ANO 1 EDIÇÃO 3 ABR 2014 UNIVERSIDADE CORPORATIVA Artigo Nascimento das Universidades Corporativas Carreira em foco Não se demita antes de ser contratado EDITORIAL SUMÁRIO EXPEDIENTE A revista M&M Desenvolvimento Humano é uma publicação virtual trimestral da Ricardo Xavier Recursos Humanos que possui como objetivo compartilhar experiências da comunidade de RH. O conteúdo desta revista é oficial e, portanto, uma confiável fonte de informação, consulta e esclarecimentos de dúvidas sobre Gestão de Pessoas. Diretoria João de Queiroz Xavier Márcia de Souza Almeida Projeto Editorial João de Queiroz Xavier Entrevista M&M Desenvolvimento Humano Capa e Diagramação Ana Paula Cruz Projeto Gráfico Ana Paula Cruz Revisão Simone Santos Monteiro Imagens adicionais Keydisc e Shutterstock 03 04 08 16 26 28 Prezado leitor, EDITORIAL Exemplar número 3 Trabalhando com o conhecimento e com pessoas notáveis. ARTIGO Nascimento das Universidades Corporativas O ambiente propício à germinação. ENTREVISTA Ide, ensinai e curai: Aprendendo com o Hospital São Rafael Entrevista com Litza Gusmão e Vanessa Santiago ACADEMIA Educação Corporativa Conheça a história das Universidades Corporativas no Brasil. CARREIRA EM FOCO Não se demita antes de ser contratado Como fica sua ansiedade? Gostaria de iniciar esse editorial com meu sentimento em relação à nossa revista. Cada edição é um novo desafio, com muito trabalho pela frente e - à medida que avançamos com o assunto, vou me empolgando e ampliando meu conhecimento -. Ter a oportunidade de trabalhar com o conhecimento é algo muito gratificante. Outra grande vantagem é a oportunidade de conhecer pessoas distintas especialistas nos assuntos e de delicioso trato. Agora sim, volto a essa edição. Tratamos do tema Universidade Corporativa e, assim como os outros temas, não conseguimos esgotá-lo. Inicio com o artigo Nascimento das Universidades Corporativas onde ouso contextualizar o ambiente fértil à germinação das Universidades Corporativas. A sessão entrevista está muito boa. A coordenadora da Universidade Corporativa do Hospital São Rafael, Litza Gusmão, trouxe a linda e – para não ficar somente na poesia – competente experiência do Hospital. Para deixá-los com gostinho especial, adianto a Missão do grupo: “Ide, ensinai e curai”. Imaginem como acontece uma Universidade fundamentada numa empresa com uma missão como essa! E digo mais, trata-se de um hospital, ou seja, onde conhecimento, aprendizado, ciência e tecnologia apresentam-se como condição essencial de sucesso. Já na sessão academia, nossas parceiras, Carolina e Eliana, proporcionam uma definição e contextualização do tema e ao final, compartilham uma experiência prática – vivenciada na década de 90, o que confere alto grau de pioneirismo. Ao final, Márcia, nossa Gerente, oferece uma boa orientação sobre como não ser demitido antes mesmo de ser contratado. Espero que vocês se divirtam com a leitura! LEIA E REFLITA João de Queiroz Xavier Persistência versus Mudança Uma singela história para nos colocar a pensar! Lembrando que, nosso canal de comunicação, é através do e-mail [email protected] REVISTA M&M DESENVOLVIMENTO HUMANO 3 ARTIGO “ As escolas já não vinham alinhadas às necessidades das empresas. “ Nascimento das Universidades Corporativas Se por um lado a expansão das instituições de ensino contribui positivamente para o equilíbrio entre oferta e demanda de profissionais qualificados, por outro, exerce uma pressão nos preços dos cursos e, como consequência, perda da qualidade. As escolas já não vinham alinhadas às necessidades das empresas – por diversos motivos e que no caso não é pauta deste artigo – e agora, precisam reduzir custos, lançando mão de cortes com professores, redução da carga horária, de pesquisas, de laboratórios, e de recursos didáticos. Universidades Corporativas: fonte de vantagem competitiva. Por João de Queiroz Xavier N ão é de hoje que se discute a falta de mão de obra qualificada no Brasil. Para alguns especialistas já atingimos o pleno emprego – quando toda a mão de obra qualificada encontra-se empregada. O problema começa com o acesso da população à formação profissional, passa pela qualidade do ensino técnico e superior e termina na complexidade das organizações – suas tecnologias e seus mercados. Em relação ao acesso das pessoas à formação, vivemos um período de grande expansão de instituições de ensino e suas ofertas de cursos em todos os níveis: técnico, tecnólogo, bacharelado, especialização, MBA. Em consequência da maior oferta e da competitividade os preços se tornaram mais acessíveis. 