Introdução aos Estudos literários II:
Literatura, Correntes teórico-críticas
Universidade Estadual
de Santa Cruz
Reitor
Prof. Antonio Joaquim da Silva Bastos
Vice-reitora
Profª. Adélia Maria Carvalho de Melo Pinheiro
Pró-reitora de Graduação
Profª. Flávia Azevedo de Mattos Moura Costa
Diretor do Departamento de Letras e Artes
Prof. Samuel Leandro Oliveira de Mattos
Ministério da
Educação
Ficha Catalográfica
I61
Introdução aos estudos literários II : Literatura, correntes teórico-críticas : Letras Vernáculas, módulo
3, volume 2 / Elaboração de conteúdo: Sandra Maria Pereira do Sacramento. – [Ilhéus, BA] : UABUESC, [2010].
148 p. : il. ; anexos.
Inclui bibliografias.
ISBN: 978-85-7455-194-4
1. Literatura – História e crítica. 2. Literatura – Estética. 3. Estruturalismo. I. Sacramento, Sandra Maria
Pereira do. II. Título: Letras Vernáculas : módulo 3,
volume 2.
CDD 809
Coordenação do Curso de Licenciatura em
Letras Vernáculas (EAD)
Prof. Dr. Rodrigo Aragão
Elaboração de Conteúdo
Profª. Drª. Sandra Maria Pereira do Sacramento
Instrucional Design
Profª. Msc. Marileide dos Santos de Olivera
Profª. Drª. Gessilene Silveira Kanthack
Revisão
Profª. Msc. Sylvia Maria Campos Teixeira
Coordenação de Design
Profª. Msc. Julianna Nascimento Torezani
Diagramação
Jamile A. de Mattos Chagouri Ocké
João Luiz Cardeal Craveiro
Capa
Sheylla Tomás Silva
EAD - UESC
Profª. Drª. Maridalva de Souza Penteado
LETRAS VERNÁCULAS
Coordenação UAB – UESC
Sumário
AULA I
A concepção clássica do artístico................................................................................... 13
1. INTRODUÇÃO........................................................................................................... 15
2. PLATÃO.................................................................................................................... 16
3. LONGINO................................................................................................................. 17
4. ARISTÓTELES........................................................................................................... 18
5. HORÁCIO................................................................................................................. 19
ATIVIDADE............................................................................................................... 21
RESUMINDO............................................................................................................. 21
REFERÊNCIAS........................................................................................................... 22
LEITURA RECOMENDADA............................................................................................ 22
ANEXO..................................................................................................................... 23
AULA II
A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX............27
1. INTRODUÇÃO...........................................................................................................29
2. A LIBERDADE ROMÂNTICA . ........................................................................................30
3. A VISÃO HISTORICISTA DAS TEORIAS CRÍTICAS DO SÉCULO XIX....................................42
ATIVIDADE................................................................................................................45
RESUMINDO..............................................................................................................45
REFERÊNCIAS............................................................................................................46
LEITURA RECOMENDADA.............................................................................................47
ANEXO......................................................................................................................48
AULA III
A estilística da langue e a da parole...............................................................................53
1 INTRODUÇÃO.............................................................................................................55
2 ESTILÍSTICA...............................................................................................................56
ATIVIDADE.................................................................................................................61
RESUMINDO...............................................................................................................62
REFERÊNCIAS.............................................................................................................62
LEITURA RECOMENDADA..............................................................................................62
ANEXO 1....................................................................................................................63
ANEXO 2....................................................................................................................66
AULA IV
O formalismo russo: a autonomia do literário . ............................................................. 69
1. INTRODUÇÃO........................................................................................................... 71
2. FORMALISMO RUSSO................................................................................................. 72
ATIVIDADE............................................................................................................... 77
RESUMINDO............................................................................................................. 78
REFERÊNCIAS........................................................................................................... 78
LEITURA RECOMENDADA............................................................................................ 79
ANEXO I................................................................................................................... 79
ANEXO II................................................................................................................. 80
AULA V
O new criticism: a visão imanentista da obra literária....................................................85
1 INTRODUÇÃO.............................................................................................................87
2 NEW CRITICISM..........................................................................................................88
ATIVIDADE.................................................................................................................91
RESUMINDO...............................................................................................................92
REFERÊNCIAS ............................................................................................................92
ANEXO I....................................................................................................................93
AULA VI
O estruturalismo........................................................................................................... 95
1. INTRODUÇÃO........................................................................................................... 97
2. ESTRUTURALISMO..................................................................................................... 98
ATIVIDADE..............................................................................................................105
RESUMINDO............................................................................................................105
REFERÊNCIAS..........................................................................................................106
LEITURA RECOMENDADA...........................................................................................106
ANEXO I..................................................................................................................107
ANEXO II................................................................................................................111
AULA VII
A estética da recepção................................................................................................ 115
1. INTRODUÇÃO.......................................................................................................... 117
2. ESTÉTICA DA RECEPÇÃO........................................................................................... 118
ATIVIDADE.............................................................................................................. 125
RESUMINDO............................................................................................................ 126
REFERÊNCIAS.......................................................................................................... 126
LEITURA RECOMENDADA........................................................................................... 127
ANEXO.................................................................................................................... 128
AULA VIII
A estética da recepção................................................................................................ 133
1. INTRODUÇÃO.......................................................................................................... 135
2. PÓS-ESTRUTURALISMO............................................................................................. 136
ATIVIDADE.............................................................................................................. 144
RESUMINDO............................................................................................................ 144
REFERÊNCIAS.......................................................................................................... 144
LEITURA RECOMENDADA........................................................................................... 145
ANEXO.................................................................................................................... 146
DISCIPLINA
INTRODUÇÃO AOS
ESTUDOS LITERÁRIOS II:
LITERATURA,
CORRENTES TEÓRICOCRÍTICAS
Profª. Drª. Sandra Maria Pereira do Sacramento
1
aula
Meta
A CONCEPÇÃO CLÁSSICA DO ARTÍSTICO
Objetivos
Mostrar os conceitos básicos que digam
respeito à Literatura, a partir da tradição
clássica, com Platão, Aristóteles, Longino e
Horácio.
Ao final desta Aula I, você deverá identificar
as várias concepções acerca do artístico à luz
de Platão, Aristóteles, Longino e Horácio.
1
Aula
AULA 1
A CONCEPÇÃO CLÁSSICA DO ARTÍSTICO
1 INTRODUÇÃO
Você, ao longo da Aula I, terá acesso às várias concepções
clássicas acerca do artístico. Platão, Aristóteles, Longino e Horácio
- para o último a literatura é capaz de despertar, no leitor, o êxtase
do sublime - se aproximam da visão conteudística da literatura.
Aristóteles, entretanto, prega a autonomia do artístico; ainda que
tenha sido discípulo do primeiro e procure superá-lo, em grande
medida, ainda que encerre seu pensamento, como os outros, aliás,
vinculado à procura do êidos, isto é, da harmonia perfeita do absoluto,
do mundo das essências.
•
•
•
•
•
o capítulo 2 de Gêneros Literários, de Angélica Soares;
o capítulo 3, mais especificamente, da p. 23 à p. 28, de Teoria da Literatura, de Roberto
Acízelo de Souza;
o capítulo 3, de Teoria da Literatura “ Revisitada”, de Magaly Trindade Gonçalves e Zina C.
Bellodi;
toda a obra Arte Retórica e Arte Poética de Aristóteles;
toda a obra A poética clássica de Aristóteles, Horácio, Longino*.
* As referências das obras encontram-se no final da Aula I.
UESC
Letras Vernáculas
15
ATENÇÃO
Antes do início desta Aula I, você deverá ter lido:
A concepção clássica do artístico
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
2 PLATÃO
Platão, filósofo do período clássico da Grécia Antiga, não deixou um
tratado específico sobre literatura. De algumas de suas obras, é que
conseguimos retirar ensinamentos pertinentes ao artístico, como nos
Diálogos, em Fedro, em Íon e em A República.
Nos Diálogos, já aparece a preocupação de formulação de
alguns postulados sobre a arte, em geral, e sobre a poesia, em
particular. Em Fedro, sugere que o poeta deve ser considerado um ser
inspirado, possesso, fora da racionalidade filosófica.
SAIBA MAIS
Em Íon, por outro lado, vê o poeta, o rapsodo, como
ΙΩΝ
— Íon — pertence ao primeiro grupo
dos diálogos de Platão e relata a conversa
entre Sócrates e Íon de Éfeso, um rapsodo
muito conhecido em Atenas. Não sabemos a
data exata da composição; mas, a partir de
diversas informações contidas no texto, é
possível situá-la entre 394 e 391 a.C.
Fonte: http://greciantiga.org/arquivo.asp?num=0337
um ser inspirado por um dom divino; tendo Sócrates
como personagem. Esse, em diálogo com Íon, defende
a opinião de que o rapsodo, ao declamar versos,
contagia os ouvintes com alucinações, pois a poesia,
sendo simulacro, constitui imitação da aparência e
não da realidade. Sócrates, para justificar o conceito
A República: no século IV a.C., em data
imprecisa, surgiu em Atenas a primeira
concepção de sociedade perfeita que se
conhece. Trata-se do diálogo “A República”
(Politéia), escrito por Platão, o mais brilhante
e conhecido discípulo de Sócrates. As ideias
expostas por ele - o sonho de uma vida
harmônica, fraterna, que dominasse para
sempre o caos da realidade - servirão, ao
longo dos tempos, como a matriz inspiradora
de todas as utopias aparecidas e da maioria
dos movimentos de reforma social, que,
desde então, a humanidade conheceu.
Fonte: http://educaterra.terra.com.br/
voltaire/politica/platao.htm
artístico de Platão, pergunta a Íon: Quem poderá
julgar melhor se Homero tratou corretamente da arte
da guerra, um rapsodo ou um general? Defendendo,
em seguida, em favor do general e não do rapsodo,
uma vez que o artista
não conhece a natureza e
mesmo a utilização das coisas.
A palavra simulacro guarda o significado de
simular, enganar. Para a literatura, é utilizada como
um princípio de imitação que o poeta faz da chamada
realidade:
Por outro lado, a imitação artística usa o lado ‘inferior’ das
faculdades humanas, e quando ela se dirige ao público é
essa parte inferior que ela procura estimular. Basicamente
a poesia é produto de um conhecimento falho, emprega
as faculdades inferiores da alma humana e estimula
exatamente o que há de ‘desprezível’ no espírito do público
(GONÇALVES; BELLODI, 2005, p.3).
A questão do simulacro foi estudada por Platão, quando fala em A
República sobre o problema do conhecimento na literatura. Para ele,
a imitação da chamada realidade, feita pela poesia, só alcançaria o
terceiro estágio da verdade; enquanto que o produto elaborado pelo
artesão ocuparia o segundo estágio, porque este se encontra mais
próximo da natureza reproduzida; cabendo, entretanto, somente ao
filósofo, o alcance do mundo das ideias, refutando, assim, o simulacro.
16
Em A República, Platão faz concessão ao poeta desde que esse
Módulo 3
I
Volume 2
EAD
1
esteja a serviço da educação do povo grego, admitindo somente a
poesia que se adequasse à lei e à razão humana, através de hinos aos
Aula
deuses e em louvor aos homens famosos. Em diálogo com Glauco,
afirma:
Quanto a seus protetores, que, sem fazer versos, amam
a poesia, permitiremos que defendam em prosa e nos
mostrem que não só é agradável, mas também útil, à
república e aos particulares para o governo da vida. De
bom grado os ouviremos, porque com isso só temos a
lucrar, se nos puderem provar que aí se junta o útil ao
agradável (PLATÃO, 1994, p.403).
E o princípio utilitarista da literatura ganhou acolhida entre
os romanos e influenciou a cultura ocidental posterior. Ao colocar,
portanto, o literário a serviço do ideológico, com o propósito de
ter existência reconhecida, é necessário ser útil à sociedade grega
na formação de seus concidadãos. A razão, assim, devia conter a
emoção, contrária a qualquer manifestação do desejo, fazendo,
entretanto, concessão ao belo, ao bom e ao justo, quando o artístico
deve estar em comum acordo com a ética.
3 LONGINO
Não se sabe se o pensador grego Longino, de fato, viveu. Fala-se de
um “pseudo-Longino” , entretanto, a obra Do sublime, a ele atribuída,
abriu uma nova concepção do literário, ainda que esteja vinculada ao
pensamento platônico, no que diz respeito à função utilitarista da
literatura.
Do sublime encerra a virtude da literatura como capaz de despertar,
no leitor, o êxtase do sublime, através de técnica artística adquirida
SAIBA MAIS
Glauco: em A República, aparece um grupo
de amigos: Sócrates,
dois irmãos de Platão Glauco e Adimanto - e
vários outros personagens, que serão provocados pelo mestre.
O diálogo vai tratar de
assuntos
relacionados
à organização da sociedade e à natureza
da política. Na República
ideal,
concebida
por Platão, o governo
deve estar nas mãos
dos filósofos, que são
aqueles mais próximos
da verdade, da ideia
do bem e da justiça.
A investigação platônica
utiliza o método dialético (palavra que tem,
na sua origem, a noção
de “diálogo”). Esse procedimento consiste em
apreender a realidade,
através
de
posições
contraditórias, até que
uma delas é finalmente
entendida como verdadeira e a outra como falsa. A dialética platônica
é um processo indutivo,
que vai da parte para o
todo.
Fonte: http://filosofandoehistoriando.blogspot.com/2009/08/
os-dialogos-de-platao.html
pelo trabalho e afinco do escritor. Longino destaca a importância na
ênfase dada, no texto, ao uso das palavras capazes de empreender
a reflexão no leitor:
Quando, pois, uma passagem, escutada muitas vezes por
um homem e sensato e versado em Literatura, não dispõe
a sua alma a sentimentos elevados, nem deixa no seu
pensamento matéria para reflexões além do que dizem
as palavras, e, bem examinada sem interrupção, perde
em apreço, já não haverá um verdadeiro sublime, pois
dura apenas o tempo em que é ouvida. Verdadeiramente
grande é o texto com muita matéria para reflexão, de
árdua ou, antes, impossível resistência e forte lembrança,
difícil de apagar (1981, p.76-7).
UESC
Letras Vernáculas
17
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
A concepção clássica do artístico
Assim, a leitura de uma obra bem elaborada, capaz de despertar
o êxtase sublime, faz-se ecoar por muito tempo na mente do leitor
atento, ao mesmo tempo em que se dinamiza a potencialidade do
artístico.
4 ARISTÓTELES
Aristóteles, discípulo de Platão, distancia-se do mestre em suas
colocações acerca do artístico. Para quem a literatura é verdadeira
e séria, por princípio, uma vez que o poeta ocupa-se do que poderia
ter acontecido, segundo a verossimilhança ou a necessidade, e não
com o que aconteceu como o faz o historiador. No capítulo IX da sua
Arte Poética, que nos chegou de forma incompleta, afirma “a poesia
é mais filosófica e de caráter mais elevado que a história, porque a
poesia permanece no universal e a história estuda apenas o particular
“(ARISTÓTELES, 1964, p. 278).
Aristóteles, então, destaca a autonomia do artístico, na
medida em que o vê como uma unidade, como um todo orgânico,
em transcendência com a realidade evocada. Por isso, o conceito de
cópia, de mímesis, deve ser entendido como uma espécie de recriação
não assujeitada aos princípios da racionalidade, uma vez que essa
é capaz de criar um mundo coerente em sua universalidade, com
harmonia e perfeição.
A catarse é outro conceito utilizado por Aristóteles, para definir
a purificação dos sentimentos: temor ou piedade, experimentados
pelo expectador, diante da tragédia. O autor propõe que:
[O] terror e a compaixão podem nascer do espetáculo
cênico, mas podem igualmente derivar do arranjo dos
fatos, o que é preferível e mostra maior habilidade no
poeta. [...] Como o poeta deve proporcionar-nos o prazer
de sentir compaixão ou temor por meio de uma imitação,
é evidente que essas emoções devem ser suscitadas nos
ânimos pelos fatos (ARISTÓTELES, 1964, p. 588).
Neste sentido, a obra de arte desperta o prazer e faz
melhorar o espírito. Aristóteles, ao contrário de Platão, que usa o
método dedutivo e normativo para falar da arte, não encerra, em
seus escritos, nenhum preceito a ser seguido pelo artista, é antes
ontológico e indutivo. E o princípio de imitação aristotélico liga-se às
formas literárias na poesia épica e na poesia em geral, na tragédia
e na comédia. Na poesia, ela ocorre de modo indireto, pela mediação
18
Módulo 3
I
Volume 2
EAD
dos atores.
socrático, isto é, a arte do diálogo. Em resposta a Platão, afirma que
Ontológico: que diz
respeito à ontologia. É a
parte da filosofia, chamada
de “filosofia primeira” por
Aristóteles, denominada,
posteriormente, de
metafísica (pura ou geral).
Etimologicamente, significa
a “ciência do ente”, isto é,
a doutrina do Ser supremo
ou divino.
a Retórica, em si, não é má, deve ser, antes, bem usada na ágora, a
Fonte: Dicionário de Filosofia,
1969, p.305.
Logo, Aristóteles inaugura uma concepção do literário, em
que a forma é valorizada em detrimento do conteúdo. Além da Arte
Poética, o filósofo nos deixou a Arte Retórica, em que são colocadas
questões atinentes à persuasão no texto literário, fora do contexto
judiciário. A Retórica, para ele, é comparável à Dialética, no sentido
serviço da democracia.
A Retórica é útil porque o verdadeiro e o justo o são, por
natureza, melhores que seus contrários. Donde se segue
que, se as decisões não forem proferidas como convém, o
verdadeiro e o justo serão necessariamente sacrificados:
resultado este digno de censura (ARISTÓTELES, 1964, p.
20).
Ágora: praça das antigas
cidades gregas, na qual se
fazia o mercado e onde se
reuniam, muitas vezes, as
assembleias do povo.
Fonte: Novo Dicionário Aurélio
da Língua Portuguesa - Aurélio
Buarque de Holanda Ferreira
Assemelha-se, portanto, à Dialética e sua tarefa não se resume
a persuadir, mas a discernir os meios a serem utilizados a propósito
de uma questão. A Retórica teve seguidores no mundo clássico e,
na Roma de Cícero, (séc. I a.C) ganhou destaque. Quintiliano, por
exemplo, escreveu Instituições oratórias já no século 1 da Era Cristã,
em que disserta sobre eloquência, através do uso de tropos como
metáfora, sinédoque, metonímia, alegoria, ironia, hipérbole e outros.
A tendência para a imitação é instintiva do homem, desde a infância. Neste ponto distingue-se de todos os outros
seres, por sua aptidão muito desenvolvida para a imitação (ARISTÓTELES, 1964, p. 266).
A comédia é imitação de maus costumes, não contudo de toda sorte de vícios, mas só daquela parte do ignominioso
que é ridículo. O ridículo reside num defeito e numa tara que não apresentam caráter doloroso ou corruptor
(ARISTÓTELES, 1964, p. 269).
5 HORÁCIO
Horácio é considerado o grande codificador das ideias platônicas
de cunho extraliterário, e dinamizador das ideias do filósofo grego
em toda a Europa, com o princípio de Docere cum delectare, isto é,
Ensinar deleitando, em que a literatura tem algo a ensinar para o seu
leitor. Horácio altera em grande medida os preceitos aristotélicos. E a
teoria desenvolvida durante o período clássico renascentista deve-se
ao que foi codificado por Horácio, poeta da Roma antiga.
UESC
Letras Vernáculas
19
SAIBA MAIS
Quanto à epopéia, por seu estilo corre parelha com a tragédia na imitação de assuntos sérios, mas sem empregar
um só metro simples e a forma narrativa. Nisto a epopéia difere da tragédia (ARISTÓTELES, 1964, p. 270).
Aula
1
narrativa; na tragédia e na comédia, de modo direto, através da ação
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
A concepção clássica do artístico
A ars poetica horaciana está encerrada na Epistola ad Pisones.,
carta escrita em hexâmetros dactílicos ao Cônsul romano Lúcio Pisão
e a seus filhos sobre teoria literária, pois esses manifestavam grande
SAIBA MAIS
Hexâmetro
Dactílico:
é
uma forma de métrica poética
ou esquema rítmico. É tradi-
interesse pelas artes e, em especial, pela literatura, tendo sido,
inclusive, preceptor dos infantes. Segundo Pires:
cionalmente associado à poe-
Com sentido altamente normativo, esta epístola é um
verdadeiro código de preceitos a serem seguidos pelos
que pretendiam produzir uma obra-de-arte literária. Sua
importância começou a ser reconhecida por Quintiliano –
algumas gerações mais tarde -, (...) (PIRES, 1989, p.19).
sia épica, tanto grega quanto
latina, como, por exemplo, a
Ilíada e a Odisséia de Homero
e a Eneida de Virgílio. Um dáctilo é uma sequência de três
sílabas poéticas, a primeira
longa e as duas seguintes
breves.
Portanto,
hexâmetro
o
verso
dactílico
ideal
consiste em seis (do grego
hexa) pés, cada um sendo
um
dactílico.
Tipicamente,
porém, o último pé do verso
não é um dactílico, mas sim
um espondeu ou um troqueu,
ou seja, a penúltima sílaba é
sempre longa e a última sílaba pode ser breve ou longa.
Fonte: http://greciantiga.org/
arquivo.asp?num=0161
O período clássico, a Idade Média e o Neoclassicismo, com
Boileau serão influenciados, sobremodo, pelos preceitos pragmáticos
horacianos de conceber o artístico.
A atenção dada à ordem e à
coerência no uso das palavras, bem como à unidade de tempo, lugar
e ação, fizeram-no ponto de referência para os neoclássicos.
E Rogel Samuel confirma a afirmação: “E a idéia horaciana
de que cada gênero deve ter um único assunto, um caráter, uma
linguagem e um metro
apropriado se tornou doutrina central na
crítica dos séculos XVII e XVIII”. (SAMUEL, 2002, p. 49).
A literatura aí é concebida como resultado de um domínio
técnico, ao qual se submete a inspiração, na junção, portanto,
entre talento e arte. Sugere àqueles, que se iniciem neste ofício, a
humildade para receber críticas e o uso do tempo para que o texto
possa ser guardado e avaliado posteriormente, de forma mais detida.
Em sua ars poetica, Horácio afirma:
No âmago das palavras, deverás também ser útil e
cauteloso e magnificamente dirás se, por engenhosa
combinação, transformares em novidades as palavras
mais correntes. Se por ventura for necessário dar a
conhecer coisas ignoradas, com vocábulos recémcriados e formar palavras nunca ouvidas [...] podes fazêlo e licença mesmo te é dada. Desde que a tomes com
discrição. Assim, palavras há pouco forjadas, em breve
terão ganho crédito se, com parcimônia, forem tiradas da
fonte grega.
http://www.latim.ufsc.br/986ED7F3-3F3A-4BC2-BBE3
Veja que, para o romano, o literário é consequência de um fazer
trabalhoso, que altera o sentido das palavras usadas na linguagem
corrente. O conceito de conotação, séculos mais tarde, cunhado pelo
estruturalista Roman Jakobson, já se encontra de forma rudimentar
em seus escritos.
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Módulo 3
I
Volume 2
EAD
Aula
1
ATIVIDADE
1. Quais os pressupostos teóricos de Platão apresentados nesta aula?
2. Em que aspecto Aristóteles se distancia da concepção artística platônica?
3. O que Platão fala acerca da poesia n’Os Diálogos, em Fedro, em Íon e n’A
República?
4. O que significa a expressão Docere cum delectare?
5. O que são mímesis e verossimilhança para Aristóteles?
6. Em que medida Longino se aproxima das ideias platônicas
acerca do artístico?
7. Por que, para Aristóteles, a Retórica se assemelha à Dialética socrática?
8. Horácio se aproxima das ideias platônicas acerca do artístico?
9. Boileau, responsável pela disseminação, na Europa, do preceito clássico acerca do
artístico, faz que colocações?
RESUMINDO
Você foi apresentado, nesta Aula I, às várias concepções clássicas
acerca do artístico. Deve atentar para o fato de que Platão inaugura o enfoque
do literário, pelo viés do conteúdo, tendo em Longino e em Horácio, da tradição
romana, seus seguidores, enquanto Aristóteles se distancia de seu mestre, ao
valorizar a autonomia do artístico.
UESC
Letras Vernáculas
21
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
A concepção clássica do artístico
ARISTÓTELES, HORÁCIO, LONGINO. A poética clássica. Tradução
de Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix/EDUSP, 1981.
REFERÊNCIAS
ARISTÓTELES. Arte Retórica e Arte Poética. Tradução de Antônio
Pinto de Carvalho. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1964.
ENCICLOPÉDIA Barsa. São Paulo: Melhoramentos, vol.15, 1966.
GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina C. Teoria da
Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.
Le Petit Larousse Illustré, Larousse. Paris: 1998.
PIRES, Orlando. Manual de Teoria e Técnica Literária. Rio de
Janeiro: Presença, 1989.
PLATÃO. A República. Tradução de Jair Lot Vieira. São Paulo: EDIPRO,
1994.
SAMUEL, Roger. Novo manual de teoria literária. Petrópolis:
Vozes, 2002.
SILVA, Vitor Manuel
Almedina,1975.
de
A.
Teoria da literatura. Coimbra:
SOARES, Angélica. Gêneros Literários. São Paulo: Ática, 2000.
SOUZA, Roberto Acízelo de. Teoria da Literatura. São Paulo: Ática,
2004.
LEITURA RECOMENDADA
ARISTÓTELES. Arte Retórica e Arte Poética. Tradução de Antônio Pinto
de Carvalho. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1964.
ARISTÓTELES, HORÁCIO, LONGINO. A poética clássica. Tradução de
Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix/EDUSP, 1981.
GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina C. Teoria da
Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.
SOARES, Angélica. Gêneros Literários. São Paulo: Ática, 2000.
SOUZA, Roberto Acízelo de. Teoria da Literatura. São Paulo: Ática, 2004.
22
Módulo 3
I
Volume 2
EAD
1
Aula
ANEXO
PLATÃO: nasceu em Atenas, em 428 ou 427 a.C., de pais aristocráticos
e abastados, de antiga e nobre casta. Ao seu temperamento artístico
deu, na mocidade, livre curso, que o acompanhou durante a vida toda,
manifestando-se na expressão estética de seus escritos. Suas obras até
hoje são objeto de análise e apreciação, a mais conhecida, entretanto,
é A República, em que defende, na forma de diálogo, um
modelo
aristocrático de poder, governado pelos intelectuais.
Fonte: http://www.mundodosfilosofos.com.br/platao.htm
Ilustração - Fonte: http://www.educ.fc.ul.pt/icm/icm99/icm21/images/images/Plato.gif
ARISTÓTELES: (384-322 a.C) foi um filósofo grego nascido na cidade
de Estagira, na Calcídica, Macedônia, distante 320 quilômetros de
Atenas. Essa cidade foi por muito tempo
colonizada pelos jônicos,
e, em virtude disto, ali se falava um dialeto jônico. O nome do pai de
Aristóteles era Nicômaco, um médico. Aristóteles foi criado junto com
um grupo de médicos, amigos de seu pai. Nicômaco chegou a servir a
corte macedônica, a serviço do rei Amintas, pai de Felipe, futuro rei.
Na sua juventude, teria jogado fora seu patrimônio e, aos dezoito anos,
foi para Atenas, a fim de aperfeiçoar sua espiritualidade, e lá ingressou
na Academia, onde se tornou discípulo de Platão, o que marcaria
profundamente sua biografia.
Fonte: hLttp://www.consciencia.org/aristoteles.shtml
Ilustração - Fonte: http://www.ilt.columbia.edu/Publications/Projects/digitexts/aristotle/bio_aristotle.html
HORÁCIO: (65-8 a.C.) poeta latino; nasceu em Venúsia. Dono de estilo
puro e rigoroso, onde a brevidade da metáfora, alia-se à surpreendente
economia verbal. Sua obra exerceu influência na literatura ocidental.
Fonte: Enciclopédia Barsa. vol.15, 1966, p.248.
Ilustração - Fonte: http://www.carpegeel.be/hora.aspx
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Letras Vernáculas
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Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
A concepção clássica do artístico
Quintiliano: nasceu em Calahorra, no ano de 35, e faleceu em Roma, no ano
96. Foi professor de retórica, filólogo conceituado e advogado. Recebeu toda
a sua educação em Roma, onde, mais tarde, abriu uma escola de Retórica.
