1 ISSN 1809 - 5399 2 ISSN 1809 - 5399 REVISTA INTERDISCIPLINAR DA FACULDADE ESTÁCIO DE SERGIPE ESTÁCIO FaSe ANO 5 V.7 N.7 janeiro/junho de 2011 Aracaju 3 PUBLICAÇÃO SEMESTRAL O CPEDeC não se responsabiliza pelas opiniões emitidas pelos autores. Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida por qualquer meio, sem a prévia autorização da ESTÁCIO FaSe. Ficha Catalográfica elaborada pela Biblioteca Central da Faculdade Estácio de Sergipe Revista Interdisciplinar da Faculdade Estácio de Sergipe-Estácio FaSe Cadernos de Pesquisa e Extensão Desafios Críticos – CPEDeC, ano 5, n.7, jan./jun.---- Aracaju: Faculdade Estácio de Sergipe, 2011. 158 p. Periodicidade: Semestral ISSN on line: 1809 – 5399 1.Ciências Sociais e Aplicadas 2. Ciências Humanas 3. Ciências das Exatas e Tecnológicas. I.Título. CDU 009(05) CPEDeC Aracaju v.7 n.7 p.158 jan./jun. 2011 4 CPEDeC REVISTA INTERDISCIPLINAR DA FACULDADE ESTÁCIO DE SERGIPE ESTÁCIO FaSe Direção Geral da Estácio FaSe Prof. MSc. Paulo Rafael Monteiro Nascimento Direção Acadêmica Prof. MSc. Fernando Luiz de Araújo Monteiro Conselho Consultivo Prof.MSc. Paulo Rafael Monteiro Nascimento Prof.ª Pós.doc. Hortência de Abreu Gonçalves Conselho Editorial Prof.ª MSc. Dayse Coelho de Almeida Prof. MSc. Eduardo Carpejani Prof. Dr. Orlando Pedreschi Neto Prof.ª MSc. Célia Carvalho do Nascimento Prof. MSc. Amintas Figueiredo Lira Comissão Científica Prof.ª MSc. Betânia Costa Leite Prof.ª Dr. Daniela Carvalho Almeida da Costa Comissão de Revisão Prof.ª MSc. Rosilene Pimentel S. Rangel Profª Michelle de Araújo Góes Profª. Veronice de Fátima Silva Barreto Comissão de Projeto Gráfico Prof. Paulo Amaral Costa RP Ticiane Tojal Rodrigues Santos Instituição Faculdade Estácio de Sergipe – ESTÁCIO FaSe Rua Teixeira de Freitas, n.10 Cep. 49020-530 Bairro: Salgado Filho Fone: (79) 3246-8100 Aracaju - Se Home page: www.revistadesafioscriticos.fase-se.edu.br E-mail: [email protected] 5 SUMÁRIO CPEDeC CADERNOS DE PESQUISA E EXTENSÃO DESAFIOS CRÍTICOS v. 7 n. 7 jan./jul. 2011 www.revistadesafioscriticos.fase-se.edu.br CONTABILIDADE DIREITO EBITDA: Vantagens e Limitações como Indicador Financeiro de Longo Prazo e no Controle e Planejamento das Organizações José Cleverton de Oliveira............................................9 Aplicabilidade do Princípio Constitucional da Dignidade Humana como Direito Fundamental nas Relações Sociais e na Cobertura do Sistema da Seguridade Ssocial Clara Angélica Gonçalves Dias..................................19 A Proteção do Direito de Crédito Através da Releitura da Impenhorabilidade da Verba Alimentar do Devedor EDUCAÇÃO Tatiane Gonçalves Miranda Goldhar..........................35 A Autonomia do Aprendizado ea Nova Docência Para a Transformação das IES Luiz Gustavo de Oliveira Ramos................................54 Rosilene Pimentel S. Rangel Os Desafios da Educação Física para o Desenvolvimento Geral da Criança Portadora da Síndrome de Down FILOSOFIA Maria Auxiliadora Ribeiro de Barros Cardoso.......................................................................65 Matias Batista Santos Aspectos Fundamentais da Obra “Debates Pedagógicos” de Alceu Amoroso Lima GESTÃO João Claudio da Conceição.........................................79 O processo de gestão do conhecimento em uma instituição de ensino superior: um estudo de caso HISTÓRIA E ANTROPOLOGIA Paulo Rafael Monteiro Nascimento............................91 Abordagens Historiográficas e Conceituais da Antropologia e Perspectivas Etnográficas da Educação Hortência de Abreu Gonçalves.................................107 6 Carmen Lúcia Neves do Amaral Costa Adeilde Mendonça Mota Péricles de Abreu Diniz Gonçalves COMPUTAÇÃO Doações de Alforrias em Testamentos “post mortem”: Sergipe (1780-1850) Hortência de Abreu Gonçalves.................................121 A WEB Semântica e sua Contribuição para a WEB 3.0 Cleberton Carvalho Soares........................................134 Paulo Caetano da Silva Arquitetura Orientada a Serviços e Segurança em WEB Services Anderson Lago Gomes......................................................144 Cleberton Carvalho Soares Danielle Amaral Menéndez Paulo Caetano da Silva NORMAS PARA SUBMISSÃO Linha Editorial........................................................155 Estilo de Apresentação dos Artigos.......................155 Estilo de Apresentação das Resenhas....................159 7 APRESENTAÇÃO O Caderno de Pesquisa e Extensão Desafios Críticos - CPEDeC, em sua sétima edição, cumpre mais uma vez, com o objetivo de fomentar a produção do conhecimento entre os docentes e os discentes da Faculdade Estácio de Sergipe – Estácio FaSe, especialmente quanto ao desenvolvimento do pensamento crítico, analítico e reflexivo, pautado nos princípios filosóficos e teórico-metodológicos de construção do saber, numa perspectiva abrangente qualitativa e/ou quantitativa, que contou com a colaboração de vários autores, tanto da comunidade acadêmica interna quanto externa, privilegiando assim, não apenas uma multiplicidade de áreas do conhecimento, como também a interação entre elas, partindo de temáticas educativas, filosóficas, históricas e antropológicas até conteúdos direcionados ao financeiro, de gestão do conhecimento, computação e relativas ao direito. Com esta publicação a Estácio FaSe, mais uma vez, promove a difusão do conhecimento por intermédio dos conteúdos descritos e discutidos, numa perspectiva contemporânea, perpassando pelas diferentes posturas acadêmicas dos autores que colaboraram com este exemplar. Igualmente, ressalta-se a presença da interdisciplinaridade, enquanto propulsora da troca de informações, utilizando como suporte, inúmeras vivências acadêmicas e experiências científicas, configuradas nos conteúdos e suas abordagens. Os Editores 8 9 ARTIGOS 10 EBITDA: VANTAGENS E LIMITAÇÕES COMO INDICADOR FINANCEIRO DE LONGO PRAZO E NO CONTROLE E PLANEJAMENTO DAS ORGANIZAÇÕES José Cleverton de Oliveira1 RESUMO O presente artigo tem por objetivo discorrer acerca das vantagens do uso do EBITDA como indicador financeiro de longo prazo na análise de balanços e no apoio às decisões tomadas no âmbito das empresas, mas com limitações quando tomado de forma isolada e única. Não tem qualquer pretensão de esgotar o assunto e não é inédito, uma vez que é um trabalho que analisa e discute informações já publicadas por autores diversos, bem como não apresenta conceitos novos, mas fomenta tão somente a discussão de um indicador por demais explorados pelas empresas. Com a crescente competitividade entre as empresas, entendeu-se que medidas outras seriam necessárias, entre os indicadores já conhecidos e utilizados, para demonstrar a situação econômica e financeira das empresas. O EBITDA, sigla que em inglês significa Earning Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization, e conhecido em nossa língua vernácula como LAJIDA, ou seja, Lucro apurado Antes dos Juros, Depreciação e Amortização, mostra o potencial de geração de caixa de um negócio produzido pelos ativos operacionais. O EBITDA vem se destacando entre os demais indicadores como aquele que apoia os gestores nas decisões empresariais, mas pode ser considerado como indicador financeiro de longo prazo no controle e planejamento das organizações quando tomado de forma isolada e única? O artigo utilizou a pesquisa bibliográfica, além de artigos outros já escritos, sem a pretensão de encerrar conclusões. Se o EBITDA é um indicador importante por mostrar o potencial de geração de caixa de um negócio produzido pelos ativos operacionais e, se veio para ficar, como qualquer outro indicador de precificação e de avaliação de desempenho, deverá ser utilizado com cautela, ponderando-se as suas vantagens com suas limitações, com as conclusões sendo apoiadas em diversos outros indicadores para uma melhor avaliação das empresas. Palavras-chave: EBITDA. Indicadores. Planejamento. Contabilidade. Balanços. 1 INTRODUÇÃO O EBITDA, sigla que em inglês significa Earning Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization, e conhecido em nossa língua vernácula como LAJIDA, ou seja, Lucro apurado Antes dos Juros, Depreciação e Amortização, vem, ultimamente, se destacando entre os demais indicadores já conhecidos como sendo capaz de demonstrar a real situação do desempenho operacional de uma empresa. Conceitualmente, EBITDA nada mais é que o Caixa gerado pelos ativos genuinamente operacionais, antes inclusive de considerar o custo de qualquer capital tomado emprestado. Com a crescente competitividade entre as empresas e a abertura de mercado, resultantes da dita globalização da economia, entendeu-se que medidas outras foram necessárias para evidenciar as estratégias financeiras e o desempenho das empresas. Na década de 70, o EBITDA passou a ser conhecido no mercado norte-americano e bastante 1 MBA em Gestão Empresarial pela Universidade Integrada Tiradentes – UNIT e Especialização em Metodologia e Didática do Ensino Superior pela Faculdade Estácio de Sergipe – Estácio FaSe. 11 utilizado pelos seus analistas financeiros. A dinâmica dos negócios de uma empresa levou a motivar os gestores na busca de indicadores modernos que pudessem apoiar as decisões empresariais. Segundo ASSAF NETO (2002, p. 206), “as empresas vêm redescobrindo indicadores tradicionais no campo de finanças, porém, formulados de maneira bastante moderna e sofisticados e disseminando seu uso de forma globalizada”. Para Zaffani (2005), no final da década do século passado e início do novo milênio, inúmeras negociações de empresas foram realizadas e tiveram como único parâmetro o EBITDA. Ora, entre as muitas finalidades da técnica de análise de balanços destacam-se, por exemplo, segundo Sá (2006), a de concessão de empréstimos, investimentos em outras empresas, aplicação em títulos do mercado de capitais e bolsas de valores, previsões e estudos de probabilidades de situações patrimoniais, controle de preços, ampliação de linhas de produção, abertura de filiais e frentes de serviços, cisão, fusão, incorporação e liquidação de empresas, pesquisas científicas, aquisição de empresas, entre tantas outras. Para tanto, a fim de fornecer elementos para que se realize a real interpretação dos fenômenos patrimoniais, urge utilizar-se de indicadores diversos, através de quocientes, combinados entre si, como quociente de liquidez, quociente de participação de origens de recursos, quociente do exigível em longo prazo e capital circulante líquido, quociente de imobilização do capital próprio e tantos outros. Nesse contexto, o objetivo do presente artigo é discorrer acerca das vantagens do uso do EBITDA como indicador financeiro de longo prazo na análise de balanços e no apoio às decisões tomadas no âmbito das empresas, mas com limitações quando tomado de forma isolada e única. Não tem qualquer pretensão de esgotar o assunto. Não é inédito, uma vez que é um trabalho que analisa e discute informações já publicadas por autores diversos, conforme identificados nas referências. Não apresenta conceitos novos, mas fomenta tão somente a discussão de um indicador por demais explorados ultimamente pelas empresas. Diante das exposições acima, o seguinte questionamento é apresentado: O EBITDA pode ser considerado como indicador financeiro de longo prazo no controle e planejamento das organizações quando tomado de forma isolada e única? O presente artigo valeu-se da pesquisa bibliográfica. Segundo Gonçalves (Avercamp 2005), “a finalidade da pesquisa bibliográfica é conhecer as diferentes contribuições científicas sobre o assunto que se pretende estudar. O objetivo é também revisar a literatura existente e não repetir o tema de estudo e experimentação.” Para Santos (2004, apud Gonçalves op. cit.), “a pesquisa bibliográfica é aquela que é desenvolvida a partir de material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos.” 2 A CONTABILIDADE COMO CIÊNCIA DO PATRIMÔNIO DAS EMPRESAS Contabilidade, por definição, segundo Sá (2006, p. 46), “é a ciência que estuda os fenômenos patrimoniais, preocupando-se com realidades, evidências e comportamentos dos mesmos, em relação à eficácia funcional das células sociais.” Cientificamente, esse estudo visa conhecer as relações que existem entre os fenômenos patrimoniais observados, além de conhecer como tais relações se estabelecem. O estudo visa ainda explicar os acontecimentos havidos com a riqueza patrimonial, além de conhecer verdades que sejam válidas para todos os lugares, em qualquer que seja a época, em quaisquer empresas ou instituições. Os estudos da Contabilidade preocupam-se em conhecer as condições de vida do patrimônio para que o mesmo possa perdurar, sempre prestando utilidade individual e social coerente com a finalidade perseguida. 12 Uma das preocupações da modernidade tem sido a da aplicação do conhecimento da Contabilidade para ajudar no governo dos negócios e das instituições, isto porque conforme Sá (2006), a Contabilidade possui, além de outras qualificações, fontes de informação organizadas sistematicamente, além de contribuir para a evolução da humanidade no uso da riqueza. 3 A ANÁLISE DE BALANÇOS Existe um conjunto variado de demonstrativos contábeis. Os tradicionais e principais são o Balanço Patrimonial e o de Resultados ou de Lucros e Perdas. A técnica contábil de análise de balanços visa a fornecer elementos para que se realize a interpretação dos fenômenos ocorridos com a riqueza das empresas e instituições. Para Sá (2005, p. 16), “análise de balanços é o estudo da situação de uma parte, de um sistema de partes ou do todo patrimonial de uma empresa ou de uma instituição sem fim lucrativo, mediante a decomposição de elementos e levantamentos de dados contábeis.” Para utilizar-se dessa importante técnica, que hoje ocupa uma posição de tamanha importância no entendimento dos fatos patrimoniais, é necessário que o analista tenha elevado índice de especialização e um entendimento integral de toda a fenomenologia contábil. Grande é a utilização da análise dos balanços. Entre as muitas finalidades, destacam-se: a de concessão de empréstimos; investimentos em outras empresas; aplicação em títulos do mercado de capitais e bolsas de valores; previsões e estudos de probabilidades de situações patrimoniais; controle de preços; ampliação de linhas de produção, abertura de filiais e frentes de serviços; cisão, fusão, incorporação e liquidação de empresas; pesquisas científicas; aquisição de empresas, entre outras. Sá (2005) afirma que: A prática demonstra que uma análise, quando geral, deve conduzir-se de modo tal que considere, entre outros, pelo menos quatro aspectos básicos, principais: i. financeiro (visa a conhecer a capacidade de pagar); ii. resultado ou, "reditual" (visa a conhecer a capacidade de lucrar); iii. equilíbrio (visa a conhecer a capacidade do empreendimento em se manter estável); iv. vitalidade (visa a conhecer a capacidade de sobrevivência ou de continuidade de um empreendimento). Isto caracteriza as chamadas análises financeiras, "redituais" (impropriamente chamadas de econômicas), patrimoniais (propriamente ditas) e de continuidade. Para Padoveze (2004), as técnicas de análise de balanço são importantes não só para o conhecimento econômico-financeiro de outras empresas, como também, e o mais importante, para a utilização interna pela empresa, através do acompanhamento mensal de indicadores econômico-financeiros, pois é através desse acompanhamento e da tendência que os mesmos irão evidenciar, a empresa tem, seguramente, uma visão real das operações e do patrimônio empresarial. Silva e Tristão (2007) dizem que mediante análise das demonstrações contábeis, é possível fazer considerações importantes sobre o desempenho da empresa e projetar seus resultados futuros. Mas para realizar uma análise das demonstrações contábeis, faz-se necessário utilizar-se de indicadores de desempenho e ter um parâmetro comparativo. Destacando a importância da análise dos demonstrativos contábeis, Josir (2000) diz que o contador profissional responsável pela coleta, análise e fornecimento de dados e informações relativos às operações das empresas – tem como desafio, em sua prática profissional, oferecer respostas aos executivos das empresas, para a tomada de decisões, quatro questões básicas, quais sejam: i. Qual o retorno? ii. Qual a situação patrimonial? e iii. Qual a situação financeira? iv.Quando da análise dos demonstrativos contábeis? 13 Na análise dos demonstrativos contábeis, se não for considerada a conta de lucros e perdas (no Balanço de Resultados), as conclusões serão incompletas, ou seja, muitos dados podem ser explicados erroneamente, conforme afirma Vertes (1972). Ainda segundo Vertes, quando o balanço de resultados contém muitos dados analíticos, estes sempre podem ser reunidos em três grupos: o primeiro grupo é o que reúne dados que conduzem ao lucro bruto, que é a diferença entre as vendas e o custo destas vendas. A apuração do lucro bruto mostra a margem de disponibilidades que sobram para as despesas operacionais e outras despesas eventuais; o segundo grupo contém os elementos necessários à constatação do lucro operacional, que é apurado quando se deduz todas as despesas oriundas da atividade principal da empresa; e o terceiro grupo leva à apuração do lucro líquido, que é o resultado final de toda a atividade da empresa no exercício. 4 O EBITDA O que é o EBITDA? No inglês, EBITDA significa Earning Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization. Traduzindo para a língua vernácula EBITDA é o resultado apurado (lucro) pelas empresas antes dos impostos, juros, depreciações e amortizações. Para Iwabuchi e Cimbra ([s.d]), conceitualmente, EBITDA nada mais é que o Caixa gerado pelos ativos genuinamente operacionais, antes inclusive de considerar o custo de qualquer capital tomado emprestado. Recebidas todas as receitas e pagas todas as despesas, o EBITDA é o valor de caixa produzido pelos ativos, antes das receitas e despesas financeiras e os ativos não operacionais, já que estes últimos não representam relações diretas com a atividade da empresa. O EBITDA exclui ainda de sua apuração a depreciação, amortização e exaustão, muito embora sejam itens operacionais, mas que não representam, efetivamente, entrada de recursos no caixa da empresa. A partir do início dos anos 90, o EBITDA começou a ser cada vez mais utilizado para analisar uma empresa no seu aspecto econômico e financeiro. Gradilone (Portal Exame 2002) apud Ariovaldo dos Santos, professor de contabilidade da Universidade de São Paulo e responsável pela elaboração do anuário “Melhores e Maiores”, de EXAME, diz que o EBITDA mostra o potencial de geração de caixa de um negócio, pois indica quanto dinheiro é gerado pelos ativos operacionais. Segundo Yumara Vasconcelos (2001), trata-se de um poderoso indicador de desempenho financeiro, uma vez que reflete potencialmente a geração de recursos provenientes da atividade fim de uma empresa. Por um lado, muito embora tenha se propagado que o EBITDA apresenta tamanha importância como indicador para auxiliar na tomada de decisões, superando inclusive a eficácia do Lucro Líquido, o mercado ainda não despreza este último, uma vez que é o lucro líquido que serve de base para a remuneração do acionista, isto porque, segundo ICÓ (apud VASCONCELOS, 2001) diz que o Lucro Líquido do Exercício sempre foi considerado por muitos um ótimo, talvez o melhor, indicador do bom desempenho de uma companhia. Por outro lado, o EBITDA poderá orientar a empresa na tomada de decisões relativamente aos seguintes aspectos: i. monitoramento da política financeira quanto a receitas e despesas financeiras e suas respectivas estratégias; ii. comparabilidade com indicadores financeiros de empresas congêneres, alcançando até mesmo indicadores de empresas localizadas em diferentes países; iii. como benchmark financeiro, pois quando da análise de empresa compara indicadores (estáticos ou dinâmicos) com indicadores de empresas congêneres; iv. base para avaliação de empresas, já que evidencia a viabilidade dos negócios; v. como base para pagamento de bônus a empregados; vi. medida de avaliação globalizada, a qual permite comparabilidade de dados entre empresas localizadas até mesmo além fronteiras, 14 uma vez que de seu cálculo elimina obstáculos que prejudicariam referidos obstáculos, tais como diferenças de legislação tributária e métodos de depreciação aplicados. Particularmente ao aspecto de o EBITDA servir de base para pagamento de bônus a empregados, a Estácio Participações, holding do Grupo Estácio, da maior instituição de ensino universitário privado do país, com o objetivo de alcançar a excelência de gestão, vem adotando o Programa de Remuneração Variável Docente, que consiste no seguinte: 1 – O programa somente será implantado se a Estácio Participações atingir no mínimo 80% do seu EBITDA orçado. 2 – Os campi serão rankeados nos critérios de EBITIDA, ISA e Retenção e os docentes serão rankeados com base na Avaliação do Aluno (CPA – 1º e 2º semestre), do coordenador de curso e do gerente acadêmico. Deste ranking iremos eleger os 20% melhores classificados. 3- Identificados os 20% melhores classificados, os mesmos serão contemplados com um valor de 0,75 a 1,25 de remuneração mensal, pagos de uma única vez, de acordo com a classificação alcançada pelo campus onde o docente tem sua maior carga horária. Com esse programa queremos reafirmar nossa crença no comprometimento e na dedicação do nosso corpo docente na busca pela construção de um ambiente universitário estimulante e de alta qualidade, que contribua decisivamente para o crescimento de nossa instituição e que se constitua numa fonte de realizações profissionais e pessoais para todos. Esse é um desafio que compartilhamos e que acreditamos estar superando juntos. Ainda considerando o uso do EBITDA para pagamento de bônus a empregados, o consultor Malvessi ([s.d.], [n.p.]) diz: Em nossa opinião, para ter sucesso no mercado competitivo e globalizado a gestão da empresa deverá estar comprometida com o uso e aplicação da metodologia de geração de valor ao acionista - VEC®, por que ele considera a meritocracia no sentido econômico, fator que exige e envolve os colaboradores ao atingimento de metas vinculadas a remuneração variável, trabalha de forma integrada com o conjunto das demonstrações financeiras. Contribui significativamente para a governança corporativa, transparência das informações aos gestores, mercado e investidores, resultando no aumento da confiabilidade, dos resultados econômicos e a melhor percepção do valor da empresa pelo mercado. Contudo, alerta o consultor que com o uso generalizado do EBITDA, na prática pode levar as empresas que o adotam a distribuir resultados que não representam geração de valor, mas lucro, e que pode estar destruindo a riqueza dos acionistas. Mas, apesar da tão propalada importância do EBITDA como potencial indicador de desempenho financeiro, algumas limitações são observadas quando de sua apuração. Yumara Vasconcelos (2001) apresenta as seguintes limitações do referido indicador. i. ii. iii. avaliação de estoques de mercadorias, por exemplo, qual melhor critério deverá ser utilizado para apuração do custo da mercadoria: valores de entrada ou valores de saída? Custo médio ou custo específico? outro limitador refere-se aos gastos diferidos. Sabe-se que os gastos diferidos beneficiam exercícios sociais posteriores aos de realização. Para que o indicador reflita um melhor efeito no resultado do exercício, necessário se faz ajustá-lo, considerando os gastos pela sua totalidade, já que o gasto é imediato; deve-se combinar o EBITDA com outros indicadores para que melhor reflita uma situação real, isto é, uma empresa pode apresentar em determinado exercício um EBITDA positivo, mas parte desse resultado pode estar comprometido com um passivo oneroso, ou ainda, por receitas a receber a prazo. Poderá, ainda, apresentar um EBITDA negativo, mas com tendência de recuperação. Outros 15 iv. indicadores poderão ser utilizados, como a análise horizontal, por exemplo, para uma melhor expressão do conceito de EBITDA. o EBITDA é inaplicável para as instituições financeiras, uma vez que as despesas financeiras, sendo parte das operações principais, deverão ser excluídas dessas empresas. Eduardo de Oliveira, sócio responsável por finanças corporativas e reestruturação de empresas da consultoria Deloitte Touche Tohmatsu, citado por Gradilone (2002) diz que a ênfase excessiva na geração de caixa levou a alguns dos maus negócios nos anos 90. "As pessoas começam a usar o EBITDA como se fosse uma medida exata de valor de empresa, mas ele é um instrumento que mostra, quando muito, se o negócio deve ou não ser analisado a fundo", diz Oliveira. Além disso, o EBITDA não considera o endividamento. "Isso não é um problema quando o capital é abundante e barato, pois a ideia é que é possível rolar qualquer dívida a um preço menor se a empresa for comprada por uma concorrente maior ou mais lucrativa", diz Oliveira. "Só que tudo muda quando o crédito está mais apertado, como agora." Ponte e Oliveira (apud MARTINS 1998, p. 3-4) dizem: [...] o que se quer, com o EBITDA, é o valor do caixa, ou melhor, do potencial de geração do caixa (portanto valores antes de se considerarem as depreciações) produzido pelos ativos genuinamente operacionais (excluindo-se, então, as receitas financeiras, que, nesse caso, não constituem o principal objetivo da empresa), sem os efeitos decorrentes da forma de financiamento da empresa (portanto, excluindo-se também as despesas financeiras) e antes dos efeitos dos tributos sobre o resultado (Imposto de Renda e Contribuição Social sobre o Lucro, no caso brasileiro). Zaffani (2005, [n.p.]) apresenta argumentos daqueles que defendem o uso do EBITDA, quanto daqueles que criticam a utilização exclusiva do EBITDA. Os defensores argumentam: pode ser utilizado na análise da lucratividade entre as empresas; o EBITDA como percentual de vendas pode ser utilizado para identificar empresas que sejam as mais eficientes operadoras dentro de um determinado; o EBITDA pode ser utilizado para comparar a tendência de lucratividade nas indústrias pesadas (siderúrgica, automobilística, por exemplo), até as de alta tecnologia porque remove da análise, o impacto dos financiamentos de grandes inversões de capital; a variação percentual do EBITDA de um ano em relação a outro mostra aos investidores se uma empresa conseguiu ser mais eficiente ou aumentar sua produtividade. Quanto às criticas, os argumentos são: é muito comum que empresas contratem financiamentos e empréstimos para alavancar suas operações. Assim, é mais comum as empresas apresentarem despesas financeiras superiores às receitas financeiras, como também é comum as empresas apresentarem imposto de renda e contribuições sobre seus lucros operacionais. Assim, é fácil presumir que o EBITDA seja superior ao lucro líquido, sendo que, em muitos casos, o EBITDA é positivo, muito embora a linha final da demonstração de resultados apresente prejuízo líquido; o EBITDA não considera as mudanças no capital de giro e, portanto, sobrevaloriza o fluxo de caixa em períodos de crescimento do capital de giro; o EBITDA pode dar uma falsa ideia sobre a efetiva liquidez da empresa; o EBITDA nada apresenta sobre a qualidade dos lucros; 16 o EBITDA ignora as distinções existentes na qualidade dos fluxos de caixa originados de diferentes práticas contábeis (nem todas as receitas geram caixa!); Companhias da chamada nova economia têm tentado convencer os investidores de que devem ser avaliadas, exclusivamente, com base no EBITDA, desconsiderando-se até a hipótese de prejuízo e com isso, têm conseguido ludibriar investidores leigos ou mal informados; a aparente hipótese de estar livre de manipulações caiu por terra com o escândalo da Worldcom, quando esta reconheceu US$ 7 bilhões de despesas operacionais como investimentos de capital, o que provocou profunda distorção no lucro e consequente aumento do EBITDA; por ser de fácil apuração o EBITDA é frequentemente utilizado como a mais importante medida de performance do resultado de muitas empresas. Entretanto, seu resultado pode dar uma falsa ideia do verdadeiro potencial de investimento de uma empresa, justamente por não refletir adequadamente a verdadeira habilidade na geração de caixa para continuidade das operações. 5 CALCULANDO O EBITDA Abaixo, um exemplo de como se calcula o EBITDA. A Demonstração do Resultado é de uma empresa hipotética. O cálculo é simples. Ao Lucro Operacional Líquido antes dos impostos adicionam-se os juros, depreciação e amortização. Fonte: Extraído e adaptado de: Zaffani ([s.d], [n.p.]) 17 6 CONCLUSÃO Após os escândalos contábeis, prejuízos, quebradeiras de grandes empresas e colapsos financeiros, o uso do EBITDA, tomado de forma isolada e única como indicador financeiro de longo prazo para o controle e planejamento das organizações, vem caindo. Entende-se que o EBITDA é um indicador importante por mostrar o potencial de geração de caixa de um negócio produzido pelos ativos operacionais. Contudo, é importante ressaltar que se o EBITDA veio para ficar, como qualquer outro indicador de precificação e de avaliação de desempenho, deve ser utilizado com cautela, ponderando-se as suas vantagens com suas limitações, com as conclusões sendo apoiadas em diversos outros indicadores para uma melhor avaliação das empresas. Acredita-se que as empresas continuarão usando o EBITDA por ser um indicador importante em qualquer lugar e época, porque mostra o potencial de geração de caixa de um negócio produzido pelos ativos operacionais. Porém, para se conhecer a realidade patrimonial com maior eficácia, a análise deve ser conjugada com outros indicadores, como por exemplo: o endividamento, imobilização do capital próprio, participação nos investimentos, rotação ou giro do capital, rotação ou giro de estoques, capitalização ou crescimento com recursos próprios, velocidade do capital próprio, rentabilidade das origens próprias do capital, rentabilidade das vendas, relação entre vendas e capital circulante líquido, enfim, com tantos outros indicadores que a situação requeira. Cabe cautela, numa avaliação de empresas, por exemplo, dizer que quanto maior o EBITDA, maior será o valor de uma empresa. Está bastante claro que o presente artigo não pretende apresentar conclusões generalizantes. Em alguns segmentos de empresas a utilização do EBITDA como indicador financeiro de longo prazo no controle e planejamento das organizações, tomado de forma isolada e única, pode apresentar deficiências. EBITDA: ADVANTAGES AND LIMITATIONS AS INDICATOR OF FINANCIAL AND LONG-TERM PLANNING AND CONTROL OF ORGANIZATIONS ABSTRACT The present article has for objective to discourse the concerning about the advantages of the use of the EBITDA as a financier indicator for a long stated period in the analysis of rolling and the support to the decisions taken in the scope of the companies, but with limitations when it is taken as isolated and only form. It does not have any pretension to deplete the subject and he is not unknown, once that is a work that analyzes and argues information already published by diverse authors, as well as it does not present new concepts, but it foments the quarrel of a pointer beside the point explored by the companies. With the increasing competitiveness between the companies, it was understood that measured others they would be necessary, between the pointers already known and used, to demonstrate the economic and financial situation of the companies. The EBITDA, means in English Earning Before Interest Taxes, Depreciation and Amortization, and known in our language as LAJIDA, that means, Lucro Apurado Antes dos Juros, Depreciação e Amortização, it shows the generation potential a business box produced for the operational assets. The EBITDA is standing out if detaching it enters the excessively indicating ones as that one that supports the 18 managers in the enterprise decisions, but can be considered as indicating financier of long stated period in the control and planning of the organizations when taken of isolated and only form? The article used the bibliographical research and others written articles, without the pretension to lock up conclusions. If the EBITDA is an important pointer for showing the l of generation potential of a business box produced for operational assets if it came to be, as any another pointer of precificacion and performance evaluation, it will have to be used with caution, pondering itself its advantages with its limitations, with the supported conclusions being in diverse other pointers for one better evaluation of the companies. Keywords: EBITDA. Indicators. Planem. Accounting. Rollings. REFERÊNCIAS ASSAF NETO, Alexandre. Estrutura e análise de balanços. São Paulo: Atlas, 2001. GOMES, Josir Simeone. Contabilidade para MBAs. Rio de Janeiro: Campus, 2000. GRADILONE, Cláudio. Para que serve o EBITDA? Portal Exame. Ano 36, edição 772, nº 16, 2002. Disponível em http://www.abcr-venture.com.br/publique/cgilua.exe/sys/start.htm. Acesso em: 15 dez. 2008. MALVESSI, Oscar. Será o ebitda um bom indicador para a gestão financeira, útil para a remuneração variável nas empresas? 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Diante desse quadro, as dimensões ou gerações dos direitos fundamentais, considerando seus titulares, foram evoluindo no decorrer da história, conquistando identidade, reconhecimento e proclamando direitos. Foi uma forma de impor, através de lutas e revoluções, aos poderes constituintes um dever de resposta às reivindicações dos movimentos, com o fito de ver reconhecidos os direitos do homem e do cidadão em sua totalidade, e dentre esses, os direitos sociais, vistos como um direito e uma garantia fundamental. palavras-chave: Dignidade. Direito. Fundamental. Estado. Proteção. 1 INTRODUÇÃO O presente artigo fará uma análise dos direitos e garantias fundamentais em conformidade com a prestação do Estado no Sistema da Seguridade Social. É um importante estudo a ser analisado, principalmente na atual conjuntura que passa o nosso país, em face de uma crise mundial que acaba assolando todas as facetas, inclusive a do direito, o que faz gerar uma crise constitucional. Porém, ainda que a nossa Constituição Federal de 1988 esteja em crise, assim como a sua aplicabilidade, como veremos nesta passagem, este tratamento foi conferido, visto que esta de forma oblíqua acaba atingindo a sociedade, principalmente os atores sociais ou os segurados ou beneficiários da Seguridade Social. Pautando-se em um corte epistemológico, essencial a qualquer estudo, é que serão analisados o significado, a extensão e a evolução, partindo de um contexto histórico sob o prisma da Carta Magna de 1988, os direitos fundamentais que assumem uma especial relevância atualmente, tendo em vista que estes direitos estão intimamente vinculados à atuação positiva do Estado. A evolução dos direitos e garantias fundamentais guarda uma estreita relação com a concepção e evolução do Estado nos seus sucessivos períodos de formação, especialmente quanto aos seus fins, organização, poderes, ideologias, políticas e o modo como este se relaciona com as pessoas, com os valores a estas inerentes e com a sua vida social. Todo esse procedimento de transformação e multiplicação dos direitos do homem encontra seu ápice na mudança do Estado Estamental para o Estado Constitucional e hoje para 2 Mestre e Doutora em Direito pela PUC/SP, Especialista em Direito Processual Civil pela Escola Paulista de Magistratura, Avaliadora do MEC-INEP de Instituições de Ensino Superior no Brasil, Professora Efetiva Adjunto de Direito Civil da Universidade Federal de Sergipe, Professora de Direito da Fanese e da Faculdade Estácio de Sergipe (FaSe), Professora do Núcleo de Pós- Graduação Lato-Sensu da Fanese, Professora do Núcleo de Pós Graduação Stricto-Sensu da Universidade Federal de Sergipe, Coordenadora do Núcleo de Prática Jurídica da Fanese, Membro do Núcleo Docente Estruturante e do Colegiado do Curso de Direito da Fanese, Membro do Núcleo Docente Estruturante e do Colegiado do Curso de Direito da UFS. 21 o atual Estado Democrático de Direito, vislumbra-se neste momento o reconhecimento de tais direitos ao passarem a ser protegidos pela ordem jurídica. Foram então erigidos ao status de direitos e garantias fundamentais. O Estado deixou de atuar como punitivo e passou a desempenhar função do Estado que tem por escopo o bem estar social, atraindo a responsabilidade de garantir a proteção dos indivíduos. Desta forma, o trabalho inicia-se com uma análise dos direitos fundamentais dentro da Teoria geral do Direito e a sua inserção constitucional, fazendo uma abordagem histórica de sua evolução. Para tanto, observar-se-á uma abordagem do princípio da dignidade da pessoa humana como uma garantia constitucional a ser observada por todos. Ainda se verá que, precipuamente, por meio dos direitos e garantias fundamentais busca-se limitar o poder estatal e tutelar e acautelar a dignidade da pessoa humana. Irá se constatar, pois, que os direitos e garantias fundamentais, independentemente de crise constitucional, atuam como instrumento de efetivação do princípio fundamental da dignidade da pessoa humana, juntamente com a cidadania e com a garantia de efetivação dos direitos, devidamente cumpridos pela Seguridade Social, para que assim haja uma igualdade entre os indivíduos com o fito de atingir o Estado Democrático de Direito e o bem estar social, dentro da realidade jurídica brasileira. 1.1 Aspectos Gerais Aqui se faz necessário analisar, detidamente, toda a trajetória dos direitos fundamentais e o seu liame com o sistema da seguridade social e com os direitos humanos. Refletir sobre os chamados direitos fundamentais sem observar os direitos humanos e a sua aplicabilidade na seguridade social é desligar-se da realidade, fundamentando-se em ideias vagas que apenas conseguem se manter ideologicamente de forma utópica, que se protraem no tempo, podendo gerar falsas compreensões e graves distorções, sem nenhuma aplicabilidade no meio social. Oportuno ressaltar que a ideia de universalização dos direitos humanos restou clara com o surgimento de vários tratados, convenções e da criação de organizações protetivas de cunho governamental. Este é um produto de uma evolução da humanidade para garantir e efetivar os direitos fundamentais aos membros de uma nação. O escopo deste trabalho é, ainda, mostrar que a evolução do sistema da seguridade social ocorreu desde as primeiras lutas sociais, em busca da igualdade social, do bem estar e, até na atualidade, vê-se esta evolução nas ações governamentais, sejam estas pautadas no propósito de agilizar os atendimentos nas agências, de disponibilizar serviços para abarcar cada vez mais um contingente maior de cidadãos, todos voltados à proteção e devida assistência que advêm da seguridade social, refletindo plenamente no meio social e viabilizando oportunidades aos atores sociais, diminuindo as desigualdades socioeconômicas entre os mesmos. Dentre os fundamentos do Estado democrático de Direito, está a dignidade da pessoa humana, o valor social do trabalho e da livre iniciativa, dentre outros visto no texto constitucional. Estes se encontram enumerados no artigo 1º da Constituição Federal de 1988, e nos incisos I ao V, litteris; 22 Art.1. A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos; I- a soberania II- a cidadania; III- a dignidade da pessoa humana; IV- os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; V- o pluralismo político. Assim, percebe-se que esses, dentre outros, são os fundamentos do Estado brasileiro, para tanto, assevera-se que a dignidade da pessoa humana relaciona-se ao valor supremo moral e ético, levando consigo todos os direitos fundamentais inerentes ao homem. E segundo J.J Canotilho (1998, p.221) “[...[ [a] dignidade da pessoa humana [...] significa [...] o reconhecimento do homo noumenon, ou seja, o indivíduo com limite e fundamento do domínio político da República”. Os objetivos do Estado brasileiro são enunciados no artigo 3º da Carta Magna de 1988, in verbis: Art. 3º - Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: Iconstruir uma sociedade livre, justa e solidária; II- garantir o desenvolvimento nacional; III- erradicar a pobreza e a marginalização e realizar as desigualdades sociais e regionais; IV- promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Esses objetivos que foram trazidos no texto constitucional visam, na realidade, concretizar a democracia econômica, social e cultural, dando efetividade ao principio da dignidade da pessoa humana. 2 ANÁLISE CONCEITUAL: O SIGNIFICADO FILOSÓFICO DE DIGNIDADE HUMANA Segundo Horvath citando Kant (2005, p.140): “Uma coisa que tem preço pode ser substituída por outra que lhe seja equivalente, mas quando está acima de qualquer preço, por não haver outra que lhe seja equivalente, tem dignidade”. E na visão do ex-presidente da Republica: “em face dos que padecem o flagelo da fome, deve prevalecer o imperativo ‘ético de somar forças, capacidades e instrumentos para defender o que é mais sagrado: a dignidade humana” (Luis Inácio Lula da Silva - Discurso de posse na Presidência da Republica em 1º de Janeiro de 2003 - Folha de São Paulo). O mesmo, em seu discurso, deixou clara a intenção de seu projeto político e de seu programa de governo, sem necessidade de definir o que entende por este seu objetivo que consiste em “defender a dignidade humana”. Também, alguns filósofos têm feito uso dessas palavras sem a devida preocupação em defini-las. É o caso, por exemplo, de Jean Paul Sartre (1959, p.65), que afirmou que “o existencialismo é a única teoria a dar dignidade ao homem, por ser a única que não faz do homem um objeto”. Logo, a única definição que se apresenta aqui é a de que a dignidade é um conceito pelo qual os seres humanos não são tratados como coisas. Os políticos e os filósofos referem-se à dignidade humana sem se preocupar em defini-la, dentro de contextos que exigem algo a que se possa recorrer por estar acima de divergências pessoais ou de conflitos ideológicos. 23 Cabe notar que as palavras são colocadas entre as pessoas e as coisas para dar significado às coisas e dar existência às pessoas. No entanto, ao ter que explicar, acha-se difícil colocar em palavras os seus significados. Foi Santo Agostinho quem, pela primeira vez, se deu conta dessa dificuldade. Diz ele: “Se me pergunto o que é tempo, sei o que é o tempo, mas se me podem para explicar, já não sei o que é o tempo”. A noção de dignidade está entre essas palavras das quais muito se ouve falar e das quais se tem a impressão de saber o verdadeiro significado, sem saber defini-la. É uma palavra cujo significado se tem a impressão de conhecer, embora se tenha enorme dificuldade de traduzir seu conteúdo. Se indagasse a dignidade humana como se todos soubessem do que se trata, parece estar entre o óbvio e o indefinível. Quando se trata de explicar o que significa, as pessoas recorrem a exemplos, a situações vividas e, principalmente, a ocasiões de convívio em que as relações entre as pessoas fizeram vir à tona o significado dessa palavra. Para uma aproximação do conceito filosófico de dignidade humana, pode ser de grande ajuda buscar a “história” da palavra dignidade. A semântica, como é a ciência que se dedica a esse tipo de estudo, talvez possa servir de apoio para o ingresso no conteúdo diáfano deste objeto invisível a que se dá o nome de dignidade humana. Recorrendo aos celebres volumes de Caldas Aulete, através da Aulete Digital, é possível encontrar um amplo e diversificado conjunto de sinônimos e definições que podem ser reunidos em vários grupos. No primeiro grupo, aparecem as palavras que traduzem algo excelso, elevado ou superior. No segundo grupo, formam-se as qualidades morais, tais como: brio, qualidade moral que infunde respeito, elevação, grandeza moral, gravidade, solenidade (falar com dignidade), cabendo ainda as noções de honestidade, probidade, de honradez e de nobreza (um homem digno) como alguém que é considerado apto, capaz, distinto. No terceiro grupo, aparecem sinônimos relacionados a méritos; excita a alguém que se torna digno, sentido de ser merecedor de algum gesto, forma de reconhecimento dos seus méritos. E em quarto lugar, esse significado advém da ideia de uma compensação ou ainda de algo que exige e que precisa ser compensado ou que vale a pena, logo seria algo apropriado, acomodado, conforme, conveniente. O quinto grupo de significados da palavra dignidade remete ao qualificativo de respeito a pessoas diferenciadas, como digníssimo ou ainda uma pessoa que exerce cargo elevado ou tem um titulo proeminente. Já no sexto grupo de sinônimos, está intimamente ligado a verbos de permissão ou de louvor, é decorrente do verbo dignar-se, que pode significar conceder ou então permitir; há ainda o verbo dignificar, honrar, enobrecer ou nobilitar. Essa semântica faz ver que a aspiração a conquistar o respeito alheio é muito antiga e, mediante relatos que fazem parte da história da humanidade, há passagens mostrando que, em tempos muito antigos, já se lutava pelo respeito à dignidade humana. Na Guerra de Troia, que foi tema dos poemas de Homero, tudo teve início por um ato de desrespeito ao povo grego por parte dos troianos. O rapto de Helena causou muita revolta e indignação ao povo grego, que fizeram desta uma luta que serviu de um importante marco para civilização grega. Tão logo, a destruição de Troia significou uma verdadeira restauração da dignidade do povo grego. Cabe lembrar ainda, a luta de Antígona, personagem de uma das tragédias escritas por Sófocles, ao se indignar contra o desrespeito ao irmão morto, por não ter direito à sepultura. Assim, em todos os casos expostos, a noção de dignidade humana estava atrelada a noção de justiça. A religião também contribuiu para a noção da dignidade humana, em seus relatos bíblicos, em episódios como a punição de Caim, a fuga do Egito e a vitória de Davi. 24 A Revolução Francesa, no século XVIII, resultou da busca pela dignidade dos mais pobres, em face de todas as violências praticadas neste período, que significaram evidentes casos de desrespeito à dignidade humana. Destacam-se as conquistas do movimento liberal e da tecnologia, que houve no período da Revolução Industrial, que buscavam repudiar a grande exploração e desrespeito aos trabalhadores e operários que viam a todo tempo violada a sua dignidade. A existência humana, diante do mundo, oscila entre o desafio do medo e os limites de sua ação. A humanidade, desde os tempos remotos, sempre viveu entre o medo da violência externa gerada pelas ameaças naturais, pela agressão mútua entre os seres humanos, além da incerteza quanto ao futuro. A noção de dignidade começou a ser adotada quando se passou a atribuir importância não apenas à utilidade das coisas, mas também, à própria vida humana e as relações dos homens entre si. Embora já houvesse entre os gregos a propensão de colocar o ser humano no centro do universo, o cristianismo teve um papel importante e decisivo. Isto posta houve a união do divino e do humano, dando assim um sentido novo à existência humana. A vida humana aqui era vista como uma trajetória transitória. Mas, foi no final da Idade Média que ocorreu a ruptura entre o divino, o humano e o natural. A partir de então, a natureza desprendia-se da noção de divindade, à medida que cresciam os conhecimentos científicos, ficando a vida humana cada vez mais distante do divino e cada vez mais próxima do natural. Foi neste momento que se passou a perceber que a medida do ser humano era digna da vida e da natureza que estava ao seu alcance. Dante Alighieri em sua obra Divina Comédia (2001, p. 1-3), retrata a ruptura da dignidade ao refletir sobre suas visões do mundo além da morte. Estão presentes aqui as suas indignações e uma profunda inquietação diante do crescente desrespeito pela condição humana, levando o ser humano ao sofrimento. Foi durante este período do renascimento que aflorou a reflexão sobre o sentido da vida humana, despertando a noção de dignidade humana. Hobbes ampliou a ideia de Maquiavel, que chegou a dizer que os homens em geral são ingratos, volúveis e dissimulados. Essa interpretação egoísta da natureza do ser humano foi plenamente ampliada por Hobbes, ao dizer que o direito máximo de todo ser humano consiste em preservar a própria vida. (Hobbes, T.Leviatã, XIV). Kant foi quem introduziu no pensamento ético moderno a noção de dignidade humana, ao construir uma ética segundo a autonomia de vontade do agente. Afirma Kant, citado por Jacques Maritain que “só a palavra respeito pode exprimir convenientemente a noção de autonomia como fundamento da dignidade da natureza humana”. A noção de dignidade ganhou, a partir de Kant, o caráter de respeito a si próprio e ao próximo, esse respeito pelo qual cada pessoa descobre, portanto, é o real fundamento de uma mútua igualdade nos relacionamentos humanos. Demonstrada a grande importância dos direitos humanos e da dignidade, passa-se a analisar o liame que estes possuem com os direitos sociais e fundamentais da seguridade social, com fito de dirimir os conflitos e as desigualdades sociais. 3 DIREITOS SOCIAIS FUNDAMENTAIS E A CORRELAÇÃO NAS AÇÕES DA SEGURIDADE SOCIAL A PARTIR DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988 E NA ATUAL CONJUNTURA DO PAÍS Para abrir este tópico, antes mesmo da análise acurada dos problemas da efetivação dos direitos sociais na atual conjuntura brasileira, faz-se necessário mostrar duas 25 importantes acepções dos direitos sociais. Assim, Cesarino Júnior define direito social como a: ciência dos princípios e leis geralmente imperativas, cujo objetivo imediato é, tendo em vista o bem comum, auxiliar as pessoas físicas, dependentes do produto de seu trabalho para a subsistência própria e de suas famílias, a satisfazerem convenientemente suas necessidades vitais e ter acesso à propriedade privada.