LETRAMENTO? Maria Lucia Paniago Lordelo Neves1 Secretaria Municipal de Educação de Campo Grande, MS 1 INTRODUÇÃO Se alguém não é capaz de sentir-se e saber-se tão homem quanto os outros, é que lhe falta ainda muito que caminhar, para chegar ao lugar de encontro com eles. Neste lugar de encontro, não há ignorantes absolutos, nem sábios absolutos: há homens que, em comunhão, buscam saber mais (FREIRE, 1978, p. 95). A inquietação causada pelo movimento surgente no panorama brasileiro, em torno de uma nova modalidade de alfabetização, motivou-nos a buscar respostas ao que se mostrava nebuloso em primeira instância. Essa inquietação veio do entendimento que temos a respeito da alfabetização, qual seja, o processo uno em que a apropriação do código, a compreensão e o uso social dão-se simultaneamente. As diversas leituras sobre letramento colocaram-nos em situação de reflexão sobre nossos pressupostos, o que nos levou a elaboração da argumentação que expomos neste artigo, onde tratamos da alfabetização e do letramento sob um escopo que considera o processo histórico da alfabetização. Inicialmente, neste artigo procuramos focalizar os aspectos históricos da alfabetização, enquanto parte integrante de todo processo educativo, buscando situá-la no curso de construção da sociedade. Em seguida, a abordagem é direcionada para a compreensão do surgimento de novas concepções de alfabetização procurando resgatar sua essência já concebida anteriormente. Outro aspecto abordado apresenta algumas questões em torno do que representa, hoje, o conhecimento que a escola considera como valioso para a prática pedagógica e a concepção de conhecimento que fundamenta o trabalho do professor. Por último, propomo-nos a uma discussão sobre a introdução de nova terminologia – o letramento – que pretende auxiliar na resolução dos problemas enfrentados com a questão do analfabetismo funcional. 2 2 EDUCAÇÃO/ALFABETIZAÇÃO: UM PROCESSO HISTÓRICO Neste momento de conturbada situação internacional, em que inúmeras correntes de opinião alertam para os riscos que corre a sociedade contemporânea de um possível retorno à barbárie, a temática do currículo2 pode ser considerada ponto chave no debate de um contexto educacional, por ser parte constitutiva das políticas públicas. Nessa perspectiva, a discussão sobre alfabetização insere-se como contribuição para um melhor entendimento e superação dos conflitos mundiais, quais sejam: a guerra, o terrorismo, a violência, questões religiosas e o meio ambiente, visto que é, também, através do universo da escrita que conhecimentos e valores são organizados e transmitidos. No mundo letrado as marcas, ou seja o código escrito, produz linguagem, sendo, portanto, um instrumento de mediação nas relações sociais e constitutivas do conhecimento. A supremacia de um determinado ponto de vista impõe o que vem a ser “conhecimento legítimo” e este estará subordinado aos interesses do pensamento hegemônico. Por conseguinte, a superação dos conflitos mencionados está em estreita relação com as questões que envolvem a alfabetização, na medida em que, ao ter acesso a variadas correntes de pensamento, oportunizado pela leitura e escrita, criam-se as possibilidades de o homem ser sujeito de sua própria história. Como a educação “[...] também é responsável pela produção da estrutura de valores, dentro da qual os indivíduos definem seus próprios objetivos e fins específicos” (MÉZÁROS, 1981 apud PERONI, 2000, p. 8), a definição dos conteúdos a serem ensinados nas escolas e o princípio filosófico a ser adotado fazem parte das estratégias do capitalismo para se reproduzir. Assim, definir o que vai ser ensinado em todas as escolas do país e ter o controle, por meio da avaliação institucional, tornam-se aspectos estratégicos nesse período particular do capitalismo. Assim, torna-se necessária à fundamentação dessa questão uma análise histórica do processo de desenvolvimento ocidental a partir de finais do século XVIII, período em que as mudanças no âmbito educacional foram marcantes, impondo uma nova estruturação do ensino, que levou à institucionalização da diferenciação curricular. A educação, desde os primórdios da civilização, é parte constitutiva na formação dos seres humanos. Isto significa dizer, que na sociedade primitiva a produção da vida material era feita coletivamente e, por conseqüência, também a educação. Os homens iniciavam seu processo educativo junto à família e ao grupo ao qual pertencia, não necessitando, portanto, de alguém dedicado especialmente à realização desta tarefa. 3 Em razão de profundas transformações sofridas pela sociedade, a partir daquele período histórico, em que de um processo de produção material coletiva, cujos conhecimentos rudimentares eram do domínio de todos, passou-se a reter em pequenos grupos o controle do saber, como forma de dominação e detenção do poder. Assim, nesse processo de construção histórica, é possível perceber que, após um longo período civilizatório, já no advento da idade moderna, aparentemente, os objetivos liberais para o ensino não mudaram muito ao se considerar o processo histórico ocidental. Destaca-se o período da Revolução Industrial, no final do século XVIII e início do século XIX, em que ocorreram profundas transformações sociais, particularmente na divisão do trabalho, com reflexos na questão educacional. Aquele período “[...] foi tão importante para a administração da escolarização quanto a concomitante mudança da produção doméstica para a produção e administração industriais” (GOODSON, 1995, p. 33), visto que, além de transferir para a escola tarefas que eram familiares, o surgimento de uma economia industrializada exigia um modelo de escola que atendesse aos filhos de profissionais e homens de negócio. Na perspectiva do bloco hegemônico, a responsabilidade da “má qualidade” da educação