Revista Ciência Online / 2008 Volume 2 • 1º Trimestre • Página 48 a 59 UMA REVISÃO DA DIVERSIDADE DE APLICAÇÃO DA ELETROESTIMULAÇÃO NEUROMUSCULAR A REVIEW OF THE DIVERSITY OF APLICATION OF THE NEUROMUSCULAR ELECTRICAL STIMULATION SAMÁRIA ALI CADER MARTIN DANTAS (1). (1) , RODRIGO GOMES DE SOUZA VALE (1) , ESTÉLIO HENRIQUE 1-Laboratório de Biociências da Motricidade Humana da Universidade Castelo Branco- LABIMH-UCB/ Rio de Janeiro- RJ- Brasil [email protected] RESUMO A eletroestimulação neuromuscular (NMES) é uma técnica de fortalecimento muscular, baseada na estimulação elétrica, que gera potenciais de ação tanto no nervo intramuscular como nos receptores cutâneos, gerando contração muscular e força diretamente pela ativação do axônio motor e, indiretamente, pelo recrutamento reflexo de motoneurônios espinhais dos ramos intramusculares. O sinal eletromiográfico permite a análise da atividade elétrica da contração muscular identificando a soma dos potenciais de ação das unidades motoras que se encontram na vizinhança dos eletrodos quando a mesma é gerada. Oito são os parâmetros para a instalação no eletroestimulador: ataque; descida; sustentação; duração do pulso; freqüência; intensidade; repouso e tipo de onda. Possui uma vasta variabilidade de aplicação: em atletas; em pósoperatórios e em pacientes hemiparéticos, hemiplégicos e com Traumatismo Raqui MedularTRM. Com base na literatura podemos destacar que o trabalho com NMES não se mostrou superior ao fortalecimento voluntário; as modificações somente foram observadas no músculo estimulado e não em um grupamento muscular como um todo, para um certo movimento e as adaptações musculares só foram observadas após 4 semanas de treinamento, havendo antes deste período adaptações neurais. O treinamento com NMES tem mostrado resultados satisfatórios, embora ainda muito pouco explorado, necessitando de melhores padronizações no que diz respeito à metodologia aplicada. Palavras-chave: eletroestimulação neuromuscular; adaptações neurais; adaptações musculares ABSTRACT The Neuromuscular Electrical Stimulation (NMES) is a modality for muscular strengthening, by electrical stimulation, where action potentials are involved in both intramuscular nerve branches and cutaneous receptors, thus generating strenght and contraction directly by activation of motor axons and indirectly by reflex recruitment of spinal motoneurons. The electromyographic activity allows the analysis of electrical activity of muscular contraction identifying the addition of the potentials of action of the motor units that if find around the electrodes when the same one is generated. There are eight parameters to install the NMES: rise time; fall time; time-on; width pulse; pulse rate; intensity; time-off and wave form. It permits an ample variability of aplication: in athletic; postoperative phase and in hemiplegics and hemiparetics patients and those one with spinal cord injury. This study could observes that the volitional strenght could be more effective than NMES; the modifications appeared in the trained muscle and not necessarily on surrounding muscle fibers; the hypertrophy appeared as a result of a NMES training program lasting more than four weeks and the neural adaptations were seen up to four weeks. The NMES training provides advantage, however, few studies have been reported needing more standardize with the methods used. Key-words: Neuromuscular Electrical Stimulation; neural adaptations; muscular adaptations. 48 49 INTRODUÇÃO Histórico Nos fins dos anos 70, o interesse na eletroterapia foi aumentado pelos registros de pesquisa na União Soviética que afirmaram que a ativação elétrica regular do músculo era mais efetiva que o exercício no fortalecimento do músculo esquelético em atletas de elite. Isto aconteceu por volta do ano de 1977 durante um Simpósio sobre eletroestimulação neuromuscular (NMES), onde o pesquisador russo Yakov Kots apresentou o desenvolvimento de uma técnica de eletroestimulação que poderia aumentar a força muscular em 30 a 40% em atletas de elite, e também nos cosmonautas russos. Esses ganhos de força eram maiores que aqueles obtidos apenas através de exercícios1. Neurofisiologia