CENTRO BRASILEIRO DE REFERÊNCIA EM TECNOLOGIA SOCIAL TECNOLOGIA SOCIAL: DESENVOLVIMENTO LOCAL, PARTICIPATIVO E SUSTENTÁVEL NOS MUNICÍPIOS 24 a 26 de maio de 2004 São Paulo-SP 2 ÍNDICE ÍNDICE................................................................................................. 2 1.Introdução.................................................................................................. 5 2.Desenvolvimento Local ................................................................................. 6 3.Tecnologia Social e Desenvolvimento Local ..................................................... 9 4.O seminário............................................................................................... 10 4.1. Os objetivos do seminário..................................................................... 10 Objetivo geral...................................................................................... 10 Objetivos específicos............................................................................ 10 4.2.A metodologia utilizada.......................................................................... 12 4.3.As experiências de desenvolvimento local ................................................ 14 4.4.O resultado da sistematização coletiva..................................................... 14 Diretrizes............................................................................................ 15 1º eixo - gênese.................................................................................. 18 2º eixo - sustentabilidade...................................................................... 21 3º eixo – transformação de produtos e serviços........................................ 24 5.Limites e Desafios de Desenvolvimento Local e Tecnologia Social...................... 26 6.Conclusão.................................................................................................. 29 Indicações Bibliográficas................................................................................ 31 ANEXO 1...................................................................................................... 33 Descrição das três experiências apresentadas no seminário................................. 33 ANEXO 2...................................................................................................... 54 Aspectos de Tecnologia Social nas experiências de Desenvolvimento Local............ 54 ANEXO 3...................................................................................................... 58 Lista de Participantes..................................................................................... 58 3 Apresentação Este relatório é resultado do seminário Tecnologia Social: Desenvolvimento Local, Participativo e Sustentável nos Municípios, promovido nos dias 24, 25 e 26 de maio de 2004, em São Paulo, pelo Instituto de Tecnologia Social (ITS), através de seu projeto Centro Brasileiro de Referência em Tecnologia Social (CBRTS). Trata-se do primeiro fruto que se colhe da parceria firmada entre o ITS e o Ministério da Ciência e Tecnologia, através de sua Secretaria para a Inclusão Social, registrada sob o Termo de Parceria nº 13.0002.00/03. O seminário contou com a participação de 42 representantes de entidades nãogovernamentais, associações comunitárias, poder público, universidades e institutos de pesquisa, todos eles interessados em conhecer e debater as três experiências de Desenvolvimento Local convidadas para o evento. Foram elas: o Banco Palmas, criado pela ASMOCONP - Associação dos Moradores do Conjunto Palmeiras, entidade que acumula 23 anos de vivência ligada aos movimentos populares do Conjunto Palmeiras, na periferia de Fortaleza, Ceará; a Organização de Pequenos Agricultores para Geração de Trabalho e Renda, iniciativa da APAEB - Associação de Pequenos Agricultores do Município de Valente, fundada em 1980, na luta por alternativas de convivência com o semi-árido baiano; e a Agenda 21 Local da Estância Turística de Ribeirão Pires, criada pela Prefeitura de Ribeirão Pires, como resultado do planejamento participativo que vem sendo implantado desde 1997. Feita a pesquisa inicial sobre as experiências citadas, num segundo momento, o debate e a partilha das informações e dos conhecimentos no espaço do seminário permitiram fortalecer o diálogo entre diversos atores da sociedade, tendo em vista a construção do conceito de Tecnologia Social, a partir das questões que o tema Desenvolvimento Local veio nos oferecer, como o primeiro tema escolhido de uma série de quatro eventos temáticos previstos no quadro de metas do CBRTS para 2004. Essa metodologia de trabalho reflete, afinal, o que entendemos por tecnologia social. Falar em tecnologia, atribuindo a ela o adjetivo social significa, a um só tempo, postular a ampliação do que se compreende como Ciência e Tecnologia, e reconhecer a necessidade de pensá-la a partir de critérios como democracia, justiça social e desenvolvimento humano. Importante, ainda, é sublinhar que tais critérios, que são, sobretudo, princípios e valores, não devem aparecer apenas nas discussões. Justamente por isso, a criação de fóruns, ambientes de discussão e grupos de trabalho torna-se meio favorável não só para elaborar o conceito de Tecnologia Social de maneira participativa, como também para consolidar uma cultura de Ciência Tecnologia e Inovação voltada ao desenvolvimento social. Entre as Linhas de Ação que dão corpo ao projeto CBRTS, duas delas visam o desenvolvimento do conceito de TS. Primeiramente, a Linha de Ação chamada Mapeamento Nacional de Tecnologias Sociais Produzidas e/ou Utilizadas por ONGs 4 consiste na pesquisa dos usos institucionais do termo, a partir de literatura científica e da caracterização qualitativa de experiências de organizações não-governamentais “mapeadas” que usam Tecnologias Sociais. Já a Linha de Ação chamada Encontros para Discussão e Sistematização de Conhecimentos sobre Tecnologia Social estabelece espaços para discutir e aprofundar estas experiências concretas que contém elementos de Tecnologia Social, produzindo, ao final desse processo, relatórios que organizam as reflexões realizadas durante os encontros. O seminário Tecnologia Social: Desenvolvimento Local, Participativo e Sustentável nos Municípios fez parte desta atividade, sendo o. Após a realização do encontro, iniciou-se o trabalho para sistematizar essa produção coletiva. O produto desta trajetória afina-se, assim, com o objetivo geral do CBRTS, que é identificar, conhecer, sistematizar e disseminar práticas de Tecnologia Social (TS), reunindo e organizando os conhecimentos produzidos em publicações como esta, que o ITS aqui apresenta. Estes documentos visam multiplicar os significados dos encontros e subsidiar a desejada continuidade do debate. O presente relatório foi criado para atender a estas expectativas. 5 RELATÓRIO DO SEMINÁRIO TECNOLOGIA SOCIAL: DESENVOLVIMENTO LOCAL, PARTICIPATIVO NOS MUNICÍPIOS E SUSTENTÁVEL Sistematizador e Relator: Cassio Luiz de França* 1. Introdução Desafio. Talvez esta seja a palavra mais adequada para iniciar este relatório. O desafio não está em escrever um conjunto de idéias de maneira articulada, mas sim em atingir as metas propostas pelo Instituto de Tecnologia Social (ITS) através de seu projeto Centro Brasileiro de Referência em Tecnologia Social (CBRTS). O projeto é extremamente inovador, criativo e fundamental, uma vez que são poucas as organizações da sociedade civil que têm como preocupação principal reconhecer o caráter tecnológico das intervenções sociais. No entanto, a dimensão do desafio torna seu enfrentamento uma tarefa complexa, que só pode se realizar em um período de médio e longo prazo – como o ITS se propõe a construir conhecimentos de maneira coletiva, não se deve esperar resultados imediatos: o seminário relatado aqui é o primeiro de quatro previstos para 2004. O início das ações que resultaram na criação do Centro vem dos anos 70, época da ditadura militar, quando um conjunto de ativistas políticos buscava estabelecer novas relações entre a sociedade e a tradicional concepção de ciência e tecnologia. Tratava-se de criar um espaço no qual a apropriação do sistema de C&T fosse realizada não somente por doutos cientistas, mas também por cidadãos comuns. Cerca de trinta anos depois, parte da história de democratização da tecnologia se materializa no CBRTS, projeto elaborado pelo Instituto de Tecnologia Social em parceira com a Secretaria para a Inclusão Social, do Ministério de Ciência e Tecnologia. Sua definição formal indica que o CBRTS é “um espaço de inclusão que promove e difunde a cultura da Ciência, Tecnologia e Inovação na sociedade civil organizada, a fim de permitir que o avanço do conhecimento e o acesso às informações contribuam para uma melhor qualidade de vida da população”. Uma das formas utilizadas pelo ITS, no âmbito do CBRTS, para promover e difundir a cultura da ciência, tecnologia e inovação é a promoção de seminários temáticos, no escopo do sub-projeto “Encontros para a discussão e sistematização de conhecimentos sobre Tecnologia Social”. O objetivo geral é promover um espaço de partilha e problematização de experiências das ONGs, especialmente no que se refere às estratégias desenvolvidas para a solução de problemas da população com a qual trabalham e constituir documentos – relatórios, filmes, cartilhas, arquivos eletrônicos, entre outros – sobre temas específicos, resultantes de encontros, eventos ou seminários promovidos pelo Instituto de Tecnologia Social, que possam subsidiar novas bases de diálogo entre Cassio Luiz de França é doutorando em Administração Pública e Política de Governo na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo e atualmente é diretor de projetos da Fundação Friedrich Ebert/ILDES. * 6 representantes da sociedade civil organizada, Poder Público e o setor privado, bem como a formulação de diretrizes, propostas e programas de “políticas públicas”. A primeira atividade desse tipo, intitulada “Desenvolvimento local, participativo e sustentável nos municípios”, ocorreu entre os dias 24 e 26 de maio de 2004, na cidade de São Paulo. 2. Desenvolvimento Local Como o próprio nome explicita, o primeiro seminário organizado pelo CBRTS proporcionou o debate sobre elementos de desenvolvimento local à luz da tecnologia social. Para tanto, foram selecionadas três experiências para serem apresentadas ao público presente, quais sejam, Banco Palmas, desenvolvida pela ASMOCONP Associação dos Moradores do Conjunto Palmeiras, na periferia de Fortaleza - Ceará, Organização de Pequenos Agricultores para Geração de Trabalho e Renda, iniciativa da APAEB - Associação de Pequenos Agricultores do Município de Valente – Bahia, e a Agenda 21 Local, experiência promovida pela Prefeitura de Ribeirão Pires, na região metropolitana de São Paulo. A seleção dessas experiências obedeceu à combinação de critérios relacionados ao conjunto de preocupações presentes no debate sobre desenvolvimento local1 e aos objetivos específicos do seminário. A seguir, apresentaremos algumas particularidades das experiências, assim como suas formas de se relacionar com três importantes dimensões do desenvolvimento local, quais sejam, o foco no combate à pobreza, na promoção da inclusão social e no combate às desigualdades sociais2. Cada uma dessas dimensões, que compõem a noção de desenvolvimento local, pressupõe uma maneira de entender a complexidade da realidade e, conseqüentemente, a elaboração de um conjunto de estratégias que se complementam no território. As três experiências apresentadas obedecem a estratégias de intervenção no local que vão além da busca por geração de emprego e renda, em geral, a dimensão mais imediata desse tipo de projeto social. Essas três experiências têm, também, a característica de promover a inclusão social (segunda dimensão na promoção do desenvolvimento). Em outras palavras, além de se proporem a combater a pobreza, evidenciada pela ausência de renda, de moradia e de serviços (critérios objetivos), buscase combater a exclusão social3. Neste último caso, os alcances da intervenção são ainda mais complexos, pois esta resulta da percepção da desfiliação, sendo caracterizada por As experiências apresentadas no seminário deveriam ter como objetivos o combate à pobreza e a inclusão social. Ao mesmo tempo, as intervenções sociais teriam que ser protagonizadas por atores locais, em consonância com as características do território e implementadas de maneira participativa. Do ponto de vista da longevidade das experiências, as mesmas não poderiam ser de curto prazo, uma vez que estávamos buscando iniciativas exitosas e o fator tempo é determinante para avaliar sua sustentabilidade. 2 Essas três dimensões do desenvolvimento local têm sido trabalhadas pela Fundação Friedrich Ebert/ILDES e pelo Instituto Pólis na pesquisa “Aspectos Econômicos das Experiências de Desenvolvimento Local”. 3 Para uma importante e oportuna reflexão sobre os alcances e os limites da noção de exclusão, bem como sobre seu uso por parte de agentes sociais que procuram compreender os processos que nela resultam, ver José de Souza Martins, “Reflexão crítica sobre o tema da ‘exclusão social’”, In: A sociedade vista do abismo – novos estudos sobre exclusão, pobreza e classes sociais: Petrópolis: Vozes, 2002. 1 7 dois eixos de exclusão: um econômico e outro social. No eixo econômico, há a manifestação da ausência dos direitos, dos serviços e dos acessos aos bens materiais; já no eixo social, há a definição do indivíduo pela negação (não empregado, ex-funcionário etc.), o que resulta, muitas vezes, em rompimento dos laços sociais e fragilização pessoal4. Assim, as experiências apresentadas ao público são intervenções que não se limitam a atenuar os efeitos da pobreza presentes nos territórios, mas também agregam a dimensão da inclusão social. A terceira dimensão para a promoção do desenvolvimento local é a necessária busca da diminuição das desigualdades locais de forma sustentável. Atender a essa dimensão requer desenvolver estratégias específicas que combatam a alta concentração de renda e fundiária, a desterritorialização econômica e que promovam o desenvolvimento endógeno articulado com aspectos regionais, nacionais e, por que não dizer, transnacionais. Esta última dimensão do desenvolvimento local (a diminuição das desigualdades econômicas) não está presente em todas as experiências apresentadas. De fato, exige um grau de articulação que, em muitos casos, não se encontra ao alcance do local. É por esse motivo que muitas experiências de desenvolvimento local têm, além dos desafios necessários para articular ações, limites técnicos e políticos para seus avanços5. No que se refere aos atores que promovem o desenvolvimento local, em geral, podemos destacar cinco grupos que possuem interesses comuns, a partir de óticas distintas. São eles, 1) organizações populares da própria comunidade (cooperativas, associações etc.) e de trabalhadores (centrais sindicais e sindicatos); 2) organizações não governamentais e instituições de cooperação nacional e internacional; 3) academia (conjunto de universidades, sobretudo atuando em suporte técnico – parte das chamadas incubadoras); 4) organizações públicas não estatais (agências de desenvolvimento, fóruns mesorregionais etc.); 5) governos locais e 6) entidades empresariais. A grande maioria desses atores pode ser encontrada nas experiências apresentadas no seminário. Um outro aspecto que deve ser considerado como fundamental para o desenvolvimento local é a sua característica territorial, pois o que estamos entendendo aqui por desenvolvimento local, seguramente, não está sendo definido por ações extra territoriais. Para explicar melhor este ponto, vamos tomar como exemplo o que aconteceu durante a década de 1990: o Brasil presenciou uma competição entre os Estados da federação absolutamente perversa. A chamada guerra fiscal explicita tudo que pode ser imaginado como sendo o oposto ao que consideramos ser desenvolvimento local. A instalação de fábricas de grandes montadoras, rodeadas de isenções fiscais, é um exemplo eloqüente de desrespeito às vontades dos atores locais, de enfraquecimento do Sônia Rocha, em seu livro Pobreza no Brasil: afinal, de que se trata? (Rio de Janeiro: FGV, 2003), contribui para o entendimento das diferentes implicações por não pertencer à sociedade dos incluídos. 5 A distinção entre limites e desafios para o desenvolvimento local faz parte das preocupações da pesquisa “Aspectos Econômicos das Experiências de Desenvolvimento Local” e pode ser inicialmente percebida em CALDAS, Eduardo; FRANÇA, Cassio Luiz de & VAZ, José Carlos (orgs.) (2004). 4 8 poder de atuação e cooperação do Estado, de falta de vinculação com o território local – pois qualquer estado é tratado como se fosse igual ao outro -, e a conseqüência disto é a desterritorialização do investimento local. Em outras palavras, mega projetos privados, ou mesmo públicos, não asseguram desenvolvimento para a localidade mediante os aspectos considerados característicos do desenvolvimento local. Por certo, em época de crise social, parece óbvio que a não valorização de mega empreendimentos nas localidades possa parecer insano, uma vez que seguramente esses projetos criarão empregos para a população local. Para não parecer contraditório, vale a ressalva de que criticar o modo com que esses empreendimentos se estabelecem no território não significa desvalorizar ações que gerem emprego. Ao contrário, o que se espera deixar claro é justamente o fato de que são muitas as estratégias existentes para gerar acumulação de riquezas nas localidades, mas nem todas devem ser chamadas pelo nome de desenvolvimento local. Isto é, nem todas partilham de preocupações que fundamentam o desenvolvimento local6. O fato das experiências que estão sendo consideradas como de desenvolvimento local se apoiarem numa visão que busca a sustentabilidade ambiental, cultural, econômica, política e social reforça o elemento da territorialidade. Ações extra território, que implementam mudanças bruscas no estilo de vida local, rompendo laços de sociabilidade, e que motivam a exploração dos recursos naturais de uma maneira não racional, não estão sendo vistas como ações de desenvolvimento local. Por outro lado, experiências que respeitam o ritmo natural das transformações socioculturais locais, assim como descentralizam processos políticos, para que os próprios atores locais possam tomar as decisões e se apropriar dos projetos, são as que trazem a dimensão da sustentabilidade social, cultural e política. A característica territorial do desenvolvimento local foi outro elemento levado em consideração para selecionar as três experiências. O tempo de implementação da experiência foi outro fator utilizado para selecionar as iniciativas apresentadas. A intervenção local deveria ter no mínimo oito anos, considerando o seu tempo de formulação e/ou implementação. Esse critério atende a uma observação empírica na qual o desenvolvimento local tem um tempo cronológico de maturação de ações e construção dos primeiros resultados que vai além do curto prazo. A análise crítica dos resultados oriundos de diversas intervenções locais advoga pela mesma tese: não existe desenvolvimento local em um período breve. Nesse sentido, tentamos evitar o convite a organizações que estavam iniciando o processo de intervenção territorial. Mesmo porque a intenção do seminário sempre foi a de detectar formas de organização e ingerência social que pudessem ser consideradas catalisadoras de transformações sociais. Dessa maneira, não faria sentido focar em experiências que ainda não pudessem comprovar os benefícios de seus esforços sociais. O fator tempo foi, desde o início, um elemento balizador das experiências que seriam estudadas. Desse modo, quando os termos que permeiam o debate parecem muito abrangentes, podendo ser utilizados igualmente por diversos atores e em diversos espaços, é preciso fazer esse esforço de explicitar a realidade nomeada pelas expressões que se está utilizando. Mais importante do que uma questão semântica, trata-se de tornar claro, no processo mesmo de enunciação, os valores e as idéias que sustentam o uso do termo. 