(CESARINO JÚNIOR, 1970, p. 29). Por sua vez, José Afonso da Silva conceitua direitos sociais como: dimensão dos direitos fundamentais do homem, são prestações positivas, enunciadas em normas constitucionais, que possibilitam melhores condições de vida dos mais fracos, direitos que tendem a realizar a igualização de situações sociais desiguais. São, portanto, direitos que se conexionam com o direito de igualdade. Valem como pressuposto do gozo dos direitos individuais na medida em que criam condições materiais mais propícias ao auferimento da igualdade real, o que, por sua vez, proporcional condição mais compatível com o exercício efetivo da liberdade (SILVA, 1993, p 198). Isto posta, se hoje, as instituições políticas, jurídicas e sociais brasileiras encontram-se em crise, isso se deve à crescente incompatibilidade entre as regras formais de procedimento decisório, de acordo com o que se viu acima e as estruturas sociais, econômicas e culturais do país. Como o Brasil tornou-se mais complexo, pleno de contradições, paradoxos e estigmatizado por dilemas não enquadráveis nos rígidos modelos normativos vigentes, tais regras foram perdendo a sua eficácia e credibilidade. As decisões de rotina, sejam essas nos Tribunais ou no meio político, revelam-se agora cada vez mais incapazes de lidar com os desafios do mundo, da inovação político-social e econômica, que refletem no âmbito jurídico que são inerentes à transição do autoritarismo para um regime um pouco mais aberto (neoliberalismo), suscitando dúvidas, receios e discordâncias em torno do problema da eficácia dos procedimentos decisórios em nível do Executivo, Legislativo e do Judiciário. Face ao grande fluxo de conflitos inéditos, fatos originais e matérias novas, frente à crise dos direitos basilares, podem-se vislumbrar com certa nitidez sérios riscos de ruptura da própria ordem constitucional. Essas ordens têm como características próprias serem ambivalentes. Por um lado, todas as vezes que decisões têm de serem tomadas, elas devem ser pressupostas como inquestionavelmente válidas. Ao passo que por outro lado, tais decisões somente podem ser pressupostas como válidas na medida em que suas pretensões de validade sejam capazes de resistir a um questionamento contínuo. Indubitavelmente, há uma íntima relação histórica, entre o moderno problema da Constituição Federal de 1988 e o profundo descompasso que se verifica entre teoria e práxis em termos de implementação dos direitos garantidos constitucionalmente. De forma insistente e por repetidas vezes em nossa história constitucional ocorreu um enorme avanço na declaração formal dos direitos do homem, mas por outro lado, também pode ser visto um enorme atraso no tocante à sua garantia efetiva para a grande maioria dos cidadãos. Logo, para utilizar a consagrada expressão de KONRAD HESSE, ao expor: “A norma constitucional não tem existência autônoma em face da realidade. Devem ser contempladas aqui as condições naturais, técnicas, econômicas e sociais. A pretensão de 26 eficácia da norma jurídica somente será realizada se levar em conta essas condições. A pretensão de eficácia de uma norma constitucional não se confunde com as condições de sua realização” (1991, p. 15 e 19). Então vale salientar que a base mais profunda e que deve ser plenamente observada da questão previdenciária, ao atingir níveis mundiais, diz respeito aos alicerces institucionais da técnica protetiva. Esses níveis se assolam de forma demasiada neste período de crise constitucional que o nosso país está vivendo. Para que sejam superadas as adversidades desse período, deve-se procurar observar o principal destes níveis de proteção que se concretizam com a caracterização dos objetivos da Previdência Social definidos hodiernamente, estabelecidos em campos circunscritos, visando ampliar o ingresso de um número maior de trabalhadores, numa atuação mais ampla e efetiva de redistribuição de renda e concessão de bem-estar social. Nesse contexto, decidir as atribuições do Estado faz parte da definição do Estado, da forma de governo e dos regimes políticos. Isto, se situarmos este como agente moderador das relações laborais, cabendo e sendo muito importante a participação deste no tocante a gestão das coisas da Seguridade Social, pois é ínsito a este sistema institucional uma ampla solidariedade de recursos, cuja administração global não pode ser entregue à iniciativa privada em países em desenvolvimento, sob pena de perecer essa solidariedade e, assim, a Previdência Social deixar de ser um instrumento de distribuição de rendas. Com esta nova formatação de Estado, o direito à seguridade social passa a ser direito público subjetivo, pois uma vez não concedidas as prestações, o indivíduo pode requerê-las, exercitando o direito de ação. Cabe também ao indivíduo, contribuir pessoalmente, participar da gestão e conscientizar-se dos seus direitos, sejam esses direitos sociais ou mesmo direitos e garantias fundamentais, tais como os direitos da seguridade social, já que os mesmos podem ser vistos como um conjunto sistemático e integrado de ações de iniciativa do poder público, com a participação da sociedade atuando na área de saúde, assistência social e previdência social, sendo, pois, direito fundamental de segunda geração, ou seja, ligados às prestações que o Estado deve ao seu conjunto de integrantes. Desse modo, com o reconhecimento dos direitos de segunda geração, o direito assume uma dimensão positiva não como forma de aceitar a intervenção do Estado na liberdade individual, mas como meio de proporcionar uma participação do bem estar social. (Sarlet, 1998, p. 49). Portanto, o moderno problema da Carta Magna está enraizado as múltiplas formas de organização política da sociedade de classes e aos diferentes modos de obtenção do consenso em torno de seus respectivos procedimentos decisórios. Precipuamente, a quantificação desse problema encontra-se intimamente vinculada à consolidação do Estado Democrático de Direito. Eis, aí, pois, a “pedra-de-toque” do neoliberalismo constitucional: o reconhecimento da importância de uma ordem constitucional imposta por uma vontade política, soberana e independente, capaz de disciplinar o monopólio da força pelo aparelho estatal, de equilibrar poderes (regra da isonomia), de neutralizar os perigos do arbítrio de definir e explicitar direitos; assegurando assim um mínimo de segurança e certeza das expectativas nas relações econômicas, políticas, administrativas e socais. É por essa razão que o moderno problema da crise constitucional destaca-se pelo seu caráter excessivamente formal. Tudo parece ressurgir no modo pelo qual as instituições convertem as aspirações individuais em decisões públicas. Em termos concretos, constata-se que as normas constitucionais devem nortear as suas considerações sempre no sentido de ressaltar que a luta pelos direitos humanos já 27 superou obstáculos ao transpor da luta pelo reconhecimento e positivação para a luta pela concretização através de um sistema efetivo de garantias para todos os cidadãos. É bom registrar que constitucionalistas têm razão de buscar certa especificidade para a nossa crise constitucional, diferente em certos pontos, se relacionados aos das constituições dos países centrais do capitalismo. Indaga-se que a crise do direito, pelo fato de não garantir a justiça e a segurança, traz para a discussão atual o papel da Constituição. A Constituição é estabelecida para determinar a amplitude do poder estatal e a competência do seu exercício. As bases para as Constituições e demais codificações partiram de fontes que foram selecionadas historicamente pelos idealizadores desses institutos. O professor José Afonso da Silva lembrou que, apesar da necessidade de reformulações, é a Constituição de 1988 que garante há 20 anos a manutenção da democracia brasileira, mesmo em períodos de crise. Para ele, "Esta Constituição está regendo o país, do ponto de vista político, em uma democracia inquestionável",(1997, p 54). Que apesar de reconhecer a importância da Constituinte, o professor defendeu a realização de uma reforma política no país. O Estado busca, atualmente, agir de acordo com uma nova atribuição social: garantir renda ao trabalhador quando de sua passagem para a inatividade. Aflorou-se a necessidade de harmonização de seus sistemas previdenciários, buscando atingir cada vez um número maior de contribuintes. O homem moderno não enxerga fronteiras na busca por postos de trabalho e a Previdência Social deve ter capacidade de acompanhá-lo durante toda sua vida laboral. O devido objetivo do processo de integração regional é a busca de um ganho de bem-estar social para a população envolvida e se este não for atingido, então estará incompleto, pois não ocorreu a devida harmonia entre os diferentes sistemas previdenciários. Os indicadores sociais e econômicos no Brasil apresentam-se crescentemente menos injustos e mais satisfatórios, em que pese à conjuntura mundial adversa. Enfim, a cada dia, cresce a busca incessante para sedimentar as lições da história e ajustar a sabedoria, no intuito de se atingir o equilíbrio social e a devida aplicabilidade dos direitos fundamentais tutelados no nosso texto constitucional. E não há que esquecer que o tempo das constituições é diferente do tempo dos atores sociais, embora estes, ao passar dos anos, viveram intensamente o processo constituinte, sempre na busca pela efetivação dos direitos fundamentais. Por certo, é importante salientar que nessas duas décadas, se pôde vivenciar de forma representativa o mais longo período de estabilidade democrática da vida republicana de nosso conjunto de bens e valores nela plasmados, a fim de forjar entre nós o sentimento constitucional tão superiormente valorizado por PABLO LUCA VERDÚ na obra clássica “El sentimiento constitucional”, de que tanto carecemos e que vem a ser o mais vigoroso antídoto de um povo contra as tentações tirânicas e as intempéries na vida das nações. Marcante ratificar ainda que a eficácia social da Constituição depende diretamente das condições socioeconômicas em que a mesma há de operar. Contudo, a noção de dignidade humana supõe a capacidade de convivência com a liberdade. Desse modo, sem respeitar a liberdade alheia, é impossível reconhecer, no outro, sua dignidade essencial. A conquista pela liberdade, pelos valores e direitos fundamentais sociais resultou de um longo processo pelo qual a vida humana teve e ainda tem que transpor as mais diversas barreiras. Há uma convicção da qual jamais se afastou a filosofia, de que o ser humano está destinado à liberdade, por mais que dela se afaste, seja por incapacidade de assumir a responsabilidade que dela decorre, seja pela incapacidade de afirmá-la perante os outros ou perante natureza, ou perante si mesmo. 28 Sob plena democracia, todos participam do progresso, e o pleno desenvolvimento abrange as camadas sociais sem fazer nenhuma distinção, com desigualdades superadas e divergências solucionadas através do diálogo. Oportuno então, o papel do Governo, como agente do Estado, já que, caberá a ele estabelecer um eficaz relacionamento entre cidadão e ele próprio, para então consagrar, disseminar o bem comum e a prática da justiça com equidade. Conclui-se que o ser humano tem dignidade por ser portador de valor, tanto no sentido de que é capaz de captar valores, quanto no sentido mais profundo de que sua existência que contém um valor em si. Tão quanto o agir é descobrir, realizar e fundar valores em busca de ser reconhecido. A noção de dignidade da pessoa humana resulta, portanto, em um conceito que reúne tanto algo que faz parte de essência do ser humano como também algo que precisou de séculos de vida e de história para ser conquistado. Sem condições de igualdade material elementar, que assegure a todos o mínimo existencial, frustra-se o sistema supralegal de proteções essenciais, aprofundando-se o fosso do nominalismo e do semantismo constitucional, ou seja, frustra-se a efetividade de muitas normas e princípios constitucionais. Nesse quadro de frenagem das virtudes de uma Constituição, esta passa a viger seletivamente: efetiva-se para uma minoria em condições de desfrutar em plenitude os direitos básicos à dignidade humana, porém esmorece para aqueles destituídos de meios de para viver no cotidiano o padrão de existência idealizado pela Lei Maior. 4 CONCLUSÃO Pelo exposto neste estudo, os direitos e garantias fundamentais traduzem na ordem constitucional e jurídica, proteção à vida, à liberdade, à igualdade, etc. Enfim, os princípios da justiça se pautam na dignidade da pessoa humana. Logo, pela sua natureza de direito e garantia fundamental, não admite pretexto de crise econômica, social ou política ou até mesmo uma crise constitucional para a violação ou descumprimento do mesmo nas prestações de serviços do Sistema da Seguridade Social. Constatou-se que os direitos humanos fundamentais foram sendo explicitados na ordem jurídica, que os mesmos têm seu núcleo essencialmente intangível definido pela determinação de respeito à dignidade humana, o que implica na igualdade e isonomia distributiva. O princípio fundamental do Estado Democrático decorre da dignidade humana. Logo, o respeito aos direitos e garantias fundamentais requer recíproco respeito ao ser humano enquanto indivíduo, ator social, como ser natural. Diante desse quadro e do estudo analisado, viu-se que as dimensões ou gerações dos direitos fundamentais, considerando seus titulares, foram evoluindo no decorrer da história, conquistando identidade, reconhecimento origens e proclamando direitos. Foi uma forma de impor, através de lutas e revoluções, aos poderes constituintes, um dever de resposta às reivindicações dos movimentos, com o fito de ver reconhecidos os direitos do homem e do cidadão em sua totalidade, e dentre esses, os direitos sociais, vistos como um direito e uma garantia fundamental. Superar as desigualdades sociais requer ações afirmativas do governo e da sociedade. Há que se valorizar e propiciar os direitos fundamentais de todos, de maneira a garantir uma total participação do indivíduo na vida, na sociedade, nas políticas sociais e no sistema da Seguridade Social. 29 Sob plena democracia, todos participam do progresso e o desenvolvimento abrange as camadas sociais sem distinção, com desigualdades superadas e divergências solucionadas. A cidadania provém do ser humano integral, possuidor de peculiaridades intrínsecas, um estabelecimento de bem estar social. Logo, ao Estado cumpre garantir justiça e paz em favor de todos e ocupar-se de forma equânime da distribuição de riquezas, estabelecendo assim condições de vida plena, livre e proporcionando a necessidade de sobreviver. Cabe então, buscar o equilíbrio indispensável a todos os seres. O agente estatal deve sempre buscar estabelecer o eficaz relacionamento entre cidadão e Estado, para que se possa consagrar o bem comum e a prática da justiça com equidade. Irreparavelmente, o Estado não deve se valer de crises (como os legisladores e os juristas nos seus papéis e funções constitucionais) e deixar de observar os direitos e garantias fundamentais, o que abriria um leque de restrições de direitos. Não se pode esquecer que cada pessoa tem dignidade, universo pessoal, direito a ser respeitado sem restrição e nem preconceito. O Estado Democrático de Direito programa ações no sentido do bem comum, da manutenção da justa ordem pública direcionando suas ações para a crescente melhoria da qualidade de vida cidadã. Portanto, o Estado não se encontra em crise, nem tão pouco as nossas leis, principalmente a nossa Constituição, entretanto, compete e é necessário que o governo instaure ampla modificação nas suas políticas sociais, a fim de procurar soluções segundo suas carências, buscando se adequar à sociedade atual. A cidadania requer o reconhecimento dos direitos e garantias fundamentais mútuos entre a sociedade politicamente organizada e os indivíduos. Conclui-se que os direitos e garantias fundamentais, o acesso a um sistema pleno de seguridade social digno, sendo visto como um indicador da percepção ao respeito da dignidade da pessoa humana só será efetivo e inteiramente respeitado na sociedade se essa o assumir como um valor essencial, não permitindo que se banalize e se desrespeite todos os direitos e garantias que, ao longo da história foram conquistados através de severas e árduas lutas sociais. APPLICABILITY OF CONSTITUTIONAL PRINCIPLE OF HUMAN DIGNITY AS A FUNDAMENTAL RIGHT IN SOCIAL RELATIONS AND COVERAGE OF THE SOCIAL SECURITY SYSTEM ABSTRACT The Democratic State builds its fundamental principle rooted in the idea of human dignity. Therefore, respect for fundamental rights and guarantees requires mutual respect for individual human being as a natural. Given this situation, the size or generations of rights, considering Their holders, have evolved throughout history, winning identity, recognition, and Claiming rights. It was a way to impose, through struggles and revolutions, the constituent powers, a duty to respond to the demands of the movements with the aim to gain recognition rights of man and the citizen in its entirety, and of these, the social, seen as a right and a fundamental guarantee. Keywords: Dignity. Right. Elementary. State. Protection. 30 REFERÊNCIAS AGOSTINHO, Santo. O tempo. Disponível em: <http://www.paratexto.com.br/ document.php?id=213>. Acesso em 02/07/2009. AGRA, Walber de Moura. Fraudes à constituição: um atentado ao poder reformador. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris Editor, 2000. ALEXY, Robert. Teoria de los derechos fundamentales. Madrid: Centro de Estudios Constitucionales, 1997. AMARAL, Gustavo. Direito, escassez e escolha: em busca de critérios para lidar com a escassez de recursos e as decisões trágicas. Rio de Janeiro: Renovar, 2001. ANDRADE, José Carlos Vieira de. Os direitos fundamentais na constituição portuguesa de 1976. 2.ed. Coimbra: Livraria Almedina, 2002. 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A eficácia da proteção do direito de crédito tem sido comprometida e tolhida diante das previsões legais de proteção do patrimônio do devedor, mormente quando, no atual sistema jurídico, generosa parcela do patrimônio do devedor está imune à atividade executiva, porquanto ostenta a natureza de bem de família ou verba alimentar. A temática escolhida convida o leitor a analisar a relação de direito material existente entre o credor e devedor e os princípios que norteiam essa relação, e principalmente a relação processual entre exequente e executado e os meios atualmente disponíveis para busca e satisfação do crédito exequendo, tudo isso considerando as regras que protegem o patrimônio do devedor, como é o exemplo do art. 649 do Código de Processo Civil que trata dos bens que são protegidos pela nota da impenhorabilidade. Propõe-se uma releitura do art. 649 do Código de Processo Civil, mormente do inciso IV, sob a ótica do direito fundamental à proteção do crédito como uma forma de reavaliar a regra da impenhorabilidade da verba alimentar, preservando o mínimo vital do devedor para permitir maiores possibilidades de satisfação do crédito exequendo. 2 O DIREITO DO CREDOR E A BUSCA DO CRÉDITO. Historicamente, relembra-nos Caio Mário da Silva Pereira4 que o credor quando não obtinha o cumprimento da obrigação devida pelo devedor exigia o pagamento, em caráter 3 Mestre em Direito Civil (Universidade Federal de Pernambuco). Especialista em Processo Civil (Jus Podivm/Fanese). Coordenadora da Escola Superior da Advocacia em Sergipe. Advogada e Professora Universitária dos cursos de Graduação e Pós-Graduação da Estácio - FaSe e da FANESE. 4 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de Direito Civil. Atualizador: Luiz Roldão de Freitas Gomes. 20 ed. Rio de Janeiro: Forense, 2004, p.10 37 punitivo, com o próprio corpo do devedor, através de sua escravidão ou, em casos mais extremos, com a morte do devedor. A relação obrigacional, durante séculos, foi marcada pela pessoalidade em função do devedor responder com sua própria vida/corpo pelo adimplemento da prestação. Era algo tão natural da sociedade da antiguidade que muitos se tornavam eternos escravos de seus credores por não conseguirem solver o débito. Essa realidade era prevista na Lei das XII Tábuas, em 450 A.C. e no Código de Hamurabi, por volta de 1.728 e 1.686 A.C. Somente com a Lex Poetelia Papira de 428 A.C. a relação obrigacional deu os primeiros passos rumo à impessoalidade, isto é, passou-se a inadmitir a vida ou o corpo do devedor como forma de punição pelo inadimplemento da dívida, de modo que o Corpus Júris Civili em torno de 326 D.C. reforçou essa mudança, somente consolidada e abolida definitivamente pelo Código Napoleônico de 1804, na França.5 A despeito de a lei ter proclamado a extinção da escravidão ou da morte do devedor como forma de resolver o inadimplemento, ainda havia muitas situações que eram resolvidas nos moldes arcaicos, como até hoje se verifica casos de morte por dívidas, sobretudo nas relações de empréstimo particular onde se pratica de agiotagem – aplicação de juros em patamares superiores ao permissivo legal, situações que conduzem aos extremos de prática de justiça privada, tais como subjugação, ameaças, restrições à liberdade, quando não a própria morte do devedor, relembrando-nos a fase primitiva da história humana. Percebe-se que o direito do credor e o poder que ele detinha na relação jurídica obrigacional sempre foi o foco da relação jurídica creditícia; era ele quase de caráter absoluto e devia ser vingado de todas as maneiras possíveis. O devedor sujeitava-se à vontade do credor na busca da garantia de seu crédito. A relação débito (shuld) e responsabilidade (haftung), desenvolvida pela escola pandectista alemã, sob a liderança de Alois Von Brinz6 demonstrava muito bem essa característica ao apresentar a obrigação como uma estrada de via única em que somente o devedor tinha o ônus, ou seja, o débito na origem e a responsabilidade no consequente, arcando assim com o peso da satisfação da dívida perante o credor, cuja posição jurídica material era passiva e bastante confortável, não se cogitando qualquer postura sua que pudesse comprometer o desenvolvimento da relação. Hoje, muito desenvolvido é o conceito de mora accipiendi e bastante analisada é a participação do credor no desenvolvimento da relação obrigacional e no adimplemento da obrigação. Não resta dúvida, portanto, que o credor inicialmente ostentou uma postura vantajosa e absoluta na relação obrigacional, porquanto a lei lhe garantia todos os meios de buscar a dívida com os consectários da mora e encargos contratuais e legais que compensassem os efeitos deletérios do inadimplemento. Hodiernamente, é inconcebível admitir qualquer ato de justiça privada que almeje resolver a dívida nos moldes da pessoalidade, sobretudo ante a ontologia da Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Pacto São José da Costa Rica, com força de norma constitucional no Brasil, entre outros diplomas internacionais garantidores dos direitos fundamentais do homem. Declaração Universal dos Diretos dos Homens: Artigo 3: Todo o homem tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal. 5 CHAVES, Cristiano de Farias; ROSENVALD, Nelson. Direito das Obrigações. 4 ed. Rio de Janeiro: Lumem Juris, 2010, p. 23-24. 6 CHAVES, Cristiano de Farias; ROSENVALD, Nelson. Direito das Obrigações. 4 ed. Rio de Janeiro: Lumem Juris, 2010, p. 18. 38 Artigo 4: Ninguém será mantido em escravidão ou servidão; a escravidão e o tráfico de escravos estão proibidos em todas as suas formas. Artigo 5: Ninguém será submetido a tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante. Pacto São José da Costa Rica: Artigo 3º - Direito ao reconhecimento da personalidade jurídica Toda pessoa tem direito ao reconhecimento de sua personalidade jurídica. Artigo 4º - Direito à vida: Toda pessoa tem o direito de que se respeite sua vida. Esse direito deve ser protegido pela lei e, em geral, desde o momento da concepção. Ninguém pode ser privado da vida arbitrariamente. (...) Artigo 5º - Direito à integridade pessoal 1. Toda pessoa tem direito a que se respeite sua integridade física, psíquica e moral. 2. Ninguém deve ser submetido a torturas, nem a penas ou tratos cruéis, desumanos ou degradantes. Toda pessoa privada de liberdade deve ser tratada com o respeito devido à dignidade inerente ao ser humano. Também cumpre esse mister a Constituição Federal de 1988, arts. 1º e 5º e o Código Civil de 2002, art. 11 e ss. quando anunciam a proeminência da dignidade da pessoa humana, núcleo axiológico do sistema jurídico brasileiro e o reconhecimento dos direitos da personalidade, princípios e direitos fundamentais que protegem a pessoa humana de qualquer ato degradante, humilhante, enfim, que possa comprometer a sua integridade física, psíquica e espiritual. Nessa ordem de ideias, o direito à satisfação da dívida, obviamente, não pode mais se pautar em meios ilícitos e comprometedores da dignidade da pessoa humana para buscar o resultado almejado, devendo o credor adotar as alternativas processuais disponíveis, constrangendo o patrimônio do devedor e não a sua pessoa, família ou moradia para pagamento da dívida. E não poderia ser diferente. É o patrimônio do devedor, conforme expressam os arts. 391 do Código Civil (“pelo inadimplemento das obrigações respondem todos os bens do devedor”) e 591 do Código de Processo Civil (“o devedor responde, para o cumprimento de suas obrigações, com todos os seus bens presentes e futuros, salvo as restrições estabelecidas em lei”), que deverá servir para a satisfação voluntária ou coercitiva da dívida, através do Poder Judiciário e dos instrumentos existentes no processo para realização da pretensão executiva. O art. 389 do Código Civil tem a eficácia limitada pelo art. 649 do CPC que trata da impenhorabilidade de alguns bens e sua extensão delimitada pelo princípio da menor onerosidade do procedimento executivo, como confirma o art. 620 do CPC, questões enfrentadas doravante. 3 O DIREITO DO DEVEDOR E A PROTEÇÃO DO PATRIMÔNIO MÍNIMO DE ACORDO COM A LEI DO BEM DE FAMÍLIA. O devedor, em virtude de sua histórica posição frágil e vulnerável na relação obrigacional, especialmente quando analisada as crueldades já experimentadas, goza atualmente de grande proteção da lei e da jurisprudência no que se refere às possibilidades de submissão de seu patrimônio no processo de pagamento da dívida. É o princípio da dignidade da pessoa humana (art. 1º, III e 5º, da Constituição Federal de 1988) que respalda esse arcabouço legal visando à proteção do patrimônio do devedor contra os atos expropriatórios e demais meios de cobrança que possam resultar em sua ofensa, humilhação, ou ainda, destituição total dos bens. 39 Nesse aspecto, poderoso instrumento de defesa é a Lei do Bem de Família (Lei n. 8.009/1990), que relaciona os bens impassíveis de expropriação, tais como o bem imóvel que serve à residência familiar7, todos os móveis quitados que guarnecem a residência, plantas, benfeitorias de qualquer natureza, equipamentos de uso profissional, ressalvando-se somente os veículos de transporte, obras de arte e adornos suntuosos, na dicção dos arts. 1º e 2º. Passemos a analisar alguns pontos da Lei do Bem de Família. A simples leitura do texto legal já anuncia que o credor não poderá constranger quase nada da esfera patrimonial do devedor. A própria residência só se sujeita à penhora e expropriação nos casos ressalvados em lei, tais como para pagamento de dívidas de natureza propter rem, como é a taxa condominial ou de Imposto Predial Territorial Urbano (IPTU) ou Imposto Territorial Rural (ITR), na linha do art. 1.715 do Código Civil8. Ademais, a casa do indivíduo é patrimônio inviolável, segundo o art. 5º, inciso XI da Carta Magna, por constituir o abrigo que permite a sobrevivência digna da pessoa humana e do núcleo familiar. Louvável a redação legal do ponto de vista axiológico não encontrando, todavia, fundamento jurídico plausível a ressalva prevista no que pertine à expropriação para pagamento das dívidas resultantes do próprio bem, haja vista que não é pelo fato de a dívida decorrer do próprio bem, seja da aquisição ou de sua manutenção, que autoriza o credor a expropriá-la, deixando o devedor à míngua, num país onde amiúde a moradia passa a ser item de luxo e direito de poucos. Se o ordenamento protege o direito à moradia, elevando-o ao patamar de direito fundamental da pessoa humana, consagrado pelo Estado Democrático de Direito, ainda que não seja absoluto, é incoerente, do ponto de vista ontológico, permitir que possa ser expropriado para satisfação de dívida de imposto ou de natureza condominial, dado o abalo que isso causaria à dignidade da pessoa humana e ante as possibilidades existentes para a satisfação a dívida. De mais a mais, a proteção da moradia, de sede constitucional, nada mais objetiva do que resguardar os seus habitantes e a dignidade de cada um deles ou da própria entidade familiar. No dizer de Chaves e Rosenvald, “o bem de família, com isso, há de estar vocacionado à tutela jurídica dessa família instrumental, protegendo a pessoa humana que compõe o núcleo familiar e a sua necessária dignidade”.9 Paulo Lôbo10, em sua vanguardista leitura das regras e princípios civis, apregoa que: A solidariedade do núcleo familiar compreende a solidariedade recíproca dos conjugues e companheiros, principalmente quanto à assistência moral e material. O lar é por excelência um lugar de colaboração, de cooperação, de assistência, de cuidado; em uma palavra, de solidariedade civil. 7 Lembre-se que na atual conjuntura do direito de família, deve-se conceber a família como uma entidade, conceito amplo e aberto que contempla todas as formas de núcleo anímico que se forma pelos laços de vivência e ajudas mútuas, tal como esclarece a súmula 364 do STJ “o conceito de impenhorabilidade de bem de família abrange também o imóvel pertencente a pessoas solteiras, separadas e viúvas”. Sobre o assunto ver LOBO, Paulo Luis Netto. Famílias. São Paulo: Saraiva, 2008. 8 “Art. 1.715. O bem de família é isento de execução por dívidas posteriores à sua instituição, salvo as que provierem de tributos relativos ao prédio, ou de despesas de condomínio.” 9 CHAVES, Cristiano e ROSENVALD, Nelson. Direto das Famílias. 3 ed. Rio de Janeiro: Lumem Iuris, 2011, p. 850. 10 LÔBO, Paulo Luiz Netto. Princípio da solidariedade familiar. Direito das Famílias e Sucessões out/Nov/2007, p. 152. 40 Poucos argumentos justificam ontologicamente essa exceção dentro do sistema jurídico, a qual se respalda unicamente no fato de o bem servir para saldar a dívida relacionada à sua própria existência ou aquisição. O Superior Tribunal de Justiça, no Resp. n. 873.224/RS, da relatoria do Ministro Luis Fux, tentou justificar a ressalva. Entende o Julgador, então Ministro da Corte Superior de Justiça que a quota-parte, no caso da relação condominial, não se reveste de natureza fiscal, mas serve à sobrevivência da coletividade de modo a justificar a sujeição do bem ao pagamento das dívidas dessa natureza. O fato de a quota-parte da taxa condominial servir à sobrevivência da coletividade não autoriza por si só a mitigação do direito à moradia do devedor, já que há outros de pagamento das dívidas e instrumentos que sejam mais eficazes do que sujeitar a habitação à expropriação. Indo adiante, além do imóvel residencial, a lei também protege todos os móveis (inciso II) que guarnecem a residência, excluindo somente os adornos suntuosos, obras de arte e veículos de transportes. Eis onde reside o problema já que tudo aquilo que guarnecer a casa (sofás, centro, televisões, armários, aparadores, mesas de jantar, aparelhos elétricos, tapetes, quadros, lustres, geladeira, fogão, exaustor, estantes, computadores etc), será considerado a priori impenhorável, tornando acanhadas as possibilidades de satisfação do crédito. A presunção, portanto, é de impenhorabilidade dos bens móveis por formar o conceito de bem de família e viabilizar a comodidade da instituição familiar. A despeito de algumas decisões judiciais, inclusive da Corte Superior11, afirmarem que fogão, geladeira, ar condicionado são bens impenhoráveis, dentre outros utensílios domésticos, dado o bem-estar que trazem aos donos e habitantes do lar, coube à mesma jurisprudência e à doutrina obtemperar o texto da lei, permitindo a penhora e expropriação de bens que, embora guarneçam a residência e sejam úteis à vida moderna, existam em duplicidade, a fim de possibilitar a satisfação da dívida ante as dificuldades práticas enfrentadas. Aliás, essa é a orientação que se extrai da ressalva presente no inciso II do art. 649 do Código de Processo Civil, alterado pela Lei 11.382/2006, ao dispor “salvo os (bens móveis) de elevado valor ou que ultrapassem as necessidades comuns correspondentes a um médio padrão de vida”. Nada mais justo, já que uma família pode sim viver sem duas geladeiras, dois fogões, duas televisões, adegas, frigobares instalados em quartos, dois aparelhos de DVD, dois aparelhos de ar condicionados, enfim, itens que se reduzidos em quantidade não comprometerão o desenvolvimento da vida familiar. Lembre-se ainda dos instrumentos e equipamentos de trabalho de qualquer natureza que são impenhoráveis em observância ao art. 5º, inciso XIII da Carta Magna (é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão), visando o atendimento em primeiro lugar da profissão e, em última análise, da dignidade da pessoa humana já que a limitação ou impedimento do trabalho, em decorrência da constrição de algum bem essencial, comprometerá a obtenção de renda do devedor, por meio do exercício de ofício ou profissão, e consequentemente a sua sobrevivência digna. É o caso do computador para o advogado, para o escritor, do veículo para o taxista ou motorista de transporte escolar etc. Outros itens protegidos pela nota da impenhorabilidade estão no rol taxativo do art. 649, do CPC, tais como itens de uso pessoal, vestuário, material necessário às obras em andamento, os quais dispensam a alegação em juízo pelo devedor por ostentarem natureza de matéria de ordem pública, reconhecidas de ofício pelo magistrado, conforme nos relembra Chaves e Rosenvald.12 11 12 Resp. 109.351/RS. Ob. Cit, p. 862. 41 Há ainda situações especiais de impenhorabilidade comentadas por Cristiano Chaves e Nelson Rosenvald13, no que diz respeito ao imóvel residencial em locação, conforme dispõe o art. 2º, parágrafo único da Lei do Bem de Família. Segundo o texto legal, a impenhorabilidade nesses casos se protege os bens do locatário quitados e de sua propriedade, não envolvendo qualquer bem do locador. Dessa maneira, na realização da diligência expropriatória deve o oficial de justiça pedir a demonstração da quitação do preço de aquisição dos bens móveis, com a finalidade de constritar somente aquilo que já efetivamente for de propriedade do devedor. Tais comprovantes também devem ser adunados aos autos visando à comprovação da situação de quitação. Outra situação interessante é a do imóvel em construção, objeto de promessa de compra e venda do devedor ou construído pelo mesmo. Para livrá-lo da expropriação, deve o devedor provar que o bem imóvel em vias de aquisição ou construção se destina à moradia da família, que será único da família e não possui caráter especulativo ou de investimentos, caso contrário servirá à satisfação da dívida perseguida judicialmente14. O art. 2º do mesmo diploma trata especificamente dos bens não protegidos pelo manto da impenhorabilidade, tais como os adornos suntuosos e os veículos de transporte. Com relação aos adornos suntuosos e obras de arte, a identificação desses objetos também pode ser problemática na prática por que depende muito da ótica do oficial de justiça incumbido da diligência de penhora e avaliação, já que o juízo quase nunca se utiliza da inspeção judicial como instrumento para averiguar in loco a natureza do bem e as particularidades que o classifiquem como tais. Isto porque é subjetivo o conceito de adornos suntuosos, sendo difícil precisar exatamente quando um adorno poderá ser considerado suntuoso para fins de proteção do bem de família. Adornos suntuosos normalmente são os bens considerados de ostentação, desnecessários para sobrevivência da pessoa. Integram a categoria de bens de luxo, supérfluos que não guarnecem a casa no sentido de serem imprescindíveis à sobrevivência das referidas pessoas. Para melhor identificação dessa categoria e atingir a finalidade da lei, o padrão que se utiliza é da classe média, ou seja, o que seriam bens luxuosos para a classe média brasileira, dentro do atual contexto de mercado de consumo? Essa é a pergunta que busca resolver o problema de ordem conceitual e prática. Cabe, ainda, à jurisprudência definir pontualmente e pari passu quais são os bens que integram o conceito de adornos suntuosos. O Superior Tribunal de Justiça, por exemplo, têm considerado quadros, estátuas, obras de arte e objetos extravagantes como adornos suntuosos, porém as linhas telefônicas e aparelhos eletrodomésticos, por não possuírem o caráter de ostentação, revestem-se da impenhorabilidade por servirem à normalidade da residência, estando presente num número grande de lares. Desse modo, itens como televisão, videocassete, DVDs e som, utilitários da vida moderna atual, não podem ser penhorados por guarnecerem a residência, nas palavras do Ministro Sidnei Beneti, da 2ª Turma do Superior Tribunal de Justiça, 15 a não ser quando existirem em duplicidade, como pudemos ressaltar16. Quanto aos veículos de transporte, em regra, são penhoráveis, desde que não constituam instrumentos de trabalho do devedor, situação a ser analisada concretamente. A garagem de automóveis constantes dos prédios residenciais ou comerciais também pode ser objeto de expropriação, conforme resolve a Súmula 449 do Superior 13 Ob. Cit, p. 863. REsp 507048/MG 15 http://www.conjur.com.br/2010-set-10/tv-videocassete-aparelhos-dvds-sao-impenhoraveis-entende-ministro. 16 REsp 507048/MG. 14 42 Tribunal de Justiça, “A vaga de garagem que possui matrícula própria no registro de imóveis não constitui bem de família para efeito de penhora”. Não se olvida ainda que o bem de família possa ser instituído ou criado – bem de família convencional-, segundos os ditames do art. 1.711 do Código Civil. Art. 1.711. Podem os cônjuges, ou a entidade familiar, mediante escritura pública ou testamento, destinar parte de seu patrimônio para instituir bem de família, desde que não ultrapasse um terço do patrimônio líquido existente ao tempo da instituição, mantida as regras sobre a impenhorabilidade do imóvel residencial estabelecida em lei especial. O legislador facultou a possibilidade de instituir um bem de família em benefício de entidade familiar como forma de possibilitar a sobrevivência de algum núcleo eventualmente desassistido e permitir que o imóvel seja excluído das hipóteses de construção patrimonial. Essa regra deve ser vista com bastante cautela e à luz do princípio da boa-fé objetiva a fim de que não sirva de maquiagem para atos fraudulentos no sentido de proteger o acervo patrimonial do devedor dos atos expropriatórios. Muito criticada pela doutrina é a limitação da instituição voluntária até um terço do patrimônio líquido do instituidor, o que, na prática restringe muito as possibilidades de instituição, sobretudo para as pessoas menos favorecidas.17 A proteção dos bens do devedor, resguardadas pela Lei 8.009/1990 e pelo art. 649 do Código Civil reforçaram-se ainda mais com o advento da Teoria do Patrimônio Mínimo, sustentada pelo jurista Luiz Edson Fachin, segundo a qual o devedor não pode perder o conjunto de bens ou condições financeiras que constituem o seu mínimo vital, ou seja, tudo aquilo que garante a sua sobrevivência e o seu padrão social. Luiz Edson Fachin18 um dos responsáveis por desenvolver a teoria em nosso sistema jurídico, apregoa que todo ser humano tem um conjunto de bens que formam o núcleo essencial garantidor de sua saúde, educação, moradia, lazer, enfim, que realizam o princípio da dignidade da pessoa humana, a impedir sua exclusão da esfera jurídica patrimonial do titular e assim comprometam sua vida. O entendimento é louvável porquanto visa à garantia do mínimo existencial do devedor, permitindo que o patrimônio que lhe serve à sobrevivência seja protegido dos meios expropriatórios e comprometa a sua subsistência. O problema ocorre quando esse patrimônio mínimo é ampliado de forma tal pela doutrina e jurisprudência que impede a satisfação da dívida do credor pela intangibilidade quase que absoluta do patrimônio do devedor. Com a breve leitura da Lei do Bem de Família e do art. 649, do Código de Processo Civil, percebe-se claramente que o sistema jurídico protege consideravelmente os direitos e bens do devedor, tornando parcela abundante do seu patrimônio infensa à atividade executiva, tudo com vistas a garantir a sua sobrevivência digna bem como a de sua família. 4 O PROCESSO EXECUTIVO E OS MEIOS DE SATISFAÇÃO DA DÍVIDA. Após analisar os bens do devedor que estão legalmente protegidos pela impenhorabilidade, aprofundaremos o estudo com a verificação de alguns princípios que regem o processo executivo, as regras que levam a satisfação da dívida perseguida, a efetividade dos meios processuais disponíveis para atingir esse fim e, ainda, o comportamento 17 18 SANTOS, Marcione Pereira dos. Bem de família: voluntário e legal. São Paulo: Saraiva, 2003, p.119. FACHIN, Luiz Édson. Estatuto Jurídico do Patrimônio Mínimo. Rio de Janeiro: Renovar, 2001, p.35. 43 do devedor como ator principal na arena do feito executivo rumo à satisfação do crédito exequendo. É cediço que o processo executivo deflagrado pela execução de títulos executivos extrajudiciais (art. 585 do CPC), assim como a fase de cumprimento de sentença – execução de título judicial (art. 475-J e ss. do CPC)- rege-se pelos princípios da instrumentalidade e da menor onerosidade para o devedor, dentre outros. Se o credor vai a juízo buscar o pagamento de uma dívida é porque, teoricamente, já tentou todos os meios extrajudiciais e amigáveis existentes, haja vista que a opção processual não é a primeira alternativa do credor, afinal terão que arcar com os custos de um advogado, os custos processuais, mais outras despesas incidentais, estando com o seu patrimônio já desfalcado pelo inadimplemento da dívida. Todavia, recorre ao Judiciário, representado por um advogado por que crê na segurança dos meios processuais disponíveis e na concretude e eficácia das determinações judiciais. O devedor no processo executivo não responde somente ao interesse ou pretensão executiva do credor, mas, sobretudo, obedece ou deve obedecer as ordens judiciais, sob pena de multa, inclusive, prevista nos arts. 600 c/c 601 do Código de Processo Civil. O comportamento do devedor deve ser analisado sempre à luz do interesse do credor, lado oposto, mas principalmente sob a ótica do processo, a fim de coibir posturas que maculem a dignidade da justiça e o bom desenvolvimento do processo executivo. A fase executiva, mais simplificada e célere com as reformas processuais da ultima década, é o palco onde atuam credor, devedor e juiz em busca do bem da vida do credor/exequente. Vale-se o exequente de todos os meios lícitos possíveis para receber seu crédito, enquanto o juiz defere ou não defere os atos solicitados, cooperando com a parte interessada na entrega do bem da vida. É o princípio da cooperação que norteia o comportamento de todos. No entanto, o magistrado deve estar sempre atento à regra do art. 620 do CPC que impõe, dentre as alternativas existentes, a adoção da forma menos gravosa de promoção da execução, cotejando, a todo o momento, o direito do credor à satisfação da dívida com a dignidade do devedor e a intangibilidade do patrimônio mínimo existencial. Essa regra harmoniza-se com o art. 655 do CPC, onde consta o rol de bens e a ordem de preferência da expropriação, a qual milita em favor do credor em razão de apontar meios mais hábeis para recebimento da dívida exequenda, prestigiando, em suma, o princípio da efetividade da jurisdição. É preciso lembrar que a ordem do art. 655 do CPC não é absoluta, conforme esclarece a súmula 417 do Superior Tribunal de Justiça (“Na execução civil, a penhora de dinheiro na ordem de nomeação de bens não tem caráter absoluto”), porém a jurisprudência tem sido rigorosa quando à necessidade de atentar para a preferência legal 19, excepcionando-a somente quando o devedor alega prejuízo demasiado. 19 AGRAVO DE INSTRUMENTO. EXECUÇÃO DE TÍTULO JUDICIAL. INDICAÇÃO DE BENS IMÓVEIS PELO DEVEDOR. INOBSERVÂNCIA DA ORDEM LEGAL DO ART. 655 DO CPC. A INDICAÇÃO DE BENS À PENHORA É ATO DO CREDOR (ART. 652, § 2º, CPC). CONSTRIÇÃO QUE DEVE OBEDECER, DE REGRA, A ORDEM LEGAL. EMBORA A SÚMULA 417/STJ FIRME ORIENTAÇÃO DE QUE A ORDEM DO ART. 655, CPC NÃO É ABSOLUTA, A JURISPRUDÊNCIA DO STJ, POSTERIOR À EDIÇÃO DO VERBETE, TEM MANTIDO A RECUSA DE INDICAÇÃO DE BENS À PENHORA QUANDO NÃO OBEDECIDA A ORDEM PREFERENCIAL, POR REPRESENTAR MAIOR ONEROSIDADE E DIFICULDADE NA ALIENAÇÃO. LOTES URBANOS SITUADOS EM OUTRA COMARCA. PRECEDENTES DO STJ. NEGADO SEGUIMENTO, POR DECISÃO MONOCRÁTICA. (Agravo de Instrumento Nº 70044261436, Décima Nona Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Mylene Maria Michel, Julgado em 10/08/2011) 44 As últimas inovações legislativas, na linha da reformulação do processo executivo tornando-o como uma mera fase do processo de conhecimento, no que diz respeito ao cumprimento de sentença, favoreceu e muito a posição jurídica processual do exequente que, agora, pode indicar os bens do devedor passíveis de constrição, na forma do art. 652, §2º do CPC (“O credor poderá, na inicial da execução, indicar bens a serem penhorados”). Atente-se que a lei fala em “poderá” denotando uma faculdade e não uma obrigação/dever do exequente, sob pena de inviabilizar por completo a busca pela dívida, já que o credor não é obrigado a conhecer o acervo patrimonial do devedor para fins de constrição e recebimento do seu crédito. Se o credor conhece essa realidade, ou seja, sabe da existência de crédito em nome do devedor ou de bens passíveis de constrição poderá indicar logo na inicial, no caso de execução de título judicial ou extrajudicial, os bens a serem constrangidos. Caso contrário, o ônus cabe ao devedor, somente. Nas lições de Humberto Theodoro Júnior, temos que “As partes têm o dever de cooperar na prestação jurisdicional, inclusive na execução forçada. Não revelar os bens penhoráveis, por isso, é um ato atentatório à dignidade da Justiça20”. Na prática, todavia, o que se tem visto cotidianamente é a imposição do juízo de que o credor decline detalhadamente os bens do devedor passíveis de penhora, tornando a faculdade em obrigatoriedade o que resulta em inversão dos deveres processuais, onerando e dificultando sobremaneira a vida do exequente21. Trata-se de direito e não dever processual, cuja imposição dificulta muito a vida do exequente. Essa faculdade, portanto, deve ser vista como uma forma de beneficiar o credor e não como uma obrigação que o onera, a ponto de paralisar a execução em razão do desconhecimento dos bens do devedor passíveis de penhora. Afinal, quem conhece mais de seus bens senão o próprio titular? Se o credor não conhecer esses bens, deve o juiz imediatamente ordenar que o devedor demonstre ou indique seus bens passíveis de constrição, sob pena de ser considerada a omissão uma penalidade, nos termos do art. 600 do CPC. A citação para pagamento no exíguo prazo de três, no caso de execução de títulos extrajudiciais, e não para oposição de embargos – que também não gozarão inicialmente de efeito suspensivo-, demonstra também um grande benefício ao credor que não precisar mais aguardar a defesa, já que a lei põe a salvo o imediatismo na resolução do impasse com o pronto pagamento da dívida, o que beneficia também o devedor que atende ao despacho de pagamento com a redução pela metade da verba honorária arbitrada pelo juiz, de acordo com o art. 652-A, parágrafo único do Código de Ritos. Observe-se ainda que a lei faculta ao credor a adjudicação dos bens levados à leilão, nos moldes do art. 685-A do CPC, possibilitando ao credor permanecer com os bens se assim for mais útil para satisfação da dívida, através da adjudicação. Some-se a tudo isso, ainda, a possibilidade de o exequente obter, initio litis, certidão comprobatória do ajuizamento da execução para fins de averbação no registro de imóveis ou veículos, visando a tornar pública a execução e impedir ou minimizar os possíveis atos de fraude à execução e esgotamento do patrimônio do devedor (art. 615-A do CPC). 20 THEODORO JR., Humberto. A reforma da execução do título extrajudicial. Rio de Janeiro: Forense, 2007, p. 30. 21 RECURSO INOMINADO. EXECUÇÃO. EXTINÇÃO DO FEITO. PEDIDO DE EXPEDIÇÃO DE MANDADO DE VERIFICAÇÃO DE BENS. NECESSIDADE DE OPORTUNIZAR AO CREDOR A INDICAÇÃO DE BENS ANTES DA EXTINÇÃO DA EXECUÇÃO. Na ausência de bens penhoráveis, o Oficial de Justiça deve descrever aqueles que guarnecem a residência ou estabelecimento do devedor, conforme art. 659, § 3º, do CPC. O credor tem o direito de indicar outros bens passíveis de penhora antes da aplicação do art. 53, § 4º, da Lei 9.099/95. RECURSO PROVIDO. (Recurso Cível Nº 71002786804, Segunda Turma Recursal Cível, Turmas Recursais, Relator: Afif Jorge Simões Neto, Julgado em 24/08/2011). 45 Outro ponto positivo das reformas foi à possibilidade de penhora eletrônica de dinheiro, o mais revolucionário e rápido meio de penhorar dinheiro e aplicações financeiras do devedor, através do sistema bacenjud, que ganhou forma e força nos processos executivos e é considerado hoje o melhor e mais eficaz instrumento de satisfação da dívida, materializando assim o incide I do art. 655 do CPC. Citado para pagar em três dias, no processo executivo extrajudicial, ou intimado para cumprir voluntariamente o comando judicial, no prazo de quinze dias, no cumprimento de sentença, mantendo-se inerte e silente o devedor, o juízo, após requerimento expresso do credor juntamente com a demonstração do valor atualizado da dívida, está autorizado a ordenar a pesquisa e penhora de dinheiro, via sistema bacenjud, com vistas a buscar quantia suficiente para atender o crédito do exequente, a teor do art. 655-A do CPC.22 Uma vez procedida à penhora on line, cabe ao devedor, após intimado para impugnar à penhora, informar ao juízo a natureza a verba contristada e se for alimentar, pedir o imediato desbloqueio, direito a que lhe assiste a norma 655-A,§2º do CPC. No silêncio do executado, o juízo, após o prazo legal, deve manter o bloqueio e ato contínuo transferir a quantia para conta judiciária, à disposição do juízo e logo mais do credor, o qual, logo mais poderá levantá-la, dando por encerrado o feito ou, ainda, se o bloqueio não foi suficiente, prosseguir na execução, visando buscar do saldo remanescente até a integralização da dívida. Esse direito processual é sem dúvidas um grande avanço no processo executivo que antes ficava adstrito a constrição de bem móvel ou imóvel, tornando praticamente inexistentes as possibilidades de satisfação do crédito, em razão da impenhorabilidade do bem de família que protege quase todo o acervo patrimonial do devedor. Dentre as novidades trazidas pela Lei n. 11.382/2006, essas são as mais proeminentes e que nos interessam para fins de enfrentar o tema trazido ao estudo, de modo que se pode concluir que o processo executivo está bem mais equilibrado e prestigia o direito do credor na satisfação da dívida, sem olvidar das garantias processuais mínimas que protegem o patrimônio vital do devedor. 5 A PROTEÇÃO DO DIREITO DE CRÉDITO E A IMPENHORABILIDADE DA VERBA ALIMENTAR DO DEVEDOR: UMA RELEITURA DO ART. 649, INCISO IV DO CPC. A despeito da relevância da penhora on line, tem-se verificado no cotidiano das execuções que mesmo sendo uma excelente ferramenta à disposição do credor e do juízo, afinal, é de interesse do Poder Judiciário a resolução definitiva das lides com o encerramento e entrega da prestação jurisdicional, não tem trazido resultados ante a disposição encartada no inciso IV do art. 649 do Código de Processo Civil. Segundo o comando legal mencionado, o salário, a remuneração, o soldo, aposentadoria, vencimentos e tudo quanto for direcionado ao sustento do devedor e de sua família estão protegidos pelo manto da impenhorabilidade com base nas razões anteriormente explanadas, visando, em última análise, a proteção da entidade familiar e da dignidade da pessoa humana de cada integrante. Indene de dúvidas quanto à importância do valor ético e moral da norma processual. Ela materializa princípios fundamentais e impede a constrição ou expropriação de quantias que sirvam à sobrevivência do devedor, na ótica da teoria do patrimônio mínimo. 22 No caso da execução de título judicial, é bem verdade que após os quinze dias, ao valor da execução será acrescida multa coercitiva prevista no art. 475-J do CPC. 46 Mas, é preciso perguntar: e o direito de crédito do exequente, também essa quantia percebida não integra o patrimônio que provê a sua pessoa, a sua família e o seu trabalho? O direito à satisfação da pretensão executiva é direito fundamental do credor porque também materializa o princípio da dignidade da pessoa humana e sua negligência, direta ou indiretamente, pode vir a representar um desfalque no seu patrimônio ocasionado pelo inadimplemento contumaz do devedor/executado, traduzindo assim num comprometimento de sua renda e, finalmente, de sua sobrevivência em casos mais graves. De ver-se que no processo executivo deve-se sempre utilizar os instrumentos hábeis à satisfação da dívida em atendimento ao direito fundamental do credor, sem, para isso, reduzir a vida do devedor ao nada, o que na prática nunca ocorre, é bem verdade. Não seria leviano afirmar que é muito mais comum assistir a sucumbência da pretensão executiva do que a expropriação total do patrimônio do devedor. É bem mais frequente o fim da execução pelo esgotamento de todas as possibilidades de busca de patrimônio livre e desembaraçado para a penhora do que efetivamente o sucesso da execução com o pagamento da dívida. Depara-se, portanto, com dois direitos de natureza fundamental: o direito do credor à satisfação da dívida que lhe compromete, muitas vezes, os negócios e à sobrevivência e de outro lado, o direito do devedor em não ter penhorado os bens que constituem o mínimo existencial para sua vida (resguardados pela impenhorabilidade). A prática cotidiana do processo executivo, inegavelmente, revela-nos uma colisão de direitos fundamentais que merece toda a atenção do juízo, em especial, como condutor do processo e equalizador dos direitos e deveres de cada parte na relação jurídica processual, tudo com a finalidade de servir à pretensão material do credor. Como não há princípio nem direito fundamental absoluto na ordem jurídica, quando há uma colisão de direitos fundamentais num dado caso concreto, cabe ao juízo ponderar qual o interesse mais relevante ou, ainda, adotar posturas que mitiguem um direito em prol do outro, sempre motivando suas decisões e evitando o esvaziamento de um dos direitos em jogo. Para Robert Alexy, estudioso da teoria dos direitos fundamentais, o jurista deve utilizar a lei do sopesamento para cotejar, no caso concreto, qual o princípio ou direito que deve prevalecer em detrimento do outro, não sendo essa resposta conclusiva e estanque em relação aos demais casos semelhantes, porquanto a análise é episódica e se submete às variantes e as necessidades de cada lide apreciada, num dado momento histórico. Para Alexy, portanto, “segundo a lei do sopesamento, a medida permitida da não satisfação ou de afetação de um princípio depende do grau de importância da satisfação do outro”.23Destaca-se. Esse grau de importância não deve ser feito de forma apriorística, mas sim pressupondo os direitos que são cotejados no caso concreto. Enquanto que a verba alimentar sempre teve a nota de impenhorabilidade absoluta como no seu nascedouro, hoje se percebe sua flexibilização para ceder à satisfação da dívida de caráter também alimentar, ao passo em que paulatinamente o juiz reinterpreta a regra processual e, à luz da proporcionalidade e da razoabilidade, também relê os direitos de crédito como um direito fundamental abrindo oportunidades para mitigação da impenhorabilidade e possibilitando à entrega do bem da vida do credor, sem comprometer a sobrevivência do devedor. Assim, para equilibrar essa relação processual, mister seja realizado pelo juízo um intenso trabalho hermenêutico, à luz do princípio da proporcionalidade e da razoabilidade, mediante a técnica da ponderação, para investigar, no caso concreto, qual o direito fundamental que deve prevalecer se o do credor ou o do devedor. A tarefa não é nada fácil. 23 ALEXY, Robert. Teoria dos direitos fundamentais. Tradução Virgílio Afonso da Silva. 5e. São Paulo: Malheiros, 2008, p. 167. 47 Se analisarmos de forma apriorística, os direitos que entram em rota de colisão na hipótese desse trabalho, qual sejam, o direito fundamental ao crédito do exequente e o direito à intangibilidade da verba alimentar do executado, certamente vamos optar por proteger sempre o direito à irredutibilidade da verba alimentar, sobretudo para pagamento de dívidas. Essa foi a opção do legislador ao criar a lei do bem de família e os artigos do Código de Ritos mencionados exaustivamente até agora. No entanto, se optarmos por uma análise mais concreta, mergulhando na prática do processo executivo e das possibilidades de satisfação do crédito, verificar-se-á que o direito ao crédito, desnuda, direta e indiretamente, o direito à sobrevivência do exequente/credor, que dele depende para recompor seu patrimônio diante de uma obrigação inadimplida. Independentemente de ser de origem alimentar, o crédito uma vez satisfeito integra seu patrimônio e será empregado ou na sua renda familiar ou ainda no desenvolvimento de seus negócios, isso sem mencionar a possibilidade de com esse valor ele pagar seus fornecedores, seus empregados, empregar no desenvolvimento de atividades que contribuem diretamente para sua sobrevivência, assim como é o ofício de qualquer trabalho. Assim, indubitavelmente, que o crédito satisfeito, ou seja, a dívida paga com os consectários de mora reverte direta ou indiretamente para a sobrevivência do credor, e assim satisfaz o princípio da dignidade da pessoa humana nesse polo da relação jurídica. O que ocorre é que a regra da impenhorabilidade criou uma presunção absoluta de carência do devedor acaso seja comprometida uma parcela dessa verba, pensamento consolidado do qual também decorre uma intangibilidade absoluta das quantias (dinheiro) disponíveis em sua conta bancária, eventualmente atingida pelo bacenjud. É essa visão pré-concebida de intangibilidade dos bens do devedor que se pretender reconsiderar, porquanto, na prática não é bem assim que ocorre. Se o devedor vem a juízo, depois de vários atos dirigidos à satisfação do crédito e informa que a verba é de natureza alimentar, deverá ele além de provar suas alegações, comprovar também que não pode comprometer nem um real dessa renda, sob pena de permitir ao juízo, à luz da razoabilidade e da lei do sopesamento, constritar a parte da verba alimentar, ou seja, da renda que não ostenta natureza alimentar propriamente dita. Esse é um ônus do devedor que argui a natureza alimentar. Devem-se trazer aos autos suas despesas mensais a fim de deixar claro ao juízo e ao exequente que a renda se destina exclusivamente para custear essas despesas com família, caso contrário, o juízo deve sim constritar a renda remanescente ainda que potencialmente de natureza alimentar. Cabe ao juiz se questionar, com o auxílio das argumentações desenvolvidas no processo, qual é o direito fundamental que, naquele momento, é mais proeminente ou mais urgente que se deve assegurar no caso concreto? Se a resposta a essa ponderação for sempre a proteção do direito do devedor de ter a execução processada de forma menos onerosa ou a absoluta intangibilidade de seus bens – nesse caso, o dinheiro – presente na conta bancária, certamente o processo judicial não servirá para entregar o bem da vida ao credor, tornando parcas, quando não, inexistentes as hipóteses de sujeição do patrimônio do devedor à satisfação da dívida, violando o princípio do acesso à justiça e da dignidade da pessoa humana do credor. Afinal de contas, é comum o recebimento do salário, remuneração e enfim, verbas que têm origem no trabalho e que gozam de natureza alimentar, nas contas correntes, as quais serão objeto de bloqueio via sistema bacenjud. Mas se a conclusão da ponderação feita pelo magistrado for também sempre aos interesses do credor, violará frontalmente os arts. 648 e 649 do Código de Processo Civil, tornando nula a constrição levada a efeito e oportunizando o devedor a substituir a penhora feita nos termos do art. 656 do mesmo Código de Ritos. 