UM PENSAR SOBRE A AVALIAÇÃO
Andréa Gatelli HOLLER1
Luciane Godolfim SWIRSKY2
Susana Sofia Balduzzi PAVAN3
RESUMO: Neste artigo pretende-se analisar, a partir de um instrumento de avaliação em
língua portuguesa, o modo como se pode conceber, numa proposta de ensino por Ciclos de
Formação, a idéia de processo de aprendizagem, apresentação de conteúdos e visão de sujeito
na hora da avaliação.
PALAVRAS-CHAVE: Prática Pedagógica, Avaliação Escolar, Ciclos de Formação.
1. INTRODUÇÃO
O presente artigo busca propor uma reflexão sobre o processo de avaliação das
aprendizagens dos alunos, através da análise do instrumento de avaliação que seus professores
constroem. O instrumento avaliativo em análise representa, no cotidiano escolar, uma grande
preocupação e, ao mesmo tempo, a possibilidade de reconhecer o processo de formação de
cada professor à medida que sistematiza o seu trabalho pedagógico nesse instrumento de
avaliação.
Sabemos que o professor coloca em ação as suas concepções de mundo, de educação, de
aprendizagem, não só quando planeja suas aulas, mas também quando as avalia. Nesse
processo, torna-se cada vez mais importante fundamentar as concepções e estratégias de
trabalho desse professor no momento em que constrói seu instrumento de avaliação. Quando
atento e desejoso por novas aprendizagens esse professor vai buscar coerência e identificação
entre os processos de aprendizagem e avaliação. Exercendo, assim, a função da ignorância
como fundante para a busca de novos conhecimentos e de novas experiências. A mobilidade e
a flexibilidade nas práticas pedagógicas apontam possibilidades para a qualificação do
processo educativo. Qualificar o trabalho docente é também, encontrar a coerência entre
1 Licenciatura em Letras, especialização em Linguagem e Letramento e Estudos Lingüísticos – Professora de
Português e no setor da biblioteca da escoa EMEF América.
2 Licenciatura em Letras, especialização em Estudos Lingüísticos do texto professora de anos iniciais e
supervisora da EMEF São Pedro.
3 Licenciatura em Pedagogia – anos iniciais e especialização em Gestão Educacional, Alfabetização, Estudos
Lingüísticos do texto – professora de anos iniciais e coordenadora Pedagógica da EMEF Mário Quintana
[email protected]
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aquilo que se propõe ao aluno e aquilo que se avalia. É pela busca dessa qualificação que este
estudo se propõe. A partir da análise de um instrumento de avaliação usado em uma escola do
município de Porto Alegre, procuraremos investigar sua coerência e sua eficácia para o
avanço do processo ensino – aprendizagem dos alunos.
Ao estudarmos sobre avaliação, percebemos que ela faz parte de um processo que vai
muito além de um resultado final. Para nós, há uma série de fatores embricados, agindo numa
estrutura social e que se fazem presentes na escola através da prática pedagógica, constituída
pelos objetivos, planejamento, execução e avaliação.
Assim, “a avaliação não se dá nem se dará num vazio conceitual, mas sim dimensionada
por um modelo teórico de mundo e de educação traduzido em uma prática pedagógica.”
( LUCKESI, 1996, p.30)
Desse modo, o posicionamento do professor em relação a esses aspectos está presente na
sua forma de avaliar.
2. DESCRIÇÃO DO INSTRUMENTO DE AVALIAÇÃO
Buscando verificar os aspectos inerentes à avaliação, analisamos a grade de avaliação em
língua portuguesa proposta por uma professora, do segundo ano do segundo ciclo da rede
municipal de Porto Alegre, no início do ano letivo, como sondagem diagnóstica.
A razão de termos escolhido uma grade aplicada numa turma de escola ciclada tem a ver
com o fato dela estar inserida numa proposta pedagógica que se funda na autonomia dos
sujeitos, no exercício consciente da cidadania, no redimensionamento dos tempos e espaços
escolares e na progressão continuada. Seguindo essa concepção, em que “a avaliação é um
processo contínuo, participativo, com função diagnóstica, prognostica e investigativa,
devemos considerar que as informações extraídas dela propiciam o redimensionamento da
ação pedagógica e educativa, reorganizando as próximas ações do educando, da turma, do
educador, do coletivo do Ciclo e mesmo da escola.Tendo, assim, o objetivo de fazer avançar o
entendimento e o desenvolvimento do processo de aprendizagem.” (SMED/PMPA, 1996,
p.47).
