Alexandre Spiguel F de Santa Anna Aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos em empresas públicas e organizações governamentais: A percepção dos gestores de projetos Dissertação de Mestrado Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre pelo Programa de PósGraduação em Administração de Empresas da PUC-Rio. Orientador: Profa. Sandra Regina da Rocha Pinto Rio de Janeiro Setembro de 2012 Alexandre Spiguel F de Santa Anna Aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos em empresas públicas e organizações governamentais: A percepção dos gestores de projetos Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre pelo Programa de PósGraduação em Administração de Empresas da PUC-Rio. Aprovada pela Comissão Examinadora abaixo assinada. Profa. Sandra Regina da Rocha Pinto Orientadora Departamento de Administração – PUC-Rio Prof. Marcos Lopez Rego Instituto de Pesquisas da Marinha Profa. Mônica Zaidan Gomes FACC/UFRJ Profª. Mônica Herz Vice-Decana de Pós-Graduação do CCS Rio de Janeiro, 20 de setembro de 2012 Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial do trabalho sem a autorização da universidade, do autor e do orientador. Alexandre Spiguel Fernandes de Sant’Anna Graduou-se em Administração de Empresas pela PUC-Rio em 2001. Analista Administrativo – Especialidade: Administração - da Agência Nacional de Saúde Suplementar - ANS, tomando posse em Agosto de 2005, tendo sido aprovado no concurso público em 1º lugar em nível nacional, onde atua como gestor diversos projetos na área de Tecnologia da Informação. Ficha Catalográfica Santa Anna, Alexandre Spiguel F. de Aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos em empresas públicas e organizações governamentais : a percepção dos gestores de projetos / Alexandre Spiguel F. de Santa Anna ; orientadora: Sandra Regina da Rocha Pinto. – 2012. 113 f. : il. ; 30 cm Dissertação Católica do (mestrado)–Pontifícia Rio de Janeiro, Universidade Departamento de Administração, 2012. Inclui bibliografia 1. Administração – Teses. 2. Gerenciamento de projetos. 3. Aprendizagem. 4. Organizações governamentais. 5. Gestão do conhecimento. I. Pinto, Sandra Regina da Rocha. II. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Departamento de Administração. III. Título. CDD: 658 À minha querida e amada mãe, Rachel Spiguel (In memorian) que foi cedo demais, sem ter podido ver os frutos dos seus frutos; À minha amada esposa Andyara; e, Ao nosso filho, Rudá, que acabou de chegar e a quem ainda não pude me dedicar. Agradecimentos Certa noite, assistindo às aulas do Curso de Mestrado, mais propriamente de uma disciplina que abordava o tema Gestão da Mudança, uma colega, durante seu painel explanatório, chamava nossa atenção para alguns eventos, digamos, naturais, ou seja, que ocorrem com a maioria de nós, pessoas normais, e que muitas vezes seriam o estopim de profundas mudanças em nossas vidas. Minha colega seguiu relacionando-os, como a realização de um curso stricto sensu – como este que concluo com esta dissertação - uma mudança significativa no trabalho, a perda de um ente querido, o casamento, a mudança para uma nova casa...e as obras, a vinda do primogênito: eventos marcantes de nossa evolução; marcas da vida ao longo do tempo. Agora, e se eles ocorressem praticamente ao mesmo tempo, no mesmo ano, como lidar com profundas e drásticas mudanças como essas, e ainda mais, acontecendo "tudo ao mesmo tempo agora? Foi assim que vida quis que fosse comigo! Com tantos desafios se sobrepondo, só consegui dar conta dos percalços que, por vezes, tentaram se sobrepor – sem êxito – à busca pelo saber, devido a estes que relaciono agora. Agradeço, imensamente, à minha orientadora Sandra Regina da Rocha Pinto, cujas ideias me ajudaram a achar um caminho possível a trilhar nesta pesquisa, e cuja serenidade foi-lhe testada ao máximo. À Agência Nacional de Saúde Suplementar, que patrocinou este Curso de Mestrado, e aos muitos que me apoiaram ao longo desta odisseia: Dr. Hésio Cordeiro e seus assessores, que me estimularam nesta direção. À equipe da Coordenação de Pessoas e Trabalho – CODPT - responsáveis pela aprovação desta capacitação. Ao Superintendente de Gestão, à época, Dr. José Jardineiro, que colaborou para tal contratação. A minha antiga gerente, Carla Godoy, pelo apoio durante o início das atividades do curso, e as minhas atuais Gerentes, Márcia Marinho e Sheila Monteiro, que compreenderam a envergadura deste desafio, dadas as condições no qual ocorria, e me permitiram ter a dedicação necessária para vencê-lo. E aos meus colegas e amigos de serviço, pela amizade, apoio e consideração que tanto necessitei. Aos colegas gestores de projetos, sem os quais não seria possível a realização desta pesquisa. Aos Mestres em Administração de Empresas pelo IAG/PUC - Rio, Rafael Sabbagh Armony e Philipe Deschamps Gonçalves Dias, cujos trabalhos ajudaram a estruturar minha dissertação. Aos colegas da minha turma de mestrado - Turma de 2010 – com quem tive a felicidade de compartilhar ricos e inesquecíveis momentos de aprendizado. Ao longo deste Curso de Mestrado, tive a oportunidade de conhecer não apenas à minha turma de origem – Turma 2010, mas também as turmas subsequentes de 2011 e 2012, a quem agradeço o carinhoso acolhimento. À todos os professores do IAG, pela excelência na condução de seus cursos; em especial à Profª Ana Heloísa, pela oportunidade de aprender como seu Estagiário em Docência, e para o Profº Marcos Rego, que desde os tempos de graduação até a conclusão do curso de mestrado – sem contar no convício “extraclasse” durantes os eventos sobre Gerenciamento de Projetos – esteve sempre disposto a me receber e orientar no aprendizado da Ciência da Administração. À Teresa Campos e ao Fábio Etienne, profissionais dedicados, que com sua orientação paciente tornam-se guias para nós alunos; e, a toda equipe do IAG, sempre disponível para nos ajudar. À minha equipe médica: Dra. Liz Muylaert, Dra. Rosane Sanna, Dr. Felipe Dias e Dr. Christiano Figueiredo, que me acompanharam e me ajudaram nas curas necessárias durante este árduo período. Àqueles da família que não escolhi: meus irmãos de alma. À minha família: às minhas tias, por seu carinho, ternura e compreensão; aos meus primos, pelo exemplo que são; às minhas cunhadas, que me ajudaram com meu filho e com meu trabalho final; à minha sogra, de quem tenho a sorte de ser genro; e ao meu irmão e sua esposa, pelo amor, amizade e respeito que me demonstram ter. E, finalmente: Ao Criador, cuja faísca divida me faz existir. À minha amada e querida mãe, Rachel Spiguel, responsável maior por eu estar onde estou, minha mentora maior, exemplo de retidão, disciplina e justiça, de quem herdei a aptidão pela administração e cujos passos procuro seguir, e que devido aos desígnios do destino não pode revisar este trabalho - como sempre fazia e o fez em alguns no início do curso; ao meu pai, Paulo Cesar, um guerreiro a nos proteger e nos amparar; ao meu pequeno Rudá, minha maior fonte de vontade e que precisou esperar um tantinho para ter seu pai por inteiro; e, é claro, à minha amada e companheira esposa, Andyara, cujo apoio e dedicação incondicional me foram vital, e sem o qual não teria conseguido concluir este trabalho. A vida é o que lhe acontece, enquanto você está ocupado fazendo outros planos. Jonh Lennon Resumo Sant'Anna, Alexandre Spiguel Fernandes; Pinto, Sandra Regina da Rocha. Aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos em empresas públicas e organizações governamentais: A percepção dos Gestores. Rio de Janeiro, 2012, 113p. Dissertação de Mestrado – Departamento de Administração, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. A utilização de boas práticas de gerenciamento de projetos vem aumentando nas esferas das empresas públicas e organizações governamentais apresentando como proposta principal o desenvolvimento e entrega de produtos, serviços ou soluções, dentro do prazo, custo e escopo planejados, através da aplicação de um conjunto de boas práticas - o Project Management Body of Knowledge Guide – PMBOK (PMI, 2008). Este trabalho teve como objetivo a identificação dos principais fatores que podem favorecer ou comprometer a aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos. Realizouse, para isso, um estudo fenomenográfico, utilizando-se de entrevistas semiestruturadas, com profissionais praticantes desta boas práticas em empresas públicas e governamentais. Como resultado foram identificado os seguintes fatores que favorecem o aprendizado, a partir da interpretação da opinião dos entrevistados pelo pesquisador: Comunicação, Liderança, Planejamento, Integração, Multidisciplinaridade, e Informações. Em seguida, estes fatores foram relacionados com as fases do projeto onde podem exercem maior impacto, a fim de orientar os gestores de projetos destas organizações em quais fatores e em quais fases do projeto devem estar atentos à sua manifestação, visando favorecer a aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos em empresas públicas e organizações governamentais. Palavras-Chave: Gerenciamento de projetos; aprendizagem; organizações governamentais; gestão do conhecimento. Abstract Sant'Anna, Alexandre Spiguel Fernandes; Pinto, Sandra Regina da Rocha (Advisor). Learning in the cycle-of-life in public companies and government organizations: Perciptions of Managers. Rio de Janeiro, 2012, 113p. Dissertação de Mestrado – Departamento de Administração, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Public firms and governmental organizations have increasingly used the Project Management Body of Knowledge Guide – PMBOK (PMI, 2008) aiming the development and timely delivery of products, services, and solutions with planned time, costs and scope. Given the complexity and dynamic of the market, it has been necessary not only to seek efficacy, but also organizational efficiency, increasing the benefits generated by the utilization of project management best practices. The purpose of this study was to identify the main factors that were related to either fostering or hindering the learning process during project development. It was a phenomenographic study, where semi-structured interviews were applied to PMBOK (PMI, 2008) experts in public firms and governmental organizations. The results showed that communication, leadership, planning, integration, multidisciplinarity, and information were factors to promote learning according to the author’s interpretation of the interviewees’ responses. Finally, these factors were related to each project phase that they exert the greatest impact upon, hoping to provide some guidance to project managers while enhancing learning in project life-cycle in public firms and governmental organizations. Keywords: Project Management; Organizations; Knowledge Management. Learning; Governmental Sumário 1Introdução 1 1.1. Problema de Pesquisa 2 1.2. Objetivos 3 1.3. Questões da Pesquisa 3 1.4. Relevância do Estudo 4 1.5. Delimitações do Estudo 6 1.6. Estrutura da Dissertação 7 2 Referencial Teórico 8 2.1. Proposta do Guia de Boas Práticas – PMBOK 8 2.1.2. Definição de Projetos 9 2.1.3. Gerenciamento de Projetos 10 2.1.4. Gerenciamento de Portifólio de Projetos 11 2.1.5. O Papel do Gerente de Projetos 11 2.1.6. Fatores Organizacionais 13 2.2. Ciclo de Vida do Projeto e Organização 13 2.2.1. Ciclo de Vida dos Projetos 14 2.2.2. Fases dos Projetos 16 2.2.3. Atividades de Projetos e Atividades Funcionais 18 2.2.4. Partes Interessadas 19 2.3. Processos de Gerenciamento de Projetos 21 2.3.1. Áreas do Conhecimento do Guia PMBOK 24 2.3.2. Integração 25 2.3.3. Ativos de Processos Organizacionais 26 2.3.4. Lições Aprendidas 29 2.4. Aprendizagem 33 2.4.1. Aprendizagem e Lições Aprendidas 33 2.4.2. Aprendizagem Individual 35 2.4.3. Aprendizagem Através da Comunicação 36 2.4.4. Aprendizagem Através do Repositório de Conhecimento 37 2.4.5 Aprendizagem Através de Projetos 40 3 Metodologia de Pesquisa 42 3.1. Tipo de Pesquisa 42 3.2. Papel do Pesquisador 43 3.3. Seleção de Sujeitos 44 3.4. Procedimentos de Coleta e Registro de Dados 45 3.5. Limitações do Método 47 4 Análise e Discussão dos Resultados 49 4.1. Introdução 49 4.2. Gerenciamento de Projetos e Aprendizagem sob a ótica dos Entrevistados 49 4.2.1. Gerenciamento de Projetos para os Entrevistados 50 4.2.2. Aprendizagem sob a ótica dos Entrevistados 53 4.3 Fatores que Influenciam a Aprendizagem em Gerenciamento de Projetos em Empresas Públicas e Governamentais 57 4.3.1. Comunicação 59 4.3.2. Liderança 62 4.3.3. Planejamento 66 4.3.4. Integração 71 4.3.5. Multidisciplinaridade 76 4.3.6. Informações 78 5 Considerações Finais 90 5.1. Conclusões 90 5.2. Sugestões 95 6 Referências Bibliográficas 97 Lista de Figuras Figura 1: Ciclo de vida do projeto. 15 Figura 2: Impacto variável com base no tempo decorrido do projeto. 15 Figura 3: Repetição sequencial dos grupos de processo de gerenciamento de projetos com fases sobrepostas. 17 Figura 4: Ciclo dos processos de gerenciamento de projetos. 17 Figura 5: A relação entre as partes interessadas e o projeto. 19 Figura 6: Grupos de processos de gerenciamento de projetos. 23 Figura 7: As nove áreas do conhecimento em gerenciamento de projetos. 24 Figura 8: Os seis processos de gerenciamento de projetos e respectivos grupos de processos. 26 Figura 9: Tipos de aprendizado e suas interações e a relação com o processo do conhecimento, segundo Heijst et al. 34 Figura 10: Aprendizagem individual nas organizações, segundo Heijst et al. 35 Figura 11: Aprendizagem organizacional através da comunicação, segundo Heijst et al. 36 Figura 12: Aprendizagem organizacional através do repositório de conhecimento, segundo Heijst et al. 38 Lista de Quadros Quadro 1: Responsabilidades e aptidões do gerente de projetos segundo Rego. 12 Quadro 2: Lições Aprendidas e Boas Práticas organizadas por área de gerenciamento do projeto ou fase, segundo Dinsmore. 32 Quadro 3: Perfil dos Entrevistados. 45 Quadro 4: Roteiro de entrevista. 46 Quadro 5: Informações que compõem lições aprendidas, segundo Ericeira. 89 Quadro 6: Identificação dos fatores para aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos. 95 1 Introdução O surgimento das Agências Reguladoras no Brasil é um fenômeno recente que se iniciou em 1998, uma vez que nem o modelo de Estado Neoliberal, tampouco o de Estado Intervencionista deram conta de garantir o bem-estar social (Dias, 2010) – ou wellfare state - tido hoje como objetivo maior das políticas estatais, independente dos governos que as realizam. Dada a “transferência das funções de utilidade pública do setor público para o privado, com o fenômeno da privatização” (Kaufmann, 2006, p.1), partindo do pressuposto que a “mão-invisível” como autoregulação de mercado não é suficiente para garantir uma concorrência justa – nem uma relação equilibrada entre os diversos atores do setor, a saber, por exemplo, no caso da saúde suplementar: beneficiários, operadoras de planos de saúde e prestadores de serviço – desponta a necessidade de evitar o surgimento ou mitigar os efeitos nocivos ao mercado oriundos de diversas assimetrias nas relações do setor. Neste contexto surge a Agência Nacional de Saúde Suplementar – ANS – a fim de desempenhar a função regulatória, através da constituição de marco legal direcionado ao monitoramento do mercado, e ao controle e fiscalização das operadoras. A ANS se constitui numa autarquia especial, dotada de autonomia financeira e administrativa, com a missão institucional de promover a defesa do interesse público na Saúde Suplementar (Lei Federal nº 9.961 de 28 de janeiro de 2000). A ANS realiza diversos processos para o adequado cumprimento de sua missão, processos esses executados por diferentes instâncias da organização, como por exemplo, os núcleos implantados em outras regiões do país. No entanto, devido à complexidade e à dinâmica do mercado regulado, faz-se mister a constante busca por inovação, seja nas proposições às políticas regulatórias, bem como na gestão da própria organização. Em vista 2 disto, e no sentido de viabilizar a modernização do Estado – proposto pelo programa do Ministério do Planejamento e Gestão - MPOG – que tem como visão o Estado como referência em Gestão, coadunado às normas recentes gerada pela Secretaria de Logística e Tecnologia da Informação, SLTI/MPOG, e editada pelo Ministério de Orçamento e Gestão, que recomenda implementação de processo de governança na área de Tecnologia da Informação, criando uma janela de oportunidade para busca, desenvolvimento e aplicação de novas tecnologias, metodologias, e boas práticas gerenciais, Assim, foi proposto e aprovado pela Diretoria Colegiada da instituição a implementação de boas práticas de Gerenciamento de Projetos, seguindo os pressupostos do Guia PMBOK (PMI, 2008) desenvolvido pelo Project Management Institute – PMI, fundação sem fins lucrativos, reconhecida mundialmente, que cuida da padronização, formação e certificação de profissionais na disciplina de Gestão de Projetos. 1.1. Problema de Pesquisa A aplicação dos conhecimentos, habilidades e técnicas concernentes à disciplina de Gestão de Projetos, visa entregar, produtos, serviços ou soluções, de acordo com o escopo planejado, no prazo acordado, com o custo previsto e com a qualidade anteriormente estabelecida (PMI, 2008). Partindo do pressuposto de que, atingir tais objetivos é o mínimo esperado pelo gestor de projetos - bem como para o cliente quando da aplicação de boas práticas de gestão de projetos, e levando em consideração que os benefícios gerados pelo projeto seja para o cliente, seja para organização – costumam de se dar após a entrega do produto do projeto (PMI, 2008), buscou-se por descobrir como potencializar os benefícios gerados para a organização executora do projeto, através da aprendizagem gerada durante o ciclode-vida do mesmo, e dado que as informações históricas e lições aprendidas que entram na base de conhecimento corporativo são 3 importante insumo dos ativos de processos organizacionais (Heijst, et al, 1996), a questão que se delineia é: quais são os fatores que podem favorecer ou comprometer a aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos em empresas públicas e organizações governamentais? 1.2. Objetivos O presente estudo visa a entender quais são os fatores que favorecem ou comprometem a aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos em empresas públicas e organizações governamentais. 1.3. Questões de Pesquisa A questão central desta pesquisa é: O que os profissionais gestores de projetos, praticantes da disciplina de Gerenciamento de Projetos proposta pelo Project Management Institute – PMI, cujas boas práticas estão descritas no Guia PMBOK (PMI, 2008), e que vivenciam experiências em gestão de projetos de empresas públicas e organizações governamentais, percebem como fatores que favorecem ou comprometem a aprendizagem no ciclo-devida dos projetos? 