Insper - Instituto de Ensino e Pesquisa Programa de Mestrado Profissional em Economia Marina Maciel Santos O IMPACTO DA SINDICALIZAÇÃO NOS SALÁRIOS NO BRASIL DO SÉCULO XXI São Paulo 2013 Marina Maciel Santos O IMPACTO DA SINDICALIZAÇÃO NOS SALÁRIOS NO BRASIL DO SÉCULO XXI Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado Profissional em Economia da Faculdade Insper como parte dos requisitos para a obtenção do título de Mestre em Economia Área de Concentração: Microeconomia Orientador: Prof. Dr. Naércio Aquino de Menezes Filho São Paulo 2013 2 Maciel Santos, Marina O impacto da sindicalização nos salários no Brasil no século XXI, Marina Maciel Santos; orientador: Naércio Aquino de Menezes Filho – São Paulo: Insper, 2013. 37 f. Dissertação (Mestrado – Programa de Mestrado Profissional em Economia. Área de concentração: Economia do Trabalho e Microeconomia) – Faculdade Insper. 1. Sindicalização 2. Mercado de Trabalho 3. Formação de Salários 3 FOLHA APROVAÇÃO Marina Maciel Santos Impacto da Sindicalização em Salários no Brasil Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado Profissional em Economia da Faculdade Insper como parte dos requisitos para a obtenção do título de Mestre em Economia Área de Concentração: Microeconomia Banca Examinadora: Prof. Dr. Naércio Aquino de Menezes Filho Instituição: Faculdade Insper Assinatura: ___________________ Profa. Dra. Regina Madalozzo Instituição: Faculdade Insper Assinatura: ___________________ Prof. Dr. Vladimir Pinheiro Ponczek Instituição: EESP-FGV Assinatura: ___________________ 4 AGRADECIMENTOS Agradeço ao Prof. Naércio Aquino de Menezes Filho, pela orientação e apoio em todas as etapas do desenvolvimento desta dissertação. Agradeço aos meus amigos e colegas de Mestrado, Silvia Antunes, Heitor Gastaldi, Henrique Scripelitti, Alexandre Couto e Felippe Medeiros, pela companhia nas noites de estudo, pela ajuda e contribuição para a minha formação. Também agradeço aos meus amigos, Diego Paula, Hugo de Andrade, Lara Marques, Felipe Attílio, Luan Henriques e Jonatas Hosokawa, por continuarem ao meu lado, me incentivando e me motivando ao longo do curso. Por fim, agradeço em especial à minha família, Denis, Neusa, Juliana e Gustavo Santos, pelo apoio e carinho. Sem sua ajuda e compreensão não conseguiria alcançar meus objetivos pessoais, profissionais e acadêmicos. 5 RESUMO Santos, Marina Maciel. O Impacto da Sindicalização em Salários no Brasil do século 21. São Paulo, 2013. – Dissertação (Mestrado) – Faculdade Insper, São Paulo, 2013. O objetivo desta dissertação é avaliar a evolução do impacto da sindicalização sobre os salários ao longo do tempo no Brasil, ou seja, se trabalhadores filiados aos sindicatos de suas categorias têm, em média, salários maiores que os não-filiados, controlando pelas demais características dos trabalhadores. Para tal, vamos comparar uma amostra de trabalhadores sindicalizados com uma, de características semelhantes, de não-sindicalizados para os anos de 1995, 1997, 2001, 2005 e 2009. Utilizamos modelos de regressão e de propensity score matching. Os resultados mostram que um trabalhador é melhor remunerado pelo fato de ser filiado a um sindicato. Porém o impacto da sindicalização vem diminuindo ao longo dos anos. Palavras- Chave: Sindicatos, Filiação, Salários. 6 ABSTRACT Santos, Marina Maciel. The Impact of Union Association in Wages in Brazil in the 21st century. São Paulo, 2013. – Dissertation (Mestership) – Insper, São Paulo, 2013. This study evaluates the impact of union association through time in Brazil. It estimates if unionized workers earn more than their non-unionized counterparts, controlling for other personal characteristics – such as age, sex, color and year of education. Therefore, this paper assesses the union wage premium through 1993, 1997, 2001, 2005 and 2009. It uses Ordinary Least Squares (OLS) and Propensity score matching. The results show that unionized workers receive a wage premium although the impact has decreased over the years. Key words: Union, Unionization, Wages. 7 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO 1.1 A HISTÓRIA DOS SINDICATOS E DAS LEIS TRABALHISTAS NO BRASIL 1.2 O FUNCIONAMENTO DE SINDICATOS E NEGOCIAÇÕES COLETIVAS NO BRASIL 2. REVISÃO DA LITERATURA 2.1 LITERATURA NACIONAL 2.2 LITERATURA INTERNACIONAL 3. BASE DE DADOS 3.1 DESCRIÇÃO DOS DADOS 3.2 ANÁLISE DESCRITIVA DA AMOSTRA 4. METODOLOGIA 4.1 ORDINARY LEAST SQUARES (OLS) 4.2 PROPENSITY SCORE MATCHING 5. RESULTADOS 5.1 OLS 5.2 PAINEL 10 11 12 14 14 16 20 20 21 24 24 24 27 27 28 6. CONCLUSÃO 34 7. BIBLIOGRAFIA 36 8 LISTA DE TABELAS Tabela 3.1: Descrição de variáveis 20 Tabela 3.2: Descrição dos dados 23 Tabela 5.1: Resultados OLS por ano 27 Tabela 5.2: Resultados POLS com dummies de ano e de indústria 29 Tabela 5.3: Resultados POLS com variáveis de interação 31 Tabela 5.4: Resultados Propensity score matching por ano 32 Tabela 5.5: Resultados ATT Propensity score matching 33 9 1. INTRODUÇÃO A participação de sindicatos na formação de salários e na defesa dos direitos dos trabalhadores no Brasil é um tema de pesquisa que já teve muito foco nas décadas de 1980 e 1990, mas que não tem sido levantado nos últimos anos. Naquelas décadas conturbadas para a história dos sindicatos, que contribuíram muito para sua estruturação, muito se discutiu. Porém é necessário que vejamos hoje o funcionamento destas instituições já maturadas e, principalmente, comprovações empíricas do impacto de suas ações para os trabalhadores. Para países da Europa, onde as estruturas trabalhistas e os sindicatos estão mais maturados, há forte impacto de sindicalização em salários e baixa dispersão salarial entre sindicalizados (Blau e Kahn, 1999). Já para os EUA, onde também vemos sindicatos estáveis, porém as leis trabalhistas não são tão protetoras quanto na Europa e na América Latina, vemos que há impacto positivo, mas em proporções bem menores e com grande diferença entre funcionários mais e menos qualificados (Freeman, 1980). Apesar de o Brasil ter leis trabalhistas mais semelhantes às da Europa, a última estruturação de sindicatos é relativamente recente e os últimos estudos mais detalhados são referentes aos resultados na década de 1990 (Arbache, 2004). Nesse estudo, vamos avaliar o impacto da sindicalização nos salários, ou seja, se trabalhadores filiados aos sindicatos de suas categorias tem em média salários maiores que os não-filiados, controlando pelas demais características dos trabalhadores. Vamos começar revendo a história de sindicatos, das leis trabalhistas e o funcionamento dessas estruturas no Brasil. No segundo capítulo vamos revisar a bibliografia já publicada sobre o tema. No terceiro, avaliaremos os dados da amostra de trabalhadores selecionada, suas características principais e algumas considerações. No quarto capítulo discutiremos o método utilizado para analisar o impacto e descreveremos o modelo de avaliação por propensity score matching, para no quinto capítulo discutirmos os resultados. Por fim, o último capítulo conclui e propõe futuras discussões sobre o impacto de sindicalização em salários. 