“Alfabetização é importante para se ser alguém” Percepções de Programas de Alfabetização de Adultos em Moçambique Johanna van der Linden Universidade Eduardo Mondlane Moçambique Nos últimos anos os programas de alfabetização em Moçambique encontram-se numa fase de revitalização (DNAEA, 2001 e Mário, 2002). Lê-se no jornal (Notícias, 23 de Fevereiro, 2 e 9 de Setembro, 2004) que o número de participantes em aulas de alfabetização cresceu e a taxa de analfabetismo baixou em função disso. Ao final do ano de 2003, a taxa de analfabetismo situavase em 53,6 % contra 60,5 % em 1997 (Instituto Nacional de Estatística, 2004). Para tornar as aulas mais relevantes para os adultos, o Ministério de Educação iniciou um processo de reforma curricular. Neste âmbito, o Director Nacional de Alfabetização e Educação de Adultos falou da: “transformação gradual dos conteúdos curriculares (...) tornando-os cada vez mais ajustados à necessidade de criar nos alfabetizandos habilidades de saber como e o que fazer para elevar as suas rendas domésticas, contribuindo dessa forma para a erradicação da pobreza absoluta” (Muianga em Notícias, 23 de Fevereiro de 2004: p. 1). Neste contexto o Departamento de Educação de Adultos da Universidade Eduardo Mondlane decidiu executar um projecto de investigação sobre as percepções dos programas de alfabetização. Os objectivos específicos deste projecto foram os seguintes: • Identificar as percepções dos participantes nos programas de alfabetização; • Identificar as percepções dos participantes potenciais nos programas de alfabetização; • Analisar as diferenças entre participantes e não-participantes e o aspecto de género; • Formular recomendações para facilitar o acesso aos programas de alfabetização. Pessoas adultas que não sabem ler e escrever, mas, apesar disso, não assistem às aulas de alfabetização são consideradas como participantes “potenciais” destas aulas. Espera-se que a análise das suas percepções possa inspirar uma abordagem para tornar participantes potenciais em participantes verdadeiros. Em geral, os resultados do projecto contribuirão para o desenvolvimento de programas de alfabetização e educação de adultos pertinentes e acessíveis, que não apenas ensinam os participantes como ler e escrever, mas também os ajudam a sair da pobreza, consoante as palavras do Director Nacional, e a usufruir duma vida condigna como membros da sociedade. Assim, o projecto enquadra-se no tema desta revista: alfabetização e educação de adultos só pode ter um papel relevante no desenvolvimento humano, se os programas servirem para responder às necessidades básicas (de aprendizagem) dos seus participantes, como ser humano e membro da comunidade. Este artigo discute os conceitos, a metodologia e os resultados na perspectiva de desenvolvimento humana, do ponto de vista dos participantes e participantes potenciais de aulas de alfabetização. Os conceitos de alfabetização, percepções e barreiras de aprendizagem O novo plano curricular para alfabetização e educação de adultos, apresentado em 2003, propõe temas, conteúdos e objectivos para literacia (aprender ler e escrever), numeracia (aprender matemática) e habilidades de vida com vista à redução da pobreza absoluta e empowerment às pessoas mais vulneráveis. A alfabetização é considerada, por um lado, a aquisição de noções básicas de leitura, escrita e cálculo e, por outro, um processo que estimula a participação nas actividades sociais, políticas e económicas e permite uma educação contínua e permanente (DNAEA, 2003). Paralelamente à alfabetização e educação de adultos o currículo abrange a educação não-formal em habilidades de vida. No que diz respeito à organização, a flexibilidade é o principio básico para a selecção dos modelos de ensino, respondendo à diversidade dos beneficiários. O plano elabora diferentes modelos de ensino-aprendizagem, entre os quais dois modelos bilingues, assim valorizando a língua materna dos participantes. Desta forma, o plano incorpora as recomendações que já foram desenvolvidas nos anos ‘80 do século passado para desenvolver cursos flexíveis em línguas locais, claramente relacionados com as condições socio-ecónomicas dos participantes (INDE, 199?). O conceito de alfabetização consiste numa visão alargada segundo as obras de Torres (2001, 2003), que define alfabetização como “a aquisição, de senvolvimento e uso significativo da língua escrita” (Torres, 2003: p. 27, trad. autor). Segundo Torres cada pessoa – criança, jovem, adulto – deve estar em condições de aproveitar oportunidades educacionais para cumprir as suas