ANAIS QUALIDADE DE RELACIONAMENTO COM FORNECEDORES E IMPACTOS DE VARIABILIDADES EM PROCESSOS DE UMA CADEIA DE SUPRIMENTOS: UM ESTUDO DE CASO EXPLORATÓRIO LETÍCIA RAMOS CARVALHO ( [email protected] ) CEPEAD/FACE/UFMG MARCOS PAULO VALADARES DE OLIVEIRA ( [email protected] ) UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS HELIO ZANQUETTO FILHO ( [email protected] ) PPGADM/CCJE/UFES RESUMO: Este trabalho explora a relação entre a qualidade dos relacionamentos desenvolvidos entre empresas em cadeias de suprimentos e a capacidade de redução de impactos financeiros gerados a partir de variabilidades incorridas em processos. Em um estudo de caso, são analisados os relacionamentos entre uma organização e dois fornecedores de serviços logísticos em situações em que ocorreram variabilidades nos processos de transporte de mercadorias, tomando como base aspectos da qualidade de relacionamento identificados a partir de uma revisão de literatura sobre o tema. Palavras-chave: Qualidade de relacionamento; relacionamentos variabilidades em cadeias de suprimentos; custos de variabilidades. com fornecedores; INTRODUÇÃO A ideia de se promover o desenvolvimento de relacionamentos de qualidade, próximos e duráveis, com um grupo seleto de fornecedores e clientes vem sendo recorrentemente explorada na literatura (ex., PARSONS, 2002; FYNES et al., 2005; ULAGA; EGGERT, 2006; HUNTLEY, 2006; SINGH; POWER, 2009). No âmbito da gestão dos processos logísticos em organizações, é notável a necessidade de se promoverem relacionamentos com muitos stakeholders, tanto internos, nas áreas de produção e vendas, quanto externos, com os fornecedores de serviços logísticos, parceiros comerciais e clientes – contexto esse que se apresenta dependente de diferentes interesses e forças e vulnerável às incertezas. O presente artigo explora a hipótese de que a qualidade de relacionamento desenvolvida com os fornecedores (stakeholders envolvidos na situação) pode contribuir para a minimização dos impactos financeiros gerados devido às variabilidades em seus processos logísticos. Particularmente, nos processos de distribuição física de uma organização, à jusante na cadeia de suprimentos, muitas são as variáveis do ambiente que interferem na função logística para atendimento dos clientes. Um dos problemas dessas interferências refere-se à necessidade de a gestão operacional diária de suas variabilidades, uma vez que podem assumir conseqüências relevantes para a organização como um todo, especialmente quando afetam consideravelmente o desempenho financeiro. Considerando os impactos negativos no desempenho financeiro que essas variabilidades podem provocar (GERMAIN et al., 2008), torna-se pertinente explorar formas 1/17 ANAIS de lidar com tais situações objetivando minimizar seus impactos, tanto naquelas variáveis gerenciáveis como naquelas que não se pode controlar. Diante do interesse de pesquisa apresentado, em um primeiro momento, fez-se necessário realizar um levantamento bibliográfico acerca dos aspectos mais comumente encontrados na literatura sobre qualidade de relacionamento, uma vez que o tema “qualidade de relacionamento” tem sido objeto de investigação científica nos campos do marketing e da gestão de cadeias de suprimentos, porém a sua definição e sua operacionalização diferem consideravelmente, conforme afirmam Jap et al. (1999), Walter et al. (2003), Woo e Ennew (2003), Ulaga e Eggert (2006), Fynes et al. (2004), Huntley (2006) e Kim et al. (2010). Este trabalho, portanto, visa somar ao desenvolvimento do conhecimento científico sobre qualidade de relacionamento na cadeia de suprimentos, uma vez que as pesquisas nesse tema são ainda recentes e não existe consenso na literatura a respeito de quais variáveis devem ser mais relevantes para seu estudo empírico. Ou seja, a revisão da literatura não se constitui unicamente como uma necessidade anterior à realização do estudo de caso, mas sim como um objetivo intermediário que visa apresentar seus resultados de forma que outros autores possam utilizá-los em outras pesquisas empíricas. Assim, tendo-se alcançado o primeiro objetivo da pesquisa, decidiu-se por realizar um estudo de caso piloto, por meio de uma pesquisa empírica. O objetivo desta foi investigar de que maneira a gestão da qualidade dos relacionamentos de uma grande organização com seus fornecedores de serviços de distribuição física de produtos pelo modal marítimo impactam seus resultados. A escolha do tema se justifica, principalmente, pelo entendimento de que a gestão das variabilidades nos processos da cadeia de suprimentos é relevante para a redução de custo e aumento dos ganhos dos entes envolvidos. Além disso, esse tema tem sido apresentado recentemente na literatura, merecendo, então, maiores reflexões acerca de sua fundamentação teórica. Finalmente, a escolha do estudo piloto envolvendo o modal marítimo oportuniza a investigação empírica de um modal a respeito do qual não se tem conhecimento de muitos estudos. Destaca-se que o presente artigo é parte de uma pesquisa maior que procura investigar o possível impacto da qualidade de relacionamento em situações de variabilidades em processos, no seu desempenho financeiro e não financeiro. Após esta breve introdução, são apresentadas as principais bases teóricas deste estudo discutindo os conceitos de variabilidade de processos e qualidade de relacionamento. A seguir, são discutidos os procedimentos metodológicos utilizados e, em seguida, os dados do caso são explorados. Ao final, a seção de considerações finais encerra o artigo apresentando as principais questões exploradas no