10 1.1 A história dos Sindicatos e das Leis Trabalhistas no Brasil A primeira compilação de leis trabalhistas no Brasil foi promulgada em 1943, pelo então presidente Getúlio Vargas. A Consolidação de Leis Trabalhistas (CLT) surgiu numa época de desequilíbrio entre capital e trabalho, em que se fazia necessária maior proteção de trabalhadores de exploração, em relação a salários e condições de trabalho; regulação das disputas trabalhistas; e de afastar-se as disputas entre trabalho e capital do ambiente de trabalho (Amadeo e Camargo, 1989). A CLT, por ter como objetivo regular leis trabalhistas até então não definidas, foi formulada de forma ampla e detalhada, evitando disputas diretas entre empregados e empregadores. A característica principal da CLT, como consequência, é a natureza paternalista e protetora, que criou um ambiente pouco favorável ao desenvolvimento das negociações coletivas no mercado de trabalho. Sindicatos na época eram muito pulverizados e de pouca representação em negociações coletivas (Arbache, 2001). A CLT sofreu algumas adaptações a partir de 1964, quando uma ditadura militar assumiu o poder no Brasil. As principais foram relativas à representação sindical e de reajustes salariais. Reajustes passaram a ser decididos por lei e estendidos para cada categoria, como forma de centralização do processo de formação de salários e controle de inflação, mantendo os reajustes abaixo dos níveis de inflação. Neste período, greves passaram a ser reguladas por lei e paralisações, consideradas ilegais, eram fortemente reprimidas, o que levou a prisão de vários líderes sindicais e a estagnação do movimento sindical no Brasil até o fim da década de 1970. Poderia haver reajustes acima do autorizado por lei, os quais deveriam ser negociados diretamente entre trabalhadores e empregadores. Porém, com a fraca participação dos sindicatos estes reajustes eram pouco recorrentes, o que enfraquecia o desenvolvimento das negociações e deixava o processo de formação de salários nas mãos dos governantes, que o usavam como ferramenta de política monetária (Arbache, 2001). Fortes manifestações sindicais e paralisações ressuscitaram as discussões sobre condições de trabalho, formação de salários e acordos coletivos, levando a adaptações à CLT na Constituição promulgada em 1988. A insurgência do movimento “novo sindicalismo” foi de grande importância para ressuscitar os processos de negociação coletiva (Amadeo e Camargo, 1989). Os reajustes por lei 11 deixaram de ser efetuados; assim negociações passam a ser feitas entre trabalhadores, empregadores, sindicatos e ordens. Em 1988 cai a proibição de diferentes ocupações e categorias econômicas de se juntarem em um único sindicato. Também foi autorizada a formação de sindicatos desde a menor unidade regional (municípios) até abrangência nacional. Para que houvesse controle das organizações sindicais, foram instituídos por lei o monopólio da representação sindical e a contribuição sindical obrigatória, assim como a extensão obrigatória dos resultados de acordos coletivos para todos os trabalhadores da categoria, inclusive não-filiados (Arbache, 2001). 1.2 O Funcionamento de Sindicatos e negociações coletivas no Brasil No Brasil a legislação prevê a existência de contratos coletivos e contratos individuais. Nos contratos individuais, salários e condições de trabalho são discutidos entre o empregador e o empregado. Nos contratos coletivos, os mesmos são discutidos entre empregador, sindicato e ordem, depois firmados com o empregado. Estes últimos cobrem poucos benefícios e termos salarias, quase não variam e, além disso, a flexibilidade é reduzida. Já as negociações coletivas, tem por lei seus benefícios estendidos para todos os trabalhadores da categoria, mesmo que estes não sejam filiados ao sindicato que os defende. Segundo Arbache (2001), o fato de o acordo coletivo negociado entre sindicatos e firmas se estender a todos os trabalhadores da categoria pode conceder grande poder aos sindicatos, agregado à contribuição sindical obrigatória – mesmo para não filiados – pode, além de garantir poder, distorcer o foco de concentração dos líderes sindicais, os desviando dos interesses dos trabalhadores para a simples manutenção das organizações sindicais, acordos políticos e o que quer que os mantenha no poder de tais órgãos. Outra característica importante sobre o funcionamento de sindicatos e acordos coletivos no Brasil diz respeito às disputas caso a legislação não seja atendida. No Brasil disputas relacionadas ao não cumprimento das leis trabalhistas são levadas ao tribunal do trabalho. O tribunal trabalhista também é acionado em conciliações e no caso de arbitrariedades em contratos de trabalho. Se acordos entre empregados e firmas se rompem os tribunais são acionados. Já se há mero descumprimento da lei, o tribunal decidirá apenas pela aplicação da mesma. Caso o impasse surgir da falta de acordo entre as partes, o tribunal pode decidir pelo ponto de vista do juiz, que pode se basear em critérios políticos, além dos envolvidos. Isso 12 concede grande poder também aos tribunais na estrutura de negociação coletiva no Brasil (Arbache, 2001). Para Arbache (2001), a resolução de disputas pelos tribunais do trabalho, pode motivar o comportamento de free-rider por parte dos trabalhadores, já que cabe aos empregadores provarem o contrário em acusações de descumprimento da CLT e são eles que arcam com grande parte dos custos legais, somando mais obstáculos no processo de modernização das relações do trabalho no Brasil, inibindo a cooperação e a motivação de negociação direta entre trabalhadores e empregadores. 