necessidades básicas de aprendizagem. Estas necessidades abrangem: sobreviver, desenvolver as suas potencialidades, viver e trabalhar com dignidade, participar no desenvolvimento da sociedade, aperfeiçoar a qualidade de vida, tomar decisões fundamentadas, e continuar a aprender (WCEFA, 1990). Necessidades básicas e necessidades de aprendizagem mudam consoante o tempo e as condições dos aprendentes (sobre o assunto, ver também Rungo, 2004). Por consequência, a alfabetização não é simplesmente aprender as habilidades técnicas de ler, escrever e calcular, normalmente adquiridas na educação formal. É mais uma prática social, que faz parte de um contexto específico. Em relação a isso, Street (1984) defende o modelo “ideológico” como alternativo ao modelo “autónomo”. O modelo “autónomo” vê a alfabetização como uma variável independente, que pode ser separada do contexto. Ao contrário, o modelo “ideológico” posiciona a alfabetização em práticas sociais concretas e liga -a às ideologias do contexto linguístico (sobre o assunto, ver também Buque, 2003). Assim, percepções de alfabetização são percepções de uma prática social, da importância desta prática para a vida das pessoas, tanto a vida actual como o futuro desejado. Não podem ser implementados novos programas de alfabetização apenas com base nas ideias e desejos dos educadores e técnicos de educação. É necessária uma reflexão do ponto de vista do participante no contexto da sua vida (Brookfield, 1986; Merriam e Caffarella, 1999; Longworth, 2003). Qual é a visão do participante sobre a importância da alfabetização? Por que é que decide participar ou não participar? O que é que espera das aulas de alfabetização? A opção pelo conceito de “percepções” revelou -se de melhor alcance analítico na medida em que, mais do que ideias e opiniões, o termo exprime uma relação com conhecimento e compreensão de práticas existentes. O verbo “perceber” une a “observação” de uma realidade existente com a interpretação desta realidade. A psicologia social ensina que as pessoas podem ter diferentes percepções da mesma realidade e que percepções dirigem o comportamento (Rodriquez, 1988). Neste sentido “percepções” estão fortemente relacionadas com os motivos e a motivação, que estão por trás de qualquer acção intencionada. Motivação é a chave do êxito de alfabetização de adultos. Lind (1988) distingue motivos individuais e motivos sociais ou colectivos. Segundo o seu estudo sobre as campanhas de alfabetização em Moçambique, primeiro existia um entusiasmo colectivo para participar nas aulas de alfabetização, mas depois de algum tempo muitas pessoas desistiram. As que continuaram tiveram motivos individuais além dos motivos colectivos. Sobre o assunto em discussão, Borges Månsson (1995) apresenta três tipos de motivos: instrumentais, integrativos e expressivos. Motivos instrumentais são os relacionados com ler e escrever cartas e ler o destino do autocarro. Motivos integrativos têm a ver com a integração com outras pessoas e motivos expressivos, com a aquisição de conhecimento em geral. Seja qual for a classificação, adultos aprendentes precisam de uma motivação muito forte para ultrapassar as dificuldades, que encontram quando assistem às aulas (Lind, 1988, Lind e Johnston, 1990). Na teoria de educação de adultos, estas dificuldades são chamadas barreiras de aprendizagem. Existem barreiras “externas” ou “situacionais”, que se referem a factores exteriores à pessoa, e barreiras “internas” ou “disposicionais”, que se referem a factores intrínsecos à pessoa (Merriam e Caffarella, 1999). Neste projecto de investigação, o conceito de barreiras serviu para entender as razões para a não participação nas aulas. Assim, a par dos conceitos “percepções” e “barreiras” contribuiu para o entendimento do comportamento das pessoas perante as aulas de alfabetização. Metodologia O tema do projecto e o desejo dos investigadores para contribuir para a prática actual dos programas de alfabetização precisaram de uma concepção participativa da investigação. Os métodos principais foram entrevistas semi-estruturadas e sessões de retorno em colaboração com os técnicos de alfabetização, os alfabetizadores e os líderes comunitários. Foram conduzidas 112 entrevistas com participantes e participantes potenciais nas províncias de Maputo (incluindo a cidade de Maputo) e Nampula. Em cada província foram seleccionadas três áreas: uma zona urbana, uma zona semi-rural e uma zona rural. Em cada área foram feitas cerca de 10 entrevistas com participantes e 10 com participantes potenciais, como mostra a tabela