O QUE REVELAM OS ESTUDOS BRASILEIROS SOBRE AS PRÁTICAS DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES PARA EDUCAÇÃO INFANTIL GUIMARÃES, Célia Maria - UNESP/PP [email protected] RUIZ, Uiara Cristina de Andrade – EEPA/SP [email protected] SANTOS, Larissa Aparecida Trindade dos - UNESP/PP [email protected] SILVA, Rosangela Aparecida Galdi da - UNESP/PP [email protected] Área temática: Educação Infantil Agência Financiadora: Não contou com financiamento Resumo O presente texto versa sobre a pesquisa realizada no primeiro semestre de 2008 pelos alunos matriculados na disciplina “Práticas de formação do profissional de educação infantil” do Programa de Pós-graduação em Educação da FCT/UNESP. O grupo mobilizado pelas questões presentes nas instituições de Educação Infantil no que diz respeito à qualidade dos serviços educacionais oferecidos às crianças pequenas e pelas reflexões propostas pela professora Célia Maria Guimarães aceitou dar continuidade à pesquisa realizada pelo grupo de alunos do ano de 2006. A investigação teve o objetivo de mapear trabalhos publicados que versavam sobre práticas de formação inicial e continuada em serviço de professores para educação infantil no Brasil a partir de 2006. A metodologia consistiu em mapeamento bibliográfico e seleção de trabalhos publicados em periódicos nacionais e internacionais na área de educação (Qualis A). A etapa de leituras e análises resultou na seleção de 6 artigos que tratavam de práticas de formação do profissional de educação infantil e na elaboração de três categorias de análise: aspectos da formação docente e de suas práticas; papel do profissional da educação infantil que atua diretamente com crianças pequenas; aspectos, saberes e experiências necessárias ao profissional que atua com crianças pequenas. É possível apontar que após mais de uma década de existência da LDB 9394/96 as pesquisas relacionadas às práticas formativas do professor de crianças pequenas contribuem para uma reflexão sobre como temos realizado a formação docente. Entretanto, as pesquisas no campo da educação infantil ainda não se voltaram com ênfase para o estudo dos modos de realizar a formação dos professores, tendo em vista a urgência da construção dos saberes, 2644 conhecimentos e atitudes que definam a identidade do professor de crianças pequenas e da própria instituição de educação infantil. Palavras-chave: Práticas de formação. Educação infantil. Profissional de educação infantil. Pós-Graduação. Introdução A pesquisa que precede este artigo é fruto de estudos realizados na disciplina Práticas de Formação do Profissional de Educação Infantil do Programa de Pós-Graduação – Mestrado em Educação da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista UNESP, Campus de Presidente Prudente - PPGE-FCT-UNESP - ministrada pela Professora Doutora Célia Maria Guimarães, durante o primeiro semestre letivo de 2008. O grupo de alunos desta disciplina, constituído por mestrandos e alunos ouvintes, aceitou a proposta de dar continuidade à pesquisa realizada pelos alunos matriculados no ano de 2006, cujo objetivo era dar visibilidade à produção científica brasileira sobre formação inicial e continuada de professores de crianças pequenas, denominada “A produção científica brasileira sobre as práticas de formação inicial e continuada de Professores de Educação Infantil no período de 1996 a 2006.” (GUIMARÃES et al., 2008). O grupo de alunos de 2008 concebeu como objeto de estudo as pesquisas que tratassem de práticas formativas realizadas com o profissional de Educação Infantil. Para tanto, a definição das fontes de pesquisa pelo grupo se concentrou nos periódicos nacionais e internacionais relacionados à educação – QUALIS A, área Educação, indicados pelo portal da CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Ministério da Educação no período circunscrito entre janeiro de 2006 e julho de 2008. Foram selecionados os seguintes descritores para fazer o mapeamento bibliográfico: formação de professores e educação infantil. O processo de mapeamento dos artigos publicados em periódicos da área de educação, cuja temática abordava especificamente práticas formação inicial e continuada de professores de Educação Infantil, culminou na localização de