13 2. REVISÃO DA LITERATURA Encontramos na literatura nacional e internacional boas referências sobre a discussão de sindicatos, negociações coletivas e o processo de formação de salários. Entre os expoentes brasileiros estão Arbache (1999, 2000, 2001, 2004), Carneiro (1999), Amadeo e Camargo (1989). Entre os principais autores internacionais estão Freeman (1980, 1982, 1988, 2000), Blau e Kahn (1999). 2.1 Literatura Nacional Os trabalhos de autores nacionais relevantes para este estudo concentram-se na discussão desses temas para a realidade brasileira. A maior parte de suas contribuições foi descrita na introdução da história e funcionamento das estruturas de sindicato, negociação coletiva e leis trabalhistas para o Brasil. Amadeo e Carneiro (1989) discutem a formação do movimento sindical no Brasil e a formação da CLT na década de 30. Neste período muito havia de ser feito para garantir a proteção dos trabalhadores contra más condições de trabalho e exploração, além da necessidade de se tirar o foco do conflito na relação entre trabalho e capital do ambiente de trabalho. Assim foram organizadas a CLT, as confederações que atendem ao Ministério do Trabalho e os tribunais do trabalho, também vinculados ao Ministério. Porém, os autores ressaltam a necessidade de se retomar o campo de negociações entre capital e trabalho e reconhecem os avanços obtidos nas décadas de 1970 e 1980 em negociações coletivas. Porém, já na época, apontam a necessidade de retomá-las, desta vez, com estruturas mais estáveis. Por outro lado, Arbache (1999) avalia empiricamente o impacto de sindicalização em salários e discute o impacto das estruturas de trabalho existentes na formação de salário. Neste estudo o autor encontra que a maior participação de sindicatos está ligada a maior dispersão de renda entre indivíduos e não à concentração, como é esperado pelo funcionamento da negociação sindical e do processo de formação de salários. Arbache (1999) julga que o mesmo pode se dar pelo fato de trabalhadores filiados ganham em média mais. Logo, o fato de que um setor tem maior densidade sindical que outro já gera um diferencial de salários entre indústrias. Arbache (2000 e 2001) avalia o impacto da participação de sindicatos e a densidade sindical por indústria com a formação de salários. Em Arbache (2000), o 14 autor compara salários do Brasil antes e depois do período de abertura comercial e privatizações no começo da década de 1990 e encontra resultados condizentes com a literatura: indústrias mais impactadas com aumento de importações e acirramento da competição do mercado interno tiveram salários relativos reduzidos, aumentando dispersão entre indústrias. Porém, houve também aumento da dispersão de salários intra-indústria: sindicatos de indústrias menos impactadas tomaram proveito da possibilidade de aumentar seus salários relativos e reivindicaram aumentos, enquanto sindicatos de indústrias mais afetadas se posicionaram menos agressivos em suas demandas por reajuste. Arbache (2001) organizou um resumo da história e funcionamento de estruturas sindicais e trabalhistas no Brasil (relacionados no item introdutório do nosso estudo). Em seguida, avalia empiricamente a densidade sindical entre indústrias, as características das indústrias e trabalhadores. O autor então avalia se houve no tempo impacto significativo da participação de salários no aumento de renda e na dispersão de salários. Os resultados mostram que as estruturas de trabalho – leis, tribunais e sindicatos – desestimulam os avanços na modernização das negociações entre empregados e empregadores. Além disso, há um premium que permite que empregados sindicalizados ganhem mais que seus parceiros não sindicalizados de características idênticas. Assim, segundo o autor, os sindicatos mudaram seu foco de negociação de condições de trabalho e médias de salário para negociação de pisos e dissídios, exclusivamente. Além disso, há diferenças de salários para membros de sindicatos da mesma categoria, mas que pertençam a unidades de municípios ou estados diferentes. Arbache (2004) examina diferenciais de salários inter-industriais no Brasil. Foram avaliadas as características das indústrias, suas estruturas sindicais e as características profissionais dos indivíduos, a fim de se avaliar entre indivíduos de mesmas características se avia diferenciação de salários pelo fato do mesmo trabalhar para certa indústria ou pertencer ao seu respectivo sindicato. Os resultados mostram que há diferenciação de salários inter-indústria ligada à densidade sindical e há um diferencial salarial favorecendo os sindicalizados. Porém, o capital humano também contribui positivamente para a formação de salário e para explicar maiores salários médios para certas indústrias. 15 2.2 Literatura Internacional Blau e Kahn (1999) dissertam sobre as características das instituições determinantes de emprego e salário para países da OECD, com mais atenção aos europeus, ou com características similares, tais quais leis, políticas governamentais, sindicatos e organizações, avaliam o impacto de tais instituições em emprego e salários. Os autores encontram evidências de negociações coletivas mais centralizadas, salário mínimo e políticas antidiscriminatórias – que estendem os benefícios das negociações coletivas para todos da categoria – aumenta salário relativo dos menos qualificados, sem impactos significativos para os mais qualificados. Tais políticas tem efeito na redução das desigualdades de salário, mas apresentam impacto negativo em emprego. Blau e Kahn (1999) discutem ainda as características históricas e políticas da estrutura de emprego e determinação de salários para países da Europa e identificam que há demanda para essas formas de regular o processo de formação de salários, pelo fato de mercados apresentarem ineficiências de mercado que poderiam desestabilizar emprego e salários, gerando má alocação do produto da receita marginal por trabalho entre empregados de mesmas características. Levantam também que sindicatos para esses países também contribuem para o aumento de salário de seus membros, mas ao contrário do caso brasileiro, maior densidade sindical tende a provocar a menor variância entre salários. Para diferenças entre países europeus, levantam a diferença entre estrutura política e instituições, ao comparar com os EUA, observam que há menor dispersão de salários