4 1.4. Relevância do Estudo Para atingir seus objetivos as organizações executam processos de trabalhos, ou seja, fluxos de atividades visando a um objetivo de negócio. No entanto, para produzir um novo produto, serviço ou resultado exclusivo, é necessário organizar suas idéias e intenções no formato de projetos. Tal forma de se organizar e coordenar atividades não são necessariamente uma novidade, uma vez que a humanidade sempre realizou projetos, seja na esfera privada, como ter um filho, ou em sociedade, como na construção das Pirâmides do Egito (Xavier, 2009). Porém, para projetos terem sucesso – o sentido de sucesso apresentado aqui é compreendido pelos praticantes das boas práticas de gerenciamento proposta pelo PMI da seguinte maneira: disponibilizar tal produto, serviço ou resultado exclusivo conforme escopo planejado, no prazo definido, dentro do orçamento acertado e com a qualidade esperada (PMI, 2008), é mister que a organização disponibilize aos líderes de projetos os insumos adequados, sejam de natureza financeira, material ou humana. Mas se não trata, apenas, disso: é imprescindível a adequada gestão do projeto, a partir do planejamento dos recursos e da estratégia de desenvolvimento, bem como da correta execução e do controle. Com a evolução destes processos de gestão foram estabelecida boas práticas que são difundidas aos seus praticantes pelo Project Management Institute – PMI, instituição sem fins lucrativos que a mais de trinta anos realiza tal missão. O objetivo precípuo proposto pelas boas práticas de Gerenciamento de Projetos difundidas pelo PMI é, através da aplicação dos conhecimentos, habilidades e técnicas concernentes à disciplina, em diversas áreas do conhecimento, entregar produtos, serviços ou soluções, de acordo com o escopo definido, no prazo acordado, dentro custo previsto e com a qualidade anteriormente estabelecida (PMI, 2008). Partindo do pressuposto que atingir tais objetivos é o mínimo esperado pelo gestor de projetos, bem como para o cliente, este estudo tem como objetivo a identificação dos lócus de 5 oportunidades de aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos, a fim de gerar para organização benefícios durante a execução do projeto. Portanto, conhecer os principais fatores que favorecem ou comprometem tal aprendizagem poderá apontar caminhos para, não apenas colaborar para aprendizagem, como também, para a retenção deste conhecimento para organização (Heldman, 2009). Na esfera pública e governamental, o estudo ganha relevância dada às particularidades oriundas dos marcos legais constitucionais, de criação das Agências e de gestão governamental, como: Princípio da Administração Eficiência, que Pública deve prevê buscar que o aperfeiçoamento na prestação dos serviços públicos, mantendo ou melhorando a qualidade destes, com economia de despesas, objetivando o binômio: qualidade prestada com racionalidade de gastos (Constituição Federal/98), e que pode ser perseguido através da aplicação das boas práticas de gerenciamento de projetos, devido aos benefícios gerados por tal aplicação (PMI, 2008); Interesse público no objeto gerido ou serviço prestado por tais organizações (Lei 9961, 01/2000), o que exige dos gestores públicos melhoria contínua dos serviços prestados; Temporalidade dos Gestores e Assessores em cargos de livre nomeação (Lei 9961, 01/200), que intensifica a importância de, não somente a aplicação de boas práticas de Gerenciamento de Projetos - neste caso específico, pela documentação gerada que será adicionada à memória da organização e que possibilitará a continuação dos projetos 6 quando do término dos mandatos de natureza temporária – bem como da retenção da aprendizagem gerada durante seus mandatos; Estabilidade do quadro funcional de servidores de carreira (Lei 8112, 12/1990), que permitirá usufruir de tal aprendizagem ao longo do tempo de serviço. Determinação imposta pela norma da Secretaria de Logística e Tecnologia da Informação - Ministério de Orçamento e Gestão (IN SLTI/MPOG 04/2010), que determina a implementação de processo de governança na área de Tecnologia da Informação - incluindo a aplicação de boas práticas de gerenciamento de projetos conforme propostas pelo PMBOK (PMI, 2008), no desenvolvimento das soluções em TI, o que traz possibilidades de geração de benefícios para organização executora, que não aqueles previstos quando da entrega do produto, serviço ou solução gerado pelo projeto, mas sim, pela aprendizagem durante seu ciclo-devida. 1.5. Delimitação do Estudo Este trabalho estudou, a partir do ponto de vista dos gestores de projetos, praticantes da disciplina de Gerenciamento de Projetos proposta pelo Project Management Institute – PMI, que vivenciam experiências em gestão de projetos de empresas públicas e organizações governamentais, percebem como fatores que favorecem ou comprometem a aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos. 7 Além disso, para seleção dos entrevistados, não foram excluídos profissionais devido ao tipo de vínculo, podendo ser servidores de carreira – civis ou militares, servidores nomeados, contratados terceirizados e consultores, ou devido ao nível do profissional, incluindo gestores de projetos nível pleno e seniores. Foi escolhido o Guia PMBOK, proposto pelo PMI (2008), por ser amplamente reconhecido e utilizado em diversas empresas públicas e organizações governamentais, e principalmente, por ser recomendado pela IN 04 - Instrução Normativa MP/SLTI Nº04, norma editada pela Secretaria de Logística e Tecnologia da Informação - SLTI do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão – MP, para utilização em todos os órgãos integrantes do Sistema de Administração dos Recursos de Informação e Informática – SISP – do Poder Executivo Federal. 1.6. Estrutura da Dissertação O estudo aqui apresentado está organizado da seguinte forma: No capítulo 1 é apresentado o problema de pesquisa que motivou o trabalho, o objetivo, e as questões de pesquisa. Também é tratada a relevância do estudo, bem como sua delimitação. No capítulo 2 são apresentados os aspectos básicos da disciplina de Gerenciamento de Projetos conforme proposto pelo PMI, bem como aspectos referentes à Aprendizagem a partir da literatura pesquisada. O capítulo 3 versa sobre a metodologia utilizada para pesquisa, e descreve o papel do pesquisador, a seleção dos sujeitos, o procedimento de coleta e registro de dados e as limitações do método. No capítulo 4 apresenta-se a análise dos dados e discussão dos resultados da pesquisa com base no referencial teórico apresentado. No capítulo 5 são apresentas as conclusões e recomendações deste trabalho. Por fim, o capítulo 6 lista as referências bibliográficas utilizadas. 2 Referencial Teórico Este trabalho estuda o que os gestores de projetos, praticantes da disciplina de Gerenciamento de Projetos proposta pelo Project Management Institute – PMI, em instituições públicas e organizações governamentais, que vivenciam experiências de Gestão de Projetos percebem como fatores que favorecem ou comprometem a aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos. Dessa forma, o referencial teórico deste estudo tem como principal base os conhecimentos, processos, hablidades, ferramentas e técnicas de gerenciamento de projetos proposta pelo PMI, da forma descrita no Guia PMBOK (PMI, 2008), em conjunto com outros autores reconhecidos pela comunidade de praticantes, e que abordam as boas práticas de gerenciamento de projetos. Ainda, são citados conceitos apresentados por teorias clássicas sobre Aprendizagem, e suas diversas formas de aplicação nas organizações. 2.1. Proposta do Guia de Boas Práticas – PMBOK O Guia do Conhecimento em Gerenciamento de Projetos – PMBOK (PMI, 2008) é um padrão reconhecido para utilização de profissionais de gerenciamento de projetos, editado e revisto, periodicamente, pelo Project Management Insititute – PMI, instituição internacional sem fins lucrativos, fundada em 1969, com sede na cidade de Filadélfia (Estados Unidos), cujos principais objetivos são: formular padrões profissionais de gestão de projetos; gerar conhecimento por intermédio da investigação; e, promover a gestão de projetos como profissão através de seus programas de certificação (Disponível em: <HTTP://pmi.org> Acesso em: 5 maio 2012). O Guia PMBOK (PMI, 2008) descreve normas, métodos, processos e práticas já 9 estabelecidas para os praticantes desta disciplina de gerenciamento de projetos. Sugere também a utilização de conhecimentos, processos, hablidades, ferramentas e técnicas que devem ser aplicadas ao desenvolvimento de projetos, e apresenta um vocabulário comum para os profissionais da área, que torna-se um elemento padrão essencial para a profissão. Além disso, orienta os praticantes de gerenciamento de projetos, através do Código de Ética e Conduta Profissional do PMI. 2.1.2. Definição de Projeto A definição de projeto utilizada pelo PMI é “um esforço temporário empreendido para criar um produto, serviço ou resultado exclusivo” (PMI, 2008). É de natureza temporal, ou seja, tem início, meio e fim definidos. Para geração do resultado esperado do projeto, é necessário um esforço de trabalho contínuo, que se constituem nos processos de gerenciamento. Apesar de apresentar elementos repetitivos em algumas entregas, devido às particularidades de cada mercado ou organização, cada projeto é um evento único. Um projeto pode criar um produto, sendo este um item final ou componente de outro item; a capacidade de realização de um serviço, como funções empresariais que dão suporte à produção ou à distribuição; ou, um resultado, no formato de um documento, como por exemplo, num Projeto de Pesquisa de Mercado para de determinar esta ou aquela tendência. Os projetos também podem servir para efetuar mudança de estruturas organizacionais e desenvolvimento de pessoas nas mesmas, ou ainda, desenvolvimento ou aquisição de equipamentos e sistemas de informação (IN SLTI/MPOG 04/2010). 10 2.1.3. Gerenciamento de Projetos Gerenciar projetos, segundo o Guia PMBOK (PMI, 2008) é utilizar um conjunto de conhecimentos, habilidades, ferramentas e técnicas, aplicadas às atividades do projeto visando atender os requisitos do projeto. A realização do projeto se dá pela utilização integrada de 42 processos de gerenciamento agrupados em cinco grupos distintos, que ocorrem em diferentes momentos do desenvolvimento do projeto, também conhecidos como fases: iniciação, planejamento, execução, monitoramento e controle, e encerramento. Para gerenciar um projeto é necessário identificar seus requisitos, adaptando-o às diferentes expectativas e necessidades das partes interessadas na medida em que o planejamento do projeto vai sendo realizado, balanceando as restrições conflitantes dos projetos como escopo, qualidade, cronograma, orçamento, recursos e riscos. Cada projeto específico terá restrições nas quais o gerente precisará se concentrar, a fim de verificar de que forma cada uma impacta no gerenciamento do projeto buscando formas de balancear seus efeitos. Por exemplo: para redução do tempo necessário para conclusão do projeto, que se refletirá no cronograma, provavelmente será necessária também uma alteração no orçamento, de forma a incluir recursos adicionais. Não sendo possível um aumento no orçamento, ou escopo, a qualidade poderá sofrer redução para que seja possível entregar um produto, serviço ou resultado, com menos tempo e o mesmo orçamento. Tendo em vista o potencial de mudança, o plano de gerenciamento do projeto é um processo iterativo, que passa por uma elaboração progressiva durante seu ciclo de vida, que envolve melhoria contínua e documentação em forma de um plano que apresente as informações de maneira detalhada e específica, bem como estimativas mais exatas quanto possíveis, de forma que, com a evolução do projeto seja possível para a equipe gerenciar com um nível maior de detalhes. 11 2.1.4. Gerenciamento de Portifólio de Projetos Portifólio de Projetos refere-se a um conjunto de projetos agrupados a fim de facilitar o gerenciamento adequado destes visando concluí-los com sucesso e consolidar suas entregas a fim de atingir os objetivos estratégicos da organização. Utiliza-se o termo sucesso quando um projeto é concluído de acordo com os requisitos planejados, referentes a escopo, custo e tempo. O Gerenciamento de Portifólio relaciona-se ao gerenciamento centralizado de um ou mais portifólio de projetos, e envolve a identificação, priorização, autorização, gerenciamento e controle de projetos, concentrando-se em garantir a análise dos projetos frente à disponibilidade de recursos, com fim de priorizá-los e alocá-los da forma mais adequada possível, e ainda, que tais projetos estejam alinhados com a estratégia da organização. 2.1.5. O Papel do Gerente de Projetos O Gerente de Projetos é o responsável por atingir os objetivos do projeto, de acordo com o planejado. É designado pela organização e não se confunde com o Gerente Funcional ou Gerente de Operações, pois tais profissionais estão concentrados em gerenciar áreas administrativas ou operações relacionadas ao aspecto principal do negócio, respectivamente (PMI, 2008). Exerce um elo importante entre as partes interessadas no projeto principalmente, o patrocinador, o cliente e a equipe do projeto. Um gerente de projetos, pode se reportar a um gerente ou outro cargo funcional, ou até mesmo, a um gerente de portifólio de projetos, dependendo da estrutura da organização. Para um gerenciamento eficaz é necessário ao gerente de projetos não apenas compreender e aplicar as ferramentas e técnicas reconhecidas como boas práticas em gestão de projetos, como também unir características de três dimensões: 12 1. Conhecimento, que se refere ao que o gerente sabe sobre o gerenciamento de projetos; 2. Desempenho, que se refere à capacidade de realização do gerente enquanto aplica este conhecimento; 3. Pessoal, refere-se ao comportamento do gerente na execução do projeto ou alguma atividade relacionada. A efetividade pessoal envolve atitudes, e as principais características de personalidade e liderança, sem deixar de lado a capacidade de orientar a equipe, ao mesmo tempo em que balanceia o atendimento às restrições do projeto. Outras denominações mais recentes (Rego, 2010) acenam para outras formas que podem ser assumidas, ou atributos que podem ser concedidos a esses profissionais, a saber: Animadores de Equipe; Coach (acompanham o desenvolvimento de outros gerentes); Catalisadores; Visionários; Atletas da empresa; Gerentes intuitivos; Os profissionais; Coordenadores de equipes; Chefes de projetos. Algumas das responsabilidades e aptidões do gerente de projetos são apresentadas no Quadro 1: RESPONSABILIDADES Planejamento Organização Controle APTIDÕES Capacidade de Liderança Capacidade de Desenvolver Pessoas Habilidades de Comunicação Habilidades interpessoais Capacidade de lidar com o estresse Capacidade de resolver problemas Capacidade de gerir tempo Quadro 1: Responsabilidades e Aptidões do GP (Rego, 2000; Gido e Clements, 2007). 13 2.1.6. Fatores Organizacionais Os fatores organizacionais que influenciam o sucesso de um projeto referem-se tanto aos fatores ambientais internos quanto externos à empresa e podem somar-se aos fatores ambientais das demais organizações. Tais fatores podem ter uma influência positiva ou negativa no resultado do projeto, aumentando ou restringindo as condições de gerenciamento. É fundamental, para o Guia PMOBK (PMI, 2008) a utilização deste importante arcabouço de informações nos processos de planejamento do projeto. Alguns fatores ambientais são listados a seguir, observado que não se restringem apenas a estes: Cultura, estrutura e processos organizacionais; Aspectos legais ou padrões governamentais, como: marcos, regulatórios, normas e padrões; Infraestrutura; Recursos humanos disponíveis; Normas gerais de gestão de recuros humanos; Condições do mercado; Tolerância a riscos das partes interessadas; Situação política atual; Canais de comunicação estabelecidos na organização; Arcabouço tecnológico, envolvendo banco de dados; sistemas de gerenciamento de projetos e demais sistemas de informação. 2.2. Ciclo de Vida e Organização do Projeto Os projetos ocorrem em um contexto bem mais amplo que o do projeto propriamente dito. Para garantir que o trabalho seja conduzido mantendo o alinhamento organizacional e gerenciado de acordo com 14 as boas práticas em gestão de projetos é importante a compreensão de aspectos como o ciclo de vida do projeto e suas fases, a relação entre as fases, a relação entre as atividades dos projetos e as atividades funcionais e a influência das partes interessadas. 2.2.1. Ciclo de Vida dos Projetos Consiste nas fases do projeto que são, normalmente, seqüenciais, podendo, às vezes, se sobrepor e cujo nome e número são determinados pelas necessidades de controle das organizações envolvidas, e pela natureza dos projetos e sua área de aplicação. O ciclo de vida pode ser moldado como uma metodologia de acordo com critérios exclusivos da organização, indústria ou tecnologia empregada. Posto que todo projeto tem início e fim definidos, pode existir grande variação nas entregas neste intervalo de tempo. Portanto, o ciclo de vida oferece uma estrutura básica para o gerenciamento do projeto. Independentemente do tamanho e complexidade do projeto todos apresentam em sua estrutura, conforme apresentado na Figura 1. Início do Projeto; Organização e preparação; Execução do trabalho do projeto; Encerramento do projeto. 15 Figura 1: Ciclo de vida do projeto (PMI, 2008). A estrutura genérica apresentada reúne as seguintes características: No início do projeto os níveis de custos e de pessoal são mais baixos, atingindo um valor máximo durante a execução do projeto e decrescendo rapidamente conforme o projeto vai sendo finalizado; Os riscos, as incertezas e a influência das partes interessadas, que são maiores no início do projeto, diminuem ao longo do ciclo de vida do mesmo; No início, a capacidade de influenciar no desenvolvimento do escopo e das características finais no produto do projeto com baixo ou nenhum impacto nos custos é maior, e torna-se cada vez menor conforme o projeto avança para o seu término. A Figura 2 ilustra as características apresentadas, incluindo a idéia de que os custos com mudanças e correções de erro costumam aumentar significantemente com a aproximação do término do projeto. Figura 2: Impacto variável com base no tempo decorrido do projeto (PMI, 2008). 16 Com base no contexto genérico do ciclo de vida do projeto, o gerente pode decidir por um controle mais eficaz sobre as entregas do mesmo. Dependendo do tamanho e complexidade do projeto, este pode requerer um nível adicional de controle. Para isto, para melhor condução dos trabalhos necessários para atingir os objetivos planejados, o projeto pode ser formalmente dividido em fases. 2.2.2. Fases dos Projetos Um projeto pode ser divido em fases para proporcionar um controle mais efetivo do término de uma entrega importante, normalmente terminadas sequencialmente, podendo se sobrepor em algumas situações. A estrutura de fases segmenta o projeto em subconjuntos lógicos que facilitam o gerenciamento, o planejamento e o controle. O número, necessidade e grau de controle utilizado variam de acordo com o tamanho, grau de complexidade e impacto potencial do projeto. As fases de um projeto apresentam características semelhantes: Quando são sequenciadas, o término de uma fase implica de alguma forma na entrega ou transferência do produto ou resultado desta fase para aquela subseqüente. O final de cada fase representa um marco de reavaliação dos esforços em andamento, de mudanças ocorridas, ou o término do projeto, caso necessário. Esse marco também pode ser chamado de saídas de fase, passagens de fase, passagens de estágio, portões de decisão ou ponto de término; O foco do trabalho difere entre as fases, envolvendo diferentes conjuntos de habilidades e formas de organização; O principal objetivo ou entrega da fase requer um grau superior de controle para garantir a entrega com sucesso. A repetição dos cinco grupos de processos, que serão apresentados adiante, proporciona este grau de controle adicional e define os limites entre 17 as fases. A Figura 3 demonstra a repetição sequencial dos grupos de processo de gerenciamento de projetos no caso de fase sobrepostas. Figura 3: Repetição sequencial dos grupos de processo de gerenciamento de projetos com fases sobrepostas (PMI, 2008). No caso de um projeto formatado em apenas uma fase, os grupos de processo de gerenciamento de projetos ocorrerão em apenas um ciclo, sem repetição dos mesmos ao longo do projeto, como demonstrado na Figura 4. Figura 4: Ciclo dos processos de gerenciamento de projetos (PMI, 2008) 18 2.2.3. Atividades de Projetos e Atividades Funcionais As organizações governamentais, bem como as empresas públicas e as privadas, realizam atividades para atingir seus objetivos, sendo estas categorizadas, basicamente, como processos ou projetos. No entanto, apesar na natureza distinta das atividades relacionadas à projetos ou processos - devido características como a da temporalidade bem definida, no caso dos projetos, por exemplo ambas as atividades apresentam mesmas características, como: São realizadas por pessoas; São limitadas por restrições, inclusive de recursos; São planejadas, executadas, monitoradas e controladas, e; São realizadas para atingir objetivos organizacionais ou planos estratégicos. A principal diferença entre tais atividades deve-se ao fato de que os processos – ou trabalho de operações – são contínuos e produzem produtos resultados ou serviços de forma repetitiva, e servem também de sustentação às organizações ao longo do tempo. Neste sentido, os trabalhos de operações apóiam o ambiente organizacional onde ocorrem os projetos, o que tem como conseqüência uma interação entre os departamentos e recursos envolvidos nas operações e aqueles aplicados nos projetos. A interação entre estes tipos diferentes de atividades irá variar durante o ciclo de vida do projeto, no entanto, em organizações que não apresentam uma estrutura funcional projetizada - que diferentemente da estrutura funcional clássica se organiza por projetos, e não por departamentos funcionais - sempre haverá compartilhamento de recursos, o que normalmente afeta as restrições dos projetos, bem como o seu gerenciamento. 