O ENSINO DE ARTE EM AMBIENTE SOCIOEDUCATIVO André Luiz Porfiro [email protected] DEGASE – Departamento Geral de Ações Socioeducativas FAETEC – Fundação de apoio a Escola Técnica GT1- Ambientes de Cultura e o Ensino da Arte Palavras chaves: arte, educação, ressignificação e socioeduação. RESUMO: A comunicação pretende descrever o percurso do ensino de arte no CRIAAD – Centro de Recursos Integrados de Atendimento ao Adolescente de Nova Iguaçu, unidade do DEGASE (Departamento Geral de Ações Socioeducativas) responsável pela aplicação da medida de semiliberdade em municípios da Baixada Fluminense. De acordo com o ECA- Estatuto da Criança e do Adolescente, a medida socioeducativa de semiliberdade está na transição entre o regime fechado e o meio aberto. Entre os anos de 2000 e 2010 aconteceram ações pedagógicas em arte, como um dos requisitos para o cumprimento da medida socioeducativa de semiliberdade. Entre as diversas ações ocorridas no período, pretendemos focar nos projetos I-D-E-N-T-I-D-A-D-E-S, OUTROS OLHARES e ARTES, VIVÊNCIAS E EMOÇÕES. 1- O Território da Arte no CRIAAD de Nova Iguaçu: experimentos de liberdade e autonomia com papel, tintas e pincéis O Centro de Recursos Integrados de Atendimento ao Adolescente de Nova Iguaçu, ligado a Secretaria de Estado da Educação, é a unidade do DEGASE (Departamento Geral de Ações Socioeducativas) responsável pela execução da medida de semiliberdade para os municípios de Nova Iguaçu, Belford Roxo, Itaguaí, Paracambi, Seropédica, Queimados e Japeri. De acordo com o ECA, Estatuto da Criança e do Adolescente, a medida socioeducativa de semiliberdade está na transição entre o regime fechado e o meio aberto (cap. IV; Art. 120). Segundo Kropff (2003): “Constitui um desafio para a instituição dar significação a esse processo e as propostas que fazem aos adolescentes são fundamentais nesse sentido”. Os trabalhos em arte, em questão, desenvolvidos no CRIAAD tiveram início no ano de 2000. Inicialmente buscou-se uma ligação entre as linguagens cênica e plástica, passando num período seguinte para a livre expressão no campo das artes visuais. A partir de 2002, a arte como objeto de conhecimento passou a ser o pressuposto conceitual da relação ensino/aprendizado em arte. De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais em Arte (1997:32), “A manifestação artística tem em comum com o conhecimento científico, técnico ou filosófico seu caráter de criação e inovação”. Utilizando a reinterpreteção de obras de arte, a partir das imagens impressas em volumes de uma enciclopédia, o trabalho relacionava obras de artistas brasileiros com a de artistas estrangeiros. É dessa época a seqüência dos Nus, reinterpretações do quadro de Modigliani, recontextualizado com o fundo de Retirantes de Portinari. Em fins de 2002 a mudança na diretriz do atendimento na Unidade possibilitou a busca de parcerias com atores sociais de fora do sistema socioeducativo. O ano de 2003 foi planejado com bases diferentes dos anos anteriores. Foi calcado num esboço de um projeto político-pedagógico, tendo como ênfase o trabalho de arte desenvolvido junto aos adolescentes e a abertura do CRIAAD de Nova Iguaçu a parcerias diversas na comunidade e com entidades da sociedade civil. Nesse ano foi definido o conceito de dois dos projetos em arte da unidade, os projetos I-D-E-N-T-I-D-A-D-E-S e OUTROS OLHARES. 2 - O projeto I-D-E-N-T-I-D-A-D-E-S O projeto I-D-E-N-T-I-D-A-D-E-S desenvolve pintura coletiva orientada em grande formato. Os painéis começaram a serem realizados a partir de setembro de 2003. Os adolescentes são convidados a participar de uma sessão de pintura coletiva em suporte de lona (tela), com aproximadamente 160 X 200 cm., utilizando tinta acrílica profissional. A partir do uso das cores primárias, são instados a traçar formas elementares e não figurativas. A cada encontro, para a confecção dos painéis com os adolescentes, um observador externo é convidado. Antropólogos, pesquisadores em educação, artistas