4 REVISTA M&M DESENVOLVIMENTO HUMANO REVISTA M&M DESENVOLVIMENTO HUMANO 5 ARTIGO “ Isto faz com que o descolamento entre as competências desejadas pelas organizações e as competências propiciadas pelas escolas seja cada vez maior. “ 6 REVISTA M&M DESENVOLVIMENTO HUMANO “ “ As empresas estão se tornando cada vez mais complexas. As empresas estão se tornando cada vez mais complexas. Seus mercados se globalizaram, se organizaram em redes – cada qual buscando sua especialidade - produtos, serviços e informações trafegam com velocidades cada vez maiores. A tecnologia avança de maneira exponencial. Isto faz com que o descolamento entre as competências desejadas pelas organizações e as competências propiciadas pelas escolas seja cada vez maior. Sem falar nas competências gerenciais que dificilmente são apreendidas na teoria - sem exercê-las na prática. Frente a esse cenário, as empresas começaram a desenvolver suas próprias Universidades, buscando assim ampliar as competências e o conhecimento de seus funcionários. Além disso, elas contribuem para a imagem da empresa, tanto interna quanto externamente, promovendo maior atratividade e engajamento de seus empregados, clientes e fornecedores. A área de Treinamento & Desenvolvimento, apoiada em um departamento de Recursos Humanos estratégico, ganha magnitude e “transforma-se” em Universidade Corporativa, onde o conhecimento pode ser transmitido e, mais do que isso, pode ser gerado. Não resta dúvida de que esse conhecimento, essas habilidades e as competências de seus funcionários são extraordinária fonte de vantagem competitiva. REVISTA M&M DESENVOLVIMENTO HUMANO 7 Ide, ensinai e curai: Aprendendo com o Hospital São Rafael Leiam a entrevista realizada com as competentes profissionais, Litza Gusmão e Vanessa Santiago, e conheçam um grande exemplo de como colocar em prática uma bela missão. Por M&M Desenvolvimento Humano 1 M&M Desenvolvimento Humano: Como e quando nasceu a Universidade Corporativa do Hospital São Rafael? Litza e Vanessa: A Universidade Corporativa (UC) do Hospital São Rafael começou a ser construída em outubro de 2011, mas iniciou suas atividades em 2012. Ela surgiu como consequência natural do desenvolvimento do Hospital São Rafael que tem como Missão o mandamento evangélico “Ide, Ensinai e Curai”, e que pauta suas ações no pressuposto de que um hospital não pode ser eficaz e moderno sem utilizar ensino e pesquisa associados à assistência. Há 24 anos o Hospital São Rafael vem investindo na promoção de ensino de qualidade através de seus Programas de Residência Médica (atualmente em 24 especialidades da medicina); estágios de cursos técnicos e cursos de graduação; Curso Técnico de Enfermagem (atra- 8 REVISTA M&M DESENVOLVIMENTO HUMANO vés da Escola Técnica do Hospital São Rafael); cursos ofertados com ou sem a parceria com outras instituições de ensino (técnico e superior), como é o caso da UFBA, EBMSP, UCSAL, UNIME, UNIFACS, SENAC; cursos em parceria com empresas privadas; cursos certificados pela AHA – American Heart Association (como o ACLS – Advanced Cardiac Life Suport e BLS – Basic Life Suport); cursos próprios como, por exemplo, Curso de Odontologia Hospitalar com ênfase em Laserterapia. 2 M&M Desenvolvimento Humano: Qual a missão e os objetivos da Universidade Corporativa do Hospital São Rafael? Litza e Vanessa: A missão da UC do Hospital São Rafael é “Promover a capacitação e o aperfeiçoamento de profissionais das áreas: assistencial, administrativa e operacional da Rede Monte Tabor, incluindo seus parceiros e fornecedores, tendo como horizonte a educação continuada de excelência que garanta a qualidade da saúde em todas as suas variantes”. Os objetivos da UC do Hospital São Rafael são: • Promover a integração das políticas de ensino, pesquisa e assistência do HSR; “ ... um hospital não pode ser eficaz e moderno sem utilizar ensino e pesquisa associados à assistência. “ ENTREVISTA • Contribuir para o mapeamento e a gestão de competências na organização; • Contribuir para a gestão do conhecimento e a tomada de decisão pela alta administração do HSR; • Articular as diversas modalidades de formação e educação continuada, normatizando processos e fornecendo subsídios para a progressão funcional baseada em competências; • Estimular os colaboradores à qualificação profissional; • Induzir os colaboradores ao desenvolvimento de itinerários próprios de formação e aperfeiçoamento; • Certificar profissionais a partir de critérios de excelência; • Desenvolver programas próprios de formação ou através de entidades conveniadas, quando necessário; • Atender aos objetivos estratégicos definidos pelo HSR. REVISTA M&M DESENVOLVIMENTO HUMANO 9 ENTREVISTA M&M Desenvolvimento Humano: Como acontece o alinhamento entre a Universidade Corporativa e os objetivos do Hospital São Rafael? Litza e Vanessa: Os objetivos da UC e do Hospital São Rafael são alinhados de acordo com o planejamento estratégico do Hospital. Além disso, a UC é diretamente subordinada ao Diretor Geral do HSR, que é o principal patrocinador dos projetos idealizados e implantados pela UC. Além do apoio e alinhamento com a Diretoria Geral do HSR, os demais diretores do HSR e sua mantenedora (o Monte Tabor) também apoiam e patrocinam projetos que consideram importantes para a organização. Arquivo do Hospital São Rafael Desde o início de suas atividades, há cerca de dois anos, a UC do Hospital São Rafael já conseguiu realizar entre 2012 e 2013 com ou sem parceria com outras instituições, mais de 25 cursos/ programas/ eventos científicos e capacitar cerca de 1.900 pessoas (entre colaboradores e público externo). 