no 1. Os participantes em aulas de alfabetização foram encontrados nos Centros de Alfabetização e Educação de Adultos e os participantes potenciais foram encontrados através dos participantes, dos líderes comunitários e nos mercados das cidades de Maputo e Nampula. Tabela no 1 Resumo das entrevistas semi-estruturadas sobre percepções de alfabetização Local (zona) Magude (rural) Manhiça (semi-rural) Maputo Cidade Subtot. Maputo Muatala (rural) Meconta (semi-rural) Muaivire (urbano) Subtot. Nampula Total Participantes Mulheres Homens Subtotal 9 1 10 6 4 10 10 10 25 5 30 10 10 5 5 10 11 1 12 26 6 32 51 11 62 Participantes potenciais Mulheres Homens Subtotal 8 2 10 7 1 8 9 1 10 24 4 28 1 1 9 9 5 7 12 6 16 22 30 20 50 Total 20 18 20 58 11 19 24 54 112 É de notar na tabela no 1 que houve mais entrevistas com mulheres do que homens, não só em relação aos participantes, mas também em relação aos participantes potenciais. Isso reflecte a realidade do país, em que o índice de analfabetismo é mais alto entre mulheres do que entre homens (segundo o censo de 1997, a taxa de analfabetismo entre os homens é de 44,6 % e entre as mulheres 74,1 %, Instituto Nacional de Estatística, 2004), e nas aulas de alfabetização há mais mulheres do que homens. No entanto, fez-se um esforço para falar com mulheres e com homens para se ter o ponto de vista de ambos. Para as entrevistas foi desenvolvido um guião, que deixou espaço para os entrevistados elaborarem os assuntos como quisessem. Depois da testagem, a estratégia da entrevista foi articulada e refinada; não foi necessário adaptar o instrumento. Os entrevistados mostraram-se à vontade para partilhar as suas opiniões com os investigadores, os quais, por seu lado, criaram confiança entre os entrevistados falando com eles num ambiente por eles conhecido e na sua língua preferida, que foi na maioria dos casos a língua local. Às vezes parecia ser mais fácil para o entrevistado falar de barreiras de aprendizagem na terceira pessoa, por exemplo, falando sobre pessoas amigas ou vizinhas em vez de falar de si mesmo. A análise preliminar do conteúdo das entrevistas foi apresentada e discutida em duas sessões de retorno assistidas por educadores, técnicos e líderes comunitários, uma em Nampula e a outra em Marracuene (Província de Maputo). Estas sessões permitiram o controle da validade da categorização das respostas e a exploração das recomendações para a melhoria do programa de alfabetização. Percepções de programas de alfabetização Analisando as respostas nas entrevistas, a equipa de investigação distinguiu quatro categorias em relação à importância da alfabetização na visão dos entrevistados. As respostas na primeira categoria têm a ver com a vida actual da família: ler o destino do autocarro, falar com o médico, escrever o seu próprio nome, ler e escrever cartas, compreender o TPC dos filhos, falar com o professor dos filhos e controlar o troco no mercado. Um aspecto importante é que as pessoas querem ultrapassar a vergonha de não poderem assinar documentos e o sentimento de não poderem exercer nenhum tipo de controle sobre alguns aspectos da vida: “no passado ficava envergonhada quando fosse necessário assinar, hoje já sei escrever o meu nome” (mulher, 43), “quero ler para saber os segredos do meu marido” (mulher, 30), quero saber “para não ser enganada pelos filhos, conhecer o desempenho escolar dos filhos” (mulher, 48) e quero “entender a aplicação da matemática na época da comercialização para não ser enganada” (homem, 31). Próximo das respostas relacionadas com a vida actual situam-se as respostas relacionadas com a melhoria da vida actual em termos de aumento dos rendimentos da família. Em geral fala-se de “ter uma vida melhor”, “sair da pobreza” e “sair do sofrimento”. A alfabetização dá perspectivas para “obter emprego”, por exemplo, “saber trabalhar num escr itório” (mulher, 35, mercado de Maputo), para melhorar os negócios porque “consegue -se controlar o peso dos produtos durante a comercialização” (homem, 43) e para aumentar a quantidade e qualidade de produtos para vender por “saber novas técnicas de produç ão e cultivo usando bem o que a comunidade tem” (homem, 28). É uma questão de melhorar habilidades existentes: “faço trocos, mas tenho algumas dificuldades” (mulher, 58, mercado de Maputo) e “fazer as contas é fácil, mas no caderno fica difícil” (mulher, 2 7). Os que estão a vender no mercado comparam-se com os seus vizinhos ou ex-colegas de escola e sonham com um emprego melhor: “quero ter emprego como os meus vizinhos, os que estudaram têm uma vida