EDITORIAL
A
quela garota intrigou Freud. Mais do que isso – afinal todos os pacientes o intrigavam – ela o tirou do sério! Tinha só 18 anos e bastante
petulância! Não que desdenhasse da psicanálise, só parecia não
precisar dela. Concordara em freqüentar Freud para acalmar os pais, mas
não desistira de seu projeto amoroso de salvar uma mulher de fama duvidosa
de seu triste destino. Sincera e direta, não escondeu de Freud seus propósitos. Aliás, não escondeu de ninguém sua escolha desafiadora. Qual a outra
cena que se desenrolava no espetáculo que oferecia nas ruas de Viena e que
culminou com um grave risco para sua vida?
O que o caso dessa garota do século passado ainda pode nos ensinar
sobre as resistências que encontramos, hoje, em nossa clínica?
O sucesso dos programas televisivos que expõe a intimidade de seus
participantes – preço a pagar pela fama que, enfim, os reconhecerá, salvando-os do anonimato – poderia nos indicar que algo do simbólico fracassa,
sendo delegada à imagem e ao espetáculo a função de referentes que a
sociedade parece incapaz de fornecer. Parece ser da fama que o homem
moderno autoriza seu lugar no campo das representações, tal como a jovem
paciente de Freud, com suas cenas pela cidade.
O que pode a Psicanálise dizer num contexto onde a tecnologia e a
ciência prometem a realização dos desejos sem qualquer limite, se possível,
dispensando a relação com o Outro, com castração, que só produz confusão e queixas?
Transferência, resistência, acting-out e passagem ao ato são alguns
dos temas que o texto de Freud, “Psicogênese de um caso de homossexualidade feminina”, de 1920, nos convoca ao estudo e à discussão em nosso
tradicional encontro, “Relendo Freud e Conversando sobre a APPOA”, a ser
realizado neste mês, em Canela. A seção temática deste número do Correio
busca ser uma contribuição ao debate que promete aquecer nosso encontro
de outono.
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 102, maio 2002
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NOTÍCIAS
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RELENDO FREUD
“A PSICOGÊNESE DE UM CASO
DE HOMOSSEXUALIDADE FEMININA”
O modo que a APPOA encontrou de reunir seus associados para um
fim de semana de conversa sobre a instituição foi intitulado de “Relendo
Freud e Conversando sobre a APPPOA”. A retomada da leitura de textos
freudianos, que consideramos uma necessidade permanente, cria um solo
comum onde plantar novas idéias. Já a conversação sobre a instituição é um
espaço genuíno de críticas, autocríticas e planos que adubam cada ano de
trabalho.
Nosso eixo este ano será um texto, publicado em 1920, denominado
“Sobre a psicogênese de um caso de homossexualidade feminina”. É interessante notar que esta hitória clínica, a única que Freud não “batiza” a
paciente, terminou por ser conhecido por um “apelido”: “O caso da jovem homossexual”.
Entre as pacientes de Freud que conhecemos, esta jovem é quiçá a
mais contemporânea. Se tantas vezes se comenta que a psicanálise precisava atualizar-se para levar em conta as transformações pelas quais as
mulheres passaram, este caso é certamente o elo encontrado.
A jovem chega à análise com uma queixa que não assume, racionaliza, atua, e parte. Alguém já teve um paciente assim? Ela é como tantas, de
todas as idades, que atravessam a porta do consultório de qualquer psicanalista.
Basta estar disposto a uma escuta analítica que suporte ser desafiada.
Deixamos que suas questões façam eco entre nós e que as reflexões
de Freud e Lacan animem o nosso debate.
O escrito de Freud é fonte de várias reflexões clínicas e teóricas das
quais citaremos apenas algumas das possibilidades:
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C. da APPOA, Porto Alegre, n. 102, maio 2002
– acting out e passagem ao ato
– entrevistas preliminares
– o trabalho com a transferência
– a demanda situada na família
– decepção/frustração e escolha de objeto
– o Édipo na mulher
CONVERSANDO SOBRE A APPOA
Nos dias 24, 25 e 26 de maio estaremos reunidos em canela no hotel
Laje de Pedra, para discutirmos este importante texto de Freud.
O Cartel preparatório deste fim de semana de trabalho estará se reunindo às segundas-feiras, às 20h30min.
A participação esta aberta aos interessados.
RESERVAS
As reservas devem ser feitas com antecedência pelos participantes.
Hotel Laje de Pedra: (54) 282.4300
Outras opções de reservas, em Canela (54) 282.2200 e em Gramado (54)
282.1418.
INSCRIÇÕES
As inscrições já podem ser feitas na APPOA pelo valor de R$15,00.
Este valor corresponde às defesas de coffee-break e correspondência.
LOCAL
Hotel Laje de Pedra – Av. Presidente Kennedy, s/nº – Canela – RS
Homepage: www.lajedepedra.com.br
E-mail: [email protected]
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JORNADA DE ABERTURA
da posição do analista em sua prática clínica.
Angela Lângaro Becker apresentou o trabalho “Adolescência como
estado-limite”, situando a aproximação entre ambos por ser a adolescência
um lugar de passagem, lugar de borda, onde o adolescente tem de romper
com os laços amorosos que o identifica aos pais e ficar exposto aos fracassos de pretensões fálicas, apontando o lugar paterno como de transmissão
e não apenas de fundação. Referiu, ainda, a adolescência como um lugar
não definitivo.
Alfredo Jerusalinsky, com seu trabalho “Além da neurose, aquém da psicose”, dedica sua fala às formações fanáticas com todos os seus efeitos dramáticos, apontando o pai como centro de identificação, como falo total, com o
todo amor e que pratica o ato de fazer gozar a mãe, como um ato definitivo, ou
seja, que as formações fanáticas consistem na identificação absoluta ao pai.
Sem dúvida, esta Jornada lança uma série de questões fundamentais
em torno da clínica e da teoria, sobre as quais poderemos trabalhar num
futuro próximo.
Maria Beatriz Kallfelz
Maria Elisabeth Tubino
Regina de Souza Silva
No dia 06 de abril, aconteceu no Hotel Embaixador, a Jornada de
Abertura dos trabalhos da APPOA – 2002, com a proposta de trabalhar o
tema “A Beira da Loucura”.
Houve a participação de um grande número de colegas, possibilitando
questionamentos e reflexões sobre os assuntos trabalhados.
Estavam presentes, também, os freqüentadores das várias turmas do
Percurso de Escola, que tiveram esta Jornada como aula inaugural.
Após as palavras iniciais de Maria Ângela Brasil, presidente da APPOA, a
coordenadora da Comissão de Ensino, Ligia Victora, apresentou o eixo de estudo
da Associação para 2002, que tem como proposta discutir o que chamamos “estados limites”, ou seja, a periferia das estruturas, pontos cruciais da clínica.
A seguir, Edson de Sousa divulgou o lançamento de livros:
– Seminário “O Desejo e sua interpretação”, de Jacques Lacan
– Cadernos da APPOA – “A Terceira”, de Jacques Lacan
– “Seminários I”, de Alfredo Jerusalinsky
– “Seminários Espetaculares”, de Diversos autores
– “Ética e Psicanálise”, de Maria Rita Kehl
A primeira mesa de trabalhos teve a contribuição de Liliane Froemming
com o título “A beira da loucura”. Partindo da suposição de que a loucura tem
uma beira, já demonstrando então a possibilidade da loucura ter traços limites e contornos, passou sobre a discorrer a etiologia da palavra “beira”, trabalhando concepções de loucura, à luz de diversos postulados teóricos e para
ilustrar sua fala, apresentou um trecho do filme “Limite”, de Mario Peixoto,
mostrando a fragilidade do limite das bordas de um barco, contra a imensidão
do mar.
Maria Lúcia Müller Stein, nos relatou, através de seu trabalho, “Fora
da casinha: A fragilidade sem abrigo”, um caso clínico. Enfocou o uso de
drogas por uma adolescente, trabalhando de um lado o acting out, pelo viés
do sintoma e, relacionando-o à angústia e, por outro, a posição do analista
frente ao acting out. Proposição que provocou importante discussão acerca
Este grupo tem como proposição de trabalho a reflexão acerca das
formas sintomáticas que se processam no campo da infância contemporânea. O sujeito e o brincar na infância; a abordagem psicanalítica do brincar
através da leitura de escritos clássicos sobre tema; o estudo dos sintomas
clínicos e de estrutura na infância e o brincar na contemporaneidade e na
clínica psicanalítica, serão alguns dos eixos abordados.
Coordenação: Ana Marta Meira
Quinzenal, Sexta-feira, 18h.
Próximo encontro: 10 de maio de 2002
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GRUPO TEMÁTICO
O SINTOMA NA INFÂNCIA CONTEMPORÂNEA – ARTICULAÇÕES EM
TORNO DO BRINCAR E A CLÍNICA PSICANALÍTICA COM CRIANÇAS
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REUNIÕES PREPARATÓRIAS DO COLÓQUIO
“ADOLESCÊNCIA E CONSTRUÇÃO DE FRONTEIRAS”
No mês de março tivemos dois encontros dedicados ao tema do espaço. Vamos nos deter no primeiro deles, realizado no dia 09. Nesta ocasião, tivemos a oportunidade de contar com a participação de Maria Rita
Kehl. A proposta era abordarmos o tema do espaço a partir da psicopatologia;
mais especificamente, apreender o que a fobia pode nos ensinar sobre o
espaço. A leituras sugeridas foram “O gosto pelo quarto”, de Martine LerudeFlechet e “O nó borromeu da fobia”, de Charles Melman; ambos encontrados
no livro “Fobia”, tradução de uma publicação da AFI.
A partir da fobia pudemos perceber que o mundo nos interpela desde
seus objetos, e estes definem nossa circulação no espaço.
Naqueles textos, constatamos que toda e qualquer fobia sempre é,
fundamentalmente, uma fobia do espaço. Não há fobia do objeto. Este apenas demarca o espaço, pontuando-o e estabelecendo, assim, uma circulação possível. Por isso, a agorafobia é a fobia por excelência.
Assim como para o paciente de Flechet o último reduto era o quarto,
certamente não é à toa que se fala, então, que o último reduto de um indivíduo é sob sua própria cama. E talvez sob a cama com alguém, como na
brincadeira infantil lembrada por Melman, que põe em cena um terceiro que
nos surpreende no nosso esconderijo com um parceiro, geralmente do outro
sexo. Pois a angústia que o acua, essa que emerge na fobia, é sempre
angústia de castração, no que ela é signo do desejo e de uma defesa contra
o mesmo. É então que percebemos que essa redução extrema do espaço
de circulação do corpo corresponde a uma erotização. A partir daí, podemos
pensar a fobia enquanto constitutiva do sujeito, na medida em que ela dá
uma dimensão sexual à falta significante. E é por isso que Flechet afirma
que a fobia coloca em jogo os limites do corpo e do espaço, bem como o
vínculo que os une: o olhar. Aí encontramos um ponto fundamental que pode
permitir a um psicanalista apropriar-se de um tema aparentemente tão estrangeiro ao campo da psicanálise como este: o espaço.
A propósito, na adolescência vemos escancarada esta questão da
colocação em cena do corpo que, ao ganhar a rua, passa a ser aquele por
onde circulará a pulsão. Olhar/ser olhado define, então, a partir do encontro
com o olhar não parental, os deslocamentos do corpo adolescente no espaço. De fato, o fóbico tem razão na sua certeza de que uma vez saindo – do
universo materno – não há mais volta: já há uma escolha sexuada em curso.