da NMES A NMES é uma técnica de fortalecimento muscular baseada na estimulação elétrica dos ramos intramusculares dos motoneurônios a qual induz à contração muscular, utilizada na reabilitação para o tratamento de hipotrofia, espasticidade, contraturas e fortalecimento, além de programas de treinamento de atletas, gerando um ganho de torque isométrico2. O sinal eletromiográfico (EMG) permite a análise da atividade elétrica da contração muscular. Nele é possível identificar a soma dos potenciais de ação das unidades motoras que se encontram na vizinhança dos eletrodos quando a mesma é gerada3. Para Collins, Burke & Gandevia4 os potenciais de ação são gerados tanto no nervo intramuscular como nos receptores cutâneos, gerando força diretamente pela ativação do axônio motor (ponto motor) e, indiretamente, pelo recrutamento reflexo de motoneurônios espinhais. Apesar de muitos estudos reportarem um aumento da contração voluntária máxima (CVM), seguida da NMES, o mecanismo responsável (adaptação fisiológica) por este aumento de força ainda não é bem compreendido. Alguns estudos5,6 sugerem que a força é obtida após um breve período (4 semanas). Gondin et al.7 acrescentam que o aumento do torque da CVM, em questão do quadríceps, obtido após 8 semanas de treinamento com a NMES, pôde ser atribuído às ativações neural e muscular. Ao longo deste trabalho será exposta a diversa aplicabilidade da NMES. ESTABELECENDO PARÂMETROS NA NMES Antes da instalação da NMES, algumas observações devem ser ressaltadas: o tratamento não pode produzir dor, não pode fascicular o músculo e nem haver sensação de fadiga; observar que o músculo que vai ser trabalhado deve estar normal e o motoneurônio inferior intacto e tomar cuidado com a amplitude articular nos casos de bloqueio articular (para não haver lesão tendinosa). Algumas condições que dificultam a técnica devem ser evitadas, tais como: discinesias, síndromes hipertônicas graves, irritação da pele, obesidade e escaras1. 50 Starkey8 ainda destaca as contra-indicações para a NMES: lesões musculares, tendinosas e ligamentares; inflamações articulares em fase aguda; fraturas não-consolidadas; espasticidade (exceto para a técnica de inibição funcional); lesão nervosa periférica e a colocação dos eletrodos sobre o eixo do marcapasso, seio carotídeo e área cardíaca. Sempre que se aplica a NMES, 7 itens devem ser programados9,10: repouso ou time off (TOFF) (período entre 2 trens de pulso); intensidade (potência da contração); ataque (tempo que a corrente leva para se estabelecer; descida (tempo que a corrente leva para cessar); freqüência (repetição dos pulsos); duração (tempo total da onda) e sustentação ou time on (TON) (tempo de contração efetiva). Um outro dado a ser sinalizado, embora haja um menor destaque quando se descreve a metodologia utilizada na NMES, é o tipo de onda. Um estudo realizado por Laufer et al.11 teve três grandes objetivos: comparar a habilidade de três ondas diferentes (monofásica, bifásica e polifásica) para gerar contração isométrica do músculo quadríceps; comparar a fadiga muscular causada por contrações repetidas destas 3 ondas e, ainda, examinar o efeito do sexo (homem e mulher) na produção de força muscular induzida pela estimulação elétrica. Para tal, sua amostra foi constituída de 15 mulheres e 15 homens. Os resultados obtidos foram: 1- as ondas monofásicas e bifásicas possuíram maior torque que a polifásica (p= 0,02); 2- a onda polifásica produziu fadiga em um tempo mais curto que as ondas monofásica e bifásica e 3- os homens alcançaram um maior torque quando comparado com as mulheres (p= 0, 04). Resultados similares, em relação à comparação de torque gerado pelos três tipos de ondas, foram encontrados em uma pesquisa realizada por Lyons et al.12. Seu objetivo principal foi comparar o torque gerado pela estimulação elétrica durante uma contração isométrica do quadríceps entre um estimulador clínico (onda polifásica) e um portátil (onda mono e bifásica). Os resultados mostraram que o estimulador portátil produziu uma média de torque satisfatória (988.6±330.4 N.m-s) em relação ao estimulador clínico (822.7±292.6 N.m-s), resultando em uma diferença