Foi o primeiro professor a ser pago pelo Estado.
Fonte: Le Petit Larousse, 1998, p. 1617.
Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Calahorra,_estatua_de_Quintiliano.JPG
Boileau: Nicolas Boileau - (1636-1711), escritor francês, historiador de Luís
XIV, autor de uma célebre Arte Poética (1674), que contribuiu para disseminar
o ideal literário do classicismo em todo o Ocidente.
Fonte: Le Petit Larousse, 1998, p. 1190.
Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Nicolas_Boileau.jpg
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I
Volume 2
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Suas anotações
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aula
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A LIBERDADE ROMÂNTICA E A VISÃO HISTORICISTA
DAS TEORIAS CRÍTICAS DO SÉCULO XIX
Meta
Apresentar os conceitos básicos que digam respeito à
Literatura, de acordo com Immanuel Kant e Victor Hugo, na
busca do entendimento da poética e da liberdade românticas;
bem como
mostrar a influência da História nas teorias
críticas do século XIX, com Sainte-Beuve, Hyppolyte Taine,
Objetivos
Brunetière e Lanson.
Ao final desta Aula II, espera-se que você esteja dominando
teorias tributárias ao historicismo do século XIX e seus
representantes mais significativos
que
Romantismo e pelo Realismo-naturalismo.
respondem pelo
2
Aula
AULA 2
A LIBERDADE ROMÂNTICA E A VISÃO
HISTORICISTA DAS TEORIAS CRÍTICAS
DO SÉCULO XIX
1 INTRODUÇÃO
Nesta Aula II, vamos trabalhar com conceitos básicos que
digam respeito à Literatura, bem como a influência da História nas
teorias críticas do século XIX, com os conceitos de arte para Hegel,
Immanuel Kant e Victor Hugo, na busca do entendimento da poética
e da liberdade românticas; bem como a realista e a naturalista, com
Sainte-Beuve, Hyppolyte Taine, Brunetière e Lanson.
•
•
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•
•
os capítulos 7 e 8, de Períodos Literários, de Lígia Cademartori;
os capítulos 8 e 11, de Introdução à filosofia da arte, de Benedito Nunes;
o capítulo 6, especificamente, da p. 74 à p. 98 de Teoria da Literatura “revisitada”, de Maria
Magaly Trindade Gonçalves e Zina Bellodi;
O capítulo 3, especificamente, da p. 28 à p. 33, de Teoria da Literatura, de Roberto Acízelo
de Souza;
os capítulos 1, 2 e 3 de O Caráter Social da Ficção do Brasil, de Fábio Lucas*.
* As referências das obras encontram-se no final da Aula II.
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29
ATENÇÃO
Antes do início desta Aula II, você deverá ter lido:
Introdução aos estudos literários II:
literatura, correntes teórico-críticas
A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX
2 A LIBERDADE ROMÂNTICA
O Romantismo foi um movimento artístico, político e
filosófico surgido nas últimas décadas do século XVIII, na Europa,
que perdurou por grande parte do século XIX. Caracterizou-se como
uma visão de mundo contrária ao racionalismo, que marcou o período
neoclássico, e buscou um nacionalismo que viria a consolidar os
estados nacionais na Europa. E o princípio historiográfico da época
significou uma grande mudança de perceber o mundo, ao dar destaque
à vida coletiva e aos seus modos de atribuir sentidos comuns, pois
o homem percebeu que vive em comunidade, que lhe dá sentido de
existência. É o que diz Victor Manuel de A. Silva, em sua Teoria da
Literatura (1975):
Logo no dealbar do século XIX, Mme. de Staël demonstrou
na sua obra intitulada De la Littérature, que a literatura
é intimamente solidária com todos os aspectos da vida
coletiva do homem, verificando-se que cada época possui
uma literatura peculiar, de acordo com as leis, a religião e
os costumes próprios dessa época (SILVA, 1975, p. 444).
A partir do Romantismo, o homem percebe-se um ser histórico,
tendo a História e a Crítica literárias condicionadas a uma perspectiva
historicista de ver o fenômeno literário. A História Literária, por
exemplo, estará ligada à filologia em busca da reconstituição e
compreensão dos textos literários do passado e a crítica, por sua vez,
valorizará tudo o que diga respeito ao passado e à sua herança como
justificativa do presente.
Para Paul Valéry, não há possibilidade de definir o Romantismo,
sob pena de prejudicar o rigor lógico, pois o mesmo é multifacetado
em seus temas e motivos. Segundo Alfredo Bosi, em História Concisa
da Literatura Brasileira (1976), trata-se de um momento de definição
alinhada aos valores burgueses no Ocidente, a partir da Revolução
Francesa de 1789, ainda que essa tenha vários desdobramentos
posteriores no século seguinte. Para o estudioso, ocorre uma série
de mudanças, até então nunca vista na Europa, diante de uma nova
classe em ascensão. Neste momento, então:
Definem-se as classes: a nobreza, há pouco apeada
do poder; a grande e a pequena burguesia, o velho
campesinato, o operariado crescente. Precisam-se as
visões da existência: nostálgica, nos decaídos Ancien
Regime; primeiro eufórica, depois prudente, nos novos
proprietários; já inquieta e logo libertária nos que vêem
bloqueada a própria ascensão dentro dos novos quadros;
30
Módulo 3
I
Volume 2
EAD
imersa ainda na mudez da inconsciência, naquele para os
quais não soara em 89 a hora da Liberdade-IgualdadeFraternidade (BOSI, 1977, p.99).
por um lado, endossará as ideias correntes
burguesas
e
estará
também
disponível
para compor as comunidades imaginadas
(ANDERSON, 2008), não tarda a expor as
fraturas advindas da impossibilidade de
implementação
(2004),
em
sua
da utopia social. Weber
análise
clássica
sobre
a modernidade, vai dizer que essa já
nasceu sob a égide da crise, uma vez que
oportuniza a alteração da visão tradicional
do mundo, amparada sobremodo na religião,
substituída pela racionalização, colocando o
homem em três esferas, enquanto pai de
SAIBA MAIS
Mundo Reificado: para Marx e Engels, em A
Ideologia Alemã (1986), ao falarem na divisão do
trabalho, afirmam que, na produção mecanizada,
o operário serve à máquina, tornando-se
simples apêndice desta e o princípio subjetivo
da divisão do trabalho desaparece, em face da
objetivação do complexo de produção. Neste
momento, ocorre a alienação, o trabalhador é
distanciado daquilo que produz e o produto do
seu trabalho se torna reificado, isto é, coisa (do
Latim res,rei), porque passa a valer pela própria
realidade. Assim, a crise do artesanato, graças à
Revolução Industrial, com a produção em série,
traz desdobramentos para o social, o econômico
e o ideológico; estendendo-se, dessa sorte, à
arte e ao artista. Um exemplo do processo de
reificação, de objetificação do trabalhador, que
se torna um autômato, encontramos no filme
Tempos Modernos (1931), dirigido e encenado
por Charles Chaplin.
família, trabalhador e cidadão. Göethe, ao
Fonte: SACRAMENTO, 2004, p.45.
se referir à literatura do período, advoga para o clássico a saúde e,
para o romântico, a doença. Nesse processo, a ânsia de totalização
vai-se colocar para o artista que detém a noção de finitude, em uma
sociedade capitalista cada vez mais burocratizada.
A obra de arte, fruto de um olhar crítico ao que a circunda,
encarna a busca de totalidade, denunciadora de um mundo reificado,
uma vez que o eu não se encontra integrado a ele próprio e ao que
o cerca. A poética que marca o período romântico faz-se estruturada
Símbolo: aquilo que, por
um princípio de analogia,
sobre o símbolo, enquanto a pós-romântica é condicionada pela pre­
representa ou substitui
sença da alegoria. Tanto o símbolo, quanto a alegoria são tropos, isto
Fonte: Novo Dicionário
é, figuras de linguagem, que refletem um ideal de unidade, reivin­
dicado por uma época.
outra coisa.
Aurélio da Língua
Portuguesa - Aurélio
Buarque de Holanda
O símbolo estrutura-se, ainda, em uma dimensão analógica de
continuidade, enquanto a alegoria já indicia toda a impossibilidade
Ferreira
Alegoria: exposição de
reclamada pela busca de inteireza. Essa mostra as fraturas de uma
um pensamento sob forma
realidade que não foi capaz de gerar o bem-estar apregoado pelo
Fonte: Novo Dicionário
telos revolucionário, sintetizado na tríade Igualdade – Liberdade –
Fraternidade. Vale destacar que o processo revolucionário francês
estendeu-se por dez anos, sendo visto, por historiadores, em fases:
figurada.
Aurélio da Língua
Portuguesa - Aurélio
Buarque de Holanda
Ferreira
moderada (1789-1792), radial (1792-1794) e conservadora (17941799). Essa última abriu espaço para o golpe do 18 Brumário, em
alusão ao segundo mês do Calendário Revolucionário Francês, que
esteve em vigor na França de 22 de setembro de 1792 a 1831, com
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Letras Vernáculas
31
2
A literatura do período romântico, se,
Aula
Introdução aos estudos literários II:
literatura, correntes teórico-críticas
A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX
a posterior
SAIBA MAIS
ascensão do General Bonaparte,
que é considerado como o grande responsável
Telos: significa fim (finalidade), e que, por sua vez,
remete à ideia de felicidade, à busca da vida boa. O
Bem, em si mesmo, é o fim a que todo ser aspira,
resultando na perfeição, na excelência, na arte
ou na virtude. Todo ser dotado de razão aspira ao
Bem como fim que possa ser justificado pela razão.
Teleologia foi um termo criado por Wolff para indicar
“a parte da filosofia natural que explica os fins das
coisas” ( Log., 1728, Disc. prael.,§ 85). O mesmo
que finalismo (v.).
Fonte: Dicionário de Filosofia, 1998, p. 943.
pela consolidação dos ideais burgueses e
que
expandiu o militarismo da França e mesmo o da
Europa, de um modo geral.
Kant, em Crítica da faculdade do juízo
(1993), parte de dois tipos de finalidades para
a arte: a finalidade estética e a finalidade
teleológica. O juízo ou finalidade teleológica
diferencia-se do estético porque aquele age se­
Igualdade – Liberdade - Fraternidade: trilogia
atribuída ao
filósofo
Jean-Jacques Rousseau,
de uso corrente durante a Revolução Francesa, a
partir de 1789; quando se inicia um longo período
de convulsões políticas; com desdobramentos de
várias repúblicas, uma ditadura, uma monarquia
constitucional e dois impérios.
Fonte: http://www.mundodosfilosofos.com.br/lea4.htm
gundo as exigências da razão, voltado para um
objetivo, enquanto
para o segundo, o objeto
está relacionado a um fim subjetivo, de acordo
com o sentimento de eficácia, experimentado
pelo
homem.
Estas
finalidades,
ou
juízos
reflexionantes, ficam sob o signo do como se, isto
é, do pensamento hipotético das possibilidades,
como fator transcendental.
O ser humano é capaz de fazer um juízo para
qualificar determina­do objeto de Belo ou não, e
o
faz
desinteressada
e
contemplativamente,
sendo um prazer subjetivo, porém universal,
capaz de ser comunicá­vel. Assim, o Belo tem um
fim em si mesmo, pairando acima dos nexos de
causa-efeito, dos fins objetivos naturais; e, por
isso mesmo, nesta realidade, em suspenso, a
liberdade se instala, visto aguardar a afirmação
Figura 1: Reprodução da pintura de Delacroix La Libertè
guidant le peuple. Neste quadro, aparecem as classes
sociais, aliás, conceito firmado pelo Liberalismo, ainda que
se encontre, no mesmo, unidas por uma única causa: a
Liberdade.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Eug%C3%A8ne_Delacroix
do Espírito, detentor dos “fins ideais da ordem
ética” (NUNES, 1991, p. 50).
Kant (1993), como era idealista, advogava
para a ideia, interiorizada em cada um de nós, a
detenção da Beleza, uma vez que esta é univer­
sal, acontece com todos os seres humanos. E
o prazer estético só ocorre devido ao jogo de imaginação. Este
institui-se vindo do sin­gular, para, a partir daí, tentar extrair uma
regra universal.
Teleológico: diz-se de
argumento, conhecimento
Para Kant, o juízo estético ou de gosto está em conexão
com o comunal, isto é, com a dimensão intersubjetiva (= política),
ou explicação que relaciona
uma vez que, em sociedade, é ativado o sensus communis, isto é,
um fato com sua causa
uma concor­dância das sensações do que seja Belo e harmonioso,
final.
Fonte: Novo Dicionário Aurélio
da Língua Portuguesa - Aurélio
Buarque de Holanda Ferreira
32
e que depende do discurso para a sua comunicação, implicando a
interação dos homens “como criaturas limitadas à Terra, vivendo
Módulo 3
I
Volume 2
EAD
em comunidades, (...) cada qual precisando da companhia do outro,
mesmo para o pensamento” (ARENDT, 1993, p.37).
ampli­tude durante o Romantismo, porque está sustentado sob a
relativização do pensar, do criticar, em relação ao papel do filósofo ­e
extensivo a qualquer pensante, envol­vendo mesmo a própria poiésis
artística. Para Arendt,
Kant insurge-se contra a tradicional distinção hierárquica
que opõe a maioria filosofante à maioria ignorante,
redefinindo-a nos termos da distinção entre o ator
engajado na ação e o espectador crítico e imparcial que,
se permanece alheio ao engajamento, nem por isso
pretende-se portador de uma ver­dade contemplada [...]
(1993, p. 114).
Porque o ator é também espectador, visto ambos serem
capazes de dispor da mente pensante. Ator e espectador são manei­
ras de estar no mundo. Assim, o poeta, para o Romantismo, cons­
titui aquele ser superior que é capaz de apreender, em formas, nos
limites da legalidade da imaginação, o Absoluto, que detém toda a
sabedoria.
A obra de arte constitui aquilo que Walter Benjamin (1993)
cha­mou de princípio monadológico, isto é, a obra como mônada,
porque vale por si mesma, como objeto estético, mas não pode ser
prescindida da reflexão social, na qual se inscreve, sendo, portanto,
parte de um todo. O Romantizar está condicionado a um conceito que
o irmana a todo o ethos do período chamado Romantismo. E, apesar
de, a prin­cípio, lembrar devaneio, alucinação, o termo prende-se a
Romantisieren, que ganha uma amplitude de investigação. Assim,
Mônada:
por
ter
significado diferente de
Unidade (v.), esse termo
designa
uma
unidade
real inextensa, portanto
espiritual. Giordano Bruno
foi o primeiro a empregar
esse termo nesse sentido,
concebendo a M. Como o
minimum, como unidade
indivisível que constitui
o elemento de todas as
coisas (De minimo, 1591;
De Monade, 1591).
Fonte: ABBAGNANO, 1998,
p.680-690.
Ethos: na Sociologia, é
uma espécie de síntese
dos costumes de um povo.
O
termo
indica,
de
maneira geral, os traços
característicos
de
um
grupo, do ponto de vista
social e cultural, que o
diferencia de outros. A
palavra ethos tem origem
grega e significa valores,
ética, hábitos e harmonia.
É o “conjunto de hábitos
e ações que visam o bem
comum de determinada
comunidade”.
Ainda
mais especificamente, a
palavra ethos significava,
para os gregos antigos, a
morada do homem, isto
é, a natureza.
Fonte: http://www2.fcsh.unl.
pt/edtl/verbetes/E/ethos.htm
Novalis o tem “como a habilidade característica do gênio que vincula
os objetos exteriores às idéias ao manipular os objetos exteriores
como se fossem idéias” (apud SCHLEGEL, 1994, p. 12).
Assim, Romantizar e Bildung complementam-se, em termos de ação,
uma vez que o último vem de bilden (= cultivar), como ele­mento
de formação, tanto daquele que cultiva, quanto do objeto cultivado,
lembrando-nos a estreiteza desenvolvida entre o jardinei­ro e seu
jardim.
No cerne desta questão, encontramos um afã inerente à busca
do contínuo, da totalidade harmoniosa, sem que a categoria de sujeito
fique esquecida. E aspectos, aparentemente contrários, como vida e
espírito, genérico e individual, natureza e cultura, tendem a se fundir
num todo uníssono e orgânico, tornan­do-se este ideal romântico uma
espécie de religião secularizada.
UESC
Letras Vernáculas
33
2
O conceito de juízo reflexionante estético alcança uma
Aula
Introdução aos estudos literários II:
literatura, correntes teórico-críticas
A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX
Quando esta possibilidade não é alcançada, surge a ironia,
como índice do que Schiller chama de beleza lógica. Neste processo,
o in­divíduo abandona qualquer modelo interpretativo anterior, para,
munido de seus próprios aparatos intelectuais, apreender aquilo que
o cerca e ansiar o absoluto. E aí, arte e filosofia imbricam-se, porque
esta, como elemento especulativo, é vista em trajeto de mão dupla
de sensibilização do espírito e espiritualização do sensível, ao tentar
a viabilização do geral, universal, via particular. Particular o geral, eis
a audácia romântica.
Os românticos utilizaram-se, sobremodo, do fragmento, do
ensaio, como possibilidade, na finitude do provisório, do inacabado
concreto. O fragmento vale-se da reflexão estética, que é um modo
de interposição do sujeito cognoscente, entre o dado geral, firmado no
conceito, e a noção de belo, fruto do livre-jogo. Walter Benjamin, em
O Conceito de Crítica de Arte no Roman­tismo Alemão, reproduzindo
o famoso fragmento 116 das lições da Atenuam de Schlegel, expõe
acerca da poesia, como medium-de-reflexão, isto é, um meio, uma
forma de reflexão: “melhor flutuar pelas asas da reflexão poética no
intermédio, entre o exposto e o expositor, livre de todo interesse e
potenciar sempre novamente esta reflexão e multiplicá-la como série
infindável de espe­lhos” (1993, p.72).
Estriba-se o poeta romântico nos juízos reflexionantes
estéticos, tendo como princípio o dado sentido pelo sujeito. E as
regras aplicadas à arte, segundo Kant, são fornecidas pelo gênio,
que possui talento (= dom natural), anterior à obra realizada, na
esfera da natureza verdadeira. O artista gênio, ao representar uma
determinada realidade, altera papéis até então auto-delimitantes,
diante da vida, isto é, de espectador e ator.
Hannah Arendt aproxima o gênio do ator político, pela sua
to­mada de posição, pelo seu juízo crítico, ainda que aquele paire na
possibilidade de concretização, em seu ato investigativo. Neste senti­
do, o artista é espectador porque as decisões mais concretas não de­
pendem de si; ao mesmo tempo, é ator, ao expor sua subjetividade
na polis, sobressaindo a autonomia do ego, além e acima das leis que
faz. Para Walter Benjamin, em sua obra O Conceito de Crítica de Arte
no Romantismo Alemão, a arte deve ser vista na dimensão do mundo
das ideias e não entendida presa a uma circunstância:
Correspondendo a ela, portanto, o Ideal enquanto o a priori
do conteúdo agregado. A Idéia é a expressão da infinidade
da arte e de sua unidade. [...]. Como Idéia entende-se
neste con­texto o a priori de um método, [...]. De um tal
a priori parte a filosofia da arte de Göethe (BENJAMIN,
1993, p.72).
34
Módulo 3
I
Volume 2
EAD
Desse modo, Göethe aproxima-se do Ideal musal de arte dos
gregos, com a soma dos conteúdos puros, quando estes atribuíam às
musas a fonte de inspiração, em consonância com a ação de Apolo,
Apolo: filho de Zeus e
a preceitos naturais de origem e harmonia, somente intuíveis, não
Leto, e irmão gêmeo
alcançados pela obra de arte, sendo as únicas depositárias. Esses
da caça. Era um dos
conteúdos puros não podem ser unidos com a natureza mesma, pois
a obra de arte, por ser desinteressada, tem domínio nos seus próprios
conteúdos. Apesar de a natureza verdadeira não aparecer na obra,
paradoxalmente, só é intuível, imageticamente, aí. Neste sentido, o
de Ártemis, deusa
mais importantes e
multifacetados deuses do
Olimpo.
Fonte: http://www.
mundodosfilosofos.com.br/
apolo.htm
objeto artístico dá ao conteúdo, isto é, à representação do real, uma
forma comparável a ela mesma.
Portanto, o poeta como o gênio, ao vislumbrar a realidade
criticamente, insere-se em uma dimensão utópica, à procura de uma
or­dem social mais humanizada, constituindo-se na possibilidade
de reconciliação da alma com a essência e o sentido da vida, fato
só possível, para Lukács (1974), na Antiguidade Clássica, e, para
Benjamin, na fase pré-capitalista, em que as relações interpessoais
eram próximas, e havia a noção de totalidade, porque era estreita a
aproximação en­tre produtor e produto.
Estas constantes não guardam uma inteireza que, a princípio,
Modernidade: costuma
ser entendida como um
ideário ou visão de mundo
que está relacionada
ao projeto de mundo
moderno, empreendido
em diversos momentos ao
longo da Idade Moderna
e consolidado com a
poderia parecer; no entanto, sedimentam dados que nos autorizam
Revolução Industrial. Está
identificar, ao longo da Modernidade, um processo contínuo de
com o desenvolvimento do
dilaceramento da alma humana, diante de um mundo reificado, no
qual não existe qualquer possibilidade de integração e harmonia, uma
vez que até as relações interpessoais viram mercadoria.
normalmente relacionada
Capitalismo.
Fonte: http://base.d-p-h.info/
pt/fiches/premierdph/fichepremierdph-3602.html
O juízo de gosto ou estético kantiano, de acordo com o
posicionamento de H. Arendt, em Lições Sobre a Filosofia Política
de Kant (1993), abre uma possibilidade ao juízo político, sendo
enquadra­do, na esfera de mudanças, ao status quo, visto transitarem
pela doxa do contingente, ao contrário do juízo do entendimento ou
do imperativo categórico, calcado o primeiro no necessário racional e
o segundo, no sentido do dever. Assim, a poiesis e a política encon­
tram-se no movimento da descontinuidade, deixando abertura ao
inusitado utópico.
Esta visão dialética de Aufhebung (= superação) não deixa de
considerar todo o ganho da filosofia das Luzes, à qual se acrescenta
a possibilidade romântica, superando-se, assim, qualquer forma de
ex­clusão entre religião e ateísmo, de um lado, e espiritualismo e
materialismo­, de outro.
UESC
Neste sentido, o bildung (= educação), como cultivo, como
Letras Vernáculas
35
Aula
Estes puros conteúdos seriam arquétipos invisíveis, presos
2
possuidor dos puros conteúdos, limitados e harmônicos.
Introdução aos estudos literários II:
literatura, correntes teórico-críticas
A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX
autoentendimen­to, será utilizado como uma forma de alcançar
o outro, assumindo os artistas, assim, a missão de guias da
sociedade, a qual pretendem re­formar, uma vez que esses detêm “o
conhecimento dos segredos da Natureza” (NUNES,1991, p.52), ao
mesmo tempo em que a obra encontra-se livre de regras externas no
seu processo artístico em si, por transitar pelas representações da
imaginação, distantes do conhecimento ob­jetivo do Entendimento.
Hegel, em Fenomenologia do Espírito (1992), estabelece
a passagem da consciência imersa em si, destacando a inserção
do humano, a partir dessa última, na dimensão do históricocultural, chegando, no fim da obra, na revelação histórica do
Espírito Absoluto, alcançando as três formas de estar no mundo:
arte: (intuição), religião (representação) e filosofia (conceito). Ele
destaca a possibilidade de homologia entre o espírito e a cultura,
ou entre conceito e história, rumo a uma “história conceituada.”
Entretanto, subsume o sujeito cognoscente, aquele capaz de
conhecer, de entender, enquanto mediador, ao espírito absoluto,
impossibilitando-o de alterar o devir.
No cerne desta questão, encontramos um afã inerente ao
próprio homem, em busca do contínuo, da totalidade harmoniosa,
sem que a categoria de sujeito fique esquecida, algo aventado
como precípuo para a modernidade. A partir dessa, portanto, os
paradigmas passados foram questionados e a arte começa por
refletir a instabilidade do gênero humano, colocando-o em constante
conflito entre os valores anteriores e aqueles que traziam ares de
conquista e emancipação.
Dizemos isso, porque, por conta de movimentos sociais de
libertação, ainda no século XIX, como o Socialismo Utópico, o
Anarquismo, o Marxismo, a Comuna de Paris, o Cartismo, o
Ludismo, entre outros, há uma espécie de reversão da mímesis,
que passa a ceder espaço a uma arte participação, de recusa, uma
vez que o ideário de racionalidade não foi capaz de gerar o bemestar esperado, como apregoavam os líderes revolucionários da
aurora da Liberdade.
36
Módulo 3
I
Volume 2
EAD
SAIBA MAIS
Aula
2
Socialismo Utópico: o pensamento socialista foi primeiramente formulado por SaintSimon (1760-1825), Charles Fourier (1772-1837), Louis Blanc (1811-1882) e Robert Owen
(1771-1858). O socialismo defendido por estes autores foi, mais tarde, denominado
de socialismo utópico por seus opositores marxistas (os quais, por oposição, se
autodenominavam socialistas “científicos”), e vem do fato de seus teóricos exporem os
princípios de uma sociedade ideal sem indicar os meios para alcançá-la. O nome vem da
obra Utopia de Thomas More (1478-1535).
Fonte: http://www.mundoeducacao.com.br/historiageral/socialismo-utopico.htm
Anarquismo: é uma filosofia política que engloba teorias, métodos e ações que objetivam a
eliminação total de todas as formas de governo compulsório. De um modo geral, anarquistas são
contra qualquer tipo de ordem hierárquica que não seja livremente aceita e, assim, preconizam
os tipos de organizações libertárias.
Fonte: Enciclopédia Barsa, vol.15, 1966, p.24.
Marxismo: é o conjunto de ideias filosóficas, econômicas, políticas e sociais elaboradas
primariamente por Karl Marx e Friedrich Engels e desenvolvidas, mais tarde, por outros
seguidores. Baseado na concepção materialista e dialética da História, interpreta a vida social
conforme a dinâmica da base produtiva das sociedades e das lutas de classes daí consequentes.
O marxismo compreende o homem como um ser social histórico e que possui a capacidade de
trabalhar e desenvolver a produtividade do trabalho, o que diferencia os homens dos outros
animais e possibilita o progresso de sua emancipação da escassez da natureza, o que proporciona
o desenvolvimento das potencialidades humanas.
Fonte: Enciclopédia Barsa, vol.15, 1966, p. 315.
Comuna de Paris: foi a primeira experiência de ditadura do proletariado na história, governo
revolucionário da classe operária criada pela revolução proletária, em Paris, e durou 72 dias: de
18 de março a 28 de maio de 1871. A Comuna de Paris foi resultado da luta da classe operária
francesa e internacional contra a dominação política da burguesia. A causa direta do surgimento
da Comuna de Paris consistiu no agravamento das contradições de classe entre o proletariado e a
burguesia decorrente da dura derrota sofrida pela França, na guerra contra a Prússia (1870-1871).
O empenho do governo reacionário de Thiers da fazer recair o fardo dos gastos da guerra perdida
sobre os amplos setores da população originou um poderoso movimento das forças democráticas.
Fonte: http://www.marxists.org/portugues/dicionario/verbetes/c/comuna_paris.htm
Cartismo: caracteriza-se como um movimento social revolucionário inglês, ocorrido entre 1836
e 1850, tendo como base a carta escrita pelo radical William Lovett, intitulada Carta do Povo, e
enviada ao Parlamento Inglês. Nesta, encontram-se as seguintes reivindicações políticas: sufrágio
universal, eleições anuais, voto secreto e elegibilidade para os não proprietários.
Fonte: Enciclopédia Barsa, vol.15, 1966, p.100
Ludismo: é o nome do movimento contrário à mecanização do trabalho, trazida pela Revolução
Industrial. Adaptado aos dias de hoje, o termo ludita (do inglês luddite) identifica toda pessoa que
se opõe à industrialização intensa ou a novas tecnologias, geralmente, vinculadas ao movimento
anarcoprimitivista.