Nesse sentido, o interesse que nós, psicanalistas, podemos ter pela temática
do espaço está diretamente relacionado às possibilidades de circulação social de um corpo sexuado.
Desde Freud sabemos que as teorias sexuais infantis são uma primeira forma de responder ao enigma sobre a origem no desejo materno. Ao
criar a ficção de um corpo coletivo mãe/filho, a criança põe em cena o corpo
da Mãe como sendo o Outro primordial. A fobia, ao problematizar a separação da Mãe, trata de constituir neste mesmo movimento o corpo materno.
Reside aí a angústia fóbica do tudo ou nada: ou eu me separo e sou consumido pelo infinito desejo da Mãe; ou, permanecendo na indiferenciação de
um corpo coletivo, não há representação possível. Neste sentido, tal separação equivaleria a passar do corpo da Mãe para o nada. É então que surge o
objeto fóbico, ortopedia do limite entre o dentro e o fora do corpo da Mãe.
Esse representante paterno define, assim, este corpo como incestuoso e,
como tal, interditado.
Quanto ao parceiro, é de se notar que na fobia o outro (o acompanhante contrafóbico) se faz presente enquanto o duplo da relação especular a –
a’. Lembramos que o duplo especular comporta, por um lado, a face do
semelhante e, por outro, a face do estranho. No texto do Unheimlich, Freud
deixa isto muito claro ao mostrar como o familiar traz em si também o não
familiar. A partir desta questão, como podemos pensar o controle que é
exercido sobre o objeto contrafóbico?
No que diz respeito ao espaço urbano, este se constituiria sob a perspectiva fóbica? Ou seria, antes, a fobia o sintoma do espaço nas grandes cidades? O fato é que sofremos todos de uma dificuldade de passar do imaginário para a simbolização do Outro. Mas o que dificultaria esta passagem?
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Com certeza, na contemporaneidade, o que determina o simbólico é
muito vago e abstrato: não há mais códigos morais nem mitos compartilhados. É nesta direção que segue o autor de “Abril despedaçado”, Ismail Kadaré.
Também Paul Selan, em “Ninguém” (“Ninguém nos moldará em terra e barro...”) confirma a idéia de que, ao sair do corpo da Mãe, o que encontramos
é o nada, um lugar vago. E por aí podemos adentrar na função paterna desempenhada pelas grandes e históricas ficções do Pai e no posterior declínio
das mesmas, que faz sentir seus efeitos na cultura e na subjetividade.
De qualquer forma, a fobia do escuro ilumina sobremaneira a nossa
questão: no escuro não posso ver que a Mãe não está em todos os lugares.
Como bem observa Freud, a respeito da criança que nos pede que falemos
alguma coisa porque está escuro, quando alguém fala, algo do escuro se
ilumina. Ilustrações disto encontramos em “O livro dos abraços”, de Eduardo
Galeano, quando estando pai e filho diante do mar à noite, a criança diz:
“Pai, me ajuda a ver?”. A brincadeira praiana, muito comum na infância, de
nadar até chegar na África, por exemplo, vai na mesma direção de buscar
um limite para algo que parece infinito: o desejo materno.
Podemos entender agora porque razão, segundo Melman, o mar e a
montanha são locais preferidos para desfrutar as férias e o tempo de lazer. O
vislumbre do infinito proporcionado por tais regiões só não angustia e, antes
de tudo, até favorece um descanso, por consistir num espaço limitado pelo
tempo definido das férias. Representam, então, uma certa trégua em relação
aos limites que nos sustentam.
E na adolescência, como se dá a relação ao Outro? Considerando
que o adolescente se defronta com a morte da ficção do Pai da infância, que
até então comportava em si a estrutura que consiste no lugar do Outro, o
que, hoje, o social oferece neste lugar? A juventude como um valor: o ideal
passa a ser o filho, e não mais o Pai. A partir disso, a gravidez na adolescência pode ser pensada como uma necessidade de colocar um limite na angústia que comporta o gozo de ser o eu ideal. Ou se está segurando na mão
do pai, como na infância; ou se torna mãe/pai segurando a mão de uma
criança. Criança esta que ocupa muito claramente a função de objeto
contrafóbico, um duplo.
Já esse jeito adolescente de ser sujo, fedido, desleixado, indica-nos
um movimento de separação do eu ideal apontado pelo olhar materno; mas
que tem como resultado uma convocação deste olhar. Percebemos como a
erótica da passividade/atividade representa uma espécie de “parada” em relação a esse movimento que se pretendia inicialmente de saída.
Retomando a questão que colocávamo-nos sobre a adolescência na
contemporaneidade, o que acontece nesses espaços onde eu não sou ninguém, onde o imaginário prevalente é o publicitário e o das narrativas pobres? Em que reside a grande atração exercida pela Casa dos Artistas ou
pelo Big Brother? Ambos carecem de uma narrativa, já que acontecem em
tempo real. Pois sabemos que a narrativa consiste num recorte do tempo
que permite remetermo-nos a outro tempo e espaço. Se todos reclamamos
do tédio cotidiano, o que nos faz querer assistir o cotidiano de outrem? Não
estaríamos todos à espera de algo acontecer? Não é justamente quando
algo acontece que encontramos sentido na inércia de nosso cotidiano e o
transformamos em narrativa? E o que poderia ser este “algo” que buscamos
espreitar pelo buraco da fechadura? Seria um caso amoroso?
A Casa dos Artistas, por reunir pessoas (quase) famosas e conhecidas, talvez ainda comporte algo de uma narrativa; afinal a fama é o que
transforma ninguém em alguém. Mas, a exemplo da cena encobridora em
Freud, um sucesso intenso vem recobrir o que? Qual é a função de encobrimento contida numa exposição excessiva? Lembremos que a cena encobridora
surge como uma “falsa” lembrança formada no lugar, por deslocamento, de
uma lembrança infantil sufocada. Então, esse fazer-se por si mesmo (a fama,
a imagem) estaria recobrindo a questão do que o Outro vê em nós? De
qualquer forma percebemos aí o quanto a imagem se diferencia do imaginário. Este consiste numa imagem associada a uma narrativa.
Não é demais notar que o Big Brother, de George Orwell, no livro
“1984” remetia a uma outra modalidade de relação ao Outro. Esse indicava a
onipresença de um grande olho que tudo sabia sobre nós no melhor estilo
paranóico, tal como a grande ficção paterna de nossa infância ou mesmo as
ficções que fizeram nossa história cultural.
Um filme já antigo, “A rosa púrpura do Cairo”, também colocava em
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pauta esse brincar de real. A protagonista, que refugiava-se no cinema onde
entregava-se a devanear um grande romance com o personagem do filme
assistido repetida e incansavelmente, um dia se vê obrigada a escolher entre
o personagem ou o ator (que representava tal personagem). Acabou optando
pelo ator, como se a opção pelo real pudesse servir de garantia de não continuar se enganando. Não é preciso, é claro, contar qual foi o desfecho.
Flaubert definia a literatura realista como sendo aquela que cria efeito
de real. Mas o efeito de real que a palavra propicia é completamente diferente
do efeito totalitário de real que a imagem oferece. De alguma forma sabemos
aonde vai encontrar o real aquele que corre o risco escatológico de procurálo na fantasia.
Carmen Backes, Luís Fernando de Oliveira e Valéria Rilho
p/ Coordenação do Colóquio
PRÓXIMAS REUNIÕES DO COLÓQUIO
Dia 11 de maio, sábado, às 9h30min, na sede da APPOA. O segundo
encontro deste mês (dia 18, à confirmar), será um debate a propósito de um
filme, atividade inserida no projeto da APPOA “Sessão de cinema”. Os textos sugeridos como leitura prévia a cada encontro estarão à disposição para
serem reproduzidos na secretaria sempre com uma semana de antecedência à reunião correspondente.
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FALECIMENTO DE HELENA BESSERMAN VIANNA
Reproduzimos abaixo a nota sobre o falecimento veiculado pelo site
dos Estados Gerais da Psicanálise. A notícia desta perda teve repercussão
no Brasil, Argentina e Europa onde o trabalho de Helena em prol da ética
psicanalítica era reconhecido. A APPOA se solidariza com os colegas que
enviaram suas manifestações. “Com grande tristeza e pesar comunicamos o
falecimento de Helena Besserman Vianna, ocorrido em 07/04/02, no Rio
de Janeiro. Médica, psicanalista, nossa companheira de trabalho nos
Estados Gerais da Psicanálise, que na sua luta em favor da ética na psicanálise, motivou a convocação desse movimento.
O seu trabalho no campo da psicanálise nos deixou vários artigos e
livros como: “As bases do amor materno” escritocom Teresa Pinheiro e
“Não conte a ninguém”, traduzido ao francês e aoespanhol. A sua presença
inquieta e a sua capacidade realizadora nos fará muita falta.
Tendo participado ativamente dos movimentos contra a ditadura militar. Recebeu a medalha Chico Mendes, em homenagem ao seu empenho
pela redemocratização do Brasil.”
S.Paulo, 08/04/2002
Maria Cristina Rios Magalhães
pelo Comitê internacional de preparação
dos Estados Gerais da Psicanálise no Brasil
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SEÇÃO TEMÁTICA
PINHO, G. S. A propósito da jovem homossexual.
A PROPÓSITO DA JOVEM HOMOSSEXUAL
M
ês de maio. O outono anuncia nosso encontro anual em Canela, o
“Relendo Freud e Conversando sobre a APPOA”, momento privilegiado de discussão teórica e diálogo sobre nosso laço institucional.
Este ano, o texto freudiano escolhido como mote para os nosso trabalhos é
“A psicogênese de um caso de homossexualismo numa mulher” (1920), o
caso da “jovem homossexual” como o chamamos.
O Correio da APPOA, sendo a publicação mensal de nossa Associação, propõe, então, como seção temática deste mês de maio, artigos de
colegas que se dedicaram a pensar sobre este escrito, bem como sobre as
formulações posteriores de Jacques Lacan em seus Seminários, referentes
ao tema.
Os autores retomam, de forma cuidadosa, os principais elementos
deste famoso caso clínico, fazendo o texto freudiano dialogar com as elaborações lacanianas posteriores, mas, acima de tudo, nos remetem a pensar
sobre nossa prática clínica ao trazerem importantes considerações teóricas
que tem incidência direta em nosso trabalho cotidiano.
Assim, percorrendo esta via de mão dupla, que é pratica clínica e a
teoria, sempre inseparáveis e decorrentes uma da outra, problematizam nossas “certezas teóricas” e nos colocam em um constante movimento de construção. Nossos colegas, com seus textos, nos desafiam e convocam a participar desta discussão. Desejamos que a leitura da seção temática provoque questões que venham aquecer nosso encontro.
Maria Lúcia Müller Stein
Rossana Stella Oliva
Gerson Smiech Pinho
P
sicogênese de um caso de homossexualismo numa mulher é um
texto, publicado em 1920, que está no princípio de uma série de
importantes elaborações de Freud a respeito da sexualidade feminina. Algumas das idéias desenvolvidas em escritos posteriores, como “A organização genital infantil” (1923), “As conseqüências psíquicas da distinção
anatômica entre os sexos” (1925) e “Sexualidade feminina” (1931), já estão
presentes no caso da “jovem homossexual” – modo como é conhecida a
paciente cuja análise é relatada, no texto de 1920.