19 2.2.4. Partes Interessadas Segundo Freedman: “O sucesso da organização depende do quão bem são gerenciadas as relações com grupos chaves (key stakeholders) como clientes, empregados, fornecedores, comunidades, agentes financeiros e outros que afetam a realização dos seus objetivos” (2002, p.33). Pode-se perceber, então, que as partes interessadas – ou stakeholders como são usualmente chamados pelos profissionais de gerenciamento de projetos - são todos aqueles que impactam ou são impactados pelas atividades das organizações. Tal conceito é também extrapolado para o âmbito dos projetos, aproximando o olhar do ambiente no qual este ocorre, conforme ilustrado na Figura 5: Figura 5: A relação entre as partes interessadas e o projeto (PMI, 2008) As partes interessadas dos projetos, sejam indivíduos ou organizações, atuam como forças, por vezes, antagônicas, que podem impactar de forma positiva ou negativa a realização do projeto, influenciando-o, bem como suas entregas e os membros da equipe do projeto, por exemplo. Os principais grupos de interesse destacados pelo PMI (2008) são: Clientes/usuários; Patrocinador; Gerente de Portifólios/comitê de análise de portifólios; 20 Gerentes de Programa; Escritório de Projetos; Gerente de Projetos; Equipe do Projeto; Gerentes Funcionais; Gerentes de Operações; Fornecedores/parceiros comerciais. Importante ressaltar que tal grupo de interesse vem ganhando tanta importância no contexto organizacional e de projetos, que a última edição do Guia PMBOK (PMI, 2008), contemplou um novo processo, ao qual chamou: “Identificação de Stakeholders”, e que será tratado adiante. Por isso, é dever da equipe do projeto identificar as principais partes interessadas internas ou externas do projeto, a fim de mapear os requisitos e as expectativas importantes para cada uma daquelas, pois, conforme a proposição de Freedman, tão bom é o desempenho de uma organização quão boa é sua relação com as partes interessadas. O gerente de projetos necessita, ainda, gerenciar a influência de tais partes interessadas para garantir um resultado bemsucedido. Para Heldman (2009, p.5) “Um projeto é bem-sucedido quando alcança seus objetivos e atende ou excede a expectativa das partes interessadas”, o que por si só já justificaria uma adequada gestão destes grupos interessados no projeto. No entanto, no caso específico deste trabalho, tal tarefa ganha maior importância, pois, em se tratando de empresas públicas e organizações governamentais, o principal cliente somos nós, a sociedade, e não apenas determinados grupos impactados pela utilização ou acesso a produtos ou serviços de forma voluntária. No caso específico das agências reguladoras, como por exemplo, da Agência Nacional da Saúde Suplementar, tal missão, ou finalidade institucional, está prevista em sua Lei de Criação (Lei 9996/00): 21 “Art. 3o A ANS terá por finalidade institucional promover a defesa do interesse público na assistência suplementar à saúde, regulando as operadoras setoriais, inclusive quanto às suas relações com prestadores e consumidores, contribuindo para o desenvolvimento das ações de saúde no País.” 2.3. Processos de Gerenciamento de Projetos O gerenciamento de projetos consiste na aplicação de conhecimentos, habilidades, ferramentas e técnicas às atividades de um projeto a fim de cumprir os requisitos de mesmo. Um processo de gerenciamento é um conjunto de ações e atividades relacionadas entre si, para serem executadas com a finalidade de entregar um produto, serviço, ou resultado exclusivo. Estes processos de gerenciamento são caracterizados pelas suas entradas, as ferramentas e técnicas a eles empregadas, e os resultados destas operações, ou seja, suas saídas. Importante ressaltar que, os processos de gerenciamento de projetos podem gerar informações para aprimorar o gerenciamento de projetos vindouros. O Guia PMBOK (PMI, 2008, p. 40) descreve, atualmente, 42 processos de gerenciamento de projetos. No entanto, o Guia destaca que: “... não significa que os conhecimentos, as habilidades e os processos descritos sempre devem ser aplicados de forma uniforme em todos os projetos. Para qualquer projeto específico, o gerente do projeto, em colaboração com a equipe do projeto, sempre é responsável por determinar quais processos são apropriados e o grau de rigor apropriado para cada um.”. Portanto, para que o projeto seja bem-sucedido, a equipe do projeto deve, num esforço conhecido como adequação: Selecionar os processos determinado projeto; de gerenciamento apropriados a 22 Utilizar uma abordagem definida que possa ser adotada para atingir aos requisitos; Cumprir tais requisitos visando a atender às necessidades e expectativas das partes interessadas; e Conseguir promover um equilíbrio entre as demandas concorrentes de escopo, tempo, qualidade, recursos e riscos, para gerar o produto, serviço ou resultado exclusivo. Os processos de gerenciamento de projetos visam garantir um fluxo eficaz do projeto ao longo do seu ciclo de vida, e são organizados em diversas Áreas do Conhecimento, que serão apresentadas a diante, e agrupados em cinco categorias: Grupo de processos de iniciação: são aqueles realizados para definir um novo projeto ou fase de um projeto existente a partir da obtenção da autorização para seu início; Grupos de processos de planejamento: são os processos realizados para definir o escopo do projeto, seus objetivos e desenvolver a estratégia necessária para alcançá-los; Grupos de processos de execução: são aqueles realizados para execução do trabalho definido no plano de gerenciamento do projeto, com observância em satisfazer as especificações do mesmo; Grupo de processos de monitoramento e controle: são os processos aplicados para acompanhar, revisar e regular o progresso e o desempenho do projeto, mapear as áreas nas quais serão exigidas mudanças no plano e iniciar tais mudanças; Grupo de processos de encerramento: são aqueles executados para finalizar todas as atividades de todos os grupos anteriores, visando o encerramento formal do projeto ou fase. Apesar dos processos de gerenciamento serem apresentados no Guia PMBOK (PMI, 2008) como elementos distintos e interfaces claras, ocorre que, na prática tais processos de sobrepõem, interagindo de 23 forma particular e específica, acrescentando outros detalhes não abordados pelo Guia PMBOK (PMI, 2008), mas muitas vezes já conhecidos por gerentes de projetos experientes e que reconhecem que há varias formas de se gerenciar projetos. A aplicação dos processos de gerenciamento de projetos se dá de forma iterativa, e por vezes, muitos deles são repetidos durante o projeto. Desta forma, é necessária a integração constante entre os processos, o que requer que os grupos de processos de monitoramento e controle interajam com os demais conforme ilustrado na Figura 6. É possível, também, observar, a característica de temporalidade dos projetos, representado pelo grupo de processos de iniciação, que começa o projeto ou fase, e o grupo de processos de encerramento, que o termina. Figura 6: Grupos de processos de gerenciamento de projetos (PMBOK, 2008). Os grupos de processos de gerenciamento de projetos são interligados pelas saídas que produzem. Com a sobreposição de processos ao longo do projeto, a saída de um processo é, normalmente, a entrada de outro. O grupo de processos de planejamento determina ao grupo de processos de execução o plano de gerenciamento e documentos do projeto à medida de sua execução. 24 2.3.1. Áreas do Conhecimento do Guia PMBOK O Guia PMBOK (PMI, 2008) divide o gerenciamento em nove áreas do conhecimento: Gerenciamento da integração do projeto; Gerenciamento do escopo do projeto; Gerenciamento do tempo do projeto; Gerenciamento do custo do projeto; Gerenciamento da qualidade do projeto; Gerenciamento da comunicação do projeto; Gerenciamento dos recursos humanos do projeto; Gerenciamento dos riscos do projeto; e Gerenciamento das aquisições do projeto. Para cada uma destas áreas são estabelecidos diversos conjuntos de processos de gerenciamento, compostos pelos elementos entradas, ferramentas e técnicas, e as saídas (PMI, 2008). Na Figura 7 estão representadas as nove áreas do conhecimento, com destaque para a área do conhecimento Integração. Isto, porque, esta área é a responsável para integrar os demais conjuntos de processos de gerenciamento das outras áreas do conhecimento. Figura 7: As nove áreas do conhecimento em gerenciamento de projetos (PMI, 2008). 25 2.3.2. Integração Efetuar o gerenciamento da integração do projeto inclui executar os processos e atividades para identificar, definir, combinar, unificar e coordenar os vários processos e atividades dos demais grupos de processos de gerenciamento. A integração inclui, no contexto de gerenciamento de projetos, características de unificação, consolidação, articulação e ações integradoras necessárias para o término do projeto ou fase, para gerenciar as expectativas das partes interessadas com êxito e atender aos requisitos estabelecidos para o projeto. No gerenciamento da integração são realizadas decisões sobre alocação de recursos, concessões entre objetivos e alternativas conflitantes, bem como o gerenciamento de dependências mútuas entre as diversas áreas do conhecimento. Os seis processos de gerenciamento da integração são: (i) desenvolver o termo de abertura, que consiste na aprovação do documento que autoriza, formalmente, um projeto ou fase, e a documentação dos requisitos que incorporam as necessidades e as expectativas das partes interessadas; (ii) desenvolver o plano de gerenciamento do projeto, que é o processo de documentar as ações necessárias para definir, preparar, integrar e coordenar todos os planos de gerenciamento auxiliares; (iii) orientar a execução do projeto, que consiste em realizar as atividades definidas no plano de gerenciamento do projeto; (iv) monitorar e controlar o trabalho do projeto, que é o processo de acompanhamento, revisão e regulação do progresso do projeto, verificando se os objetivos de desempenho estipulados no plano de gerenciamento do projeto estão sendo atendidos; (v) realizar o controle integrado de mudanças, que consiste em rever, aprovar e gerenciar todas solicitações de mudanças nas entregas, ativos de processos organizacionais, documentos de projeto e plano de gerenciamento do projeto; e (vi) encerrar o projeto ou fase, que é o processo de finalização de todos os grupos de processos de gerenciamento do projeto visando formalizar o término do projeto ou fase (PMI, 2008). 26 Figura 8: Os seis processos de gerenciamento de projetos e respectivos Grupos de processos (PMI, 2008). 2.3.3. Ativos de Processos Organizacionais “Os ativos de processos organizacionais incluem qualquer um ou todos os ativos relacionados a processos, de quaisquer ou todas organizações envolvidas no projeto que podem ser usados para influenciar o sucesso do projeto” (PMI, 2008, p.35) Políticas, instruções, planos, procedimentos, abordagens ou padrões aplicados na empresa para condução do trabalho – inclusive do trabalho do projeto – são chamados de ativos de processos 27 organizacionais, e incluem uma série de elementos que podem afetar diversos aspectos do projeto. Políticas de gerenciamento e segurança, critérios de avaliação de desempenho, controles financeiros, requisitos de comunicação, procedimentos de gerenciamento de problemas e defeitos, do controle de mudança e riscos, são alguns das configurações que tais ativos podem tomar (Heldmam, 2009). Tais ativos podem ser divididos em duas categorias: processos e procedimentos; e, base de conhecimento corporativo (PMI, 2008, Heldmam, 2009). Segundo o Guia PMBOK (PMI, 2008), os processos e procedimentos da organização para condução do trabalho, incluem, mas não se restringem a: Processos organizacionais padrões, como normas, políticas, ciclos de vida padrão de produtos e projetos, e políticas e procedimentos de qualidade; Instruções de trabalho, diretrizes padronizadas, critérios de avaliação de propostas e critérios de medição de desempenho; Modelos como de risco, estrutura analítica do projeto, diagrama de rede do cronograma do projeto; Diretrizes e requisitos de encerramento do projeto, tal como auditorias finais do projeto, avaliações do projeto, validação do produto e critérios de aceitação; Requisitos de comunicação da organização, como tecnologia da informação, política de registros e requisitos de segurança; Procedimentos de gerenciamento de questões e defeitos que definem seus controles, a identificação e a solução destas e acompanhamento de seus itens de ação; Procedimentos de controles financeiros, como análises de gastos e despesas, códigos de contabilidade e cláusulas contratuais padrões; Procedimentos de controle de mudanças, incluindo o processo para modificação de normas, políticas, planos e procedimentos oficiais da organização, e como tais mudanças serão controladas, aprovadas e validadas; 28 Procedimentos de controle de risco, incluindo categorização, e matriz de probabilidade e impacto; e Procedimentos de priorização, para fins de portifólio de projetos, aprovação e emissão de autorizações para realização dos mesmos. No que tange a base do conhecimento organizacional corporativa para armazenamento – e futura recuperação e utilização – das informações, esta inclui, mas não se limita a (PMI, 2008): Bancos de dados de medição de processos utilizados para coleta e disponibilização destas medições; Arquivos do projeto, como: linha de base de escopo, custo, cronograma e qualidade, linhas de base de medição de desempenho, cronogramas de projeto, diagramas de rede do cronograma dos projetos, registros dos riscos e das ações planejadas e impactos definidos dos riscos; Bancos de dados de gerenciamento de questões e defeitos que contenham o status dos mesmos, informações de controle, solução de problemas e defeitos e resultados dos itens de ação; Banco de dados de gerenciamento de configuração, onde constam todas as versões e linhas de base das normas, políticas, procedimentos, formulários de projetos e quaisquer outros documentos oficiais de projetos da empresa; Bancos de dados financeiros, que contenham informações sobre custo de mão-de-obra, custo de outros insumos de produção, orçamentos e qualquer estouro dos custos do projeto; e Bases de conhecimento de informações históricas e lições aprendidas, como registro e documentos, e todas informações sobre resultados de decisões de seleção e desempenho de projetos anteriores, entre outras aquelas que a equipe do projeto julgar pertinente. A seguir, veremos mais detalhadamente o processo de documentação de lições aprendidas. 29 2.3.4. Lições Apreendidas As lições aprendidas englobam tudo que foi aprendido durante a execução dos processos de gerenciamento, segundo Heldman (2009, p. 363) “... inclui documentações que podem ser utilizadas como modelos em futuros projetos, (...) técnicas empregadas na resolução de conflitos, tipos de conflitos surgidos durante o projeto, regras básicas, (...) habilidades especiais necessárias durante o projeto que não foram descobertas durante o Planejamento, e o registro das questões” São ativos de processos organizacionais e informações históricas que devem ser recuperados e examinados no início de um novo projeto ou fase (PMI, 2008). Tais informações poderão ser de grande utilidade aos gerentes de projetos e às partes interessadas, pois durante a avaliação de novos projetos as informações anteriores de natureza similar poderão auxiliar na aceitação e início do mesmo. Além disso, ainda segundo Heldmam (2009), informações históricas coletadas e documentadas durante um projeto em execução poderão ser utilizadas para decidir se um projeto deve – ou não – passar para a próxima fase, e ajudarão no desenvolvimento da documentação do projeto, como: termo de abertura do projeto, declaração de escopo do projeto, e para o plano de gerenciamento do projeto. Compreender projetos anteriores de natureza semelhante, seus problemas, sucessos e resultados, poderá colaborar para evitar a repetição de erros durante a reutilização de ferramentas e técnicas que se saíram bem-sucedida anteriormente, para atingir metas do projeto atual e satisfazer partes interessadas (Heldmam, 2009), e para tal aplicação faz-se necessário documentá-las. Documentar lições aprendidas é o processo do grupo de processos de execução, e que se liga aos processos de orientação e execução do projeto e de distribuição de informações, entre outros. Consiste em 30 organizar em planilhas e guias de referência das lições aprendidas e as boas práticas, segundo a área do conhecimento ou a fase de gerenciamento do projeto, extraídas das experiências obtidas em vários projetos (Dinsmore, 2009). O Guia PMOK (PMI, 2008) sugere utilização das informações históricas e base de conhecimento de lições aprendidas como entrada processos de gerenciamento de projetos, como ativos organizacionais, ou como resultado destes, a serem utilizadas nas atualizações dos ativos de processos organizacionais. As áreas do conhecimento e os respectivos processos que lidam com tais insumos são (PMI, 2008): Comunicação: como entrada, no processo de distribuir as informações do projeto como um dos ativos que podem influenciar tal processo, e como resultado do processo de reportar o desempenho, onde a documentação das lições aprendidas pode incluir as causas das questões, as motivações que definiram determinada ação corretiva, além de outros tipos de lições; Qualidade: como saída do processo de realizar o controle da qualidade, onde a utilização tais informações históricas são documentadas como lições aprendidas; Integração: como entrada do processo de encerramento do projeto ou fase, como componente dos ativos de processos organizacionais que podem influenciar o encerramento do projeto ou fase, e ainda, como resultado deste processo, quando são transferidos à base de conhecimento para uso em projetos ou fases futuras; Aquisições: como entrada para o processo de encerrar as aquisições, quando toda a documentação da aquisição é coletada, indexada e arquivada, e que poderá ser usada no futuro como base para novas aquisições. 31 A documentação a que se refere o Guia PMBOK (PMI,2008) inclui informações a respeito dos resultados prévios, sejam a respeito das decisões de seleção de projetos, sejam das informações de desempenho de projetos, além das geradas pelo esforço realizado no gerenciamento de risco do projeto, e devem ser armazenados para que componham o banco de dados histórico do projeto e da organização executora, para futura utilização. A realização do processo de coleta, avaliação e armazenamento é importante para a aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos, pois um dos facilitadores para gestão do conhecimento consiste na capacidade de construção destas lições (Ericeira, 2007). O Quadro 2 apresenta as Lições Aprendidas e Boas Práticas organizadas por área de gerenciamento do projeto ou fase, segundo Dinsmore (2009). São sugestões baseadas na experiência de campo, que ampliam aquelas recomendadas pelo Guia PMBOK (PMI, 2008), e servem como exemplo da compilação proposta por tal processo. 32 Área de Gerenciamento ou Fase Lições Aprendidas ou Boas Práticas Iniciação Planejamento Execução Encerramento Gerenciamento Projeto do A equipe deve revisar as lições aprendidas nos esforços de processos anteriores durante a fase inicial do planejamento. Os riscos devem ser identificados e gerenciados. As atividades devem ser gerenciadas para assegurar a conformidade dos produtos, às especificações e à declaração de trabalho. Planos devem endereçar gerenciamento de riscos. Embora aja experiência passada com os parceiros, isto não livra novas interações do risco. É uma boa medida que o fornecedor possa “ouvir e entender” o cliente final e assegurar que o resultado final seja bem sucedido. Cancelar projetos pode ser muito custoso. Não cancelar projetos também pode ser igualmente custoso. Termos e Condições do contrato devem definir claramente o processo de encerramento e o método do pagamento envolvido. Especificações e declarações de trabalho detalhadas reduzem as potenciais reivindicações futuras de mudança de escopo. Terceirização deve ser encarada como sendo um projeto apoiado por um gerente de projeto e um plano. Compras recorrentes de commodities também precisam aceitação técnica e gestão de mudanças. Interfaces com o vendedor devem ser controladas pelo comprador e o gerente do projeto para prevenir mudanças de escopo não autorizadas. Quadro 2: Lições Aprendidas e Boas Práticas organizadas por área de gerenciamento do projeto ou fase, adaptado de Dinsmore (2009). Conforme o exposto, o Guia PMOBK (2008) avalia as informações históricas e base de conhecimento como importante componente dos ativos de processos organizacionais a serem aplicados no gerenciamento os projetos. Se observados estes insumos como resultado da aprendizagem decorrente da experiência da execução das atividades necessárias para consecução dos projetos, a realização do processo de coleta, avaliação e armazenamento destes, pode se configurar em um elemento fomentador para a aprendizagem no ciclode-vida dos projetos, pois um dos facilitadores para gestão do conhecimento consiste na capacidade de construção destas lições (Ericeira, 2007). 33 2.4. Aprendizagem Para Garvin: “Uma organização que aprende é aquela habilitada a criar, adquirir, interpretar, transformar e reter conhecimento e, propositadamente, modificar seu comportamento para refletir novos conhecimentos.” (1993, p. 80). As organizações que aprendem devem deter (Garvin, 1993) habilidades para executar cinco atividades: sistematização para solução de problemas; experimentação; aprendizado com suas próprias experiências passadas; aprendizado com as experiências e boas práticas de outros; e, transferência do conhecimento rapidamente e eficientemente para a organização. 