na Europa, porém também há mais desemprego. O Reino Unido é o país que mais se assemelha aos EUA, mas ainda tem resultados mais próximos aos países europeus continentais. Blau e Kahn (1999) concluem então que as evidencias extraídas de dados sobre salário e emprego para países da Europa correspondem ao que se encontra na literatura: sindicatos contribuem para maior renda, para menor diferença de salários inter-industrial e entre empregados e instituições e leis mais rígidas levam a maiores taxas de desemprego que em países mais flexíveis. Bowers e Burkitt (1974) discutem o grau de sindicalização entre trinta e cinco tipos de indústrias americanas entre os anos de 1948 e 1978, avaliam a participação de homens e mulheres e o percentual de empregabilidade entre membros. Os 16 autores mostram que nos EUA há grande abertura e flexibilidade para formação de sindicatos e filiação, mas baixa aderência e baixo impacto na formação de salários para os anos estudados, o que reforça o que se vê na literatura sobre estruturas mais flexíveis. Encontra-se na literatura internacional várias contribuições de Freeman, que serviu de referência para publicações nacionais e internacionais. Freeman (1980) analisa o efeito de sindicatos na dispersão de salários entre homens e mulheres de setores privados nos EUA e conclui que a participação de sindicatos diminui a dispersão de salários, reduzindo as diferenças entre funcionários de baixa e de alta qualificação para firmas com maior filiação (white-collar versus blue-collar wages). Porém ao elevar salários de membros, aumenta as diferenças entre indústrias, visto que alguns setores tem maior grau de filiação que os demais. Freeman (1980) avalia as médias de salário e propõe métodos para comparar desvios entre salários de profissionais de base (blue-collar) sindicalizados e não sindicalizados, além de compará-los em média com salários de profissionais de alto escalão (white-collar). Assim, encontra evidências para as conclusões sobre o impacto da filiação e salários. O autor conclui que a sindicalização é importante para a padronização de salários e que esta padronização é de interesse para empregados e empregadores: para empregados há mais segurança de proteção de salário, independente da firma onde trabalhe. Para as firmas é importante que salários não sejam fator competitivo entre seus custos e os das demais firmas, ou seja, salários padronizados excluem essa variável da equação de preços na competição de mercado. Freeman (1982) analisa a dispersão de salários e a filiação entre trabalhadores das mesmas firmas. Verifica que estabelecimentos mais organizados tem menor dispersão de salários que os menos organizados, assim como estabelecimentos com maior índice de filiação ao respectivo sindicato tem dispersão de salários de 5 a 50% inferior aos menos sindicalizados. Este tipo de estabelecimento – em geral mais organizado e sindicalizado – tende a preferir métodos de ajuste de salários por taxas negociadas e modelos de progressão automáticos a avaliações e méritos individuais. Neste artigo, pretende ir além de questionar se sindicalização impacta salário para o indivíduo e analisa se o mesmo impacta salários em uma firma, conclui que há impacto significativo, há fatores 17 organizacionais nas firmas que levam a ineficiências de mercado que a influência de sindicatos ajusta, reduzindo desigualdades. Freeman (1988) analisa o impacto de estrutura e instituições que determinam salários em países da OECD, para avaliar se as conclusões encontradas na literatura (Blau e Kahn, 1999, como exemplo) de que estruturas menos flexíveis desses países justificam alta de salários relativos entre as décadas de 1970 e 1980, geram maior dispersão e maiores taxas de desemprego em relação aos EUA. Verificando a densidade, o autor observa maior concentração de salários quanto maior a densidade de filiação sindical. Em relação ao desempenho da produtividade do trabalho compara taxas de desemprego com indicadores de crescimento de PIB e PNB para cada país e encontra resultados intrigantes: países europeus tem maiores taxas de desemprego e menos horas trabalhadas por semana por trabalhador que EUA e Japão, além de apresentarem maior crescimento de produto. Isso pode mostrar o que Freeman (1988) conclui: não se pode simplesmente exportar modelos de instituições entre países, pois os resultados em desempenho do trabalho podem divergir. Freeman (2000) discute aspectos de desempenho do trabalho. Neste artigo, mostra que instituições que regulam trabalho e salários influenciam na dispersão, mas tem poucos efeitos em desempenho. Há cada vez mais diferenças entre instituições entre países acerca da participação das mesmas no mercado de trabalho. Para o caso dos EUA, estudos sobre mercado de trabalho depois da década de 1990 mostram que a participação de tais instituições pode ter mudado com o tempo, dadas as diferenças econômicas do país no período, especialmente em desigualdade. Conclui que, mesmo para dados mais recentes dos EUA, maior participação de instituições que promovem negociações e acordos coletivos reduz a dispersão de salários, diferenças entre tais instituições entre países podem e devem se manter, pois dependendo dos impactos de mudanças na estrutura da formação de salários podemos ter resultados distintos em dispersão e desempenho do trabalho e principalmente porque cada país conta com suas estruturas produtivas e instituições, podendo alcançar resultados distintos em desempenho. Ou seja, um modelo não pode ser puramente replicado em diferentes países, pois não se alcançará os mesmos resultados e, por último, observa que a economia americana 18 atende hoje a apenas um dos critérios para ser líder em produção, sua alta taxa de emprego. Porém, se não for dada atenção à pobreza, distribuição e desempenho da produção do trabalho, mesmo este critério pode se deteriorar com o tempo. 