melhor” (mulher, 29) e “colegas de infância que estudaram estão bem na vida” (mulher, 48). Para eles é claro: “quem estudou tem profissão boa, sem saber ler e escrever não se consegue ter um bom emprego” (mulher, 32). E os filhos aproveitar-se-ão disso: “ter um emprego para desenvolver a vida dos filhos” (mulher, 19). A terceira categoria é a participação na sociedade. Falou-se de “compreender o que os outros dizem”. “Os outros”, nos termos dos alfabetizandos, são os que não falam a mesma língua local. Os participantes nas aulas de alfabetização têm ambição: gostariam também de “ensinar os outros”, “explicar aos outros”, “ajudar os outros” e “resolver problemas sociais”. Um participante (mulher, 45) disse que a alfabetização ajuda a “compreender e interagir com uma diversidade de pessoas”. Um participante potencia l (mulher, idade desconhecida) quer “ter boa vida e relacionar-se bem com as autoridades do bairro”. Outro quer “ajudar a combater a criminalidade” (homem, 57, mercado de Maputo). Em Nampula utilizou -se a expressão “ser alguém”. A alfabetização “é importan te para se ser alguém” (mulher, 38). “Alfabetização é estudar, sem estudos você não é nada” (mulher, 30). É como se as pessoas que não sabem ler, escrever e nem sabem falar português não existissem; pelo menos elas sentem-se assim desvalorizadas. Os alfabetizadores, na sessão de retorno, explicaram que a hierarquia é muito restrita: o direito a falar em reuniões, onde se resolvem os problemas da comunidade, é limitado. A expressão “Ninguém fala sem ser alguém” é valida e a realidade é a exclusão de pessoas que são consideradas ninguém. “Ser alguém” quer dizer ser respeitado, ser valorizado, ser ouvido. A quarta categoria de respostas tem a ver com o desenvolvimento pessoal num sentido mais alargado. Os respondentes referiram-se a “conhecer novas coisas”, “ ter conhecimento das coisas que estamos a fazer”, “aumentar o meu nível de conhecimentos, mesmo que não consiga ter emprego” e “saber o que é água, o que é fogo” (homem, 42). Outra expressão interessante usada por diferentes pessoas é “abrir a cabeça”. Um dos participantes em Nampula disse: “Alfabetização é abrir a cabeça das pessoas que há muito tempo viviam isoladas” (mulher, 45). Aqui se mostra uma relação com a categoria anterior: os alfabetizandos querem fazer parte da actual sociedade de conhecimento. Uma vendedora no mercado de Maputo (58 anos), falante de três línguas (Português, Changana e Bitonga) e que não participava nas aulas, expressou-se assim: “Alfabetização deve continuar não para mim, mas para os meus netos. Tenho muitos netos que não estudam. Estudar é importante, porque permite ter uma vida melhor. O nosso tempo é de muitas incertezas e sem estudar a pessoa morre de pobreza.” Esta vendedora revela compreensão da sociedade de conhecimento, da qual faz parte, e da necessidade de manter-se actualizada para não perder oportunidades, mas dá prioridade aos netos para serem alfabetizados. Observou-se durante a recolha de dados que a maioria dos participantes do Centro de Educação de Adultos no mercado eram crianças. A alfabetização torna as pessoas independentes, autónomas: “quando estiver alfabetizada, não vai ser necessário pedir ajuda a outras pessoas na leitura e escrita” (homem, 20); “poderei preencher formulários e fazer contas pessoalmente” (homem, idade desconhecida), e “dá segurança em tud o; permite fazer as coisas com conhecimento” (mulher, idade desconhecida). O desenvolvimento pessoal está em relação à independência pessoal, à capacidade para tratar das suas coisas sem ter que pedir ajuda aos outros. Esta categoria de respostas encontra-se tanto nas respostas das mulheres como nas dos homens. No tocante ao aspecto de género, considerando o número de mulheres e homens entre os entrevistados, nota-se uma leve tendência de as mulheres falarem da vida actual e os homens do aumento dos rendimentos. As outras categorias, referentes respectivamente à participação na sociedade e ao desenvolvimento pessoal, receberam igual atenção. Comparando as categorias de percepções com as necessidades básicas de aprendizagem (Rungo, 2004) investigou, vê-se que as necessidades (sobreviver, desenvolver as suas potencialidades, viver e trabalhar com dignidade, participar no desenvolvimento da sociedade, aperfeiçoar a qualidade de vida, tomar decisões fundamentadas, e continuar a aprender) integram-se facilmente nas quatro categorias. Nas sessões de retorno discutiram-se as categorias e o facto marcante de não haver muita diferença entre as respostas dos participantes e as dos participantes