Fonte: http://www.suapesquisa.com/industrial/ludismo.htm
UESC
Letras Vernáculas
37
Introdução aos estudos literários II:
literatura, correntes teórico-críticas
A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX
Guardadas as discussões teóricas acerca da origem do
SAIBA MAIS
O Terceiro Estado:
na
França do Antigo Regime
(Ancien Régime) e durante a
Revolução Francesa, o termo
Terceiro Estado (fr. Tiers État)
indicava as pessoas que não
faziam parte do clero (Primeiro
Estado) nem da nobreza
(Segundo Estado). Desses
termos, veio o nome medieval
da
assembleia
nacional
francesa: os Estados Gerais
(fr. États Généraux), análogo
ao Parlamento britânico, mas
sem tradição constitucional
dos poderes parlamentares:
a monarquia francesa reinava
absoluta.
romance, para Julia Kristeva de Le texte du Roman, encontrase na narrativa pós-épica medieval, quando ocorre a dissolução
da comunidade europeia sustentada em uma economia natural
fechada e dominada pelo cristianismo (1970, p.19). Diderot, por
sua vez, não identifica qualquer vínculo entre o romance publicado,
a partir do século XVIII, com a produção estética daquele anterior.
E Kristeva identifica a mudança, que o romance tomou, em seus
temas,
após a Revolução Francesa. Para a teórica búlgara,
radicada na França:
Por um romance, entendeu-se até hoje um tecido de
acontecimentos quiméricos e frívolos, cuja leitura era
perigosa para o gosto e para os costumes. Gostaria muito
que se encontrasse um outro nome para as obras de
Richardson, que educam o espírito, que tocam a alma,
que respiram por todos os lados o amor do bem, e que são
chamadas de romance (KRISTEVA,1970, p. 29).
Fonte: http://variasvariaveis.sites.
uol.com.br/burguesia.html
Cromwell: segundo Hugo,
seria uma nova forma de
poesia fruto dos tempos
modernos que deveria superar
por
completo
as
velhas
manifestações clássicas que
se prendiam em demasia a
regras fixas. Para chegar até
seu objetivo principal, Hugo
realiza uma espécie de síntese
histórica em que filia as
formas de arte poética a três
momentos do desenvolvimento
histórico
da
humanidade,
ou melhor, a três idades do
mundo: os tempos primitivos,
de primeiros encantos com
o mundo, que seriam líricos
e teriam nas odes e hinos
suas formas de expressão;
os tempos antigos, em que
já haveria grandes impérios e
acontecimentos narrados em
poemas épicos; e, por fim, os
tempos modernos, que seriam
dramáticos.
Fonte: http://www.
espacoacademico.com.
br/046/46coliveira.htm
Napoleão via o romance como uma forma de ter os pés
no chão, assim, essa narrativa foi considerada como a “revolução
literária do Terceiro Estado”, durante a Restauração, iniciada
em 1840 e esteve, entre as mais publicadas. Foram publicados,
na França, durante o império napoleônico, anualmente, cerca de
quatro mil romances, representando uma dinâmica cultural antes
nunca vista no país!
Enquanto, no teatro, surge o drama, mistura da tragédia
com a comédia, do grotesco com o sublime. No famoso prefácio
do drama Cromwell, publicado em 1827, Victor Hugo coloca toda
a sua verve condoreira em defesa da inspiração e da autonomia
do artista.
Digamo-lo, pois, ousadamente. Chegou o tempo disso, e
seria estranho que, nesta época, a liberdade, com a luz,
penetrasse por toda a parte, exceto no que há de mais
nativamente livre no mundo, as coisas do pensamento.
[...] Não há regras nem modelos; ou antes, não há outras
regras senão as leis gerais da natureza que plainam sobre
toda a arte, e as leis especiais que, para cada composição,
resultam das condições de existência próprias para cada
assunto. [...] O poeta, insistamos neste ponto, não deve,
pois pedir conselho senão à natureza, à verdade, e à
inspiração, que é também uma verdade e uma natureza
(HUGO, 2002, p.30).
Na linha de raciocínio de Paul Valéry, de que não há possibilidade
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Módulo 3
I
Volume 2
EAD
de definir o Romantismo, sob pena de prejudicar o rigor lógico;
vamos agora, analisar textos, que representam a visão multifacetada
do romantismo. O primeiro deles
é um soneto do poeta brasileiro
2
Álvares de Azevedo, constante de Lira dos Vinte anos (1994):
Pálida, à luz da lâmpada sombria,
Aula
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!
Era a virgem do mar! Na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d’ alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!
Era mais bela! O seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...
Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti – as noites eu velei chorando,
Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!
A imagem evocada pelo eu lírico é da mulher amada em um
sonho. De forma não definida, concentrada, nas duas primeiras estrofes
do poema, essa mulher é descrita como estando mais distante, etérea,
difusa e inatingível: “lâmpada sombria”, “Sobre o leito de flores ela
dormia”, “lua por noite embalsamada”, “Entre as nuvens do amor
ela dormia”, “virgem do mar”, “escuma fria”, “Pela maré das águas
embalada!“, “ ... anjo entre nuvens embalada”, “ ... em sonhos se
banhava e se esquecia”. Por outro lado, nas estrofes seguintes, o ser
amado ganha uma dimensão mais próxima possível de identificação,
confirmando-se em: “... mais bela”, “seio palpitando”, “Negros olhos
as pálpebras abrindo...”, “Formas nuas no leito resvalando”,
“Não
rias de mim, meu anjo lindo!”, “... as noites eu velei chorando!”, “...
nos sonhos morrerei sorrindo!”. Apesar de os tercetos colocarem a
mulher mais concreta, ela continua inacessível e distante, pois tudo
não passou de um sonho.
Tal atitude romântica coloca o ser amado em uma dimensão do
sublime e da divindade; confirmando, assim, o que já foi dito acima,
sobre o alcance dos puros conteúdos, presos a preceitos naturais
de origem e harmonia, alcançados pela obra de arte. Os conteúdos
puros, de que fala Kant, em Crítica da faculdade do juízo (1993),
dão à arte uma dimensão desinteressada, porque essa não deve
remeter à realidade mais imediata. Nesta perspectiva, o poema em
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Letras Vernáculas
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Introdução aos estudos literários II:
literatura, correntes teórico-críticas
A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX
questão alcança o chamado princípio monadológico, Walter Benjamin
(1993) e, da mesma sorte, se confirma o anseio de Romantisieren
(romantizar) e de Bildung (cultivo) do eu poético e daquilo que ele
enaltece, no caso, a figura feminina.
Victor Hugo encerra, ao contrário dos poetas do ultraromantismo,
de cunho escapista, como Álvares de Azevedo, uma opção pelo embate,
frente aos problemas. Em Écrit, carta em versos, de 1846, no quinto
livro, Contemplations, opta pelo enfrentamento revolucionário:
Les Révolutions qui viennent tout venger,
Font un bien éternel dans leur mal passager...
A travers les rumeurs, les cadavres, les deuils,
L’écume, et les sommets qui deviennent écueils,
Les siècles devant eux poussent, désespérés,
Les Révolutions, monstrueuses marées,
Océans faits des pleurs de tout le genre humain.
[ As revoluções que vêm vingar tudo,/Fazem um bem
eterno no seu mal passageiro.../ Através dos rumores, dos cadáveres,
dos lutos,/ Da espuma e dos cumes que se tornam escolhos,/ Os
séculos empurram na sua frente, desesperados,/As revoluções, marés
monstruosas,/Oceanos feitos dos prantos de todo o gênero humano] (apud
PEYRE, 1971, p.87).
Assim, o poeta saúda as revoluções, vistas como solução
para os males da sociedade de então, com possibilidade de um futuro
glorioso para a França. Victor Hugo, assim como Lamartine, outro
artista francês, tiveram grande influência na poética de Castro Alves,
considerado como fiel herdeiro desses mestres. O baiano traz para a
Literatura Brasileira o espírito de combate, alinhado à linha platônica
de poetar; ainda que o Romantismo tenha se oposto ao modelo
clássico, como já vimos acima. Tal sinal foi repetido muito depois,
não mais à luz do Liberalismo, mas sim do Marxismo, por um Carlos
Drummond de Andrade, de A Rosa do Povo, entre outros.
A causa maior defendida por Castro Alves (1964) é a Liberdade
e atreladas a essa a Igualdade e a Fraternidade, universalizadas
para todo o gênero humano, todos, em uma coordenada do espírito
revolucionário de 1789. O poemeto épico O navio Negreiro do baiano
guarda o tom condoreiro, de acordo com o seu antecessor Victor
Hugo, isto é, com o uso de apóstrofes e hipérboles, que encerram a
indignação do eu poético, bem como de hipérbatos, com inversões
tão bruscas, que chegam a confundir o leitor.
No sexto canto, do poema, o eu poético consegue
empreender um embate crucial com os símbolos nacionais e históricos,
que, a princípio, deveriam ser utilizados como índices de referência e
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Módulo 3
I
Volume 2
EAD
distinção, mas são rechaçados, pelo que significam.
E existe um povo que a bandeira empresta
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se em uma festa
2
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! Meu Deus! Mas que bandeira é esta,
Aula
Que impudente na gávea tripudia?!...
Silêncio!... Musa! Chora, chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto...
A bandeira, sendo um símbolo nacional, em uma epopeia
clássica, ganharia a dimensão de enaltecimento e não de repulsa.
Tal negação se justifica porque são nações que, em nome do lucro,
- o tráfego dos navios negreiros rendia grandes somas – muitos
viviam deste comércio repugnante; tanto, na África, na Europa, nas
Américas, como no Brasil.
Na estrofe seguinte, ocorre a abominação ao próprio pavilhão
nacional. Especificamente, a instância poética se refere ao fato de o
país ter-se sagrado vencedor da Guerra do Paraguai, há pouco extinta
em março de 1870.
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra,
E as promessas divinas da esperança...
Tu, que da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança,
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...
Para, na estrofe seguinte, em tom de imprecação, através
de vocativos, exortar José Bonifácio de Andrade e Silva, patrono da
Independência do Brasil, a tomar uma providência efetiva contra a
escravidão e, ao mesmo tempo, vindo a condenar a própria descoberta
da América, quando diz:
Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu na vaga,
Como um íris no pélago profundo!...
... Mas é infâmia de mais... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo...
Andrada! Arranca este pendão dos ares!
Colombo! Fecha a porta de teus mares!
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Letras Vernáculas
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Introdução aos estudos literários II:
literatura, correntes teórico-críticas
A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX
Consequentemente, o regime feudal do Absolutismo, com seus
valores e crenças, que motivaram a expansão marítima europeia, são
colocados também em xeque, ao negar a dimensão histórica do feito
de Colombo em 1492; uma vez que o Liberalismo acenava então com
outra coordenada histórica, fundada em dados igualitários para toda
a humanidade.
3 A VISÃO HISTORICISTA DAS TEORIAS CRÍTICAS DO
SÉCULO XIX
Entre outros teóricos, destaca-se Sainte-Beuve (1804-1868)
como um dos principais críticos europeus do século XIX, que institui
o método biográfico de análise literária; porque para ele, é impossível
avaliar uma obra sem conhecer seu autor, seu perfil psicológico e
moral. Esteve muito comprometido com o Positivismo de Augusto
Comte, quando via a História em uma coordenada de progresso,
rumo ao estágio positivo da matematização da vida.
A par de Sainte-Beuve, ocorre a figura de Hyppolyte Taine
(1828-1893). Fortemente influenciado pelas ciências naturais e seus
métodos, em seu determinismo racionalista, e os estende à crítica
da Literatura. Nas palavras de Eduardo Portella et al., em
Teoria
Literária (1991):
A concepção literária de Taine exerceu uma larga influência
por seu caráter tão claro quanto racionalista e como se
depreende facilmente, o método literário científico parte
da obra como pretexto para se concentrar no autor e
sobretudo no homem e seu meio social. Predomina ainda
o historicismo em detrimento do literário (PORTELLA et
al.1991, p.23).
Logo, Taine passa a ver a obra artística como produto do meio,
da raça e do momento histórico, pois toda raça vive em um meio
natural e sociopolítico, que age sobre a mesma, em um momento da
evolução histórica.
O método biográfico, portanto, se volta para o meio, na busca
do entendimento da obra. Mas há ainda outros teóricos vinculados ao
historicismo evolucionista como Brunetière, quando viu os gêneros
literários como organismos vivos, com nascimento, crescimento e
morte. Lanson (1857-1934), por sua vez, estabeleceu seu método
de História Literária, semelhante ao filológico, trazendo à luz textos
europeus do passado ainda não estudados.
42
Módulo 3
I
Volume 2
EAD
Os filmes indicados abaixo se vinculam, por suas temáticas,
ao conteúdo estudado nesta Aula II.
Aula
2
SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS
(1989)
Direção: Peter Weir. Com Robin Williams, Robert Sean
Leonard, Ethan Hawke
Sobre uma escola conservadora dos Estados Unidos
dos anos 50 do século passado, cujo professor de
literatura persuade seus alunos a lerem poesia como
forma de libertação. E reproduz bem a ambiência
vivida pelos poetas do romantismo: Göethe, Schiller,
Novalis e Schlegel, durante o Império alemão do
século XVIII, quando se reuniam em cavernas, em
uma espécie de confraria, para lerem poesias.
O CORCUNDA DE NOTRE DAME
(1956)
Direção: Jean Delannoy. Com Anthony Quinn e Gina
Lollobrigida.
Baseado na obra homônima de Victor Hugo, publicada
em 1831, se centra em torno de três personagens:
a cigana Esmeralda, o corcunda Quasímodo e o
pároco Claude Frollo. Além da atenção ao enredo,
o romance faz menção à sociedade parisiense do
século XV, com a presença de destaque o rei Luís XI.
Tais opções de enfoque, utilizadas por Victor Hugo,
respondem pela ânsia de liberdade romântica em
relação aos clássicos. Trata-se de uma temática que
expõe as mazelas socias de uma época, mas ainda
presente no século XIX, quando a obra foi escrita.
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Introdução aos estudos literários II:
literatura, correntes teórico-críticas
A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX
SINFONIA DE PRIMAVERA
(1983)
Direção: Peter Shamony. Com Nastassja Kinski e
Rodolf Hoppe.
Baseado na vida do compositor romântico Robert
Schumann, reflete a ambiência da sociedade do
Império alemão, do século XVIII.
O CORTIÇO
(1977)
Direção: Francisco Ramalho Jr.Com Betty Faria,
Armando Bógus, Mário Gomes
Baseado na obra homônima do escritor maranhense
Aloísio de Azevedo. Obra e filme estão muito
comprometidos em interpretar a realidade à luz do
Naturalismo, em que o homem é visto como produto
do meio, da raça e do momento histórico, sem uma
perspectiva de subjetividade, bem próximo ao
animal.
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Módulo 3
I
Volume 2
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ATIVIDADE
Aula
2
1 Por que, para Paul Valéry, não há possibilidade de definir o Romantismo?
2 Kant, em A Crítica da faculdade do juízo (1993), afirma que a arte
possui dois tipos de finalidade: a finalidade estética e a finalidade
teleológica. Explique.
3 Como Kant define o Belo, a Beleza?
4 Disserte acerca da seguinte afirmação, feita durante a Aula II: A
poética que marca o período romântico faz-se estruturada sobre o
símbolo, enquanto a pós-romântica é condicionada pela pre­sença da
alegoria. Estes refletem um ideal de unidade, reivin­dicado por uma
época.
5 Qual a concepção de arte em Fenomenologia do Espírito de Hegel?
6 É possível estabelecer um elo entre os puros conteúdos e o desinteresse
artístico defendido por Kant?
7 De que modo as teorias de Sainte-Beuve, Brunetière, Lanson e de
Taine estão em sintonia com a época em que surgiram?
8 Por que o romance foi considerado a “revolução literária do Terceiro
Estado”?
9 Por que Victor Hugo insurge-se contra o modelo clássico?
10 De que forma o historicismo do século XIX influencia a crítica literária
daquele momento?
RESUMINDO
Espera-se que você, ao final da Aula II, tenha apreendido os
conceitos básicos que digam respeito à Literatura, os conceitos de arte
para Immanuel Kant e Victor Hugo, na busca do entendimento da poética
e da liberdade românticas; bem como a influência da História nas teorias
críticas do século XIX, com Sainte-Beuve, Hyppolyte Taine, Brunetière e
Lanson.
UESC
Letras Vernáculas
45
Introdução aos estudos literários II:
literatura, correntes teórico-críticas
A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes,
1998.
REFERÊNCIAS
ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas. Tradução de Denise
Bottman. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
ARENDT, Hannah. Lições Sobre a Filosofia Política de Kant. Tradução
de André Duarte de Macedo. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1993.
AZEVEDO, Álvares. Lira dos vinte anos. Rio de Janeiro: Garnier,1994.
BENJAMIN, Walter. O Conceito de Crítica de Arte no Romantismo
Alemão. Tradução de Marcio Seligmann-Silva. São Paulo: EDUSP,
Iluminuras, 1993.
BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira.
Paulo: Cultrix, 1976.
São
BRUGGER, Walter. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Herder, 1969.
CADEMARTORI, Lígia. Períodos Literários. São Paulo: Ática,1997.
CALVET, Jean. Manuel illustré d’histoire de la littérature française.
Paris: J. de Gigord, 1966.
Enciclopédia Barsa. São Paulo: Melhoramentos, vol.15, 1966.
GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da
Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.
Grande Dicionário Delta Larousse. Editora Delta: Rio de Janeiro, 1973.
HEGEL, F. Fenomenologia do espírito. Tradução de Paulo Meneses.
Petrópolis: Vozes, 1992.
HUGO, Victor. Do grotesco e do sublime: tradução do “Prefácio de
Cromwell” Tradução de Celia Berretini. São Paulo: Perspectiva, 2002.
HUISMAN, Denis. Dicionário de Obras Filosóficas. São Paulo: Martins
Fontes, 2000.
KANT, Immanuel. Crítica da faculdade do juízo. Tradução de Valério
Rohden e Antonio Marques. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1993.
KRISTEVA, Júlia. Le texte du roman. The Hague: Mouton, 1970.
LUCAS, Fábio. O Caráter Social da Ficção do Brasil. São Paulo: Ática,
1985.
LUKÁCS, Georg. L’âme et les formes. Paris: Gallimard, 1974.
46
Módulo 3
I
Volume 2
EAD
NUNES, Benedito. Introdução à filosofia da arte. São Paulo: Ática, 1991.
SACRAMENTO, Sandra. Nação, Identidade e Gênero na Literatura
Brasileira. Rio de Janeiro: Caetés, 2004.
SCHILLER, Friedrich. A educação estética do homem, numa série
de cartas de Friedrich Schiller. Tradução de Roberto Schwarz; Márcio
Suzuki. São Paulo: Iluminuras: 1995.
SCHLERGEL, Friedrich. Conversa sobre a poesia e outros fragmentos.
Tradução de Victor-Pierre Stirnimann. São Paulo: Iluminuras: 1995.
SILVA, Vitor Manuel de A. Teoria da literatura. Coimbra: Almedina, 1975.
SOUZA, Roberto Acízelo de. Teoria da Literatura. São Paulo: Ática, 2004.
LEITURA RECOMENDADA
CADEMARTORI, Lígia. Períodos Literários. São Paulo: Ática, 1997.
GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da
Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.
LUCAS, Fábio. O Caráter Social da Ficção do Brasil. São Paulo:
Ática, 1985.
NUNES, Benedito. Introdução à filosofia da arte. São Paulo: Ática,
1991.
SOUZA, Roberto Acízelo de. Teoria da Literatura. São Paulo: Ática,
2004.
UESC
Letras Vernáculas
47
Aula
REFERÊNCIAS
PORTELLA, Eduardo, et al. Teoria Literária. Rio de Janeiro: Tempo
Brasileiro, 1991.
2
PEYRE, Henri. Qu’est-que c’est le Romantisme? France: Presses
Universitaires de France, col. SUP, 1971.
Introdução aos estudos literários II:
literatura, correntes teórico-críticas
A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX
ANEXO
Kant: Immanuel Kant ou Emanuel Kant (Königsberg, 22 de abril de
1724 — Königsberg, 12 de fevereiro de 1804) foi um filósofo alemão,
geralmente considerado como o último grande filósofo dos princípios da
era moderna, indiscutivelmente um dos seus pensadores mais influentes.
A filosofia de Kant nos surge como uma filosofia essencialmente trágica,
já que afirma simultaneamente a necessidade da natureza (na Crítica
da Razão Pura) e a exigência de uma liberdade absoluta (na Crítica da
Razão Prática). Em sua terceira grande obra, A Crítica do Juízo, Kant se
esforça por mostrar a possibilidade de uma reconciliação entre o mundo
natural e o da liberdade. A natureza talvez não seja apenas o domínio do
determinismo, mas também o da finalidade que aparece notadamente
na organização harmoniosa dos seres vivos.
Fonte: http://www.mundodosfilosofos.com.br/kant2.htm
Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File: Immanuel_Kant_%28painted_portrait%29.jpg
Paul Valéry: Paul Ambroise Valéry (Sète 1871 – Paris 1945) foi um
filósofo, escritor e poeta francês da escola simbolista, cujos escritos
incluem interesses em matemática, filosofia e música; autor de, entre
outras obras, de Le Jeune Parque (1917) e Charmes (1922).
Fonte: Grande Dicionário Delta Larousse, 1973, p. 2014.
Ilustração - Fonte:http://www.ts4.com/Quotes/QuotePaulValery.html
Weber: Maximillian Carl Emil Weber (Erfurt, 21 de abril de 1864 — Munique,
14 de junho de 1920) foi um intelectual alemão, jurista, economista e
considerado um dos fundadores da Sociologia. Autor de Ética Protestante
e o Espírito do Capitalismo (1905), Cientista e o Político (1921), Ensaios
sobre a Teoria da Ciência (1965).
Fonte: HUISMAN, 2000, p. 609.
Ilustração - Fonte:http://www.ocoruja.com/index.php/2009/max-weber/
Arendt: Hannah Arendt (Linden, 14 de outubro de 1906 — Nova Iorque,
4 de dezembro de 1975) foi uma teórica política alemã, muitas vezes
descrita como filósofa, apesar de ter recusado essa designação. Emigrou
para os Estados Unidos, durante a ascensão do nazismo, na Alemanha.
Entre suas obras de mais destaque estão Origens do Totalitarismo (1951)
e A condição humana (1959).
Fonte: http://www.mundodosfilosofos.com.br/a-condicao-humana-hannah-arendtt.htm
Ilustração - Fonte: http://filosofiaportal.blogspot.com/
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Módulo 3
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Volume 2
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Novalis: Georg Philipp Friedrich von Hardenberg (Oberwiederstedt, Harz,
2 de maio de 1772 — Weißenfels, 25 de março de 1801), Freiherr (Barão)
von Hardenberg, mais conhecido pelo pseudônimo Novalis, foi um dos
mais importantes representantes do romantismo alemão de finais do
2
século XVIII e o criador da flor azul, um dos símbolos mais duráveis do
Aula
movimento romântico.
Fonte: BRUGGER, 1969, p.498.
Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Novalis-1.jpg
Schiller: Johann Christoph Friedrich von Schiller, enobrecido em 1802 (10
de novembro de 1759 em Marbach am Neckar — 9 de maio de 1805 em
Weimar), mais conhecido como Friedrich Schiller, foi um poeta, filósofo e
historiador alemão, e é tido como o mais importante dramaturgo alemão.
Schiller foi um dos grandes homens de letras da Alemanha do século
XVIII, e juntamente com Göethe, Wieland e Herder é representante do
Romantismo alemão e do Classicismo de Weimar. Sua amizade com Göethe
rendeu uma longa troca de cartas que se tornou famosa na literatura
alemã. Sua poesia também é famosa, como por exemplo, a Ode à Alegria
(An die Freude), que inspirou Ludwig van Beethoven a escrever, em 1823,
o quarto movimento de sua nona sinfonia.
Fonte: SCHILLER, 1995, p. 11-26.
Ilustração - Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/File:Friedrich_schiller.jpg
Schlegel: Friederich von Schlegel foi influenciado pela filosofia de
Fichte. Em 1798 tornou-se companheiro (casado só em 1804) de
Dorothea Veit (1763-1839), filha do filósofo judeu Moses Mendelssohn,
cujo
gosto
literário
o
fortaleceu
nas
convicções
românticas.
Suas críticas magistrais do Wilhelm Meister, de Göethe, e de peças de
Shakespeare foram incluídas no volume, editado juntamente com August
Wilhelm Schlegel, Interpretações e críticas.
Fonte: http://educacao.uol.com.br/biografias/friedrich-schlegel.jhtm
Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Friederich_von_Schlegel.jpg
Göethe: Johann Wolfgang Von Göethe (1749-1832) foi um importante
romancista, dramaturgo e filósofo alemão. Fez parte de dois movimentos
literários
importantes:
romantismo
e
expressionismo.
Apresentou
também um grande interesse pela pintura e desenho. Juntamente com
Schiller foi um dos líderes do movimento literário romântico alemão
Sturm und Drang.
Fonte: http://www.suapesquisa.com/pesquisa/goethe.htm
Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Johann_Wolfgang_von_Goethe_%28Josef_
Stieler%29.jpg
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Introdução aos estudos literários II:
literatura, correntes teórico-críticas
A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX
Lukács: Lukács György foi um filósofo húngaro de grande importância
no cenário intelectual do século XX. Segundo Lucien Goldmann, Lukács
refez, em sua acidentada trajetória, o percurso da filosofia clássica
alemã: inicialmente um crítico influenciado por Kant, depois o encontro
com Hegel e, finalmente, a adesão ao marxismo. Seu nome completo era
Georg Bernhard Lukács von Szegedin, em alemão, ou Szegedi Lukács
György Bernát, em húngaro.
Fonte: http://www.unicamp.br/cemarx/marianorma.htm
Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Luk%C3%A1cs_Gy%C3%B6rgy.jpg
Hegel: Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770 —1831) foi um filósofo
alemão. Recebeu sua formação no Tubinger Stift (seminário da Igreja
Protestante em Wurttemberg). Era fascinado pelas obras de Spinoza, Kant
e Rousseau, assim como pela Revolução Francesa. Muitos consideram
que Hegel representa o ápice do idealismo alemão do século XIX, que
teve impacto profundo no materialismo histórico de Karl Marx.
Fonte: BRUGGER, 1969, p. 498 - 499.
Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Georg_Wilhelm_Friedrich_Hegel00.jpg
Julia Kristeva: linguista e crítica literária de expressão francesa nascida
em 1941, em Sófia, na Bulgária. Estudou a literatura a partir de elementos
da linguística e da psicanálise.
Fonte: http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/E/estruturalismo.htm
Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Julia_Kristeva_p1200568.jpg
Diderot: Denis Diderot, escritor francês (Langres, 1713 – Paris 1784).
Filho da pequena-burguesia abastada, estudou em Londres e Paris, sem
escolher profissão determinada, reunindo conhecimentos enciclopédicos.
Ganhou a vida com trabalhos literários subalternos. Publicando, entre
outras obras, Pensées philosophiques (1746), tornou-se suspeito às
autoridades, como materialista e ateu; sua obra prima, entretanto, foi
a Encyclopédie (1750-1772,) a qual reportou todo o conhecimento que
a humanidade havia produzido até sua época. Como crítico de arte, foi
o primeiro leigo a se dedicar à técnica da pintura. Seu ensaio sobre a
arte de atuar constitui a primeira contribuição de valor à crítica do teatro
moderno.
Fonte: Grande Dicionário Delta Larousse, 1973, p.2184.
Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Denis_Diderot_%28Dimitry_Levitzky%29.jpg
50
Módulo 3
I
Volume 2
EAD
Victor Hugo: escritor francês (Bersançon 1802 – Paris 1885). De 1817
a 1830, é um jovem poeta de carreira, bem dotado, bem pensante e
monarquista. Publica em 1822, Odes
et poésies diverses, quatro
meses antes de se casar com Adèle Fouchet. Em 1827, publica o drama
2
Cromwell. Os acontecimentos políticos de 1830, o desentendimento
conjugal, a ligação amorosa com Jouliette Drouet (1833) determinam
se afirma cada vez mais chefe do movimento romântico.
Aula
profundamente mudanças nas idéias e na sensibilidade do escritor, que
Em 1841,
é eleito para a Academia Francesa de Letras. Entre suas obras estão
coletâneas líricas, peças de teatro e romances; com destaque para o
drama Hernani, de 1830; o romance Notre Dame de Paris, de 1831; e
Les Misérables, de 1862.
Fonte: Grande Dicionário Delta Larousse, 1973, p. 3423.
Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Victor_Hugo_001.jpg
Hyppolyte Taine: foi crítico, historiador e filósofo francês. Foi o filósofo
do naturalismo. Para ele, se conhecemos a raça, o meio e o momento
histórico, em que o homem foi criado, podemos saber seu pensamento
e seus sentimentos. Suas obras mais importantes são: De l’ intelligence
(1870) e Philosophie da L’ Art (1882).
Fonte: CALVET, 1966, p. 770-771.
Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Hippolyte_taine.jpg
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Suas anotações
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aula
3
Meta
A ESTILÍSTICA DA LANGUE E A DA PAROLE
Objetivos
Enfocar os conceitos que envolvem a Estilística ligada
à langue e aquela que prioriza a parole.
Ao final desta Aula III, você deverá conhecer os pressupostos teóricos da corrente de abordagem do literário: Estilística.
3
AULA 3
Aula
A ESTILÍSTICA DA LANGUE A A DA PAROLE
1 INTRODUÇÃO
Nesta Aula III, vamos estudar a corrente teórica Estilística.
Os teóricos Charles Bally, Eugenio Coseriu, Jules Marouzeau
ênfase, em seus estudos,
dão
à abordagem que privilegia a langue;
ao contrário de Benedetto Croce, Karl Vossler, Leo Spitzer, Dámaso
Alonso e Amado Alonso que veem a parole como princípio explicativo
em suas análises.
•a obra A Linguagem Literária, de Domício Proença Filho;
•o capítulo 15 de Teoria da literatura, de Victor Manuel de A. Silva;
•o capítulo 1, especificamente, da p. 28 à p. 30, de Teoria Literária de Eduardo Portella, et al;.
•o capítulo 7, especificamente, da p.171 à p.178, de Teoria da Literatura “revisitada” de Maria
Magaly Trindade Gonçalves e Zina Bellodi.*
•
* As referências das obras encontram-se no final da Aula III.
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Letras Vernáculas
55
ATENÇÃO
Antes do início desta Aula III, você deverá ter lido:
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
A Estilística da langue e a da parole
2 ESTILÍSTICA
SAIBA MAIS
Langue e Parole: língua
versus fala (discurso) é a
dicotomia basilar da linguística saussuriana. Fundamenta-se na oposição
social/individual, extraída
da Sociologia: a língua é
da esfera social, ao passo
que a fala é da esfera individual. Para o mestre
genebrino, linguagem é a
faculdade que o indivíduo
tem de falar uma língua.
O termo estilística, em outra acepção, já havia sido empregado
no século XVIII pelo filósofo alemão Novalis, como sinônimo de
retórica. No século XX, porém, na esteira do Estruturalismo de
Ferdinand de Saussure, Charles Bally, seu aluno e genro, a partir do
curso de férias ministrado pelo mestre, na Universidade de Genebra,
institui a Estilística moderna, centrada na langue, enquanto expressão
de sentimentos, ao contrário do enfoque linguístico, que se preocupa
somente com a parte intelectual do nosso ser pensante. Para Bally:
A estilística estuda, portanto, os fatos de expressão
da linguagem organizada sob o ponto de vista do
seu conteúdo afetivo, i. e., a expressão dos fatos
da sensibilidade através da linguagem e a ação dos
fatos de linguagem sobre a sensibilidade (BALLY, s/d,
p.16).
Fonte:
http://www2.fcsh.unl.pt/
edtl/verbetes/L/lingua.htm
Por fato estilístico, se entende como a menor unidade do texto.
O autor, ao fazer determinadas escolhas, entre as previsíveis no código
linguístico, opta por um determinado fato estilístico. Entretanto, Bally
não se dedicou ao texto literário, suas análises descritivas centraramse apenas nos recursos estilísticos, em seu sistema de expressão,
colocados pela língua, de modo geral, à disposição dos falantes como
expressão de sentimento.
A Estilística, como a entende o suíço, está para a língua e não
para a fala e, neste sentido, para a norma, previamente, estabelecida
para o usuário da língua. Nas palavras de Eugenio Coseriu:
[Trata-se do] estudo das variantes normais com
valor expressivo-afetivo [no] estudo da utilização
estilística normal das possibilidades que oferece um
sistema daqueles elementos que são normalmente,
na língua de uma comunidade portadores de um
particular valor expressivo (1962, p.105).
Com Jules Marouzeau, ainda que seu enfoque permanecesse
no nível da língua e não da fala, a Estilística moderna passa a incidir
suas análises, em certa medida, no texto literário. Em uma perceptiva
generalizante, de cunho científico, não se detém em um autor, mas
em obras referentes a uma época de uma determinada literatura,
a fim de apreender aspectos do estilo, como o uso de expressões,
que remetem a questões concretas ou abstratas, de clichês, de
construções frasais ou mesmo o vocabulário que aparente imitações
de autores ou supostas influências, entre outros.
56
Módulo 3
I
Volume 2
EAD
Na linha oposta à Estilística da langue, de filiação linguístico-
positivista, surge a Estilística da parole, fortemente influenciada
pela linguística idealista de raiz romântica. Entre seus grandes
representantes estão: Benedetto Croce, Karl Vossler, Leo Spitzer,
Dámaso Alonso e Amado Alonso.
Benedetto Croce teve o grande mérito de ter tirado a Estética
do âmbito da Filosofia. Para quem a arte constitui um conhecimento
intuitivo, fora da esfera intelectual, pois seus objetivos são intrínsecos
a ela mesma.
A arte não está, como a família platônica entende, a serviço
3
Aula
da moral, ou de uma utilidade, além da expressão. Por apresentar a
linguagem como atividade espiritual e criadora, a Estilística opõe-se
também à visão naturalístico-positivista, que condiciona a arte ao
meio, à raça e ao momento histórico, como viu Taine na segunda
metade do século XIX.
Quer dizer, não existe qualquer realidade lingüística
objetiva, de caráter social e comunitário – a langue
de Saussure -, independentemente dos indivíduos
singulares: existem, sim, atos lingüísticos individuais,
livres criações do espírito, que apenas podem ser
convenientemente estudados se se considerar a
natureza poética (SILVA, 1975, p.601).
Logo, a língua é sempre artística, uma vez que o ato de fala
está pleno de criatividade, ainda que nem toda fala seja digna de ser
preservada para a posteridade, como deve acontecer com a obra de
arte. Sendo o crítico um mediador, de cunho filológico, que deve se
colocar entre a obra e o leitor.
Karl Vossler, por sua vez, foi aquele que instituiu a estilística
literária ou crítica estilística, a partir dos estudos de Vico, Humboldt
e Croce. Sua percepção idealista vê a linguagem como atividade
intuitiva, espiritual, que passa a existir na sua expressão verbal. E
só pode ser considerada arte aquela obra, cuja linguagem sofreu
modificação, somente, alcançada pela intuição individual.
Portanto, a estilística
representa para Vossler
o fundamento de toda a lingüística, visto que a
linguagem é primordialmente poesia; e constitui
igualmente o fundamento dos estudos literários,
da crítica estético-literária, já que a poesia é
essencialmente linguagem. Em lugar de estudos
biografistas, sociológicos, moralísticos, etc, a
obra poética exige o estudo do seu texto, da sua
linguagem e da história do idioma em que está
escrita, porque a língua aparece como a matriz que
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Letras Vernáculas
57
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
A Estilística da langue e a da parole
alimenta a potencialidade artística do escritor (...)
(SILVA, 1975, p. 603).
Vossler, ainda que visse o objeto estético como autônomo ao
contexto, não deixou de privilegiar as circunstâncias culturais que
precedem ao artístico. Leo Spitzer, por sua vez, foi influenciado
por Vossler e o segue na concepção da arte destituída do contexto
histórico ou de qualquer juízo de valor.
A Estilística de Spitzer valoriza o papel do artista,
constituindo-se como uma ponte entre a Lingüística
e a Literatura. Spitzer considerva a Lingüística como
algo sem alma e a Estilística, para ele, deveria
estabelecer uma ponte com a alma do artista. Foi
influenciado por Freud, o conhecimento da Psicanálise
proporcionou-lhe instrumentos para compreender
certos problemas de Literatura (GONÇALVES;
BELLODI, 2005, p.175).
Cada fato estilístico, presente no texto literário, para Spitzer,
é pleno de gesto, no sentido psicanalítico, que indicia um estado de
alma. Restringe-se, entretanto, em seu enfoque do fenômeno literário,
à análise psicológica e não psicanalítica, uma vez que não chega a
investigar os complexos, causadores das neuroses, estudados por
Freud.
O método de análise literária genética spitziano fez escola e
segue um processo que vai do autor à obra e da obra ao autor. Entre
seus seguidores estão os espanhóis: Dámaso Alonso e Amado Alonso,
entre outros.
Com uma visão não formalista da obra, Damaso Alonso propõe
um método fundamentado de análise, em que enfoca a figura do
crítico e a do leitor comum; além de propor tipologias de estilos: o
conceitual, o afetivo e o imaginário. Evidenciando as interrelações firmadas entre significante e significado, Eduardo Portella, et al.
(1991) assevera:
Como entre o significante e o significado há inúmeras
relações, a finalidade da Estilística consiste na análise
dessas interrelações. Metodicamente a análise pode
partir do significado para o significante ou de maneira
inversa (PORTELLA et al., 1991, p.29).
Alonso critica Charles Bally porque esse se deteve na langue.
Por ser uma Estilística da parole, seu método recria a intuição do
poeta no texto, ainda que sua essência seja de impossível apreensão.
Portanto, a Estilística, ao estabelecer métodos de análise, veio a
58
Módulo 3
I
Volume 2
EAD
ocupar tarefas outrora restritas ao campo da Retórica.
Quando se fala em Estilística da langue, está-se levando
em conta a capacidade expressiva constante na própria língua, da
qual o falante se utiliza, sem, de fato, acrescentar algo
de pessoal, enquanto sujeito da enunciação. Neste
tipo de análise, são consideradas somente as
três funções da linguagem, de - Karl Bühler,
posteriormente,
ampliadas
para
seis
com
Roman Jakobson - centradas, respectivamente,
3
na 1ª, 2ª e 3ª pessoas, a saber: função de
Aula
exteriorização psíquica, função apelativa e função
de representação. Essas elencam a previsão de uso
do código lingüístico, isto é, o falante, ou extravasa
um sentimento, ou interfere sobre o receptor de sua
mensagem, ou ainda se refere ao mundo representado pelo código.
Vejamos esses usos, em exemplos abaixo:
Figura 1 - Onde estão as áreas verdes?
Fonte: http://ocaosemvenancioaires.
blogspot.com/2009/09/meio-ambientepor-cristian-deves.html
Vivemos, hoje em dia, com a preocupação constante ecológica.
O Planeta Terra pede socorro! Entretanto, um dos personagens da
charge reproduzida ao lado, leva às últimas conseqüências o seu
compromisso com as gerações futuras.
O
referido
personagem,
ao se utilizar da 1ª pessoa do
singular:
“Eu
estou
apenas
assegurando meus 15m² de área
verde, seu guarda.”, deixa que o
seu receptor, no caso, o guarda
que o interpela, tenha acesso às
camadas mais profundas do seu
ser, pondo, em evidência, a sua
inquietação, diante de um tema
tão sério para o ser humano.
Trata-se o texto, a seguir, de
uma
propaganda,
também
comprometida com as questões
ecológicas; mais racional em suas
colocações, ao contrário do nosso
personagem da charge, que age
movido somente pela emoção.
Revista Veja, set. 2009.
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59
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
A Estilística da langue e a da parole
Veja que o texto, em destaque, volta-se para o receptor
da mensagem “você”, ou seja, aquele com quem se fala, e faz a
recomendação de como encaminhar o lixo doméstico para a
reciclagem.
Revista Veja, set.2009 - Edição 2129, p.5-6.
Nesta propaganda, o emissor se detém em relatar algo que
diz respeito ao mundo exterior comentado. “Ser forte é do Brasil. O
banco que aumentou o crédito para o País enfrentar a crise também.
Faz diferença ter um banco que é do Brasil.” Ainda que haja um forte
apelo, implícito, sobre o receptor da mensagem, para que se torne
cliente do BB e usuário de seus produtos, a mensagem se utiliza da
3ª pessoa, do que se fala, “O banco”.
Em uma análise estilística de um texto literário, deve-se atentar
para o uso das imagens sugeridas, a partir das escolhas expressivas
utilizadas pelo eu poético. Leia, agora, o fragmento do Poema dos
olhos da amada, presente em Poesia Completa e Prosa (1980), abaixo
reproduzido, de Vinicius de Moraes:
Ó minha amada
Que os olhos teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus...
60
Módulo 3
I
Volume 2
EAD
Se nos voltarmos para os recursos utilizados pelo poeta, no uso
da camada fônica, isto é, de sons, veremos que ocorre apenas um par
de rimas: teus/adeus; entretanto, a sonoridade, no mesmo, ocorre
devido, principalmente, à aliteração, com a repetição de consoantes
nasais, presentes ao longo do poema: /m/ e /n/, capazes de trazer
iguais, que, no caso, são /o/ e /a/, produzindo o mesmo efeito de
previsibilidade do movimento da água, em um ancoradouro. Do ponto
de vista do conteúdo, entre os recursos estilísticos, de que o poeta se
vale, estão: a antítese e a metáfora, respectivamente, luzes/breus;
Que os olhos teus/ São cais noturnos/São docas mansas. Há que
ser chamada a atenção para o uso da parataxe, isto é, de orações
coordenadas: os olhos da amada/são cais noturnos cheios de adeus/
são docas..., predominantes na lírica, que não está preocupada
em relatar o mundo, antes opta pelo extravasamento de emoções;
enquanto a hipotaxe requer um grau de racionalidade esperado
principalmente pela narração, pelo texto em prosa. No poema em
questão, mesmo com a presença de orações subordinadas, essas
são antes coordenadas entre si: trilhando luzes (= que trilham)/ que
brilham longe, longe nos breus.
No ANEXO 1, desta Aula III, reproduzimos uma
análise
estilística feita sobre um soneto do poeta português Luís de Camões.
Parataxe: é um recurso
estilístico muito comum
na poesia, facilmente
identificável e que não
tem sido, talvez pela
própria obviedade de
seus efeitos, objeto
de maior atenção da
crítica
especializada.
Consiste na conexão de
constituintes linguísticos (frases ou categorias sintáticas) por coordenação.
Fonte: http://www.centopeia.net
/secoes/?ver=87&secao=ensaios
&pg=5
Hipotaxe: trata-se de
uma conexão de frases
por subordinação, isto
é, com uma relação de
dependência sintática.
Fonte: http://www.centopeia.
net/secoes/?ver=87&secao=e
nsaios&pg=5
ATIVIDADE
1. Explique o vínculo da Estilística de Charles Bally ao Estruturalismo.
2. Qual a importância dos estudos de Jules Marouzeau para a Estilística?
3. Explique o avanço dos estudos estilísticos vistos por Benedetto Croce, Karl Vossler, Leo
Spitzer, Dámaso Alonso e Amado Alonso?
4. Estabeleça a diferença entre a estilística da langue e a da parole.
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61
3
mesma sorte que o uso da assonância, com a reincidência de vogais
SAIBA MAIS
Aula
para o leitor a sensação do balanço do mar próximo a um cais. Da
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
A Estilística da langue e a da parole
RESUMINDO
3 RESUMINDO
Nesta Aula IV,
você estudou a corrente literária Estilística, com os
teóricos da langue Charles Bally, Eugenio Coseriu, Jules Marouzeau
e os da parole: Benedetto Croce, Karl Vossler, Leo Spitzer, Dámaso
Alonso e Amado Alonso.
4 REFERÊNCIAS
BALLY, Charles. Traité de stylistique française. Heidelberg: Winter, s/d.
REFERÊNCIAS
COSERIU, Eugeniu. Teoria del lenguaje y linguística general. Madrid:
Gredos,1962.
GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da
Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.
HUISMAN, Denis. Dicionário de Obras Filosóficas. São Paulo: Martins
Fontes, 2000.
MORAES, Vinicius de. Poesia completa e Prosa. Rio de Janeiro: Aguilar,
1980.
PORTELLA, Eduardo et al. Teoria Literária. Rio de Janeiro: Tempo
Brasileiro, 1991.
PROENÇA FILHO, Domício. A Linguagem Literária. São Paulo: Ática,
1992.
REIS, Carlos. Técnica de Análise Textual. Coimbra: Almedina,1976.
SILVA, Vitor Manuel de A. Teoria da literatura. Coimbra: Almedina,
1975.
LEITURA RECOMENDADA
GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.
PORTELLA, Eduardo et al. Teoria Literária. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1991.
PROENÇA FILHO, Domício. A Linguagem Literária. São Paulo: Ática, 1992.
SILVA, Vitor Manoel de A. Teoria da literatura. Coimbra: Almedina, 1975.
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Módulo 3
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Volume 2
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ANEXO 1
Aula
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CARLOS, Reis. Análise estilística de um soneto de Camões. In. Técnicas de
Análise Textual. Coimbra: Almedina, 1976. p.164-171.
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Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
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Módulo 3
I
A Estilística da langue e a da parole
Volume 2
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3
Aula
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Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
A Estilística da langue e a da parole
ANEXO 2
Eugenio Coseriu: linguista romeno que propôs o chamado critério da
intercompreensão, segundo o qual, dois falares podem ser considerados
dialetos da mesma língua se seus falantes conseguem compreender-se
mutuamente; caso contrário, teremos duas línguas diferentes. Falantes
do Português e do Espanhol podem entender-se relativamente, portanto,
seriam dialetos, segundo Coseriu.
Fonte: http://www.aldobizzocchi.com.br/artigo52.asp
Ilustração - Fonte: http://www.uni-tuebingen.de/kabatek/coseriu/hauptseite.html
Marouzeau: Jules Marouzeau (1878-1964) propõe que se volte a estilística
para a literatura, não de autores isolados, mas buscando, numa época, os
processos que determinem o estilo. Sua estilística, como a de Bally, é ainda
uma estilística da langue.
Fonte: http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/E/estilistica.htm
Ilustração - Fonte: http://www.anphil.org/es/node/128
Benedetto Croce: foi um historiador, escritor, filósofo e político italiano
(1866-1952). Os seus escritos giram em torno de um largo espectro
temático, sobretudo estético e teoria/filosofia da história. É considerada uma
das personalidades mais importantes do liberalismo italiano no século XX.
Entre suas obras mais importantes, estão: Filosofia da Prática Econômica
e da Ética (1908), Teoria e História da Historiografia (1912) e Ensaios de
Estética (1991).
Fonte: HUISMAN, 2000, p. 583.
Ilustração - Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:B.Croce.jpg
Vossler: Karl Vossler, linguista alemão nascido em Hohenheim, Stuttgart,
cujos trabalhos deram notável impulso aos estudos de estilística literária, e
assim, juntamente com o suíço Charles Bally, são considerados fundadores
da estilística como uma ciência, no início do século XX. Iniciou-se como
lente da Universidade de Heidelberg (1902), ensinou em Wurzburg (1909)
e foi, por duas vezes (1911-1937 e 1945-1947), catedrático de literatura
românica na Universidade de Munique, onde também foi reitor. Influenciado
pelos princípios idealistas de Benedetto Croce, ganhou fama com tratados
metodológicos, em que expressou sua convicção de que a evolução de
uma língua reflete as transformações internas da sociedade que a usa.
Em Munique, cidade onde ficou até sua morte, desenvolveu estudos sobre
literatura românica centrados na análise das formas estilísticas dos grandes
autores e sua relação com os modelos linguísticos de seu tempo.
Fonte: http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/KarlVoss.html
Ilustração - Fonte: http://www.bbaw.de/akademie/kalender/biog-pic-020-vossler.jpg
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Módulo 3
I
Volume 2
EAD
Spitzer: Leo Spitzer, nascido em Viena, em 1887, lecionou em universidades
alemãs de 1920 a 1933, quando, fugindo do nazismo, migrou para a Turquia
e, em 1936, para os Estados Unidos, onde passou os 24 anos seguintes como
professor da Universidade Johns Hopkins. Municiado da vasta erudição, que
sua formação em filologia românica lhe proporcionou, e sob a influência
marcante da psicanálise freudiana, Spitzer devotou-se, desde o início da
carreira, a superar o divórcio entre linguística e literatura levado a efeito
pela filologia positivista. Faleceu em 1960.
Fonte: http://www.letras.ufmg.br/poslit/08_publicacoes_txt/er_11/er11_sap.pdf
Ilustração - Fonte: http://www.vwi.ac.at/vierte-wiesenthal-lecture/img/VWI-Event_2009-05-26_02_SWL-004_
3
Leo-Spitzer.jpg
Aula
Dámaso Alonso: Dámaso Alonso y Fernández de las Redondas (Madrid,
22 de outubro de 1898 — 25 de janeiro de 1990) foi um poeta, filólogo e
crítico literário espanhol. Entende por estilo o que é peculiar e diferencial
numa fala. Concebe a existência de três graus de conhecimento da obra: o
do leitor, através de uma intuição totalizadora, que reproduziria a intuição
do autor, da qual se teria originado a obra; o do crítico, como um leitor
excepcional, capaz de exprimir artisticamente as intuições profundas, nítidas
e totalizadoras da obra; e o da análise científica, tarefa da estilística, que, por
ser científica, não atingiria a essência na obra, somente acessível à intuição.
O poema, segundo Dámaso Alonso, consistiria numa sucessão temporal de
sons e num conteúdo espiritual, isto é, num conjunto de significantes e
de significados. O significante seria tanto um fenômeno físico, como uma
imagem acústica.
Fonte: http://dromossudoeste.educacional.net/pdf/literatura/o_estudo_da_literatura.pdf
Ilustração - Fonte: http://sapiens.ya.com/narci3012/dama2.jpg
Vico: Giambattista Vico (1668-1744) foi historiador, jurista e filósofo
italiano. Foi autor de princípios de uma ciência nova acerca da natureza das
nações ou Princípios da Filosofia da História (1725). Discerniu a explosiva
mistura da razão com a mecânica e percebeu, através da nova ciência,
que poderia trazer as mais altas percepções da Renascença para dentro da
metodologia dos primeiros investigadores modernos.
Fonte: HUISMAN, 2000, p.609.
Ilustração - Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/7a/GiambattistaVico.jpg
Humboldt: foi o filósofo alemão Guilherme Humboldt o primeiro a refletir
sobre o papel da universidade. Ele lançou, em 1809, as bases para a fundação
da universidade de Berlim. Isso marcou o início da reforma do sistema
educacional alemão, cujo modelo propunha que a universidade voltasse a
ser independente e produtora de conhecimento por meio da pesquisa. Tais
fundamentos também se basearam nas reflexões dos pensadores alemães
Hegel, Fichte e Schleiermacher.
Fonte: http://revistaensinosuperior.uol.com.br/textos.asp?codigo=11047
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Suas anotações
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aula
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Meta
O FORMALISMO RUSSO: A AUTONOMIA DO LITERÁRIO
Evidenciar os pressupostos teóricos do Formalismo Russo e
Objetivos
de seus colaboradores.
Ao final dessa Aula IV, você deverá estar familiarizado com o
Formalismo Russo, enquanto corrente teórica, que privilegia
sobremodo a obra, em detrimento do contexto de onde essa
se origina.
AULA 4
Aula
4
O FORMALISMO RUSSO:
A AUTONOMIA DO LITERÁRIO
1 INTRODUÇÃO
Ao longo desta Aula IV, estudaremos a teoria do Formalismo
Russo, que prega a autonomia do literário; tendo como principais
integrantes: Roman Jakobson, Boris Eikhenbaun, Wladimir Propp, B.
Tomachevski, I. Tynianov, N.S. Trubetzkói e Victor Chilovski.
Antes do início desta Aula IV, você deverá ter lido:
capítulo 7, especificamente, da p. 122 à p.122, de Teoria da Literatura “Revisitada”
Magaly Trindade Gonçalves e Zina C. Bellodi;
•
capítulo 1, especificamente, da p.26 à p.28, de Teoria Literária de Eduardo Portella, et al;
•
capítulo 2 de Teoria do Conto de Nádia Battella Gotlib;
•
livro O Enredo de Samira Nahid de Mesquita*.
de
ATENÇÃO
•
*As referências das obras encontram-se no final da Aula IV.
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Introdução aos estudos literários II:
literatura, correntes teórico-críticas
O formalismo russo: a autonomia do literário
2 FORMALISMO RUSSO
O Formalismo Russo surge no início do século XX, a partir de
duas associações: O Circulo Linguístico de Moscou, na Rússia, e a
Associação para estudos da Linguagem Poética, Opojaz, em Praga,
capital da antiga Tchecoslováquia, e foi muito
SAIBA MAIS
Neokantianos:
representantes
de
uma
corrente reacionária na filosofia burguesa que
surgiu nos meados do século XIX na Alemanha.
Os neokantianos repetiam as teses mais
reacionárias e idealistas da filosofia de Kant e
rejeitavam os elementos do materialismo que
nela havia. Sob a palavra de ordem “voltar a
Kant”, os neokantianos conduziam a luta contra
o materialismo dialético e histórico. Lênin
apresentou uma crítica de todos os aspectos
da filosofia neokantiana no livro Materialismo e
Empiriocriticismo (1909).
influenciado
europeias.
pela
estética
das
vanguardas
Teve como principais integrantes
Roman Jakobson, Boris Eikhenbaun, Wladimir
Propp, B. Tomachevski, I. Tynianov, N. S.
Trubetzkói e Victor Chilovski. Esses se opunham
ao regime dominante da antiga União Soviética,
sendo taxados de neokantianos por Trotsky, na
medida em que contestavam o dirigismo exigido
pelo partido no tratamento do literário, de cunho
extrínseco. Em seus estudos, veem a literatura
Fonte: http://www.marxists.org/portugues/dicionario/
verbetes/n/neokantianos.htm
como um fenômeno autônomo, que necessita
ser explicada por seus componentes internos, intrínsecos e não por
sua gênese, sua origem, seja em relação ao contexto sócio-histórico,
seja em relação à vida do escritor.
Uma das principais contribuições do Formalismo Russo foi
acabar com a dicotomia fundo/forma, criando um conceito
dinâmico de forma, que a identifica com a unidade
da obra, com um todo representativo da obra; a obra
existirá enquanto forma; seus elementos não se somam –
integram-se, correlacionam-se (PIRES, 1989, p. 69).
A princípio, os Formalistas centraram suas análises no texto
poético e definiram como função da ciência da literatura, o estudo da
literariedade, o estranhamento, em seu processo de automação, de
singularização dos objetos. Trata-se daquilo que confere ao poema
a sua característica própria, seu traço distintivo, diferente do uso
comum da língua em seu cotidiano. É o que ocorre na quadra abaixo
do poema Cartas de meu avô, do livro Cinza da Horas, publicado
inicialmente em 1917, constante de Poesia completa e prosa (1977),
do escritor pernambucano Manuel Bandeira.
O meu semblante está enxuto.
Mas a alma, em gotas mansas,
Chora, abismada no luto
Das minhas desesperanças...
Aí, o eu poético, ao atribuir aos substantivos “semblante”,
“alma”, características não elencadas na unidade, que fornece o
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Módulo 3
I
Volume 2
EAD
significado a essas palavras, chamada na gramática normativa de
radical, semantema ou lexema, instaura o estranhamento, fazendo
com que ocorra, no nível, somente do poético, a relação de sentido,
antes rechaçada, porque A ≠ B; uma vez que “semblante” não pode
apresentar-se “enxuto”, da mesma forma que “alma não chora”, nem,
muito menos, é passível de ficar “abismada no luto,” isto é, “confinada
em abismo.” Pode-se dizer, no máximo:
“que alguém está com o
rosto enxuto,” “que as lágrimas normalmente caem em gotas”, “que
alguém chora pela morte de um ente querido” ou “que esse mesmo
alguém está desesperançado, isto é, sem esperança”. Logo, o uso da
literariedade, instaura a desautomação, no uso
cotidiano da língua.
No terceto, abaixo reproduzido, retirado de Poema das Sete
Faces do poeta de Itabira, Carlos Drummond de Andrade, constante
4
de Poesia e Prosa (1979), o eu poético obtém a literariedade de um
Aula
modo bastante engenhoso. Vejamos:
Quando nasci, um anjo torto
Desses que vivem na sombra
Disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.
Como já sabemos, o princípio da literariedade diz respeito
ao processo de desautomação do uso cotidiano do código linguístico.
