Eugênio Benito Júnior Educação e ética, da reciprocidade à responsabilidade a contribuição da Preventividade Salesiana para a disseminação da Tecnoética Centro Universitário Salesiano de São Paulo – UNISAL Americana/ SP 2012 Eugênio Benito Júnior Educação e ética, da reciprocidade à responsabilidade Dissertação apresentada como exigência parcial para obtenção do grau de Mestre em Educação à Comissão Julgadora do Centro Universitário Salesiano, sob a orientação do Prof. Dr. Severino Antônio Moreira Barbosa. Centro Universitário Salesiano de São Paulo – UNISAL Americana/ SP 2012 Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. a contribuição da Preventividade Salesiana para a disseminação da Tecnoética Ficha catalográfica B415e Benito Junior, Eugênio Educação e ética, da reciprocidade à responsabilidade: a contribuição da Preventividade Salesiana para a disseminação da Tecnoética / Eugênio Benito Junior. – Americana: Centro Universitário Salesiano de São Paulo, 2012. 192 f. 1. Educação. 2. Tecnoética. Salesiano – Brasil. I. Título. 3. Sistema Preventivo CDD – 170 Catalogação elaborada por Maria Elisa Pickler Nicolino – CRB 8/8292 Bibliotecária do UNISAL – Unidade Americana. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Dissertação (Mestrado em Educação). UNISAL – SP. Orientador: Prof. Dr. Severino Antônio Moreira Barbosa. Inclui bibliografia. FOLHA DE APROVAÇÃO: Autor: Eugênio Benito Júnior Título: Ética, da reciprocidade à responsabilidade – a contribuição da Preventividade Salesiana para a disseminação da Tecnoética Dissertação apresentada como exigência parcial para obtenção do grau de mestre ao Programa de Mestrado em Educação do Centro Universitário Salesiano de São Paulo, sob orientação da Prof. Dr. Severino Antônio Moreira Barbosa. Dissertação de Mestrado defendida e aprovada em 14 / 04 / 2012, pela Comissão Membro Externo: Profa. Dra. Claudia Regina Alves Prado Fortuna Membro Interno: Prof. Dr. Luís Antonio Groppo Orientador: Prof. Dr. Severino Antônio Moreira Barbosa Centro Universitário Salesiano de São Paulo – UNISAL Americana/ SP 2012 Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Julgadora: Dedicatória Ter consciência de minha humanidade consiste em dar-me conta de que, apesar de todas as diferenças muito reais entre os indivíduos, também estou de certo modo dentro de cada um de meus semelhantes. Para começar, como palavra... (SAVATER, 1996, pg. 130) Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Aos meus alunos AGRADECIMENTOS Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo... Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer, Porque eu sou do tamanho do que vejo E não do tamanho da minha altura... O Guardador de Rebanhos Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) Agradeço a todos que me ajudaram a enxergar mais longe. A minha aldeia foi durante dois anos a sala em que assisti às aulas que me prepararam para o Mestrado em Educação. Nessa aldeia, conheci professores que me mostraram o quanto de Universo podia ser visto. Minha sala de aula Também nesse convívio, me deparei com transeuntes nas ruas dessa aldeia, como a Ana Ramadan, Priscila Bertola, Cláudia Grota e Sandra Paris que me ajudaram a ficar maior, porque pude ver mais longe com a qualidade e competência do seminário que elas apresentaram durante os vários cursos que fizemos juntos e pelas preciosas sugestões dadas por elas nas excelentes reuniões de orientação que fazíamos aos sábados à tarde. Muito obrigado a elas. Essa aldeia teve também uma espécie de prefeito, um prefeito daquele tempo em que Ética e Política eram uma coisa só – o nome desse prefeito é Severino Antônio – que entre um fazer e outro, teve a enorme paciência em ser meu orientador nessa dissertação. O professor Severino descobriu em mim, um engenheiro acostumado às lides da Física, a capacidade em compreender um pouco de Metafísica, capacidade essa que eu nem imaginava que tinha. Mais do que um orientador, foi um amigo. Obrigado. Eterna e imensamente, obrigado. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. ficou assim tão grande como qualquer outra terra. segurá-la ou jogá-la, mas se a jogar longe já não poderei ordenar que ela volte para continuar tendo-a na mão. (Aristóteles) Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Se tenho uma pedra na mão, sou livre para Resumo O objetivo deste trabalho é discutir a importância da criação de um terreno fértil, banhado pelas águas claras do rio da ética para que nele possa vicejar a formação adequada para os estudantes de Engenharia. Os desdobramentos desta formação convergem para a compreensão da Tecnoética – ramo da ética que investiga os problemas morais levantados pela tecnologia. Nesta dissertação é feito um recorte no desenvolvimento do conceito de Ética através dos tempos começando com a ética de Aristóteles. Descartes e Kant são mostrados como afluentes importantes deste caudaloso rio da ética, principalmente pela contribuição que darão à Tecnoética que virá no futuro. O paradigma do pensamento racional vai mudando com o tempo e uma singular visão da questão é dada por dois pensadores contemporâneos – o espanhol Aristóteles, escrevem livros sobre Ética. Discute-se o trabalho do filósofo alemão Hans Jonas, que concebe uma ética para a civilização tecnológica. Em seguida é mostrada a criação do sistema preventivo de Dom Bosco numa época da história europeia em que a prevenção era a palavra chave para o controle social. Dom Bosco reinventa o significado de prevenção, procurando acolher os alunos com afeto e oportunidades de crescimento pessoal, base da pedagogia salesiana. Encerrando a dissertação, uma pesquisa de campo analisa e interpreta o que tem ficado como ensinamento ético na formação dos alunos de uma escola salesiana de ensino superior na área de Engenharia. Palavras-chave: Educação. Tecnoética. Sistema Preventivo Salesiano. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Fernando Savater e o franco-brasileiro Yves de La Taille que, a exemplo de Abstract The aim of this work is to discuss the importance of setting up a fertile ground, watered by the river of Ethics so that the proper education for engineering students can flourish. The consequences of such education converge to the understanding of Tecnoethics - branch of Ethics that investigates the moral problems raised by technology. To hit this target, some specific aspects in the development of the concept of Ethics through the ages are determined, beginning with Aristotle's ideas. Descartes and Kant are shown as major tributaries of the mighty river of Ethics, especially for the contribution they will provide to the future Tecnoethics. The paradigm of rational thinking has been changed throughout the ages and a unique view of this subject is given by two Brazilian Yves de La Taille. They, as Aristotle did, wrote a book on Ethics. It is also discussed the work of the German philosopher Hans Jonas, who conceived an Ethics for a technological civilization. Then it is shown the creation of a preventive system based on Dom Bosco’s ideas, at a time in European history where prevention was the key word for social control. Dom Bosco reinvents the meaning of prevention, welcoming students with affection and opportunities for personal growth, basic concepts on his pedagogy. Finishing the dissertation, a field survey analyzes and interprets what was enhanced as ethical education of students attending an Engineering Salesian school. Key Words: Education. Technoethics. Preventive Salesian System. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. contemporary thinkers – the Spaniard Fernando Savater and the Franco- Sumário Introdução.................................................................................................................................. 11 1. Capítulo I – De Aristóteles ao pensamento contemporâneo – algumas considerações ........................................................................................................................... 16 1.1. A Ética como uma questão de reciprocidade .......................................................... 18 1.2. Aristóteles, Ética e Educação..................................................................................... 22 1.3. Ética a Nicômaco ......................................................................................................... 30 1.4. Algumas Crises do Pensamento Racional – de Aristóteles à Idade Média ........ 41 1.5. A Ética de Kant ............................................................................................................. 47 1.6. A Crise do Pensamento Racional (séculos XIX e XX) ........................................... 50 1.7. Fernando Savater e Yves de La Taille: o pensamento contemporâneo ............. 59 Capítulo II – A evolução da ciência – Algumas considerações ................................ 71 2.1. A Idade Antiga .............................................................................................................. 73 2.2. A Idade Média ............................................................................................................... 83 2.3. A Idade Moderna .......................................................................................................... 86 2.4. Idade Contemporânea. ................................................................................................ 91 2.5. A Tecnoética ................................................................................................................. 94 3. Capítulo III – O Sistema Preventivo de Dom Bosco ................................................. 109 3.1. O cenário europeu à época de Dom Bosco ........................................................... 111 3.2. Aspectos Políticos da Prevenção ............................................................................ 114 3.3. Aspectos Sociais da Prevenção .............................................................................. 119 3.4. Aspectos Penais da Prevenção ............................................................................... 124 3.5. Aspectos Educacionais da Prevenção.................................................................... 125 3.6. O Sistema Preventivo de Dom Bosco ..................................................................... 130 3.7. Aplicação do Sistema Preventivo ............................................................................ 135 4. Capítulo IV – A Voz dos Alunos ................................................................................... 143 4.1. O Centro UNISAL ....................................................................................................... 146 4.2. O Curso de Engenharia de Automação e Controle .............................................. 152 4.3. Ética e engenharia ..................................................................................................... 154 Considerações Finais ............................................................................................................ 182 Bibliografia ............................................................................................................................... 187 Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. 2. Introdução Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos. (HERÁCLITO, 1996, pg. 92) O caudaloso rio da Ética tem sua nascente em alguma imprecisa dobra do tempo, mas foi na Grécia Clássica, período de esplendor da civilização grega, compreendido entre 500 e 338 a.C., que esse rio tomou corpo e se tornou caudaloso e fértil. Vivia no início desse período o filósofo Heráclito de Éfeso, que, entre tantas metáforas, usava o símbolo do rio para explicitar sua compreensão do mundo, que entendia como um tudo flui (πάντα ρέω – panta réo) 1 infinito. A mitologia grega traz a figura de Réia como sendo a filha de Gaia e a esposa de Cronos e, portanto, mãe de todos os deuses gregos. Réia simbolizava as águas e a fertilidade. Do nome dela é que vem a ideia do fluir eterno incorporado à filosofia de Heráclito, que nasceu em Éfeso (atual Turquia) em 570 a.C. e viveu 70 anos em terras helênicas. Considerado o pai da dialética, sua metáfora com os rios é comentada por Hegel: Pois Heráclito diz: “Tudo flui, nada persiste nem permanece o mesmo”. E Platão ainda diz de Heráclito: “Ele compara as coisas com a corrente de um rio – que não se pode entrar duas vezes na mesma corrente”, o rio corre e toca-se outra água. Seus sucessores dizem até que nele nem se pode mesmo entrar, pois que imediatamente se transforma; o que é, ao mesmo tempo já novamente não é. (HEGEL, 1996, pg. 103) Embarcado nesta lembrança de Heráclito é que se imagina o fluir incessante do rio da Ética. A metáfora ainda se justifica pelo fato deste rio de éticas derramar suas águas pelo tempo e vir banhar 1 Todos os significados dos vocábulos gregos que constam nesta dissertação foram compilados com o auxílio do professor cipriota Alexandros Kyriakides, engenheiro eletrônico formado pelo Massachusetts Institute of Technology (EUA) e doutorando em Engenharia da Computação na Universidade de Chipre, localizada em Nicósia, República de Chipre. O professor Kyriakides e sua equipe mantêm uma webpage com um dicionário de grego moderno e arcaico no endereço http://www.kypros.org/cgi-bin/lexicon/ 12 também a nossa escola, alimentar com as ideias férteis d aquilo que está sempre fluindo a formação de nossos alunos da Escola de Engenharia do Centro Unisal de Americana – SP. A questão a ser discutida nesta dissertação é relativa à formação ética dos alunos de Engenharia na pedagogia Salesiana. A relevância e finalidade deste trabalho se entremeiam na análise d essa formação pela criação de um ambiente propício por meio dos valores disseminados pela pedagogia de Dom Bosco, que lançou um novo olhar à compreensão da questão da preventividade, passando a acolher os alunos com afeto e oportunidades de crescimento pessoal. com um egresso do curso de Engenharia, para o qual eu havia ministrado cursos eminentemente té cnicos e que veio, certo dia, me agradecer por eu ter lhe ensinado Ética. Como eu havia oferecido aulas de Geometria e Cálculo Integral e Diferencial a esse aluno, não compreendi como ele havia visto nisso um ensinamento ético. Espero até o fim desta dissertação conseguir responder a esta inquietação. Nos escritos de Heráclito, e xiste uma palavra – λόγος (logos) – que ganhou um significado peculiar. Logos era originalmente (e ainda é) o vocábulo na língua grega para palavra, escrita ou falada. Em Heráclito esse vocábulo adquire novos sentidos: “Dentre os vários sentidos de logos, encontramos os seguintes: razão e inteligibilidade e, até, como querem alguns estudiosos, razão de inteligibilidade”. (MORAIS, 1978, pg. 44) A definição de ética, dialeticamente mais ampla e caudalosa que o próprio rio que a contém, vê nas palavras do professor Severino Antônio uma singular concepção: Como concepção, a ética não se faz apenas de ideias, de conceitos, de raciocínios lógicos. Também se faz da percepção dos sujeitos, do que é sentido, do que é imaginado, e das múltiplas interpretações da história vivida e convivida. Assim, essa ética precisa de linguagem, de Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. A ideia motriz, porém, desta dissertação, veio de uma conversa 13 imagens, de metáforas – tanto para pensar-se como para expressarse. Precisa de um logos. (ANTONIO, 2010, pg. 25) Em busca desse logos, o capítulo 1 deste trabalho se propõe a fazer algumas considerações sobre a Ética desde os tempos de Aristóteles até os tempos atuais, passando pela contribuição de afluentes importantíssimos como Descartes e Kant até a contribuição moderna de filósofos e professores de Ética, como Hans Jonas (1903 1993), discípulo de Heidegger e, mais contemporaneamente, a preciosa contribuição dos professores de Ética, Fernando Savater e Yves de La Taille. Savater é um filósofo espanhol, oriundo do País Basco e articulista do jornal espanhol El País. La Taille nasceu na Universidade de São Paulo (USP). Atualmente é livre docente pela USP e professor de Ética no Instituto e Psicologia da USP. Paralelamente ao desenvolvimento do conceito de Ética contemplado no primeiro capítulo, o segundo capítulo apresenta o desenvolvimento da Ciência e Tecnologia através dos tempos. A Ética, discutida assim sob vários aspectos, abre um leque suficientemente amplo para abarcar a compreensão da Ética para a tecnologia, ou a Tecnoética proposta por Hans Jonas, filósofo alemão de origem judaica, aluno de Heidegger e colega de turma de Hannah Arendt. O capítulo 2, então, é fechado com uma discussão do significado e alcance da Tecnoética. Como diz Yves de La Taille em uma entrevista à jornalista Samantha Shiraishi, não é possível à escola ensinar Ética para seus alunos, mas pode facilitar essa tarefa criando um terreno fértil: É claro que a escola, assim como a família, não pode garantir a formação ética das pessoas. Há sempre o imponderável. Não é como alfabetizar a criança ou ensinar matemática. Essas coisas, se não há problemas com a criança e a escola for boa, podem ser garantidas. Mas não comportamentos éticos. O que dá para fazer é trabalhar algumas questões, criar um terreno fértil. (SHIRAISHI, 2011) Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. França, se naturalizou brasileiro e se graduou em Psicologia na 14 O capítulo 3 desta dissertação faz um resumo da história das instituições salesianas de ensino, começando pela vid a de João Bosco, e mostrando sua contribuição empreendedora no desenvolvimento de um sistema preventivo de ensino. A questão da prevenção permeava os círculos do poder na Europa pós Revolução Francesa e era entendida como um antídoto contra as revoluções populares. Era preciso uma política que contivesse as massas empobrecidas para evitar a ocorrência de eventuais novas revoluções. A operacionalização desse conceito, porém, deixava muito a desejar para que a elite dominante pudesse conseguir seu com a loucura. Os pobres, loucos e desempregados eram acolhidos todos em um mesmo espaço. Nesse cenário, completado pelo desenvolvimento proporcionado pela Revolução Industrial, que causou um êxodo rural enorme, aumentando consideravelmente o contingente de pessoas empobrecidas nas cidades e pela agitação social na península itálica com o Risorgimento Italiano, movimento que visava a unificação da Itália, é que age Dom Bosco, com uma releitura mais construtiva do que seria um Sistema Preventivo. Esse sistema funcionava como um contraponto ao sistema vigente, chamado por Dom Bosco de Sistema Repressivo. O acolhimento dado aos jovens era muito mais eficaz do que a repressão, que impedia conflitos e desordens, mas dificilmente melhorava os culpados. Dom Bosco imagina um sistema educacional baseado em três pilares: amorevolezza, razão e religião. Amorevolezza é uma palavra mantida no original italiano nas diversas instituições salesianas pelo mundo, cujo significado compreende a criação do canal afetivo que permite o acesso da comunicação educativa. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. êxito, uma vez que propunha o acolhimento da pobreza juntamente 15 O terceiro capítulo se encerra procurando mostrar qu e é essa estrutura de valores que criará o terreno fértil para a disseminação de uma ética tecnológica entre os alunos de Engenharia. Essa formação, concomitantemente, vem a ser um elemento importante para diferenciar o aluno no mercado de trabalho. O capítulo 4 discute a relevância do Centro Unisal como instituição de ensino, mostrando a presença internacional dessa casa salesiana e apresenta uma pesquisa com os alunos do último semestre em Engenharia de Automação e Controle da unidade de Americana – SP, trazendo a voz dos alunos para este trabalho. Esta pesquisa procura avaliar como a disseminação de um comportamento entre os alunos é favorecida pela pedagogia salesiana, formando profissionais de tecnologia aptos a lidar com as questões tecnoéticas formalizadas pelo filósofo Hans Jonas. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. ético 1. Capítulo I – De Aristóteles ao pensamento contemporâneo – algumas considerações Noite Estrelada sobre o Rhône Vincent van Gogh (1888) Museu D’Orsay – Paris - França Duas coisas enchem o ânimo de crescente admiração e respeito, veneração sempre renovada quanto com mais frequência e aplicação delas se ocupa a reflexão: por sobre 2 mim o céu estrelado; em mim a lei moral . 2 Inscrição na tumba de Kant na cidade de Königsberg, hoje Kaliningrad (Rússia). A inscrição na tumba, disponível em http://en.wikipedia.org/wiki/File:Kant's_tombstone_Kaliningrad.jpeg (acesso em 02 nov. 2011) é: “Zwei Dinge erfüllen das Gemüt mit immer neuer und zunehmender Bewunderung und Ehrfurcht, je öfter und anhaltender sich das Nachdenken damit beschäftigt: der bestirnte Himmel über mir und das moralische Gesetz in mir”. Tradução em (KANT, 2004) 17 Este capítulo procura mostrar um pouco da história da Ética, desde a identificação do conceito de reciprocidade nos textos sagrados das religiões mais expressivas do planeta, passando pela formalização do conceito de Ética pelos antigos gregos até a contemporaneidade, particulares com questões a preocupação éticas. Por ser da um tecnologia tema e suas vastíssimo e caudaloso, alguns recortes foram feitos nessa trajetória, com o intuito de subsidiar a discussão para a questão da Tecnoética. Esse caminho começa, portanto, com uma breve compilação da Ética como Regra de Ouro, ou princípio da reciprocidade, que está presente em quase todas as religiões do mundo, segue com Bem como sendo a Felicidade. A tarefa da ética aristotélica, portant o, será mostrar o caminho que deve ser feito para se chegar a esta finalidade. Sendo a ética uma ciência prática, como queria Aristóteles, não deve definir somente o que é a felicidade, mas, sobretudo, mostrar como é possível ser feliz. Em seguida são discutidas algumas crises do pensamento racional, desde Aristóteles até a Idade Média. Resumidamente, as crises do pensamento racional no período grego compreendem a mudança do paradigma mitológico para o paradigma filosófico e a questão do que é certo e errado do ponto de vista dos direitos civis e da coletividade, como explicitado belissimamente na peça Antígona de Sófocles. Em seguida, com o advento do cristianismo, a relação do homem não é mais com a pólis aristotélica, mas com Deus. A felicidade, que passa ser chamada de beatitude, se traduz na contemplação divina. Finalmente, superando a racionalidade medieval, surge a teorização da modernidade com o racionalismo de Descartes e sua proposta de separação e ntre corpo e alma. A alma passa a ser entendida como pensamento, espírito e raciocínio lógico. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Aristóteles e sua obra basilar Ética a Nicômaco, que define o Sumo 18 A ética de Kant é também brevemente discutida para que possa ser compreendida mais à frente a Tecnoética de Hans Jonas, que, baseado em Kant, define também um imperativo categórico para a Ética em tempos de alta tecnologia. Dois pensadores contemporâneos contribuem também para este trabalho e fecham o capítulo com suas observações para a Ética – são eles o filósofo espanhol Fernando Savater, professor aposentado de Ética na Universidade do País Basco e colunista do jornal madrilenho El País e o professor de Ética do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, Yves de La Taille. Assim como Aristóteles escreveu um livro para seu pai e seu filho, ambos com o chamado Ética para Meu Filho e La Taille publica em 2011 o saboroso Ética para Meus Pais. Entrei em contato com os dois autores que tiveram a gentileza de comentar um pouco as ideias de Hans Jonas. 1.1. A Ética como uma questão de reciprocidade Num primeiro momento, a Ética é entendida como uma relação recíproca e praticamente todas as religiões incluem a regra de reciprocidade, conforme a compilação do professor de filosofia Jeffrey Wattles (1996) da Universidade de Kent, nos Estados Unidos. O professor Wattles (1996), em seu livro The Golden Rule, mostra as várias concepções dessa ética da reciprocidade (WATTLES, 1996): Hinduísmo: a Mitologia Hindu divide o ciclo de vida no mundo em quatro eras. A primeira delas, a Era de Ouro, durou aproximadamente 1.728.000 anos e a escritura sagrada Veda Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. nome de Nicômaco, Savater escreve em 1991 um magistral livro 19 era única e conhecida por todos, uma vez que a capacidade de compreensão era cem mil vezes ma ior do que a do homem atual. O período seguinte, a Era de Prata, durou 1.296.000 anos e é a época em que aparece a escrita para compensar a dificuldade humana em entender as escrituras védicas. Apesar disso, o intelecto humano era dez mil vezes maior do qu e o atual. Seguindo o fio da Mitologia Hindu, inicia -se, em seguida, a Era de Bronze, com duração de 800 mil anos e consolida -se a escritura dos textos védicos porque a memória dos homens se degrada ainda mais, passando a ser apenas mil vezes mais potente do que a de um ser humano atual. Vive-se atualmente a anos já se passaram. Essa era se iniciou no final da vida corpórea de Krishna, no ano 3102 a.C. A era atual apresenta costumes ruins como a destruição da natureza, a matança de animais e uma grande capacidade do ser humano em intoxicarse. Isso se deve ao fato de os seres humanos terem uma memória ínfima e uma inteligência limitada de forma que não conseguem aprender o texto sagrado . Para que isso possa acontecer, há que existir um Vyasa, ou seja, um sábio que consiga dividir o Veda. Para isso, deve ser capaz de escrever textos adicionais para facilitar a compreensão dos textos védicos. Cumprindo esse papel, o Vyasa Krishna Dvapayana é quem escreve um monumental texto, dividido em 18 livros com mais de 74 mil versos em sânscrito, chamado de Mahabharata, cujo significado é a Grande Índia, uma vez que Bharata é o outro nome da República da Índia em quase todos os dialetos locais (CIA, 2011). No livro 13 do Mahabharata, capítulo 113, está explicitada a ética da reciprocidade: "Nunca se deve fazer Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Era de Ferro, que deve durar 432 mil anos, dos quais 5113 20 para outro aquilo que alguém considera como prejudicial para si mesmo. Esta, em resumo, é a regra da Justiça." 3 Judaísmo: O Talmude é um livro sagrado para os judeus, no qual estão registradas algumas discussões rabínicas sobre o judaísmo, relativas à Lei, Ética, costumes e história do judaísmo. Nesse contexto, o Talmude mostra também algumas explicações e comentários sobre a Torá, o texto central do judaísmo. A Torá equivale ao Velho Testamento da Bíblia cristã. O líder religioso Hillel, que viveu durante o reinado de Desafiado a explicar a Torá enquanto estivesse apoiado em um só pé, Hillel, enunciou a Regra de Ouro, conforme consta no Talmude: “O que é odioso para ti, não o faças a outrem. Isto é toda a Torá; tudo o mais é comentário. Vai e aprende -a”. Taoísmo: O livro sagrado chinês é o T'ai Shang Kan Ying P'ien, cujo número de cópias excede a Bíblia e as obras de Shakespeare, os dois livros mais publicados no Ocidente. O título desse livro se concentra nas palavras Kan (resposta) e Ying (retribuição). O paraíso seria então uma resposta aos nossos sentimentos e uma retribuição às nossas ações. T'ai Shang é entendido como o Grandiosamente Alto, ou seja, LaoTsé. Assim, T'ai Shang Kan Ying P'ien poderia ser entendido 3 Texto traduzido da versão inglesa encontrada em http://www.sacredtexts.com/hin/m13/m13b078.htm (acesso em 02 nov. 2011): “One should never do that to another which one regards as injurious to one's own self. This, in brief, is the rule of Righteousness”. Tradução de Eleonora Meier, estudiosa de Mitologia Indiana e tradutora do Mahabharata para o Português. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Herodes, era conhecido por ser conciso em suas explicações. 21 como o Tratado de Lao-Tsé sobre Resposta e Retribuição e , nesse tratado, a ética da reciprocidade está enunciada como: “Considera os ganhos e as perdas do outro como se fosse m os teus próprios”. Islamismo: os atos e as máximas do Profeta Maomé estão reunidos em um corpo de leis conhecido como Hadith, que é importantíssimo para um entendimento mais abrangente do livro sagrado do Islã, o Corão, que contem as mensagens de Deus (Alá) a Maomé, reveladas entre os anos de 610 e 632 da era crê verdadeiramente até que deseje aos outros o que deseja para si mesmo”. A Ética muçulmana, por meio de seus filósofos e teólogos, começa a se encontrar com a Ética aristotélica, ajudando a avolumar o caudal ético através dos tempos, como se pode ver pelo texto que a seguir: Ainda que pareça plausível que os filósofos do Islã tenham tido conhecimento da existência das diversas obras de Aristóteles sobre ética, foi na Ética Nicomaqueia, sem dúvida, que melhor sorveram os ensinamentos a esse respeito. Dentre os mais notáveis, Al-Fārābī, Avicena, Avempace e Averróis fizeram amplo uso dela. Na medida em que procuraram conciliar os ensinamentos do Corão e da Tradição (Hadith) com a filosofia, encontraram na ética aristotélica as indicações apropriadas para a realização do modelo de vida ideal da sociedade humana. (PEREIRA, 2010, pg.118) Cristianismo: o livro sagrado do Cristianismo é a Bíblia, palavra que vem do grego significando livros (βιβλίο = livro, βιβλία = livros). De fato, a Bíblia cristã é composta de vários livros, divididos em duas grandes partes – o Antigo Testamento e o Novo Testamento. O Antigo Testamento coincide com a Torá hebraica e o Novo Testamento traz, entre os seus livros, um conjunto de Quatro Evangelhos, escritos após a morte de Jesus Cristo. Os Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. cristã. No Hadith, o Profeta Maomé declara: "Nenhum de vocês 22 autores desses Evangelhos, que narram a vida, os ensinamentos e a morte de Jesus Cristo, são os seguidores de Jesus: Mateus, Marcos, Lucas e João. Em seu Evangelho, Mateus descreve o Sermão da Montanha, a mais importante pregação de Jesus. Neste discurso, proferido na colina de Hattin, situada em Israel, a meros dez quilômetros do Mar da Galiléia, Jesus ensinou lições de conduta e moral, ditando os princípios que normatizam e orientam a verdadeira vida cristã. Nesta passagem bíblica, contada no capítulo 7, versículo 12 do Evangelho de São Mateus, está definida a ética da reciprocidade: "Em tudo, trata os outros como gostarias que te O conceito de reciprocidade tem sido, portanto, entendido através dos tempos como fundamental para a questão ética. Na Grécia Antiga, esse conceito recebe um tratamento mais formal por filósofos como Sócrates e Platão e tem em Aristóteles uma compilação bastante abrangente de aspectos éticos, notadamente em sua obra Ética a Nicômaco. O fio d’água que brotara no coração dos homens, identificando uma necessidade de definir e trabalhar com um conceito que regulasse as relações humanas, ganha volume na mente grega da Antiguidade e vai pouco a pouco se tornando um rio caudaloso. 1.2. Aristóteles, Ética e Educação O passeio pela espetacular e necessária atividade de formalizar a questão ética começa com Aristóteles, no quarto século anterior à era cristã. Aristóteles foi um filósofo que nasceu em 384 a.C. na cidade grega de Estagira, uma cidade da Calcídica (península ao Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. tratassem; porque esta é a lei e os profetas." 23 norte do Mar Egeu que fazia parte da então Macedônia ). A cidade de Estagira hoje dista meros 180 km da fronteira búlgara. Aristóteles era filho do médico Nicômaco, amigo do rei da Macedônia. Aos 16 anos, o jovem Aristóteles parte para Atenas e vai estudar com Platão em sua Academia. Permanece lá por vinte anos, até a morte do mestre, em 347 a.C. e segue então para Assos (perto do atual Canal de Corinto, que efetivamente transforma o Peloponeso em uma ilha), onde casa-se com Pítias, sobrinha do tirano Hérmias, ouvinte eventual de Platão na Academia. Hérmias é assassinado, o que faz com que Aristóteles parta para Mitilene, capital da ilha de Lesbos (no litoral turco), onde tem lugar a maior parte de suas da Macedônia pede que Aristóteles volte para casa para ser preceptor do filho do rei, o pequeno Alexandre. Essa função foi exercida durante sete anos, quando o menino subiu ao trono, em 336 a.C. para se tornar o grande conquistador Alexandre Magno. Neste mesmo ano, Aristóteles volta para Atenas e funda o Lic eu, em homenagem a Apolo Lício. A lenda de Apolo Lício tem origem na própria história do deus Apolo. Leto, mãe dos gêmeos Apolo e Ártemis, fora fecundada por Zeus, atraindo assim a ira de Hera, senhora do Olimpo. Grávida de gêmeos e fugitiva de Hera, Leto procurava um lugar na Terra onde pudesse dar à luz os dois filhos que trazia em seu ventre. Hera, por vingança, proibiu que a Terra a acolhesse e nenhuma região do planeta ousou recebê-la. O abrigo oferecido por Poseidon à parturiente foi a ilha de Ortígia, que por ser flutuante, não pertencia à Terra. Mesmo assim, Leto contorceu -se de dor durante nove dias e nove noites até que nascessem seus filhos. A ainda raivosa esposa de Zeus retivera Ilítia, a deusa dos partos, no Olimpo e, fazendo com que Ilítia cruzasse a perna esquerda sobre a direita, impedisse o parto de Leto. As outras deusas intercederam pela parturiente, mas Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. investigações biológicas. Era o ano de 343 a.C. quando o soberano 24 nada abrandou o coração de Hera a não ser um presente magnífico – um colar de ouro e âmbar, de mais de três metros de comprimento – que fez com que Ilítia tivesse a permissão para descer até Ortígia e auxiliar Leto. Primeiro nasceu Ártemis e depois, ajudada pela filha, nasceu Apolo. Fugindo ainda para livrar-se da ira de Hera, Leto amanheceu no que é hoje o litoral sul da Turquia e, ao tentar lavar os filhos em um lago, foi impedida pelos pescadores que a expulsaram do local. Os lobos, apiedados da sina de Leto, conduziram em segurança a mãe e seus dois filhos para a margem do rio Xanto. Na confusão etimológica grega da palavra que indicava a luz que precede o nascer do sol nasceu o mito de Apolo Lício, um epíteto do deus-lobo protetor dos oráculos, a luz da verdade. Apolo, depois de fortalecido e reconhecido como filho de Zeus, voltou -se para o cenário de seu nascimento e rebatizou a flutuante ilha de Ortígia como Delos, fixando-a como o centro do mundo grego para mostrar que, segundo as tradições gregas, que é pelo centro que o divino se manifesta . Como o culto a Leto, Ártemis e a ele mesmo havia florescido na região sul da atual Turquia, Apolo fez com ela então fosse conhecida como Lícia, ainda em homenagem aos lobos salvadores da prole de Leto. Voltando à trajetória de Aristóteles, interrompida para mostrar a gênese do Liceu que fundara em Atenas, vê -se que o filósofo grego lança mão de um passeio pedagógico (περίπατος – perípatos) e daí a origem dos peripatéticos, ou seja, os discípulos de Aristóteles, que seguiam o mestre enquanto ele lia e ensinava caminhando sob as arcadas do Liceu ou passeando à sombra das árvores que rodeavam sua escola. Baseado nas discussões anotadas pelo f ilósofo em sua escola peripatética é que surgiu sua obra magna sobre a ética – Ética a Nicômaco – dedicada a seu filho, também chamado Nicômaco. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. (λύκη – lyke) e da palavra grega para lobo (λύκος – lykos) é que 25 A tradição grega entende que, entre os parâmetros de julgamento da alma depois que deixa o corpo, estão a paidéia e a trophé ( τροφή - alimentar). Paidéia vem da palavra grega paidós (παιδός) que significava originariamente criança e que depois ganha um sentido mais elevado e passa a ser entendida como a Educação além do conceito que forma o Homem por meio do bom e do belo (καλοκαγαθία - kalokagathia 4). Paidéia vem alargar o significado da Educação para formar tanto o Homem como o Cidadão. Os gregos deram o nome de paidéia às criações espirituais e ao conceito que abarca toda a tradição grega. Atualmente isso poderia ser descrito pela palavra cultura. Para encontrar uma tradução para o tradição, literatura etc. Nenhuma delas, porém, coincide com o entendimento grego de paidéia. Cada um desses termos define somente um aspecto do conceito global , de tal forma que para abranger a totalidade do conceito grego, todos os termos atuais teriam que ser expressos de uma só vez. (JAEGER, 2001). Dessa maneira, a tradição grega imagina que a completude do Homem, mais tarde contemplada pela rotina educacional, se daria por essas duas fases – a alimentação bem cuidada até os sete anos e depois uma educação aprimorada e abrangente. A Educação concebida pelos gregos, portanto, tinha duas vertentes principais, baseadas no que os espartanos (com a kalokagathia) e atenienses (com a paideia) entendiam ser o conceito de homem. Enquanto em Esparta se privilegiava o culto ao corpo como símbolo de fortaleza pessoal e eficáci a em todas as ações, em Atenas era prezada a luta pela liberdade. O homem educado segundo o 4 princípio ateniense, que apontava a racionalidade como kalokagathia – conceito grego que vem da contração das palavras kalós kai agathós (kalós = καλός = belo; kai = και = e; agathós = αγαθός = bom) Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. termo paidéia, há que se usar expressões atuais como civilização, 26 característica, deveria saber defender seus direitos e argumentar consistentemente. A figura que idealizava esse homem era o orador. (GADOTTI, 2003). A estrutura de ensino, influenciada por essas duas vertentes, era dividida em: Escola primária – ensinava rudimentos: leitura do alfabeto, escrita e cômputo. Estudos secundários – educação física, – corrida pé, artística, estudos literários e científicos. Educação Física a salto em distância, Educação Artística – desenho, domínio instrumental da lira, o canto e o coral, a música e a dança. Estudos Literários – estudos da obra de Homero, filologia (leitura, recitação e interpretação de textos), gramática e exercícios práticos de redação. Estudos Científicos – matemática, geometria, aritmética e astronomia. Estudos Superiores – retórica e filosofia. Retórica – as leis do bem falar, baseada em uma operação definida por três estágios: a invenção, quando se procura o que se vai dizer; a disposição, que é a tarefa de se colocar em ordem as ideias escolhidas e a alocução, que era a arte de procurar os termos mais apropriados para exprimir essas ideias. 