10 REVISTA M&M DESENVOLVIMENTO HUMANO 4 M&M Desenvolvimento Humano: Como funciona a certificação dos alunos nos cursos? Litza e Vanessa: Os cursos ofertados pela UC quer sejam próprios ou através de entidades conveniadas (públicas ou privadas, de ensino ou não), são personalizados de acordo com as necessidades do Hospital São Rafael ou com as oportunidades do mercado. Litza e Vanessa: A UC não é uma universidade formal, credenciada pelo MEC. Assim, os certificados emitidos pela UC são reconhecidos no mercado em função da qualidade dos serviços prestados pelo HSR e em função da qualidade dos profissionais capacitados nos cursos há anos ofertados pelo Hospital. A UC compartilha com a Coordenação de Ensino (responsável pelos Programas de Residência Médica, Cursos de Qualificação Médica e Estágios) uma Secretaria Acadêmica que tem o cadastro de todos os cursos ministrados e acompanhados pela UC, de forma que é possível certificar àqueles que cursaram e foram aprovados nos cursos aqui ministrados. Uma exceção cabe aos cursos oferecidos pela Escola Técnica de Enfermagem do Hospital São Rafael que, em parceria com a UC, oferece o curso Técnico de Enfermagem em cumprimento à legislação estadual de educação, com a certificação reconhecida pela Secretaria Estadual de Educação do Estado da Bahia. Além disso, esta Escola Técnica do HSR também possui parceria com o SENAC, de forma que o HSR é o campo de estágio para os alunos do Curso Técnico de Enfermagem do SENAC, e o campo de estágio de outros cursos ofertados pelo SENAC, e aque- Os conteudistas dos cursos construídos são colaboradores (muitas vezes gestores) dos mais diversos setores do Hospital. Eles - detêm o conhecimento técnico necessário para a realização dos cursos ou programas ofertados. São exemplos de cursos a serem realizados neste ano de 2014: • ACLS – Advanced Cardiac Life Suport e BLS – Basic Life Suport (certificados pela AHA – American Heart Association); • Odontologia Hospitalar com ênfase em Laserterapia; • Formação de Facilitadores para Gestão da Qualidade; • Citometria de Fluxo; • Workshop de Ventilação Mecânica; • Workshop de Punção Venosa Guiada por Ultrassom; • Atualização em Terapia Nutricional, dentre outros. “ 5 M&M Desenvolvimento Humano: Quais os principais cursos, programas ou temas ministrados? Os objetivos da UC e do Hospital São Rafael são alinhados de acordo com o planejamento estratégico do Hospital. Além disso, a UC é diretamente subordinada ao Diretor Geral. “ 3 les contidos no PRONATEC - Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego. 6 M&M Desenvolvimento Humano: Como surgem os temas? Como nascem os programas? Litza e Vanessa: As demandas de cursos e programas a serem desenvolvidos pela UC partem da própria diretoria do Hospital, em função dos objetivos elencados no planejamento estratégico da organização, assim como surgem do levantamento anual das necessidades de treinamento REVISTA M&M DESENVOLVIMENTO HUMANO 11 ENTREVISTA 7 e desenvolvimento (quando a UC e o RH trabalham para definir quais desses treinamentos e cursos solicitados competem à UC e ao setor de T&D), ou surgem de demandas dos diversos setores do Hospital que são identificadas espontaneamente ao longo do ano em função de avanços tecnológicos, novas metodologias etc. É muito comum gestores de setores (assistenciais ou administrativos) procurarem a UC com uma demanda e, em consequência, estes gestores sentam e formatam com a UC o curso ou programa a ser ministrado (para o público interno e/ou externo), e daí partem para a operacionalização do curso ou programa. Por outro lado, também é comum outra instituição nos procurar em função de uma demanda própria. Um exemplo é a parceria com a EBMSP 12 REVISTA M&M DESENVOLVIMENTO HUMANO – Escola Baiana de Medicina e Saúde Pública que firmou parceria com o HSR para construção conjunta e oferta no mercado do curso de “Especialização em Análises Clínicas”, onde colaboradores do HSR atuarão como professores e supervisores de estágio dos alunos deste curso ou no caso da parceria com a AHA – American Heart Association onde nós buscamos a AHA para nos credenciarmos como Centro de Treinamento Internacional da mesma. Para isso capacitamos os instrutores e investimos na compra dos manequins e equipamentos necessários para que a certificação fosse obtida. A partir disso pudemos ofertar os cursos de ACLS e BLS (e futuramente de PALS), tanto para o público interno (com o patrocínio de bolsas parciais ou integrais) como para o público externo. 8 M&M Desenvolvimento Humano: Como a Universidade Corporativa contribui para com os demais departamentos, como o Treinamento e Desenvolvimento, por exemplo? Litza e Vanessa: ���������������������� A UC já nasceu em parceria com o Recursos Humanos que possui um núcleo de Treinamento e Desenvolvimento (T&D). Enquanto a UC foca nos cursos e programas alinhados à estratégia do Hospital, T&D foca nos treinamentos comportamentais e naqueles voltados para capacitação técnica para o Arquivo do Hospital São Rafael Litza e Vanessa: Quando o curso é proposto por um colaborador ou gestor do HSR, o coordenador do curso define o corpo de instrutores de seu curso. Nós não possuímos um quadro préestabelecido de educadores. Caso não haja na casa um instrutor capacitado e habilitado para ministrar o curso ou iniciamos pela capacitação externa de um ou mais futuros instrutores ou contratamos diretamente um instrutor para ministrar o curso a ser ofertado. A UC conta apenas com a Coordenadora e uma Assistente de Secretaria Acadêmica em seu quadro