48 Ante o impasse muito frequente nos processos executivos, uma alternativa viável, mas que ainda encontra forte resistência doutrinária e jurisprudencial é a possibilidade de manter o bloqueio de dinheiro, mesmo de natureza alimentar, em percentuais de 10% a 40% como forma de aplicar a máxima popular “nem tanto ao céu, nem tanto a terra”, que mutatis mutandis, significa em termos jurídicos encontrar o meio termo entre o direito de satisfação do crédito exequendo e a proteção de parte da quantia para a sobrevivência do devedor. A respeito do assunto, a doutrina ainda é muito tímida e a jurisprudência não firmou qualquer orientação, tendo uma tendência em negar essa alternativa, sob o auspício do dogma de impenhorabilidade do bem de família e da verba de natureza alimentar. Percebe-se que não há o enfrentamento da problemática vivenciada pelo credor no processo, preocupando-se o jurista em unicamente resguardar cegamente o dogma da impenhorabilidade, olvidando-se nessa linha que também há um direito fundamental no outro polo da relação que merece proteção. Normalmente, o argumento que justifica a impossibilidade de manutenção bloqueio de verba alimentar latu sensu é o fato de o credor ter várias outras possibilidades de constrição dos bens do devedor, o que embora seja verdadeiro, mas se percebe na prática que dificilmente ou quase nunca consegue o credor satisfazer sua dívida com a constrição de outros bens, imóveis e móveis, porquanto ambas as categorias estão protegidas pela impenhorabilidade, o que torna inexistente a efetivação do direito de crédito. É muito comum recorrer às ferramentas do infojud, dos cadastros do DETRAN, expedir ofícios à Receita Federal do Brasil, busca em cartórios e perceber que o devedor ou esconde muito bem seu patrimônio ou não possui nenhum bem oficialmente registrado, levando à inexistência de solução eficaz para a obtenção do crédito exequendo. E quando se atinge o bloqueio de dinheiro, via bacenjud, vem o devedor alegar que a verba é de natureza alimentar, pleiteando o imediato desbloqueio, o que sem dificuldades é acolhido e defendido pelo juiz muitas vezes sem qualquer prova das alegações. Seguem decisões abaixo extraídas do Tribunal de Justiça de Sergipe que acenam o posicionamento negativo do Tribunal sobre a possibilidade de flexibilização da regra do art. 649, inciso IV do CPC: AGRAVO DE INSTRUMENTO - CUMPRIMENTO DE SENTENÇA INDEFERIMENTO DO PEDIDO DO BANCO DE PENHORA DE 30% DOS SALÁRIOS DO AGRAVADO-IMPENHORABILIDADE ABSOLUTA DAS VERBAS DE NATUREZA SALARIAL, NOS TERMOS DO ARTIGO 649 DO CPC - PRECEDENTES DESTA CORTE, EM CASOS ANÁLOGOS, NOS QUAIS RESTOU VEDADA A PENHORA DE SALÁRIO, MESMO QUANDO PLEITEADA DE MANEIRA PARCIAL - MANUTENÇÃO DA DECISÃO RECORRIDA -RECURSO DESPROVIDO - DECISÃO UNÂNIME (AGRAVO DE INSTRUMENTO Nº 0357/2011, 9ª VARA Cível, Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe, DES. CLÁUDIO DINART DÉDA CHAGAS , RELATOR, Julgado em 10/05/2011) Processo Civil - Agravo regimental em agravo de instrumento - Execução - Penhora sobre vencimentos - Impossibilidade de constrição - Precedentes do STJ. I - É inadmissível a penhora parcial de valores que compreendem salário ou aposentadoria do devedor - Precedentes do STJ; II - Agravo Regimental desprovido. (AGRAVO REGIMENTAL (C. Civel) Nº 0286/2010, , Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe, IOLANDA SANTOS GUIMARÃES , JUIZ(A) CONVOCADO(A), Julgado em 08/02/2011. Na verdade, uma das poucas hipóteses de flexibilização da norma em comento – art. 655-A, inciso VI, do CPC – é quando o crédito perseguido também tem natureza 49 alimentícia, como é o caso da obrigação de pagar pensão alimentícia. Mas não deveria ser a única. Nesse sentido, segue a decisão do Tribunal de Justiça de Sergipe: Agravo de Instrumento. Execução de Alimentos. Determinação de bloqueio via Bacen Jud em conta salário do executado. Possibilidade. Mitigação à impenhorabilidade de salário em razão da natureza do crédito exequendo. Pensão alimentícia. Aplicação do §2º do artigo 649 do CPC. Limite da penhora ao percentual de 30% (trinta porcento) de seus rendimentos. Precedentes. Desbloqueio de 70% (setenta porcento) dos valores bloqueados. Recurso conhecido e parcialmente provido. - Admite-se a possibilidade de constrição judicial de valores depositados na conta corrente do executado para salvar dívida proveniente de pensão alimentícia, como o caso dos autos, desde que, por óbvio, restrita a um percentual razoável (30%), até como garantia do princípio da dignidade da pessoa humana do próprio executado. (AGRAVO DE INSTRUMENTO Nº 2588/2010, 6ª VARA Cível, Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe, DES. CEZÁRIO SIQUEIRA NETO, RELATOR, Julgado em 31/05/2011) De outro lado, analisando o caso concreto à luz do princípio da efetividade processual e da proteção do direito de crédito, segue a decisão do Tribunal de Justiça de Sergipe, da Relatoria de Dra Elvira Maria acolhendo a tese aqui defendida e mantendo o bloqueio em percentual compatível com a renda de sobrevivência do devedor: AGRAVO DE INSTRUMENTO - AÇÃO DE EXECUÇÃO - BLOQUEIO DE NUMERÁRIO EM CONTA SALÁRIO - IMPENHORABILIDADE MITIGADA POSSIBILIDADE - LIMITAÇÃO A 30% DO VALOR SALARIAL SATISFAÇÃO DO DIREITO DO CREDOR - EFETIVIDADE DO PROCESSO. Nada obsta o desconto sobre rendimentos de conta salário do devedor, desde que o seja feito dentro de um limite razoável, pois na esteira do atual entendimento jurisprudencial, restou mitigada a impenhorabilidade desse tipo de conta corrente, uma vez que, o bloqueio judicial de percentual limitado dos valores existentes na conta, não implica em onerosidade excessiva ao devedor e também não ofende os termos do artigo 649, inciso IV do Código de Processo Civil. A impenhorabilidade de que trata este dispositivo é aquela que incide, diretamente, no demonstrativo de pagamento do devedor, sendo certo que a importância relativa ao salário, assim que cai na conta corrente, perde tal natureza, prestando-se a honrar os compromissos assumidos pelo correntista, cujo valor do bloqueio deverá ser limitado a 30%, mensalmente, até o pagamento total do débito. Agravo desprovido. Decisão por maioria. (AGRAVO DE INSTRUMENTO Nº 1559/2010, 15ª VARA Cível, Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe, ELVIRA MARIA DE ALMEIDA SILVA , JUIZ(A) CONVOCADO(A), Julgado em 06/12/2010) Na linha do raciocínio desenvolvido neste trabalho, mais um exemplo de flexibilização do dogma da impenhorabilidade, à luz do princípio da efetividade processual, nesta decisão do Tribunal de Justiça de Pernambuco: Classe Agravo de Instrumento Assunto(s) Indenização por Dano Moral, Indenização por Dano Material Número do Acórdão 0003123-12.2010.8.17.0000 (208976-5) Comarca Recife Número de Origem 00275440520068170001 Relator Cândido José da Fonte Saraiva de Moraes Relator do Acórdão Cândido José da Fonte Saraiva de Moraes Revisor Órgão Julgador 2ª Câmara Cível 50 Data de Julgamento 5/5/2010 14:00:00 Publicação 89 Ementa PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO DE INSTRUMENTO. FASE DE CUMPRIMENTO DE SENTENÇA. ««PENHORA»» ON-LINE INCIDENTE SOBRE CONTA «SALÁRIO». POSSIBILIDADE. CARÁTER ALIMENTAR. PRINCÍPIO DA EFETIVIDADE. LIMITE 30%. RAZOABILIDADE. PROVIMENTO PARCIAL.- Em atenção ao princípio da efetividade, mostra-se legal a ««penhora»» de verba salarial depositada em conta corrente, não afigurando justa a blindagem total daqueles valores quando a constrição não vulnerar a dignidade do devedor;- A simples invocação de im««penhora»»bilidade dos rendimentos previstos no art. 649, IV, do CPC não pode impedir o credor de ter satisfeito seu crédito;- Conclusão que não redunda na legalidade do bloqueio de toda a verba remuneratória, tendo em vista sua presumível natureza essencial;««Penhora»» limitada a 30% (trinta por cento) do rendimento líquido da executada, o que assegura tanto o adimplemento da dívida como o sustento de sua família. Dicção do art. 3º do Decreto 4.840/03;- Recurso parcialmente provido para limitar a ««penhora»» em 30% (trinta por cento) do valor líquido da remuneração. Decisão À unanimidade de votos deu-se provimento parcial ao recurso, nos termos do voto do Relator. O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, a despeito da resistência à possibilidade de mitigação da impenhorabilidade da verba alimentar bloqueada, já decidiu manter bloqueio no percentual de 30% do rendimento mensal do devedor, desde que provado que aquela quantia não afetaria sua sobrevivência, diante das provas dos autos. Ementa: AGRAVO DE INSTRUMENTO. AÇÃO DE EXECUÇÃO DE TÍTULO EXTRAJUDICIAL. CEDULA DE CRÉDITO. PENHORA ON LINE. BLOQUEIO LIMITADO A 30% DO RENDIMENTO MENSAL DO EXECUTADO. POSSIBILIDADE. PRECLUSÃO E INTEMPESTIVIDADE VERIFICADA. VERBA ALIMENTAR PRESERVADA. AUSENTE PROVA DE ÚNICA FONTE DE SUBSISTÊNCIA. NEGADO PROVIMENTO AO AGRAVO DE INTRUMENTO. UNÂNIME. (Agravo de Instrumento Nº 70041062126, Décima Oitava Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Nara Leonor Castro Garcia, Julgado em 31/03/2011) Ementa: AGRAVO DE INSTRUMENTO. RESPONSABILIDADE CIVIL EM ACIDENTE DE TRÂNSITO. IMPUGNAÇÃO AO CUMPRIMENTO DA SENTENÇA. PENHORA ON LINE. VERBAS SALARIAIS. A impenhorabilidade dos salários (art. 649, IV, do CPC) restringe-se às quantias necessárias à subsistência do devedor. Havendo reserva de capital, a verba perde seu caráter alimentar, tornando-se penhorável. Precedentes jurisprudenciais. AGRAVO DE INSTRUMENTO PARCIALMENTE PROVIDO. (Agravo de Instrumento Nº 70036199966, Décima Primeira Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Luiz Roberto Imperatore de Assis Brasil, Julgado em 30/06/2010) Na decisão supra, entendeu o Tribunal, de forma elogiável, que o fundamento da impenhorabilidade é evitar o comprometimento da vida do devedor, com a redução do seu patrimônio a patamares que inviabilizem sua sobrevivência digna, razão pela qual se evita a penhora da verba alimentar quando ela possa efetivamente comprometer à subsistência do devedor e de sua família, caso contrário, mantém o bloqueio sobre determinado percentual. O Tribunal de Justiça de São Paulo ainda vacila muito nos dois entendimentos, o que pode ser demonstrado a seguir: 51 Relator(a): Arantes Theodoro Comarca: São Paulo Órgão julgador: 36ª Câmara de Direito Privado Data do julgamento: 01/09/2011 Outros números: 1569245920118260000 Ementa: Execução por honorários advocatícios. Penhora sobre salário. Possibilidade excepcional. Art. 649, § 2º, CPC. Constrição limitada, porém, a um terço daquela renda, isso de modo a se garantir a subsistência do devedor. Recurso improvido, com observação. Relator(a): Castro Figliolia Comarca: São Paulo Órgão julgador: 12ª Câmara de Direito Privado Data do julgamento: 31/08/2011 Outros números: 1533416620118260000 Ementa: AGRAVO DE INSTRUMENTO EXECUÇÃO DE TÍTULO EXTRAJUDICIAL PRETENSÃO DE PENHORA DE 30% DOS PROVENTOS DE BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO, COM DESCONTO DIRETAMENTE DA FOLHA DE PAGAMENTO DA AGRAVADA INADMISSIBILIDADE presunção de que os valores recebidos a título de salário são integralmente necessários ao sustento da devedora, razão pela qual não se admite a penhora de vencimentos diretamente da folha de pagamento deferimento que representaria clara violação ao art. 7º, X da CF e ao art. 649, IV do CPC agravo desprovido Relator(a): Ligia Araújo Bisogni Comarca: Santos Órgão julgador: 14ª Câmara de Direito Privado Data do julgamento: 24/08/2011 Outros números: 145620220088260562 Ementa: AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE NÃO FAZER CUMULADA COM INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS Valores retidos da conta corrente da autora correspondentes a débitos de empréstimo Verba que, mesmo tendo natureza alimentar, foi livremente disponibilizada por seu titular para pagamento de prestações de empréstimo contraído Limitação, todavia, a 30% dos pagamentos recebidos pela autora Dano moral não caracterizado Sentença mantida Recurso improvido. Já o Tribunal de Justiça de Minas Gerais, através da Relatoria do Desembargador José Antônio Braga, acolhe o posicionamento aqui defendido e interpreta sistematicamente o art. 649 do CPC, ponderando, igualmente, os direitos e princípios do caso concreto, flexibilizando a regra da impenhorabilidade quando há situações em que a penhora de parte da verba alimentar não comprometerá a vida do devedor, vejamos: Relator: Des.(a) JOSÉ ANTÔNIO BRAGA Data do Julgamento: 07/07/2009 Data da Publicação: 20/07/2009 Ementa: AGRAVO DE INSTRUMENTO - BLOQUEIO ON LINE - DESNECESSIDADE DE ESGOTAMENTO DOS MEIOS DE LOCALIZAÇÃO DE BENS PENHORÁVEIS - PENHORA DE VALORES PROVENIENTES DE BENEFÍCIO DE NATUREZA ALIMENTAR - POSSIBILIDADE - LIMITE DE 30%. O deferimento do pedido de bloqueio de importância em dinheiro, por meio do sistema BACEN-JUD, independe da existência de outros bens a serem constritos, bem como da demonstração de o exequente ter esgotado todos os meios para a localização de bens penhoráveis, tendo em vista a reformulada ordem de preferência de penhora estabelecida pelo artigo 655 do Código de Processo Civil. Tanto o texto 52 constitucional quanto o processual vedam a retenção de salários, pois é através desses que os trabalhadores se mantêm e sustentam suas respectivas famílias, quitando seus compromissos cotidianos. O artigo que veda a penhora sobre os salários, saldos e proventos deve ser interpretado levando-se em consideração as outras regras processuais civis. Serão respeitados os princípios da própria execução, entre eles o de que os bens do devedor serão revertidos em favor do credor, a fim de pagar os débitos assumidos. A penhora de apenas uma porcentagem da verba de natureza alimentar não fere o espírito do artigo 649 do Código de Processo Civil. Assim foi o posicionamento do Superior Tribunal de Justiça quando percebeu, no caso concreto, que embora de natureza alimentar a quantia bloqueada já não mais se inserir no montante aplicado à manutenção da família, constituindo-se de reserva de capital, a autorizar o bloqueio e transferência para o patrimônio do credor como forma de solver o débito ou parte dele. PROCESSO CIVIL. MANDADO DE SEGURANÇA. CABIMENTO. ATO JUDICIAL. EXECUÇÃO. PENHORA. CONTA-CORRENTE. VENCIMENTOS. CARÁTER ALIMENTAR. PERDA. [...] - Em princípio é inadmissível a penhora de valores depositados em conta-corrente destinada ao recebimento de salário ou aposentadoria por parte do devedor. Entretanto, tendo o valor entrado na esfera de disponibilidade do recorrente sem que tenha sido consumido integralmente para o suprimento de necessidades básicas, vindo a compor uma reserva de capital, a verba perde seu caráter alimentar, tornando-se penhorável. Recurso ordinário em mandado de segurança a que se nega provimento. (Recurso em mandado de segurança n.º 25.397 - DF (2007/0238865-3), Min. Rel. Nancy Andrighi, D.J. 14 de outubro de 2008) De ver-se que a despeito das parcas decisões nesse sentido, o entendimento começa a mudar e a jurisprudência tem acolhido, paulatinamente, a mitigação da impenhorabilidade da verba alimentar quando ela é a única alternativa viável para satisfazer a dívida e demonstrada que o bloqueio parcial não trará prejuízos maiores ao devedor do que acarretará para o credor com a manutenção do estado de inadimplência e não recebimento da dívida. Esse raciocínio depende muito do caso concreto, obviamente. É lá que serão verificadas as condições econômicas de cada parte, o montante da dívida, o comportamento do devedor, as reais possibilidades de satisfação do crédito, todas as questões que serão fundamentais à decisão de manutenção do bloqueio visando à satisfação do crédito. Assim, malgrado haja previsão legal para a impenhorabilidade do vencimento, a jurisprudência pátria vem pari passu mudando o seu entendimento para dar uma interpretação mais flexível, mitigando a regra insculpida no inciso IV do art. 649 do Código de Processo Civil, aduzindo que a constrição limitada a determinado percentual não é capaz de afrontar o espírito da lei, a qual visa tão somente a evitar que o pagamento do crédito torne inviável a subsistência por parte do devedor. Comprovado nos autos que a renda do devedor, ainda que de natureza alimentar, suporte um redução entre 10% a 40% para satisfazer a dívida que ele mesmo ocasionou, nada mais justo e coerente com a lógica da proteção dos princípios fundamentais e, também da razoabilidade, que seja mantida a penhora com a transferência do numerário para o patrimônio do credor visando à satisfação do credito. 53 Ainda que não atinja a quantia bloqueada o valor total da execução, ao menos alguma parte o credor já terá conseguido resgatar e não restará à míngua com seu patrimônio reduzido ante a inadimplência do devedor. Essa alternativa é útil e bastante justa, á luz da razoabilidade e da proporcionalidade, principalmente nos processos em que o devedor possua renda considerável, cuja constrição parcial, nos percentuais acima sugeridos, possa de alguma forma, constranger seu patrimônio e ainda assegurar uma parte ou todo o crédito exequendo. 6 CONCLUSÃO. Na busca da proteção e garantia do direito de crédito do exequente, percebe-se que a impenhorabilidade da verba alimentar do devedor, prevista tanto na Lei do Bem de Família quanto nos arts. 648, 649, 655 do Código de Processo Civil, tem sido um poderoso instrumento de garantia da intangibilidade dos bens do devedor o que, em última análise, compromete a satisfação do crédito perseguido e torna ineficazes as medidas processuais que visam à entrega do bem da vida ao credor: o pagamento da dívida. Propôs-se uma releitura da impenhorabilidade do bem de família e da verba alimentar, de modo a permitir sua constrição parcial, em percentuais arbitrados pelo juízo, de forma motivada e considerando sempre o valor da dívida e as alternativas de satisfação buscadas no caso concreto, tudo isso à luz dos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade, visando à proteção do direito fundamental de crédito e primando pelo princípio da efetividade do processo. PROTECTING THE RIGHTS OF CREDIT THROUGH THE MONEY REREADING UNSEIZABILITY FOOD OF DEBTOR ABSTRACT The objective of the present article is to analyze the unseizability of family´s patrimony and the wage´s nature, from the produral’s and material’s point of view, established in the Family´s Good Law and in the Civil Procedural Code, aiming to set up a reflection and mitigation of this rule or principle in favor of the credit fundamental right to rebalance procedural legal relationship and realize the right to satisfaction of the creditor's debt. Key Words: Credit. Debit. Unseizability. Wage protection. Constriction. REFERÊNCIAS ALEXY, Robert. Teoria dos direitos fundamentais. Tradução Virgílio Afonso da Silva. 5e. São Paulo: Malheiros, 2008. CHAVES, Cristiano de Farias; ROSENVALD, Nelson. Direito das obrigações. 4 ed. Rio de Janeiro: Lumem Juris, 2010. FACHIN, Luiz Édson. Estatuto jurídico do patrimônio mínimo. Rio de Janeiro: Renovar, 2001. 54 LOBO, Paulo Luis Netto. Famílias. São Paulo: Saraiva, 2008. _______. Princípio da solidariedade. Direito de famílias e sucessões, out/nov. São Paulo: 2007. PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito civil. Atualizador: Luiz Roldão de Freitas Gomes. 20 ed. Rio de Janeiro: Forense, 2004. SANTOS, Marcione Pereira dos. Bem de família: voluntário e legal. São Paulo: Saraiva, 2003. THEODORO JR., Humberto. A reforma da execução do título extrajudicial. Rio de Janeiro: Forense, 2007. 55 A AUTONOMIA DO APRENDIZADO E A NOVA DOCÊNCIA PARA A TRANSFORMAÇÃO DAS IES Luiz Gustavo de Oliveira Ramos24 Rosilene Pimentel S. Rangel25 RESUMO O processo de aprendizagem no ensino superior brasileiro tem sido foco de diversos estudos científicos e questionamentos sobre sua qualidade e posicionamento ante as mudanças sociais. Diante do domínio das grandes mídias e os relevantes avanços das tecnologias de informação, percebe-se palpitante um sentimento de fracasso das metodologias de ensino fragmentadas e não contextualizadas enraizadas nestas instituições, onde, ainda se prioriza o processo de repetição de conteúdo e se percebe uma estrutura institucional não capaz de preparar profissionais adaptáveis que atendam as novas e exigentes demandas mercadológicas. As instituições de ensino superior têm encontrado dificuldades para elaborar novos paradigmas, valores e metodologias que atendam as expectativas dos indivíduos e da sociedade perante as mudanças, sendo, portanto, foco deste estudo, uma tangível necessidade destas abandonarem a transmissão mecânica de conteúdos e contribuírem efetivamente com a formação de pessoas críticas, criativas e adaptáveis a situações diversas. Todavia, a docência também precisa se modernizar, superar algumas barreiras e atuar ativamente neste processo de transformação destas instituições: promovendo conexões entre as disciplinas ministradas; posicionando-se de forma menos hierárquica e mais de parceria e orientação, aproximando-se dos discentes e estimulando a autonomia. O presente trabalho coloca tanto a autonomia do aprendizado quanto uma nova visão sobre a docência como caminhos para uma transformação eficiente das instituições de ensino superior. Para este artigo fora utilizada a técnica de pesquisa bibliográfica, trazendo como base alguns dos pilares da educação e estudiosos contemporâneos como apoio teórico relevante ao entendimento da autonomia do aprendizado e questões pertinentes à docência, partindo do conhecimento técnico-científico do que é o aprendizado até a transformação das instituições em foco. Palavras-chave: Autonomia, Aprendizado, Docência, Ensino, Superior. 1 INTRODUÇÃO Aprender é uma das necessidades naturais que um ser humano desenvolve desde que nasce, dando seus primeiros passos no mundo da percepção (neste instante somos 24 Graduado em Sistemas de Informação pela UNIT, Universidade Tiradentes, 2005, Aracaju-SE E-mail: [email protected] 25 Especialização em Formação em Docência do Ensino Superior pela Universidade Federal de Alagoas -UFAL e mestrado em Educação pela Universidade Federal de Sergipe –UFS. Professor da Faculdade Estácio de Sergipe – Estácio FaSe e Professor Substituto no Departamento de Letras Vernáculas da Universidade Federal de Sergipe - UFS. 56 puramente sentidos), em seguinte no mundo da curiosidade, onde somos internos filósofos 26, e finalmente no mundo externo, ou seja, na sociedade, onde interagimos e nos relacionamos de diversas formas. Mundo este que a cada tempo exige mais das pessoas como seres racionais e instruídos. Uma das principais formas de relacionar-se e interagir são justamente a imersão na educação, quer do nível escolar ao acadêmico, que dentre todos os fatores externos é a forma mais relevante para a construção de conhecimento 27. Entretanto, ninguém entra nas instituições de ensino sem conhecimentos prévios, naturais e instintivos, determinados muitas vezes por fatores internos, pertinentes ao ser humano, somados às influências do meio. Em outras palavras, somos todos diamantes brutos que serão lapidados de acordo com os anseios culturais e sociais das comunidades onde vivemos. De acordo com Freire (2006, p. 21) não há docência sem discência, neste sentido o aprendizado não depende somente das características instintivas e das capacidades laborais naturais, depende de um processo de ensino-aprendizagem como verdadeiro instrumento de transformação e lapidação. Entretanto com as mudanças sócio-culturais do mundo moderno, os avanços tecnológicos, a quantidade de informações e a velocidade como elas chegam aos indivíduos, exige-se dos seres humanos uma capacidade de maior organização de conhecimentos, pondo em cheque as diversas metodologias de ensino utilizadas de forma meramente acumulativas, taxadas como bancárias28 por Freire (ibidem). Sem dúvida, decorrente destas mudanças, vislumbra-se uma facilitação de acesso à informação, principalmente pela via das tecnologias de informação como a Internet 29, entre outras. No entanto “acumular informações soltas não é o suficiente, é preciso situá-las em um contexto para que adquiram sentido” (MORIN, 2006, p. 36). Contudo, percebe-se que “a evolução cognitiva não caminha para o estabelecimento de conhecimentos cada vez mais abstratos, mas, ao contrário, direciona-se para sua contextualização” (ROSSATO apud BASTIEN, 2008, p. 121). Ademais, não é a quantidade de informações que desenvolve um indivíduo e sim o que ele faz com elas, segundo Amaral (2006). Perante este cenário, a participação das instituições de ensino superior neste processo de contextualização é fundamental, pois o discente mergulhado em tantas informações advindas de diversos relacionamentos e interações, influenciado pelas grandes mídias, não consegue facilmente contextualizá-las e organizá-las, sendo mister uma mudança de paradigmas e uma compreensão do papel integralizador, multicultural, motivador e transformador destas instituições. O ponto chave, então, está na necessidade destas instituições de ensino passar o conteúdo técnico exigido para a formação, mas de forma contextualizada, integrada com diversas áreas do conhecimento e capaz de abarcar os egressos oriundos de diversas realidades sem impor metodologias opressivas, respeitando os conhecimentos individuais 26 A capacidade de se maravilhar com o mundo é algo em comum entre as crianças e os filósofos (LIPMAN, 1990, p. 123). 27 Para Setzer (1999) o conhecimento não pode ser descrito; o que se descreve é a informação. Também não depende apenas de uma interpretação pessoal, como a informação, pois requer uma vivência do objeto do conhecimento. Assim, o conhecimento está no âmbito puramente subjetivo do homem ou do animal. 28 O educador é o sujeito que conduz os educandos à memorização mecânica do conteúdo narrado. Mais ainda, a narração os transforma em ‘vasilhas’, em recipientes a serem ‘enchidos’ pelo educador. Quanto mais vá ‘enchendo’ os recipientes com seus ‘depósitos’, tanto melhor educador será (FREIRE, 1974, p. 33) 29 Sistema mundial de redes de computadores - uma rede de redes em que os usuários em qualquer computador podem, se tiver permissão, obter informações de qualquer outro computador (...). (...) Hoje, a internet é uma facilidade pública, cooperativa e autossustentável acessível a milhões de pessoas em todo o mundo (Dicionário de Tecnologia. Editora Futura. 2003. p. 436). 57 alheios, ou seja, não perpetuando a heteronomia30 além das fronteiras acadêmicas. Sendo de imensurável importância a atuação de uma docência que atenda esta nova realidade. É preciso estimular, portanto, a autonomia do aprendizado, não no sentido de total independência, pois enquanto seres sociais estarão em constante interação e relação, mas no sentido de serem pessoas ávidas para aprender sempre de forma organizada, contextualizada e críticas há qualquer lugar e hora. É papel das instituições a formação de profissionais adaptáveis às crescentes exigências sociais e mercadológicas. 2 UMA VISÃO TÉCNICA DO APRENDIZADO Em todos os estágios que um homem médio31 passa pela sua existência sempre ocorrem retenções de dados32 por parte do seu cérebro e estes em algum outro momento poderão ser utilizados nos processos hermenêuticos33 (associação, interpretação etc.) característicos da capacidade humana de perceber a si mesmo e ao mundo. “Ser humano é ser a um só tempo físico, biológico, psíquico, cultural, social e histórico e ser educado é justamente compreender sua própria identidade complexa e sua identidade comum a todos os outros humanos” (MORIN, 2006, p. 15). Através dos sentidos o homem é capaz de reconhecer um objeto, ouvir ruídos familiares, sentir cheiros, entre outros, e assim fazer associações com nomes, datas, memórias, sentimentos e, por conseguinte, interpretar fatos, textos, etc. Destes processos ocorre um aprendizado instintivo e natural do homem, embora simplificado, ou seja, uma reprodução das coisas através das percepções e, ao mesmo tempo, segundo Morin (2006, p. 20), traduções e reconstruções cerebrais com base em estímulos ou sinais captados e codificados pelos sentidos. Embora estes processos sejam partes necessárias para a construção de um aprendizado base, são em geral armazenamento e repetição, ou ainda, conforme Morin (ibidem), um mero espelhamento das coisas ou do mundo. Bastante direto e independente seria o aprendizado caso sua estrutura parasse por aqui, competindo ao homem somente usar seus sentidos e capacidades básicas cerebrais. No entanto, em se tratando do ser humano e sua complexidade de fato, existem variáveis a mais que norteiam toda e qualquer forma de aprender. Segundo Amaral (2006), nem toda informação34 é retida, apenas aquelas que estão associadas às motivações e interesses do ser humano. Sendo assim, o homem não é um ser que aprende objetivamente, aprender por aprender, em outras palavras: não existe uma real necessidade em saber se um objeto qualquer se chama “pedra” caso esse dado não seja utilizado em um processo de interação, direcionado a um interesse, dentro do seu meio social e cultural. Portanto, todo aprendizado tem um sentido subjetivo que é 30 Condição de pessoa ou grupo que receba de um elemento que lhe é exterior, ou de um princípio estranho à razão, a lei a que se deve submeter (Dicionário Aurélio. Editora Positivo. 2009). 31 O conceito fora criado por Adolphe Quételet, cientista belga do século XIX. Ele reparou que as populações humanas se distribuem com estranha regularidade, tanto no peso como na altura, como nas doenças, como nos anos de vida e noutras características humanas, segundo Crato (2006). 32 Setzer (1999) define dado como uma seqüência de símbolos quantificados ou quantificáveis. Portanto, um texto é um dado. Também são dados fotos, figuras e sons gravados, pois todos podem ser quantificados. 33 A hermenêutica, a "arte da interpretação", era originalmente a teoria e o método de interpretação da Bíblia e de outros textos difíceis. Wilhelm Dilthey a alargou a interpretação de todas as criações e atos humanos, incluindo a história e a interpretação da vida humana. Heidegger, em Ser e Tempo (1927), esboçou uma "interpretação" do ser humano, o ser que, em si mesmo, compreende e interpreta (INWOOD, 2007, p. 01). 34 Informação é uma abstração informal (isto é, não pode ser formalizada através de uma teoria lógica ou matemática), que está na mente de alguém, representando algo significativo para essa pessoa, para Setzer (1999). 58 um resultado complexo das emoções, dos processos simbólicos e dos significados que emergem no próprio curso da aprendizagem que reflete uma aproximação particular com a realidade (AMARAL apud GONZÁLEZ REY, 2006, p. 03). Para Amaral (2006) a aprendizagem não é um ato instrumental, mas um processo subjetivo essencialmente interativo, portanto depende dos diferentes sistemas de relação estabelecidos com a sociedade, com o trabalho e com as instituições educativas. 3 A AUTONOMIA DO APRENDIZADO Falar de autonomia não significa isolamento, solidão ou independência total, mas sim interdependência, visto que não existe autonomia absoluta ou, ainda, em termos sociológicos, não se percebe a possibilidade de ignorar a natureza estritamente social do homem. Para Moura (1999 apud PINTO) aquele último é intrinsecamente um ser de relação, portanto, não consegue aprender sozinho e Huew (2006) expõe a necessidade de se levar em conta o fato de que a aprendizagem é influenciada por inúmeras variáveis, em especial as outras pessoas. Todavia, Little (2003) versa que é difícil afirmar se a autonomia do aprendizado é uma capacidade ou um comportamento, ou, ainda, se é caracterizada pela pessoa que possui a responsabilidade pelo seu aprendizado ou controle do mesmo. A interdependência resguarda justamente a presença de todas as variáveis supracitadas relevantes para a composição de um aprendizado, mas dá ao sujeito autônomo um grau de independência nas suas decisões no que tange os interesses, objetivos e como organizar seus conhecimentos em prioridades. Um caminho equivocado para entender a autonomia é confrontá-la com a heteronomia, observando esta última como total dependência, pois esta concepção também veria a primeira como total independência, isolamento, na qual “o sujeito assumiria o completo poder / controle em completa oposição ao poder / controle exercido por outros” (MOURA 1999). Moura (ibidem) argumenta que desta forma ocorreria um corte radical e uma ausência total de qualquer dependência dos outros, não sendo possível perceber o verdadeiro significado da autonomia. Sobre autonomia pode-se também inferir certo grau de relatividade, pois as pessoas podem ser mais ou menos autônomas em relação a umas coisas e não ser em relação a outras. Na mesma medida a heteronomia, ou seja, não se fala em uma pessoa totalmente dependente com exceção daquelas com imobilidades corpóreas ou mentais totais, embora esta afirmativa seja de mais fácil compreensão nos aspectos físicos. É difícil, portanto, mensurar estes extremos, pois, no que tange a imobilidade mental, por exemplo, seria um risco afirmar que uma pessoa em estado vegetativo, imóvel fisicamente, seria totalmente dependente para aprendizado ou não seria capaz de aprender. De fato estaríamos ignorando a possibilidade de existir algum canal aberto de percepção, sentidos, que mesmo funcionando precariamente poderia estar absorvendo conteúdo do mundo externo e provocando algum aprendizado instintivo em nível mental, não possível de ser exteriorizado devido à imobilidade do corpo. Portanto, como já visto anteriormente, estas visões extremistas não identificam o real significado da autonomia em questão. Conceituar autonomia do aprendizado de forma a abranger todos os aspectos capazes de defini-la apropriadamente é algo complexo e de diversos entendimentos distintos, mas a maioria dos autores concorda com a definição de aprendiz autônomo como sendo aquele aluno que possui a habilidade de controlar seu próprio aprendizado, e de se 59 responsabilizar por todas as decisões em relação a todos os aspectos do seu aprendizado, tais como determinar os objetivos a serem alcançados, definir o conteúdo, avaliar como está se saindo, dentre outros. O aluno autônomo sabe quais são as suas preferências, sua capacidade e habilidade, e tem consciência de seus limites (HUEW, 2006, p. 01). A autonomia, então, pressupõe auto-organização, sendo construída ao longo das relações, segundo Moura (1999 apud MACEDO). No entanto, estas características da autonomia, como entendida até então, não são inerentes ao ser humano, precisam ser construídas e o professor e as instituições de ensino possuem um papel relevante nesse processo. Para Paiva (2006 apud CANDY), a autonomia é uma capacidade inata do indivíduo que pode ser suprimida ou distorcida pela educação institucional. Evidente que não se almeja limitar o aprendizado autônomo a algo estritamente objetivo e direto, pois seria, então, reforçar a figura da pessoa extremamente especialista que busca somente o conteúdo pertinente à sua área de interesse. Ser objetivo, organizado, na definição dos conteúdos não significa excluir todos os outros tipos de conhecimentos. Ao contrário, estas habilidades estão diretamente relacionadas aos interesses vigentes, o que não significa que as pessoas não possam ter outros interesses ou novas relações e interações. 4 A NOVA DOCÊNCIA Não é desconhecido que o professor tem um papel relevante na formação de alunos em qualquer instância da educação, mas no tocante à autonomia do aprendizado sua atuação se torna mais desafiadora, inovadora e íntima, pois comporta uma mudança de paradigmas e metodologias de ensino que transformam a si mesmo, aos alunos e as instituições de ensino. Estas mudanças exigem do docente em primeiro lugar: entender os aspectos científicos e sociais do aprendizado; reconhecer a bagagem das pessoas alheias às instituições de ensino; aceitar-se como alguém que ainda está aprendendo e, por fim, estar aberto para também aprender com aqueles que ensinam. Na contramão, dificilmente um professor que acredita nas metodologias tradicionais de ensino, nas quais ele é o único detentor do conhecimento, ou seja, aquele que transmite e os alunos os únicos que recebem, será capaz de ensinar o aluno a buscar por conta própria conhecimentos e o enxergará como uma ameaça à sua posição de docente. Um professor que teve um aprendizado tradicional, ou opressivo na visão de Freire (1974), terá grandes dificuldades de entender a autonomia em foco e evidenciará em sala de aula a heteronomia tal qual também pertence. Não obstante, é preciso pontuar que as metodologias de ensino tradicionais ainda são bastante vivas nas instituições e a hereditariedade (um dos aspectos sócio-culturais do processo ensino-aprendizagem) dos professores tradicionais, em especial no ensino básico, ainda são evidentes. Os principais fatores provocadores destas mudanças são as relevantes transformações sócio-culturais que a sociedade contemporânea vem passando, como: a facilidade de acesso à informação que por intermédio das novas tecnológicas e da grande mídia incrementa, apropriadamente ou não, a bagagem cada vez maior de quem entra nas instituições de ensino; como também as exigências crescentes de maior grau de escolaridade para adentrar no mercado de trabalho, ou seja, a necessidade de continuar estudando e adaptando-se a novas realidades a fim de conquistar melhores empregos. No entanto, diante destas mudanças, a relação professor-aluno continua com papéis intrinsecamente ligados e nítidos, segundo Freire (2006, p. 23). Não se concebe mais que um papel seja objeto do outro, ao contrário, ascende, como resultado destas 60 transformações, uma nova relação de interdependência, onde o professor ao ensinar também aprende e o aluno quando aprende ensina ao aprender, como entendido por Freire (ibidem). Sendo possível, nesse momento, vislumbrar novas características nos papéis da docência e da discência. Adentrando, então, nas novas características do papel do docente denota-se, primeiro, uma necessidade daquele ultrapassar os conhecimentos específicos da área em que atua e adentrar cada vez mais no campo da relação interpessoal com os discentes e com os seus pares. Portanto, em um ângulo se tem a relação professor-aluno que é paradoxalmente a maior produtora de tensões, como também de recompensas e gratificações. Qualquer prejuízo nessa relação desarticula a tranqüilidade do professor no ensino e a receptividade do aluno na aprendizagem (VASCONCELOS; AMORIM, 2008, p. 11). Em outro ângulo se encontra a relação professor-professor, tão importante quanto à primeira, pois o intercâmbio de experiências entre os pares e a necessidade cada vez maior das áreas de conhecimento se conectarem nesse processo relevante de contextualização, não abstração, de conhecimentos, proporciona um ambiente acadêmico propício para a autonomia do aprendizado. Este ambiente favorece não somente os discentes, mas também os docentes, pois estes passam a aceitar seu papel de formador e, também, de contínuo formando. A relação com os colegas, a motivação e a própria prática pedagógica compartilhada tornam-se elementos de formação do professor à medida que estes se mostram conscientes da representatividade que possuem no contexto formativo em que estão imersos, reconhecendo a importância do papel de ambos na construção de uma proposta de ensino que possui também, em grande medida, o aluno como elemento chave para sua concretização (HEDIONEI; SILVIA, 2008, p. 1642). O maior destaque das novas características do papel da docência é a orientação, esta que conota uma maior participação no processo ensino-aprendizagem, pois quem orienta participa e acompanha de forma mais intima e, ainda, relaciona-se com o discente na mesma linha sem confusão de papéis. Não se alimenta mais a imagem opressora e unilateral do ensino tradicional, ao contrário, faz-se necessário o aprofundamento pelo docente nas relações interpessoais, que ao passo que se aceita como incompleto, entende mais o caráter formador e orientador de sua profissão. Portanto orientar é participar ativamente do aprendizado do discente, sem limitá-lo ao conhecimento específico da sala de aula, propiciando uma liberdade orientada na construção de conhecimento. Dessa forma, não só o docente, mesmo que de origem tradicional, passa a compreender melhor a autonomia como também se torna capaz de estimulá-la. O aumento da necessidade de ensinar aos estudantes como se tornarem academicamente independentes e autônomos trouxe novas perspectivas aos professores e gerou mudanças em relação às idéias tradicionais acerca do papel dos professores (HUEW, 2006, p. 4). O docente, então, pode estimular a autonomia do aprendizado através da orientação promovendo: atividades de aprendizagem individual e em grupo; realizando trabalhos em equipe de forma cooperativa, do diálogo, de situações problematizadoras e investigadoras que estimulem o desenvolvimento do discente; além de dinâmicas de grupo e estratégias participativas que ao discente permita "aprender a aprender", de acordo com Pereira (2006). Como orientador, posiciona-se não mais à frente deles, como se estes últimos fossem seguidores e ele o pregador, ao contrário, sua posição é de suporte e parceria, 61 promovendo uma jornada conjunta. Dessa maneira, provoca, estimula e orienta a construção do aprendizado de forma autônoma, organizada e crítica, reiteradamente, de maneira que este processo torne-se habitual. O resultado desta habitualidade é justamente a autonomia desejada, ao ponto que se torne uma habilidade que será utilizada pelo discente no decorrer de sua formação, principalmente após, ou seja, o mercado de trabalho. 5 A TRANSFORMAÇÃO DA INSTITUIÇÃO DE ENSINO SUPERIOR Historicamente, as instituições de ensino superior tinham seu acesso possível para uma ínfima parcela da sociedade e o rigor acadêmico preparava pessoas normalmente com olhos cegos para a sociedade e arregalados para a ciência. Em outro momento, as universidades e seus diretórios acadêmicos e estudantis envolveram-se ativamente com manifestações políticas, que lutavam em busca de direitos fundamentais como liberdade de expressão, bruscamente reprimidas pela ditadura militar através do AI-535. No entanto, atualmente nunca se percebeu uma popularização tão grande do ensino superior e uma visível despolitização dos egressos, com preocupações político-sociais menos presentes e centradas em interesses mercadológicos. Percebe-se uma heterogeneidade de difícil domínio para estas instituições, provocando um estágio institucional estacionado em problemas de enfoque educacional, político e social, oriundos desta demanda crescente de egressos originários de diferentes metodologias de ensino, culturas e sociedades que, por muitas vezes, caminham em direções distintas; como também em função de todas as transformações sociais supracitadas neste estudo. Quanto à política, Pereira (2006, p. 12) explana que, “não se pode mais dissociar a educação de suas razões político-sociais e ideológicas, transformando-a em algo neutro e meramente instrumental, o que poderia desvirtuá-la e transformá-la em instrumento de dominação social.” Por outro lado, Vasconcelos e Amorim (2008, p.04) versam que, em relação à docência, não se concebe mais um corpo docente composto, “em sua maioria, de principiantes na docência do ensino superior que nunca tiveram contato com uma formação pedagógica que abarcasse os conhecimentos teóricos e práticos relativos às questões do ensino e aprendizagem em sua contextualização.” Perante este diagnóstico, Freire (2006) suscita que é mais do que necessário que estas instituições criem um cenário motivador, democrático, multicultural, capacitando profissionais para aprender e desaprender. Nesta linha ainda, Vasconcelos e Amorim (2008, p. 05) versam que a função própria das instituições superiores é “proporcionar momentos de reflexões cujo objetivo seja a mediação à construção e reconstrução dos conhecimentos, conjugando a qualidade formal com a qualidade política”. É pertinente, então, suscitar que estas instituições em foco firmem sua função política e seu papel social neste momento histórico, para isso necessita acompanhar as vigentes mudanças sócio-culturais, bem como serem capazes de estar sempre rompendo e desenvolvendo novos paradigmas, além de propiciar uma estância de colaboração mútua entre os docentes visando sempre uma docência atualizada. Em contrapartida, percebe-se certa lentidão nesse processo de adaptação, o qual se fundamenta pelo rigor acadêmico e a visão histórico-elitista do ensino superior. Contudo, as exigências mercadológicas batem cada vez mais fortes nas portas destas, além das diversas políticas inclusivas promovidas pelo Estado, exigindo um afrouxamento daquele rigor e uma 35 O Ato Institucional Nº5 ou AI-5 foi o quinto de uma série de decretos emitidos pelo regime militar brasileiro nos anos seguintes ao Golpe militar de 1964 no Brasil. 62 popularização do ensino superior, agindo em prol da sociedade. Para tanto, as instituições precisam abandonar a rigidez de idéias e posturas que não condizem mais às necessidades imediatas e criar novas formas de encaminhar sua prática educativa. É necessário que as posturas acadêmicas e científicas estejam em ritmo de transformação para dar lugar ao novo paradigma de uma sociedade crítica (PEREIRA, 2006, p. 03). Percebe-se, também, a transformação da instituição de ensino superior de um bem cultural para um bem econômico-social, segundo Zabalda (2004, p. 25). De lugar reservado a uns poucos privilegiados, tornou-se um lugar destinado ao maior número possível de cidadãos. De um bem direcionado ao aprimoramento de indivíduos, tornou-se um bem cujo beneficiário é o conjunto da sociedade. Contudo, este novo panorama propicia um problema de enfoque metodológico do ensino, ou seja, como as instituições poderão atuar diante de uma maior demanda discente e de tão grande distinção. Torna-se complicado, então, ter uma prática na qual o professor consiga acompanhar a evolução de todos os alunos em sua sala de aula sem imputar aos mesmos uma parcela da responsabilidade do seu aprendizado; como também não funcionaria a transmissão exclusiva do conteúdo técnico-formal, presumindo que diversas variáveis constituam resultados idênticos, ou seja, profissionais mecânicos e limitados, somente visando adentrar no mercado. 6 CONCLUSÃO É de suma importância trazer reflexões sobre a posição social e política das instituições superiores de ensino, visto sua função formadora de profissionais que entrarão no mercado de trabalho e que, num ciclo econômico-cultural, retornarão para a sociedade serviços e demandas necessárias para a continuidade e melhoria da vida social; visto, ainda, sua posição política, contribuindo para a construção de uma sociedade consciente, politizada e de difícil subordinação. Não cabe mais em uma sociedade moderna e dinâmica a mecanização destes profissionais, que não sejam capazes de se adaptarem rapidamente às mudanças sócioculturais. Como também não cabe a estes se absterem de seu papel político como cidadãos não alheios aos interesses político-sociais. É mister, então, que ocorra a transformação das instituições superiores de um bem individual, mera forma de engrandecimento cultural e intelectual de indivíduos, para um bem social, pronta para preparar grupos de pessoas atentas às necessidades coletivas. Todavia, essa abertura para uma popularização das instituições, atendendo anseios sociais, traz complicações sérias de cunho educacional e metodológico. Cabe, então, aos docentes assumirem novas posições na relação ensino-aprendizagem, nas relações entre eles, como também estimularem a autonomia do aprendizado na formação de discentes preparados para enfrentar toda e qualquer mudança. Assim, conclui-se que esta transformação das instituições ocorre de dentro para fora, ou seja, não mais a sociedade se adapta às instituições, são estas que se adaptam à primeira. AUTONOMY OF LEARNING AND A NEW TEACHING FOR THE 63 TRANSFORMATION OF THE INSTITUTIONS OF SUPERIOR EDUCATION ABSTRACT The learning process in the Brazilian superior education has been the center of several scientific researches and questionings about the quality and positioning right front the social changes. Ahead of the domain of the social medias influence and the important advances of the information technology, it feels beating a fail feeling of the broken up and without context learning methodologies that goes deep inside of that institutions, where still the process of content repetition is prioritized and it perceives an institutional structure not capable to prepare adaptable professionals who take care of the new and hard marketing demands. The institutions of superior education have found difficulties to elaborate new paradigms, values and methodologies that take care of the expectations of the individuals and the society before the changes, being, therefore, focus of this study, a tangible necessity of these institutions to abandon the mechanic transmission of contents and effectively contribute with the formation of critical, creative and adaptable people to diverse situations. However, the teaching also needs to be modernized actively, to surpass some walls and to act in this transformation process of these institutions: promoting connections between given disciplines; acting with less hierarchic and more than partnership and orientation, coming close to the students and stimulating the autonomy. The present research places the autonomy of the learning and a new vision of the teaching as ways for an efficient transformation of the institutions of superior education. For this article the technique of bibliographical research was used, bringing as base some of the pillars of the education and contemporaries studious as excellent theoretical support to the understanding of the autonomy of the learning and pertinent questions to the teaching, starting at the technician-scientific knowledge of what it is the learning until the transformation of the institutions in focus. Keywords: Autonomy. Learning. Teaching. Education. Superior. REFERÊNCIAS FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Local: Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa. 34. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2006. MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 11.ed. São Paulo: Cortez, 2006. MELO, Antônio Machado Ferreira. A Tecnologia, Direito e a Solidariedade em Direito, Sociedade e Informática - Limites e perspectivas da vida digital. Fundação Boiteux, 2000. p. 22 - 23. ZABALDA, Miguel A. 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Está em questão como a inclusão do portador de Síndrome de Down, em uma Educação Física inclusiva, pode influenciar no seu desenvolvimento geral. A investigação refere-se às possibilidades de como crianças portadoras de Síndrome de Down podem fazer atividades, se não iguais, mas, as mais próximas possíveis do que chamamos de normais. Para isso seria apenas necessária à inclusão das mesmas em projetos que visem à inclusão em atividades motoras variadas e em contato com as demais crianças ditas normais ou não portadoras da Síndrome. Foram discutidos, a partir de análise de aulas e obras de pesquisadores e educadores, conceitos, experiências práticas e vivências, na tentativa de se constatar que a inclusão social dos portadores da Síndrome de Down, desde a mais tenra idade, os leva a uma maior e melhor qualidade de vida. O referencial teórico baseou-se na obra de PUESCHEL sobre as várias possibilidades de inclusão dos portadores dessa Síndrome. A partir da análise das narrativas, das observações dos alunos, dos trabalhos e livros publicados, pudemos constatar que: as crianças portadoras da Síndrome de Down, incluídas em atividades motoras, tiveram um maior desenvolvimento social, afetivo, físico e intelectual quando comparada àquelas portadoras dessa Síndrome, que não tiveram acesso a um trabalho sistemático de inclusão. Palavras-chave: Inclusão Social. Síndrome de Down. Educação física inclusiva. 