estudo de caso. VARIABILIDADES EM PROCESSOS De acordo com Bowersox e Closs (2001), um objetivo básico do desempenho logístico é reduzir a variância, resultante de qualquer acontecimento inesperado que perturbe o desempenho do sistema. Tal objetivo, segundo o que argumentam Christopher e Holweg (2011), é um desafio crescente para as organizações, visto que vivemos em uma era de crescentes e concomitantes volatilidades em diferentes parâmetros de negócios – a chamada “era da turbulência”. Variabilidade nos processos da cadeia de suprimentos é entendida por Germain et al. (2008) como o nível de inconsistência, ou volatilidade, no fluxo de bens que chega, atravessa e sai de uma empresa. Ou seja, segundo os pesquisadores, a variabilidade nos processos da 2/17 ANAIS cadeia de suprimentos considera a (in) consistência nos fluxos para dentro e para fora da firma, bem como variações internas, como lead-times e taxas de saída de produção. Tais variabilidades são causadas por eventos de ruptura na cadeia de suprimentos, conforme denominam Trkman e McCommarck (2009), cujos riscos diferem em termos de probabilidade, fonte de ocorrência e consequências. Os autores propõem uma separação para as fontes de incerteza em dois diferentes construtos: incerteza endógena e incerteza exógena e apontam que o risco de rupturas causadas tanto por fatores internos às cadeias de suprimentos quanto por forças ambientais externas é uma das principais inquietações para ambos os gestores e os acadêmicos. Impactos financeiros de variabilidades Germain et al. (2008) consideram a variabilidade em processos da cadeia de suprimentos importante por duas razões: (1) as implicações negativas da variabilidade para o desempenho da organização (devido a ambos os custos diretos e de oportunidade) e (2) o potencial de amplificação da variabilidade, tanto dentro de uma empresa quanto entre empresas. Em relação ao segundo ponto, destaca-se o chamado efeito chicote; já em relação aos custos gerados, são exemplos, segundo os autores: os custos associados com horas extras, capacidade ociosa, excesso ou falta de estoques, fretes premium, trocas, movimentação de materiais, manutenção de registros, irregularidades na qualidade, clientes insatisfeitos, interrupções no ritmo de transferência, e outros (GERMAIN et al., 2008). Especificamente em relação aos processos de distribuição de produtos a clientes, à jusante na cadeia de suprimentos, rupturas no transporte entre variados elos na cadeia podem causar consideráveis atrasos ou não-entregas (WILSON, 2007). São eventos discretos, causados por incertezas exógenas de acordo com a classificação de Trkman e McCommarck (2009), que se configuram como variabilidades relevantes para uma cadeia de suprimentos. Em situações em que seja necessário corrigir falhas efetivamente ocorridas, custos podem ser gerados sob dois modos: visando solucionar a situação de ruptura – evitando, por exemplo, perder uma venda; ou visando reverter ou amenizar as conseqüências da falha ocorrida (FARIA; COSTA, 2008). Vê-se, deste modo, uma íntima relação entre a capacidade de uma empresa reagir a uma situação de variabilidade em sua cadeia de suprimentos e os custos decorrentes dela que serão adicionados ao seu custo logístico total. Mesmo que a empresa consiga repassar para seus clientes, por meio de seu preço, todos os desperdícios, custos ocultos ou custos de falhas, seu lucro só será obtido pelo diferencial entre suas receitas e seus custos totais, que estarão “inchados” pelos referidos itens, que não agregam valor (FARIA; COSTA, 2008). A análise do caso deste trabalho utiliza como premissa que a gravidade de uma falha ocorrida pode ser mensurada em termos monetários, conforme afirmam Faria e Costa (2008), sendo representada pelo “somatório de todos os custos das atividades adicionais que foram necessárias para que o bem ou serviço fosse disponibilizado ao usuário final” (p. 136). Entretanto, não coube ao escopo mensurar diretamente, por meio de indicadores monetários, os impactos das variabilidades identificadas no caso, apenas procurar identificar quais os impactos negativos gerados pelas variabilidades que estão associados com custos superiores. QUALIDADE DE RELACIONAMENTO NA CADEIA DE SUPRIMENTOS 3/17 ANAIS No fim da década de 1990, Jap et al. (1999) apontaram que essa provavelmente seria lembrada na história da Administração como a década do marketing de relacionamento. De fato, é possível considerar que, por mais de uma década, o marketing de relacionamento domina a teoria e a prática da área (HUNTLEY, 2006), evidenciando uma perspectiva alternativa à visão transacional na teoria mercadológica, que vê a lucratividade dos relacionamentos com clientes como um de seus principais objetivos (STORBACKA et al., 1994). Segundo a visão relacional do marketing, a maximização do valor do cliente é possível mediante o cultivo de relacionamentos de longo prazo (KOTLER; KELLER, 2006), visto que relacionamentos de qualidade entre compradores e vendedores vinculam-nos entre si de maneira tal que eles se tornam capazes de colher benefícios além da mera troca de bens e moeda (MACNEIL, 1980 apud JAP et el., 1999). De maneira similar, Fynes et al. (2005) consideram que as relações nas cadeias de suprimentos sofreram algumas mudanças dramáticas nos últimos tempos. As empresas foram encorajadas a desenvolver relacionamentos mais próximos tanto com fornecedores quanto com clientes. De acordo com os autores, a visão predominante das diferentes teorias usadas para explicar a natureza dos relacionamentos em cadeias de suprimentos sugere que as práticas