está vinculada ao assistencialismo do Estado, ao corporativismo dos sindicatos e à sociedade, por não considerar que o sucesso é para aqueles que “[...] souberam reconhecer as vantagens que oferecem o mérito e o esforço individuais, através dos quais se triunfa na vida. É preciso competir, e uma sociedade moderna é aquela na qual só os melhores triunfam” (GENTILI, 1996, p. 22). Segundo esse enfoque, a educação passaria da esfera política (Estado) para a esfera do mercado, na medida em que estabelece mecanismos de controle e avaliação, concretizando, desta forma, os princípios meritocráticos e competitivos, Assim, o mercado de trabalho é que orienta as decisões da política educacional. Essas mudanças ocorrem mundialmente e, segundo Gentili (1996), parece haver um “Consenso de Washington”3, também, para a educação. Figura como um dos agentes desse consenso, especialmente, o Banco Mundial sendo um dos maiores financiadores dos países em desenvolvimento. De acordo com o Banco Mundial, por participar com apenas meio por cento do total dos investimentos em educação, sua maior contribuição é o trabalho de assessoria aos governos no desenvolvimento de políticas educativas que melhor se adaptam às especificidades daqueles países (CORAGGIO, 2000). 4 Se o que o Banco Mundial oferece são principalmente idéias, e estas idéias vão contribuir para dar forma a políticas estratégicas que preparam nossas sociedades para um futuro [...], é preciso analisar em detalhe como essas idéias são produzidas [...] (CORAGGIO, 2000, p. 75). A alfabetização, processo inicial de acesso à cultura escrita e, por esta razão, parte constitutiva da educação formal, também deve ser entendida e analisada historicamente, inserindo-se no contexto do processo de desenvolvimento ocidental. Nem sempre a alfabetização esteve sob a responsabilidade do Estado4. Houve um tempo, em que ler e escrever eram aprendizagens concebidas distintamente, separadas e sucessivas no tempo, sendo aplicadas de forma privada e individual pela figura do preceptor. A Revolução Francesa (século XVIII) e a Revolução Industrial (século XIX) introduziram mudanças [...] nas relações de produção e, sobretudo, a concentração cada vez mais ampla de população em centros urbanos tornaram imperiosa a necessidade de se eliminar o analfabetismo e dar um mínimo de qualificação para o trabalho a um máximo de pessoas. [...] Onde, pois, se desenvolve relações capitalistas, nasce a necessidade da leitura e da escrita, como pré-requisito de uma melhor condição para concorrência no mercado de trabalho (ROMANELLI, 1978, p. 59). Assim, segundo Romanelli (1978), a sociedade industrial impõe modificações na forma de encarar a educação e, consequentemente, na atuação do Estado, responsabilizando-o pela educação do povo. Surge, então, a escola pública, universal e gratuita. Nesse contexto, a adoção de métodos de alfabetização descontextualizados como a silabação5 que utiliza a progressão letra, sílaba, palavra, texto, já não cumpria com eficiência a tarefa de ensinar a ler e escrever. Surge, então, nesse período o método global que trazia para a aprendizagem a contextualização e uma proximidade com a realidade . Essa preocupação com a contextualização e aproximação com a realidade dá-se no momento em que a burguesia luta para ascender ao poder e necessita, para isso, de homens instruídos e habilitados a exercerem o seu papel no processo produtivo. Barbosa (1994) esclarece que a escolarização, tal como é conhecida hoje, trouxe a necessidade de encontrar um outro esquema de trabalho em que apenas um mestre fosse capaz de ensinar a muitas crianças rapidamente, de maneira eficaz e econômica. Portanto, aprender a escrever e ler passam a se sobrepor; ler se aprende escrevendo. A aprendizagem da leitura e da escrita, antes separada e sucessiva no tempo, torna-se coletiva e simultânea de forma que uma complemente e controle a outra. O momento histórico exigia pressa na produção dos 5 bens materiais, o mercado precisava ser abastecido para que o capital pudesse se reproduzir. A permanência desse pressuposto se evidencia no prólogo da “Cartilha Infantil” de Galhardo (1979 apud CARVALHO, 2005, p. 23, grifo do autor) defendendo o método da silabação6 “[...] como método eficiente, próprio para ensinar a ler bem, no menor espaço de tempo possível”. A partir desse breve histórico, é possível constatar como a educação, via alfabetização, foi determinada pelo processo de transformações sociais e econômicas do bloco hegemônico da sociedade. Esse processo foi garantido pelas transformações das bases materiais e, ao mesmo tempo, pelo persuasivo discurso retórico elaborado e difundido pelos intelectuais que dão suporte àquela corrente de pensamento. No século XX, mantém-se essa relação alfabetização – transformações socioeconômicas, já não mais com enfoque na estruturação do ensino escolar, mas nas metodologias, visando atender as novas necessidades sociais demandadas pelo projeto neoliberal7. Trava-se, então, um embate entre as metodologias tradicionais e as metodologias voltadas para a investigação dos processos de aprendizagem, fundamentadas na teoria da psicogênese da escrita, correspondendo a um progressivo esvaziamento em relação aos estudos de métodos de ensino e um crescente interesse no campo relativo ao processo de aprendizagem da leitura e da escrita. 3 O SURGIMENTO DE NOVAS CONCEPÇÕES SOBRE ALFABETIZAÇÃO A partir da segunda metade do século XX, verifica-se que a expansão da escola ocorreu de forma acelerada, sem que tal crescimento tenha garantido a grande parte das crianças a escolarização básica que lhes proporcionasse as ferramentas necessárias ao exercício pleno da cidadania. O final desse século “[...] impôs a praticamente todos os povos a exigência da língua escrita não mais como meta de conhecimento desejável, mas como verdadeira condição para a sobrevivência [...]” (COLELLO, 2007, p. 2). Multiplicaram-se os leitores, os textos escritos se diversificaram, novos modos de escrever foram criados. Os verbos ‘ler’ e ‘escrever’ deixaram de ter uma definição imutável: não designavam mais (e tampouco designam hoje) atividades homogêneas. Ler e escrever são construções sociais. Cada época e cada circunstância histórica dão novos sentidos a esses verbos (FERREIRO, 2002, p. 13). 