1 INTRODUÇÃO Esta é uma investigação que se insere no âmbito da pesquisa sobre os portadores de Síndrome de Down e o seu desenvolvimento cognitivo, afetivo e social através da inclusão dos mesmos em atividades motoras. Ela visa contribuir para com o debate sobre as possibilidades dos portadores dessa síndrome ser inseridos em atividades que se acreditavam impossíveis para um deficiente mental. O estudo gira em torno da compreensão de que quando um cidadão, especialmente nas idades iniciais, é apresentado a várias atividades estimulantes para o seu desenvolvimento motor, isso irá contribuir para a sua autonomia cognitiva, social e afetivo, possibilitando a sua inclusão em atividades que achávamos impossíveis para um portador de Síndrome de Down; tais como a sua inclusão no mercado de trabalho e no ensino superior. Ao longo dos anos, as diversas doenças mentais têm sido objeto de estudo da comunidade científica. No início estas descobertas serviram apenas como instrumento de discriminação, onde os portadores de deficiência mental eram colocados em manicômios e 36 Doutoranda em Educação, pela Universidade Nacional de Rosário na Argentina. Possui Licenciatura Plena em Educação Física, pela Universidade Federal de Sergipe (2001) e pós-graduação em Metodologia do Ensino de Linguagens pela Sociedade de Educação Continuada – EDUCON (2009). Atualmente, é professora do Colégio Arquidiocesano Sagrado Coração de Jesus e da Faculdade Estácio de Sergipe – Estácio FaSe. 37 Graduado em Educação Física - em Licenciatura Plena, pela Universidade Federal de Sergipe; pós-graduado em Metodologia do Ensino de Linguagens pela Sociedade de Educação Continuada – EDUCON (2009). Atualmente, é professor de Educação Física da rede pública de Sergipe pela Secretaria de Estado da Educação – SEED. 66 acabavam abandonados, inclusive pela família. Os anos se passaram e as novas descobertas e os novos pensadores trouxeram uma nova perspectiva de vida para os portadores de necessidades especiais. Em especial os portadores de Síndrome de Down sofreram, ao longo dos anos, com a falta de conhecimento e com o preconceito social, isso lhes trouxe uma baixa perspectiva de vida e isolamento social. A Síndrome de Down tem sido objeto de estudo desde a sua descrição em 1866, pelo inglês, John Langdon Down, segundo Saad, 2003, p. 42 (2003, p. 29). Pela primeira vez, as características de uma criança com esta síndrome foi por ele descrita. Mais conhecida como mongolismo, devido às características físicas, os portadores dessa síndrome foram bastante discriminados por serem diferentes dos ditos normais. Com as novas descobertas e estudos científicos, foram dadas novas perspectivas de vida para os portadores de SD. Essa síndrome, segundo os geneticistas, não é algo causado por problemas na gestação, ingestão de remédios ou drogas. É causada por anomalia na divisão celular durante o desenvolvimento do óvulo ou espermatozoide. Segundo estudos científicos existem três tipos de SD. A mais comum é chamada Trissomia do 21 Padrão. A outra forma é a Translocação. O caso menos comum é o Mosaico. Surge nos Estados Unidos, a chamada educação inclusiva, através da Lei Pública 94.142, de 1975, e atualmente, já se encontra com mais de três décadas de implantação. Devido ao sucesso dos trabalhos executados, vários países do mundo implantaram nas suas propostas educacionais a inclusão de pessoas com necessidades especiais Essa Lei de Inclusão foi um marco importante para que os portadores de doenças mentais pudessem ter oportunidades de maior qualidade de vida. Viessem a ampliar a relação social com pessoas ditas normais. Os pedagogos, psicopedagogos, os professores de Educação Física e muitos outros profissionais envolvidos em projetos de inclusão, têm tido importante papel na melhoria da perspectiva de vida dos portadores de Síndrome de Down. As crianças portadoras de Síndrome de Down têm, dentre as várias anomalias, uma deficiência motora chamada hipotonia muscular, isso tem sido objeto de estudo na tentativa de buscar, o quanto antes a solução desse problema que tem sido grande fator limitador no desenvolvimento motor dessas crianças. Quanto mais cedo essas crianças forem estimuladas, maior será a sua perspectiva de alcançar a autonomia motora. Como o retardo no aprendizado motor é um fator agravante no desenvolvimento geral dessas crianças, têm-se buscado informar as pessoas, especialmente os pais e professores, sobre as novas técnicas no ensinamento das habilidades básicas. 2 DESENVOLVIMENTO E DEMONSTRAÇÃO DOS RESULTADOS O Saad (2003), objetiva desfazer muitos mitos e preconceitos sobre a pessoa com síndrome de Down, tornar disponíveis informações relevantes sobre a pessoa com síndrome de Down para que ela seja mais bem compreendida, afastando ideias preconcebidas indevidamente, para na medida do possível abrir-lhe espaço no convívio social em geral. Ainda visa tecer considerações sobre as limitações que sofre a pessoa com síndrome de Down como fruto do segregacionismo. E ressalta a importância da inclusão, especialmente através da escola inclusiva de qualidade na formação do indivíduo portador da DM. Inicialmente Saad (2003) nos mostra com propriedade a descoberta histórica da síndrome de Down, como em 1866 John Langhdon Down a identifica, pela primeira vez, como uma entidade clínica. De lá para cá muita coisa mudou, para melhor, apesar de ainda termos muito para avançar em busca de uma melhor qualidade de vida e maior inclusão dos portadores desta síndrome. O referido autor é um dos grandes pesquisadores que buscam levar 67 às pessoas, especialmente pais e educadores, o maior conhecimento possível sobre o assunto e de como alcançar as melhores posições na sociedade, que ainda se mostra cheia de preconceitos. Ele acredita que com a massificação do conhecimento, principalmente no meio educacional, a médio e longo prazo teremos condições de incluir o máximo possível dos excluídos. O conhecimento que Saad (2003) nos traz é de suma importância, uma vez que segundo ele e vários outros estudiosos, a proporção de nascimentos de crianças “normais” e com síndrome de Down é de um para 800/1000. Isso indica que todos nós convivemos ou conhecemos alguém que convive com um indivíduo portador da síndrome de Down. Saad (2003) ainda nos mostra com muita propriedade as causas da síndrome de Down, que apesar de ter relação com a idade materna e a geração de um filho isso não significa dizer que nascerá outro filho com Down. Ele nos mostra que apesar de ser um acidente genético que pode ter uma razão biológica, que ocorre na primeira divisão celular do zigoto, os cientistas não sabem ao certo quando pode ser gerado um ser com essa síndrome. O autor nos mostra os três tipos de anormalidades cromossômicas, baseado em Pueschel (2000, p. 2). O autor nos mostra os modelos comportamentais e físicos dos portadores de síndrome de Down. Há abordagem psicométrica. Ele nos mostra testes de QI, o que às vezes acaba levando à discriminação, pois a ideia fundamental não é de classificar pessoas, mas comportamentos, o que muitas vezes não ocorre e o que temos visto é a classificação das pessoas em capazes e incapazes. Saad (2003) mostra com muita propriedade que o modelo médico de encarar a síndrome os classifica como doentes os que são piores, “inválidos”. Com o movimento de inclusão isso tem mudado e chegaremos considerar o portador desta síndrome como um indivíduo com potencial para se tornar autônomo ao ponto de alcançar, como têm ocorrido, graus de inserção igual ou superior a muitos cidadãos ditos normais. Ele nos informa sobre as possibilidades, quando bem assistido desde a barriga da mãe, de alcançar um alto grau de desenvolvimento, pois ainda ocorre que nem todos os portadores da SD são iguais. Ele nos mostra que a vivência, a inserção escolar é a mola mestra para alcançar o maior desenvolvimento possível de todas as habilidades básicas dor ser humano. Mrech (2007) objetiva nos mostrar de forma concisa e bem fundamentada como e onde teve início à educação inclusiva, algo que tem sido de suma importância para os portadores de necessidades especiais. Os projetos de inclusão são, na maioria das vezes, a única chance de um portador de síndrome de Down, especialmente os de baixa renda, ter acesso aos programas de desenvolvimento geral dos mesmos. Ela nos informa que há um programa de inclusão através de uma rede de informações, onde os educadores, pais, trabalhadores da saúde, e outros ficam informados sobre os movimentos da educação inclusiva e a busca de uma escola de qualidade para todos, e nela possam encontrar o que se tem de melhor para atender as necessidades especiais das crianças e adolescentes. Mrech (2007) entende que educação inclusiva é um processo de inclusão dos portadores de necessidades especiais ou de distúrbios de aprendizagem na rede comum em todos os graus. Este com certeza é o objetivo de todo educador comprometido com o cidadão e com uma educação de qualidade e que possa atender às necessidades de todos que procurem a mesma. Para ela uma escola inclusiva é uma escola líder em relação às demais. A mesma se apresenta como a vanguarda do processo educacional. Com certeza a escola inclusiva está sempre integrada à comunidade, pois sem essa parceria não seria possível o processo de inclusão. 68 Há uma visível e incontestável preocupação por parte da autora com a qualidade da escola que se propõe em oferecer à comunidade um projeto de inclusão das pessoas portadoras de necessidades especiais, e que para isso precisa ter um grande e forte embasamento teórico e uma infraestrutura capaz de atender ao que se propõe e assim ser diferente e está na vanguarda da educação das crianças, dos adolescentes e dos jovens que necessitam dos serviços de uma escola que se diz inclusiva. Pueschel (1993) teve a preocupação em atender aos anseios dos pais e educadores que buscam maiores conhecimentos sobre o que é e de como atender as necessidades especiais dos portadores de síndrome de Down. Busca ainda nos mostrar que há necessidade de enfrentar o problema o quanto antes e assim informe às consequências que trazem a síndrome sobre os vários aspectos físicos e cognitivos, e assim mostra que através da estimulação precoce, a inclusão em programas de atividade física leva as crianças a tingir o mais alto grau de desenvolvimento geral. O mesmo citado à cima mostra como a Educação Física inclusiva é de extrema importância para incluir as crianças portadoras de síndrome de Dawn em programas de desenvolvimento motor. Com isso levar as crianças a um fortalecimento das estruturas musculares, ósseas e articulares e assim diminuir os efeitos da hipotonia muscular, inerente à maioria dos portadores dessa síndrome. Para algumas famílias, menos favorecidas, a escola pública e de qualidade é e será um único meio de melhor a qualidade de vida de seus filhos. Pueschel (1993) ainda nos alerta para a importância do lar e da comunidade do desenvolvimento do portador da síndrome de Down, pois mesmo depois que as crianças ingressa na escola, existem muitas horas do dia disponíveis para a interação com outros nos ambientes de casa e da comunidade. Para ele é evidente que o aprendizado não se dá somente na escola; numerosas outras experiências aguardam a criança em casa, na comunidade ou quando brinca com um amigo. Não resta dúvida de que a inclusão em atividades variadas trará uma maior autonomia não só ao portador da SD, mas em toda criança que participa de projetos de inclusão. A Síndrome de Down foi identificada no ano de 1866 por John Longdgan Down, na Inglaterra. Conforme Saad: a síndrome de Down, também conhecida como mongolismo, foi identificada e descrita pela primeira vez como uma entidade clínica distinta em 1866 por John Longdan Down, na Inglaterra. (SAAD,2003, p.29). Segundo Ferreira (1998, p. 1) e Pessotti (1984, p. 53-54), abandono e imolação era o destino das pessoas com deficiência mental na Grécia Clássica. Os que possuíam deficiências menos acentuadas, dependendo da família, poderiam até sobreviver, porém seriam os primeiros a serem eliminados em nome do equilíbrio demográfico ou situação de dependência econômica. (SAAD, 2003, p. 39) Pode-se encontrar em Pessotti (1984, pág. 5), o cristianismo tentou considerar todos “filhos de Deus”, inclusive as pessoas com deficiência; por serem também possuidores de uma alma, devendo, por isso, ser alvo de caridade. Em consequência, eles passaram a receber abrigo em igrejas e conventos em troca da prestação de pequenos serviços. Na idade média, segundo Schwartzman (1999b, p. 4), citado em Saad (2003, p. 40), “[...] sob as ordens de Lutero, as pessoas com deficiência e respectivas mães eram encaminhadas ao exorcismo e até à incineração, por serem considerados frutos da união entre a mulher e o demônio.” No início do século XVI, portanto já na Idade Moderna, os médicos Paracelso e Cardoso demonstraram a preocupação em abordar cientificamente a deficiência diferenciando-a da abordagem moral ou teológica e, embora não tivessem sistematizado, defendiam a necessidade de tratamento para as pessoas com deficiência. 69 Segundo Saad (2003, p. 42), “foi somente a partir da Revolução Francesa que se consolidou uma atitude mais humanista diante da deficiência, tornando-a objeto de atenção por parte dos médicos e educadores.” Com essas mudanças o tratamento educacional do portador da Síndrome de Down é diferenciado. Surgi a partir da postulação de Rousseau uma estimulação, que não passava de um tratamento com relação aos comportamentos básicos em tarefas cotidianas, porém em regime segregado. Com o passar do tempo, já no final do século XVII e início do XVIII, o interesse em explicar a deficiência e a busca de outras formas de tratamento foram modificando a consideração em relação a eles. A deficiência passou a ser entendida como uma “condição” e não mais como uma “doença”, iniciando-se então uma preocupação educacional em relação a seus portadores. (SAAD, 2003) Já no século passado, a partir de 1932, a Síndrome de Down foi considerada uma aberração cromossômica. Em 1956, foi descoberto que as células humanas possuem 46 cromossomos e finalmente, em 1959, foi descrita, por Lejeune, Turpin e Gautier, a presença de um cromossomo extra no cromossomo do grupo G nos indivíduos com Síndrome de Down (MOSCATI, 1979). Segundo Pueschel (l993, p.53): No começo do século XX, alguns médicos pensavam que já que o período de malformação do bebê com Síndrome de Down tinha que ocorrer no início da gestação, a condição seria resultado de alguma influência do ambiente durante os primeiros dois meses da gravidez. Outros mais corretamente acreditavam que aspectos genéticos eram responsáveis. No início dos anos 1930, alguns médicos suspeitavam que a Síndrome de Down pudesse ser resultado de um problema cromossômico. No entanto, naquela época, as técnicas para o exame dos cromossomos não estavam avançados o suficiente a ponto de provar essa teoria. Quando os novos métodos laboratoriais tornaram-se disponíveis, em 1956, permitindo aos cientistas a visualização e o estudo dos cromossomos, descobriu-se que ao invés dos 48 cromossomos previamente presumidos, havia 46 cromossomos em cada célula normal. Sabe-se hoje que a Síndrome de Down é uma alteração genética, que ocorre durante a divisão celular do embrião. O indivíduo com Síndrome de Down possui 47 cromossomos (e não 46), sendo o cromossomo extra ligado ao par 21. Intimamente ligada a um excesso de material cromossômico, tem nítida relação com a idade dos pais. Quanto mais idosos eles forem maior a probabilidade de gerarem um filho com essa Síndrome, que vem necessariamente associada a um comprometimento intelectual e a uma hipotonia; a redução do tônus muscular. Não está vinculado à consanguinidade, isto é, laços de parentesco entre os pais. Segundo a Fundação Síndrome de Down (FSD, 2007) essa alteração genética pode ser apresentada de três formas: 1 - Trissomia 21 padrão: * cariótipo: 47 XX ou 47 XY (+ 21); * indivíduo apresenta 47 cromossomos em todas as duas células, tendo par no par 21 três cromossomos. Aproximadamente 95% dos casos. 2 – Trissomia por Translocação: * cariótipo: 46 XX (T14; 21) ou 46XY (T14; 21); * o indivíduo apresenta 46 cromossomos e o cromossomo 21 extra está aderido a outro par em geral o 14. Ocorre em aproximadamente 3% dos casos. 3 – Mosaico: * cariótipo: 46 XX / 47XX ou 46XY / 47XY (+21); 70 * o indivíduo apresenta uma mistura de células normais (46 cromossomos) e células trissômicas. Ocorre em aproximadamente 2% dos casos. Para desenvolver todo seu potencial, a pessoa com Síndrome de Down necessita de um trabalho desde o seu nascimento. Ela faz parte do universo da diversidade humana e tem muito a contribuir com sua forma de ser e sentir para o desenvolvimento de uma sociedade inclusiva. Embora as diferentes formas de manifestação da trissomia possam provocar variações físicas, clínicas e nas capacidades cognitivas, existem poucos estudos comparativos que possam atestar as reais diferenciações existentes entres os três grupos de portadores de Síndrome de Down. (BISSOTO, 2005). Com relação à incidência da Síndrome de Down, na maioria dos países, seria de um para 800 a 1000 nascidos vivos. Essa incidência, no Brasil, em nascidos vivos, é de um para cada 600 a 800 nascimentos, tendo uma média de 8000 novos casos por ano (SAAD, 2003). Há uma relação de causalidade entre a idade materna e a geração de um filho com Síndrome de Down. Pelo fato de a mulher já ter consigo desde o nascimento todos os óvulos que farão parte de sua vida, eles envelhecem com ela. Sendo assim, as mulheres mais velhas têm mais possibilidades de terem filhos com Síndrome de Down. Segundo Mustacchi e Peres (2000, p. 833), a Síndrome de Down que ocorre por esse motivo geralmente não se repete em outros filhos do casal. A frequência aumenta de 0,1 % em mães com idade acima de 45 anos. Com relação à carga genética, para Saad (2003, p.36): [...] há estudos que vêm sendo realizados para evidenciar a etiologia da Síndrome de Down além do “envelhecimento do óvulo”, embora seja esta a causa na maioria dos casos. Suspeitas de fatores ambientais (Hook, 1992) e consanguinidade em pais de crianças com Síndrome de Down (Alfi, 1980) têm sido levantadas, sem ainda comprovação total. Pueschel (2000, p. 2) menciona que há suspeitas etiológicas em anormalidades hormonais, raios x, infecções virais, problemas imunológicos ou predisposição genética (SAAD, 2003, p.35). Por isso crianças portadoras da Síndrome de Down possuem características próprias, assim como: peso e tamanho de nascimento inferior ao normal; hipotonia (músculos flácidos), diante da reação lenta a atividades físicas de movimentos rápidos e integrados à qualidade e velocidade, e a aprendizagem da escrita também seguem o padrão; pescoço curto; língua protusa, isto é, posicionada para fora da boca em virtude da hipotonia; base nasal achatada; doenças cardíacas congênitas; mãos e pés pequenos (PUESEHEL, 2000, p. 1); espaço aumentado entre o primeiro e o segundo dedos dos pés; orelhas pequenas, arredondadas e disformes, de implantação baixa; prega da pálpebra superior no canto interno dos olhos como as pessoas da raça amarela – o que deu origem ao nome mongolismo; prega palmar transversa, que consiste numa única linha que atravessa as mãos curtas, de lado a lado; os bebês são muito sonolentos; tem dificuldades para sugar e deglutir, pela hipotonia acentuada nessa fase. 71 Hoje a grande busca da ciência para as causas da Síndrome de Down não é se a alteração tem origem genética, pois isso já se sabe. A busca é pela causa da alteração genética. Por que ela ocorre, quando ocorre e como evitar ou diminuir a incidência ou alterações genéticas. As descobertas até aqui feitas, já nos dão grandes possibilidades de tratar o portador como um ser humano com potencial muito acima do que se imaginava. Os novos estudos têm proporcionado aos portadores de Síndrome de Down uma maior e melhor qualidade de vida. Sendo assim, temos visto grandes possibilidades de proporcionar a eles uma vida com maior autonomia social, afetiva e até econômica. E a Educação Física, através de projetos de inclusão, tem tido um papel importante e muitas vezes decisivo para essa. 2.1 Inclusões: Aspectos Conceituais e Históricos De acordo com Saad (2003, p. 60), com o passar do tempo, já no final da década de 80, a experiência da integração mostrou-se insuficiente para inserir as pessoas com deficiência na sociedade em virtude da discriminação ainda vigente. Iniciou-se então um movimento liderado por intelectuais, organizações de pessoas com deficiência e simpatizantes pela causa, redimensionando o enfoque da deficiência em relação à sociedade, denominado inclusão. Por inclusão entende-se a adaptação da sociedade para poder inserir pessoas com necessidades especiais em seus sistemas gerais que as espera para assumir seus papéis (CASSAKI, 1977, p. 41). Por inclusão atende-se ao modelo social da deficiência. Pela inclusão, a situação se inverte: a responsabilidade da deficiência não recai sobre o sujeito, mas sobre a sociedade. Werneck (1997, p. 53) explica que a inclusão implica uma “inserção total e incondicional” da pessoa com deficiência na sociedade, enquanto que na integração “a inserção é parcial e condicionada às possibilidades de cada pessoa”. Integração e inclusão estão calcadas no princípio de normalização que não significa tornar normal a pessoa com deficiência, mas criar condições para que a criança tenha as mesmas oportunidades e direitos, aproveitando-os segundo seus próprios recursos. Significa, portanto, reconhecer e atender as suas necessidades respeitando seus direitos de pessoa e cidadã (WERNECK, 1997, p.50). Segundo Saad (2003, p.61) (apud Werneck, 1997, p.42), a ONU vem empenhando incessantes esforços pela inclusão da pessoa com deficiência na sociedade. De 1982 a 1993, a partir do Programa Mundial de Ação Relativo às Pessoas com Deficiência, adotaram-se várias resoluções que culminaram em 1993 cm o documento Normas sobre Equiparação de Oportunidades para Pessoas com Deficiência. Este prevê a disponibilidade de serviços, informações e documentos para todos e particularmente, para pessoas com deficiência. Por convocação de órgãos internacionais a UNESCO, UNICEF E Banco Mundial, realizaram em 1990, em Jontien, na Tailândia, a “Conferência Mundial sobre Educação para Todos”, com a participação de dez países, inclusive o Brasil. Dessa conferência resultou a Declaração de Nova Delhi em que se assumiu o compromisso de tornar universal a educação fundamental (BRASIL, 1997, p.1). Com relação ao Brasil, fala-se que: a legislação brasileira aborde questões que diziam respeito à inserção da pessoa com deficiência na sociedade em relação à escola, assistência social e trabalho. 72 Werneck (1997, p.81) apresenta alguns documentos da atual legislação que tratam do tema: Constituição Federal de 1988; Lei federal número 7853 de 24/10/1989; Estatuto da Criança e do Adolescente de 13/07/1990; A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional número 9394 de 20/12/1996. Em 03/07/2001, foi aprovado o Parecer 17/2001 com orientações para a “normatização dos serviços revistos nos Artigos 58,59 e 60 do Capítulo V, da LDBEN” (BRASIL, 2001). A Constituição Federal e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional determinam a inclusão de alunos portadores de deficiência na Escola Regular, porém deixam brechas para uma interpretação à mercê da conveniência de quem as aplica (SAAD, 2003, p. 63). Sassaki (1997, p. 170) destaca alguns dos princípios norteadores da inclusão: celebração das deficiências; direito a pertencer; valorização da diversidade humana; solidariedade humanitária; igual importância das minorias; cidadania com qualidade de vida. Com relação à Educação Inclusiva se entende o processo de inclusão dos portadores de necessidades especiais ou de distúrbios de aprendizagem na rede comum de ensino em todos os seus graus. Da pré-escola ao quarto grau. A chamada Educação Inclusiva se entende o processo de inclusão dos portadores de necessidades especiais ou de distúrbios de aprendizagem na rede comum de ensino em todos os seus graus. Da pré-escola ao quarto grau. A chamada Educação Inclusiva teve início nos Estados Unidos através da Lei Pública 94.142, de 1975 (MRECH, 2007). Através da educação Inclusiva se privilegiam os projetos de escola, que apresenta as seguintes características: 1 – um direcionamento para a comunidade; 2 – vanguarda; 3 – altos padrões; 4 – colaboração e cooperação; 5 – mudando papéis e responsabilidades; 6 – estabelecimento de uma infraestrutura de serviços; 7 – parceria com os pais; 8 – ambientes educacionais flexíveis; 9 – estratégias baseadas em pesquisas; 10 – estabelecimento de novas formas de avaliação; 11 – acesso físico; 12 – continuidade no desenvolvimento profissional da equipe técnica. No Brasil, a aprovação da Lei de Diretrizes Educacionais – LDB (Lei número 9394/1996) estabeleceu, entre outros princípios, o de igualdade e condições para o acesso e permanência na escola e adotar uma nova modalidade de educação para os alunos com necessidades especiais. Desde então, a temática da inclusão vem gerando, tanto no meio acadêmico quanto na própria sociedade, novas discussões. De acordo com Saad (2003, p.126): 73 A escola tem como função preparar, instrumentalizar a criança para a vida, proporcionando-lhe o desenvolvimento das habilidades físicas e acadêmicas, bem como as habilidades sociais. “As experiências escolares devem ajudar a criança a alcançar o sentimento de autorrespeito. A escola deve ainda garantir a oportunidade de maior integração nos relacionamentos com os outros, visando à formação de um cidadão”. Porém, para Oliveira (1996, p.99): A escola tem função básica de instrumentalizar os indivíduos para serem, por um lado usuários competentes do sistema da leitura e escrita, isto é, pessoas plenamente alfabetizadas e, por outro lado, capazes de interagir com o conhecimento acumulado pelas diversas disciplinas científicas e com o modo de construir conhecimento que é próprio da ciência. Vigotsky (1997, p.72) propõe à escola a tarefa de aproximar a pessoa com deficiência do convívio com os parâmetros normais da sociedade. “a orientação em direção à normalidade e à eliminação de tudo o que agrava a deficiência e o atraso, constitui a tarefa da escola”. A Educação Inclusiva exige do professor uma mudança de postura, no sentido de redefinir seu papel, que é fundamental no desenvolvimento de seu aluno. O educador deve aprender a respeitar o seu aluno, seus interesses, e desenvolver suas atividades a partir disto: ouvindo, formulando desafios e situações novas, acompanhando seu processo de desenvolvimento não direcionado aos seus interesses (de adulto). Devem ser oferecidas aos alunos oportunidades diárias para pensar, refletir e evoluir em direção ao pensamento lógico (FERREIRA, 1991). Vigolo e Boukharil(CUF/RS, 2007) explicam que: [...] como o processo de inclusão de pessoas com necessidades especiais causa extremas mudanças e, por vezes, desconforto na sala de aula, é necessário um período de adaptação para professores da rede regular de ensino, para que haja, num futuro breve, uma devida busca por novos conhecimentos que possibilitem a esse professor um trabalho adequado às novas exigências. Ainda segundo Vigolo e Boukharil (CUR/RS, 2007), uma das deficiências bastante integradas nas regulares é Síndrome de Down, assunto que era desconhecido há anos, onde essas crianças somente frequentavam a APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais). Segundo pesquisas e depoimentos de professores, a inclusão dos alunos com deficiência mental é apresentada como mais difícil e uma das alternativas para facilitar à inclusão é através do ensino com o computador (VOGOLO; BOUKHARIL, 2007). Apesar disso, ainda são grandes os desafios das escolas regulares, públicas ou privadas que trabalham com crianças com necessidades especiais. Os problemas vão desde as barreiras arquitetônicas, até a necessidade de uma mudança efetiva para se chegue a uma escola realmente inclusiva, que garanta o atendimento à diversidade das crianças. Não se pode perder de vista ainda que a determinação legal afetasse padrões constituídos durante décadas no espaço educacional. Mesmo com toda a preocupação de órgãos internacionais, nacionais com relação ao respeito pelo deficiente e tudo que o envolve, notamos algumas falhas na inclusão dessas crianças em que ainda na estão totalmente prontas para recebê-las. Segundo Urech ([s.d.], [n.p.]), o conceito de inclusão não é: - levar crianças às classes comuns sem acompanhamento do professor especializado; - ignorar as necessidades específicas da criança; 74 - fazer as crianças seguirem um processo único de desenvolvimento, ao mesmo tempo e para todas as idades; - extinguir o atendimento de educação especial antes do tempo; - esperar que os professores de classe regular ensinem as crianças portadoras de necessidades especiais sem um suporte técnico. Tudo isso podemos notar com as diferenças entre o princípio da normalização e da inclusão. O principio da normalização diz respeito a uma colocação seletiva do indivíduo portador de necessidade especial na classe comum. Nesse caso, o professor de classe comum não recebe um suporte da área de educação especial. Os estudantes do processo de normalização precisam demonstrar que são capazes de permanecer na classe comum. Já o processo de inclusão se refere a um processo que visa estender ao máximo a capacidade da criança portadora de deficiência na escola e na classe regular. Envolve fornecer o suporte de serviços da área de Educação Especial através dos seus profissionais. A inclusão é um processo constante que precisa ser continuamente revisto. Quanto à área da Educação Física, a adaptada surgiu oficialmente nos cursos de graduação através da Resolução 3/87 do Conselho Federal de Educação e que prevê a atuação do professor de Educação Física com o portador de deficiência e outras necessidades especiais. Por isso sabemos que, muitos professores de Educação Física e hoje atuantes nas escolas na receberam em sua formação conteúdos e/ou assuntos pertinentes à Educação Física Adaptada ou Inclusão (CIDADE; FREITAS, 1997). Segundo Duarte e Werner (1995 apud CIDADE, A EDUCAÇÃO FÍSICA ADAPTADA): “é uma área da Educação Física que tem como objetivo de estudo a motricidade humana para as pessoas com necessidades educativas especiais, adequando metodologias de ensino para o atendimento às características de cada portador de deficiência, respeitando suas diferenças individuais.” Segundo Bueno e Resa (1995), a Educação Física Adaptada para portadores de deficiência não se diferencia da Educação em seus conteúdos, mas compreende técnicas, métodos e formas de organização que podem ser aplicados ao indivíduo deficiente. É um processo de atuação docente com planejamento, visando atender às necessidades de seus educandos. A Educação Física na escola se constitui em uma grande área de adaptação ao permitir a participação de crianças e jovens em atividades físicas adequadas às suas possibilidades, proporcionando que sejam valorizados e se integrem num mesmo mundo. O Programa de Educação Física quando adaptado ao aluno portador de deficiência, possibilita ao mesmo a compreensão de suas limitações e capacidades, auxiliando-o na busca de uma melhor adaptação (CIDADE; FREITAS, 1997). Na escola, os educando com deficiência leve e moderada podem participar de atividades dentro do programa de Educação Física, com algumas adaptações e cuidados. A realização de atividades com crianças, principalmente aquelas que envolvem jogos, devem teu um caráter lúdico e favorecer situações onde a criança aprende a lidar com seus fracassos e seus êxitos. A variedade de atividades também prevê o esporte como um auxílio no aprimoramento da personalidade de pessoas portadoras de deficiência (BUENO; RESA, 1995). 2.2 A Educação Física e a Expectativa de Desenvolvimento do Portador de Síndrome de Down Para Canning e Pueschel(1993, p.105): 75 A diversidade dos fatores biológicos, funções e realizações que existem em todos os seres humanos estão presentes, também, em crianças com síndrome de Down. Na verdade, há maior variedade em quase todos os aspectos do seu desempenho do que se encontra na criança “normal”. Com relação ao padrão de crescimento físico pode-se notar uma variação bastante significativa, onde umas apresentam estatura baixa, outras podem estar acima da média para a idade. Há ainda uma variação no biotipo, chegando a serem magras ou com excesso de peso. (CANNING; PUESCHEL, 1993). De acordo com o que diz Canning e Pueschel (1993, p.105-106): [...] algumas crianças apresentam somente algumas das características comuns à criança com síndrome de Down, enquanto outras exibem muitas ou todas. Além disso, o desenvolvimento mental e as habilidades intelectuais dessas crianças abrangem uma larga extensão entre o retardo mental severo e a inteligência próxima à normal. Inclusive o comportamento e a disposição emocional dessas crianças variam significativamente; algumas crianças podem ser plácidas e inativas, enquanto outras podem ser hiperativas. A maioria das crianças com síndrome de Down, porém, apresentam comportamentos normais. A intervenção precoce é de extrema importância para que a criança portadora de síndrome de Down possa atingir o maior grau possível de desenvolvimento geral, podendo em alguns casos alcançar níveis ditos normais ou acima da média. O que vem corroborar com essa afirmativa é o que nos diz Zausmer (1993, p. 116), quando afirma que: As limitações físicas e intelectuais da criança com síndrome de Down podem ser modificadas por meio do manejo competente e do treinamento precoce. Feuerstein tem afirmado em numerosas publicações que a inteligência, tal como é medida nos testes tradicionais, não é uma qualidade imutável, mas pode ser aperfeiçoada por intervenção e imediação, nas quais o adulto intervém entre criança e meio ambiente. A maioria dos “realizadores fracos” (Feuerstein prefere este termo ao de “retardado mental”) tem melhor potencial para aprendizagem do que seus registros escolares indicariam. A criança com síndrome de Down não é uma exceção. Embora necessárias a qualquer criança, a exposição direta aos estímulos e às experiências de vida não bastam, frequentemente, para modificar significativamente os padrões de aprendizagem de crianças com síndrome de Down. O que é exigido, portanto, é uma situação de aprendizagem mediada, na qual os pais ou o responsável pelo cuidado da criança selecionam o estímulo apropriado e desconsideram os inapropriados. Estratégias específicas são, então, utilizadas para aumentar os níveis de interesse, atenção e habilidade da criança. Tais técnicas de intervenção podem ser aprendidas e utilizadas com eficácia por pais de crianças com síndrome de Down. Segundo Silva (2002, p. 10), a educação física na escola tem proporcionado não só a crianças normais como também as portadoras de necessidades especiais, um grande desenvolvimento global que será a base para as demais aquisições. O resgate da importância do corpo e seus movimentos, o conceito de vida associado a movimento, a retomado do indivíduo como agente ativo na construção de sua história, proposto pela educação física. O indivíduo possui um corpo que está sobre o seu domínio e que todas as partes destes constituem o sujeito, de forma que o corpo precisa se tornar sujeito e pela integração de mente ao corpo reconstruímos os elos quebrados. Para que as aquisições ocorram de forma íntegra é preciso, que um indivíduo vivencie experiências e a partir destas formule seus conceitos e internalize as informações adquiridas. (SILVA, 2002). Ainda segundo Silva (2002, p. 11): 76 É fundamental reafirmarmos o proposto pela educação física, que afirma, que o corpo não pode ser separado da mente e suas funções se completam os tornando parte um do outro, assim sentir, aprender, processar, entender, resolver problemas, é fundamentais no processo de formação da criança e pelo corpo, que esta experimenta o mundo e o movimento e mediador nas suas construções. A possibilidade que um corpo tem de se mover no espaço é instrumento essencial para a construção do intelecto e o corpo serve como órgão de trabalho gerador de experiências. As explorações das possibilidades motoras de uma criança desencadeiam circuitos sensório-motores, que estruturam as relações que conceberá futuramente. O processo formal da educação consiste em repassar conceitos à criança sem levá-la a vivência e este é seu ponto falho, pois para internalizar uma informação não basta decorrer conceitos e sim participar da construção destes e construir suas próprias ideias. A criança tem que ser vista de forma global e educá-la não e apenas trabalhar a mente e sim o global, abrangendo todos os aspectos, inclusive a necessidade de interagir com o meio tendo contato direto com o universo de objetos e situações, que a cercam podendo assim efetivar suas construções sobre a realidade. 3 CONCLUSÃO Todas as atividades proporcionadas à criança devem ter por objetivo a aprendizagem ativa que possibilite a criança desenvolver suas habilidades. (SILVA, 2002). Segundo Silva (2002, p.110): Frente a grande variação das habilidades e dificuldades da síndrome de Down, programas individuais devem ser considerados e nestes enfatiza-se as possibilidades de aprendizagem de cada criança e a motivação necessária para desenvolvimento destas. Para tanto, o professor deve conhecer as diferenças de aprendizagem de cada criança de forma a organizar seu trabalho e programação didática. Podemos então concluir que, ao analisarmos a aprendizagem motora de portadores de deficiência não podemos desconsiderar a atuação de suas habilidades cognitivas (atenção, memória, resolução de problemas, generalização da aprendizagem) durante todo o processo. As dificuldades para a aprendizagem de um determinado movimento ou tarefa estão relacionados à deficiência e nível de comprometimento que o aluno apresenta (CIDADE, 1997). Para Marteniuk (1976, [n.p.]): Dentro do processo de aprendizagem motora, propôs um modelo para analisar os mecanismos internos básicos responsáveis pela produção do movimento com os seguintes elementos: órgãos dos sentidos, mecanismos perceptivo, mecanismos de decisão, mecanismo efetor, sistema muscular e circuitos de feedback. Podemos assim concluir que segundo o desenvolvimento do individuo portador de síndrome de Down é, tanto quanto o de qualquer não portador, resultante de influencias social, cultural e genético; incluindo-se ai as expectativas havidas em relação às suas potencialidades e capacidades e os aspectos afetivo-emocionais da aprendizagem. (C&C, 2005). Através dos resultados verificamos que as crianças portadoras da síndrome de Down participantes deste projeto, não possuem grandes dificuldades psicomotoras, este fato deve-se a grande estimulação e carinho recebidos desde pequenos, seja em suas casas ou na escola, e também é importante ressaltar que algumas crianças deste grupo já participam de atividades físicas há algum tempo. 77 Acreditamos que o desenvolvimento cognitivo do portador de Síndrome de Down será tão mais efetivo quanto menor forem os estereótipos a limitarem as concepções que se tem desse. THE CHALLENGES OF PHYSICAL EDUCATION GENERAL DEVELOPMENT OF THE CHILD CARRIER OF DOWN SYNDROME ABSTRACT This article has as its theme the challenges of physical education for the General Developments of the child Carrier of Down syndrome. Is concerned with the inclusion of the bearer of Down syndrome, in an inclusive physical education can influence on your overall development. Research refers to the possibilities of how children with Down syndrome can do activities, if not equal, but the closest possible of what we call normal. To do so would only be necessary to include them in projects aimed at the inclusion in various motor activities and contact other so-called normal children carrying Syndrome or not. Were discussed, from analysis of lessons and works of researchers and educators, concepts, practical experiences and experiences in trying to find that the social inclusion of people with Down syndrome, from an early age, leads to a bigger and better quality of life. The theoretical reference based on the work of PUESCHEL on several possibilities for inclusion of people with this syndrome. From the analysis of narratives, comments from the students ' work and books published, we saw that: children with Down syndrome, included in motor activities, had a greater social development, affective, physical and intellectual when compared to those with this syndrome, who have not had access to a systematic work of inclusion. Keywords: Social inclusion. Down syndrome. Inclusive physical. Education. REFERÊNCIAS CIDADE, R. E.; FREITAS, P. S. Noções sobre educação física e esporte para pessoas portadoras de deficiência. Uberlândia, 1997. CORDE. Escola para todos. Brasília: Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa. CIDADE, R. E.; FREITAS, P. Educação física e inclusiva: considerações para a prática pedagógica na escola. SASSAKI, Romeu K. Inclusão. Construindo uma sociedade para todos. Rio de Janeiro: WVA 1997. DUARTE, E.; WERNER, T. 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Fortemente marcados pela religião católica, ambos não pouparam esforços para dinamizar esta mesma, partindo como veremos, particularmente de reflexões de ordem filosófica, pedagógica e política. Consideradas como estreitamente interligadas, estas últimas são vistas como elementos fundamentais para o verdadeiro progresso de uma nação. Palavras - chaves: Pedagogia. Universidade. Religião. 1 PEDAGOGIA CATÓLICA E UNIVERSIDADE BRASILEIRA A obra amorosiana a ser verificada, é intitulada “Debates Pedagógicos” (1931), e como boa parte do corpus maritainiano, esta também nasce a partir de uma reorganização de artigos já existentes, que comemoraram a reintrodução da educação religiosa na escola pública brasileira39. Desde as primeiras páginas desta obra, Amoroso Lima afirma que o escopo do seu perfil educacional consiste num enriquecimento espiritual40, capaz de favorecer um amadurecimento das raízes católicas, uma vez que no contexto sócio-religioso brasileiro, estas mesmas são continuamente ameaçadas pelo protestantismo estadunidense. A perspectiva educacional de Amoroso Lima, nos mostra que o Estado não deve proporcionar apenas uma unidade jurídica e política, mas deve considerar atentamente aqueles laços fundamentais que consistem na unidade espiritual da nação, pois a dispersão espiritual é a principal responsável pelos vários processos dissolutivos da identidade nacional. E como o perfil educacional amorosiano procura auxiliar na consolidação da nacionalidade brasileira? Através de uma atenta seleção dos princípios orientadores da atividade pedagógica. Estes mesmos princípios são identificados da seguinte maneira: o ideal, a realidade e o método pedagógico, sendo que este último acentua o escopo da formação 38 Doutorado em filosofia (ética social) pela Pontifícia Universidade São Tomás de Aquino – Roma / Itália), professor de “filosofia da educação” da FASE no curso de educação física ([email protected]). 39 «Não é inédito este livro. Reunião dos artigos que escrevi durante os meses deste ano, em que se esboçou, se elaborou, se promulgou e se discutiu a lei que reabriu as nossas escolas públicas ao ensino religioso – nada mais pretende ser que um depoimento». AMOROSO LIMA, Alceu, Debates Pedagógicos, Editora Schmidt, Rio de Janeiro, 1931, p. I. 40 «Quando as grandes figuras da revolução política de Outubro começam a dar o seu testemunho sobre os fatos, - também nós, adversários dos princípios revolucionários como elementos de progresso social, deviamos o nosso depoimento sobre a única revolução que defendemos – a revolução espiritual». Ibid., p. I. 80 educacional, a realidade considera o sujeito que inicia este percurso formativo e o ideal indica aqueles que são os fundamentos deste percurso41. É na busca de um escopo que caracterize a formação educacional que as pedagogias católica e moderna se encontram, mas também se separam, pois enquanto a primeira procura estabelecer um primado da pessoa sobre a sociedade, a segunda, terceiriza este mesmo primado no desenvolvimento das atividades sociais. Verifiquemos algumas considerações introdutivas de Amoroso Lima: Limito-me, nestas páginas de introdução, a explicar o motivo porque, nos capítulos finais desta coletânea, reuni os artigos em que tentei fixar alguns pontos de contato e outros de dissídio, entre a pedagogia católica e a pedagogia moderna. Partimos de um conceito comum: a necessidade de dar à pedagogia oficial uma finalidade que hoje não possui. Nós católicos defendemos a superioridade da pessoa humana sobre a sociedade. Os partidários integrais do modernismo pedagógico, da “escola nova”, estão no primeiro grupo, pois consideram a sociedade como superior à personalidade, sendo só ela originária na fixação de direitos e deveres 42. O primado que a pedagogia católica procura instaurar, nos autoriza a adjetivá-la como integral, pois o fato de compreender a sociedade como um órgão ao serviço da pessoa humana, a predispõe inteiramente a acolher uma concepção teleológica que reconhece na formação teológica, um válido ponto de partida para um crescimento tanto intelectual quanto interpessoal43. A nomenclatura da pedagogia integral que encontramos na obra “Debates Pedagógicos” é descrita através de duas dimensões, ambas constituídas por três aspectos. A primeira dimensão é claramente cronológica e a segunda, ontológica44. Nesta última encontramos os aspectos físico, intelectual e ético-religioso, enquanto na primeira, aqueles educativo, instrutivo e cultural45. Expondo esta sua pedagogia integral, Amoroso Lima realiza ainda um passo muito sutil que consiste na distinção entre centro e ideal, dizendo-nos que o fato de procurar um primado da pessoa não implica compreendê-la como escopo, mas sim como elemento formativo da atividade educacional46. 41 «Sob três aspectos principais, podemos considerar o problema pedagógico; a) o ideal pedagógico; b) a realidade pedagógica; c) o método pedagógico. Pelo primeiro conhecemos os princípios que nos devem nortear em todo o trabalho educativo. No segundo estudamos o próprio objeto da educação, isto é, a criança. “O terceiro é a pesquisa dos meios de aplicar o primeiro ao segundo, isto é, o ideal à realidade, a finalidade educativa ao ser humano a formar». Ibid., p. VIII. 42 Ibid., p. X. 43 «d) Essa concepção é governada pelo fim último em que se integram todos os fins parciais. O ideal moral, portanto, governa o ideal intelectual e social. e) A ética, por sua vez, se subordina à teologia, pois não vivemos em um estado de abstração filosófica ou moral e sim de realidade histórica. E pela teologia conhecemos os dados revelados de nossa posição real no mundo». Ibid., p. XI-XII. 44 «Quanto aos três planos ontológicos em que se distribui cada um desses momentos cronológicos, são – o físico, o intelectual e o moral e religioso». Ibid., p. XIV. 45 «Educação, instrução e cultura são, portanto, os três momentos cronológicos da formação pedagógica integral». Ibid., p. XIV. 46 «A criança é o objeto da formação e deve constituir o centro da escola”. Mas é preciso não confundir centro com ideal». Ibid., p. XVI. 81 Deste modo, a atividade pedagógica permanece livre das várias formas de idealismo metodológico-educacional, podendo assim evitar os erros característicos da escola ativa, que no ensino público brasileiro identificaram o método com o ideal pedagógico47. Após ter acentuado os delineamentos de uma pedagogia integral, Amoroso Lima passa a refletir sobre o conceito de universidade, utilizando algumas posições do ministro da Educação Francisco Campos48, que dinamizaram o discurso educacional brasileiro durante a primeira metade do século XX. Tais ideias visam o resgate de uma concepção integral da universidade, livrando-a das várias mutilações racionalistas49 que enfraquecem a sua capacidade incisiva sobre os quadros sociais hodiernos. E ainda, pretendem restituir ao processo educativo universitário, o seu aspecto genuinamente católico ajudando-o a redescobrir o seu caráter de universalidade. No perfil educacional amorosiano, estas mutilações racionalistas50 oriundas da revolução francesa, são as grandes responsáveis pelo empobrecimento do horizonte universitário, pois o compreendem apenas partindo dos elementos provenientes das ciências experimentais e sociais, num total detrimento dos fundamentos filosóficos e espirituais sobre os quais deve ser edificado. Este mesmo estreitamento da perspectiva educacional, dá origem a um ambiente universitário no qual as várias disciplinas que o animam, persegue uma pseudoautonomia, que exclui completamente a necessidade dos laços de solidariedade pedagógica 51, rejeitando qualquer ideia de complementaridade. Na concepção universitária amorosiana, encontramos um forte acento newmaniano que se reflete particularmente no fato de atribuir ao processo educacional universitário, uma função dinamizadora dos aspectos gnosiológicos que devem animar os quadros sociais. Neste acento newmaniano, Amoroso Lima encontra um grande esforço que visa alertar os aspectos gnosiológicos, quanto aos riscos unilaterais 52, que exprimem esta pseudoautonomia, instauradora de um completo isolamento de ideias. A posição newmaniana presente na concepção universitária amorosiana, se manifesta ainda numa abertura aos vínculos correlacionais, nos quais tanto a Igreja católica quanto o ambiente universitário53 devem interagir em prol de um enriquecimento do contexto 47 «E o mesmo ocorre com o método”. A ausência de uma hierarquia de finalidades nos leva muitas vezes a confundir método com ideal pedagógico. É o que sucede com alguns partidários da “escola nova”, da escola moderna por excelência, de Dewey ou Kerschensteiner». Ibid., p. XVII-XVIII. 48 «Não me ocuparei aqui com as funções políticas e sociais que o Sr. Francisco Campos atribui à Universidade. Desejo apenas acentuar o que disse em relação ao caráter “católico” e cultural da mesma». Ibid., p. 7. 49 «Tanto mais quanto hoje em dia o chamado “conceito moderno” de Universidade, que nasceu com Napoleão, depois que a Revolução de 1789 destruiu em França a Universidade oficial de base espiritual cristã, é um conceito puramente racionalista». Ibid., p. 9. 50 «Segundo essa concepção, a verdadeira base universitária é formada pelas ciências experimentais ou sociais e não mais pelas ciências filosóficas e religiosas. A universidade se transforma numa reunião inorgânica de faculdades, sem laço comum e que trabalham sem finalidade coletiva». Ibid., p. 10. 51 «A Revolução Francesa foi obra do individualismo em todos os terrenos. E do mesmo modo que destruiu o grupo das corporações medievais, na ordem econômica e social, por ser um atentado à liberdade individual de indústria e comércio, - destruiu também o regime universitário medieval, que era uma estrutura de solidariedade pedagógica, de ordem, de disciplina e, sobretudo de hierarquia das ciências, como tão nitidamente acentuou o Sr. Francisco Campos». Ibid., p. 10. 52 «A universidade é a protetora suprema de todo saber e de toda ciência, de fatos e de princípios, de pesquisas e descobertas, de experimentação e de reflexão... Ela não colocará, unilateralmente, em primeiro plano, qualquer domínio especial, por mais importante e nobre que seja. “Também não sacrificará nenhum deles». Ibid., p. 14. 53 «De Hovre diz que um dos princípios implícitos em Newman era que a – “Igreja tem necessidade da Universidade, mas também a Universidade não pode passar sem a Igreja. Toda a doutrina universitária de Newman assenta sobre essa necessidade que tem a Igreja. Não como fonte de verdade, mas como meio humano de expandir, de explicar, de adaptar e de desenvolver sua doutrina, como instituto para a alta formação de sua 82 sócio-educacional, auxiliando-o na construção de um horizonte vital sempre mais amplo e integrante. Ao longo da obra “Debates Pedagógicos”, descobrimos que as relações noéticas entre Amoroso Lima e o ministro da Educação Francisco Campos, não foram assim tão harmônicas, pois este último começou a apresentar uma ideia equívoca do caráter de catolicidade que deveria acompanhar a educação universitária brasileira, reduzindo-a a um simples aprimoramento artístico e literário54. Esta mudança das ideias educacionais de Francisco Campos nasce a partir de uma contínua adesão ao pensamento de Azevedo Amaral, que elaborava uma leitura econômica errônea, segundo a qual o contexto brasileiro seria caracterizado exclusivamente por tantas situações de emergência social, que se tornaria impossível uma abertura aos detalhes banais da educação filosófica e teológica nos ambientes universitários. Eis a posição de Amoroso Lima a este respeito: Não queremos metafísica e teologia para adornar a cabeça dos nossos estudantes. E sim para dar-lhes uma base prática indispensável para restaurar a ordem do espírito, condição da ordem na sociedade. Há, portanto, um verdadeiro pragmatismo espiritual, se é possível dizer, em nossa posição. E é um erro, um erro fundamental de interpretação do nosso ponto de vista, quando nos acusam de querer abandonar o estudo das coisas práticas pelo estudo de matérias supérfluas 55. O escopo da construção amorosiana era ainda aquele de fazer com que a educação universitária brasileira, evitasse os vários extremismos que caracterizaram a pesquisa científica durante estes dois últimos séculos, relativizando os casos observados, ou compreendendo-os como uma espécie de última palavra do trabalho científico. Para que a educação universitária brasileira supere estas posições extremistas, Amoroso Lima propõe uma séria avaliação da concepção científica de autores como Meyerson, que estabeleceram uma justa relação com os resultados estatísticos56, considerando-os apenas como momentos constitutivos da pesquisa científica, que não hesita em assumir uma atitude de abertura ao transcendente. Avocando este comportamento gnosiológico a educação universitária brasileira, evitaria os vários divisionismos azevedianos, que deturpam tanto o trabalho científico quanto a atividade metafísica, fazendo desta última uma simples elaboração conjetural e atribuindo exclusivamente ao primeiro, todo e qualquer valor de certeza. Originado a partir de elementos materialistas e positivistas, o pensamento azevediano que tanto influenciou a educação universitária brasileira e que suscitou inúmeras intervenções da parte de Amoroso Lima, reduz o ser ao ente sensível, instaurando um regime de supremacia fenomênica que além de esterilizar a investigação científica, decreta o fim da dinâmica metafísica. Eis o que Amoroso Lima nos diz: Esse é o ponto central do debate. O Sr. Azevedo Amaral afirma que só há ciência do fenômeno. E como a metafísica pretende ir «além da física» e portanto além do fenômeno, não pode a metafísica constituir uma ciência. É esse o ponto crucial. [...] O que pensa o Sr. Azevedo Amaral da ciência, não é o que pensa a ciência e sim o juventude, constitui a Universidade um órgão importante da Igreja. Mas a Universidade tem ainda mais necessidade da Igreja”». Ibid., p. 15. 54 «Espiritual e cultural têm o mesmo sentido na terminologia do eminente ministro da Educação e o que ele queria dizer não era que a Universidade devia ter uma base “espiritual”, como quer a concepção universitária realmente católica, e sim uma base mais ampla de cultura literária e artística». Ibid., p. 22. 55 Ibid., p. 33-34. 56 «Pois há filosofias da ciência, que só podem ser consideradas entre “as mais recentes” e que, entretanto repelem todo fenomenismo meramente “estatístico”, que outros aceitam. Refiro-me a uma da mais famosas filosofias científicas do nosso tempo: a de Emile Meyerson». Ibid., p. 43-44. 83 que da ciência pensam os positivistas e materialistas. [...] Por outras palavras, sua posição científica depende de uma posição filosófica preliminar. Todas as suas afirmações de empirismo científico estão precedidas de um postulado filosófico prévio e oculto, que é o seguinte: o ser é igual ao ser sensível 57. Na perspectiva amorosiana, a educação universitária brasileira deve apropriar-se daquelas válidas posições de Meyerson que concebem o momento metafísico como uma realidade tão intrínseca ao drama humano, que comumente é recitado de forma natural, espontânea e despercebida 58. Sendo assim, podemos afirmar que a posição amorosiana ao interno do dinamismo sócio-brasileiro, não hesitou em convidar a cultura católica a empenhar-se em favor de uma educação universitária capaz de estimar aqueles aspectos aristotélicotomasianos, que compreendem a tentativa de negação metafísica59, como o mais árduo dos exercícios metafísicos. Estes aspectos esclarecedores provenientes da elaboração aristotélico-tomasiana, são apontados por Amoroso Lima como elementos solucionadores dos equívocos positivistas que danificaram a educação universitária brasileira. Através de uma atenta análise destes aspectos, a educação universitária brasileira, poderia reorganizar a sua atividade científica, distinguindo-a nas suas dimensões fenomênica e substancial60, isto é interpretando as ciências positivas não como obstáculos, mas sim como diferentes direções rumo ao desafio metafísico. Contudo, o estatuto noético que pode tornar a educação universitária brasileira ainda mais fecunda, se fundamenta sobre uma ideia de filosofia61, que não despreza o trabalho das ciências positivas, mas ao mesmo tempo reconhece que enquanto estas últimas permanecem sobre a superfície do ser, a atividade metafísica procura atingi-lo na sua profundidade, conferindo aos mais variados resultados científicos, aquela unicidade gnosiológica própria da indivisibilidade do ser humano. 