mudaram da perspectiva de economizar em custos de transação nas díades, na qual os relacionamentos de negócios são vistos como fenômenos isolados, para a perspectiva dos relacionamentos, que evidencia interdependência, conectividade e relações íntimas. Uma forte razão para isso é apontada por Ulaga e Eggert (2006), quando consideram, dada a forte tendência global em direção a bases de suprimento reduzidas, que o desafio de se mover para uma posição principal de fornecimento – e de defender essa posição superior contra fornecedores alternativos – se torna uma questão de máxima relevância para fornecedores industriais. A partir de uma revisão de literatura, Daugherty (2011) pontua que dois livros publicados pelo Council of Logistics Management (atual CSCMP – Council of Supply Chain Management Professionals), ainda no final dos anos 1980 – Bowersox et al. (1989, apud DAUGHERTY, 2011) e La Londe et al. (1988, apud DAUGHERTY, 2011) – tocaram em como os relacionamentos logísticos estavam mudando. Esses livros, segundo a autora, usaram termos como parceiros e alianças, os quais estavam prestes a se tornarem tópicos proeminentes na literatura acadêmica e prática sobre logística. Corroborando seu pensamento, Davis-Sramek et al. (2006) notam que, atualmente, a ênfase em relacionamentos interorganizacionais cada vez mais próximos é evidente tanto na prática profissional quanto na literatura acadêmica. Relacionamentos duráveis com fornecedores selecionados passaram a ser vistos como uma fonte de posicionamento competitivo mais forte. Eles podem possibilitar às empresas serem mais eficientes em procurement, bem como mais efetivas na entrega de qualidade e/ou na redução dos custos de transação (WALTER et al., 2003). Nesse contexto, a qualidade de relacionamento pode ser considerada como um construto significativo que captura características integrais de um relacionamento com fornecedor (WALTER et al., 2003) ou com um cliente. Qualidade de relacionamento (do inglês, relationship quality) é um construto latente de ordem superior, ou seja, um conceito teórico que não pode ser medido diretamente, mas sim por meio de outros construtos, anteriores, que o definem. Estes, por sua vez, são passíveis de mensuração por meio de diferentes variáveis. (HENNIG-THURAU, 1997; JAP et al., 4/17 ANAIS 1999; NAUDE; BUTTLE, 2000; PARSONS, 2002; WALTER et al., 2003; FYNES et al., 2004; WOO; ENNEW, 2004; FYNES et al., 2005; HUNTLEY, 2006; KIM; 2010). De acordo com Woo e Ennew (2004), existe concordância geral na literatura de que qualidade de relacionamento, como qualidade de produtos ou serviços, seja um construto multidimensional. Entretanto, diversos pesquisadores notam uma falta de consenso no meio científico acerca da definição precisa do que seja um relacionamento de qualidade, bem como dos atributos que o compõem, dos precedentes e das conseqüências (ex., JAP et al., 1999; WALTER et al., 2003; WOO e ENNEW, 2003; ULAGA, 2004; FYNES et al., 2004; HUNTLEY, 2006; KIM et al., 2010). Além disso, a “nebulosidade” percebida em uma revisão da literatura inclui o fato de que a avaliação de relacionamentos de negócios pode ser observada sob diferentes formas, empregando diferentes termos (construtos) como qualidade de relacionamento, valor relacional (COUSINS et al, 2006), proximidade (GOFFIN et al., 2006), parcerias de sucesso (MOHR; SPEKMAN, 1994), colaboração (SINGH; POWER, 2009; DAUGHERTY, 2011) e magnitude (GOLICIC; MENTZER, 2006), que muitas vezes se aproximam ou se sobrepõem. Uma dessas diferentes formas se apresenta quando Goffin et al. (2006), citando Mohr e Nevin (1990) e Webster (1992), consideram que relacionamentos de negócios, especificamente com fornecedores, podem variar em um continuum desde transações puramente discretas, a transações repetidas, relacionamentos de longo prazo e até as parcerias, que seriam as relações “próximas” entre fornecedor e comprador. Analogamente, é possível considerar tais relacionamentos mais próximos entre fornecedor e comprador como os relacionamentos de maior qualidade. Ainda com relação a esses diferentes termos, Daugherty et al. (2011) defende que, recentemente, uma nova terminologia parece (pelo menos em algum grau) ter suplantado os termos parceria e alianças na literatura de relacionamentos. A nova terminologia seria colaboração. Por outro lado, Goffin et al. (2006) argumentam que, nos últimos anos, os gestores têm adotado amplamente o termo parceria, porém aparentam utilizá-lo em referência a uma gama de diferentes relacionamentos. Os autores consideram que parceria se tornou uma “buzzword”, visto que, como Brennan (1997, p. 768, apud GOFFIN et al., 2006) nota, “[...] expressões gerenciais da moda têm inclinação para a superutilização, abuso e, consequentemente, para a desvalorização... o mesmo destino aguarda, ou pode já ter alcançado, os relacionamentos entre compradores e vendedores” (tradução livre). Entretanto, na verdade, o que se pode perceber ao analisar as definições dadas pelos pesquisadores para tais termos é que seus significados são muito próximos. Inclusive, possuem muitos elementos comuns àqueles encontrados na década de 1990 na literatura sobre relacionamentos. Por exemplo, temos uma definição apresentada por Singh e Power. (2009, p.190) para colaboração na cadeia de suprimentos, citando Togar e Sridharan (2002, p. 19): “[...] dois ou mais membros da cadeia trabalhando juntos para criar uma vantagem competitiva por meio do compartilhamento de informações, da tomada de decisões em conjunto e do compartilhamento dos benefícios resultantes da lucratividade na satisfação das