6 9 Por fim, para enfrentar o desafio de debater desenvolvimento local à luz da tecnologia social, optou-se por selecionar três experiências que explicitassem dimensões territoriais distintas. A dimensão comunitária foi contemplada pela experiência do Banco Palmas, em Fortaleza. A dimensão regional é uma das características da experiência de Valente. E a intervenção em um município de médio porte, com características e problemas tipicamente urbanos foi alcançada ao apresentarmos a experiência de Ribeirão Pires. A variedade das formas de aproximação do território foi tida como um possível elemento de diversidade de estratégias por parte dos atores locais. A hipótese que estava por trás da variação da dimensão territorial era a de que poderíamos encontrar desafios e táticas distintas. Como poderá ser observado em outro trecho deste relatório, essa hipótese não foi totalmente comprovada pois, embora a dimensão geográfica não seja um fator desprezível, o desafio de seduzir pessoas e promover a transformação social está mais relacionado a fatores sociais do que a dimensões geográficas. De qualquer maneira, essa variedade de dimensões territoriais também nos serve para chamar a atenção de outro aspecto do local, qual seja, a sua própria definição. Desenvolvimento local não deve ser confundido com o desenvolvimento de um município exclusivamente. O local se define pelo reconhecimento dos atores sociais e agentes econômicos, o elemento geográfico influencia mas não o determina. Por essa razão, podemos defini-lo como sendo um bairro (experiência do Banco Palmas), partes de diversos municípios (região de Valente) e um município como um todo (Ribeirão Pires). 3. Tecnologia Social e Desenvolvimento Local Antes mesmo de entrar na leitura transversal das experiências apresentadas no seminário, deve-se ressaltar que o desenvolvimento local e a democratização da tecnologia são elementos que necessariamente fazem parte de uma mesma história e, por esse motivo, devem ser vistos como complementares. Uma vez que existe uma relação íntima entre promoção do desenvolvimento e apropriação da tecnologia, torna-se imperativa a rediscussão dessa relação de modo a beneficiar uma gama maior da população envolvida em processos de desenvolvimento local7. A ciência, a informação e os instrumentos tecnológicos devem ser distribuídos, circulados no nível local: somente dessa forma haverá a apropriação do saber pela De resto, vale a pena sublinhar que as relações entre tecnologia e desenvolvimento ocuparam a reflexão de uma importante geração de intelectuais que enfrentaram o desafio de pensar o enigma de nosso subdesenvolvimento. Celso Furtado, por exemplo, pensa o subdesenvolvimento como uma condição histórica, como um processo não apenas de caráter econômico, mas também social. Sua análise o leva a concluir que, a menos que importantes reformas fossem feitas, a economia latino-americana tenderia à estagnação. O padrão de acumulação capitalista presente nessas sociedades, na medida em que está sujeito a um arranjo diferente de fatores produtivos daquele que norteou o processo de industrialização nos países desenvolvidos, tenderia a se apoiar mais nos privilégios conseguidos junto ao Estado, na proteção comercial provocada pelo contexto de substituição de importações e na exploração da mão-de-obra (fator abundante) do que nas inovações tecnológicas. A longo prazo, até mesmo em razão das conseqüências sociais que tal padrão de acumulação provoca – subemprego estrutural, concentração de renda, instabilidade política etc. –, os obstáculos ao desenvolvimento tornam-se cada vez maiores. Desse modo, a questão da inovação tecnológica aparece como central para pensar as possibilidades de superação de tais obstáculos. 7 10 população. Este elemento, que será discutido por meio da tecnologia social, deve ser visto como condição sine qua non para a promoção de uma alternativa de desenvolvimento não subordinada. A ciência, a tecnologia e a inovação são importantes instrumentos para o combate à pobreza, para a promoção da inclusão social e, também, para tornar possível o fim das desigualdades sociais de forma sustentável. O esforço por construir pontes de diálogo entre desenvolvimento local e tecnologia social foi iniciado antes mesmo do seminário. O recorte metodológico apresentado pelos organizadores do seminário estipulou uma forma para o público se acercar ao tema. Foram criadas três categorias para a reflexão de tecnologia social, relacionadas a diferentes momentos da intervenção: indução de processos, sua sustentabilidade e a transformação de produtos e/ou serviços. Na realidade, a expectativa em relação a essas categorias era a de que servissem de parâmetros para a reflexão sobre tecnologia social. Não havia a pretensão de fundar um estilo de teorizar sobre a tecnologia social: a preocupação era a de ter o cuidado de iluminar diferentes etapas dos processos de transformação social. A premissa é de que existem saberes e habilidades distintas em cada uma das etapas. Em um primeiro momento – de indução -, o foco da experiência projeta-se na convocatória, no planejamento e no ganho de credibilidade frente aos demais atores da comunidade. O segundo momento – de sustentabilidade -, caracteriza-se por implementar ações, criar laços de confiança entre diferentes grupos sociais, atuar na resolução de eventuais conflitos, manter a credibilidade, criar lideranças e capacitar novos agentes para atuarem na experiência desenvolvida, entre outros aspectos não destacados. A terceira categoria relaciona-se ao processo de transformação de produtos e serviços. Nesse momento, há um foco na criação de alternativas tecnológicas criativas, de razoável custo financeiro e de amplo alcance social. De fato, ao organizar as idéias, percebe-se a validade do modelo de raciocínio proposto, embora, como não poderia ser diferente, existam desafios e habilidades que poderiam, com tranqüilidade, fazer parte de qualquer uma dessas categorias. Em outras palavras, a proposta de categorizar os elementos de tecnologia social segundo o momento em que se encontra a intervenção tem a sua validade analítica, mas, como toda simplificação da realidade, decorre em imperfeições. 4. O seminário 4.1. Os objetivos do seminário Objetivo geral O objetivo geral do curso foi o de congregar e refinar conhecimentos acerca da construção de processos coletivos e eficazes para o desenvolvimento socioeconômico e a inclusão social, por meio da exposição e do debate de experiências de desenvolvimento local. 11 Objetivos específicos A partir das experiências, pensou-se em refletir sobre: · tecnologias sociais de indução a processos de Desenvolvimento Local; · tecnologias sociais de sustentabilidade de processo de Desenvolvimento Local; · tecnologias sociais de transformação de produtos e/ou processos envolvidos em estratégias de Desenvolvimento Local; · constituição de um relatório, sistematizando as experiências expostas e os debates realizados no curso, que possa subsidiar as intervenções de atores que lidam com Desenvolvimento Local. A estrutura proposta para o seminário consistia de uma mesa-redonda de caráter político-institucional8 e mais quatro sessões técnicas de discussão sobre desenvolvimento local e tecnologia social. No que concerne às quatro sessões técnicas - objeto principal deste relatório -, foram apresentadas três experiências, todas comentadas por especialistas em desenvolvimento local e debatidas em plenária, além de uma última sessão para a sistematização coletiva de idéias9. Dessa forma, os participantes tiveram a oportunidade de escutar as experiências do Banco Palmas, da APAEB e de Ribeirão Pires serem apresentadas pelos próprios agentes indutores de transformações dessas localidades. Assim, para cada período de quatro horas (manhã e tarde dos dias 25 e 26 de maio de 2004), houve a apresentação de uma experiência, a apreciação crítica de um especialista no tema e perguntas e observações do público presente. Destaca-se o fato de que, ao contrário do que ocorre em muitos seminários, as experiências foram apresentadas com tempo suficiente para contemplar comentários e reações do público. Essa característica demonstra, sobretudo, o empenho que as organizadoras do seminário tiveram em, de fato, estabelecer um locus para a construção coletiva de idéias em torno de duas temáticas: desenvolvimento local e tecnologia social. Esse empenho se explica, principalmente, pela ausência de acúmulo de discussões sobre as relações entre tecnologia social e desenvolvimento local. Salvas algumas exceções, os especialistas em tecnologia tradicional não estão acostumados a discutir os aspectos sociais dos processos de transformações. Da mesma forma que o terceiro setor e os governos locais não dispõem de conhecimento específico para dialogar com os temas A mesa-redonda foi composta por: Rodrigo Rollemberg (Secretaria de Inclusão Social/Ministério da Ciência e Tecnologia); Jorge Nagle (Conselho Deliberativo do Instituto de Tecnologia Social); Ladislau Dowbor (Pontifícia Universidade Católica – São Paulo); Rogério Dardeau (Centro de Estatísticas Religiosas e Investigações Sociais); Ângela Schwengber (Coordenadora do Programa Oportunidade Solidária, Secretaria de Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade, Prefeitura Municipal de São Paulo). 8 A experiência do Banco Palmas foi apresentada por João Joaquim de Melo Neto Segundo (coordenador do Banco Palma$) e debatida por José Carlos Vaz (Instituto Pólis). A experiência da APAEB foi apresentada por Ismael Ferreira (diretor-executivo da APAEB) e debatida por Caio Silveira (RITS/Rede DLIS). A experiência do município de Ribeirão Pires foi apresentada por Luciano Roda (Secretário municipal de Desenvolvimento Sustentado, da Prefeitura Municipal de Ribeirão Pires) e debatida por Arilson Favareto (Programa de Ciências Ambientais – USP/ Plural Cooperativa). A sistematização e moderação do 9 debate foram feitas por Cassio Luiz de França. 12 tradicionalmente vinculados à tecnologia. Assim, tanto de um lado como de outro, existe a necessidade de promover um processo de aprendizado mútuo, no qual a tecnologia social possa ser vista como um elemento indutor das ações de desenvolvimento local. Daí a necessidade de contar com tempo suficiente para promover a maturação do debate. Outro elemento importante a destacar é a utilização do tema desenvolvimento local como meio para as discussões do tema tecnologia social. Apesar da riqueza das experiências de desenvolvimento local apresentadas e dos debates gerados, o tema principal do seminário sempre foi o da tecnologia social: ele foi o eixo em torno do qual se organizaram as experiências. Por uma questão metodológica, e para não enviesar a discussão segundo critérios de Tecnologia Social, que ainda estão em elaboração, as organizadoras optaram por privilegiar o debate segundo os termos comumente relacionados ao desenvolvimento local. Ao mesmo tempo, grande parte das informações relacionadas à tecnologia social vinha sendo registrada e armazenada pela equipe para o debate do último período do seminário, cuja proposta era criar um ambiente coletivo de discussão sobre o tema. Assim, ao utilizar o tema do desenvolvimento local como meio da discussão sobre tecnologia social, a ousadia do CBRTS pôde ser vista, uma vez que esse debate ainda não havia sido realizado ou, ao menos, amplamente realizado. Evidentemente, havia um risco dessa intenção não se concretizar, quer dizer, de não ser possível iniciar a discussão sobre tecnologia social a partir das experiências apresentadas. Mas esse era um risco calculado, já que havia um método, formulado com antecedência, que construía possíveis pontes entre os dois temas. O esforço de organizar as conexões entre os dois temas foi iniciado entre o primeiro e segundo dia, de forma não pública, pela equipe organizadora e efetivada na tarde do último dia de seminário, com a participação ativa do público presente. 4.2. A metodologia utilizada O método utilizado para sistematizar as informações e promover os debates foi o metaplan. Uma de suas características é a visualização das idéias dos participantes da reunião em cartelas, também chamadas tarjetas. A hipótese, comprovada a cada reunião, é a de que visualizar o que está sendo dito cria um centro de atenção, organiza o processo de discussão e aglutina informações relevantes para o trabalho. Além disso, a partir do momento em que se delimita o espaço de dissertação das idéias, necessariamente o participante da atividade deverá focar o argumento principal, estimulando, dessa maneira, sua capacidade de síntese. Ao mesmo tempo, ao “materializar” as idéias, busca-se o respeito à igualdade de opinião, pois todas as idéias presentes nas tarjetas que foram fixadas nos painéis têm o mesmo peso e validade. Por fim, ao possibilitar que os participantes emitam a sua 13 opinião, sem necessariamente se expor aos demais presentes, acredita-se que esse método acabe por estimular e priorizar a participação social. Como foi apontado anteriormente, a estrutura proposta para o seminário consistia de uma mesa-redonda e mais quatro sessões técnicas de discussão de desenvolvimento local e tecnologia social. Das quatro sessões técnicas, uma foi dedicada à sistematização coletiva de idéias. Nesse momento, mais do que em qualquer outro, a discussão foi conduzida com o auxílio da metodologia já explicada. Durante as três sessões, tomando as apresentações das experiências, os comentários dos especialistas e as perguntas da plenária, a equipe responsável pela organização do seminário dedicou-se a registrar as principais idéias mencionadas. De posse desse material, buscou-se agrupar as questões por afinidade temática, como uma forma de organizar o processo de discussão que viria a seguir. Dessa maneira, a quarta e última sessão do seminário foi dedicada a validar o material que já havia sido escrito, completar com novas informações a partir da vivência de cada uma das pessoas presentes e reagrupar coletivamente as idéias escritas nas tarjetas. A intenção desse momento foi a de possibilitar que todo participante trouxesse e registrasse sua própria experiência e legitimar coletivamente uma proposta de leitura de tecnologia social à luz do desenvolvimento local. O resultado obtido atingiu as intenções da equipe que organizava o seminário. A plenária se envolveu profundamente na discussão, trazendo novos elementos para pensar processos de transformação social. Outro fator que indica a predisposição da plenária em construir as conclusões do seminário de forma coletiva foi a readequação da proposta de agrupamento das idéias: durante o debate, foram sugeridas modificações no que havia sido originalmente elaborado pela equipe organizadora do seminário. O posicionamento diante do quadro previamente organizado deve ser mencionado, pois é indicador do envolvimento dos participantes, da efetiva qualidade democrática das discussões e do processo coletivo de formulação de propostas - características altamente louváveis a projetos que se propõem a construir conceitos de forma coletiva. Por outro lado, como também era previsto, algumas questões relevantes para pensar a promoção do desenvolvimento local não foram debatidas. Não pela ausência de conhecimento da plenária presente no seminário, mas principalmente pela limitação de tempo para sistematizar as idéias de maneira coletiva10. Dentre os temas que poderão ser tratados em momentos futuros se encontram: a busca pela complementaridade da cadeia produtiva do local como forma de promoção de desenvolvimento em outros territórios, a necessidade de adequar a infra-estrutura local às expectativas logísticas dos prováveis mercados consumidores, o aperfeiçoamento da rede de educação formal para catalisar o processo de compreensão da realidade pelos futuros dirigentes do projeto de Apesar da ausência de temas relevantes para o debate de desenvolvimento local, deve-se atentar para o fato de que este foi apenas o primeiro de uma série de seminários que o CBRTS promoverá. Assim, tendo em vista que estamos relatando apenas dois dias de discussões de um processo que seguirá durante o ano de 2004, nada mais natural que compreender que, em perspectiva, as lacunas observadas tendem a ser preenchidas. 10 14 desenvolvimento local, a valorização e criação de vocações econômicas para o território, a articulação entre as ações de economia solidária e o plano de desenvolvimento local, entre outros11. É verdade que alguns desses temas foram citados indiretamente no debate, mas por limitação de tempo não puderam ser exaustivamente explorados. Em consideração a isto, o relato da produção coletiva que será realizada a seguir se limitará ao que foi debatido durante o seminário. Em momento algum será realizada uma análise crítica sobre a ausência de algum tema que também é relevante ao desenvolvimento local. Não era a intenção do seminário criar a visão mais ampla possível dos temas que cercam o desenvolvimento local e tampouco a plenária foi convidada para explicitar todo o seu conhecimento sobre o assunto. O debate teve as experiências apresentadas como principal referência; além disso, como mencionado, o objetivo era identificar e destacar os elementos de Tecnologia Social presentes nas mesmas. Certamente, isso determinou o curso das discussões. 4.3. As experiências de desenvolvimento local A descrição das três experiências apresentadas durante o seminário (APAEB Associação dos Pequenos Agricultores do Município de Valente: Organização dos pequenos agricultores para geração de trabalho e renda - produção e beneficiamento do Sisal; ASMOCONP - Associação dos Moradores do Conjunto Palmeiras: Banco Palma$ - o banco popular do Conjunto Palmeiras; Prefeitura da Estância Turística de Ribeirão Pires Elaboração da Agenda 21 Local da Estância Turística de Ribeirão Pires) se encontram em anexo a esse relatório. 4.4. O resultado da sistematização coletiva Como foi apontado anteriormente, havia uma proposta de explicitar as diferentes manifestações de tecnologia social apresentadas em experiências de desenvolvimento local. O convite feito aos painelistas referia-se a apresentar a experiência de desenvolvimento focando nos processos vividos pelos atores locais. Portanto, muito mais do que mostrar os resultados de suas experiências, buscava-se entender o processo de transformação social. A compreensão desse processo passava por identificar a sua gênese, a forma como a experiência adquiriu sustentabilidade política, econômica e social e entender como os atores locais utilizaram a tecnologia para promover a transformação de produtos e serviços de seus interesses. Apresentada a proposta de categorizar a tecnologia social por meio desses eixos de discussão, houve o momento de validá-la junto à plenária. Pode-se dizer que o público presente foi além dos três eixos de discussão apresentados (gênese, sustentabilidade e 11 Para explorar parte dos temas mencionados, ver Cunca Bocayuva (2001) e Meyer-Stamer (2004). 