significativa (p<0.01). DIVERSOS EFEITOS DA NMES NAS ADAPTAÇÕES NEURAL E MUSCULAR Uma pesquisa realizada por Gondin et al.7 teve como objetivo investigar o efeito de 4 e 8 semanas de NMES nas adaptações neural e muscular dos músculos extensores do joelho. Este estudo foi o primeiro a analisar tanto o fator neural como o muscular, em uma mesma pesquisa, após múltiplas sessões de treinamento com NMES. Para a análise da adaptação neural foram observadas a atividade EMG e a ativação muscular durante a CVM. Já para a adaptação muscular foram observados o torque e a resposta EMG através das contrações elétricas e a área de secção transversa muscular e o ângulo de penação do vasto lateral pela ultra-sonografia. Participaram deste estudo 20 estudantes homens, os quais foram divididos, de forma aleatória, em dois grupos: grupo eletroestimulado (GE, N=12) e o grupo controle (GC, N=8). As variáveis foram mensuradas em 4 momentos: 2 semanas antes do pré-teste (linha de base) e na linha de 51 base; após 4 e 8 semanas de NMES. A metodologia utilizada foi: 32 sessões com duração de 18 minutos cada, durante 8 semanas, 4 vezes por semana; estimulador portátil com freqüência de 75 Hz, duração de 400 ms, TON de 4 s, TOFF de 20 s, ataque de 1,5 s, descida de 0,75 s e intensidade variando de 30 a 120 mA (o máximo que cada um pôde suportar). Este treinamento era precedido de um aquecimento de 5 minutos (5Hz com duração de 200ms). Os resultados encontrados no GE foram: aumento da CVM na 4ª e 8ª semana (p<0,001); aumento da ativação muscular na 4ª semana (p<0,05) e na 8ª semana (p<0,01); aumento da área de secção transversa do quadríceps (vasto lateral, vasto medial e vasto intermediário) na 4ª (p=0,06) e 8ª semana (p<0,001), com exceção do reto femural (p>0,05); aumento do ângulo de penação do vasto lateral na 4ª semana (p=0,06) e na 8ª semana (p<0,05). Em conclusão, o presente estudo demonstrou que, tanto a adaptação neural como a muscular são responsáveis pelo aumento do torque da CVM do quadríceps obtido após 8 semanas de treinamento da NMES. Uma outra pesquisa, também voltada para as modificações na ativação neural, foi realizada por Maffiuletti et al.13. Este estudo teve como objetivo avaliar os efeitos de 4 semanas de NMES nas propriedades neuromusculares dos músculos responsáveis pela flexão plantar. Foram obtidos a atividade EMG e o torque através da CVM e da contração evocada eletricamente a fim de distinguir as adaptações neurais das modificações contráteis. O treinamento constituiu de 4 semanas, 4 vezes por semana, 18 minutos cada sessão, freqüência de 75 Hz, duração de 400 ms, sustentação de 4 s, repouso de 20 s e intensidade com variação de 30 a 90 mA (máxima suportável por cada indivíduo). Nos resultados do estudo foi encontrado: quando realizado a CVM, houve aumento do torque na angulação isométrica (p<0,05) e no movimento excêntrico, em 120º (p<0,01) e 60º (p<0,05); aumento da atividade EMG, principalmente do gastrocnêmio (p<0,05); as propriedades contráteis não sofreram modificações após a NMES. Provavelmente, este último resultado, segundo Gondin et al.7, se deve ao pouco tempo de intervenção (4 semanas). Um estudo realizado por Kim et al.14 analisou os efeitos da contração muscular dinâmica induzida eletricamente na resistência muscular localizada (RML), na força muscular e na adaptação morfológica e enzimática. Este estudo foi composto de 7 estudantes de educação física. O programa de treinamento consistiu da aplicação da NMES nos extensores do joelho em uma bicicleta ergométrica. A carga utilizada na bicicleta foi de 30 W, com duração de 60 minutos, 3 vezes na semana, por 4 semanas. As respostas encontradas foram: aumentou da capacidade de difusão, indiferença na composição do tipo de fibra; aumento na RML em 82% (p<0,01) e aumento significativo (p<0,01) da atividade da prolina-hidroxilase-4 (marcador da biosíntese do colágeno), embora não houvesse nenhuma outra alteração enzimática. Acredita-se que este último ganho se deu graças a adaptação neural e aprendizado motor, já que não houve diferenças enzimáticas significativas. Bickel et al.15 ainda acrescenta que um estímulo agudo da NMES foi suficiente para