funcional. “ A UC do Hospital São Rafael já conseguiu realizar entre 2012 e 2013 com ou sem parceria com outras instituições, mais de 25 cursos / programas / eventos científicos e capacitar cerca de 1.900 pessoas (entre colaboradores e público externo). “ Arquivo do Hospital São Rafael M&M Desenvolvimento Humano: Como é feita a formação da equipe de professores, instrutores ou educadores da Universidade Corporativa do Hospital São Rafael? REVISTA M&M DESENVOLVIMENTO HUMANO 13 ENTREVISTA exercício da função do colaborador. Anteriormente mencionamos a parceria com a Escola Técnica de Enfermagem do Hospital São Rafael, que nos tem permitido formar (na teoria e na prática) técnicos de enfermagem e capacitar trabalhadores por meio de cursos de formação inicial e continuada ou qualificação profissional. Estes profissionais muitas vezes são absorvidos no quadro funcional do HSR. do tema com redução de custos e/ ou aumento de receita, ou os dois; • Que o trabalho tenha potencial para ser aplicável, de maneira prática, em curto prazo (em até 1 ano). Dentre os objetivos estratégicos da organização podemos citar: “Garantir profissionais competentes e engajados” e “Garantir a sustentabilidade financeira da organização”. 9 Litza e Vanessa: Nos programas contratados externamente, buscamos alinhar o conteúdo a ser ofertado às nossas necessidades e aos nossos objetivos. Desde o ano de 2013, por exemplo, contratamos a FGV para ministrar aos 40 gestores e líderes, o curso de pós-graduação Gestão Executiva em Saúde que ampliará a capacitação deste público estratégico para o Hospital. Além disso, os TCC – Trabalhos de Conclusão de Curso terão que seguir as premissas estabelecidas pela diretoria do HSR: • Os temas abordados devem ter um link com nosso planejamento estratégico; • Todos os trabalhos devem ter um capítulo que estabeleça relação 14 REVISTA M&M DESENVOLVIMENTO HUMANO Fornecida pelas autoras M&M Desenvolvimento Humano: Nos programas contratados externamente, como é feita a aproximação para a realidade do Hospital São Rafael? Da esquerda para direita: Litza e Vanessa Litza Gusmão Mestre em Desenvolvimento Humano e Responsabilidade Social, especialista em Gestão de Instituições de Ensino Superior, especialista em Engenharia de Telecomunicações, graduada em Engenharia Elétrica. Já atuou como engenheira na Vivo e como Gerente Acadêmica na FTC. Há dois anos coordena a Universidade Corporativa do Hospital São Rafael e ministra aula em cursos de Pós-Graduação Lato Sensu. Vanessa Santiago Gerente de Recursos Humanos do Hospital São Rafael, formada em Psicóloga, Especialista em Recursos Humanos, em Gestão com ênfase em Finanças e em Saúde. REVISTA M&M DESENVOLVIMENTO HUMANO 15 ACADEMIA assim como a sua importância e também sua diferenciação em relação a outras formas de educação promovidas pelas organizações sejam bem compreendidas por todos. Educação Corporativa Obtenham uma visão acadêmica e ao mesmo tempo prática sobre as Universidades Corporativas. Por Carolina Villa Nova Aguiar e Eliana Edington da Costa e Silva A s expressões universidade corporativa ou educação corporativa já não podem ser consideradas como novidade nem no meio acadêmico nem nos ambientes organizacionais. Meinster (1999), baseada em estudo realizado por uma consultoria americana, afirma que no fim dos anos 1980 já existiam cerca de 400 instituições com universidades corporativas nos Estados Unidos. Embora as expressões citadas sejam conhecidas e sua implantação já esteja presente em muitos países, o Brasil ainda vive uma realidade em que a experiência real está muito distante do que é proposto pelo escopo teórico-conceitual do tema (BRANDÃO, 2006). Para que a atual lacuna existente entre a teoria e a prática seja reduzida, é imprescindível que as características da educação corporativa, 16 REVISTA M&M DESENVOLVIMENTO HUMANO O objetivo do presente artigo é oferecer uma breve sistematização sobre o que se tem produzido sobre educação corporativa, assim como apresentar experiências de organizações brasileiras com a implantação desse sistema de educação. Contextualização do cenário atual Para compreender a relevância que cerca o tema das universidades corporativas no Brasil, é preciso levar em consideração o atual contexto em que as organizações estão inseridas. Dois pontos de reflexão tornam-se fundamentais: a globalização e a educação formal do país. Com o surgimento do fenômeno da globalização, as organizações e, em especial, a área de Recursos Humanos, se viram obrigadas a passar por transformações significativas no sentido de assumir novos desafios importantes voltados a atrair, reter e desenvolver talentos, visando a preservar a autoestima, motivação e estímulo de seus colaboradores. Nesse contexto, a contínua capacitação dos colaboradores torna-se fundamental por dois motivos: o primeiro é que, na atual era da informação, o conhecimento se transformou no recurso organizacional mais importante das empresas, até mesmo mais importante e crucial que o recurso financeiro em si; e o segundo, mas não menos importante, é para garantir a permanência de seus colaboradoreschave, que, cada vez mais, buscam organizações que estão dispostas a ajuda-los a desenvolver, continuamente, novas habilidades, mantendo