19 3. BASE DE DADOS 3.1 Descrição dos dados Os dados utilizados para a análise empírica foram os microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), desenvolvida pelo IBGE, para os anos com dados disponíveis – 1993, 1997, 2001, 2005 e 2009. Vemos na tabela 3.1 as variáveis utilizadas: estado de residência, sexo, idade, cor, se trabalhou na semana de referência, ocupação, atividade, posição no emprego, se o indivíduo é funcionário público - sendo funcionário público, se é estatutário - a renda mensal, sua jornada de trabalho semanal em horas, se é sindicalizado e, por fim, os anos de estudo do indivíduo pesquisado. Tabela 3.1: Descrição de variáveis Código da Variável Descrição da Variável V0101 Ano da Pesquisa UF Estado da Federação V0302 Sexo V8005 Idade V0404 Cor ou raça V9001 Se trabalhou na semana de referência V9906 Ocupação V9907 Atividade V9029 Posição no emprego V9032 Se é funcionário Público V9035 Se é funcionário Público Estatutário V9532 Renda mensal V9058 Jornada de Trabalho em horas V9087 Sindicalizado V9088 Categoria Sindicato V4703 Educação em anos Algumas variáveis novas foram calculadas a partir dos dados da pesquisa, como: renda por hora – com 48 horas de trabalho por semana – (WAGEH); logaritmo natural da renda por hora (LNWAGEH); e idade ao quadrado (AGESQ). Com a variável que diz se o entrevistado trabalhou na semana de referência, podemos filtrar apenas os dados dos que responderam que sim, para estudarmos apenas as características e os efeitos em salário dos trabalhadores ativos. 20 Foram considerados trabalhadores que se declararam empregados, formais e informais, do setor público e do privado. Há, apesar de baixa, uma parcela dos funcionários públicos que se declarou não sindicalizada. 3.2 Análise descritiva da amostra Pela variável que diz se o trabalhador era matriculado em algum sindicato, podemos separar os dados entre trabalhadores sindicalizados e não sindicalizados, para compararmos os dois públicos e tirar algumas considerações gerais antes de aplicarmos a metodologia de análise de salários. Sobre toda a amostra de trabalhadores podemos observar que o salário entre 1993 e 2009 é de em média de R$6,95 por hora (deflacionado pelo IPCA, aos preços de 2009); o que equivale a uma renda mensal de R$1.111,23 por indivíduo, com alta variância, o que pode indicar que há grande desigualdade de renda. A idade média dos trabalhadores entre os anos da pesquisa, de acordo com a tabela 3.2, fica em 34 anos, com mediana para cada ano variando de 31 a 38 anos, bem próximo da média. Ou seja, a média representa bem a faixa etária representativa para a amostra. Em relação aos anos de estudo, a média é de 9,88 anos de estudo, que apresenta um tempo de estudo médio relativamente alto para padrões brasileiros. Poderíamos analisar outras características da pesquisa ou critérios metodológicos para definirmos se a amostra representa bem a população de interesse. Esta amostra para todos os anos pesquisados é composta em média por 62% de homens; 55% de integrantes que se declararam brancos; 28% dos funcionários entrevistados entre esses anos eram do setor público e quase 57% de funcionários do setor de serviços. Vemos predominância de homens e brancos no grupo pesquisado, além de grande predominância de trabalhadores no setor de serviços. Vemos que em média 23% dos trabalhadores são sindicalizados, percentual que pouco varia entre os anos. Podemos questionar se o motivo da parcela sindicalizada não variar muito entre os anos pode se dever ao fato de que é um aspecto mais cultural que econômico a motivação de trabalhadores a se filiar, ou que cabe mais aos setores e atividades a que cada um se dedica. Ao observamos que com o passar dos anos há a mesma participação de funcionários entre Indústria, 21 Agricultura e Serviços, e que a média de sindicalização dentro de cada setor não varia, podemos contar que enquanto não variar a participação de funcionários da mesma indústria, esse percentual de sindicalização também não deve mudar. Agora comparemos na tabela 3.2 os dados de trabalhadores sindicalizados contra não sindicalizados para os mesmos anos. Vemos que a população de filiados a sindicatos inclui em média ainda mais homens, mais indivíduos que se declaram brancos, e com mais anos de estudo. Para avaliarmos se essa pode ser uma característica geral da população ou se há viés na amostra, podemos discutir outras características da amostra assim como a concentração de participantes entre estados da Federação. Realmente encontramos maior concentração de entrevistados nos estados das regiões Sul e Sudeste, que podem ter maior concentração de população branca e, devido a outros fatores econômicos, maior concentração de trabalhadores com mais anos de estudo, além de concentrar mais polos industriais – setor que apresenta maior índice de filiação que os demais. 22 23 16.826 25,50% Número total de observações: Sindicalizados (%) Fonte: elaboração própria Erro-padrão robusto em parênteses. 52,00% 49.062 16,10% 9,00% 31,60% 30,10% Industria (%) 60,80% 0,30% 0,10% Serviços (%) 24,90% 35,90% Setor Público (%) Agric., Pec. Etc (%) Comércio (%) 54,50% 62,10% 65,00% 64,50% (4,181) (4,424) Cor (% Branco) 7,952 (14,707) (10,25) 9,910 31,332 (1309,829) (2781,052) 35,555 703,164 1.417,789 4,395 (8,186) 8,861 Sindicalizados (17,382) Não Sindicalizados 1993 Sexo (% Masc.) Educação (anos) Idade Salário (Renda por mês em R$) Salário (Renda por hora em R$) Tabela 3.2: Descrição dos dados 23,70% 16.894 64,00% 9,70% 26,20% 0,10% 35,70% 61,50% 62,00% (4,284) 10,370 910,274) 36,340 (1881,752) 1.609,561 (11,761) 10,060 Não Sindicalizados 54.291 54,10% 16,40% 29,20% 0,20% 21,80% 54,20% 64,10% (4,123) 8,456 (15,528) 31,678 (1207,593) 856,471 (7,547) 5,353 Sindicalizados 1997 21,70% 17.819 65,60% 10,10% 24,30% 0,10% 36,00% 60,30% 59,20% (4,113) 10,860 (10,622) 37,227 (1857,371) 1.479,135 (11,609') 9,245 Não Sindicalizados 64.142 54,90% 17,50% 27,40% 0,20% 20,90% 52,90% 62,70% (4,095) 9,180 (18,736) 32,263 (1161,597) 807,386 (7,26) 5,046 Sindicalizados 2001 23,40% 21.934 59,80% 13,10% 26,30% 0,80% 32,60% 54,80% 59,00% (3,864) 11,268 (14,209) 37,579 (1717,197) 1.434,606 (10,732) 8,966 Não Sindicalizados 71.758 50,10% 22,50% 26,70% 0,70% 20,20% 49,90% 61,10% (3,929) 9,909 (23,753) 32,960 (1107,397) 828,511 (6,921) 5,178 Sindicalizados 2005 22,00% 21.880 60,30% 13,40% 24,80% 1,40% 33,30% 51,80% 58,40% (3,831) 10,461 (11,858) 33,357 (1775,139) 987,851 (11,095) 6,174 Não Sindicalizados 77.747 50,30% 22,40% 26,40% 0,90% 19,60% 48,10% 59,90% (3,831) 10,461 (11,858) 33,357 (1775,139) 987,851 (11,095) 6,174 Sindicalizados 2009 4. METODOLOGIA Nessa seção vamos rever brevemente as características de cada modelo econométrico que pode ser usado para dados microeconômicos, para em seguida testá-los com os dados da PNAD adotados para o estudo. 