estimular respostas a nível molecular. Tais mudanças indicaram o início do processo de hipertrofia no quadríceps tanto de indivíduos saudáveis como daqueles que possuíam injúria da medula 52 espinhal. Entretanto, a resposta da hipertrofia muscular ainda parece um pouco ambígua na literatura, provavelmente devido ao tempo (semanas) de duração. Um estudo realizado por Bax, States & Verhagen16 consistiu de uma revisão sistemática de estudos-controle randomizados a fim de responder a uma simples questão: “Pode a NMES, em geral, ser uma modalidade efetiva para o aumentar a força do quadríceps femural em adultos”? Para este questionamento, analisou 35 artigos contendo na amostra indivíduos aparentemente saudáveis e 16 artigos com indivíduos que tenham sofrido qualquer comprometimento capaz de causar “imobilização” (hipotrofia) do quadríceps. Pôde concluir, após sua vasta revisão de literatura, que os exercícios voluntários indicaram uma eficácia igual ou superior a NMES. Além da NMES ser benéfica em relação a ausência de exercícios, ela também mostrou-se satisfatória nos períodos de imobilização, minimizando a perda da força, sendo superior, neste caso, ao exercício voluntário. Assim a NMES pareceu ser mais uma adjuvante dos programas de treinamento ou de reabilitação do que uma substituta do exercício de fortalecimento voluntário. Vale a pena ressaltar que a associação dos dois (exercício voluntário + NMES) foi aquela que obteve melhores resultados. APLICABILIDADE DA NMES Reabilitação em Pós-operatórios Embora a utilização da NMES para aumentar a produção de força em indivíduos idosos ainda não está tão largamente bem documentada, a NMES tem uma grande eficácia na otimização das fibras tipo II, mais do que os exercícios voluntários sozinhos17. A tabela 1 vem demonstrar a metodologia da NMES utilizada em um pós-operatório de artroplastia total do joelho em indivíduo idoso18 e de substituição do quadril também em indivíduos idosos19. Tabela 1: Metodologia da NMES utilizada nos estudos de Lewek, Stevens & Snyder-Mackler18 e Suetta et al.19 em pós-operatório. PROGRAMA DURAÇÃO CORRENTE FREQUÊNCIA PULSO INTENSIDADE TON TOFF ATAQUE DESCIDA LEWEK, STEVENS & SNYDER18 MACKLER NMES + alongamento + fortalecimento (70% 1RM) NMES 7 semanas/ 18 sessões/ 10 contrações por sessão alternada 40-75 Hz ? ~ 35-50% da CVM 10 s 50 s 3s 3s SUETTA et al. Convencional (12)/ (11)/ resistência (13) 19 NMES 12 semanas/ 1 x/ semana / 1 hora por sessão bifásica 40 Hz 250 ms 0-60 mA 10 s 20 s 2s 2s O trabalho de Lewek et al.18 consistiu de um estudo de caso (idoso de 66 anos). O trabalho de NMES foi iniciado após 3 semanas de cirurgia. Os resultados obtidos, após 10 semanas de 53 cirurgia, foram: subia e descia escadas sem dor; teve melhora do arco de movimento e aumento da força do quadríceps da perna envolvida (de 50% para 93% em relação à perna não envolvida). Este último relato é importante uma vez que se encontrou, em um estudo de Berman, Bosacco & Israelite20, um dado que relatou a porcentagem de uma força relativa à 83% do membro envolvido em relação ao não envolvido somente depois de 2 anos de pós-operatório utilizando-se apenas um programa de fortalecimento convencional, sem nada associado. A pesquisa de Suetta et al.19 teve uma amostra de 36 pacientes os quais foram divididos em três grupos: 1- reabilitação convencional (N=12); 2- NMES (N=11) e 3- treinamento de resistência (N=13). O programa de NMES teve início 1 dia após a cirurgia e o trabalho de resistência foi gradual (de 50% a 80% de 1RM). Os resultados encontrados foram: aumento da área de secção transversa e da força muscular somente no grupo 3 (p<0,05); a performance funcional teve uma melhora no grupo 3 (p<0,001) e no grupo 2 (p<0,05); o tempo de hospitalização foi reduzido no grupo 3 (p<0,05) e no grupo 2 (p=0,07) em relação ao grupo 1. Com isto, pôde-se concluir que o trabalho de resistência foi favorável ao de NMES, que por sua vez foi superior ao da reabilitação convencional. Pacientes Hemiparéticos e Hemiplégicos A espasticidade de flexores plantares é uma característica freqüente em indivíduos hemiparéticos, provocando uma diminuição da amplitude de movimento (ADM) na