assim, sua empregabilidade (CHIAVENATO, 1999; HELOANI, 1999). Como consequência das profundas mudanças ocorridas em virtude da globalização e da era do conhecimento, é inevitável pensarmos que o modelo de educação até então vigente passa a ser obsoleto. Não é de se estranhar, portanto, que as universidades vêm passando por um grande desafio: o de deixar para trás um modelo centrado no professor e adotar um modelo centrado nas necessidades do aluno, cuja ênfase passa a estar no oferecimento de ferramentas e recursos para que os alunos se responsabilizem pela sua própria aprendizagem, focando naqueles elementos que são (ou serão) realmente importantes para ele e para a organização na qual trabalha ou pretende se inserir. Toda essa mudança, no entanto, exige um tempo e, tendo em vista o modelo de educação universitária que REVISTA M&M DESENVOLVIMENTO HUMANO 17 ACADEMIA 18 REVISTA M&M DESENVOLVIMENTO HUMANO O termo universidade corporativa é atribuído à Jeanne Meinster, presidente da Corporate University Xchange. De acordo com ela, a universidade corporativa pode ser definida como: Em outras palavras, os programas de educação corporativa configuram-se em sistemas de desenvolvimento de pessoas e talentos, visando, assim, constituírem-se em uma importante fonte de vantagem competitiva. Para tal, esses programas se caracterizam por assumirem uma postura proativa (e não reativa) e uma natureza contínua. À primeira vista, o leitor que se depara com a definição acima apresentada pode se perguntar sobre qual é realmente a grande novidade da proposta desse sistema de educação. Afinal, o papel de treinar e desenvolver funcionários já não vem sendo atribuído e exercido pelos departamentos de treinamento tradicionais há tantos anos? “um guarda-chuva estratégico para o desenvolvimento e a educação de funcionários, clientes e fornecedores, buscando otimizar as estratégias organizacionais, além de um laboratório de aprendizagem para a organização de um pólo permanente” (M EINSTER, 1999, p. 35). Pensando nessa confusão, Eboli (1999 apud Cardoso & Carvalho, 2006) elaborou um quadro síntese com as principais diferenças entre as duas formas de educação (quadro 1). “ Departamento de Treinamento Tradicional É natural, portanto, que as empresas competitivas estejam “num processo de reconstrução para tornaremse organizações educadoras, valorizando o conhecimento e a aprendizagem, por meio da gestão do conhecimento”. Universidade Corporativa Habilidades Objetivo Competências críticas Aprendizado Individual Foco Aprendizado Organizacional Tático Escopo Estratégico Necessidades Individuais Ênfase Estratégias de Negócio Interno Público Interno e Externo Espaço Real Local Espaço Real e Virtual Aumento das Habilidades Resultado Aumento do Desempenho Quadro 1: Principais diferenças entre departamento de treinamento e universidade corporativa Fonte: EBOLI (1999 apud Cardoso & Carvalho, 2006) Em síntese, tendo em vista o cenário até aqui apresentado, é possível afirmar que na sociedade do conhecimento, o centro vital está na aprendizagem e na educação. É natural, portanto, que as empresas competitivas estejam “num processo de reconstrução para tornarem-se organizações educadoras, valorizando o conhecimento e a aprendizagem, por meio da gestão do conhecimento” (QUADROS, 2012, p. 34). Como resultado desse cenário, estimase que hoje mais de 500 organizações brasileiras ou multinacionais com sites no país já implantaram seus próprios sistemas de educação corporativa (EBOLI, 2012). Hoje, algumas das universidades corporativas que estão em destaque no Brasil são: Isvor (pertencente ao Grupo Fiat), que é considerada referência nacional; Ernst & Young University, reconhecida por quarto anos consecutivos como uma das três melhores universidades corporativas do Brasil; e Cyrela Brazil Realty, que ganhou destaque com um projeto de alfabetização de operários nos canteiros de obras. Educação Corporativa: origem, definição e caracterização “ predomina ainda hoje no Brasil, é fácil concluir que o caminho pela frente ainda é longo. Diante disso, muitas organizações se deparam com a necessidade de tomarem atitudes radicais na preparação de sua força de trabalho. Entre essas atitudes, encontra-se a criação de universidades corporativas (FOCHESATTO, 2012). REVISTA M&M DESENVOLVIMENTO HUMANO 19 ACADEMIA o seu conteúdo programático? Embora diferentes estruturas sejam possíveis, é importante registrar, contudo, que as universidades corporativas guardam em comum as mesmas bases filosóficas e fundamentos norteadores de suas concepções e ações, sem os quais não podemos falar em educação corporativa. Com base nisso, foi possível se estabelecer sete princípios de sucesso das universidades corporativas, conforme apresentado no quadro 2. Princípio Definição 1. Competitividade Valorizar a educação como forma de desenvolver o capital intelectual dos colaboradores, transformando-os em fator de diferenciação da empresa. 2. Perpetuidade Compreender a educação não apenas como processo de desenvolvimento e realização do potencial intelectual, físico, espiritual, estético e afetivo existente em cada colaborador, mas também como um processo intencional e sistemático de transmissão da herança cultural. 