2. ENSINO RELIGIOSO E PEDAGOGIA ATIVA São no sexto capítulo da obra “Debates Pedagógicos”, que Amoroso Lima começa a deixar de lado a sua reflexão acerca da impostação educacional universitária, para recordar a presença do assim chamado governo provisório, que caracterizou o contexto sóciobrasileiro durante a primeira metade do século XX. Este último, como indicou no tópico anterior, elaborou a reintrodução do ensino religioso na escola pública brasileira, abrindo espaços para aquela revolução espiritual, que no 57 Ibid., p. 48. «Como escreve Meyerson: - “O homem faz metafísica como respira, sem querer e sobretudo sem saber que faz”». Ibid., p. 48-49. 59 «Aristóteles dizia que mesmo os que negam a metafísica precisam fazer metafísica para negar a metafísica». Ibid., p. 49. 60 «O que ha é que nos encontramos diante de duas concepções contraditórias de ciência. A concepção aristotélico-tomista, para a qual há ciência tanto dos fenômenos como das substâncias, [...]. E a concepção positivista (segundo a qual) só há um objeto de observações, os fatos e uma só noção deduzida da observação, as leis». Ibid., p. 49. 61 «Nós não consideramos de modo algum a ciência, todas as ciências em seu máximo desdobramento. Nós apenas completamos a imagem parcelada que do universo nos dão as diferentes ciências particulares, por uma ciência final da ordem natural, que é a filosofia. E essa, por sua vez, nos leva ao limiar da ciência da ordem sobrenatural, a teologia». Ibid., p. 51-52. 58 84 pensamento amorosiano, se manifesta sempre como revitalização das raízes católicas, consolidativas dos alicerces nacionais. Certamente hoje corremos o risco de tratar esta temática da educação religiosa no ensino público brasileiro como algo ultrapassado, inofensivo e por isso mesmo desmerecedor da nossa atenção. É bem verdade que terminamos nos habituando com a presença desta estranha disciplina ao interno dos nossos programas escolares, mas é importante recordar que a reintrodução da educação religiosa, instaurou um cenário de tensão ao interno do contexto sócio-brasileiro, pois esta medida foi encarada como um passo altamente desnecessário. O problema é que a questão da educação religiosa era tida como algo resolvido, mas na verdade tinha sido apenas esquecida e segregada nas prisões daquele silêncio omissivo, que são incapazes de conter um anseio tão profundo na gênesis sócio-brasileira, como é o sentimento religioso62. Uma das grandes bandeiras levantadas contra a reintrodução da educação religiosa na escola pública foi levantada pelo famoso Jornal do Comércio, que através dos seus maiores cronistas, apresentava a população brasileira uma posição religiosa totalmente desfigurada63. A reintrodução do ensino religioso no quadro educacional brasileiro é vista na perspectiva amorosiana, como um primeiro passo rumo à dissolução dos inúmeros preconceitos que a classe política brasileira sempre nutriu em relação ao pensamento católico, que não se limita a um processo educativo guiado exclusivamente pela instrução64, mas que proporciona uma sólida formação da pessoa considerada na sua realidade integral. As miragens produzidas através deste predomínio instrutivista, desaparecem quase que imediatamente, por falta de uma maior atenção aos aspectos formativos da pessoa humana e levam consigo até mesmo aqueles poucos elementos nocionais, que porventura tenha conseguido transmitir ao longo de um percurso educacional deficiente65. Mas as críticas dirigidas contra a reintrodução do ensino religioso atingiram também outra dimensão, que diz respeito ao fato que o contexto sócio-brasileiro sempre foi interpretado como uma grande meta imigratória para tantos outros povos com tradições, costumes e credos religiosos diferentes, e isto poderia ameaçar aquela tranquilidade fictícia que caracterizava a sociedade brasileira durante a primeira metade do século que acabamos de concluir. 62 «A controvérsia religiosa, não é dessas que o silêncio ou o tempo possam definitivamente abafar. O sentimento religioso é tão inato ao homem, como o amor à vida ou a curiosidade pelo saber. A aspiração religiosa existe em nós como existe o instinto de conservação. Julgar que o tempo a suprirá é contradizer a experiência unânime dos séculos e a observação constante dos homens. É uma atitude, portanto, nitidamente anti-científica». Ibid., p. 80. 63 «Sustentando de início a tese, perfeitamente defensável até certo ponto, de que – “a religião... é mais atribuição das mães do que da escola”, [Argus] acrescenta que a religião: - “é dessas disciplinas que não recompensam o tempo perdido com o seu aprendizado, nem o custeio pelo Estado de sua manutenção nas escolas”, pois, pergunta ele: - “em que consiste afinal o ensino religioso? Em fazer decorar às crianças algumas rezas, em divulgar a História Sagrada e os preceitos da moral”». Ibid., p. 81-82. 64 «Estudava-se muito, mas estudava-se em quantidade. Sentia-se que tudo aquilo que ali estava eram as pedras soltas de uma construção, à qual faltava, porém a argamassa. Nem mesmo a inócua cadeira de educação cívica, criada alguns anos mais tarde, fora ainda introduzida. Vivíamos sob o regime do absolutismo laicista, segundo o qual ao Estado cabia apenas dar instrução, ficando a educação entregue ao arbítrio de cada um». Ibid., p. 69-70. 65 «Aprendíamos muito, muitas coisas, mas sem saber por que aprendíamos, nem para que. Aprendíamos por aprender, sem ter noção nenhuma da finalidade, a não ser de um diploma que nos habilitasse a entrar para qualquer escola superior. O mais árido instrutivismo ou o mais deslavado utilitarismo dominavam em toda a linha. O resultado, na melhor das hipóteses, foi a formação de gerações sucessivas em que a instrução superava de muito a educação. Digo – na melhor das hipóteses – pois em regra geral a ausência de educação ou o seu arbítrio, tinha por consequência também o desmantelo da frágil coordenação propriamente instrutiva». Ibid., p. 70. 85 Na perspectiva amorosiana, apenas a escola privada era merecedora de elogios que de um lado acentuavam a manutenção dos recursos religiosos indispensáveis para o fortalecimento da nacionalidade brasileira e de outro, o empenho em prol da formação do público feminino. Estes centros educacionais, quase sempre organizados por instituições religiosas, foram os grandes responsáveis pela formação da alma feminina brasileira, que com enorme coragem transmitiu aqueles valores religiosos e familiares, que ajudaram a sociedade brasileira a realizar alguns passos qualitativos rumo a uma maior consciência da riqueza dos seus próprios recursos66. Na visão amorosiana, nem mesmo a reação de alguns grupos religiosos foi assim tão clara, e a obra que estamos apresentando neste momento, critica o comportamento dos protestantes no contexto sócio-religioso brasileiro67. Estes últimos optaram por uma espécie de laicismo pedagógico, propagando uma ideia de Deus que repousa apenas no conforto da consciência, sem instaurar uma concepção vital concreta e enraizada no hoje da história. Esta posição de total divergência entre a presença protestante no contexto sócioreligioso brasileiro e outros países que são considerados como tradicionalmente protestantes, sempre suscitou algumas perplexidades na posição amorosiana. Esta nos apresenta o dado educacional religioso como uma realidade muito mais desenvolvida em alguns países europeus, nos quais inclusive a cooperação entre católicos e protestantes é muito mais ampla e harmoniosa. A crítica contra a reintrodução do ensino religioso na educação pública brasileira provinha ainda de alguns adeptos da assim chamada escola ativa, dentre estes salientamos a presença de Gustavo Lessa, que interpretava esta iniciativa como uma verdadeira incompatibilidade pedagógica, capaz apenas de semear o medo do inferno e o desespero por um espaço no céu68. Apresentando uma pedagogia católica que assegura uma melhor realização daqueles que são os verdadeiros fins de um sólido percurso educacional, o pensamento amorosiano evidenciou os equívocos lessianos que pairavam sobre a reintrodução da educação religiosa, mostrando que longe de gerar uma atmosfera de passividade, esta ajudaria as gerações estudantis a realizar uma síntese vital indispensável dos conhecimentos adquiridos ao longo do trajeto educativo69. 66 «E se o mal ficou limitado, se muito tem sido possível salvar, podemos afirmá-lo que não foi graças ao Estado e sim graças a Igreja. Foi o trabalho incessante, - se bem que deficiente, pelas dificuldades de toda sorte – dos católicos em seus colégios primários, em seus ginásios de ensino secundário, em suas escolas normais, que ainda preservou o senso moral e religioso das populações e das elites sobretudo femininas. Os grandes colégios que formaram toda a alma feminina brasileira, foram em sua quase totalidade colégios religiosos. E daí o espetáculo admirável que vimos, durante esse período de pedagogia oficial sem Deus e sem deveres morais, das mulheres conservando, alimentando e transmitindo o tesouro de toda a fé tradicional da nação!». Ibid., p. 88. 67 «Mas aqui no Brasil, quando um governo, mais consciente da realidade espiritual da nação e da necessidade de respeitar os direitos das famílias na educação dos seus filhos, começa a reparar a violência de que era vítima a consciência religiosa das populações – é doloroso e instrutivo que o primeiro protesto que se levante seja um protesto... protestante. Um Congresso Evangélico, reunido aqui no Rio sob a direção de um ex-presidente do Estado do Espírito Santo, solicita do Chefe do Governo Provisório a permanência do regime laicista, do regime que eliminaria Deus da escola pública!». Ibid., p. 92-93. 68 «Essa objeção do Sr. Gustavo Lessa, é que o ensino do catecismo supõe uma pedagogia radicalmente contraria à “escola ativa”. E como esta, em sua opinião, é “o mais saliente triunfo da inteligência humana na via educacional”, deve-se condenar o ensino religioso de qualquer espécie. E a incompatibilidade entre as duas pedagogias está, a seu ver, em que “a pedagogia dos catecismos” repousa “no temor do inferno e na esperança do céu”, ao passo que a pedagogia da escola ativa – “oferecerá amplas oportunidades para que a criança pratique realmente as virtudes sociais e adquira o treino das decisões importantes”». Ibid., p. 108-109. 69 «Creio poder afirmar ao Sr. Gustavo Lessa, que se engana completamente quanto ao caráter de passividade que atribui à “pedagogia dos catecismos”. O que distingue exatamente a educação de base religiosa da educação de base sociológica, como a que defende a escola de Dewey, seguida pelo Sr. Gustavo Lessa, é que a finalidade 86 Prontamente atento as ondas que comportam uma agressividade estéril, o pensamento amorosiano apresenta sempre a sua distância dos dogmatismos e a sua contínua abertura ao diálogo, sobretudo quando convida o Sr. Gustavo Lessa a estabelecer uma relação entre os elementos característicos da escola ativa e aqueles provenientes da pedagogia católica. O sucesso deste diálogo na visão amorosiana, depende apenas da disponibilidade dos adeptos da escola ativa, em compreender que aquele primado da pessoa sobre a sociedade, proposto pela pedagogia católica70, é o caminho mais eficaz para uma progressiva atualização dos recursos propriamente humanos. Na verdade aquilo que a perspectiva amorosiana apresenta neste momento da obra “Debates Pedagógicos”, é que não existe uma pedagogia que seja mais ativa do que aquela proposta pela cultura católica71. Esta última promove um percurso educacional que procura formar tanto a vontade quanto a inteligência, evitando aqueles desvios sentimentalistas, que comprometem os esforços daquela escola que se auto adjetiva como um processo excepcionalmente ativo. A perspectiva amorosiana nos relembra que esta sua tentativa de relacionar as pedagogias católica e ativa, não constitui uma medida arbitrária. E afirma que o contexto sócio-educacional brasileiro conheceu apenas uma ideia deturpada da pedagogia ativa, pois os seus elementos originadores, foram elaborados por pedagogos católicos que certamente não a compreendiam como um programa educacional privado de um fundamento espiritual, mas sim como uma escola vital72. Retomando os elementos indispensáveis para o sucesso deste diálogo entre as pedagogias católica e ativa, a perspectiva amorosiana nos recorda ainda que esta última deveria assumir aquele fundamento filosófico-cristão que anima a inteira atividade educacional católica, evitando assim que a presença do materialismo pedagógico termine sufocando aqueles seus poucos resultados. Eis o que Amoroso Lima nos diz: A escola ativa sem uma filosofia ativa, isto é religiosa da educação leva fatalmente ao materialismo pedagógico, como de fato começa a fazê-lo. Quanto à que for informada por uma filosofia cristã, essa pode representar um progresso real no ensino, pois o problema dos métodos é um problema de filosofia e não de fé e, portanto deve ser resolvido de acordo com a sua maior ou menor racionalidade 73. espiritual governa toda a educação. Dá-se uma hierarquia gradativa entre a educação física, intelectual, social, moral e religiosa, sem prejuízo de nenhuma das ordens intermediárias de fins, mas subordinada a um fim de caráter superior». Ibid., p. 110. 70 «Ao contrário, assim, do que afirma o Sr. Lessa, nada há no ensino do catecismo que repila o que exista de bom na escola ativa. E há o que lhe falta, que é o senso da verdadeira finalidade da vida. A escola ativa pode ser boa ou má segundo a filosofia de valores a que esteja adaptada. Nós, católicos, por exemplo, julgamos que o sociologismo de Dewey e seus discípulos é insuficiente e superficial. Não basta preparar o indivíduo para a sociedade. Será passar do erro individualista para o erro socialista. Da deificação do indivíduo para a deificação da coletividade». Ibid., p. 112-113. 71 «[...] nós católicos, que temos um ensinamento concreto a comunicar e cuja instrução religiosa não se contenta de forma alguma com essa vaga concepção de um divino que muito mais tem de panteísta que de transcendental. A educação religiosa que transmitimos não é uma educação da sentimentalidade e sim da inteligência e da vontade. É portanto essencialmente ativa». Ibid., p. 116. 72 «E a perfeita compatibilidade entre educação católica e escola ativa, que o simples bom senso afirma sem hesitar, é além disso um fato histórico. Como todo o mundo sabe foi Kerschensteiner, em 1908, que lançou a ideia da “escola ativa”, se bem que Seidel tenha invocado a prioridade da ideia, aliás, em elaboração na pedagogia alemã desde meados do século anterior. Pois bem, quatro anos depois, em 1912, o grande pedagogo católico Franz Weigl estendia o conceito de “escola ativa”, ao trabalho espiritual, para a educação moral e religiosa pelo fato. Esse movimento ativista se estendeu entre os pedagogos católicos alemães, especialmente Kantz, Adrian e Goetzel, que desdobrou a “escola ativa” no que ele chamou a “escola vital”». Ibid., p. 117. 73 Ibid., p. 124. 87 É este fundamento filosófico-cristão que nos autoriza a identificar no quadro educacional católico, aquilo que a perspectiva amorosiana denomina como um verdadeiro substancialismo pedagógico. Este além de instaurar uma clara exposição axiológica, pode evitar as várias mutilações de um programa acadêmico deficiente, tornando-o amplo e integrante. Na sua obra “Debates Pedagógicos”, Amoroso Lima nos diz que: Não é apenas pelo substancialismo filosófico que nós católicos temos de lutar neste mundo que pensa poder viver só de aparências. Temos também de lutar pelo substancialismo pedagógico, que atribui à educação finalidades concretas segundo uma sábia hierarquia de valores, dos mais relativos aos mais absolutos. É a negação desse dinamismo puro, desse ativismo desordenado, destino de toda “pedagogia nova”, de toda “escola ativa”, quando pretende suprimir os preceitos e os conteúdos da educação, para limitar-se ao trabalho em si, à atividade sem outro fito que a própria atividade74. O esforço da perspectiva amorosiana no seu diálogo com os expoentes da pedagogia ativa consistia ainda em alertar quanto aos perigos provenientes do pragmatismo, que danificava aqueles poucos bons resultados provenientes da impostação educacional brasileira, limitando a atividade gnosiológica a um predomínio da ação e privando-a daquela sua dimensão primordial que consiste no ato intelectivo75. Foram certamente na corrente pragmatista que a pedagogia ativa encontrou os elementos da sua inadequada estrutura antropológica e gnosiológica, reduzindo assim a pessoa humana a uma espécie de maquinário, que deve ser utilizado unicamente na resolução dos mais variados problemas76. Esta estrutura inadequada faz com que de uma parte, a atividade pedagógica da escola ativa, estabeleça uma hegemonia do problema sobre o princípio e de outra, rejeite qualquer forma de critério autoritário, acusando este último de comprometer seriamente aquele que é concebido como ideal supremo do processo educacional, ou seja, a pura e simples pseudo-socialização da pessoa humana. Percorrendo as vias pragmatistas, a pedagogia ativa perde completamente a sua orientação, estacionando numa ideia confusa de filosofia, que se reduz a um conjunto de observações meramente opinativas77, e estas por sua vez, proíbem severamente o acesso ao ser das coisas existentes. Os frutos imediatos desta verdadeira baralhada filosófica se manifestam na elaboração de um alicerce pedagógico brasileiro, no qual a afetividade se apresenta como bússola da inteligência, e o automatismo como guia, tanto da vontade quanto da razão humana. Podemos encerrar aqui mesmo a nossa exposição acerca do perfil educacional amorosiano, mas não podemos deixar de acentuar as nossas considerações relacionais diante 74 Ibid., p. 129. «O neo-pragmatismo de Dewey nega à inteligência o seu objeto próprio, o ser, retendo-a numa função intermediária entre a potência e o ato: a ação. “Não pensamos para pensar; pensamos utilmente, para agir... O pensamento nasce da ação e a ação se exerce sobre as coisas. Os símbolos do pensamento precisam estar, pois, ligados a episódios reais de nossa experiência, para que tenham significação”. É o desdobramento pragmatista do postulado empirista de Locke, que continua a dominar todo o fenomenismo do pensamento moderno, essencialmente subjetivo e prático». Ibid., p. 146-147. 76 «[...] o filósofo e educador norte-americano John Dewey, com o seu “project method”, que é hoje nos Estados Unidos – “por assim dizer, o sistema nacional de ensino”. Esse sistema se baseia numa psicologia antiintelectualista. “O ponto de partida do pensamento é uma situação problemática, uma tentativa, um projeto... E a inteligência, do ponto de vista da observação científica, não é um fiat maravilhoso, mas tão somente a capacidade de resolver adequadamente os problemas que lhe se proponham”». Ibid., p. 146. 77 «Eles consideram a filosofia como uma simples atitude opinativa do indivíduo em face da vida – subordinando a filosofia às ciências analíticas, e invertendo os papéis que lhes são reservados numa sadia e harmoniosa consideração do problema». Ibid., p. 154-155. 75 88 do perfil educacional maritainiano, pois este é sem dúvida alguma, aquele que mais incidiu sobre a construção do nosso ilustre pensador brasileiro. É bem verdade que Jacques Maritain dedicou a sua obra Pour une philosophie de l’éducation, ao nosso famoso questionador das problemáticas sócio-brasileiras, dando prova de uma grande sintonia noética, mas isto não implica que os perfis educacionais em questão, percam os próprios traços peculiares. A finalidade do projeto amorosiano diante da posição universitária brasileira consistia numa progressiva abertura aos dados de uma filosofia que poderíamos definir como católica78, que além de resgatar a construção aristotélico-tomasiana, assumiria a função de apaziguar os diversos percursos gnosiológicos que formam o ambiente universitário. Seria importante ter bem claro que enquanto Maritain reorganizava Pour une philosophie de l’éducation, para oferecer uma caracteriologia geral de uma educação integral, Amoroso Lima reestruturava Debates Pedagógicos, não apenas para comemorar uma simples reintrodução do ensino religioso na escola pública brasileira, mas para convidar a organização universitária de então, a não sufocar os próprios anseios metafísicos. Sem recorrer a nenhuma espécie de terrorismo metodológico, constatamos que mesmo se o perfil educacional amorosiano, nasce com a intenção de preencher as lacunas encontradas durante o período do governo provisório no contexto sócio-político brasileiro, este mesmo não acentua devidamente, um possível contributo educativo na elaboração de uma política democrática, distanciando-se de uma das grandes preocupações presentes no perfil educacional maritainiano, que visa constantemente um empenho em prol de uma democracia humanizadora. Os tópicos aqui apresentados foram concluídos acentuando uma ideia de filosofia. No primeiro, esta última foi apresentada como uma atividade consciente das suas próprias capacidades, sem com isso menosprezar os demais resultados científicos. No segundo, após as várias tempestades pragmatistas, esta se apresenta quase como completamente priva da sua autoestima, elaborando apenas algumas simples sentenças caprichosas. Qual seria a relação que poderíamos estabelecer com aquela concepção filosófica maritainiana? Os autores em questão se identificam, no fato que a concepção filosófica amorosiana, também conserva uma criteriosa abertura aos dados do cristianismo. Através desta, os nossos pensadores conseguem individuar uma distinção importantíssima, que consiste de um lado na salvaguarda da própria natureza da filosofia e de outro, na reflexão sobre um determinado momento histórico no qual esta mesma se manifesta. Assim sendo, devemos num certo modo, expressar a nossa gratidão diante daquele momento de desordem sócio-política e, portanto também filosófica no contexto brasileiro, que levou Amoroso Lima a procurar algumas possíveis soluções, partindo de uma benéfica relação entre os elementos do cristianismo e aqueles provenientes do campo filosófico. Sabemos que diante da elaboração deste espaço, corremos o risco de construir uma imagem dos nossos pensadores como estudiosos que concentraram os seus esforços numa cega apresentação dos grandes feitos da cultura católica. Nem tudo, porém foi assim tão simples, pois quando necessário, as construções amorosiana e maritainiana, também reservaram duras críticas a esta última, acusando-a inclusive de frágil e imatura na reivindicação dos seus direitos79. 78 «E é por assim dizer o desdobramento deste gesto que desejo logo de início acentuar, registrando a preciosa declaração de sua última entrevista, quando assegura que no plano da Faculdade de Educação, Ciências e Letras, figura a seção de filosofia e que nessa seção haverá para a Igreja plena oportunidade de promover – “a criação de cadeiras de filosofia católica”». Ibid., p. 56. 79 «Não é fácil, porém, vencer as barreiras de preconceitos com que uma minoria sectária vem impondo, há quarenta anos, o seu arbítrio à vontade débil e sem bastante consciência dos seus direitos, de uma maioria católica indolente e dividida. A mentalidade da geração que está no poder foi formada durante esse período. E 89 Por fim, podemos constatar ainda que os nossos autores são unânimes, no fato de acusar a incapacidade do pensamento pragmatista, encontrando no seu teor simplesmente experimentalista, uma impossibilidade de concretização daquelas aspirações que constituem tanto o projeto democrático, quanto a proposta educativa sobre a qual este mesmo se fundamenta. MAIN POINTS OF THE BOOK “PEDAGOGICAL DEBATES” FROM ALCEU AMOROSO LIMA ABSTRACT For a better comprehension of the educational profile of Alceu Amoroso Lima, It will be shown an exposure of facts considering only two points correlated on which itself is based on, that is: the facts directed to the educational university pool and the reaction of some part of the society in that age, because of the reintroduction of the religious teaching on Brazilian Public Schools. In the article, it will be shown some signs that present strong noetic ways that made an union between Brazilian writer Alceu Amoroso Lima and French philosopher, Jacques Maritain. They were deeply influenced by Catholic religion and both of them did not spend an effort to move itself starting, as it will be shown, particularly from the philosophical, pedagogical and political reflections. They were deeply considered linked to each other, those last ones are observed as fundamental elements to the true progress of a nation. Keywords: Education. University. Religion. REFERÊNCIAS LIMA, Alceu Amoroso. Debates pedagógicos. Rio de Janeiro: Schmidt, 1931. ———. Pela reforma social. Minas Gerais: Spinola & Fusco, 1932. ———. Problema da burguesia. Rio de Janeiro: Schmidt, 1932. ———. No limiar da idade nova, Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1935. ———. Da tribuna e da imprensa. Petrópolis: Vozes, 1935. ———. O humanismo pedagógico. Rio de Janeiro: Stella, 1944. ———. Política. Rio de Janeiro: Agir, 1956. ———. O existencialismo e outros mitos do nosso tempo. Rio de Janeiro: Agir, 1956. ———. O problema do trabalho. Rio de Janeiro: Agir, 1956. LIMA, Alceu Amoroso (Org.). Integração econômica, social e política da América Latina, Rio de Janeiro: Agir, 1958. não pode deixar de ter sentido, em suas fibras mais profundas, a ação entorpecente do ópio laicista». Ibid., p. 6768. 90 ———. O trabalho no mundo moderno. Rio de Janeiro: Agir, 1959. ———. O espírito universitário. Rio de Janeiro: Agir, 1961. ———. Revolução, reação ou reforma? Rio de Janeiro: Tempo brasileiro, 1964. ———. Os direitos do homem e o homem sem direitos. Petrópolis: Vozes, 1999. 91 O PROCESSO DE GESTÃO DO CONHECIMENTO EM UMA INSTITUIÇÃO DE ENSINO SUPERIOR: UM ESTUDO DE CASO Paulo Rafael Monteiro Nascimento80 RESUMO Este artigo tem como objetivo analisar como a gestão do conhecimento foi aplicada no processo de ensino-aprendizagem de uma Instituição de Ensino Superior (IES) e como se verifica o processo de compartilhamento do conhecimento. A pesquisa teórico-empírica, que fundamenta este artigo se caracteriza como exploratória, um estudo qualitativo, e constitui-se em um estudo de caso. O método de coleta de dados empregado foi uma entrevista semiestruturada, a qual foi realizada com 5 (cinco) coordenadores de curso, 2 (dois) docentes integrantes do NDE (Núcleo Docente Estruturante). São discutidos os aspectos relativos ao conhecimento tácito e explícito, além dos processos de conversão do conhecimento. Palavras-chave: Gestão do conhecimento. Instituição. Ensino Superior. 1 INTRODUÇÃO A Gestão do Conhecimento (GC) tem se apresentado em várias pesquisas e discussões no que refere à sua aplicação em diferentes contextos organizacionais. São muitas as abordagens da Gestão do Conhecimento que verificamos na literatura. (SVEIBY, 1998; CHOO, 2001; CROSSAN et. al, 1999; MORESI, 2001; NONAKA; TAKEUCHI, 1997; ANGELONI, 2002). A partir de uma revisão da literatura acerca do assunto pretende-se explorar os modelos teóricos que explicam o processo de gestão do conhecimento no sentido de compreender as lacunas e apresentar o potencial competitivo das instituições envolvidas neste processo. Verifica-se uma significativa mudança na sociedade do conhecimento, uma vez que o volume de informações nos diversos veículos de comunicação está de alguma forma provocando as instituições a repensarem acerca de novas abordagens na coleta, tratamento e disseminação das informações como estratégia competitiva das organizações. A gestão do conhecimento (GC) tem recebido interesse crescente na área de gestão empresarial, pois há décadas se concluiu que a informação é um dos recursos mais críticos e que a sua capilarização, bem como a qualidade dessas informações pode proporcionar melhor desempenho das empresas (DAVENPORT; PRUSAK, 1998). A questão norteadora para o desenvolvimento deste trabalho foi a seguinte: Em que medida a implantação de uma plataforma de gestão do conhecimento em uma instituição de ensino superior auxilia o processo de ensino-aprendizagem educacional na visão dos gestores acadêmicos? A contribuição deste artigo está na discussão acerca da aplicabilidade 80 Doutorando em Administração pelo PROPAD/UFPE. Possui graduação em Engenharia Elétrica-Eletrônica Faculdades Reunidas Nuno Lisboa - Rio de Janeiro-RJ (1985) e graduação em Administração de Empresas pela Universidade Federal de Sergipe (1996). Especialista em Gestão Empresarial pela UFS e MBA em Executive Marketing pela FGV - Fundação Getúlio Vargas e Especialista em Gestão de Negócios de IES pela UNESA (RJ). Tem Mestrado Multidisciplinar em Desenvolvimento Humano e Responsabilidade Social pelo CEPPEV Fundação Visconde de Cairu (BA). Participa como pesquisador do GIPES (Grupo Interdisciplinar de Pesquisa em Sustentabilidade) na UFPE atuando na linha de pesquisa de Desenvolvimento Sustentável, com ênfase em Indicadores de Sustentabilidade e Turismo Sustentável. Atualmente é Diretor Geral da Faculdade Estácio de Sergipe - Estácio/FASE - Núcleo Sergipe. 92 de uma ferramenta de gestão do conhecimento dentro de uma perspectiva integrada das dimensões organizacionais, culturais e tecnológicas de um caso de uma instituição privada de ensino superior. 2. REFERENCIAL TEÓRICO Neste item, parte-se da questão da gestão do conhecimento, onde são conceituados os conhecimentos tácito, explícito e cultural. 2.1 Gestão do Conhecimento – Aportes Conceituais O conhecimento é uma mistura fluida entre as experiências estruturadas, valores, informação contextualizada e a percepção especializada que fornece uma estrutura para avaliar e incorporar novas experiências e informações, que origina e é aplicada nas mentes dos conhecedores. Na organização, torna incorporado não somente em documentos ou repositórios, mas também nas rotinas organizacionais, nos processos, práticas, e normas (DAVENPORT; PRUSAK, 1998). Castells (2005) evidencia termos tais como ‘sociedade da informação’ ou ‘era do conhecimento’, que expressam a exata medida da importância desses ativos para as organizações contemporâneas. 2.1.1 Tipos de Conhecimento Para Baskerville et. al. (2006) a informação consiste de fatos e dados que são organizados para descrever uma situação ou condição. O conhecimento se distingue da informação pela agregação de verdades, crenças, perspectivas e conceitos, julgamentos e expectativas. O conhecimento pode também tornar-se informação quando codificada em forma de símbolos como textos, mapas e imagens. Choo (2001) salienta que a organização do conhecimento possui informações e conhecimento que conferem uma vantagem especial, permitindo-lhe articular com inteligência e criatividade, ou seja, a organização do conhecimento está bem preparada para sustentar seu crescimento e desenvolvimento em um ambiente dinâmico. O conhecimento tácito é aquele gerado e utilizado no processo de produção do conhecimento formal configurando-se de ideias, fatos, suposições, decisões, questões, conjecturas, experiências e pontos de vistas (MORESI, 2001). Segundo (NONAKA; KROGH, 2009) o conceito de conhecimento tácito é a pedra fundamental para a teoria de criação do conhecimento organizacional e supre o conhecimento que é desarticulado com laços e sentidos, experiências, intuição e regras implícitas. Para Nonaka e Takeuchi (1997), o conhecimento tácito está associado à capacidade de agir das pessoas, às suas habilidades, expertises, experiências, competências, raciocínio, modelos mentais, conclusões, geração de ideias, opiniões, emoções, valores, intuição, criatividade e crenças. Por outro lado, o conhecimento explícito resulta do conhecimento tácito, podendo ser entendido como a materialização ou a representação do conhecimento de alguém a partir de algum tipo de registro, escrita ou mídia, e que possa ser transferido, transmitido, comunicado, visualizado, armazenado, preservado, compreendido e assimilado por outros. Assim, o conhecimento explícito age como um guia que leva as pessoas à produção de conhecimentos novos sejam eles tácitos ou explícitos. O conhecimento tácito é o conhecimento pessoal que está internalizado na sua experiência e revelado através do seu conhecimento prático, o conhecimento explícito é o 93 conhecimento codificado que está incorporado nos artefatos ou articulados nas regras e rotinas. O conhecimento cultural, por sua vez, consiste de suposições, crenças, valores que são utilizados para construir a realidade e contribuir para o significado de novas informações e novos conhecimentos (CHOO, 2001). A combinação, portanto, das duas formas de conhecimento, ou seja, tácito e explícito e entre os indivíduos e a organização constituirão quatro processos principais da conversão do conhecimento, que em conjunto resultam na criação do conhecimento propriamente dito (NONAKA; TAKEUCHI, 1997). Nonaka e Takeuchi (1997) salientam que a combinação é um processo de sistematização de conceitos em um sistema de conhecimento que permite a reconfiguração das informações existentes através da classificação, do acréscimo, da combinação e da categorização do conhecimento explícito, o que pode levar a novos conhecimentos. Este modo de conversão do conhecimento ocorre, por exemplo, nos eventos de educação formal e através das redes de informação e conhecimento codificadas, como Internet ou intranet existente dentro das organizações. A Figura 1 demonstra os quatro processos, que são o seguinte: 1) do tácito para o explícito (externalização), que configura-se em um processo de transformação do conhecimento tácito em conhecimento explícito, ou seja, de criação do conhecimento sendo expresso na forma de conceitos, hipóteses e modelos; 2) do explícito para o explícito (combinação), ou seja, trata-se uma combinação de diferentes tipos diferentes de conhecimento explícito; 3) do explícito para o tácito (internalização), que é o processo de incorporação do conhecimento explícito no conhecimento tácito; 4) do tácito para o tácito (socialização), refere-se ao processo de compartilhamento de experiência que resulta em conhecimento na forma de habilidades técnicas compartilhadas. Figura 1 – Os quatro processos de conversão do conhecimento Fonte: Adaptado de Nonaka & Takeushi, 1997 Para Nonaka; Krogh (2009, p. 635) “a criação do conhecimento organizacional é o processo de tornar disponível e amplificar o conhecimento criado pelos indivíduos tão bem quanto a sua cristalização e conexão desse conhecimento para um sistema de conhecimento organizacional.” A criação do novo conhecimento, portanto, segundo MORESI (2001), resume-se à conversão do conhecimento tácito em conhecimento explícito. Para uma organização o conhecimento no nível pessoal não agrega valor, a não ser que o indivíduo possa convertê-lo em conhecimento explícito, possibilitando que este conhecimento seja compartilhado com outros membros da organização. 94 Choo (2001) diferencia o conhecimento cultural dos demais tipos de conhecimento. Este tipo de conhecimento consiste de suposições, crenças e valores que são utilizados para construir a realidade e atribuir significado para uma nova informação e conhecimento. Angeloni (2002) apresenta que a gestão do conhecimento organizacional é um conjunto de processos que governa a criação, a disseminação e a utilização de conhecimento no âmbito das organizações. A importante função que as redes têm em relação às pessoas deve-se ao fato de as redes fazerem parte dos recursos que têm o papel de sensibilizar o indivíduo para a pesquisa constante, trazer informações novas, diminuir a rotina, ligá-lo ao mundo e aumentar a interação e o aprendizado das pessoas, contribuindo, assim, para a criação de novos conhecimentos (ANGELONI, 2002). O conhecimento, para que possa ser recuperado para uso, antes deve ser registrado de alguma maneira. Para ser perpetuado, o conhecimento necessita transcender o nível individual e tornar-se conhecimento coletivo da organização, pois segundo Davenport e Prusak (1998), o conhecimento que realmente importa para uma organização é aquilo que ela coletivamente sabe. O ambiente organizacional adequado para que a criação do conhecimento ocorra deve promover os trabalhos em grupo, facilitando que o indivíduo crie e acumule conhecimento (NONAKA; TAKEUCHI, 1997). A teoria do conhecimento é dividida em três partes, indicando a sua complementaridade entre as partes, a saber: 1) O conhecimento é crença verdadeira justificada e a veracidade de suas crenças baseia-se em suas interações com o mundo (NONAKA, 1994); 2) O conhecimento é a realidade da ação hábil (reconhece-se que alguém tem conhecimento através de seu desempenho na realização das tarefas) e/ou a potencialidade de definir uma situação de modo a permitir a ação hábil. O conhecimento permite que os humanos definam, preparem, formem e aprendam a resolver uma tarefa ou problema; 3) Conhecimento explícito e tácito ao longo de um continuum (NONAKA, 1994). Davenport e Prusak (1998) defendem que a aplicação do conhecimento pode gerar retornos crescentes e novas perspectivas para as organizações, principalmente na medida em que os ativos do conhecimento aumentam com o seu uso, uma vez que ideias geram novas ideias e o conhecimento compartilhado enriquece todos aqueles que dele participam. Para tanto, faz-se necessário uma melhor compreensão do tratamento dado pelas empresas quanto à manipulação do conhecimento. Nonaka (1994) entende que o processo de criação e disseminação do conhecimento seja antes de tudo, um processo de conversão social, no qual o conhecimento tácito e o conhecimento explícito se expandem dentro da organização em termos qualitativos e quantitativos. O conhecimento organizacional emerge quando os três modos de uso da informação estão ligados uns aos outros para construir uma rede maior de processos, através dos quais a organização constrói significados compartilhados sobre suas ações e de identidade, descobrindo partes e aplicando novos conhecimentos, e desta forma iniciando novos padrões de ação, através de pesquisa, avaliação e seleção de alternativas. Com base no autor, verifica-se que o compartilhamento de significados é um aspecto importante na gestão do conhecimento, no sentido de entender a sua contribuição nos processos de gestão da informação. A criação do conhecimento é precipitada por uma situação que identifica lacunas no conhecimento existente na organização ou no grupo de trabalho. Como as lacunas do conhecimento ficam no caminho de resolver um problema técnico ou relacionado com a tarefa, projetar um novo serviço ou aproveitar uma oportunidade (CHOO, 2001). 95 Pode-se verificar, no conceito de Davenport; Prusak (1998), que para a informação se transformar em conhecimento, as pessoas precisam fazer virtualmente todo o trabalho relativo a ele, pois as atividades criadoras de conhecimento se originam das pessoas e de seus inter-relacionamentos. O conhecimento é entregue através de meios estruturados e explícitos (como livros e documentos) e de contatos entre as pessoas, que vão desde conversas até relações de aprendizado (de caráter tácito). O processo de conhecimento produz resultados. O conhecimento é codificado, testado, avaliado e ainda sobrevivendo à estrutura de informação que ajuda o sistema adaptativo que é desenvolvido para se adaptar. Existem dois tipos de conhecimento nas organizações: i) testado, avaliado e crenças sobreviventes, e ii) testado, avaliado e sobrevivência, objetivos compartilhados e formulações linguísticas sobre o mundo. Sveiby (1998) aborda que o conhecimento possui quatro características básicas: tácito; orientado para a ação; sustentado por regras; e está em constante mutação. O autor destaca que, como a palavra conhecimento é uma noção com diversas conotações e como seu uso nem sempre é prático, o termo que melhor engloba todas as características anteriores é competência. A competência do indivíduo consiste em cinco elementos mutuamente dependentes: conhecimento explícito, habilidade, experiência, julgamentos de valor e rede social. Assim o termo competência é sinônimo tanto de saber quanto de conhecimento, caracterizando-se por uma capacidade de ação que engloba tanto ações de cunho prático (como cortar madeira e caminhar), quanto de cunho intelectual (como falar e analisar). O conhecimento organizacional, portanto, constitui-se em ativos de conhecimento individuais e coletivos que a organização pode utilizar para realizar suas tarefas. A base de conhecimento também inclui os dados e as informações sobre os quais se constroem o conhecimento individual e organizacional (DAVENPORT & PRUSAK, 1998). Choo (2001, p. 197) indica que ao concentrarmos as habilidades e conhecimentos dos seus membros, isto é capaz de envolver-se em aprendizado contínuo e inovação. A gestão do conhecimento é a gestão dos processos de informações que sustentam a criação de significado, a criação de conhecimento e a tomada de decisão. O artigo apresenta a seguir uma fundamentação teórica acerca da gestão do conhecimento, além da articulação com os sujeitos pesquisados. Na sequência é exposta a metodologia da pesquisa de campo, bem como a análise dos resultados obtidos. Ao final são apresentadas as principais conclusões verificadas no estudo, além das limitações encontradas e de sugestões para estudos futuros. Firestone e McElroy (2004) levantam que a produção do conhecimento é feita em quatro sub-processos: i) aquisição de informação; ii) aprendizagem individual e em grupo; iii) formulação da reivindicação do conhecimento e iv) evolução da reivindicação do conhecimento. A integração é feita por quatro sub-processos, todos dos quais podem utilizar os métodos de execução do tipo interpessoal, eletrônico ou ambos: i) disseminação da informação e conhecimento; ii) busca e recuperação; iii) compartilhamento do conhecimento; e iv) ensino (apresentação hierárquica do conhecimento produzido previamente). A aprendizagem individual e em grupo é um processo de autoconhecimento, que produz reivindicações de conhecimento para os níveis mais elevados de análise do processo de conhecimento. As tipologias apresentadas auxiliam na identificação dos modelos teóricos relacionados à gestão do conhecimento que fundamenta o estudo empírico da instituição pesquisada. 96 2.2 Dimensões da Gestão do Conhecimento No modelo proposto por Angeloni (2002), a gestão do conhecimento pode ser avaliada como um átomo, tendo suas dimensões interdependentes e interagentes. Esse modelo é constituído por três dimensões: infraestrutura, pessoas e tecnologia. Estas dimensões devem, portanto, coexistir, visto que, o modelo proposto é baseado em um sistema holístico. Cada uma dessas dimensões é composta por um conjunto de variáveis, que podem ser mais ou menos relevantes, do cenário em que será utilizado. 2.2.1 Dimensão Infraestrutura Esta dimensão, diversas variáveis devem ser avaliadas para a implementação do projeto, porém, inicialmente deve ser implementada quatro variáveis fundamentais, a visão holística, estilo gerencial, cultura e estrutura. Angeloni (2002) defende que uma visão holística parte do princípio que o ser humano possui a capacidade multidimensional no entendimento dos problemas, mas, é unidimensional na resolução dos mesmos. Com isso é fundamental que o conhecimento presente na organização seja gerenciável e possa ser agrupado em um único local, que seja amplo e irrestrito. Para que tudo isso seja possível, é necessária que a organização tenha um estilo gerencial aberto, a estrutura organizacional deve ser simplificada e flexível, permitindo a quebra de burocracias nos processos e diminuindo a hierarquização. Este novo estilo gerencial deve impactar na cultura da empresa, atingindo a todos os setores da organização, quebrando paradigmas das culturas organizacionais ao longo do tempo (ANGELONI, 2002). 2.2.2 - Dimensão Pessoas A dimensão pessoas está relacionada às características pessoais do conhecimento de cada indivíduo. Ela é composta pelas variáveis do modelo mental, aprendizagem, intuição, criatividade e competência. O indivíduo cria seus próprios modelos mentais à partir das crenças, valores, aspectos culturais, experiências profissionais e de vida, através do meio em que está inserido, definindo assim, a maneira de como essa irá agir. A rigidez no modelo mental criado pela organização estará proporcionalmente ligada à facilidade ou dificuldade de mudanças. Considerando que, a cada dia a competitividade mercadológica aumenta vorazmente, é fundamental que as organizações flexibilizem seus processos, e busquem a rápida adaptação as mudanças. Para Sveiby (1998), as pessoas desenvolvem as suas próprias competências – por meio do treinamento, da prática, de erros, da reflexão e da repetição - e, portanto, como é uma experiência pessoal e permeada de significados, não pode ser copiada com exatidão. Portanto, o grande desafio das organizações é tentar transferir a competência, seu mais valioso ativo intangível, de uma pessoa para outra. Dessa forma, a transferência do conhecimento pode ser feita mediante a informação / tecnologia (transfere informações articuladas, independente do indivíduo, estática, rápida, codificada e de fácil distribuição em massa) e a tradição / cultura (transfere capacidades articuladas e não articuladas, dependentes e independentes, dinâmica, lenta, não codificada e de difícil distribuição em massa). Angeloni (2002) destaca que é preciso que a organização tenha um rítmo contínuo de aprendizagem organizacional, visto que, a organização é responsável pela montagem do modelo mental de seus colaboradores. Portanto, a organização é única e exclusivamente responsável pela capacidade de adequar-se às mudanças exigidas pela dinamicidade do mercado. 97 Grande parte desse aprendizado é construída pela criatividade dos colaboradores envolvidos no processo e do compartilhamento dessas informações, muitas vezes, com base em fontes bem definida interna ou externamente, e outras vezes, baseados na intuição e no conhecimento tácito ANGELONI (2002). Crossan et. al.(1999) apontam quatro premissas-chaves para a estrutura do processo de aprendizagem: 1) A aprendizagem organizacional envolve uma tensão em assimilar novas aprendizagens e utilizar o que foi aprendido; 2) A aprendizagem é multinível: individual, de grupo e de organização; 3) Os três níveis de aprendizagem organizacional são interconectados pelos processos sociais e psicológicos: intuição, interpretação, integração e institucionalização (4 Is); 4) O processo cognitivo afeta a ação e vice-versa. 2.2.3 Dimensão Tecnologia Essa dimensão está diretamente ligada à criação, armazenagem, recuperação e distribuição do conhecimento dentro da organização. É consenso entre os autores dessa área, que a inovação é fundamental para o projeto de gestão do conhecimento, e a informática está intimamente relacionada a este conceito. De acordo com Angeloni (2002) as tecnologias da informação e a comunicação, estão relacionadas à capacidade de adaptação da empresa no ambiente volátil dos negócios. As tecnologias da informação especificamente auxiliam no processo de explicitação do conhecimento tácito sendo diretamente proporcional com os esforços que a empresa dispende. Em linhas gerais, a informática atende essas necessidades por intermédio de variáveis, como as redes, workflow, Gerenciamento Eletrônico de Documentos - GED/EED, portais, Business. Inteligence - BI, entre diversas outras tecnologias e ferramentas que podem ser utilizadas. Considerando que, a constante interação é o ingrediente fundamental para o projeto de gestão do conhecimento, as redes de computadores são ferramentas extremamente eficazes e úteis, na aproximação das pessoas com o conhecimento fisicamente distante, além de, facilitar a disseminação do conhecimento por intermédio da centralização dos esforços. Esta seção buscou apresentar as dimensões envolvidas no processo de gestão do conhecimento e auxiliar na compreensão de eventuais lacunas no processo de gestão do conhecimento da instituição pesquisada. 3 METODOLOGIA Nos itens anteriores foram expostas as considerações iniciais e a fundamentação teórica. Este capítulo apresenta os procedimentos metodológicos que serão utilizados para alcançar o objetivo deste trabalho. O presente estudo tem uma abordagem qualitativa e definida como um estudo de caso de natureza exploratória. A pesquisa qualitativa pode ser caracterizada como a tentativa de uma compreensão detalhada dos significados e características situacionais apresentadas pelos entrevistados, em lugar da produção de medidas quantitativas de características ou comportamentos (RICHARDSON, 2009). Minayo (1994) salienta que a abordagem qualitativa aprofunda-se no mundo dos significados das ações e relações humanas, um lado não perceptível e não captáveis em equações, médias e estatísticas. O termo “pesquisa qualitativa” quer dizer qualquer tipo de pesquisa que produza resultados não alcançados através de procedimentos estatísticos ou de outros meios de quantificação. Pode se referir à pesquisa sobre a vida das pessoas, experiências vividas, 98 comportamentos, emoções e sentimentos, e também à pesquisa sobre funcionamento organizacional, movimentos sociais, fenômenos culturais e interação entre nações (STRAUSS, 2008). Este estudo, portanto, é um estudo qualitativo que busca entender a partir da perspectiva dos entrevistados o processo de gestão do conhecimento de uma instituição de ensino superior. O estudo de caso permite uma investigação para se preservar as características holísticas e significativas dos eventos da vida real, tais como ciclos de vidas individuais, processos organizacionais e administrativos, mudanças ocorridas em regiões urbanas, relações internacionais e a maturação de alguns setores (YIN, 2001). Na pesquisa, utilizou-se uma amostra intencional. Foram utilizados os seguintes critérios, a saber: 1) Selecionaram-se coordenadores de curso e professores participantes do Núcleo Docente Estruturante – NDE, que trabalham na instituição de ensino superior pesquisada; 2) Cada participante deveria acumular pelo menos dois anos de experiência docente e que de alguma forma havia participado no planejamento e na implementação de projetos pedagógicos de cursos na sua área de especialidade, no sentido de assegurar que o informante detinha conhecimento do processo de ensino-aprendizagem; 3) Os respondentes já tiveram acesso ao sistema de gestão da instituição e dispunham de informação acerca dos procedimentos operacionais de compartilhamento do conhecimento. Os indivíduos desenvolvem significados subjetivos de suas experiências, significados dirigidos para alguns objetos ou coisas. Tais significados são variados e múltiplos, levando o pesquisador a buscar a complexidade dos pontos de vista em vez de estreitá-los em algumas categorias ou ideias (CRESWELL, 2010). O instrumento de coleta de dados baseou-se na entrevista semiestruturada. Em sua elaboração, conforme as recomendações de ROESCH (1999, p.32), a seguir: O grau de estruturação de uma entrevista em uma pesquisa qualitativa depende do propósito do entrevistador. Em entrevistas semiestruturadas, utilizam-se, questões abertas, que permitem ao entrevistador entender e captar a perspectiva dos participantes da pesquisa. Dessa forma, o pesquisador não está predeterminando sua perspectiva através de uma seleção prévia de categorias de questões, como no caso de quem utiliza um método quantitativo. A escolha por este tipo particular de entrevista se deve ao fato de permitir a definição prévia de alguns tópicos que devem ser elaborados e dirigidos aos entrevistados com a finalidade de provocar e revelar possíveis distorções, além de proporcionar a apreensão da coleta de informações subjetivas e objetivas das experiências vivenciadas pelos participantes de forma espontânea e, portanto, apresentando a complexidade e contradições entre os agentes pesquisados. No que se refere à análise de dados, foi realizada uma análise de conteúdo (BARDIN, 1977), buscando explicitar o conteúdo das entrevistas, através da análise da comunicação verbal dos entrevistados: na primeira etapa, organização dos dados, aconteceu depois de realizadas às entrevistas e transcrição dos textos, através de leitura flutuante visando maior familiarização com os achados. Na segunda etapa, os dados foram codificados a partir das unidades de registro, ou seja, foi realizada a exploração do material sob a forma de recortes ou fragmentos de texto, escolhidos de acordo com os preceitos teóricos achados relativos. Na terceira etapa se fez a categorização. Foram transcritas todas as sete entrevistas realizadas nesta pesquisa. Foram pesquisados cinco coordenadores de curso e dois professores participantes do Núcleo Docente Estruturante – NDE. 99 Conforme Merriam (1998), a análise de dados propicia o significado do material coletado indutivamente, entre o processo de descrição e interpretação dos achados da investigação, oriundos de descrição, temas ou categorias. Quadro 1 - Categorias de análise DIMENSÃO Tecnologia Pessoas/Cultura l Processo Administrativo CATEGORIA Grau de atualização das informações Envolvimento das pessoas no processo de compartilhamento das Informações Padronização de Informações e Grau de autonomia Comunicação Disseminação das Informações Fonte: Elaborado pelo autor DESCRIÇÃO Refere-se à agilidade das atualizações das informações. Trata-se de avaliar o grau de comprometimento das pessoas com a mudança cultural e consequentemente o nível de adesão ao processo de gestão do conhecimento. Refere-se ao impacto que o processo de gestão do conhecimento provoca no nível de autonomia dos docentes do ponto de vista da aplicação das práticas pedagógicas. Processo de transferência das informações (conteúdos das disciplinas). 