5 Espécie de combate ou prova atlética dos gregos e romanos antigos, envolvendo elementos de luta livre e pugilato (Dicionário Houaiss) – disponível em http://houaiss.uol.com.br/busca.jhtm?verbete=pancr%E1cio+&x=13&y=7&stype=k acesso em 14 nov. 2011 Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. lançamento do disco e do dardo, pancrácio 5 e ginástica. 27 Filosofia – os estudos nesta área compreendiam seis aspectos: lógica, cosmologia, metafísica, ética, política e teodiceia 6. (GADOTTI, 2003). Várias artes das mitológicas Musas, conforme aparecem no livro Teogonia, de Hesíodo, estão presentes nesta estrutura de ensino primário, secundário e superior. Hesíodo agradece às Musas por ajudar a manter viva a Cultura Grega, educando o povo através de suas artes, uma vez que as pessoas não sabiam ler nem escrever. Foram exatamente essas figuras mitológicas que auxiliaram o historiador Hesíodo a contar a história da criação do mundo, segundo As Musas, portanto, figuras mitológicas, filhas de Zeus e Mnemósine (a Memória) é que ajudaram a manter a tradição e a cultura na península grega antes de ser instituída a palavra escrita. A educação dos gregos até então era transmitida oralmente por arte e engenho das Nove Musas, cuja tarefa está distribuída na estrutura de ensino mostrada pelo professor Moacir Gadotti na página anterior. As Musas, segundo Hesíodo, teriam as seguintes atividades na Mitologia Grega, realçando a importância da Memória na Educação dos gregos: Calíope – divindade da poesia épica, representava a eloquência. As histórias ritmadas eram passadas de pessoa para pessoa, com as bênçãos de Calíope, preservando assim a lembrança dos acontecimentos. Representa a tradição oral na educação grega. 6 A palavra teodiceia vem de dois vocábulos gregos: deus (θεός – theós), e justiça (δίκη – díkē). O significado do termo, no âmbito grego é, portanto, a justificação do divino, reservada inicialmente às obras destinadas a defender a Providência contra as dificuldades que se levantam com o problema da existência do mal. Em 1710, Leibnitz populariza esse termo no seu Essais de Théodicée sur la bonté de Dieu, la liberté de l'homme et l'origine du mal (Ensaio da Teodiceia sobre a bondade de Deus, a liberdade do homem e a origem do mal) (tradução livre do autor) Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. a crença grega. (HESÍODO, 1995) 28 Clio – deusa relacionada à atribuição da fama e à proteção da História, apenas sugerida por Calíope. A fama é imortal e a tarefa de concedê-la dava a Clio a capacidade de simular a sensação divina da eternidade, um pressuposto da memória. Érato – deusa da poesia amorosa, cuida da memória pela sensação despertada pelo amor. As lembranças suscitadas pelo bom momento ao lado da pessoa querida, um som que evoca lembranças de um passado feliz e todos os artifícios que podem ser representados pela poesia amorosa são obra e arte de Érato. O papel de Érato pode ser entendido como o canal do coração Euterpe – inventora dos instrumentos musicais, complementa a tarefa de Érato, focada agora na música. Euterpe também protege a poesia lírica e a facilidade com que as coisas podem ser lembradas se o lirismo delas for cantado. O que Calíope propunha com a eloquência, Euterpe busca com o lirismo. Melpômene – representa o teatro trágico e seu símbolo é a máscara trágica. Além do fato concreto de ser necessário um grande esforço de memória para lembrar todo um texto trágico, há ainda a significação da memória das tragédias pessoais, buscada lá no fundo da alma do ator para que essa expressão cênica possa ser levada ao público. Thália – protetora do teatro cômico, Thália sempre é representada carregando a máscara cômica. Da mesma maneira que sua irmã Melpômene, Thália busca dentro de si o momento da alegria, o timing do riso. O homem grego aprendia por mímesis – o que era digno de copiar vinha sob a forma trágica e Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. na pedagogia salesiana. 29 o que era vil e indigno, era representado na forma cômica. (ARISTÓTELES, 1991b). Terpsícore – uma das mais interessantes manifestações da memória se dá através da musa Terpsícore, deusa da dança. Essa arte evoca sensações muito intensas que não têm o fio mnemônico da eloquência de Calíope nem do lirismo de Euterpe. Terpsícore evoca a memória do desconhecido, que sempre habitou o coração dos mortais e só consegue vir à tona por meio da capacidade artística dessa musa. Platão dizia que já existiria dentro das pessoas um saber que um dia iria vir à tona. Para coisas teriam sido aprendidas em uma outra vida. Apesar de mostrar uma solução mágica para o conhecimento, a sensação poética causada suficientemente por essa afirmação forte para que se platônica fique parece atento a ser essa informação, imaginando que isso seria uma metáfora que os colegas filósofos de Platão iriam revisitar mais tarde. Conhecer é recordar, dizia Platão (PLATÃO, 1999). De fato, depois veio Kant e seu perturbador conceito de conhecimento a priori: [...] designaremos, doravante, por juízos a priori, não aqueles que não dependem desta ou daquela experiência, mas aqueles em que se verifica absoluta independência de toda e qualquer experiência. Dos conhecimentos a priori, são puros aqueles em que nada de empírico se mistura. (KANT, 2001, pg. 63) Polímnia – deusa da poesia sacra e dos hinos. Busca a memória divina dentro de cada mortal e a celebra com hinos sacros. Desenvolve assim a sacralidade do lembrar, cultivada como uma representação da manifestação divina. O sagrado, assim, deve ser preservado e respeitado. É uma belíssima associação de uma manifestação metafísica, na celebração da origem divina dos mortais e do cuidado em preservar a própria espécie, Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. sustentar essa assertiva, levava em conta o fato de que as 30 preocupação que estará na raiz da Tecnoética, assunt o que fechará este capítulo. Urânia – Urânia, deusa da Astronomia, tem a capacidade de orientar as pessoas e não deixá-las esquecer de onde vieram, ao mesmo tempo em que as ajuda a encontrar o destino escolhido e que não deixa de ser uma outra utilidade d os processos educativos. A concepção realista aristotélica compreende três aspectos que determinam o desenvolvimento espiritual do homem e norteiam a pedagogia aristotélica: “disposição inata, hábito e ensino” (GADOTTI, aristotélica basilar Ética a Nicômaco. 1.3. Ética a Nicômaco Aristóteles inicia sua Ética a Nicômaco mostrando o caminho para o Sumo Bem, identificado por ele como eudaimonia (ευδαιμονία). A própria etimologia da palavra grega nos leva ao pensamento central de Aristóteles. Eudaimonia está focada no vocábulo daimon (δαίμων) que se refere a um poder divino, porém significando uma divindade menor do que Theos (θεός). Daimon seria um pequeno deus que vela por nós e nos mostra o caminho. 7 No Fédon , a discussão sobre a imortalidade da alma conduz ao problema do seu destino, após o assim chamado viver. Seguindo a concepção da tradição que leva em conta a paidéia e a trophé como elementos de julgamento após o despojamento do corpo, cada alma é conduzida por um daímon, que acumula a dupla função de acompanhar cada homem em sua vida e, após a morte, de conduzi-la ao lugar estabelecido pelos deuses. Ainda segundo essa 7 Fédon (Φαίδων) – obra de Platão escrita por volta de 387 a.C. (Nota do Autor) Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. 2003, pg. 38). Um pouco desses aspectos pode ser visto na obr a 31 tradição, as almas que conduziram a sua vida da melhor forma possível e que compreendem a situação pós vida, acompanham o seu guia obedientemente, mas, as que se apegaram em vida ao corpo, resistem e são conduzidas a força pelo seu daímon.(COSTA, 2000, pg. 103) O prefixo eu- se refere ao bom, bravo ou nobre, de maneira que a palavra toda – eudaimonia – tem o significado de “o bom guia para a sua alma”. Como eudaimonia é a palavra em grego para felicidade, pode-se concluir que a felicidade consiste em ter um bom guia para a alma. Se o fim de toda ação humana é a felicidade, o que deve ser a tarefa da ética aristotélica. Novamente, a etimologia da palavra ética nos fornecerá o passaporte para o caminho da felicidade. Sócrates costumava perguntar aos atenienses qual seria o significado da virtude, ou seja, porque ser corajoso era uma virtude e ser covarde era um vício? Isso certamente vinha dos costumes que os mais velhos haviam ensinado e os costumes eram algo sagrado, algo determinado pelos deuses. (CHAUÍ , 1995, pg.340). A palavra grega para costume era ήθος (ethos), grafada com a vogal longa eta (η) que foi traduzida para o latim como mores, de onde vem o vocábulo moral. Por outro lado, em grego ainda é possível escrever ethos com a vogal curta épsilon (ε) e a palavra assim grafada – έθος – significa caráter, princípios, índole natural, temperamento. Nessa acepção, ethos se refere ao que cada um tem de particular e a pergunta de Sócrates então viria criar o conceito de ética, questionando quais eram os costumes daquela sociedade e também qual seria a disposição de cada cidadão em seguir esses costumes . As questões socráticas inauguram a ética ou filosofia moral, porque definem o campo no qual valores e obrigações morais podem ser Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. feito para se chegar a esta finalidade? Esta averiguação será, então, 32 estabelecidos, ao encontrar seu ponto de partida: a consciência do agente moral. (CHAUÍ, 1995, pg.341) Sendo a ética uma ciência prática, como quer Aristóteles, não deve definir somente o que é a felicidade, mas, sobretudo, mostrar como é possível ser feliz. Para que a felicidade possa ser vista como o Sumo Bem, esse bem há que ser distinto dos outros bens. O critério de distinção se dá, segundo o filósofo grego, quando esse bem é procurado por si mesmo e não no interesse de atingir os outros bens. Ora, nós chamamos aquilo que merece ser buscado por si mesmo mais absoluto do que aquilo que merece ser buscado com vistas em outra coisa, e aquilo que nunca é desejável no interesse de outra coisa mais absoluto do que as coisas desejáveis tanto em si mesmas como no interesse de uma terceira; por isso chamamos de absoluto e incondicional aquilo que é sempre desejável em si mesmo e nunca no interesse de outra coisa. (ARISTÓTELES, 1991, pg. 14) Dessa maneira, bens ou virtudes (αρετή – areté) como honra, prazer e razão, apesar de terem uma excelência em si mesmas, podem ser vistas como caminhos para a felicidade. A recíproca, porém, não é verdadeira, uma vez que a felicidade não é caminho para nenhuma outra virtude além dela própria. Nas palavras de Aristóteles: Ora, esse é o conceito que preeminentemente fazemos da felicidade. É ela procurada sempre por si mesma e nunca com vistas em outra coisa, ao passo que à honra, ao prazer, à razão e a todas as virtudes nós de fato escolhemos por si mesmos (pois, ainda que nada resultasse daí, continuaríamos a escolher cada um deles); mas também os escolhemos no interesse da felicidade, pensando que a posse deles nos tornará felizes. A felicidade, todavia, ninguém a escolhe tendo em vista algum destes, nem, em geral, qualquer coisa que não seja ela própria. (ARISTÓTELES, 1991, pg. 14) Ainda buscando demonstrar sua afirmação sob um outro ângulo, Aristóteles usa o critério da autossuficiência (αυτάρκεια - autarkéia), que define que o bem absoluto é considerado desejável em si mesmo e não carece de mais nada. Se não fosse assim sumamente Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. O livro I, capítulo 7 da Ética a Nicômaco, diz: 33 desejável, qualquer outro bem, por menor que fosse, ao ser adicionado à felicidade, a tornaria um bem ainda maior e isso não acontece, o que demonstra, como num Teorema de Cálculo, que a felicidade é o Bem Máximo. Para completar o raciocínio aristotélico, há ainda que buscar o gênero a que ela pertence, ou seja, trata -se de determinar o que é a felicidade para o homem. Para facilitar essa tarefa, segundo o filósofo estagirita, é necessário antes determinar qual é a função do homem. Observando que para o flautista e o escultor, o bem e a perfeição residem na função, Aristóteles entendeu que, se existisse uma função para o homem, seria suficiente aplicar esse mesmo conceito para (que também é comum às plantas) e as atividades de percepção (que são comuns também aos animais), Aristóteles identifica nesse processo a atividade da razão no homem, notadamente o fato de pensar. Considerando, assim, a função do homem como uma atividade de alma (ψυχή – psyche) capaz de desenvolver um princípio racional (λογικός – logikos) e que a função de um bom homem é uma nobre realização dessas funções da alma (assim como a função de um tocador de lira é tocá-la e a função de um bom tocador é tocá -la bem), é possível concluir que ”[...] o bem do homem nos aparece como uma atividade da alma em consonância com a virtude, e, se há mais de uma virtude, com a melhor e mais completa ”. (ARISTÓTELES, 1991, pg. 16) Um adendo importante a esse raciocínio é o fato explicitado por Aristóteles de que é preciso acrescentar “em uma vida toda”. Ninguém consegue atingir essa felicidade em um só dia, ou como explica a professora Marilena Chauí: O bem ético pertence ao gênero da vida excelente e a felicidade é a vida plenamente realizada em sua excelência máxima. Por isso não é Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. identificar tal função. Filtrando as funções de crescimento e nutrição 34 alcançável imediata nem definitivamente, mas é um exercício cotidiano que a alma realiza durante toda a vida. A felicidade é, pois, a atualização das potencias da alma humana de acordo com sua excelência mais completa, a racionalidade. Por ser uma atividade conforme à virtude ou à excelência, não é uma posse ou uma maneira de ser conseguida de uma vez por todas, mas um agir que dura a vida inteira. (CHAUÍ, 2002, pg. 442) Nesse ponto, o raciocínio aristotélico encontra os argumentos iniciais que definem ética como vindo de ήθος ( ethos) e que significa costume, hábito. A Ética de Aristóteles, então, é uma reflexão sobre a ação humana de busca da felicidade, conforme explica Fernando Savater na sua aula sobre o filósofo grego 8. Nessa busca da felicidade é necessário, portanto, procurar desenvolver as virtudes, debilidade dos vícios. A palavra virtude vem do vocábulo vir, em Latim, que significa homem de coragem, herói. Essa força de guerreiro é que vai aumentar a capacidade humana de alcançar a felicidade. A lógica aristotélica chega agora ao exame das virtudes como o caminho para atingir a felicidade, completando também a proposta de ser a ética uma ciência prática e, como tal, capaz de “determinar a essência do fim a ser alcançado, a essência dos agentes e das ações e os meios para realizá-las”. (CHAUÍ, 2002, pg. 441) As virtudes intelectuais são adquiridas fundamentalmente em função da Educação e, portanto, leva tempo para a sua aquisição. As virtudes morais devem seu desenvolvimento ao hábito ( ethos), já que nenhuma delas surge no homem por natureza. Se fosse dado pela natureza, nenhum hábito conseguiria mudar essa virtude. O filósofo ilustra esse fato com o exemplo da pedra, cuja característica é se mover para baixo quando abandonada a uma determinada alt ura. 8 http://litfil.blogspot.com/2011/01/la-etica-de-aristoteles-por-fernando.html - acesso em 02 nov. 2011 Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. ou seja, os hábitos que fortalecem as pessoas, em contrapartida à 35 Ainda que fossem feitas dez mil tentativas de adestrar a pedra para que ela se movesse para cima, ela ainda assim iria continuar mantendo a característica natural. As virtudes morais são então concebidas a partir de uma característica de repetição. É esse hábito que vai imprimir à natureza humana a capa cidade de praticar atos justos. Não é, pois, por natureza, nem contrariando a natureza que as virtudes se geram em nós. Antes devemos dizer que a natureza nos dá a capacidade de recebê-las e tal capacidade se aperfeiçoa com o hábito. (ARISTÓTELES, 1991, pg. 29) As virtudes são aperfeiçoadas ou destruídas pelo bom ou mau uso delas, como acontece em geral com as artes: “tocando a lira é 30). Esse princípio aplica-se às artes e às profissões em geral: um engenheiro que faz bons projetos se torna um bom engenheiro; se os projetos são sucessivamente ruins, ter-se-á um mau engenheiro. Assim se justifica também a necessidade de professores para que os homens não tenham que já nascer bons ou maus em suas artes. Baseando-se nas observações de que está na natureza destruir as virtudes, ou por falta ou por excesso, Aristóteles propõe a regra justa para definir essas virtudes. Essa regra não localiza a virtude no ponto médio entre o excesso e a falta, mas num imperceptível ponto intermediário qualquer, de maneira que faça sentido chamá -la de virtude. “A fim de obter alguma luz sobre coisas imperceptíveis, devemos recorrer à evidência das coisa s sensíveis” (ARISTÓTELES, 1991, pg. 31). A sensibilidade, portanto, está contida nos exemplos para que se perceba a utilidade da regra justa: Tanto a deficiência como o excesso de exercício destroem a força; e, da mesma forma, o alimento ou a bebida que ultrapassem determinados limites, tanto para mais como para menos, destroem a saúde ao passo que, sendo tomados nas devidas proporções, a produzem, aumentam e preservam. O mesmo acontece com a temperança, a coragem e as outras virtudes, pois o homem que a tudo teme e de tudo foge, não fazendo frente a nada, torna-se um Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. que surgem os bons e os maus músicos”. (ARISTÓTELES, 1991, pg. 36 covarde, e o homem que não teme absolutamente nada, mas vai ao encontro de todos os perigos, torna-se temerário; e, analogamente, o que se entrega a todos os prazeres e não se abstém de nenhum torna-se intemperante, enquanto o que evita todos os prazeres, como fazem os rústicos, se torna de certo modo insensível. (ARISTÓTELES, 1991, pg. 31) Um homem virtuoso será capaz de estabelecer essa regra justa, uma vez que no exercício de sua virtude s erá capaz de dominar todos os seus impulsos e paixões. A regra justa se dá como uma manifestação da reciprocidade, ao se notar que o ser moral começa com o ser social: somente a partir do agir para com outros homens é que é possível exercer uma justiça que se dá, então, a partir de uma ordenação social. Essa ordenação social será objeto de crítica, como Nicômaco que “se as pessoas não são iguais não devem