15 transformação de produtos). Na verdade, novos eixos foram criados para organizar as preocupações e os temas contidos nos processos de transformação social. Rigorosamente, muitos deles fariam parte de um dos três eixos sugeridos. Entretanto, esses temas, por terem sido destacados pelo público, obtiveram tratamentos semelhantes às categorias propostas originalmente. Dentre os temas que se aproximam da gênese e da sustentabilidade dos processos, mas que foram objeto de análise em separado, podem ser mencionados: liderança, gestão ciência e organizacional, tecnologia e comunicação, conhecimento. capacitação, Além dessas identidade social, categorias, foram trabalhados também: diretrizes, fatores externos, aspectos jurídicos e políticas públicas. Diretrizes O relato da produção coletiva se inicia com o conjunto de indicações que guiam uma intervenção no território. São as diretrizes que pautam os objetivos, os resultados esperados e as estratégias a serem consideradas. Estabelecer os princípios que devem ser norteadores das ações, pré-define a forma com pretendemos agir no território. As diretrizes apontadas a seguir têm como fonte os três projetos de desenvolvimento local relatados, a vivência pessoal dos participantes e os debates promovidos durante o seminário. Portanto, não são fruto do “tipo ideal” em relação ao que se pretende para uma sociedade igualitária e democrática. As diretrizes revelam uma leitura de baixo para cima, na qual o experimentado gera conceito que por sua vez contribui para guiar as ações no território. Esse foi o pressuposto do debate, criar momentos de sistematização do fluxo ação–reflexão–ação, tão presente nas intervenções sociais. Uma das diretrizes mencionadas refere-se à valorização da política enquanto elemento de transformação social. Vista por alguns como uma arte, a política evoca a possibilidade de efetivar alianças. Essa é uma característica bastante particular das intervenções de desenvolvimento local: assume-se a construção de parcerias como condição necessária para a atuação no território. Na verdade, a valorização da política pode ser lida como negação dos modelos de desenvolvimento exógeno, em que, muitas vezes, os protagonistas das intervenções não fazem parte do território e, conseqüentemente, não são percebidos como articuladores locais. Em um modelo de desenvolvimento exógeno, a política está afastada do nível local. As alianças são construídas a partir de uma perspectiva de cima para baixo, de modo que o local responde a um modelo idealizado por atores que não pertencem àquele território. Ao mesmo tempo, outra leitura legítima da valorização da política no nível local pode ser feita ao relativizar a predominância da tecnocracia na definição de políticas públicas. A tecnocracia tem sido questionada enquanto motor do desenvolvimento, ao observar que o território não responde imediatamente às previsões realizadas em 16 laboratórios. A técnica, desassociada das demandas políticas locais, tende a construir soluções para demandas inexistentes. Ao contrário desse modelo, o desenvolvimento local demonstra ações a partir do território. Isto é, o local não está respondendo a um modelo exógeno e sim, está criando o seu próprio modelo, por meio de intervenções sistêmicas12. É então, por exemplo, que se percebe o impacto do desenvolvimento urbano no desenvolvimento da economia local. Ou ainda, nota-se que crescimento econômico não tem implicação direta no desenvolvimento humano. Já o crescimento econômico, combinado com o aumento do consumo, tende a gerar emprego e renda. Esses indicativos representam uma forma de ilustrar a leitura do território a partir de uma visão sistêmica. Trata-se da apropriação do espaço geográfico pelos seus próprios moradores. O local deixa de ser pautado por políticas centralizadoras, de cima para baixo, para também ser o protagonista do desenvolvimento. Essa alteração redefine a modo como o território é pensado e sentido: explicita-se tanto a valorização do território como o empoderamento dos atores locais. Num determinado momento do seminário, essa característica foi apresentada textualmente: o local deve ser o promotor do desenvolvimento. A naturalidade como essa diretriz é mencionada revela um fato inovador. Do ponto de vista do rearranjo federativo brasileiro, iniciado na década de 1970 por meio dos movimentos e governos locais e assegurado na Constituição de 1988, ter o local como promotor do desenvolvimento é, sem dúvida, um marco na mudança de cultura administrativa dos atores locais. Esse novo cenário distancia-se ainda mais de um modelo tradicional e exógeno de desenvolvimento ao explicitar a necessidade de estabelecer parceria mediante um novo ethos de conduta. Ações locais não estimulam o modelo predatório de desenvolvimento, mas sim o da colaboração entre parceiros: confiança, interesse comum e cooperação são termos freqüentemente utilizados para exemplificar o que ocorre no território. Seguramente, posturas autoritárias, competitivas e fraudulentas seguem ocorrendo em negociações comerciais, entretanto não se tem isso como regra. Ao contrário, busca-se integrar ações que gerem aspectos positivos para além do objetivo imediato. Gerar emprego e renda é sim um dos principais objetivos das intervenções locais, mas não a qualquer custo. Mais do que isso, o benefício de alguns não é entendido como reflexo do 12 A estratégia de desenvolvimento local e regional não visa isolar o município e a região do resto do estado, do país e do mundo. Pelo contrário, visa a integração autônoma das realidades produtivas locais e regionais com essas outras esferas. Assim, por intervenções sistêmicas estamos entendendo, por um lado, o fato de que o local é parte de um todo e, por outro, de que apesar do elemento econômico ser fundamental neste tipo de desenvolvimento, ele não é o único. A compreensão sistêmica do desenvolvimento insere os elementos sociais, urbanísticos, políticos, ambientais e culturais como forma de promoção da melhoria da qualidade de vida da população local. 17 declínio de outros. Nesse caso, o fato inovador do desenvolvimento local é ter como diretriz o jogo de soma positivo ocupando o espaço de um jogo de soma a zero13. É certo que, em um ambiente político de correlação de forças, a tendência é observar que o empoderamento de alguns atores resulte no enfraquecimento de forças tradicionais. De qualquer maneira, deve-se esclarecer que a perda de alguns não é o objetivo central das ações sistêmicas de desenvolvimento local. Por exemplo, uma de suas diretrizes entende que a cooperação com agentes externos ao território baseia-se no entendimento comum. Uma vez mais, esse tipo de afirmação revela a promoção do ethos da cooperação. Entende-se que o local deva estar conectado a outros espaços geográficos, porém sem promover o desequilíbrio de outros sistemas. Parcerias com agentes externos devem respeitar saberes, culturas e realidades distintas. Esse fato revela um importante desafio das experiências de desenvolvimento local: encontrar o ponto de equilíbrio entre a promoção de um desenvolvimento endógeno, respeitando a cultura e os desejos locais, e os interesses de agentes externos, assim como do ambiente macroeconômico do país. A existência de laços de solidariedade e a organização da produção pelos próprios trabalhadores, enquanto co-proprietários de seus negócios e responsáveis pela comercialização de seus produtos, também podem constituir um diferencial em relação às empresas organizadas em moldes tradicionais, na medida em que pode gerar a percepção de que o trabalhador em uma empresa autogestionária, tende a ter maior comprometimento com a produção e com a comercialização. Segundo um paradigma clássico de pensamento, em que se valoriza apenas a razão técnica, o discurso competente, a racionalidade e a produtividade, as diversas mudanças de posturas e mentalidades apontadas acima não são compreendidas como relevantes etc. A não valorização da subjetividade é o elemento que impossibilita a importância do complexo e do contraditório14. Em geral, desenvolvimento, quantitativos agências sistemas e qualitativos de cooperação financeiros como nacional entre condição outros para e internacional, atores exigem estabelecimento bancos de indicadores de parceria e, conseqüentemente, liberação de crédito. Na maioria dos casos, busca-se valorizar a razão técnica instrumental15. Entretanto, as experiências de desenvolvimento local manifestam um grau de riqueza que vai além da leitura monocromática da realidade. Essas Para obter mais informações sobre a construção de redes locais mediante o ethos da cooperação ver: SILVEIRA, Caio Márcio. “Miradas, métodos, redes: o desenvolvimento local em curso”. In: SILVEIRA, Caio & REIS, Liliane da Costa (orgs.). Desenvolvimento Local: Dinâmica e Estratégias: Rio de Janeiro: Rede DLIS, 2001. 14 Segundo Badia e Fernandez (2004), a contraposição entre o paradigma clássico e o complexo pode ser apresentada da seguinte forma: “(...) no paradigma clássico, regido pelo espírito do capitalismo, temos o entendimento unidimensional do homem produtivo, movido por uma racionalidade prática. Trata-se de uma visão desencantada do mundo, de homo sapiens. Essa perspectiva reduz o homem a uma de suas características, empobrecendo-o. Por oposição a isso, o paradigma da complexidade observa um homem multidimencional. Põe lado a lado o racional, o sensível, o afetivo, o vincular e o lúdico”. 15 O conflito entre essas duas maneiras distintas de compreender o significado das intervenções sociais apareceu de modo muito claro na contraposição dos discursos de representantes de ONGs e de instituições financiadoras: enquanto os primeiros pleiteavam pelo direito a um planejamento mais flexível, modificável segundo os resultados de uma contínua avaliação, os órgãos financiadores traziam a todo o tempo sua inquietação sobre como avaliar e traduzir resultados qualitativos em indicadores. 13 18 experiências adotam o contexto, a intersetorialidade e a visão sistêmica como elementos fundamentais para a sua valorização e entendimento. Não é por acaso que as organizações que exigem indicadores técnicos racionais não criam canais de diálogo com as experiências locais16. Na realidade, para entender e valorizar o que se passa no território existe a necessidade de adotar outro paradigma interpretativo. A adoção do paradigma complexo para interpretar o conjunto de dimensões presentes nas intervenções locais é condição fundamental para elevar as experiências de desenvolvimento local ao patamar merecido. Entender que a garantia dos projetos é o próprio processo de transformação social e que esse contém seus indicadores é uma tarefa para instituições e pessoas que se permitem a enxergar o mundo de uma forma menos cartesiana e mais complexa. As experiências de desenvolvimento local necessitam ser compreendidas enquanto um sistema complexo e não reduzível a um modelo clássico, técnico racional. Por certo, o quadro construído até então não esgota o conjunto de indicações para se implementar a termo projetos sociais, entretanto, representa fidedignamente as intenções levantadas durante o seminário “Desenvolvimento local, participativo e sustentável nos municípios”. 1º eixo - gênese Além de suas diretrizes, a implementação de projetos de desenvolvimento local ocorre segundo características particulares de cada fase de atuação. Como foram destacados anteriormente, as experiências foram observadas de acordo com a sua gênese, sustentabilidade e forma de promover a transformação de produtos e serviços locais. Em outras palavras, interessa ao Centro Brasileiro de Referência em Tecnologia Social iluminar os processos de elaboração (gênese) e de implementação de projetos sociais (sustentabilidade e avaliação). A promoção de um diálogo mais estreito entre tecnologia social e tecnologia tradicional será objeto de uma reflexão mais profunda por meio dos processos de transformação de produtos e serviços, que a rigor também fazem parte da fase inicial de implementação. No que se refere à gênese dos processos de desenvolvimento local, o respeito à cultura local, isto é, ao estilo de vida da comunidade, se traduz como sendo um dos principais elementos balizadores. A liderança revela seu compromisso com o projeto quando demonstra saber ouvir as demandas dos demais participantes. Assim, elaboração do projeto deve ter como base os desejos dos grupos envolvidos, o que por sua vez requer, além de uma predisposição para ouvir, a existência de dinâmicas que facilitem o envolvimento dos diversos grupos, e que todos tenham pesos semelhantes. Portanto, a urgência de realizar ações promotoras de desenvolvimento não deve mitigar o tempo de maturação das idéias e tampouco as várias manifestações Ironicamente, como será descrito em outra passagem deste relatório, são as intervenções melhor estruturadas, que já atingiram com muitos esforços níveis regulares de produção, as que dialogam com a atual estrutura do Estado. 16 19 culturais. Por exemplo, caso os atores locais tenham o hábito de reunir-se apenas em determinadas horas do dia, não se deve incentivar a mudança de rotinas sem antes gozar de sua confiança e consentimento. O tempo real do processo será aquele que atende ao estilo de vida de determinada população. Isso é o que se espera do desenvolvimento endógeno, um tipo de intervenção no território que tenha como norte projetos territorializados, mediante um eixo econômico pré-definido, os quais respeitem o estilo de vida da população local. Em outras palavras, tanto o objeto a ser beneficiado como a cultura política local devem ser considerados como elementos balizadores das ações locais. Perceber o ator coletivo como protagonista das ações locais deve servir de base desde o início, pois o desenvolvimento local não está sendo entendido como aquele promovido por um ou dois atores da localidade. Muito mais do que isso, é condição necessária desse tipo de intervenção constituir uma agenda pública com responsabilidades compartilhadas. Entretanto, sabe-se que para isso é importante estar presente um uma comunidade que esteja minimamente organizada. Nesse cenário, explicita-se um ciclo difícil de identificar o ponto de origem, na medida em que somente é possível constituir uma agenda pública com responsabilidades compartilhadas se o ator coletivo for protagonista da ação, o que, por sua vez, exige que a comunidade esteja organizada. Mas, por outro lado, assumir responsabilidade frente a outros parceiros, também pode levar a processos de organização comunitária. Enfim, o coletivo, junto com os governos locais, deve ser visto como um dos principais atores do desenvolvimento local. A indagação que surge é: como seduzir o coletivo para que este assuma um papel de protagonista do desenvolvimento local? A sutileza presente na idéia de convencer o coletivo para aderir a um projeto de desenvolvimento local e ao mesmo tempo indicar que o protagonismo será dele reflete um movimento dialético do desenvolvimento local. Por certo, se o ator é protagonista ele não precisa ser seduzido. Por outro lado, deve-se considerar que o desenvolvimento local é um processo em construção no território nacional. Ao contrário do que ocorre em alguns países europeus, como por exemplo na Itália, o associativismo não é a forma predominante de produção brasileira17. Assim, ao mesmo tempo em que se pretende ter o coletivo como protagonista, esta ainda não é uma ocorrência natural, por isso deve-se pensar em conquistar o outro para compartilhar de uma idéia que será positiva pra todos. Por meio das experiências apresentadas e dos debates realizados no seminário, percebe-se claramente o papel que a identidade local pode desempenhar nesse momento. Para gerar ações coletivas, as experiências de desenvolvimento local têm como ponto de partida a conexão do indivíduo consigo mesmo e com o seu território. As experiências do Banco Palmas, da APAEB e de Ribeirão Pires demonstram a necessidade de trabalhar a auto-estima dos cidadãos e de criar a identidade da população com o local. Isto é, seja do ponto de vista individual ou coletivo, o resgate dos indivíduos Para uma leitura sobre a tradição italiana ver Robert Putnam, Making Democracy Work. Civic Traditions in Modern Italy: Princeton: Princeton University Press, 1993. 17 20 por sua história e pelo território tem sido visto como uma característica marcante dos projetos de desenvolvimento local. Acredita-se que a ação coletiva deriva do reconhecimento do indivíduo de suas raízes locais. Para tanto, é necessário criar a possibilidade para que os atores conheçam a história do local por meio da produção de dados sobre sua realidade e da criação de vínculos entre os próprios indivíduos. Isso demonstra a necessidade de haver ações concretas para lidar com a elevação da autoestima dos atores locais e com a valorização do território. Na sua gênese, mas também durante todo o processo, devem-se criar simbologias positivas para o local onde se atua, a ponto de provocar sensações de bem-estar na população em relação ao seu território. Nesse momento, é possível perceber a complexidade do desafio que projetos desse tipo se propõem a enfrentar: busca-se provocar mudanças na cultura política dos indivíduos, ao passo que esses se reconheçam como agentes coletivos da transformação social, ao mesmo tempo em que se procura elaborar projetos a partir de uma agenda compartilhada. Dito de outra maneira, a complexidade desses projetos sociais está em lidar concomitantemente com elementos subjetivos e objetivos. Ao mesmo tempo em que se criam condições favoráveis para que os indivíduos se apropriem da sua história, se reconheçam como parte integrante de um mesmo sistema e se apoderem enquanto agentes da transformação social, objetivamente espera-se que uma agenda política compartilhada entre os diferentes atores seja construída, baseada num pacto social de confiança e capaz de produzir resultados (de curto, médio e longo prazo). Uma das formas encontradas para criar identidade entre as pessoas e ao mesmo tempo colaborar na formulação do planejamento estratégico do projeto tem sido a promoção de diagnósticos da situação do local, realizados de maneira participativa. Não se espera a construção de diagnóstico de cima para baixo, por meio da ação de consultores externos ou qualquer outro órgão independente. O diagnóstico do local é tanto mais legítimo quanto mais participativo for. A identificação das potencialidades locais e regionais deve ser realizada por meio do envolvimento de grupos organizados. Como já foi mencionado, uma das maneiras mais eficazes dos cidadãos se apropriarem de seu território é por meio do real conhecimento do local onde vivem. Com a posse do diagnóstico elaborado de maneira participativa, inicia-se o planejamento estratégico propriamente dito. As observações realizadas durante o seminário atentam para a importância do planejamento de longo prazo. A concretização dessa intenção vai de encontro à tradição nacional de não planejar para o longo prazo, ou ainda, de planejar e não executar o planejado. Os projetos apresentados enfatizaram que, apesar das mudanças de rumo durante a implementação, sempre houve um norte: uma visão de futuro que serve como referência para todos que fazem parte do projeto. É no planejamento que metas são concordadas, prioridades são definidas e tarefas são distribuídas. Em meio à urgência de trazer resultados para situações adversas, por vezes não há aplicação efetiva para atingi-los. As ações se apresentam de maneiras dispersas, pulverizadas e sem uma hierarquia de prioridades. O planejamento estratégico, 21 quando bem formulado, traz a possibilidade de ordenar passos e concentrar esforços. Além disso, a depender da metodologia utilizada, o plano estratégico sacramenta ações integradas de diversos tipos18. A realização do planejamento pressupõe o seu acompanhamento. Por ser formulado em um ambiente em que outros atores também estão planejando, é natural que parte do planejado tenha que ser revisto no tempo, durante o seu monitoramento, mesmo porque muitos projetos surgem no processo de negociação e implementação das ações. O equívoco se encontra quando não se tem a tranqüilidade de perceber que planejamentos são situacionais e, em função disso, estão sujeito a alterações durante sua implementação. Planejar é o momento que precede e preside a ação. Entretanto, como são muitas as variáveis que fogem à governabilidade dos planejadores, deve-se trabalhar com um espaço de tempo que admita a ocorrência de imprevistos. O importante é manter o rumo do processo e não se deixar ser conduzido pelos projetos alheios, a não ser em caso de prévio consentimento. 2º eixo - sustentabilidade As características destacadas durante a gênese do processo de desenvolvimento local foram: o respeito à cultura local, consideração referente à identidade local, ter o ator coletivo como protagonista das ações, realizar diagnósticos participativos e valorizar a elaboração de planejamento estratégico de longo prazo. No tocante às fases de implementação e avaliação do projeto (sustentabilidade), muitas dessas características permanecem, pois são estruturantes, e, ao mesmo tempo, outros elementos são agregados ao perfil das intervenções locais. Durante o seminário pôde ser comprovado que duas características marcantes do desenvolvimento de projetos locais são criatividade e ousadia. É provável que essas sejam as que melhor sinalizam a apropriação do território pelos atores locais. Como foi registrado, o reconhecimento do território pelos moradores é condição necessária para a elaboração de projetos de desenvolvimento local, uma vez que derivam de tal reconhecimento a apropriação desse território e a percepção de uma identidade comum com o outro que está ao seu lado, permitindo assim a construção de ações coletivas. Na medida em que as ações são executadas com criatividade e ousadia, percebe-se o empoderamento dos atores locais. Ter a postura de agente da transformação social, materializa a intenção do querer ser, apresentada na gênese do processo, e demonstra um outro patamar de relacionamento com o local. Agir com criatividade e ousadia sinaliza a ausência de constrangimentos, pode-se dizer que esses atores estão à vontade para construir sua própria história. Essa apropriação do projeto (criatividade e ousadia) manifesta-se, por exemplo, por meio da criação de novos modelos de tomada de decisão. Uma vez que uma das Planejamento, nesse sentido, também pode funcionar como uma metodologia de indução – de pactos e construção de referências comuns. 