6 A democratização da leitura e da escrita não significou torná-la efetiva. A escola pública obrigatória, quando foi criada, tinha a intenção de dar acesso ao conhecimento socialmente construído e formar cidadãos cônscios de seus direitos e deveres. Porém, a escola seguiu tentando ensinar uma técnica que, só depois de dominada, seria possível “[...] a leitura expressiva (resultado da compreensão) e a escrita eficaz (resultado de uma técnica posta a serviço das intenções do produtor)” (FERREIRO, 2002, p. 13), o que parece estar ocorrendo novamente com as proposições para a dicotomia – alfabetização e letramento, como veremos posteriormente. Nesse contexto, com o aumento do número de indivíduos tendo acesso à educação e, consequentemente, os números do fracasso tornando-se alarmantes, a escola não dá conta de resolver os problemas de ensino, passando, então, a responsabilizar a aprendizagem do aluno, por esse fracasso. Não é a escola que não sabe ensinar, mas o aluno que não tem competência para aprender, em razão das condições socioeconômicas e culturais. A escola, acusada de ser a implacável máquina de reprodução das relações de poder, também, é colocada no banco dos réus, assim como os baixos salários dos professores, a má formação destes e, na seqüência, a sua incompetência, justificando, assim, o fracasso escolar. Tradicionalmente, também as metodologias são alvo de investigação sobre o fracasso da alfabetização. A crença implícita era de que o processo de alfabetização encerrava-se entre os muros da escola e que o emprego adequado do método assegurava, ao professor, o sucesso da aprendizagem. Em relação às metodologias, observou-se nas últimas décadas que a busca por respostas aos problemas enfrentados pela alfabetização dirigiram os estudos e pesquisas predominantemente para a análise da alfabetização centrados na psicologia, na pedagogia e, mais recentemente, na psicolingüística, sociolingüística e lingüística. A marca comum à maioria desses estudos estava relacionada à necessidade de resultados imediatos, visando à intervenção para a superação do fracasso escolar, especialmente dos filhos da classe trabalhadora, foco das preocupações do poder econômico, em função de atender à demanda do mundo dos empregos. “A educação deve apenas oferecer as ferramentas necessárias para competir nesse mercado” (GENTILI, 1996, p. 26). Para Soares (2005, p. 29), só recentemente o termo alfabetismo [...] tem sido necessário, porque só recentemente começamos enfrentar uma realidade social em que não basta simplesmente ‘saber ler e escrever’: dos indivíduos já se requer não apenas que dominem a tecnologia do ler e do escrever, mas também que saibam fazer uso dela, incorporando-a a seu 7 viver, transformando-se assim seu ‘estado’ conseqüência do domínio dessa tecnologia. ou ‘condição’, como Nessa afirmação, há que se questionar o entendimento de que somente agora exista a preocupação com ir além do domínio da leitura e da escrita. Seria tão recentemente essa preocupação? A afirmação faz parecer que ler e escrever, anteriormente, pressupunha apenas decodificar e codificar o sistema de escrita, como se não estivesse implícito o uso deste nas relações sociais. O que significa fazer uso da leitura e da escrita no viver das pessoas? Se for para atender às necessidades de relacionamento social, sempre fez parte dos objetivos da alfabetização. Se for para criar o hábito da leitura e da escrita, isso também faz parte dos mesmos objetivos. Entretanto, na citação acima, não se explicita que concepção permeia aquele pressuposto, este parece estar desprovido de uma investigação político-social. Em uma análise generalista dos métodos de alfabetização nota-se que o objetivo destes – sintético, analítico, construtivista, sociointeracionista – é fundamentalmente a busca de sentido e compreensão do que está escrito. Portanto, no processo de aprendizagem da linguagem escrita e da leitura, isto é, codificação e decodificação da língua, é indispensável a finalidade e significação do código, sem a qual a apropriação não seria possível. As metodologias repressoras utilizadas, ainda hoje, na alfabetização contribuem para o processo de formação de não-leitores, na medida em que engessam as produções e leituras na âmbito da técnica. Que escrita é essa que a criança aprende na escola que faz com que ela ‘regrida’ quando escreve o que pensa? [...] A escola ensina palavras isoladas e frases sem sentido e não trabalha com as crianças, no ano escolar de alfabetização, o ‘fluir do significado’, a estruturação deliberada do discurso interior pela escritura (SMOLKA, 2000, p. 69). A forma como a escola trabalha e o que ela espera dos alunos não contribuem para a constituição de leitores e escritores. A expectativa da escola é que as crianças se tornem leitoras e escritoras pelo resultado de seu ensino, porém a sua prática é a negação da leitura e da escrita como “[...] prática dialógica, discursiva, significativa” (SMOLKA, 2000, p. 93). A alfabetização vai além da simples junção de letras ou decifração de um bilhete. Seus objetivos pedagógicos, segundo Teberosky e Tolchinsky (2000, p. 7), estão na capacidade de os alunos, ao terminarem a educação básica, lerem 8 [...] literal e criticamente textos alheios, de reproduzir, variar e chegar a criar os textos, adaptando-os aos diversos propósitos comunicativos. Gostaríamos que os alunos chegassem a dominar a escrita para resolver questões práticas, ter acesso à informação e às formas superiores de pensamento e desfrutar a literatura. Além dos usos sociais da escrita, os alunos também deveriam chegar a dominar os usos sociais das distintas formas notacionais que se utilizam em nossa sociedade [...]