Então, o eu poético, ao usar as expressões: “anjo torto”, “vivem na
sombra”, “gauche na vida”, não quer dizer que o ser, que habita o
mundo dos espíritos, abaixo de Deus, para os católicos, tenha algum
problema, por exemplo, na coluna vertebral, antes “torto” se refere
a anjo, digamos, “mal acabado”, “fraco”, que previu o futuro do eu
poético “Carlos” e que habita um lugar pouco afortunado, porque
vive na “sombra”, na ausência de luz, quando deveria encontrar-se
na luz, perto de Deus. “Gauche” vem da expressão adverbial francesa
“à gauche”, que quer dizer, em português, “à esquerda”; ao contrário
de “à droit”, “à direita”. Então, o poeta a utiliza para justificar a sua
má sorte e não para se referir a uma localidade situada à esquerda.
A arte, assim, encerra um fim em si mesma, a partir das escolhas
feitas pelo poeta de elementos lexicais ou a disposição dos vocábulos
no verso, as variações rítmicas obtidas, fazendo com que a camada
fônica do poema esteja a serviço do conteúdo veiculado. Neste caso,
o conteúdo só é importante porque se tornou forma, não comparado
esse, entretanto, ao que é encontradiço extraliterariamente.
A idéia básica do Formalismo, em sua evolução, é a
proposição da ‘palavra poética’. Na poesia a palavra não
é percebida simplesmente como forma transparente que
remete a um objeto (denotação), nem é simples explosão
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Letras Vernáculas
73
Introdução aos estudos literários II:
literatura, correntes teórico-críticas
O formalismo russo: a autonomia do literário
de emoções; ela é (pelo seu significado, seu arranjo com
outras palavras no discurso) uma realidade que tem
peso e valor próprios, adquirindo um aspecto quase de
‘substância’. A palavra poética tem dois valores, pois
funciona em termos de ‘signo’, isto é, serve para remeter
a um conceito, mas vale também em si mesma, como
sendo ela própria uma realidade (GONÇALVES; BELLODI,
2005, p.120).
Roman Jakobson, do Círculo Linguístico de Praga, trabalhou
pela especificação da literariedade. Para tanto, ampliou as três
funções da linguagem, já desenvolvidas pelo alemão Karl Bühler:
função representativa, função apelativa e função de exteriorização
psíquica. A primeira está centrada no referente, a segunda, no
receptor e a terceira, no emissor. Jakobson a estas acrescentou a
função fática, centrada no contato, a função metalinguística, no
código, e, finalmente, a função poética centrada na mensagem; sendo
essa última a dominante no texto literário, ainda que não exclusiva.
Em um primeiro momento, os formalistas voltaram-se para
a análise da poesia, em uma perspectiva sincrônica, destituída da
noção de contexto literário e sócio-histórico. Contrário a essa chave,
Tynjanov coloca questões ligadas à diacronia, quando pensa sobre a
complexidade da História Literária e opõe-se à investigação da obra
literária como um sistema reduzido ao seu microcosmo, isto é, à sua
suposta independência em relação a um contexto, seja histórico, seja
individual.
A obra para ele é um sistema e a Literatura é um sistema
também, mantendo relações de interdependência e que
se ordenam para a consecução de determinada finalidade.
Para o estudo da evolução literária, o conceito fundamental
vai ser o de substituição de sistemas. Em tais sistemas
cada elemento tem uma função (PORTELLA et al. 1991,
p. 29).
Função, para Tynjanov, constitui a possibilidade de um
elemento entrar em correlação como elementos do mesmo sistema e,
consequentemente, como o sistema inteiro. Por exemplo, uma obra
literária que pertença a um determinado estilo de época entra em
correlação com outras do mesmo estilo, mas essas estão inseridas
em um sistema maior, seja em relação a uma literatura nacional,
seja ocidental, por exemplo. E a substituição de sistema é que faz
com que os estilos de época, através de determinados mecanismos,
não se repitam. Assim, Tynjanov traz uma visão esquecida pelos
formalistas, que é a da evolução histórica da literatura, estabelecendo
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Módulo 3
I
Volume 2
EAD
correlações entre a série literária e as outras séries sociais, como
forma de compreender a substituição de sistemas, tirando, assim, a
literatura da dimensão isolacionista formal.
Os Formalistas, depois de algum tempo, voltaram-se para
a análise do texto narrativo, nas modalidades: romance, novela e
conto. Deram muita importância à noção de tempo para a narrativa,
além de distinguirem a fábula da intriga. A fábula vem a ser a matéria
bruta, sobre a qual o escritor dá forma artística e plasma, através
LEITURA RECOMENDADA
da intriga, o seu universo ficcional, artístico. Em outras palavras, a
Saiba mais sobre Tynjanov em:
Fonte:http://www2.fcsh.unl.pt/
edtl/verbetes/C/convencao_
literaria.htm
fábula pode ser resumida em poucas palavras, mas a intriga não.
Vladimir Propp dedicou-se a estudar a morfologia dos contos
populares da Rússia, desenvolvendo uma teoria inédita estruturalista,
quando observou uma espécie de invariância corrente nos mesmos,
4
em suas unidades básicas funcionais. Segundo Gonçalves e Bellodi:
Aula
Através da observação de 100 contos maravilhosos, ele
estabeleceu 31 funções, unidades básicas definidas,
não pelas personagens nem pelos ambientes, mas por
papéis que se estruturam dentro da economia narrativa.
A função é definida em termos de finalidade. As 31
funções explicitam todos os contos fantásticos russos.
Propp estabelece que tais funções aparecem sempre
na seqüência por ele descrita. Nem todas as funções
aparecem em todos os contos, mas as que o fazem, em
cada conto, obedecem à seqüência rígida (2005, p.136).
O Formalismo Russo, pressionado pelos marxistas, teve de
se extinguir em 1930. Entretanto, suas ideias se disseminaram pela
Europa e pelo Ocidente, principalmente, pela publicação em francês
por Tzvetan Todorov de seus estudos, em que se
encarregou de
perpetuar a importância do arranjo da fatura estética e, ao mesmo
tempo, acentuou o papel do crítico, que, munido de método adequado,
em atenção à autonomia do fenômeno artístico, deveria percorrer
a obra em sua literariedade.
E foram Inspirados nas vanguardas
européias e na linguística estrutural, que desenvolvem seu método
crítica literária.
No ANEXO II,
você encontrará, de forma detalhada, a
proposta de análise do texto narrativo, baseada no uso das funções,
propostas por Vladimir Propp.
Filmes
Os filmes indicados abaixo vinculam-se, por suas temáticas,
ao conteúdo estudado nesta Aula IV. Nesta, chamamos atenção, logo
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Introdução aos estudos literários II:
literatura, correntes teórico-críticas
O formalismo russo: a autonomia do literário
no início, para o fato de os formalistas russos terem sofrido influência
das vanguardas, na medida em que essas revolucionaram a mímesis,
modo de representar, esteticamente, a chamada realidade; dando
total autonomia ao artista. O desenvolvimento das vanguardas
europeias do século 20 está intimamente relacionado aos artistas da
geração anterior, que abriram caminho para as gerações seguintes.
Os expressionistas, os impressionistas, os pós-impressionistas, os
surrealistas, e até mesmo os realistas foram os verdadeiros pioneiros
das transformações artísticas, que marcariam a arte moderna. O
grupo da Rússia, ao pregar a autonomia da fatura estética, pensou
em um método de análise, que privilegiou não a realidade evocada,
mas os recursos de que se valeram o artista, isto é, todos os recursos
próprios do artístico, como os fônicos, sintáticos e semânticos,
visando ao encontro da literariedade.
Assim, os filmes O gabinete do Doutor Caligari (1919) centra-
se, no expressionismo alemão, uma das vanguardas européias
das mais importantes e Um cão andaluz (1928) baseia-se em um
sonho do pintor do surrealismo Salvador Dali, nascido na Catalúnia,
Espanha, mas radicado na França.
O GABINETE DO DOUTOR CALIGARI
Direção: Robert Wiene. Com Werner Krauss
e Conrad Veidt.
http://www.webcine.com.br/filmessc/drcaliga.htm
UM CÃO ANDALUZ
Direção: Luis Buñel. Roteiro: Salvador Dalí.
Com Luis Buñel, Salvador Dali e Jeanne Rucas.
http://anamorfoses.blogspot.
com/2006/08/um-co-andaluz-1928.html
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Módulo 3
I
Volume 2
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ATIVIDADE
1. Como a literatura é vista pelos formalistas russos?
2. O que é a literariedade?
3. Identifique funções da linguagem nos fragmentos abaixo reproduzidos, de acordo
com Jakobson:
a) Lucília: (Avança na direção do pai) Não! Isso não! Papai! Proteste, grite, fale
alguma coisa. Não fique assim! Não fique assim, pelo amor de Deus!
Helena: Lucília!
(Jorge Andrade)
4
b) “De tudo, ao meu amor serei atento
Aula
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.” (Vinicius de Moraes)
c) “Porém já cinco Sóis eram passados
Que dali nos partíramos, cortando
Os mares nunca d’ outrem navegados,
Prosperamente os ventos assoprando,
Quando ua noute, estando descuidados
Na cortadora proa vigiando,
Ua nuvem que os ares escurece
Sobre nossas cabeças aparece.” (Luís de Camões )
d) “ Com a lâmpada do Sonho desce aflito
e sobe aos mundos mais imponderáveis,
vai abafando as queixas implacáveis,
da alma o profundo e soluçado grito.” (Cruz e Sousa)
4. Qual a diferenças entre fábula e intriga para os formalistas?
5. Em que medida Tynjanov se distancia, em sua abordagem do fenômeno literário, dos
outros formalistas russos?
6. Por que a abordagem feita por Vladimir Propp dos contos populares russos pode ser
considerada estruturalista?
7. Os formalistas hoje são criticados pelo excesso de formalismo na abordagem do
literário, devido ao fato de desprezarem o conteúdo veiculado na obra, seja de cunho
individual, seja coletivo. Isto procede?
8. Explique o princípio de literariedade, de estranhamento, na estrofe abaixo:
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Letras Vernáculas
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Introdução aos estudos literários II:
literatura, correntes teórico-críticas
O formalismo russo: a autonomia do literário
Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas
(Cruz e Sousa)
9. Qual a importância de Tzvetan Todorov para os estudos formalistas?
RESUMINDO
Ao longo desta Aula IV, estudamos a teoria Formalismo Russo,
que privilegia a obra como uma fatura estética autônoma, em detrimento
do contexto de onde essa se origina. Seus principais integrantes Roman
Jakobson, Boris Eikhenbaun, Wladimir Propp, B. Tomachevski, I. Tynianov,
N.S. Trubetzkói e Victor Chilovski.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia e Prosa. Volume único.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1979.
REFERÊNCIAS
ANDRADE, Jorge. A moratória. Rio de Janeiro: Agir, 2000.
BANDEIRA, Manuel. Poesia completa e prosa. Volume único. Rio
de Janeiro: Nova Fronteira, 1977.
CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. Lisboa: Rei dos Livros, 2002.
CRUZ E SOUSA. Obra composta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,
1995.
GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da
Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.
GOTLIB, Nádia Battella. Teoria do Conto. São Paulo: Ática, 1999.
MESQUITA, Samira Nahid. O Enredo. São Paulo: Ática, 1994.
MORAES, Vinicius de. Poesia completa e Prosa. Volume único. Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, 1980.
PIRES, Orlando. Manual de Teoria e Técnica Literária. Rio de
Janeiro: Presença, 1989.
PORTELLA, Eduardo et al. Teoria Literária. Rio de Janeiro: Tempo
Brasileiro, 1991.
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Módulo 3
I
Volume 2
EAD
LEITURA RECOMENDADA
Aula
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GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.
GOTLIB, Nádia Battella. Teoria do Conto. São Paulo: Ática, 1999.
MESQUITA, Samira Nahid. O Enredo. São Paulo: Ática, 1994.
PORTELLA, Eduardo et al. Teoria Literária. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1991.
ANEXO I
Tzvetan Todorov: é um filósofo e linguista búlgaro, radicado na
França, desde 1963, em Paris. Após completar seus estudos, passou a
frequentar então os cursos de Filosofia da Linguagem, ministrados por
Roland Barthes, um dos grandes teóricos do Estruturalismo. Todorov
foi professor da École Pratique de Hautes Études e na Universidade de
Yale, além de Diretor do Centro Nacional de Pesquisa Científica de Paris
(CNRS). Atualmente, é Diretor do Centro de Pesquisa sobre as Artes
e a Linguagem da mesma cidade. Publicou um número considerável
de obras, que estão traduzidas em vinte e cinco idiomas, na área de
pesquisa linguística e da teoria literária.
Fonte: http://www.editorabarcarolla.com.br/nossos-autores/tzvetan-todorov
Ilustração - Fonte: http://ilmestieredileggere.files.wordpress.com/2009/02/tzvetan-todorov.jpg
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Introdução aos estudos literários II:
literatura, correntes teórico-críticas
O formalismo russo: a autonomia do literário
ANEXO II
PANDOLFO, Maria do Carmo. Análise da Narrativa. In: Eduardo
Portella et al, Teoria Literária. Rio de Janeiro: Tempo
Brasileiro,1991, p.131-139.
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aula
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Meta
O NEW CRITICISM:
A VISÃO IMANENTISTA DA OBRA LITERÁRIA
Objetivos
Evidenciar a corrente teórica New Criticism, que, como o Formalismo Russo, valoriza a obra literária em uma perspectiva
autônoma, imanentista.
Ao final desta Aula V, você deverá apreender os pressupostos
teóricos do New Criticism.
AULA 5
Aula
5
O NEW CRITICISM:
A VISÃO IMANENTISTA DA OBRA LITERÁRIA
1 INTRODUÇÃO
Nesta aula, vamos abordar a corrente teórica New Criticism,
que, como o Formalismo Russo, valoriza a obra literária em uma
perspectiva autônoma, imanentista.
Antes do início desta aula, você deverá ter lido:
capítulo 5, especificamente, da p.81 à
Samuel;
p. 82,
de Novo manual de teoria literária, de Roger
capítulo A Teoria Literária no século XX, especificamente, da p.47 à p.49, de Teoria da Literatura
de A. Kibédi Varga.*
*As referências das obras encontram-se no final da Aula V.
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Letras Vernáculas
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ATENÇÃO
capítulo 7, especificamente, da p. 122 à p.129, de Teoria da Literatura “revisitada”, de Maria
Magaly Trindade Gonçalves e Zina. C. Bellodi;
Introdução aos estudos literários II:
literatura, correntes teórico-críticas
O new criticism: a visão imanentista da obra literária
2 NEW CRITICISM
O New Criticism surgiu nos Estados Unidos, na década de 30 do
século passado, mas se consolidou somente nos anos 40 e 50, deste
mesmo século, a partir da publicação da obra do poeta e crítico John
Crowe Ransom, The new criticism (1941), voltado para a obra crítica
dos poetas T. S. Eliot, I. A. Richards e Yvor Winter. Como as correntes
críticas: Estilística e o Formalismo Russo, o New Criticism combateu
a visão extrínseca de abordar o fenômeno literário, comprometida,
ora com o historicismo, de cunho positivista, ora impressionista,
praticada, principalmente em jornais, sem um método específico de
análise.
A chave para o entendimento do New Criticism é a estrutura, bem
próxima, portanto, do Formalismo Russo, por ter levado às últimas
consequências a autonomia do literário. Eliot faz a distinção entre
documento e monumento, ao defender o primeiro como característica
da obra de arte:
Na concepção de Eliot, a literatura consiste numa
série de ‘monumentos’ (Eliot, 1920, p. 50) à qual
uma obra nova pode ser adicionada, o que vai
alterar levemente a tradição no seu conjunto. Os
‘monumentos’ em si permanecem intactos, apesar
da adição referida. Quanto ao papel do leitor, Eliot
não o considera (VARGA, s/d, p.49).
Nesta concepção de Eliot, a obra não é documento, mas
monumento, isto é, ela vale por si mesma. A abordagem extrínseca,
por outro lado, prioriza dados históricos, biográficos e sociológicos
encontráveis no artístico.
A leitura crítica defendida deve ser de modo imanentista
(close reading), indutiva, a partir da obra em sua totalidade. A obra
literária não precisa se voltar para o mundo empírico, quantificável,
ainda que do poeta, enquanto sujeito autoral, espera-se que vá à
rua, converse com os amigos, faça compras e as pague, como um
bom cidadão.
Na poesia, por exemplo,
o eu poético, uma instância
ficcionalizada, cria um mundo evocado, que não corresponde, de fato,
àquele encontradiço na esquina. E Maria Magaly Trindade Gonçalves
e Zina Bellodi, em Teoria da Literatura “revisitada” (2005), defendem
que:
A análise é um processo de exploração dentro
do poema. Mas o ato criador do poeta também é
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Módulo 3
I
Volume 2
EAD
uma atividade exploratória. E o papel do crítico
é fazer a sua exploração. A velha idéia que se
tinha de que o poeta era um comunicador; o New
Criticism, ao contrário, volta-se para a criação do
poeta, focalizando exclusivamente a ela. Há aí um
radicalismo, até compreensível, mas evidente. O
poema é uma experiência total, e é ela que o crítico
deve investigar, não a que é descrita no poema
(2005, p.125-126).
Então, o movimento de valsa, como consta do poema abaixo
reproduzido do poeta romântico brasileiro Casimiro de Abreu, de As
primaveras (1972), não se trata de um documento, com número de
registro, de quando algo aconteceu, como, por exemplo, uma certidão
de nascimento ou de casamento.
A Valsa
Tu, ontem,
Na dança
5
Que cansa,
Voavas
Aula
Co’as faces
E rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;
Na valsa,
Tão falsa,
Imanentista: que diz
respeito ao imanentismo,
que é próprio de algo,
com suas características
peculiares. Em relação
ao texto literário, tratase da crítica que vê a
literatura como capaz de
produzir sentido, de forma
autônoma, sem depender
do contexto, seja aquele
evocado na obra, seja o das
condições de leitura.
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranqüila,
Serena,
Sem pena.
O “ontem”, de que o eu poético fala, não é aquele marcado pelo
calendário gregoriano. Esse pouco importa para a fruição estética,
para o prazer experimentado pelo crítico ou pelo leitor.
Logo, é
possível falar de monumento, de fatura estética plena de autonomia.
E a leitura crítica defendida deve ser de modo imanentista, (close
reading), indutiva, a partir da obra em sua totalidade.
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Letras Vernáculas
Close reading: ou leitura
analítica minuciosa do
texto, que é assumido como
um meio de realização
linguística autônomo em
relação a quaisquer fatores
extrínsecos, cujo processo
artístico de construção pode
ser revelado pela análise
técnica.
Fonte: http://www2.fcsh.unl.
pt/edtl/verbetes/E/escola_
cambridge.htm
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Introdução aos estudos literários II:
literatura, correntes teórico-críticas
O new criticism: a visão imanentista da obra literária
Por isso é que Renée Wellek defende que a literatura se utilize,
como meio de expressão, de uma instituição social linguística. E
Roger Samuel, em Novo manual de teoria literária (2005), afirma,
confirmando a posição do primeiro:
Para Wellek, a literatura consiste numa instituição
social que utiliza, como meio de expressão, a
instituição social lingüística. Os próprios processos
literários, como a métrica e os símbolos, têm
natureza social, são convenções e normas sociais.
A literatura representa a vida social, além da vida
subjetiva (que também é social). O próprio poeta é
membro da sociedade e possui uma condição social
específica, que recebe um certo grau de consideração
e recompensa (SAMUEL, 2005 p. 82).
Ou seja, as instituições estéticas: categorias gramaticais, a
imagística, o uso conotativo das palavras, a expressividade no nível
fonológico, morfológico e sintático, o ritmo, a harmonia, as técnicas
de composição de um romance, com seus temas, a caracterização dos
personagens, e outras são antes, elementos sociais e utilizados pelo
artista em função de uma comunidade. Wellek, ainda que defenda
a utilidade da literatura, por sua dimensão de cultura, não vê a sua
existência explicável pelos dados extrínsecos que lhe dão origem.
A Literatura é autônoma porque realiza uma forma própria de
conhecimento que não se confunde com as demais, utilizando para
isso a língua de uma maneira própria, criando estruturas que não se
identificam com quaisquer outras (PORTELLA et al, 1991, p. 31).
Como o New Criticism despreza a historicidade da obra
literária, sua predileção voltou-se para a poesia lírica, em detrimento
do romance, ou do drama, por exemplo, muito mais susceptíveis ao
histórico. Assim, a obra literária só exercerá a sua função específica
porque se utiliza, em primeiro lugar, da sua função estética.
O Prof. Afrânio Coutinho, na década de 50 do século
passado, trouxe para o Brasil o New Criticism, que serviu de base
para a sistematização da disciplina acadêmica Teoria da Literatura,
empreendendo mudanças significativas nos currículos dos cursos de
Letras, com a sistematização do conteúdo pertinente a essa área de
conhecimento. Em suas Notas de Teoria Literária (1977), defende a
autonomia da literatura, bem ao gosto do New Criticism e das teorias
Extrínseco: que é exterior;
não pertencente à essência
de uma coisa. [Antôn.:
intrínseco.].
Fonte: Novo Dicionário Aurélio
da Língua Portuguesa
90
mais recentes, que o antecederam, como a Estilística, o Formalismo
Russo e o Estruturalismo.
A Literatura é um fenômeno estético. É uma arte, a
arte da palavra. Não visa ensinar, doutrinar, pregar,
Módulo 3
I
Volume 2
EAD
documentar.
Acidentalmente,
secundariamente,
ela pode fazer isso, pode conter história, filosofia,
ciência, religião. [...] Mas o seu valor e significado
residem não neles, mas em outra parte, no seu
aspecto estético-literário, que lhe é comunicado
pelos elementos específicos, componentes de sua
estrutura, e pela finalidade precisa de despertar no
leitor o tipo especial de prazer, que é o sentimento
estético (COUTINHO, 1976, p. 8).
LEITURA RECOMENDADA
Este raciocínio de Afrânio Coutinho é tributário de Aristóteles,
para quem a literatura se detém naquilo que poderia ter acontecido,
enquanto a história, no que aconteceu. Evidentemente que hoje,
com os ganhos do Pós-Estruturalismo, dos Estudos Culturais, do
Pós-Colonialismo, do Feminismo e Pós-feminismo e da Análise do
Discurso, o sentido de verdade passou a ser revisto. Algumas dessas
teorias serão abordadas na Aula VIII desta disciplina, em questão:
Introdução aos Estudos Literários II: Literatura, Correntes Teórico-
GONÇALVES, Maria Magaly
Trindade; BELLODI, Zina.
C. Teoria da Literatura
“revisitada”. Petrópolis:
Vozes, 2005.
SAMUEL, Roger. Novo
manual de teoria literária.
Petrópolis: Vozes, 2002.
VARGA, A. Kibédi. Teoria
da Literatura. Tradução
de Tereza Coelho. Lisboa:
Editorial Presença, s/d.
Aula
5
Críticas.
ATIVIDADE
1. Os escritos teóricos do poeta Eliot serviram de base para as propostas do New Criticism.
De acordo com o que foi visto na Aula VII, quais foram essas, em linhas gerais?
2. É possível atribuir à noção de monumento, defendida por Eliot, como algo ligado à
transcendência do literário?
3. O que é a leitura imanentista, o close reading, para o New Criticism?
4. Aplique o conceito acima desenvolvido nos fragmentos do poeta maranhense Gonçalves
Dias:
Minha Vida e Meus Amores
Mon Dieu, fais que je puisse aimer!
Quando, no albor da vida, fascinado
Com tanta luz e brilho e pompa e galas,
Vi o mundo sorrir-me esperançoso:
- Meu Deus, disse entre mim! Oh! Quanto é doce,
Quanto é bela esta vida assim vivida!Agora, logo, aqui, além notando
Uma pedra, uma flor, uma lindeza,
Um seixo da corrente, uma conchinha
À beira-mar colhida!
UESC
Letras Vernáculas
91
Introdução aos estudos literários II:
literatura, correntes teórico-críticas
O new criticism: a visão imanentista da obra literária
Foi esta a infância minha; a juventude
Falou-me ao coração: - amemos, disse,
Porque amar é viver.
E esta era linda, como é linda a aurora
No fresco da manhã tingindo as nuvens
De rósea cor fagueira;
Aquela tinha um quê de anelos meigos
Artífice sublime;
Feiticeiro sorrir dos lábios d’ela
Prendeu-me o coração; - julguei-o ao menos,
5. Explique a seguinte afirmação feita anteriormente, nesta unidade:
Como o New Criticism despreza a historicidade da obra literária, sua predileção voltou-se
para a poesia lírica, em detrimento do romance, ou do drama, por exemplo, muito mais
susceptíveis ao histórico.
6. O Prof. Afrânio Coutinho trouxe para o Brasil o New Criticism, na década de 50, do século
passado e defende a autonomia do literário. A partir do que foi dito na unidade, disserte
acerca desse posicionamento.
3 RESUMO
RESUMINDO
Nesta Aula V, estudamos a corrente teórica New Criticism, que, como
o Formalismo Russo, valoriza a obra literária em uma perspectiva
autônoma, imanentista.
4 REFERÊNCIAS
ABREU, Casimiro de. As Primaveras. São Paulo: Martins; Instituto
Nacional do Livro, 1972.
REFERÊNCIAS
COUTINHO, Afrânio. Notas de Teoria Literária. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1976.
DIAS, Gonçalves. Poesias Completas. Rio de Janeiro: Edições de
Ouro, 1968.
GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da
Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.
SAMUEL, Roger. Novo manual de teoria literária. Petrópolis: Vozes,
2002.
VARGA, A. Kibédi. Teoria da Literatura. Tradução de Tereza Coelho.
Lisboa: Editorial Presença, s/d.
92
Módulo 3
I
Volume 2
EAD
ANEXO 1
John Crowe Ransom: foi um poeta e ensaista norte-americano representante do New
Criticism e membro do grupo Fugitive Group, ligado às tradições sulistas dos EUA. Suas
principais obras são Chills and fever, de 1924 e The new criticism, de 1941. John C.
Ransom, em seu ensaio intitulado Criticism, Inc, traça os aspectos mais relevantes do New
Criticism. Rejeita completamente todo tipo de crítica impressionista, pois o impressionismo
preocupa-se com o efeito da obra sobre o sujeito, enquanto a crítica autêntica deve
preocupar-se com o objeto.
Fonte: http://www.babylon.com/definition/John_Crowe_Ransom/
Ilustração - Fonte: http://famouspoetsandpoems.com/poets/john_crowe_ransom
Fontes: http://www.culturapara.art.br/opoema/tseliot/tseliot_db.htm
Richards: o inglês Ivor Armstrong Richards (1893 - 1979) foi crítico literário e de retórica.
Seus livros, especialmente The Meaning, The Meaning, Principles of Literary Criticism e
Philosphy of rhetoric têm forte influência do New Criticism, literário moderno. Richards é
considerado um dos fundadores do comparativismo da literatura de inglesa.
Fonte: http://www.worldlingo.com/ma/enwiki/pt/I._A._Richards
Ilustração - Fonte: http://www.nndb.com/people/047/000117693/
Afrânio Coutinho: (1911 - 2000). Em 1942, foi para os Estados Unidos e, durante cinco
anos, freqüentou cursos na Universidade de Columbia e em outras universidades norteamericanas, aperfeiçoando-se em crítica e história literária. Na Faculdade de Filosofia
do Instituto Lafayette, criou, em 1951, a cadeira de Teoria e Técnica Literária, primeira
iniciativa do gênero no Brasil, e, em 1965, a Faculdade de Letras da Universidade Federal
do Rio de Janeiro. Foi empossado em 1962 na cadeira 33 da Academia Brasileira de Letras.
Seus ensaios iniciam uma militância em prol da renovação da crítica literária brasileira.
Propagador das novas idéias do New Criticism norte-americano e do movimento formalista
eslavo, ele propõe uma completa reformulação da atividade crítica, que deixa de ser o
mero comentário de livros isolados e se torna uma disciplina de aspirações científicas e
metodológicas, dispensando a improvisação e o amadorismo reinantes. Apesar de ser
inicialmente contestada, a obra de Afrânio Coutinho representa um verdadeiro marco no
pensamento crítico brasileiro, introduzindo uma nova compreensão da literatura. Entre
suas produções, estão: Por uma Crítica Estética (1953); A literatura no Brasil (Org.)