Este texto de Freud, que Lacan diz ser “um dos mais brilhantes” e
“dos mais problemáticos”1, trabalha o caso de uma paciente de 18 anos que
cortejava apaixonadamente uma dama de reputação “duvidosa”, despertando fortemente a ira de seu pai. A jovem foi levada à análise com Freud alguns
meses depois de uma tentativa de suicídio, decorrente de uma situação em
que encontrou o pai na rua, enquanto ela desfrutava da companhia de sua
amada. Quando viu as duas juntas, o pai lançou um olhar furioso em sua
direção, levando a dama a dizer que elas não se encontrariam mais. Neste
momento, a jovem saiu correndo e jogou-se na direção de um muro, caindo
na linha ferroviária.
Lacan comenta esta história clínica, de modo mais ou menos extenso, em dois momentos de seus seminários. O primeiro deles acontece no
seminário IV, “A relação de objeto e as estruturas freudianas”; o segundo, no
seminário X, intitulado “A angústia”.
A partir de alguns elementos da elaboração apresentada sobre este
caso nos seminários de Lacan, procuro trabalhar a mudança de posição que
ocorre na adolescência e que conduz à homossexualidade e sua tentativa de
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Lacan, J. A relação de objeto e as estruturas freudianas. Lição de 09 de janeiro de 1957.
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SEÇÃO TEMÁTICA
PINHO, G. S. A propósito da jovem homossexual.
suicídio. Obviamente, não pretendo esgotar a discussão que Lacan fez desses temas, mas apenas recortar algumas questões que me parecem importantes para o trabalho em torno do escrito de Freud. Retomemos, agora,
mais algumas idéias essenciais deste texto.
Freud relata que sua paciente, quando tinha 13 ou 14 anos, desenvolvera uma terna e intensa afeição por um menino de 3 anos, revelando, dessa
forma, seu desejo de ser mãe. De acordo com a idéia de que, no complexo
édipo da menina, o pênis desejado será recebido do pai sob a forma de um
substituto, ou seja, uma criança, a jovem se satisfazia com uma criança
substituta àquela que desejava ter do pai. A criança cuidada por ela permitiu
a substituição fálica imaginária. Neste momento, ela está em uma relação
com um pai simbólico que estaria em condições de lhe dar o falo imaginário,
ou seja, um filho.
Porém, mais adiante, sua atitude se modificou radicalmente. Ela passa a ser indiferente com a criança e desvia seu interesse para mulheres mais
velhas, maduras e de aparência jovem. Esta mudança – de uma atitude
maternal para outra, homossexual – coincidiu com uma nova gravidez de sua
mãe, seguida do nascimento de um novo irmão. A paciente contava, neste
período, com 16 anos.
A interpretação feita por Freud deste episódio diz respeito à
revivescência do complexo de édipo na adolescência. A atitude maternal
dirigida ao menino expressava seu desejo de ter um filho do pai. Este desejo
foi seguido por um desapontamento, já que foi a mãe quem teve o filho desejado. Desta forma, a jovem afastou-se do pai e dos homens, repudiando o
desejo de ter um filho e o papel feminino em geral.
Em “A relação de objeto e as estruturas freudianas”, Lacan analisa o
caso da jovem homossexual a partir dos três termos de referência da falta de
objeto por ele estabelecidos, naquele seminário – a castração, falta simbólica de um objeto imaginário; a frustração, falta imaginária de um objeto real;
e a privação, falta real de um objeto simbólico. A decepção sofrida pela
paciente de Freud, quando sua mãe fica grávida e tem outro filho, é situada
por Lacan no registro da frustração, conceito que pode ser compreendido
como um prejuízo imaginário, pertencente ao domínio da reivindicação e das
exigências ilimitadas, que acompanham a tentativa inútil de restabelecer a
plenitude do eu.
A partir do momento em que entra em jogo uma criança real, o novo
irmão que chega, e ocorre uma decepção, o pai passa a ocupar a posição de
agente da frustração, fazendo com que a estrutura se modifique e passe a
constituir uma relação imaginária. A presença do irmão enquanto objeto real
fez com que a jovem fosse reconduzida ao plano da frustração. O objeto da
frustração sempre pertence ao registro do real e, neste caso, o nascimento
de uma criança real que o pai deu à mãe constitui a frustração que fez a
estrutura movimentar-se.
A decepção sofrida com o pai tem como efeito uma identificação da
paciente com ele. Assim, o pai que estava no nível do Outro passa ao nível
do eu (moi), na medida em que ela assume a posição masculina. O pai
simbólico passa ao nível do imaginário por uma identificação à função do pai.
Freud descreve a atitude da jovem homossexual em relação à dama como
sendo um “amor tipicamente masculino”, cujas características são a
supervalorização do objeto sexual e a humildade diante dele.
Lacan fala desta transformação que acontece com o nascimento do
irmão, dizendo que a mesma ocorre “por uma espécie de inversão, a passagem da relação – o que está aqui na ordem simbólica que é aquela de sua
relação com seu pai – a passagem desta relação no sentido da relação
imaginária, ou se vocês preferem, de uma certa maneira a projeção da relação da fórmula inconsciente que é naquele momento a de seu primeiro equilíbrio, numa relação perversa, uma relação imaginária que é aquela que entretém com a dama.”2
Podemos dizer que aquilo que não teve sustentação suficiente para
seguir seu curso como uma promessa simbólica irrompe, neste caso, como
uma violenta reivindicação no plano imaginário. Esta mesma dificuldade de
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Lacan, J. A relação de objeto e as estruturas freudianas. Lição de 23 de janeiro de 1957.
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SEÇÃO TEMÁTICA
PINHO, G. S. A propósito da jovem homossexual.
se sustentar simbolicamente pode ser encontrada, também, no comentário
sobre a jovem homossexual que Lacan fez no seminário sobre “A angústia”.
Se, no seminário IV, ao trabalhar a questão do objeto, Lacan sublinhava a importância das dimensões da falta e da perda; no seminário X, já produziu uma série de avanços em relação a este ponto com a elaboração da
noção de “objeto a” e é em torno deste conceito que gira sua discussão a
respeito da angústia. Nesse seminário, Lacan afirma que o objeto da angústia é o “objeto a”, causa de desejo. A angústia é a única tradução subjetiva
desse objeto e pode ser entendida como uma “falta da falta”. Ali, Lacan
retoma o caso da jovem homossexual ao trabalhar as diferenças entre “acting
out” e “passagem ao ato”.
Lacan define o acting out como alguma coisa que se mostra na conduta do sujeito, orientada ao Outro. No caso da jovem homossexual, é publicamente que sua conduta se manifesta. Seu comportamento em relação à
dama era bastante explícito, já que não tinha escrúpulos quanto a aparecer
junto à amiga diante dos outros, ao mesmo tempo que utilizava alguns meios de embuste para enganar seu pai. Lacan diz que “é aos olhos de todos, é
na medida mesmo e tanto mais quanto essa publicidade torna-se escandalosa, que a conduta da jovem homossexual se acentua.”3 Toda esta
“mostração” implica uma posição de desafio ao pai e, portanto, pode ser
compreendida como um acting out dirigido a ele. O acting out é uma demanda de simbolização dirigida a alguém. É uma conduta que um sujeito assume para ser decifrada por aquele para quem a dirige. Algo é mostrado, fora
de qualquer possibilidade de rememoração e fora de qualquer levantamento
de um recalque. O acting out da jovem homossexual revela que seu desejo
era o de ter um filho do pai, enquanto falo.
Diferente do acting out, a passagem ao ato é uma identificação ao
objeto a. Trata-se de um ato sem simbolização, através do qual o sujeito
entra em uma situação de ruptura integral e alienação radical. Ele se identifica com o objeto a, excluído e rejeitado de qualquer quadro simbólico.
A tentativa de suicídio da jovem homossexual pode ser considerada
como uma passagem ao ato. É o instante em que, ao cruzar com o olhar
furioso de seu pai, ela se precipita sobre uma estrada de ferro, “deixando-se
cair”. Como afirma Lacan, “o que acontece, nesse momento aí, com o sujeito, é sua identificação absoluta a esse pequeno a, ao qual ela se reduz. A
confrontação do desejo do pai, sobre o qual tudo em sua conduta está
construído, com essa lei que se presentifica no olhar do pai, é isso, pelo que
ela se sente definitivamente identificada e, ao mesmo tempo rejeitada, ejetada
fora da cena.”4
Na passagem ao ato, o sujeito se “deixa cair” do lugar da cena em que
se encontra, precipitando-se do lugar onde poderia estar enquanto sujeito
historicizado. Aqui, a palavra Niederkommen, que surge na análise da jovem
homossexual, ganha seu sentido, significando tanto “se deixar cair” quanto
“dar a luz”. Ao contrário do acting out, a passagem ao ato não se dirige a
ninguém. Assim, não se trata de um ato que demanda ser decifrado, mas
uma tentativa última de encontrar um lugar junto ao Outro.
Aqui, novamente, nos deparamos com momentos desse caso em que
a dificuldade de sustentação diante do Outro irrompe. A posição de desafio
frente ao pai após a decepção sofrida, o acting out junto à dama e a passagem ao ato suicida são fenômenos que permitem pensarmos nas freqüentes
situações em que os limites entre a neurose e outras estruturas
psicopatológicas são rompidos e ultrapassados.
Na medida em que é possível abordar estas questões, a história clínica da jovem homossexual demonstra toda sua atualidade e interesse e vem,
mais uma vez, interrogar nossas “certezas” teóricas a partir da experiência
clínica.
3
4
Lacan, J. A angústia. Lição de 23 de janeiro de 1963.
16
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 102, maio 2002
Lacan, J. A angústia. Lição de 16 de janeiro de 1963.
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 102, maio 2002
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SEÇÃO TEMÁTICA
FLEIG, C. B. Agieren.
AGIEREN
Esse texto foi discutido no cartel com os colegas Adão Costa, Maria Auxiliadora Sudbrack
e Mario Fleig.
2
Freud, Sigmund. A psicogênese de um caso de homossexualismo numa mulher (1920a).
Rio de Janeiro: Imago,1976.
3
Freud, Sigmund. Fragmento da análise de um caso de histeria (1905e). Rio de Janeiro:
Imago,1976.
4
Lacan, Jacques. A angústia, seminário de 1962-1963 (inédito). (Publicação interna, em
português, do Centro de Estudos Freudianos do Recife)
determos na precisão do que venha a ser um acting-out, elemento primeiro
nesse caso.
Para começar, vale lembrar que no caso da jovem homossexual, Lacan
localiza no impulsivo jogar-se da ponte, uma passagem ao ato como o cair
da cena do fantasma representado através do significante niederkommen
que pode ser traduzido por cair ou dar a luz. O momento de sua precipitação
no vazio (passagem ao ato) se dá no ponto preciso de intersecção entre o
olhar furioso de seu pai e a reprimenda de sua amada. Nesta fração de
segundo, se rompe o amor sublimado ou amor cortês, cujo caráter sexual
suspenso está presente como condição de manter a distância entre si e o si
mesma como objeto a. No rompimento operado pelo olhar do pai e a voz da
dama, $ v a, advém a e o real da morte consiste na única via possível de
buscar a simbolização.