necessidades dos consumidores finais, maior do que agindo sozinhos alcançariam” (tradução livre). Por outro lado, vemos que a definição de parceria dada por Mohr e Spekman, em 1994, perpassa a mesma essência da interdependência e dos benefícios mútuos: “Parcerias são definidas como relacionamentos intencionalmente estratégicos entre empresas independentes que compartilham objetivos compatíveis, buscam 5/17 ANAIS benefícios mútuos e reconhecem um alto nível de interdependência mútua. Eles juntam esforços para alcançar objetivos que cada empresa, agindo sozinha, não poderia obter facilmente” (tradução livre). Todavia, considerando todo o exposto acima em relação à avaliação de relacionamentos, destaca-se a validade do construto qualidade de relacionamento quando entendido como “consistindo de avaliações de vários aspectos do relacionamento – atitudinais, em relação ao processo e expectativas futuras” (JAP et al., 1999). Para fins deste estudo, a definição adotada para qualidade de relacionamento em cadeias de suprimentos se baseia na acepção de Smith (1998, p. 4) para o construto: “Qualidade de relacionamento é um construto de ordem superior que consiste em uma variedade de resultados positivos que refletem a força geral de um relacionamento e o grau no qual ele atende às necessidades e expectativas das partes.” (Tradução livre). Tal definição se adéqua ao contexto deste trabalho na medida em que representa a maioria das ideias existentes sobre o tema de forma mais abrangente, integral. Dimensões da Qualidade de Relacionamento A operacionalização de qualidade de relacionamento aparece na literatura por meio de diferentes dimensões, construtos ou indicadores – ou resultados positivos, conforme define Smith (1998). A partir de um levantamento bibliográfico de artigos que tratavam diretamente desse tema, publicados em periódicos internacionais, foi possível identificar diversas abordagens para tal. Um resumo dos construtos utilizados em doze diferentes estudos sobre o tema pode ser visto no Quadro 1. Fynes et al. (2004, p. 182) reconhecem que outros construtos poderiam ter sido abrangidos por eles na conceitualização de qualidade de relacionamento, além daqueles que foram incluídos em seu estudo, mas ressalvam que a parcimônia e a compreensibilidade balancearam tal escolha. Tomando por base essa premissa utilizada por Fynes et al. (2004), dentre as dezessete dimensões identificadas na revisão dos artigos, sete foram examinadas no estudo de caso e se encontram destacadas no Quadro 1. As quatro dimensões mais freqüentes foram selecionadas, além de três que se mostraram relevantes para o contexto analisado. São elas: (a) confiança, (b) comprometimento, (c) satisfação, (d) comunicação, (e) cooperação, (f) adaptação e (g) técnicas de resolução de conflitos. A seguir, são apresentadas breves considerações para ilustrar cada uma dessas dimensões. (a) Confiança A maioria dos modelos propostos pelos pesquisadores da área converge para a inclusão da confiança na mensuração da qualidade de um relacionamento. Conforme Jap et al. (1999, p. 305) definem, confiança entre as partes envolvidas em um relacionamento comprador-fornecedor pode ser vista como “a crença em que o vendedor esteja motivado para agir de acordo com os interesses do comprador e em que não agiria oportunisticamente se tivesse a chance de fazê-lo”. Schurr e Ozanne (1985), citados por Wong e Sohal (2002, p.36), complementam o entendimento ao defini-la como “a crença em que a palavra ou a promessa de uma das partes é confiável e em que essa parte irá cumprir com todas as suas obrigações para com o relacionamento”. (b) Comprometimento Ulaga e Eggert (2006) utilizam a acepção de Moorman et al. (1993, p. 316) para comprometimento: “um desejo duradouro de manter um relacionamento de valor”. 6/17 ANAIS 7/17 ANAIS HennigMohr; Jap et Naudé; Walter Woo; Fynes Fynes Ulaga; Rauyruen; Kim Thurau Parsons Huntley Spekman al. Buttle et al. Ennew et al. et al. Eggert Miller et al. TOTAL et al. (2002) (2006) (1994) (1999) (2000) (2003) (2004) (2004) (2005) (2006) (2007) (2010) (1997) Confiança X X Comprometimento X X X X X X X X Satisfação Comunicação X X X X X X 11 X X X X 7 X X X X X X X 6 X 4 Cooperação X X X 3 Adaptação X X X 3 Coordenação X Qualidade do serviço / produto Técnicas de resolução de conflitos X X X X X X X Atmosfera de Parceria X 2 X 2 X 2 2 X 1 X 1 X Expectativa de continuidade 1 X Força do relacionamento Participação em planejamento X 3 3 X Lucratividade Interdependência Nível de conflito afetivo e manifesto Nível de desimpedimento X 1 X 1 QUADRO 1: SUMÁRIO DE DIMENSÕES DA QUALIDADE DE RELACIONAMENTO Fonte: Elaborado pelos autores. 8/17 ANAIS De maneira semelhante, pode-se entender o construto como referente à boa vontade dos parceiros comerciais em empregar esforços em nome do relacionamento (PORTER et al., 1974, apud MOHR; SPEKMAN, 1994). (c) Satisfação Conforme Anderson e Narus (1990 apud WALTER et al., 2003) descrevem, a satisfação pode ser compreendida neste trabalho como “um estado afetivo positivo resultante da avaliação de todos os aspectos de um relacionamento de uma empresa com outra”. (d) Comunicação A dimensão comunicação abrange a qualidade e a quantidade da troca de informações entre as partes em um relacionamento (MOHR; SPEKMAN, 1994). Em relação aos aspectos da qualidade da comunicação, Mohr e Spekman (1994) indicam a conveniência, a acurácia e a relevância das informações como essenciais para as parcerias. Além disso, os autores consideram a extensão com que se dá a comunicação de informações críticas, e frequentemente proprietárias, entre as