3. Conectividade Privilegiar a construção social do conhecimento, estabelecendo conexões, intensificando a comunicação empresarial e a rede de relacionamento com o público interno e externo da organização. 4. Disponibilidade Oferecer e disponibilizar atividades e recursos educacionais de fácil uso e acesso, propiciando a aprendizagem “a qualquer hora e em qualquer lugar”. 5. Cidadania Estimular o exercício da cidadania individual e corporativa e da construção social do conhecimento organizacional pela da formação de atores sociais, ou seja, sujeitos capazes de refletir criticamente sobre a realidade organizacional, de refletir criticamente e modificá-la continuamente. “ ... os programas de educação corporativa configuram-se em sistemas de desenvolvimento de pessoas e talentos, visando, assim, constituírem-se em uma importante fonte de vantagem competitiva. Há um ponto que parece ser crucial para o sucesso de uma universidade corporativa: a atuação dos líderes. Em outras palavras, nada do que foi dito até aqui terá valor enquanto os líderes e gestores não estiverem mobilizados para fazer o projeto da educação corporativa ganhar vida. Meinter (1999) evidencia sete papéis que devem ser desempenhados pelos líderes nesse processo: Visionário Patrocinador Quadro 2: Sete princípios de sucesso da educação corporativa Fonte: EBOLI (2012) Controlador 20 6. Parceria 7. Efetividade Entender que desenvolver continuamente as competências essenciais dos colaboradores é tarefa complexa e audaciosa, o que exige estabelecimento de parceria nos âmbitos externo e interno, com ideal e interesse comum na educação desses colaboradores. Ser um centro gerador de resultados para a empresa, buscando agregar sempre valor ao negócio. Significa buscar também fontes alternativas de recursos que permitam um orçamento próprio e autossustentável, diminuindo, assim, a vulnerabilidade do projeto de educação corporativa. REVISTA M&M DESENVOLVIMENTO HUMANO “ Outro aspecto que merece destaque é que não existe um único modelo de universidade corporativa. Diferentes formas de pensá-la e implementá-la são possíveis, a depender de questões como: Qual será a origem do investimento? A universidade será real ou virtual? Em qual ponto da estrutura organizacional ela irá se alojar (departamento de recursos humanos, diretoria executiva ou nas unidades de negócios)? Como será organizado Especialista Apontar a direção para seus liderados. Encorajar os colaboradores. Acompanhar ativamente o desenvolvimento de competências. Idealizar e desenvolver os programas educacionais. Professor Ensinar nos programas educacionais. Aprendiz Frequentar os cursos, demonstrando vontade de aprender. Comunicador Divulgar o sistema de educação corporativa tanto interna quanto externamente. REVISTA M&M DESENVOLVIMENTO HUMANO 21 ACADEMIA “Os líderes precisam estar preparados para desempenhar plenamente seus papéis de educador, formador e orientador no cotidiano de trabalho, criando um ambiente laboral no qual os membros da equipe sintam-se motivados a utilizar toda a sua potencialidade e a buscar sempre padrões elevados de desempenho” (EBOLI, 2012, p. 41). Até agora, falamos sobre a educação corporativa de uma forma essencialmente conceitual e nos dirigimos para os potenciais idealizadores de programas que adotem esse modelo de educação. Não podemos deixar de pensar, no entanto, na forma como a oportunidade de participar de uma universidade corporativa é percebida pelo trabalhador padrão. Pensando nisso, e aproveitando que uma das autoras desse artigo passou por tal experiência, vamos usar a última seção para explorar a perspectiva do trabalhador. 22 REVISTA M&M DESENVOLVIMENTO HUMANO A Perspectiva do Trabalhador A principal contribuição da experiência – a Faculdade Gerencial - como o programa foi denominado – foi a coesão entre os alunos. Devemos considerar que uma maior “ligação” entre as pessoas envolve principalmente as relações interpessoais e os aspectos inerentes ao campo do comportamento organizacional. E são bem conhecidos os frutos que uma equipe de gestores coesa pode oferecer a uma organização, não? Esse programa foi concebido pela Diretoria e a área de Desenvolvimento Organizacional em parceria com uma Universidade Federal. O conteúdo programático foi construído pela tripartite, sendo que coube à Universidade selecionar os professores, em sua maioria mestres e doutores. Apesar da presença (necessária) de conteúdos técnicos, como Administração da Produção, Administração Financeira, Contábil e de Custos, foram disciplinas como Cultura Organizacional, Gestão de Recursos Humanos, Filosofia, História da Arte, juntamente com os seminários predominantemente voltados para a relação entre Gerência e temas a exemplo de Comunicação, Participação, Negociação, Stress, que se mostraram mais eficazes para o desenvolvimento e fortalecimento de relações saudáveis no trabalho. Ainda que a alta direção da empresa fosse arrojadamente inovadora, haja vista ter implantando uma universidade corporativa no início dos anos 1990, incluindo nas turmas alguns alunos da própria empresa acionista, muitos dos “ Valorizar a educação como forma de desenvolver o capital intelectual dos colaboradores, transformandoos em fator de diferenciação da empresa. “ Em resumo, é possível concluir que: engenheiros, no início do curso, pareciam estar presos a um antigo modelo de gestão: “gestão de pessoas é com o RH e o meu negócio é engenharia e a entrega de resultados”. Esse tipo de pensamento parece “esquecer” o homem (o humano), o trabalhador em si, pois é ele quem fará as atividades que se constituirão nos resultados tão esperados. Sendo uma empresa de serviços, isso possui maior relevo, pois o resultado advém da forma como o serviço será realizado, isto é, depende totalmente do trabalhador em si. Trago esses detalhes para enfatizar o quanto pequenos gestos como dirigir o olhar e responder a um mero “bom dia” pode fazer a diferença para a satisfação do cliente e, consequentemente, para bom desempenho organizacional que se deseja atingir. Garantir a competência técnica sempre foi foco dessa organização, mas o desenvolvimento de competências gerenciais e comportamentais parece que foi sistematizado com a Faculdade Gerencial e outros programas voltados para a média gerência, como o Desenvolvimento de Supervisores. Na verdade, apesar da Faculdade Gerencial ter tido como foco os gerentes e potenciais, hoje se compreendeu que se tinha uma Universidade Corporativa que reunia programas de aprendizagem para diretores e gerentes, supervisores e oficiais (profissionais com ensino médio ou cur- REVISTA M&M DESENVOLVIMENTO HUMANO 23 ACADEMIA “ Os líderes precisam estar preparados para desempenhar plenamente seus papéis de educador, formador e orientador no cotidiano de trabalho. “ 24 REVISTA M&M DESENVOLVIMENTO HUMANO Em resumo, os comentários gerais evidenciavam a amplitude e profundidade das transformações vividas pelo corpo gerencial. É incontestável, portanto, o quanto os novos conteúdos, especialmente para os profissionais da área de “exatas”, promoveram insights e até mesmo a construção de uma nova visão de mundo. Até aqui, tudo isso pode parecer básico ou muito simples ou ainda um pouco ultrapassado, pois atualmente as organizações já avançaram bastante nessa nossa sociedade do conhecimento. Mas é preciso lembrar que estamos nos referindo a uma experiência que ocorreu há alguns anos, período no qual a proposta (na época) radical de Semler (1988) ao “virar” a própria mesa certamente influenciou os diretores da referida empresa, propiciando uma grande reestruturação organizacional que culminou com o surgimento da “organização orbital” (SAMPAIO, 1996, p. 271) e cujos resultados inovadores e promissores só foram possíveis, por todo o investimento feito nesse trabalho que hoje posso denominar de uma valorosa experiência em uma universidade corporativa. BRANDÃO, G. R. Gestão de pessoas e as universidades corporativas: dois lados da mesma moeda? RAE, 46 (2), 22-33, 2006. HELOANI, R. A identidade do psicólogo do trabalho em tempos de globalização. Cadernos de Psicologia Social do Trabalho, 2 (1), 39-54, 1999. CARDOSO, L. A. & CARVALHO, S. C. O papel das universidades corporativas no desenvolvimento das competências: um estudo de caso sobre a Universidade Petrobras. XIII SIMPEP, 2006. MEISTER, J. C. Educação corporativa. São Paulo: Makron Books, 1999. CHIAVENATO, I. Gestão de Pessoas: o novo papel dos Recursos Humanos nas Organizações. Rio de Janeiro: Campus, 1999. QUADROS, M. S. P. Educação Corporativa e a sociedade do conhecimento. In: Quadros, M. S. P. & Fochesatto, S. A. Educação Corporativa. Curitiba: IESDE Brasil S.A., 2012. EBOLI, M. Educação corporativa no Brasil: evolução, conceitos e papéis. In: Casarini, F. G. & Baumgartner, M. (orgs). Educação Corporativa: da teoria à prática. São Paulo: Editora Senac, 2012. SAMPAIO, M. Diagnosticando a empresa viva: um modelo para repensar os valores e os papéis da empresa. A transformação da liderança convencional em liderança dialética. Salvador: Casa da Qualidade, 1996. FOCHESATTO, S. A. Universidades Corporativas. In: Quadros, M. S. P. & Fochesatto, S. A. Educação Corporativa. Curitiba: IESDE Brasil S.A., 2012. SEMLER, R. Virando a (própria) mesa. 5a ed. São Paulo: Best Seller, 1988. Autoras Carolina Villa Nova Aguiar Fornecida pela autora Tendo formação em psicologia e, na época, já alguma experiência profissional na área de gestão de pessoas, muito desse aprendizado, ainda que rico, não foi novidade. Entretanto, ao pensar nos colegas, e nos trabalhos realizados durante as disciplinas, é possível resgatar alguns comentários de gerentes avaliando o programa como, por exemplo: “devíamos ter mais matérias de ciências humanas, foram elas que mais ajudaram ao processo de mudança, as discussões possibilitaram reaprender a raciocinar com liberdade”. Outro afirmou que vivenciou uma “mudança existencial”, Referências argumentando que até a relação com a companheira melhorou. Um terceiro reiterou: “a maior lição que aprendi foi que o operário precisa aprender tanto quanto eu”. Doutoranda e Mestre pela Universidade Federal da Bahia em Psicologia Organizacional e do Trabalho na linha de pesquisa Indivíduo e Organização: processos microorganizacionais. Atua nas instituições Escola Bahiana de Medicina e Saúde, Faculdade Ruy Barbosa – Devry e Faculdade São Bento da Bahia, lecionando disciplinas nas áreas de Avaliação Psicológica e da Psicologia Organizacional e do Trabalho. Eliana