Na lição de 23 de janeiro de 1963, é notável a alusão que Lacan faz da
passagem ao ato, mas agora do analista, ao referir que Freud interrompera o
tratamento quando a paciente começara a relatar os sonhos mentirosos trazendo então, para seu analista, que o inconsciente também pode estar trabalhando para enganá-lo. Nesse ponto, Freud sugere aos pais que a paciente seja encaminhada para uma analista. E, disso, diz Lacan que “sem ver
com que ele está embaraçado, fica comovido, como o mostra, seguramente,
diante dessa ameaça à fidelidade do inconsciente, ele passa ao ato”. “Ele se
encarrega de deixá-la cair”.
Por outro lado, no mesmo seminário, ilustra através do caso de um
paciente neurótico obsessivo relatado por Ernest Cris, o acting-out do analista, que através de sua positivação produz um correlato no paciente.
Mas para maior precisão, se nos determos no Agieren estritamente
como acting-out, ainda na lição de 23 de janeiro de 1963, diz Lacan que: “No
caso de homossexualidade feminina, se a tentativa de suicídio é uma passagem ao ato, direi que toda a aventura com a dama de reputação duvidosa,
que é elevada à função de objeto supremo, é um acting-out. (...) O acting-out
é algo, na conduta do sujeito, que essencialmente se mostra. A ênfase demonstrativa, a orientação para o Outro de todo acting-out é algo que deve ser
realçado”.
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 102, maio 2002
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 102, maio 2002
Conceição Beltrão Fleig 1
T
endo em vista que nos preparamos para o “Relendo Freud”, assinalamos nesse texto – a título de contribuição, roteiro de possíveis leituras ou mesmo dando continuidade ao trabalho já iniciado – algumas
questões que consideramos estarem no cerne da prática analítica e que
foram abordadas por Lacan a respeito do caso clínico trazido por Freud em
“A psicogênese de um caso de homossexualismo numa mulher2”.
Inicialmente convém esclarecer que Freud emprega o termo Agieren
(agir), tanto para o provocativo comportamento amoroso da jovem, que desperta em sua mãe o horror ao escândalo e em seu pai a intensa reprovação,
como para o momento em que ela se joga sobre os trilhos do trem. O emprego dessa expressão também diz respeito ao agir de um sujeito fora da análise e no decorrer da mesma. Nos dois clássicos da clínica de Freud, “Fragmento da análise de um caso de histeria” (Dora)3 e “A psicogênese de um
caso de homossexualismo numa mulher”, que é o objeto de estudo da reunião desse ano, os Agieren foram anteriores ao início das respectivas análises, referindo-se ao que viria a ser, posteriormente, conceitualizado como
acting-out e passagem ao ato, cada um com sua especificidade.
Dentro do campo psíquico recoberto pelo Agieren freudiano, no seminário de 1962-1963, “A angústia4”, Lacan examina e estabelece essa diferença.
Vamos nomear alguns aspectos trabalhados por Lacan nesse seminário e que diz respeito ao caso da jovem homossexual para a seguir nos
1
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SEÇÃO TEMÁTICA
Especificamente no caso da jovem homossexual, o fator desencadeante do acting-out situa-se na vinda do irmão caçula, quando a mocinha
estava com treze anos. No desenrolar dessa curta análise, Freud localiza
nesse momento da vida de sua paciente uma profunda decepção por não ter
recebido do pai esse desejado falo que fora então ofertado a sua rival inconsciente, sua mãe. O conflito existente toma força e quanto maior o amor que
reivindica do pai, maior se torna a dívida com a mãe, pois pela traição abandona o lugar de falo materno. A queda do pai idealizado põe em primeiro
plano a dívida com o Outro materno.
Possivelmente, aí, se represente também o fracasso de sua teoria
sexual infantil uma vez que “uma teoria sexual infantil é uma teoria pela qual
a sexualidade dos pais se manteria sob o controle da criança.”5 Isso nos leva
a pensar na referência que Freud faz em “Leonardo da Vinci e uma lembrança da sua infância6”, a respeito do caráter duradouro e profundamente depressivo, decorrente do momento de um fracasso de uma dessas teorias, que se
fará sentir em todo futuro da criança marcando, também, toda tentativa de
independência inteletual. A questão que aí se coloca é que essa jovem recusa esse fracasso e se reergue como falo através do acting-out.
Mas, podemos perguntar sobre o que terá aí de sua mãe – sua confidente no período inicial da paixão da jovem pela mulher de reputação duvidosa – se levarmos em consideração que a teoria sexual infantil conserva uma
fragmento de verdade? “A criança inventa a teoria ou esta tem algo a ver com
a hipótese que a mãe faz sobre o saber da criança?”7
Pelo lado paterno, “sem dúvida, ressentimento e vingança são decisivos na relação dessa filha com seu pai. O ressentimento e a vingança são
isso, essa lei, esse falo supremo”. 8
5
Bergès, Jean e Balbo, Gabriel. A atualidade das teorias sexuais infantis. Porto Alegre:
CMC Editora, 2001.
6
Freud, Sigmund. Leonardo da Vinci e uma lembrança da sua infância (1910c). Rio de
Janeiro: Imago, 1976.
7
Bergès, Jean e Balbo, Gabriel. A atualidade das teorias sexuais infantis. Porto Alegre:
CMC Editora, 2001
8
Lacan, Jacques. A angústia, seminário de 1962-1963 (inédito). (Publicação interna, em
português, do Centro de estudos Freudianos do Recife).
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FLEIG, C. B. Agieren.
O início do processo de vingança é destacado por Freud, de forma
pontual, quando localiza, entre a decepção e o início do comportamento
indesejável e vingativo, o que seria a Ausweichen que pode ser traduzido por
desistir ou renunciar, sendo nesse caso relativo à feminilidade. Dá-se uma
intensa decepção acompanhada da ausência de luto, iniciando-se a luta a
morte por puro prestígio, conforme uma das figuras da consciência tão bem
descrita por Hegel. Em vez de fazer o luto, faz a luta através de uma posição
desafiadora e de pura mostração, relativa a qual Freud diz que “ademais
essa inabilidade não era sem intenção”.
Tomando-se como analogia uma passagem, o acting-out é um bilhete
de ida e volta, o que não significa que sempre tenha volta uma vez que na
alienação ao senhor supremo, a morte, um acidente fatal pode vir a ocorrer.
No caso em questão, a tentativa de suicídio não foi bem sucedida e ela
voltou à cena usufruindo os benefícios da benevolência dos pais e arquitetando um casamento por conveniência, com o projeto de manter em paralelo um
caso homossexual, persistindo o desejo (repetição). A posição de desafio e
vingança perdura em sua fala durante a análise, sendo que a passagem ao
ato, com a queda e as possíveis cicatrizes em seu corpo, foram insuficientes
para conter o acting-out. Não se operou nenhuma alteração em sua posição
subjetiva. Amparando-nos nisso já havíamos proposto ser o acting-out o elemento primeiro de caso clínico.
De acordo com o quadro proposto por Lacan, na lição de 14 de novembro de 1962, o acting-out encontra-se no triunfo da turbação, no máximo do
movimento e na coluna do impedimento e do sintoma, como uma loucura
destinada a evitar uma violenta angústia. Uma vez rompido o impedimento,
passa ao ato efetivando a morte (plenitude da dificuldade enquanto embaraço), no caminho inverso da inibição.
Sendo o acting-out, o se mostrar é endereçado ao Outro. Nessa mostração, a fatalidade pode vir a ocorrer ou pode acontecer também se o impedimento for rompido quando o sujeito se encontre nessa exuberância fálica.
Quanto a relação entre acting-out e transferência, a respeito disso
Lacan, nesse mesmo seminário, aponta que “se somos analistas, logo, ele
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SEÇÃO TEMÁTICA
se dirige ao analista. Se ocupou este lugar, pior para ele. Ele tem de qualquer forma a responsabilidade que pertence a esse lugar que ele aceitou
ocupar”. E, nesse ponto, retomamos uma afirmação feita no início desse texto,
qual seja de que o Agieren diz respeito ao agir tanto sem análise como em
análise.
Lacan propõe que, “diferentemente do sintoma, o acting-out é o início
da transferência. É a transferência selvagem. Não é preciso análise, vocês já
sabem disso, para que haja transferência. Mas a transferência sem análise é
o acting-out. O acting-out sem análise é a transferência”. E lança a pergunta
de como fazer para que o elefante selvagem entre no curral, de como fazer
para que o acting-out, passe a circular na transferência fazendo com que o
paciente possa se re-situar e se inserir de novo no discurso.
Talvez possamos, através da figura do pai da jovem homossexual,
interrogar ao próprio analista para cujo olhar está endereçada a vistosa,
enlouquecida e não menos persistente encenação: Mas o que o pai daquela
mocinha poderia fazer, “como esse outro poderia decifrar o acting-out, ele
mesmo que não sabe que não sustenta mais o lugar onde o sujeito o havia
instalado?”9
Encerrando esta contribuição, deixamos estas duas últimas perguntas em aberto e muitas questões a serem examinadas.
SUDBRACK, M. A. Objeto que cai.
OBJETO QUE CAI
Maria Auxiliadora Sudbrack
Sinto uma angústia danada; é terrível
porque a gente não sabe de onde vem
esta dor... uma realidade prima e tão
violenta, que ao tentar apreendê-la,
toda imagem rebenta.
João Cabral de Melo
N
Emerich, Choula. In Dictionnaire de la psychanalyse. Sob a direção de Roland Chemama e
Bernard vandermersch. Paris, Larousse, 1998.
ão se nasce mulher, torna-se, diz Lacan criticando Jones a partir de
Freud. Muito se tem escrito em psicanálise sobre esta mulher que
surpreende, que percorre caminhos edipianos assimétricos depois
de um ponto de partida comum, que se apega à mãe e depois ao pai, que
não se pode universalizar em seu gênero, sendo tomada apenas uma a uma,
que provoca a interrogação de Freud: o que quer uma mulher?
Freud nos apresenta, em 1920, o relato de uma paciente, intitulado
“Sobre a psicogênese de um caso de homossexualidade feminina”, que lhe
proporcionou uma série riquíssima de reflexões. Sabemos que os “fracassos” de sua prática antecipavam desenvolvimentos teóricos importantes, ao
mesmo tempo que sua narração abria pontos de crítica imprescindíveis para
o avanço da psicanálise.
É do mesmo ano seu trabalho: “Além do princípio do prazer”, ponto de
mudança quanto à teorização do conceito da Repetição, o qual vai influir
diretamente ao recolocar a função da Resistência em análise. Isto porque na
clínica da perversão o caso clínico da jovem homossexual aparece como
limite, assim como a interrupção do atendimento de Freud na direção desta
cura, por sua própria iniciativa, levantou questões que poderíamos chamar
de “fronteiras”.
Entre os pontos aí estudados por Freud aparece, em dois conceitos não
trabalhos em um momento a parte por ele, o Agieren, ou seja, o Acting-out e a
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 102, maio 2002
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9
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SUDBRACK, M. A. Objeto que cai.
Passagem ao ato, porém bastante utilizados pela psiquiatria inglesa, é claro, sem a especificidade psicanalítica. Lacan, entretanto, os retoma em seu
seminário sobre “A Angústia” ao discutir o caso da jovem homossexual,
tematizando-os psicanaliticamente.