partes, e pontuam que “compartilhando informações e sendo bem informados a respeito do negócio um do outro, parceiros comerciais podem agir de forma independente na manutenção do relacionamento ao longo do tempo” (MOHR; SPEKMAN, 1994, p. 139). (e) Cooperação Woo e Ennew (2004, p. 1257), utilizando a perspectiva dos relacionamentos B2B, afirmam que “o comportamento cooperativo inclui as tarefas de coordenação realizadas em conjunto e individualmente para atingir objetivos comuns e/ou compatíveis e atividades empreendidas para desenvolver e manter o relacionamento”. (f) Adaptação Adaptação se refere às mudanças que uma parte se dispõe a fazer em prol do relacionamento, seja em relação aos processos, produtos, disseminação de informação ou em termos da gestão financeira (WOO; ENNEW, 2004). Fynes et al. (2005, p. 341) mencionam que “os fornecedores se adaptam às necessidades de importantes clientes e estes se adaptam às capabilidades de fornecedores específicos”. Adaptações geralmente envolvem investimentos de uma ou ambas as partes, podendo ser críticas para a condução do negócio e para a competitividade no longo prazo, além de específicas, sendo por isso importantes (FYNES et al., 2005). (g) Técnicas de Resolução de Conflitos Na medida em que as partes de um relacionamento se envolvem na resolução conjunta de conflitos, a qualidade do relacionamento pode ser reforçada quando uma solução mutuamente satisfatória é encontrada (MOHR; SPEKMAN, 1994). Mohr e Spekman (1994) incluem nessa dimensão a acepção de que a maneira como se resolve um conflito em um relacionamento na cadeia de suprimentos é importante. Isso porque pode gerar implicações produtivas ou destrutivas para a sua manutenção, sendo as técnicas de resolução conjunta e persuasão preferíveis às técnicas que se baseiam em dominação, utilização de palavras ásperas ou arbitragem externa. Em uma parceria, segundo os autores, os problemas individuais se tornam problemas que afetam ambas as partes. Implicações da qualidade de relacionamento Daugherty et al. (2011) destacam que diferentes tipos de relacionamentos interorganizacionais dominam em diferentes situações; cada relação requer diferentes tipos e graus de investimento e produz diferentes resultados. Nesse sentido, Goffin et al. (2006) 9/17 ANAIS ressalvam que a compra de itens commodity não requer a criação de relacionamentos próximos. Entretanto, diversas são as vantagens encontradas na literatura para o desenvolvimento efetivo de relacionamentos de qualidade com fornecedores selecionados na cadeia de suprimentos. Por exemplo, o estudo de Fynes et al. (2005) indica que qualidade de relacionamento na cadeia de suprimentos tem impacto positivo no desempenho superior em processos de desenvolvimento e design de novos produtos. Por outro lado, Hennig-Thurau (1997) afirma que em relacionamentos com elevada confiança e elevado comprometimento, um deslize excepcional na qualidade global pode não colocar em risco a existência de toda a relação, ao passo em que em relações baseadas somente em um alto nível de qualidade percebida, é muito mais provável que esse único incidente possa levar ao término da relação por parte do cliente. Cousins et al. (2006) sugerem que investimentos em processos de socialização produzem um banco de benefícios e boa vontade que tem potencial para gerar benefícios “sólidos” para o comprador, como redução nos custos na cadeia de suprimentos e maior flexibilidade. Nessas situações, fornecedores estariam dispostos a trabalhar de maneira mais eficiente devido a um compartilhamento de informações mais conciso e preciso, assistência técnica responsiva, melhorias conjuntas em treinamento, controle de processos e investimento direto nas operações dos fornecedores, em troca dos benefícios da melhoria no desempenho e criação de valor em conjunto (ZAJAC; OLSEN, 1993, apud COUSINS et al., 2006). Já Mohr e Spekman (1994) evidenciam que parcerias podem permitir à empresa o acesso a novas tecnologias ou mercados, uma melhoria na capacidade para prover uma gama mais ampla de produtos/serviços, exploração de economias de escala na pesquisa ou produção em conjunto, acesso a conhecimento além dos limites da empresa, compartilhamento de riscos e acesso a habilidades complementares. Ainda, de acordo com a pesquisa de Rauyruen e Miller (2007), no contexto B2B, evidências apontam que elementos de relacionamento afetam a lealdade dos clientes. No entanto, de acordo com Mohr e Spekman (1994), prescrições para a formação de tais parcerias muitas vezes ignoram as desvantagens/ameaças de tais relacionamentos. Fynes et al. (2004) completam que o aprimoramento e a manutenção de relacionamentos de qualidade são processos complexos e requerem considerável investimento em recursos. Logo, esses relacionamentos devem ser vistos como investimentos gerando futuros lucros potenciais em vez de custos. Assim, a gestão de relacionamentos efetivos demanda um modelo mental diferente daquele que a teoria econômica tradicional sugere (FORD, 1984; TURNBULL et al., 1992, apud FYNES et al., 2004). Esse modelo mental é um que reconhece a importância da qualidade de relacionamento em termos de desempenho de negócios. Implicações da qualidade de relacionamento na possível redução dos impactos de variabilidades Especificamente em relação às variabilidades e suas conseqüências econômicas, Germain et al. (2008) argumentam que o controle formal e a integração são mecanismos capazes de controlar tais variações em processos e seus impactos em cadeias de suprimentos. 