receber coisas iguais” e as distribuições deveriam ser feitas "de acordo com o mérito de cada um”. A Justiça (e, por conseguinte, o justo), é uma espécie de termo proporcional e não é possível igualar desiguais. O próprio Aristóteles já tinha noção de que esse agir era motivo de “disputas e queixas” (ARISTÓTELES, 1991). O professor Gadotti apresenta em seu livro História das Ideias Pedagógicas uma descrição aristotélica do caráter de um homem quando jovem, na idade adulta e depois quando fica velho. Essa descrição, que está no livro de Aristóteles Arte Retórica e Arte Poética, ajuda a entender o conceito da regra justa uma vez que os homens na idade adulta irão apresentar um caráter que é um meio termo entre o caráter de um jovem e o de um velho: Os homens na idade adulta terão evidentemente um caráter intermédio entre os que acabamos de estudar, com a condição de suprimir o excesso que há nuns e noutros. Não mostrarão nem confiança excessiva oriunda da temeridade, nem temores exagerados, mas manter-se-ão num justo meio relativamente a esses dois extremos. A confiança deles não é geral nem a desconfiança, e em seus juízos, inspiram-se de preferência, na verdade. Não vivem exclusivamente para o belo nem para o útil, mas para um e outro Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. veremos a seguir, porque Aristóteles estabelece em seu livro Ética a 37 igualmente. Não se mostram sovinas nem esbanjadores, mas neste particular observam a justa medida. O mesmo se diga relativamente ao arrebatamento e ao desejo. Neles, a temperança vai acompanhada de coragem e a coragem de temperança, ao passo que nos jovens e nos velhos estas qualidades são separadas, pois a juventude é a um tempo corajosa e intemperante, e a velhice temperante e tímida. (ARISTÓTELES apud GADOTTI, 2003, pg.39-41). Um exemplo adicional para mostrar a regra justa é mostrado na tabela 1: Tabela 1: Quadro das Virtudes Morais Situação em que o sentimento ou a paixão são suscitados Prazeres Virtude Vício Excesso (por deliberação e por escolha) Falta (por deliberação e por escolha) Justo Meio (por deliberação e por escolha) Tocar, ter, ingerir Libertinagem Insensibilidade Temperança Medo Perigo, dor Covardia Temeridade Coragem Confiança Perigo, dor Temeridade Covardia Coragem Riqueza Dinheiro, bens Prodigalidade Avareza Liberalidade Fama Opinião alheia Vaidade Humildade Magnificência Honra Opinião alheia Vulgaridade Vileza Respeito próprio Cólera Relação com os outros Irascibilidade Indiferença Gentileza Convívio Relação com os outros Zombaria Grosseria Agudeza de espírito Conceder prazer Relação com os Condescendência outros Tédio Amizade Vergonha Relação de si com outros Sem-vergonhice Timidez Modéstia Sobre a boa sorte de alguém Relação dos outros consigo Inveja Malevolêcia Justa apreciação Sobre a má sorte de alguém Relação dos outros consigo Malevolência Inveja Justa indignação Fonte: CHAUÍ, 2002, pg. 453 Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Sentimento ou paixão (por natureza) 38 Uma crítica pertinente a esse modelo aristotélico vem de Adolfo Sánchez Vázquez, pensador marxista, nascido em Algeciras (Espanha) em 1915 e falecido na Cidade do México em 2011. Vázquez era professor emérito da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), país para o qual se transferiu ao final da Guerra Civil Espanhola, em 1939. Crítico da ortodoxia stalinista, Sánchez Vázquez ajudou a considerar a renovação dessas ideias com teses humanistas e democráticas em obras como "As Ideias Estéticas de Marx" (1965) e "Estética e Marxismo" (1970). Segundo Sánchez Vázquez, a felicidade, como atividade própria da razão, necessitaria de algumas condições, entre as quais duas suficientes) e liberdade pessoal. Sem elas, os homens não podem ser felizes e, por isso, não podem sê-lo os escravos. Assim, portanto, para Aristóteles – refletindo claramente a realidade social de sua época – a felicidade está ao alcance somente de uma parte privilegiada da sociedade, da qual estavam excluídos não somente os escravos, mas também as mulheres. (VÁZQUEZ, 2011, pg. 158) De fato, em a Ética a Nicômaco, no livro I, Aristóteles explica que: [...] o homem de muito feia aparência, ou malnascido, ou solitário e sem filhos, não tem muitas probabilidades de ser feliz, e talvez tivesse menos ainda se seus filhos ou amigos fossem visceralmente maus e se a morte lhe houvesse roubado bons filhos ou bons amigos. (ARISTÓTELES, 1991, pg. 19). Como uma parte considerável da sociedade não consegue a felicidade na Terra, Sánchez Vázquez mostra que a ética cristã vai transferir essa obtenção para um mundo ultraterreno e só será possível obter essa felicidade no céu, como compensação da infelicidade na Terra. Dessa maneira, ao invés de uma felicidade real, é dada ao homem a possibilidade de viver uma felicidade ilusória. Os iluministas do século XVIII sustentam o direito do homem de ser feliz neste mundo, mas entendem essa felicidade em um plano abstrato, fora das condições efetivas que dificultam ou facilitam a obtenção Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. importantíssimas: segurança econômica (posse de bens materiais 39 dessa felicidade. De uma certa forma, a ética moderna dos materialistas franceses parece contrária ao pensamento cr istão por defender o direito do homem ao gozo da felicidade neste mundo, mas ao colocá-la em um plano abstrato transformam esse gozo em algo semelhante à ética cristã, que só o concebe na vida ultraterrena. A compreensão de Aristóteles, por outro lado, se fortalece nos tempos em que vivemos, conforme continua a crítica de Sánchez Vázquez: “Os homens não podem ser verdadeiramente felizes na miséria, na exploração, na falta de liberdades políticas, na discriminação racial etc.” (VÁZQUEZ, 2011, pg. 159) ideais que fazem com que a vida de grande parte da sociedade seja um mar de lamentações, nem mesmo assim poder -se-ia dizer que os seres humanos deixariam de ser infelizes. Há ainda que se levar em conta os obstáculos, notadamente os fracassos, tanto profissionais como amorosos e as estocadas do destino, como as doenças e a morte. As condições sociais cumprem, todavia, um papel primordial evitando que se caia inexoravelmente em desgraça, frente a todas essas vicissitudes. Um outro aspecto da obtenção da felicidade numa sociedade capitalista é a definição do que é ess a felicidade. Numa sociedade assim, onde vale mais o que se possui em comparação ao que se é, a felicidade tomaria o aspecto de um espírito de pos se. Nesse cenário, o homem que tivesse posses materiais seria feliz enquanto o pobre seria miseravelmente infeliz. O próprio sistema capitalista estimula esse cenário, pois é aqui que o capitalismo funciona – esse fato é mesmo o coração do sistema, porque a busca dessa felicidade contribui para o desenvolvimento do próprio sistema. Conta Zygmunt Bauman em seu livro A Arte da Vida que, na Inglaterra, o Financial Times é uma leitura diária quase que Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Mesmo que fossem dadas ao homem as condições sociais 40 obrigatória para milhares de ricos e poderosos e também para um exército de não tão ricos, e que almejam desesperadamente o Olimpo do capitalismo. Por isso se dão também a tarefa cotidiana de folhear esse jornal que, mensalmente, publica um suplemento intitulado How To Spend It, ou, numa tradução livre, “Como Gastá -lo”. Esse “o”, claro, refere-se ao dinheiro que sobra depois de cuidar de todos os investimentos que rendem ainda mais dinheiro, e de pagar as enormes contas de manutenção de casa e jardim, os custos das roupas feitas com exclusividade, as pensões dos ex -parceiros e os débitos dos carros de luxo. O “o” é o prêmio por noites mal dormidas, pensando no risco que corriam se as apostas nos negócios não diriam então os magnatas britânicos, acompanhado s num coro surdo pelos malsucedidos empresários que de semelhante só têm o acesso cotidiano ao Financial Times. “Em suma, "o" significa felicidade. Ou melhor, a esperança de felicidade é que é felicidade. Ou pelo menos se imagina e se espera ardentemente que assim seja...”(BAUMAN, 2008, pg. 38) E o que contém esse suplemento mensal do Financial Times? O que é oferecido ao jovem e bem sucedido empresário à guisa de felicidade? Quais são os símbolos modernos do Sumo Bem? Como não podia deixar de ser, os caminhos sugeridos para a felicidade passam por luxuosíssimos restaurantes, lojas caríssimas e outros templos similares onde se pode gastar muito dinheiro, e dinheiro grande, como por exemplo, trinta mil libras por uma garrafa de conhaque para poder encantar (ou invejar, envergonhar, humilhar) o grupo de amigos que irá visitar essa garrafa em sua adega subterrânea construída a um preço três vezes maior do que a prosaica garrafa de conhaque. (BAUMAN, 2008) Sánchez Vázquez conclui que a procura de um único bom é muito geral se não se concretiza seu conteúdo. Na sociedade Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. rendessem o resultado esperado. É para isso que se trabalha – 41 escravista grega, essa felicidade era a contemplação, na sociedade capitalista moderna, a posse do dinheiro é que caracteriza o conceito de felicidade. Numa sociedade na qual não vigore o princípio da propriedade privada nem a onipotência do dinheiro, e na qual o destino pessoal não se possa conceber separado da comunidade, os homens terão que buscar outro tipo de felicidade. (VÁZQUEZ, 2011, pg. 160) 1.4. Algumas Crises do Pensamento Racional – de Aristóteles à Idade Média A obra de Aristóteles vem cobrir a primeira grande crise do que é a crise em que o pensamento muda do paradigma mitológico para o paradigma filosófico e o homem abandona a explicação sobrenatural patrocinada pela Mitologia Grega e busca uma explicação natural para o mundo que o rodeia e, em última instância, para si mesmo. O homem, portanto, talvez ainda baseado no modelo mitológico, se encontra um tanto quanto deificado, o que leva Aristóteles a estratificar dessa maneira a possibilidade humana de obter a felicidade. Aristóteles nasce logo após a morte de Sófocles, que escreveu uma importantíssima obra para o teatro, a tragédia Antígona, relatando a disputa entre os interesses privados e os interesses da pólis grega. Dos quatro filhos, frutos do incesto de Édipo e Jocasta, Polinice e Etéocles brigam pelo trono de Tebas e acabam morrendo em combate. O mais próximo na sucessão é Creonte, irmão de Jocasta, que sobe ao trono e publica um édito dando sepultura honrosa a Etéocles e deixando Polinice exposto ao tempo e à fúria dos pássaros. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. pensamento racional, conforme explica a professora PITTERI (2011), 42 Ismênia: Que há, pois? Tu me pareces preocupada. Antígona: Certamente! Pois não sabes que Creonte concedeu a um de nossos irmãos e negou ao outro, as honras da sepultura? Dizem que inumou a Etéocles, como era de justiça e de acordo com os ritos, assegurando-lhe um lugar condigno entre os mortos, ao passo que, quanto ao infeliz Polinice, ele proibiu aos cidadãos que encerrem o corpo num túmulo e sobre este derramem suas lágrimas. Quer que permaneça insepulto, sem homenagens fúnebres, e presa de aves carniceiras. (SÓFOCLES, 2005, pg. 6) É nesse contexto que nasce o conceito aristotélico de ética, uma discussão entre o que é certo e o que não é, do ponto de vista da coletividade (πόλις – pólis) e os direitos civis (πολιτικός – politikós) dos habitantes da pólis. Hoje, com uma década já avançada no século XXI, relacionar política e ética parece um absurdo, mas foi A segunda grande crise do pensamento racional se dá no primeiro ano da era cristã. Roma conquista a Grécia e se torna centro do mundo ocidental. O cristianismo, crença de origem judaica, exercita sua estrutura em Roma e toda a herança da filosofia grega se acomoda no meio cristão. O homem, então, centro da discussão ética, é retirado desse posto e em seu lugar é colocada a doutrina cristã da alma eterna. A doutrina cristã, todavia, sobrevive somente em pequenos e restritos círculos, uma vez que o poder político não é cristão. Em 306, porém, Constantino é proclamado augusto por suas tropas e assume o controle do Império Romano. Não institui formalmente a religião cristã como oficial do império, mas concede privilégios nunca dantes imaginados. Na véspera da batalha da Ponte Mílvia, sobre o rio Tibre, próxima a Roma, Constantino tem uma visão em que as duas primeiras letras, Chi (X) e Rô (P), da grafia grega de Cristo (Χριστός – Cristós) aparecem-lhe entrelaçadas juntamente com a inscrição em latim: In hoc signo vinces (sob este signo vencerás). Manda pintar às pressas o símbolo nos escudos de seus soldados e apesar de possuir menos soldados, acaba vencendo uma importante batalha. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. assim que ela nasceu. 43 Constantino credita sua vitória ao Deus cristão. Os senadores, ainda pagãos, aprovam o texto abaixo, que está gravado na pedra até hoje no Arco de Constantino, construído no ano 315 da era cristã, próximo ao Coliseu, em Roma: Ao Imperador Caesar Flavio Constantino, o Grande, pio e abençoado Augusto: inspirado pelo divino, na grandeza de sua mente, ele usou o seu exército para salvar o estado pela justa força das armas de um tirano e de seus seguidores ao mesmo tempo; assim, o Senado e o Povo de Roma dedicam este arco, decorado com triunfos. O termo instinctu divinitatis se refere à visão de Constantino, mas ainda não é relacionada diretamente com Deus. Pouco a pouco, e ainda no século IV, a fé cristã vai se tornar a religião oficial em Roma. A estrutura social na Idade Média vai então se modificando e a relação de escravidão vai se transformando em uma relação de vassalos e senhores feudais distribuída numa miríade de feudos e é exatamente a religião que irá proporcionar a unidade numa sociedade tão fragmentada. Os imperativos supremos são os mandamentos de Deus, um ser onisciente, bom e todo poderoso, entendido como o bem mais alto na ética medieval. Agora a relação do homem não é mais com a pólis aristotélica, mas com Deus. A felicidade, que passa ser chamada de beatitude, se traduz na contemplação divina. Segundo São Tomás de Aquino, as virtudes são divididas em fundamentais e teologais. As teologais (fé, esperança e caridade) regulam a relação do homem com o divino e as virtudes fundamentais (prudência, fortaleza, temperança e justiça) entretecem a relação Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. IMPERATORI CAESARI FLAVIO CONSTANTINO MAXIMO PIO FELICI AVGVSTO SENATVS POPVLVSQVE ROMANVS QVOD INSTINCTV DIVINITATIS MENTIS MAGNITVDINE CVM EXERCITV SVO TAM DE TYRANNO QVAM DE OMNI EIVS FACTIONE VNO TEMPORE IVSTIS REMPVBLICAM VLTVS EST ARMIS ARCVM TRIVMPHIS INSIGNEM DICAVIT 44 entre os aristotélica, homens. A ética considerando, tomista porém, é que bastante existe um semelhante processo à de cristianização do filósofo grego. Assim, o modelo do Bem Supremo, que para Aristóteles é a felicidade, para São Tomás de Aquino será Deus. O grande paradoxo da ética medieval, conforme define Sánchez Vázquez, é a possibilidade de viver uma vida justa e feliz num plano sobrenatural, introduzindo o conceito de igualdade entre os homens, justamente num momento social em que a desigualdade na Terra era absurdamente grande. Apesar dessa brutal diferença entre doutrina e realidade, o cristianismo dá ao homem a consciência de igualdade e Na Idade Média, a igualdade só podia ser espiritual, ou também uma igualdade para o amanhã num mundo sobrenatural, ou ainda uma igualdade efetiva, mas limitada no nosso mundo real e algumas comunidades religiosas. Por isso tinha de coexistir necessariamente com a mais profunda desigualdade social, enquanto não se criassem as bases materiais e as condições sociais para uma igualdade efetiva. (VÁZQUEZ, 2011, pg. 277) A Igreja vai ganhando força e domina a Europa, criando uma nova moral, intervindo no cenário político, coroando reis, organizando Cruzadas à Terra Santa e fundando as primeir as Universidades. Durante o Renascimento, uma nova crise do pensamento racional é gestada. Os artistas do período começam a produzir obras usando abundantemente a perspectiva, o que demonstra que, se existe uma profundidade do quadro para “dentro”, mostrando o imaginário em diversos planos, não há porque não imaginar que exista também uma profundidade do quadro para “fora”, ou seja, o real é tal como sua representação pictórica, apresentando os devido s planos de atuação do artista, em primeiro lugar, e da s ociedade, como um todo: Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. o conceito de “um de nós” aparece. 45 A denúncia do momento social vivido na Itália do século XV estava explicitada na preocupação dos artistas com a forma que, além de representar um fenômeno, era também, ela própria, um fenômeno. Uma sociedade que acredita no valor dos fenômenos e que se detém para propor uma técnica que os represente melhor, como a perspectiva, deve acreditar também na capacidade que as pessoas têm para produzir fatos e valores. As pessoas começam a valer pelo que conseguem produzir, pela contribuição que dão à sociedade em que vivem e não por imposição divina ou herança de poder. (BENITO, 2004, pg. 29) Nesse cenário, nasce Maquiavel, que entende o poder como algo fundado somente na força e somente pela força esse poder mudaria de mãos. Nada legitimava o soberano, nem tradição, nem religião, nem a vontade do povo. Para manter o trono, o Príncipe Isso porque dos homens pode-se dizer, geralmente, que são ingratos, volúveis, simuladores, tementes do perigo, ambiciosos de ganho; e, enquanto lhes fizeres bem, são todos teus, oferecem-te o próprio sangue, os bens, a vida, os filhos, desde que, como se disse acima, a necessidade esteja longe de ti; quando esta se avizinha, porém, revoltam-se. E o príncipe que confiou inteiramente em suas palavras, encontrando-se destituído de outros meios de defesa, está perdido: as amizades que se adquirem por dinheiro, e não pela grandeza e nobreza de alma, são compradas, mas com elas não se pode contar e, no momento oportuno, não se torna possível utilizá-las. E os homens têm menos escrúpulo em ofender a alguém que se faça amar do que a quem se faça temer, posto que a amizade é mantida por um vínculo de obrigação que, por serem os homens maus, é quebrado em cada oportunidade que a eles convenha; mas o temor é mantido pelo receio de castigo que jamais se abandona. (MAQUIAVEL, 23 jul.2011, pg.65) A terceira crise do pensamento racional, gestada no período renascentista, eclode, superando a racionalidade medieval, em crise após inúmeras contradições e conflitos sociopolíticos no final da Idade Média. Nesse cenário, é que surge Descartes (1596-1650): Descartes, a quem atribuímos a teorização da modernidade, inaugura o que se pode chamar de racionalidade moderna, determinante maior do pensamento ocidental até o final do Séc. XIX e começo do Séc. XX. Essa, caracteriza-se em primeiro lugar pela separação radical entre corpo e alma, valorizando a alma, que em Descartes equivale a Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. deveria ser sempre temido, ainda que não amado: 46 pensamento, espírito, raciocínio lógico: o corpo passa a segundo plano, como mais difícil de conhecer do que a alma. A racionalização cartesiana atinge seu ápice no final do Século XIX, momento mesmo em que se entra na "crise da modernidade". (PITTERI, 2011) O fim da Idade Média se caracteriza por uma mudança em inúmeros aspectos: econômico: a produção agrícola começa a ficar insuficiente – os solos estavam desgastados enquanto a população continuava crescendo. A produção se baseia em aquisição de novas áreas de plantio e não na melhoria social: os habitantes das vilas (ou burgos), que não têm títulos de nobreza, mas detêm o poder econômico , se estruturam como uma nova classe social – a burguesia. estatal: a estrutura feudal, composta de inúmeros e pequenos feudos vai se consolidando como um estado único e centralizado, à exceção de movimentos como o da formação do Segundo Reich alemão e o Risorgimento Italiano, que promovem a unificação de seus respectivos países somente no século XIX. espiritual: a Igreja Católica perde sua função de guia e as Reformas Religiosas se espalham pela Europa destroçando a unidade medieval cristã. O que a Idade Média tinha unido ia, pouco a pouco , sendo desatado: as ciências naturais iam se desvinculando dos pressupostos teológicos, o Estado se separava da Igreja e o Homem ia retomando o centro das considerações filosóficas, no lugar de Deus. Ora, esse deslocamento do Homem para o centro da política, das ciências e das artes também o levará como um legislador da Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. da técnica de cultivo. 