(1955), Da Crítica e da Nova Crítica (1957); Euclides, Capistrano e Araripe (1965);
Conceito de Literatura Brasileira (1960); Antologia Brasileira de Literatura (1965); A
Tradição Afortunada (1968); Crítica e Críticos (1969); Caminhos do Pensamento Crítico
(1974); O Erotismo na Literatura (1979); O Processo de Descolonização Literária (1983);
Crítica e Teoria Literária (1984); Enciclopédia da Literatura Brasileira (1990); Do Barroco
(1984).
Fonte: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=3733&sid=531&tpl=printerview
Ilustração - Fonte: http://www.ucm.es/info/especulo/numero41/coutinh1.jpg
UESC
Letras Vernáculas
93
Aula
o primeiro dos Eliot se transferisse para o Missouri. Foi ele o Reverendo William Greenleaf
Eliot (1811-87), avô do poeta e fundador da Igreja Unitária de St. Louis, bem como
da Universidade de Washington, de que se tornou depois presidente. William Greenleaf
distinguiu-se ainda por seu papel na Guerra de Secessão, quando pugnou pelos ideais
federativos dos Estados do Norte, e pelos diversos opúsculos didático-morais que publicou.
5
Eliot: Thomas Stearns Eliot nasceu em Saint Louis, Missouri, Estados Unidos, a 26 de
setembro de 1888, e faleceu em Londres, com 76 anos de idade, a 4 de janeiro de 1965.
Descendentes de emigrantes ingleses que, em meados do século XVIII, se estabeleceram
em Massachusetts, Nova Inglaterra, os Eliot estiveram desde sempre fundamente
vinculados às tradições da Igreja Unitária, destacando-se ainda por sua intensa atividade
cultural. O mais notável dentre tais antepassados foi o Reverendo Andrew Eliot ( 1718-78),
ministro da Igreja Congregacionalista e quase reitor da Universidade de Harvard, cargo
que não assumiu por deliberação voluntária. Cerca de dois séculos, transcorreram até que
Suas anotações
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aula
Meta
O ESTRUTURALISMO
Apresentar
6
a corrente teórica Estruturalismo, oriunda do
suíço Ferdinand de Saussure, que, quando transposto para
o entendimento da obra literária, prioriza a sua rede de
Objetivos
significância.
Ao final desta Aula VI, você deverá identificar os pressupostos
teóricos do Estruturalismo.
AULA 6
Aula
6
O ESTRUTURALISMO
1 INTRODUÇÃO
Nesta Aula VI, vamos nos deter no Estruturalismo, que segue
a tendência do cientificismo corrente, quando reduz o texto a uma
rede de significância e prioriza a langue, em sua abstração coletiva de
uso. Entre os principais representantes, estão A. J. Greimas, Tzvetan
Todorov e Gérard Genette.
Antes do início desta Aula VI, você deverá ter lido:
o capítulo 3,
de Teoria da Literatura: Uma Introdução, de Terry Eagleton;
•
o capítulo 7, especificamente, da p.129 à p. 144, de Teoria da Literatura “revisitada”, de
Maria Magaly Trindade Gonçalves e Zina. C. Bellodi;
•
o capítulo 5, especificamente, da p. 82 à p. 83,
Roger Samuel*.
ATENÇÃO
•
de Novo manual de teoria literária de
*As referências das obras encontram-se no final da Aula VI.
UESC
Letras Vernáculas
97
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
O estruturalismo
2 ESTRUTURALISMO
O Estruturalismo começa com Ferdinand Saussure, a partir
da publicação, em 1916, do Curso de linguística geral, compilado
por seu genro e discípulo Charles Bally. Saussure vai dizer que o
código linguístico, dividido entre langue, enquanto sistema coletivo,
e parole de uso individual, constitui um sistema, uma estrutura,
cujos elementos só significam na relação estabelecida com o todo;
assim, para haver linguagem é necessário que o significante (cadeia
fônica) e o significado (conteúdo) do signo estejam em relação de
interdependência. Mas é com o Circulo Linguístico de Praga que o
vocábulo estrutura ganha destaque com Mukarovsky, quando fala
de “estrutura melódica”, “estruturas rítmicas”, “estruturas fônicas”,
“estruturas sintáticas” e “estrutura de conteúdo”.
Em consonância com a noção de estrutura literária de
Mukarovsky e outras noções coincidentes ou afins, a crítica
estruturalista será aquela crítica empenhada em descrever,
de modo imanente e com rigor analítico, as relações
instituídas entre os vários elementos componentes de
um dado texto literário e que configuram especificamente
a estrutura desse texto, ignorando propositadamente
problemas de história literária, de erudição bibliográfica,
de interpretação psicologista, etc. (SILVA, 1975, p. 655).
Mukarovsky vê o texto literário como signo, e, ao mesmo
tempo, como uma estrutura de signos e se distingue em dois aspectos:
como artefato (significante) e como objeto estético (significado).
O Estruturalismo segue a tendência do cientificismo corrente,
quando reduz o texto a uma rede de significância e prioriza a langue,
em sua abstração coletiva de uso, sob a justificativa de se debruçar
sobre a estrutura do próprio signo para que esse fosse melhor
observado. Maria Magaly Trindade Gonçalves e Zina C. Bellodi em
Teoria da Literatura “revisitada”(2005), chamam a atenção para a
noção de estrutura, quando se fala de texto literário:
No que se refere à Literatura está mais ou menos claro que
a obra é uma estrutura, um todo orgânico, um sistema
de relações, de tal forma que qualquer alteração imposta,
por exemplo, a um elemento qualquer de um romance
significa alteração na obra toda (GONÇALVES; BELLODI,
2005, p. 131).
O estruturalismo padece do extremo cientificismo a que
se impõe, tornando, muitas vezes, a análise de uma obra literária
98
Módulo 3
I
Volume 2
EAD
como se fosse uma intervenção cirúrgica à procura de uma base de
significância encontrável em todas as obras. É o que afirma Terry
Eagleton em Teoria da Literatura: Uma Introdução:
A obra não se refere a um objeto, nem é a expressão de
um sujeito individual; ambos são eliminados, e o que resta,
pendendo no ar entre eles, é um sistema de regras. Esse
sistema possui existência autônoma, e não se inclinará às
intenções individuais (EAGLETON, 1997, p.154).
Na análise estrutural, reproduzida a seguir, empreendia por
Anazildo Vasconcelos da Silva, constante de sua obra Lírica Modernista
e Percurso Literário Brasileiro (1978), as palavras de Terry Eagleton,
reproduzidas acima, tornam-se bastante elucidadas.
Adormecida
Uma noite, eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo,
E o pé descalço do tapete rente.
‘Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço do horizonte...
6
Via-se a noite plácida e divina.
Aula
De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras,
Iam na face trêmulos - beijá-la.
Era um quadro celeste... A cada afago,
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a .
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia .
Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças.
E o ramo ora chegava, ora afastava-se...
Mas quando a via despertada a meio,
Pra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...
Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
- Ó flor, tu és a virgem das campinas...
UESC
Letras Vernáculas
99
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
O estruturalismo
Virgem, tu és a flor de minha vida...
Para facilitar a análise, vamos dividir o poema em três
segmentos, considerando o primeiro segmento constituído pelas duas
estrofes iniciais o segundo constituído pelas estrofes três, quatro,
cinco e seis; e o terceiro, pela última estrofe.
No primeiro segmento, o eu lírico propõe os elementos ainda
dissociados em seus contextos, mediante o afastamento espacial
referenciado por “janela” que permite distinguir o dentro (Mulher)
e o fora (Natureza). Só o dentro aparece no campo visualizado,
possibilitando a percepção de detalhes mínimos (“quase aberto o
roupão/ pé descalço”), enquanto o fora permanece visualmente velado
pela “noite”, marcando a presença de seus elementos olfativamente
(“Um cheiro agreste/exalavam as silvas da campina”). Assim, além
da distinção espacial dos elementos, marcada pelo dentro e pelo fora,
há também a distinção em relação ao campo visualizado, velamento/
fora x desvelamento/dentro.
100
Módulo 3
I
Volume 2
EAD
No segundo segmento, os elementos do espaço fora penetram
o espaço dentro e, desse modo, ingressam no campo visualizado,
dando início a um processo de desvelamento que vai de “silvas”, em
gradação, até “pétalas”:
silvas → jasmineiro → flor → pétala
Como o desvelamento se faz no espaço da mulher, o dentro,
o elemento “flor” e visualizado numa relação de equivalência ao
elemento mulher, que vai permitir ao observador aproximá-las: (“dirse-ia que naquele doce instante/brincavam duas cândidas crianças”).
A identificação flor/mulher ocorre em função da combinação de
elementos no espaço contextual dentro. Assim, o processo de
aproximação/afastamento (“quando serenava a flor beijava-a/quando
ela ia beijar-lhe a flor fugia”) referencia tanto o desvelamento quanto
a combinação contextual dos elementos. O desvelamento se faz pela
penetração da natureza no campo visualizado (“De um jasmineiro
os galhos/indiscretos entravam pela sala”) da sala, o espaço dentro.
E a combinação dos elementos se faz mediante a neutralização da
6
distinção espacial dentro/fora (“Era um quadro celeste”), em que se
acentua o traço da unidade “um quadro” e da plenificação combinatória
UESC
Aula
“celeste”
Letras Vernáculas
101
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
O estruturalismo
No terceiro segmento, o eu lírico assume o processo de
desvelamento (“Eu fitando esta cena”) e o de combinação (“repetia
naquela noite”), e se permite então aproximar os espaços ou
contextos, em função da equivalência dos elementos (“Ó flor, tu és a
virgem das campinas/Virgem, tu és a flor de minha vida”).
A combinação contextual dos elementos é que permite a
equivalência dos contextos, isto e, flor e virgem no contexto campinas
e virgem é flor no contexto minha vida, verificando-se então a
identificação do eu lírico com a natureza:
Vejamos graficamente o terceiro movimento:
O eu lírico, em função de desvelamento da identificação flor =
virgem (‘”eu fitando esta cena”), combina então os espaços campinas
= minha vida
(“repetia naquela noite”), identificando-se com a
Natureza. De modo que a visualização/desvelamento da cena flor =
mulher, conduz à combinação dos espaços campinas = minha vida e
estabelece a identificação do eu lírico com a Natureza.
Recolhendo agora os dados obtidos mediante a análise
proposta, podemos concluir sobre o processo lírico de estruturação
102
Módulo 3
I
Volume 2
EAD
do poema de Castro Alves. A equivalência verificada no último
segmento entre o Eu e a Natureza, permite-nos dizer que, desde o
início do poema, a natureza constitui uma expressão subjetiva, pela
sentimentalização, sustentada na adjetivação. No primeiro segmento,
os elementos ainda são propostos de forma mais objetiva. A partir
do segundo segmento, os elementos de fora são sentimentalizados
e passam a valer como significantes do eu lírico, assim (“os galhos
indiscretos/que iam na face trêmulos... beijá-la”), o (“ora chegava/
ora afastava-se”), marcam a presença do eu lírico. De modo que o
processo de desvelamento observado em relação à Natureza, pode
ser tomado como processo de desvelamento do desejo do eu lírico.
Que os elementos sentimentalizados valem como significantes duma
expressão subjetiva, como significação do eu lírico, está bem claro na
comparação de dois versos que aparecem no início e no fim do poema:
“Via-se a noite plácida e divina”, em que há uma certa objetividade
ou um certo sentido objetivo em “noite” e “Naquela noite lânguida e
sentida”, em que a “noite”, ao ser sentimentalizada, torna-se agora
pura expressão subjetiva.
Os elementos do Espaço Externo aqui representados pelo fora,
são sentimentalizados, tornados significantes estruturantes duma
expressão subjetiva no Espaço Lírico. Desse modo, pensamos que
6
a análise do texto de Castro Alves comprova a concepção de lirismo
romântico proposta.
Vê-se, pois, que a análise feita no poema
Adormecida
Aula
(In: Lírica Modernista e Percurso Literário Brasileiro, p.24-28).
de
Castro Alves, antes de mais nada, segmentou-o, visando à apreensão
minuciosa de suas partes constitutivas. E, em reação ao reducionismo,
a que havia chegado a crítica, muitos teóricos, entre eles, o francês
Roland Barthes, tentam resgatar o prazer da leitura de um texto
literário. Barthes propõe-se a apreender o texto em sua corporeidade,
enquanto elemento capaz de despertar no leitor prazer, por se tratar
de uma atividade intelectual que não dispensa o sensual. No texto
teórico S/Z (1970), propõe a substituição da análise estrutural pela
análise textual, em que o texto é esmiuçado em suas lexias, unidades
de significação, em atenção à estruturação e à estrutura do mesmo.
Entre outros teóricos, voltados para a noção estrutural de ver o texto
literário, tendo a França como a grande disseminadora, estão: A. J.
Greimas, Tzvetan Todorov e Gérard Genette.
Em Fronteiras imaginárias (1971), Fábio Lucas procura
sintetizar as características básicas do Estruturalismo e de sua
vertente no campo da crítica literária.
UESC
Letras Vernáculas
103
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
O estruturalismo
De modo geral, podemos dizer que o Estruturalismo tem
contribuído, no pensamento contemporâneo, para deixar
estabelecidos os seguintes princípios:
a) o primado da totalidade;
b) o interrelacionamento dos fatores. Nesse entrelaçamento,
predomina a interdependência, pois a estrutura constitui
um todo formado de elementos solidários;
c) uma rede de relações se estabelecendo, torna-se
prioritário estudá-la, mais do que as partes, os elementos
ou as substâncias correlacionadas, que formam o todo;
d) além de uma articulação no plano da consciência,
reconhece-se uma articulação no plano do inconsciente,
fundamental, pois estabelece a continuidade da história
ou do discurso, interceptados por hiatos ou mentiras
(símbolos);
e) o conhecimento deve afeiçoar-se a jogos de oposições
do tipo sincronia-diacronia (o mais difundido), língua-fala,
chave da lingüística saussuriana), significante-significado,
som-sentido (Valéry já dizia que o poema não passa de uma
‘hesitação entre o som e o sentido’), expressão-conteúdo,
sociedade-indivíduo, ciência-ideologia (vale dizer: ‘saber
rigoroso’ e ‘consciência deformada’), sintagma-paradigma
(LUCAS,1971, p.47-48).
Saussure, ao afirmar que o sujeito falante faz o recorte da
realidade, não se ateve, entretanto, ao fato de que atribuía, ao mesmo
tempo, ao código linguístico, isto é, à soma de todos os signos desse
código, o qualificativo natural.
Assim, o Estruturalismo acabou por reforçar uma perspectiva, de
certa sorte, idealista, quando enfatiza que o significado encontra-se
preso a uma essência de origem primeva, sem levar em conta as
condições enunciativas de sua realização; reduzindo a enunciação
a um leque universal de estruturas. Da mesma sorte, quando
transposto para a análise literária, acabou por expôr a literatura a
uma espécie de previsibilidade, retirando o sujeito racional cartesiano
de seu pedestal, supostamente detentor da prerrogativa de fazer o
recorte da realidade.
No anexo desta Aula VI, você tem à sua disposição o modelo
de análise da narrativa, de acordo com o modelo de A. J. Greimas,
feita por Maria do Carmo Pandolfo, constante da obra organizada por
Eduardo Portella, Teoria Literária (1991).
104
Módulo 3
I
Volume 2
EAD
ATIVIDADE
1. Por que Mukarovsky vê o texto literário como signo e, ao mesmo tempo, como
estrutura de signo?
2.
Por que o Estruturalismo acaba esquecendo-se da noção de subjetividade e
de referente?
3. Use as suas palavras para comentar a citação feita durante a aula, retirada da
obra Fronteiras imaginárias (1971), de Fábio Lucas:
4. Pesquise as críticas feitas na atualidade ao Estruturalismo?
5.
Comente a seguinte citação:
O Estruturalismo mantém um certo
parentesco com
outras correntes críticas, principalmente o Formalismo,
na medida em que volta sua atenção para a obra em si
e não seus condicionamentos genéticos (GONÇALVES;
BELLODI, 2005, 130).
6. Por que Roland Barthes se distancia dos estruturalistas na abordagem do texto
Aula
6
literário?
RESUMINDO
Nesta Aula VI, tratamos da corrente teórica Estruturalismo, que
segue
a tendência do cientificismo corrente, quando reduz o texto a uma rede de
significância e prioriza a langue, em sua abstração coletiva de uso. Entre
os principais representantes, nos detivemos nos estudos de A.J. Greimas,
Tzvetam Todorov e Gérard Genette.
UESC
Letras Vernáculas
105
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
O estruturalismo
BARTHES, Roland. S/Z. Tradução de Maria de Santa Cruz; Ana
Mafalda Leite. Lisboa: Edições 70, 1970.
REFERÊNCIAS
EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: Uma Introdução. Tradução
de Walter Dutra. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da
Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.
LUCAS, Fábio. Fronteiras imaginárias. Rio de Janeiro: Cátedra/
MEC, 1971.
PORTELLA, Eduardo; et al. Teoria Literária. Rio de Janeiro: Tempo
Brasileiro, 1991.
SAMUEL, Roger. Novo manual de teoria literária. Petrópolis:
Vozes, 2002.
SILVA, Anazildo Vasconcelos da. Lírica Modernista e Percurso
Literário Brasileiro.Rio de Janeiro: Editora Rio, 1978.
SILVA, Vitor Manuel de A. Teoria da Literatura. Coimbra: Almedina,
1975.
LEITURA RECOMENDADA
EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: Uma Introdução. Tradução de Walter Dutra. São Paulo: Martins
Fontes, 1997.
GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da Literatura “revisitada”. Petrópolis:
Vozes, 2005.
SAMUEL, Roger. Novo manual de teoria literária. Petrópolis: Vozes, 2002.
106
Módulo 3
I
Volume 2
EAD
ANEXO I
Aula
6
PANDOLFO, Maria do Carmo. Análise da Narrativa. In:
Eduardo Portella et al,
Teoria Literária.Rio de Janeiro:
Tempo Brasileiro,1991, p-144-152.
UESC
Letras Vernáculas
107
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
108
Módulo 3
I
O estruturalismo
Volume 2
EAD
6
Aula
UESC
Letras Vernáculas
109
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
110
Módulo 3
I
O estruturalismo
Volume 2
EAD
6
Aula
ANEXO II
Roland Barthes: foi um escritor, sociólogo, crítico literário, semiólogo
e filósofo francês. Formado em Letras Clássicas em 1939 e Gramática e
Filosofia em 1943 na Universidade de Paris, fez parte da escola estruturalista,
influenciado pelo lingüista Ferdinand de Saussure. Crítico dos conceitos
teóricos complexos que circularam dentro dos centros educativos franceses
nos anos 50. Entre 1952 e 1959 trabalhou no Centre national de la recherche
scientifique - CNRS.
Fonte: http://www.almedina.net/catalog/autores.php?autores_id=383
Ilustração - Fonte: http://www.dialogocomosfilosofos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/Roland-Barthes.jpg
UESC
Letras Vernáculas
111
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
O estruturalismo
Tzvetan Todorov: é um filósofo e linguista búlgaro radicado na França
desde 1963 em Paris. Após completar seus estudos, passando a frequentar
então os cursos de Filosofia da Linguagem ministrados por Roland Barthes,
um dos grandes teóricos do Estruturalismo. Todorov foi professor da École
Pratique de Hautes Études e na Universidade de Yale e Diretor do Centro
Nacional de Pesquisa Científica de Paris (CNRS). Atualmente é Diretor do
Centro de Pesquisa sobre as Artes e a Linguagem da mesma cidade. Publicou
um número considerável de obras, que estão hoje traduzidas em vinte e
cinco idiomas, além disso, produziu vastíssima obra na área de pesquisa
linguística e teoria literária.
Fonte: http://www.wook.pt/authors/detail/id/16389
Ilustração - Fonte: http://teratoblog.files.wordpress.com/2009/08/tzvetan-todorov.jpg
Gérard Genette (nascido em 1930, em Paris) é um crítico literário francês e
teórico da literatura que construiu a sua própria abordagem poética a partir
do cerne do estruturalismo. É um dos responsáveis pela reintrodução do
vocabulário em uma retórica crítica literária, por exemplo, termos como Tropo
e metonímia. Adicionalmente seu trabalho sobre narrativa, mais conhecido
em Inglês através da seleção Narrativa do Discurso: um ensaio em Método,
tem sido de importância. Sua influência internacional não é tão grande como
a de alguns outros identificados com o estruturalismo, como Roland Barthes
e Claude Lévi-Strauss; seu trabalho é mais frequentemente incluído em
seleções ou discutido em obras secundárias do que estudado em seu próprio
direito.
Fonte: http://deztreze.wordpress.com/2009/12/16/leitura-de-a-literatura-como-tal-de-gerard-genette/
Ilustração - Fonte: http://ak2.static.dailymotion.com/static/video/183/296/15692381:jpeg_preview_large.jpg
A.J. Greimas: Algirdas Julius Greimas, ou Algirdas Julien Greimas (Tula,
Rússia, 9 de março de 1917 - Paris, 27 de fevereiro de 1992), foi um linguista
lituano de origem russa, que contribuiu para a teoria da Semiótica e da
narratologia, além de ter empreendido diversas pesquisas sobre mitologia
lituana.
Fonte: http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/M/modalidade.htm
Ilustração - Fonte: http://www.anyksta.lt/user_img/9291_GREIMAS.jpg
112
Módulo 3
I
Volume 2
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Suas anotações
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aula
Meta
A ESTÉTICA DA RECEPÇÃO
7
Focalizar os grandes representantes da corrente teórica
Estética da Recepção, Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser,
que se opuseram às abordagens anteriores de ver o artístico,
Objetivos
por não levarem em conta, o leitor.
Ao final desta Aula VII, você deverá
ter apreendido os
conteúdos referentes à Estética da Recepção.
AULA 7
A ESTÉTICA DA RECEPÇÃO
7
1 INTRODUÇÃO
Aula
A Estética da Recepção teve, entre seus grandes representantes,
Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser e, em linhas gerais, criticou as
correntes teóricas anteriores pelo caráter imanentista e sincrônico de
ver a obra literária e pelo desprezo em relação ao leitor.
•
capítulo 2, de Teoria da Literatura: Uma Introdução, de Terry Eagleton;
•
capítulo A Interação do Texto com o Leitor, de Wolfgang Iser;
•
capítulo O Prazer Estético e As Experiências Fundamentais da Poiesis, Aishesis e Katharsis,
de Hans Robert Jauss;
•
capítulo Recepção e Interpretação, de Horst Steinmetz;
•
livro Estética da recepção e história da Literatura, de Regina Zilberman.
* As referências das obras encontram-se no final da Aula VII.
UESC
Letras Vernáculas
117
ATENÇÃO
Antes do início desta Aula VII, você deverá ter lido:
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
A estética da recepção
2 ESTÉTICA DA RECEPÇÃO
A Estética da Recepção ou Teoria da Recepção surge na
década de 60, do século passado, na Universidade de Constância,
na Alemanha, e muito tributária da Hermenêutica
SAIBA MAIS
de H.G. Gadamer. Essa corrente crítica está ligada às
Hermenêutica: é um ramo da filosofia
que se
volta para a compreensão
e interpretação da Bíblia e de textos
escritos, de um modo geral. A palavra
deriva do nome do deus grego Hermes,
o mensageiro dos deuses, a quem os
gregos atribuíam a origem da linguagem
e da escrita e considerado o patrono da
comunicação e do entendimento humano.
Fonte: ABBAGNANO, 1998, p. 497.
Imanentista: Que
diz
respeito
ao
imanentismo, que é próprio de algo, com
suas características peculiares. Em relação
ao texto literário, trata-se da crítica que
vê a literatura como capaz de produzir
sentido, de forma autônoma, sem depender
do contexto, seja aquele evocado na obra,
seja o das condições de leitura. A crítica
imanentista já foi vista na Aula V: O New
criticism: A visão imanentista da obra
literária.
comunidades interpretativas pensadas por Stanley
Fish, quando propõe uma nova historiografia para
a literatura, ao ser levado em conta a produção, a
recepção e a comunicação. Nesta proposta, autorobra-leitor não podem ser vistos sem uma relação
dinâmica, na medida em que a leitura de um texto
literário depende das condições
sócio-histórica, que
lhe dão sentido.
Teve, entre seus grandes representantes, Hans
Robert Jauss e Wolfgang Iser e, em linhas gerais,
criticou as correntes teóricas anteriores pelo caráter
imanentista e sincrônico de ver a obra literária e
pelo desprezo em relação ao leitor. Em investigações
anteriores, a figura do receptor ficou restrita à catarse,
em Aristóteles, e à função conativa, do formalista russo
Jakobson, sem que o responsável pela completude de
sentido, de fato, fosse valorizado em relação ao texto lido.
Na verdade, a estética da recepção elegeu o leitor para objeto
da teoria literária, desinteressando-se da figura do autor e
da produção do próprio texto. Adotou, como fundamento
básico, a unidade triádica do processo hermenêutico
(Gadamer), ou seja, o entendimento na confluência de
três momentos – comunicação, interpretação, aplicação
- hauridos através de três leituras: 1ª) leitura perceptiva,
imediata (compreensão); 2ª) leitura refletida, reflexiva
(interpretação); 3ª) leitura pesquisadora do horizonte
histórico determinante da gênese e do efeito da obra; que
permite distinguir os horizontes passados do atual, pelo
confronto da leitura contemporânea com todas as outras
merecidas até então (aplicação) (PIRES, 1989, p.103).
Ao trazer o leitor para o primeiro plano, a Estética da Recepção
coloca por terra a crença em possíveis interpretações corretas do
fenômeno literário. Para tanto, o leitor deve estar atento a estratégias
de leitura a serem adotadas e, ao mesmo tempo em que é indispensável
o domínio do repertório de temas pertinentes ao artístico e de um
certo protocolo de leitura, diante do texto literário, que pode ser
118
Módulo 3
I
Volume 2
EAD
lido de forma não-pragmática, ou pragmática. Para Steinmetz (s/d,
p.154), em Teoria da literatura, obra organizada por Kibédi Varga
“As teorias da recepção consideram muitas vezes que existem, por
um lado os textos literários, e, por outro, os textos pragmáticos, que
teriam formas de funcionamento diferentes”.
Isto é, na leitura pragmática, o leitor procura ligá-la ao
cotidiano, concreto, enquanto, na não-pragmática, não ocorre essa
aplicação automática, antes a fruição estética impede tal uso. Em
textos, como na parábola, usada nos textos sagrados, nas fábulas, ou
nos apólogos, é possível, sem dificuldade, proceder às duas leituras:
não-pragmática e pragmática.
Um apólogo – texto narrativo de natureza alegórica – visa
a ensinar, através de personagens inanimadas, que tomam forma
humana. Na Estética, II, de Hegel, encontramos a seguinte definição
para o mesmo:
Pode-se considerar o apólogo como uma parábola que não
utiliza apenas, e a título de analogia, um caso particular
a fim de tornar perceptível uma significação geral de tal
modo que ela fica realmente contida no caso particular
que, no entanto, só é narrado a título de exemplo especial
(HEGEL, 1993, p. 223).
Logo, no caso, de Um Apólogo, do escritor brasileiro Machado
de Assis, reproduzido, em parte, abaixo, presta-se à leitura nãopragmática e, ao mesmo tempo, pragmática. Pois o comportamento,
7
de cada uma das personagens, a Agulha e a Linha, respectivamente,
pode ser estendido para um grupo maior de seres humanos, que tem
Aula
o mesmo procedimento diante da vida
Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir
que vale alguma cousa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar
insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem
cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu.
Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
UESC
Letras Vernáculas
119
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
A estética da recepção
— Mas por quê?
— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é
que os cose, senão eu?
— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os
cose sou eu e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro,
dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por
você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo
adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo.
Eu é que prendo, ligo, ajunto...
(In: Obra Completa, Vol. II, 1985, p. 555-556).
Em uma leitura não-pragmática, parabólica, o texto
vale por si mesmo, isto é, não necessita de referências externas para
produzir sentido, logo, sendo uma narrativa, os seus elementos é que
seriam objeto de análise como: a composição dos personagens, em
suas ações, o uso do tempo, o espaço, onde ocorre o enredo, o uso
do discurso direto, ou do indireto etc. Por outro lado, em uma leitura
pragmática, o texto se justifica pelos dados extra-textuais evocados,
como, por exemplo, o fato de a Agulha e a Linha estarem sempre
discutindo, por se sentirem uma superior à outra. Tais falas refletem
as posições antagônicas de classe social, vividas no cotidiano das
pessoas do II Império no Brasil.