4 ANÁLISE, DISCUSSÃO E SÍNTESE DOS RESULTADOS Neste item do artigo, é apresentada a descrição do caso, com ênfase na temática do processo de gestão do conhecimento adotado pela instituição. Foram apontados pelos respondentes na análise dos resultados os aspectos importantes da ferramenta de gestão do conhecimento, bem como os seus fatores críticos e limitadores. Dentre os aspectos importantes foram salientados o grau de padronização dos projetos pedagógicos de cursos e grau de acessibilidade e compartilhamento do sistema. Os aspectos que foram apontados pelos entrevistados como fatores críticos foram: a mudança da cultura organizacional e a participação limitada por parte dos atores envolvidos no processo de construção dos projetos pedagógicos. 4.1 Descrição do Caso Neste item, é apresentada a descrição do caso, com ênfase na ferramenta de gestão do conhecimento adotada pela instituição de ensino superior estudada. A gestão do conhecimento configura-se em relevante instrumento de auxílio na medida em que permite que a instituição consiga preservar as suas informações ao tempo em que garante o seu compartilhamento e a sua ampla utilização. A organização analisada foi uma instituição de ensino superior privada localizada no município de Aracaju no Estado de Sergipe. Esta instituição possui um sistema formal de gestão do conhecimento denominado SGC – Sistema de Gestão do Conhecimento que é responsável pela conversão do conhecimento tácito para o conhecimento explícito (Externalização, Disseminação, Internalização e Socialização). A proposta do referido sistema é integrar os ambientes de conhecimento disponíveis nas áreas de ensino (Diretoria de Ensino) e Universidades e Faculdades da mantenedora educacional e sistematizar a aprendizagem e o compartilhamento de conhecimento ao longo da realização dos projetos e processos da instituição. 100 Este sistema, em linhas gerais, é responsável pela elaboração, construção e implementação de projetos pedagógicos de cursos, abrigando, portanto, toda a inteligência de operacionalização dos conteúdos das disciplinas. Esta plataforma computacional dispõe os instrumentos de gestão e projetos pedagógicos que norteiam as principais ações da área acadêmica, entretanto as dimensões organizacionais e culturais são de grande relevância no que tange a assimilação deste modelo de gerenciamento e compartilhamento do conhecimento. Cyert e March (1963) distinguem quatro principais tipos de procedimentos baseados em regras: regra de desempenho de rotinas, regras de manutenção dos registros organizacionais, regras de tratamento de informações e regras de planejamento. Busca-se um alinhamento entre o Sistema de Gestão do Conhecimento (SGC) e os conteudistas (professores que elaboram os conteúdos programáticos de determinada disciplina de uma área específica do conhecimento contida no projeto pedagógico do curso), coordenadores de curso e professores que atuam no Núcleo Docente Estruturante – NDE. O conteúdo é constituído de ementa da disciplina, o conteúdo programático, propriamente dito, e as referências bibliográficas. Conforme apresentado na figura 2, o Sistema de Gestão do Conhecimento da instituição de ensino superior estudada está estruturado, em projetos pedagógicos de cursos que obedecem as diretrizes curriculares do Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) e do Projeto Pedagógico Institucional (PPI) do Ministério da Educação, que são desdobradas em disciplinas, planos de aulas e seus respectivos assuntos. O processo de gestão do conhecimento da referida instituição está estabelecida em três etapas bem definidas: Eventos de coleta de dados, Análise e validação dos dados e Consulta e disseminação das informações. A etapa de evento de coleta de dados se refere ao período de construção dos projetos pedagógicos de curso, propriamente dito. Nesta etapa são levantadas todas as informações referentes às disciplinas específicas das suas respectivas áreas de conhecimento elaboradas pelos professores-conteudistas. Os conteudistas são selecionados a partir de critérios bem estabelecidos, como: tempo (quanto) que ministra a disciplina, avaliação institucional e titulação aderente à área. A etapa de validação e análise dos dados refere-se à fase na qual os conteúdos programáticos são disponíveis e compartilhados pelos coordenadores e docentes participantes do Núcleo Docente Estruturante – NDE para uma ampla discussão acerca dos conteúdos, através de fórum de debate, chats e e-mails. Este processo permite a reavaliação, recomendação e alterações dos respectivos conteúdos. A etapa final, ou seja, a etapa de consulta e disseminação das informações se dá através da explicitação das aulas dos docentes que obedecem aos conteúdos programáticos aderentes aos Projetos Pedagógicos dos Cursos (PPCs) que foram construídos de forma compartilhada. A externalização desse processo se verifica, também, através do material didático que é resultado da construção compartilhada do conhecimento dos docentesconteudistas e da ampla discussão dos docentes participantes do SGC (Sistema de Gestão do Conhecimento). Em analogia ao modelo proposto por Nonaka e Takeushi (1997), poderíamos atribuir a etapa de coleta de dados dos docentes conteudistas (conhecimento tácito), portais de interação (transformação do conhecimento tácito para explícito) e material didático e aulas presenciais (conhecimento explícito). Este conhecimento explícito é convertido em conhecimento tácito, e volta a ser convertido em explícito na transformação em registros de conhecimento. 101 Figura 2 - Mapa Conceitual do Sistema de Gestão do Conhecimento da IES SISTEMA DE GESTÃO DE CONHECIMENTO SGC se divide em Projeto Pedagógico de Curso - PPC Disciplina Aula Projeto Pedagógico de Curso - PPC Projeto Pedagógico de Curso - PPC Disciplina Aula Disciplina Aula Disciplina Aula Disciplina Aula Disciplina Aula Disciplina Assunto Assunto Assunto Assunto Assunto Assunto Fonte: O autor 4.2 Análise dos Resultados Confrontaram-se as informações obtidas pelas entrevistas com a fundamentação teórica realizada, no intuito de analisar aspectos convergentes e divergentes, inerentes ao processo de implementação da gestão do conhecimento em uma instituição de ensino superior. Os resultados foram divididos quanto às categorias temáticas. A análise dos dados indicou que os entrevistados, no geral, veem a gestão do conhecimento da instituição de ensino superior pesquisada como inovadora e muito importante para o processo de ensino-aprendizagem, e que contribui de forma significativa para a dinâmica do processo educacional. 4.2.1 Dinâmica de Atualização de Dados Com relação à dinâmica de atualização, “o SGC traz um potencial competitivo importante, na medida em que, as contribuições de todos os atores, a exemplo de coordenadores, professores e conteudistas, e são atualizadas em tempo real proporcionando sobremaneira uma maior precisão e confiabilidade dos dados, além de permitir que as atualizações, sejam elas através de recomendações regulatórias ou por iniciativa da própria IES garantindo uma maior qualidade acadêmica”, esta foi a impressão de um coordenador. Ficou evidenciado na maioria dos entrevistados, entretanto, que muitos conteudistas demoram a postagem dos projetos, o que impacta negativamente na operacionalização do SGC, e de certo modo as atualizações do sistema. Não obstante, as declarações de grande parte dos entrevistados que apontam problemas isolados de atualização de dados, não ficou demonstrado que esta categoria compromete o processo de gestão de conhecimento da IES. A base tecnológica e de 102 informações são de ponta, e eventuais problemas de atualização estão relacionados mais a questão geográfica e de capilaridade do que propriamente de volume de acessos. 4.2.2 Grau de Envolvimento das pessoas no processo de compartilhamento das Informações Buscou-se entender nesta categoria como os coordenadores e docentes do NDE analisam o grau de envolvimento das pessoas, comunidade acadêmica, com o processo de gestão do conhecimento. Alguns pesquisados foram uníssonos ao expressar que o sistema de gestão do conhecimento é complexo, baixa participação e pouca produção acadêmica. Além desses aspectos, há uma lentidão na postagem de produções o que acaba por reduzir o grau de participação e de discussão de temas importantes. Para Nonaka (1994) apresenta que a experiência compartilhada facilita a criação das “perspectivas comuns” as quais podem ser compartilhadas pelos membros do time como uma parte dos seus respectivos corpos do conhecimento tácito. O modo dominante da conversão do conhecimento envolve a socialização. Várias formas do conhecimento tácito que são trazidos ao campo pelo indivíduo são convertidas através da coexperiência entre eles para formar uma base comum de entendimento. Em contraposição à experiência apresentada pelos entrevistados, Moresi (2001) salienta que para se realizar um gerenciamento efetivo do conhecimento é necessário, dentre outros aspectos, assegurarem que o conhecimento esteja disponível com oportunidade nos locais de tomada de decisão. [...] há uma passividade dos colaboradores. Faltam de interesse, prioridade e disciplina. Além disso, não há um gerenciamento que consciente as pessoas a participarem mais [...] (Docente NDE). [...] na perspectiva de um docente, o SGC deveria ser mais acessível e divulgado, pois muitos docentes não conhecem a ferramenta, e dessa forma não se comprometem com a sua implementação em sala de aula. Nessa perspectiva, entende que as senhas de acesso deveriam ser ampliadas para um número maior de professores, pois o acesso se limita apenas a visualização dos projetos e ementas, mas na sua construção se restringe aos coordenadores, professores indicados pela coordenação e aqueles que participam do Núcleo Docente Estruturante (NDE), além dos docentes-conteudistas. Registrou-se que de uma forma geral há uma percepção de baixa utilização da ferramenta no aspecto referente às discussões dos projetos pedagógicos de cursos nos chats que são promovidos no SGC impactando na baixa qualidade dos referidos projetos preservando em certa medida as características originais concebidas pelos conteudistas, que em certa medida, compromete a concepção de compartilhamento de conhecimento. 4.2.3 Padronização das Informações e Grau de Autonomia Como salienta Choo (2001), os significados e propósitos comuns ajudam a especificar uma agenda compartilhada organizacional, um conjunto de questões que as pessoas na organização como sendo importante para o bem-estar da organização. Na visão de um coordenador, por exemplo, a padronização significa “engessamento”, pois se deve seguir rigorosamente o Projeto Pedagógico de Curso, “o que de alguma forma limita a criatividade, e não propicia o exercício da construção do conhecimento, e que preconiza em sua essência a liberdade”. Na perspectiva de um docente da área de saúde, há uma concordância com o modelo padronizado, pois há segurança de que os Projetos Pedagógicos de Curso serão 103 cumpridos “à risca”, o que permite uma maior qualidade do curso, pois os docentes seguem um padrão geral das disciplinas, as quais foram desenhadas em conformidade com as diretrizes curriculares do MEC: “[...] a padronização vai ajudar ao aluno a comparar se o assunto está sendo dado, ou se o professor está descumprindo as orientações do MEC, e trabalhando de forma individual e isolada, e trazendo algum prejuízo para o aluno. (coordenador).” Verificou-se nesta categoria a forte preocupação com a autonomia pedagógica do docente, e a falta de liberdade de atuação contextualizada em sala de aula, pois na medida em que os projetos pedagógicos de cursos estão sob um “guarda-chuva” regulatório, e que os procedimentos pedagógicos e de conteúdo são rigorosamente aplicados reduz-se em alguma medida a flexibilidade dos que fazem a educação. Esta foi a perspectiva trazida por um docente pesquisado, mas que encontra contraposição a posição de um coordenador que entende que o docente tem um grau de autonomia e tem sim espaço para a complementação do projeto pedagógico de forma criativa e inteligente. O conceito de compartilhamento de informações pressupõe inicialmente perda de autonomia, que não se verifica na realidade, pois existem várias formas de coexistência do processo de ensino-aprendizagem que não invalida o Sistema de Gestão do Conhecimento. O que se verifica de fato é a descrença e o descompromisso de certos profissionais da educação com relação ao processo de ensino-aprendizagem atribuindo à falta de autonomia importantes limitações do Sistema de Gestão do Conhecimento. (docente) 4.2.4 Processo de disseminação de informações O processo de disseminação de informações na IES pesquisada é feita através do resultado ou produto das discussões e debates acerca dos projetos de cursos e conteúdos programáticos que são tangibilizados, através do material didático ou das aulas expositivas (conhecimento explícito). A maioria dos entrevistados indicou que a disseminação das informações apresenta uma grande abrangência e em alguma medida asseguram o fluxo contínuo de informações, entretanto a questão geográfica e de capilaridade dificulta este processo: “[...] a disseminação da informação depende da boa-vontade das pessoas envolvidas e a importância que elas dão para as informações.” 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este estudo procurou analisar como a gestão do conhecimento se processa em uma Instituição de Ensino Superior (IES) sediada em Aracaju (SE), através da implementação e operacionalização de um sistema computacional que produz projetos pedagógicos de cursos aplicação em sala de aula. Dessa forma, através da análise teórica e dos dados empíricos levantados, fizeram-se algumas considerações de forma a responder a pergunta norteadora da pesquisa: Em que medida a implantação de uma plataforma de gestão do conhecimento em uma instituição superior contribui para o processo de ensino-aprendizagem na visão dos gestores acadêmicos? Das quatro categorias consideradas no estudo, foi identificado que a categoria grau de envolvimento das pessoas no processo de compartilhamento das Informações suscitaram uma discussão maior por parte dos entrevistados. 104 Ressalta-se que foram encontradas evidências de limitação do grau de autonomia dos participantes, portanto ainda se faz necessário investir em algumas ações estratégicas de forma a deixar mais claras o componente cultural que ainda se manifesta em alguns docentes. Neste sentido é necessário que a instituição estimule os colaboradores (docentes) a participarem mais do processo de coleta das informações. Na etapa de análise e validação é fundamental que seja assegurado o tempo para realização das discussões e debates. Na etapa de disseminação os aspectos culturais e de maior resistência à mudança deverão ter um acompanhamento contínuo e de todas as fases do processo, além de identificar qual o tipo de conhecimento tem maior relevância e para quem deve ser dirigida a informação. Deve-se, também, buscar a melhor forma de disseminar o conhecimento, ou seja, através de eventos, e-mails e intranet. As redes operam ao longo de vários processos que se reforçam uns aos outros: grandes empresas que se descentralizam a si próprias enquanto redes de unidades semiautônomas; pequenas e médias empresas que formam redes de negócios, mantendo a sua autonomia e flexibilidade enquanto tornam possível a utilização conjunta de recursos para atingir a massa crítica, conseguindo assim competir no mercado; pequenas e médias redes de negócios que se tornam fornecedores e subcontratados para uma série de grandes empresas; grandes empresas, e as suas redes auxiliares, comprometidas em parcerias estratégicas em vários projetos relativos a produtos, processos, mercados, funções, recursos, sendo cada um destes projetos específicos, e, contudo, construindo uma rede específica em torno de determinado projeto (CASTELLS, 2005). Reforça-se que a gestão do conhecimento de uma organização está diretamente relacionada à uma gestão com decisões integradas entre as suas áreas. Isso favorece a interdependência de suas ações. Além disso, sua capacidade de compartilhamento está relacionada ao seu posicionamento rápido e inovador com relação às demandas internas e externas. Também se sugere analisar outras categorias visando cobrir toda a questão da gestão do conhecimento, uma vez que é um assunto ainda considerado polissêmico quanto à definição dos seus critérios. Assim sendo, diante dos achados verifica-se que os atores da IES pesquisada possuem uma grande preocupação em proporcionar serviços de qualidade à sociedade local através de práticas que atendam os critérios de compartilhamento de informações, apesar de ainda existirem algumas práticas que são meras rotinas gerenciais. Foi identificado um alinhamento entre as ações e práticas docentes, e, destacamos que os critérios de gestão do conhecimento referente a grau de padronização das informações e grau de autonomia carecem de maior atenção por parte dos dirigentes das organizações pesquisadas visando à gestão do conhecimento. Diante do exposto, observa-se que a IES pesquisada precisa integrar mais as práticas de gestão do conhecimento voltadas não só para as práticas pedagógicas, mas, sobretudo garantir que outras dimensões da gestão organizacional estejam harmonicamente integradas e fluidas no processo de compartilhamento de informações. Espera-se que este estudo tenha contribuído para o entendimento da questão acerca da gestão do conhecimento em uma IES. Bem como, sirva de subsídio para futuras pesquisas e, sobretudo, para a melhoria da gestão do conhecimento das organizações pesquisadas e de outras IES. 105 THE PROCESS OF KNOWLEDGE MANAGEMENT IN AN INSTITUTION OF HIGHER EDUCATION: A CASE STUDY ABSTRACT This article aims to analyze how knowledge management was applied in the teaching-learning in a Higher Education Institution (HEI) and as shown in the process of knowledge sharing. A theoretical and empirical research that underlies this article is characterized as exploratory, qualitative study, and is in a case study. The method of data collection used was a semistructured interview, which was conducted with five (5) course coordinators, two (2) faculty members from NDE (Nucleus Teacher Structuring). We discuss aspects of tacit and explicit knowledge, and the processes of knowledge conversion. Keywords: Knowledge management. Institution. Higher Education. REFERÊNCIAS ANGELONI, M. T. 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Em muitas ocasiões, esses significados e suas perspectivas, são inconscientes para quem os possui. Na sala de aula, o perfil do pesquisado (professor e/ou aluno) é construído socialmente, tanto pelo etnógrafo quanto pelo ator social, envolvendo a cultura escolar na sua totalidade em particular ou nas interações interpessoais no âmbito da instituição. Preocupa-se com a descrição densa, a mais completa possível, e do que é objeto de observação intensiva participante, interpretando-os como categoria denominada de cultura. No aspecto da sua metodologia, faz uso da indução, procurando distinguir e selecionar o que deve ser importante para a pesquisa. Possui abordagens qualitativas direcionadas à microanálise, com a declaração da forma como os dados foram validados por meio dos processos indutivos e de triangulação. Este artigo objetiva demonstrar as principais abordagens etnográficas entre os séculos XIX e XX e suas perspectivas, bem como tendências no âmbito da educação nos dias atuais. Palavras-Chave: Abordagens históricas. Etnografia. Educação. 1 INTRODUÇÃO Etnologicamente falando, o termo antropologia deriva do grego (anthropos – homem; logos – estudo), significando o estudo do homem na sua totalidade. Tem como objeto de estudo o homem e suas obras, englobando tanto as formas físicas primitivas e atuais do homem, como suas manifestações culturais (MARCONI; PRESOTTO, 2006). O estudo sistemático do homem como membro de uma sociedade, leva ao seu entendimento e compreensão como ser humano biológico pensante, produtor de culturas e participante da sociedade, de forma a entender a sua existência humana. Diante das suas particularidades, a antropologia assume um vasto campo de investigação, abrangendo “no espaço, toda a terra habitada; no tempo, pelos menos dois milhões de anos e todas as populações socialmente organizadas” (MARCONI; PRESOTTO, 2006, p. 3). Sob essa perspectiva os interesses teóricos, subdividem-se em dois grandes grupos de estudos, sendo eles: antropologia física e antropologia cultural. Na antropologia física ou biológica, o estudo se direciona para a natureza física do homem, procurando conhecer suas origens e evolução, vinculando-se às áreas: paleontologia 81 Mestre e Doutora em Geografia – UFS e Pós-doutora em Estudos Culturais pelo PACC/FCC/UFRJ; professora da Universidade Tiradentes – UNIT, Professora da Faculdade Estácio de Sergipe-Estácio FaSe. 82 Mestre em Comunicação e Cultura – UFRJ; professora da Universidade Tiradentes – UNIT e Faculdade de Negócios de Sergipe-FANESE. 83 Graduada em História pela Universidade Tiradentes – UNIT; professora contratada da Rede Estadual de Sergipe. 108 humana, somatologia, raciologia, antropometria e estudos comparativos do crescimento, ocupando espaço nas Ciências Biológicas e Naturais, que abrangem também a Zoologia, a Anatomia, a Fisiologia e a Medicina. Já a antropologia cultural, preocupa-se com o estudo do homem enquanto ser cultural, investigando no tempo e no espaço, suas origens, desenvolvimento, semelhanças e diferenças, analisando-o em todas as suas dimensões. O seu objetivo básico consiste no problema da relação entre todos de comportamento instintivo (hereditário) e adquirido (por aprendizagem), bem como o das bases biológicas gerais que servem de estrutura às capacidades culturais do homem (HEBERER, 1967 apud MARCONI; PRESOTTO, 2006, p. 5). No aspecto biológico, mediante as diferentes formas de comportamento, abrange o caráter biocultural do seu desenvolvimento. Na tentativa constante de descrição das sociedades humanas, conforme suas particularidades faz uso da etnografia, ramo da ciência da cultura, que por razões teóricas e práticas, visa uma reconstituição fiel, de grupos humanos, com base na observação e análise das suas estruturas e relações sociais. A etnografia tem como objeto de estudo, as culturas simples, conhecidas como ‘primitivas’ ou agrárias. [...]. São grupos humanos que se opõem às sociedades complexas ou civilizadas. Também estas podem constituir-se em foco de atenção ao etnógrafo, como, por exemplo, o interesse no estudo de sociedades rurais (MARCONI; PRESOTTO, 2006, p. 5-6). O etnógrafo dedica-se ao conhecimento da cultura material e imaterial dos grupos, na procura do seu entendimento, observa, descreve, investiga e a reconstitui, assumindo a postura de um investigador de campo, dedicado à coleta de material referente a todos os aspectos culturais passíveis de ser observados e descritos – primeiro passo da pesquisa antropológica. Relaciona-se intimamente com a Etnologia, de tal forma que o pesquisador deve ser, ao mesmo tempo, etnógrafo e etnológico (MARCONI; PRESOTTO, 2006, p. 6). A análise descritiva das sociedades humanas requer comparação, interpretação e explicação, consistindo no levantamento de todos os dados possíveis sobre a sociedade ou o grupo em estudo, cumprindo com o rigor metodológico necessário à investigação, visando conhecer melhor o seu estilo de vida e a cultura específica, valendo-se de em alguns casos, dos vários métodos e técnicas, utilizados concomitantemente com o método etnográfico. De modo geral, no estudo antropológico, em especial no campo biológico, são utilizadas técnicas clássicas da Antropologia Física, ou seja, a mensuração, ao lado de outras mais modernas, de datação. Para tanto, a coleta intensiva de dados vem sendo feita há mais de um século, usando-se a mensuração como principal técnica no trato desse material. [...]. [No cultural], o antropólogo desenvolve recursos e técnicas de pesquisa ligada à observação de campo. Este é o seu laboratório, onde aplica a técnica da observação direta, que se completa com a entrevista e a utilização de formulário para registro de dados (MARCONI; PRESOTTO, 2006, p. 14). Enquanto método científico, a etnografia assume um conjunto de concepções e procedimentos para fins do conhecimento do objeto analisado. Este método data do final do século XIX e inícios do XX. São considerados pais da Etnografia contemporânea, os 109 pesquisadores Franz Boas (americano de origem alemã) e Bronislaw Malinowski (polonês naturalizado inglês) (LAPLANTINE, 1993, p. 77). 2 RETROSPECTIVA HISTÓRICA E METODOLÓGICA DA ETNOGRAFIA ENTRE OS SÉCULOS XIX E XX Em fins do século XIX e inícios do século XX, dois pesquisadores tiveram destaque no campo investigativo antropológico. O primeiro deles, Franz Boas (1858 – 1942), iniciou o método etnográfico, especificando, que todas as observações realizadas no campo de pesquisa fossem anotada o mais fiel possível, com o cuidado de relacioná-las ao contexto particular no qual se inscrevia, considerando o domínio da língua da cultura investigada, de forma a compreendê-la, visando facilitar o recolhimento das informações diretamente dos interlocutores. Os seus ensinamentos serviram para formar a primeira geração de antropólogos americanos, dentre eles: Kroeber, Lowie, Sapir, Herskovitz, Linton, R. Benedict e Margareth Mead (LAPLANTINE, 1993, p. 79). O segundo, Bronislaw Malinowski (1884 – 1942), passou a dominar a cena antropológica, a partir de 1922, com a publicação de sua obra: Os Argonautas do Pacífico Ocidental, até sua morte em 1941. Foi o pesquisador que iniciou a prática da pesquisa participante total, no momento em que passou a viver com as populações que estudava e a recolher seus materiais e idiomas, rompendo ao máximo os contatos com o mundo exterior (LAPLANTINE, 1993, p. 80). Nesta mesma época, procurou esclarecer o Kula e sua significância, representado pelo transporte entre os arquipélagos melanésios de colares e pulseiras de concha, identificando não apenas a troca simbólica que ocorria entre os povos da região, como também a existência de Leis específicas para esse fim, a exemplo da reciprocidade e da comunicação, próprias da cultura em si e não apenas dos habitantes das Ilhas Trobriand. Seus ensinamentos originaram novas abordagens, que foram desenvolvidas por Marcel Griaule (fundador da etnografia francesa), Claude Lévi – Strauss (fundador do estruturalismo) e Georges Devereux (etnopsiquiatria) (LAPLANTINE, 1993, p. 91 – 92). Em seus estudos investigativos nas ilhas de Trobriand, na Papua Nova Guiné, constatou que a partir de um único costume, ou mesmo de um único objeto (por exemplo, a canoa trobriandesa) aparentemente muito simples, aparece o “conjunto” de uma sociedade (LAPLANTINE, 1993, p. 80). Para ele, a sociedade deve ser estudada enquanto uma totalidade, tal como funciona ‘no momento mesmo onde observamos’. [...] Malinowski se pergunta o que é uma sociedade em si mesma e o que a torna viável para os que a ela pertencem, observando-a no presente através da interação dos aspectos que a constituem (LAPLANTINE, 1993, p. 80-81). Com o objetivo de entender as sociedades investigadas e suas coerências, Malinowski elaborou uma teoria, denominada “Funcionalismo”, pautada nas ciências da natureza, assim especificada: as sociedades tradicionais são sociedades estáveis e sem conflitos, visando naturalmente a um equilíbrio através de instituições capazes de satisfazer às necessidades dos homens. [...] [estabelecendo] generalizações sistemáticas que não hesita em chamar de ‘leis científicas da sociedade’ (LAPLANTINE, 1993, p. 83). Os anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial representaram o marco histórico contemporâneo de formação da etnografia, enquanto ciência, construído com base na ideia “de que os comportamentos humanos só podem ser devidamente compreendidos e 110 explicados se tomarmos como referência o contexto social onde eles atuam” (VÍCTORA, 2000, p. 53). Nesta mesma época teve destaque a “Escola Francesa de Sociologia”, com a exigência de constituição de quadros teóricos, conceitos e modelos que fossem próprios da investigação do social, independente da explicação história (evolucionismo), geográfica (difusionismo), biológica (funcionalismo de Malinowski) ou psicológica (clássica e/ou moderna) (LAPLANTINE, 1993, p. 85). A busca de métodos e técnicas etnográficas promoveu a participação de sociólogos e psicólogos, que forneceram à antropologia, o quadro teórico de que precisava. Nesse âmbito teve destaque à participação de Emile Durkheim, nascido em 1858, com a sua obra: As Regras do Método Sociológico (1894), o qual aponta que “a ‘precisão’ da história à ‘confusão da etnografia, e se dá como objeto de estudo’ as sociedades cujas crenças, tradições, hábitos, direitos, incorporam-se em ‘movimentos escritos e autênticos’” (LAPLANTINE, 1993, p. 88). Seus estudos evoluíram particularmente na Inglaterra e na França, durante a primeira metade do século XX, renovando o conceito epistemológico das ciências humanas. Outra personalidade importante foi Marcel Mauss (1872 – 1950), sobrinho de Durkheim, que contribuiu com estudos relevantes para a constituição da antropologia moderna, ao desenvolver estudos com Paul Rivet, nos quais atribuiu à antropologia uma importância científica, acrescentando que “o lugar da sociologia [...] [estava] na antropologia e não o inverso” (LAPLANTINE, 1993,,, p. 90). Em seu Ensaio Sobre o Dom (1922 – 1923), estabeleceu a necessidade da exigência de uma teoria antropológica e do conhecimento dos materiais recolhidos pelo etnógrafo. No período entre 1930 e 1986, surgiram novas tendências etnográficas , com o aprimoramento do pensamento antropológico, ressaltando particularidades inerentes a cada um deles, em especial o americano, o britânico e o francês. A antropologia da escola americana despontou com Lewis Morgan, caracterizando-se pelo interesse na diversidade das culturas; a escola britânica priorizou o antievolucionismo, dedicando-se à investigação do presente, com base no funcionalismo (Malinowski) e no estruturalismo (Radcliffe – Brown), entendendo que “uma sociedade deve ser estudada em si, independentemente do seu passado, tal como se apresenta no momento no qual a observamos” (LAPLANTINE, 1993, p. 98). Além disso, caracterizou-se também pelo antidifusionismo, estabelecendo que uma sociedade não pode ser explicada pelo que herda ou empresta de sua cultura. E sim, com base em análises que levam em conta o caráter empírico (observação direta em campo) e o indutivo (observação repetidamente). Ao mesmo tempo assumiu um aspecto social, privilegiando “o estudo da organização dos sistemas sociais em detrimento do estudo dos comportamentos culturais dos indivíduos” (LAPLANTINE, 1993, p. 99). Já o pensamento da escola francesa direcionou-se à antropologia física, por meio dos sistemas de representações, com tendências intelectualistas e filosóficas, pautadas em modelos sociológicos, estruturalista e marxista, sob a influência de Emile Durkheim, Marcel Mauss e Marcel Griaule. Apesar disso, somente o trabalho de Maurice Leenhardt (1946 – 1985), que permaneceu 20 (vinte) anos na Nova Caledônia como missionário protestante, foi qualificado pioneiro, seguido de Paul Rivet, estudioso das organizações (religião, mitologia, tradução oral e outras), enquanto que, nessa mesa época, já se interessava pelas “mentalidades” (LAPLANTINE, 1993, p. 101-102). Acrescentando, ainda ao seu trabalho, novas perspectivas estruturalistas e marxistas. Na segunda metade do século XIX, a antropologia assume pólos diferenciados, sendo eles: o simbólico, o social, o cultural e o dinâmico. No simbólico, o objeto é estudado do ponto de vista do sentido; no social, a preocupação volta-se para o estudo da organização interna dos grupos (pensamento, conhecimento, emoção e linguagem); no cultural, surge o 111 critério de continuidade ou de descontinuidade entre a natureza da cultura de um lado e a própria cultura do outro. Já no dinâmico, as relações de poder assumem papel de destaque, “operando uma ruptura total com o funcionalismo em seus pressupostos, ao mesmo tempo ahistóricos (sociedades imóveis que podem ser estudadas como se a colonização não existisse) e finalistas (instituições visando satisfazer as necessidades)” (LAPLANTINE, 1993,, p. 108109). Em suas aplicações, a Antropologia adotou ainda conceitos alicerçados no relativismo cultural e no etnocentrismo, originando a antropologia aplicada, assim descrita: a) Empenha-se na solução [...] [e desenvolvimento de programas de ação junto a grupos humanos sujeitos a mudanças socioculturais], procurando minimizar os desequilíbrios e tensões culturais e tentando fazer com que as culturas atingidas sejam menos molestadas e seus padrões e valores respeitados. b) Aplica conhecimentos antropológicos, físicos e culturais na busca de soluções para os modernos problemas sociais, políticos e econômicos dos grupos simples e das sociedades civilizadas (MARCONI; PRESOTTO, 2006, p. 18-19). Embora autônoma, em fins do século XX, a antropologia relaciona-se com outras ciências, trocando experiências e informações, compondo assim, um eixo comum que objetiva a compreensão dos problemas comuns a todas as disciplinas, independente de áreas e naturezas. 3 ANTROPOLOGIA NO BRASIL: RETROSPECTO HISTÓRICO E ETNOGRÁFICO ENTRE OS SÉCULOS XVII E XX Os primeiros relatos antropológicos brasileiros foram escritos por cronistas, a partir de descrições pautadas em vivências e experiências com populações de determinadas regiões do Brasil e suas observações a respeito delas. Muitos desses relatos foram escritos por naturalistas, com formação para os fenômenos físicos e biológicos, os quais por conta disso e pela inexistência das Ciências Sociais se depararam com um objeto de estudo, que pelas suas particularidades exigia uma análise diferenciada. Dentre as principais crônicas de que se tem conhecimento, a carta de Pero Vaz de Caminha (Séc. XVI), a primeira delas, descreve com detalhes tanto a viagem em si, quanto os primeiros contatos com os nativos, enaltecendo aspectos de contextualização etnográfica e antropológica. Nesse sentido, caber ressaltar que ao longo do período colonial brasileiro, os cronistas ocuparam espaço primordial pelas suas descrições minuciosas dos fatos, relatandoos detalhadamente. Dentre os principais da época, tem destaque Jean Moritz Rugendas, autor de Viagem Pitoresca ao Redor do Brasil, obra em que retrata a cultura indígena e negra, além de reproduções ilustrativas, por meio de desenhos representativos de situações vivenciadas, experimentadas e observadas no cotidiano, quase sempre acompanhadas de representações cosmográficas. As contribuições dessa época são repletas de desenhos, com reproduções de cenas da realidade (MELATTI, 1984, p. 3-4). A habilidade desses artistas achava as proporções corretas, os traços pessoais característicos, à utilização de adornos e marcas culturais tribais. Esses desenhos foram realizados por observação pessoal, memória, imaginário, informação de terceiros, como foram os casos dos elaborados por Hércules Florence. Existindo, entretanto, alguns outros de pouco valor etnográfico, com os de Debret, “que desenhou no Rio de Janeiro cenas indígenas que nunca viu, às vezes baseada na descrição de terceiros e em artefatos do acervo do Museu Nacional” (MELATTI, 1984, p. 4). 112 Em seus estudos Florestan Fernandes e Thekla Hartman (1975), fazem referências aos cronistas; Estevão Pinto (1958) e C. de Mello-Leitão (1934, 1937 e 1941) e descrevem as contribuições dos cronistas do século XVI; Luís da Câmara Cascudo (1971), numa antologia ao folclore brasileiro, se reporta aos cronistas, com informações selecionadas sobre eles, inclusive incluindo-os como os primeiros antropólogos propriamente ditos, aludindo ainda, outras informações sobre intelectuais brasileiros dedicados aos estudos antropológicos (MELATTI, 1984, p. 4). A vinda da Família Real para o Brasil e a abertura dos portos as nações amigas, favoreceu e ampliou o número de cronistas; por outro lado, o século XVIII foi um período pobre para os estudos etnográficos. Até os anos 30 do século XIX, a formação acadêmica antropológica não existia no Brasil. A Antropologia era um ramo novo das ciências, mesmo na Europa. Somente na segunda metade do referido século, pesquisadores autodidatas nessa área, passaram aos trabalhos de caráter etnográficos, com enfoque sobre o índio, o negro e o sertanejo, em especial no interesse dessas populações em relação à formação da sociedade brasileira (MELATTI, 1984, p. 5). Sob essa perspectiva, seus estudos direcionaram-se ao contato direto, face-a-face, com esses segmentos sociais, de forma a entendê-los no contexto mais amplo da sociedade brasileira, considerando a abordagem interétnica e os recursos teóricos disponíveis. Dentre os pesquisadores deste período, destaca-se Antônio Gonçalves Dias (1859), o qual fez parte da Comissão Científica projetada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com caráter exploratório das províncias do Brasil setentrional, sobretudo o Ceará (MELATTI, 1984, p. 5). Outra figura de destaque nessa mesma época foi José Vieira Couto de Magalhães (1863), presidente das províncias de Goiás e de Mato Grosso, o qual empreendeu a navegação a vapor no Araguaia e no Tocantins, com estudos sobre os indígenas da região; também teve destaque nessa época o botânico João Barbosa Rodrigues (1884), deixando várias informações sobre os indígenas da Amazônia (MELATTI, 1984, p. 6). São inúmeros os trabalhos relevantes dessa época, dentre eles: “Estudos sobre a tribo Mundurucu” do engenheiro Antônio Manuel Gonçalves no Tocantins (1877) e as pesquisas realizadas pelo Visconde de Taunay sobre os índios da Orla Ocidental da Região Centro-Oeste e por João Severino da Fonseca, com respeito ao Brasil Meridional. Outro trabalho relevante da época foi o elaborado por Euclides da Cunha, “Grandes Sertões Veredas”, sobre os sertanejos de Canudos e os do Sudoeste do Amazônia. Cabendo ainda acrescentar os estudos do desenhista e arquiteto Manuel Raimundo Quirino, bem como os do médico Raimundo Nina Rodrigues, o qual estabeleceu algumas teorias deterministas climáticas e étnicas. Acrescentando-se ainda, as abordagens de Sílvio Romero sobre os indígenas brasileiros (MELATTI, 1984). Além disso, etnólogos estrangeiros que vieram ao Brasil, principalmente de origem alemã, voltaram-se especialmente às culturas indígenas, como foi o caso de Von Martius, botânico, cujos trabalhos constituíram o ponto de partida para os etnólogos propriamente ditos. Em suas viagens contou com Spix, zoólogo, sobretudo no que se refere ao estudo da linguística das populações estudadas (MELATTI, 1984, p. 7). De grande relevância, foi a contribuição de Karl von den Steinen (1884), psiquiatra e etnólogo, que desceu o rio Xingu pela primeira vez até a sua foz entre 1887 e 1888, visitando e estudando os indígenas habitantes daquelas áreas (MELATTI, 1984, p. 7). Em inícios do século XX, décadas de 30 – 40 começam a aparecer no Brasil, os estudos que tratam da mudança cultural ou aculturação, sobre população negra, grupos indígenas, imigrantes europeus e asiáticos, bem como seus descendentes. Nessa época, os aspectos religiosos foram enaltecidos, em especial por Arthur Ramos (brasileiro), Melville Herskovits (norte-americano) e Roger Bastide (francês) (MELATTI, 1984, p. 11). 113 Os anos 1950 foram marcados pelos estudos de comunidades, recaindo principalmente sobre “a observação direta de pequenas cidades ou vilas com as técnicas desenvolvidas pela Etnologia no estudo das sociedades tribais”. Dentre os estudos publicados com esse enfoque, destacam-se: “Uma vila brasileira” de Emilio Willems sobre Cunha, cidade do Vale do Paraíba – São Paulo; “O fim de uma tradição” de Robert Shirley, que trata da evolução da estrutura social de Guaratinguetá, Vale do Paraíba – São Paulo, com destaque para inúmeros autores que vieram a seguir, dentre eles: Otávio Ianni (1955 e 1961), Franco Moreira (1963 – 1972); Klaas Woortmann (1972) e Sérgio Buarque de Holanda (1979) (MELATTI, 1984, p. 14-15). A partir da década de 1960, a Etnografia assume modificações significativas no Brasil, com a criação de alguns cursos, ministrados por pesquisadores específicos da área, como foi o caso do “Curso de Aperfeiçoamento em Antropologia Cultural”, oferecido pelo Museu do Índio – São Paulo, que serviu para a formação de antropólogos brasileiros. Esses cursos foram os precursores de outros de pós-graduação, oferecidos pela Universidade de São Paulo – USP (MELATTI, 1984. p. 17). Neste mesmo período, teve início a Antropologia Urbana, com enfoque direcionado às migrações da área rural para a urbana, bem como favelas, sob o ângulo da marginalidade, urbanização e desenvolvimento. Os anos 70 visualizaram o esforço de alguns etnólogos voltando ao estudo dos povos indígenas, especialmente em relação à demarcação de terras, assistência médica, produção para o mercado e outros enfoques. Perdurando ainda o estudo dos fenômenos sociais urbanos, especialmente o estudo do comportamento humano, doenças, hábitos alimentares, sob a perspectiva da antropologia médica e da saúde. As décadas de 80 e 90 do século XX, visualizaram a evolução do ensino da Antropologia no Brasil, com a formação da Etnologia, assumindo maiores proporções, especialmente na Universidade de São Paulo – USP, Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, Universidade de Brasília – UnB, dentre outros oferecidos por universidades de renome no sul do país. Nesse âmbito, a Antropologia Física, teve destaque, com ênfase no biológico, bem como a Cultural, com prioridade sobre os aspectos sociais, culturais e linguísticos (MELATTI, 1984, p. 37). 4 EVOLUÇÃO DA ETNOGRAFIA NO BRASIL DOS ANOS 1990 A Etnografia é também conhecida sob a denominação de “pesquisa social, observação participante, pesquisa interpretativa, pesquisa analítica, pesquisa hermenêutica”, compreendendo “o estudo pela observação direta e por um período de tempo, das formas costumeiras de viver de um grupo particular de pessoas: um grupo de pessoas associadas de alguma maneira, uma unidade representativa para estudo, seja ela formada por poucos ou muitos elementos” (MATTOS, 2001, p. 2). Nessa perspectiva estuda comportamentos manifestos previsíveis e imprevisíveis, em determinado contexto interativo, com o objetivo de revelar significados cotidianos de ação, visando monitorá-los, acompanhá-los e documentá-los para em seguida interpretá-los. O termo etnografia possui inúmeras acepções, significando tanto a pesquisa de campo, como o resultado final qualitativo, a partir da descrição das observações realizadas sobre as realidades sociais e culturais particulares estudadas, considerando a relação tempo espaço, podendo ser definido como teoria da descrição, considerando suas diversas perspectivas epistemológicas. No seu desenvolvimento histórico, enquanto estudo etnográfico possui as seguintes características: 114 a) Ao realizar um estudo etnográfico, em vez de supor o estudo de ‘uma totalidade’ (holística), aborda-se o fenômeno ou o processo particular como parte de uma totalidade maior que o determina, em alguma medida e com o qual mantém determinadas formas de relacionamento. [...]. b) Um estudo etnográfico a partir desta perspectiva teórica tem sempre presente a dimensão histórica, não como apêndice obrigatório de monografias que tratam o presente como se fosse eterno, mas como inevitável componente de todo processo atual [...]. c) A partir desta perspectiva, trabalha-se [...] novos espaços e eventos [conforme a temática investigada] [...] (EZPELETA, 1989, p. 47-48). Nos anos 1990, com o advento da Etnografia moderna, o interesse do pesquisador voltou-se para a microanálise, principalmente nos estudos linguísticos, por preocupar-se “particularmente [com] um evento ou parte dele, ao mesmo tempo em que dá ênfase ao estudo das relações sociais em grupo como um todo, holisticamente” (LUTZ, 1983; EZPELETA, 1989, p. 4). Esse tipo de investigação exigiu a concretização de uma teoria crítica de análise, aliada à abordagem etnográfica de modo a investigar e identificar o significado das relações sociais estudadas. Para Mattos (2001, p. 6): [o] [...] significado local e a organização do significado local para a pessoa estudada constituem, assim como a comparação e a descrição densa, aspectos importantes a serem observados no trabalho etnográfico. [...]. O interesse no local e no particular está inerentemente conectado com o interesse no geral e universal. Além disso, também tem sido enfocada uma perspectiva dialética, no sentido do movimento dos pesquisados num determinado contexto, considerando a noção de tempo e espaço. Esse movimento histórico possibilitou a análise e o estudo dos fenômenos e não apenas de um fenômeno em particular. Especialmente, porque, [...] [em] etnografia [...] [tentamos] combinar uma análise detalhada de comportamentos, seus significados no dia-a-dia de interação social. A análise da interação face a face é uma das formas de procedimento que podemos escolher para realizar esta tarefa. Queremos ser específicos sem sermos abstratos, sermos empíricos sem sermos positivistas, sermos rigorosos (ERICKON, 1988 apud Op. cit., p. 10). No âmbito acadêmico, as tendências etnográficas brasileiras, nesta última década, recaíram sobre a especificidade de alguns instrumentos de pesquisa, dentre eles: observação participante, entrevista, videoteipe, história de vida, além de outros de igual importância. Por conta disso, as formas de análise tornaram-se diversificadas, compreendendo desde análises indutivas, microanálise etnográfica, análise de contexto, análise de discurso, análise sociolingüística, análise documental, análise histórica, análise representacional, análise cultural, até análise hermenêutica e análise crítica (MATTOS, 2005, p. 6), variando conforme os relatos descritivos, complementados por acervos fotográficos e filmagens detalhadas de representações e significados, dentre outros. Acrescentando-se a isso, os inúmeros softwares que possibilitaram o cruzamento entre as categorias temáticas pesquisadas, facilitando e agilizando o trabalho do pesquisador. Outro aspecto relevante contempla a utilização da etnografia nos enfoques qualitativos e reflexivos. No primeiro deles, são usados os recursos da entrevista, história de vida, estudo pessoal, mapas mentais, estudos observacionais participantes ou não. No segundo, a autoconsciência assume significado relevante, por meio da interação e da recepção “que caracteriza as relações com outros participantes da pesquisa durante [a realização da] 115 mesma. Geralmente este tipo de pesquisa se dá através da colaboração entre pesquisador e participantes ou quando o pesquisador pesquisa a sua própria prática” (MATTOS, 2005, p. 9). Esse processo inclui tanto a coleta e análise dos dados, quanto à construção do relatório final. Assim, a etnografia vem se reformulando pouco a pouco, por meio da apropriação de novos objetos de pesquisa e recursos metodológicos. No Brasil, tem se consolidado enquanto Antropologia, no âmbito das Ciências Sociais, com destaque nos centros de reconhecida produtividade intelectual. 5 ETNOGRAFIA CONCEITUAIS NA EDUCAÇÃO: ASPECTOS METODOLÓGICOS E A investigação etnográfica da educação no Brasil, nos dias atuais, diz respeito a um campo de confrontação no qual o compartilhamento do saber atribui àquela a condição de ciência e a esta a condição de prática. Dentro desta divergência, os profissionais de ambos os lados se acusam e se defendem com base em pré-noções, práticas reducionistas e falta de conhecimento específico na matéria. “Se há muitas coisas que [...] separam antropólogos e educadores – há muitas outras que nos unem” (MATTOS, 2005, p. 6). Nessa perspectiva, a etnografia tem adotado como objeto o “conjunto de significantes em termos dos quais os eventos, fatos, ações e contextos são produzidos, percebidos e interpretados, e sem os quais não existem como categoria cultural” (MATTOS, 2005, p. 4), por outro lado, esse conjunto de significantes representa estruturas interrelacionadas em múltiplos níveis. No aspecto da microanálise etnográfica, geralmente utilizada nos estudos da linguagem, quando no âmbito da pesquisa educacional, pode ser direcionada ao turno da fala, considerando seus padrões culturais nas relações intra-escolares, em especial professor-aluno, podendo contribuir para o estudo de vários aspectos, inclusive, entendimento dos processos de exclusão escolar em seus diversos níveis. Quando esse tipo de análise ocorre em sala de aula, o cotidiano deve ser observado por um longo tempo (aproximadamente de 4 meses a 2 anos), nesse processo o pesquisador destaca um aspecto interacional ou um fato que pode ser considerado micro analiticamente relevante. Em sua execução, podem-se visitar famílias dos pesquisados, gravar aulas sequencialmente, observar a situação da escola, da comunidade local e sua situação no contexto sócio-histórico e geopolítico, verificando ainda, contrastes e semelhanças com outras comunidades ou outros grupos, observando os “detalhes nas formas de falas” (MATTOS, 2005, p. 6). Um segundo desafio do pesquisador recai sobre a organização dos dados coletados pelo trabalho intensivo da observação. Para solucioná-lo é preciso olhar a totalidade do objeto pesquisado, para em seguida, destacar uma particularidade capaz de ser estudado micro analiticamente. No trabalho etnográfico, o pesquisador procura entender e explicar aspectos importantes que foram observados. Por exemplo: Na sala de aula, situações de organização sócio-cultural, a personalidade do professor, sua filosofia de trabalho, a personalidade dos alunos, ao serem observados, possibilitam comparações e descrições, revelando organizações significativas. “O interesse no local e no particular é inerente ao interesse no geral e no universal” (MATTOS, 2005, p. 7). A sala de aula possibilita detectar relações de subordinação e insubordinação de uma dada ação, considerando as formas de interação, agrupamento e suas variações. Numa perspectiva dialética, essas variações são as representatividades entre os vários atores e grupos pesquisados, com seus respectivos significados. Desse modo, quando 116 queremos observar o significado de um erro específico de leitura para uma criança, [comparamos] [...] este erro com o de outra criança na mesma situação de leitura, querendo saber se existem privilégios. Queremos saber como agem as meninas em relação aos meninos. São os modos de agir delas iguais ou diferentes aos dos meninos? Não estudamos somente as meninas ou os meninos, estudamos também as relações entre eles (MATTOS, 2005,, p. 9). Nesse processo, a interação pode ser imediata ou não, necessitando do entendimento dos termos ação e comportamento. Assim, comportamento inclui tudo que o indivíduo faz. Ação é um comportamento intencional baseado na idéia de como outras pessoas o interpretarão e a ele reagirão. Na interação social, percebemos outras pessoas e situações sociais e, baseando-se nelas, elaboramos idéias sobre as expectativas, os valores, as crenças e atitudes que a ele se aplicam (MATTOS, 2005, p. 10). A observação permite que a pesquisa avance além da interação imediata, possibilitando o acesso às relações indiretas ou secundárias. Sob esse prisma, a preocupação volta-se para a totalidade, a qual “influencia as partes desta totalidade em si mesma e em cada outra parte do todo” (MATTOS, 2005, p. 11). Exigindo: [...] um extensivo trabalho por um longo período de tempo de campo num determinado local; 2) um cuidadoso registro sobre os acontecimentos ocorridos neste local: notas de campo, registro de arquivos e documentos, vídeos e áudio tapes, memorandos, fichas, cadastros; 3) uma análise indutiva dos dados, iniciando do particular para o geral e voltando ao particular de maneira enriquecida; 4) uma relação dialética entre objetividade e subjetividade (MATTOS, 2005., p. 13). Esses procedimentos metodológicos implicam ainda numa reflexão analítica dos documentos colhidos em campo e sua detalhada descrição, acompanhada de uma interpretação de dados em múltiplos níveis e posturas éticas (MATTOS, 2005, p. 13). Na etnografia educacional, é preciso entender e documentar todas as observações realizadas, seus significados, ações, comportamentos e circunstâncias. Somente assim, as especificidades das ações, as perspectivas e os significados dos atores sociais serão considerados em sua amplitude, relatividade, alteridade, permitindo o acesso aos significados e perspectivas contemplados pela etnografia. 6 MÉTODOS E TÉCNICAS DE PESQUISA COM ENFOQUE ETNOGRÁFICO EDUCACIONAL Os anos 1990 representaram um período em que os antropólogos aprimoraram as metodologias adotadas nas pesquisas etnográficas, com o estabelecimento de métodos específicos para as suas abordagens de campo. .Dentre os métodos científicos utilizados, alguns estão diretamente relacionados com a Antropologia são eles: Histórico, Estatístico, Etnográfico, Comparativo ou Etnológico, Monográfico, Estudo de Caso, Genealógico e Funcionalista. No método histórico prevalece à investigação do passado, com a preocupação do entendimento do presente, de forma a predizer o futuro. Já no estatístico, com predominância na área da saúde, são verificadas as diversificações dos aspectos socioculturais, traduzindo os dados qualitativos em quantitativos, por meio da elaboração de tabelas, quadros e gráficos demonstrativos dos significados dos fenômenos investigados. 