Segundo Johannes Doll existe uma certa relação entre um método de ensino e as formas
de avaliação, pelo menos em nível teórico. (2000, p.13)
Considerando a realidade da progressão continuada, acreditamos que a avaliação deva
ocorrer de uma forma adequada a essa prática pedagógica. Diante disso, verificaremos se a
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relação entre o método de ensino e a forma de avaliação acontece na prática.
A professora que nos forneceu o material para a análise propôs leitura e cópia de texto,
em letra cursiva, com questões de interpretação e a produção de um texto a partir de uma
seqüência de gravuras.
Tendo as produções em mãos, a professora avaliou-as segundo os critérios:
Interpretação; parágrafo; lê cursiva; escreve cursiva; erros ortográficos; segmentação de
palavras; letra maiúscula; leitura; copia texto com estrutura; seqüência lógica do texto.
3. ANÁLISE DO INSTRUMENTO
A partir dos itens propostos pela professora pudemos observar qual a concepção da
mesma, sobre a avaliação da leitura e da escrita.
Para a avaliação da leitura foram usados os ítens:
•
Interpretação
•
Lê cursiva
•
Leitura
Podemos depreender que os mesmos parecem desconectados entre si e que os critérios
envolvendo interpretação e leitura são vagos. O item leitura, conforme aparece, dá idéia da
simples constatação da decodificação. O ítem lê cursiva aponta o privilégio do status da
forma sobre o conteúdo e parece colocar-se à parte do contexto do mundo letrado.
Para a avaliação da escrita, os ítens são os seguintes:
•
Parágrafo
•
Escreve cursiva
•
Erros ortográficos
•
Segmentação de palavras
•
Letra maiúscula
•
Copia texto com estrutura
•
Seqüência lógica do texto
Desta análise, pode-se dizer que existe dificuldade em estabelecer relação de continuidade
e/ou interdependência entre os ítens propostos. Os seis primeiros referem-se à forma, somente
o último, evidencia a análise do conteúdo, da progressão textual.
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Através do ítem copia texto com estrutura, parece haver, por parte desse professor, a
crença de que é através da cópia que o aluno poderá aprender a estruturar seu texto, sanar
suas dúvidas ortográficas e dominar as convenções textuais.
A grade evidencia a idéia de um ensino compartimentado, em que as relações textuais
podem não ter relevância, isto é, que para escrever basta saber usar os códigos sem considerar
o contexto do processo de escrita.
Assim, os elementos discursivos presentes nas produções textuais não são levados em
consideração, já que não aparecem na grade de avaliação.
Esta avaliação parece limitar-se ao aspecto classificatório no qual o aluno é enquadrado
num perfil definido pelo professor. Com isto, fica prejudicada a avaliação do processo do
aluno em sua relação com a leitura e a escrita, dificultando o exercício da autoria.
Diante do que acabamos de apontar, nos questionamos sobre:
1. O que vem a ser um texto com estrutura? De que importa saber traçar a letra cursiva
(letra da escola)? Que erros ortográficos estão sendo considerados? O que se entende do
aspecto seqüência lógica do texto?
2. O que representa a utilização da grade de avaliação para o aluno? Ele sabe no que está
sendo avaliado? Qual é a relação desta grade com a proposta de trabalho, com a turma e com
o projeto pedagógico da escola? Onde aparece o processo do aluno?
3. Que outros elementos da produção escrita são importantes para que não seja só avaliado
o aspecto gramatical, dentro de uma concepção normativa, classificatória e
descontextualizada das situações de uso da escrita que, por sua vez, impede a reflexão e
criação de textos, como também a compreensão e análise textual?
4. Como relacionar e aprofundar o conhecimento do professor quanto a sua língua
materna, se tornando escritor competente para lidar com as diferentes situações de uso da
escrita para que, assim, possa compreender e possibilitar que o aluno se sinta desafiado a
mostrar o que sabe e o que não sabe?