dorsiflexão e uma dificuldade na marcha destes indivíduos. A estimulação elétrica funcional (FES) vem se mostrando um método eficaz no aumento da força muscular, na redução da espasticidade e no aumento da ADM. Um estudo realizado por Martins et al.21 teve como objetivo analisar a eficácia da FES na ADM de dorsiflexão de hemiparéticos. A amostra foi constituída de 8 indivíduos: 1: grupo de indivíduos com FES (N=4) e 2: grupo controle- tratamento convencional (N=4). No grupo 1 houve um aumento significativo da ADM, tanto ativa (p=0,014) como passiva (p=0,024). No grupo 2 não foram observadas alterações significativas. Magri et al.22 afirmam que a inibição recíproca é importante na recuperação funcional e no ganho de ADM de pacientes hemiparéticos. Através dos achados no trabalho de Martins et al.21, pode-se observar que o FES influenciou na diminuição do tônus da musculatura antagonista, uma vez que houve um aumento na ADM passiva. Lindquist et al.23 avaliaram o efeito da FES no músculo tibial anterior associada ao treinamento da marcha em esteira elétrica com suporte parcial de peso corporal na marcha de hemiparéticos. A amostra foi de 2 sujeitos de 67 anos com hemiparesia crônica e tempos de lesão de 2 e 4 anos. Foram avaliadas as variáveis espaço-temporais. Os resultados deste estudo sugerem que o treinamento em esteira com suporte parcial de peso, com associação do FES, diminuiu o tempo de apoio e a duração do ciclo (p=0,05), aumentou a cadência (passos/min) (p≤ 0,05) e a velocidade da marcha (p≤ 0,05). Não houve alterações significativas na fase de balanço e no comprimento do ciclo. Pohl et al.24 relataram uma correlação entre a velocidade e a força 54 muscular, ou seja, o hemiparético precisa possuir musculatura forte para conseguir gerar o movimento desejado e o treinamento na esteira elétrica pode ter promovido o aumento da força e da resistência muscular. A dor no ombro é uma das complicações mais comuns no hemiplégico, prejudicando a funcionalidade e a qualidade de vida destes pacientes. Embora não se saiba a correta etiologia, acredita-se que a subluxação gleno-umeral seja uma forte suspeita. Assim existe a hipótese que abolindo esta subluxação, a dor diminua25. Uma pesquisa realizada por Renzenbrink & Jzerman26 teve como objetivo primário avaliar a curto e longo-prazo os efeitos clínicos da eletroestimulação neuromuscular percutânea (PNMES) na intensidade da dor no ombro e na qualidade de vida de hemiplégicos crônicos sendo selecionados 15 indivíduos. Os eletrodos intramusculares foram instalados no deltóide medial e posterior, no supraespinhoso e nas fibras superiores do trapézio. Nos resultados pôde-se encontrar melhora em todos os domínios do questionário SF-36, em especial nos domínios dor (p<0,001), função física (p<0,02) e função social (p<0,03), sugerindo uma melhora na qualidade de vida. Além disto, também houve uma melhora significativa na intensidade da dor avaliada pela NRS (p<0,0001). A metodologia da NMES utilizada por Martins et al.21, Lindquist et al.23 e Renzenbrink & Jzerman26 está disposta na tabela 2. Tabela 2: Metodologia da NMES utilizada nos trabalhos de Martins et al.21 e Lindquist et al.23 em hemiparéticos e Renzenbrink & Jzerman26 em hemiplégicos. 21 DURAÇÃO CORRENTE FREQUÊNCIA PULSO INTENSIDADE TON TOFF ATAQUE DESCIDA 23 MARTINS et al. LINDQUIST et al. 18 sessões 9 semanas/ 3 x/ semana/ 35-40 min. bifásica 25 Hz 150 ms 150 V Fase de balanço Toque do calcanhar ? ? ? 37 Hz 0,05-0,3 ms Máxima suportada 13 s 27 s 1,5 s 1,5 s RENZENBRINK & 26 JZERMAN 6 semanas/ 6hs por dia bifásica 12 Hz 10-200 ms (máx) 20 mA 10 s 10 s ? ? Pacientes com Traumatismo Raqui-Medular (TRM) Uma das maiores conseqüências do TRM completo é a paralisia abaixo do nível da lesão. Perda do controle motor e, conseqüentemente, imobilização, leva ao desuso muscular (atrofia) com perda da massa muscular, afetando a distribuição de pressão nas áreas de apoio. Especificamente, a redução da massa glútea vai produzir um aumento da pressão na tuberosidade isquiática quando o indivíduo está sentado. O bombeamento de fluxo de sangue, abaixo do nível da lesão, se torna ineficaz e, paralelamente a isto, a atividade do sistema nervoso simpático diminui, levando a diminuição da pressão sanguínea abaixo da lesão27. 