Por isso, Wolfgang Iser chama a atenção para certa necessidade
de instrumentalização do leitor no ato de fruição estética. Nas palavras
de Terry Eagleton, o posicionamento do alemão de confirma em:
Para ler, precisamos estar familiarizados com as técnicas
e convenções literárias adotadas por determinada obra;
devemos ter certa compreensão de seus ‘códigos’,
entendendo-se
por
isso
as
regras
que
governam
sistematicamente as maneiras pelas quais ela expressa
seus significados (EAGLETON, 1997, p. 107).
Para Iser, a leitura eficiente é aquela que força o leitor a sair
dos hábitos convencionais de leitura, que viola os modos normativos
120
Módulo 3
I
Volume 2
EAD
de ver e sentir, rumo a uma nova consciência e à aquisição de novos
códigos de entendimento, ao preencher os vazios, os hiatos. Em A
Interação do Texto com o Leitor (1979), o integrante da Escola de
Constância afirma:
Como atividade comandada pelo texto, a leitura une
o processamento do texto ao efeito sobre o leitor. Esta
influência recíproca é descrita como interação (p.83).
Em suma, portanto, o vazio no texto ficcional induz e guia
a atividade do leitor (...) (p.130).
Assim, vazio, carência, campo e figura de relevância são termos
que estabelecem uma estrutura de comunicação entre o leitor e o
texto. O vazio textual chama o leitor a preencher espaços de sentido
à luz de sua experiência anterior à leitura atual. A carência constitui
os implícitos textuais, não conhecidos pelo leitor, que acionam a
sua imaginação com projeções de sua fantasia pulsional. O campo
responde ao ponto de vista assumido pelo leitor diante da diegese,
isto é, da intriga, às posições tomadas. A figura de relevância, por
sua vez, proporciona, ao leitor a tomada de consciência, o domínio
de um ponto de vista, indispensável para a compreensão. Ainda nas
palavras de Iser:
Dois pontos precisam ser enfatizados. 1. Precisamos
compreender a estrutura do vazio como um tipo ideal, em
torno do qual se realiza a participação do leitor no texto.
2. A mudança de lugar do vazio não será compreendida se
7
pensarmos que as suas diferentes ‘cunhagens’ decorrem
da existência de um arsenal de diferentes tipos de vazio.
Aula
Ao contrário, o vazio derivado do campo referencial é
preenchido por meio da estrutura de tema e horizonte. Esta
estrutura faz com que o vazio mude de lugar, de modo que
a sua variação de posição assinala a necessidade definida
de indeterminação, tarefa a ser realizada pela atividade de
constituição do leitor. Neste sentido, a mudança do vazio
assinala o caminho a ser percorrido pelo ponto de vista
do leitor, guiado pela seqüência auto-regulada a que se
entrelaçam as qualidades estruturais do vazio (p.131).
O tema, então, significa aquilo que o texto encerra, a ideia
recorrente no mesmo. E esse sempre gravita em torno de um
horizonte, em sua possibilidade mais alargada de sentido.
Outro filósofo influente do início do século XX, Karl Popper, fala
de uma espécie de horizonte de expectativa:
Com esta expressão aludo à soma total de nossas
espectativas [sic] conscientes, subconscientes ou inclusive
UESC
Letras Vernáculas
121
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
A estética da recepção
enunciadas explicitamente numa linguagem (...). Os
diversos horizontes de espectativas [sic] diferem não
só pelo seu maior ou menor grau de consciência, mas
também pelo seu conteúdo. Em todos os casos, porém,
o horizonte de espectativa [sic] desempenha a função
de um quadro de referência: nossas experiências, ações
e observações só adquirem significado pela sua posição
nesse quadro (apud, PIRES, 1989, p.105).
O horizonte de expectativa, de alguma forma, potencializa
o
caráter
de
multissignificação
do
texto
literário.
Portanto,
quanto mais cheia de indeterminações, mais a obra é passível de
interpretações. Paradoxalmente, a potencialidade da obra a leva a
várias interpretações, até mesmo conflitantes.
Como exemplo, tomemos um excerto do Capítulo XXIV:
“Curto, mas alegre” do romance Memórias póstumas de Brás Cubas
de Machado de Assis, aplicando: vazio, carência, campo, figura de
relevância, tema e horizonte de expectativa.
(...) Não digo que a Universidade me não tivesse ensinado
alguma; mas eu decorei-lhe só as fórmulas, o vocabulário,
o esqueleto. Tratei-a como tratei o latim: embolsei três
versos de Virgílio, dois de Horácio, uma dúzia de locuções
morais e políticas, para as despesas da conversação.
Tratei-os como tratei a história e a jurisprudência. Colhi de
todas as coisas a fraseologia, a casca, a ornamentação...
(1985, v. I, p. 545).
Vazio: o leitor começa a acionar, em sua memória, outras
leituras feitas, que podem ajudá-lo a preencher o vazio do sentido
textual.
Carência: neste momento da leitura, o leitor ainda não
apreendeu o conteúdo textual em toda a sua extensão.
Campo: o leitor pode vir a atribuir ao comportamento de Brás,
à sua personalidade pouco comprometida com os compromissos;
uma vez que não fez grande coisa na vida, nem por ele próprio, e,
muito menos, pelo Brasil. Neste momento, o leitor assume um ponto
de vista sobre o conteúdo textual que lhe dá suporte para prosseguir
em sua leitura.
Figura de relevância: já de posse de um ponto de vista, tomado
a partir do campo, o leitor já possui um ponto de vista acabado acerca
do personagem que foi capaz de fazer mau uso do que lhe foi ensinado
na Universidade.
Tema: os problemas da Educação
Horizonte: educação
122
Módulo 3
I
Volume 2
EAD
Portanto, em uma leitura não-pragmática, parabólica, de:
(...) mas eu decorei-lhe só (...) o esqueleto. Tratei-a
como tratei o latim, embolsei três versos de Virgílio, dois de
Horácio, uma dúzia de locuções morais e políticas, para as
despesas da conversação. Tratei-os como tratei a história
e a jurisprudência. Colhi de todas as coisas a fraseologia,
a casca, a ornamentação... (1985, v. I, p. 545).
O leitor é levado a perceber a desautomação no uso de
expressões, que, na linguagem do cotidiano, não caberiam. Decorase, isto é, traz-se de cor, de coração, um texto, uma lição, mas não
um esqueleto; da mesma forma, trata-se alguém de certa maneira,
não a Universidade, a história, a jurisprudência. Colhem-se flores,
frutos, não frases, ou, muito menos, casca, ornamentação. Ou ainda,
ninguém embolsa (= colocar no bolso) versos ou locuções, ou ainda,
conversação não constitui nenhuma despesa.
Em linhas gerais, Brás quis dizer que foi um aluno medíocre,
que ficou somente com a superficialidade do que lhe foi ensinado na
Universidade. Por outro lado, em uma leitura pragmática, percebe-se
toda a crítica feita à sociedade brasileira do II Império, superficial,
bacharelesca e pouco séria, ainda que se tenha diplomado na
Universidade de Coimbra, em Portugal.
A leitura pragmática de um texto literário fez com que o
escritor do realismo francês Gustave Flaubert acabasse indo às
barras do tribunal porque, em Madame Bouvary, tece críticas à
7
sociedade francesa de então. Em uma primeira instância, seus
juízes o condenaram, devido à leitura feita em seu alcance de
Aula
aplicabilidade; entretanto, só conseguiu se livrar da condenação,
devido à possibilidade de leitura não-pragmática.
Além de Wolfgang Iser, o teórico Hans Robert Jauss, por seu
turno, na esteira de Gadamer, passa a valorizar também a História
para os estudos literários e vê a obra como forma e resposta às
indagações do leitor. Regina Zilberman, em Estética da recepção e
história literária (1989), destaca a importância do papel do leitor no
ato da leitura:
(...) Como o mestre, recupera a história como base do
conhecimento do texto; e, igual ao outro, pesquisa seu
caminho por uma via que permite trazer de volta o intérprete
ou o leitor, sua defesa predileta na luta intelectual contra
as correntes teóricas indesejadas (ZILBERMAN, 1989, p.
12).
UESC
Letras Vernáculas
123
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
A estética da recepção
É, mais do que tudo, o legado platônico está presente na
Estética da Recepção, ao trazer de volta a noção de que a verdade
está no belo e no bem. E, ao considerar a literatura como um sistema,
que se define na produção, na recepção e na comunicação, acaba por
relacionar autor, obra e leitor.
Jauss estabelece três categorias fundamentais para a fruição
estética, encontradas em uma retrospectiva sobre a história do prazer
estético: Poiesis, Aishesis e Katharsis, quando afirma em A Literatura
e o Leitor: Textos de Estética da Recepção (1979), obra organizada
por Luiz Costa Lima:
Designamos
por
poiesis,
compreendida
no
sentido
aristotélico da ‘faculdade poética’, o prazer ante a obra que
nós mesmos realizamos, que Agostinho ainda reservava
a Deus e que, desde o Renascimento, foi cada vez mais
reivindicada como distintivo do artista autônomo (p.7980).
A aisthesis designa o prazer estético da percepção
reconhecedora
e
do
reconhecimento
perceptivo,
explicado por Aristóteles pela dupla razão do prazer ante
o imitado; na estética aristotélica, a palavra aisthesis
não é empregada propriamente neste sentido, mas, já
na abertura da estética como disciplina autônoma, com
Baumgarten, ela se coloca com o significado básico de
um conhecimento através da experiência e da percepção
sensívies. Enquanto experiência estética receptiva básica,
a aisthesis corresponde assim a determinações diversas
da arte: como ‘pura visibilidade’ (Konrad Fiedler), que
corresponde à recepção prazerosa do objeto estético
como uma visão intensificada, sem conceito ou através
do processo de estranhamento (Chklovski), como uma
visão renovada; como ‘contemplação desinteressada da
plenitude do objeto’ (Moritzer Geiger); como experiência
da ‘densidade do ser’ (J.P. Sartre), em suma, como
‘pregnância
perceptiva
complexa’
(Deter
Henrich).
Legitima-se, desta maneira, o conhecimento sensível, face
à primazia do conhecimento conceitual.
Designa-se por katharsis, unindo-se a determinação de
Górgias com a de Aristóteles, aquele prazer dos efeitos
provocados pelo discurso ou pela poesia, capaz de conduzir
o ouvinte e o expectador tanto à transformação de suas
convicções, quanto à libertação de sua psique (...) (p.80).
Tais categorias fundamentais da fruição estética encontramse respaldadas na tradição crítica anterior, como, por exemplo, em
Aristóteles, em Kant e em Baumgarten, filósofo alemão, do século
XVIII, pai da estética. E Luís Costa Lima, em Teoria da Literatura em
124
Módulo 3
I
Volume 2
EAD
suas fontes (1983), argumenta:
Se a hermenêutica literária, assim como a teológica ou
jurídica, deve chegar à aplicação, partindo da compreensão
e passando pela interpretação, esta aplicação de um lado
pode desembocar numa ação prática, mas, de outro, pode
satisfazer um interesse não menos legítimo, o de medir
e ampliar, na comunicação literária com o passado, o
horizonte da experiência própria, a partir da experiência
de outros (v. 2, p.313).
Jauss sugere, então, que o leitor substitua a pergunta “O que
o texto disse?” por “O que o texto me diz e o que eu digo sobre o
texto?” Só assim seria possível a aplicação daquilo que foi lido.
ATIVIDADE
1. Leia o fragmento, reproduzido abaixo de O Primo Basílio do autor do realismo
português Eça de Queirós, e proceda às duas leituras: não-pragmática e pragmática,
isto é, uma voltada para uma dimensão parabólica de ver o artístico e outra de cunho
aplicativo na realidade, a partir do que era pregado pela sociedade burguesa da época,
em que a obra foi escrita.
Estavam de pé, no meio da sala.
- Não te vás! Basílio!
Os seus olhos profundos tinham uma suplicação doce. Basílio
pousou o chapéu sobre o piano; mordia o bigode, um pouco
7
nervoso.
tem que venha gente? – E arrependeu-se logo daquelas
palavras.
Mas Basílio, com um movimento brusco, passou-lhe o braço
sobre os ombros, prendeu-lhe a cabeça, e beijou-lhe na
testa, nos olhos, nos cabelos, vorazmente (QUEIRÓS, 1979,
p. 44).
2. Regina Zilberman, em Estética da recepção e história literária (1989), na citação
abaixo, fala acerca da Estética da Recepção, mais especificamente sobre o conceito
usado por Jauss para se referir ao leitor. Comente a afirmação, em um parágrafo de no
máximo dez linhas.
[...] a estética da recepção apresenta-se como uma teoria
em que a investigação muda de foco: do texto enquanto
estrutura imutável, ele passa para o leitor, o ‘Terceiro Estado’,
[...],
UESC
seguidamente
Letras Vernáculas
marginalizado,
porém
não
menos
125
Aula
- E para que queres tu estar só comigo? – disse ela. – Que
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
A estética da recepção
importante, já que é condição de vitalidade da Literatura
enquanto instituição social (1989, p. 10-11).
3. Qual é o processo hermenêutico triádico de leitura para Gadamer?
4. Por que Wolfgang Iser chama a atenção para certa necessidade de instrumentalização
do leitor no ato de fruição estética?
5. Hans Robert Jauss valoriza a História para os estudos literários e vê a obra como
forma e resposta às indagações do leitor. Refute a afirmação ou reforce-a, utilizando
a argumentação do texto da Aula VIII, quando se aborta o referido teórico:
RESUMINDO
Você foi apresentado, nesta Aula VII, aos grandes representantes da
corrente teórica Estética da Recepção: Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser, que
passaram a valorizar a recepção do artístico, chamando o leitor para a cena.
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia.
Fontes, 1998.
São Paulo: Martins
REFERÊNCIAS
EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: Uma Introdução. Tradução
de Walter Dutra. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
HEGEL. Estética II, 2c. Lisboa: Guimarães Editores, Lisboa, 1993.
HUISMAN, Denis. Dicionário de Obras Filosóficas. São Paulo:
Martins Fontes, 2000.
ISER, Wolfgang. A Interação do Texto com o Leitor. In: Luiz Costa
Lima (Org.). A Literatura e o Leitor: Textos de Estética da Recepção.
Tradução de Luiz Costa Lima; Peter Naumann. Revisão de Heidrum
Krieger. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. p. 83-132.
JAUSS, Hans Robert. O Prazer Estético e As Experiências Fundamentais
da Poiesis, Aishesis e Katharsis. In: Luiz Costa Lima (Org.). A
Literatura e o Leitor: Textos de Estética da Recepção. Tradução de
Luiz Costa Lima; Peter Naumann. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
p.63-82.
LIMA, Luiz Costa. Teoria da Literatura em
2. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1983. 2 vol.
126
Módulo 3
I
Volume 2
suas
fontes
EAD
MACHADO DE ASSIS. Obra Completa. Vols. II e II. Rio de Janeiro:
Nova Aguilar, 1985.
PIRES, Orlando. Manual de Teoria e Técnica Literária. Rio de
Janeiro: Presença, 1989.
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
STEINMETZ, Horst. Recepção e Interpretação. In: A. Kibédi Varga
(Org.). Teoria da Literatura. Tradução de Tereza Coelho. Lisboa:
Editorial Presença, s/d, p.149-165.
ZILBERMAN, Regina. Estética da recepção e história da Literatura.
São Paulo, Ática, 1989.
LEITURA RECOMENDADA
EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: Uma Introdução. Tradução de Walter Dutra. São Paulo:
Martins Fontes, 1997.
ISER, Wolfgang. A Interação do Texto com o Leitor. In: Luiz Costa Lima (Org.). A Literatura e o
Leitor: Textos de Estética da Recepção. Tradução de Luiz Costa Lima; Peter Naumann. Revisão de
Heidrum Krieger. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. p. 83-132.
JAUSS, Hans Robert. O Prazer Estético e As Experiências Fundamentais da Poiesis, Aishesis e Katharsis.
In: Luiz Costa Lima (Org.). A Literatura e o Leitor: Textos de Estética da Recepção. Tradução de Luiz
Costa Lima; Peter Naumann. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. p.63-82.
7
STEINMETZ, Horst. Recepção e Interpretação. In: A. Kibédi Varga (Org.). Teoria da Literatura.
Tradução de Tereza Coelho. Lisboa: Editorial Presença, s/d, p.149-165.
UESC
Letras Vernáculas
Aula
ZILBERMAN, Regina. Estética da recepção e história da Literatura. São Paulo, Ática, 1989.
127
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
A estética da recepção
Anexo
Fish: Stanley Fish
nasceu em 1938, em Rhode, na Islândia. É um
importante teórico da literatura e professor universitário nos Estados
Unidos. Dedicou-se a estudar a obra do poeta inglês John Milton e seus
ensinamentos, vincularam-se ao pósmodernismo. Escreveu 10 livros
e se descreve como um “anti-fundacionalista”. Hoje, o tipo de questões
teóricas que pré-ocupam o estudioso do fenômeno literário tende a
concentrar-se, auto-reflexivamente, nos conceitos que dominam num
dado momento histórico e nos conceitos que sempre dominaram a própria
história da linguagem. Como propõe Stanley Fish, o principal divulgador
da reader-response criticism norte-americana, a literatura não pode conter
propriedades formais pretensamente definidoras do que é ou não é a
literatura: “A literatura é o produto de um modo de ler, de um acordo
comunitário acerca daquilo que deverá contar como literatura, que leva
os membros da comunidade a prestar um certo tipo de atenção a criarem
literatura.” (Is There a Text in This Class?, 1980). O “modo de ler” não
é fixo, mas varia ao longo dos tempos, por isso, Fish propõe a estética
não como sendo a especificação definitiva de propriedades literárias e
não literárias, mas sim “uma descrição do processo histórico pelo qual
tais propriedades emergem”. O conceito de “comunidade interpretativa”
surge então como coroamento deste conhecimento relativo da natureza da
literatura: “Os sentidos não são propriedade nem de textos fixos e estáveis
nem de leitores livres e independentes, mas de comunidades interpretativas
que são responsáveis tanto pela configuração das atividades do leitor como
pelos textos que essas atividades produzem.”
Fonte: http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/E/estetica_recepcao.htm
Ilustração - Fonte: http://humanitiesalaska.blogspot.com/2008/01/stanley-fish-on-value-or-lack-thereof.html
Wolfgang Iser: junto com o colega teórico Hans Robert Jauss, Iser é
o maior expoente da estética da recepção, que fundamenta suas bases
na própria crítica literária alemã e sua teoria vê o texto como um local
de produção e proliferação de significados.
Sendo cético em relação à
objetividade do texto da crítica formalista, Iser privilegia a experiência
da leitura de textos literários como uma maneira de elevar a consciência
ativamente, realçando o centro da mesma na investigação de significados.
O estudo da fenomenologia de Husserl, Ingarden, Gadamer, Poulet
influenciaram e contribuíram para o seu trabalho.
Fonte: http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/E/estetica_recepcao.htm
Ilustração - Fonte: http://liternet.bg/iser/gallery2.htm
128
Módulo 3
I
Volume 2
EAD
JAUSS: Hans Robert Jauss, discípulo da hermenêutica de Gadamer, foi
membro da Escola de Constance e um dos mais inflexíveis dos críticos da
estética da recepção. É o grande responsável pela divulgação da Estética
da Recepção, nas décadas de 1970 e 1980. No seu ensaio nuclear, “A
Literatura como Provocação” (1970), procurou ultrapassar os dogmas
marxistas e formalistas que não privilegiam o leitor no ato interpretativo
do texto literário e reforçou o conceito de horizonte de expectativas como
impulsor da interpretação: “Uma obra não se apresenta nunca, nem mesmo
no momento em que aparece, como uma absoluta novidade, num vácuo
de informação, predispondo antes o seu público para uma forma bem
determinada de recepção, através de informações, sinais mais ou menos
manifestos, indícios familiares ou referências implícitas. Ela evoca obras
já lidas, coloca o leitor numa determinada situação emocional, cria, logo,
desde o início, expectativas a respeito do ‘meio e do fim’ da obra que, com
o decorrer da leitura, podem ser conservadas ou alteradas, reorientadas ou
ainda ironicamente desrespeitadas, segundo determinadas regras de jogo
relativamente ao gênero ou ao tipo de texto.” (A Literatura como Provocação,
trad. de Teresa Cruz, Veja, Lisboa, 1993, pp.66-67). Qualquer obra de
arte literária só será efetiva, re-criada ou “concretizada”, quando o leitor a
legitimar como tal, relegando para plano secundário o trabalho do autor e
o próprio texto criado. Para isso, é necessário descobrir qual o horizonte de
expectativas, que envolve essa obra, pois todos os leitores investem certas
expectativas nos textos, que leem, em virtude de estarem condicionados por
outras leituras já realizadas, sobretudo, se pertencerem ao mesmo gênero
literário. O melhor indicador para determinarmos o horizonte de expectativas
é a recepção da obra por parte do leitor. Uma crítica imediata ao conceito de
horizonte de expectativas, assim definido, consiste no fato de se apresentar
como uma espécie de instrumento único de análise estética de uma obra
literária.
Fonte: http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/E/estetica_recepcao.htm
7
Ilustração - Fonte: http://www.vernix.org/marcel/images/people/hans-robert-jauss.png
método (1960),
filosófica,
Aula
Gadamer: Hans Georg Gadamer, nascido em 1900. Autor de Verdade e
em que desenvolve as grandes linhas da Hermenêutica
na qual aborda o problema da verdade, numa perspectiva não
científica. A análise da experiência revelada pela arte permite descobrir um
modelo que tem valor para toda a experiência histórica. A descoberta de
uma obra de arte é um fato histórico que pertence à história. Em A arte
de compreender, Hermenêutica e tradição filosófica (1982), o problema
hermenêutico é colocado em relação à teoria do conhecimento.
Fonte: HUISMAN, 2000, p.18 e p.565.
Ilustração - Fonte: http://erichluna.files.wordpress.com/2009/09/gadamer1.jpg
UESC
Letras Vernáculas
129
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
A estética da recepção
Baumgarten: Alexander Gottlieb Baumgarten (1714-1762), filósofo e
esteta alemão, nascido em Berlim. Estudou na Universidade de Halle. Em
1740, foi nomeado professor de filosofia da Universidade de Frankfurt,
onde permanece por 22 anos, falecendo relativamente cedo. O primeiro
curso de estética o ministrou em 1742 naquela universidade. Enquadrouse no esquema filosófico de Wolff, o ordenador didático do pensamento
de Leibniz. Na divisão dos temas, inicia claramente pela gnosiologia, para
depois derivar para a metafísica e física, por último, para a ética. Tratando
do conhecimento e apreciando o conhecimento sensível, o interpretou ainda
ao modo de Descartes, como um estágio inferior, ao modo de idéia confusa.
Neste plano da sensibilidade, como uma gnoseologia inferior (= gnosiologia
inferior), desenvolveu o estudo do que também denominou estética. Tem
Baumgarten o mérito de haver tratado em separado o sentimento da
apreciação da arte e do belo, em geral, enquadrando-o embora como um
conhecimento sensível.
Fonte: http://www.cfh.ufsc.br/~simpozio/novo/2216y605.htm
Ilustração - Fonte: http://liternet.bg/iser/gallery2.htm
Popper: Karl Raimund Popper, filósofo e epistemólogo austríaco, nascido
em 1902. Autor de Lógica e Pesquisa Científica (1934), em que coloca que
a hipótese científica está longe de corresponder ao registro passivo de
dados experimentais, sendo mais da ordem da conjetura. Em Miséria do
Historicismo (1957), entende que o historicismo constitui uma doutrina,
segundo a qual as ciências sociais tem por missão descobrir as leis gerais
do desenvolvimento histórico, leis que lhes permitiriam prever com exatidão
o futuro da história humana. Em Conjecturas e refutações (1963), Popper
desenvolve a tese de que, para distinguir a ciência da pseudociência, é
necessário correr o risco de que a teoria científica só é científica, de fato,
se puder ser invalidada por um teste de experiência. E, finalmente, em
Conhecimento Objetivo (1972), o filósofo propõe a elaboração de uma
teoria objetiva (ou objetivista) do conhecimento que rompa definitivamente
com o ponto de vista subjetivista tradicional, ou seja, com o racionalismo
cartesiano e com o empirismo de Locke, Hume ou Berkeley.
Fonte: HUISMAN, 2000, p. 76, p.77, p. 348 e p. 377.
Ilustração - Fonte: http://www.bfg-muenchen.de/files/images/popper.jpg
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I
Volume 2
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Suas anotações
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aula
Meta
O PÓS-ESTRUTURALISMO
Trabalhar com os conceitos da corrente teórica
8
Pós-
estruturalismo, em sua crítica ao modelo binário da metafísica
Objetivos
ocidental.
Ao final desta Aula VIII, você deverá conhecer os conteúdos
referentes ao Pós-Estruturalismo.
AULA 8
A ESTÉTICA DA RECEPÇÃO
1 INTRODUÇÃO
Estudaremos, nesta Aula VIII, a corrente teórica Pósestruturalismo, que, como o próprio nome sugere, vai criticar o
Estruturalismo, na medida em que esse é visto como tributário do
modelo binário de ver o mundo, em pares dicotômicos, na esteira
da metafísica ocidental. Entre os principais representantes, estão o
franco-argelino Jaques Derrida e os franceses Michel Foucault e JeanFrançois Lyotard, que balizaram a História do Ocidente.
As metanarrativas, sistemas discursivos de legitimação, foram
postas a serviço do Ocidente, desde a Grécia antiga, e impuseram
a absolutização dos lugares enunciativos, em que o dissenso e a
fragmentação tornaram-se banidos em nome da ordem e da exclusão.
O relato mítico, a filosofia, e a literatura encerraram, a princípio,
tal desiderato, como os grandes balizadores comportamentais a
8
prescreverem e a encerrarem a melhor maneira de dar sentido ao
Aula
mundo.
•
o capítulo 3 de Teoria da Literatura: Uma Introdução de Terry Eagleton;
•
o capítulo 9, especificamente, as p. 190, p.191, p.192, p.193, p. 200 e p.205 de Teoria
da Literatura “revisitada” de Maria Magaly Trindade Gonçalves e Zina. C. Bellodi;
•
capítulo 8 de Novo manual de teoria literária de Roger Samuel;
•
os capítulos 6 e 8 de A Condição Pós-moderna de Jean-François Lyotard;
•
os capítulos 4 e 11 de As Idéias Filosóficas Contemporâneas na França de Christian
Descamps.
*As referências das obras encontram-se no final da Aula VIII.
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Letras Vernáculas
135
ATENÇÃO
Antes do início desta Aula VIII, você deverá ter lido:
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
Os
referidos
relatos
O pós-estruturalismo
ancoraram-se
em
uma
perspectiva
monística, em que a hortodoxia constitui a pedra de toque a velar
por sua manutenção e, mais do que tudo, para a sua naturalização.
A esses se somaram outros, como os de cunho religioso judaicocristãos, respaldados no judaísmo e no catolicismo; o Colonialismo/
Imperialismo e as grandes ideologias, na esteira do Iluminismo francês,
tanto de direita, quanto de esquerda. Subsidiários desses, podemos
acrescentar ainda os paradigmas dicotômicos, que estabeleceram
relações entre nações: centro/periferia; entre gêneros: homem/
mulher; entre classes sociais: hegemônica/não-hegemônica e entre
etnias: branco/negro. Se recorrermos ao discurso da ciência, por
outro lado, no processo interpretativo da realidade sócio-histórica,
veremos que, quase sempre, são discursos - amparados em uma
racionalidade constitutiva -, que disfarçam arbitrariamente os cortes
e são incapazes de redimensionar algumas escalas, legitimadas em
valores perenes.
2 PÓS-ESTRUTURALISMO
Há muito que o radicalismo do Estruturalismo vinha sofrendo
fortes restrições. Barthes em S/Z (1970), ao analisar o conto
Sarrasine de Balzac, indaga-se sobre a possibilidade de o signo ser
neutro, à luz da noção de Saussure, quando se refere ao código
linguístico capaz de fazer representar o chamado real, de forma
autônoma, isenta de qualquer interesse, na medida em que, para
haver linguagem, é preciso que significante e significado se remetam
de forma arbitrária. E, trazendo para a análise literária, a crítica é
uma forma de metalinguagem, que trata o texto literário em uma
estrutura delimitada; por outro lado, esse deve ser tratado enquanto
escrita, isto é, em sua produtividade, e o leitor é chamado a fazer
parte dessa estruturação em aberto. Barthes, assim, passa da obra
ao texto e flagra a pretensão representativa da atitude natural da
literatura chamada realista; para quem, em vez de se caracterizar o
signo como natural, dever-se-ia vê-lo em sua intervenção sobre a
realidade, pois, na literatura, não há originalidade, nem autor, uma vez
que qualquer obra é produto da intertextualidade com outros escritos
que a antecedem. Assim, a noção de representação é questionada
e Terry Eagleton, em Teoria da Literatura: Uma Introdução (1997),
tece comentários sobre a pretensão de a palavra ser a própria coisa,
e não sua representação parcial, entre outras formas de interpretar
o mundo.