2.4.1. Aprendizagem e Lições Aprendidas Segundo Heijst et al. (1996), as lições aprendidas podem ser utilizadas para melhorar o desempenho da organização no futuro. O modelo de aprendizado apresentado na Figura 9 evidencia as interações e conexões existentes entre o indivíduo, a comunicação e o repositório no processo de aprendizagem organizacional. O conceito de aprendizagem introduzido por Heijst et al. (1996) define lições aprendidas - lessons learned - como um processo de aprendizagem organizacional, que pode ser definida como sendo um processo de detecção e correção de erros. O termo lessons learned é definido pelos autores como sendo as experiências, ou insights, negativas ou positivas que podem ser usadas para melhorar o desempenho da organização no futuro. 34 Processos de Aprendizagem Aprendizado Individual através da Aprendizado Processos de Conhecimento comunicação Desenvolvimento do Conhecimento Combinação do Conhecimento Distribuição do Conhecimento Aprendizado através do repositório de conhecimento Consolidação do Conhecimento Figura 9: Tipos de aprendizado e suas interações e a relação com o processo do conhecimento.( Heijst et al ,1996). Em nível global, Heijst et al (1996, p. 42) distingue duas formas de aprendizagem organizacional: top-down Learning – ou seja, do nível estratégico para o operacional - e bottom-up – o contrário da primeira, ou seja, do nível operacional para o nível mais alto da organização. Na primeira, também chamada de aprendizagem estratégica, uma área em especial é identificada e reconhecida como promissora pela organização, e delibera ações aplicadas para adquirir aquele conhecimento. A segunda forma destaca pelos autores refere-se ao processo onde um trabalhador, do nível gerencial ou do “chão de fábrica” aprende lições as quais devem ser utilizadas, e tais lições aprendidas são distribuídas pela organização. O foco dos estudos daqueles autores concentrou-se em analisar a forma bottom up, porque, segundo eles, esta forma é centrada em torno de onde as lições aprendidas são concebidas, e subdivide em três formas de aprendizagem que podem ocorrer em paralelo (Figura 9): 35 Aprendizagem individual; Aprendizagem através da comunicação; e, Aprendizagem através do repositório de conhecimento. 2.4.2. Aprendizagem Individual Uma assunção básica do modelo de aprendizagem apresentado é que a aprendizagem organizacional é baseada na aprendizagem individual: trabalhadores adquirem experiência com a sua forma de realizar suas atividades e utilizar estas para promover melhorias no processo de trabalho (Figura 10). Aprendizagem individual Experiência no trabalho Aplicação de lições aprendidas Figura 10: Aprendizagem individual nas organizações (Heijst et al, 1996). O processo apresentado no diagrama funciona da seguinte maneira. Trabalhadores realizam tarefas diariamente e desenvolvem sua experiência. Com base nestas experiências, eles contribuem com idéias sobre como o processo de trabalho pode ser melhorado. De acordo com a conjuntura da organização, eles devem imputar seus novos insights na prática laboral e validar – ou não – suas lições aprendidas. Entretanto, para que tal processo ocorra, é necessário, anteriormente, duas condições serem satisfeitas: (i) os trabalhadores 36 precisam ter retorno sobre suas performances – eles precisam saber os impactos de suas atuações nos processos os quais estão envolvidos; (ii) os trabalhadores precisam ter certa liberdade para decidir de que forma executarão suas tarefas – se isso não ocorre, os trabalhadores não podem experimentar. 2.4.3. Aprendizagem Através da Comunicação Um segundo aspecto da aprendizagem organizacional é centrado em torno do conceito de comunicação, conforme ilustrado na Figura 11. O diagrama demonstra que o aprendizado através da comunicação inicia-se de forma individual, mas suas experiências são compartilhadas com seus pares na organização. Comparado com o aprendizado individual, o aprendizado através da comunicação é mais eficiente. Isto, porque, o processo de comunicação influencia a articulação das lições aprendidas, e podem ser aplicadas por outras pessoas da organização. Pode se distinguir duas formas de aprendizado através da comunicação: aprendizagem dirigida por fornecedor e aprendizagem dirigida por demandante. Na primeira, um trabalhador, individualmente, encontra uma maneira de aprimorar seu processo de trabalho e comunicá-lo a seus colegas de trabalho, enquanto na segunda, um trabalhador reconhece um problema no processo de trabalho atual e solicita aos seus colegas de trabalho que estes apontem alguma solução para aquele problema. Aprendizagem Comunicação individual Expeiência no trabalho Aplicação de Aprendizagem lições aprendidas pelos outros Figura 11: Aprendizagem organizacional através da comunicação. 37 Os autores destacam três opções para se realizar a comunicação: Personal casting: envio da mensagem apenas às pessoas diretamente envolvidas. Broadcasting: envio da mensagem para um departamento ou organização. Narrow casting: envio da mensagem a todos os interessados. Tendo em vista que o aprendizado através da comunicação é baseado no aprendizado individual, necessita dos mesmos pré-requisitos daquela forma de aprendizado, adicionado de mais dois: (i) deve existir possibilidades de comunicar experiência entre os colegas de forma regular;(ii) a organização deve ter um clima organizacional no qual haja retorno pela comunicação de lições aprendidas – inclusive experiências negativas. No processo de aprendizado através da comunicação, o conhecimento é desenvolvido, distribuído e possivelmente combinado com o conhecimento de outras partes da organização. 2.4.4. Aprendizagem Através do Repositório de Conhecimento Um terceiro aspecto da aprendizagem organizacional identificado por Heijst et al (1996, p. 44), tem seu foco no armazenamento das lições aprendidas em alguma forma de repositório para então ser acessado e utilizado quando necessário, conforme representado na Figura 12. 38 Coleção de lições Aprendizado individual aprendidas Experiência no trabalho Armazenamento Aplicação de lições aprendidas Figura 12: Aprendizagem Recuperação / distribuição organizacional através do repositório de informações. Este processo é similar ao de aprendizado pela comunicação, mas neste, a comunicação é coletada, estocada e resgatada. Para isso, a memória da organização deve ser coletada, ativa ou passivamente. Ativar tal coleção significa que pessoas na organização irão investigar processos de comunicação com objetivo de detectar lições aprendidas. A coleta de forma passiva ocorre quando os trabalhadores reconhecem por si próprio valor suficiente para armazenar determinado aprendizado ou conhecimento na memória corporativa. Ambas as formas de coleção do conhecimento necessita de critérios bem definidos para decidir o que é uma lição aprendida. O processo de armazenagem das lições aprendidas envolve duas atividades: avaliar as lições aprendidas coletadas e indexá-las. Tais passos são opcionais, mas caso não sejam realizados será mais difícil recuperar a informação. Avaliar as lições aprendidas deve envolver a resposta às seguintes questões: Esta lição é realmente nova? Esta lição é consistente com as informações já armazenadas na memória da corporação? Esta lição é independente ou deve ser integrada com documentos já armazenados na memória da corporação? Esta lição é aplicável o suficiente para ser utilizada? 39 Dependendo do resultado desta avaliação, a qual as lições aprendidas devem ser submetidas, esta será aceita, com ou sem a necessidade de ser editada, ou rejeitada. No caso desta ser armazenada, o conhecimento na memória da organização poderá ser distribuído ativa ou passivamente. No caso de recuperação, os trabalhadores observam que precisam de partes de informação, ou peças do conhecimento e consultam a base de dados corporativa. No caso de distribuição, é decidido que parte da informação deve ser repassada a um grupo de trabalhadores da organização, iniciando o processo de aprendizagem pela comunicação. É requisito básico para aplicação desta forma de gestão do conhecimento que a organização mantenha algum tipo de repositório do conhecimento. Além disso, os trabalhadores têm que ser motivados a escreverem aquelas lições e submetê-las a serem armazenadas. Com a utilização de repositórios, o conhecimento é desenvolvido, armazenado e distribuído Heijst et al (1996). Deve-se enfatizar que os três tipos de aprendizagem são complementares e ocorrem em paralelo. Estes três tipos de ciclo de aprendizagem podem interagir de formas imbricadas. Normalmente, os trabalhadores irão, inicialmente, testar a lição aprendida aplicando, eles mesmos, o novo conhecimento. Então, eles irão comunicar os resultados para seus companheiros de trabalho, e se aquela lição é realmente efetiva, finalmente será inclusa em um guia ou manual operacional, que fazem parte do repositório do conhecimento da organização. Quando do resgate para implementação da memória da organização, estas interações devem ser captadas destes relatos e aplicadas às atividades a serem realizadas. De outra forma, a memória acumulada no repositório de conhecimento não irá melhorar a capacidade de aprendizagem daquela lição. Em resumo, os requisitos que devem ser satisfeitos para adequada geração e gestão da memória da organização são: 40 1. Deve ser fácil para os trabalhadores acessar o conhecimento da memória da organização para facilitar a aprendizagem individual por combinação. 2. Deve ser fácil para os trabalhadores decidir quais companheiros de trabalho poderiam necessitar do conhecimento para uma atividade em particular. 3. Deve ser fácil para os trabalhadores decidir quais companheiros de trabalho poderiam se interessar por determinada lição. 4. Deve ser fácil, e gratificante, para os trabalhadores submeter uma lição aprendida à memória da corporação. 5. Deve haver critérios bem definidos para decidir se é uma lição aprendida, como deve ser formulada e onde deve ser armazenada. 6. Deve haver mecanismos para manter a memória da corporação de forma consistente. 7. A memória da corporação deve ter a facilidade de distribuir novas peças do conhecimento àqueles trabalhadores que delas precisam. 2.4.5. Aprendizagem Através de Projetos Outros autores realizaram estudos recentes que demonstram que as organizações têm utilizado, com freqüência, projetos como veículo para atingir o aprendizado organizacional, com aplicação, também, das informações históricas e lições aprendidas. Brady e Davies (2004), por exemplo, fornecem um modelo para aprendizagem organizacional, que consiste na interação processos – ou fases - de aprendizado, a fim de criar e explorar os recursos organizacionais e capacidades necessárias para aumentar a performance das rotinas e atividades dos projetos. Na Fase 1, ‘projetos de vanguarda’ orientam o caminho para novas estratégias ou tecnologias e colaboram para o ganho de experiência sobre aquela nova atividade. Na Fase 2, o aprendizado ‘projeto-a- 41 projeto’ é predominante e o objetivo é capturar e transferir as experiências e insights dos participantes dos ‘projetos de vanguarda’ para os projetos subseqüentes. Como facilitadores de aprendizagem membros principais das equipes dos ‘projetos de vanguarda’ podem transportar seu trabalho para os projetos subseqüentes. Relatos, times de aprendizagem, lições aprendidas e outros mecanismos formais, com base em Tecnologia da Informação, como Intranet e banco de dados – repositórios de lições aprendidas - são desenvolvidos para codificar o conhecimento retido e transferi-lo para as equipes de projetos. Quando um número suficiente de novos tipos de projetos é realizado, surge oportunidade para que ocorra a Fase 3, o aprendizado de ‘projeto para organização’. Busca-se, então, consolidar o aprendizado inicial para sistematicamente distribuir o conhecimento acumulado para os departamentos e unidades de negócio ou empresas. Estas etapas envolvem a implementação de novos padrões de processos e ferramentas de Tecnologia da Informação. O objetivo deste modelo é refinar e estender as capacidades e rotinas à toda empresa, de forma a aproveitar novas tecnologias, o que para os autores significa a transição da exploração para o aproveitamento destas. 3 Metodologia da Pesquisa 3.1. Tipo de Pesquisa Neste estudo optou-se pela pesquisa qualitativa a partir de uma metodologia de investigação fenomenográfica com o objetivo de tentar descobrir quais fatores colaboram ou comprometem a aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos em empresas públicas e organizações governamentais. A pesquisa fenomenográfica tradicional busca investigar, de forma qualitativa, diferentes formas pelas quais os indivíduos entendem um particular fenômeno ou aspecto do mundo que os rodeiam (Marton & Pong, 2005). Tal abordagem de pesquisa foi desenvolvida, inicialmente, na década de 70 por um grupo de pesquisadores da área de educação da Universidade de Gothengurg, na Suécia, na busca de descrever, a partir do olhar dos estudantes, por quais motivos algumas pessoas tem um aprendizado melhor que outras (GIBBINGS, 2008; SANDBERG, 2000). Para Marton & Pong (2005) a Fenomenografia é uma pesquisa que tem como objetiva descobrir e sistematizar as formas de pensamento conforme a interpretação dos indivíduos sobre aspectos da realidade, cujo propósito é a descrição, análise, e o entendimento de experiências. O instrumento de pesquisa utilizado para levantamento de dados é composto por um roteiro de entrevista semi-estruturado, que visa extrair revelações em relação à Aprendizagem a partir das respostas fornecidas pelos gestores de projetos, praticantes da disciplina de Gerenciamento de Projetos proposta pelo Project Management Institute – PMI, que vivenciam experiências de Gestão de Projetos em empresas públicas e organizações governamentais, e ainda, quais seriam os fatores que favorecem ou comprometem tal aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos (Chen & Partingtong, 2006). O processo de análise dos dados percorreu as seguintes fases, conforme sugerido 43 por Creswell (2010): organização e preparação dos dados para análise, através da transcrição das entrevistas em conjunto com as notas de campo; leitura das entrevistas transcritas e das notas de campo com o intuito de obter uma percepção geral das informações e refletir sobre seus significados na busca de entender quais idéias gerais que estão sendo apresentadas; detalhamento da análise através da codificação, ou seja, da organização do material a partir dos fatores observados; e, análise dos fatores a partir da fala dos entrevistados e da interpretação do pesquisador. 3.2. Perfil do Pesquisador Sou Administrador de Empresas, tendo iniciado minhas atividades na área da administração em 1987. Tenho atuado na área de saúde na última década, iniciando minhas atividades como consultor na Agência Nacional de Saúde Suplementar no início de 2002, e tomando posse como servidor público federal de carreira, no cargo de Analista Administrativo, na especialidade de Administração, em agosto de 2005. Atuo na área de gerenciamento de projetos onde exerço a função de gestor de projetos, tendo liderado o Projeto de Desenvolvimento de Metodologia de Gerenciamento de Projetos para a ANS, e estando atualmente responsável pelo Projeto de Implementação de Gerenciamento de Projetos em TI. Tais projetos são desenvolvidos em nível governamental, situados no campo da saúde, mais especificamente, para dar suporte às atividades de regulação da saúde suplementar no Brasil Iniciei minha instrução na disciplina de Gerenciamento de Projetos em 2007, e desde então, tenho participado de congressos e seminários, nacionais e internacionais, bem como de treinamentos mais específicos relacionados à implementação de escritórios de projetos. Estou me preparando para ser avaliado pelo Project Management Institute – PMI, instituição da qual sou associado, a fim de adquirir a certificação PMP, Project Management Professional. 44 Creio que minha experiência profissional em diversas organizações, públicas e privadas, e em diferentes níveis organizacionais e diferentes funções, colaboram para concepção de uma visão mais ampla em relação ao tema em estudo. 3.3. Seleção de Sujeitos A seleção de sujeitos foi feita a partir da rede de relacionamentos do pesquisador e da indicação destes, respeitando os seguintes critérios: 1. O indivíduo devia ser praticante da disciplina de gerenciamento de projetos proposta pelo PMI, e, portanto, conhecedores dos princípios de tal disciplina, bem como das boas práticas descritas no Guia PMBOK (PMI, 2008); 2. O indivíduo devia ter vivenciado experiência em gestão de projetos em empresas públicas ou organizações governamentais. Foram selecionados 16 indivíduos, indicados dentre a comunidade de praticantes da disciplina de gerenciamento de projetos. Além dos servidores - civis e militares – de carreira, foram também entrevistados gestores de projeto, que, no momento da entrevista, estavam contratados por empresas privadas, estando ou tendo estado alocados como consultores ou prestadores de serviço em empresas públicas ou organizações governamentais como: Agência Nacional de Saúde Suplementar – ANS, Agência Nacional do Cinema – ANCINE, Petrobrás, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social BNDES, Marinha do Brasil – MB, Departamento de Informática do SUS – DATASUS, e das empresas privadas CTIS e TREVIT, ambas prestadoras de serviço para empresas públicas ou organizações governamentais. O Quadro 3 consolida o perfil dos entrevistados, apresentando o gênero, seu nível hierárquico – pleno ou sênior - e o tipo de vínculo contratual com as empresas públicas ou organizações governamentais – Servidor Civil, Servidor Militar, Terceirizado ou Consultor. 45 Id Sexo Nível Tipo E1 E2 E3 E4 E5 E6 E7 E8 E9 E10 E11 E12 E13 E14 E15 Masculino Masculino Masculino Feminino Masculino Feminino Feminino Masculino Feminino Masculino Feminino Masculino Masculino Masculino Masculino Sênior Sênior Sênior Pleno Sênior Pleno Pleno Pleno Pleno Pleno Sênior Pleno Pleno Sênior Pleno Terceirizado Consultor Servidor Civil Terceirizado Servidor Civil Terceirizado Servidor Civil Terceirizado Servidor Civil Servidor Civil Servidor Civil Servidor Civil Servidor Civil Servidor Civil Servidor Civil E16 Masculino Sênior Servidor Militar Quadro 3: Perfil dos Entrevistados 3.4. Procedimento de Coleta e Registro de Dados Como o objetivo de estudo se relaciona diretamente com a disciplina de Gerenciamento de Projetos conforme proposta pelo PMI, optou-se por utilizar os princípios, conceitos, e boas práticas conforme descritas no Guia PMBOK (PMI, 2008) como base do roteiro de entrevista, incluindo, em seguida, questões relacionadas à noção e experiência relativas à aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos. Foi perguntado aos entrevistados sua interpretação a respeito dos conceitos básicos de gerenciamento de projetos, como também a respeito do conceito de aprendizagem sob a ótica daqueles profissionais. Utilizando, como base, o roteiro exposto na no Quadro 4, inspirado em Chen & Partingtong (2006), utilizou-se de entrevistas semi-estruturadas, conduzidas de forma aberta, a fim de possibilitar que os entrevistados se aprofundassem nas respostas sem necessária intervenção do pesquisador. As entrevistas foram realizadas no período de 14 de junho a 2 de julho de 2012, durando, em média, cerca de quarenta minutos cada. 46 Abertura 1. Você poderia falar de sua carreira até o presente momento? 2. Você poderia falar de sua experiência em projetos? Fale-me um pouco mais sobre isto. Núcleo 3. O que significa Gerenciamento de Projetos para você? 4. Quais os principais aspectos da atividade de Gerenciamento de Projetos para você? 5. Quais as atividades de Gerenciamento de Projetos mais importante para você? 6. O que você entende por aprendizagem? Fale-me mais sobre isso. 7. Como se dá a aprendizagem durante a realização dos projetos? Poderia me dar algum exemplo? 8. Para você, quais aspectos podem colaborar para a aprendizagem durante a realização do projeto? Poderia me dar algum exemplo? 9. E quais aspectos podem comprometer a aprendizagem durante a realização do projeto? Poderia me dar algum exemplo? 10. Qual a importância da aprendizagem durante a realização dos projetos para empresas públicas ou governamentais? Fale-me um pouco mais sobre isso. 11. Qual a atividade mais importante para a aprendizagem durante a realização dos projetos? Poderia me dar algum exemplo? 12. Para você, a aprendizagem está relacionada ao sucesso do projeto? De que maneira? Poderia me dar um exemplo? 13. Qual a primeira ação que você proporia para colaborar para aprendizagem durante a realização do projeto? Encerramento 14. O que você mais gosta na sua experiência profissional na realização de projetos? Por quê? Poderia me dar um exemplo? 