117 Já com o método etnográfico, o pesquisador descreve as sociedades humanas simplificadas, com o objetivo de coletar informações que possam ser relacionadas com as complexas, de forma a entendê-las em sua totalidade, sob a perspectiva da alteridade e da diversidade, em todos os sentidos. No âmbito do método comparativo, também chamado de etnológico, as diferenças e similitudes do grupo, comunidade ou sociedade estudado, são prioridades, de forma ao entendimento, análise, interpretação e explicação dos fenômenos investigados. Sob a perspectiva do método monográfico, o pesquisador estuda em profundidade o problema detectado, com o objetivo de alcançar generalizações. Em muitas ocasiões, debruça-se ante o estudo de caso, de forma a compreender e explicar o que foi investigado. No método genealógico, os estudos educacionais são direcionados ao aspecto cultural, em especial, o estudo do parentesco e suas implicações sociais, com base em levantamentos genealógicos. Numa perspectiva funcionalista, o ponto de vista da função ou funcionalidade da escola, assume a característica da análise das conexões entre a sociedade estudada, sob o prisma cultural e o equilíbrio dos setores que a compõem, bem como a adequação e o equilíbrio interrelacional das partes do sistema educacional investigado. Pelas suas particularidades, a antropologia exige a utilização de técnicas adequadas, dentre elas: a observação, a entrevista e o formulário. A observação consiste em “ver e ouvir” os pesquisados, podendo ser: sistemática (observação do fenômeno durante determinado espaço de tempo), subdividindo-se em direta (no local da investigação) e indireta (por meio de outras pessoas); participante (permanência em campo, durante o tempo necessário). Essa técnica permite que o antropólogo vivencie o fenômeno pesquisado, participando diretamente dele. Com a técnica da entrevista, ocorre o contato face a face com o pesquisado, com o objetivo de obtenção de informações úteis, podendo ser dirigida (com roteiro prévio) e não dirigida ou livre (informal – espontânea). Já com o formulário, são estabelecidas perguntas escritas, para serem aplicadas diretamente com o pesquisado. Outras técnicas também estão relacionadas aos estudos antropológicos, como a história de vida (vida do sujeito investigado, biografia relacionada ao contexto investigativo), grupo focal (tradição da entrevista em grupo), análise documental (fonte primária - primeira mão/manuscrita ou secundária – impressa/que já sofreu manipulação). Aliado a essas técnicas, o desenho representa graficamente ou ilustrativamente determinada situação ou concepção observada ou investigada. A fotografia e a filmagem ocupam espaço representativo importante em diversas situações dentre elas, a sala de aula. Tanto o desenho quanto a filmagem ou a fotografia, são organizados conforme a ordem dos acontecimentos, visando reconhecer as representações e os valores atribuídos a esses elementos pelos informantes. Além disso, são mostradas aos pesquisados, servindo para motivar conversações, que não seriam conseguidas de outra forma. Em seguida, esses materiais são analisados sob seus diversos aspectos e prismas. Outro fator importante a ser mencionado, recai no registro dos dados observados, que pode ocorrer por meio do diário de campo, em que são descritas as observações, experiências, vivências, para em seguida, selecionar os dados relevantes. Hoje esse instrumento de apoio tem sido substituído pelos laptops, notebooks e palm tops, com banco de dados e gerenciamento de dados qualitativos. Os registros seguem ordenação cronológica. Todo o material coletado via eletrônico ou não, bem como registros visuais e/ou sonoros, são transcritos, escaneados, fotocopiados ou digitalizados, com o intuito de sua preservação. Em seguida, procede-se a síntese e a análise dos documentos e materiais coletados. Esse trabalho ocorre concomitante ao avanço das leituras (referencial teórico), com o objetivo de alcançar explicações científicas para os fenômenos estudados. Além disso, considera em especial as categorias de análise, os conhecimentos e as ações dos sujeitos 118 investigados, bem como o grau de coerência social, cultural e epistemológico. Já em relação ao objeto de estudo, no caso a escola, deve contemplar principalmente os processos sociais (EZPELETA, 1989, p. 48). A construção teórica ocupa espaço significativo na pesquisa etnográfica, a partir dos campos empíricos (fenômenos observados), o que possibilita avanços teóricos, caracterizando-se enquanto abordagem qualitativa, na qual o ambiente natural se destaca como fonte direta de dados e o pesquisador, assume a característica de instrumento de coleta, supondo o contato direto e prolongado do investigador com o ambiente e a situação que está sendo pesquisada. Pela sua natureza, esse tipo de estudo pode denominar-se também de naturalístico. Os dados coletados são puramente descritivos (pessoas, situações, acontecimentos), com transcrições literais de entrevistas e depoimentos (LÜDKE, 1986, p. 11-12). O principal interesse do etnógrafo sobre determinado problema é verificar “como ele se manifesta nas atividades, nos procedimentos e nas interações cotidianas” (LÜDKE, 1986, p. 12). Os significados intrínsecos e extrínsecos dados pelas pessoas são focos de atenção especial do pesquisador, especialmente pela perspectiva do participante, cujas análises e sínteses são realizadas sob óticas indutivistas (LÜDKE, 1986,, p. 12). Nessa perspectiva, ressalta-se que a pesquisa etnográfica, fundamenta-se em dois conjuntos de hipóteses que norteiam o comportamento humano. São elas: - A hipótese naturalista–ecológica, que afirma ser o comportamento humano significativamente influenciado pelo contexto em que se situa [...]. - A hipótese qualitativo-fenomenológica, que determina se quase impossível entender o comportamento humano sem tentar entender o quadro referencial dentro do qual os indivíduos interpretam seus pensamentos, sentimentos e ações (LÜDKE, 1986,, p. 15). Em sua primeira fase, se destaca a seleção, a definição do problema, a escolha do local em que será realizado o estudo e o estabelecimento de contatos para a entrada em campo; na segunda, a coleta de dados ocorre de forma sistemática, dentre os dados selecionados para a compreensão e interpretação do fenômeno estudado; na terceira, busca-se a explicação da realidade, considerando os princípios subjacentes ao fenômeno estudado, situando-o num contexto mais amplo (LÜDKE, 1986, p. 15-16). De forma a vencer os desafios da pesquisa etnográfica, o investigador deve desenvolver características específicas para esse tipo de estudo, dentre elas: tolerância em relação às ambiguidades; trabalhar sob sua própria responsabilidade; inspirar segurança e confiança; comprometimento; responsabilidade; autodisciplina; guardar informações confidenciais. Com isso, tornando possível o acesso às informações e aos dados materiais e imateriais que comporão a sistematização da investigação pretendida. 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS A pesquisa etnográfica é utilizada principalmente no campo da investigação qualitativa, especialmente aquela que se interessa pelas desigualdades sociais e processos de exclusão. Preocupa-se com a análise holística ou dialética da cultura, bem como, suas relações sociais e interações sob diversas perspectivas e condições. Compreende o estudo, pela observação direta e por um período de tempo, das formas costumeiras de viver de um grupo particular de pessoas: [a sala de aula, por exemplo] um grupo de 119 pessoas associadas de alguma maneira, uma unidade social representativa para estudo, seja ela formada por poucos ou muitos elementos (MATTOS, 2001, p. 2). De modo geral, explica padrões previsíveis de pensamento e comportamento humanos manifestos, com o objetivo de entender os seus significados, por meio de documentação, monitoramento, de forma a encontrar e compreender o significado da ação. As perspectivas e os significados dos atores pesquisados e a significação dada a sua rotina, quando no âmbito educativo, favorece o acesso a informações e dados que dificilmente seriam obtidos de outra maneira. Nesta perspectiva, acrescenta-se ainda, a importância das tendências da etnografia educacional, principalmente voltadas à micro e a macroetnografia. A primeira delas contribui para a compreensão dos fenômenos educacionais, dentro das sociedades escolarizadas, que contemplam a sociolinguística, concentrando-se na análise detalhada do registro (gravação de voz ou vídeo) da interação que se dá nos eventos educacionais, independentemente de forma ou tipo (EZEPELETA, 1989, p. 41). A segunda recupera estudos antropológicos clássicos da escola e da comunidade. Considera a escola como um “sistema social”, ao qual pode aplicar todas as categorias de um estudo de comunidade (economia, sociologia, política, saúde etc.) (LÜDKE, 1986,, p. 42). Além disso, propõe ainda uma “análise de sistemas, em que se usa um diagrama de fluxo para codificar e analisar os dados etnográficos” (DOBBERT, 1976 apud LÜDKE, 1986., p. 43). Essa análise possibilita a conservação da complexidade do fenômeno social e a riqueza de seu contexto peculiar. Assim, a etnografia ocupa um espaço privilegiado nos estudos educacionais da atualidade, não apenas por possibilitar acesso a informações precisas sobre os atos pesquisados, como também, por possibilitar a construção de categorias e tipologias de processos educacionais, por meio de estudos comparativos, a partir do entendimento da ação e do comportamento humano. Considerando ainda sob essa perspectiva, suas características particulares, especiais e peculiares, de forma a compreender e entender o ambiente educacional em sua totalidade. THE CONCEPTUAL APPROACHES HISTORIOGRAPHIC AND ETHNOGRAPHIC PERSPECTIVES IN ANTHROPOLOGY AND EDUCATION ABSTRACT Ethnography constitutes anthropological field study that make possible combination of actions, behavior and daily importance of social interaction taking in account a large context in which it is inserted. Several times this significance and its perspectives have no consistency to someone who possesses them. In class room, profile of the studied person (teacher or student) is formed socially as by ethnographer as by social actor comprising the school culture at all or people interactions in the Institutional scope. It takes care on the full description, the best perfect one as possible, and on the intensive participant observation giving their interpretation as category denominated culture. Concerning to its methodology it uses induction, searching for to distinguish and choice what is important to the study. It has qualitative approaches directed to microanalysis showing how the data were authenticated by inductive and triangulation processes. This paper aim to demonstrate the main ethnography approaches during the 19 to 21th centuries and their perspectives, as well the present tendencies in education. KEYWORDS: Historical approaches. Ethnography. Education. 120 REFERÊNCIAS EZPELETA, Justa; RAKWEL, Elsa. Pesquisa participante. Tradução de Francisco Salatiel de Alencar Barbosa. São Paulo: Cortez, 1989. (Autores Associados). LAPLANTINE, François. Aprender antropologia. 6. ed. São Paulo: Brasiliense, 1993. LÜDKE, Menga. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo: EPV, 1986. LYNN, Hunt. A nova história cultural. São Paulo: Martins Fontes, 1992. MARCONI, Marina de Andrade; PRESOTTO, Zélia Maria Nerus. Antropologia: uma introdução. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2006. MATTOS, Carmen Lúcia Guimarães de. Estudos etnográficos da educação: uma revisão de tendências no Brasil. [s.n.t.] ______. Aspectos metodológicos e epistemológicos da etnografia em educação. [s.l.: s.n.], 2005. ______; CASTRO, Paula. Imagens de vídeo como instrumento da pesquisa etnográfica. [s.n.t.]. ______. A abordagem etnográfica na investigação científica. Rio de Janeiro: UFRJ, 2001. Disponível em: http://fmail2.uol.com.br/cgibin/webmail.exe/Pesquisa_Etnografica.htm?ID=YhrouZKmzZ>. Acesso em: 11.07.2007. MELATTI, Julio Cezar. A antropologia no Brasil: um roteiro. BIB, Rio de Janeiro, n. 17, p. 3-52, 1984. PEIRANO, Marina A. S. A antropologia como ciência social no Brasil. São Paulo: CEAS, 2000. Disponível em: <http://ceas.iscte.pt/etnografica/docs/vol 04/N2/Vol ivN2 219-232. pdf> Acesso em: 21 jul. 2006. VÍCTORA, Ceres Gomes et al. Pesquisa qualitativa em saúde: uma introdução ao tema. Porto Alegre: Tomo Editorial, 2000. 121 DOAÇÕES DE ALFORRIAS EM TESTAMENTOS “POST MORTEM”: SERGIPE (1780-1850) Hortência de Abreu Gonçalves84 RESUMO Este artigo objetiva identificar as motivações religiosas de doadores na distribuição de Cartas de Alforria a escravos negros de Sergipe via testamentos “post mortem” e inventários entre os anos de 1780-1850. Para tanto, foram pesquisados 179 documentos, sendo 140 testamentos e 39 inventários oriundos do Arquivo Judiciário do Estado de Sergipe (AJES), aliados às fontes secundárias impressas e digitais. Os dados e as informações coletadas foram analisados e interpretados pelos métodos hipotético-dedutivos e de análise de conteúdo, respaldados pela História das Mentalidades. Em Sergipe, muitas alforrias foram doadas em troca de motivações religiosas que visavam aplacar a consciência, redimir dos pecados e salvar a alma. Palavras-chave: Doações de Cartas de Alforria. Motivações religiosas. Testamentos “post mortem”. Inventários de Sergipe. 1 INTRODUÇÃO As contribuições teóricas que nos deram no início do século, Durkheim, Malinowski, Weber e posteriormente Freud no seu “Totem e Tabu”, não foram desenvolvidas em grau comparável, visto que, esses autores não defenderam a mesma concepção do fato religioso; entretanto, entraram em acordo no momento em que trataram a religião como um “fato social”, ou melhor, como um fato humano. Para eles, exceto Freud que se preocupou em esclarecer que as crenças religiosas não podiam ser reduzidas a simples delírios, e os ritos a comportamentos compulsivos, a religião foi vista como ”um fenômeno característico de todas as sociedades humanas passadas, presentes e futuras”.85 Com essa perspectiva, pode-se afirmar que até certo ponto existe um fundo de razão se for considerado que toda religião, excetuando-se aquelas em que não existe a distinção entre o fiel e o oficiante; entre as finalidades religiosas e as coletivas, forma-se uma organização. Isso decorre do fato de que, nelas persistem diversos papéis diferenciados, além de uma hierarquia, na qual a presença da distinção entre o meio interno constituído pela sociedade religiosa, as relações entre as diferentes categorias de sujeitos que dela participam, e o meio externo, a sociedade leiga ou profana em que se inscreve, permanecem como o ponto fundamental. Se toda religião “é uma organização, a religião não é uma organização comum já que não caberia apenas uma discrição meramente numérica, e sim, uma natureza religiosa e o espírito de coerção que ela exerce sobre o fiel, através de um sistema de crenças e práticas normativas.”86 Além disso, conforme Mair87, a religião “oferece, no ato religioso, suas próprias finalidades, [...] [dando] ao homem a confiança renovada para enfrentar o universo”. Quanto a 84 Mestre e Doutora em Geografia – UFS e Pós-doutora em Estudos Culturais pelo PACC/FCC/UFRJ; professora da Universidade Tiradentes – UNIT, Professora da Faculdade Estácio de Sergipe-Estácio FaSe. 85 BOUDON, Raymund; BOURRICAUD, François. Dicionário crítico de sociologia. São Paulo: Ática, 1993, p.463. 86 Id.Ibid., p.469. 87 MAIR, Lucy. Introdução à antropologia social. Rio de Janeiro: Zahar, 1969 (Coleção Biblioteca de Ciências Sociais). p. 212. 122 sua origem, Malinowski a viu “na necessidade de sobrepujar a ameaça de ruptura que se apresenta a uma sociedade quando qualquer dos seus membros morre”. Na sua análise, entende que ‘’[“...] [a] religião satisfazia o que ele chama de necessidades integradoras do homem em sociedade”, servindo, portanto, para desencadear o seu equilíbrio físico e emocional. Sob a ótica de Durkheim, “a religião [...] [é] uma metáfora para a própria sociedade ou, como seria mais certo dizer, para a condição indispensável da vida em sociedade”, segundo ele, “o crente religioso não está perguntando como pensar, mas como agir, e que o que ele tira da sua religião é a força necessária para as ações certas”. Ainda nessa linha de pensamento, afirma “ser esta precisamente a função do ritual, mesmo onde ele não está ligado a nenhuma asserção explicita de códigos morais, porque, [...] o próprio ritual é a expressão intensificada da interdependência dos homens que vivem numa sociedade”. 88 Numa abordagem direcionada ao domínio do sagrado, do religioso e das crenças, o fenômeno religioso assume determinadas especificidades que, visam identificar a que realidade ela corresponde. Além disso, essas características específicas da religiosidade, indagam “em que condições uma comunicação simbólica regular por meio de ritos e crenças pode estabelecer-se entre os fiéis em relação aos problemas fundamentais da experiência humana que Max Weber considera construtivos da teodiceia.”89 Sob essa perspectiva, compreende-se, então, que não é necessário que a experiência religiosa corresponda [a] uma realidade (a natureza ou a sociedade) para que ela possa ser vista como objetiva - isto é, não como rapsódia de fantasmas e projeções. Basta que o conjunto de ritos e crenças que a constitui possa ser falado e vivido por fiéis que reforçam sua comunidade descobrindo o sentido desse universo simbólico. 90 As fases fisiológicas da vida humana, e acima de tudo, as suas crises, como a concepção, a gravidez, o casamento e a morte, constituem o núcleo de inúmeros ritos e crenças. Por conta disso, as crenças sobre a concepção, [...] [dentre elas] a reencarnação, a entrada dos espíritos, a fecundação mágica, numa forma e noutra, existem [em quase todas as sociedades], em quase todas as tribos, e freqüentemente encontram-se associadas a ritos e formalidades.91 Em todas as religiões desde as primitivas até aquelas consideradas civilizadas e evoluídas, a crise suprema e final da vida, ou melhor, da morte, encontra-se revestida de maior importância. Em todas elas o homem vive a vida sob a experiência da morte, e quem vive com intensidade a vida material, receia a proximidade da morte. “A morte e a sua negação a mortalidade sempre constituíram, e ainda constituem o tema mais incisivo dos prognósticos do homem”.92 A morte trás consigo uma violenta e complexa manifestação religiosa e mesmo nas sociedades consideradas primitivas, a atitude do homem diante da morte, apresenta uma grande semelhança com as sociedades modernas, dentre elas, a sergipana do século XVIII e XIX, com manifestações imbuídas de religiosidade que, ainda permanecem em vigor nos dias atuais. A presença da morte, seja em que tempo for, reveste-se de misticismo e importância, e muitas das teorias que tratam de religião, tiveram sua inspiração na morte e, neste aspecto, 88 Id., Ibid., p. 210. Op. cit., nota 1, p. 422. 90 Id.Ibid., p. 422. 91 MALINOWSKI, Bronislaw. Magia, ciência e religião. São Paulo: Edições 70, 1984. 92 Id.,Ibid., p.50. 89 123 todas as perspectivas ortodoxas se encontram correlatas. O homem vive sob o signo da morte e receia a ameaça do seu termo e todo aquele que se vê confrontado com a morte, recorre à promessa de vida. Alguns antropólogos dentre eles Welhlm Wundt, acreditam que a “sensação dominante dos vivos é de horror ao cadáver e de receio do fantasma, o que em alguns casos chega mesmo a construir o próprio núcleo das crenças e das práticas religiosas”. 93 2 DOAÇÕES DE ALFORRIAS VIA TESTAMENTOS “POST MORTEM” E INVENTÁRIOS EM SERGIPE (1780-1850) A palavra “alforria” tem sua origem no termo árabe “al-horriã”, que significava “o estado do homem livre a liberdade”94, sendo conhecida no Brasil colonial, como instrumento legal que promovia a passagem “de um indivíduo de uma condição legal de escravo para uma condição legal de livre”.95 Para oficializá-la, o doador fazia o seu registro em cartório, com anotação registrada no livro de notas, ficando o original em mãos do senhor e uma cópia com o beneficiado (escravo). Categorias de escravos preferenciais para o recebimento de alforrias distinguem–se numa diversidade de ocupações distribuídas desde os escravos urbanos (jornaleiros, ambulantes, barbeiros, carregadores (pacotes, liteiras) até os considerados de ganho – trabalhadores urbanos), até os da zona rural, representado pelo negro do eito (trabalho na lavoura) e o doméstico (trabalho na residência do senhor). De modo geral, senhores e escravos, na vida diária, estabeleciam negociações entre si, acordos e influências, para o recebimento de alforrias, favorecidas, por situações que muitas vezes envolvem os corpos do senhor e do escravo,como a preparação da comida dos proprietários pelas escravas, o cuidado e a amamentação das crianças brancas pelas amas, e a convivência estreita na mesma casa e até no mesmo quarto, as relações sexuais e filhos que estes protagonistas, que ocupavam lugares institucionais tão diferentes tiveram um com o outro.96 Para Freire97, o senhor dispensava um sentimento de piedade “àqueles escravos ou servos que considerava uma espécie de pessoa da casa: mães – pretas mucamas [...]. Pelos outros, sua indiferença era tal que confundia – se ás vezes com crueldade”, acrescentando ainda, que o senhor “amparou os escravos [domésticos na sua maioria] alimentou – os com certa largueza, socorreu-os na velhice, na doença, proporcionou-lhes aos filhos oportunidades de acesso social”.98 O resultado desse viés relacional fez do cativo doméstico uma categoria preferencial para a alforria. Em muitos casos, agraciados com a liberdade permaneciam como agregados em pequenas glebas de terra nos domínios de seus senhores, visto que, nada determinava a sua saída para outras áreas após o alforriamento, sendo esse benefício concedido por testamento “post mortem“, na forma de doação. 93 Id. Ibid., p.51. NASCENTES, [s.d.] apud EISENBERG, Peter. Homens esquecidos: escravos e trabalhadores livres no Brasil – séc. XVIII e XIX. Campinas. UNICAMP, 1989. p.245. 95 Id., p.245. 96 BELLINI, 1978 apud REIS, João José (Org.). Escravidão e invenção da liberdade: estudo sobre o negro no Brasil. São Paulo: Brasiliense: CNPq, 1988.p.75-6. 97 FREIRE, Gilberto. Sobrados e mocambos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1968.p.494. 98 Id., p.125. 94 124 No Brasil, as Cartas de Alforrias foram concedidas nas modalidades gratuitas e onerosas. Nas gratuitas ou naquelas em que prevalecia a ausência de ônus, o senhor restituía o seu estado natural de livre, em que todos os homens nasceram. A alforria não é, portanto, em sua última, única e verdadeira expressão mais do que a renúncia dos direitos do senhor sobre o escravo, e a conseqüente reintegração deste no gozo de sua liberdade, suspenso pelo fato de que ele foi vítima.99 Este mesmo autor completa ainda acrescentando que o senhor alforriava gratuitamente, “para se livrar das obrigações legais ou morais, por mínimas que fossem, de sustentar escravos improdutivos ou indesejáveis, embora [...], dificilmente ele confessasse tais motivos quando pudesse invocar outros mais dignos”.100 Slenes101, apresentou a hipótese de que “a alforria gratuita podia acarretar vantagens materiais para o senhor, na medida em que a gratuidade incentivava aqueles que ficavam como escravos a trabalharem mais e com boa vontade na esperança de ter sua alforria também gratuita”. Na segunda metade do século XIX, a gratuidade era divulgada amplamente na imprensa, apresentando–se como “um investimento de boa vontade [ação de benevolência] e uma prova de que, apesar de sua associação com a instituição condenada, os senhores ainda mereciam respeito da sociedade, em geral, e dos libertos, em particular”.102 Já as Onerosas, subdividiam–se em quatro grupos, ou seja: dinheiro, mercadorias, prestação de serviço ou alguma combinação entre estas. Essa alforria era de interesse do senhor pelo fato de indenizar a perda do dinheiro investido na compra e manutenção do escravo. Quando puramente monetárias, aproximavam–se de um contrato de trabalho, podendo a mesma ser paga em parcelas que se prolongavam em algumas prestações ao longo do tempo. O ato de alforriar era visto como louvável e paternalista, conferindo a quem o praticava, certo prestígio moral público. Além dos interesses citados anteriormente, existiu também a liberdade de cativos, na sua maioria doméstica, pautada em interesses religiosos, almejando aplacar a consciência e amenizar os pecados do (a) doador (a), promovendo uma parcela de virtudes facilitadora à salvação da alma e destinada a aguardar o juízo final, concepção amplamente difundida no mundo católico colonial. Para facilitar o entendimento das alforrias, as gratuitas e as onerosas foram subdivididas em puras, condicionais e parciais. O enquadramento nos subgrupos priorizou o “jargão” que acompanhou a doação, como fator motivador do beneficio, o que facilitou a verificação da presença da religiosidade cristã dos testadores, nos documentos estudados. Nas gratuitas puras, sem nenhum tipo de condição por parte do doador predominaram termos como: “Pelo amor que lhe tenho”, “Pelo bem que lhe quero”, “Pelo amor de Deus”. Nas condicionais, apareciam vários interesses e formas de obrigação, que poderiam ou não demonstrar a religiosidade, tais como: “Em se casando honrada”, “Me acompanhar enquanto for vivo”, e nos exemplos religiosos: “Mandar celebrar 33 missas, a saber: 25 por minha alma e 08 por alma de um sobrinho [...]103”, muitas vezes com recomendações de que esse cativo não fosse chamado para serviço algum, num prazo preestabelecido para angariar o dinheiro para as celebrações litúrgicas. Outro exemplo encontra-se em: “Instruir-se nos mistérios da fé católica – doutrina cristã, aprendendo também um ofício”. 99 MALHEIRO, [s.d] apud nota 10, p. 29. Op. Cit., nota 10, p.297. 101 SLENES, [s.d.] apud Id.Ibid., nota 10, p. 297. 102 Id. Ibid., nota 10, p. 299. 103 CSC– Testamentos– 1º Ofício. Arquivo judiciário do Estado de Sergipe (AJES) (05.05.1818). 100 125 Já as gratuitas parciais revelam uma ligação direta entre o escravo e o senhor, em como: “Servir ao engenho em época de moagem”, ou indireta como em: “Limpar a lâmpada do Santíssimo Sacramento sempre que pelo Vigário lhe for pedido”104, aparecendo neste caso, o elemento religiosidade. As onerosas puras não revelam elementos de religiosidade, tendo o escravo que pagar o seu valor integral. Nas condicionais, a religiosidade se apresenta ou não, como se vê nos exemplos: “Fica a escrava obrigada a dar o seu valor de 150$000 (mil réis), que dando fica forra, com a obrigação de mandar celebrar uma capela de missas (50 missas) por minha alma, sem ser chamada para serviço algum”. No caso de onerosas parciais, é possível observa-se a religiosidade de forma indireta, já que se referem à prática da caridade: Deixo os escravos João Grande avaliado em 150$000(mil réis), cortado na metade do seu valor, Félix avaliado em 13$000(mil réis), e cortado na metade do seu valor, Manoel 15$000(mil réis) e cortado na metade do seu valor, José grande avaliado em 12$000(mil réis) e cortado na metade do seu valor. Com a esmola de 30$000(mil réis) para João Grande e 20$000(mil réis) de esmola a cada um dos outros, para ajudar no pagamento das suas alforrias105 Convém lembrar que muitas vezes as onerosas condicionais e parciais eram perdoadas numa parte dos seus valores já cortados: ”Ficam cortados no valor de 80$000 (mil réis), sendo perdoado em 40$000 (mil réis)”, o que facilitava ao escravo comprar sua liberdade. O escravo ficava alforriado, após terem sido cobradas as quitações pelo testamenteiro ou entregues as confirmações do cumprimento das determinações, por livre vontade, nos prazos estipulados pelo testador. 2.2 Cartas de Alforrias e Religiosidade Cristã Na elaboração do testamento “post mortem” pesaram ações e pendências terrenas, além da preocupação em fazer justiça na distribuição dos bens da terça 106 e celebrações litúrgicas em favor da própria alma, parentes falecidos, pessoas com as quais tivera negócios e escravos vivos e defuntos, aparecendo às doações de alforria a cativos e a distribuição de esmolas aos menos favorecidos e ex-escravos, fazendo da manumissão um instrumento ideológico que durante a vida do doador servia para o controle ético-moral-religioso do cativo pela expectativa do ganho da liberdade e com a proximidade da morte, transformava-se em instrumento utilizado para aplacar a consciência e salvar a alma dos pecados cometidos durante a vida terrena dos estados testadores.107 Por serem documentos enriquecidos por declarações sobre as mais diversas situações envolvendo testadores, seus familiares, escravos e outras pessoas, apresentavam normalmente preceitos religiosos. “Uma cartilha católica de meados do século XIX recordava como regra de bem viver que os fieis fizessem seus testamentos enquanto gozavam de boa saúde. Mas era principalmente por ocasião de doenças graves que a morte passava a ser temida, ou simplesmente lembrada”.108 104 CSC– Testamentos– 1º Oficio. Arquivo Judiciário do Estado de Sergipe (AJES) (19-10-1799). CSC– Testamentos– 1º Oficio cx 02– Arquivo Judiciário do Estado de Sergipe (AJES) (28.12.1819). 106 Parte disponível do testador, podendo deixá-la a outrem, não necessariamente herdeiro ascendente ou descendente apud TELLES, José Homem Correia. Manual do tabelião. Ensaios de jurisprudência euremática. Lisboa: Imprensa Nacional, 1859.p.136. 107 GONÇALVES, Hortência de Abreu. As cartas de alforria e a religiosidade. Sergipe (1780 - 1850). 1998. Aracaju: UFS. Mestrado em Sociologia, UFS, 1998. p.24. 108 REIS, João José (Org.).. A morte é uma festa. Ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.p.95. 105 126 Significando em outras palavras que, na sua função religiosa, os senhores aproveitaram o testamento para doações de alforrias a escravos merecedores, ao tempo em que estabeleciam uma relação de pendência, com doações de pequenas glebas para o sustento do agraciado, pensando em barganhar com Deus, para o beneficio de salvação da sua alma. O testamento “post mortem” em sua função jurídica, representa a ultima dispositio voluntatis humanae solemniter ‘facta de eo, quod quis vult fieri post mortem, cum directa haeredis institutione’. Por las últimas partículas se distingue el testamento de todas las demás últimas voluntades. Dícese: solemniter facta, porque sin las debidas solemnidades, es nulo el testamento hecho ‘ad causas 109 profanas’. Nos documentos pesquisados, foram constatados vários casos de recebimentos Cartas de Alforria, muitas delas acompanhadas de solicitações repletas de religiosidade, além de parcelas de terras e a outros bens móveis e imóveis, inclusive esmolas em dinheiro para uso pessoal e benfeitorias no patrimônio recebido, agregadas a uma série de valores subjetivos, tais como: fidelidade, obediência e bons serviços, considerados como determinantes pelos doadores para a concessão ao escravo agraciado, como foi o caso da mulata Timota110, em gratificação ao trabalho desempenhado durante a doença do testador, dono de sítio na freguesia de Nossa Senhora da Purificação da Capela, viúvo, o qual além da alforria a fez meeira na herança de uma casa no dito sítio, em parceria com a sobrinha e afilhada Josefa Perpétua (do benfeitor), e caso esta última se negasse a repartir e viver na casa com a referida mulata, a casa passaria integralmente acompanhada do dito sítio para a mulata. Também foram inúmeros os casos de esmolas conjugadas às alforrias, para que o agraciado pudesse sobreviver por conta própria, como consta em inventário, datado de 25.11.1814, pertencente a um Capitão111, dono de um Engenho no termo da Vila de Nossa Senhora da Piedade do Lagarto, Comarca de São Cristóvão, sendo elas: ao escravo Agostinho, na quantia de 100$000 (cem mil réis) e ao escravo André da nação Gege, 100$000 (cem mil réis), esta última em duas partes, uma imediata (logo após a morte do testador) e outra repartida anualmente, ambas acompanhadas da Carta de Liberdade. Outro relato que merece destaque é o do Capitão Simão112, dono do Engenho do Jenipapo, termo da Vila de Santo Amaro das Brotas, natural da Povoação de Nossa Senhora da Ajuda da Itaporanga, em testamento datado de 02.08.1818, o qual por desencargo da consciência mandou celebrar meia capela de missas (cinquenta missas) pelas almas dos seus escravos vivos e defuntos. Com esse pensamento, muitos senhores procuravam formas de beneficiar cativos preferenciais deixando quantias estipuladas em testamento e diversas modalidades de recebimento de bens matérias e imóveis, inclusive, parcelas de terras que ajudariam no seu sustento e sobrevivência. O escravo negro devia obediência e fidelidade ao seu senhor, numa situação de total dependência, “ser escravo no Brasil é viver com lealdade uma contradição 109 “a última vontade voluntária humana ‘fato o é, fato de direito post mortem com a instituição de herdeiros’. Pelas suas determinações o testamento se distingue das demais últimas vontades. Diz-se: ‘fato solene’, porque são as dívidas solenes, é nulo o testamento quando ‘de causas profanas’ apud NATURALEZA DEL TESTAMENTO Y CODICILO. Compendio moral salmaticense. Tratado veinte. de los contratos .Espanha: Projeto Filosofia em Espanhol, 2000. Disponível em: <http://www.filosofia.org/mor/cms/cms1611b.htm>, acesso em: 20.12.2006.p.1. 110 Cartório do 1° Ofício – Vila de Maruim (28.07.1826), Caixa 01: (1812 – 1844) – Testamentos – Arquivo Judiciário do Estado de Sergipe (AJES). 111 Cartório de São Cristóvão – 1° Ofício – Caixa 04 (25.11.1814) – Testamentos – Arquivo Judiciário do Estado de Sergipe (AJES). 112 CSC – 1° Ofício – Arquivo Judiciário do Estado de Sergipe (AJES) – (1818 – 1820). 127 feita da permanência de um passado totalmente aceito, adaptado a um presente vivido, na esperança de um futuro melhor”113, objetivando a liberdade, a qual era conquistada, na vida cotidiana através de sutis adaptações, porque a sociedade que recebe o escravo não é mais fria, nem mais cruel que qualquer outra. A terra colonial é nova, aberta, e sabe-se de passagens possíveis de uma classe a outra, de uma cor a outra e de todos os laços econômicos e afetivos que se prendem solidamente ao fio das pobres vidas dos escravos.114 O escravo, ao longo do tempo, consegue criar um lugar próprio através da sua adaptação ou inadaptação assumidas, empenhando-se em apressar a passagem para a liberdade idealizada, a qual se encontra representada na alforria e em fins do século XIX na abolição. O cativo brasileiro encontrou vários caminhos para a liberdade, desde a morte, a fuga e a alforria até os dispositivos legais do século XIX. A praxe jurídica brasileira, como a de todas as sociedades de um regime escravista, manda que o filho da escrava nasça escravo, [...]. Nos decênios que precederam à abolição no Brasil, foram feitos alguns tímidos esforços para alforriar legalmente certas categorias de escravos: a lei que liberta os sexagenários, de 1885, e sobretudo a lei do ‘Ventre Livre’ [28.09.1871, nº 2040].115 As cartas de liberdade na sua maioria obedeciam a fórmulas-chave representadas pelas frases: “Por me haver bem servido (a)”, “Pelo amor de Deus” e “Pelo bem que lhe quero por tê-lo (a) criado (a)”, sendo estabelecido para seu recebimento, o critério da fidelidade, humildade e obediência, promovendo a “liberdade merecida e bem aplicada, pois é preciso assegurar à sociedade, garantir-lhe que o alforriado será um bom cidadão, não passará sobre pessoa alguma num mundo em que a caridade e deixada aos particulares”. 116 As alforrias eram distribuídas em ocasiões preferências, podendo ser feita na época do nascimento da criança especificamente na Pia Batismal, por um pagamento nominal, e neste caso estaria consignada nos registros paroquiais. A pessoa assim liberta era dita ‘forra à pia’[...]. Podia ser uma disposição testamentária do senhor, registrada nas provedorias, podia enfim ser conseguida a qualquer momento através de uma carta de alforria, registrada nas notas de um tabelião, carta de alforria esta que podia ser gratuita ou onerosa. 117 A alforria podia ser concedida ou comprada, sendo, porém, em alguns casos, “acoplada a condições suspensivas que estipulavam anos de serviços a serem cumpridos, ou que exigiam que o escravo servisse determinada pessoa, o senhor, sua viúva, algum seu herdeiro ou testamenteiro por vezes até a morte destes”.118 Muitos escravos podiam também acertar com seus senhores serem coartados ou em outros casos, terem o pagamento da liberdade em várias prestações. A carta de liberdade não era indiscriminada e beneficiava certas categorias de escravos. Primeiramente as mulheres, em seguida criança, velhos, deficientes físicos e homens, dando-se preferência aos pardos, mestiços e crioulos. Os testamentos revelam que 113 MATTOSO, Kátia M. de Queiroz. Ser escravo no Brasil. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1988.p.174. Id., Ibid., p.174. 115 Id., p. 176. 116 Id., p.187. 117 CUNHA, Manuela Carneiro da. Negros estrangeiros: os escravos libertos e sua volta à África. São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 31. 118 Id., p.31. 114 128 seriam privilegiados escravos mais próximos, mais velhos, mais fieis, concubinas e filhos bastardos, estabelecendo relações de proximidades e favores. A leitura das fontes documentais chama a atenção para heranças e esmolas deixadas aos cativos em cláusulas testamentárias, ocasião em que fica demonstrada a benevolência de alguns senhores com seus cativos. Cativos preferenciais receberam esmolas em dinheiro119para a compra da alforria, roupas e mesmo bens de raiz, como terrenos e casas de morada. Nos casos em que ficaram como herdeiros universais ou da terça, acham-se vinculados, muitas vezes, ao reconhecimento da paternidade. Foram agraciadas, na sua maioria, mulheres e crianças, aparecendo, entretanto, também alguns escravos do sexo masculino. Essas esmolas serviam para o sustento, ouvir missas e ajudar na compra da alforria, quando necessário. Quanto às esmolas e heranças a ex-cativos, os documentos apontaram oito esmolas e uma instituição em herdeiro universal e dois em herdeiros da terça, sendo ainda reconhecida a paternidade de ambos. Foram três os cativos do sexo masculino e quatros os do sexo feminino, inclusive com esmolas no valor de 600$000 (seiscentos mil réis) considerada soma alta em relação ao preço do escravo em plena força de trabalho, que se encontrava, nesse período, avaliado entre 180$000 e 200$000 (cento e oitenta e duzentos mil réis). Houve também casos de doações a todos os escravos, indiscriminadamente, que variam de tostões a mil réis. Os escravos testamentados e inventariados eram predominantemente do sexo masculino, em número de 397 ou 51%. O sexo feminino aparece em número menor, alcançando 316 ou 41%, existindo ainda o caso dos não identificados, verificados em 63 ou 8%, perfazendo o total de 776 cativos. Na faixa etária de 0 a 19 anos, analisada em dados referentes a 35 inventários, foi constatada a presença de 31 cativos do sexo masculino e 24 do sexo feminino, alcançando um total de 55 escravos para ambos os sexos. Os escravos inventariados atingiram o total de 274, sendo 161 do sexo masculino ou 58%, e 113 do sexo feminino ou 42%. Direcionando a análise para a etnia dos escravos testamentados e inventariados, as 776 peças, estão assim distribuídas: 1 Benguela, 3 Congo, 2 Guiné, 4 Cabras, 5 Pardos, 5 Nagôs, 6 Costa da Mina, 15 Geges, 62 Mestiços, 73 Angolas, 130 Mulatos, 214 Crioulos e 256 não identificados. Aqueles apontados como Cabras, Pardos, Mestiços e Mulatos resultaram da miscigenação, já Benguela, Congo, Nagô, Costa da Mina, Gege e Angola, são negros africanos. Quanto aos Crioulos, eram os negros nascidos no Brasil, filhos de negros oriundos da África. Do total de cativos de ambos os gêneros, 159 receberam alforria (gratuitas ou onerosas) ou 20% e 617 deles ou 80% permaneceram sob o julgo da escravidão. Na distribuição das alforrias quanto ao sexo, foi constatada a predominância do sexo feminino, com 78 manumissões ou 49%, ficando o sexo masculino com 71 Cartas de Liberdade ou 44,6%, aparecendo ainda, 10 alforrias não identificadas ou 6,4% referentes àquelas em que os senhores doaram a liberdade indiscriminadamente, sem citar nomes, sexo ou idade, apenas referindo-se: “a todos os meus escravos de porta a fora”. Já quanto à distribuição de alforrias, segundo o critério de gratuitas ou onerosas, 24% delas ou 38 foram onerosas entre puras, condicionais e parciais e 76% ou 121 manumissões, doadas em favor das gratuitas e suas modalidades, perfazendo o total de 159 Cartas de Liberdade (figura 1). 119 Recibo de 40$000 (quarenta mil réis) para ajudar o Júlio na compra da alforria, 1820. CSC. Testamentos. 1º Ofício Arquivo Judiciário do Estado de Sergipe (AJES). 129 Figura 1: Alforrias quanto ao tipo: gratuitas/onerosas – Capitania de Sergipe d’El Rey – 140 Testamentos e 35 Inventários – 1780 – 1850 24% 76% Alforrias Onerosas: 38 Alforrias Gratuitas121 Fonte: Arquivo Judiciário do Estado de Sergipe CSC – Livro de Registros de Testamentos CSC - 1o. Ofício – Cx01,02,03,04,05,06,08 – Testamentos CSC – 1o. Ofício – Cx02,04 – Inventários CM – 1o. Ofício – Cx02 – Inventários CM – 1o. Ofício – Cx01 – Testamentos Laranjeiras – 1o. Ofício – Cx01 – Testamentos Lagarto – 2o. Ofício – Cx01 – Testamentos Em se tratando das (figura 2), estabeleceu-se uma subdivisão em categorias, assim especificadas: Religiosas Diretas, com um percentual de 27% ou 43 Cartas de Liberdade, Religiosas Condicionais, ficando com um total de 16 manumissões ou 10% e ainda as Religiosas Indiretas, as quais alcançaram 21 Cartas de Alforrias ou 14%, perfazendo um total de 51% de manumissões voltadas às motivações religiosas dos doadores. Quanto à categoria Outras Alforrias, seu total foi de 79 Cartas de Liberdade ou 49% do total de alforriados. A presença da religiosidade nas doações testamentárias a escravos negros de Sergipe demonstra a preocupação dos testadores com a consciência, à remissão dos pecados e a salvação da alma. 130 Figura 2: Categorias de alforriamento – Capitania de Sergipe d’El Rey140 Testamentos e 35 Inventários – 1780 – 1850 10% 14% 49% 27% Religiosas Condicionais: 16 Religiosas Indiretas: 21 Religiosas Diretas: 43 Outras Alforrias 79 Fonte: Arquivo Judiciário do Estado de Sergipe CSC – Livro de Registros de Testamentos CSC - 1o. Ofício – Cx01,02,03,04,05,06,08 – Testamentos CSC – 1o. Ofício – Cx02,04 – Inventários CM – 1o. Ofício – Cx02 – Inventários CM – 1o. Ofício – Cx01 – Testamentos Laranjeiras – 1o. Ofício – Cx01 – Testamentos Lagarto – 2o. Ofício – Cx01 - Testamentos Com relação às alforrias condicionadas ao bom ou mau procedimento do escravo, que estavam implícitas nos termos: “pelo bom procedimento”, “pela fidelidade e obediência”, “por ter servido sempre honesto” etc., implicavam no comportamento do cativo antes, durante e após o recebimento da liberdade. Em mãos do doador encontrava-se o mecanismo de controle do cativo, através do “Direito de Revogação”, que podia cancelar quando necessário e em qualquer tempo a doação.120 Os testamentos e os Livros de Notas cartoriais atestam à frequência das Cartas de Liberdade “concedidas aos escravos por seus senhores. Livres, ex-escravos mantiveram-se nas propriedades dos seus antigos senhores ou procuraram novas oportunidades em outras fazendas [ou engenhos], com opções ocupacionais variadas”.121 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante da morte, o indivíduo sente certo número de necessidades, e cada cultura tem precisamente como função a de satisfazer à sua maneira essas necessidades. Para isso, buscam subsídios nos imperativos instrumentais, ligados as atividades físicas e intelectuais, assim como, nos imperativos integrativos, os quais giram em torno do conhecimento da magia e da religião. Na religião, os extravagantes rituais de morte ou maneiras de sepultar, são representantes dos valores especializados que surgem a partir da organização, implicando num esquema ou numa estrutura bem definida, onde os principais fatores são universais, porque “são aplicáveis a todos os grupos organizados, os quais ainda, na sua forma típica, são universais de um extremo ao outro da humanidade”.122 120 Op. Cit., nota 10, p. 290. ALMEIDA, Maria da Glória Santana de. Sergipe: fundamentos de uma economia dependente. Petrópolis, RJ: Vozes, 1984.p.17. 122 MALINOWSKI, Bronislaw. Uma teoria científica da cultura. Rio de Janeiro: Zahar, 1962.p.46. 121 131 O rito fúnebre transforma o ato mais privado do homem num acontecimento social, em que as preocupações de ordem prática e de ordem religiosa misturam-se com o objetivo de aplacar a satisfação de necessidades psíquicas e espirituais. A vida emocional dos parentes e amigos é profundamente perturbada, “o comportamento ritual imediatamente subseqüente à morte, pode ser considerado como padrão do ato religioso, enquanto a crença na imortalidade, na continuidade da vida e no mundo inferior pode ser encarada como um ato de fé”123, voltado ao culto do parente falecido. Em alguns casos, a pompa fúnebre, é sinal de que o morto possuiu durante a vida material uma boa condição social ou ocupou um lugar de destaque na comunidade ou no grupo.124 Assim, “o ritual do desespero, as exéquias, os atos de carpição exprimem a emoção da família do morto e a perda de todo o grupo”. Confirmam e redobram os sentimentos naturais dos que ficaram; criam um acontecimento social a partir de um fato natural. Todavia, embora nas cerimônias fúnebres, a mímica do desespero, da lamentação, no tratamento do corpo e na sua sepultura nada de transcendente se passe, estes atos representam uma função importante e possuem um valor considerável para “todas as culturas”.125 Quanto à religião, faz ascender o indivíduo àquilo que se poderia chamar de cooperação espiritual nos ritos fúnebres sagrados, fazendo ao mesmo tempo do corpo do morto um objeto de obrigações repletas de religiosidade. A proximidade da morte e a incerteza quanto à salvação da alma aliadas ao inconsciente coletivo repassado pelo cristianismo, na tríade céu-purgatório-inferno, levaram muitos testadores a lembrarem dos seus cativos preferenciais com ações de benfeitorias, dentre elas: a Carta de Alforria. Primeiramente como uma ação aparente de generosidade e uma reserva de virtude que podia favorecer o rito de passagem da vida material para a espiritual. E em segundo lugar, pautada na predominância do fato dos agraciados terem manifestado na convivência diária, bom comportamento, fidelidade, e bons serviços, além de, em muitos casos, serem filhos (as) que nesse momento podiam ser reconhecidos (a) e instituídos (as) nos remanescentes da terça ou como herdeiros (as) universais, aparecendo ainda aí, a função religiosa da caridade por mínima que fosse reconhecida como um dos prérequisitos necessários para a diminuição ou mesmo supressão de todos os pecados cometidos durante a vida material. Assim, independentemente da sociedade e do seu estágio evolutivo, a emoção da proximidade da morte e a preparação do rito fúnebre desencadeiam reações naturais do homem a situações específica, que tem suas bases num mecanismo psicofisiológico universal. “Neste jogo de forças emocionais, neste supremo dilema de vida e morte derradeiras, entre a religião, escolhendo o credo positivo, a visão reconfortante, a crença cultural válida na imortalidade, no espírito independente do corpo, e na continuação da vida depois da morte”126 se encontrava o verdadeiro cerne da vida humana o qual se pautava no medo da morte e no desejo de viver127, muitas vezes representado pelas solicitações de celebrações litúrgicas e outras manifestações repletas de religiosidade a cativos preferenciais, agraciados com Cartas de Alforrias e outras benfeitorias em Sergipe entre os anos de 1780 e 1850. 123 Op. Cit., nota 7, p. 54. Op. Cit., nota 24. 125 Id. Ibid., nota 39, p.54 126 Id. Ibid., nota 39, p. 54. 127 Id. Ibid., nota 24. 124 132 DONATIONS IN WILLS MANUMISSION "POST MORTEM": SERGIPE (17801850) ABSTRACT This article aims to identify the religious motivations of donors in the distribution of letters Alforria the black slaves of Sergipe via wills "post mortem" and inventories between the years 1780-1850. Therefore, we examined 179 documents, 140 from wills and 39 inventories File Judiciary of the State of Sergipe (AJES), coupled with secondary sources printed and digital. The data and information collected was analyzed and interpreted by the hypotheticaldeductive methods and content analysis, supported by the History of Mentalities. In Sergipe, many manumission were donated in exchange for religious motivations that aimed to placate the conscience of sins redeem and save the soul. Keywords: Donations Letters Alforria. Religious motivations. Testaments "post mortem". Inventories of Sergipe. REFERÊNCIAS ALMEIDA, Maria da Glória Santana de. Sergipe: fundamentos de uma economia dependente. Petrópolis, RJ: Vozes, 1984.p.17. BOUDON, Raymund; BOURRICAUD, François. Dicionário crítico de sociologia. São Paulo: Ática, 1993, p.463. CUNHA, Manuela Carneiro da. Negros estrangeiros: os escravos libertos e sua volta à África. São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 31. EISENBERG, Peter. Homens esquecidos: escravos e trabalhadores livres no Brasil – séc. XVIII e XIX. Campinas. UNICAMP, 1989. p.245. FREIRE, Gilberto. Sobrados e mocambos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1968.p.494. GONÇALVES, Hortência de Abreu. As cartas de alforria e a religiosidade. Sergipe (1780 - 1850). 1998. Aracaju: UFS. Mestrado em Sociologia, UFS, 1998. p.24. MATTOSO, Kátia M. de Queiroz. Ser escravo no Brasil. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1988.p.174. MAIR, Lucy. Introdução à antropologia social. Rio de Janeiro: Zahar, 1969 (Coleção Biblioteca de Ciências Sociais). p. 212. MALINOWSKI, Bronislaw. Uma teoria científica da cultura. Rio de Janeiro: Zahar, 1962.p.46. ______. Magia, ciência e religião. São Paulo: Edições 70, 1984. NATURALEZA DEL TESTAMENTO Y CODICILO. Compendio moral salmaticense. Tratado veinte. de los contratos .Espanha: Projeto Filosofia em Espanhol, 2000. Disponível em: <http://www.filosofia.org/mor/cms/cms1611b.htm>, acesso em: 20 dez. 2006.p.1. NASCENTES apud EISENBERG, Peter. Homens esquecidos: escravos e trabalhadores livres no Brasil – séc. XVIII e XIX. Campinas. UNICAMP, 1989. p.245. 133 REIS, João José (Org.). A morte é uma festa. Ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.p.95. . Escravidão e invenção da liberdade: estudo sobre o negro no Brasil. São Paulo: Brasiliense: CNPq, 1988.p.75-6. TELLES, José Homem Correia. Manual do tabelião. Ensaios de jurisprudência euremática. Lisboa: Imprensa Nacional, 1859.p.136. 134 WEB SEMÂNTICA E SUA CONTRIBUIÇÃO PARA A WEB 3.0 Cleberton Carvalho Soares128 Paulo Caetano da Silva129 RESUMO A capacidade de interpretar uma informação, propiciando um relacionamento que refute em resultados e pesquisa com maior exatidão, é uma meta que permeia as inovações na próxima geração da Web. Este artigo tem o objetivo de elucidar sobre o conceito e potencialidades vinculadas a proposta da Web Semântica, fazer exposição do que será proporcionado e melhorado na Web que usamos atualmente, e como a proposta da interpretação semântica proporcionará mais recursos e facilidades para, as pessoas utilizarem a Web na busca da informação que está disponível neste ambiente computacional. Palavras-Chave: WEB Semântica. WEB 3.0. 1. INTRODUÇÃO Desde o seu surgimento, a Web130 tem se apresentado como uma ferramenta muito oportuna para disponibilizar informações. Em forte contraste à sua proposta original no tocante ao objetivo e disponibilidade, hoje refuta da grande incumbência de ser um importante e amplo recurso de socialização da informação. Acessível e democrática é responsável em unir, criar ou quebrar modelos de comportamentos. Dando subsídios para o encontro de sociedades, antes separada pelas distâncias geográficas, agora, pelo contexto de realidade virtual, encontram-se sempre “a um clique de distância”. De forma bastante empática e sem preconceitos, tem realmente sido uma contundente aliada na implantação do mundo globalizado, porque consegue interligar e tornar próximas as pessoas e empresas, independente de sua localização geográfica, tornando-se um ambiente com grande aceitação entre todos os públicos, sejam eles pessoas ou empresas. A Web não necessita de qualquer barganha para reconhecimento do seu crescimento, por mais cético e crítico que sejamos em falar sobre benefícios ou malefícios, sua expressividade é contundente e notória – hoje são mais de 2 bilhões, segundo a União Internacional de Telecomunicações (UIT), órgão vinculado a Organização das Nações Unidas (ONU). Contudo, apesar de ser considerado o maior repositório de informações da história humana,131 possui uma característica que causa incômodo: não possuir uma estruturação definida que estabeleça uma padronização no armazenamento dos dados. É como se fosse um armazém que está dotado de grande estoque, porém não sabemos como ele foi ou está sendo organizado. Estamos alimentando um repositório, mas desorganizadamente; um grande 128 Mestrando em Redes e Computação pela UNIFACS. Coordenador de Cursos de TI da Estácio FASE.Núcleo de Tecnologia e Sistemas – Faculdade Estácio de Sergipe – Estácio FaSe. 129 Doutor em Ciências da Computação pela UFPE. Professor do Mestrado em Sistemas e Computação da UNIFACS. 130 World Wide Web. Em português, significa grande rede que envolve o mundo, também conhecida como WWW. 131 FEITOSA, Ailton. Organização da informação na Web – das TAGS à Web Semântica. Brasília: Thesaurus, 2006. ISBN: 8570625685. 135 volume de dados que poderá não ser aproveitado, visto que, além de guardar a informação, existe a necessidade de recuperá-la – de acordo com critérios que satisfaçam uma necessidade presente. Portanto, deve-se definir e expor a política que demonstre claramente como e onde está alocado qualquer objeto, sob pena de não se usufruir o que se tem. Quanto maior a quantidade, mas vital é cumprir a premissa da capacidade de resgatar o que está armazenado. Com base na perspectiva da dimensão quantitativa de informações que estão alocadas e que possivelmente continuarão a ser adicionadas na Web, torna evidente a necessidade em estabelecer regras e modelos que facilitem a utilização de toda base de conhecimento armazenado na Web. Inclusive, é preciso que se estabeleçam paradigmas que permitam detalhes do contexto da informação, de modo que permita um resultado mais preciso e expressivo quando a proximidade do assunto que está se buscando. Importante lembrar que estamos tratando de algo muito sensível e ambíguo – palavra, expressão, frase – que depois de digitada em um site de busca deve proporcionar resultados rápidos e pautados no contexto em que o usuário digitou. Apesar dos avanços nos mecanismos de busca, os resultados que são mostrados evidenciam várias fontes que necessariamente não condiz com a necessidade de quem requisitou a informação. Exemplo disso é observarmos quantas vezes fazemos mudanças no que digitamos, com a perspectiva que tenhamos mais êxito em nossas reais necessidades. O objetivo deste trabalho é elucidar sobre o potencial que está vinculado a Web Semântica, como essa proposta facilitará as atividades das pessoas com o mundo virtual, principalmente no tocante a inovação na busca da informação, mais especificamente naquilo que sugere propiciar ao computador, através da implantação de conectivos que associem informações correlacionadas, de um fator relevante à sua capacidade: interpretação dos conteúdos. Para isto, será feita uma exposição sobre o contexto conceitual e evolutivo da WorldWide Web, destacando as principais características oferecidas aos seus usuários e como a proposta estabelece, ainda mais, sua atuação maior em nossa rotina. Posteriormente discutiremos a proposta do modelo baseado na Web Semântica, quais as mudanças oriundas da aplicabilidade que serão proporcionadas na atmosfera dessa proposta para o mundo virtual, bem como os requisitos e ferramentas para que esse ambiente esteja plenamente em operação. Este artigo está organizado da seguinte forma: na Seção 2, trataremos de descrever sobre o contexto de Ubiquidade da Web, detalhando suas características desde seu surgimento até o cenário baseado na Web Semântica. Na Seção 3, detalharemos sobre a proposta da inclusão da semântica na Web, bem como a infraestrutura que está sendo referenciada como mecanismo para possibilitar a interação entre as informações disponíveis no ambiente virtual. 