onze artigos relacionados à Educação Infantil nas seguintes revistas: Revista Educação e Sociedade, Caderno de Pesquisa da Fundação Carlos Chagas, Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Revista Pró-posições e Revista Paidéia. A etapa de leitura e análise destes onze artigos foi iluminada pelo estabelecimento das seguintes questões norteadoras: O texto aborda aspectos da formação docente e de suas práticas? Se sim qual (ais)?; O texto discute o papel do profissional da 2645 educação infantil que atua diretamente com crianças pequenas? Se sim, qual?; O texto discute quais são os aspectos, saberes e experiências necessárias ao profissional que atua diretamente com as crianças pequenas? Se sim, qual (ais)?; No texto, qual é a concepção de criança que esta implícita ou explícita?; O texto discute/ propõe uma função/ finalidade social para a educação infantil? Se sim qual?; Qual é a concepção de educação infantil que está implícita ou explícita no texto? A partir da etapa de leituras e de seleção dos artigos que atendessem nossos objetivos, compilamos os seis textos abaixo descritos, que tratavam especificamente do objeto da pesquisa, as práticas formativas realizadas com o profissional de Educação Infantil. • Gestão pública, formação e identidade de profissionais de educação infantil. Sonia Kramer. Fonte: Cadernos de Pesquisa, São Paulo, v.37, n.131, p. 1-19, maio/ ago.2007; • As Crianças de zero a seis anos nas políticas educacionais no Brasil: Educação Infantil e Ensino Fundamental. Sônia Kramer. Fonte: Educação e sociedade, Campinas, vol. 27, n. 96 - Especial, p.797-818, out. 2006; • Atuação de professores do ensino itinerante face à inclusão de crianças com baixa visão na educação infantil. Maria Júlia Canazza Dall’Acqua. Fonte: Paidéia, v.17 (36), p. 115122, abril/ 2007. Disponível em www.scielo.br/paideia; • A qualidade da Educação Infantil brasileira: alguns resultados de pesquisas. Maria Malta Campos, Jodete Fullgraf, Verena Wiggers. Fonte: Cadernos de Pesquisa, São Paulo, v.36, n. 127, p. 87-128, jan/abril 2006; • Construção da identidade docente: relatos de educadores de educação infantil. Zilma de Moraes Ramos de Oliveira; Ana Paula Soares Silva; Fernanda Moreno Cardoso; Silvana de Oliveira Augusto. Fonte: Caderno de Pesquisa, São Paulo, v. 36, n.129, p. 547-571, set./dez.2006; • Gestão Municipal e formação: a educação infantil no Estado do Rio de Janeiro. Sonia Kramer; Maria Fernanda Nunes. Fonte: Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Brasília, v.88, n. 218, p. 48-72, jan./abr. 2007. Os seis textos selecionados foram analisados pelo grupo com base nas seguintes categorias de análise: Aspectos da formação docente e de suas práticas; Papel do profissional 2646 da Educação Infantil que atua diretamente com crianças pequenas; Aspectos, saberes e experiências necessárias ao profissional que atua com crianças pequenas. A delimitação de categorias de análise nos permitiu trabalhar coletivamente para realizar o levantamento de regularidades, cujos resultados finais são apresentados neste artigo. Para a realização desse trabalho utilizamos procedimentos que contaram com momentos de análises individuais para posteriores discussões em grupo durante as aulas. Vale ressaltar que a proposta de pesquisa se organizava com a participação de todos, o que contribuía para a promoção do protagonismo dos alunos, a familiaridade com a pesquisa e a produção científica relativa ao objeto da disciplina mencionada. O desvelamento dos dados e sua análise O artigo 29 da LDB 9394/96 de 20 de dezembro de 1996 reconhece a Educação Infantil como a 1ª. etapa da Educação Básica, indicando a necessidade de formação continuada para o exercício da docência, além de acarretar mudanças nas concepções de educação e de criança pequena. Ocorrências que exigem reflexões acerca da educação oferecida às crianças pequenas e sobre a formação do profissional. Enquanto a legislação educacional brasileira se destaca mundialmente pelas propostas na área educacional, pesquisas são realizadas e demonstram que a realidade é bem diferente e que a Educação Infantil carece de investimentos, inclusive nas práticas de formação de professores para se fortalecer enquanto 1ª. fase da Educação Básica. Trabalho