potenciais. Tanto estes como os outros são conscientes do isolamento e da exclusão em que vivem e donde pretendem sair. Outro assunto de discussão foram as mudanças nas condições de vida que exijam o uso da língua por escrito e o português. As pessoas que realmente sentem esta exigência têm um desejo forte de aprender. Os resultados mostram a relevância de ligar as percepções ao contexto real dos alfabetizandos. A vida, mesmo a das pessoas chamadas analfabetas nas zonas rurais, está em mudança e eles estão a par disso. Barreiras de aprendizagem Apesar de os entrevistados concordarem com a importância da alfabetização, nem todos participam em programas de alfabetização. Em ambas as províncias de Maputo e Nampula a maioria dos participantes são mulheres, embora certamente existam homens que precisam de aprender a ler e escrever. Os respondentes mencionaram diferentes barreiras, tanto externas (exteriores à pessoa) como internas (interiores à pessoa), para participar nas aulas. Primeiro, referiram-se a barreiras externas relacionadas com as condições socio-económicas em que cresceram: “os meus pais não tinham condições para custear os meus estudos” (homem, 31). Em muitas famílias não havia dinheiro para matricular os filhos ou outros membros da família na escola ou a escola, simplesmente, não tinha prioridade: “os meus pais eram anal fabetos e eu tinha que fazer trabalhos domésticos” (mulher, 34). A guerra e os conflitos armados também impediram os estudos: “só agora tenho tempo. No período da guerra era militar do destacamento feminino” (mulher, 45), “a guerra afectou muito, os bandid os raptavam alunos e assim os meus familiares pediram para eu deixar de estudar” (homem, 31) e “parei por causa da guerra: a guerra fez-nos abandonar Macia e procurar condições de paz em Maputo” (mulher, 30, mercado de Maputo). Para os participantes potenciais, que são os que ainda não frequentam as aulas, a falta de tempo e de condições é até agora o factor mais importante. Falta de tempo significa que a pessoa “ocupa todo o tempo na procura de renda para alimentar os filhos” (mulher, 30, mercado de Maputo) ou em actividades sociais que os deixam sem tempo para as aulas “por ser pastor” ou “por causa do negócio”. Um dos participantes potenciais diz sobre os seus colegas que não assistem às aulas que “as pessoas andam à procura de algo para sobreviver, não e studam por causa da pobreza” (mulher, 40). Ela mesma não estuda por falta de um centro na sua zona de residência. Segundo, existem barreiras que têm a ver com experiências anteriores na escola, ou com a organização existente. Uma participante potencial (mulher, idade desconhecida) disse: “Nasci no tempo colonial, aprender era proibido, era espancada na escola, gostava, mas apenas aprendi o alfabeto, tinha medo da violência protagonizada pelos professores, não chegava à escola e comia massala”. “A escola er a distante da minha casa”, “entrei com idade avançada” e “houve falta de vagas na escola” são experiências comuns entre os informantes. Uma mulher (58 anos) no mercado de Maputo disse: “Nós éramos obrigados a cultivar a machamba do professor e víamos que isso era perda de tempo, então preferíamos investir esse tempo e esforço na nossa machamba”. Outras respostas, que têm a ver com as experiências anteriores na escola são: “fui rotulada como criança indisciplinada” e “aprendi muito pouco”. Em relação à situa ção actual, fala-se de falta de informação, da ausência de um centro ou do encerramento do centro, do horário das aulas, que não é prático, e das condições pobres do centro. Aulas debaixo de uma árvore ou noutro local com fraca protecção contra a chuva e o sol ainda são comuns. Os homens, em particular, queixaram-se muito das condições dos centros: “Não temos livros, não temos casa onde podemos estudar no tempo chuvoso, não temos carteiras, nem cadernos, gostaria que a Direcção Nacional ou Provincial ajudasse com livros e materiais e na construção de um centro” (homem, 31 anos). Um participante (homem, 20 anos) propõe soluções: “gostaria que a escola promovesse a agricultura para com os rendimentos melhorar as condições do centro”. O terceiro tipo de barreiras provém do ambiente social dos participantes. As suas condições de vida são vulneráveis, podendo mudar drasticamente com a doença ou falecimento de um familiar: “após o falecimento do meu pai a minha mãe ficou sem condições” (mulher, 16 anos) e “eu cuid ava da minha mãe, que era cega” (mulher, 44 anos). Há casos em que familiares do sexo masculino proíbem a esposa, a filha ou a sobrinha de assistir