15. O que você menos gosta na sua experiência profissional na realização de projetos? Por quê? Poderia me dar um exemplo? Fala livre do entrevistado 16. Existe mais alguma coisa que você gostaria de falar sobre seu trabalho ou sobre aprendizagem no gerenciamento de projetos? (Adaptado de Chen & Partington) Quadro x: Roteiro de Entrevista Quadro 4: Roteiro de Entrevista 47 Todas as entrevistas foram realizadas pessoalmente, o que favoreceu a interação entre o entrevistador e o entrevistado, e foram gravadas utilizando-se o software Áudio Notes, que possibilita o assinalamento daqueles pontos que chamam a atenção do pesquisador no exato momento da entrevista, colaborando para a transcrição das respostas, como também para o replay das gravações no dado momento desejado pelo pesquisador, ou seja, aquele assinalado anteriormente. Aquelas colocações que, na interpretação do pesquisador, se destacaram das demais, seja por repetição seja por diferenciação, foram transcritas em uma tabela, para que, de acordo com a prática da pesquisa fenomenográfica, pudesse se extrair categoria de significados para os trechos transcritos. As entrevistas cessaram quando o pesquisador entendeu que ocorreu uma saturação nas respostas dos entrevistados. 3.5. Limitações do Método Entrevistas com profissionais da área de gerenciamento de projetos, como qualquer pesquisa de campo, possuem limitações que o pesquisador deve conhecer, no intuito de mitigar seus efeitos. No caso da pesquisa qualitativa, uma delas encontra-se na maneira de seleção dos sujeitos, pois “existe chance de que as opiniões, visões, posicionamentos, e sentimentos dos gerentes de projetos selecionados não sejam totalmente representativos de suas realidades e contextos de trabalho e relacionamento” (Rego, 2010, p. 121). Portanto, optou-se por uma delimitação de profissionais atuantes em projetos de que vivenciam experiências de Gestão de Projetos em empresas públicas e organizações governamentais. Além disso, segundo Creswell, a pesquisa qualitativa é fundamentalmente interpretativa, estando o investigador envolvido em uma experiência 48 sustentada e intensiva com os participantes. Com isso, são inevitáveis as interpretações pessoais na análise de dados qualitativos. Outra limitação é quanto à veracidade e precisão das respostas fornecidas pelos entrevistados, além do quê, tais repostas podem sofrer interferências da atuação do pesquisador no momento da entrevista (Armony, 2010). 4 Análise e Discussão de Resultados 4.1. Introdução Neste capítulo, buscaram-se identificar quais fatores os profissionais atuantes na área de projetos, praticantes da disciplina de Gerenciamento de Projetos proposta pelo Project Management Institute – PMI, e que vivenciam experiências de Gestão de Projetos em empresas públicas e organizações governamentais, percebem que favorecem ou comprometem a aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos. Foram selecionados fatores que na análise de dados apareceram de forma mais enfática, seja pelo número de vezes, seja pela sensibilidade do entrevistador, a partir de seu ponto de vista como praticante da disciplina de gerenciamento de projetos em organização governamental. 4.2. Gerenciamento de Projetos e Aprendizagem sob a Ótica dos Entrevistados Os resultados da pesquisa foram analisados a partir dos fatores que percebidos pelo pesquisador, pela interpretação das respostas às perguntas sugeridas no roteiro de entrevista e notas de campo (Creswell, 2007). Tais fatores formaram seis grandes blocos, dos quais alguns puderam ser percebidos ou materializados de diferentes maneiras durante a realização dos projetos em empresas públicas e organizações governamentais, conforme proposta da pesquisa. Para apresentação e discussão dos resultados, a seguir, foi utilizada a abordagem de passagens narrativas para comunicar os resultados da análise sob a ótica do pesquisador, utilizando as lentes teóricas (Creswell, 2007) e de boas práticas de: Gerenciamento de Projetos, 50 com foco principal no Guia PMBOK (PMI, 2008); e, Aprendizagem, com foco principal naquela proposta por Heijst et al. (1996), que relaciona os processos de aprendizagem com as lições aprendidas, podendo também, lançar mão de outros autores e suas proposições a fim de completar este arcabouço teórico. Até mesmo pressupostos ou marcos legais podem contribuir para análise e discussão. Antes de focarmos na análise de cada fator, será apresentada, a fim de melhor contextualizar o ambiente de gerenciamento de projetos daquelas instituições, bem como a interpretação do termo aprendizagem, a percepção dos entrevistados a respeito de tais temas. 4.2.1. Gerenciamento de Projetos para os Entrevistados Pelas respostas dadas às perguntas relativas ao assunto, pode ser percebido um nível de conhecimento homogêneo dos princípios, boas práticas e outros aspectos e detalhes da disciplina de gerenciamento de projetos, conforme proposto pelo PMI e apresentado no Guia PMBOK (PMI, 2008). Quando questionados sobre: “_ O que é gerenciamento de projetos para você?”, um dos entrevistados remeteu, prioritariamente, aos conceitos difundidos pela instituição anteriormente citada: “... para a gente responder isso, a gente sempre é levada a pensar no Gerenciamento de Projetos analisando todas as disciplinas da certificação PMI, pegando a bíblia...” (Entrevistado 1). O Entrevistado 6 remete a definição clássica apresentada no Guia PMBOK (PMI, 2008): 51 “Atender o usuário dentro do prazo, custo, e qualidade definidos.” (Entrevistado 6). Uns chamam a atenção para a coordenação e o acompanhamento do projeto: “Eu interpreto como... coordenar e acompanhar todo o projeto em práticas que são difundidas ou utilizadas”. (Entrevistado 4). Outros, para as boas práticas que são difundidas por aquele guia: “Fazer uso de métodos e determinadas boas práticas que foram aprendidas ao longo desses anos para coordenar esses projetos que já existem desde o início dessas civilizações (Entrevistado 8)” Para o pesquisador, a percepção deste nivelamento sobre o conhecimento em gerenciamento de projetos entre o grupo de entrevistados pode colaborar para uma tendência maior de assertividade na manifestação sobre opinião daqueles - e, portanto, das repostas dadas - sobre o assunto tratado, o que por sua vez, pode, também, vir a contribuir para os resultados da pesquisa devido à melhor compreensão dos indivíduos entrevistados e menor assimetria de informações à respeito da disciplina ora abordada. Como mais um exemplo deste nivelamento, a reposta do Entrevistado 9, sintetiza os principais fundamentos do gerenciamento de projetos conforme proposto pelo PMI: “É a forma mais organizada de gerenciar atividades, projetos, pessoas, dinheiro de uma forma bem simplificada, usando diversas disciplinas é a forma que a gente tem de organizar tudo isso para que a um dado prazo, a um custo pré-definido a gente consiga entregar determinados produtos”. (Entrevistado 9). 52 O Entrevistado 14 chama a atenção para os aspectos de unicidade inerente aos projetos, chamando a atenção para os “desafios” na realização destes, e para a questão da importância das marcas deixadas pelos projetos – e, muito provavelmente, pelo gestor e pela equipe do projeto de forma concomitante - oriundos do seu “sucesso ou fracasso”: “Desafio. Fazer alguma coisa que não tem rotina. Fazer algo que é único e que pode deixar marcas. Às vezes, boas, às vezes, ruins. Os projetos são sempre lembrados. Sejam eles de sucesso ou de fracasso.” (Entrevistado 14). A respostada apresentada pelo Entrevistado 15 explicita uma visão sobre gerenciamento de projetos com foco nas pessoas que realizam o projeto e a importância da “orquestração” destas junto aos demais recursos do projeto. “(Gerenciamento de projetos é...) Conseguir fazer essa orquestração de todos os elementos que estão envolvidos no projeto, principalmente das pessoas para que seja atingido o melhor resultado. Você tem os recursos que estão trabalhando empenhados em entregar o projeto e também os clientes que vão receber esse resultado e a gestão dessa transformação que o projeto resulta gerenciamento que de é o grande projetos vai desafio tentar que o estudar. Quantitativamente e qualificativamente, mas tem um componente humano pessoal muito importante que as técnicas não conseguem vivenciar.” (Entrevistado 15). 53 4.2.2. Aprendizagem sob a Ótica dos Entrevistados O entendimento a respeito do conceito aprendizagem para os entrevistados também apresentou certa simetria - da mesma forma que com o conceito anterior sobre gerenciamento de projetos. Na ótica do pesquisador este fato pode, novamente, colaborar com os resultados da pesquisa, pois, pressupõe-se que, se um grupo de entrevistados demonstra compartilhar um mesmo entendimento sobre um determinado termo ou conceito, a variabilidade das respostas dadas poderão estar mais vinculadas à sua opinião, do que a interpretações errôneas sobre o que está sendo tratado. O Entrevistado 2 definiu o conceito de aprendizagem de forma próxima àquelas apresentadas por autores clássicos sobre o assunto: “É todo e qualquer comportamento, habilidade ou atitude que você possa aprender ou qualquer informação que você possa transformar em conhecimento, que possa agregar valor agora ou no futuro.” (Entrevistado 2). O Entrevistado 2 completa, ainda, sua noção à respeito de aprendizagem, introduzindo outra idéia ao conceito: “Aprendizado, antes de mais nada, é estado de espírito!”(Entrevistado 2). O Entrevistado 8 nos remete a noção trazida por Garvin (2000) em relação a retenção e utilização de novos conhecimentos, aproximando-o também do aprendizado através de transferência do conhecimento entre os pares (Heijst et al. 1996). “A aprendizagem pode ser formal ou informal, pode ter um aprendizado sozinha, com o auxílio de alguém ou mesmo até de algum equipamento. É o ato de absorver 54 conhecimento e também colocá-lo em prática.” (Entrevistado 8). A opinião de outro participante da pesquisa remete ao conceito – e suas formas de ocorrência na organização – como apresentado por Heijst et al. (1996), mais propriamente, ao segundo aspecto da aprendizagem organizacional, e que exemplifica bem esta forma de aprendizagem, centrada em torno do conceito de comunicação, e onde, mais uma vez, a transferência de conhecimento é realizada quando os trabalhadores compartilham suas experiências com seus pares na organização: “Vou pegar um exemplo bem bacana. Quando você pensa em uma fábrica de softwares, você tem que ter um custo baixo para a sua produção, para entregar programas ou projetos. Você vai ter que contratar profissionais seniores, que tenham um relacionamento bom, que gostem de ensinar, que gostem de gente, e automaticamente vem um monte de gente júnior, com um custo mais baixo, grudam nesses profissionais, alguns, não todos, se fosse perfeito seria lindo. E aí há uma transferência de conhecimento muito legal, o júnior com aquela agilidade de querer entregar o projeto o mais rápido possível e o sênior analisando alguns aspectos de risco e de até por ter experiência, apesar de isto está escrito em algum lugar que funciona desse jeito, a minha experiência diz que não funciona, então vamos testar. Então essa troca é muito legal!” (Entrevistado 2). As colocações dos entrevistados, também ajudam a esclarecer como se dá tal aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos, e que serve para construção do arcabouço conceitual sobre a relação entre os temas Gerenciamento de Projetos e Aprendizagem, e para nortear a observação do pesquisador e a extrair as categorias dos fatores de aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos. A resposta dada pelo 55 Entrevistado 3 esboça bem a noção também trazida pelos autores Heijst et al (1996), apontando, agora para o terceiro aspecto de aprendizagem abordado, onde esta se dá a partir das interações e conexões existentes entre o indivíduo, a comunicação e o repositório no processo de aprendizagem organizacional, onde é introduzido o conceito de lições aprendidas, como um processo de aprendizagem organizacional, através da detecção e correção de erros, e onde tais lições aprendidas são definidas pelos autores como sendo as experiências, ou insights, negativas ou positivas que podem ser usadas para melhorar o desempenho da organização no futuro: “Tudo que aconteceu ao longo do projeto, onde você tinha uma opinião que nem sempre é uma verdade absoluta e aprender com os erros e acertos nos projetos futuros. [...] Quando envolvem riscos, eu costumo sempre anotar, explicando o que eu gastei para poder apresentar os motivos do porque eu gastei para contornar aquele risco. Organizar todos os emails e anotar e formalizar todos os acontecimentos durante o projeto.” (Entrevistado 3). O Entrevistado 6 apresenta de forma bem definida sua visão sobre o tema aprendizagem, que se soma de forma coerente às outras aqui apresentadas colaborando para composição deste arcabouço conceitual: “Eu vejo a coisa do dia a dia. Conseguir aprender com os erros e acertos. Tirar algum proveito dos pontos positivos e negativos a cada projeto que você está participando que vai me dar de bagagem para os próximos projetos. Eu aprendo muito com os acertos, mas principalmente com os erros, coisas que não deram certo me despertam mais atenção para que não sejam levadas nos próximos projetos.” (Entrevistado 6). 56 Outra resposta, agora no caso, do Entrevistado 5, utiliza o conceito de aprendizagem pela comunicação e o une a idéia de aplicação de boas práticas: “É tentar assimilar com os erros para que eles não aconteçam de novo. Aprender com os erros dos outros. Tentar pegar as melhores práticas e os melhores acontecimentos de algum projeto que você viu e que deu certo e capturar para os seus próprios projetos.” (Entrevistado 5). As opiniões observadas vão se somando e completando a noção sobre aprendizagem do grupo de entrevistados. Interessante notar, que, na resposta apresentada pelo Entrevistado 4, é trazido à discussão o “dia-a-dia” do gerenciamento de projetos como aspecto oriundo à aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos, que é o foco principal da pesquisa. “É o dia a dia, vendo as coisas acontecendo e tomando o rumo onde as coisas aconteceram certas, fica a lição e também com os erros o que não funcionou. É um registro para aprender e aplicar nos próximos projetos...” (Entrevistado 4). Pode se notar, que, a partir das repostas dadas, os pesquisados vinculam aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos às lições aprendidas no dia-a-dia, como visto anteriormente. No entanto, atentam também para a dificuldade de realização desta boa prática importante para o aprendizado e seus reflexos nos projetos gerenciados: “É importante (aprendizagem)... sinceramente, eu nunca trabalhei em uma empresa que a gente usasse aquela atividade de registrar os erros cometidos e as lições aprendidas. Eu realmente, nunca vi uma biblioteca de 57 lições aprendidas nas empresas que eu trabalhei.” (Entrevistado 7). Por fim, concluindo este painel de opiniões sobre aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos, a resposta dada pelo Entrevistado 15 e apresentada a seguir descreve aspectos oriundos aos apresentados no referencial teórico, conjuminando os postulados de Garvin (2000), Heijst et al (1996), e de boas práticas do Guia PMBOK (PMI, 2008), não necessariamente nesta mesma ordem: “Aprendizagem é a disciplina de você rever tudo o que você fez: o que deu certo e o que deu errado, e conseguir reaproveitar esse conhecimento de alguma forma. Tem várias formas de se fazer isso: registros, relatórios e documentação, mas o que funciona de verdade é a troca de conhecimentos. Esse relacionamento entre as pessoas que já passaram por situações semelhantes da empresa ou de outras empresas é a forma mais interessante de trocar esse conhecimento e tentar não cometer os erros que outras pessoas ou você mesmo cometeu na execução de projetos no passado.” (Entrevistado 15). 4.3. Fatores que Influenciam a Aprendizagem no Ciclo-deVida de Projetos em Empresas Públicas e Governamentais Antes de apresentar os resultados da pesquisa que apontaram os fatores de aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos, faz-se mister algumas considerações. Inicialmente, na relação entre os fatores percebidos e suas diferentes manifestações, e suas interdependências. Em segundo lugar, sobre a questão destes aspectos favorecerem ou comprometerem o aprendizado no ciclo-de- 58 vida de projetos em empresas públicas e organizações governamentais. Durante a análise dos dados, a fim de extrair as principais categorias dos resultados, foram identificados seis fatores principais que impactam – favorecendo ou comprometendo– a aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos: Comunicação; Liderança; Planejamento; Integração; Multidisciplinaridade, e Informações. No entanto, por observação das narrativas no momento da sua revisitação, foram desdobrados aqueles em outros fatores - talvez de menor vetor do que os fatores principais, mas que por se aproximar de atividades adstritas a processos de gerenciamento de projetos, e das habilidades, ferramentas e técnicas aplicadas a esses, chamaram a atenção do pesquisador - devendo também ser analisados de forma a apontar caminhos a seguir para os gestore de projetos em empresas públicas e organizações governamentais. Portanto, ao longo da análise de resultados tais subfatores, por assim dizer, também serão tangenciados. São eles: Patrocínio; Perfil do Líder; Desenvolvimento de Escopo; Planejamento Inadequado; Execução Inadequada, Lições Aprendidas; Padronização e Métricas; Distribuição de Informações Padronizadas; Ausência de Documentação; Capacitação Insuficiente, Sobre a questão da influência positiva ou negativa dos fatores na aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos, há de se observar o seguinte: os fatores e subfatores - como explicados no item anterior – se dividem entre aqueles que poderiam facilitar a aprendizagem, ou seja, de valência positiva, e aqueles que poderiam comprometer a aprendizagem, portanto, de valência negativa. No entanto, pode-se inferir uma relação diretamente proporcional entre essas valências: quanto mais ênfase receberem os fatores que favorecem a aprendizagem, maiores serão, provavelmente, as oportunidades de aprendizagem no ciclo-de-vida. A partir desta inferência, o inverso também seria verdadeiro: uma menor ênfase – ou inexistência – destes fatores, por si só, já seriam comprometedores deste aprendizado, devido ao aspecto lógico desta relação. Não obstante entender que a não observância de fatores que são positivos para 59 aprendizagem já seria um dificultador deste processo, foram destacados outros fatores – ou subfatores, que no caso de ocorrência durante o projeto poderão influenciar de forma negativa, comprometendo a aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos. 4.3.1. Comunicação Apresentaremos, agora, análise dos resultados com o objetivo de ajudar a responder a pergunta de pesquisa: o que os profissionais atuantes na área de projetos, praticantes da disciplina de Gerenciamento de Projetos proposta pelo Project Management Institute – PMI, cujas boas práticas estão descritas no Guia PMBOK (PMI, 2008), e que vivenciam experiências de Gestão de Projetos em empresas públicas e organizações governamentais, percebem como fatores que favorecem ou comprometem a aprendizagem no ciclo-devida de projetos? A análise conjunta destes resultados frente aquelas perspectivas teórica e boas práticas apresentadas visam nos ajudar a entender como lidar com isso no dia-a-dia. O fator comunicação foi percebido pelo pesquisador, a partir da interpretação da transcrição das repostas dadas à entrevista semiestruturadas em conjunto com as notas de campo, como fator de destaque que facilita a aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos. Existe um senso comum entre os gestores de projetos entrevistados, de que a comunicação é fundamental para que se dê tal aprendizagem. Conforme Rego (2010), Gido e Clements (2007), o Quadro 3 destaca, entre a extensa lista de competências necessárias ao gerente de projetos, habilidades de comunicação como das mais importantes, e para Heldman (2009, p. 53): “O Gerenciamento das Comunicações talvez seja a Área do Conhecimento mais importante em qualquer projeto. E a maioria dos gerentes de projetos entende a importância das boas habilidades de comunicação e também de 60 assegurar que as partes interessadas recebam informações sobre status do projeto" O primeiro processo de gerenciamento das comunicações do projeto, e que se dá na iniciação do projeto ou fase, é a identificação das partes interessadas, e como destacado por Freedman (2000) e pelo PMBOK (PMI, 2008) a equipe do projeto é uma das partes interessadas (key stakeholders) principais. Neste sentido, a narrativa a seguir destaca que para favorecer a aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos a atenção do líder do projeto deve estar voltada para manter um canal de comunicação aberto com a equipe. Quando questionado sobre, em sua opinião, o que favorece a aprendizagem no ciclo-devida