coordenado por Guimarães et al. (2008a; 2008b), cujo objetivo foi mapear as pesquisas sobre formação inicial e continuada em serviço de professores para Educação Infantil, no período compreendido entre 1996 e 2006, demonstrou que há um número reduzido de estudos voltados especificamente para as práticas de formação do professor de educação infantil. Resultado que nos instigou a continuar a investigar. A seguir, relataremos os resultados relevados pela análise dos periódicos publicados entre 2006 e 2008, tomando como referência as três categorias referidas anteriormente. Categoria 1. Aspectos da formação docente e de suas práticas. Dentre os seis trabalhos pesquisados, três (50%) trazem a formação continuada, dois apresentam a formação inicial (34%) e um (17%) a formação inicial e continuada. Dentre os três autores que tratam da formação continuada dos professores de Educação Infantil, um deles aborda a relação teoria e prática, o outro, apresenta resultados de pesquisa colaborativa sobre formação de 2647 professores sem formação específica em deficiência visual, tratando de educação inclusiva com crianças com baixa visão e o último, discute a formação em serviço como direito de todo profissional para assegurar práticas de trabalho com qualidade às crianças, além do acesso aos bens culturais como direito destes profissionais. Outros dois artigos também mencionam a formação em serviço, neste caso, trata-se de formação inicial, onde os autores destes textos primam pela formação de leigos e das ADEIs – Assistentes de Educação Infantil - como necessidade real em instituições destinadas às crianças pequenas. Um destes enfoca a precariedade da formação inicial tanto nos cursos de magistério e nos estágios formais; alega que não preparam os professores para a realidade que vão enfrentar. Em relação ao ensino superior, declaram que os cursos de Pedagogia não respondem às necessidades de qualificação requeridas para a atuação em creches e préescolas. O único texto que enfoca a formação inicial e continuada sugere que o curso de Pedagogia seja um espaço para formação científica ético-política, cujo ponto de partida é a formação científica, cultural e prática. Com relação aos aspectos de formação docente na Educação Infantil, o binômio cuidar-educar é contemplado em dois dos textos, nos quais se apresenta como aspecto de formação, pautado na mudança de concepção e integração entre o que é cuidar e o que é educar, e ainda com implicações nas práticas, crenças, hábitos, enfim, no novo papel do profissional de Educação Infantil. Num terceiro texto mostra-se a necessidade formativa e a superação de tendências de educadores que baseiam o seu trabalho no conhecimento desenvolvido no âmbito doméstico, para que deixem de priorizar apenas as atividades de higiene, alimentação e segurança, ou seja, os cuidados. A preocupação com a Educação Infantil de qualidade é considerada em um dos textos, com base no argumento de que a prática formativa deve contemplar referenciais teóricos e aportes legais para assegurar o acesso das crianças à qualidade. Por isso, a formação cultural dos profissionais deve incluir a leitura, a escrita, a literatura e o acesso aos bens culturais como direito. Apenas um dos textos propõe que as práticas de formação docente priorizem a reflexão como prática formativa. Nos demais, é possível detectar esta intenção apenas implicitamente. Em 1997, Arce denunciava o descaso para com a formação dos profissionais de Educação Infantil. Naquela ocasião, a pesquisadora apontava uma ausência de estudos 2648 focados na formação destes educadores e na feminização do magistério. Com base neste estudo e no mapeamento realizado entre 1996 e 2006, percebemos um avanço insuficiente. A desqualificação profissional demanda esforço em relação às políticas públicas no contexto nacional. O artigo 4º. da Lei de Diretrizes e Bases da Educação n. 9394/96, afirma que a educação escolar pública deve ser efetivada mediante as garantias de atendimento gratuito em creches e pré-escolas às crianças de 0 a 6 anos de idade e padrões mínimos de qualidade de ensino. O inciso I do art. 2º. aponta como princípios e fins da educação nacional, a igualdade de condições para acesso e permanência na escola e