18 22 premissas a serem mantidas é ter o ator coletivo como protagonista do processo, os projetos apresentados durante o seminário alertavam para a necessidade de evitar a criação de distanciamento entre quem conduz e o público-alvo do projeto. O dilema entre ter agilidade no gerenciamento e manter a participação coletiva dos atores locais na tomada de decisão permanece. Para dar conta disso , têm sido criados instrumentos de gestão que possibilitem encontrar a forma adequada para o envolvimento da população e o gerenciamento do próprio projeto. Alguns exemplos práticos citados foram a existência de plenárias populares, acionadas em momentos específicos, mas de grande importância para o projeto; a criação de um estatuto da solidariedade entre os participantes e a formatação de conselhos administrativos e políticos constituídos por pequenos produtores locais19. Destaca-se, nesses três casos, a preocupação em estabelecer que o projeto seja fruto da ação coletiva sem gerar imobilismo na tomada de decisão. Não existe fórmula para encontrar o ponto de equilíbrio entre o despotismo esclarecido e o assembleísmo, este é o momento no qual o modelo de gestão deverá ser criativo e respeitar a cultura local. Criar mecanismos para o envolvimento da população na tomada de decisão sobre os rumos do projeto contribui para a manutenção da participação social. Entretanto, outras formas também devem ser criadas para manter a mobilização de diferentes atores. O momento de implementação do projeto é chave para conquistar novas adesões. Durante a apresentação das três experiências, foi possível notar o caráter mobilizador que os resultados efetivos podem trazer, pois em todas as explanações observou-se o cuidado que a implementação dos projetos sociais precisam ter com o time dos atores locais. Pensar a transformação da sociedade mobiliza pessoas até um determinado tempo, depois, é conveniente que os resultados passem a ser os elementos mobilizadores. Poder usufruir das conquistas projetadas e assumi-las como fruto de ações coletivas revigoram o espírito e a vontade de participar dos atores locais. Nesse sentido, gerar resultados é um dos principais elementos agregador de pessoas e é vital para entender processos de transformação social. No mesmo sentido, deve ficar claro que atingir resultados tem nexo direto com o planejamento realizado e a implementação do plano de ação. A relação entre esses diferentes momentos (planejamento – resultado – mobilização) constrói um sistema. Atingir resultado é mais factível quando se define com precisão o que se espera, qual o seu desafio, o seu objetivo. Quando o objetivo do projeto está pouco preciso, as ações tendem a ser dispersas. Conseqüentemente, os resultados serão mais difíceis de serem visualizados, o que implicará em uma menor mobilização dos atores locais. O que está por trás da valorização dos resultados é o cuidado com a definição de objetivos, prazos e responsáveis. A clareza em relação ao projeto mobiliza esforços, permite perceber a necessidade de contatar instituições que não pertencem ao cotidiano daquele local e definir para onde as energias dos atores podem e devem ser 19 Para a descrição dessas formas de tomada de decisão, ver a experiência da APAEB. 23 canalizadas, mesmo que no decorrer do processo as estratégias de ação sejam redefinidas. A relação entre resultado, planejamento e mobilização também é notada quando os projetos apresentados revelam um movimento permanente de avaliação de suas ações e de desenvolvimento de instrumentos adequados para acompanhamento das ações pactuadas. Isso quer dizer que para ter resultados é necessário acompanhar a implementação de projetos e saber aferir as suas conquistas sociais. O importante é ter claro que resultados não são frutos de geração espontânea: se hoje é possível entender que resultados mobilizam pessoas, também é preciso esclarecer que tais resultados se devem a um processo estratégico de intervenção nos territórios. Tão importante quanto ter finalidades efetivas é saber como mostrá-las, uma vez que nem todas são materializáveis. Como foi mencionado nas diretrizes das experiências de desenvolvimento local, muitas vezes, a garantia do projeto é o próprio processo. Por esse motivo, a leitura dos resultados não pode dialogar somente com o paradigma clássico e cartesiano de estruturação do pensamento. A transformação social passa pela criação de novas formas de relação entre as pessoas. A partir dessa constatação, explicitar isso como um resultado é também um desafio para a comunidade. Este desafio pode ser lido em duas etapas, seja porque devem-se desenvolver indicadores que também revelem algo sobre as conquistas não materiais, seja porque deve-se encontrar a forma mais adequada de transmitir isso para a comunidade como um todo. Para essa segunda etapa, a comunicação se apresenta com estratégica. Tanto no nível interno como na forma de diálogo com setores externos à comunidade, formas de comunicação podem se converter em estratégias altamente mobilizadoras. Por exemplo, rádios comunitárias têm se convertido em um espaço privilegiado para transmissão de informação de interesse local. É uma forma de democratizar a informação por meio do protagonismo da própria população local. De maneira semelhante, são muitas as maneiras de transmitir notícias para a população, o limite para garantir a comunicação interna é a criatividade humana. Jornais de bairro, mural, apresentações teatrais, fotonovelas são algumas das possibilidades levantadas para criar um vínculo informativo e de comunicação entre as conquistas e desafios existentes e a comunidade do local. Por outro lado, as estratégias são outras quando se pensa em atingir novos atores. Todas as experiências destacaram a importância de estabelecer contatos sistemáticos com formadores de opinião e com outros setores específicos para ampliar o campo de governabilidade do projeto. Os meios de comunicação de alcance regional e nacional podem ser táticos para disseminar limites e conquistas da comunidade. De todas as formas, a comunidade terá que desenvolver diversos modos para atingir segmentos sociais diferenciados. A depender do grupo de interesse a ser mobilizado - governo, empresários da indústria, do comércio etc., - os protagonistas do processo de desenvolvimento deverão acionar 24 estratégias distintas de transmissão de informação. A comunicação aparece como elemento fundamental para as experiências de desenvolvimento local, por ser tanto uma forma de ver como de ser visto por outros segmentos sociais. Foi mencionado anteriormente que intervenções territorializadas baseiam-se no ethos da cooperação, não predatório. Entretanto, é no próprio território que outros interesses se manifestam. Cabe às experiências de desenvolvimento local administrar a luta pela hegemonia dos conceitos entre os próprios membros do projeto e entre esses e outras instituições. Nesse sentido, percebe-se que o território é também o campo do conflito, onde surge o contraditório a explicitar dúvidas e interesses distintos. Justamente nesse momento, cria-se a possibilidade de articulação ou desarticulação do movimento. Faz parte do processo de implantação e sustentabilidade de projetos de desenvolvimento local a realização de parcerias com organizações que não partilham dos mesmos interesses imediatos. As experiências mostram que a melhor forma de lidar com outras ideologias é a autonomia. Uma vez que o local está conectado, ao menos em potencial, com o regional, o nacional e o supranacional, os agentes locais devem implantar uma postura de conversação autônoma com as outras organizações. Ao mesmo tempo em que parcerias são fundamentais para catalisar os processos de transformação social, e por isso não podem ser desprezadas, há de se buscar o entendimento mútuo entre as partes. Mais do que transparecer a obviedade dessa característica das intervenções no território, é importante salientar que a busca por esse equilíbrio de interesses não é imediato, e por isso também faz parte de um processo de aprendizagem. Trabalhar o contraditório entre o desenvolvimento endógeno e a cooperação externa requer especial atenção entre as partes. Por vezes, possibilidades de cooperação são apresentadas desde que algumas condições sejam satisfeitas. Resta saber até que ponto é possível comprometer-se sem abrir mão dos ideais e dos objetivos do projeto. Nesse sentido, a autonomia deve ser vista como o elemento norteador das parcerias. O gerenciamento e percepção de todas as características mencionadas passam pela existência de lideranças e pela formação de recursos humanos. Faz parte das experiências apresentadas no seminário a preocupação central com os processos de capacitação das pessoas da comunidade. Em diversos momentos foi relatada a necessidade de capacitar jovens para assumir a liderança futura de processos. Insistentemente, essa foi uma das características mais realçada para possibilitar a sustentabilidade do projeto: a capacitação das gerações futuras é a estratégia principal para cultivar o interesse dos jovens na manutenção do projeto. Apesar dessa capacitação juvenil estar sendo entendida como ação estratégica prioritária, outros segmentos são fundamentais para aprofundar a gestão adequada dos projetos de desenvolvimento local, quais sejam, os próprios agentes de transformação do momento e os setores não organizados da sociedade. Em todos os casos, a capacitação 25 tem sido vista como um processo de longo prazo, a qual deve conter atividades econômicas e educativas e partilhar do linguajar e da cultura local. Este último aspecto é chave para seguir com o processo de construção de identidade local: a capacitação deve se referir à realidade do local, de tal maneira a criar vínculos entre os indivíduos e o espaço que se pretende desenvolver. A linguagem é um dos elementos que cria o vínculo entre a pessoa e o local, por esse motivo, os termos utilizados devem ser aqueles conhecidos no cotidiano da comunidade. Como foi assinalado na fase de elaboração do planejamento, o longo prazo também deve ser a referência para o processo de capacitação, pois projetos de desenvolvimento local são, necessariamente, projetos de médio e longo prazo. Em um processo de intervenção social são muitos os papéis desempenhados pelos atores locais. Para cada um deles é preciso desenvolver habilidades distintas. É por meio do mapeamento das diferentes etapas que os atores poderão ser capacitados segundo as necessidades do projeto. Articular parceria, facilitar processos, ser especialista em determinada matéria, gerenciar o projeto e negociar a produção, entre outras atividades, requerem habilidades distintas e cabe à própria comunidade definir qual o foco do seu programa de capacitação. De todas as maneiras, é recomendável que o horizonte seja o de longo prazo e que os jovens sejam constantemente motivados para fazerem parte de tais s processos de capacitação. 3º eixo – transformação de produtos e serviços O conceito de desenvolvimento local e o entendimento de quais são seus limites e potencialidades ainda tem sido matéria de discussão entre muitos especialistas. Entretanto, independente da querela, existem ao menos dois consensos: para realizar projetos sociais é necessário ter acesso a credito e assistência técnica. No que se refere ao último aspecto, a discussão entre desenvolvimento local e ciência, tecnologia e informação se faz bastante presente. Uma vez que podemos entender tecnologia como o conjunto de conhecimentos, científico ou não, aplicados à determinado ramo de atividade, a questão que se coloca é como propiciar que o conhecimento contribua para a agregação de valor dos produtos e serviços originados em empreendimentos populares? A resposta a essa pergunta torna-se ainda mais complexa ao cruzarmos as características dos empreendimentos de desenvolvimento local com a forma tradicional de maturação de projetos de ciência e tecnologia. No primeiro caso, espera-se estabelecer uma relação na qual o saber esteja disseminado entre diversos atores; o conhecimento seja gerado por pesquisadores populares, aptos a coletar, sistematizar e analisar os dados gerados; a realidade local paute o projeto a ser desenvolvido, com modesto volume de recurso financeiro e o foco posto no conhecimento popular. No caso da ciência e tecnologia mais tradicional, o conhecimento científico é o motor do desenvolvimento de projetos. Conseqüentemente, esse conhecimento é concentrado nas mãos de poucas 26 pessoas, requer instrumentos específicos para seguir sua análise e não necessariamente está vinculado a um território exclusivo. Tais características distanciam a comunicação imediata entre a demanda que os empreendimentos sociais fazem e a oferta presente em centros de pesquisa, a começar pelos instrumentos existentes para avaliar os projetos. A leitura clássica e tradicional da realidade exige dados quantitativos para estudar o progresso de determinado projeto; por outro lado, as experiências de desenvolvimento local reclamam por indicadores que possam captar o avanço social em sua totalidade, que até sejam quantitativos, mas que na mesma medida valorizem os aspectos qualitativos do processo. Dessa maneira, percebe-se a necessidade de romper com as estruturas clássicas de avaliação e introduzir métodos que dialoguem diretamente com o território analisado. Não são poucos os casos que podem demonstrar anos de engajamento social, mas são cobrados por ter garantias físicas para o recebimento de financiamento, como foi o caso relatado pela experiência do Banco Palmas. O diálogo entre as ciências sociais e as ciências duras é um campo a ser explorado com mais dedicação: a tecnologia social poderá promover a conexão entre as expectativas e a linguagem de ambas. Um dos temas que necessita ser trabalhado é a forma como projetos sociais podem ser credenciados e legitimados perante os órgãos de cooperação nacional e internacional. Como estabelecer parâmetros de referência entre o que ocorre no local e as exigências de financiamento e de atendimento em ciência e tecnologia? A aproximação entre o laboratório e o território se dará na medida em que as referências de um campo sirvam ao outro. Esse encontro de referências e interesses deve ser realizado de maneira sistemática, uma vez que, tendo em vista a especificidade de cada local, muitas metodologias podem ser reaplicadas, mas dificilmente serão objeto de mera reprodução. 5. Limites e Desafios de Desenvolvimento Local e Tecnologia Social A proposta do seminário “Desenvolvimento local, participativo e sustentável nos municípios” foi registrar e difundir a forma como projetos desse tipo lidam e se utilizam do conhecimento gerado na própria comunidade. Por essa razão, os temas referentes às intervenções locais foram relatados em suas diversas fases de desenvolvimento: em cada uma das etapas é possível detectar preocupações específicas ou temas que são matérias de minucioso acompanhamento. Soluções tecnológicas estão presentes em todos esses temas, ou seja, o conhecimento está sendo aplicado em cada uma dessas fases. Soluções criativas foram geradas pela comunidade para as características levantadas (algumas em estágio satisfatório, outras ainda a serem aprimoradas). Entretanto, o alcance das experiências de desenvolvimento local ainda é bastante reduzido. Tendo como parâmetro as dimensões do território nacional, tanto do ponto de vista quantitativo como qualitativo, os impactos socioeconômicos das experiências exitosas não atingem uma proporção significativa. O quadro apresentado no Brasil ilustra 27 um conjunto de atores locais protagonizando transformações em suas comunidades, porém enfrentando desafios e limites muitas vezes intransponíveis. Em outras palavras, para lidar com alguns temas estruturais para o desenvolvimento local, o conjunto de conhecimento, científico ou não, tampouco tem tido a oportunidade de ser aplicado. Muitos desses temas podem ser divididos em duas categorias: desafios e limites para o desenvolvimento local. O que diferencia essas categorias é a grau de governabilidade que os atores locais têm para enfrentar as questões correspondentes. Desafios estão sob a governabilidade dos atores locais, enquanto os limites dependem também de atores presentes em outras esferas de poder. Por certo, essa distinção entre desafios e limites perde a sua aderência quando se examina em profundidade alguns temas, uma vez que a linha que divide o que é de governabilidade de um e de outros é bastante tênue. De qualquer maneira, a distinção será mantida para efeitos explicativos. Um dos principais desafios para as experiências de desenvolvimento local é lidar com a competição comercial. Como já foi alertado, os projetos baseados no território propõem-se a agir de acordo com o ethos da cooperação. A forma de fazer política e de promover o desenvolvimento não pactua com um estilo predatório de desenvolvimento. Entretanto, a estrutura socioprodutiva brasileira é capitalista e, conseqüentemente, a imensa maioria de suas relações comerciais visa à maximização do lucro. O desenvolvimento local tem que lidar com um ambiente comercial que não se pauta pelos mesmos valores e princípios de sua comunidade. Como conseqüência direta desse confronto de ideais, é possível perceber que as relações solidárias nem sempre estão presente em todas as fases do processo. A convivência com esse fato tem sido assimilada com o entendimento de que a produção capitalista sustenta as ações sociais. Embora essa interpretação seja constatada na realidade vivida no território, ainda não é possível afirmar que a convivência de práticas comerciais competitivas com princípios de solidariedade já tenha encontrado o seu ponto de equilíbrio. Por exemplo, a remuneração justa do produtor e do prestador de serviços, por vezes, pode esbarrar na necessidade do empreendimento ser competitivo no mercado convencional. Em uma relação ética e solidária os produtores devem receber a importância compatível com as suas necessidades, de acordo com a quantidade de horas trabalhadas. Entretanto, nem sempre os empreendimentos sociais têm condições de serem éticos e solidários à altura do desejado pelos seus sócios. A competição comercial segue como objeto de desafio ao se traçar a estratégia de sobrevivência dos empreendimentos locais. A indagação sobre a possibilidade dos projetos locais competirem com grandes empreendimentos revela outra dimensão que deve ser estudada. Responder a essa pergunta de maneira adequada significaria considerar todas as implicações em termos de escala, logísticas, condições fitossanitárias, demanda, entre tantas outras vertentes. Mas essas dimensões fogem à intenção desse relatório, uma vez que não foram temas de debate durante o seminário. 