e pessoas ligadas ao judiciário olham a desenvoltura dos adolescentes na manipulação de pincéis e tintas. Alguns adolescentes analfabetos ou semianalfabetos, na linguagem escrita, preenchem os espaços em branco da tela com os seus gestos e suas imagens. Instituem um espaço de experimentação de liberdade, de autonomia e de protagonismo. De acordo com Kropff (2003): “A arte, definida a partir da pratica da oficina e de outras experiências que pude observar com adolescentes é, fundamentalmente, a objetivação do olhar com a dupla possibilidade de ver o próprio olhar. O garoto olhando o painel e o nome dele na margem, sorri”. O resultado surpreende aos que fazem e aos que observam. Os adolescentes e os observadores redimensionam e redefinem seus conceitos de expressão individual e expressão coletiva, trabalho colaborativo, interação, limites, liberdade, autonomia, respeito, inclusão social e principalmente de arte. Exposições realizadas: 2005 Paralelos de Liberdade - Exposição e Oficina de Pintura Coletiva – Apresentada no V Encontro Internacional de Performance, em Belo Horizonte. Evento organizado pelo Instituto Hemisférico de Performance e Política e pela UFMG. Em seu texto de apresentação estabelecia como objetivo “uma reflexão sobre as expressões pictóricas de grupos sociais distintos”. Estabelecendo entre eles um paralelo “pretendemos colocar de um lado, os painéis desenvolvidos por adolescentes cumprindo medida sócio-educativa de semi-liberdade no Rio de Janeiro. E, de outro, criadores e ativistas das Américas no seu trajeto de liberdade e busca de cooperação. As fricções e fronteiras entre os conceitos de liberdade, arte e processo de criação são o foco da reflexão”. Conservatório da UFMG – de 12 a 14 de março. Um Outro Olhar – A Pintura de Jovens em Conflito com a Lei – Exposição apresentada em seminários que tinham como linha de discussão a questão do jovem em conflito com a lei. Espaço Cultural Sylvio Monteiro – Nova Iguaçu – abril e maio Museu da República – Rio de Janeiro - julho e agosto UERJ – Baixada (Campus Duque de Caxias) – novembro 2006 Fórum Mundial de Educação – Nova Iguaçu - Performance e Pintura de Painéis Coletivos com adolescentes que já tinham cumprido a medida socioeducativa e foram convidados a retornarem ao CRIAAD para essa atividade. Houve integração entre os jovens saídos do CRIAAD e jovens da comunidade. Seminário Diocesano Paulo VI – Nova Iguaçu - 25/03/2006 2010 Pode ser Visto – Niterói – Exposição retrospectiva dos trabalhos realizados pelos adolescentes que cumpriram medida socioeducativa no CRIAAD de Nova Iguaçu. Além da exposição aconteceu um debate sobre a questão do adolescente em risco social e a pintura de um painel com jovens que estavam no CRIAAD na época e alunos do Colégio de Aplicação da Universidade Federal Fluminense. Biblioteca Central da UFF – Campus Gragoatá – Niterói – setembro a dezembro Cores e Terra – Rio de Janeiro - trabalho de pintura coletiva em grande formato desenvolvido com os adolescentes que cumprem medida de semiliberdade no CRIAAD de Nova Iguaçu. I Seminário Estadual Sobre Medidas Socioeducativas do Rio de Janeiro -29 e 30 de novembro – Auditório do Prédio Central dos Correios 3 - O projeto OUTROS OLHARES O projeto OUTROS OLHARES, tem a arte brasileira contemporânea como referência para o aprendizado em artes visuais. Está dividido em duas partes distintas, porém complementares. A primeira parte é desenvolvida durante as aulas semanais e regulares que aconteciam nas dependências do CRIAAD de Nova Iguaçu. Cada adolescente, independente da sua escolaridade, participava uma vez por semana, da aula de arte. A aula tinha em média 90 minutos caracterizando-se como um processo de aprendizagem em artes visuais. Através de calendários, catálogos de exposições, cartazes, cartões e outros objetos visuais um grupo de obras de um artista brasileiro contemporâneo é colocado a disposição dos adolescentes. A partir da análise dos elementos que constituem uma