no inciso IX, a garantia do padrão de qualidade. Considerando, ainda, a Constituição Federal de 1988, que define no artigo 227, como dever da família, da sociedade e do Estado, assegurar a educação das crianças e adolescentes, é evidenciado que a Educação Infantil requer um novo perfil de profissional, diferente do mito da educadora nata, identificada com a mulher-mãe substituta descritos por Arce (2001; 1997). Neste sentido, é indicado que a formação dos profissionais que já atuam nas creches e pré-escolas subsidie a constituição da identidade do professor de crianças pequenas. Investigação feita por Azevedo e Schnetzler (2008)1 a esse respeito, aponta questões relativas à concepção de infância, desarticulação teórico-prática, cuidar-educar para a formação. Um dos aspectos da formação docente e de suas práticas não contemplado pelos textos analisados refere-se ao planejamento do trabalho a ser realizado com as crianças pequenas nas instituições de Educação Infantil. O planejamento carrega toda a intencionalidade educativa, além de documentar e orientar o processo educativo, por isso seria imprescindível que o Estágio Supervisionado garantisse essa experiência de ouvir e ver a partir das necessidades das crianças, as possibilidades para um planejamento intencional que contemple cuidados e educação, inclusive para os bebês. Ostetto (2006) complementa esta reflexão dizendo: Para mim, elaborar um “planejamento bem planejado” no espaço da educação infantil significa entrar na relação com as crianças (e não com os alunos!), mergulhar na aventura em busca do desconhecido, construir a identidade do grupo junto com as crianças. Assim, mais do que conteúdos da matemática, da língua portuguesa e das ciências, o planejamento na educação infantil é essencialmente linguagem, formas de expressão e leitura do mundo que nos rodeia e que nos causa espanto e paixão por desvendá-lo, formulando perguntas e convivendo com a dúvida. (OSTETTO, 2006, p. 190) 1 Disponível em http://www.domboscofaculdade.com.br/texto07.asp. Acesso em 26/04/08. 2649 O planejamento se constitui num aspecto da formação docente recheado de significações passíveis de reflexões, pois a visão de mundo, de criança, de educação infantil e do processo educativo do responsável pela sua elaboração está presente, mesmo que este não perceba. Portanto, este trabalho demanda revisão das crenças, atitudes e procedimentos no fazer pedagógico. Outro aspecto imprescindível à formação docente se refere à consideração das necessidades dos profissionais. Contudo, a formação não pode prescindir dos conhecimentos teóricos visando à modificação de patamares indesejáveis na Educação Infantil. Machado (2008)2 afirma que quando se pretende a melhoria da qualidade de atendimento na Educação Infantil, é importante lembrar que essa fase é diferente do Ensino Fundamental. Portanto, fica evidente que a Educação de crianças pequenas possui especificidades que devem estar presentes nas práticas formativas dos Cursos de formação inicial e continuada. O desafio é planejar uma formação que assegure espaços de reflexão sobre antigas crenças, ações, atitudes e procedimentos acerca do binômio cuidar-educar, que esteja embasada na legislação vigente, pautada nas necessidades concretas dos profissionais de Educação Infantil e da sociedade atual, sem perder de vista que o objetivo do trabalho com as crianças pequenas é o seu desenvolvimento integral. Categoria 2. Papel do profissional da Educação Infantil que atua diretamente com crianças pequenas. Dos seis textos pesquisados nos periódicos, dois (34%) enfocam o papel do profissional como responsável pela formação e o desenvolvimento integral da criança de 0 a 6 anos. Apenas um destes destaca o papel de humanização e os valores praticados na vida pessoal e profissional; um outro aponta para a necessidade de desenvolver trabalho com as famílias e com a comunidade e ao mesmo tempo afastar modelos escolarizantes copiados do Ensino Fundamental, como também rotinas empobrecidas que contemplam apenas cuidados com alimentação e higiene. O profissional que atua nas instituições de Educação Infantil em nosso país, nem sempre tem formação em Magistério ou em Curso Superior. O papel deste profissional está intrinsecamente ligado à história da mulher em nossa sociedade e ao trabalho voluntário, uma vez que bastava possuir as qualidades maternas para desempenhar o papel de cuidar das crianças, principalmente nas creches. Nas pré-escolas, o papel está diretamente relacionado ao 2 Disponível em http://www.educacaoonline.pro.br/profissionais_para_educacao.asp?f_id_artigo=229. Acesso em 27.04.2008. 