136
Módulo 3
I
Volume 2
EAD
Na ideologia do realismo ou da representação, as palavras
são tidas como ligadas aos pensamentos ou objetos que
veiculam de maneira certa e incontroversa: a palavra
torna-se a única maneira adequada de se ver tal objeto,
ou de se expressar tal pensamento (EAGLETON, 1997, p.
187).
Tal pretensão, isto é, do signo como representação ou
reflexo, neutro em sua nomeação, nega a sua própria condição de
produtividade e, mais do que tudo, o fato de o mundo ser complexo
e múltiplo.
O Pós-Estruturalismo já estava sendo gestado, de certa sorte,
no Estruturalismo, quando esse se voltou para a explicação do código
linguístico, em seu funcionamento como linguagem.
O termo pós-estruturalismo entrou em uso teórico-crítico
em 1970, junto com pós-modernismo (Jean Baudrillard,
Jean François Lyotard), pós-criticismo (Frederic Jameson)
e desconstrução (Jacques Derrida).
Pós-estruturalismo
não
é
uma
escola
unificada
de
pensamento ou mesmo de movimento, mas o termo
é muito usado no discurso da crítica. A maioria dos
autores freqüentemente etiquetados pela palavra pósestruturalismo (Jacques Derrida, Michel Foucault e Roland
Barthes) raramente caracteriza seu trabalho como tal, e
confessa não compartilhar nenhuma doutrina ou método
único (SAMUEL, 2002, p. 125-126).
O Pós-estruturalismo, como o próprio nome sugere, vai criticar
o Estruturalismo, na medida em que esse é visto como tributário do
modelo binário de ver o mundo, em pares dicotômicos, na esteira da
metafísica ocidental.
Em A escrita e a diferença (1967) e em Gramatologia (1973),
8
Derrida lança as bases da teoria da desconstrução, ao tentar
Aula
desconstruir o pensamento logofonocêntrico, isto é, amparado em
monismos, como o conceito de verdade (logo) e da palavra viva
(fono), calcado na metafísica, quando essa vincula a retórica à lógica
e o estilo ao significado, como se esse estivesse imune aos efeitos da
escrita. Para Derrida, a escrita não deve ser vista como uma sujeição
servil à fala, em substituição a essa última, pois toda linguagem é
metafórica e, tanto a filosofia, como o direito e a literatura constituemse enquanto linguagens figuradas, e trabalham sempre para tornar a
ambiguidade como injunção da verdade.
Derrida cria o neologismo différance, a partir dos verbos de
língua francesa différer e diférer, que, respectivamente, querem dizer
UESC
Letras Vernáculas
137
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
O pós-estruturalismo
adiar, diferir e citar, deferir. La différance vem a ser a constituição
mesma do signo, em sua condição vicária, isto é, em seu processo de
significação, está sempre no lugar de algo. E Descamps, em As Idéias
Filosóficas Contemporâneas na França (1991), elucida-nos como
ocorre essa condição do signo, de certa sorte, precária:
Os mecanismos de auto-afetação,de ‘diferança’, destroem
a linha régia da presença em si. Deslocar as figuras da
identidade, da origem, é desconstruir as oposições
seculares
entre
natureza/cultura,
presença/ausência,
sujeito/objeto, inteligível/sensível. A tarefa é imensa já
que esses rochedos não param de freqüentar os grandes
textos (DESCAMPS, 1991, p. 111).
O signo, assim, para justificar sua existência, precisa definirse pelo que não é, pela sua ausência, ainda que simule a presença;
por exemplo, o signo gato só se torna linguagem quando há a relação
de significância estabelecida, a chamada dupla articulação, entre
significante (cadeia fônica), composto por seus fonemas, e significado
(evocação mental de um ser, cuja existência é encontradiça nos
telhados das casas ou em seus porões). Portanto, /g/ /a/ /t/ /o/,
enquanto significante, só existe porque se opõe, se diferencia, por
exemplo, de
/s/ /a/ /p/ /o/, que remete a um outro significado,
que não o primeiro, sempre
em um processo de adiamento da
perfeita articulação entre significante e significado. Restando sempre
um componente de significado, que não foi incluído, na pauta da
metafísica ocidental, ao qual Derrida chama de suplemento, em
outras palavras, não se encontra representado no código linguístico
e, consequentemente, em todo o sistema de atribuição de sentido.
A crítica desconstrucionista procura demonstrar como
os textos podem ser abalados em seus sistemas lógicos
dominantes e o faz assinalando os pontos somáticos – os
aporia ou impasse de significado – onde a significação
textual se torna vulnerável,
perde coesão e se abre a
contradições (PIRES, 1989, p.130).
Logo, a desconstrução centra sua crítica aos monismos, que
se opõem ao dialogismo, ao pluralismo, à diferença, quando incide
suas análises em textos, visando evidenciar a vulnerabilidade de
significação, que balizaram todos os centros excludentes dos pares
dicotômicos ocidentais: centro/periferia, branco/negro, homem/
mulher etc.
Tais monismos encontram-se em qualquer área, em piadas,
138
Módulo 3
I
Volume 2
EAD
em novelas televisivas, em propagandas. Na literatura, tem um
grande registro nas histórias da literatura. Na literatura brasileira, por
exemplo, ocorre quando a figura do negro é colocada como subalterna
ou da mulher sempre em um papel de dependência em relação ao
homem, encerrando, em última instância, um preconceito velado,
incapaz de problematizar o que já está instituído na sociedade.
No poema, abaixo reproduzido, da poeta Adélia Prado (1991),
encontramos um questionamento aos papéis pré-determinados.
Através de pontos somáticos, de aporias ou impasses de significado,
que não se sustentam, quando questionados, tornam-se passíveis de
revisão:
Enredo para um tema
Ele me amava, mas não tinha dote
só os cabelos pretíssimos e uma beleza
de príncipe de estórias encantadas.
Não tem importância, falou a meu pai,
se é por isto, espere.
Foi-se com um bandeira,
E ajuntou ouro para me comprar três vezes.
Na volta me achou casada com D. Cristóvão
Estimo que sejam felizes, disse.
O melhor do amor é sua memória, disse meu pai.
Demoraste tanto, que... disse D. Cristóvão.
Só eu não disse nada, nem antes, nem depois.
Logo, o desconstrucionismo centra sua crítica aos monismos,
que se opõem ao dialogismo, ao pluralismo, quando incide suas análises
em textos, visando evidenciar a vulnerabilidade de significação. A
questão das relações de gênero, calcadas no patriarcalismo legitimase em um dos pares dicotômicos da tradição ocidental homem/mulher,
8
em que o segundo par foi sempre visto como menor, destituído da
Aula
razão, necessitando da intervenção do primeiro para existir. E Adélia
Prado coloca, em sua poesia, esse silenciamento posto sobre a
mulher - ela nunca fala - condicionada, que é, no caso, ao pai e ao
pretendente escolhido pelo primeiro. Negando assim o livre arbítrio,
pregado pelo racionalismo, para escolher o seu amor.
O filósofo E. Husserl, do Romantismo alemão, foi quem usou
pela primeira vez, na introdução de sua obra Origem da Geometria,
traduzida, em 1968, para o francês, o termo desconstrução. É
bom que se diga que desconstrução não significa destruição, mas
a possibilidade de ler aquilo que o texto esconde em suas partes
significativas, que, a primeira vista, pode passar despercebida.
UESC
Letras Vernáculas
139
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
O pós-estruturalismo
Nesta perspectiva, o monismo está para a tradição, para
aquela concepção de mundo que se opõe à multiplicidade da vida,
de que os seres não são perenes mas mutáveis, negando, portanto,
a pluralidade dos fenômenos, e se fecha ao diálogo, porque esse
pode levar à discórdia, à não adesão ao que o outro diz. Por isso,
o russo
Mikhail Bakhtin, dissidente do Formalismo Russo, já
havia detectado, em obras publicadas no início do século XX, como
Problemas da poética de Dostoiévski (2005) e A cultura popular na
Idade Média e no Renascimento. O Contexto de François Rabelais
(2008), muito antes do Pós-Estruturalismo, que a linguagem, que o
sentido atribuído aos fenômenos, não pode ser considerado fora de
seu uso, sem o embate de visões ideológicas, rumo ao pluralismo,
em síntese, ao pensamento democrático, que convive com variadas
opiniões.
Michel Foucault, grande conhecedor da filosofia de Nietzsche,
questionou não a relação da verdade com as coisas, mas a forma
como os discursos são instituídos como princípio de verdade, seja na
medicina, seja na sociedade, em geral; chamando atenção para como
os jogos de verdade e exclusão são engendrados, isto é, organizados
socialmente.
Decifrar a história das idéias não é tanto visar um
estabelecimento do verdadeiro e sim perceber arranjos
que articulam jogos de verdade e de exclusão, que
estabelecem o tolerado e o intolerável (DESCAMPS, 1991,
p.40).
Logo, o que é tolerável é aquilo que foge às normas da exclusão,
o que é aceito. Entre suas obras mais famosas, estão História da
Loucura (2003), As palavras e as coisas (1999), A arqueologia do
saber (1997) e Vigiar e Punir (1977) e todas elas, guardadas as
temáticas de cada uma, encerram a concepção de que o cidadão
encontra-se atravessado por discursos que o precedem. Ele apregoa,
em última instância, a morte do sujeito cartesiano, aquele que se diz
racional, fruto do seu livre arbítrio, uma vez que não somos autores
dos nossos discursos, mas meros veículos para aqueles que estão
legitimados por instâncias sociais.
Para Foucault, o poder não se encontra em instâncias
fechadas, isto é, em instituições, mas de forma difusa na estrutura
social. Roberto Machado estudioso da teoria foucaultiana, adverte,
em Ciência e Saber: A trajetória da Arqueologia de Foucault (1981).
140
Módulo 3
I
Volume 2
EAD
O Estado não é o ponto de partida necessário, o foco
absoluto que estaria na origem de todo tipo de poder
social e de que também se deveria partir para explicar
a constituição dos saberes nas sociedades capitalistas
(MACHADO, 1981, p.190).
Alerta-nos, entretanto, que o poder do Estado instituído em
uma sociedade também exerce sua coerção, entre os cidadãos, entre
outras microfísicas, isto é, aquilo que não é percebido, mas que coage
para a manutenção de uma verdade.
Então, as regras de sujeição disciplinar vão determinar as
fronteiras do permitido e do não permitido, porque se embasam
em pares que se opõem: alto/baixo, claro/escuro, natureza/cultura,
homem/mulher, centro/periferia. Em Vigiar e Punir, Foucault vai nos
dizer que as disciplinas atravessam o corpo social e a realidade mais
concreta do ser humano – o próprio corpo – como uma rede, sem que
suas fronteiras sejam delimitadas, através de: Métodos que permitem
o controle minucioso das operações do corpo, que asseguram a
sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de
docilidade-utilidade (FOUCAULT, 1977, p.139).
Jean-François
Lyotard,
outro
pós-estruturalista
francês,
escreve, no final da década de 70 do século passado, A condição
Pós-moderna (1988), em que elenca as metanarrativas, isto é, as
narrativas que respaldaram crenças e comportamentos da tradição do
mundo ocidental, essas sempre numa perspectiva de totalidade, seja
de cunho religioso, seja político-ideológico, que, a partir da década de
50, após a Segunda Guerra Mundial, começaram a ser questionadas.
A crítica feita por Lyotard ao continuísmo historicista pretende colocar
por terra toda uma hegemonia que legitimou o próprio conceito de
razão, vindo desde a Antiguidade Clássica, presa ao mundo das
8
Ideias, à tradição socrático-platônica e às religiões judaico-cristãs,
que, para se manterem, colocaram o mundo sempre balizado em
Aula
pares dicotômicos, cujo segundo elemento da díade é sempre visto
em posição de falta, de demérito. Justificando, dessa forma, o avanço
sobre continentes, o imperialismo europeu e, ao mesmo tempo, o seu
sistema patriarcal corrente.
Vejamos como o pós-estruturalismo incide sua crítica nos
valores ocidentais tidos como sagrados e plenos de verdade. Por
exemplo, em uma leitura próxima do que faziam os formalistas e
os estruturalistas, fragmentos do canto I, abaixo reproduzidos de
Os Lusíadas (2002) do poeta português Luís de Camões, podem ser
analisados do ponto de vista da cadeia fônica: rimas, assonâncias,
ecos, versos decassílabos, em rimas cruzadas e emparelhadas,
UESC
Letras Vernáculas
141
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
O pós-estruturalismo
conforme o esquema ABABABCCC.
Em relação ao conteúdo, os versos se estruturam em uma
rede de significação, que remete a uma série de predicações, sempre
alusivas à qualificação positivada do feito luso, por esse povo ter
contornado a África e chegado às Índias, com o objetivo primeiro de
expandir a fé cristã e levar aos colonizados a chamada civilização.
As armas e os Barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Trapobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram:
E também as memórias gloriosas
Daqueles Reinos que forma dilatando
A Fé, o império e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando.
E aqueles que por obras valorosas
Se vão da lei da Morte libertando:
( Luís de Camões)
Os portugueses encerram a positividade:
 Alcançaram
mares
nunca
X
dantes
Os habitantes da África e da Ásia encerram
a negatividade:
 Habitam terras viciosas (cheias de
navegados;
vícios).
 Passaram além da Trapobana;
 São guerreiros com superioridade aos
humanos;
 Entre gente remota edificaram/Novo
Reino;
 Têm
memórias
gloriosas
do
Reino
português;
 Dilataram a Fé;
 Como são heróis, têm condições de se
libertarem da lei da Morte;
 Suas obras são valorosas;
 O eu poético, como é o porta-voz da
nação lusa, tem engenho (inteligência)
e arte
(domina seus versos, sabe
escrever a sua literatura).
142
Módulo 3
I
Volume 2
EAD
Caso se opte por uma análise mais de cunho conceitual,
isto é, do ponto de vista do conteúdo, à luz das leituras, que se
propuseram a rever o racionalismo ocidental, como, por exemplo,
o pós-estruturalismo, os estudos culturais ou o pós-colonialismo,
teremos muito a dizer. A colonização de povos ditos primitivos há
algum tempo vem sendo revista, a partir de acontecimentos que
marcaram o mundo ocidental, como, as duas grandes guerras do
século XX; a invasão das tropas soviéticas na Hungria, em 1956,
e a denúncia de atrocidades cometidas contra a população local;
a descolonização de domínios europeus em outros continentes;
a entrada dos filhos do operariado em Universidades Abertas, na
Europa, nos anos 50 do século passado; o movimento estudantil de
1968, em Paris, com o apoio das feministas. Tais fatos constituem
elementos desencadeadores do que veio depois em termos de crítica.
A crítica, seja ao status quo, seja ao texto literário, requer,
mais do que um empreendimento, uma postura política, de quem
a faz, em forma de agência, em performace insidiosa. As teorias
críticas então ganham uma dimensão muito mais ampla, na medida
em que o teórico não pode mais se eximir do mundo e, nesta linha
de ação, estão os estudos culturais, o pós-colonialismo e a crítica
feminista, com forte vínculo com o pós-estruturalismo. Por isso que
Derrida atribui à metafísica qualquer sistema que dependa de base
inatacável, de um princípio primeiro de fundamentos inquestionáveis,
sobre o qual se pode construir toda uma hierarquia de significações
(EAGLETON, 1997, p.182).
Portanto,
legitimação
as
metanarrativas
-
sistemas
discursivos
de
balizadores comportamentais a prescreverem e a
encerrarem a melhor
maneira de dar sentido ao mundo - foram
postas a serviço do Ocidente, desde a Grécia antiga, e impuseram
a absolutização dos lugares enunciativos, isto é, a dissolução de
8
conflitos, para que o dissenso e a fragmentação se tornassem banidos
Aula
em nome da ordem e da exclusão.
PARA CONHECER
Veja mais sobre as teorias pós-estruturalistas em:
•
http://revistacult.uol.com.br/website/dossie.asp?edtCode=A0CEA9A1-CE22-4AC5-AB1BA9D302E460AB&nwsCode=9B76170A-0C06-44C7-8A53-D71166EA8B33
•
UESC
http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/M/micronarrativa.htm
Letras Vernáculas
143
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
O pós-estruturalismo
ATIVIDADE
1. Qual a crítica feita pelo Pós-estruturalismo ao Estruturalismo?
2. É possível vincular o Pós-estruturalismo ao Pós-modernismo, ao Pós-criticismo e à
desconstrução e quais os seus representantes?
3. Derrida critica o pensamento logofonocêntrico. O que ele quer dizer com isso?
4. Se a relação entre significante e significado, como fala Saussure, é sempre arbitrária,
como entender a noção de suplemento usada por Derrida?
5. O monismo se opõe ao dialogismo, ao pluralismo. Dê exemplos de como ocorre um
e outro, em obras literárias ou em outras produções de cultura, como em textos de
propagandas.
6.
Faça uma pesquisa em ditados populares, que trazem em seus conteúdos os
impasses de significados de que fala Derrida.
RESUMINDO
Estudamos, nesta Aula VIII, o Pós-estruturalismo, que, em seus
princípios epistemológicos, reveem todo o aparato do edifício ideológico
da tradição ocidental; estruturado em pares dicotômicos, cujo elemento
participante do primeiro deles é sempre o balizador de ver o mundo, enquanto
o segundo encontra-se representado a partir daquele.
CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. Lisboa: Rei dos Livros, 2002.
REFERÊNCIAS
BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski. Tradução
de Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005.
BAKHTIN, Mikhail. A Cultura Popular na Idade Média e no
Renascimento: o contexto de François Rabelais. Tradução de Yara
Frateschi Vieira. São Paulo/ Hucitec/Editora Universidade de Brasília,
2008.
BARTHES, Roland. S/Z. Tradução de Maria de Santa Cruz; Ana Mafalda
Leite. Lisboa: Edições 70, 1970.
DERRIDA, Jacques. L’écriture et la différence. Paris: Seuil, 1967.
DERRIDA, Jacques. Gramatologia. Tradução de Miriam Schnaiderman
e Renato Janine Ribeiro. São Paulo: Perspectiva, 1973.
DESCAMPS, Christian. As Idéias Filosóficas Contemporâneas na
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Módulo 3
I
Volume 2
EAD
França. Tradução de Arnaldo Marques. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 1991.
EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: Uma Introdução. Tradução
de Walter Dutra. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. Tradução de Salma
Tannus Muchail. São. Paulo: Martins Fontes, 1999.
FOUCAULT, Michel. História da loucura.
Coelho. São Paulo: Perspectiva, 2003.
Tradução de José Teixeira
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Tradução de Lygia M. Pondé
Vassalo. Petrópolis: Vozes, 1977.
REFERÊNCIAS
FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do Saber. Tradução de Luis Felipe
Baeta Neves. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997.
GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da
Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.
HUISMAN, Denis. Dicionário de Obras Filosóficas. São Paulo:
Martins Fontes, 2000.
LYOTARD, Jean-François. A Condição Pós-moderna. Tradução de
José Bragança de Miranda. Lisboa: Gradiva, 1988.
MACHADO, Roberto. Ciência e Saber: a trajetória da arqueologia de
Michel Foucault. Rio de Janeiro: Graal, 1991.
PIRES, Orlando. Manual de Teoria e Técnica Literária. Rio de
Janeiro: Presença, 1989.
PRADO, Adélia. Poesia reunida. São Paulo: Siciliano,1991.
SAMUEL, Roger. Novo manual de teoria literária. Petrópolis:
Aula
8
Vozes, 2002.
LEITURA RECOMENDADA
DESCAMPS, Christian. As Idéias Filosóficas Contemporâneas na França. Tradução de Arnaldo Marques. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991.
EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: Uma Introdução. Tradução de Walter Dutra. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.
LYOTARD, Jean-François. A Condição Pós-moderna. Tradução de José Bragança de Miranda. Lisboa: Gradiva, 1988.
SAMUEL, Roger. Novo manual de teoria literária. Petrópolis: Vozes, 2002
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Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
O pós-estruturalismo
Anexo
Derrida: Jacques Derrida nasceu em El-Biar, Argélia, em 15 de julho de
1930. Os anos de infância e de adolescência foram passados numa Argélia
marcada pela colonização e pela guerra.
Em 1949, mudou-se para Paris
e ingressou no curso preparatório para a École normale supérieure, sendo
admitido ali três anos mais tarde. Completou seus estudos superiores com a
dissertação O problema da gênese na filosofia de Husserl. Em 1956, é aceito,
na agrégation e recebe uma bolsa de special auditor para a Universidade
de Havard, em Cambridge, para consultar ali microfilmes dos inéditos de
Husserl, de quem começa a traduzir L’ Origine de la geométrie. Em junho
de 1957, casa-se com Marguerite Aucouturier, com quem terá dois filhos:
Pierre, em 1963, e Jean, em 1967. Publica, em 1967, seus três primeiros
livros: Gramatologia, A Escritura e a Diferença e A Voz e o Fenômeno. A
partir de então, se avolumam as publicações e sua atuação como professor
palestrante se estende a várias universidades na Europa e fora dela. A partir
de 1975, nos Estados Unidos, depois de ter dado seminário na Universidade
Johns Hopkins, passa a ensinar, algumas semanas por ano, em Yale, junto
com Paul de Man e Hillis Miller. Intensifica-se, nessa época, sua relação com
os Estados Unidos, quando grande parte de sua obra começa a ser traduzida
ali. Jacques Derrida esteve no Brasil por duas ocasiões. Em 1995, num evento
organizado pela USP e PUC-SP, o Professor profere, no grande auditório do
MASP, a palestra História da Mentira: prolegômenos, cuja tradução foi feita
por Jean Briant e publicada em Estudos Avançados 10 (27), pela Edusp
em 1996. Em junho de 2001, participou junto com René Major, no Rio de
Janeiro, dos Estados Gerais da Psicanálise. Os principais temas discutidos
foram: 1. Derrida e a Psicanálise; 2. Hospitalidade e Amizade; 3. Crueldade
e Soberania; 4. O Futuro do Homem Face à Tecnologia. Faleceu, em Paris, 8
de outubro de 2004.
Fonte: http://www.unicamp.br/iel/traduzirderrida/biografia.htm
Ilustração - Fonte: http://www.religion.ucsb.edu/projects/irreconcilabledifferences/Derrida.jpg
Husserl: Edmund Husserl (1859-1938), filósofo alemão fundador da
Fenomenologia, um método para a descrição e análise da consciência,
através do qual a filosofia tenta alcançar uma condição estritamente
científica. Para ele, a base filosófica para a lógica e a matemática precisa
começar com uma análise da experiência que está antes de todo pensamento
formal. Isto o obrigou a um intenso estudo dos empiristas ingleses John
Locke, George Berkeley, David Hume, e John Stuart Mill, e a familiarizar-se
com a terminologia da lógica e da semântica derivadas daquela tradição,
especialmente, a lógica de Mill. Husserl é autor de Investigações Lógicas
(1900-1901), Filosofia como ciência rigorosa (1911), Idéias para uma
Fenomenologia e uma Filosofia Fenomenológica Puras (1913), Lições para
uma Fenomenologia da Consciência Interna do Tempo (1928). Lógica Formal
e Lógica Transcendental (1929) e Meditações Cartesianas e Conferências de
Paris (1931).
Fonte: HUISMAN, 2000, p. 125, p.147, p.183, p. 319, p.320 e p. 540.
Ilustração - Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/8f/Edmund_Husserl_1900.jpg
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Volume 2
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Bakhtin: Mikhail Mikhailovich Bakhtin (1895 - 1975) nasceu em Orel, ao
sul de Moscou, mas cresceu entre Vínius e Odessa, cidades fronteiriças
com grande variedade de línguas e culturas. Mais tarde, estudou Filosofia e
Letras na Universidade de São Petersburgo, abordando em profundidade a
formação em filosofia alemã. Dedicou a vida à definição de noções, conceitos
e categorias de análise da linguagem com base em discursos cotidianos,
artísticos, filosóficos, científicos e institucionais. Em sua trajetória, notável
pelo volume de textos, ensaios e livros redigidos, esse filósofo russo não
esteve sozinho. Foi um dos mais destacados pensadores de uma rede de
profissionais preocupados com as formas de estudar linguagem, literatura
e arte, que incluía o linguista Valentin Voloshinov (1895-1936) e o teórico
literário Pavel Medvedev (1891-1938). Um dos aspectos mais inovadores da
produção do Círculo de Bakhtin, como ficou conhecido o grupo, foi enxergar
a linguagem como um constante processo de interação mediado pelo diálogo
e não apenas como um sistema autônomo, como via a linguistica estrutural.
Fonte: revistaescola.abril.com.br/.../filosofo-dialogo-487608.shtm/
Ilustração - Fonte: http://linguisticadeldiscurso.blogspot.com/
Foucault: Michel Foucault (1926- 1984) foi professor de História dos
Sistemas de Pensamento no Collège de France de 1970 a 1984. Autor das
seguintes obras, nas quais analisa a construção da verdade – os biopoderes
e as disciplinas - para o Ocidente: História da Loucura (1961), As Palavras e
as coisas, uma arqueologia das ciências humanas (1966), A Arqueologia do
saber (1969), Vigiar e Punir (1975) e História de sexualidade (1976).
Fonte:
HUISMAN, 2000, p.16, p. 270, p. 271, p.422, p. 568.
Ilustração - Fonte: http://www.phillwebb.net/History/TwentiethCentury/continental/%28Post%29Structuralisms/
Foucauldian/Foucault/Foucault.htm
Nietzsche: Friedrich Wilhelm Nietzsche, filósofo alemão (1844 - 1900), que
8
teceu duras críticas à modernidade, por isso se justifica sua influência entre
os pós-estruturalistas. Para Nietzsche, a verdade se tornou uma multidão
Aula
de metáforas e metonímias, ou seja, relações humanas. Mas elas parecem
objetivas e incriadas. O homem só conhece o efeito das leis da natureza,
e não elas mesmas. A atividade do conhecer é um meio de se atingir a
potência. Para se contrapor à ilusão em que vivemos, devemos desenvolver
uma força artística. O mundo que percebemos é uma obra de arte dos sentidos
e do intelecto da concepção de conhecimento deriva a noção kantiana do
conhecimento com atividade constituinte e legisladora. Nietzsche é contra a
humanização do mundo. Entre suas obras, estão: Nascimento da tragédia
(1872), Humano, Demasiado Humano (1878-1886), Assim falava Zaratustra
(1813-1815), Gaia Ciência (1883-1887), Além do bem e do mal (1886),
Genealogia da moral (1887), Vontade de Poder (1901) e Ecce homo (1908).
Fonte: http://www.mundodosfilosofos.com.br/nietzsche.htm
Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Nietzsche187c.jpg
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Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas
O pós-estruturalismo
Lyotard: Jean-François Lyotard (1924 -1998) foi um filósofo dos mais
importantes filósofo francês que pensou a sobre a pós-modernidade.
Lecionou filosofia no ensino secundário, na Argélia, e no superior, como na
Universidade de Sorbonne, de Nanterre e de Vincennes, por mais de trinta
anos. Recebeu o título de professor agregado em filosofia, em 1958, e o título
de doutor em Letras, em 1971. Dedicou-se durante longos anos a trabalhos
teóricos e práticos no grupo “Socialismo ou Barbárie” e em Pouvoir ouvrier.
Em 1979, deu aulas na Universidade de São Paulo. Foi membro do Collège
International de Philosophie, professor emérito da Universidade de Paris,
professor de francês na Universidade da Califórnia (Irvine). Mudou-se para a
Emory University, Atlanta,Estados Unidos, em 1995, onde lecionou francês
e filosofia. É autor de: Economia Libidinal (1974), A condição Pós-moderna
(1979) e O Litígio (1983).
Fonte:http://www.estacaoliberdade.com.br/autores/lyotard.htm
Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Jean-Francois_Lyotard_cropped.jpg
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Suas anotações
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aula - UESC