28 O que se pretende destacar é o papel a ser desempenhado por uma postura consciente no ato de consumir. Independente do mercado consumidor que se pretende atingir, a educação para o consumo responsável é central para constituir um ambiente de valorização de formas éticas e solidárias de produção. Experiências de desenvolvimento local não prescindem de uma relação diferenciada entre quem produz e quem consome. Percebe-se hoje a valorização do consumo responsável, mas ainda não se tem claro quais são as formas mais adequadas para trabalhar esse tema. De qualquer maneira, o entendimento de que consumir é um ato político, não somente econômico, já demonstra o início de uma nova fase de inserção do indivíduo em seu território. O desafio não se encerra no ato de produzir de maneira ética e solidária; nesse momento, o ato de consumir de forma responsável também faz parte desse sistema. A sistematização das informações presentes nas experiências de desenvolvimento local dá transparência para o fato de que, apesar das intenções dos atores locais, a intersetorialidade de ações ainda é um tema a ser induzido na implementação dos projetos. Faz parte do perfil dos projetos de desenvolvimento local equilibrar as dimensões ambiental, social e econômica para alavancar a transformação social. No entanto, a administração de competências de atores de áreas tão distintas torna-se um desafio a mais para projetos desse tipo. O desenvolvimento não é realizado visando apenas a acumulação de capital. Ao lado disso, é necessário pensar como converter essa renda em benefício para a comunidade; além disso devemos garantir que o meio ambiente possa servir às gerações futuras da mesma forma que serve a nossa. Esse conjunto de interfaces requer a participação de diferentes saberes e, conseqüentemente, uma forma de administrar que contemple essas intersetorialidades. Em um país que não tem política pública de incentivo e apoio ao desenvolvimento local, é de se esperar que as conquistas sociais geradas por meio de intervenções programadas no território sejam resultado de esforços e persistências diárias. De fato, ao pensar que os projetos implementados em nível local passam por fases distintas de amadurecimento e que cada uma dessas fases necessita de estruturas que se tornam progressivamente mais complexas, a probabilidade dos empreendimentos locais atingirem por si só as últimas fases é bastante difícil. A ausência de apoio e infra-estrutura impedem que haja progresso no desenvolvimento local. Segundo a lógica de progresso das experiências de desenvolvimento local apresentada pelo Banco Palmas, existem quatro fases de maturação dos processos produtivos no território: assistencial, subsistência, sustentável e de produção em escala. A diferença entre cada uma delas manifesta-se na capacidade dos empreendedores locais sustentarem o seu próprio empreendimento. A fase de assistência refere-se ao momento no qual recursos externos e, sobretudo, a relação com o mercado consumidor se dá por meio de um forte apoio de atores que não fazem parte diretamente do projeto em desenvolvimento. Seja por facilitar o acesso ao mercado, seja por fornecer crédito produtivo, esse projeto não tem estrutura técnica e material para se manter sem o apoio 29 contínuo de outros atores sociais. A fase de subsistência demonstra uma maior autonomia dos empreendimentos, embora com baixa taxa interna de retorno, mas ainda limitados pela ausência de capital de giro, investimento produtivo e ativo fixo. Na terceira fase, a de sustentabilidade, o projeto alcança uma taxa interna de retorno mais significativa, tem condição de iniciar o investimento em maquinário e amplia o mercado consumidor, entretanto a debilidade para atrair investimento segue crônica. A última fase declara um alto grau de autonomia do projeto: o mercado consumidor a atingir deixa de ser o de nível local e regional, existe demanda em nível nacional e, ainda mais importante, existe capacidade de atendimento da demanda, isto é, a produção desse investimento deixou de ser artesanal, mas atingiu também o patamar em escala. Para atravessar a cada uma dessas fases, os projetos de desenvolvimento local necessitariam de tempo, esforço e, principalmente, infra-estrutura e apoio do Estado. Entretanto, o Estado brasileiro não tem políticas voltadas a dar apoio para os empreendimentos locais superarem cada uma dessas fases. Sobretudo quando se projeta uma transferência das fases de assistência para subsistência, o apoio do Estado nacional é pulverizado, com exigências pouco plausíveis de serem atendidas. Já para as fases de sustentabilidade e escala, o Estado se faz um pouco mais presente, com estruturas como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, a Caixa Econômica Federal, a Embrapa, os programas do Ministério de Desenvolvimento Agrário entre outras instituições. A ironia está justamente no fato de que, no momento em que os projetos mais carecem de apoio técnico e financeiro, o Estado não dispõe de instrumentos de diálogo. Como foi ressaltado no seminário, parecer haver um “muro invisível que separa o mundo da subsistência do mundo da sustentabilidade”. A ausência de uma política nacional de desenvolvimento local demonstra a falta de habilidade do Estado em lidar com empreendimentos populares. Quando ele finalmente se apresenta, o projeto já conseguiu, com muito esforço, criar um mínimo de condições de sobrevivência e, conseqüentemente, deixou de ser hiper carente de infra-estrutura. Mas como o Estado poderia criar um canal permanente de comunicação entre a sua estrutura e o território? Devemos reconhecer que são inúmeras as tentativas de fazer com que a estrutura centralizada sirva ao nível local. Entretanto, junto à elaboração de políticas públicas de acesso ao crédito, democratização do saber, configuração de novos arranjos institucionais de alcance mesorregional e revisão da legislação nos três níveis da federação20, existe uma concepção anterior que deve ser revista. Saber qual o tipo de desenvolvimento que se espera para esse país e se predispor a pensar uma nova relação com esses projetos territorializados são condições fundamentais para rever o papel de Estado. São muitos os exemplos de programas de apoio aos pequenos empreendimentos que reproduzem a lógica tradicional de leitura do território, a qual não satisfaz o território. Os indicadores quantitativos e qualitativos devem fazer uma Como por exemplo, rever o processo para exportação, permitir que a lei de proteção aos mananciais contribua para a implantação de projetos de desenvolvimento sustentável, canalizar o poder de compras públicas para os projetos locais de desenvolvimento, criar fundos setoriais para o desenvolvimento local e ações do terceiro setor, rever as condições para registrar marcas e patentes entre outros. 20 30 leitura global do empreendimento. Isto é, existe uma visão de mundo que pode contribuir para a adequação das políticas públicas aos empreendimentos locais: uma visão que considere as múltiplas dimensões das intervenções locais, em que as estatísticas são apenas parte da avaliação do empreendimento. Sem uma alteração de concepção, os programas nacionais poderão colaborar com empreendimentos locais, mas sempre a partir de uma ótica burocrática e descolada do território. 6. Conclusão É passível de se esperar que a tecnologia social possa contribuir bastante com a criação de uma leitura adequada do território e, conseqüentemente, construir canais de comunicação entre a estrutura do Estado e as ações que ocorrem no local. Essa construção pode ser dada em duas dimensões. A primeira seria explorar, refinar e publicizar as formas como projetos de desenvolvimento local transformam o território. Neste momento, espera-se que o CBRTS contribua para detectar o que está por trás de um processo de desenvolvimento local, isto é, construir o conhecimento do que é próprio desse estilo de fazer política, quais são as técnicas que vêm sendo exploradas com sucesso e propagá-las. Por outro lado, além de detectar os temas presentes nos processos internos de desenvolvimento local, pode-se esperar que a tecnologia social conheça e dissemine a maneira pela qual cada tema tem sido trabalhado. Em outras palavras, trata-se de uma leitura de forma e de conteúdo, ou ainda uma leitura que considere o conjunto de temas presentes nos processos de desenvolvimento local, mas também a particularidade de cada um deles. Assim, a tecnologia social poderá explicitar os elementos que fazem parte dos processos e explorar como se concretizam. Por exemplo, além de perceber que a criação de vínculos entre o indivíduo e o local é fundamental (o que), para entender os processos de desenvolvimento territorial, a tecnologia social poderá destacar as formas a partir das quais esses vínculos têm sido estabelecidos (como). Esses dois passos (detectar o que e trabalhar o como) poderão constituir uma valiosa contribuição para as organizações da sociedade civil e do Estado. O mesmo raciocínio é valido para os outros temas destacados neste relatório, por exemplo, comunicação, formas democráticas de tomada de decisão, planejamento e capacitação de longo prazo, indicadores sociais etc. O que está sendo proposto é que a tecnologia social posicione-se quanto à forma de lidar com cada um desses elementos; isto é, quais são as ferramentas/metodologias existentes para planejar no longo prazo, criar vínculos locais, gerar comunicação interna, incluir a base em processos de tomada de decisão? Quais são os indicadores quantitativos e qualitativos dos processos sociais? Para cada um desses elementos existem tecnologias que poderão se tornar púbicas. Não seria o caso de criar, uma vez que as tecnologias já existem em seus territórios, mas de sistematizar e disseminar esse conhecimento. 31 A segunda contribuição que a tecnologia social pode dar aos processos de desenvolvimento local deriva da contribuição anterior. Uma vez tendo compreendido o que ocorre no território, será mais razoável construir a aproximação entre as estruturas formais do Estado e o desenvolvimento local. Por exemplo, apesar de não ter sido formalizada, já existe uma agenda para a construção de uma plataforma nacional para o desenvolvimento local. Alguns dos tópicos dessa agenda são compras públicas, novos arranjos institucionais, linha de crédito que favoreça aos pequenos empreendimentos, indicadores locais de desenvolvimento etc., mas o que deveria conter, efetivamente, como conteúdo de cada um desses temas? Não são raras as vezes em que as demandas sociais manifestam-se por meio de palavras de ordem. Será saudável ter mais um centro de referência buscando dar conteúdo às demandas sociais. Além de saber que um determinado tema deve ser trabalhado (por exemplo, novas instituições políticoadministrativas), deve-se refletir de que forma a intervenção do Estado deve ser dada. É nesse sentido que se pode imaginar outra forma de contribuição do CBRTS: servir como espaço de referência para a obtenção de informações precisas sobre demandas e soluções que possibilitem o aprimoramento de projetos de desenvolvimento local. A soma dessas duas dimensões concretiza uma agenda técnica e política para o Centro Brasileiro de Referência em Tecnologia Social. Resta reconhecer que se trata de um projeto de médio e longo prazo, que não pode prescindir nem da cuidadosa reflexão, nem do constante diálogo com outros atores sócio-institucionais. As questões levantadas no primeiro seminário consistem somente numa primeira aproximação com o conceito da TS e, como se procurou evidenciar, trata-se de uma reflexão que valoriza o conhecimento presente nos processos de transformação social e eleva a sua complexidade e impactos sociais ao mesmo patamar pretendido pelos processos criados nos laboratórios científicos e nas universidades. Dessa maneira, a discussão sobre tecnologia social, além de explicitar o conhecimento originado em processos sociais, valoriza a necessidade de combinar o saber popular e científico no sentido de catalisar processos de transformação social. 32 Indicações Bibliográficas ALVES, Mario Moreira. A força do povo: democracia participativa em Lajes. São Paulo: Editora Brasiliense, 1980. BADIA, Denis Domeneghetti e FERNANDEZ, Juan Carlos Aneiros). “Intersetorialidade e polarização paradigmática” in GARIBE, Roberto e CAPUCCI, Paulo. Gestão Local nos territórios da cidade. São Paulo Secretaria Municipal de Subprefeituras de São Paulo e Mídia Alternativa. BRITO, Maria do Socorro & BRICEÑO, Mario. Proposta para a introdução da perspectiva de gênero no processo de desenvolvimento local. Projeto BNDES – Desenvolvimento local cooperação técnica do Pnud, 2001. CALDAS, Eduardo; FRANÇA, Cassio Luiz de & VAZ, José Carlos (orgs.). Aspectos econômicos - um olhar sobre a articulação de atores. São Paulo: Pólis, 2004 (Publicações Pólis 46). COCCO, Giuseppe & GALVÃO, Alexander Patêz. “Sobre a ‘tropicalização’ do desenvolvimento local: algumas reflexões a respeito do modelo italiano” in SILVEIRA, Caio & REIS, Liliane da Costa (orgs.). Desenvolvimento Local: Dinâmica e Estratégias Rio de Janeiro Rede DLIS. CUNCA BOCAYUVA, Pedro Cláudio. “Desenvolvimento local e redes socioprodutivas” in SILVEIRA, Caio & REIS, Liliane da Costa (orgs.). Desenvolvimento Local: Dinâmica e Estratégias Rio de Janeiro Rede DLIS.DENARDI, Reni; HENDERIKX, Dino de Castilhos & BIANCHINI, Valter. Fatores que afetam o desenvolvimento local em pequenos municípios do Estado do Paraná. DOWBOR, Ladislau. “Redes de informação e gestão local”. In: SILVEIRA, Caio & REIS, Liliane da Costa (orgs.). Desenvolvimento Local: Dinâmica e Estratégias Rio de Janeiro Rede DLIS, 2001.FRANÇA, Cassio Luiz de; VAZ, José Carlos & SILVA, Ivan Prado (orgs.). Aspectos econômicos de experiências em desenvolvimento local. São Paulo: Instituto Pólis, (Publicações Pólis, 40), 2002. FRANÇA, Cássio Luiz, VAZ, José Carlos, SILVA, Ivan Prado (org.). Aspectos econômicos de experiências em dese32nvolvimento local. São Paulo: Instituto Pólis, 2002 (Publicações Pólis, 40). FURTADO, Celso. Subdesenvolvimento e Estagnação na América Latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. GARIBE, Roberto e CAPUCCI, Paulo. Gestão Local nos territórios da cidade. São Paulo: Secretaria Municipal de Subprefeituras de São Paulo e Mídia Alternativa, 2004. GRAZIANO, José; MARC, Jean & BIANCHINI, Valter. O Brasil rural precisa de uma estratégia de desenvolvimento. Textos para Discussão n.º 2, Brasília: Ministério do Desenvolvimento Agrário / Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável / Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural, 2001. MARTINS, José de Souza. “Reflexão crítica sobre o tema da ‘exclusão social’”. In: A sociedade vista do abismo – novos estudos sobre exclusão, pobreza e classes sociais. Petrópolis: Vozes, 2002. MEYER-STAMER, Jörg. Estratégias de desenvolvimento local e regional: clusters, política de localização e competitividade sistêmica. São Paulo: Fundação Friedrich Ebert, 2001. Policy Paper, 28. _________. Por que o desenvolvimento local é tão difícil, e o que podemos fazer para torná-lo mais eficaz? São Paulo: Fundação Friedrich Ebert, junho de 2004. Análise e Propostas, n.º 31. VEIGA, José Eli da & outros. O Brasil rural precisa de uma estratégia de desenvolvimento. Série Textos para Discussão, n.º 1, Brasília: Convênio FIPE – IICA (MDA/CNDRS/NEAD), 2001. 33 OLIVEIRA, Francisco de.. “Aproximações ao enigma: o que quer dizer desenvolvimento local?” São Paulo: Instituto Pólis, Programa Gestão Pública e Cidadania / EAESP/FGV, 2001. PUTNAM, Robert.. Making Democracy Work. Civic Traditions in Modern Italy. Princeton: Princeton University Press, 1993. ROCHA, Sônia. Pobreza no Brasil: afinal, de que se trata? Rio de Janeiro: Editora FGV, 2003. SANTOS, Boaventura de Sousa (org.) Produzir para viver: os caminhos da produção não capitalista. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. SILVEIRA, Caio Márcio. “Miradas, métodos, redes: o desenvolvimento local em curso”. 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Duque de Caxias, 78, Centro, CEP: 48.890-000, Valente-BA. homepage: www.apaeb.com.br Breve Histórico: A APAEB foi fundada em 1980 e nasceu como resultado dos trabalhos de Comunidades Eclesiais de Base da Igreja Católica que, ainda no regime militar, reuniam os pequenos agricultores para refletir sobre sua realidade. Foi fundada como entidade civil sem fins lucrativos para dar respostas ao problema da comercialização dos produtos agrícolas. Feitas as primeiras experiências de armazenamento e comercialização, a APAEB voltou-se para a busca de alternativas de convivência com o semi-árido, numa perspectiva de desenvolvimento sustentado regional (site da organização: www.apaeb.com.br). A APAEB é administrada por um conselho de 21 membros. As decisões e diretrizes são discutidas e votadas em Assembléia Geral, que se reúne todo mês (Lima, 2001). A APAEB desenvolve uma diversidade de atividades, que vão desde aquelas relacionadas à produção e ao beneficiamento de sisal, até atividades educativas relacionadas com a Escola Família Agrícola, a implantação de uma mini-usina de leite, a formação de uma cooperativa de crédito, a instalação de um Posto de Vendas e atividades relacionadas à implantação de um curtume. A área da atuação da APAEB é a chamada região sisaleira, no semi-árido do Estado da Bahia. Nessa região a extração de fibra de sisal é a principal atividade econômica e a que mais ocupa mão de obra (Oliveira, 2002). Segundo Oliveira (2002): "O semi-árido ocupa a região central do Estado, representando mais de 60% da superfície territorial. Abrangendo 258 municípios, com uma população estimada em cerca de 5,6 milhões de habitantes. Nessa região, o relevo exerce um papel significativo na distribuição das chuvas; o regime pluviométrico caracteriza-se por precipitações irregulares no decorrer dos meses e dos anos, ocorrendo dessa forma períodos cíclicos de seca. Essas irregularidades climáticas geram, periodicamente, crises econômicas e sociais resultantes da baixa produtividade decorrente do sistema agrícola vigente. A estrutura fundiária inadequada, onde a concentração das terras é característica principal, acarreta uma massa de trabalhadores sem terra, posseiros e subempregados. Os 34 baixos padrões sócio-culturais, onde o analfabetismo ainda é intenso, limitam a melhoria dos processos produtivos e organização das comunidades" (p.10). Principal financiador da organização e da experiência: No início a APAEB dependia basicamente de financiamentos externos e de doações (principalmente da Holanda, Alemanha, EUA e Bélgica). Atualmente, a fonte mais importante de recursos é a própria fábrica de tapetes e carpetes de sisal. A Experiência 1. Caracteristicas gerais: - Tempo de existência: O trabalho e as discussões sobre o aperfeiçoamento da produção, armazenamento e comercialização da fibra de sisal tiveram espaço logo no período de formação da APAEB, nos anos 80. - Bases conceituais/ metodológicas/ princípios: Agricultura sustentável, baseado em Armani apud Oliveira (2002): ● Sustentabilidade dos sistemas agroecológicos e do sistema de produção. ● Sustentabilidade das intervenções. ● Sustentabilidade das organizações promotoras. Ainda, segundo Oliveira (2002): "Trata-se de um conceito novo, complexo, cercado de controvérsias e ainda carente de muitos debates. Mas poder-se-ia concluir que a agricultura é sustentável quando ela consegue ser, ao mesmo tempo, ecologicamente correta, economicamente viável e socialmente justa, de modo que as comunidades e os produtores sejam capazes de assimilar seus princípios básicos e ajustar as condições da agricultura que eles praticam" (p. 17). Para compreender o trabalho da APAEB, também é necessário entender da noção de extensão rural, caracterizada, segundo Oliveira (2002) pelos seguintes fatores: ● Identificação dos técnicos com a realidade social e cultural dos pequenos produtores rurais; ● Metodologia apropriada; ● Transferência de tecnologias para a promoção do desenvolvimento rural sustentado realizada com alguns cuidados, como ● Capacitação adequada; ● A busca de políticas públicas. 