47 moral. Tudo contribui, portanto, para que nessa era moderna, a ética venha a ser antropocêntrica. 1.5. A Ética de Kant A ética de Immanuel Kant (1724 – 1804) é considerada por Sánchez Vázquez “a mais perfeita expressão da ética moderna” (VÁZQUEZ, 2011, pg. 281), razão suficiente para que seja usada para descrever o cenário da modernidade no que tange às questões éticas. Revolução Copernicana na filosofia. Até então, a realidade exterior ocupava o centro e o sujeito do conhecimento (razão) gravitava em torno desse centro, ou seja, primeiro tentou -se dizer o que era a realidade para depois ela poder ser conhecida pelas ideias da razão. O modelo revolucionário de Kant inverteu a ordem das coisas, como Copérnico havia feito com o sistema planetário duzentos anos antes, e propôs que agora a realidade objetiva (objetos d o conhecimento) gravitasse ao redor da razão. No prefácio à segunda edição da Crítica da Razão Pura, publicada em 178 7, Kant explica esse raciocínio: Devia pensar que o exemplo da matemática e da física que, por efeito de uma revolução súbita, se converteram no que hoje são, seria suficientemente notável para nos levar a meditar na importância da alteração do método que lhes foi tão proveitosa e para, pelo menos neste ponto, tentar imitá-las, tanto quanto o permite a sua analogia, como conhecimentos racionais, com a metafísica. Até hoje admitia-se que o nosso conhecimento se devia regular pelos objetos; porém, todas as tentativas para descobrir a priori, mediante conceitos, algo que ampliasse o nosso conhecimento, malogravam-se com este pressuposto. Tentemos, pois, uma vez, experimentar se não se resolverão melhor as tarefas da metafísica, admitindo que os objetos se deveriam regular pelo nosso conhecimento, o que assim já concorda melhor com o que desejamos, a saber, a possibilidade de um conhecimento a priori desses objetos, que estabeleça algo sobre Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Em primeiro lugar, Kant promoveu o que ele mesmo chamou de 48 eles antes de nos serem dados. Trata-se aqui de uma semelhança com a primeira ideia de Copérnico; não podendo prosseguir na explicação dos movimentos celestes enquanto admitia que toda a multidão de estrelas se movia em torno do espectador, tentou se não daria melhor resultado fazer antes girar o espectador e deixar os astros imóveis. Ora, na metafísica, pode-se tentar o mesmo, no que diz respeito à intuição dos objetos. Se a intuição tivesse de se guiar pela natureza dos objetos, não vejo como deles se poderia conhecer algo a priori; se, pelo contrário, o objeto (enquanto objeto dos sentidos) se guiar pela natureza da nossa faculdade de intuição, posso perfeitamente representar essa possibilidade. (KANT, 2001, pg. 45/46) Baseado nesse modelo, Kant desenha o Homem como uma combinação de um ser moral e um ser natural. A parte natural do Homem está sujeita ao modelo determinístico de causa e efeito da Chauí nos ajuda a entender esse lado humano: Não existe bondade natural. Por natureza, diz Kant, somos egoístas, ambiciosos, destrutivos, agressivos, cruéis, ávidos de prazeres que nunca nos saciam e pelos quais matamos, mentimos, roubamos. (CHAUÍ, 1995, pg. 344). A Natureza (ou ambiente extra-humano) é, pois, o reino da necessidade, onde coabitam todas as Ciências e a Tecnologia e onde suportamos os devastadores efeitos do Segundo Princípio da Termodinâmica. No ambiente complementar à Natureza, ou seja, o reino humano da práxis, não necessariamente são obedecidas as questões de causalidade e as ações são tomadas com alguma finalidade ou em função da liberdade do Homem. Dessa diferenciação, nasce o que Kant vai chamar de razão teórica e razão prática. A razão teórica tem como objeto de investigação o ambiente extra-humano, aquele sistema causal já descrito acima. A razão prática, por outro lado, cria sua própria realidade e acaba por exercer nessa realidade sua atividade racional. Como dessa atividade racional faz parte a criação de normas, é aceitável que a razão prática crie normas inclusive para si mesma e é isso que Kant vai chamar de dever. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Natureza e sujeita aos impulsos, desejos e paixões. A professora 49 Este [o dever], portanto, longe de ser uma imposição externa feita à nossa vontade e à nossa consciência, é a expressão da lei moral em nós, manifestação mais alta da humanidade em nós. Obedecê-lo é obedecer a si mesmo. Por dever, damos a nós mesmos os valores, os fins e as leis de nossa ação moral e por isso somos autônomos. (CHAUÍ, 1995, pg. 345). O Homem, se se deixar arrastar pela parte que busca incessantemente o prazer e a fuga da dor, não terá, portanto, autonomia ética. Para que isso aconteça, a razão prática precisa vencer a parte Natural para que consiga impor ao Homem seu ser moral. A educação ética para Kant, portanto, ao contrário de se constituir como uma violência contra a natureza passional do Homem, é quem revela a verdadeira natureza do Homem, uma vez que liberdade e satisfação de apetites. Esse dever tem uma forma imperativa, sem concessões, sem hipóteses. Assim, o dever é entendido como um imperativo categórico ou Lei Fundamental da Razão Pura Prática que é explicitado no parágrafo 7 do primeiro capítulo da Crítica da Razão Prática: “Age de tal modo que a máxima de tua vontade possa valer -te sempre como princípio de uma legislação universal ”. (KANT, 2004, pg. 26) Essa crítica da razão, ou seja, o esforço em determinar o limite da razão por meio de uma atividade ordenadora do espírito assinala esse limite como sendo o mundo da experiência sensível, negando, por consequência, a possibilidade de uma metafísica como ciência, o que enseja a ideia do Positivismo, uma doutrina desenvolvida por Auguste Comte (2002), que tem como conceito -chave a Lei dos Três Estados. Essa lei considera que os seres humanos passam por três fases na forma de conceber suas ideias: a fase teológica, a metafísica e, finalmente, a positiva. O próprio Comte (2002) enuncia essa lei: De acordo com esta doutrina fundamental, todas as nossas especulações estão inevitavelmente sujeitas, assim no indivíduo Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. entende o destino racional humano e não se ilude na confusão entre 50 como na espécie, a passar por três estados teóricos diferentes e sucessivos, que podem ser qualificados pelas denominações habituais de teológico, metafísico e positivo, pelo menos para aqueles que tiverem compreendido bem o seu verdadeiro sentido geral. O primeiro estado, embora seja, a princípio, a todos os respeitos, indispensável deve ser concebido sempre, de ora em diante, como puramente provisório e preparatório; o segundo, que é, na realidade, apenas a modificação dissolvente do anterior, não comporta mais que um simples destino transitório, para conduzir gradualmente ao terceiro; é neste, único plenamente normal, que consiste, em todos os gêneros, o regime definitivo da razão humana. (COMTE, 2002) Claro que essa aceitação passiva do que é “dado” implica em uma formulação ética que não se sujeita ao julgamento da lente dever-ser e, consequentemente, foge do que se pretende chegar com levar a sistematizações bastante díspares. Este breve fragmento da complexa f ilosofia kantiana é útil para explicitar o papel da razão na ética e serve para fechar esse primeiro ciclo sobre algumas questões éticas, desde a Antiguidade Grega com Aristóteles imaginando a razão gravitando em volta do objeto até a filosofia revolucionária kantiana em que o próprio modelo de conhecimento se inverte e a razão vem para o centro da órbita na qual gravitam agora os objetos do conhecimento. 1.6. A Crise do Pensamento Racional (séculos XIX e XX) A razão percorreu um longo caminho desde o pré-socrático Heráclito de Éfeso, com seu Fragmento 119: Éthos anthrópo dáimon 9 9 Foi recusada a tradução proposta por José Cavalcante de Souza para o fragmento 119 (“Heráclito dizia que o ético no homem é o demônio e o demônio é o ético”) por crer que a expressão Éthos anthrópo dáimon carregue a ideia de uma divindade sob a qual se habita, conforme estabelecido em CABRAL (2011). Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. a Tecnoética. O interessante é que a mesma fonte kantiana pode 51 (HERÁCLITO, 1996, pg. 100) até Nietzsche com sua famosa frase Gott ist tot 10 (NIETZSCHE, 2011). A frase de Heráclito pode ser traduzida como “a morada humana (ou éthos) contém a divindade”. A palavra ήθος (ethos), grafada com a vogal longa eta (η) pode “estada, lugar de morada” (CABRAL, 2011). significar também Habitando diuturnamente com a divindade é que o homem se realiza como tal. Não era o homem que criava a divindade, mas esta, como uma inspiração, é que o norteava. Em Nietzsche, a ideia de que Deus está morto aparece no aforisma 125 de A Gaia Ciência, reproduzido abaixo: Não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs-se a gritar incessantemente: “Procuro Deus!”? – E como lá se encontrassem muitos daqueles que não criam em Deus, ele despertou com isso uma grande gargalhada. Então ele está perdido? Perguntou um deles. Ele se perdeu como uma criança? Disse o outro. Está se escondendo? (...) O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. “Para onde foi Deus?”, gritou ele, “já lhes direi! Nós o matamos – vocês e eu. Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos nós, ao desatar a terra do seu sol? Para onde se move ela agora? Para onde nos movemos? Para longe de todos os sóis? Não caímos continuamente?(...)” (NIETZSCHE, 2011) Não se trata, evidentemente, de nenhum conceito ateísta procurando comprovar a morte de Deus, mas sim de mostrar onde foi parar a cultura ocidental, ou seja, como é que o daimon de Heráclito morreu no coração do homem, que o substituiu pela lógica c apitalista. 10 “Deus está morto” (tradução livre do autor) Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. É como fonte de sentido realizador da existência que a divindade é inerente, isto é, sempre presente na morada do homem. É na ausculta e correspondência a esta fonte que o homem realiza-se em seu ser. (CABRAL, 2011). 52 Nesse movimento de ascensão da racionalidade é que irrompeu no Ocidente a chamada desaparecimento ocidental, que do vinha “morte horizonte se de Deus”. organizador mantendo, Essa de apesar morte toda das fala a do cultura repetidas e contornáveis crises da racionalidade. Até o surgimento da ciência moderna, esse horizonte vinha balizando a cultura no Ocidente. Do ponto de vista das novas tecnologias do século XX, a razão sofre um considerável abalo com o modelo apresentado pela ciência moderna, mais especificamente a Física Quântica. Os princípios racionais que até então se imaginava m estar em concordância com a realidade foram subvertidos quando da proposição de novos modelos abalo foi no que a professora Chauí chama de Princípio do Terceiro Excluído, cujo enunciado é: “Ou A é x ou é y e não há terceira possibilidade”. Por exemplo: “Ou este homem é Sócrates ou não é Sócrates”; “Ou faremos a guerra ou faremos a paz”. Este princípio define a decisão de um dilema – “ou isto ou aquilo” – e exige que apenas uma das alternativas seja verdadeira. Mesmo quando temos, por exemplo, um teste de múltipla escolha, escolhemos na verdade apenas entre duas opções – “ou está certo ou está errado” – e não há terceira possibilidade ou terceira alternativa, pois, entre várias escolhas possíveis, só há realmente duas, a certa ou a errada. (CHAUÍ, 1995, pg.60). Em 1905, o annus mirabilis de Albert Einstein, foi publicado um artigo seu com o nome de Um ponto de vista heurístico relacionado com a emissão e transformação da luz, que revolucionou as bases do conhecimento ao introduzir o conceito de pacotes (fóton) de luz e estabelecendo a famosa dualidade onda-partícula, questionando o Princípio do Terceiro Excluído: Isso significou que já não se podia dizer: “ou a luz se propaga por ondas contínuas ou se propaga por partículas descontínuas”, como exigiria o princípio do terceiro-excluído, mas sim que a luz pode propagar-se tanto de uma maneira como de outra. (CHAUÍ, 1995, pg.61). Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. para compreender a estrutura microscópica da matéria. O grande 53 Além desse Princípio do Terceiro Excluído, há ainda que se levar em conta que a razão, até o advento da Mecânica Quântica, operava com outros princípios como o da identidade e o da não contradição, que podem ser assim enunciados: Por exemplo, depois que um matemático definir o triângulo como figura de três lados e de três ângulos, não só nenhuma outra figura que não tenha esse número de lados e de ângulos poderá ser chamada de triângulo como também todos os teoremas e problemas que o matemático demonstrar sobre o triângulo, só poderão ser demonstrados se, a cada vez que ele disser “triângulo”, soubermos a qual ser ou a qual coisa ele está se referindo. O princípio da identidade é a condição para que definamos as coisas e possamos conhecê-las a partir de suas definições. Princípio da não-contradição (também conhecido como princípio da contradição), cujo enunciado é: “A é A e é impossível que seja, ao mesmo tempo e na mesma relação, não-A”. Assim, é impossível que a árvore que está diante de mim seja e não seja uma mangueira; que o cachorrinho de dona Filomena seja e não seja branco; que o triângulo tenha e não tenha três lados e três ângulos; que o homem seja e não seja mortal; que o vermelho seja e não seja vermelho, etc. Sem o princípio da não-contradição, o princípio da identidade não poderia funcionar. O princípio da não-contradição afirma que uma coisa ou uma ideia que se negam a si mesmas se autodestroem, desaparecem, deixam de existir. Afirma, também, que as coisas e as ideias contraditórias são impensáveis e impossíveis. (CHAUÍ, 1995, pg.60). A Mecânica Quântica observa que o Universo é uma combinação de naturezas que convivem num estado de superposição. Cada uma dessas naturezas teria uma probabilidade de existir. Assim, a realidade é vista como sendo a soma de todas as naturezas Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Princípio da identidade, cujo enunciado pode parecer surpreendente: “A é A” ou “O que é, é”. O princípio da identidade é a condição do pensamento e sem ele não podemos pensar. Ele afirma que uma coisa, seja ela qual for (um ser da Natureza, uma figura geométrica, um ser humano, uma obra de arte, uma ação), só pode ser conhecida e pensada se for percebida e conservada com sua identidade. 54 possíveis, compreendendo ao mesmo tempo tod os os estados possíveis e, por consequência, tod os os estados antagônicos. Coexistiriam, assim, os estados E1 e E2 assim como os estados não E1 e não-E2. Ora, definir um modelo como esse para a realidade é o mesmo que dizer que os princípios do terceiro -excluído, da identidade e da não-contradição não se aplicam. O conceito de superposição vem da equação do físico austríaco Erwin Schrödinger (1887 – 1961) para estabelecer o estado dos elétrons. De acordo com o modelo deste cientista, ganhador do Premio Nobel de Física em 1933, o estado de um elétron deve ter uma representação que leve em conta a soma de todos os estados realmente existir. Antes de ser observado, portanto, o elétron seria a soma superposta de todos os estados possíveis. Para avali ar o impacto de tal modelo no mundo macroscópico, Schrödinger criou mentalmente a experiência que colocava um gato dentro de uma caixa, junto com uma ampola que continha um veneno letal e descreve uma situação em que o gato pode estar vivo e morto ao mesmo tempo. A webpage da Universidade Técnica de HamburgHarburg traz a descrição dessa experiência feita pelo próprio Schrödinger: Pode-se mesmo montar casos bem ridículos. Um gato é trancado dentro de uma câmara de aço, juntamente com o dispositivo seguinte (que devemos preservar da interferência direta do gato): num contador Geiger há uma pequena porção de substância radioativa, tão pequena que talvez, no decurso de uma hora, um dos seus átomos decaia, mas também, com igual probabilidade, talvez nenhum decaia; se isso acontecer, o tubo contador liberta uma descarga e através de um relé solta um martelo que estilhaça um pequeno frasco com ácido cianídrico. Ao deixar todo este sistema isolado durante uma hora, então poderia ser dito que o gato ainda vive, se nesse 11 meio tempo nenhum átomo decaiu. A função-psi do sistema como 11 Função-psi é conhecida como função de onda, uma ferramenta matemática usada em Mecânica Quântica para descrever um sistema físico qualquer. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. possíveis, cada um deles com uma probabilidade diferente de 55 um todo iria expressar isto contendo em si mesma o gato vivo e o gato morto (desculpem-me a expressão) misturados ou dispostos em 12 partes iguais. (TUHH, 2011) Todas essas constatações fizeram com que o físico alemão Werner Heisenberg postulasse o Princípio da Incerteza, no qual ele mostra ser impossível determinar ao mesmo tempo a posição e a velocidade de uma partícula, demolindo a crença newtoniana , que vigorava até então, de medir consistentemente a posição e o momento linear (por consequência, a velocidade) de uma partícula qualquer. Quântica foi tão expressiva que deu a ele o Premio Nobel de Física em 1932. Com o passar do tempo e o advento da Segunda Grande Guerra, os americanos, em pleno desenvolvimento do Projeto Manhattan, que preparava uma bomba atômica para por fim ao conflito bélico, têm notícias que esse físico alemão teria conhecimentos suficientes para criar para o Reich nazista uma arma atômica semelhante à que desenvolviam em Los Alamos, nos Estados Unidos. Conta o jornalista de divulgação científica, Michael White, que o serviço secreto americano, em dezembro de 1944, envia para Zurique um agente secreto com a missão de matar Heisenberg durante uma reunião na Universidade de Zurique, se fosse constatado por esse agente a capacidade de Heisenberg em fornecer dados 12 No original: “One can even set up quite ridiculous cases. A cat is penned up in a steel chamber, along with the following device (which must be secured against direct interference by the cat): in a Geiger counter there is a tiny bit of radioactive substance, so small, that perhaps in the course of the hour one of the atoms decays, but also, with equal probability, perhaps none; if it happens, the counter tube discharges and through a relay releases a hammer which shatters a small flask of hydrocyanic acid. If one has left this entire system to itself for an hour, one would say that the cat still lives if meanwhile no atom has decayed. The psi-function of the entire system would express this by having in it the living and dead cat (pardon the expression) mixed or smeared out in equal parts”. (tradução livre do autor). Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. A contribuição de Heisenberg para o desenvolvimento da Física 56 relevantes para a construção dessa suposta bomba atômica nazista. A reunião na Universidade de Zurique era para uma seleta plateia, composta de vinte e poucas pessoas, entre físicos e engenheiros. O jornalista White descreve em seu livro Rivalidades Produtivas: O homem [agente secreto] é Morris Berg, um ex-campeão de beisebol, agora um agente secreto do Office of Strategic Services (OSS, uma agência americana de inteligência, precursora da CIA). Sua missão é determinar, com base na palestra de Heisenberg, se o cientista alemão conseguiu ou não desvendar o segredo da construção de uma arma atômica, e, caso acredite que os alemães estejam prestes a construir tal arma, ele, na frente dos cientistas ali reunidos, irá sacar sua pistola e atirar no meio dos olhos de Heisenberg. (WHITE, 2003, pg.246) Felizmente, o agente Berg não consegue entender nada do que pela compreensão dos segredos do átomo e o consequente aumento de poder que histórias como essa são cunhadas na construção de um universo científico que viria a abalar os pilares da ética no planet a. A Física Clássica considerava que a Natureza obedecia a leis universais da razão objetiva sem depender da razão subjetiva, ou seja, as leis da Natureza existem por si mesmas, sem depender do sujeito do conhecimento. A Teoria da Relatividade, porém, queb ra mais esse paradigma ao postular que as leis da Natureza dependem, sim, do sujeito do conhecimento: [...] para um observador situado fora de nosso sistema planetário, a Natureza poderá seguir leis completamente diferentes, de tal modo que, por exemplo, o que é o espaço e o tempo para nós poderá não ser para outros seres (se existirem) da galáxia; a geometria que seguimos pode não ser a que tenha sentido noutro sistema planetário; o que pode ser contraditório para nós poderá não ser para habitantes de outra galáxia e assim por diante. (CHAUÍ, 1995, pg.62). Fatos como esses descritos no âmbito da Física Quântica abalaram a razão no século XX, desvendando a indeterminação da Natureza. A esse abalo, devem-se adicionar dois outros momentos Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Heisenberg dizia e poupa sua vida. É tamanho o frenesi da busca 57 importantes, trazidos por Marx, com a noção de ideologia e Freud, ao introduzir o conceito de inconsciente. Marx, voltando sua capacidade investigativa para a Política e a Economia e Freud se atendo às questões psíquicas, mostraram o novo paradigma no qual se inseria a Marx descobriu que temos a ilusão de estarmos pensando e agindo com nossa própria cabeça e por nossa própria vontade, racional e livremente, de acordo com nosso entendimento e nossa liberdade, porque desconhecemos um poder invisível que nos força a pensar como pensamos e agir como agimos. A esse poder - que é social ele deu o nome de ideologia. Freud, por sua vez, mostrou que os seres humanos têm a ilusão de que tudo quanto pensam, fazem, sentem e desejam, tudo quanto dizem ou calam estaria sob o controle de nossa consciência porque desconhecemos a existência de uma força invisível, de um poder que é psíquico e social - que atua sobre nossa consciência sem que ela o saiba. A esse poder que domina e controla invisível e profundamente nossa vida consciente, ele deu o nome de inconsciente. (CHAUÍ, 1995, pg. 52) Freud procurou identificar as três feridas narcísicas que afetaram e macularam a magnífica impressão que tínhamos de nós mesmos. Essas feridas foram infligidas à humanidade por Copérnico, Darwin e ele mesmo, Sigmund Freud: A primeira foi a que nos infligiu Copérnico, ao provar que a Terra não estava no centro do Universo e que os homens não eram o centro do mundo. A segunda foi causada por Darwin, ao provar que os homens descendem de um primata, que são apenas um elo na evolução das espécies e não seres especiais, criados por Deus para dominar a Natureza. A terceira foi causada por Freud com a psicanálise, ao mostrar que a consciência é a menor parte e a mais fraca de nossa vida psíquica. (CHAUÍ, 1995, pg. 166). Continuando sua trajetória, o homem promove o casamento da ciência com a burguesia, classe social em ascensão desde o fim da Idade Média e passa a sustentar uma outra lógica na cultura ocidental – a lógica do lucro, da produção e da funcionalidade. O Outro então passa a ser uma peça, um meio, algo que pode ser descartado se não desempenhar convenientemente sua função. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. razão: 58 Nessa nova ordem, na qual se intensifica a “morte de Deus”, fica difícil sustentar uma Ética que ainda mantenha uma estabilidade nas relações humanas ou entre o homem e a Natureza. Apesar de confrontada com uma concepção mais moderna , como a mostrada até aqui, a ética aristotélica não perde sua força , como já sublinhado anteriormente nesta dissertação no item 1.2, através de um comentário comentário do do professor professor Sánchez Vázquez, o Vázquez. modo Reiterando como a o filosofia aristotélica lida com a questão da felicidade, considerando como prérequisitos a segurança econômica e a liberdade pessoal , é Os homens não podem ser verdadeiramente felizes na miséria, na exploração, na falta de liberdades políticas, na discriminação racial etc, mas, por outro lado, cair-se-ia numa posição simplista se se pensasse que a criação das condições sociais favoráveis ao desaparecimento dos males que mergulham na maior infelicidade tantos seres humanos seria suficiente para dar a todos e a cada um dos indivíduos sua felicidade pessoal. (VÁZQUEZ, 2011, pg. 159) Numa sociedade capitalista, em que o homem vale não pelo que é, mas pelo que possui, a felicidade pode se configurar como sendo uma posse de bens materiais, conforme explica Sánchez Vásquez. O que deve ficar determinado neste modelo é a concretização do conteúdo da felicidade. Na sociedade escravista grega, o conteúdo dessa felicidade era a contemplação, na sociedade burguesa moderna, esse conteúdo é a posse de bens. Apesar de ser possível fazer uma construção bastante elaborada do conceito de Ética, ainda assim pode surgir uma sensação de vazio, como deixa entrever Edgar Morin , antropólogo e filósofo francês, em sua obra. O vazio denunciado por Morin se configura na questão da operacionalização de uma ética, como eu sinto, por exemplo, na dificuldade em explicitar esse conceito no dia-a-dia com os meus alunos da Escola de Engenharia do Centro Unisal de Americana. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. completamente atual: 59 Morin, no seu livro Ética, tece um pouco mais esse tema com os paradoxais fios puros de seu pensamento complexo e procura mostrar que a ética, produto da mente humana, é fr ágil como o ser humano que a produz e acaba sempre submetida à incerteza, ao dilaceramento, ao confronto. O oposto da paralisação externada no parágrafo anterior é o estímulo, uma das grandes armas de Morin no manejo de sua dialógica. Assim, ele começa a d erramar um pouco de luz sobre esse tema: 1.7. Fernando Savater e Yves de La Taille: o pensamento contemporâneo A aposta vem, assim, em dois autores – Fernando Savater e Yves de La Taille, que, imitando Aristóteles num inusitado detalhe, mostram a ética para os seres mais amados: filhos e pais. Aristóteles aprende um pouco de ética com seu pai, Nicômaco, amplia e formaliza o seu conhecimento para seu filho, também chamado Nicômaco. Fernando Savater, um filósofo espanhol, nascido em San Sebastián, no país basco, em 1947, escreve para o prestigiado jornal El País em Madrid e é o autor de um magnífico livro: Ética Para Meu Filho. Nesse livro, o personagem “pai” procura explicar ao “filho” alguns pontos da reflexão moral sobre a vida, sem cair na solução fácil de um receituário de respostas moralizantes. Savater realça que “a reflexão moral [...] é uma parte essencial de qualquer educação digna desse nome”. (SAVATER, 1996, pg. 10) Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. A incerteza paralisa e estimula. Paralisa, por levar, com frequência, à inação por temor das consequências eventualmente funestas. A incerteza estimula pois reclama aposta e estratégia. (MORIN, 2007, pg. 59) 60 Yves Joel Jean-Marie Rodolphe de La Taille é francês, nascido em Saverne, Alsácia em 18 de maio de 1951 e vive no Brasil desde criança. É psicólogo, livre docente pela USP, exercendo atualmente a vice-direção do Instituto de Psicologia da USP. Estimulado pelo livro de Savater, como explicita em seu prefácio, e ainda inspirado por sua herança francesa, La Taille busca em René Goscinny (criador também da famosa história em quadrinhos Asterix, o Gaulês) e seu personagem infantil – Le Petit Nicolas – criado em 1959, inspiração para criar o protagonista-menino de seu livro: Tomás. Yves escreveu um grande livro: Ética Para Meus Pais, mostrando como Tomás observa os pais, a escola e os amigos e procura assim pequeno, não tem ainda formado um juízo de valor, ta refa que fica a cargo do leitor que, junto com o protagonista, vai criticando o consumo exagerado e o mundo das aparências, e ntre outras coisas. Savater inicia o seu livro com o personagem “pai” mostrando ao seu filho Amador o que é a ética e para isso vai lançar mão do conceito de liberdade. Para tanto, procura diferenciar o que é bom do que é mau e o que não tem muita importância. Alguns saberes são úteis, necessários – é preciso saber que um pulo de um andar muito alto em um edifício mata; aquilo que você tem que saber para ganhar a vida é necessário que saiba muito bem e, neste país do futebol, você pode até saber algo sobre as regras de beisebol, mas se não souber, não vai sentir falta nenhuma. “A única coisa que todos concordamos é que não concordamos com todos ” (SAVATER, 1996, pg. 23), continua o autor basco em seu texto. Alternativamente, no livro de La Taille, esse aspecto é magistralmente sublinhado numa tarefa que a professora dá para seus alunos, entre os quais está o pequeno Tomás e que consistia em pesquisar na família qual era o significado de virtude. Para começar, os alunos deveriam escrever no Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. levantar alguns pontos éticos importantes. Como Tomás é muito 61 caderno o que mais admiravam nas outras pessoas e depois a professora consolidaria no quadro-negro uma lista geral. Ficou uma lista bem comprida com coisas do tipo ter piscina em casa, ajudar os outros, ser bem-humorado, ter cabelo verde, ser legal, ter pai e mãe que vivem juntos, não brigar, tirar boas notas, dar medo nos outros, ter celular, ser bonito, correr bem rápido, conhecer os Estados Unidos, conhecer alguém famoso, saber desenhar mangá, ser amigo de todos, saber falar inglês, não ter medo, ser rico, dividir as coisas, ter duas limusines, ter muitos livros, comer sem engordar, dar presente do shopping, ter aparecido na televisão, estar estressado, morar em condomínio, ser inteligente, emprestar os brinquedos, mandar em todo o mundo, fazer lição de casa, ser engraçado, inventar coisas, ter roupa da moda, ter namorado, ser admirável e mais coisas que quase não cabia na lousa. (TAILLE, 2011, pg. 212,) vêm à mente é adicionada um pouco do formalismo de Savater, mostrando que liberdade não é onipotência, e que ser livre para escolher não é conseguir tudo. E nem sequer se é livre em tudo – em primeiro lugar, existe um determinismo em se nascer de determinados pais e em determinado país, que tem uma linguagem que irá certamente condicionar o pensamento, mas se é livre para quere r as coisas. Acompanha esse raciocínio a dualidade entre as térmitas e o comportamento de Heitor na Guerra de Tróia. É uma característica marcante no livro de Fernando Savater a quantidade de exemplos retirados da Literatura e da História para mostrar o ponto de vista que está sendo discutido. A forma e o conteúdo conspiram juntos para guiar o adolescente nas lições básicas de ética. As térmitas -soldados defendem o formigueiro em caso de colapso enquanto as térmitas operárias vão reconstruindo a carapaça protetora que ruiu. Quando conseguem reconstruir, os elementos da comunidade que a defendia contra predadores naturais são deixados fora do formigueiro para encontrar a morte. É o dever das térmitas-soldados e nenhuma delas pensa em voltar para ser salva. Alternativamente, Heitor tinha que lutar com o poderoso Aquiles na frente das muralhas de Tróia e poderia muito bem trair seu povo. Era bastante improvável que isso Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. À deliciosa liberdade que as crianças têm em dizer tudo que lhes 62 acontecesse, mas não impossível, porque Heitor era humano e poderia exercer seu livre -arbítrio. Efetivamente, Heitor obedeceu a tradição de herói e enfrentou a morte no combate com Aquiles. As térmitas-soldados vão à luta porque têm que fazer sua obrigação e Heitor vai ao combate contra Aquiles porque quer. Quem reclama da liberdade cerceada ou manipulada pela televisão e pelos governantes está, em última inst ância, bastante satisfeito em saber que não é livre. “Ufa! Que peso tiramos de cima de nós! Como não somos livres, não podemos ter a culpa de nada que nos aconteça.” (SAVATER, 1996, pg. 30). Mesmo que as pessoas se entreguem como escravos e que venham a seguir ce gamente o escolher por si mesmo. Um filósofo francês do século XX, Jean-Paul Sartre, disse que “estamos condenados à liberdade”. Para essa condenação não há indulto possível. (SAVATER, 1996, pg. 69). Na sua tarefa de ancorar referências literárias ao conteúdo que procura explicitar ao seu interlocutor , o pai no livro de Savater encerra sua aula de liberdade para o filho com as palavras de Octávio Paz em seu ensaio A Outra Voz: A liberdade não é uma filosofia e nem sequer uma ideia: é um movimento da consciência que nos leva, em certos momentos, a pronunciar dois monossílabos: sim ou não. Em sua brevidade instantânea, como a luz do relâmpago, desenha-se o signo contraditório da natureza humana. (apud SAVATER, 1996, pg. 32) Essa liberdade leva ao erro, por vezes, inadvertidamente. A procura do fazer bem, do pensar bem, é que ajuda o pai a definir Ética para seu filho: [...] parece prudente atentarmos bem para o que fazemos, procurando adquirir um certo saber-viver que nos permita acertar. Esse saber viver ou arte de viver, se você preferir, é o que se chama de ética. (SAVATER, 1996, pg. 31, grifo do autor) Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. tirano ou se deixar levar pelas massas, estará escolhendo não 63 Em seguida, Savater discute os motivos que levam as pessoas a tomar determinadas atitudes e divide esses motivos em ordens, costumes e caprichos. A motivação de ordem interna são os caprichos, que brotam espontaneamente, ao contrário das ordens, cuja força, muitas vezes, provém do medo, ou mesmo paradoxalmente, do afeto e da confiança depositada em quem emite aquelas ordens. Essa motivação externa também pode trazer uma recompensa em seu bojo. Os costumes também são ordens de alguma forma. Pode-se estar obedecendo a modismos que estão bastante relacionados à comodidade. Para os jovens, por exemplo , pode ser muito mais fácil obedecer a modismos e não destoar do Paralelamente à didática de Savater para definir e classificar os motivos da ação, La Taille abre seu livro com uma curiosa cena da família de Tomás indo ao cinema. O pai, orgulhoso de seu carro novo, coloca toda a família – o casal, Tomás e sua irmã adolescente, Júlia – e segue pela estrada que os separa do condomínio de luxo onde moram do cinema no shopping. O pai já vai alertando a família que o trânsito é uma guerra e dirige como um doido pela estrada, ultrapassando outros carros pela direita, apesar dos avisos da mãe de Tomás, passando em semáforos vermelhos e buzinando freneticamente para mulheres ao volante. Depoi s dessa maratona, e já na fila do cinema, a família se depara com um fura -fila que passa por todos na fila e vai entrar lá na frente, sem ter que esperar a sua vez. O pai, possesso e cheio de raiva, comenta bem alto para que todos ouçam: “Mas que falta de ética.” (TAILLE, 2011, pg. 16) Aristóteles fala de imitação (mimesis) na Poética. O filósofo grego define tragédia como um convite do autor para que o espectador se envolva com determinada situação, visando a educação da pólis. Ora, os atores precisam viver determinado caráter de um personagem e acabam fazendo isso pela ação. É através dela Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. grupo do que buscar uma saída mais satisfatória para cada situação. 