2. UBIQUIDADE DA WEB A ubiquidade, juntamente com a mobilidade, são duas premissas que estão cada vez mais disponíveis para as pessoas, abrangendo regiões cada vez maiores e remotas. No Brasil, o Governo Federal através do Ministério das Telecomunicações estabeleceu um Plano Nacional de Banda Larga, que prevê até 2014 “a massificação da oferta de banda larga e promover o crescimento da capacidade da infraestrutura de telecomunicações no país”. 132 É objetivo propiciar uma integração que fomente a cooperação e colaboração, através do 132 Anael, 2010. 136 conceito da Web das Coisas133,onde tudo e todos aqueles estarão conectados a internet, o que proporcionará um sentimento de onipresença. Sejam eles: eletrodomésticos, lâmpadas, eletroeletrônicos, componentes mais “físicos” de nossas casas (portas e janelas),dentre outros dispositivos, estarão em rede e possibilitará introduzir a computação mais ainda em nosso espaço e rotina. Com este novo contexto de ubiquidade, Tim Berners-Lee, propõe então uma nova geração para a Web - apesar de que críticos consideram apenas como uma evolução, para que a disponibilidade da Internet fomente ainda mais o acesso de cidadão no domínio do mundo digital, classificado por Pierre Lévy, como cibercultura, bem como a estrutura necessária e permissiva para a Web das Coisas. Vejamos então as características inerentes a cada uma das gerações, e qual a proposta para a próxima Web: a Web 3.0.134 2.1 Web 1.0 Durante seu início, o contexto da Web estava vinculado aos hipertextos e hipermídias, os quais dão suporte ao estado da arte da socialização da informação, através de tecnologias das linguagens de marcação, sendo o principal exemplo: HTML (HipertextMarkupLanguage). O acesso a diversos conteúdos, por computadores e pessoas, passa a crescer rapidamente em razão do crescente número de usuários. As empresas desenvolvem portais cada vez mais interativos, com pequena periodicidade de atualização. Na vigência dessa geração, o ambiente da Web é similar ao da televisão, no qual os conteúdos estão prontos e caracterizados para leitura; por analogia, podemos dizer que seria um modelo de comunicação simplex: um fala o outro ouve, intermitentemente. As empresas investem na pesquisa e desenvolvimento, principalmente no tocante a segurança dos dados, para oferecer um ambiente seguro para troca de dados seguros, visando à comercialização de produtos e serviços. Começam então a surgir os problemas oriundos da segurança da informação, com hackers e crackers135 impondo dúvidas quanto a Web ser realmente um ambiente seguro para troca de dados sigilosos e confidenciais. O acesso a Internet não é tão popular, e a banda larga é privilégio de poucos – principalmente pelos fatores de custo e disponibilidade. O computador detém um valor agregado alto, e privilégio de pouca parcela da população. Começamos a usar os e-mails, porém existe grande limitação para armazenamento de informação, consequência do alto custo dos dispositivos de memórias. Com isso, precisamos gerenciar os arquivos, e definir o que realmente é importante deixar armazenado. 2.2 Web 2.0 A inclusão das pessoas no desenvolvimento dos conteúdos que lhe são peculiares apontou como a maior transformação da Web. Como consequência, temos uma adesão ainda mais acentuada das pessoas ao mundo virtual. As redes sociais aperfeiçoaram o conceito da cibercultura. Blogs, sites pessoais e redes sociais (Youtube, Twitter, Facebook) tornam uma 133 A Web dasCoisas (WoT, do inglês, Web ofThings) propõe que os objetos inteligentes, (o que são objetos inteligentes?) sejamintegrados a Web, permitindo, desta forma, que os usuários possam acessar tais objetosatravés de URLs. 134 LÉVY, Pierre. Cibercultura. Traduação de Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 1999. ISBN: 8573261269. 135 Programadores que buscam fazer adaptações modificações em programas, para finalidades construtivas (identificar e informar falhas) ou destrutivas (roubo de informações). 137 pessoa cidadã do mundo, porque está ligada a qualquer outro ser humano do globo. Essa abertura foi tão envolvente que as redes de televisão começaram a trabalhar também com a participação do telespectador nas decisões de seus programas, através de estratégia de votação, através da web e/ou telefone – usando serviços gratuitos: 0800. O e-business e o e-commerce se expandem, são abertos para novos e pequenos grupos comerciais, que utilizam sites que servem como nó central para unir quem quer comprar e quem quer vender. Já não é mais diferencial companhias possuírem sites que aproximam e respondam rapidamente aos anseios de seus clientes. O mundo se converte então para uma nova realidade em que os indivíduos estabelecem novas formas linguísticas. A educação também usufruiu dos novos paradigmas da comunicação, quando as instituições educacionais inovam e massificação em ambientes virtuais de aprendizagens, permitindo uma nova metodologia para a relação ensino-aprendizagem mediada através do computador. A necessidade de padrões para troca de informação cresce e são desenvolvidas estruturas próprias de marcação, como, por exemplo, a XML (eXtensibleMarkupLanguage)136, permitindo então a padronização dos documentos a serem enviados e recebidos. Acredita-se que o maior fator do sucesso e do crescimento da Internet seja a liberdade que fornece aos seus usuários. Em um mesmo ambiente temos sites sofisticados, construídos com ajuda de especialistas, cuja informação serve como referência para empresas de todo o país, coabitando com páginas pessoais, construídas por leigos e que contém informações triviais sobre seus autores, familiares e bichos de estimação.” 137 2.3 Web 3.0 Independente de ser uma nova geração ou evolução, a Web 3.0 deverá proporcionar um aperfeiçoamento e ampliação na conectividade entre as coisas e as pessoas, integradas e interagindo a partir de uma computação mais inserida em nossa vida, além da capacidade de análise semântica executada não somente por pessoas, mas também pelos computadores, sobrepujando o modelo da Web Sintática138. Se fizermos uma caracterização das diferentes gerações da Web, podemos dizer que a Web 1.0 foi uma espécie de apresentação da rede; a Web 2.0 é o contexto que vivemos hoje, expressivamente aberta para sua construção, busca de informação e sociedades virtuais. Para a Web 3.0, dizemos que seja o momento de organizar todas as informações, para proporcionar melhores resultados nas buscas, e na capacidade de interpretação de um objeto e correlacionando com outros existentes na rede, como se fosse um ambiente mais “inteligente”. Segundo Dziekaniak; Kirinus, a Web Semântica visa incorporar semântica às informações. Isso proporcionará não somente aos usuários entenderem as informações como também as máquinas.139 Ela pretende fornecer estruturas e dar significado semântico ao conteúdo das páginas web, criando um ambiente no qual os agentes de software e usuários possam trabalhar de forma cooperativa. Baseado nessa perspectiva far-se-á um detalhamento, nas próximas seções, sobre os requisitos para a concepção dessa nova realidade estrutural para a Web, e como se pretende 136 Definida pela W3C Consortium. Disponível via URL: www.w3c.org Id. Ibid., nota 132. 138 Termo utilizado para o fato dos computadores apenas fazerem a apresentação da informação, mas não interpretá-la. 139 DZIEKANIAK, Gisele Vasconcelos. KIRINUS, Josiane Boeira. Web Semântica. Disponível em: http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/eb/article/view/155/5471. Acesso em: 01 jun. 2011. 137 138 alcançar a possibilidade de colaboração do computador em tarefas atualmente intrínsecas ao homem. 3. A INCLUSÃO DA SEMÂNTICA NA WEB Através de uma simulação pela busca de uma palavra em um dicionário, poderemos compreender o contexto proposto pela Web Semântica. A partir da apresentação de uma palavra qualquer, porém, sem ainda se saber o seu significado, é solicitado que a encontre em um livro, por exemplo, sublinhando todas as ocorrências e anotando em um papel o número da página e o nome do respectivo capítulo em que foi localizada. Desconhecer o significado da palavra, ou seja, a semântica, não será fator impeditivo para que se realize o que foi pedido. Diferentemente do primeiro pedido, agora lhe é solicitado que se faça uma busca em um artigo de poucas laudas e com trechos que estejam vinculados com a palavra. Essa nova característica vai produzir uma necessidade eminente que culminará na iniciativa em conhecer qual o significado dela, para então analisar o texto e realizar a atividade, de acordo com o que fora estabelecido. O mecanismo de buscas quando utilizado, é semelhantemente ao exemplo acima citado, executado de forma sintática. Fazendo uma analogia com outros sistemas computacionais, podemos dizer que seria um “terminal burro”140, i.e. que não detém nenhuma capacidade de analisar o que está sendo requerido, assim também fazem os serviços de buscas, os quais desconhecem o significado de uma palavra; eles vão ao comparativo básico do que fora digitado pelo usuário pelo que está contido nas marcações das páginas do código HTML (TAGs). Outro exemplo desse tipo de análise pode ser vista com os firewalls 141. Ao colocarmos um filtro que negue o acesso a páginas da Internet com teor erótico, utilizamos, por exemplo, a negativa para tudo que contenha a expressão “sexo”. Com isso, não teremos sucesso ao tentar acessar URLs que contemplem uma pesquisa sobre “sexologia”, mesmo que o intento não seja direcionado para a concepção de erotismo – que é o fator gerador para o bloqueio. Quando estamos buscando informação na Web através de uma determina palavra, recebemos milhares de conteúdos que não possuem relevância alguma para o nosso objetivo – pouco produtivo, e exige que as pessoas façam análise sobre as informações retornadas pela busca e então se defina o que será aproveitado. Voltando ao exemplo dado no início desta seção, certamente é mais fácil procurar apenas a repetição de alguma palavra em uma grande porção de documentos do que avaliar e identificar o contexto esperado. Portanto este é o cenário atual: “os computadores fazem apenas a apresentação da informação, porém o processo de interpretação fica para os seres humanos.”142 Então, ficamos nós (peopleware143) com a parte mais difícil no processo de busca da informação: a análise. A proposta para prover “inteligência” à WEB consiste em incluir a capacidade de análise semântica capaz de realizar inferências que proporcionem um ganho na busca do conhecimento que está espalhado pela Web, sempre entregando resultados mais relevantes dentro do contexto do esperado. “A Web Semântica é uma extensão da Web atual, na qual é dado à informação um 140 No início da década de 80, era comum implantar redes com um servidor robusto (para a época) e máquinas sem poder de processamento, que ligados ao servidor, com função específica de exibir imagens e enviar os comandos digitados pelo usuário. Por tais características, foram denominados de terminais burros. 141 Dispositivos que protegem as redes locais das empresas contra ataques de redes externas sem controle, por exemplo: a Internet. 142 BREITMAN, Karin. Web Semântica – A Internet do Futuro. Rio de Janeiro: LTC, 2005. ISBN: 8521614667. 143 Termo empregado para as pessoas que faz uso das funcionalidades de um sistema computacional. 139 significado bem definido, permitindo que computadores e pessoas trabalhem em cooperação.”144 No entanto, temos algum problemas para o contexto da Web, com um quantitativo enorme de informação, criada por mais de 1 bilhão de usuários da Internet, a WEB não possui um controle e não dispõe de paradigmas de padronização de armazenamento, implicando em um considerável volume altamente desorganizado. Seria como se tivéssemos uma enorme biblioteca com os livros dispostos nas estantes sem critérios. Portanto, é um desafio de proporções semelhante à quantidade das informações disponíveis, o serviço de recuperar a informação que esteja de acordo com a necessidade. 3.1 Infraestrutura para a Web Semântica De forma a agregar um elemento de apoio à proposta para a Web Semântica, Tim Berners-Lee145 propõe uma unidade o qual denominou de URI – Universal ResourceIdentifier. Esta consiste em núcleos que apontam para um dado recurso, estejam ou não incluídos na Internet, mas que tenha alguma ligação (informação relacionada ou correlacionada) para aquilo que está sendo procurado. Segundo Jardim146, “O URI (UniformResourceIdentifier) é um padrão para identificar um recurso físico ou abstrato de maneira única e global.A URL147, por exemplo, pode ser um recurso, mas não somente ele, mas também: coisas, pessoas, lugares, ideias [sic].” A URI representa a espinha dorsal para integração a que se propõe a Web Semântica, porém, a efetividade de constituir-se é resultado de dois recursos que veremos a seguir. 3.1.1 Metadados Em detrimento a heterogeneidade da Web e baseado na proposta para que os computadores possam inferir, através da semântica, tornar-se obrigatório a definição de uma sistemática que defina as características de como integrar informações relacionadas – devemos saber que, por mais dinâmico que pareça, o computador está baseado em modelos pré-definidos e, de certa maneira, ele segue sempre uma sequência lógica de ações previamente definidas, ou seja, faz o que está programado. Então para a implantação do paradigma da Web Semântica, é preciso construir um esquema que suporte sua proposta. Apesar deste termo não ser originário do ambiente computacional, metadados é um termo que imputa simplesmente a capacidade de um dado ter informações sobre outro dado. Por exemplo: identificação, descrição, localização. Ou seja, temos o dado armazenado que detém o teor da informação propriamente dito, e um com a função de apresentar atributos que melhor lhe caracterize e defina. 144 BERNERS-LEE, Tim. HENDLER, James. LASSILA, Ora. The Semantic Web. Disponível em:<http://www.sciam.com/article.cfm?articleID=00048144-10D2-1C70-84A9809EC588EF21> Acesso em: 15 maio 2011. 145 Id. Ibid. 146 JARDIM, André Desessards. Introdução à Web Semântica. Disponível em: http://ia.ucpel.tche.br/~lpalazzo/Aulas/IWS/m01/Intro.pdf. Acesso em 01 jun. 2011. 147 UniformResourceLocator. Um localizador de um recurso em uma rede de computadores; por exemplo, a Internet. 140 Para uma visão mais específica no escopo que estamos abordando, o consórcio WC3 (World Web Consortium),148 define METADADOS como “informação para a Web que pode ser compreendida por máquinas.” Didaticamente podemos exemplificar um metadado como o catálogo de livros de uma biblioteca, a qual nos auxilia na busca de um livro, ou como uma placa sobre um freezer que informa as características de um picolé: composição, sabor, preço, etc. Todos estes podem ser definidos como metadados sobre os dados (livro, picolé). Percebe-se que um metadado será fundamental para a aplicabilidade da Web Semântica, porque será o recurso centralizador para a organização no armazenamento dos dados, e propulsor para a recuperação da informação funcionando como um indexador. Uma característica importante na Web Semântica será a adaptação para novos paradigmas, visto que como já se detém domínio do layout da conectividade entre as informações dispostas na Web, qualquer adaptação e/ou conversão para modelos, que sejam resultados de estudos e de melhores cenários, tornar-se-ão bem mais factível. No entanto, não podemos crer que será algo fácil de fazer, porque deve ter uma participação ativa para a marcação das informações – que inclusive, o próprio teor pode ser considerado verídico. São exemplos de metadados para Web Semântica: Dublin Core – apresentado durante workshop em Dublin, Ohio. Por isso do seu nome “Dublin”. Utiliza o XML e o RDF para definir metadados para descrever vídeos, sons, imagens, textos, etc. Mantido pela Dublin Core ® MetadataInitiative. São exemplos de propriedades comuns definidas por essa especificação: Título, criador, assunto, descrição, publicador, formato, origem, idioma, relação, abrangência, direito. Framework de Warwick – fruto da adição de melhorias para as críticas feitas ao Dublin Core, apresentado no Warwick Workshop (abril de 1996), tem o intuito de ampliar a interoperabilidade entre agentes fornecedores de conteúdo, de catálogos e indexadores. Foram adicionadas as seguintes propriedades de um documento (além da proposta do Dublin Core): termos e condições de uso, informações de segurança (assinaturas e autenticidade), responsável pelo armazenamento, informações que identifique novas versões, dentre outras. ResourceDescription Framework (RDF) – define um esquema XML para padronização, utilizando uma linguagem XML/RDF. Possui em sua estrutura três elementos básicos: recurso, propriedade e indicação. Publicada em 2004 pela W3C (versão preliminar em 1999), a especificação provê um modelo simples de dados, através do vocábulo baseado em URI e suportada pelo XML. 3.1.2 Ontologia Afirma Mendes que a princípio o termo ontologia era mais popular no campo filosófico, mais especificamente na área que trata do Existencialismo e questões metafísicas.149 Na área de Tecnologia da Informação este termo começou a ser utilizado a 148 149 BRASIL. Ministério das Telecomunicações. Disponível via URL: www.mc.gov.br. MENDES, Graycielli Athanasio; FERREIRA, Ana Carolina Xaves; LIMA, Rafael Couto dos S. A Web Semântica e sua Aplicabilidade no Meio Acadêmico. Disponível em:http://www.aedb.br/seget/artigos06/830_websemantica.pdf. Acesso em 18 maio 2011. 141 partir da década de 90 no ramo da Inteligência Artificial. De acordo com Breitman 150, uma das bases da Web Semântica reside na utilização de ontologias, a qual detém a função de fornecer um padrão para alocação da informação na Web, permitindo que os códigos dos programas computacionais possam receber e fornecer informações, ou seja, sendo elementos de entrada para serem computacionalmente interpretadas geram resultados que também irão disponibilizar dados a outros programas. Tudo isso de forma automática e de acordo com as regras estabelecidas no de desenvolvimento de softwares. A própria HTML, por exemplo, foi a ontologia criada por Tim Berners Lee para a criação da WWW (World Wide Web), e então fazer com que os computadores do mundo todo pudessem acessar o conteúdo do ciberespaço através de navegadores (Internet Explorer, Google Chromer, Firefox, etc.). No entanto, duas características da Internet não são permissivas para alcançarmos uma informação relevante, são elas: o volume e a falta de padronização, agora de forma mais específica para o que estamos trabalhando, definição semântica interpretável por programas e sistemas. Uma valorosa contribuição para dotarmos a Web de inteligência é definir a estrutura semântica, o uso de ontologias se estabelece como a estratégia mais adequada para tal finalidade. O consórcio W3C de maneira mais específica define ontologia como “a definição dos termos utilizados na descrição e na representação de uma área do conhecimento”, e estas devem definir descrições para coisas, seus relacionamentos e respectivos atributos. Uma ontologia pode assumir vários formatos, mas necessariamente deve incluir um vocábulo de termo e alguma especificação do seu significado. Esta deve abrange definições e uma indicação de como os conceitos estão inter-relacionados, o que resulta na estruturação do domínio e nas restrições de possíveis interpretações de seus termos.151 A aplicabilidade da ontologia permite capturar a análise semântica da requisição e nortear o computador, através do mapeamento de conteúdos relacionados e co-relacionados, na identificação dos recursos que estão convenientemente enquadrados no perfil da pesquisa. Para tanto, ela também define a estrutura de como está organizada a informação na Web. 4 CONCLUSÃO A Web Semântica é uma iniciativa importante e representa um caminho evolutivo já esperado. Se hoje a Web detém a titulação de grande repositório de informações, certamente a crescente adição de usuários, seja por meio das pessoas – através da ubiqüidade de Internet, ou por “coisas” – através da Web das Coisas, proporcionará uma elevação desse volume de informações; o que dificultará ainda mais alcançar resultados adequados pelas ferramentas de busca. O desafio de maior proporção é a definição de uma estrutura em que todos os usuários possam está ciente e de acordo com ela. A Web Semântica é um projeto que envolve bilhões de pessoas que contribuem na produção de informações, as quais se distinguem de forma acentuada: estrutura política, costumes, crenças, valores, etc. Contudo, não deixa de ser factível e até uma proposta competente para apoiara implantação da Web Semântica, ou Web 3.0; da mesma forma que foi com o HTML, estratégias alcançarão a sua implantação; porém, vemos a existência de um 150 BREITMAN, Karin. Web Semântica – A Internet do Futuro. Rio de Janeiro: LTC, 2005. ISBN: 8521614667. 151 Id. Ibid. 142 longo caminho. Enfim, não existe mágica na Web Semântica. Não podemos apertar um botão e ver todos os nossos dados postos em ordem ou todas as páginas da Web colocadas juntas. Mas, considerando que o problema antes foi insuperável, agora existe a esperança para caminhos mais automatizados, rotineiros e previsíveis para trazer dados simultaneamente, compartilhá-los e torná-los úteis para as mais novas aplicações de software. É oportuno citar que a XML, através da possibilidade proporcionada para a padronização de trocar informações entre empresas e/ou para um órgão regulador, aponta que existe possibilidade para a uma estrutura padronizada. Também não podemos imaginar outra metodologia para migração para a Web Semântica que não seja paulatina; iniciando por grupos de segmentos específicos, e que forneçam as respostas que dissipem as preocupações e possíveis dissensões, lentamente pelo mundo. Portanto o cenário de que as máquinas terão a capacidade também de interpretar os dados ainda está relativamente distante. Mas é um caminho que começou a ser desenvolvido a poucos anos atrás (contudo, vimos que a idéia não é tão recente), mas que deverá apresentar expressividade dos seus resultados em pouco tempo. O básico e mais salutar é continuar com o projeto e certamente as convergências irão surgir e definir o modelo da Web Semântica. A SEMANTIC WEB AND THEIR CONTRIBUTION TO THE WEB 3.0 ABSTRACT The ability to not just make a simple comparison of words and terms, but also to interpret an information providing a relationship that refute and research results more accurately, it is a goal that permeates the minds of those who seek innovations in next generation Web. This article aims to shed light on the concept and potential related to the proposal of the Semantic Web, exposure to which will be provided and improved Web we use today, and how the proposed semantic interpretation will facilitate even more people - that certainly will be increasingly connected - in search of information that is stored and available. Key Words: Semantic Web. Web3.0. REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério das Telecomunicações. Disponível via URL: www.mc.gov.br. BERNERS-LEE, Tim; HENDLER, James; LASSILA, Ora. The Semantic Web. Disponível em:<http://www.sciam.com/article.cfm?articleID=00048144-10D2-1C70-84A9809EC588EF21> Acesso em: 15 maio 2011. BREITMAN, Karin. Web Semântica – A Internet do Futuro. Rio de Janeiro: LTC, 2005. ISBN: 8521614667. DZIEKANIAK, Gisele Vasconcelos. KIRINUS, Josiane Boeira. Web Semântica. Disponível em: http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/eb/article/view/155/5471. Acesso em: 01 de junho de 2011. FEITOSA, Ailton. Organização da informação na Web – das TAGS à Web Semântica. Brasília: Thesaurus, 2006. ISBN: 8570625685. 143 JARDIM, André Desessards. Introdução à Web Semântica. Disponível em: http://ia.ucpel.tche.br/~lpalazzo/Aulas/IWS/m01/Intro.pdf. Acesso em 01 jun. 2011. LÉVY, Pierre. Cibercultura. Traduação de Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 1999. ISBN: 8573261269. MENDES, Graycielli Athanasio; FERREIRA, Ana Carolina Xaves; LIMA, Rafael Couto dos S. A Web Semântica e sua Aplicabilidade no Meio Acadêmico. Disponível em:http://www.aedb.br/seget/artigos06/830_websemantica.pdf. Acesso em 18 maio 2011. POLLOCK, Jeffrey T. Web Semântica para Leigos. São Paulo: AltaBooks, 2010. ISBN: 9788576084655. W3C Consortium. Disponível via URL: www.w3c.org. 144 ARQUITETURA ORIENTADA A SERVIÇOS E SEGURANÇA EM WEB SERVICES Anderson Lago Gomes152 Cleberton Carvalho Soares153 Danielle Amaral Menéndez,154 Paulo Caetano da Silva155 RESUMO Este artigo pretende abordar as principais ameaças à segurança da arquitetura orientada a serviços utilizando a tecnologia Web Services e propor estratégias de contramedidas a fim de proporcionar uma solução mais eficiente em relação ao ambiente seguro para a troca de mensagens, permitindo a redução de riscos. A abordagem não está vinculada a qualquer uma tecnologia de desenvolvimento de software, permitindo sua aplicabilidade em qualquer ambiente. Palavras-chave: Arquitetura Orientada. Segurança. WEB Services. 1 INTRODUÇÃO Em meio a crescente demanda de soluções de TI, unida às necessidades de maior eficiência, menor complexidade e integração de soluções de fornecedores distintos, surgiu a arquitetura orientada a serviços (SOA). SOA é uma evolução que alia abordagens bem sucedidas de paradigmas passados com os recentes avanços tecnológicos e conceituais. As definições para SOA passam pela avaliação de dois termos separadamente, arquitetura e serviço, o primeiro trata basicamente de como os componentes fundamentais de um sistema se relacionam intrinsecamente e extrinsecamente156, o segundo é um pedaço de uma funcionalidade autossuficiente, independente da complexidade de sua implementação. Desta forma, SOA não é uma ferramenta, é uma abordagem, um modo de pensar, um sistema de valores que conduz a determinadas decisões ao criar uma arquitetura concreta de software.157 Atualmente existem algumas plataformas que provêm uma base para a construção de uma arquitetura orientada a serviços, destacam-se: Open Source Gateway Initiative (OSGI), OpenWings, e Web Services. 152 Mestrando em Sistemas e Computação – Universidade de Salvador – UNIFACS/BA. [email protected] 153 Mestrando em Sistemas e Computação – Universidade de Salvador – UNIFACS/BA. [email protected] 154 Mestranda em Sistemas e Computação – Universidade de Salvador – UNIFACS/BA. [email protected] 155 Doutor em Computação. Professor do Mestrado em Sistemas e Computação da Universidade de Salvador – UNIFACS/BA. [email protected] Núcleo de Pesquisas em Redes e Computação – Universidade Salvador – UNIFACS 41.950-275 – Salvador – Bahia – Brasil 156 ANSI/IEEE. Recommended practice for architectural description of software-intensive systems. Std 1471, 2000. 157 JOSUTTIS, Nicloai. SOA in Practice. First. [S.l.]: O’Reilly, 2007. 145 A OSGi é uma plataforma centralizada onde os serviços são instalados, modificados e removidos em um ambiente de forma dinâmica e registrados em um repositório para que possam ser acessados por outras aplicações desenvolvidas. O Openwings tem como objetivo oferecer interoperabilidade entre componentes de software, hardware e sistemas, utilizando o JINI158 para prover a integração, de forma que seja possível o desenvolvimento de sistemas de alta disponibilidade, seguros, para aplicações de missão critica. A plataforma Web Service (WS) é um modelo distribuído onde os serviços são definidos através de interfaces, e publicados em um repositório no qual podem ser descobertos por outras aplicações. Esta plataforma tornou-se uma alternativa consistente para a integração de sistemas em ambientes heterogêneos, pela sua simplicidade e versatilidade fundamentais para a escolha como tecnologia para integração. Mesmo ciente que a utilização de WS não significa necessariamente o uso de SOA, muito menos que SOA restringe-se a WS, é interessante frisar que a relação entre as duas tecnologias tornou-se mutuamente influente e importante, de forma que o WS é a tecnologia predominante na disseminação de SOA, da mesma forma que as boas praticas de SOA tem traduzido as iniciativas baseadas em WS em sucessos.159 O escopo deste trabalho abordará as características de um WS e enfatizar os aspectos dos requisitos básicos de segurança para prover um ambiente de comunicação seguro, a fim de proporcionar a confidencialidade, integridade desta proposta tecnológica baseada em SOA. 2. WEB SERVICE No mercado atual a plataforma de tecnologia mais associada à realização de SOA é a de WS. Os WS são um conjunto de tecnologias recentes, especificadas e desenvolvidas pela World Wide Web Consortium (W3C). Os WS possuem uma grande visibilidade na indústria de tecnologia, sendo considerado um grande marco para a indústria de software distribuído. Os WS surgiram no intuito de substituírem as tradicionais estratégias de integração de aplicações corporativas (Enterprise Application Integration). Inicialmente, eram usados exclusivamente para designar a tentativa de uma empresa interligar suas aplicações internas de negócios, para que os dados fossem compartilhados. Recentemente, a sua aplicabilidade foi expandida para, também, englobar a união de dados e processos com parceiros comerciais – Business to Business (B2B).160 Eles apresentam uma estrutura que possibilita a comunicação entre aplicações, onde o serviço pode ser invocado remotamente, ou ser utilizado para compor um novo serviço. A arquitetura básica do WS é baseada na interação entre três entidades: o provedor de serviços, o consumidor de serviços e o registro de serviços, este último opcional, como podem ser visto na figura 1. 158 JINI também conhecido como Apache River, é uma arquitetura de rede para a construção de sistemas distribuídos. 159 GARTNER, Yefim V. Natis. Service-oriented architecture scenario. 2003. Disponível em http://www.gartner.com/DisplayDocument?id=391595. Acessado em 16 ago. 2011. 160 JAGIELO, I.; JÚNIOR, E. Web services uma solução para aplicações distribuídas na internet. In Pontifícia Universidade Católica do Paraná, 2003. 146 Figura 1: Arquitetura Web Services O Provedor de Serviço defini a descrição para este serviço, em outras palavras, é a plataforma que possui a implementação do serviço. O consumidor do serviço procura a descrição do serviço no Registro de Serviços, ou localmente, e através dela interage com o provedor de serviço. O consumidor pode ser, por exemplo, um navegador web ou um programa sem interface de usuário, como outro WS ou uma aplicação qualquer. O Registro de Serviços é o local onde fica a descrição do serviço que são publicadas pelos provedores. Os consumidores procuram informações sobre como interagir com esses serviços através de suas descrições. O registro de serviços é opcional, como já foi mencionado anteriormente, pois o provedor pode enviar a descrição diretamente para os consumidores. As principais características de um web service161 são: Baseado em XML; Fraco acoplamento entre o consumidor e o provedor do serviço; Granularidade grossa; Capacidade de uma associação (ligação - binding) entre cliente e serviço de forma síncrona ou assíncrona; Suporte a chamada de procedimento remoto (RPC - Remote Procedure Call); Suporte a troca de documentos. 2.1. Padrões A plataforma de Web Services é definida por vários padrões da indústria suportados por todas as comunidades de fornecedores. Essa plataforma pode ser distribuída em duas gerações claramente identificáveis, são elas:162 [EARL,2007] 161 162 Plataforma de Web Services da primeira geração. A plataforma original da tecnologia de Web Services é composta das principais especificações e tecnologias abertas a seguir: Web Services Description language (WSDL), XML Schema Definition Language (XSD), SOAP (antigamente, Single Object Access Protocol), UDDI (Universal Description, Discovery, and Integration) e o WS-I Basic Profile. Essas especificações são utilizadas a bastante tempo e são largamente adotadas pela industria de TI. CHAPPELL, David; JEWELL, Tyler. Java Web Services. First. [S.l.]: O’Reilly, 2002. ERL, Thomas. SOA: Principles of Service Design. Prentice Hall, 2007. 147 Plataforma de Web Services da segunda geração (extensões WS-*) Consistem em inúmeras especificações que aprimoram o framework fundamental da troca de mensagens da primeira geração. A adoção em larga escala dos Web Services requer padrões que possibilitem a interoperabilidade entre plataformas independentes. Hoje, o conjunto de padrões amplamente suportado para a arquitetura dos Web Services é formado pelos padrões SOAP, UDDI e WSDL (ROHR,2009) Esses padrões são baseados em XML. A figura 2 ilustra esses padrões. Figura 2: Tecnologias Web Service Observamos que o núcleo de um WS é composto de um protocolo de Internet (HTTP, geralmente), através do qual são enviadas mensagens XML envelopadas, isto é, devidamente encapsuladas pelo protocolo SOAP. Como camadas inferiores (auxiliares, com o intuito de agregar funcionalidades aos Web Services.) destacamos a linguagem de descrição dos serviços providos pelo web service - WSDL e o repositório no qual podem ser publicados e localizados todos os web services – UDDI. A seguir detalharemos o papel de cada um desses padrões. O SOAP eh um padrão para troca de informação baseado em XML entre aplicações distribuídas. Ele permite vários tipos de transporte, sendo tipicamente transmitido via HTTP ou HTTPS. SOAP define o formato de requisição e resposta do documento XML sobre o HTTP. O padrão WSDL foi desenvolvido com o proposito de descrição do serviço, ele definiu a interface do serviço. Quando um cliente quer enviar uma mensagem SOAP, ele primeiramente obtém a descrição do serviço. De posso do WSDL, ele consegue invocar o serviço. UDDI É um framework independente de plataforma para descrever, descobrir e integrar Web Services. (W3C, 2011). UDDI armazena o WSDL do Web Service. Sua comunicação utiliza SOAP, ou seja, o próprio UDDI é na realidade um Web Service. Caso o cliente já tenha o WSDL, não será necessário ter um UDDI. A figura 3 ilustra a interação entre os consumidores, provedores e brokers (intermediadores) de serviços. Um provedor de serviço registra a descrição de seus serviços através de um arquivo WSDL em um repositório UDDI (1); após, quando um consumidor em potencial (usuário e/ou web service) que está procurando por um serviço (2) com as características descritas no WSDL acima mencionado as encontra, é realizado o envio deste 148 arquivo para este cliente. Deste momento em diante, consumidor e provedor são capazes de interagir através de requisições (3) e respostas (4). Figura 3: Interação de Web Service 3. SEGURANÇA EM WEB SERVICES Todas as vezes que falamos de segurança, sempre nos comportamos com medidas paliativas e/ou boas práticas que contribuam para minimizar a exposição de dados sensíveis, com grande valor informacional para aplicações, que no caso dos web services, podem ter arquitetura distinta. Conforme já percebemos na explanação do capítulo anterior, o contexto de interação é um simples modelo de comunicação de dados: emissor (quem “usa” o serviço); um meio (Internet); e um receptor (quem “disponibiliza” o serviço). Com alta interoperabilidade e com apenas uma única estrutura que define como consumir o serviço, os web services representam uma adequada solução, principalmente porque promove o contexto da autonomia e liberdade que a web apresenta, incluindo também as características intrínsecas à necessidade de segurança para a informação, sob os pilares da confidencialidade, integridade e disponibilidade. Analisando tecnicamente a tecnologia para o WS, temos uma estrutura de protocolo SOAP abordado anteriormente, que estabelece critérios a fim de estruturar uma comunicação por mensagens. Ele está baseado em: (1) protocolo de comunicação, que subsidia a maioria dos serviços na Internet, HTTP (Hiper Texto Transmission Protocol); e (2), no tocante a estruturação de mensagens tem o XML (Language Markup Extensible) despontando como uma solução muito promissora, e que atualmente já integra o compartilhamento de informações entre importantes empresas De acordo com o W3C – e de acordo com um mútuo entendimento na área de segurança – é preciso definir o que é relativamente importante e que deve ser protegido, e quais serão as estratégicas utilizadas para provê o ambiente de comunicação seguro. Para tanto, na figura 4 vemos um mapeamento do contexto dos web services: 149 Figura 4: Contexto de segurança: fim-a-fim Mediante a necessidade da comunicação entre emissor e receptor está baseada em mensagens, a incerteza que o percurso por ela a ser seguido, e ambiente hostil como é o da Web, é preciso estender os limites de confiança no contexto fim a fim, conforme disposto na figura 4. Esses casos exigem uma preocupação quanto à segurança no nível das mensagens de modo que seja oferecido suporte à interoperabilidade entre plataformas e ao roteamento por meio de vários nós intermediários, conforme a infraestrutura da Internet. 4. PRINCIPAIS AMEAÇAS PARA WEB SERVICES Com o propósito de apoiar no êxito de uma solução segura de um WS, destacamos as ameaças que requerem atenção, independente da tecnologia utilizada: (a) acesso não autorizado; (b) manipulação de parâmetros; (c) espionagem na rede; (d) divulgação de dados de configuração e (e) repetição de mensagem, como podemos ver na Figura 5. Figura 5: Principais ameaças a Web Services 4.1. Acesso não Autorizado Todo o acesso a um Web Service deve ser autenticado e autorizado, principalmente aqueles que possuem informações de caráter confidencial. Mas a autenticação 150 deve possuir rígidos processos de validação com o objetivo de identificar realmente se estamos tratando da pessoa que está credenciada a ter acesso aos dados. Podemos destacar neste segmento o papel da criptografia e da assinatura digital implementado sobre os dados. 4.2. Manipulação de Parâmetros Não é uma tarefa simples analisarmos quantos elementos ativos uma requisição poderá percorrer a fim de obter/fornecer uma resposta, e nessa solicitação vão informações como, por exemplo: número de cartão de crédito, senhas diversas, cookies confidenciais. A manipulação de parâmetros consiste permitir tanto a captura, através de um nó intermediário do roteiro, quanto à edição dessa mensagem. Este tipo de problema está associado a um projeto que não focalizou os benefícios da assinatura digital e de uma má implementação no tocante ao uso dos recursos da criptografia, com o enfoque no percurso que a mensagem efetivamente tem que realizar, ou seja, inexistiu a preocupação com uma criptografia na camada de transporte da aplicação. 4.3. Espionagem na Rede É caracterizado em permitir que algum invasor, através de um simples software de monitoração, consiga ter acesso à mensagem em texto que circularam entre o consumidor do Web Service e o Web Service; deve-se ter em mente que a informação passa por diversos canais de transmissão e os dados e, não estando formatadas e criptografados são facilmente manipulados, permitindo que o coletor possua totais possibilidades de ler e editar as informações que estão circulando por determinado nó. 4.4. Divulgação de Dados de Configuração Esse ataque consiste na possibilidade de conseguir, através do WSDL (Web Service Descripton Language), informações confidenciais sobre o servidor web; não existe preocupação sobre quais são as características que poderão ser geradas para o consumidor do Web Service. Consequentemente poderá disponibilizar, por exemplo, todos os detalhes de métodos, sua implementação e protocolos. Outro fator que devemos levar em consideração é se essas informações exercem nenhum tipo de valor interessante ao usuário, pois elas são umas fontes de auxilio para o invasor montar uma estratégia e atacar o Web Service. 4.5. Repetição de Mensagem A tática da repetição de mensagem é basicamente conseguir assumir a identidade do cliente do Web Service, consequentemente, atribuir a si os privilégios que pertence ao determinado cliente. Para conseguir essa identificação o invasor, através de um canal sem criptografia e uma mensagem sem uma assinatura digital, captura a mensagem e repete ao Web Service. Essa mensagem capturada poderá ou não ser alterada. Atribui-se ao ataque em que a mensagem permanece como a original (ou seja, somente capturada e enviada novamente ao Web Service) como ataque de repetição básico; ao ataque em que a mensagem, através da repetição de mensagem, sofre alteração dá-se o nome de ataque de interceptadores. 151 5. CONTRAMEDIDAS ÀS AMEAÇAS AOS WEB SERVICES A eficácia dessa abordagem sobre os principais métodos de ataques aos Web Services é válida no sentido em nos permite pensar como invasores e a traçar um roteiro de táticas que acompanham uma metodologia comum de invasão. Com essas informações nosso projeto de segurança trilhará caminhos mais sólidos e seguros. As considerações que devem ser verificadas e definidas no projeto de construção de WS serão destacados nas subseções a seguir. 5.1. Estratégia de Autenticação Definida A autenticação, fazendo uma analogia, é o como se fosse a chave do cadeado do portão de entrada principal da nossa casa; ela é quem possui um “código” (formação física da chave) que permite abrir o cadeado. No ambiente web, podemos dizer que as senhas têm as mesmas características das chaves, ou seja, são elas que possuem as informações necessárias para liberar/restringir o acesso aos serviços. Por isso utilizar recursos que dificultem ao invasor descobrir as senhas (criptografia) é imprescindível para o sucesso do seu projeto. Alguns dos recursos disponíveis podem ser: Senhas complexas (é o primeiro e importantíssimo trunfo que o projetista deve impor); Mecanismos de autenticação que não transmitam a senha pela rede; Canal de comunicação criptografado – caso seja impossível não transmitir senha pela rede; Utilizar hashs das senhas dos usuários (como por exemplo, o Secure Hash Algorithm - SHA-2), que armazenam um código seguro criptografado. Esses recursos também servem para bloquear o acesso de um invasor através de um acesso por força bruta; voltando ao nosso exemplo do portão, seria como se alguém arrombasse o cadeado e, no momento da entrada, o cachorro aparecesse e não permitisse que o indivíduo entrasse na casa. 5.2. Privacidade e Integridade Muitas vezes uma solicitação e resposta gerada possuem dados de caráter confidencial como, por exemplo, número do cartão de crédito, senhas bancárias, registros financeiros de uma instituição, entre outras. Evidentemente que a web apresenta-se como um ambiente inseguro e essas informações devem trafegar entre origem/destino de modo que seja implementado um canal confiável de comunicação que mantenham ocultas e inalteradas, assegurando que apenas pessoas autorizadas possam ter acesso a esses dados. Como alternativas de implementação podemos utilizar a tecnologias de: assinatura digital; criptografia e assinatura em XML; IPSec; e o Secure Sockets Layer (SSL). 5.3. Identidades de Acesso a Recursos Essa identidade tem a finalidade de liberar alguns recursos somente a algum (ns) tipo(s) específico de usuário. Esse grupo é caracterizado por uma nomenclatura que é informada ao WS. É como se fosse a conta do “Administrador” em um sistema operacional 152 qualquer; aonde, a partir dessa identidade, são liberados todos os recursos possíveis que podem ser gerenciáveis. O problema de ter essas identidades são os mesmos que foram apresentados no tópico de autenticação, pois o recurso será liberado caso um mal intencionado consiga as senhas do administrador. É preciso conter na política de segurança da informação, orientadores e estratégias para aplicação de identidades “fortes” e não triviais. 6 CONCLUSÃO O uso de SOA através do WS representa uma solução robusta e com baixo custo, portanto tende a continuar sendo muito utilizada para troca de informações a partir de sua estrutura de mensagens. Porém deve-se compreender que apresenta vulnerabilidades oriundas das tecnologias disponíveis para seu desenvolvimento, e que é vital definir uma estrutura de comunicação fim a fim segura, ou seja, entre o provedor e o consumidor do serviço, quando este ocorre através da Internet, para o êxito da sua utilização. Tais vulnerabilidades podem ser supridas por soluções tecnológicas aplicadas nas camadas dos protocolos de rede utilizados, além também de atuar em conjunto com políticas que tratem do fator humano. SERVICES ORIENTED ARCHITECTURE AND SECURITY IN A WEB SERVICES ABSTRACT This article aims to address the main threats to the security of service-oriented architecture using Web Services technology and propose strategies for countermeasures in order to provide a more efficient solution in relation to the safe environment for the exchange of messages, allowing the reduction of risks. The approach is not tied to any software development technology, enabling its application in any environment. Keywords: Oriented Architecture. Security. WEB Services. REFERENCIAS ANSI/IEEE. Recommended practice for architectural description of software-Intensive systems, Std 1471, 2000. CHAPPELL, David; JEWELL, Tyler. Java Web Services. First. [S.l.]: O’Reilly, 2002. ERL, Thomas. SOA: Principles of service design. São Paulo: Prentice Hall, 2007. GARTNER, Yefim V. Natis. Service-oriented architecture scenario. 2003. Disponível em http://www.gartner.com/DisplayDocument?id=391595. Acessado em 16 ago. 2011. JAGIRLLO, I.; E. Júnior. Web services uma solução para aplicações distribuídas na internet. Paraná: Pontifícia Universidade Católica do Paraná, 2003. JOSUTTIS, Nicloai. SOA in Practice. First. [S.l.]: O’Reilly, 2007. 153 ROHR, E. M. Z. Segurança em gerenciamento de redes baseado em web services. Dissertação, Porto Alegre, 2009 W3C, 2003. Web services activity. Disponível em http://www.w3.org/2002/ws/ .Acessado em 23 ago. 2011. 154 NORMAS PARA SUBMISSÃO 155 LINHA EDITORIAL Os artigos submetidos ao Conselho Editorial do CPEDeC deverão estar de acordo com as normas editoriais e com a natureza dos trabalhos abaixo relacionados: relatos de pesquisas teóricas e/ou empíricas que utilizem adequadamente os pressupostos da metodologia científica; ensaios que utilizem construtos teóricos na análise de temas relevantes; resenhas críticas; artigos de cunho científico com argumentação adequada ao tema proposto (monografias, dissertações e teses). Além disso, os artigos devem representar contribuição científica, com pesquisa metodologicamente fundamentada e referencial teórico, refletindo o estado da arte do conhecimento na área, com conclusões claras e adequadas, que demonstrem os resultados alcançados. A linha editorial do CPEDeC priorizará a discussão interdisciplinar e transdisciplinar nas seguintes áreas temáticas: energia, agro-negócio, turismo, meio ambiente, tecnologia, gestão, comunicação, educação, cultura, saúde, direito e sociedade. Os trabalhos enviados para publicação não devem ter sido publicados em outras revistas científicas. Os textos propostos para publicação serão selecionados pelo Conselho Editorial e submetidos aos comitês técnico e científico. Os resultados do processo de seleção e de revisão científica serão comunicados aos autores para eventuais reformulações no artigo (quando for o caso). Após a publicação, os autores receberão 2 (dois) exemplares do número da revista no qual o artigo foi publicado. Os artigos deverão ser preparados em língua portuguesa, dentro das especificações de estilo e normalização da revista, e enviados para [email protected], informando os dados do autor principal para contato. A identificação dos autores será separada do corpo do artigo, para que este seja avaliado de forma independente por especialistas anônimos. Poderão ainda ser enviados pelo correio, gravado em disquete ou CDrom, versão Word for Windows, versão 7.0 ou mais atualizada, com três cópias impressas em papel A4, para o endereço da Faculdade de Sergipe-FaSe. ESTILO DE APRESENTAÇÃO DOS ARTIGOS (normas para submissão) Os trabalhos devem ser enviados pelo correio eletrônico ou em meio digital, podendo estar no formato Rich Text Format (RTF) ou no formato do software Microsoft Word, versão 6.0 ou posterior. Formatação 156 O texto deve observar o mínimo de 10 (dez) páginas e o máximo de 15(quinze), digitadas em Arial, com tamanho de letra 12 e 10 para os casos de ilustrações (tabelas, quadros, figuras), utilizando espaço duplo entrelinhas para os parágrafos e simples nas ilustrações, citações em destaque e notas de rodapé. Devendo ser justificado, com margem superior e esquerda igual a 3 cm e direita e inferior a 2 cm, utilizando linguagem impessoal (3a pessoa do singular). A primeira linha de cada parágrafo deve ser recuada em 2 cm. Para identificação do artigo, este deve ter uma página de rosto, contendo o título (em português), a autoria, o resumo (em português) e uma relação de 3 a 5 (três a cinco) palavras-chave (em português). Na nota de rodapé desta mesma folha, separada do texto por um filete de 3 cm, deve constar as credenciais do(s) autor(es), sendo elas: maior titulação, endereço, telefone, e-mail e menção, de maneira precisa, de divulgação anterior do artigo se for o caso. Após as conclusões, o título mencionado, o resumo e as palavras-chave são transcritos para outro idioma, preferencialmente inglês, francês ou espanhol, seguindo a mesma estrutura e organização utilizada na folha de rosto para esses itens. Resumo O resumo deve conter entre 250 e 300 palavras, com uma descrição cuidadosa do problema abordado, das ideias principais para sua solução, bem como dos resultados e das conclusões alcançadas. Deve apresentar ainda, o objetivo da pesquisa ou estudo, o problema investigado e a metodologia utilizada. Palavras-chave São aquelas significativas da pesquisa, dando-se preferência às indexadas. Texto O artigo pode ser: original ou de revisão. Sendo original, no caso de pesquisas científicas inéditas e de revisão, quando resultante de amplo estudo investigativo sobre determinado tema executado sobre referencial teórico, com base nos paradigmas IDC (Introdução, Desenvolvimento e Conclusão) ou IRMRDC (Introdução, Revisão da Literatura, Materiais e Métodos, Resultados, Discussão (Resultados e Discussão) e Conclusão). Os títulos de seção deverão ser numerados em até três níveis, formatados em negrito, com tamanho de letra 14 (primeiro nível), com tamanho de letra 12 (segundo nível) e sem negrito com tamanho de letra 12 (terceiro nível), com o uso de dois espaços duplos inter e intra títulos. Tabelas, Quadros e Figuras Poderão fazer parte do artigo, desde que em preto e branco, com numeração sequencial, preferencialmente, inserida diretamente no texto, usando os recursos do editor texto para essa finalidade. Se isso não for possível, os originais de cada figura deverão ser enviados em separado, para editoração na revista. Neste caso, o autor deverá reservar o espaço correspondente a cada figura no corpo do trabalho ou texto. Os títulos das tabelas com negrito 157 na palavra tabela e respectivo número, serão apresentados na margem superior da mesma (Tabela 1: Título), com suas fontes em negrito, na margem inferior (conforme IBGE 1994); já os dos quadros e figuras, deverão constar na margem inferior das mesmas, seguidos da identificação de suas fontes. Exemplo: Figura 1: Título Fonte: origem da figura Notas de Rodapé Serão somente do tipo notas explicativas, com numeração sequencial dentro do artigo. Devem aparecer logo após as palavras-chave de acordo com a ordem utilizada no texto. Exemplo: ¯¯¯¯¯¯¯ 1 __________ 2 __________ 3 __________ 4 __________ Apêndices Poderão ser empregados, desde que contidos no limite de páginas estabelecido. Aparecem logo após as referências. Citações no Corpo do Texto As citações indiretas (interpretação das ideias de um ou mais autores) deverão ser feitas com o uso do último sobrenome, seguido do ano de publicação do trabalho, com identificação opcional da página, no parágrafo. Exemplo: Alves (2004, p. 30) (ALVES, 2004, p. 30) As citações textuais até três linhas, identificá-las entre aspas nos parágrafos e destacar, ao seu final, a autoria conforme o item anterior, com página obrigatória. 158 Exemplo: 2 cm ___________________ _________________________ _________________________ “---------------------------------------------“(AUTORIA, ano, p.). ____________________ ______ Autoria (ano, p.), “----------------------------------------------------------------------“ Destacar as citações textuais acima de três linhas logo após o parágrafo correspondente, com identificação da autoria, conforme mencionado anteriormente. A página é obrigatória. Utilizar tamanho de letra 10 e espaço simples na citação. Exemplo: 2 cm ___________________ ____________________________ ______________________, ----------------------------------------------------------------4 cm --------------------------------(recuo) --------------------- (AUTOR, ano, p.). 2 cm ___________________ ____________________________ ______________________. Obs.: Evitar citações nas notas explicativas. Referências As referências devem ser arroladas no final do artigo, conforme NBR 6023 da ABNT. Resumos de Dissertações e Teses Serão selecionados para publicação as contribuições mais relevantes, com base nas linhas de interesse editorial, a critério do CPEDeC, respeitando as limitações de espaço. Só serão considerados resumos de dissertações e teses que já tenham sido defendidas. 159 Os resumos deverão ser apresentados compreendendo uma versão em português e uma em outro idioma (preferencialmente inglês, francês ou alemão), contendo cada um entre 200 e 400 palavras. Devem conter informações adicionais, assim dispostas: título, nome do autor, nome da instituição (programa de pós-graduação), local e data da defesa, com uma relação de 3 a 5 (três a cinco) palavras-chave, contemplando os idiomas anteriores. Indicar a procedência e finalidade. ESTILO DE APRESENTAÇÃO DAS RESENHAS (normas para submissão) As resenhas submetidas para análise deverão seguir os parâmetros: conter título de fantasia (criado pelo autor com base no assunto tratado na obra); conter identificação da autoria na margem esquerda, com número de chamada no rodapé, com as credenciais (maior titulação, endereço, telefone, e-mail); conter a referência completa da obra; indicar o campo de estudo no qual se enquadra a obra; apresentar no texto: o Introdução contextualizadora (comentário sobre o autor e apresentação do assunto); o Resumo da obra (descrição do seu conteúdo); o Crítica da obra (apreciação dos seus pontos positivos e negativos); o Indicação para leitura (público-alvo); mínimo de 3 (três) e máximo de 5 (cinco) páginas; formatar no mesmo estilo do artigo científico. As resenhas deverão ser encaminhadas à revista, da mesma forma que os artigos científicos. A sua avaliação é de responsabilidade da comissão editorial. Os casos omissos serão resolvidos pela revista.