obra em arte visual, os adolescentes são instados a praticarem com pincéis e tintas, seu olhar sobre uma obra desse artista. Concluída a primeira etapa, parte-se para a justaposição de elementos de uma outra obra do artista focado, para complementar o trabalho. Durante essas ações pictóricas os adolescentes experimentam processos de transformação, ordenação e construção de significados, elementos característicos do ato criativo. “Essencialmente, o ato criador estrutura e organiza o mundo, respondendo aos desafios que dele emanam, num constante processo de transformação do homem e da realidade circundante. O produto da ação criadora, a inovação, é resultante do acréscimo de novos elementos estruturais ou da modificação de outros”. Parâmetros Curriculares Nacionais, Arte (1997:32) Na dependência do tempo que o adolescente permanece na instituição outras formas de construções pictóricas são experimentadas buscando o aprofundamento de um olhar estético e na autonomia criativa. Segundo Freire (2002: 121): “A autonomia, enquanto amadurecimento do ser para si, é processo, é vir a ser. Não ocorre com data marcada. É neste sentido que uma pedagogia de autonomia tem de estar centrada em experiências estimuladoras da decisão e da responsabilidade, vale dizer, em experiências respeitosas de liberdade”. A segunda parte do projeto OUTROS OLHARES compõe-se da exposição dos trabalhos realizados pelos adolescentes nas aulas de arte. Desde 2003 sete exposições, com trabalhos em pintura sobre papel nos formatos A4 e A3 com tinta acrílica e guache, foram realizadas. Exposições realizadas: Tarsiliando – Foi inaugurada no refeitório da instituição em maio do ano de 2003. A proposta da exposição foi fazer uma “releitura imagética do universo da artista Tarsila do Amaral” pelos adolescentes. Imagens Populares – Esta exposição apontava para uma realidade próxima aos adolescentes: as festas e as brincadeiras populares. Os adolescentes desdobraram seus olhares e somaram as obras, suas vivências como moradores da Baixada Fluminense. Trabalhos a partir das obras do artista plástico Rayle Braga. O Ciclo Chico Liberato - o ciclo Chico Liberato foi composto por duas exposições: Bichos Soltos (2003/2004) e Outros Bichos (2004/2005). O ciclo foi inaugurado em dezembro de 2003, com a exposição “Bichos Soltos”, que permaneceu no refeitório do CRIAM até maio de 2004. A exposição “Outros Bichos” realizada no ano de 2005, apresentava a influência das diversas culturas na formação do povo brasileiro. Chico Liberato teve suas obras apresentadas a partir de um catálogo de exposição enviado especialmente pelo próprio para o desenvolvimento do trabalho no CRIAM. O Ciclo Carlos Vergara - A escolha da obra de Carlos Vergara como objeto de trabalho nos anos de 2006 e 2007, está propiciando aos adolescentes, na sua passagem pelo CRIAM, o contato com um dos artistas mais vigorosos do país. Impregnados da visualidade do artista experimentam na atividade pictórica, camadas e mais camadas de tintas, com manchas e formas que se entrelaçam. Num trajeto quase alquímico, misturam vários pigmentos tentando uma aproximação com as cores do artista. O resultado em sala de aula é a abertura de vários caminhos do olhar. Exposições – (2006) Ver através da Pintura de Vergara e Leituras de Si, (2007) Texturas Referenciais. Todas realizadas no Espaço de Arte Orlando Rafael (refeitório do CRIAAD). O ensino de arte no CRIAAD de Nova Iguaçu na primeira década do século XXI foi um referencial, tanto para os adolescentes, quanto para os funcionários e para todas as pessoas que se relacionam com a unidade. Durante esse processo foi construído um olhar estético mais apurado e como conseqüência um olhar sensível sobre a vida. Um outro olhar. 