tropas mercenárias
são inúteis e perigosas, pois desunidas, ambiciosas,
indisciplinadas e infiéis. Não trazem segurança nem
estabilidade. Com essas armas, “quanto mais se adia
o combate, mais se adia a derrota”. Por isso, o autor
diz que é preferível dispor de armas próprias, pois sem
elas nenhum principado estará seguro; ao contrário, fica
inteiramente à mercê da fortuna.
9. O que o autor sugere ao príncipe nos tempos de
paz?
Recomenda nunca se manter ocioso. Sugere conhecer
bem o próprio território, o que permite aprender a
localizar o inimigo, montar acampamentos, conduzir
os exércitos, organizar as expedições e, em situação
vantajosa, assediar outras cidades. Aproveitando
esse período com engenho, ele irá agir melhor na
adversidade e, quando a fortuna mudar, estará
preparado para resistir. Recomenda, ainda, a prática
da caça e o exercício da mente: ler obras de história e
nelas examinar as ações dos homens ilustres, ver como
6
eles conduziram as guerras e analisar as causas de suas
vitórias e derrotas. (capítulo XIV)
10. Como a condição humana não permite, muitas
vezes, que o príncipe tenha todas as qualidades
necessárias ao exercício da função, o autor
recomenda evitar certos vícios que coloquem em
risco o governo. Quais são esses vícios?
Alguns dos principais vícios ou defeitos que ameaçam o
príncipe são: ser miseráveis ou avaros, rapaces, cruéis,
desleais, efeminados e pusilânimes, soberbos, lascivos,
inflexíveis e incrédulos. (capítulo XV)
11. O que recomenda o autor a respeito da cobrança
de impostos e da condição de liberal?
Maquiavel considera vantajoso ao príncipe ser liberal.
Mas diz que, se essa prática tiver objetivo apenas
de alcançar reputação, pode causar transtornos,
pois a liberalidade excessiva faz o príncipe ser
desprezado ou odiado, algo que ele deve evitar acima
de tudo. Segundo o autor, para manter a fama de
liberal é preciso lançar mão de todo “fausto” (luxo)
possível. Isso obriga ao príncipe consumir muitos
recursos, sobrecarregando a população de tributos e
arrecadações. Assim, a liberalidade em excesso irá
deixar os súditos cada vez mais pobres. Por isso, se for
prudente, ele não deverá se importar com a fama de
avarento, em benefício dos cidadãos. (capítulo XVI)
12. Para Maquiavel, é preferível ao príncipe ser
amado ou ser temido?
Segundo o autor, todos os soberanos gostariam de ser
amados e temidos. Porém, é difícil conciliar as duas
coisas. Assim, é mais seguro ser temido que amado,
pois o vínculo de amor entre os homens é frágil, já que
7
mantido por reconhecimento e passível de ser rompido
pelo egoísmo. Nos momentos favoráveis, o príncipe age
com benevolência e os súditos tendem a amá-lo. Nos
momentos de dificuldade, porém, é comum aos súditos
passar à revolta. O temor, assim, é mantido com mais
segurança, por conta do medo que os homens têm da
punição. É preciso, porém, inspirar temor sem suscitar o
ódio. (capítulo XVII)
13. O que o autor recomenda para que o príncipe não
desperte o ódio dos cidadãos?
O autor recomenda não cobiçar as mulheres nem os
bens de seus concidadãos. Especialmente evitar a
cobiça dos bens, pois os homens “se esquecem com
maior rapidez da morte de um pai que da perda do
patrimônio”. (capítulo XVII)
14. Segundo Maquiavel, os homens são
essencialmente bons ou maus?
Para o autor, os homens são essencialmente maus. Em
geral, são ingratos, volúveis, fingidos, dissimulados,
avessos ao perigo e gananciosos. (capítulo XVII)
15. Por que o príncipe precisa se valer do animal e do
homem que há dentro dele? A quais animais o autor
se refere metaforicamente para exprimir as atitudes
de astúcia e força?
Segundo Maquiavel, existem duas “matrizes de
combate”: o combate por meio das leis, próprias dos
homens; e o combate pelo uso da força, própria dos
animais. Como nem sempre a primeira matriz basta, é
preciso recorrer à segunda. O autor associa a astúcia à
raposa e a força ao leão. (capítulo XVIII)
8
16. No capítulo XXI, Maquiavel recomenda algumas
atitudes do príncipe para com o cotidiano da cidade
e a vida civil e econômica. O que o soberano deve
encorajar na vida de seus súditos?
O príncipe deve oferecer hospitalidade aos homens
virtuosos e aos artistas. Deve encorajar os cidadãos a
exercer seus ofícios no comércio, na agricultura e em
outras atividades, assegurando o direito à propriedade
e incentivando a abertura de novos negócios, sem que
os impostos sejam um empecilho à atividade comercial.
Deve promover festas e espetáculos populares
e periodicamente se reunir com a comunidade,
conhecendo as corporações e os bairros, dando
exemplo de humanidade e munificência (generosidade),
mantendo, porém, a majestade de seu posto.
17. No Capítulo XXV, Maquiavel discorre sobre a
relação entre a fortuna e o livre-arbítrio, ou seja, a
capacidade humana de reger o próprio destino. A que
o autor compara a fortuna?
O autor diz que muitos têm a convicção de que o mundo
é governado apenas pela fortuna e por Deus, sem
que os homens possam mudá-lo. Por isso, as pessoas
acham que não vale a pena lutar contra o curso das
coisas, deixando-se conduzir pela sorte e pelo destino.
Entretanto, diz Maquiavel que a fortuna determina
apenas parte das ações humanas e que outra parte é
governada pelo livre-arbítrio. O autor compara a fortuna
a um rio caudaloso e devastador, que com suas águas
enfurecidas alaga planícies, derruba árvores e faz ruir
construções. Com isso, diz que a fortuna demonstra
toda sua potência, se a virtude não lhe colocar freios.
Portanto, o príncipe não pode se apoiar inteiro na
fortuna, pois ele se arruinará tão logo as circunstâncias
mudem. Compara, ainda, a fortuna à mulher. Na
condição de mulher, segundo Maquiavel, a fortuna é
favorável aos jovens, que por serem menos respeitosos,
9
mais ferozes e mais audaciosos a comandam mais
facilmente. Para dominar a fortuna, portanto, é melhor
ser impetuoso que prudente.
Leituras recomendadas
Biografia de Nicolau Maquiavel. Roberto Ridolfi. Musa
Editora, 2008.
Maquiavel passo a passo. Newton Bignotto. Jorge Zahar
Editora, 2003.
Maquiavel. Coleção Os Pensadores. Trad. de Lívio Xavier.
Editora Nova Cultural, 2003.
Maquiavel no Inferno. Sebastian de Grazia. Companhia
das Letras, 1993.
10
Download

Guia de Leitura em pdf