Recordemos as articulações principais do caso: Freud começa pela
demanda de análise. Diz ele: “...a situação ideal para análise é a de alguém
que é seu próprio senhor, estar sofrendo de um conflito interno, que é incapaz de resolver sozinho; assim, leva seu problema ao analista e lhe pede
auxílio”. No entanto, acrescenta: “a jovem não era uma doente, não sofria em
si de nada, nem se queixava de sua condição”, logo não era da ordem do
sintoma o que ali se tratava. Por outro lado, não era o sujeito quem pedia a
cura, mas os pais que urgiam ver na filha a normalização de suas opções
amorosas, facilitando seu acesso ao sexo oposto. Freud observa as dificuldades encontradas nesse tipo de tratamento por encomenda, com o objetivo
de satisfazer as exigências familiares – não vai se comprometer com sua seqüência.
É a partir da decepção com o pai pelo nascimento de um irmão, quando ela tinha dezesseis anos, que Freud, escutando a história da paciente,
vai apontar um ponto de fratura como a irrupção no real do falo paterno, tão
aguardado por ela como dom. Faz-se notar então, por seu assédio cortês,
amor cortês, a uma dama de má reputação, uma cocotte dez anos mais
velha com quem fazia questão de se exibir publicamente e, especialmente,
frente ao local de trabalho do pai, deixando-o encolerizado. Um desafio assíduo e tranqüilo dirigido ao pai.
Esse amor cortês, acentuado por Lacan, se apresentava como um
discurso amoroso essencialmente viril, nos testemunhos de devoção, como
um cavaleiro medieval que sofre tudo por sua dama, mas evitando toda a
relação corporal. Dar o que não se tem, porém no caso da jovem, sua prova
de amor à dama será a de dar o que não tem: o Falo.
Certa ocasião, durante um desses passeios, estando bem perto de
sua casa, encontra-se diante do pai, que, furioso, lança-lhe um olhar fulminante e vai embora. A dama, aborrecida, resolve dar um fim àquele relaciona-
mento pueril e sai de cena. Estes dois fatos precipitam o desenlace: a jovem
imediatamente atira-se de uma das pequenas pontes existentes em Viena e
se precipita – niederkommen – nos trilhos da estrada de ferro metropolitana,
se deixa cair.
Podemos considerar este ato como uma tentativa de suicídio. Passagem ao ato?
Freud, na sua escuta atenta à letra, saca um jogo de palavras com o
verbo niederkommen, que significa tanto “cair”, como “dar a luz”, “gravidez”,
“parto”, “abandono” e inicia uma interpretação dizendo que o motivo que a
impelira à homossexualidade seria o desejo de ter um filho do pai e agora
“caira,” segundo ela, por culpa do pai. Lacan avança mostrando que quando
a jovem cai ela faz um ato simbólico, isto é, o niederkommen de uma criança
no parto. E diz mais: que o que é desejado está para além da mulher amada.
Seu amor visa a algo que é diferente da dama, pois o que é justamente
amado na mulher amada é aquilo que lhe falta, o objeto primordial, o falo,
cujo equivalente o sujeito iria achar na criança, como Lacan coloca no Seminário as Relações de Objeto.
Assim, ela, a jovem, faz de sua castração de mulher o que faz o
cavaleiro em relação a sua dama, a quem oferece o sacrifício de suas qualidades viris, para fazer dela o suporte disso que está na relação por uma
inversão: a colocação no lugar da falta, disso que falta no campo do Outro,
ou seja, a garantia suprema, o fato de que a lei é realmente o desejo do pai,
que há uma lei do pai, um falo absoluto,F, conforme o que Lacan trabalha no
Seminário da Angústia.
Retomemos agora a pergunta acima: que tipo de Agieren teria caracterizado o comportamento da jovem homossexual? Se a tentativa de suicídio
é uma passagem ao ato, então, diz Lacan, toda a aventura com a dama de
reputação duvidosa, que é elevada à função de objeto supremo, é um actingout. Por quê? Porque o acting-out é alguma coisa que se mostra na conduta
do sujeito. Em contrapartida, a passagem ao ato implica uma retirada da
cena que, no caso em questão, é antecedido e também sucedido por um
acting-out.
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SUDBRACK, M. A. Objeto que cai.
Vejamos, Freud não se cansa de insistir sobre a acentuação da conduta escandalosa da jovem, que se mostra cada vez mais diferente, descuidando-se até mesmo dos cuidados femininos, configurando um inegável
acting-out. Trata-se de uma mensagem para o Outro, uma provocação à posição do analista para que desperte, para que olhe o que não pode escutar.
A plenitude da situação está dada pelo fato de, ainda que na dama se
situe a falta imaginária (-ϕ), que a jovem com seus oferecimentos amorosos
tenta cobrir, é aquele olhar furioso e fulminante do pai o que vem tapar, cobrir
a falta invocada. O objeto “a” fica aqui imaginariamente incluído, completando o que na cena se apresenta como “falta.” A dama é, portanto, o olhar, em
contraposição ao que, desde o Outro, vem o olhar paterno. Assim, a dama,
ao sair da cena, rompe a alternância (-ϕ) e (a) e a jovem literalmente se deixa
cair, o que Freud articula com a caída do parto. Ela, a jovem, se identifica
quase plenamente com o objeto a, com o olhar do pai, ao mesmo tempo
rejeitada, dejectada, fora da cena, precipitando-se no vazio. (Para Lacan a
identificação ao objeto seria total, porém isto só poderia acontecer se o
suicídio tivesse sido consumado, o que não foi efetivado).
Deixar-se cair, lançar-se no vazio, atravessar uma janela, defrenestrarse (etimol., fora da janela), forma mais escolhida para suicídios e que expressa a tentativa de atravessar a abertura, a separação do mundo, onde o
sujeito retorna a essa exclusão fundamental, de onde ele se sente no momento mesmo onde se conjugam o desejo e a lei.
É de se salientar que logo depois dessa tentativa, o pai da jovem a
leva para se analisar, talvez procurando sustentar seu lugar pela mediação
de Freud. Porém, Freud a “deixa cair”, passa ao ato, tendo confessado um
impasse em relação a suas possibilidades de êxito na direção da cura, pois
nos sonhos “enganadores” da jovem, ele constatava que ela nada mudara na
escolha de suas opções sexuais, procurando a máscara da heterossexualidade como modo de enganar.
Lacan comenta que o que escapa a Freud, neste momento, é que se
trata aí de uma verdadeira transferência, estando aberto para ele, então, a via
da interpretação do desejo de enganar, pois o essencial no inconsciente é a
relação do sujeito com o Outro, implicando daí a possibilidade de realizá-la
no nível da mentira, já que na análise estamos no nível da verdade e da
mentira. Por outro lado, Freud está um tanto embaraçado, acredita que ela
tem intenção de desorientá-lo, de conquistar seu favor para depois desapontálo como habitualmente fazia com o pai. Assim, pondo-se em defesa contra
as ilusões ele já entrou no jogo, ele realiza o jogo imaginário, fá-lo tornar-se
real, já que está dentro dele. E isso não falha” (S.Rel.Obj., 9.01.57). Além
disso, interpretando muito precocemente, Freud faz voltar ao real o desejo
da paciente, que não era o da intenção de enganá-lo, portanto, ele dá corpo
a este simples desejo. Freud a encaminha a uma psicanalista mulher.
Continuando, podemos nos perguntar, onde estão os textos de Freud
especificamente sobre o suicídio, sobre a passagem ao ato? Na verdade, ele
nunca se dedicou exclusivamente a esse tema, sabemos que Freud constantemente nos surpreende, e aqui também, pois sempre vamos encontrá-lo
onde não o esperamos.
Um desses lugares é a “Psicopatologia da Vida Cotidiana”, VI, cap.VIII,
trabalhando aí os Vergreifen, isto é, os atos descuidados e sintomáticos,
onde ele apresenta uma série de fatos e atos cujo significante comum, repetido em todos eles, é “cair”.
Escolhemos o último da série. Resumindo, trata-se de “Tom e Teddie,”
conto de Heijermans, que fala sobre um casal de mergulhadores que se
apresentava num teatro de variedades, com um tanque de ferro e vidro, onde
faziam truques. Teddie recentemente iniciara um caso com o domador, e
Tom os surpreendera no camarim, pouco antes do espetáculo. Olhares fulminantes, o marido exclama ameaçador: “Depois!”. Tom ficará dois minutos
e meio debaixo d’água trancado num baú hermeticamente fechado pela mulher que costumava, nesse pouco tempo, brincar com a chave atirando-a no
tanque. Entretanto,neste dia ela se distraiu ao ouvir, dos bastidores, um
curto assoviu do “outro homem”, o domador, que queria chamar a atenção
dela. Ela olhou, sorriu para ele e, com um gesto desajeitado atirou a chave
para o alto de tal forma que ela foi cair ao lado do tanque. Ninguém percebeu
nada, todos, numa tal ilusão ótica, “viram” a chave cair dentro do tanque. Não
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SUDBRACK, M. A. Objeto que cai.
houve como achá-la. Naquela noite Teddie inviuvara.
Esta pequena narração sem nenhum comentário, escolhida por Freud
como conclusão do capítulo, daria condições para levantarmos uma série de
questões importantes. Entretanto, para não nos alongarmos mais, gostaria
de me deter um pouco no sujeito Tom deste triângulo.
“Perdoa-me por me traíres”, diria Nelson Rodrigues. Em que medida o
próprio sujeito antecipa a ruptura que atribui depois ao outro? Partamos na
hipótese de uma posição melancólica por parte de Tom, e sigamos com
Lacan em seus itinerários neste campo. Deixar-se cair, deixar-se matar, matarse, o suicídio do melancólico, não há mais palavras possíveis, não há mais
como dirigir-se ao Outro, sua última palavra, “depois”. A perda aí, diferente
da falta, faz vacilar o desejo dando ao sujeito o sentimento de que o objeto
perdido é justamente aquele que ele desejava, presentificando o objeto a,
preenchendo a falta.
No Seminário da Angústia Lacan sublinha que a identificação do melancólico com o nada, seria aquilo que não pertenceria ao registro especular,
pois na falta de uma imagem narcísica suficientemente afirmada, ele encontra o nada que o define, como diante de uma moldura vazia: “eu não sou
nada”. Note-se a ambigüidade, porque se não sou nada, então sou tudo.
“Que o sujeito se explique, mas como esse objeto a está de hábito mascarado por trás de i(a) do narcisismo, o i(a) do narcisismo está aí para que o a
seja mascarado, desconhecido em sua essência. É isso o que necessita
passar o melancólico através de sua própria imagem para poder atingir nesse objeto a que o transcende, aquilo cuja encomenda lhe escapa, isso cuja
queda o arrastará para a precipitação, para o suicídio” (3.7.63).
No Seminário da Transferência, Lacan se pergunta sobre a desafeição
melancólica, dizendo tratar-se não de luto, nem de depressão, a propósito
da perda de um objeto, mas de um certo tipo de remorso, desencadeado por
um desenlace que é da ordem do suicídio do objeto.
Teria sido essa a sorte de Tom, a renúncia de seu eu, que o coloca na
posição do mais completo abandono, da desistência desejante, de uma acentuada atividade da pulsão de morte, enfim, de uma renúncia geral, que o teria
jogado, identificado com o objeto a para a passagem ao ato suicida?
Voltemos agora ao nosso poeta João Cabral e ouçamos o que ele diz:
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 102, maio 2002
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 102, maio 2002
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Escrevo não para me expressar
Mas para não cair num vazio
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
(*) Este tema foi alvo de estudo no grupo Momento de Ler e no cartel com Adão
Costa, Conceição Beltrão Fleig e Mário Fleig.