55 Acrescentando-se a perda da massa muscular, a perda da perfusão capilar ocorrerá, reduzindo o volume de sangue que levará a uma diminuição da nutrição tecidual, além da diminuição da oxigenação (em tetraplégicos), em vista da redução da função respiratória, contribuirá para a degeneração tecidual e formação de escaras28. Assim, as úlceras de decúbito têm sido reconhecidas como uma das mais sérias e dispendiosas complicações dos lesados raqui-medular29. Alguns estudos têm se preocupado em diminuir a incidência de escaras30,31. Estes pesquisadores tiveram como objetivo melhorar as condições da massa muscular glútea e do fluxo sanguíneo local, a fim de regredir a incidência de escaras e prolongar o tempo de permanência na cadeira, sem dor. Bogie & Triolo31 ainda foram além, pois aplicaram NMES na musculatura responsável pelas transferências de posições e sustentação de tronco. Bogie & Triolo31 utilizaram uma amostra de 8 indivíduos e Ricchbieth, Jelbart & Marshall30 realizaram um estudo de caso. A metodologia utilizada por cada trabalho aplicada sobre o glúteo máximo, está descrita na Tabela 3. Tabela 3: Metodologia utilizada nas pesquisas de Ricchbieth, Jelbart & Marshall30 e Bogie & Triolo31 em TRM. DURAÇÃO CORRENTE FREQUÊNCIA PULSO INTENSIDADE TON TOFF ATAQUE DESCIDA RISCHBIETH, JELBART & 30 MARSHALL 7 meses (24 meses)/ 3x por dia/ 15-30 min por sessão ? 30 Hz 101-108 s 65% (1º mês)-100% (4º mês) ? ? 4s 2s BOGIE & TRIOLO 31 8 semanas ? 30 Hz 150-200 s ? 5s 10 s 2s 2s As pesquisas de Bogie & Triolo31 e Ricchbieth, Jelbart & Marshall30 obtiveram resultados satisfatórios. Em todas elas houve um aumento da massa muscular glútea, melhorando a circulação regional, levando a uma tolerância maior para a posição sentada e uma diminuição de internações para tratamento de escaras. Melhora da Performance em Atletas Durante os últimos anos, uma atenção maior tem sido dada a NMES como uma modalidade de fortalecimento muscular tanto em indivíduos saudáveis como em atletas de alto rendimento. Evidências indicam que o treinamento com NMES aumenta a CVM durante a cadeia cinética aberta. Entretanto, poucos estudos se dedicam a pesquisar o efeito da NMES em movimentos envolvendo cadeia cinética fechada, por exemplo, um salto32. O trabalho de Malatesta et al.10 teve como objetivo investigar a influência de 4 semanas de NMES na performance do salto vertical em jogadores de voleibol. Sua amostra foi constituída de 56 12 homens. Interessante ressaltar que o programa de treinamento, além da NMES, foi composto, ao final das 4 semanas, de 10 dias de treinamento específico da prática esportiva. Tal cuidado foi sugerido no estudo de Maffiuletti et al.32, quando percebeu que só houve melhora significativa na impulsão para o salto após 1 mês de treinamento seguido da NMES em jogadores de basquetebol. Os resultados encontrados foram: não houve mudança significativa na performance do squat jump – SJ (agachamento) nem do counter-movement jump- CMJ (impulsão) imediatamente após 4 semanas de NMES enquanto a altura e a potência mecânica, por 15 saltos consecutivos, tiveram aumentos significativos (p<0,05 e p<0,01, respectivamente); após 10 dias de treinamento, seguidos da NMES, foi encontrado aumento significativo da altura de cada fase especificamente (p<0,05) e na seqüência de saltos (p<0,01), além da potência mecânica desta seqüência (p<0,001). A pesquisa realizada por Brocherie et al.33 centrou-se em examinar a influência de 3 semanas de NMES na força dos extensores do joelho e na performance da patinação no gelo e do salto vertical em um grupo de patinadores. Para tal fim, o grupo foi composto de 17 homens divididos em grupo eletroestimulado (ES, N=9) e grupo controle (C, N=8). O grupo ES obteve um aumento significativo do torque em condição excêntrica (p<0,01) e concêntrica (p<0,05); uma diminuição na altura do SJ, CMJ e drop jump- DJ (momento da queda) com p<0,05; aumento na potência dos 15 saltos consecutivos (p<0,05), porém não de sua altura e diminuição do tempo para percorrer 10 m de distância (p<0,05). Nenhuma mudança significativa foi encontrada no grupo C. Os protocolos utilizados por Malatesta et al.10 e Brocherie et al.33 estão expostos na tabela 4. 