4.1 Ordinary Least Squares (OLS) O modelo OLS regride salários em função das variáveis de controle selecionadas. Neste estudo vamos usar idade, idade ao quadrado, educação, sindicalização, sexo e cor, sendo que para as últimas vamos usar variáveis dummy, que nos permitem avaliar os componentes determinísticos da regressão. Ao atribuir uma variável dummy para sexo, por exemplo, podemos incluir essa variável qualitativa no modelo e avaliar o quanto é explicado de salários pelo fato de um indivíduo pertencer ao sexo masculino, por exemplo. (Heij, 2004) O modelo OLS é linear nos parâmetros, respeita a condição de ortogonalidade dos erros – – e de posto completo – – logo, consistente. Seu estimador é representado por: . 4.2 Propensity score matching Em alguns casos pode não ser possível alterar o tratamento dos indivíduos quando se quer medir os efeitos isolados deste tratamento em uma população. Diante dessa limitação, pelo método de propensity score matching, assume-se que para cada observação há uma probabilidade positiva de não-participação, ou seja, para cada observação de um grupo tratado há um correspondente em um grupo não tratado. O propensity score é a probabilidade de receber tratamento e é a medida usada para o pareamento. O mesmo pode ser estimado usando um modelo paramétrico como Logit ou Probit. Em seguida, pareamos as observações entre o grupo tratado e o não-tratado por cada propensity score. Ao usarmos probabilidades escalares como propensity score, removemos o viés de usar todas as variáveis 24 necessárias para comparar as amostras de grupo tratado e controle (Rosenbaum e Rubin, 1983). É feito então o matching, que se resume a um método de construir amostras a partir de uma grande amostra com diversos possíveis controles, gerando assim um grupo de controle cuja distribuição das variáveis seja similar à distribuição de um grupo de tratamento (Rosenbaum e Rubin, 1983). Aqui precisamos decidir entre determinar que cada observação tratada da amostra pode ser comparada com até uma observação não tratada – o que pode reduzir viés – ou com mais de uma – o que reduz variância, mas aumenta o viés. O matching, ou pareamento, é um método útil quando precisamos controlar um grande conjunto de variáveis; ou quando há muitos possíveis controles. Assume-se a hipótese de que o tratamento não afeta, mesmo que indiretamente, observações não tratadas (Cameron, 2005). Em seguida, avaliamos a média do efeito do tratamento em tratados (ATT), para concluir se há diferença entre ATT de tratados e não tratados. Obviamente, não há ATT real de não tratados, mas pelo pareamento, podemos supor o que a única diferença entre grupo tratado e controle é o pareamento. Sendo assim, os modelos aplicados simulam essa média para compará-la à dos indivíduos tratados e descobrir se há diferença significativa entre as duas. Havendo diferença significativa, podemos concluir se o tratamento tem efeito e se o mesmo é negativo ou positivo (Wooldridge, 2010). O modelo de propensity score matching tem estimadores e estimadores , com pesos independentes, média de y dado x independente do peso e , onde e , ou seja, é a probabilidade de calculada no modelo Probit na primeira etapa da estimação, podemos chamar de propensity score. Na segunda etapa, o modelo regride , onde são os resíduos da regressão Probit. O que esperamos encontrar são as diferenças de para avaliar se o efeito do tratamento em ATT entre tratados e não tratados é positivo e significativo (Wooldridge, 2010). 25 Podemos também, com os coeficientes encontrados pelo Probit ou Logit regredido, avaliar o quanto cada variável escolhida impacta o efeito do tratamento e o quanto ela participa da explicação do efeito sobre tratados. Para cada grupo – tratado e controle – podemos avaliar o impacto da variável dependente pelos coeficientes do modelo probabilístico usado. Neste estudo, usaremos o pacote econométrico Stata (versão 11) e sua ferramenta de propensity score matching (psmatch2), que regride o modelo Probit e nos traz a avaliação da ATT entre tratados e controle. 26 5. RESULTADOS 5.1 OLS Para uma simples regressão por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO, ou OLS, de Ordinary Least Squares) em cross section para cada ano, tendo o logaritmo natural de salários por hora como variável dependente, idade em anos, idade ao quadrado, educação em anos, uma variável dummy para indicar se o trabalhador é sindicalizado, uma dummy para indicar se é do sexo masculino e outra para indicar se é branco como independentes (explicativas) – foram incluídas também dummies para as unidades da federação que não citadas. Para essa regressão encontramos os coeficientes abaixo: Tabela 5.1: Resultados OLS por ano Variável Dependente Variáveis Independentes Constante Log(Salário por hora) 1993 1997 2001 2005 2009 -0,524* -0,636* -0,548* -0,620* -1,182* (0,062) (0,045) (0,034) (0,030) (0,028) Idade 0,026* 0,026* 0,028* 0,027* 0,075* (0,000) (0,000) (0,000) (0,000) (0,001) Idade ao Quadrado -0,000* -0,000* -0,000* -0,000* -0,001* (0,000) (0,000) (0,000) (0,000) (0,000) 0,113* 0,108* 0,100* 0,098* 0,092* (0,001) (0,001) (0,001) (0,001) (0,001) 0,380* 0,305* 0,278* 0,258* 0,210* (0,007) (0,006) (0,006) (0,005) (0,005) 0,449* 0,434* 0,365* 0,331* 0,318* (0,006) (0,005) (0,005) (0,004) (0,004) -0,105* -0,118* -0,132* -0,119* -0,118* Educação (em anos) Dummy Sindicalização Dummy Sexo Dummy Cor (0,006) (0,005) (0,005) (0,004) (0,004) Numero de Observações 65.888 71.185 81.961 93.692 99.627 Prob>F 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 R² 43,4% 45,4% 42,6% 41,5% 41,7% Fonte: Elaboração própria. Erro-padrão robusto em parênteses. Significância dos coeficientes: *5%. Observamos na tabela 5.1 que para todos os anos as variáveis são significativas, apresentam baixo desvio e valor-P muito próximo de zero. Sobre a influência de cada uma em salários, vemos que idade, educação, filiação sindical e o fato de ser do sexo masculino explicam salários positivamente, ou seja, contribuem 27 para maiores salários. Cada ano de estudo a mais de um trabalhador em 1993, por exemplo, contribuiria para aumentar seu salário por hora em 11,3%. Vemos na tabela 5.1 que o fato de um trabalhador ser sindicalizado em 1993 contribui para um aumento de 38% em relação ao não-sindicalizado, resultado que esperávamos encontrar. Porém esse percentual cai por ano, até chegar a apenas 21% em 