às aulas. Foi possível entender a existência de barreiras deste tipo em respostas como: “o meu ex -marido não queria” (mulher, 39 anos), “a minha cunhada desistiu sob pressão do meu irmão, ele trabalha na África do Sul e a casa não pode ficar sem ninguém” (homem, 20 anos), “a minha tia não estuda por causa do marido” (mulher, 19 anos). Um participante do sexo mas culino, sobre os seus amigos que não participavam nas aulas, disse “talvez tenham vergonha” (homem, 19 anos). Numa das sessões de retorno acrescentou-se um fenómeno em relação a esta barreira: a desmoralização dos participantes pelos não-participantes. Colegas que continuam a trabalhar na “ machamba” ou que vão consumir bebidas alcoólicas têm pronunciamentos desencorajadores e provocadores contra os seus amigos que frequentam as aulas de alfabetização: “E o que é vai ganhar com as aulas?” e “Por que é que nã o fica a tomar um copo connosco?”. Em quarto lugar existem os factores internos, relacionados com a própria pessoa: “Não quero participar porque já sou velha. O que é que vou fazer o que com esse conhecimento?” (mulher, idade desconhecida) Esta mulher mostrou-se feliz por ter filhos que estudavam e que trabalhavam. Uma outra mulher, provavelmente muito mais jovem, conseguiu superar as suas dificuldades: “Eu não tinha segurança, não sabia o que podia fazer na escola com a minha idade, mas agora já sei: posso ler e escrever” (mulher, 29 anos). Muitos dos informantes falaram de problemas de vista, em particular pessoas de mais de 35 anos. Também se mencionou a gravidez, doenças e até preguiça como factores impeditivos. Há pessoas que acham que estudar é só para crianças e que as pessoas mais velhas já têm “cabeça dura” em que já não entra mais nada: “não quero participar, já não sou capaz de aprender mais” (mulher, 48). Em relação às barreiras, os homens falaram mais das barreiras externas, sobretudo barreiras socio-económicas e do sistema escolar incluindo o centro; e as mulheres falaram das barreiras externas provenientes do ambiente social e das barreiras internas. Parece que as mulheres sofrem mais no isolamento, chegando a culpar-se a elas mesmas de não saber ler e escrever, enquanto que os homens imputam responsabilidades às condições externas. Assim, torna-se importante, na formulação de estratégias e programas, ter em consideração as diferenças entre as mulheres e os homens, mas também as semelhanças, porque ambos têm vontade de desenvolver e sair do isolamento. A diferença óbvia entre os participantes e os participantes potenciais encontra-se no peso das barreiras. Constatou-se que no caso dos participantes alguns dos factores externos tinham uma influência positiva. Por exemplo, o próprio centro pode facilitar a participação, quando os alfabetizadores mostram uma atitude positiva perante os aprendentes, quando o horário e o local das aulas estão de acordo com as actividades dos participantes e quando os materiais de ensino e aprendizagem estão disponíveis em número suficiente. O ambiente social também tem um papel muito importante: os participantes, principalmente as mulheres, falaram com orgulho sobre os seus filhos, maridos e outros familiares, os quais as ajudam com o TPC e as avisam da hora das aulas. Contextualizando as percepções de alfabetização Reconsiderando os objectivos do projecto, pode-se constatar que o projecto ajudou a identificar as percepções tanto dos participantes dos programas de alfabetização como dos participantes potenciais. Os entrevistados claramente exprimiram que se sentem desprezados, que querem ser valorizados, participar na sociedade e ter a sua parte no desenvolvimento humano. As percepções dos alfabetizandos mostram que eles sentem a falta de uma ferramenta essencial para controlar e melhorar a sua vida. Não há diferença entre pessoas que já participam nas aulas e pessoas que ainda não deram este passo. O sentimento básico de todos é um sentimento de exclusão. Isso está de acordo com um estudo interessante sobre percepções de alfabetização, que já foi feito nos anos setenta do século passado na Tanzânia (Kassam, 1979). Conforme este estudo, pessoas recentemente alfabetizadas indicam um crescimento em termos de: erradicação de ignorância, libertação, autoconfiança, dignidade humana, consciência política, desmistificação da realidade, objectivo da educação, condições económicas e continuação dos estudos. Resultados anteriores da investigação, que foram mencionados neste artigo, apuraram os diferentes motivos para as pessoas se inscreverem nas aulas de alfabetização: motivos individuais e sociais (Lind & Johnson, 1990) e motivos instrumentais, integrativos e expressivos (Borges Månsson, 1995). Esta investigação não discorda com estes resultados, mas salienta mais a relação entre as percepções e os diferentes aspectos da vida de cada pessoa. Refere-se aqui ao triplo papel da mulher, consoante Moser (1993), designadamente, reprodutivo, produtivo e de gestão da comunidade. O papel reprodutivo tem a ver com a vida da família, o papel produtivo com os rendimentos da família e a gestão de comunidade com a participação na sociedade. Apesar de em muitos casos existirem diferenças de enfoque entre mulheres e homens, a visão de Moser pode ser alargada e abranger homens: a vida dos homens também contém aspectos relacionados com cuidados para com a família, geração de rendimentos e participação na comunidade. Além disso, na área de educação surge mais um aspecto da vida: o desenvolvimento pessoal para se manter actualizado no mundo em mudança. As quatro categorias reflectem o contexto em que a pessoa vive (veja figura no 1). Condições socioeconómicas Saúde pública Vida actual da família Participação na sociedade Rendimentos da família Desenvolvimento pessoal Mercado formal e informal de trabalho Condições políticas Sistema escolar o Figura n 1 As quatro componentes das percepções de alfabetização no seu contexto As respostas dos participantes (potenciais) mostram o seu relacionamento com o seu contexto, as limitações que enfrentam devido à falta de habilidades linguísticas e as expectativas que têm da alfabetização. A figura no 1 exprime como as percepções estão ligadas ao contexto em que a pessoa vive. A categoria da vida actual da família está relacionada com condições socio-económicas como saúde, saneamento, nutrição, educação dos filhos, etc. O aumento dos rendimentos da família depende das possibilidades do mercado de trabalho: ir a África do Sul, trabalhar na machamba, vender no mercado, ter emprego numa família ou numa fábrica. As condições políticas num sentido amplo definem o espaço para participar na sociedade: votar, participar em reuniões, ser membro de uma associação, etc. E finalmente o desenvolvimento pessoal tem a ver com a participação na sociedade de conhecimento e o desenvolvimento de capacidades para manter essa participação. Agora o desafio é de analisar pormenorizadamente as práticas linguísticas num certo contexto, incluindo as diferentes línguas utilizadas para desenvolver programas pertinentes, tendo em conta tanto as necessidades dos aprendentes quanto as exigências do contexto. Desta maneira os programas apoiarão o desenvolvimento humano resondendo às necessidades básicas dos alfabetizandos. Alfabetização e desenvolvimento humano: uma abordagem orientada por necessidades Assiste-se a um novo ímpeto no sector de alfabetização, como consequência tanto do empenho dos alfabetizandos e alfabetizadores como das políticas nacionais e provinciais e do apoio dos Parceiros de Cooperação. O sector de alfabetização está realmente numa fase de revitalização em Moçambique. Não é pertinente ter grandes expectativas sobre os resultados desta fase em relação à redução da pobreza, à participação de todos no desenvolvimento do país e ao empowerment das camadas vulneráveis, tanto homens como mulheres; neste sentido é preciso um esforço integrado dos diferentes sectores. Contudo, os resultados da investigação podem contribuir para o refinamento das estratégias da implementação do novo currículo tanto em relação aos objectivos, como aos conteúdos, aos métodos, à língua e à organização. Na perspectiva de desenvolvimento humano, propõe-se uma abordagem orientada por necessidades: os programas não deveriam apenas seguir o currículo da escola formal, mas oferecer oportunidades de aprendizagem cuidadosamente moderadas consoante as necessidades dos aprendentes e as possibilidades locais (Kamp, van der M. e Toren, K., 2003). As quatro categorias de percepções podem servir como ferramentas para a negociação de programas pertinentes, incluindo os diferentes actores envolvidos. Para facilitar o acesso aos programas propõe-se uma abordagem integrativa criando um ambiente encorajador de aprendizagem, em que diferentes instituições, organizações e grupos informais cooperam. A investigação, por parte das universidades e outras instituições, podia desempenhar um papel preponderante no desenvolvimento de novas estratégias. O projecto mostra a importância de se ouvir as pessoas envolvidas e apreciar as suas opiniões como ponto de partida para a inovação de programas de alfabetização e de educação de adultos em