2650 Ensino Fundamental, pois durante muito tempo estes profissionais realizaram apenas a tarefa de preparar para as primeiras séries. No entanto, nos últimos anos reflexões sobre a infância ganharam força devido aos movimentos sociais, cuja luta pela garantia de direitos às crianças, aos adolescentes e às mulheres estão contemplados na Constituição Federal de 1998, no ECA – Lei 8069 de 1990 e na LDB nº. 9394/1996, onde a criança é entendida como um sujeito de direitos, co-construtora de seu conhecimento, cultura e identidade, devendo ser respeitada e educada de acordo com essas diretrizes legais, que afirmam a Educação Infantil como a 1ª. etapa da Educação Básica, assim como a necessidade de uma educação de qualidade, responsabilidade do Estado, da sociedade e da família. Essas mudanças evidenciam a urgência de discussão sobre as finalidades das Instituições de Educação Infantil e do papel dos profissionais que nestas atuam. As atividades destes profissionais nas últimas décadas estiveram sempre baseadas no modelo familiar / hospitalar, com base em práticas sociais de caráter assistencialista ou no modelo escolarizado, preparatórios para o Ensino Fundamental. Para Cerisara (2002) em ambos os modos de exercer as práticas educativas estão presentes o caráter educativo; assim, propõe a superação da polarização no educar ou no assistir através do atendimento às especificidades das crianças de 0 a 6 anos e da garantia do direito à formação inicial e em serviço, conforme previsto na legislação vigente. Dos seis textos analisados, apenas um sugere um trabalho com as famílias e a comunidade. Segundo estudo realizado por Campos (2006), a maioria das instituições de educação infantil possui uma visão equivocada de família, o que impede a realização da proposta legal de família e instituição educacional realizarem formação da criança de forma complementar. A família tradicional e unívoca há muito deixou de ser central e concepções equivocadas sobre a instituição família têm provocado práticas preconceituosas nas instituições de educação infantil. No estudo realizado pela pesquisadora nota-se que as educadoras possuem um modelo de família nuclear, desrespeitando as diferenças econômicas, sociais e culturais dos pequenos e que os profissionais não conhecem as condições reais de existência das famílias das crianças recebidas na creche, como vivem e se relacionam. A ausência de enfoque na relação família-creche nos textos mapeados neste estudo demonstra a 2651 urgência em implantar nos processos de formação dos profissionais de educação infantil, novas concepções da instituição familiar, suas funções e direitos. [...] seria necessário que nas formações prévias e em serviço, essa questão fosse mais bem contemplada e debatida, propiciando uma visão menos fechada e preconceituosa dos profissionais, que lhes permita considerar as famílias em sua positividade, como portadoras de aspirações legítimas e de direitos, alcançando maior igualdade nessa interação. (CAMPOS, 2006, p. 117) Para que a formação inicial e continuada vislumbre novas possibilidades de construção da identidade dos profissionais de Educação Infantil e, conseqüentemente de sua profissionalização, é preciso repensar o papel dos formadores desses professores como imprescindível para a concretização de uma nova função aos profissionais que atuam com crianças pequenas. Acreditamos, portanto, que se os formadores de profissionais de EI se dedicarem à (re)construção da concepção de infância, isso, automaticamente, vai provocar mudanças na concepção de educação infantil. Se estes também se preocuparem com a questão da desarticulação teórico-prática, estarão desenvolvendo uma formação mais adequada na qual, pressupomos, não estará sendo enfatizada a separação cuidar-educar. No entanto, isso ainda não é suficiente. É preciso que haja um movimento maior, de âmbito