2009. Adiante neste estudo, vamos avaliar o fenômeno com outros modelos econométricos para atestar essa queda na participação de sindicalização na formação de salários. Esses resultados coincidem com avaliações empíricas encontradas na literatura nacional e internacional. Podemos compreender bem porque educação contribui para maiores salários, pois qualifica melhor os trabalhadores. Com relação ao efeito da idade, poderíamos concluir que o trabalhador tem ganhos decrescentes em salário com a idade, ou seja, passa a ganhar mais com o aumento da idade até chegar num ponto de máximo, em seguida passa a ganhar menos do que se fosse mais novo. Infelizmente isso seria justificável pela dificuldade de alocação no mercado de trabalho de cidadãos de mais idade. A contribuição negativa da dummy que indica cor do indivíduo mostra mais um aspecto social do mercado de trabalho brasileiro. O fato do indivíduo não ser branco contribui negativamente para a formação de salário. Em relação à aderência do método selecionado, vemos bons resultados (tabela 5.1): para o ano de 1993 o R² ajustado é de 43,4%; para 1997 é de 45,4%, para a regressão de 2001 o R² ajustado é de 42,6%; para 2005 é de 41,5%; e de 2009, de 42,7%. Isso mostra que regressões por Mínimos Quadrados Ordinários para cada ano individualmente pode ser um bom método para avaliar o impacto de cada uma dessas variáveis em salário para cada ano. Agora, para avaliar a evolução do efeito dessas variáveis no tempo, vamos usar métodos em painel. 5.2 Painel A partir de agora vamos avaliar regressões com os dados de todas as variáveis e de todos os anos em painel, assim podemos avaliar o efeito das variáveis com o passar do tempo. Vejamos abaixo, na tabela 5.3, os resultados para Pooled Ordinary Least Squares (Mínimos Quadrados Ordinários em painel), usamos um modelo semelhante ao usado para OLS, porém incluímos dummies para ano e indústria: 28 Tabela 5.2: Resultados POLS com dummies de ano e de indústria Variável Dependente Variáveis Independentes Constante Log(Salário por Hora) -0,489* Variável Dependente Variáveis Independentes Constante (0,020) Idade 0,027* 0,000* 0,104* Idade ao Quadrado 0,302* Educação (em anos) 0,389* -0,121* 0,297* (0,003) Dummy Sexo (0,002) Dummy Cor 0,105* (0,000) Dummy Sindicalização (0,003) Dummy Sexo 0,000* (0,000) (0,000) Dummy Sindicalização 0,027* (0,000) (0,000) Educação (em anos) -0,302* (0,028) Idade (0,000) Idade ao Quadrado Log(Salário por Hora) 0,383* (0,002) Dummy Cor (0,003) -0,123* (0,003) Dummy 1993 -0,192* Dummy Agricultura Dummy 1997 (omitted) Dummy 2001 -0,123* Dummy 2005 -0,135* (0,003) (0,019) Dummy 2009 (omitted) - Numero de Observações 312.726 (0,003) 0 Dummy Indústria -0,138* Dummy Serviços -0,177* Dummy Comércio -0,256* 0 (0,019) (0,003) (0,019) 0,000 Prob>F R² 0,000 47,92% (omitted) Numero de Observações Prob>F R² 312.726 0,000 48,11% Fonte: Elaboração própria. Erro-padrão robusto em parênteses. Significância dos coeficientes: *5%. Vemos que assim como as regressões em cross section, a em painel apresenta coeficientes significativos para todas as variáveis dependentes, com R² ajustado de 47,92% e 48,11%. O comportamento de cada uma – a forma como explicam variações em salário – é o mesmo de cross section ano a ano. Incluímos variáveis dummy para cada ano, todas se apresentaram significativas, sendo que para o ano de 1997 o coeficiente é maior, o que pode indicar maior renda nesse ano em relação aos demais da amostra. Incluímos outra regressão que avalia como se comporta o efeito da sindicalização quando controlamos por setores diferentes, divididos entre Rural, Indústria (indústria pesada e de transformação), Serviços e Comércio. Para cada um atribuímos uma variável dummy que pode nos ajudar a isolar o efeito do quanto um 29 trabalhador de um determinado setor pode ter maior remuneração que o de outro, independente do fator sindicalização. A tabela 5.2 também nos mostra que os melhor remunerados são os profissionais do Comércio, apesar da Indústria ter maior concentração de filiados – como vimos na análise descritiva dos dados deste estudo. O fato do setor de Serviços ter a maior quantidade de profissionais no Brasil para esse anos pode contribuir para maior dispersão salarial, o que dificultaria a atuação do sindicato em negociações coletivas, o que também pode explicar que a forma como os sindicatos atuam no Brasil não atende o setor de maior número de trabalhadores. Outra forma de avaliar o efeito das variáveis em salário seria incluir variáveis de interação, que mostrem o efeito de sindicalização relativo ao ano, por exemplo. Para isso, foram criadas as variáveis sind93, sind97, sind01, sind05 e sind09, que são cada uma a multiplicação da variável dummy que indica se o indivíduo é sindicalizado com a variável dummy que aponta em que ano foi entrevistado. Podemos ver na tabela 5.3 que não apenas que o fato de ser filiado a um sindicato explica maior renda, mas também ver em quais anos esse fator fez mais diferença. Vemos que o ano de 1993 é o de maior coeficiente. Ser sindicalizado em 1993 contribuía para um acréscimo de 41,8% da renda. Porém, essa contribuição marginal da variável que aponta sindicalização diminui com o passar dos anos. Cai para 33% em 1997, 28,5% em 2001, 25,6% em 2005, chegando a 21,8% em 2009, o que pode indicar que ser sindicalizado faz cada vez menos diferença para explicar salários. É porque o quanto sindicalização explica salários cai com o passar dos anos que vemos que o papel de sindicatos pode estar mudando. Apesar de observamos na literatura internacional coeficientes baixos, os mesmos apresentam a mesma tendência de queda que os coeficientes encontrados nas regressões deste estudo. 