Edington da Costa e Silva Fornecida pela autora so técnico), além dos programas de segurança do trabalho e de informática. Doutora e Mestre pela Universidade Federal da Bahia em Psicologia Organizacional e do Trabalho na linha de pesquisa Indivíduo e Organização: processos microorganizacionais. Professora do curso de Psicologia da Escola Bahiana de Medicina e Saúde e professora de cursos de pós-graduação da Universidade Salvador – UNIFACS e da Faculdade Ruy Barbosa – Devry, lecionando disciplinas da Psicologia Organizacional e do Trabalho, como comportamento organizacional, saúde e trabalho, gestão de conflitos, recrutamento e seleção de pessoal. Atua como consultora organizacional e facilitadora em trabalhos comportamentais. REVISTA M&M DESENVOLVIMENTO HUMANO 25 CARREIRA EM FOCO Mantenham a postura ao longo de um processo seletivo. Por Márcia de Souza Almeida B uscar um emprego, ou melhor, buscar “O” emprego não é para amadores. É preciso ter persistência, paciência, nervos de aço, motivação e fé. Você precisa dar conta de tudo que envolve esta busca. Encontrar a vaga, enviar um currículo impecável, receber a ligação do entrevistador e não derrapar nas respostas, chegar para entrevista com antecedência, vestir-se adequadamente, pesquisar sobre a empresa, responder a todas as perguntas do entrevistador com foco - sem ser prolixo, saber na ponta da língua seus pontos fortes e seus pontos fracos - contar caso de sucesso, contar caso de fracasso, explicar porque saiu do último emprego -, ser simpático, interessado, educado, cordial, resistir a tentação de exagerar um pouquinho na sua habilidade com o inglês, não esquecer que o entrevistador não é seu amigo- por mais que te deixe a vontade. Ufa, cansei! 26 REVISTA M&M DESENVOLVIMENTO HUMANO Sim, você pode fazer uma ligação ou passar um e-mail perguntando sobre o andamento do processo ou até mesmo sobre o seu desempenho, desde que esteja preparado para ouvir um feedback negativo (se for este o caso). O que não pode é ligar insistentemente para o entrevistador, passar WhatsApp, e-mail, tudo ao mesmo tempo -. O resultado de um processo seletivo envolve reuniões e decisões de um conjunto de pessoas, por isto muitas vezes atrasa e será preciso esperar. “ Mostrar ansiedade além da conta, pressionar o entrevistador de forma insistente pode sim tirá-lo do processo. “ Não se demita antes de ser contratado Você passou com louvor por este verdadeiro teste e saiu da sala do entrevistador com a promessa: “ Em breve entraremos em contato ”. Passou um dia, três dias, uma semana e nada, nenhuma ligação, nenhum e-mail, nenhum sinal de fumaça. Será que a definição de “em breve” do entrevistador é diferente da sua? Neste momento, várias teorias da conspiração já estão passando pela sua cabeça: escolheram outro candidato, minha entrevista foi um horror, sou péssimo profissional, a vaga foi cancelada, o entrevistador me detestou. E começa uma batalha consigo mesmo: vou ligar para saber do processo; não, não vou ligar, vou parecer ansioso; vou passar um e-mail; e se não responderem? é melhor ligar... Respeite o timing do processo. Mostrar ansiedade além da conta, pressionar o entrevistador de forma insistente pode sim tirá-lo do processo- mesmo que você tenha tido um excelente desempenho na entrevista. Portanto, não se demita antes mesmo de ser contratado. REVISTA M&M DESENVOLVIMENTO HUMANO 27 LEIA E REFLITA Durante anos, ouvi esta primeira parte da história como elogio à persistência, que sem dúvida, é um hábito que nos leva ao sucesso. No entanto... Persistência versus Mudança Tempos depois, a mosca tenaz, por descuido ou acidente, novamente caiu no copo. Como já havia aprendido em sua experiência anterior, começou a se debater, na esperança de que, no devido tempo, se salvaria. Outra mosca, passando por ali e vendo a aflição da companheira de espécie, pousou na beira do copo e gritou: “Tem um canudo ali, nade até lá e suba por ele”. A mosca tenaz não lhe deu ouvidos, baseando-se na sua experiência anterior de sucesso, e continuou a se debater e a se debater, até que, exausta, afundou no copo cheio de água e morreu. Com base em experiências anteriores, nós também deixamos de notar as mudanças do ambiente e ficamos nos esforçando para alcançar os resultados esperados até que afundamos na própria falta de visão. Muitas vezes, fazemos isso quando não conseguimos ouvir aquilo que, quem está de fora da situação nos diz! Refletindo quanto a tensão entre persistir e mudar. C Sua companheira de infortúnio, apesar de não ser tão forte, era tenaz. Continuou a se debater, a se debater e a se debater por tanto tempo, que aos poucos o leite ao seu redor, com toda aquela agitação, foi se transformando e formou um pequeno nódulo de manteiga, onde a mosca tenaz conseguiu com muito esforço subir e dali alçar vôo para algum lugar seguro. 28 REVISTA M&M DESENVOLVIMENTO HUMANO Ilustração ontam que certa vez, duas moscas caíram num copo de leite. A primeira era forte e valente. Assim, logo ao cair, nadou até a borda do copo. Mas como a superfície era muito lisa e ela tinha suas asas molhadas, não conseguiu sair. Acreditando que não havia saída, a mosca desanimou, parou de nadar e se debateu, afundou e morreu. REVISTA M&M DESENVOLVIMENTO HUMANO 29