social e político de reconhecimento destes profissionais da EI. (AZEVEDO, 2008)3 Para isso, mudanças na concepção de criança e na forma de realizar o trabalho docente precisam ser praticadas com urgência. Ostetto (1997) colabora com essa discussão dizendo que esta profissão, de professor de crianças pequenas, precisa ser inventada e que a reconstrução da identidade se dará em meio a sua atuação num espaço coletivo. Assim, quando pensamos na formação de quem atua com crianças pequenas, é preciso ter claro o perfil deste profissional, voltado à qualidade da educação de crianças pequenas, o que perpassa por políticas públicas e pelos direitos das crianças. Categoria 3. Aspectos, saberes e experiências necessárias ao profissional que atua com crianças pequenas. Os seis textos (100%) propõem uma formação geral, mas enfatizam a formação em conhecimentos específicos e demonstram uma preocupação com a relação teoria e prática, sendo que em quatro textos esta preocupação comparece de forma explícita e em 3 Disponível em http://www.domboscofaculdade.com.br/texto07.asp. Acesso em 26/04/08. 2652 dois implicitamente. Percebemos que a formação para o cuidar-educar permeia os seis textos (100%). No entanto, apenas dois textos (34%) especificam os aspectos e saberes imprescindíveis ao profissional de Educação Infantil. Outros dois (34%) ressaltam o conhecimento da legislação como saber necessário para este profissional. Dois textos (34%) apontam a autonomia docente como necessária e o professor como sujeito de sua prática, com direito à remuneração, a construção de sua história e a inserção crítica e criativa. A rotina a qual a criança é submetida nas instituições de educação infantil é mencionada em dois textos (34%). Destaca-se preocupação dos autores com as práticas mecânicas, escolarizantes e empobrecidas, preocupadas somente com os cuidados relacionados à alimentação e higiene. A preocupação com o ambiente e o espaço está contemplada em dois textos (34%), sendo que em um destes, comparece a defesa de que o ambiente deve ser planejado articulado as atividades propostas às crianças, e no outro, a preocupação recai no arranjo do espaço e na diversidade de equipamentos e materiais. A preocupação com o ambiente é contemplado em dois trabalhos. Este se constitui num elemento relevante da organização curricular para o contexto da Educação Infantil. Na medida em que busca propiciar as melhores condições as crianças, o ambiente possibilita a participação dos alunos, as interações entre estes e os professores. Neste sentido, o contexto educativo interfere diretamente na qualidade da educação das crianças pequenas, visto que, o a criança estabelece com o contexto uma relação de interação. Oliveira-Formosinho, Kishimoto e Pinazza (2007) confirmam a exigência de um ambiente educativo de alta qualidade: Assim, a primeira tarefa do educador é a de pensar o contexto educativo e organizálo para que se torne um “segundo educador”. Ao educador pedimos que crie espaço de participação para as crianças, o que começa por criar um contexto que participe. Em um contexto que participa, a estrutura, a organização, os recursos e as interações são pensados para criar possibilidades múltiplas a fim de que a escuta ativa da criança tenha reais conseqüências nos resultados de aprendizagem.[...] (OLIVEIRAFORMOSINHO, KISHIMOTO e PINAZZA, 2007, p. 26) As experiências do profissional que atua com criança pequena quando registradas e analisadas (documentação pedagógica) constituem-se num saber que atribui significado ao trabalho pedagógico. Através das observações manuscritas, registros em áudio e vídeo, fotos, gráficos, trabalhos da criança (onde se registra o que as crianças estão dizendo e fazendo e 2653 como este pedagogo está se relacionando com essas crianças) é possível refletir sobre o processo. Essa análise pode ser realizada pelo professor sozinho ou com outras pessoas, apreciando, interpretando, construindo sentidos, planejando o futuro e criando uma nova narrativa. Os educadores perceberam que documentar sistematicamente o processo e os resultados de seu trabalho com as crianças serviria a três funções cruciais: - oferecer às crianças uma memória concreta e visível do que disseram e fizeram, a fim de servir