5. O que se sabe do conhecimento prévio do aluno para que se possa propor produção
escrita com significado, ampliando a noção de uso de código para noção de letramento?
6. O que sabemos dos diferentes gêneros textuais para que possamos possibilitar
vivências, relações de conhecimento ampliando a criação e a compreensão de para o quê e
para quem o texto foi escrito?
7. O que representa a grade de avaliação da produção escrita quando a mesma contempla
aspectos tão amplos que superam os conhecimentos e práticas de escrita do professor e,
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portanto, o afastam das dúvidas inerentes ao seu processo de ensino?
Após refletir sobre essas questões e considerando, como apresentamos antes, a proposta
do ensino por ciclos de formação, parece evidente a dificuldade em estabelecer a relação entre
essa proposta e a prática avaliativa utilizada em questão.
4. PROPOSTA DE INSTRUMENTO DE AVALIAÇÃO
A partir desta análise propomos um exemplo de como a prática pedagógica pode vincular
a aprendizagem da leitura, da escrita e da compreensão também no instrumento de avaliação.
Para tanto, achamos importante oportunizar aos alunos acesso a um mesmo conhecimento
base como ponto de partida para as propostas de trabalho, considerando sua subjetividade e
autoria. Nesse contexto, a grade de avaliação deve refletir a relação do sujeito com a língua e
estar adequada à proposta construída com ele.
Acreditamos que toda e qualquer proposta de produção escrita precisa estar
contextualizada, enquanto processo de ensino e de aprendizagem dos diferentes atores e
autores, com o projeto pedagógico da escola e, assim, desmembrado em projetos de turma nos
quais os alunos apontem o que querem aprender, como construirão suas propostas e como
mostrarão o que aprenderam. Com isto, se tem a problematização, reflexão e ação de
situações diretamente vivenciadas pelos alunos, nas quais podem resgatar seus valores e
construir suas identidades na exploração e produção de diferentes gêneros textuais,
atualizados conforme o propósito de escrita e/ou reescrita. Desse modo, para que se possa
apresentar um instrumento de avaliação adequado ao que entendemos da proposta pedagógica
dos ciclos de formação, propõe-se uma abordagem do ensino de língua materna em que
aprender a ler e escrever é exercer a função social das mesmas e, por isso, escolhemos uma
prática pedagógica de projeto.
Por entender que a avaliação está intimamente ligada ao planejamento, para que se
chegue a uma planilha de avaliação adequada, inicia-se pela proposta que contempla a leitura
de histórias em quadrinho que apresentem questões relevantes à realidade dos alunos. Como
exemplo, foram escolhidas histórias da Turma da Mônica que apresentam o Estatuto da
Criança e do Adolescente, através das quais se objetiva a reflexão sobre o tema.
Etapas do projeto:
1) Análise coletiva do gênero textual apresentado, salientando o veículo em que o texto
está inserido e suas características.
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2) Identificação das informações mais importantes no texto e discussão coletiva sobre o
porquê e para quem são relevantes.
3) Proposta de construção de cartazes informativos sobre o problema a fim de estender o
conhecimento adquirido por eles a toda comunidade escolar, definindo a intencionalidade e os
espaços da comunidade apropriados à divulgação.
4) Discussão com a turma sobre os aspectos lingüísticos importantes na construção do
texto (considerando que este será lido por todos e que poderá ser lido de longe, rapidamente,
e, portanto, precisará atrair o leitor), tais como: uso de informações diretas e objetivas,
perguntas com efeito de levar o leitor a refletir sobre as informações, que tenha letra legível,
que haja uso adequado de sinais de pontuação como também de letra maiúscula (ao iniciar
frases ou na escrita de substantivos próprios), adequação ao uso de convenções ortográficas.
5) Escrita individual dos cartazes e reescrita coletiva a fim de torná-los adequados à
situação comunicativa proposta.
6) Socialização dos materiais de divulgação construídos.
Objetivos de ensino:
a) observar aspectos importantes do gênero textual história em quadrinhos;
b) identificar as informações relevantes apresentadas na história;
c) utilizar essas informações na construção de materiais de divulgação- cartazes;
d) discutir para quem são importantes essas informações;
e) elencar aspectos lingüísticos importantes na construção do texto;
f) socializar os materiais de divulgação na comunidade.