10/17 ANAIS Nesse aspecto, destaca-se o papel da qualidade de relacionamento, enquanto promovedora potencial dessa integração. Daugherty et al. (2011) defendem que uma abordagem de relacionamento cooperativo permite à empresa compradora manter um grau de controle sobre as funções terceirizadas sem encontrar o comprometimento de investimento associado à integração vertical, ou seja, uma abordagem faça você mesmo ou tenha você mesmo. Esse controle pode ser fundamental para que incertezas sejam evitadas. Por outro lado, a comunicação eficiente em um relacionamento pode promover a função controle, facilitando a previsibilidade e um mapeamento mais efetivo de riscos conhecidos. Pode, também, subsidiar tomadas de decisões em situações de variabilidades, quando permite que mais informações pertinentes aos processos, ao mercado, etc., estejam disponíveis eficientemente na cadeia de suprimentos. Adicionalmente, na medida em que um relacionamento de melhor qualidade com um fornecedor supõe a presença de confiança, por exemplo, espera-se que um ambiente de menos incertezas relativas ao comportamento desse fornecedor diante de situações atípicas se forme, uma vez que há menores expectativas de condutas oportunistas e maiores expectativas de que a outra parte cumpra com aquilo que planeja ou diz. Fynes et al. (2004) propuseram e testaram empiricamente um modelo que suporta a relação da qualidade do relacionamento, enquanto uma prática na cadeia de suprimentos, como variável explicativa do desempenho superior, especialmente em ambientes de alta volatilidade. Os autores reconhecem a formação de relacionamentos próximos de longo prazo como uma maneira de criar mecanismos de governança para reduzir incertezas e gerir a dependência do ambiente externo. Eles pontuam ainda que organizações operando em mercados voláteis e incertos são mais suscetíveis a terem maior necessidade de efetiva qualidade de relacionamento na cadeia de suprimentos, baseada em comunicação interativa, cooperação, comprometimento e confiança, do que organizações em mercados intensivos mais estáveis. Com foco maior na dimensão econômica, Ellram (1995) reconhece que a interpenetração de barreiras organizacionais é relevante para o custo total das relações entre compradores e vendedores, uma vez que existem fatores geradores de custos ligados à formação de relacionamentos próximos. A autora sugere que os custos totais de propriedade podem ser reduzidos a partir da criação de relacionamentos próximos. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Esta pesquisa caracterizou-se em sua primeira fase como bibliográfica, uma vez que se propôs a analisar publicações internacionais, utilizando principalmente a base de dados do Periódicos CAPES, a fim de gerar o Quadro 1. A pesquisa empírica – segunda fase – teve caráter exploratório e descritivo e foi delineada com base na metodologia qualitativa do estudo de caso. Tal delineamento foi considerado apropriado porque permite uma análise profunda do fenômeno estudado, na totalidade do seu contexto real, quando a definição de limites entre ambos não está clara (YIN, 2001). Este estudo compreende um corte metodológico que objetivou analisar especificamente situações em que foram identificadas variabilidade nos processos. Além desse corte, restringiu-se a análise a um processo específico da logística: a distribuição de produtos a jusante na cadeia de suprimento de uma organização via modal marítimo, tendo por base critérios de tipicidade, conveniência e tempestividade. 11/17 ANAIS A unidade de análise empregada foi a relação interorganizacional desenvolvida entre a empresa focal e os fornecedores envolvidos em situações de variabilidade em processos. Já a unidade de observação foi a empresa focal, identificada com o nome fictício de ALPHA, em uma posição de cliente de serviços de logísticos na cadeia de suprimentos. Múltiplas fontes foram utilizadas para a obtenção de dados na pesquisa empírica, sendo elas a observação participante, a pesquisa documental e entrevistas espontâneas não estruturadas. Os dados foram coletados durante o segundo semestre do ano de 2011. As definições dos conceitos de qualidade de relacionamento, variabilidades e das dimensões do primeiro foram referência para a coleta/análise de dados. Os processos foram sendo avaliados visando detectar situações de variabilidade e os respectivos impactos gerados nos custos logísticos. Ao mesmo tempo, avaliava-se a presença e a intensidade de cada aspecto da qualidade dos relacionamentos desenvolvidos com os prestadores de serviço. As informações coletadas foram sendo registradas e atualizadas em notas detalhadas a respeito de cada situação de variabilidade identificada. O CASO DA EMPRESA ALPHA A organização focal estudada é uma empresa industrial de grande porte produtora de semi-acabados que são matéria-prima para manufaturas para o mercado local e mundial, denominada ALPHA. A empresa está localizada próxima a um complexo industrial e portuário com infraestrutura logística que favorece a disponibilidade de insumos e o transporte de produtos para os mercados interno e externo. Utiliza os modais rodoviário, hidroviário e ferroviário para o transporte de suas mercadorias, que têm elevado peso e volume unitários, e são entregues diretamente aos clientes ou a centros de distribuição próprios. O modal hidroviário é o mais utilizado atualmente em volume transportado, responsável pela entrega de cerca de 75% da produção, sendo muito empregado nas exportações (somente uma ínfima parte delas é realizada com modal rodoviário) e com aumento da modalidade de cabotagem. Os relacionamentos com os fornecedores Os fornecedores envolvidos