FREUD, S. Sobre a psicogênese de um caso de homossexualidade feminina. v.
XVIII (1920a), Rio de Janeiro, Imago, 1976.
FREUD, S. Além do princípio do prazer. Rio de Janeiro, Imago, 1976.
FREUD, S. A Psicopatologia da Vida Cotidiana. v. VI (1901a), Rio de Janeiro,
Imago, 1976.
LACAN, J. O Seminário, A Relação de Objeto. (1956-1957a), Jorge Zahar Editor,
Rio de Janeiro, 1995.
LACAN, J. O Seminário, A Angústia. (1962-1963a), (Publicação interna, em português, do Centro de Estudos Freudianos do Recife).
LACAN, J. O Seminário, Os quatro conceitos fundamentais de psicanálise.(1964a),
Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1979.
HARARI, R. Caída de un querer. (in cuadernos clinicos de actualidad psicologica).
KAUFMANN, P. Dicionário Enciclopédico de Psicanálise – O Legado de Freud e
Lacan, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1993.
STEIN, M. L. Fora da casinha: a fragilidade sem abrigo. (Jornada de Abertura da
APPOA “A Beira da Loucura”, abril 2002).
29
SEÇÃO DEBATES
CARDOSO, U. C. DE. A relação de solidariedade...
A RELAÇÃO DE SOLIDARIEDADE DO SUJEITO DO
INCONSCIENTE E O SUJEITO DA ESFERA PÚBLICA 1
TEXTOS DA SEÇÃO DEBATES
A seção debates estará publicando, a partir deste número do Correio, textos
produzidos por nossos colegas e colaboradores referentes ao Fórum Social
Mundial. Aproveitamos a ocasião para lembrar a todos que queiram contribuir com o Correio da APPOA, que enviem seus textos para a Comissão do
Correio, através do e-mail: [email protected].
Ubirajara Cardoso de Cardoso
“Os sofrimentos da neurose e da psicose são, para nós,
a escola das paixões da alma, assim como o fiel da
balança psicanalítica, quando calculamos a inclinação de sua
ameaça em comunidades inteiras, dá-nos o índice do
amortecimento das paixões da pólis.”
Jacques Lacan em “O estádio do Espelho
como formador da função do eu tal como nos é
revelada na experiência psicanalítica”
“Sempre que a relevância do discurso entra
em jogo, a questão torna-se política por definição”.
Hannah Arendt
Q
uem tem seguido as conferências desse FSM pode estar perplexo
com a quantidade e diversidade das discussões. Contra um modelo
chamado de “neo-liberal”, fundado na produção e consumo de objetos de pouca importância e alto valor agregado, debatem-se saídas onde
estão em causa valores simbólicos de alta importância e baixo valor agregado. Contra um estado de coisas que tem no dinheiro seu valor máximo, uma
outra partida que tem no humano e na ecologia os seus valores de paz, e
para os quais ainda precisam ser equacionadas as bases econômicas sustentáveis.
Esse FSM reuniu-se, então, com uma proposta principal: contra a militarização da globalização pretendida pelo atual cenário internacional do-
1
Esse texto é a escritura das questões apresentadas no ambiente do FSM, dentro da oficina
da Clínica de Atendimento Psicológico da UFRGS, no dia 2 de fevereiro, numa mesa redondas que se chamou “A pertinência pública do ato psicanalítico”.
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C. da APPOA, Porto Alegre, n. 102, maio 2002
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SEÇÃO DEBATES
CARDOSO, U. C. DE. A relação de solidariedade...
minado pela influência da Casa Branca e seu inquilino idiota, mal legitimado
numa eleição de resultado duvidoso num país democrático do assim chamado primeiro mundo.
Contra o domínio da violência, considerado fora da política, um outro
estado de coisas apoiado no reconhecimento das diferenças e na democracia planetária e que precisa ser aprendido. Dessa forma não é nada surpreendente que nessa reunião um dos pontos altos seja a importância dada à
questão da Educação. Quanto a esse ponto, sugiro a leitura do artigo “Educar é ensinar a paz”, assinado pela psicanalista Betty Milan e publicado na
Folha de São Paulo de 31 de janeiro, véspera do FSM.
Seguido esse artigo, talvez se possa concordar que está em causa
um agenciamento da paz, no seu ensinamento, que exige uma noção de
sujeito que não é o da sobrevivência.
Há algum tempo atrás eu tentava expor ao psicanalista e professor
José Luiz Caon a minha convicção de que, mais do que nunca, o sujeito que
seria agente de transformação nesse século se trataria do sujeito da linguagem. Queria dizer com isso que o sujeito dos direitos humanos fundamentais, o sujeito humanitário, subsistiria, mas talvez não seria agente. Ele sobreviveria por causa da ajuda humanitária nas regiões de fome e doença da
miséria endêmica, mas não seria agente de transformação. Nesse sentido,
seria necessário considerar que nas condições de globalização haveria lugar
de agente para um povo quando este pudesse primeiramente se valer da sua
própria cultura, isso iniciando da importância que a própria língua possa
merecer no seu exercício (principalmente nas produções dos e de escritores). Bem, a resposta que recebi do professor foi esta: que o sujeito será o
da aprendizagem, querendo destacar com isso que a sujeitidade se tratará
cada vez mais de um processo de aprendizagem e formação permanente.
E qual formação será importante na construção de um mundo livre
que se deseja? Sugeriria que se trata da formação que faça valer os fundamentos da esfera pública e proporei para o debate o que penso que o psicanalista tem a ver com a isso.
Evoco aqui o exuberante esclarecimento que Hannah Arendt faz do
estatuto da esfera pública como lugar da ‘ação’, definida esta como ato de
“encontrar as palavras adequadas no momento certo”, e portanto constituindo a esfera democrática nos termos de discurso e de discursividade, logo,
de linguagem2. Por isso, afirmo que a esfera pública, tal como definida pela
autora, exige necessariamente uma noção ou concepção de sujeito. Antecipo a direção: minha “vontade” lacaniana me faz observar que “encontrar as
palavras adequadas no momento certo” é uma definição da enunciação que
pode esclarecer o que é do suposto de um “bem dizer” constituir uma ética.
Lembro ontem de nossas discussões sobre os casos clínicos apresentados. Falou-se a propósito de ser necessário “emprestar o desejo” para
que faça função com aquelas crianças com dificuldades e impossibilidades
tão grandes e precoces de subjetivação3. Recordo-me também que isso
mereceu a dúvida a respeito de se essa prática clínica se caracteriza como
psicanalítica. Não pretendo resolver essa questão, mas apontar algumas
saídas na direção da pertinência do engajamento do psicanalista com o seu
ato na esfera pública.
Ainda em relação com os casos clínicos, eu me lembro do texto de
Lacan sobre o estádio do espelho em que fala que a “assunção jubilatória de
sua imagem especular por esse ser ainda mergulhado na impotência motora
e na dependência da amamentação que é o filhote do homem nesse estágio
de infans nos parecerá pois manifestar, numa situação exemplar, a matriz
simbólica em que o [eu] se precipita numa forma primordial, antes de se
objetivar na dialética da identificação com o outro e antes que a linguagem
lhe restitua, no universal, sua função de sujeito”.
Nessa “assunção jubilatória” merece ser observado o momento da
‘concepção’ do sujeito. Se fosse um ‘instantâneo’, seria o momento onde
alma e corpo se unem cativos de uma identificação formadora da mediação
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2
Para tal conclusão é necessário uma leitura atenta principalmente do capítulo II de “A
Condição Humana” de Hannah Arendt, Editora Forense-Universitária LTDA
3
Trata-se da apresentação dos trabalhos clínicos com crianças com déficits muito precoces
de subjetivação e que são abrigadas nos D.R.As. A Clínica de Atendimento Psicológico da
UFRGS mantém com essa instituição (ex-FEBEM) um trabalho de muitos anos e que foi um
dos eixos da sua participação no FSM.
33
SEÇÃO DEBATES
do outro na superação narcísica do auto-erotismo e da inscrição simbólica
do traço distintivo que nomeará esse encontro e que poderá devir assumido
como nome próprio, e se nossos lapsos insistiram em chamar os sujeitos
pelos seus nomes, e não somente com suas iniciais, é a isso que se deve 4.
Um sujeito assim concebido tem um lugar próprio que é ainda o mesmo da alienação do seu encontro com o desejo do outro, ou ainda do Outro
,como Lacan precisou interpretar, porque mais do que indicar a permanência
de um semelhante, indica a permanência da estrutura, o que para ele equivale a dizer a linguagem. Um sujeito alienado no seu encontro com a linguagem.
Esse lugar é preciso para a assunção subjetiva e vimos como a sua
falta produz efeitos que não são de negatividade, mas de exclusão. Esse
lugar de alienação e também de divisão, divisão que poderíamos dizer
significante, sem com isso querer reduzir todo o processo, é também o espaço psíquico que será formado pelos representantes das pulsões do Isso
freudiano na resolução de uma conflitiva cuja solução é encontrada e mantida
pelas funções do Complexo de édipo e Complexo de castração.
Entretanto, se esse enredo serve para fundar um espaço subjetivo, ele
ainda será o do assujeitamento e da neurose. Como se pode resolver isso?
Desse espaço o sujeito freudiano é um efeito e ao mesmo tempo um
produto. É efeito da divisão significante e produto junto com o objeto (pulsional)
que instaura seu fantasma. É aqui que é esperado que a análise possa
intervir na medida que sua práxis5 incide sobre um sujeito.
CARDOSO, U. C. DE. A relação de solidariedade...
Como é comum nesses lances, para preservar a reserva que se deve ter com o que se
escuta, prepararam-se trabalhos onde os pacientes eram chamados somente pelas letras
iniciais de seus nomes, justamente para evitar que fossem reconhecidos. Por ventura essas
apresentações de pacientes não tinham a função de reconhecer o que estava mesmo
faltando? Em alguns momentos, na condição de lapso, os nomes insistiam em comparecer
na voz do terapeuta que apresentava. Algo que é preciso ser pensado como uma certidão.
5
Cf. “Eis por que era importante promover, antes de mais nada, (...) exatamente o fato de que
sua práxis [da psicanálise] não implica outro sujeito senão o da ciência.” (Lacan, Escritos,
p.878, JZE, 1998). Quando Arendt define a ação se trata da tradução do termo grego praxis.
Portanto se pode esperar que uma análise sirva para produzir esse
sujeito na sua realização em outro espaço do que naquele que o cativa. Que
espaço é esse? Primeiramente é o espaço da transferência, que definimos
aqui, com Freud, de ‘outra cena’. Com isso queremos dizer que esse espaço
não é mais o da cena doméstica e privada e nem também é o da cena da
esfera pública, em relação à qual entretanto deve ser interrogado, pois o
espaço transferencial deve ser definido peculiarmente pelo discurso psicanalítico e precisa da noção de um corte interpretativo que o conclui mas não
cessa seus efeitos, e isso de tal forma que, quando resulta na formação de
um psicanalista, a permanência desses efeitos dependem de seu desejo
junto com outros que vêm para suas próprias análises. Com isso quero dizer
que a permanência desses efeitos da análise dependem também das condições de seu exercício estarem dadas.
Vimos como para Lacan a ética que pauta essa prática foi dita por
último como uma ética do “bem dizer” que comparamos com a definição
arendiana da ação definida como o ato de encontrar as palavras adequadas
no momento certo.