A partir da leitura da história em quadrinhos que apresenta o Estatuto da Criança e do
Adolescente, o aluno deverá ser capaz de reconhecer as informações pertinentes e utilizá-las
na confecção de cartazes informativos que serão fixados em pontos estratégicos da escola ,
apontados pelos alunos. As informações deverão ser objetivas, legíveis, atrativas, com
adequação às convenções ortográficas, atingindo o público alvo -comunidade escolar- levando
à reflexão e compreensão do ECA.
Após o trabalho realizado, adequou-se os seguintes itens para a grade de avaliação:
A) identificou as informações do texto base, utilizando-as nas discussões e na construção
de seus materiais de divulgação – cartazes;
B) reconheceu o gênero textual apresentado, apontando suas características: balões de
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fala, relação texto-imagem, personagens, tempo e espaço e veículo de comunicação;
C) expressou oralmente suas opiniões sobre o tema;
D) elaborou o material de divulgação individualmente, utilizando as informações do
texto base e fazendo relações com seu conhecimento de mundo;
E) utilizou em suas produções os aspectos lingüísticos elencados pela turma,
considerando que poderá ser lido de longe, rapidamente, e que precisará atrair a vista do
leitor, portanto, terá de fazer uso de informações diretas e objetivas; que terá perguntas, com
efeito, de levar o leitor a refletir sobre as informações; que precisará levar em conta o uso de
letra legível; que haja uso adequado de sinais de pontuação bem como da letra maiúscula (ao
iniciar frases ou na escrita de substantivos próprios); além disso, que o uso de convenções
ortográficas, seja adequado;
F) socializou o material de divulgação sobre sua importância a diferentes grupos.
Tendo como critérios os itens apresentados acima, a avaliação deverá ser descritiva, pois
acreditamos que desta forma, o professor terá melhor condição de compreender o processo do
aluno na sua construção do conhecimento e fazer as intervenções necessárias nesse processo.
5. CONCLUSÃO
Em geral, a sondagem de início do ano letivo é organizada a partir de aspectos que o
professor considera importantes, mas os quais os alunos desconhecem. Embora esses tentem
ressignificar as atividades propostas pelo professor, não se consegue estabelecer um contrato
didático com o qual todos possam contribuir e responsabilizar por suas aprendizagens, tanto
professor como alunos.
Não podemos desvincular os diferentes conhecimentos (lingüístico, de mundo, de gênero
textual, crítico), tão fundamentais em toda e qualquer produção escrita, no momento em que
avaliamos as habilidades cognitivas dos alunos. Quando se propõe uma atividade de escrita,
bem como, quando se avalia essa produção, deve-se prever que a língua materna,
efetivamente, venha a ser vivenciada em suas diferentes representações ressignificando visões
de mundo e de letramento.
A nossa proposta de escrita e avaliação busca explorar a capacidade do professor em
construir coletivamente projetos desafiadores com seus alunos e com seus pares, podendo
exercer o direito de reescrever sua trajetória pedagógica, contextualizando seu processo
singular de formação.
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Destacamos a importância de redefinirem-se os cursos de formação docente para que se
possa investigar as diferentes práticas pedagógicas no ensino da língua materna e, assim,
aprofundar novos estudos e construir novas didáticas que contextualizem a produção escrita
na escola. Planejar, construir, e avaliar nossos alunos é o mesmo que planejar, construir e
avaliar práticas pedagógicas .
6. REFERÊNCIAS:
DOLL, Johannes. Avaliação na pós-modernidade. In: Paiva, Maria da Graça
Gomes & Brugalli, Marlene. Avaliação: novas tendências, novos paradigmas.
Porto Alegre, Mercado Aberto, 2000, p 11-44
LUCKESI, Cipriano. Avaliação educacional escolar: para além do autoritarismo. In:
Avaliação da aprendizagem escolar. São Paulo, Cortez. 1996, p.27-47
PMPA/SMED. Cadernos pedagógicos: Ciclos de Formação – proposta políticopedagógica da escola cidadã, dezembro de 1996.
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