no processo de distribuição de produtos cujas relações com a empresa focal foram analisadas são prestadores de uma mesma modalidade de serviço de transporte marítimo. ALPHA desenvolve relações com duas empresas, empresa A e empresa B, que são contratadas por viagem de acordo com sua demanda. Ambas têm larga atuação em nível nacional, são também de grande porte, e se relacionam com ALPHA há menos de dois anos. ALPHA desenvolve suas relações interorganizacionais com ambas a partir de um mesmo processo interno, gerido por profissionais do setor de logística. O contato da empresa com ambos fornecedores acontece principalmente por meio de troca de e-mails e conversas telefônicas com pessoas-chave. Entretanto, o relacionamento de ALPHA com A foi percebido como ocorrendo de forma significativamente diferente de ALPHA com B, conforme analisado em cada aspecto da qualidade de relacionamento. Seguindo uma escala de 3 pontos, foram utilizadas as categorias baixo, regular e elevado para representar a força com que cada aspecto foi notado, a partir de todas as evidências coletadas da visão de ALPHA acerca dos relacionamentos. A seguir, o quadro 2 12/17 ANAIS apresenta uma síntese do nível em que cada uma das dimensões da qualidade de relacionamento foram percebidas nos relacionamentos pesquisados. Relacionamento de com: A B Baixa Elevada Regular Regular Baixo Elevado Regular Elevado Baixo Elevado Baixo Elevado Baixo Regular Confiança Satisfação Comprometimento Comunicação Cooperação Adaptação Técnicas de resolução de conflitos ALPHA QUADRO 2: Comparação entre o relacionamento de ALPHA com empresas A e B. Em geral, no relacionamento de ALPHA com o fornecedor A não foram percebidos níveis elevados de nenhuma das características de um relacionamento de boa qualidade. A confiança, o comprometimento, a cooperação, a adaptação e as técnicas de resolução de conflitos foram identificados em nível baixo, sendo os principais pontos de fragilidade encontrados, e a satisfação e a comunicação em nível regular. Isso demonstra que, em todos os aspectos avaliados, seria possível haver incrementos, principalmente nos pontos de maior fragilidade, ainda que não se possa afirmar em que medida os esforços empregados por parte do fornecedor nesse sentido teriam efeito. Já as dimensões avaliadas do relacionamento de ALPHA com o fornecedor B foram classificadas nos níveis regular ou elevado, demonstrando um relacionamento de melhor qualidade do que aquele desenvolvido com a empresa A. Foram classificadas como nível elevado as dimensões confiança, comprometimento, comunicação, cooperação e adaptação, e em nível regular as dimensões satisfação e técnica de resolução de conflitos. As dimensões em que as empresas mais se diferenciaram foram a confiança, o comprometimento, a cooperação e a adaptação. Em tais dimensões, a lacuna entre o desempenho dos fornecedores foi mais evidentemente notada pela organização ALPHA. Relações entre qualidade de relacionamento e impactos de variabilidades Um aspecto relevante para a redução dos impactos, inclusive econômicos, das situações de variabilidades observadas diz respeito à agilidade com que as consequências negativas foram mitigadas. Quanto maior o tempo para sanar ou amenizar uma ruptura na cadeia de suprimentos, maiores eram os custos associados a ela. Por exemplo, nas situações em que mercadorias deixaram de ser entregues aos clientes, houve custos de armazenagem, custos legais e custos de não-atendimento aos clientes diretamente relacionados à quantidade de tempo que as organizações envolvidas levaram para responder às variabilidades. O comportamento dos fornecedores A e B frente às variabilidades incorridas foi notadamente diferente, tendo o fornecedor B agido de forma mais proativa na resolução de problemas em suas operações do que o fornecedor A. Além disso, o fornecedor B agiu, em certo modo, em nome de ALPHA, solucionando uma situação de ruptura sem a sua interferência direta, quando esta realmente era dispensável. 13/17 ANAIS Sendo assim, percebeu-se que a maneira como o fornecedor se comportou, reagindo à variabilidade (em conjunto com a organização cliente ou antecipando-se a ela), colaborou ou não para a redução dos custos incorridos em variações negativas na cadeia de suprimentos. Esse ponto se aproxima do que a literatura de cadeia de suprimentos define como resiliência, ou a “habilidade de um sistema em retornar ao seu estado original (ou desejável) após ter sido perturbado” (PECK, 2005, p.211). De acordo com Bowersox et al. (2007, p. 319), “cadeias de suprimentos resilientes são rapidamente reconstruídas ou estabelecem meios alternativos de operação enquanto vivem um incidente de segurança”. Quando a variabilidade no sistema ocorreu e estava sob a responsabilidade do fornecedor B, notou-se um nível maior de resiliência na cadeia de suprimentos, que pode ter sido influenciada por aspectos referentes à qualidade de relacionamento desenvolvida com ALPHA. O relacionamento do fornecedor B com ALPHA foi caracterizado como sendo de melhor qualidade do que o relacionamento de ALPHA com o fornecedor A, e as maiores diferenças entre os aspectos desses relacionamentos foram identificadas nas dimensões confiança, comprometimento, cooperação e adaptação. Deste modo, destaca-se uma possível relação entre os aspectos confiança, comprometimento, cooperação e adaptação, do relacionamento de ALPHA com a empresa B, e a adição de resiliência à cadeia de suprimentos. Por outro lado, ao se analisarem os dados, observou-se a relevância de se considerar o construto maturidade, não considerado antes da etapa