10 Tabela 4: Metodologia utilizada por Malatesta et al. 33 e Brocherie et al. 10 DURAÇÃO CORRENTE FREQUÊNCIA PULSO INTENSIDADE TON TOFF ATAQUE DESCIDA MALATESTA et al. 4 semanas/ 3x/ semana/ ~12 minutos por sessão Bifásica 105-120 Hz 400 ms 60-100 mA (máxima) 4,25 s 29-34 s 0,75 s 0,5 s em atletas 33 BROCHERIE et al. 3 semanas/ 3x/semana/ ~ 12 minutos por sessão Bifásica 85 Hz 250 ms Máxima (≥60% de 1RM) 4s 20 s ? ? CONSIDERAÇÕES FINAIS Este trabalho se restringiu a buscar uma ampla literatura sobre a diversidade de utilização da NMES na reabilitação para o tratamento de hipotrofia (pós-operatório), hipotonia (hemiplégico, TRM), espasticidade e contraturas (hemiparético), além de fortalecimento em programas de treinamento em atletas. Foi observado que, muito embora a NMES seja benéfica em relação à ausência de exercício e superior ao exercício voluntário durante o período de imobilização, esta 57 não consiste em uma substituta do fortalecimento e da resistência muscular voluntários e sim em uma adjuvante do programa de treinamento. É interessante ser ressaltado que a associação da NMES com o exercício voluntário denotou maior eficácia em relação ao treinamento individual de cada um. Entretanto os estudos não possuem uma padronização na metodologia utilizada e, inclusive, esta por muitas vezes se tornou incompleta. É necessário, uma vez que se destine a falar sobre o assunto, que um maior rigor científico seja dado a fim de ser encontrado resultados mais fidedignos. Desta forma, o estudo sobre a NMES requer que um maior número de pesquisadores se interessem em aprofundar o seu conhecimento e aplicabilidade com qualidade e amplo conteúdo, em estudos randomizados controlados. REFERÊNCIAS 1. ROBINSON, A. J. & SNYDER-MACKLER,L. Eletrofisiologia clínica: eletroterapia e teste eletrofisiológico. 2.ed. Porto Alegre: Artmed, 2001. pp. 68; 105-108; 115; 126 137; 147. 2. PICHON, F.; CHATARD, J. C.; MARTIN, A. & COMETTI, G. Electrical stimulation and swimming performance. Med Sci Sports Exerc, v. 27, n. 12, p. 1671-1676, 1995. 3. ARAÚJO, R. C.; DUARTE, M. & AMADIO, A. C. Estudo sobre a variabilidade do sinal eletromiográfico intra e inter-indivíduos durante contração isométrica. Anais do VII Congresso Brasileiro de Biomecânica, p. 128-134, 1997. 4. COLLINS, D. F.; BURKE, D. & GANDEVIA, S. C. Large involuntary forces consistent with plateau-like behavior of human motoneurons. J neurosci, v. 21, p. 4059-4065, 2001. 5. MAFFIULETTI, N. A.; PENSINI, M. & MARTIN, A. Activation of human plantar flexor muscles increases after electromyostimulation training. J Appl Physiol, v. 92, p. 13831392, 2002. 6. COLSON, S.; MARTIN, A. & VAN HOECKE, J. Re-examination of training effects by electrostimulation in the human elbow musculoeskeletal system. Int J Sports Med, v. 21, p. 281-288, 2000. 7. GONDIN, J.; GUETTE, M.; BALLAY, Y. & MARTIN, A. Electromyostimulation training effects on neural drive and muscle architecture. Med Sci Sports Exerc, v. 37, n. 8, p. 1291-1299, 2005. 8. STARKEY, C. Recursos terapêuticos em fisioterapia. 1. ed. Rio de Janeiro: Manole, 2001. 9. SALGADO, A. S. I. Eletroterapia: manual clínico. 1 ed. Londrina: Midiograf, 1999. 10. MALATESTA, D.; CATTANEO, F.; DUGNANI, S. & MAFFIULETTI, N. A. effects of electromyostimulation training and volleyball practice on jumping ability. J Strength Cond Res, v. 17, n. 3, p. 573-579, 2003. 11. LAUFER, Y.; RIES, J. D.; LEININGER, P. M. & ALON, G. Quadriceps femoris muscle torques and fatigue generated by neuromuscular electrical stimulation with three different waveforms. Phys Ther, v. 81, n. 7, p. 1307-1316, 2001. 12. LYONS, C. L.; ROBB, J. B.; IRRGANG, J. J. & FITZGERALD, G. K. Differences in quadriceps femoris muscle torque when using a clinical electrical stimulator versus a portable electrical strimulator. Phys Ther, v. 85, n. 1, p. 44-51, 2005. 58 13. MAFFIULETTI, N. A.; DUGNANI, S.; FOLZ, M.; Di PIERNO, E. & MAURO, F. Effect of combined electrostimulation and plyometric training on vertical jump height. Med Sci Sports Exerc, v. 34, p. 1638-1644, 2002; 14. KIM, C. K.; TAKALA, T. E.; SEGER, J. & KARPAKKA, J. Training effects of electrically induced dynamic contractions in human quadríceps muscle. Aviat Space Environ Med, v. 66, n. 3, p. 251-255, 1995, Abstract. 