35 2. Introdução: O trabalho e as discussões sobre o aperfeiçoamento da produção, o armazenamento e a comercialização da fibra de sisal iniciaram-se com a instalação da “Batedeira Comunitária” para beneficiamento da fibra do sisal produzido pelos pequenos produtores. Segundo Oliveira (2002): "Os pequenos produtores rurais da região do sisal herdaram os conhecimentos e técnicas difundidas pelos colonizadores europeus, repassados oralmente de pai para filho, de geração para geração. Esses conhecimentos e técnicas não levam em conta os cuidados básicos para a preservação do meio ambiente, para o aproveitamento racional da propriedade, enfim, para a questão da sustentabilidade. Os erros e fracassos do processo produtivo sempre foram atribuídos às condições naturais ou fruto da vontade de Deus. Assim, somente a partir da intervenção externa capaz de gerar um novo aprendizado por parte dos agricultores, tanto nas suas relações com o seu meio como nas técnicas de produção, pode-se pensar num projeto sustentável para a agricultura familiar" (p. 15). As condições de trabalho dos sisaleiros era ruim, além da produção de sisal em si, perigosa. Além de dificuldades relacionadas ao modo de produção, também haviam dificuldades na comercialização. Os pequenos produtores de sisal vendiam sua produção muito barato aos atravessadores que, por sua vez, ganhavam os lucros na venda para empresas privadas na capital. No início do processo de organização do grupo que deu origem à APAEB houve resistência dos grandes fazendeiros e políticos locais por causa de interesses econômicos. Além disso, houve dificuldades em trabalhar com os pequenos fazendeiros, que não visualizavam os benefícios que a associação poderia resultar para eles. Ao mesmo tempo, até gestores públicos olhavam com desconfiança o surgimento e o funcionamento de uma associação independente. 3. Objetivos: Promover o desenvolvimento econômico e social sustentável, visando a melhoria da qualidade de vida do pequeno produtor rural da região sisaleira. 4. Atores envolvidos: Pequenos produtores rurais, suas famílias, APAEB, poder público, organismos internacionais. 5. Funcionamento da experiência: De maneira geral, o processo de organização passou pelas seguintes etapas: 1) organização da rede comunitária; 2) articulação junto ao governo do Estado para obtenção de uma licença para exportação para submissão de propostas de financiamento no exterior e; 3) articulação com organizações da sociedade civil internacionais para submissão das propostas de financiamento. 36 No início era trabalhadores rurais que se encontravam para discutir soluções econômicas e questões políticas e sociais, com orientação do MOC (Movimento de Ação Comunitária) de Feira de Santana, na Bahia. Paralelamente a esse processo, foi implantado o Posto de Vendas, local de comercialização de farinha, feijão, milho e outros produtos dos agricultores, além de outros produtos de primeira necessidade. Esse Posto de Venda garantia a compra de produtos mais baratos e o escoamento da produção do agricultor. O segundo momento de discussão foi acerca da produção do sisal e então, a implantação de uma central comunitária de beneficiamento, chamada de "batedeira" de sisal. Resumidamente, os desafios, nesse momento eram a conscientização dos pequenos produtores em relação à qualidade, a falta de um canal de comercialização aberto (o que ainda mantinha a dependência em relação aos intermediários), a oposição dos grandes compradores e a falta de quantidade de produção suficiente para viabilizar economicamente o projeto. Uma série desses desafios foi superada pela intervenção do então governador Waldir Pires, apesar de que outros desafios ainda permaneciam. A proposta passou a ser, então, interferir na cadeia produtiva como um todo, da produção à industrialização. Nesse momento surge a proposta de implantar uma fábrica de tapetes e carpetes de sisal. Após um extenso trabalho junto a organizações da sociedade civil internacionais, foi viabilizada a implantação da fábrica. Principais elementos/ componentes da experiência vinculada à produção e o beneficiamento de sisal: - Batedeira de sisal; - Valente® Tapetes e Carpetes de Sisal – A fábrica de tapetes e carpetes que procede ao beneficiamento do sisal. - COOPERE - Cooperativa Valentense de Crédito Rural Ltda - Deu acesso à conta bancária a associados e moradores locais,sem que seja necessário comprovar renda. Acesso a crédito a pequenos produtores locais; - Posto de vendas: supermercado para vender produtos mais baratos aos pequenos agricultores e local de escoamento da pequena produção; - Suporte técnico aos produtores e educação especificamente voltada para a produção; - Vemos a composição de diversos aspectos complementares: desde a produção, passando pelo beneficiamento e, finalmente, a comercialização. 6. Institucionalização da pratica: Diversas organizações surgiram no processo: Associação dos Pequenos Agricultores do Município de Valente, A Batedeira Comunitária, Valente® Tapetes e Carpetes de Sisal, Escola Família Agrícola: em parte sustentada pelas taxas pagas pelos associados, COOPERE Cooperativa Valentense de Crédito Rural Ltda, Posto de Vendas. 37 7. Principais dificuldades: Algumas dificuldades no processo de constituição foram destacadas por Lima (2001): - Fortalecimento de parcerias com o governo, especialmente para a Escola Família Agrícola; - Pagamento da dívida de U$ 4.5 milhões que foram tomados emprestados para a construção da fábrica de beneficiamento do sisal (aproximadamente metade dos resultados da associação são direcionados para o pagamento dessa dívida); - Pesquisa e produção de conhecimento para maximização da utilização da fibra do sisal e; - Aperfeiçoamento da estratégias de marketing e comercialização. 8. dicas estratégicas: - Habilidades para lidar com o setor privado. Profissionalismo e Organização (Lima, 2001). - Inserção do projeto de produção e beneficiamento do sisal em um programa mais amplo como o programa de convivência com o semi-árido, com ações de reordenamento da unidade produtiva familiar, capacitação dos produtores rurais no sentido se utilizarem os recursos ambientais e econômicos numa perspectiva sustentável, captação e armazenamento de água, incentivo a outras culturas adequadas ao semi-árido, entre outros. - Pensar a pequena produção de forma ampla, desde o campo ate o mercado, são também fatores indispensáveis para a viabilização da pequena propriedade. Produzir e não ter para quem vender ou a preços irrisórios, não contribuem para a viabilização da pequena propriedade” (Oliveira, 2002, p. 41). - "Planejar o que produzir, como produzir e o que fazer da produção são fatores importantes, principalmente quando se trata de pequenos produtores, que isoladamente não teriam quantidades produzidas suficientes para chegarem ao mercado e nem poder de barganha. Daí a necessidade da organização em Associações ou Cooperativas, para permitirem a organização da propriedade, orientação técnica, capacitação e a comercialização, agregando valor ao produto" (Oliveira, 2002, p. 41). 9. Parcerias estratégicas: A parceria com a cooperação internacional foi fundamental para ter acesso a recursos que possibilitassem a construção da fábrica. 10. Avaliação dos resultados: Oliveira (2002) apresenta uma série de depoimentos de pequenos produtores participantes do programa de convivência com o semi-árido que mostram mudanças na qualidade de vida, na qualificação da produção, no aumento do conhecimento técnico, entre outros. É possível, ainda, identificar: aumento no número de empregos, elevação da renda, medidas de armazenamento de água pelos produtores, adoção de outras atividades para complementar a renda, adoção de racionalidades mais empresariais ao lidar com o mercado, redução dos 38 índices de migração campo-cidade, ingresso de todas as crianças em idade escolar na rede escolar pública da região, agregação de valor aos produtos regionais, adoção de medidas de preservação ambiental. A Fábrica de Sisal gera 92% dos resultados que garantem a sustentabilidade da APAEB. Envolve os pequenos fazendeiros que plantam o sisal, as pessoas que trabalham na batedeira de sisal e as pessoas da fábrica em si. Dados econômicos dos associados: ganhos mensais aumentaram em torno de 14% (Lima, 2001). - A fábrica gera 811 empregos diretos (Oliveira, 2002). - Elevação do preço da fibra do sisal: de R$ 160,00/ ton em 1996, para R$ 500,00/ton em 2001, gerando mais recursos aos produtores e familiares. 11. Tecnologias sociais envolvidas: Assim como a experiência de Palma$, a ação da APAEB também é composta por diversas frentes, especialmente ligadas à cadeia produtiva do Sisal. Há ações de apoio à produção, à manufaturação (fábrica), beneficiamento, comercialização e escoamento. A atuação em diversas frentes parece estar ligada à garantia de estabelecimento de um círculo virtuoso. - Uma característica que é apontada como fundamental para o sucesso da APAEB é a sua boa administração e gestão. Ismael, liderança no processo, teve uma larga experiência trabalhando num banco, que parece o ter capacitado para enfrentar os desafios que encontra na APAEB. Atualmente, sentem falta de conhecimento específico que gerasse o maior aproveitamento do Sisal e seus subprodutos. 12. Fontes de informação e materiais: - Associação dos Pequenos Agricultores do Município de Valente: www.apaeb.com.br - Lima, Ana A. (2001) A Lesson of Survival and Sustainability from the Brazilian Semi-Arid Lands. Changemakers. www.changemarkers.org - Oliveira, Ismael F. (2002) A Produção Familiar na Região Semi Árida - Limites e Possibilidades. Minitese. Disponível no site da organização: www.apaeb.com.br - APAEB (2000) Cartilha - Uma Caminhada de Luta e Resistência. Associação dos Pequenos Agricultores do Município de Valente. - Estatuto Social da APAEB - disponível no site da organização. 39 14. discussões no seminário: O debatedor Caio Silveira levantou algumas questões, relativas à importância da luta social como eixo que mobiliza as pessoas e possibilita a construção do processo (aspecto que, ademais, também havia sido destacado na experiência de Palmas); a importância da articulação de um sistema integrado de ações e iniciativas, o que Caio caracterizou como uma lógica horizontal; Caio apontou ainda a participação como um gargalo, pois, à medida em que os projetos se tornam complexos e variados, crescem as dificuldades de promover a participação real e efetiva de todos os associados. Um outro aspecto muito interessante levantado foi a caracterização das conquistas feitas ao longo do processo como produtoras de um senso de propósito compartilhado, na medida em que são ações conjuntas que produzem resultados tangíveis. A questão do capital social também aparece como determinante das possibilidades de efetiva transformação social resultante do processo. Finalmente, o debatedor chamou atenção para o caráter regional da experiência, eficaz em articular os fluxos no local, sem se isolar nem tampouco perder a identidade local. 2. Banco Palma$ -o banco popular do Conjunto Palmeira Nome do apresentador: João Joaquim de Melo Neto Segundo e-mail: [email protected] telefones: (85) 269.0002 / (85) 269.3800 / (85) 269.1171 tempo de atuação na organização: desde a fundação nome organização: ASMOCONP - Associação dos Moradores do Conjunto Palmeiras Endereço: Av. Valparaíso, 698, Cj. Palmeira, CEP: 60870-440, Fortaleza-CE Breve Histórico: O Conjunto Palmeira, que se localiza na periferia de Fortaleza, surgiu em 1973, a partir da decisão da prefeitura de promover um processo de "desfavelização", retirando a população que vivia da zona costeira, próximas às praias. Tal população foi retirada do local onde morava e despejada no novo terreno sem condições estabelecidas ou organização. Obrigada a viver num espaço que não dispunha de infraestrutura básica, a população foi lentamente aprendendo a se organizar a fim de conquistar seus direitos mais fundamentais junto ao Poder Público. A partir de 1980, iniciou-se um movimento em favor da constituição da associação de moradores do bairro e, em 1981, esta foi efetivamente criada. A ASMOCONP, assim, passou a organizar as principais lutas travadas pela população do Conjunto: saneamento básico, transporte público, pavimentação, moradia etc. Em um determinado momento chegaram a existir 26 grupos, congregados em torno de problemas diferentes (creches, educação, jovens, idosos, igrejas, nutrição...), cabendo à associação as lutas acerca de questões mais amplas. Com o tempo, os grupos foram percebendo que essa 40 descentralização estava gerando desencontros de esforços. Reuniram, então, os moradores em um seminário ("Habitando o inabitável", realizado em 1991) e criaram a União das Associações e Grupos do Conjunto Palmeiras; desse seminário também saiu um plano estratégico, para os dez anos seguintes, para urbanização do bairro. Antes do prazo previsto, porém, perceberam que as assembléias de moradores estavam ficando caracterizadas pelas queixas em relação à falta de trabalho. Além disso, observaram o caráter volátil dos comércios que abriam no bairro. Em 1997 foi realizado, então, o seminário "Habitando o inabitável 2", donde saiu o desafio de criar programas de geração de trabalho e renda nos próximos cinco anos. Foi no enfrentamento desse desafio que surgiu o Banco Palma$. Atualmente, 30 mil pessoas moram no Conjunto Palmeiras e a Associação congrega aproximadamente 1.500 sócios. Principal financiador da organização e da experiência: O primeiro apoio financeiro para a criação do Banco Palma$ veio da ONG CEARAH Periferia. Posteriormente, a GTZ e a OXFAM também contribuíram. Atualmente, o banco recebe apoio financeiro da cooperação internacional e, em menor escala, de fontes públicas locais. Os poucos recursos arrecadados através dos juros também ajudam a pagar as despesas do banco. A Experiência: 1. Características gerais: - Tempo de existência: o projeto foi criado em janeiro de 1997 e o banco foi inaugurado em janeiro de 1998 (HABITAT, 2004). - Bases conceituais/ metodológicas/ princípios: Economia solidária, microcrédito solidário, produção sustentável, consumo ético, comércio justo. Segundo o coordenador do Banco Palmas, João Joaquim de Melo Neto Segundo, "O Banco Palmas constitui-se em um sistema financeiro integrado, que atua de forma estratégica nos quatro pontos da cadeia produtiva do ciclo econômico sustentável em áreas de baixa renda, quais sejam: capital solidário, produção sustentável, consumo ético, comércio justo. A metodologia Palmas compreende que na ausência de um destes elementos não é possível alcançarmos desenvolvimento econômico local. Neste sentido o Banco Popular desenvolveu instrumentos para concessão de micro-créditos, compatíveis com a realidade da comunidade, tanto para produção, como para o consumo e comercialização." (Neto Segundo, 2003, p. 15). 41 2. Introdução: A partir da realização do seminário "Habitando o inabitável 2", em 1997, constituiu-se como desafio para a Associação a criação de projetos de geração de trabalho e renda que pudessem melhorar a qualidade de vida da população. O Banco, criado em Janeiro de 1998, deu inicio as ações de desenvolvimento local sustentável da Associação, com a implementação de um sistema de acesso ao crédito, aliado ao fortalecimento da auto-gestão comunitária pela capacitação de moradores locais sobre cidadania, relações comunitárias, relações econômicas solidárias, governabilidade participativa, controle social e outros temas. 3. Objetivos: O objetivo do banco é garantir micro-créditos para as famílias, a juros evolutivos e baixos (2 a 3% ao mês), sem exigência de consultas cadastrais, comprovação de renda ou fiador. Essa atividade, por sua vez, visa, "proporcionar o desenvolvimento local e solidário do Conjunto Palmeira, a baixo custo e de forma sustentável, melhorando a qualidade de vida de seus moradores." (Neto Segundo, 2003). 4. Atores envolvidos: Associados à ASMOCONP e suas famílias, pequenos comerciantes estabelecidos no Conjunto Palmeira, população, poder público, agências de cooperação internacional 5. Funcionamento da experiência: A capacidade técnica, no início dos trabalhos, foi garantida pelas experiências do banco junto ao projeto Prorenda e dos círculos de estudos realizados pela Associação. Contou-se ainda com o conhecimento empírico de diversos produtores e comerciantes locais. Quando iniciado o trabalho, alguns membros da equipe do banco receberam um treinamento em gestão financeira oferecido pela prefeitura local. O Banco Palma$ é gerido pela Associação dos Moradores do Conjunto Palmeira, por uma equipe exclusiva de 7 pessoas (Neto Segundo, 2003) e está sob responsabilidade da diretoria da ASMOCONP e da Assembléia de Sócios da Associação. O Banco Palmas desenvolve diversas modalidades de intervenção visando fortalecer as ações locais e criar mecanismos de superação da pobreza. Essas diversas modalidades formam uma rede, chamada de “Rede Prosumidores” (produtores e consumidores) locais. A primeira e principal modalidade é o empréstimo de recursos a moradores locais. O Banco oferece oportunidade de micro-crédito para as famílias, a juros muito baixos, sem exigência de consultas cadastrais, comprovação de renda ou fiador. O Palma$ trabalha com uma política de 42 credito pautada no controle social. Um analista de crédito visita a família do solicitante e conversa com os vizinhos, que vão servir de aval para o futuro cliente. A partir do momento que o cliente é aceito no banco ele passa a ser acompanhado pôr toda a rede de solidariedade. Esse controle social fiscaliza as ações do banco e dos seus empreendedores, ajudando, inclusive a inadimplência do Palma$ ficar sempre na casa de 1 a 3% . O incentivo à economia local, além de passar pelo micro-crédito em si, é realizado por meio de outras ações, como:- Incentivo à produção, prestação de serviços e comercialização; - Implementação de feira de produtores locais; - Organização do balcão de emprego; - Organização de trocas solidárias de produtos e serviços (clubes de trocas com moda social); - Implantação de confecção com grife própria (Palmafashion); - Implantação de escola de capacitação(Palmatech); - Implantação de uma incubadora para mulheres em situação de risco; - Implantação de um laboratório de agricultura urbana e; - Criação de uma moeda própria que circula nos comércios do bairro (Palmares), sistemas de feiras com os produtores locais e uma loja solidária. A integração de todos elementos tem uma razão de ser. "A filosofia central do banco está voltada para uma rede de solidariedade de produção e consumo local. O Banco Popular possui uma linha de microcréditos para quem quer produzir (criar ou ampliar um pequeno negócio) e outra linha que financia quem quer comprar aos produtores e comerciantes do bairro. O Palmas estabeleceu na própria comunidade um circuito monetário de produção e consumo, que em longo prazo se auto-financiará, dando sustentação aos seus empreendimentos. Este sistema oxigena a rede de solidariedade local, facilitando a comercialização dos produtores da comunidade, fazendo a renda circular no próprio bairro, promovendo o crescimento econômico. A estratégia objetiva criar um círculo econômico local virtuoso" (Neto Segundo, 2003, p. 15). 6. Institucionalização da pratica: Algumas organizações foram formalizadas e outras não. De maneira geral, surgiram as seguintes organizações: Banco Palma$, PalmaCard, Palmafashion (empresa de confecção de roupas, cama, mesa e banho), Palmart (empresa de artesanato) e Palmalimpe (empresa de fabricação de material de limpeza). Nem todas formalizadas. 