de campo. Maturidade de processos, quando entendida como o estado de uma empresa em desenvolver certas tarefas e processos, parte da premissa de que eles possuem níveis de desenvolvimento que podem ser explicitamente definidos, gerenciados, medidos e controlados ao longo do tempo (OLIVEIRA, 2006). A utilização dos modelos de maturidade auxilia as empresas no desenvolvimento e a melhoria dos processos, atuando como um guia para as organizações, ao considerar que é possível alcançar resultados superiores de desempenho ao buscar níveis superiores de maturidade em processos (OLIVEIRA, 2006). Percebeu-se que a empresa ALPHA valorizava certas características ou ações dos fornecedores que, para ela, demonstravam “profissionalismo” ou que “o fornecedor B parece mais estruturado”, segundo comentários dos profissionais. Ainda que não utilizasse expressamente o conceito, notou-se a influência da maturidade na qualidade de relacionamento percebida pela empresa ALPHA em relação aos dois fornecedores. A maturidade dos fornecedores foi percebida por meio de características como “profissionalismo” e “estruturação”, por exemplo, a partir de pequenas ações de relacionamento conduzidas pelo fornecedor B. Inclusive, o fato de o fornecedor B enviar periodicamente informações a respeito da carga embarcada de modo mais claro e efetivo para ALPHA e a proatividade de B em solucionar uma ruptura incorrida fizeram diferença na percepção da maturidade desse fornecedor. De fato, é possível que a empresa B esteja em uma posição de elevada maturidade em seus processos, que pode ter influenciado sua forma de agir diante das variabilidades, porém a este trabalho não caberá verificar essa relação, apenas notá-la. Por outro lado, ainda em relação à maturidade, ficou claro que os processos analisados de ALPHA se encontravam em um estágio inicial de maturidade. Não se sabe se, caso o processo de ALPHA fosse mais maduro, ela poderia aprimorar ou se beneficiar mais de aspectos da qualidade de relacionamento, o que seria possível objeto de estudos futuros. 14/17 ANAIS No entanto, nas situações observadas, notou-se que um componente aparentemente mais maduro colaborou com outro menos maduro na cadeia de suprimentos, a partir de um relacionamento com elevada confiança, comprometimento e cooperação, resultando em uma cadeia de suprimentos mais resiliente naquele momento. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os objetivos deste trabalho foram atendidos na medida em que (1) gerou-se um sumário com dimensões relevantes presentes na literatura acerca de qualidade de relacionamento e (2) indicou possíveis relações entre qualidade de relacionamento e redução de custos incorridos nas situações de variabilidade de processos, tendo despontado a resiliência e a maturidade como temas relacionados à discussão. Verificou-se que as variabilidades incorridas com os fornecedores de ALPHA foram incorporadas à sua cadeia de suprimentos, tendo o potencial de impactar o atendimento aos seus clientes à jusante. Mostrou-se, em consoante com a literatura, relevante para a organização estudada atentar-se a formas de mitigar os riscos de rupturas e adicionar resiliência à sua cadeia. O caso utilizou a isonomia dos processos internos da organização para avaliar os processos externos referentes à logística de distribuição de produtos. O ambiente da empresa focal – ALPHA – é o mesmo para ambos os fornecedores cujas relações com ALPHA foram analisadas. Porém, em um dos relacionamentos, constataram-se mais aspectos de uma elevada qualidade de relacionamento do que em outro, sendo possível analisá-los comparativamente. Notou-se que as maiores divergências encontraram-se nas dimensões confiança, comprometimento, cooperação e adaptação. O fornecedor B, que melhor se relacionava com ALPHA, mostrou-se disposto a colaborar nas situações de variabilidades em processos analisadas. Tal disposição para trabalhar em conjunto pode ser relevante quando as organizações se deparam com uma situação de ruptura na normalidade dos processos. Uma organização que tem “boa vontade” e flexibilidade para agir, respondendo às variabilidades incorridas, pode, de fato, beneficiar toda a cadeia de suprimentos. A maturidade dos processos poderia mitigar alguns riscos endógenos à cadeia, como falhas no controle e nas informações. Enquanto não usufrui de processos com maior nível de maturidade, contar com fornecedores proativos e aparentemente maduros mostrou-se importante para ALPHA. Assim, os resultados da pesquisa empírica suportam a hipótese apresentada neste trabalho. Deste modo, os autores do presente artigo estão desdobrando esses resultados em novos estudos a fim de investigar as relações entre maturidade, qualidade de relacionamento e resiliência em cadeias de suprimentos. Pretende-se ainda, explorar a relação entre a atuação dos prestadores de serviços logísticos integrados – 3PL e 4PL – e a qualidade de relacionamento desenvolvida por eles com seus clientes, visto que essa modalidade tem crescido no país e demanda forte interação interorganizacional para a efetiva geração de vantagens na cadeia de suprimentos. De forma complementar, ressalva-se que é necessário captar a perspectiva do fornecedor em relação à gestão da cadeia de suprimento (uma vez que o presente artigo dedicou-se a investigar a perspectiva do comprador – empresa ALPHA) e, desta forma, analisar os dois lados do relacionamento nessa díade. 15/17 ANAIS REFERÊNCIAS BOWERSOX, D. J.; CLOSS, D. J. Logística Empresarial: o processo de integração da cadeia de suprimento. 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