geral. No cômputo geral, a equipa da investigação ficou impressionada com a sabedoria e conhecimento das pessoas que, apesar de (ainda) não estarem alfabetizadas, sabiam colocar-se no mundo e sabiam formular até que ponto queriam aumentar a sua participação nesse mundo. Isso é válido tanto para os participantes como para os participantes potenciais. As suas opiniões são indispensáveis para desenvolver não só novos métodos para atrair os que ainda não participam, mas também programas pertinentes quando participam. Parafraseando a expressão “Ninguém fala algo sem ser alguém” podia -se dizer: “Escutando bem, nota -se que alguém está a falar sobre o seu desejo de se ser alguém”. Pessoas analfabetas exprimem a vontade de estarem incluídas no mundo de hoje e de participarem no desenvolvimento humano, numa palavra, de “ser alguém”. Referências Bibliográficas BORGES MÅNSSON, A. Women’s Literacy and the Question of Dropout. Two Mozambican Case Studies. Stockholm: Stockholm University, 1995. BROOKFIELD, S. Understanding and Facilitating Adult Learning. A Comprehensive Analysis of Principles and Effective Practices. Buckingham: Open University Press, 1986. BUQUE, D. New work practices, new literacies and new identities: a shift towards a “new work culture” in a soft drinks factory in Maputo. Cidade de Cabo: Universidade de Cidade de Cabo, 2003. DNAEA. Estratégia do Subsector de Alfabetização de Adultos/Educação Não-Formal, 2001-2005. Maputo: Ministério de Educação, 2001. DNAEA. Plano curricular e Programas de Estudo para a Alfabetização. Maputo: Ministério de Educação, 2003. INDE. A problemática de alfabetização em Moçambique. Caderno de Pesquisa, No. 7. Maputo: INDE, 199? INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICA. http://www.ine.gov.mz disponível 20 de Fevereiro de 2004. INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICA. Inquérito aos Agregados Familiares sobre Orçamento Familiar, 2002/3. Relatório Final. Maputo: INE, 2004. KAMP, M. van der, e TOREN, K. Learning Trajectories for Groups-at-Risk. Lessons from Europe. Em S. Schmidt-Lauff (Ed.), Adult education and lifelong learning. A European view as perceived by participants in an exchange programme (pp. 69–89). Hamburg: Verlag, Dr. KoYDþ KASSAM, Y. O. Illiterate no more. The voices of new literates from Tanzania. Dar es Salaam: Tanzania Publishing House, 1979. LIND, A. & JOHNSTON, A. Adult Literacy in the Third World. A Review of Objectives and Strategies. Stockholm: SIDA, 1990. LIND, A. Adult Literacy Lessons and Promises. Mozambican Literacy Campaigns 1978 – 1982. Stockholm: University of Stockholm, Institute of International Education, 1988. LINDEN, J. van der, MANHIÇA, C. e RUNGO, R. Percepções de Programas de Alfabetização de Adultos em Moçambique. Maputo: Universidade Eduardo Mondlane, 2004. LONGWORTH, N. Lifelong Learning in Action. Transforming Education in the 21st Century. London e Sterling: Kogan Page, 2003. MÁRIO, M. A Experiência Moçambicana de Alfabetização e Educação de Adultos. Relatório Nacional. Comunicação apresentada na Conferência Internacional sobre Educação Básica e Alfabetização na região da SADC. Pietermaritzburg, Universidade de Natal, 2002. MERRIAM, S. e CAFFARELLA, R. Learning in Adulthood. A Comprehensive Guide (2a ed.). San Francisco: Jossey Bass, 1999. MINISTÉRIO DE EDUCAÇÃO. Plano curricular e Programas de Estudo para a Alfabetização. Maputo: Ministério de Educação, 2003. MOSER, C. O. N. Gender Planning and Development. Theory, practice and training. London/New York: Routledge, 1993. NOTÍCIAS. Comiche lança programa de alfabetização nos mercados: 2 de Setembro: p.1, 2004. NOTÍCIAS. Este ano em todo o país mais de 800 mil pessoas estão na alfabetização: 23 de Fevereiro: p. 1, 2004. NOTÍCIAS. Metas de alfabetização serão cumpridas no país: 9 de Setembro: p. 1, 2004. RODRIQUEZ, A. Psicologia Social (12ª. ed.). Petropolis: Jorges, 1988. STREET, B. Literacy in theory and practice. Cambridge: Cambridge University Press,1984. RUNGO, R. Necessidades Básicas de Aprendizagem na Alfabetização de Adultos: Estudo de dois casos no distrito de Marracuene. Maputo: Universidade Eduardo Mondlane, 2004 TORRES, R. M. Educação para Todos. A Tarefa por fazer. Porto Alegre: ARTMED Editora, 2001. TORRES, R. M. Lifelong Learning. A new momentum and a new opportunity for Adult Basic Learning and Education (ABLE) in the South. New Education Division documents No. 14. Stockholm: SIDA, 2003. WCEFA. World Declaration on Education for All and Framework for Action to Meet Basic Learning Needs. New York/Paris: UNICEF/UNESCO, 1990.