. “É claro que estar ‘alfabetizado para continuar no circuito escolar’ não garante estar alfabetizado para a vida cidadã.” (FERREIRO, 2002, p. 17). Estar alfabetizado para a vida implica em leitores que recorram ao texto, selecionado criteriosamente, buscando respostas, argumentos na defesa de suas posições ou contra-argumentando quando considerar injusta a outra posição. Implica, também, em escritores que produzam seus próprios textos para chamar o leitor a tomar posições que considerem importantes para validar pontos de vista. Por algum tempo esse foi o sentido da alfabetização, mesmo que os princípios do letramento reclame-o para si. O termo alfabetização, dadas as condições impostas pelo modelo político-econômico em vigor, já não responde mais às exigências da sociedade, desgastada pela crise por que tem passado a educação, com altos índices de evasão e repetência (história que tem se perpetuado nos últimos 20 anos), levou uma parcela dos intelectuais da educação a buscarem uma nova forma de atender a qualificação exigida pelo processo produtivo. O embate entre correntes metodológicas da aprendizagem, conduzem a uma mudança de paradigmas teóricos no âmbito da alfabetização. Os pressupostos metodológicos sucederam-se, a partir de 1960, [...] podendo ser assim resumidos: um paradigma behaviorista, dominante nos anos de 1960 a 1970, é substituído, nos anos de 1980, por um paradigma cognitivista, que avança, nos anos 1990, para um paradigma sociocultural (SOARES, 2004a, p. 10). No Brasil o paradigma cognitivista foi difundido sob a denominação de construtivismo8, influenciando hegemonicamente as práticas pedagógicas no campo da alfabetização. Segundo Soares (2004b, p. 10), o conceito psicogenético de alfabetização representou mudanças que alteraram [...] profundamente a concepção do processo de construção da representação da escrita, pela criança, que deixa de ser considerada como dependente de estímulos externos para aprender o sistema de escrita – concepção presente 9 nos métodos de alfabetização até então em uso, hoje designados ‘tradicionais’ – e passa a sujeito ativo capaz de progressivamente (re)construir esse sistema de representação, interagindo com a língua escrita em seus usos e práticas sociais[...]. Do ponto de vista pedagógico, quer parecer que os pressupostos do construtivismo contribuíram para a perda de sentido da alfabetização, anteriormente mencionado, quando mudou o foco do processo de aquisição de leitura e escrita, dando um caráter técnico (codificação e decodificação do sistema de escrita alfabética e ortográfica), cognitivo (relacionada às estruturas mentais estudadas por Piaget) e de que “[...] apenas através do convívio intenso com o material escrito que circula nas práticas sociais, ou seja, do convívio com a cultura escrita, a criança se alfabetiza.” (SOARES, 2004c, p. 11), secundarizando a leitura de mundo no dizer de Paulo Freire. Responsabilizar a proposta construtivista por uma prática equivocada de alfabetização, é, antes de tudo, uma leitura, também, equivocada e apressada da proposta construtivista, por parte daqueles que a realizaram sem o devido rigor teórico. Para que se possa fazer essa afirmativa, é necessária uma maior e melhor argumentação, em função de que é real o fato de alunos que passaram pelo processo de construção individual do conhecimento, se alfabetizaram no mais puro sentido da palavra. Leram e escreveram dando sentido e razão à palavra. Não se negam as limitações da proposta de Ferreiro (2002) e Teberosky e Tolchinsky (2000), por exemplo, ao não considerar a relevância da dimensão discursiva da escrita. Porém, também não se pode negar suas contribuições, explicando a aprendizagem pela ação do sujeito sobre o objeto de conhecimento. 4 A RELAÇÃO PROFESSOR E CONHECIMENTO EM ALFABETIZAÇÃO Em decorrência de todos os problemas enfrentados pelo sistema de ensino, em relação à situação de analfabetismo no Brasil, um outro aspecto que merece reflexão é como o professor se insere nesse contexto. As discussões em torno da atuação do professor têm, muitas vezes, se restringido ao seu papel na escola, às metodologias de ensino que utiliza, às questões pertinentes à sua formação. Outras indagações podem ser feitas e uma delas diz respeito ao conhecimento de que o professor necessita para cumprir sua tarefa nessa esfera da sociedade. Seguindo o percurso histórico da sociedade, pode-se considerar que a atuação do professor sempre esteve ligada aos interesses das forças hegemônicas, visto que desde a sua 10 gênese o conhecimento foi usado como instrumento de poder para manter os privilégios de alguns e submeter tantos outros à manutenção do status quo. Partindo do princípio de que “[...] a escola é uma instituição cujo papel consiste na socialização do saber sistematizado[...]” (SAVIANI, 2003, p. 14), é de fundamental importância que o professor resgate o objeto e a essência de seu trabalho, buscando a especificidade de um conhecimento elaborado e não fragmentado. É necessário ter claro a concepção de conhecimento que fundamentará o seu trabalho. Não basta conhecer os mecanismos que levam à aprendizagem da leitura e da escrita. Antes é preciso conhecer a leitura e a escrita. Esse conhecimento diz respeito à compreensão que o professor tem dos significados políticos e sociais dessa cultura. As concepções que permeiam a sua maneira de ensinar tem relação direta com o entendimento da correspondência – ser alfabetizado e ser homem emancipado. Se ele entende o homem como um ser