7. Principais dificuldades: A conjuntura econômica nacional. A atuação do banco está enraizada num contexto econômico mais amplo; desse modo, as oscilações do mercado afetam tanto a economia doméstica dos moradores quanto à cadeia produtiva (afetando os comerciantes) e provocam aumento de inadimplência. Os custos institucionais da experiência estão cada vez mais altos na proporção que aumenta o número de famílias envolvidas no projeto. Os vários produtos do banco têm um 43 poder de articulação e mobilização da comunidade que não corresponde à capacidade operacional de atendimento. O banco já não consegue realizar suas atividades de forma manual. O número de ações triplicou no último ano (hoje são 920 clientes) e o sistema ainda não está informatizado, criando dificuldades para o controle contábil e das operações financeiras. Seria necessário um programa de computação específico, principalmente para o controle dos créditos.A capacitação da equipe, formada totalmente por líderes comunitários, com pouca escolaridade. A estrutura do banco fica cada dia mais complexa exigindo uma equipe mista formada por técnicos e comunitários, de forma que a interação de saberes possa suprir as necessidades e exigências sociais, pedagógicas, técnicas e administrativas. O Palmas fica impossibilitado de aumentar sua carteira de crédito uma vez que a legislação brasileira proíbe qualquer tipo de captação de recursos que não seja regulamentada pelo Banco Central. Isso faz com que o banco fique sempre na dependência de novos empréstimos ou da cooperação internacional. Os empréstimos iniciais realizados para compor a carteira começaram a ser pagos, comprometendo anualmente 9,5% da carteira do banco o que pode vir a prejudicar o fundo de crédito 8. dicas estratégicas: - Garantir a pluralidade ao mesmo tempo em que há a preocupação de organizar as formas de luta e reivindicação para não pulverizar as ações; - A relação com o poder público (que deve estar documentada e oficializada em contratos e convênios) deve se dar de forma permanente, buscando criar parcerias que garantam o diálogo entre a municipalidade e a comunidade. - Mesmo que a cooperação se dê em pequenas ações é importante para visibilidade e sustentabilidade do projeto. - A parceria com as Universidades garantem a capacitação das equipes locais além de dar credibilidade ao projeto. As universidades sempre são uma boa referência para outros parceiros que buscam informações sobre a comunidade e a seriedade do projeto. - O sistema de microcréditos de um banco popular precisa ser aperfeiçoado permanentemente, criando instrumentos complementares e adaptando-se às novas necessidades. O Palmas começou suas atividades apenas fazendo concessão de créditos para produção e consumo e depois sentiu necessidade de oferecer produtos de comercialização e capacitação. - Muito dificilmente um sistema de microcrédito sobrevive isoladamente sem estar conectado a outros sistemas complementares. - É preciso ser cauteloso nos primeiros créditos, porque do sucesso destes depende a credibilidade do banco. Deve ser evitada a ansiedade dos primeiros meses, não tendo pressa para ter números altos para divulgar. É melhor começar devagar e com os pés no chão. 44 - Evitar o jeitinho brasileiro nas operações de crédito. Não abrir exceção porque alguém é "amigo da comunidade". Os amigos têm que entender que o banco é um espaço econômico e não somente social. As regras têm que servir para todos. - É necessário que toda a equipe que trabalha com o Banco, desde os técnicos até as pessoas de apoio, dominem perfeitamente os fundamentos e a filosofia do banco, estando prontas para atender a comunidade e sensibilizá-la para as práticas de economia solidária desenvolvidas pelo banco popular. - Os instrumentos criados pelo banco: folhas de contrato, faturas, livros de controle contábil, cadastros e outros, precisam ser bastante simples para poder ser operados pelas pessoas da comunidade. - É necessário discutir bem com a comunidade quais são os objetivos do banco, a quem ele se destina, como vai ser seu funcionamento e qual a estratégia de desenvolvimento em longo prazo. Neste contexto, a compreensão de que se trata de desenvolver e implementar instrumentos de economia solidária, e a diferença desta para a economia capitalista, é imprescindível. - Deve ficar bastante claro para os moradores que o banco é um instrumento de desenvolvimento econômico e não pode ser confundido com as ações de mobilização e pressão social desenvolvidas pela entidade comunitária. - É fundamental ser transparente nas operações, divulgando a situação financeira do banco e principalmente as dificuldades. 9. Parcerias estratégicas: Governamentais - Secretaria de Trabalho e Ação Social, governo do Estado, Fundação da Criança e da Família Cidadã, Prefeitura de Fortaleza, Serviço Nacional de Empregos (SINE), Instituto de Desenvolvimento do Trabalho (IDT), Projeto PRORENDA/GTZ, Programa Capacitação Solidária, Universidade Federal do Ceará. Não Governamentais: Rede Cearense e Brasileira de Sócioeconomia Solidária, SEBRAE, Agência de Desenvolvimento Solidário (ADS/CUT), CEARAH Periferia, Coordenadoria de Serviços Ecumênicos (CESE), OXFAM, DED, AGORA XXI, PROFITEC, Associações Comunitárias e Comerciantes locais, Universidade Federal do CEARÁ 10. Avaliação dos resultados: Os documentos indicam diversos resultados da experiência. Alguns são destacados aqui: - Aumento no número de sócios da Associação; - Legitimação da Associação frente ao poder público; - Aumento nas vendas nos pontos comerciais locais, de aproximadamente 40%, segundo os comerciantes; - Melhora na qualidade de vida dos moradores a partir do crédito a que tiveram acesso; - Geração de trabalho, aumento no número de ocupações na comunidade: 200 diretos e 450 indiretos. 45 - Aumento no volume de recursos circulando na comunidade; - Criação de uma nova moeda: o PALMAS. Uma recente pesquisa sobre o Banco Palmas, realizada pelo governo do Estado através da Universidade Estadual do Ceará, revelam alguns números importantes: - 57,5% dos clientes adquiriram mais respeito na comunidade após ingressarem no banco; - 83,15% adquiriram mais autoconfiança; - 53,8% tornaram-se mais solidários; - 75% adquiriram maior estímulo pela vida; - 81,95% se sentem mais responsáveis; - 86,3% passaram a ter mais esperança; - 95% consideram o Palmas um agente erradicador da fome e promotor de emprego e renda; - 96% dos entrevistados consideram o banco no mínimo bom. (Neto Segundo, 2003, p. 39) 11. Perspectivas: Neto Segundo (2003, p. 39/40) aponta alguns desafios futuros: - Criar instrumentos de difusão, sistematizando de forma pedagógica a experiência do banco, de forma a possibilitar a comunicação com outros municípios e o poder público. - Ampliar o sistema de trocas de produtos e serviços, com moeda social (própria), articulando grupos de trocas solidárias como alternativa ao mercado formal, possibilitando a aquisição de bens e serviços por qualquer morador que ofereça seu próprio trabalho. - Ampliar e estruturar a Escola de Sócioeconomia Solidária, difundindo e capacitando outros moradores, organizações sociais e poder público para as práticas da Economia Solidária, como estratégia de criação de programas de desenvolvimento local, que garantam o acesso aos mais pobres, com distribuição de renda e justiça social. - Consolidar a Incubadora Feminina garantindo o atendimento às mulheres carentes do bairro, aumentando a participação das instituições (creches, posto de saúde, escolas...), como estratégia de um projeto piloto. - Concluir o estudo da cadeia produtiva do bairro, para que o banco possa financiar a implantação de alguns empreendimentos básicos de fornecimento dos principais insumos consumidos pelos prosumidores (produtores e consumidores) locais, evitando que a riqueza gerada no bairro saia para alimentar o capital financeiro especulativo. - Buscar parcerias com cooperativas agrícolas no âmbito da economia solidária na perspectiva de vender alimentos para o PalmaCard. - Fazer uma campanha de captação para ampliar a carteira do banco. - Intensificar junto aos produtores locais a discussão sobre Economia Solidária, na perspectiva de reforçar a rede de cooperação entre estes, na compra de insumos, produção e comercialização, minimizando a interferência da economia de mercado no bairro. 46 12. Tecnologias sociais envolvidas: Tecnologias sociais de indução e de sustentabilidade - A união das pessoas para formarem o que foi constituído em Palmas esteve muito vinculada à história de lutas das pessoas do bairro. Dessa forma, não é possível pensar em estratégias de formação desse grupo, sem se remeter a uma história mais longa. - A delimitação do projeto a um bairro, a um local circunscrito, parece ter uma função primordial no projeto, já que a "garantia" pedida pelo banco é a indicação dos próprios vizinhos. A rede social estabelecida é que garante a baixa inadimplência do Banco. - O registro da história da comunidade, assim como, o espaço aberto para planejamento foram fatores extremamente relevantes na experiência. Atividades de diagnóstico foram realizadas pelos membros da própria comunidade, de modo que o conhecimento gerado sobre aquela realidade já foi, durane o próprio processo, apropriado. O planejamento a longo prazo faz com que as pessoas envolvidas tenham conhecimento da direção que deverá ser tomada no médio e longo prazos (até 10 anos). - Há um ciclo completo ao qual a Associação dá apoio: da produção, à comercialização e ao consumo. Essa intervenção que atua sob diversas frentes parece garantir um círculo virtuoso importante para a a sustentabiliade das ações. 13.Fontes de informação e materiais: - Toscano, Idalvo (2002) O Banco Palma$ - uma experiência de economia solidária. In: França, Cassio; Silva, Ivan Prado e Vaz, José Carlos. Aspectos econômicos de Experiências de Desenvolvimento Local. São Paulo: Instituto Pólis - Chequer, Jamile (2004) "Um banco para o povo". http://www.ibase.org.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm (consultado em 15/05/2004) - Neto Segundo, João Joaquim de Melo (2004). Projeto de agricultura urbana na favela Conjunto Palmeira, http://www.jbmoura.hpg.ig.com.br/AU/AU7/AU7ceara.html (consultado em 20/04/2004) - ________________________ (2003) Banco Palmas. Uma prática de socioeconomia solidária: Quito, Ágora XXI/ Banco Palmas, Programa de Gestão Urbana - UN/HABITAT, Caderno de Trabalho nº 116- Catálogo de Experiências. Rede Dlis (2004) http://www.rededlis.org.br/experiencias.asp?id=38&action=mostra , (consultado em 20/04/2004) - HABITAT (2004) PALMAS Banco Popular en el barrio de Palmeira, Fortaleza, Brasil. In: Buenas Práticas Latinoamericanas y del Caribe. http://habitat.aq.upm.es/ (consultado em 15/05/2004) - Conhecendo o Conjunto Palmeiras. Material de apresentação enviado pela ASMOCONP. 47 14. Discussões no seminário: A questão da sustentabilidade foi bastante discutida, já que o grande desafio atualmente é o aumento da carteira de crédito, visto como necessário para a continuidade do apoio aos comerciantes que se estabeleceram e também para aumentar o escopo dos atendidos. O debatedor, José Carlos Vaz, levantou alguns ensinamentos que puderam ser sistematizados a partir da apresentação do Joaquim de Melo Neto: 1) O primeiro é que não se deve pensar em empreendimentos populares para que concorram com os "grandes" - nesse sentido, a estratégia de promover uma cultura de consumo responsável, ligando as pessoas ao bairro e seus problemas, é bastante acertada; 2) No caso de Palmas, não é possível desvincular o desenvolvimento do bairro de suas lutas sociais; 3) O planejamento de longo prazo revela-se importante não apenas para nortear as ações mas como eixo de esclarecimento dos valores e princípios comunitários, norteando também a relação com outros atores (Poder Público, Universidade, Agências Financiadoras); 4) A importância do que Vaz chamou de "sedução das massas", referindo-se à preocupação expressa por Joaquim como a necessidade de trabalhar também, senão principalmente, com aqueles que não estão diretamente envolvidos no processo (aqueles que não da Associação ou não pertencem a nenhum grupo comunitário no bairro). Joaquim havia apontado, em sua fala que, para um processo de desenvolvimento local, a adesão de todos é fator crítico, determinando o sucesso ou o fracasso das iniciativas e potencializando seus efeitos; 5) Destaca-se da experiência de Palmas a importância da constituição de uma história registrada e sistematizada; finalmente, Vaz destacou alguns aspectos que, na descrição de Joaquim, são reveladores da armadilha do desenvolvimento inteiramente endógeno, sublinhando que o relato também apontada caminhos para que não se caísse na armadilha, por exemplo, encontrando estratégias para que os aportes externos resultem em empoderamento (empowerment) e não em dependência. 48 3. Elaboração da Agenda 21 Local da Estância Turística de Ribeirão Pires nome do apresentador: Luciano Ricardo Azevedo Roda e-mail: [email protected] telefone: (11) 4828-3710 / (11) 4823-4955 (Secretaria) / (11) 4827-5311. tempo de atuação na organização: desde 1997 nome organização: Prefeitura da Estância Turística de Ribeirão Pires Endereço: Av. Brasil,193, Centro, CEP: 09400-000, Ribeirão Pires-SP homepage: www.ribeiraopires.sp.gov.br Breve Histórico: Ribeirão Pires fica situada na região do grande ABC, e 106.462 habitantes (Revista da Agenda 21 Local). Todo o seu território de 107 km2, que possui extensa área verde, é definido como área de proteção de Mananciais (Leis 898/75 e 1.172/76). A cidade fica próxima a reservatórios importantes da rede de abastecimento de água da cidade de São Paulo. O povoamento de Ribeirão Pires começou em meados do século XVII, quando a área era tida como passagem entre São Bernardo e Mogi das Cruzes. Durante o século XIX, com a expansão da produção do Estado, foi implantada uma ferrovia para ligar as áreas produtoras ao porto de Santos e em cujas margens foram crescendo povoamentos. Em 1953 inicia-se o processo de emancipação de Ribeirão Pires de Santo André. A cidade é fundada em 1954, quando ocorre uma onda especulativa que resulta em rápida expansão da mancha urbana, por meio da abertura de loteamentos destituídos de infra-estrutura e cuidados urbanísticos e que não chegam a alcançar ocupação efetiva. Na década de 70, como efeito do crescimento regional das décadas de 50 e 60, Ribeirão Pires passa por uma fase de desenvolvimento industrial, principalmente ligado à cadeia automobilística. Trabalhadores das indústrias locais passam a ocupar loteamentos precários e sem infra-estrutura completa. Tal expansão começa a ameaçar as regiões de mananciais, até o momento em que a Lei de Proteção é criada em 1975. Tal lei impôs um freio no processo de crescimento industrial, ao mesmo tempo que deu oportunidade à cidade de criar outros modelos de desenvolvimento. Em um primeiro momento isso não ocorreu e a cidade, entre as décadas de 80 e 90, passou por um período de estagnação econômica por não conseguir conciliar o desenvolvimento econômico e a proteção aos mananciais. Em 1997 a Prefeitura da cidade inicia um processo de planejamento administrativo, financeiro, social, urbano e econômico de forma participativa que culmina na elaboração da Agenda 21 Local de Ribeirão Pires. Principal financiador da organização e da experiência: Recursos Públicos e a conjunção das ações de atores no setor privado e na sociedade civil. 49 A Experiência: 1. Características gerais: - Localização: Estância Turística de Ribeirão Pires, Região do Grande ABC, SP. - Tempo de existência: o processo teve início em 1997. - Bases conceituais/ metodológicas/ princípios: Na Conferência das Nações Unidas em 1992, a Rio-92, foi proposta a criação por cada localidade de sua Agenda 21 Local. Tal Agenda constitui “um protocolo de ações definidas por uma comunidade, cidade, estado ou país que constitui um modelo de desenvolvimento urbano, social e econômico” (Revista da Agenda 21 Local, p. 19) 2. Introdução: O processo de planejamento de forma participativa (com a integração de atores da sociedade civil, do poder público e do setor privado) teve início, na região do grande ABC, com a criação do Consórcio Intermunicipal no início da década de 90. O Consórcio começou a planejar ações no âmbito regional. O processo de planejamento participativo específico de Ribeirão Pires teve início em 1997, com a Prefeita Maria Inês Soares Freire (PT) na administração do governo da cidade. Nesse momento a Prefeitura induziu a criação do Fórum de Desenvolvimento Sustentado. O processo de indução se constituiu em encontros entre poder público e sociedade de maneira geral para discussão de estratégias e ações para problemas identificados na cidade. As discussões ocorriam em grupos de trabalho na região central da cidade. A população no geral foi convidada para as discussões, porém os encontros se realizavam sempre nos mesmos locais na região central da cidade. O produto do Fórum foi a Agenda de Desenvolvimento Sustentado com estratégias para cerca de 260 problemas identificados. Diversas ações nos anos seguintes podem ser vistas como resultado desse primeiro processo de planejamento participativo do desenvolvimento da cidade (Revista Agenda 21 Local). Em 2001 inicia-se outra fase. A prefeita Maria Inês Soares Freire se reelege e há uma avaliação e balanço das propostas planejadas e a ações realizadas a partir da Agenda de Desenvolvimento Sustentado. Com essa avaliação há uma redefinição de estratégias e a criação, também a partir da indução da prefeitura, do Fórum da Cidade. Esse Fórum teve como objetivo específico a criação da Agenda 21 Local da cidade e, diferentemente do Fórum de Desenvolvimento de 1997, circulou pelas 8 regiões de planejamento do município, atuando de maneira mais descentralizada. Essa mudança ocorreu pela própria avaliação de que, circulando pelas regiões da cidade, as plenárias obteriam uma maior adesão e participação da população. 50 3. Objetivos: Construção da Agenda 21 Local da Estância Turística de Ribeirão Pires para promoção do desenvolvimento local e sustentado da cidade. Esse processo deve ocorrer de forma participativa para que o compromisso dos atores e as diferentes visões da cidade sejam incluídos. 4. Atores envolvidos: Agentes interessados no desenvolvimento da cidade, o poder público, como ator indutor e participante, a sociedade civil organizada, setor privado 5. Funcionamento da experiência: O início da experiência da cidade no planejamento de suas prioridades e propostas se deu a partir do Fórum de Desenvolvimento Sustentado, que promoveu discussões de forma centralizada (sempre na mesma região específica da cidade), a partir dos grupos de trabalho temáticos. O produto dessa fase de trabalho foi a elaboração da Agenda de Desenvolvimento Sustentado e as ações dela decorrentes. A construção da Agenda 21 Local se deu a partir da constituição do Fórum da Cidade. Esse fórum primeiro organizou discussões nas 8 regiões de planejamento da cidade, promovendo 8 plenárias de debates de problemas e propostas para Ribeirão Pires, nas quais participava a população dos bairros de maneira geral.Posteriormente, o Fórum da Cidade organizou 3 grandes plenárias temáticas, nas quais participaram delegados de cada região da cidade, estes eleitos pela população dos bairros nas plenárias regionais. Os três grandes eixos que balizavam as propostas levantadas eram: 1) Cidadania e Inserção Social, 2) Qualidade no Ambiente Natural e Construído e 3) Desenvolvimento Econômico Sustentável.Ao final dos 3 dias de trabalho nas plenárias temáticas, foram estabelecidas as propostas básicas para a Agenda 21 Local. Também foram eleitos 28 representantes (14 da sociedade civil e 14 do poder público) para formar o Conselho da Cidade. Desse grupo de 28 representantes, foi constituído um grupo executivo (presidente, vice-presidente e secretário-executivo) para organizar o processo de construção final da Agenda 21 Local.Esse grupo executivo organizou novos grupos de trabalho, que debateram cada um dos 3 eixos e sistematizaram as propostas em: a) programas, b) diagnóstico, c) indicador, d) ações, e) atores responsáveis pela sua execução, f) prazo e g) governabilidade. Essas discussões ocorreram durante o ano de 2002. No primeiro semestre de 2003, foram organizadas mais rodadas de discussão, dessa vez para elaboração de um diagnóstico para cada tema e articulação das ações entre eles.Finalmente, o Conselho organizou plenárias ampliadas, abertas para toda a população, para leitura e revisão de todas as ações propostas e fechamento da Agenda 21 Local da Estância Turística de Ribeirão Pires. 51 6. Institucionalização da pratica: - Fórum de Desenvolvimento Sustentado - Fórum da Cidade- Conselho da Cidade 7. Principais dificuldades: Algumas dificuldades e questões no processo de construção do planejamento de forma participativa e da Agenda 21 Local podem ser destacadas (a partir de conversa com Marcos Bandini, Secretário Geral do Conselho da Cidade): Na parte da construção da Agenda 21 Local, não há muito material e referenciais para servir de modelo para a ação. pela própria avaliação de que, circulando pelas regiões da cidade, as plenárias obteriam uma maior adesão e participação da Existem materiais disponibilizados pelo Ministério do Meio Ambiente (http://www.mma.gov.br/port/se/agen21/index.cfm), mas faltam relatos de processos concretos sobre o processo de construção e diálogo com a população para a elaboração da Agenda.- Outra questão presente diz respeito à construção de indicadores para avaliação das ações da Agenda 21 Local. A construção de indicadores para programas sociais ainda é uma questão que desafia aqueles que buscam parâmetros para avaliar e aperfeiçoar suas ações, como no caso específico da construção da Agenda 21 Local de Ribeirão Pires. 