4- A ocupação da cidade pelos adolescentes cumprindo medida socioeducativa de semiliberdade – O Projeto Artes, Vivências e Emoções Os adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa, em sua maioria apresentam como característica predominante, a falta de perspectiva futura, bem como a dificuldade de acesso a arte, cultura e ciência. Neste sentido, o CRIAAD de Nova Iguaçu voltou seu foco para a significativa resistência então apresentada por adolescentes que demonstravam certo acanhamento diante da nova experiência a ser vivenciada nas aulas de arte. Acreditavam não ter condições para desenvolver tal tarefa. Isto apontava claramente para a necessidade de estimular a autoestima destes adolescentes, levando-os a uma autorreflexão e elaboração acerca de suas potencialidades. Criou-se então, uma oficina de expressão, que paralelamente às aulas de arte, viria trabalhar com os adolescentes suas emoções, viabilizando-lhes a expressão e discussão sobre os conteúdos emocionais neles mobilizados durante a execução das atividades realizadas nas aulas de arte. O objetivo era promover o contato dos adolescentes com suas emoções, vivências e potencialidades minimizando assim resistências às atividades de arte. Com o decorrer do tempo, foi observado que se fazia necessário ampliar e diversificar o acesso dos adolescentes às diferentes formas de arte e cultura. Assim, a partir de 2008, o projeto tomou um novo formato, onde foi iniciada a construção de uma rede de parcerias com espaços culturais e artísticos, tais como o CCBB – Centro Cultural Banco do Brasil, Parque Nacional da Tijuca, Maracanã, Parque Municipal de Nova Iguaçu, Espaço Cultural da Marinha, Museu Nacional, Ponto Cine de Guadalupe, entre outros, nas cidades de Nova Iguaçu e Rio de Janeiro. Locais onde os adolescentes iniciaram visitações dirigidas como parte da execução da medida socioeducativa de semiliberdade. Durante estas visitas os adolescentes tiveram acesso às diversas formas de expressão artística e cultural, como canal facilitador para uma maior interação social e autorreflexão acerca de suas potencialidades pessoais e sociais. O Projeto Artes, Vivências e Emoções possibilitou aos adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa de semiliberdade, numa perspectiva de educação não formal, o acesso a espaços científicos, culturais e artísticos, buscando a ampliação do seu olhar diante do mundo e oportunizando-lhes maior interação com o meio social. Pode-se afirmar que resultados positivos foram observados. Os adolescentes demonstraram-se despertados pelas atividades do projeto, tornando-se multiplicadores, levando às suas famílias as novas possibilidades de acesso a arte e cultura, conduzindo-lhes aos espaços culturais visitados pelo projeto. 5- ÚLTIMAS REFELEXÕES Apesar de na grande estrutura das unidades de cumprimento de medidas socioeducativas no Rio de Janeiro a arte fazer parte de uma contracorrente, projetos e ações em arte são experimentados com continuidades diferenciadas. No CRIAAD de Nova Iguaçu foi possível desenvolver ações por anos consecutivos, estruturando um pensamento sobre as ações desenvolvidas. Para concluir esse trajeto descritivo, reflexivo e visual, talvez possamos ousar na afirmação de que o processo de inclusão através da arte e da cultura foi durante dez anos no CRIAAD de Nova Iguaçu um referencial, tanto para os adolescentes, quanto para os funcionários. Durante esse percurso foram construídos caminhos de ocupação de territórios na arte, na cidade e na vida. 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São Paulo, Ed. 34, 2009. SCHIFF, Michel. A Inteligência Desperdiçada. Porto Alegre, Artes Médicas, 1993. VERGARA, Carlos. Catálogo da Exposição Liberdade, Rio de janeiro, 2011. MINICURRÍCULO: André Luiz Porfiro: Mestre em Teatro pela UNIRIO – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Especialista em Altas Habilidades pela UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Licenciado em Educação Artística – Artes Cênicas (UNIRIO) e Bacharel em Teatro (UNIRIO). Atualmente é professor de Arte no Colégio de Aplicação do ISERJ – Instituto Superior de Educação do Estado do Rio de Janeiro e do DEGASE-Departamento Geral de Ações Socieducativas.