fragmentado, então a alfabetização será trabalhada como se houvessem dois momentos de aprendizagem: um para aprender o código e outro para interpretá-lo. Ao contrário, se entender o homem como uma unidade, então a alfabetização dar-se-á em um momento consagrado à produção e recepção de significados como constituintes da linguagem. De acordo com Bakhtin (1988 apud KRAMER, 2005, p.27), [...] toda palavra tem intenções, significados; para que se possa entender o discurso (o texto falado ou escrito), o contexto precisa ser entendido. A compreensão implica não só a identificação da linguagem formal e dos sinais normativos da língua, mas também os subtextos, as intenções que não são explicitadas. O conhecimento é a relação entre sujeito e objeto e se dá no tempo humano, portanto histórico. Sendo histórico deve ser coletivo, pois essa relação não é somente entre um ser e o mundo, uma vez que não vivemos sozinhos, assim o conhecimento é também social. O que é conhecimento em um determinado momento histórico pode não ser em outro, pode ser para um grupo social, mas não para outro, configurando-se, então, como uma construção cultural. O conhecimento sempre esteve atrelado às determinações do poder hegemônico e, por isso mesmo, aquele tem sido socializado de forma a atender aos interesses deste. O professor, ao tomar consciência de como isso reflete na concepção que ele tem de sociedade, de homem e, por extensão, de conhecimento, passa a compreender a importância de desmistificar a noção triunfalista das ciências (as ciências e os cientistas como entidades divinizadas). Estas deixam de ser privilégio de uma casta de escolhidos e transforma-se em possibilidade para 11 todos. Ele, o professor, não negaria ao aluno o entendimento das condições culturais, históricas e sociais de produção do conhecimento, favorecendo a relativização até mesmo das ciências mais estáveis e exatas como a Matemática. É importante enfatizar que qualquer que seja o conhecimento este advém das ações dos homens e estão impregnadas da cultura que produzimos e que nos produz; portanto, repletas de intencionalidade. A busca da verdade/conhecimento pressupõe finalidade, ou seja, intencionalidade e esta é sempre social e histórica. Ela está inserida no processo de homens e mulheres produzirem o mundo. Por conseguinte, toda a ação do professor está carregada de intencionalidade, conferindo a ele a responsabilidade de um ensino que auxilie o aluno vislumbrar o mundo como resultado de sua própria construção, ao mesmo tempo em que o constrói. Se o professor dá sentido àquilo que está ensinando, proporciona ao aluno condições de avançar na capacidade de compreender e intervir na realidade, superando as condições em que se encontra, gerando autonomia e humanização. Nesse sentido, a maneira como o professor trata o conhecimento a ser ensinado, está diretamente ligada à concepção que tem de sociedade. Se ele – professor - percebe o aluno como sujeito capaz de conhecer, então, propiciará um saber livre de quaisquer preconceitos. Na perspectiva de que o conhecimento é condição para transformar em realidade o ideal de emancipação humana, também não se pode ter a visão ingênua de que basta conhecer para que mudanças ocorram. É necessário ter claro que conhecer possibilita a manutenção ou intervenção na realidade, e depende da intensidade de confrontos hegemônicos e antagônicos de uma dada concepção de mundo. A mudança ou manutenção da realidade poderá acontecer, não por vontade individual, mas por um processo coletivo inevitável. 5 ALFABETIZAÇÃO OU LETRAMENTO Para Dubois (1973 apud MENDONÇA, 2007, p. 22), o fonema “[...]é uma unidade vazia, desprovida de sentido”, indicando que a alfabetização, como querem os teóricos do letramento, é desprovida de sentido, apenas um ato mecânico. A alfabetização é repleta de sentido, desde a definição dos pressupostos que a fundamentam, até a escolha do método, que contemple o modus vivendi da criança, reconhecendo a sua fala natural, sem artificialidades, facilitando a compreensão do sistema de escrita e dando sentido a ele. Se entendermos alfabetização como um conjunto de letras, de sílabas, de palavras e de frases, compartilhando do pensamento de que linguagem seja similar à superposição de tijolos, deixamos de considerar que a escrita requer a incorporação de aspectos discursivos da 12 linguagem escrita. As palavras, segundo Bakhtin (1988 apud Kramer, 2005), têm conteúdo e sentido ideológico; não são apenas pronunciadas ou escutadas. A língua “[...] se transforma no tempo e se diversifica no espaço.” (CAMACHO, 1988 apud MENDONÇA; MENDONÇA, 2007, p. 30 ). As variações lingüísticas – históricas, geográficas, sociais e estilísticas – devem ser respeitadas no processo de aprendizagem da língua. Smolka (2000, p. 68), que trabalha com os pressupostos de Vygotsky, argumenta, em relação à escrita: [...] 1. implica que o processo de leitura transforma, enquanto constitui, os modos de percepção da própria escrita; 2. implica que a escrita, enquanto trabalho de explicitação e organização, também transforma e constitui o movimento discursivo interior. Desse modo a escrita, como instrumental elaborado pelos homens, transforma, pela sua utilização, as estruturas psicossociais dos próprios homens. A alfabetização, do ponto de vista da interação, da interdiscursividade9, compreende socialmente as funções, as condições e o funcionamento da escrita, como também a atividade mental, afora a atividade cognitiva no sentido piagetiano, como atividade discursiva subjacente à elaboração conceitual da palavra. “Enquanto escreve, a criança aprende a escrever e aprende sobre a escrita.” (SMOLKA, 2000, p. 63). A descaracterização da alfabetização explica, de certa forma, o surgimento de um termo que venha preencher a lacuna deixada por esta. Letramento é a palavra buscada na