dos projetos, o Entrevistado 5 foi taxativo: “Ter um canal aberto de comunicação.” (Entrevistado 5). Heldman (2009) chama a atenção que os processos de gerenciamento das comunicações aí envolvidos devem assegurar a distribuição e o compartilhamento das informações com todas as partes interessadas. Tal aspecto foi colocado pelo Entrevistado 15. “Comunicação aberta com os envolvidos no projeto e com outras pessoas de fora, que tem uma visão diferente, que querem colaborar. Muita gente não é receptiva a isso e quer se blindar, se fechar. Estar aberto a qualquer fonte de informação de dentro ou de fora do projeto.” (Entrevistado 15). O fator comunicação foi também citado de forma enfática pelos entrevistados, como o primeiro aspecto importante para aprendizagem, como a narrativa seguinte explicita: “Primeiro a comunicação. Sem a comunicação fica muito complicado. Eu posso saber que está acontecendo 61 alguma coisa, mas se eu não perceber o que está dando errado e não relatar isso e se as pessoas responsáveis não me derem feedback o eu não vou ter aprendido nada. O que eu vou aprender é que eu preciso ter uma melhor interação com as pessoas. É importante ter observação e comunicação com as pessoas que estão trabalhando no projeto.” (Entrevistado 4). Também foi destacada a comunicação como fator importante para aprendizagem no sentido de orientar o conflito – “de idéias, não de pessoas”. Uma das técnicas utilizadas para resolução de conflitos com base na estratégia de ganha-ganha é denominada confronto (Heldman, 2009), e pode ser colaborar para aprendizagem como sugerido pelo Entrevistado 14: “Muito conflito... de idéias, não de pessoas. A velocidade, a percepção de cada pessoa é diferente. Cada pessoa está envolvida com um aspecto diferente do projeto... Quando cada um tem um olhar diferente, isso vai gerar conflito. Precisa ter alguém com mais experiência para discernir sobre tudo isso, orientar.” (Entrevistado 14). Esta técnica, também denominada resolução de problemas, é uma das medidas-chave a ser executada na investigação dos fatos e da melhor solução para o problema (Heldman, 2009, p. 360). Assim, uma vez revelados os fatos que respaldarão a solução, a partir da idéia de que, só existe uma melhor – ou mais adequada naquela ocasião – estes são apresentados às partes conflituosas decisão torna-se clara. Durante todo este processo ocorrem oportunidades de aprendizagem conforme proposto pelo segundo aspecto da aprendizagem organizacional trazido por Heijst et al. (1996): a aprendizagem pela comunicação. Completando este ciclo de aprendizagem, Heldman (2009, p. 361) sugere a técnica de Registro de Questões, que, segundo a autora “é o local onde são documentados os problemas que impediram que a equipe atingisse as metas do projeto”, o que vai ao 62 encontro do terceiro aspecto da aprendizagem organizacional sugerido por aqueles autores: a aprendizagem através do repositório de conhecimento. De acordo com esta técnica cada problema deve ser descrito no registro, junto com nome do responsável pela solução, a data em que a solução foi encontrada, e o momento em que pode ser necessária. Tal procedimento se assemelha ao proposto por Heijst et al. (1996) onde conhecimento é armazenado na memória da organização para ser distribuído, ativa ou passivamente. 4.3.2. Liderança Durante as entrevistas algumas repostas dadas pelos entrevistados a respeito dos fatores que favorecem a aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos, poderiam remeter-se, também, à comunicação, como no caso das reuniões de equipe. Foram mencionadas as reuniões periódicas, com as partes interessadas, incluindo equipe e cliente, como forma de comunicar os avanços – e atrasos – e o que pode ser aprendido com essas: “Ter uma reunião com a equipe. A reunião pode ser semanal ou quinzenal, mostrar o que está acontecendo no projeto. As coisas que estão acontecendo, sejam boas ou ruins O que podemos melhorar ou aprender com isso?” (Entrevistado 6). Outro entrevistado também reforçou este aspecto, como veiculo de aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos: “Conversando e trocando idéias com outros colegas e informações com todas as pessoas envolvidas. É de grande ajuda ouvir as opiniões da área requisitante do projeto ouvindo o que está muito lento, muito grande, etc. Essa troca de informações constante entre as pessoas é a melhor forma de aprender. (Entrevistado 12). 63 No entanto, apesar destes aspectos envolverem a comunicação, na ótica do pesquisador com base nas proposições e boas práticas propostas pelo Guia PMBOK (PMI, 2008) e de outros autores, este aspectos estariam mais ligadas à Liderança, e ao Perfil do Líder, envolvendo também questões de Patrocínio, e poderiam comprometer a aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos. Para Brady e Davies (2004) os líderes das equipes de projetos podem ser aplicados como facilitadores de aprendizagem, que teriam condições de trazer para novos projetos a experiência obtida quando da atuação em ‘projetos de vanguarda’, através de relatos, times de aprendizagem, e das lições aprendidas, Desenvolver a equipe do projeto, apresentando oportunidades de aprendizado, como colocado pelo Entrevistado 12, é onde o líder mostra sua importância (Heldman, 2009, pg. 365) “... a direção de um líder capaz, responsável, que pode comparar efetivamente as necessidades do projeto (e, consequentemente, da organização) e realizar tudo isso com sucesso” é fundamental para a gestão – e o sucesso, é claro – do projeto. Neste sentido parece que o perfil do líder é mais adequado para auxiliar nesta questão. O Entrevistado 2 dá um exemplo de como esta interação entre o líder e os liderados é importante: “... no dia que o soldado deixa de trazer os seus problemas seja porque ele acha que você não se importa ou que você não tem capacidade para resolvê-los é a hora que você deixou de liderá-lo. Isso é extremamente análogo ao aprendizado porque na hora que qualquer pessoa na estrutura deixa de trazer uma opinião porque ele acha que você não se importa ou não sabe o que fazer com ela, você deixou de liderá-la e destruiu completamente o ambiente de aprendizado porque ele não se sente à vontade de dizer (Entrevistado 2). 64 O Entrevistado 8 é da mesma opinião expressada anteriormente, no que tange o perfil do líder como fator que pode colaborar com a aprendizagem: “Um gerente participativo também colabora para que a comunicação flua. Um gerente presente que esteja de olho em tudo que está acontecendo, em todas as ações dos projetos aumenta mais as chances dele participar de todas as situações de que o projeto vai vivenciar.” (Entrevistado 8). O Entrevistado 6 concorda com a influência do fator de liderança para a aprendizagem em processos, servindo como mola propulsora: “A liderança é fundamental, você tem uma equipe com diversos tipos de pessoas, é necessário conhecer cada um para saber como motivar cada tipo de pessoa”. (Entrevistado 11). Por outro lado, a inexistência – ou ausência – de fatores ligados à liderança, como comunicação e perfil do líder podem comprometer a aprendizagem em projetos: “A falta de comunicação, ter um gerente ausente que não está próximo do projeto ou da equipe. Mesmo que a sua equipe seja comprometida, quando falta um pouco de liderança, fica comprometido alguns aspectos do projeto”. (Entrevistado 8). Rego (2010, p. 68) apresenta em seu estudo, pesquisa realizada por Dvir (2008) com o intuito de investigar o ajuste entre a personalidade de gerentes de projetos, os tipos de projetos gerenciados e o possível impacto no projeto. Foram identificados traços de personalidade como: intuitivo, perceptivo, investigativo, empreendedor, entre outros. Mais importante: os traços de personalidade que caracterizam os gerentes de projetos mais ligados ao sucesso do projeto foram: aberto a 65 experiências, com tendência a assumir riscos, inventivo, investigativo e empreendedor. Tais características parecem remeter a um tipo de gerente que troca idéias com outros colegas e informações com todas as pessoas envolvidas, e se relaciona com seus comandados no sentido de ouvir seus problemas, aprender com eles, ajudar a resolvêlos e ainda, responsabiliza-se pelo desenvolvimento das pessoas do projeto como equipe, ocupando-se sobre suas interações, da comunicação e do gerenciamento de conflitos (Heldmam, 2009). Outro aspecto que favorece a aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos e que também estaria relacionado à liderança – e ao perfil do líder – trazido pelos entrevistados é o treinamento on the job, ou coaching, conforme expresso na seguinte colocação: “ Eu gosto muito da palavra ‘coaching’ [...] é uma oportunidade que a gente perde em qualquer projeto de fazer esse aprendizado, essa troca de experiência, talvez a gente pudesse ter em cada projeto um cara responsável pelo ‘coaching’, ele ia passar a experiência dele, aprender e a trocar e ajudar o gerente de projeto a tocar o projeto, a experiência dele é prática, não é mais acompanhar cronograma” (Entrevistado 1). Para Dinsmore (2009, p. 265) “o ‘coaching’ profissional combina medições de auto-avaliação, testes de personalidade e identificação do estilo preferido de atuação como feedback sobre os comportamentos pessoais e profissionais” e recomenda esta prática, entre outras, como “relevantes ao aprendizado”. No entanto, uma boa atuação como ‘coaching’ demanda, do líder ou gerente do projeto, um perfil diferenciado, com conhecimento de outros campos de estudo como a psicologia, e combina educação e treinamento, ou seja, capacitação, com anos de experiência de trabalho como outros profissionais, o que resulta em reflexões extremamente valiosas (Dinsmore, 2009). Tais características poderão habilitar ao líder do projeto a orientar sua equipe de modo a intensificar suas forças e eliminar comportamentos que poderão levar ao insucesso. 66 Porém, para que as proposições feitas pelos entrevistados a fim de favorecer a aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos como a realização de reuniões e dinâmicas em grupo, bem como processos de ‘coaching’ não basta apenas um líder empreendedor e aberto a experiências. A ocorrência – ou não – de tais fatores e características de um projeto e sua liderança está fortemente ligada ao aspecto de patrocínio do projeto. As boas práticas de gerenciamento de projetos enfatizam a importância de o projeto ter um padrinho, ou seja, “alguém com poder para defender o projeto ao longo do tempo” (Rego, 2010, p. 73). “O que mais compromete são as dificuldades do alto escalão, dos líderes, gerentes gerais, gerentes funcionais, diretoria colegiada, em patrocinar a adoção dessa metodologia, capacitando e incentivando os seus funcionários.” (Entrevistado13). Geralmente, este patrocinador é um executivo na organização com autoridade para delegar funções, gerir recursos e impor decisões relacionadas ao projeto (Heldmam, 2009), e teria o poder necessário para criar condições que favoreçam a aprendizagem no ciclo-de-vida do projeto. 4.3.3. Planejamento Os processos e atividades presentes nos processos de planejamento são realizados para estabelecer o escopo total do esforço, definir e refinar os objetivos e desenvolver o curso de ação necessário para alcançar esses objetivos. Tais processos desenvolvem o plano do projeto e os documentos do projeto que serão utilizados para executá-lo (PMI, 2008). É também, de acordo com os entrevistados, importante para o aprendizado. O Entrevistado 4 faz um resumo quando questionado sobre as atividades que favorecem o 67 aprendizado durante a realização dos processos, incluindo o planejamento: “Planejamento e Comunicação do que foi aprendido, registrado e o que será feito. Planejar bem e transmitir.” (Entrevistado 4). Como em alguns projetos nem toda a equipe participa da fase de iniciação, podendo assim, interferir neste processo de planejamento, muitas vezes equipes serão agregadas ao projeto para realizar entregas específicas. No entanto, estes grupos não puderam compartilhar das oportunidades durante o planejamento. O Entrevistado 6 separa em dois momentos, as oportunidades de aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos, incluindo o planejamento: “Para a equipe, o aprendizado principal está na execução. Para o gestor o aprendizado começa antes, no planejamento, e depois, no encerramento.” (Entrevistado 6). O planejamento adequado das atividades é fundamental para o sucesso do projeto, ou seja, para disponibilizar tal produto, serviço ou resultado exclusivo conforme escopo planejado, no prazo definido, dentro do orçamento acertado e com a qualidade esperada (PMI, 2008). Porém, realizar os processos de planejamento da forma proposta pela disciplina toma tempo e é um custo que deve ser considerado na realização do projeto. No entanto, pode ser não apenas fator de sucesso, mas também de aprendizagem, como suscitado pelo Entrevistado 2. “Onde você precisa de mais aprendizado é no planejamento. Você precisa de mais aprendizagem para pegar toda a carga de todo mundo que está envolvido nesse projeto antes de começar o projeto somar para 68 fazer o planejamento o mais azeitado possível. Planejar é a primeira parte. Cinco minutos de planejamento equivalem à uma hora de trabalho”. (Entrevistado 2). Visto de outra forma, o planejamento – ou suas outras formas de manifestação, no caso, de sua ausência – se não realizado da forma adequada pode se tornar um fator que dificulta a aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos. “Mas eu acho que o quê compromete sempre tudo e fazendo a gente trabalhar mais horas, improvisar, é o quanto ele (o projeto) foi mal planejado. O planejamento em primeiro lugar é o principal agressor de qualquer outro.” (Entrevistado 2). O Entrevistado 15 chama a atenção para este aspecto cultural e das armadilhas oriundas de um planejamento inadequado das atividades, como forma de não comprometer a aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos. “Aumentar a cultura de planejamento... e é necessário um patrocínio para você não cair nessa armadilha de sucumbir aos prazos, aos orçamentos ou metas agressivas. Esses projetos envolvem um processo muito grande de transformação, principalmente em empresas públicas que investem em melhorias e isso não se faz em poucos dias, é um processo contínuo.” (Entrevistado 15). O aspecto abordado pelo Entrevistado 15, sobre a cultura de planejamento em projetos, é retomado no âmbito das empresas públicas, chamando, ainda mais, a atenção do pesquisador para este fator, ou no caso, na ausência deste: 69 “... os objetivos das principais empresas públicas no Brasil há um problema de continuidade e a gente sabe que planejamento estratégico não se faz para cinco anos, é uma coisa que se faz em dez ou vinte anos.” (Entrevistado 2). Outro fator - ou subfator – que deriva do planejamento, que pode comprometer a realização das atividades, o sucesso do projeto, bem como os processos de aprendizagem é o que foi interpretado como desenvolvimento inadequado de escopo. Quando questionado o que pode comprometer a aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos, o Entrevistado 5 respondeu: “Ter uma boa definição do escopo [...] que é um dos problemas mais sérios que eu tenho aqui na Empresa XPTO.” (Entrevistado 5). E complementa, citando este fator em conjunto com outros aspectos que julgou comprometedor para aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos: “Rotatividade, falta de comprometimento, mudanças bruscas de escopos, não criar um bom ambiente de trabalho mútuo. (Entrevistado 5). Colaborando, de forma indutora, para o insight do pesquisador no que tange a manifestação balanceada dos fatores que favorecem ou que comprometem a aprendizagem de forma a possibilitar que os praticantes da disciplina de gerenciamento de projetos conforme proposta pelo PMI possam potencializar aqueles que favorecem a aprendizagem, bem como de mitigar aqueles que comprometem, a Entrevistada 7 comenta a importância da relação entre o desenvolvimento de escopo e as lições aprendidas em outros projetos, como forma de aprendizagem: 70 “Você ler tudo e rapidamente ver qual foi o escopo do projeto, as principais dificuldades, as principais decisões tomadas, o que deu certo e o que deu errado, para amanhã quando eu for fazer um projeto parecido já ter o caminho das pedras.” (Entrevistada 7). Quando questionado sobre o que pode ser comprometedor para aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos, o Entrevistado 1 remete, mais uma vez, para os fatores planejamento e desenvolvimento inadequado de escopo: “Se eu tenho um prazo apertado, não dimensionei os riscos e os problemas que foram acontecendo. Outro agressor bonito é o escopo, se bem que hoje em dia a gente está ficando mais malandro, todos assinam o escopo, não pode se colocar nada que não esteja no escopo e o gerente de projeto tem que zelar por isso. Mas, é humana, a pressão é diferente e aí o grande problema é o atraso do projeto, fazendo a gente trabalhar como um alucinado para entregar e cabe ao gerente transformar esse trabalho alucinado em alguma coisa útil. Eu acho que o grande problema é planejamento...” (Entrevistado 1). O Entrevistado 13 aponta mais uma vez para estes dois fatores: “Planejamento. Saber que planejar requer cuidado. Analisando quem tem o conhecimento necessário para fazer parte do projeto. Cuidado com o escopo do projeto. Saber o que está sendo pedido pelo seu cliente porque vai impactar no custo”. (Entrevistado 13). Como se trata, principalmente, de um aspecto cultural e de experimentação na prática de realizar planejamento em gerenciamento de projetos – pois no Guia PMBOK (2008) não há definição sobre 71 parâmetros adequados relacionado à duração desta atividade – ao mesmo tempo em que se faz necessário uma mudança cultural nas organizações brasileiras como um todo - o que não será tratado neste trabalho – a experiência de planejar e realizar projetos trará o refinamento fino que possibilitará os praticantes das boas práticas de gerenciamento de projetos conforme proposta pelo PMI, encontrar o percentual de tempo adequado para investir nesta atividade. Em complemento, o Guia PMBOK (PMI, 2008, p. 46) coloca que, “a natureza multidimensional do gerenciamento de projetos cria alimentações periódicas de feedback para análise adicional”. Desta forma, ao passo que mais informações ou características do projeto vão sendo agregadas, pode se exigir uma revisão destas para um planejamento adicional. Tais mudanças - conforme aquelas comentadas pelo Entrevistado 5: “mudanças bruscas no escopo”, que ocorrem ao longo do projeto ampliam a necessidade de revisitar um ou mais processos de planejamento. Este detalhamento, progressivo e freqüente, do plano de gerenciamento é chamado planejamento por ondas sucessivas, onde o planejamento e a revisão da documentação são processos iterativos e contínuos (PMOBK, 2008). 