30 Tabela 5.3: Resultados POLS com variáveis de interação Variável Dependente Variáveis Independentes Constante Log(Salário por Hora) -0,393* (0,008) Idade 0,026* (0,000) Idade ao Quadrado 0,000* (0,000) Educação (em anos) 0,102* (0,000) Dummy Sexo 0,371* (0,002) Dummy Cor -0,122* (0,002) sind93 (=DSIND*93) 0,401* (0,006) sind97 (=DSIND*97) 0,321* (0,006) sind01 (=DSIND*01) 0,280* (0,005) sind05 (=DSIND*05) 0,252* (0,005) sind09 (=DSIND*09) 0,218* (0,005) Dummy 1993 (omitted) Dummy 1997 0,213* 0 (0,004) Dummy 2001 0,100* (0,004) Dummy 2005 0,097* (0,004) Dummy 2009 0,277* (0,004) Numero de Observações Prob>F R² 412.353 0,000 47,42% Fonte: Elaboração própria. Erro-padrão robusto em parênteses. Significância dos coeficientes: *5%. A partir daqui, vamos analisar os resultados de uma regressão com propensity score matching. Como vimos na sessão metodológica, serão pareados indivíduos com probabilidades próximas ou idênticas de ter certas atribuições. Em seguida comparamos pares de mesmas probabilidades entre tratados e não tratados, ou seja, entre sindicalizados e os que não são sindicalizados. O objetivo é 31 avaliar o quanto cada variável contribui para a diferenciação salarial entre indivíduos pareados e se o efeito do tratamento entre os tratados (ATT) é significativo. Inicialmente, estimamos um modelo Probit para explicar os determinantes de sindicalização. A tabela 5.4 apresenta os resultados: Tabela 5.4: Resultados Propensity score matching por ano Variável Dependente Variáveis Independentes Constante Idade Idade ao quadrado Educação em anos Dummy Sexo Dummy Cor Número de Observações Sindicalização 1993 1997 2001 2005 2009 -3,471* -3,621* -3,543* -2,335* -3,579* (0,050) (0,051) (0,050) (0,025) (0,048) 0,111* 0,110* 0,100* 0,027* 0,094* (0,003) (0,003) (0,003) (0,000) (0,002) -0,001* -0,001* -0,001* -0,000* -0,001* (0,000) (0,000) (0,000) (0,000) (0,000) 0,061* 0,063* 0,062* 0,064* 0,061* (0,001) (0,001) (0,001) (0,001) (0,001) 0,149* 0,122* 0,061* 0,078* 0,085* (0,012) (0,011) (0,011) (0,010) (0,010) -0,069* -0,055* -0,064* -0,014 -0,001 (0,011) (0,011) (0,011) (0,009) (0,009) 65.888 71.185 81.961 93.692 99.627 Prob>Chi² 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 Pseudo- R² 8,00% 8,32% 7,78% 5,83% 6,51% Fonte: Elaboração própria. Erro-padrão robusto em parênteses. Significância dos coeficientes: *5%. Observamos que todos os coeficientes – exceto a dummy de cor para os anos de 2005 e 2009 – apresentam coeficientes significativos. Idade contribui mais que educação. Vemos, por exemplo, que para o ano de 1993, cada ano a mais de idade contribui para mais 11,1% da renda, enquanto cada ano a mais de ensino contribui para mais 6,1% apenas. Porém, o fator idade parece contribuir cada vez menos a cada ano, indo de 11,1% a 9,4% em 2009. Vemos melhorias nos coeficientes das dummies de sexo e cor. Ser homem contribui positivamente para salários, porém cada vez menos. O percentual da dummy de sexo cai de 14,9% para 8,5% em 2009. Já a dummy para cor nos mostra que não ser branco deteriorava salários em 6,9% em 1993, caindo para 0,1% em 2009. Na tabela 5.5 passamos a observar o efeito do tratamento sobre os tratados (sindicalizados), para indivíduos com as mesmas características. O modelo calcula a média salarial para os tratados e para o grupo de controle. A diferença de médias é 32 o ATT. Vemos, então, que para todos os anos há diferença significativa e positiva, ou seja, o fato de ser filiado a um sindicato é um tratamento que leva a melhores salários. Tabela 5.5: Resultados ATT Propensity score matching Ano 1993 Tratados 1,724 Controle 1,279 Diferença 0,445 N. Obs 65.888 (0,011) 1997 1,912 1,539 0,373 71.185 (0,010) 2001 1,818 1,514 0,303 81.961 (0,009) 2005 1,823 1,498 0,325 93.692 (0,008) 2009 1,971 1,692 0,278 99.627 (0,008) Fonte: Elaboração própria. Erro-padrão robusto em parênteses. Significância dos coeficientes: *5%. Porém, vemos que a diferença cai com o passar dos anos, o que corrobora as conclusões encontradas nos modelos OLS e POLS deste estudo: no período de 1993 e 2009, entre trabalhadores no Brasil, o fato de um trabalhador ser filiado a um sindicato explica renda maior, porém esse efeito sobre renda tem caído ao longo dos anos. 33 6. CONCLUSÃO As conclusões sobre o efeito de sindicalização em salários para trabalhadores no Brasil, entre os anos de 1993 e 2009, exibidas ao longo deste estudo resumemse a: (i) encontramos efeito significativo e positivo de sindicalização sobre renda; (ii) tal efeito cai ao longo do anos; (iii) apesar da aparente participação positiva de sindicatos em salários, não vemos – como observa-se na literatura nacional e internacional – menor dispersão de renda entre sindicalizados. Em relação aos resultados encontrados por Arbache (2004), vemos que houve deterioração do premium em salários atribuído por filiação sindical. O autor encontrou efeito positivo de sindicalização para explicar maiores salários, porém – ao contrário do que se espera e do que se vê na literatura internacional – maior dispersão de salários em indústrias mais sindicalizadas. Pela análise descritiva dos dados e pelos resultados dos modelos em OLS, POLS e propensity score matching, chegamos às mesmas conclusões. Porém, vemos que há diminuição de ambos os efeitos com o passar dos anos. Ao avaliar os achados empíricos deste estudo, a bibliografia analisada e as características da estrutura de sindicatos e mercado de trabalho brasileiros para os anos de 1993 a 2009, podemos concluir que sindicatos no Brasil ainda impactam salários positivamente, porém vem perdendo poder com o tempo. O impacto da educação sobre os salários tem magnitude similar (para cada ano de estudo), porém também perde participação ao longo do tempo, enquanto aumenta dispersão salarial. Podemos interpretar esses achados considerando a estrutura de sindicatos e leis trabalhistas no país. A formação de sindicatos é homologada pelo Ministério do Trabalho e a contribuição sindical – que mantém sindicatos e órgãos associados – é compulsória. Espera-se que esse seja um incentivo para que sindicatos atuem mais ligados à esfera governamental, representando mais uma instituição da mesma, enquanto teriam por função atuarem mais próximos aos trabalhadores, não apenas negociando salários, mas garantindo boas condições de trabalho. 34 Para próximos estudos, espera-se estabelecer um paralelo entre dados do Brasil e de outros países, onde não se aplica a contribuição sindical compulsória. Espera-se que, apesar de menor filiação, haja maior impacto do fator sindicalização em salários e dispersão salarial. 35 7. BIBLIOGRAFIA Amadeo, E.J.; Camargo, J.M. Relação entre capital e trabalho no Brasil: Percepção dos atores sociais, Texto para Discussão No. 23, Ministério do Trabalho, 1989. Arbache, J.S.; Carneiro, F. G. Unions and Interindustry Wage Differentials. World Development, Vol. 27, No. 10, pp. 1875±1883, 1999. Elsevier. Arbache, J.S. Does trade liberalization always decrease union’s bargaining power? 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