língua inglesa (literacy) para dar significado àquele “[...] que não só sabe ler e escrever, mas também faz uso competente e freqüente da leitura e da escrita.” (SOARES, 2006, p. 36). Letramento, para alguns, “[...] focaliza-se nos aspectos sócio-históricos da aquisição da escrita.” (TFOUNI, 2006, p. 9), entretanto, esta posição dicotomiza a integralidade da alfabetização como ação política e como construção social, tirando, daquela, e, consequentemente, da educação o caráter de libertação como preconiza Paulo Freire, tornando-a uma mera aprendizagem das técnicas da escrita. Tfouni (2006, p. 13), ao assumir que a escrita está associada “[...] ao jogo de dominação/poder, participação/exclusão[...]”, confere ao surgimento de uma nova terminologia – o letramento - uma intencionalidade e uma ideologização, deixando claro que isso é mais um fenômeno da reprodução do capital. Se letramento é considerado, por alguns autores, como um processo sócio-histórico, a discussão que precisaria ser levada a cabo, deveria se encaminhar para a compreensão e análise da sociedade em que o não alfabetizado se insere. O debate deveria ser sócio-histórico 13 e não terminológico. Não é preciso um outro termo para dizer que o letrado, ou seja, o alfabetizado, é aquele que posta-se de maneira diferente no mundo, estabelecendo outro tipo de relação com a sociedade. A hipótese levantada por Soares (2006), de que a pessoa letrada pensa diferente da pessoa analfabeta, pressupõem a idéia preconceituosa de que apenas os letrados sejam capazes de entender o mundo e portanto de organizá-lo e tomando decisões pela maioria. É possível aprender somente na escola? Paracelso, estudioso suíço do século XVI (apud MÉZÁROS, 2006, p.21), afirma: “A aprendizagem é a nossa própria vida, desde a juventude até a velhice, de fato quase até a morte; ninguém passa dez horas sem nada aprender.” Essa concepção ampla de educação denota que a maior parte do tempo aprende-se fora da escola e que “[...] esses processos não podem ser manipulados e controlados de imediato pela estrutura educacional formal legalmente salvaguardada e sancionada.” (MÉZÁROS, 2006, p. 53). Aprende-se desde o momento do nascimento, passando por todos os âmbitos da vida humana, sendo compartilhado de diferentes maneiras, em conflitos e confrontos políticos ou sociais, com todas as pessoas que fazem parte do ambiente material durante toda a vida. A educação formal é apenas uma pequena parte dessa aprendizagem. “Os jovens podem encontrar alimento intelectual, moral e artístico noutros lugares.” (MÉZÁROS, 2006, p. 53). Isso confere ao homem autoridade sobre sua própria vida. A afirmação de Soares (2004) vem corroborar, mais uma vez, a intencionalidade ideológica do pensamento neoliberal, na formulação de novas concepções em educação para fortalecerem as suas práticas econômicas. [...] comportamentos e práticas sociais de leitura e de escrita foram adquirindo visibilidade e importância à medida que a vida social e as “atividades profissionais” foram se tornando cada vez mais centradas na e dependentes da língua escrita, revelando a insuficiência de apenas alfabetizar – no sentido tradicional – a crianças e adultos (SOARES, 2004a, p. 18, grifo nosso). E as instituições públicas de ensino assumem esse discurso retórico como verdade absoluta, sem a devida análise crítica e a verificação dos conseqüentes desdobramentos para o caráter político da educação. Quando educadores apresentam letramento como síntese de “[...] comportamento e habilidades de uso competente da leitura e da escrita em práticas sociais [...]” (SOARES, 2004b, p. 18), é importante atentar para um detalhe fundamental: esse uso competente em práticas sociais não deve ser confundido com busca de transformações sociais radicais na 14 realidade social, mas sim uso competente em termos de capacidade de encontrar novas formas de ação que permitam melhor adaptação aos ditames do processo de produção e reprodução do capital. Para Soares (2006, p. 45), o surgimento de uma terminologia está diretamente ligado à ocorrência de novos fatos na sociedade: “[...] a sociedade vai se tornando cada vez mais centrada na escrita [...]”, evidenciando que apenas ler e escrever não é mais suficiente para a inserção na sociedade. Em primeiro lugar, os homens não podem ser inseridos na sociedade porque eles são a sociedade. Em segundo lugar, ao se observar o período de mudanças mais recentes das formas de reprodução do capital, elas coincidem com o surgimento do termo letramento. Esse é o mecanismo de reprodução do capital: estar sempre criando novas necessidades para alimentar o mercado. Lerner (2002, p. 29) observa que a escola, enquanto instituição, passa por tensões polarizadas entre a rotina repetitiva e a moda. A primeira justificando conteúdos e métodos e a segunda difundindo inovações que nem sempre estão claramente explicitadas. A autora segue dizendo que a inovação tem sentido quando o conhecimento anterior é retomado e superado, o que parece, ainda, não ter acontecido em duas décadas de proposição do letramento, haja vista a manutenção do índice de “não letrados” oriundos do sistema educacional. Ao se referir a busca de soluções para os problemas educativos, Lerner (2002) assinala que é necessário distinguir as propostas entre as que procuram rigorosidade nas mudanças e as que são características do campo da moda. As primeiras têm, em geral, muita dificuldade para se expandir no sistema educativo, porque afetam o núcleo da prática didática vigente; as segundas – embora sejam passageiras – se irradiam facilmente, porque se referem a aspectos superficiais e muito parciais da ação docente (LERNER, 2002, p. 31). Soares (2006, p. 58) coloca que a “[...] escolarização real e efetiva da população [...] e disponibilidade de material de leitura[...]” são condições necessárias