8. Parcerias estratégicas: As parcerias estratégicas para a elaboração da Agenda 21 Local são aquelas estabelecidas entre os vários atores que influenciam no desenvolvimento da cidade: poder público, atores da sociedade civil e do setor privado. 9. Avaliação dos resultados: O processo de implantação está ocorrendo atualmente. 10.Perspectivas: Implantação das ações planejadas. 11.Tecnologias sociais envolvidas: A grande marca do processo de planejamento que culminou na Agenda 2 Local de Ribeirão Pires foi o envolvimento popular na elaboração das estratégias. Esse envolvimento não é linear e, segundo Ismael, passa por oscilações a depender dos interesses na pauta da discussão do momento. Apesar dessas oscilações, estratégias específicas de aproximação entre os fóruns de discussões e a população foram elaboradas: desde encontros mais centralizados até reuniões nos próprios bairros. - Também nessa experiência temos o exemplo da realização de atividades de diagnóstico local realizadas pela própria população. 52 13. Fontes de informação e materiais: - Prefeitura da Estância Turística de Ribeirão Pires: www.ribeiraopires.sp.gov.brBandini, - Marcos Pellegrini (org.) (2003) Revista da Agenda 21 Local - A Cidade, o Meio Ambiente e o Homem. Prefeitura da Estância Turística de Ribeirão Pires. - Consórcio Intermunicipal do Grande ABC: http://www.consorcioabc.org.br/Ministério do Meio Ambiente - Agenda 21 Brasileira: http://www.mma.gov.br/port/se/agen21/index.cfm 14.Discussões no seminário: As questões levantadas por Arilson Favareto se desdobraram em dois principais eixos: 1) territorialidade e 2) capital social. Em relação à territorialidade, Arilson levantou dois aspectos, um que se refere às dificuldades e aos desafios envolvidos na construção da identidade com o território em contexto metropolitano e outro que se refere aos desafios para a reconversão econômica das características do município, pois se trata de alavancar um processo cuja sustentabilidade não seja apenas econômica ou ambiental mas também social. Trata-se de um conjunto de desafios difíceis de equacionar, e o debatedor trouxe alguns dados de Ribeirão Pires que mostram que se houve ganho de renda ao longo dos oito anos relatados na experiência, também houve aumento de desigualdade e perda de florestamento. Arilson concluiu essa observação sublinhando a complexidade dos problemas a serem enfrentados por estratégias de desenvolvimento local. Em relação ao capital social, Arilson notou que esse conceito, não consensuado entre aqueles que trabalham com o tema do desenvolvimento local, geralmente aparece nos debates na referência aos laços de confiança, cooperação e colaboração estabelecidos entre diversos atores envolvidos por um processo comum e à rede de relações (preexistente ou resultante de um processo). Ele chamou a atenção para esse aspecto para ressaltar o caráter aglutinador do Fórum, como espaço para a publicização das expectativas dos diversos atores e para o exercício da coordenação das ações que deveriam levar aos resultados esperados - e nesse sentido, ainda que o "produto" palpável do Fórum seja a Agenda 21 Local, seu impacto é mais profundo e de mais longo prazo. Arilson notou, ainda, que geralmente esses espaços de participação acabam sendo meramente formais, e que , por isso, para a compreensão do tipo de desenvolvimento local que se está a fazer, é necessário que se interrogue sobre quem são os agentes (públicos e privados) que participam do processo; quais são os instrumentos de que se dispõe para identificá-los no local e, finalmente, como seria possível identificar e envolver aqueles segmentos que não têm portadores constituídos. Arilson chamou a atenção, em sua intervenção, para os aspectos institucionais dos processos de desenvolvimento local e por instituições ele compreende tanto instituições formais quando o complexo de normas formais e não formais que se constitui no 53 processo; além disso, as instituições são tanto locais quando menos imediatas (regionais, estaduais etc.). Arilson apontou que existe uma fragilidade institucional nos processos de desenvolvimento local, de forma geral, pois seria necessário definir melhor as responsabilidades entre os atores e enfrentar a tarefa essencial de superar a fragmentação e a dispersão de informações e competências, tanto de forma vertical (ou seja, nas diferentes instâncias do Poder Público) quanto horizontal (dentro do próprio município). 54 ANEXO 2 Aspectos de Tecnologia Social nas experiências de Desenvolvimento Local Sistematizadora: Fabiana Jardim O objetivo deste texto é concretizar algumas das descobertas feitas a partir do seminário “Tecnologia Social: Desenvolvimento Local, Participativo e Sustentável nos Municípios” no que se refere ao desenvolvimento conceitual da Tecnologia Social. Vale lembrar que este foi o primeiro encontro promovido pelo Centro de Referência e que seu caráter era principalmente de exploração de alguns caminhos que poderiam ser interessantes para melhor cercar o tema da Tecnologia Social. Como foi possível acompanhar nesse relatório, muitas foram as aprendizagens possibilitadas pelas experiências apresentadas e pelos debates realizados. Evidentemente, nem todas elas se relacionam diretamente com o tema da Tecnologia Social. Desde o início, ao optar por discutir Tecnologia Social a partir de experiências temáticas e em espaços coletivos, estávamos cientes da necessidade de ter constante atenção para que não houvesse dispersão: ainda que se trate de um processo de paulatina construção/aprofundamento conceitual, é preciso não descuidar de já ir distinguindo os elementos de TS e os aspectos intrinsecamente ligados a cada um dos temas propostos21. O primeiro tema escolhido foi Desenvolvimento Local, Participativo e Sustentável nos Municípios, não apenas pela importância que esse debate assume num contexto de reflexões sobre as possibilidades e desafios propostos aos municípios num ano de eleições municipais, mas principalmente porque a questão do Desenvolvimento Local parecia se constituir num objeto privilegiado, na medida em que os processos de desenvolvimento local que nos propusemos analisar ofereciam elementos de inovação técnica e tecnológica e também de inovação de arranjos institucionais. Assim, ainda que o tema seja tão complexo (ou justamente por isso), identificamos aspectos que justificavam a proposta de olhar para experiências de desenvolvimento local pelo prisma da Tecnologia Social. Um dos pontos levantados no relatório que vale a pena tomar como eixo de reflexão para a discussão da Tecnologia Social se refere à valorização da política – aqui entendida num duplo sentido: como reconhecimento da necessidade de construir consensos e alianças e também como o espaço legítimo para a construção de medidas. Mas vamos explicar melhor estes dois sentidos e porque acreditamos que Tecnologia Social se relaciona com esta dimensão de valorização da política. Como é sabido, somos uma jovem democracia – pouco mais de vinte anos nos separam do fim da ditadura militar. Por outro lado, sabemos também que a instauração da democracia representativa formal não significa, necessariamente, a consolidação de uma cultura Neste ano de 2004, os temas dos encontros a serem realizados são: 1) Desenvolvimento Local, 2) Educação, 3) Agricultura Familiar e 4) Tecnologia Social. 21 55 democrática: muitas desigualdades e exclusões, além de uma maneira de conceber o espaço público e o Estado, dificultam o enraizamento de atitudes e comportamentos democráticos. É neste ambiente que se insere o sistema de CT&I e as maneiras com que se relaciona com a sociedade, de modo geral. Basta conversar alguns minutos com pessoas comuns para logo reconhecer o abismo que existe entre o conhecimento que é produzido nos Institutos de Pesquisa e nas Universidades pelo “doutores” e aqueles temas e enigmas que, do ponto de vista da população, seriam os merecedores de atenção. Não se trata, é importante deixar claro, de postular pelo cerceamento da autonomia dos pesquisadores e intelectuais: trata-se de reconhecer a necessidade de construção de canais de diálogo, que sejam ocupados por atores que se reconheçam mutuamente como legítimos em suas demandas e interesses. É neste sentido que a valorização da política se torna um importante tema relacionado à Tecnologia Social: como o espaço de encontro no qual é possível a emergência de novos temas e questões e a construção de novas medidas no que se refere ao conhecimento, as formas com que pode ser construído/utilizado e os atores capazes de produzi-lo. Como chamamos a atenção na apresentação do relatório, adotar o conceito de Tecnologia Social, assumindo que ele ressalta alguns valores e práticas, significa postular pela ampliação dos limites do que se entende como Ciência, Tecnologia e Inovação, afirmando as ONGs e a população com a qual trabalham como produtores legítimos de conhecimento. Estreitamente relacionado a este aspecto, apresenta-se a questão dos diagnósticos participativos. Trata-se de um aspecto que interessa à discussão sobre Tecnologia Social porque tais diagnósticos já nos apresentam uma maneira de construir conhecimentos sobre a realidade de um modo diferente. A realização de diagnósticos participativos – que apareceu muito fortemente no relato da experiência de Palmas, por exemplo – permite tanto a produção de conhecimento sobre a realidade, capacitando os envolvidos no processo e tornando possível a partilha de saberes, quanto reforça a não-neutralidade da Ciência. A exemplo do elemento de valorização da política, os diagnósticos participativos explicitam que decisões que têm impacto direto sobre a vida das populações devem ser tomadas com o envolvimento de diferentes atores e saberes: as decisões técnicas não devem ter poder último de decisão pois que, muitas vezes, elas envolvem valores como justiça e eqüidade para os quais não há uma medida unívoca. É no enfrentamento dessas questões complexas que se abre espaço para o enraizamento de práticas democráticas. E aqui temos um gancho para outro aspecto que apareceu nas discussões e que também se relaciona com o modo pelo qual vimos compreendendo Tecnologia Social: o diagnóstico e a intervenção devem ser sistêmicos, ou seja, desde a formulação do problema a ser enfrentado até a constituição de estratégias de enfrentá-lo, é preciso ter em mente a complexidade da realidade. Ainda que entendamos TS como uma intervenção que procura resolver uma demanda social concreta, isso não significa renunciar a compreender que, muitas vezes, o 56 problema que se quer enfrentar está inserido num entrecruzamento de razões, heranças e esferas da vida da sociedade22. É então que se torna necessário o planejamento, para organizar as ações e também como metodologia de envolvimento de atores. Durante o planejamento, que muitas vezes envolve a realização de um diagnóstico participativo, as demandas sociais têm chance não apenas de aparecer, mas de serem preenchidas de significado (assim, por exemplo, “geração de emprego e renda” pode adquirir um sentido muito diferente em contextos metropolitanos ou em zonas semi-áridas), serem organizadas e hierarquizadas segundo os valores mais caros àquela população local. O planejamento (participativo, é claro), por meio das discussões que promove, envolve a população, envolve diferentes atores, orienta as ações ao longo do tempo (não porque seja estanque, mas porque no processo de sua elaboração constrói clarezas acerca do “onde queremos ir”), define estratégias e possibilita – como já foi ressaltado neste relatório – a visibilidade das conquistas. Todos os aspectos arrolados até agora dizem respeito a um elemento central para o conceito de TS, qual seja, o empoderamento dos atores e da população. Nesta forma de conceber TS, os processos e as intervenções sociais que contém elementos de TS devem – necessariamente – gerar outros “ganhos” que não somente os resultados concretos da ação. Desse modo, se uma técnica de produção de habitação de baixo custo, por exemplo, produz apenas “casas”, com toda a importância que se reconhece aos esforços pela solução de nossos graves problemas de habitação, não se trata de uma Tecnologia Social. Isto porque TS não está dissociada da transformação da vida dos indivíduos que participam do processo: TS implica, então, em empoderamento, em consolidação da democracia participativa e em ampliação dos limites da cidadania. Estes são os elementos que gostaríamos de sublinhar; trata-se do apanhado geral de elementos surgidos no primeiro encontro e acreditamos que eles iluminam algumas aprendizagens sobre como iniciar e sustentar ações coletivas de transformação social (que era a chave de entrada nas experiências tal como proposta neste primeiro seminário). Algumas questões permanecem abertas, devendo ser levadas em conta nas próximos encontros. Registro aqui algumas delas: como envolver e integrar pessoas que não estão em espaços já organizados? Algumas intervenções, pela complexidade de questões com as quais têm que lidar (sociais, econômicas, ambientais) enfrentam a necessidade de pôr em diálogo competências muito distintas e a questão que permanece sem resposta é onde achar tais competências? Como se relacionar com elas e como relacioná-las entre si de maneira a não criar profundas desigualdades de conhecimentos entre os participantes do processo? Ainda que este tenha sido apenas o primeiro encontro, desde já é possível recolher um importante aspecto sobre o conceito de TS: ela não se define apenas pelos resultados e impactos que produz, mas é principalmente um modo de fazer, permeado por valores tais As três experiências apresentadas no Seminário tinham como característica não se limitarem a uma única linha de ação, desenvolvendo um conjunto de ações que confluem para o resultado esperado. Isto só é possível por dois motivos: 1) houve a construção de um diagnóstico sobre a realidade na qual se desejava intervir e 2) houve planejamento de curto, médio e longo prazo, organizando as diversas demandas e conferindo prioridade a algumas ações, processo que se legitima por meio da discussão e da tomada coletiva de decisão. 22 57 como participação, disseminação de informações e conhecimento (o que significa também capacitação e empoderamento da população envolvida) e possibilitando a sustentabilidade do processo. É por essas características que é possível vincular o conceito de Tecnologia Social à ampliação da cidadania, pois a TS possibilita a aprendizagem, possibilita a apropriação – por parte daqueles que historicamente não têm acesso à Ciência e à Tecnologia – de instrumentos de conhecimento e transformação da realidade que ampliam os horizontes da ação social, resolvendo problemas e tornando possível a emergência de novas questões. A partir da experiência desse primeiro encontro, algumas coisas ficaram mais claras. O primeiro ponto a ser destacado é que o caminho para o desenvolvimento do conceito de Tecnologia Social e para a constituição de um material capaz de subsidiar ações de diferentes atores parece ser esse mesmo, qual seja, o de colocar na lupa experiências interessantes, que reconhecemos como portadoras/usuárias de Tecnologias Sociais. O segundo aspecto se refere aos rumos que vamos dar aos próximos encontros. Nas conversas com os participantes e também nas fichas de avaliação que preencheram, ficou evidente o interesse em aprofundar a reflexão sobre as relações entre Tecnologia, Ciência, Conhecimento e as práticas de ONGs, associações e cooperativas. Porém, também se evidenciou que a concomitância de dois modos de produzir conhecimento confunde um pouco o debate na medida em que os envolvidos tendem a assumir duas posições antagônicas: ou a defesa do sistema CT&I existente ou de crítica ao sistema CT&I pela dificuldade encontrada pela população e pelas organizações da sociedade civil em acessar suas instituições e dialogar com seus representantes. A partir de tal antagonismo, fica difícil identificar posições intermediárias, que propõem outras formas de diálogo. Desse modo, a proposta é que trabalhemos, nos dois próximos seminários, com “objetos” nos quais a discussão entre o que é ou não ciência e o que separa as ciências duras das humanas tenha menos chance de assumir a frente do debate. Vamos começar, então, examinando práticas de educação e, em seguida, examinaremos novas formas de agricultura familiar. Talvez olhando para modos de pensar e fazer tão distintos, alguns aspectos relativos a eles possam se tornar mais evidentes. Finalmente, parece oportuno ressaltar que o esforço pelo desenvolvimento do conceito a partir de encontros e diálogos se mostrou bastante interessante, justamente porque tornou possível a reflexão a partir de uma perspectiva plural: os participantes contribuem com suas experiências e preocupações, inserem novos elementos na pauta e, assim, propõe à Tecnologia Social problemas e desafios. Desse modo, parece-nos que o conceito de Tecnologia Social vai, realmente, sendo construído e apropriado coletivamente; vai sendo preenchido de significado a cada encontro e a cada plenária. A Tecnologia Social, afinal, busca ser um instrumento de transformação social, e nossa expectativa – ao adotar essa metodologia de desenvolvimento conceitual – é que ao final não tenhamos um conceito fechado, hermético, mas sim um conceito enraizado em práticas e sonhos de diversos atores que desejam pensar novas formas de organização social, política, ambiental e econômica. 58 ANEXO 3 Lista de Participantes Nome Adauto Nascimento Aelson S. de Almeida Alessandra de Azevedo Alexandre Berzaghi Alexandre Krügner Constantino Armelindo Passoni Carla Zago de Jesus Carolina Bratfisch Prado Célia Schlithler Christiane Nista Davis Sansolo Elisângela dos Santos Elisete Rasera Fabia Duarte Jimmy Chu Fa Jen José Pereira Josinaldo de Dousa Iracema Ribeiro de Almeida Luciana Royer Márcia Lopes Reis Maria Aparecida de Souza Mariane Ottatti Nogueira Maurício Carvalho Campos Nancy Franco Eugênio Perceval Nunes de Carvalho Filho Rafael D´Almeida Martins Raniere Pontes Renato Dantas Renato Hsien Rene Pugsley Ricardo Uhry Rodrigo Montaldi Morales Rogério Dardeau Ros Maria Zenha Ruth Simão Paulino Silvia Rangel Sonia Elizabeth Alves Sônia Fráguas de Souza Suely Ap. Ferreira Vanessa Santos Silveira Waleska Barbosa William Higa Instituição MCT DPCT/IGE/Unicamp A.N.I. Consultoria UNICAMP SDTS/PMSP Comitê D.S.A. Visão Mundial IDIS Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo Universidade Anhembi Morumbi CEPROM COOPRED A.N.I. Consultoria Comitê D.S.A. Consultor CAPINA ABIPTI CEF/ GIDUR Faculdade de Educação-USP ITS IPSO SECTI-Ba Instituto Pão de Açucar de Desenvolvimento Humano Instituto Pólis/Rede LogoLink Am. Latina Visão Mundial FINEP ACEAS/ NEMOS-PUC-SP CREA/PR Fundação Banco do Brasil Colméia CERIS IPT - ILP/ALESP Infothes CEF CEF projeto CRASP Cebracoop For All ABIPTI Fundacentro / MTE 59 Instituto de Tecnologia Social Conselho Deliberativo Uraci Cavalcante de Lima (Presidente) Maria Lúcia Barros Arruda (Vice-presidente) Rogério Cezar Cerqueira Leite Moysés Aron Pluciennik Jorge Nagle João Eduardo de M. P. Furtado Roberto Vilela de Moura Silva Conselho Fiscal Almir Roveran Marli Aparecida de Godoy Lima José Maria de Sousa Ventura Suplentes do Conselho Fiscal Antônio Lellis Maria Aparecida de Souza Débora de Lima Teixeira Gerente Executiva Irma Rossetto Passoni Gerente de Projetos Alcely Strutz Barroso Consultores Técnicos Gerson José Guimarães Martina Rillo Otero Fabiana Augusta Alves Jardim Philip Hiroshi Ueno Atendimento Edilene Luciana Oliveira Expediente Coordenação da atividade: Fabiana Augusta Alves Jardim Moderador e relator: Cassio Luiz de França Colaboração na relatoria e revisão: Fabiana Augusta Alves Jardim Equipe do ITS/CBRTS Alcely Strutz Barroso, Beatriz Mecelis Rangel, Edilene Luciana Oliveira, Fabiana Augusta Alves Jardim, Gabriela Aratangy Pluciennik, Gerson José da Silva Guimarães, Irma Rossetto Passoni, Juliana Lopes Moreira, Martina Rillo Otero, Philip Ueno Contato Instituto de Tecnologia Social OSCIP nº 13.0002.00/03, publicado no DOU em 26 de novembro de 2003. Rua Rego Freitas, 454 – cj. 73 Centro – São Paulo/SP CEP: 01220-010 Fone/Fax: (11) 3151-6499 e 3151-6419 e-mail: [email protected] www.itsbrasil.org.br Comunicação Beatriz Mecelis Rangel 60 61