É com esses termos que propomos que as condições do exercício da
enunciação do sujeito do inconsciente dependem da validade com que uma
cultura constitua sua esfera pública (que não deve ser confundida nem com
o espaço social anônimo e muito menos com a sua contrapartida institucional,
equivocadamente chamada de ‘pública’, muitas vezes com isso denotando
um ‘menos valor’, paradoxalmente lugar dos excluídos e dos que não tem
acesso).
Se afirmamos anteriormente que a definição arendiana de esfera pública exigia uma concepção de sujeito, foi para interrogar qual é a relação
desse sujeito com o sujeito formulado por Lacan a partir do campo do inconsciente freudiano. Propomos para a discussão a relação dessas duas
necessárias formulações de sujeito.
Acompanhamos como os debates desse FSM colocam a questão do
sujeito que se deveria esperar ser o agente da transformação do mundo e da
consolidação da democracia e da “demodiversidade”, conceito de que fala o
Sr. Boaventura de Souza Santos. Ousamos portanto propor que o sujeito do
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4
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SEÇÃO DEBATES
inconsciente, em relação à ética analítica, é solidário do sujeito da esfera
pública. Vamos preferir usar nesse Fórum esse termo de mediação ao invés
de dizer que se trata do mesmo sujeito, o que também poderia ser dito e
debatido.
O caso ontem apresentado e que lidou com a situação da procura
mendicante de comida transformada num pedido da possibilidade de continuar vindo para falar6, parece-me que figura o que tento concernir e que poderíamos esclarecer num mecanismo que se assemelharia ao do chiste, somente que seria o seu avesso: o excluído teria acesso por sua enunciação,
mas ao invés de fazer rir pela queda de sua grandeza interpretaria pela
assunção de sua dignidade de fala. Dessa forma compreendemos que esse
acesso é estreitamente relativo ao reconhecimento de uma dívida simbólica
com as próprias determinações da fala, mais do que com a existência de um
acúmulo de riquezas.
Pensamos, então, que pode ser estabelecido que o compromisso ético de tal sujeito no engajamento de seu desejo se esclarece no ato de
promover as condições de sua enunciação, preservando os efeitos da análise que a constituiu. É por isso que o analista se engaja com a sua ética,
porque o ato psicanalítico se fundamenta na produção de significantes, não
quaisquer, mas significantes que produzem a separação e a desalienação
na medida que revelam um nova formulação da verdade com o saber, com o
objeto e com o desejo e com a possibilidade de sua enunciação na palavra
falada e escrita. Dessa forma, que o analista engaje seu procedimento tanto
na instituição pública como no seu consultório de iniciativa própria (e nunca
privado, o que seria um engano conceitual) é a proposição de que a palavra
valha em toda a extensão da cultura. Que assim valha a palavra é condição
de que o sujeito, o sujeito que interessa à psicanálise, possa triunfar sobre o
recalcamento de sua expressão. Que a práxis da psicanálise devolva ou dê
CARDOSO, U. C. DE. A relação de solidariedade...
originariamente a palavra ao sujeito é uma ética que está de acordo com a
sustentação em ato de uma esfera do discurso e da ação onde essa palavra
pode ser efetiva.
Assim, para concluir, talvez se possa retomar o que ontem foi interrogado com a questão sobre o que está em causa em se “emprestar o desejo”
no tratamento.
6
Caso clínico apresentado que lidou com essa situação e que tratava da questão do
pagamento do tratamento na clínica pública institucional.
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RESENHA
RESENHA
SEMINÁRIOS ESPETACULARES
BERARDI, Ben; RIBEIRO, Eduardo Mendes; PEREIRA,
Robson de Freitas et alli. Porto Alegre : APPOA, CORAG
e Casa de Cultura Mário Quintana, 2002. 199p.
S
eminários Espetaculares é o resultado
de um encontro entre psicanalistas da
Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA) e profissionais de outros campos
do saber. O objetivo deste encontro foi uma reflexão crítica acerca das transformações pelas
quais está passando nossa cultura. Uma delas
é a necessidade de uma certa forma de visibilidade tomando a dimensão de um “espetáculo”,
abrangente em diversos campos sociais. A que responde? Quais são os
seus efeitos? São algumas das questões de que se ocuparam os autores.
São 18 textos, agrupados em cinco grandes temas. Além de um indiscutível rigor teórico, exibem uma rara beleza na forma com que os autores
vão tecendo suas proposições e articulando-as com o nosso cotidiano. É
como se cada texto pudesse tomar a dimensão de um livro e cada conjunto
outro, dada riqueza e desdobramentos que suscitam. Fato que não poderá,
evidentemente, ser contemplado numa resenha. Logo, esta é uma conciliação entre o desejo de apresentar todos os trabalhos e a impossibilidade de
fazê-lo como gostaria.
ESPETÁCULO E RELIGIÃO
O espetáculo, no texto de Pablo Seman, tem a função de dar voz a
uma representação que foi banida do nosso cotidiano por sucessivas punições simbólicas, que nossa cultura fez sentir a quem não seguiu as expressões do pensamento da cultura dominante. Neste caso, trata-se do vínculo
do homem com o sagrado, fazendo parte dele e, ao mesmo tempo, transcendendo a ele e podendo manifestar-se concretamente nele. A modernidade,
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ao despojar algumas culturas do saber tradicional, tornou possível o retorno
deste nas insígnias de nossa época já apropriadas pelas culturas em questão. Por exemplo, os livros, símbolo das culturas mais eruditas, e Paulo
Coelho, reflexo de uma cultura com saberes mais místicos, cinemas, lugar
de um tipo de espetáculo, agora sede de cultos religiosos.
Considerando a sociedade moderna em seus desdobramentos subjetivos e tecnológicos, Robson de Freitas Pereira toma a questão da religião
como um significante/fundamento (principalmente a judaico/cristã), para pensar a função do espetáculo religioso. A partir da observação do crescimento
significativo das igrejas neopentecostais, com sua política de difusão “24
horas no ar”, entende que nestas estão inseridas características ou necessidades da subjetividade atual. Na falta de uma verdade universal apaziguadora, o ser contemporâneo se permite buscar esta verdade onde quer que pense que ela esteja no momento, sem, necessariamente, ser fiel a uma só
prática religiosa. Esse sincretismo religioso é um dos desdobramentos da
reforma iniciada por Lutero, acrescido de um certo individualismo de nossos
tempos. Porém, não é excludente que à religião seja facultada a possibilidade de ser organizadora do sujeito, na medida que pode tecer malhas de
sustentação ao desamparo primordial, pela articulação das ordens Simbólicas, Imaginárias e Reais. A discussão é ampliada pelo autor, que passa a
considerar o fundamentalismo como um significante que pode permear o
ideal imaginário de qualquer cultura, em qualquer campo do saber, em qualquer tempo “...porque fazem parte de um dos ideais mais caros de nossa
cultura. O sonho da exclusividade e totalidade (seja sexual ou social)”.
Para Airton Jungblut, a dimensão do espetáculo tem um ângulo mais
crítico. Pensa que esta foi a forma encontrada pelas ordens religiosas, para
dar conta da necessidade de se vender no mercado, pela crise de credibilidade
provocada pelo Calvinismo, que fez surgir várias religiões. Com quem está a
verdade e conseqüentemente os fiéis? Essa espetacularização religiosa seria um golpe de marketing, com visão mercadológica muito astuta e precisa,
que toma feitos religiosos, como catarses, exorcizações e outros, somente
para consolidação de mercado. O Padre Armando Marocco diz que o espetáculo não pode ser um fim para satisfazer qualquer necessidade como pro-
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RESENHA
RESENHA
mover curas milagrosas, encher templos com atrações artísticas e outras.
Deve ser um meio para atingir os planos do Criador. Para Valdir Pedde, a
estética do sagrado tem a função de produzir uma determinada sensação de
prazer, efeito da elevação da tensão e sua correspondente descarga, através
do mimetismo ou catarse grupal, habilmente induzida e conduzida. O ganho
neste caso é duplo: além de ser um “lazer” seguro, quanto mais vivenciado,
mais dramatizado, mais perto do divino se está. A performance com músicas, orações ou o carisma do pastor assume um valor preponderante, muito
maior que o encontro com o outro ou com a fé. Esse comportamento seria
uma interface com a moral hedonista de nossa época.
pectador da essência do discurso político, engajando-o na audiência do espetáculo. E se a dissociação entre essência e aparência é perceptível, e o
valor é para a aparência, a aparência se torna essência. Logo espetáculo/
entretenimento/aparência é essência.
Segundo Jorge Almeida, o par política-espetáculo é parte inseparável
da história política de todos os tempos. A política é quem dirige o processo,
mesmo o marketing desempenhando um papel muito significativo. Ou seja:
na opinião do autor, as técnicas estão a serviço da política e não as ações
políticas impostas pelas técnicas.
ESPETÁCULO E POLÍTICA
Alfredo Jerusalinsky situa a crescente debilidade política como um
dos efeitos do marketing dos últimos 50 anos, que tem se especializado em
dissociar, radicalmente, as características do candidato político público das
pessoais. Altera com isto, um certo encontro que poderia ter entre identificação do governante com seus representados e representados com governantes,
lógica de qualquer fundamento político, tornando a política atual um exercício iatrogênico de graves conseqüências. Na mesma via do espetáculo, podese pensar a guerra, representando muitos gozos parciais e sem dúvida, um
maior e sem limite: o prazer de poder matar. Pode-se invocar qualquer lógica
que justifique o ato de matar, tanto para o bem como para o mal; porém,
certamente, debaixo encontra-se um narcisismo injuriado, que sem condições de outra tramitação, faz passagem ao ato.
Para Heloisa Mattos, o mecanismo televisivo do século XX teve como
objetivo retirar a política de seu cenário cotidiano tedioso e burocrático e
torná-la visível na lógica do entretenimento. Com isto, produziu-se um efeito
circular que se estendeu inicialmente da notícia política para toda e qualquer
notícia e, posteriormente, se transformou num esquema referencial para quem
quer obter espaço na mídia. Se o político (ou qualquer instituição ou pessoa)
necessita da mídia, e esta quer entretenimento porque quer público, os feitos são demonstrados nesta direção. Uma das conseqüências nefastas foi o
esvaziamento para o processo político em si, pois retirou a atenção do es-
O SOFRIMENTO COMO ESPETÁCULO
Régis Cruz comenta que, por conta do desrespeito ao outro, a mídia
pode expor as pessoas desnecessariamente, mostrando uma total falta de
empatia e consideração à privacidade e ao sofrimento psíquico. E, por fazer
pouco caso ao sofrimento psíquico, historicamente foram criados hospitais
psiquiátricos que funcionaram muito mais como depósitos, impedindo o contato e o reconhecimento do sofrimento psíquico. Para Eduardo Mendes Ribeiro, a espetacularização tem várias perspectivas. A primeira se refere ao
universo da imagem na contemporaneidade onde sua proliferação impede
que as pessoas se impliquem discursivamente ao que é exposto. Isso reforça outra tendência atual, que é tomar contato com questões importantes e
difíceis, como o sofrimento, de uma forma segura e protegida, sem contato
direto. Situação inversa é quando a espetacularização torna-se uma possibilidade de legitimara dor psíquica. Ou seja: quando a notoriedade do fato, pelo
testemunho do outro, possibilita ao sujeito se implicar de forma diferente na
cena de seu sofrimento, ressignificando seus atos. Porém, nem sempre o
sujeito escolhe a forma de mostrar seu sofrimento. A lógica do espetáculo,
estando intimamente associada à lógica capitalista, tem como feitio dar destaque ao que serve aos interesses dos que controlam os meios de comunicação. Não é do seu feitio estar preocupada com a subjetividade dos figurantes, que vão ter que arcar com os efeitos da aparição desta cena por muito
mais tempo que a exibição da imagem na mídia.