para que haja letramento. Argumenta, também, que não se disponibiliza material impresso, que o número de bibliotecas e livrarias é muito pequeno, que os preços de jornais, livros e revistas são impraticáveis e que isto explicaria o fracasso das campanhas de alfabetização no Brasil. Isto poderia se caracterizar em uma visão reformista da educação, implicando em pequenos ajustes correspondentes ao de outros âmbitos da sociedade, o que limitaria as reais possibilidades de 15 mudanças sociais. A questão que se coloca é que, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD (2000/2001), 44,7% da população brasileira está abaixo da linha da pobreza e outros 14,7% (PNUD, 2000/2001) vivem em condições de subemprego ou sobrevivem com um salário de R$ 380,00, ou menos, (Organização das Nações Unidas, 2007). Nesse sentido, ao invés de centralizar a discussão em uma mudança terminológica, a preocupação deveria ser outra. Certamente, a imediata e concomitante superação dessas condições fará com que ocorra o que Soares (2006) define como letramento, que nada mais é do que a alfabetização, reafirmando o entendimento desta como ato político e não como a mecanização do código escrito. Para que haja a superação do analfabetismo, é necessário que a educação, como componente do quadro social, seja percebida sob outros pressupostos; para que haja mudanças significativas, as condições de vida humana devem ser outras. A simples alteração terminológica não modifica as condições dadas e as necessidades fundamentais – materiais e intelectuais - das pessoas. Esse entendimento de que a educação é a solução para todos os males da sociedade tem levado a equívocos que mudam o foco da luta pela transformação social. Segundo Mézáros (2005, p. 25) As mudanças sob tais limitações, apriorísticas e prejulgadas, são admissíveis apenas com o único e legítimo objetivo de corrigir algum detalhe defeituoso da ordem estabelecida, de forma que sejam mantidas intactas as determinações estruturais fundamentais da sociedade como um todo, em conformidade com as exigências inalteráveis da lógica global de um determinado sistema de reprodução. O que se afirma referenciado na concepção de letramento, também pode ser afirmado em ralação à alfabetização. A intencionalidade de sensibilização para a leitura, os critérios para formar-se leitor – acesso, ambiente, variedade textual, interlocução – todos esses elementos são paradigmas da alfabetização. Para se estabelecer letramento como novo fenômeno, primeiramente é preciso refletir sobre as condições em que se dá a alfabetização. Se esta não tem cumprido com eficácia sua função social de estimular o gosto pela leitura e o uso formal da língua, não justifica a eleição de um outro termo para que isso ocorra. Antes, é necessário que se retome o real sentido de alfabetização, proporcionando as condições reclamadas pelo letramento. Entretanto, as condições adequadas para que a alfabetização se cumpra integralmente 16 não estão isoladas das condições de vida do homem. As mudanças em educação estão na medida das transformações estruturais da sociedade e estas acontecerão se e quando a prioridade for as necessidades humanas, ao invés da reprodução do capital. Mesmo com todo o aparato que letramento ou alfabetização possam proporcionar aos futuros leitores, observa-se que alunos que tiveram a oportunidade de vivenciar esses benefícios, seja pelas condições socioeconômicas e hábitos familiares que possibilitaram o acesso aos meios, seja pelo trabalho desenvolvido pela escola, objetivando a formação de leitores, permaneceram, após a escolarização e o esforço familiar, na condição de não letrados. Isto é, há limites para o leitor que, muitas vezes, não podem ser transpostos apenas com a adoção de práticas pedagógicas. Ser leitor implica, também, na percepção e concepção de mundo que se tem. Nesse sentido, Mézáros (2005, p. 26) traz maior clareza à reflexão: Não surpreende, portanto, que mesmo as mais nobres utopias educacionais, anteriormente formuladas do ponto de vista do capital, tivessem de permanecer estritamente dentro dos limites da perpetuação do domínio do capital como modo de reprodução social metabólica. Os interesses objetivos de classe tinham de prevalecer mesmo quando os subjetivamente bemintencionados autores dessas utopias e discursos críticos observavam claramente e criticavam as manifestações desumanas dos interesses materiais dominantes. Suas posições críticas poderiam, no limite, apenas desejar utilizar as reformas educacionais que propusessem para remediar os piores efeitos da ordem reprodutiva capitalista estabelecida sem, contudo, eliminar os seus fundamentos causais antagônicos e profundamente arraigados. Retomar o sentido político da alfabetização, não se trata de volta ao passado como diz Soares (2004d), mas sim investigar mais detidamente as razões e os porquês do surgimento de uma nova ordem. Trata-se de analisar em que momento histórico do capitalismo isso foi proposto e quais as necessidades de reprodução do capital impuseram essa mudança de paradigma. Não é uma questão de que alfabetização e letramento sejam momentos indissociáveis de aprendizagens da língua escrita, como afirma Soares (2004e). Não se pode separar a aprendizagem do código de escrita do seu uso social porque são momentos simultâneos. Tal concepção encerra apenas a superficialidade da linguagem, pois a língua é um objeto histórico. A questão é que alfabetização, como ato de conhecimento, como ato criador e como ato político, satisfaz a compreensão do que seja saber ler, escrever e fazer uso destes nas práticas sociais. O que é considerado como letramento está implícito na alfabetização. 