como um ponto de partida para os próximos passos da aprendizagem; oferecer aos educadores uma ferramenta para as pesquisas e uma chave para a melhoria e renovações contínuas: - e oferecer aos pais e ao público, informações detalhadas sobre o que ocorre nas escolas, como um meio de obter seu apoio. (EDWARDS, GANDINI e FORMAN, 1999, p.25) Os textos evidenciam aspectos, saberes e experiências necessários aos profissionais que atuam com crianças pequenas e a formação como oportunidade de revisão de suas concepções, das práticas educativas, crenças, valores. Ressaltamos que o profissional da Educação Infantil tem o direito a uma formação que o privilegie como uma pessoa completa, que valorize a inovação pedagógica, entre as quais, a documentação pedagógica e o planejamento do ambiente, à luz dos referenciais teóricos. Considerações: um longo caminho a percorrer Nos últimos anos, novos olhares foram lançados para a educação das crianças pequenas, cujo objetivo é o seu desenvolvimento integral. O atendimento das especificidades infantis demanda revisões nos projetos voltados a Educação Infantil, nas políticas públicas, nas rotinas e na organização do ambiente das instituições, na atuação dos profissionais e, acima de tudo, nos modos de realizar a formação destes. Na investigação realizada constatamos que o compromisso com a Educação Infantil está registrado nos artigos selecionados, os quais contribuem para uma reflexão a respeito das práticas formativas desenvolvidas com os profissionais e com as próprias crianças. Percebemos alguns indicadores do caminho a ser trilhado tanto na formação docente quanto no trabalho no cotidiano das instituições de educação infantil, como a reflexão sobre a prática, a necessidade de cuidar-educar em parceria com a família, a necessidade de uma formação inicial e em serviço que contemple a relação entre a teoria e a prática educativa. 2654 Destacamos a urgência de práticas formativas que contribuam para a reflexão teóricoprática sobre o que temos realizado com nossas crianças. Neste sentido, é imprescindível discutirmos a intencionalidade dos cursos oferecidos no Ensino Superior, especificamente no Curso de Pedagogia, assim como a função social das Universidades para o estabelecimento de propostas condizentes com as expectativas de formação dos professores de crianças pequenas. A formação como direito destes profissionais, precisa ser organizada de forma a promover revisão de concepções, (pré)conceitos, crenças e valores a partir das práticas educativas adequadas as exigências atuais de trabalho no contexto das creches e pré-escolas. Se pretendemos proporcionar a invenção da profissão, a construção da identidade do professor de crianças pequenas com a clareza dos seus papéis, assim como da instituição incumbida de cuidar-educar os pequenos, precisamos rever os modos de fazer a formação docente. Silva (2003) aponta as capacidades de elaboração, execução e avaliação de uma proposta pedagógica que garanta a efetivação do direito à infância como requisitos para um profissional a ser inventado. Desenvolver tais capacidades exige práticas formativas contínuas e capazes de organizar processos que dêem conta de uma formação tão complexa. Os professores precisam de uma formação que atenda as especificidades do trabalho com bebês e com crianças pequenas, envolvendo aspectos, metodologias, práticas e reflexões que garantam a construção dos saberes e experiências necessárias ao profissional de Educação Infantil. Assim, apostamos que a invenção de uma profissão, a do profissional de Educação Infantil, a partir da intencionalidade de seus formadores perpassa a sua atuação e abrange as pesquisas científicas e as políticas públicas. REFERÊNCIAS ARCE, Alessandra. Jardineira, tia e professorinha: A realidade dos mitos. Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campo Grande, 1997. ARCE, Alessandra. Documentação oficial e o mito da educadora nata na Educação Infantil. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, n. 113, p. 167-184, Julho, 2001. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/cp/n113/a09n113.pdf. Acesso em 01/05/08. AZEVEDO, Heloisa Helena Oliveira de; SCHNETZLER, Roseli Pacheco. 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