15. BICKEL, C. S.; SLADE, J. M.; HADDAD, F.; ADAMS, G. R. & DUDLEY, G. A. Acute molecular responses of skeletal muscle to resistance exercise in able-bodied and spinal cord-injured subjects. J Appl Physiol, v. 94, p. 2255-2262, 2003. 16. BAX, L.; STAES, F. & VERHAGEN, A. Does neuromuscular electrical stimulation strengthen the quadriceps femoris?. Sports Med, v. 35, n. 3, p. 191-212, 2005. 17. BINDER-MACLEOD, S. A.; HALDEN, E. E. & JUNGLES, K. A. Effects of stimulation intensity on the physiological responses of human motor units. Med Sci Sports Exerc, v. 25, p. 556-565, 1995. 18. LEWEK, M.; STEVENS, J. & SNYDER-MACKLER, L. The use of elecrical stimulation to increase quadriceps femoris muscle force in an elderly patient following a total knee arthroplasty. Phys Ther, v. 81, n. 9, 2001. 19. SUETTA, C.; MAGNUSSON, P.; ROSTED, A.; AAGAARD, P.; JAKOBSEN, A. K.; LARSEN, L. H.; DUUS, B. & KJAER, M. Resistance Training in the early Postoperative Phase reduces Hospitalization and Leads to Muscle Hypertrophy in Elderly Hip Surgery Patients- a Controlled, Randomized Study. J Am Geriatr Soc, v. 52, p. 2016-2022, 2004. 20. BERMAN, A. T.; BOSACCO, S. J. & ISRAELITE, C. Evaluation of total knee arthroplasty using isokinetic testing. Clin Orthop, v. 271, p. 106-113, 1991. 21. MARTINS, F. L. M.; GUIMARÃES, L. H. C. T.; VITORINO, D. F. M. & SOUZA, L. C. F. Eficácia da eletroestimulação funcional na amplitude de movimento de dorsiflexão de hemiparéticos. Rev Neurociências, v. 12, n. 2, 2004. 22. MAGRI, M.; SILVA, N. S. & NIELSEN, M. B. P. Influência da inervação recíproca na recuperação da função motora de pacientes hemiplégicos. Fisioterapia Brasil, v. 4, n. 3, 2003. 23. LINDQUIST, A. R. R.; SILVA, I. A. B.; BARROS, R. M. L.; MATTIOLI, R. & SALVINI, T. F. A influência da estimulação elétrica funcional associada ao treinamento em esteira com suporte parcial de peso na marcha de hemiparéticos. Rev Bras Fisioter, v.9, n. 1, p.109112, 2005. 24. POHL, M.; MEHRHOLZ, P. T.; RITSCHEL, C. & RUCKRIEM, M. A. Speed-dependent treadmill training in ambulatory hemiparetic stroke patients: a randomized controlled trial. Stroke, v. 33, p. 553-558, 2002. 25. TURNER-STOKES, L. & JACKSON, D. Shoulder pain after stroke: a review of the evidence base to inform the development of an integrated care pathway. Clin Rehabil, v. 16, p. 176298, 2002. 26. RENZENBRINK,G. J. & JZERMAN, M. J. I. Percutaneous neuromuscular electrical stimulation (P-NMES) for treating shoulder pain in chronic hemiplegia. Effects on shoulder pain and quality of life. Clin Rehabil, v. 18, p. 359-365, 2004. 27. SCHUBERT, V. & FAGRELL, B. Postocclusive reactive hyperemia and thermal response in the skin microcirculation of subjects with spinal cord injury. Scan J Rehabil Med, v. 23, p. 33-40, 1991. 28. LINN, W. S.; ADKINS, R. H.; GONG, H. & WATERS, R. L. Pulmonary function in chronic spinal cord injury: a cross-sectional survey of 222 southern California adult outpatients. Arch Phys Med Rehabil, v. 81, p. 757-763, 2000. 59 29. BYRNE, D. W. & SALZBERG, C. A. Major risk factors for pressure ulcers in the spinal cord disabled: a literature review. Paraplegia, v. 34, p. 255-263, 1996. 30. RISCHBIETH, H.; JELBART, M. & MARSHALL, R. Neuromuscular elecrical stimulation keeps a tetraplegic subject in his chair: a case study. Spinal Cord, v. 36, p. 443-445, 1998. 31. BOGIE, K. M. & TRIOLO, R. J. Effects of regular use of neuromuscular electrical stimulation on tissue health. J Rehabil Res Dev, v. 40, n. 6, p. 469-476, 2003. 32. MAFFIULETTI, N. A.; COMETTI, G.; AMIRIDIS, I. G.; MARTIN, A.; POUSSON, M. & CHATARD, J. C. The effects of electromyostimulation training and basketball practice on muscle strength and jumping ability. Int J Sports Med, v. 21, p. 437-443, 2000. 33. BROCHERIE, F.; BABAULT, N.; COMETTI, G.; MAFFIULETTI, N. A. &. CHATARD,J. C. Electrostimulation training effects on the physical performance of ice hockey players. Med Sci Sports Exerc, v. 37, n. 3, p. 455-460, 2005.