17 Letramento, alfabetizar letrando ou letrar alfabetizando, são arranjos criados na tentativa de esvaziar o caráter político da educação e alfabetização. Não é uma briga de terminologias. Trata-se de preservar o peso e a tradição da alfabetização, no contexto do paradigma da educação popular. É manter posição frente à ideologia dominante. A análise desenvolvida neste texto, não é questão fechada, não se encerra aqui. Cabe a todos nós educadores aprofundarmos os estudos e as discussões a cerca do tema, para ratificar ou retificar o que aqui está posto. 6 CONCLUSÃO Há que se questionar as introduções emergenciais colocadas pela ideologia hegemônica, analisando os interesses e intenções existentes nas novas formas propostas de alfabetização, estudando-as no seu contexto histórico e buscando os motivos e as razões embutidas no pensamento de quem as propõe. Aceitar uma verdade sem a devida indagação da consistência e da argumentação é, no mínimo, ser conivente com o status quo. É preciso que se questione, que se investigue, para que não simplifiquemos a questão do analfabetismo. Será que não estamos diante de uma visão reformista e não transformadora de alfabetização? Quando as questões são dadas como absolutas há de se inquietar. Será que apenas a transferência de objetivo de uma palavra para outra resolveria o problema crônico do alfabetizado funcional (aquele que codifica e decodifica a escrita, mas não a utiliza na sua prática social)? Será que não é possível uma proposta de revisão da alfabetização quanto ao seu sentido e uma análise mais criteriosa quanto aos princípios do letramento? Poucas pesquisas discutem essa questão de forma crítica. Há que se investigar com mais radicalidade essa idéia. Se realmente estivermos convictos de que somos construtores e produto da história, então se torna de fundamental importância a reflexão sobre o tema, na perspectiva em que aqui foi tratada, para que, como construtores, possamos intervir, com a parte que nos cabe, no processo de formação de nossos alunos, buscando consistência e rigorosidade teórica ao nosso trabalho. Ao considerar-nos como determinantes do processo de construção histórica e que nessa condição podemos contribuir para a formação de homens que compreendam criticamente a sociedade em que vive e que, assim sejam capazes de transformá-la, nesse 18 instante, estaremos possibilitando a superação dos conflitos mundiais, inicialmente mencionados. Acreditamos que ao entendermos como a história é determinada pelos homens e como é a lógica do capital e as armadilhas em que ele nos envolve, talvez consigamos orientar a nossa prática para uma proposta de ensino que rompa com as correntes hegemônicas, repensando o nosso fazer pedagógico e dando novo significado à história. Freire (1984, p. 47) alerta: [...] fazer a História é estar presente nela e não simplesmente nela estar. Pobre do povo que aceita, passivamente, sem o mais mínimo sinal de inquietação, a notícia segundo a qual, em defesa de seus interesses, ‘fica decretado que, nas terças-feiras, se começa a dizer boa noite a partir das duas horas da tarde’. Este será um povo puramente representado, já não presente na história. REFERÊNCIAS BARBOSA, J. J. Alfabetização e leitura. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1994. CARCANHOLO, M. D. Neoliberalismo e o consenso de Washington: a verdadeira concepção de desenvolvimento do governo FHC. In: MALAGUTI, M. L.; CARCANHOLO, R. A.; CARCANHOLO, M. 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São Paulo: Cortez, 2006. 20 1 Pedagoga, Especialista em Metodologia do Ensino Superior e Especialista em Educação Física de 1ª a 4ª Série do Ensino Fundamental, Técnica do Centro de Formação de Formadores (CEFOR), da Secretaria Municipal de Educação de Campo Grande/MS e Pós-Graduanda em Organização do Trabalho Pedagógico em Educação Matemática. 2 Entende-se o currículo como a sistematização dos conhecimentos produzidos por “[...] indivíduos determinados, que como produtores atuam de um modo também determinado, estabelecem entre si relações sociais e políticas determinadas” (MARX, 1991, p. 35). 3 Denominação dada a reunião (novembro de 1989) “[...] entre membros dos organismos de financiamento internacional (FMI, BID, Banco Mundial), funcionários do governo americano e economistas latinoamericanos.” (CARCANHOLO, 1998, p. 25) , objetivando avaliar as reformas econômicas realizadas na América Latina. 4 O conceito de Estado que fundamenta este trabalho é o do Estado como instituição que perpetua a divisão da sociedade em classes e mantém o direito da classe possuidora explorar a não-possuidora e o domínio da primeira sobre a segunda. Poder acima das classes em luta, destinado a suprimir os conflitos destas e só permitir a luta de classes no campo econômico, numa forma dita legal. Mediador aparente (ENGELS, 1982). Ainda para Engels, o Estado não é um poder imposto à sociedade, mas antes de tudo um poder emanente dela. O Estado está na raiz do antagonismo das classes sociais que compõem a sociedade civil. Analisadas essas referências, é possível concluir que o Estado é, essencialmente, a expressão e o instrumento de reprodução dos interesses das classes dominantes. 5 A soletração, também denominada alfabeto ou ABC, surgiu na Antigüidade permanecendo até, aproximadamente o século XVI, sendo considerada o primeiro método de ensino. 6 Incluído no rol dos métodos sintéticos. 7 Entende-se neoliberalismo como a ideologia que justifica e defende os princípios do capitalismo, baseado nos interesses individuais, na propriedade privada, na liberdade de empresa, o que significa nenhuma intervenção do Estado na economia. Sua premissa maior é o lucro individual. 8 O construtivismo como prática pedagógica, está fundamentada na teoria psicogenética de Piaget. 9 “[...] movimento das formações e transformações discursivas de um ponto de vista sócio-histórico-cultural, considerando como fundamento da discursividade a relação com o outro” (SMOLKA, 2000, p. 62).