Dulce Helfer faz sua intervenção através de um texto curto e fotografi-
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RESENHA
RESENHA
as. Ao abordar o fotojornalismo interroga se este é um espetáculo ou uma
denúncia, dizendo que: “O fotógrafo, ao documentar todas as facetas da
sociedade com a profundidade que deve (ou deveria) ter em seu trabalho,
necessita estar exercitando a cada segundo o desestruturamento do pensamento, como uma forma de sublimar seu próprio sofrimento ao registrar o do
outro”. E interroga: “É espetáculo a denúncia? Que seja então. Ou é preferível a alienação?”
Moacyr Scliar trouxe o sofrimento judaico, através do holocausto, para
pensar o tema proposto. Sustenta que o risco da banalização existe e cita
como exemplo o cinema, em filmes como “A vida é bela” de Roberto Begnini
“O que temos ali, segundo os críticos, é uma glamurização do campo de
concentração, o que se constitui numa afronta à memória das vítimas”. Mas,
segundo o autor, mais grave que a banalização é a negação do holocausto:
“A um holocausto real, negado por estas pessoas, corresponde um holocausto
potencial – o mesmo que, nos anos 1930 e 1940, forneceu condições para o
holocausto real”.
O CORPO COMO ESPETÁCULO
Maria Ângela Brasil afirma que o corpo e o vestir-se como forma de
sedução e captura do outro não são privilégios da contemporaneidade nem
tampouco da cultura ocidental. A mostra do Metropolitan Museum of Art de
Nova Iorque, “Beleza Extrema”, testemunha o fato. O desejo de suscitar o
desejo do outro é próprio do humano. Não se esquece a lição que ficou
marcada no corpo e inscrita na alma, que foi o olhar de um outro que nos
despertou para os tramites do gozo e do desejo. Situação que teve muitas
repercussões, desde a consecução da imagem pessoal à ficção de um corpo compartilhado, sujeito na atualidade a muitas negociações com outros
olhares em parte substitutos daquele. Porém, é próprio do feminino que o
desejo de ser olhada apareça no vestir-se, no adorno e no corpo, não só
como forma de recobrir a falta, mas também, confirmando um lugar que as
culturas delegaram a mulher: poder brilhar e brincar com os adereços. O
papel da moda, neste contexto, consiste em impor uma regra ao coletivo e
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ao mesmo tempo deixar um espaço para a composição pessoal. Como qualquer outro imperativo da cultura, o uso que pode ser feito depende da estrutura psíquica em questão. A moda pode tornar-se alienante para uns e lugar
criativo e lúdico para outros. A escolha entre o narcisismo alienante e a
expressão da singularidade é uma questão de saúde psíquica.
Segundo Jaime Betts, o ser humano é efeito de três registros simultâneos: materialidade do corpo, imagem do corpo e palavra. Valores da cultura
que são perpassados através dos cuidados maternos, pela articulação das
ordens simbólicas e imaginárias. Na pós-modernidade, o discurso tecnocientífico domina o panorama como valor instituído. Seu preceito mais valioso
funda-se na exclusão da subjetividade. Dentro desta lógica, podem e devem
coincidir perfeitamente percepto-percebido e símbolo-simbolizado. Com rigor e alguma felicidade, pode-se excluir qualquer resto de subjetividade que
possa atrapalhar a pureza do processo científico, impossibilitando assumir o
lugar tão almejado de verdade universal. À subjetividade restou o lugar de
mero objeto, perfeitamente em consonância com o discurso capitalista. Na
tecnologia, isto se encontra representado no “olho anônimo”, que a diferença
do “olho de Deus”, que gerava o recalque, produz o retorno ao Eu narciso,
pela exclusão da palavra subjetiva. O deslizamento provocado foi do ser ao
ter e, finalmente, ao parecer. Logo, ser equivale a parecer. Sendo assim, só
resta responder a demanda da ordem instituída, aparecer de preferência pela
imagem, e de forma espetacular, para não correr o risco de não ser visto.
Neste cenário, o corpo é uma das figuras principais, tendo a cultura originado imperativos no âmbito da perfeição estética e saúde, inigualáveis.
Frank Tatoo é tatuador e traz sua experiência de forma concisa e
clara: para ele as pessoas se tatuam como uma forma de marcar a diferença, de buscar uma diferenciação maior dos símbolos coletivos. A tatuagem
também revela a “tribo” a qual a pessoa pertence, qual a sua cultura e experiências vividas mostrando quem a pessoa é.
SEXO COMO ESPETÁCULO
Robin Manduré, relações públicas, empresário e showman relata um
brevíssimo histórico dos espetáculos teatrais do sexo, a partir da década de
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RESENHA
AGENDA
1940 até a atualidade, em Porto Alegre. Conclui seu texto assim: “O sexo,
infelizmente, virou chamariz, para a TV, para casas de espetáculos, cinemas, revistas, concorre diretamente com a violência e o absurdo, o ‘diferente’, mas leva uma grande vantagem...”
Lucia Serrano Pereira diz que o espetáculo tem seu inicio na Grécia
antiga, ligado a dois rituais. O primeiro, em homenagem aos heróis mortos,
e o segundo, à fertilidade, onde o falo era carregado em caminhos públicos
rurais. Posteriormente, no lugar deste, Dionísio, deus da videira e do vinho,
passa a ser homenageado. É quem propõe a transgressão e a embriaguez.
Para a compreensão da passagem do espetáculo ao sexo, a autora, toma
estas duas palavras. Transgressão, remetendo ao sexual, no que ele tem de
disruptivo, que não segue rotas pré-estabelecidas ao sujeito, próprias do
instinto. Trilha os circuitos do gozo e do desejo, forjados no encontro com
Outro. Embriaguez para representar como somos tomados, por estes circuitos, quando nos apodera o sexual, que se expressa na fantasia, consciente
ou inconscientemente. A fantasia, ela mesma artifício de conexão entre o desejo e o meio, de efeitos poderosos, tem como um dos predicados essenciais
a inclusão do sujeito, de forma ativa ou passiva, podendo ele se reconhecer ou
não. As artes, incluindo o cinema, expressam muito bem o conhecimento da
fantasia nos recortes dos objetos parciais que animam o imaginário tanto individual quanto coletivo. O marketing e a publicidade igualmente. As fantasias
são constitutivas da sexualidade, entusiasmam e sustentam a vida erótica, e
podem ser considerada e ponto de articulação e passagem para o espetáculo.
Fernando Seffner agrupa em seu texto três blocos principais: o primeiro,
definição de espetáculo dos dicionários a Guy Debord. O segundo, considerações sobre sexo, sexualidade e a dimensão do espetáculo. Terceiro, questões
relativas ao sexo espetáculo, organizadas em 4 tópicos: todo costume que vem
do oriente vira espetáculo?; espetáculo e riso; se goza de verdade no sexo do
espetáculo; sexo e espetáculo, afeto e amor, para penar na cama do casal.
Rossana Oliva
MAIO – 2002
Dia
08, 15,
22 e 29
09 e 23
09
13 e 20
14 e 28
23
Hora
15h
Local
Sede da APPOA
Atividade
Reunião da Comissão de Eventos
20h15min
21h
20h30min
20h30min
21h
Sede da APPOA
Sede da APPOA
Sede da APPOA
Sede da APPOA
Sede da APPOA
Reunião da Comissão de Biblioteca
Reunião da Mesa Diretiva
Reunião da Comissão do Correio da APPOA
Reunião do Serviço de Atendimento Clínico
Reunião da Mesa Diretiva aberta aos membros da APPOA
PRÓXIMO NÚMERO
O SINTOMA
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Rua Faria Santos, 258 - Petrópolis - CEP: 90670-150 - Porto Alegre - RS
Fone: (51) 3333.2140 - Fax: (51) 3333.7922
E-mail: [email protected] - Homepage: www.appoa.com.br
( ) Assinatura anual da Revista da APPOA
R$ 30,00
( ) Assinatura anual do Correio da APPOA
R$ 55,00
Data: ______/_____/2002
E pagarei com cheque número __________________________, do Banco
_________________, nominal à Associação Psicanalítica de Porto Alegre.
Capa: Manuscrito de Freud (The Diary of Sigmund Freud 1929-1939. A chronicle of events
in the last decade. London, Hogarth, 1992.)
Criação da capa: Flávio Wild - Macchina
ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE
GESTÃO 2001/2002
Presidência - Maria Ângela Brasil
a
1 . Vice-Presidência - Lucia Serrano Pereira
2a. Vice-Presidência - Jaime Alberto Betts
1o. Tesoureira - Grasiela Kraemer
2a. Tesoureira - Simone Moschen Rickes
1o. Secretária - Carmen Backes
2a. Secretário - Gerson Smiech Pinho
MESA DIRETIVA
Alfredo Néstor Jerusalinsky, Ana Maria Gageiro, Ana Maria Medeiros da Costa,
Analice Palombini, Ângela Lângaro Becker, Edson Luiz André de Sousa,
Gladys Wechsler Carnos, Ieda Prates da Silva, Ligia Gomes Víctora,
Liliane Froemming, Maria Auxiliadora Pastor Sudbrack,
Marta Pedó e Robson de Freitas Pereira.
EXPEDIENTE
Órgão informativo da APPOA - Associação Psicanalítica de Porto Alegre
Rua Faria Santos, 258 CEP 90670-150 Porto Alegre - RS
Tel: (51) 3333 2140 - Fax: (51) 3333 7922
e-mail: [email protected] - home-page: www.appoa.com.br
Jornalista responsável: Jussara Porto - Reg. n0 3956
Impressão: Metrópole Indústria Gráfica Ltda.
Av. Eng. Ludolfo Boehl, 729 CEP 91720-150 Porto Alegre - RS - Tel: (51) 3318 6355
Comissão do Correio
Coordenação: Maria Ângela Brasil e Robson de Freitas Pereira
Integrantes: Ana Laura Giongo Vaccaro, Gerson Smiech Pinho,
Henriete Karam, Liz Nunes Ramos, Marcia Helena de Menezes Ribeiro,
Maria Lúcia Müller Stein e Rossana Oliva
S U M Á R I O
EDITORIAL
NOTÍCIAS
SEÇÃO TEMÁTICA
A PROPÓSITO DA
JOVEM HOMOSSEXUAL
Gerson Smiech Pinho
AGIEREN
Conceição Beltrão Fleig
OBJETO QUE CAI
Maria Auxiliadora Sudbrack
SEÇÃO DEBATES
A RELAÇÃO DE SOLIDARIEDADE
DO SUJEITO DO INCONSCIENTE
E O SUJEITO DA ESFERA PÚBLICA
Ubirajara Cardoso de Cardoso
RESENHA
“SEMINÁRIOS ESPETACULARES”
AGENDA
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N° 102 – ANO IX
MAIO – 200 2
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38
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RELENDO FREUD
“O CASO DA JOVEM HOMOSSEXUAL”
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EDITORIAL Aquela garota intrigou Freud. Mais do que isso – afinal