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O cheirinho do amor
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O que é a vida, afinal? É o que se pergunta um personagem do Philip Roth no romance Pastoral americana,
providenciando ele mesmo a resposta: a vida não passa do
curto período de tempo no qual estamos vivos. Grande
sacada ou suprema obviedade? As duas coisas ao mesmo
tempo, acho, e nisso se revela a genialidade de um grande
escritor como o Roth. Grandes sacadas qualquer escriba
razoável volta e meia tem uma ou duas ao longo de sua
obra. Supremas obviedades qualquer escritor medíocre
também comete às dúzias em cada parágrafo que fatura.
Mas uma grande sacada que pode ser confundida com
uma suprema obviedade, e vice-versa, isso é coisa de gênio, nada menos.
Em todo caso, posso afirmar, sem grande margem
de erro, e sem ter muito o cu a ver com as calças, que, nesse curto período de tempo em que, digamos, um português ou descendente de portugueses permanece vivo, ele
há de comprar bacalhau para ser comido em algumas efemérides do ano, seja porque é sexta-feira da Paixão, seja
porque é aniversário de alguém, seja porque lhe deu gana
de comer bacalhau só pra comemorar o fato de que ele
ainda está vivo — o português, não o bacalhau. Tal cons­
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tatação pode ser taxada de óbvia, admito, apesar de que o
bacalhau, ele mesmo, poderá se revelar genial iguaria, se
de boa qualidade e preparado por mãos competentes com
o auxílio luxuoso de um azeite extravirgem.
Ocorre que meu avô materno, que era português,
permaneceu vivo tempo suficiente para introduzir o bacalhau na minha avó, ops, no cardápio da família que
ele gerou com vovó, digo. Suas três filhas, uma das quais
viria a ser minha mãe, também entronizaram o bacalhau
na mesa de suas respectivas famílias em dias especiais.
No meu caso, o bacalhau podia aparecer de surpresa à
mesa em qualquer dia, se calhasse de papai, também ele
descendente de antigos portugueses, ter passado um dia
antes em frente a uma tradicional mercearia de secos e
molhados no centrão paulistano, a Casa Godinho, sendo
esse Godinho outro imigrante português, que fundou o
estabelecimento em 1888.
Dizia meu velho que ao passar ali defronte sentia
irremediável atração pelo cheiro do bacalhau seco pendurado inteiro e aberto na porta do estabelecimento, como
se usava antigamente. Papai gostava de salientar seu apreço pelo cheiro do bacalhau, com óbvias segundas intenções que acabei captando com o tempo e com a aquisição
de certas experiências olfativas.
O bacalhau entra aqui porque, justamente na última páscoa, fui encarregado pela família da minha mulher,
também ela de ascendência lusa, de comprar o famoso
lombo do gadus morhua, o melhor e mais caro bacalhau
do mercado, naquela mesma mercearia frequentada pelo
velho cinquenta anos atrás. Há muito tempo já que não
penduram o bacalhau na porta, onde, hoje, não duraria
dois minutos antes de ser surrupiado por algum tubarão
ou tubarinho na correria, dado seu alto valor monetário,
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além do nutritivo. Baratíssimo antigamente, o bacalhau
era item da culinária popular e havia até um ditado muito
comum aplicado a pessoas consideradas desimportantes
demais pra merecer prenda de valor, boa remuneração pelos serviços prestados ou alguma deferência especial: “Pra
quem é bacalhau basta”, se dizia.
E foi assim que me vi na mercearia a sopesar os
bitelões da iguaria embaladas em bandejinhas de isopor
envolvidas em filme transparente, decidindo qual deles
levar. A embalagem do bicho, longe de ser hermética,
deixava um pouco do sal do peixe e muito de seu cheiro
se transferirem para os meus dedos, algo que só percebi cruzando o viaduto do Chá, ao levar distraidamente
a mão ao nariz. Cheirei, senti, pirei. Aquele cheiro me
falava direto à libido, pá. Se me perdoam mais uma vez
certa rudeza vernacular nestas páginas, eu diria tratar-se
do inconfundível e genérico cheiro de buceta, de buceta
saudável, cônscia de si mesma, passível de pronta excitação se devidamente provocada. Pra mim, naquela hora
morna da tarde, aquele odor era nada mais, nada menos,
que o cheirinho do amor.