4.3.4. Integração Integração é dentre as nove áreas do conhecimento em gerenciamento de projetos aquela responsável por orientar e executar os processos e atividades para identificar, definir, combinar, unificar e coordenar os vários processos e atividades dos demais grupos de processos de gerenciamento, e pode se manifestar como um fator que favorece o aprendizado durante a realização de projetos. De acordo com a narrativa do Entrevistado 11 é um fator importante em todo o processo de aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos: 72 “Integração entre as equipes com um fluxo de comunicação muito claro... é uma ferramenta para auxiliar em todo o processo.” (Entrevistado 11). A fala do Entrevistado 13 é enfática e empolgante na experiência integradora proporcionada pelo ambiente de projetos: “Integração. É uma experiência fantástica sentar com diversas áreas e entender os problemas que eles estão passando e ajudá-los, iniciando com eles determinado projeto e dando orientação. Hoje, estamos melhorando a nossa comunicação. Lidar com pessoas tem facilitado muito a comunicação interna. Isso facilita a integração e a troca de experiências entre áreas.” (Entrevistado 13). Notam-se, mais uma vez, a partir destas narrativas, mais um exemplo do quanto estão imbricados – como não podia deixar de ser, devido à natureza progressiva, contínua e iterativa dos processos de gerenciamento de projetos, conforme já comentado – a menção de outros fatores que favorecem a aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos, aqui no caso, a comunicação. O Entrevistado 6 compartilha do mesmo ponto de vista sobre a influência deste fator. Ele comenta, ainda, como acha importante este fator para aprendizagem no ciclode-vida de projetos, e remete a outros fatores, como perfil do líder e patrocínio – dado que, como proposto anteriormente, as reuniões de equipe não se vinculam, apenas, ao fator comunicação, como também, aqueles subfatores citados: “Atividades de integração das equipes. O gestor de projetos deveria fazer uma reunião para passar experiência. Saber o andamento mesmo de tudo que está acontecendo.” (Entrevistado 6). Por outro lado, a ausência deste fator pode surtir um efeito que pode comprometer – ou dificultar, a aprendizagem no ciclo-de-vida de 73 projetos. Ele manifesta sua opinião apontando como a falta de integração – agora, de pessoas, não somente de processos - pode impactar, negativamente, no processo de aprendizagem, e até mesmo, na realização do projeto: “Fica uma equipe de um lado e outra do outro: as equipes não se falam, falta integração entre as equipes. Tem coisas que são desenvolvidas aqui que poderiam ajudar em projetos de outras áreas. Falta de tempo e pressão na entrega dificulta esse entrosamento. Seria importante ter uma visão do todo.” (Entrevistado 6). A opinião do Entrevistado 4 vai ao encontro da citação anterior, concordando que a falta de integração pode interferir negativamente: “A falta da comunicação, rivalidade e falta de entrosamento e (o perfil de) liderança do gerente atrapalham a aprendizagem”. (Entrevistado 14). Um subfator que surge como dificultador para o processo de aprendizagem é a execução inadequada das tarefas, que pode ser conseqüência de um plano insuficientemente claro, por exemplo: “O plano de projeto bom é aquele que deixa claro as responsabilidades de cada um.” (Entrevistado 14). Quando não é desenvolvido um bom plano de projeto, onde deixe claros os papéis e o detalhamento das responsabilidades e atividades para cada membro da equipe, corre-se o risco de uma execução inadequada das tarefas. No entanto, essa conseqüência para execução do plano do projeto pode ser também, segundo opinião dos entrevistados, por falta de integração entre os processos. “... a execução do projeto é regra de problemas, principalmente nas coisas que não dependem de você. 74 No Governo para você comprar qualquer coisa, você depende do setor de aquisições do seu órgão. Esse setor vai seguir os seus trâmites legais, que não são simples. Nem sempre o que você quer é o que você vai ter.” (Entrevistado 14). Outro exemplo do impacto da falta de integração em projetos – e continuidade – nos processos de gerenciamento de projetos em organizações governamentais, que pode impactar na execução inadequada das tarefas e no processo de aprendizagem, é trazido pelo Entrevistado 8. “Se perde muito tempo aprendendo de novo. Vou te dar um exemplo prático: no caso do Governo você tem o problema da licitação. Nem sempre você consegue manter aquele fornecedor que já estava ali e essa troca de fornecedor gera um custo muito alto tanto para o fornecedor que está chegando ou para o fornecedor que saiu e para o Governo porque você vai perder tempo para ‘reensinar’ ou reaprender.” (Entrevistado 8). O Entrevistado 2 traz para a discussão, através da sua opinião sobre o que pode comprometer a aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos, o aspecto do inter-relacionamento dos fatores e subfatores, no caso: planejamento, desenvolvimento inadequado de escopo, liderança, e patrocínio. “Primeiro um projeto mal dimensionado. Se eu estou com upload muito alto, eu não tenho tempo para levantar a cabeça. Se eu não tenho tempo para levantar a cabeça, eu não tenho tempo para aprender. Isso acontecia muito em consultoria, em projetos que eu cara dizia eu vendi 40 pessoas em seis meses e a gente chegar para o cliente para poder ter margem, tô colocando 20 pessoas em quatro meses. Você trabalha catorze horas por dia entrega o projeto e não aprende um décimo do que 75 poderia ter sido aprendido. Então upload é uma coisa extremamente pesada para o aprendizado. Outra é liderança, se você tem um líder ruim que não propicie um ambiente, você não vai conseguir aprender. Esses são os dois principais: liderança e upload.” (Entrevistado 2). Outro participante da pesquisa concorda com o fato de que um dimensionamento inadequado dos requisitos do projeto – escopo, tarefas e pessoas necessárias para atendê-lo – pode comprometer a aprendizagem: “Uma coisa que sempre compromete é a falta de tempo para a realização das coisas.” (Entrevistado 3). O Entrevistado 10 corrobora com a colocação feita anteriormente: “Excesso de demandas com falta de recursos. Não priorizamos isso”.(Entrevistado 10). Completando este painel, o Entrevistado 12 resume a questão: “Um grande comprometimento são os prazos políticos. Você tem uma coisa, sabe que essa coisa tem falhas, tem etapas, mas que você muitas vezes tem que queimar etapas do processo do projeto para fazer mais rápido, mesmo sabendo que é inviável fazer daquela forma. Isso atrapalha muito o andamento das coisas e também o aprendizado, porque você poderia estar aprendendo a melhorar com essas coisas que você queimou e você eliminou etapas importantes.” (Entrevistado 12). Como colocado no início desta seção, a área do conhecimento Integração trata da coordenação de todos os aspectos do plano do projeto e envolve um elevado grau de interação com os demais processos (Heldman, 2009, p. 48). Essa área envolve a identificação e definição do trabalho do projeto e a combinação, unificação e 76 integração dos processos apropriados. Destes processos de gerenciamento da integração emergirão os requisitos necessários a entender as necessidades do cliente e das demais partes interessadas de forma satisfatória e gerenciar suas expectativas. As saídas destes processos, como o plano de gerenciamento do projeto irão nortear a execução das atividades necessárias ao escopo do projeto, o que deverá demandar atenção especial do líder do projeto, bem como do patrocinador e da equipe envolvida. 4.3.5. Multidisciplinaridade Este aspecto relativo à equipe do projeto foi muito explorado pelo Entrevistado 14 - que já havia chamado a atenção para a questão dos “conflitos... de idéias”, apontando para a possibilidade desta variedade de idéias, provavelmente oriunda, dos diferentes perfis dos profissionais envolvidos no projeto como importante para favorecer a aprendizagem, e portanto, multidisciplinaridade foi interpretada como um fator que colabora para tal. Segundo sua narrativa a respeito dos processos que podem colaborar para aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos, o time do projeto constituir um universo heterogêneo junto aos demais os envolvidos no projeto, pode favorecê-la: “Misturar pessoas com tempo de formação e níveis de experiência diferentes. Não se pode forma uma equipe só com dinossauros, nem o oposto. Projetos funcionam melhor com pessoas de diferentes empresas.” (Entrevistado 14). Não é incomum tal fato – atuar com equipes multidisciplinares, ou de diversos perfis profissionais e diferentes instituições – na esfera das empresas públicas e governamentais, principalmente devido à prática de terceirizar áreas meio - aquelas que não estão diretamente a missão ou função institucional – destas organizações, o que pode se 77 tornar um problema de gestão para o gerente do projetos. “Uma tendência que assusta o gerente de projetos de TI é a terceirização” (Dinsmore, 2009, p. 447). Tal prática é muito requerida na área de Tecnologia da Informação, devido à função de sustentação dada pelos sistemas de informação e de gestão, e que impacta nos projetos desta área. No caso das instituições militares, a gama de perfis funcionais aumenta mais ainda: “Você tem três conjuntos de pessoas com expectativas diferentes: militares, civis e terceirizados. Cada um está por projeto e com todas essas pessoas convivendo. Em alguns órgãos públicos passam os políticos e com outros objetivos que não estão ligados a atividade fim. Esse é um grande desafio do serviço público no mundo.” (Entrevistado 14). O Entrevistado 16 coloca a necessidade para o nivelamento da equipe do projeto, que pode ser fruto da multidisciplinaridade e da diversidade cultural do time do projeto: “... mas tem que haver um mecanismo de qualificação da equipe diretamente envolvida no projeto deveria ter o mesmo nível de conhecimento dos participantes. Alguns deveriam ter uma habilidade ou capacitação maior do que de outro. Muitas vezes a gente só sabe disso na hora do ‘vamos ver’”. (Entrevistado 16). Se por um lado a multidisciplinaridade - como também a diversidade cultural – pode colaborar para aprendizagem, se não observado e nivelado tais aspectos entre todos participantes do projeto, a equipe do projeto poderá ficar desajustada, e como conseqüência produzir resultados indesejados ao projeto, como: falta de motivação ou atitude blasée; insatisfação com as atividades do projeto; transformação das reuniões de acompanhamento em ‘sessões de lamúria’; comunicação deficiente; e, principalmente, falta de respeito e de confiança no gerente do projeto. É possível que a ‘à sorte esteja a favor’ do gerente 78 de projetos e este consiga reunir a combinação certa de profissionais logo de primeira vez. No entanto, caso não ocorra tal combinação de imediato, caberá ao gerente do projeto, com o apoio do patrocinador, a montagem e desenvolvimento da equipe do projeto (Heldman, 2009). 4.3.6. Informações Por fim, serão apresentados e discutidos os resultados referentes a este último fator crítico de aprendizado. Para tanto, vale observar que o fator informações é uma categoria que emerge – e com isso, traz seus significados – dos seguintes aspectos, ou subfatores, relacionados ao uso e aplicação das informações, a saber: lições aprendidas; padronização e métricas; distribuição de informações padronizadas; ausência de documentação; ausência de portifólio de projetos; capacitação insuficiente. Tais subfatores também serão tangenciados nesta última sessão de análise e discussão de resultados. Na disciplina de gerenciamento de projetos, área do conhecimento Comunicação é a responsável pelos processos que garantam que todas as informações do projeto sejam coletadas, documentadas, arquivadas e descartadas quando apropriado (Heldman, 2009). O Entrevistado 9 é taxativo quando questionado sobre quais fatores podem colaborar para a aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos: “Acesso a informação. Já temos hoje vários padrões, uma ferramenta chamada ‘XYZ’ onde se encontram os nossos principais padrões, a nossa metodologia que para quem é funcionário próprio. A empresa oferece todo um processo de capacitação em Gerenciamento de Projetos. Já é exigido que eles (participantes das equipes de projetos) tenham determinadas competências técnicas, que os funcionários trabalhem os seus ‘soft skills’, ..., tem todo esse embasamento técnico e o aprendizado no 79 dia a dia. Temos profissionais com muito tempo de carreira aqui na ‘XPTO’ e outros que estão chegando e estamos tendo uma troca muito favorável de experiências.” (Entrevistado 9). Neste sentido, a primeira, e talvez, a mais importante, configuração em que o fator comunicação se desdobra são as lições aprendidas, e, de acordo com a opinião do Entrevistado 3, são relevantes em se tratando de empresas governamentais: “Lições anteriores aprendidas são muito importantes, principalmente em empresas públicas que tem todo um trâmite burocrático e governamental que quando você está acostumado com isso, ajuda agilizar o projeto.” (Entrevistado 3). O Entrevistado 12 concorda com o aspecto suscitado anteriormente, e apresenta sua opinião sobre fatores que colaboram para a aprendizagem, citando informações e lições aprendidas: “A nossa atenção nas ocorrências. As próprias ocorrências vão nos mostrando o que a gente precisa corrigir e melhorar. Conversando e trocando idéias com outros colegas e informações com todas as pessoas envolvidas. É de grande ajuda ouvir as opiniões da área requisitante do projeto ouvindo o que está muito lento, muito grande, etc... Essa troca de informações constante entre as pessoas é a melhor forma de aprender.” (Entrevistado 12). Outro entrevistado chama atenção para o potencial deste processo para construção da base de conhecimento da organização “A atividade de Gestão do Projeto, as reuniões de ponto de controle que é onde você efetivamente vai ter insumos 80 para construir a base de conhecimentos. O acompanhamento tem que existir.” (Entrevistado 11). O Entrevistado 5 afirma a importância da definição das métricas do projeto, sem o qual “não se tem nada”. “Se você não define métricas, você não define produtividade, nada. Você pode usar a metodologia que você quiser, a ferramenta que você quiser, você não vai ter nada.” (Entrevistado 5) Foi ressaltado que para adequada utilização das informações, o que poderá colaborar para aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos, é necessário que o registro e distribuição daquelas, para que todos do projeto tenham ciência e apresentem um padrão formal, conforme recomendado pelo Guia PMBOK (PMI, 2008), e que possibilite àqueles que as recebe apropriar-se, adequadamente, de seu propósito e relevância: “Documentar os riscos no termo de abertura. Ter mais tempo para registrar todas as informações padronizadas na abertura do projeto. O uso das ferramentas para dar visibilidade do projeto e segurança para a execução dos projetos porque todos ficam cientes de tudo que vai acontecer.” (Entrevistado 10). A documentação – documentação do projeto e registro de outras informações relevantes - pode colaborar para aprendizagem no ciclode-vida dos projetos, conforme opinião do Entrevistado 10, que traz à tona, novamente, o aspecto do gerenciamento das lições aprendidas: “Documentação. Na hora que acontece o problema, se percebe a necessidade e não se documenta isso, nós 81 acabamos esquecendo o que aconteceu no projeto e o problema vai se repetir de novo em um próximo projeto. O registro é a melhor maneira de consolidar isso, é a melhor forma para propor melhorias e colocar em prática já com a lição aprendida para isso não acontecer de novo.” (Entrevistado 10). Por outro lado, a ausência de documentação pode comprometer a aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos, uma vez que a equipe e demais partes interessadas no projeto não possuem documentos – ou não é permitido ou estimulado o acesso – onde possam encontrar os requisitos do projeto e demais informações necessárias para o adequado gerenciamento do projeto. “Uma equipe não se falar com a outra. Você acaba gerando muito retrabalho. Você não tem nenhuma documentação e você também não tem interação entre as equipes. Então você acaba não conseguindo identificar isso mais cedo.” (Entrevistado 6) Aspectos ligados à capacitação surgem como comprometedores do aprendizado durante o projeto. Se por um lado a diversidade é bemvinda ao ambiente de projetos, o desnivelamento em relação à capacitação básica – por assim dizer - em gerenciamento de projetos pode ser prejudicial para aquele processo. O Entrevistado 10 destaca a importância deste fator – ou subfator – para aprendizagem no ciclode-vida de projetos: “Capacitação ao longo do projeto, troca de experiência com projetos de outras pessoas. A troca de diversos líderes e projetos diferentes é essencial.” (Entrevistado 10) O Entrevistado 13 endossa a colocação anterior: 82 “É necessário treinar o seu corpo funcional, capacitando e ensinando.” (Entrevistado 13). Se de uma forma as lições aprendidas aparecem como fator que facilita a aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos durante os relatos, de outra, tais opiniões apontam certa dificuldade em realizar tais processos, como introduzido anteriormente. Importante ressaltar a colocação deste entrevistado com relação à utilização das lições aprendidas em projetos futuros, e que também remete às métricas do projeto. Destaca-se, aqui, uma das dificuldades apresentadas pelos pesquisados em relação a este aspecto do gerenciamento de projetos: como gerenciar lições aprendidas. “Eu costumo dizer que no Brasil principalmente é muito comum armazenar a lição aprendida, mas não usa-la nos projetos seguintes. Eu até costumo usar bastante o que a gente armazenou com relação a custo, prazo, esforço, métrica, tempo e gasto utilizado nas atividades, mas alguns aspectos eu não dou tanta importância que eu deveria dar. Uma coisa que a gente percebe é que quando a gente entra na sala de um cliente novo, seja ele público ou privado, é que existe uma curva de aprendizado muito grande, que poderia ser minimizada, se tivesse informação, ferramental ou algo que pudesse agregar conhecimento ao fornecedor que está chegando e minimizar isso.” (Entrevistado 8). O Entrevistado 7 tece o seguinte comentário sobre a constituição e utilização deste repositório de informações do conhecimento (Heijst et al., 1996). “É importante E, sinceramente, eu nunca trabalhei em uma empresa que a gente usasse aquela atividade de registrar os erros cometidos e as lições aprendidas. Eu 83 realmente, nunca vi uma biblioteca de lições aprendidas nas empresas que eu trabalhei.” (Entrevistado 7) A opinião do Entrevistado 8 concorda que tal prática não é utilizada de forma a explorar todo potencial que esta ferramenta, técnica ou processo de encerramento detém: “É uma que não é feita, pouco feita ou feita informalmente. São as reuniões de avaliação. Ninguém gosta de contar e muito menos escrever sobre os erros. Ainda mais quando eles estão ligados a não atingimento de metas, atividades fora do prazo. Não importa, porque a atividade é sua. Então, contar e colocar no relatório ninguém gosta de fazer. Uma atividade importante para a aprendizagem é colocar onde acertamos e onde erramos, sempre!” (Entrevistado 8). Quando argüido sobre qual atividade poderia colaborar para aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos, o Entrevistado 4 remete, mais uma vez, cita o registro de lições aprendidas: “Registrando tudo e ter um conhecimento histórico das ocorrências dos projetos anteriores. Lições boas e ruins aprendidas.” (Entrevistado 4). O Entrevistado 8, em sua fala, tenta apontar razões para qual tal atividade não é realizada como da forma recomendada pelas boas práticas em gerenciamento de projetos: “Eu acredito que, culturalmente, o Brasil precisa mudar um pouco. Em outros países a cultura de lições aprendidas está mais arraigada do que aqui no Brasil. O Brasil precisa usar mais essas informações, trabalhando mais as lições aprendidas e definindo melhores formas de armazenar as informações. Não podemos esquecer também daquele aprendizado que a gente identifica lá no 84 início do projeto, que de repente aquela equipe vai ter que sofrer para poder tocar esse projeto. No Brasil, isso também é muito frágil.O Brasil tem atualmente uma cultura de redução de custos, diminuindo o treinamento das equipes ao longo dos projetos. Isso também atrapalha bastante.” (Entrevistado 8). Este participante da pesquisa conclui sua explanação remetendo ao primeiro fator que favorece a aprendizagem apresentado nesta análise e discussão de resultados – a comunicação. “Um deles (fatores que favorecem a aprendizagem) que eu já mencionei é a comunicação, importantíssimo, porque se você tem um membro da equipe que presenciou uma situação que poderia ser algo a ser compartilhado durante o projeto para gerar uma lição aprendida e se ele não compartilhar isso não vai adiantar nada. Comunicação é fundamental!” (Entrevistado 8). No entanto, talvez possamos inferir, a partir dos relatos apresentados, que se as informações e sua utilização configuradas sobre a forma de lições aprendidas são importantes para favorecer a aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos, tal processo ou não é realizado, ou não é realizado como devido. Uma das dificuldades da realização deste processo foi levantada pelo Entrevistado 11, e talvez seja este, o principal motivo da negligência deste processo de aprendizagem: “A grande dificuldade que eu acho é que a maioria das pessoas não quer é documentar o que elas fazem. É importante ter um diário de bordo, é importante ter uma memória de tudo que acontece no projeto para não perder a percepção de tudo, dos erros e dos acertos para o conhecimento não se perder no meio do caminho. Olhar aquele projeto fracassado e saber por que ele fracassou. É importante ter um grupo ou alguém para estabelecer como que vai ser essa documentação e se 85 trabalhar isso porque as pessoas não querem fazer isso. Essa memória pode vir de reuniões, troca de experiências em outros projetos ou outras empresas. Essa interação entre as áreas e empresas são importante e também idas a seminários também são importantes para aumentar a troca de experiências”.(Entrevistado 11). O postulado de Heijst et al. (1996) prescreve como executar este processo, de forma a aproveitar todo seu potencial para aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos, e, consequentemente para o sucesso deste e de projetos futuros. Entretanto, antes de retomarmos tal postulado serão apresentadas as colocações, em forma de sugestão, trazidas pelos próprios entrevistados, e onde está subjacente toda a experiência em gerenciamento de projetos que estes profissionais agregaram ao longo de anos como praticante da disciplina de gerenciamento de projetos. Quando perguntado ao entrevistado qual a primeira ação que você proporia para colaborar para aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos, o Entrevistado 6 foi enfático: “Troca das lições aprendidas! Passar experiência do que foi realizado, pelo menos uma vez por semana e com todos os envolvidos nas equipes sobre o que está acontecendo.” (Entrevistado 6). O Entrevistado 10 compartilha da mesma idéia que o participante anterior, realçando o fato das diferentes abordagens de processos de gerenciamento dentro da mesma organização: “Todos devem contribuir com trocas através de reuniões semanais ou mensais também seria muito interessante. Cada área tem uma forma diferente de lidar com o mesmo processo.” (Entrevistado 10). 