E como estes olhos meus que algum bacalhau há
de comer um dia, depois de escoadas minhas cinzas pro
mar, não haviam perdido o senso da visão, acontecia de se
verem a todo instante atraídos por vários dos exemplares
femininos em circulação à minha volta no vasto oceano
humanoide da Pauliceia, o que só acentuava a conotação
sexual do bodum de bacalhau impregnado em meus dedos. Ali estavam, naquele intenso aroma, os inequívocos
vestígios da vulva arquetípica herdada das formas aquáticas ancestrais de onde viemos.
E assim caminhava a humanidade, e eu no meio
dela, pelo viaduto do Chá, de olho naquela parcela da
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dita humanidade capaz de secretar em suas partes íntimas
o perfume essencial que eu trazia agora nas mãos e dentro
da sacola plástica com a posta de bacalhau. Eu olhava as
meninas ao mesmo tempo em que cheirava a ponta dos
dedos e seguia viajando forte na libidinagem olfativa e
ocular, feito um Leopold Bloom capaz de operar a transformação sinestésica de cheiro de bacalhau em sexo feminino, em pleno fluxo de consciência deambulatório pelas
ruas da minha São Paulo dublinesca.
Secretárias, executivas, comerciárias, bancárias,
faxineiras, estudantes, professoras, golpistas e malabaristas, negras, brancas e orientais, eu olhava pra cada uma
delas e lhes aspirava a flor do sexo sem a menor cerimônia. E o cheiro de cada uma, que eu trazia na ponta dos
dedos, era o cheiro sexual de todas elas, sendo também o
perfume do divino bacalhau dos mares do norte. Até uma
PM que passou por mim em seu lento passo de patrulha,
toda justinha no uniforme, com uma carinha morena de
boneca séria debaixo da aba curta do quepe, lábios discretamente batonados, ostentando peitos capazes de abater
sem misericórdia bandidos armados até os dentes, até essa
bela militar eu cheirei profundamente na ponta dos meus
safadedos embucetados de bacalhau.
A profunda conclusão que tirei desse episódio banal é que, enquanto tem olfato, o ser humano tem tesão.
Pode anotar essa frase no mármore das verdades eternas,
meu amigo. Em outras palavras, enquanto o sujeito se
deleitar com o cheirinho de bacalhau salgado em seus dedos, seja ele proveniente do gadus morhua ou das meninas
do viaduto do Chá, o bicho continuará pegando em sua
libido, isso é batata — batata, aliás, que, corada ao forno
ou cozida na água, costuma acompanhar o bacalhau à
mesa com grande sucesso.
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E como os peixes também têm olfato, precioso
meio de orientação para eles, aliás, e também se dividem
em machos e fêmeas, um necessitando do outro pra reproduzir a espécie, a exemplo do que acontece com todas
as outras espécies interessantes do planeta, não seria descabido aventar a hipótese de que até os bacalhaus sentem-se atraídos pelo cheiro de bacalhau — das bacalhoas,
no caso —, equiparando-se por esse viés nasal ao gênero
humano.
E antes que eu me anime a tirar mais assunto de uma simples posta de gadus morhua, digo apenas
que o bacalhau comprado naquele dia no centrão, feito
no forno da minha sogra, com as postas já devidamente dessalgadas, recobertas de farinha de rosca com alho
espremido e nadando em azeite, aquele bacalhau ficou
“de gritos”, como teriam dito, se vivos fossem, o seu Godinho da mercearia, o meu vovozinho de Trás-os-Montes
e o meu saudoso sogro, igualmente português, grandes
apreciadores, todos os três, tanto do bacalhau quanto do
seu cheirinho inebriante e evocativo do sexo feminino, o
qual também souberam desfrutar no curto período em
que permaneceram vivos, como diria com platitudinal
sapiência o Philip Roth.
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Luis Antonio Giron – TV Cultura.