86 As sugestões vão se somando e apontando para aspectos diversos desta prática do gerenciamento de projetos ainda a ser explorada em sua totalidade. O aspecto da documentação de lições aprendidas e do responsável por cumprir este papel é lembrado pelo Entrevistado 11. “É importante ter um grupo ou alguém para estabelecer como que vai ser essa documentação e se trabalhar isso, porque as pessoas não querem fazer isso. Essa memória pode vir de reuniões, troca de experiências em outros projetos ou outras empresas.” (Entrevistado 11). Mas para que estas reuniões de aprendizagem para troca de experiências - para realização de ‘feedback’ do que está ou não dando certo, portanto, de lições aprendidas - tenham sucesso, é necessário que este processo tenha um responsável, um líder, que motive as pessoas a participarem do processo, a contribuir, e as aponte o caminho a seguir, e apresente os resultados da implementação do que foi apresentado por elas: “O principal aspecto, tanto para a realização de projeto ou para qualquer atividade, são os instrumentos que você usa. No caso da reunião de ‘feedback’, os participantes terem a exata noção de que, o quê estão levando para aquelas reuniões, está sendo implementado. Se alguma ação daquilo que foi levantado, está sendo corrigida. Quais são os problemas e o que estamos fazendo para resolver” (Entrevistado 16). O Entrevistado 3 lembra da utilidade de uma ferramenta, um sistema de gestão de lições aprendidas, por assim dizer, para auxiliar neste processo de aprendizagem por repositório do conhecimento. “Uma coisa que eu achei interessante é que nós criamos em um projeto, um documento único onde somente ali eram anotadas as atualizações. É importante fazer esse 87 tipo de ligação, legal seria ter uma ferramenta para isso. Eu nunca usei essa ferramenta, sei que existe o ‘project server’ que ajuda nisso” Concluindo este painel amostral das sugestões dos participantes da pesquisa, o exemplo trazido pela Entrevistada 9, que atua em uma organização tida como referência em gerenciamento de projetos, recapitula e organiza as colocações anteriores, como se possível fosse ter combinado a resposta com os outros participantes da pesquisa. Este fato, a reincidência deste processo de gestão do conhecimento, talvez possa denotar o quanto os projetos, e as oportunidades de aprendizagem no ciclo-de-vida de projetos, prescindam deste tipo de prática para ocorrer: “Nós temos uma forma estruturada de estimular as pessoas aprenderem durante a execução do projeto através da identificação de boas práticas, de lições aprendidas e inserir esses itens de conhecimento na base e também de buscá-los. As pessoas aprendem, só que hoje isso fica perdido. Temos uma sistemática e para alguns tipos de projetos, uma obrigatoriedade de, ao final do projeto se fazer eventos de lições aprendidas relacionadas a um grupo de projetos que nós chamamos de projetos prioritários, que são acompanhados pelo gerente executivo da área responsável pela gestão do conhecimento. Obviamente que as pessoas aprendem com as suas experiências dentro do projeto, só que às vezes, esse aprendizado se perde no decorrer do tempo da vida profissional. A pessoa nem sabe como resolveu determinado problema, e essa base de conhecimentos nessa comunidade serve para estimular a retenção desse conhecimento. Nós é que construímos, governamos e conduzimos essa atividade, e damos suporte para as áreas que querem aderir.” (Entrevistado 9). 88 De fato, a contribuição dada pelo participante da pesquisa vai ao encontro do postulado de Heijst et al. (1996) e demonstra um alto nível de maturidade em gerenciamento de projetos daquela organização a que pertence. Primeiramente, há de se salientar que o foco dos estudos daqueles autores concentrou-se em analisar a forma na qual tal processo de conhecimento emerge do ‘chão-de-fábrica’ da organização - bottom up, e não da alta direção, lócus do qual, segundo os autores as lições aprendidas são concebidas. Deve se observar aqui que, segundo Rego (2010), para viabilizar esta prática não basta apenas um líder empreendedor e aberto a experiências, mas também, um patrocinador com poder. O processo de aprendizagem foi subdivido em três formas, que podem ocorrer em paralelo: Aprendizagem individual; Aprendizagem através da comunicação; e, Aprendizagem através do repositório do conhecimento. Trataremos, agora, da Aprendizagem através do repositório do conhecimento, que tem seu foco no armazenamento das lições aprendidas em algum tipo de repositório que possibilite acesso quando necessário. Similar ao processo de aprendizado pela comunicação, este se difere pela capacidade de resgate da comunicação, dada pela coleta e estocagem desta. A coleta destas lições pode ocorrer de forma passiva ou ativa, em relação aos trabalhadores que as compartilham, e necessita de critérios bem definidos para se distinguir o que é uma lição aprendida. Avaliar a adequação, ou não, das lições aprendidas, significa responder a questões concernentes à temporalidade, consistência, interdependência documental e aplicabilidade daquela. Após esta avaliação, sendo a informação considerada uma lição aprendida, e após sua edição, se necessário, pela equipe responsável pela gestão deste sistema, será armazenada para futuro resgate e utilização pelos trabalhadores da organização. Ericeira (2007) sugere uma estrutura de perguntas para armazenamento de lições aprendidas: 89 Pergunta O que era esperado acontecer? O que realmente aconteceu? O que podemos aprender? Aprendizado Organizacional Detalhamento Descrição da situação inicial quando da aplicação de uma tecnologia ou metodologia e as expectativas que se tinha quanto aos resultados a serem obtidos ao iniciar a experiência. Descrição dos resultados que de fato sucederam quando as ações foram executadas enfatizando os desvios com relação ao previsto, alterações de cronograma, novas oportunidades, correções que se fizeram necessárias, etc. Análise do que pôde aprendido a partir da experiência obtida. Sugestões de modificação nos processos de trabalho e documentos a fim de evitar resultados negativos ou repetir experiências positivas. Quadro 5: Informações que compõe lições aprendidas (Ericeira, 2007). Finalizando, de forma resumida, os requisitos que devem ser satisfeitos para adequada geração e gestão da memória da organização sugeridos por Heijst et al (1996) são os seguintes: (i) ser fácil para os trabalhadores acessar o conhecimento da memória da organização para facilitar a aprendizagem individual por combinação; (ii) ser fácil para os trabalhadores decidir quais companheiros de trabalho poderiam necessitar do conhecimento para uma atividade em particular; (iii) Deve ser fácil para os trabalhadores decidir quais companheiros de trabalho poderiam se interessar por determinada lição; (iv) Deve ser fácil, e gratificante, para os trabalhadores submeter uma lição aprendida à memória da corporação; (v) Deve haver critérios bem definidos para decidir se é uma lição aprendida, como deve ser formulada e onde deve ser armazenada; (vi) Deve haver mecanismos para manter a memória da corporação de forma consistente; (vii) A memória da corporação deve ter a facilidade de distribuir novas peças do conhecimento àqueles trabalhadores que delas precisam. 5 Considerações Finais Neste último capítulo, serão apresentadas as principais conclusões deste estudo, bem como sugestões para trabalhos futuros e para os praticantes desta disciplina de gerenciamento de projetos. 5.1. Conclusão O objetivo precípuo deste trabalho foi responder à seguinte questão de pesquisa: o que os profissionais atuantes na área de projetos, praticantes da disciplina de Gerenciamento de Projetos proposta pelo Project Management Institute – PMI, cujas boas práticas estão descritas no Guia PMBOK (PMI, 2008), e que vivenciam experiências de Gestão de Projetos em empresas públicas e organizações governamentais, percebem como fatores que favorecem ou comprometem a aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos? Para tal, foi realizada pesquisa qualitativa, optando-se pelo método fenomenográfico. Após a realização de entrevistas e a análise de dados da pesquisa foi delineado o referencial teórico relacionado à disciplina de gerenciamento de projetos conforme proposto pelo PMI e,Teorias de Aprendizagem. Após análise dos dados, emergiram, a partir da interpretação do pesquisador em relação às respostas dadas pelos entrevistados, os seguintes fatores que colaboram para aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos: Comunicação; Liderança; Planejamento; Integração; Multidisciplinaridade, e Informações. Surgiram ainda, por observação das narrativas no momento da sua revisitação, outros fatores, talvez de menor vetor do que aqueles fatores principais, e que chamaram a atenção do pesquisador, tendo sido classificados de subfatores, e que também foram objetos de estudo quando da análise e discussão dos resultados, porém, de forma menos intensa que os anteriores. Tais subfatores serão apresentados adiante, em conjunto com aqueles principais. 91 Devido a aspectos como inter-relação entre os processos de gerenciamento de projetos, padrões de gerenciamento de projetos e as boas práticas de gerenciamento de projetos, inferiu-se uma relação de interdependência entre os fatores, pois, conforme verificado no arcabouço teórico da Ciência da Administração de Empresas - que abarca a de Gerenciamento de Projetos e de Aprendizagem - de alguma forma, todos os fatores se relacionam entre si, em maior ou menor grau, funcionando de forma imbricada no qual uns influenciam os outros e vice-versa. Percebeu-se ao longo do estudo a possibilidade de que os fatores que influenciam a aprendizagem poderiam exercê-la de maneira positiva ou negativa, no processo de aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos, funcionando da seguinte forma: aqueles que poderiam facilitar a aprendizagem, ou seja, de valência positiva, teriam uma relação diretamente proporcional em relação aqueles que poderiam comprometer a aprendizagem, portanto, de valência negativa. Quanto mais ênfase receberem os fatores que favorecem a aprendizagem, maiores serão, provavelmente, as oportunidades de aprendizagem durante a realização de projetos. Caso tal reflexão se comprove verdadeira, o inverso também o seria: uma menor ênfase – ou inexistência – destes fatores, por si só, já seriam comprometedores deste aprendizado, devido ao aspecto lógico desta relação. Independentemente do fato de que, a não observância de fatores que são positivos para aprendizagem já seria um dificultador deste processo, foram destacados outros fatores e subfatores, que, caso ocorram durante a realização do projeto poderão influenciar de forma negativa a aprendizagem, independentemente da existência, ou não, daqueles que favorecem. O fator Comunicação, afeta ou é afetado pelos outros fatores de aprendizagem observados, sejam aqueles que a favorecem, sejam aqueles que a dificultam. Foi verificado que, a fim de que este fator promova o aprendizado durante a realização de projetos, a atenção do líder do projeto deve estar voltada para manter um canal de comunicação aberto com a equipe. Também foi destacada a 92 comunicação como forma de orientar o conflito - de idéias, como fator importante para aprendizagem, sendo mencionadas as reuniões periódicas, entre a equipe e com as partes interessadas, incluindo o cliente. O fator Liderança, também envolve os subfatores patrocínio e perfil do líder. Apesar deste fator também estar fortemente relacionado à comunicação, na ótica do pesquisador, com base nas proposições e boas práticas propostas pelo Guia PMBOK (PMI, 2008) e de outros autores, estes aspectos estariam mais ligadas à liderança, e ao perfil do líder, envolvendo também questões de patrocínio, e poderiam comprometer a aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos. Este fator também se manifesta, entre outras formas, no desenvolvimento das pessoas e da equipe do projeto, como também na constituição de um ambiente propício para aprendizagem. O fator Planejamento é percebido como fator que favorece a aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos, pois, o planejamento adequado das atividades é fundamental para o sucesso do projeto, ou seja, para disponibilizar tal produto, serviço ou resultado exclusivo conforme escopo planejado, no prazo definido, dentro do orçamento acertado e com a qualidade esperada Guia PMBOK, (PMI, 2008). De outra forma, a inobservância deste fator pode acarretar na manifestação de subfatores de valência negativa, ou seja, que podem comprometer a aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos, como o desenvolvimento inadequado de escopo e planejamento inadequado das atividades. O fator Integração, que, dentre as áreas do conhecimento é a responsável por orientar e executar os processos e atividades para identificar, definir, combinar, unificar e coordenar os vários processos e atividades dos demais grupos de processos de gerenciamento (PMI, 2000), pode se manifestar como um fator que favorece o aprendizado durante a realização de projetos. Como esta área envolve a identificação e definição do trabalho do projeto e a combinação, unificação e integração dos processos apropriados, emergirão, destes processos de gerenciamento de projetos, os requisitos necessários a 93 entender as necessidades do cliente e das demais partes interessadas de forma satisfatória e gerenciar suas expectativas. As saídas destes processos, como o plano de gerenciamento de projetos, irão nortear a execução das atividades necessárias ao escopo do projeto, o que deverá demandar atenção especial do líder do projeto, bem como do patrocinador e da equipe envolvida (Heldman, 2009). O fator Multidisciplinaridade – de perfis profissionais, e também em conjunto com a diversidade cultural dos componentes da equipe do projeto, foi interpretada como um fator que favorece a aprendizagem. Se por um lado a multidisciplinaridade - como também a diversidade cultural – pode colaborar para aprendizagem, se não gerenciados podem produzir resultados indesejados ao projeto, como: falta de motivação ou atitude blasée; insatisfação com as atividades do projeto; transformação das reuniões de acompanhamento em ‘sessões de lamúria’; comunicação deficiente; e, principalmente, falta de respeito e de confiança no gerente do projeto. Caberá, portanto, ao gerente do projeto, com o apoio do patrocinador, a montagem e desenvolvimento da equipe do projeto (Heldman, 2009). O último fator apresentado na pesquisa, mas não menos importante, pelo contrário, foi Informações. Junto a este, emergem subfatores oriundos da utilização e aplicação da informação em projetos. São eles: lições aprendidas; padronização e métricas; distribuição de informações padronizadas; ausência de documentação; ausência de portifólio de projetos; capacitação insuficiente. Destacase, aqui, o subfator lições aprendidas, que acabou por se mostrar o cerne da questão de aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos para os participantes da pesquisa. Diretamente relacionado com os fatores anteriores, principalmente, perfil do líder, as lições aprendidas, conforme apresentadas por Heijst et al (1996), são uma poderosa ferramenta – processo ou técnica, dependendo da abordagem segundo os praticantes da disciplina de gerenciamento de projetos, conforme proposto pelo PMI (2008). O Quadro 6, fruto de insight e da interpretação do pesquisador sobre os achados da pesquisa, com base em seu conhecimento sobre a 94 disciplina de Gerenciamento de Projetos somada a experiência prática, apresenta uma síntese sobre os achados da pesquisa: Os fatores que favorecem a aprendizagem e os fatores que comprometem a aprendizagem foram distribuídos ao longo dos processos de gerenciamento de projetos: iniciação, planejamento, execução, monitoramento e controle, e, encerramento; A idéia é representar como tais fatores podem se apresentar ‘em cascata’ ao longo da repetição seqüencial destes grupos de processos de gerenciamento de projetos. Neste quadro, estão hachurados aqueles fatores, que, a partir da interpretação do pesquisador como praticante desta disciplina de gerenciamento de projetos deveriam estar presentes em todos os momentos de gerenciamento de projetos, e portanto, seriam os de maior impacto para aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos, no caso: Perfil do Líder e Lições Aprendidas. Por fim, são traçadas linhas destacando a manifestação ‘em cascata’ dos fatores que influenciam a aprendizagem ao longo dos processos de gerenciamento de projetos, ou seja, no ciclo-de-vida dos projetos. Tal idéia parte da premissa que, da mesma forma que a utilização dos recursos de produção varia de quantidade e intensidade durante o ciclo-de-vida dos projetos (PMI, 2008), os fatores que podem influenciar a aprendizagem, vistos agora como ‘fatores de aprendizagem’ também poderiam apresentar tal balanceamento no decorrer da execução do projeto. Esta visão, uma vez verdadeira, apontaria qual ou quais ‘fatores de aprendizagem’ deveriam receber maior ou menor ênfase por parte do gestor do projeto, a fim de fomentar aqueles que favorecem e mitigar aqueles que comprometem a aprendizagem no ciclo-devida dos projetos. 95 Momentos em que Ocorrem Iniciação Planejamento Fatores e Condições Comunicação Patrocínio Perfil do Líder Integração Fatores que Equipes Favorecem o Multidisciplinares Aprendizado Lições Aprendidas Patrocínio Perfil do Líder Equipes Multidisciplinares Lições Aprendidas Padronização e Métricas Desenvolvimento de Escopo Perfil do Líder Perfil do Líder Ausência de Planejamento Documentação Inadequado das Atividades Fatores que Ausência de Dificultam o Documentação Aprendizado Desenvolvimento de Inadequado Escopo Monitorament o e Controle Execução Quais são os/as... Comunicação Perfil do Líder Equipes Multidisciplinares Lições Aprendidas Perfil do Líder Coordenação Inadequada Execução Capacitação Insuficiente Encerramento Perfil do Líder Lições Aprendidas Distribuição de Informações Padronizadas Comunicação Perfil do Líder Lições Aprendidas Distribuição de Informações Padronizadas Perfil do Líder Patrocínio Perfil do Líder Patrocínio da Quadro 6: Identificação dos fatores que influenciam a aprendizagem durante a realização de projetos. 5.2. Sugestões O tema abordado nesta pesquisa, aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos, dada a delimitação do estudo definido para este trabalho, dá margem a uma série de possibilidades de futuras pesquisas acadêmicas. No intuito de abrir caminho para novas perspectivas para o tema, o pesquisador sugere, pelo menos, duas linhas de pesquisa. A primeira está relacionada à proposição dada sobre o aspecto do balanceamento dos fatores que influenciam a aprendizagem ao longo da interação dos processos de gerenciamento de projetos. Caso se comprove verdadeiro, esta noção poderá colaborar para indicar quais são os fatores que favorecem ou comprometem a aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos e em qual momento é mais forte sua manifestação, indicando desta forma, qual e quando um fator deve ser potencializado ou mitigado. 96 A segunda vai ao sentido de aferir o potencial de impacto de cada fator para aprendizagem no ciclo-de-vida dos projetos. Esta também poderá ser uma maneira de apontar caminhos para que os praticantes desta disciplina de gerenciamento de projetos atuem na gestão de tais fatores. Finalmente, é sugerido aos praticantes desta disciplina de gerenciamento de projetos em empresas públicas e organizações não governamentais, ou por que não, solicitado, que observem o que foi analisado e discutido deste estudo, e em caso de aderência a sua visão e prática em gerenciamento de projetos, se utilize deste material, se reportando a este pesquisador sobre os resultados obtido neste esforço. 6 Referências Bibliográficas Argyris, Chris. Teaching Smart People How To Learn. Havard Business Review, May - June, 1991. Armony, Rafael Sabbagh. Fatores Críticos para Prática de Valores Ágeis em Equipes de Tecnologia da Informação. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro: Departamento de Administração. Pontíficia Universidade Católica (PUC), 2010. Brady, T., & Daves, A. Building Project Capabilites: From Exploratory to Exploitative Learning. Organizations Studies, 25 (9): 1601-1621. Nov, 2004. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. BRASIL. 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