64 que mimetizam o caráter que interessa no processo da tragédia grega. Nas palavras de Aristóteles: Ora, os homens possuem tal ou tal qualidade conformemente ao caráter, mas são bem ou mal-aventurados pelas ações que praticam. Daqui se segue que, na tragédia, não agem as personagens para imitar caracteres, mas assumem caracteres para efetuar certas ações; por isso as ações e o mito constituem a finalidade da tragédia, e a finalidade é de tudo o que mais importa. (ARISTÓTELES, 1991b, pg. 252) Como a vida é um inventar contínuo, as ordens, costumes e caprichos acabam não sendo muito úteis. É interessante saber que elas existem para que seja possível identificá-las na hora em que a vida apresentar uma questão inédita e uma atitude tenha que ser “estava apenas cumprindo ordens” ou mesmo votar no político de sempre. Liberdade é a capacidade de decisão que as pessoas precisam desenvolver para educarem-se para a arte de viver na megalópole da atualidade. Diferentemente da definição aristotélica, já vista neste texto, que considerava a função do homem como uma atividade de alma capaz de desenvolver um princípio racional, Fernando Savater usa uma linguagem mais coloquial para falar com seu filho e fala da utilidade de um bom jogador do Barcelona ou das qualidades de uma boa motocicleta, mas não consegue definir normas para um bom homem, como havia feito facilmente para ofícios e instrumentos. No busca do viver bem, Savater já desconstruíra a atitude baseada em ordens, costumes e caprichos e agora não consegue definir uma norma clara para dizer o que é um bom homem. A ética, ou arte de viver, como foi rebatizada neste contexto, encontra a saída, mais uma vez, através da Literatura, agora com Rabelais e sua obra Gargantua e Pantagruel. A resposta, certamente intrigante para um adolescente ( e para todos nós também) é seguir o conselho da placa que Gargantua Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. tomada. Não é aceitável, como fez o oficial nazista, que disse que 65 coloca na entrada da ordem que fundou. Na placa estava escrito: Faça o que quiser. Ao dizer “faça o que quiser”, o que deve ficar claro perante essa liberdade toda é pensar bastante no que se quer e pensar com ousadia na tarefa de dar-se uma vida boa. Savater mostra que o homem não é uma realidade biológica somente, mas também uma realidade cultural e estende a questão da relação com a pólis aristotélica para uma relação boa com os outros s eres humanos, sem os quais não teria sido possível a inserção em uma realidade cultural. A ponte para a reciprocidade, que é o objetivo de Savater, é construída através da base de qualquer cultura: a linguagem. Longe cultural, herdada e aprendida de outros seres humanos. A cultura dentro da qual existe o processo que nos torna humanos parte da linguagem, mas não é só linguagem. O que nos torna humanos vem principalmente da reciprocidade exemplifi cada pela própria linguagem. Assim, é difícil ter uma vida boa sem proporcionar uma vida boa também aos que nos fazem companhia na nossa imensa pólis do século XXI. É impossível imaginar a ética sem o outro. Um tema importantíssimo hoje nessa megalópole é o preconceito, discutido tanto em Savater como em La Taille. Savater inicia essa discussão com a referência literária de Daniel Dafoe e seu magnífico livro Robinson Crusoé. Num primeiro momento, na solidão de sua ilha deserta, os problemas do náufrago Robinson Crusoé eram eminentemente técnicos, relativos exclusivamente à sobrevivência. Os problemas éticos aparecem quando Robinson Crusoé encontra pegadas na areia e percebe a existência de uma outra pessoa na ilha: Tornei ao local em que vira as pegadas, e lá as encontrei, muito nitidamente. Fiquei a olhá-las, por longo tempo, como se não acreditasse no que via. Aterrorizado, como um coelho assustado, Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. de ser uma função natural do homem, a linguagem é uma criação 66 corri para casa, olhando para trás a cada passo, tomando por vultos de gente as altas moitas que encontrava. (DAFOE, 2000, pg. 43) Como lidar com esse “outro”? A hostilidade seria uma postura atraente, que protegeria os homens do medo projetado no outro, mas Savater adverte que “ao me comportar como inimigo para com meus semelhantes, sem dúvida estarei aumentando as possibilidades de que eles se transformem irremediavelmente em meus inimigos também”. (SAVATER, 1996, pg. 122). Uma boa tentativa seria colocar-se no lugar do outro, para exercitar o que existe da gente no outro. Se não houvesse nada em comum entre as pessoas, não seria possível trocar nem uma palavra. Mesmo que sejamos muito diferentes, que um seja homem e o outro mulher; que um seja branco outro heterossexual, “somos feitos da substância com que são feitos os sonhos” 13. (SHAKESPEARE, 1990, pg. 17) Em seu livro, La Taille coloca a questão do preconceito novamente como um projeto escolar. A professora de Tomás pede que seja feita uma pesquisa sobre as origens de cada família e os alunos precisam entrevistar seus familiares. Na família de Tomás, além de seu pai, que gosta de ser chamado de Giovane, mas cujo nome verdadeiro é Valceniro, de sua mãe, Norma (um excelente nome para mães) e de sua irmã Júlia, existe um avô materno comunista (Vô Chico) e sua namorada psicóloga, Lua. Ainda no universo de Tomás convive a empregada doméstica Mariflores, com quem Tomás começou a entrevista, pela imensa vontade que estava em fazer o dever de casa e não consegui r encontrar nenhum familiar nessa hora. 13 Trecho de A Tempestade, de William Shakespeare. No original: “We are such stuff as dreams are made of” (tradução livre do autor). Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. e o outro negro; um seja rico e o outro pobre; um homossexual e o 67 Mariflores, que preferia ser chamada de profissional de apoio doméstico, comunica ao menino, em resposta às questões sugeridas pela professora, que é da raça negra. Mas a moça, com antepassados africanos e brancos, não é totalmente negra e Tomás não entende porque ela se autodenomina negra. Dos antepassados africanos, Mariflores não tem nenhuma informação, conhece mais os ascendentes baianos, mulatos como ela e conclui que devem ter existido brancos também na família, senão ela ainda seria totalmente negra. Se existem brancos e negros na composição da raça dela, porque ela escolheu negro para ser sua raça – questiona o menino? - Então tem brancos na sua família? - Entre as pessoas da família que eu conheço, não. É tudo mais ou menos escuro. Mas que teve, teve, senão eu era negra. - Mas você falou que é negra. - Tô falando agora no sentido de totalmente preto. - Complicação. Tem uma coisa que eu não entendi: se tem branco na sua família, gente que não nasceu na África, por que você não é da raça branca também? - Porque tenho pele escura, olha só para mim. - Japonês também tem. - Mas japonês nada tem a ver com a África, Tomás! Para com isso. - Então, basta ter um africano só na família para ser negro? - Um ou dois, acho que sim, porque, na cor da pele, eles sempre ganham. - E japonês, que não é branco, também não ganha? Pode ter japonês na sua família, não pode? - Para com isso, Tomás. Não tem. Aliás, eu reparei que japonês não ganha na cor da pele, mas ganha sempre nos olhos puxados. Se japonês tem filho com branco, o moleque pode nascer branco, mas terá olho puxado, não tem jeito. E eu tenho olho puxado? (TAILLE, 2011, pg. 124/125) Na hora de entrevistar o avô comunista, a conversa vai inexoravelmente para o campo político e a irmã adolescente entra na conversa para entender o que é ser de esquerda. O avô, entre um gole de uísque e outro, tece loas ao comunismo, à classe trabalhadora, aos direitos humanos, à condenação do racismo etc. A Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. O diálogo com Mariflores é saborosíssimo: 68 irmã adolescente entende, então, que gente da esquerda é do bem e descobre porque gente como o pai dela, que não é de esquerda, é do mal. Tomás, angustiado, não consegue responder às questões da escola, que só pede para que os membros da família definam a que raça pertencem. Depois que o menino, instrumentalizado pela conversa com a empregada e notando que o pai é mais moreno do que a mãe, pergunta se o pai também é negro. O pai, então, revela uma grande surpresa para a família: pode ser que tenha ascendentes negros em sua família. Seu pai, avô de Tomás, tem o nome de um jagunço filósofo: Riobaldo, que era nome prometido pela mãe dele, grávida de Riobaldo deveria ser Valceniro e vem daí a implicância do pai de Tomás com o próprio nome. Houve a preocupação em esconder uma origem mais humilde atrás do sucesso profissional e o filho, com suas perguntas infantis mostrava ao pai que aquilo não tinha a menor importância, o que valia mesmo era o amor que unia aqueles elementos familiares tão díspares, cada um experimentando a vida de uma maneira diferente e, principalmente, cada um se redescobrindo no outro. Ou nas palavras de Riobaldo, não o avô paterno de Tomás, mas o jagunço do Guimarães Rosa: “natureza da gente não cabe em nenhuma certeza”. (ROSA, 1994, pg. 593) Meu interesse original era entender o pensamento ético a partir de Aristóteles e culminar com o entendimento de autores contemporâneos como Yves de La Taille e Fernando Savater que, como Aristóteles, escreveram sobre Ética como se est ivessem falando para seus entes mais queridos. Esse passeio pela Ética também se destina a compreender o pensamento de Hans Jonas, filósofo alemão, discípulo de Heidegger e colega de turma de Hannah Arendt. Ocorreu-me, assim, ouvir os dois autores contempo râneos Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. marido sumido e talvez negro, e que também disse que o filho de 69 sobre a Ética na era tecnológica, tema central da tecnoética de Hans Jonas. Tanto Savater como La Taille foram bastante generosos em compartilhar comigo o que pensavam sobre o assunto. A troca de mensagens que fizemos por e-mail permitiu que eu descobrisse que Savater julga apocalíptico o pensamento de Jonas , apesar de toda a dificuldade do filósofo judeu-alemão Hans Jonas com os tempos sombrios da Segunda Guerra Mundial. Savater vem também de uma zona histórica de conflitos, o País Basco Espanhol, e trata do futuro do planeta com muito mais otimismo do que Jonas, pelo que pude inferir pelos escritos do filósofo espanhol e pelas opiniões explicitadas sobre esse assunto, como pode ser visto na transcrição de modo que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma autêntica vida humana sobre a Terra”.(JONAS, 2006, pg.47) e Savater me respondeu com o texto que segue abaixo: Caro amigo: obrigado pelo teu interesse em meu trabalho. Alegra-me muito que meu livro tenha sido útil. Creio que resumiste bem o sentido principal da obra de Jonas nesse imperativo. Confesso que, para meu gosto, Jonas é um pouco apocalíptico no sentido religioso do termo. Que tenhas muita sorte no aspecto profissional e em tua 14 vida. Cordialmente, F. Savater. (SAVATER, 2011) Yves de La Taille foi ainda mais generoso e mostrou um recorte inusitado da ética no mundo tecnológico. Brindou -me com o exemplo que transcrevo abaixo: Assim, sem muito aprofundar, creio que, do ponto de vista moral (deveres) o equacionamento da tecnologia não deve ser muito problemático: pensá-la como não causando um mal evidente (como o uso de armas, ou a poluição, por exemplo). Em compensação, do 14 No original espanhol: “Estimado amigo: gracias por tu interés por mi trabajo. Me alegra mucho que mi libro te haya sido útil. Creo que has resumido bien el sentido principal de la obra de Jonas en ese imperativo. Te confieso que Jonas es un poco demasiado apocalíptico en el sentido religioso del término para mi gusto. Que tengas mucha suerte en lo profesional y en tu vida. Cordialmente, F. Savater” (tradução livre do autor). Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. abaixo. Discuti com ele sobre o imperativo categórico de Jonas: “Aja ponto de vista ético (a 'vida boa'), penso que há variadas coisas a se pensar, pois várias formas de tecnologia influem na vida das pessoas, sobretudo daquelas (a maioria) que se entregam cegamente a seus encantos. Um dia me perguntaram qual a invenção do século 20 e 21 que mais havia mudado a vidas das pessoas, e respondi: o carro (a resposta esperada era a Internet). Com efeito, esse veículo não somente polui (como se sabe agora), mas levou a modificações profundas nas cidades (que são desenhadas em função dos carros), na educação das crianças (doravante sem ruas), no tempo, no status social (os sem carros, com carros e carrões), na simbologia narcísica (em geral para homens), na economia (empregos e desempregos em massa quando as usinas se 'deslocalizam', como é frequente na Europa), na vida e na morte (o alto índice de acidentes), e assim por diante, sendo que tais variáveis interagem entre si (por exemplo, o grande número de acidentes, em geral atribuídos ao alcoolismo, não aconteceriam se o carro não fosse, para muitos homens, extensão de partes suspeitas de suas personalidades). Por isso, em alguns capítulos do Tomás, coloquei o carro, o celular, o turismo (impossível sem tecnologia) e até uma pobre piscina que é feito para tudo menos para nadar (por onde moro, parece haver mais piscinas que maiôs). (TAILLE, 2011b) A Ciência e seu braço operacional, a Tecnologia vêm encantando o Homem há muito tempo, como poderemos ver no capítulo seguinte, que mostra, de uma maneira concisa, a evolução da Ciência através das eras. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. 70 2. Capítulo II – A evolução da ciência – Algumas considerações Prometeu Acorrentado Jacob Jordaens (1640) Museu Wallraf-Richartz – Colônia – Alemanha 72 A crença ou a validade subjetiva do juízo, relativamente à convicção (que tem ao mesmo tempo uma validade objetiva), apresenta os três graus seguintes: opinião, fé e ciência. A opinião é uma crença, que tem consciência de ser insuficiente, tanto subjetiva como objetivamente. Se a crença apenas é subjetivamente suficiente e, ao mesmo tempo, é considerada objetivamente insuficiente, chama-se fé. Por último, a crença, tanto objetiva como subjetivamente suficiente, recebe o nome de ciência. (KANT, 2001, pg. 662) Este capítulo procura entender a capacidade tecnológica do homem e seu empenho para usar a tecnologia para oferecer um conforto maior a si mesmo e ao seu grupo , objetivando um aumento de bem-estar à sociedade que começava a se constituir como tal. A primórdios da Humanidade, seu desenvolvimento através dos tempos até as conquistas mais significativas da modernidade. Em um primeiro momento, é resgatado o mito de Prometeu para assinalar o início dos tempos tecnológicos na raça humana, identificando esse tempo com o domínio do fogo trazido dos céus por Prometeu, cujo mito termina com a abertura da caixa de Pandora, espalhando toda a sorte de males pelo mundo. A capacidade tecnológica, assim, está intimamente associada à angústia de criar, que é revisitada por Ortega y Gasset (2011) para identificar no homem o necessário mergulho dentro de si, até as profundezas de seus labirintos para de lá sair iluminado pela criação: ou refletido no escudo de bronze, ou resplandecente na luz precisa de uma fibra óptica. A distância entre uma e outra criação é então pontuada pela evolução das ciências, que compõe o cerne do capítulo 2. Busca-se nesse capítulo resumir o ato de criar tecnologia desde a Idade Antiga que se preocupava em como estruturar as ciências, por exemplo, em ciências produtivas, práticas e teoréticas até a Idade Contemporânea, preocupada em desvendar a estrutura da matéria até sua íntima Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. capacidade tecnológica do homem, neste capítulo, é vista desde os 73 relação com a energia. Nesse caminhar, a ciência e a tecnologia passam pelos tempos escuros da Idade Média e o lento e grad ativo despertar da idade Moderna. O capítulo termina com alguns aspectos da obra de Hans Jonas, filósofo alemão de origem judaica, que havia sido aluno de Heidegger em 1921 na Universidade de Freiburg. A obra capital de Jonas, O Princípio Responsabilidade, mostra um aspecto ético que ainda não havia sido contemplado por obras anteriores, e que se refere à capacidade do homem em destruir o próprio planeta. Heidegger, em uma carta em que resume suas ideias sobre o problema da técnica, Pela técnica moderna é descerrada a energia oculta na natureza, o que se descerra é transformado, o que se transforma é reforçado, o que se reforça é armazenado, o que se armazena é distribuído. As maneiras pelas quais a energia da natureza é assegurada são controladas. O controle, por sua vez, também deve ser assegurado. (HEIDEGGER apud STEIN, 2002, pg.195) Hans Jonas, sensibilizado pelo discurso do mestre, segue seus passos e se propõe a questionar e elaborar um imperativo que leve em conta as questões éticas para o mundo tecnológico. Os itens abaixo pretendem retomar a linha temporal já percorrida, para contar uma breve história da Ética e das crises do pensamento racional, mas agora com a finalidade de disc orrer sobre a evolução da ciência. 2.1. A Idade Antiga A capacidade tecnológica do homem vem de tempos imemoriais, o que justifica o uso de um mito para exemplificar o fato. O mito em questão é o de Prometeu, que roubou o fogo dos deuses e deu -o aos Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. publicada no Brasil pelo professor Ernildo Stein, afirma: 74 homens. O fogo daria ao homem a capacidade de fazer ferramentas e armas e de cunhar moedas para facilitar as transações comerciais. Esse ciclo mitológico termina, como será visto abaixo, com Pandora e sua caixa de males, mostrando que de uma só vez, é dado ao homem a tecnologia e a angústia. Hesíodo narra nos versos de 510 a 516 na Teogonia como foi o aparecimento de Prometeu e seu irmão Epimeteu na constelaçã o mitológica do Olimpo. Prometeu era filho de Jápeto, um titã irmão de Zeus, o que estabelece que Prometeu e Zeus eram primos. O nome Prometeu é composto do prefixo grego pro (προ = antes) e da palavra manthano (μανθάνω = aprender), ou seja, Prometeu é o previdente, Epimeteu, tinha a característica oposta, uma vez que o prefixo epi (επί = depois) dava uma conotação de que Epimeteu só viria a ter conhecimento da questão depois de ocorrido o fato. A esses dois irmãos foi dada a tarefa de criar os homens e os animais. Para esse fim existia uma fonte de recursos que só poderiam ser usados uma única vez. Sem o menor planejamento, Epimeteu foi criando os animais dotando cada um de uma característica. Para uns, deu garras afiadas, para outros, uma carapaça protetora, outros ainda ficaram donos de uma força descomunal e assim foram se esvaindo os recursos para dotar o homem de proteção contra as dificuldades da Natureza. Quando chegou a vez de criar o homem, já não havia quase mais nada para lhe atribuir como proteção e ele acabou sendo dotado de características especiais, como o fato de poder olhar para o alto. Enquanto os outros animais caminham olhando para o chão, o homem poderia contemplar as estrelas. Prometeu já havia desafiado a astúcia de Zeus, repartindo um enorme boi em duas partes – uma para o deus e a outra para os homens. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. aquele que sabe das coisas antes que elas aconteçam. O irmão, 75 Quando se discerniam Deuses e homens mortais em Mecona, com ânimo atento dividindo ofertou grande boi, a trapacear o espírito de Zeus: aqui pôs carnes e gordas vísceras com a banha sobre a pele e cobriu-as com o ventre do boi, ali os alvos ossos do boi com dolosa arte dispôs e cobriu-os com a brilhante banha. (HESÍODO, 1995, pg.104) Em uma das partes colocou as vísceras e as carnes do boi e na outra parte colocou os ossos recobertos pela reluzente banha do animal e pediu que Zeus fosse o primeiro a escolher. Pela beleza reluzente da oferenda, Zeus escolheu a metade com a ba nha e enraiveceu-se quando percebeu o ardil. Para vingar -se da artimanha poderiam ter acesso à força do fogo, uma representação simbólica da inteligência. O homem, que podia olhar as estrelas, n o lugar da inteligência tinha somente o fantasma dos sonhos. Prometeu, então, afronta definitivamente o todo poderoso deus dos deuses, acende uma férula (bastão oco) no fogo divino do sol e o entrega aos homens: Porém o enganou o bravo filho de Jápeto: furtou o brilho longevisível do infatigável fogo em oca férula; mordeu fundo o ânimo a Zeus tonítruo e enraivou seu coração ver entre homens o brilho longevisível do fogo. (HESÍODO, 1995, pg.105) O coração enraivecido de Zeus criou uma vingança contra Prometeu e outra vingança contra os homens. O suplício de Prometeu foi padecer amarrado ao monte Cáucaso e uma águia vinha todo dia comer um pedaço do seu fígado. À noite, o fígado se regenerava e no dia seguinte a águia devorava novamente o fígado do filho de Jápeto. A vingança contra os homens foi a criação de Pandora, mulher perfeita criada a partir de uma intervenção de cada deus: de Atena recebeu a arte da tecelagem; de Afrodite, o poder de sedução; de Hermes, as artimanhas e assim por diante. Essa mulhe r, um presente Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. de Prometeu, Zeus castigou os homens e decidiu que eles nunca 76 de todos, conforme mostra a etimologia de Pandora: pan (πάν = todos) + doro (δώρο = presente), foi entregue a Epimeteu que imediatamente se apaixonou por ela. Sobrara a Epimeteu, da época em que construíra o homem, uma caixa onde repousavam todos os males do mundo. Pandora pediu para ver o conteúdo da caixa e Epimeteu, apesar de advertido por seu irmão, que conseguia pressentir os eventos, para não deixar isso ocorrer, não resistiu aos encantos de Pandora e todas as calamidades e males do mun do escaparam, só restando na caixa a esperança. Assim, de uma só vez, num único mito, foi dado ao homem a tecnologia e a angústia, simbolizada pelo medo. criação, foi-lhe dado o medo concretizado no temor frente às tempestades e a ameaça de morte no enfrentamento dos animais ferozes. Aos poucos, as soluções místicas foram dando espaço aos conhecimentos e a forma de potencializar sua limitada força era construindo ferramentas – a alavanca dava mais potência ao seu braço, o arado revolvia rapidamente a terra para o plantio e a necessidade de deslocar-se rapidamente era suprida com a invenção da roda. Numa primeira afirmação, diríamos que o desenvolvimento da ciência e da técnica resultaram do medo. Imaginemos o homem das eras primitivas vivendo sempre ameaçado pelas forças brutais da natureza, sem edificações para se proteger, distanciado por milhares de anos dos para-raios, destituído de recursos de vestuário que o abrigassem mais completamente. Imaginemo-lo aterrado ante os formidáveis animais que passeavam sua ferocidade pela superfície da Terra. Este terror e esta impotência certamente terão levado os primitivos a intuírem algo fundamental: ou eles adquiriam PODER ou seriam esmagados pelo PODER das forças naturais. (MORAIS, 1978, pg.48-49) No seu livro Meditações Sobre a Técnica, Ortega y Gasset (2011) define que a necessidade originária do homem é a necessidade de viver. Não pontua como o caos foi organizado no Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Para compensar o fato de o ser humano ser o lado mais fraco da 77 homem, mas o retrata como quem tem essa pulsão de vida, apesar de ter a capacidade de terminar essa vida quando quiser: Seja lá por que razão, acontece que o homem costuma ter um grande empenho em sobreviver, em estar no mundo, apesar de ser o único ente conhecido que tem a faculdade — ontológica ou metafisicamente tão estranha, tão paradoxal, tão conturbada — de poder aniquilar-se e deixar de estar aí, no mundo. (ORTEGA Y GASSET, 2011) Apesar de toda dificuldade encontrada, de ordem externa e interna, o homem busca incessantemente melhores condições de vida. As dificuldades com o meio que o rodeia e que caracterizam a ordem externa dessa questão, se referem à necessidade de se poder se deslocar – lentamente – para poder comer e beber nesse deslocamento ou rapidamente, para poder fugir dos inimigos, humanos ou animais. O fato de o homem sentir frio, por exemplo, o coloca em contato com duas coisas importantes: primeiro, a realidade, que nesse caso recebe o nome de inver no; e segundo, essa realidade o agride. Ora, por que razão esse homem afasta a solução da morte? Ortega y Gasset (2011) refuta o instinto como resposta a esta questão, argumentando que o que governa o homem são a reflexão e a vontade que reatuam sobre os i nstintos. Freud acrescentaria ainda que os instintos são contidos para que haja o processo civilizatório. Quando não consegue se satisfazer com o que a Natureza provê, por exemplo, com a necessidade que tem de respirar e não precisar procurar o ar que o sa tisfaça, o homem lança mão de uma outra solução – ele produz “o que não estava aí na natureza, seja porque em absoluto não esteja, seja porque não está quando faz falta” (ORTEGA Y GASSET, 2011). Mas produzir uma caverna na rocha para proteger -se do frio ou domesticar um cavalo para que possa viajar mais rapidamente ou ainda desenvolver uma técnica mais eficaz de plantio não é exatamente satisfazer a Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. aquecer quando vem o frio, de se alimentar, de matar a sede e de 78 necessidade de eliminar o frio, de comer ou de se deslocar. Esse planejamento faz com que o homem perceba que essa realidade não é sua, é da Natureza e ele só a sente porque está inserido nessa Natureza e se quiser ser e estar nela terá que aceitar as condições que ela impõe. Uma vez que o homem não é só a sua circunstância, pode emergir do profundo mergulho que frequentemente faz nessa circunstância e recolher-se a algo, à caverna da sua alma. O homem consegue ensimesmar-se e é nesse momento sobrenatural de recolhimento e ensimesmamento que tece a lã, constrói um edifício e fabrica o automóvel. As dificuldades de ordem interna, a angústia do viver no que reforma a natureza que, muitas vezes, nos faz necessitados e indigentes. Essa reforma é feita em um sentido que deixa de ser problema a satisfação de algumas necessidades. Se, por exemplo, a cada vez que sentíssemos frio, a Natureza provesse o fogo que nos aquecesse, esse frio não seria uma necessidade. Como isso não acontece, há que planejar a moradia, o aquecedor elétrico e o cachecol de lã. Indo do período Paleolítico para o Neolítico, o Homem aprendeu a se estabelecer, a criar raízes. Durante o Paleolítico, as comunidades humanas apenas coletavam frutos e raízes, caçavam animais, dos quais retiravam a pele para fazer as próprias roupas e praticavam uma pesca rudimentar. Assim, precisavam se deslocar com frequência, quando a área em que habitavam tinha exaurido seus recursos. Habitavam, assim, em grutas naturais e cabanas fáceis de desmontar para levar a um novo destino. Com o passar do tempo, esse nomadismo foi dando lugar a uma vida mais sedentária: era possível plantar e esperar o tempo da colheita. Começou a ser viável construir casas de pedra em lugares convenientes e abrigar -se do frio com panos grosseiros tecidos de linho ou lã ao invés da s peles dos Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. confronto com a realidade é que procura ser minorada com a técnica, 79 animais. Essa mudança de paradigma, identificada pelos historiadores entre 10 mil e 8 mil a.C. deveu -se, principalmente, à descoberta do fogo e da consequente capacidade de criar ferramentas para fabricar outras ferramentas. A arte, que era qua se que exclusivamente rupestre, com pinturas e gravuras em cavernas, passou a tomar outra forma, com a descoberta da possibilidade de cozer o barro e transformá-lo em cerâmica. Essa tecnologia, todavia, era entendida como um presente dos deuses e os ferreiros, pastores e cozinheiros eram tidos como magos locais ou mesmo sacerdotes, que conheciam o segredo divino e só o transmitiam aos que fossem escolhidos por eles. Cria -se, assim, uma permitiam que a vida pudesse continuar da maneira como estava. Se os “técnicos” que mudavam a Natureza e a adaptavam para o bem estar da comunidade não existissem, todos teriam que ret ornar à inclemente vida nômade. O uso da tecnologia para fazer ferram entas viria a aparecer na Grécia Clássica, por volta de 5000 a.C., coincidindo com o final do período Neolítico. A palavra grega que veio definir esse estado de coisas foi τέχνη (techné) que significa arte, entre outras coisas. A professora Maria Helena Pereira Dias apresenta em sua tese de doutorado, o significado da combinação dos termos techné e logos: Entre os gregos, combinar os termos téchne (arte, destreza) e logos (palavra) orientava o discurso sobre o sentido e a finalidade das artes - técnica e arte no mundo grego possuíam apenas uma pequena distinção, a téchne não era uma habilidade qualquer e requeria o uso de certas regras. Heródoto, o primeiro a definir o termo téchne, apresenta-o como um "saber fazer de forma eficaz" e, segundo Platão, seu sentido diz respeito à "realização material e concreta de algo". A natureza inteligente do homem permite-lhe transformar pela téchne a realidade natural em uma realidade artificial com a finalidade de sua subsistência e proteção. Conforme Aristóteles, a téchne é superior à experiência, mas inferior ao raciocínio. Entretanto demanda este último. Em relação ao conhecimento, enquanto a epistéme era para os gregos um conhecimento teórico a téchne era Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. esfera de poder em torno dessas profissões que, em última instânci a, 80 um conhecimento prático, concreto.(UNICAMP, 2011) com vistas a um objetivo A palavra grega επιστήμη (epistéme) significa ciência. Cada campo do conhecimento é uma ciência. Cada saber, no campo que lhe é próprio, possui seu objeto específico, procedimentos específicos para sua aquisição e exposição, formas próprias de demonstração e prova. (CHAUÍ, 1995, pg.48). Aristóteles classifi cou as ciências em três grupos: Ciências produtivas (ποίησις – poiésis) – estudam o resultado da ação do homem, cuja finalidade está para além da própria ação. Medicina, cujo objetivo é a cura das doenças ou a fuga da dor; a Economia, cujo objetivo é a produção de riquezas; a Estratégia, que procura a vitória nas guerras; a Pintura, Escultura, cuja meta é a expressão artística; a utilização da Matemática para a agrimensura e o comércio. Todas as atividades humanas, sejam elas no campo da arte ou da técnica, cuja finalidade é produzir uma obra , pertencem a esse grupo de ciências. Ciências práticas (πράξις – práxis) – estudam as ciências que se ocupam do próprio homem e do grupo em que se insere, como a Ética e a Política. Na Ética, “a ação é realizada pela vontade guiada pela razão para alcançar o bem do indivíduo, que são as virtudes morais (coragem, generosidade, fidelid ade, lealdade, clemência, prudência, amizade, justiça, modéstia, honradez, temperança, etc.)” (CHAUÍ, 1995, pg.48). Na Política, a ação visa o bem da comunidade, o Bem Comum. A práxis era considerada uma ciência superior à poiésis, pois continha em si suas próprias metas, aproximando-as da autossuficiência, 2003). muito admirada pelos gregos. (ALENCASTRO, Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Todas as técnicas fazem parte desse grupo, como, por exemplo, a 81 Ciências teoréticas – (θεωρετικός – theoretikós) – o grupo das ciências teoréticas, contemplativas ou teóricas estuda os objetos que o homem pode apenas contemplar, mas não pode modificar, uma vez que são independentes das ações humanas. A palavra grega theoria (θεωρία) significa contemplação da verdade. Segundo Aristóteles, o que existe independente da capacidade humana de fabricação e da ação moral e política são as ciências matemáticas, a geometria, a física e as ciências que tratam das coisas divinas , como a teologia e a metafísica. Ele as classifica por graus de superioridade, indo das inferiores (física, biologia, meteorologia, psicologia) para as mai s importantes (metafísica e teologia), de onde derivam todos os Uma ética pertence a uma concepção de existência, a um modo interpretar e fazer a vida. Nesse sentido, revela-se como práxis e poiesis. Práxis porque atividade transformadora da realidade, sem dissociar o teórico do prático. Poiesis porque ação criadora, nas várias dimensões da vida cotidiana, na filoso fia, na ciência, na arte. (ANTONIO, 2010, pg. 24) Nessa escala de valores das ciências contemplativas, vinham primeiro os estudos das coisas naturais submetidas às eventuais mudanças, como a Física, Biologia, Meteorologia, Psicologia. Aristóteles entendia a alma, que em grego se diz psychê ( ψυχή) , como um ser natural que existia em todos os seres vivos: plantas, animais e homens. Não deu muita importância à medição de grandezas como velocidade e temperatura , em parte por que não tinha tecnologia suficiente para construir relógios precisos nem termômetros. Um pouco mais avançada nessa escala de valores estavam as ciências das coisas naturais que não estavam submetidas às mudanças, como as matemáticas e a astronomia. Os gregos acreditavam que os astros eram eternos e imutáveis. Baseado na observação cotidiana dos céus, Aristóteles concebeu seu modelo geocêntrico do Universo, que incluía não só a organização planetária, Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. conhecimentos. 82 mas também a dos elementos da natureza e a distante esfera das estrelas fixas. O geocentrismo aristotélico foi um modelo usado até o século XV. O terceiro nível de classificação das ciências teoréticas é a Metafísica. A professora Chauí define ass im a Metafísica de Aristóteles: O objeto de investigação da Metafísica não é qualquer ser, mas do ser enquanto substância. É na substância que atuam as quatro causas aristotélicas: causa material – aquilo de que as coisas são feitas, e a partir da qual são feitas, tal como o bronze de uma estátua ou as letras de uma sílaba. causa formal – a forma e o padrão de uma coisa, que podem ser expressos na definição da mesma; Aristóteles fornece -nos um exemplo: o comprimento proporcional de duas cordas de uma lira é a causa de uma ser a oitava da outra. causa eficiente – é a origem das coisas, aquilo ou aquele que tornou possível o objeto. Aristóteles dá como exemplos uma pessoa que toma uma decisão, um pai que gera uma criança, e em geral todos os que fazem ou alteram uma coisa. causa final – aquilo em virtude do qual se faz algo; é o tipo de explicação dada à pergunta: “por que fazer exercícios físicos?”, cuja resposta pode ser “para manter a boa forma”. Aristóteles investiga as causas finais não só da ação humana, como também do Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Ciência da realidade pura, que não é nem natural mutável, nem natural imutável, nem resultado da ação humana, nem resultado da fabricação humana. Trata-se daquilo que deve haver em toda e qualquer realidade, seja ela natural, matemática, ética, política ou técnica, para ser realidade. É o que Aristóteles chama de ser ou substância de tudo o que existe. A ciência teórica que estuda o puro ser chama-se metafísica. (CHAUÍ, 1995, pg.49) 83 comportamento animal (“Por que razão as aranhas tecem suas teias?”) e dos seus traços estruturais (“Por que razão têm os patos membranas interdigitais?”). Existem causas finais ta mbém para a atividade das plantas, tais como a pressão descendente das raízes e dos elementos inanimados, tais como o impulso ascendente das chamas (KENNY, 2011). O quarto e último nível das ciências teóricas é a Teologia, que estuda as coisas divinas, causa e a finalidade de tudo que existe na natureza e no homem. “As coisas divinas são chamadas de theion e, por isso, esta última ciência chama -se teologia”. (CHAUÍ, 1995, 2.2. A Idade Média Depois de definidas essas bases para o estudo da evolução das ciências, o mundo mergulhou num período teocêntrico, a Idade Média, período histórico já discutido nesta dissertação e retomado aqui para discussão e análise do desenvolvimento tecnológico. Grandes filósofos contribuíram para desenvolver o pensamento filosófico, como Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, mas o desenvolvimento tecnológico deixou muito a desejar , apesar de datarem desse período a fundação das primeiras Universidades, como a de Bolonha em 1088, a de Paris em 1150 e a de Oxford em 1167. Quando o Brasil foi descoberto, já existiam mais de setenta universidades na Europa. O homem medieval estava empenhado, sobretudo, na salvação de sua alma, na chamada VIDA DE DEPOIS DA MORTE. Para ele, a realidade dada fora estabelecida por Deus e era inteiramente sagrada. Logo, não competia ao homem, pecador, interferir na natureza – este devia tão somente contemplar a sábia harmonia que o Todo Poderoso colocara no Universo. (MORAIS, 1978, pg. 35) Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. pg.49). 84 As questões culturais tomaram um rumo calamitoso face a este estado de coisas. Até aprender a ler era questionado, porque ler era considerado um luxo, o que era um pecado perante as Sagradas Escrituras. As curvas do corpo feminino eram obsessivamente ocultadas para que os sentidos não afastassem as almas da contemplação do divino. Na Arte, alguns elementos eram preponderantes. Fra Angélico, por exemplo, um pintor do período Gótico Tardio, tinha a preocupação em não interromper a luz divina que preenchia os A preocupação desse artista era a forma perfeita, que devia ser aquela que não impedisse a propagação da luz divina. Os elementos pictóricos, para Fra Angélico, tinham algo incorporado, que só os intelectos sutis podiam perceber. Para ter contato com esse algo mais, era preciso ter olhos puros, sem as distorções das paixões terrenas. (BENITO, 2004, pg. 89) Conforme cita Régis de Morais, em seu livro Ciência e Tecnologia, um jovem na Universidade de Milão havia descoberto manchas no Sol com o auxílio de um con junto de lentes similares a um telescópio. Ao perceber esse fato, foi relatá -lo ao seu professor de Astronomia que jogou um balde água fria nessa descoberta ao comentar que não encontrara nada nem na Bíblia nem em Aristóteles que indicasse a existência de manchas solares. O diagnóstico da autoridade científica foi então a constatação de problemas oftalmológicos no afoito estudante dos céus medievais. ( MORAIS, 1978). Algumas questões, porem, são curiosas e merecem nota: o padre francês Jean Buridan, nascido por volta de 1300, cuja educação se deu na Universidade de Paris, escreveu, 300 anos antes de Isaac Newton explicitar a Lei da Inércia, sua Teoria do Ímpeto, em que dizia: Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. espaços, descrita por São Tomás de Aquino. 85 […] depois de deixar o braço do arremessador, o projétil seria movido por um ímpeto dado a ele pelo arremessador e continuaria a ser movido à medida que esse ímpeto permanecesse mais forte que a resistência e seria de duração infinita caso não fosse diminuído e corrompido por uma força contrária resistindo a ele ou por algo 15 desviando-o para um movimento contrário . (apud STANFORD, 2011) Outro cientista de época, Roger Bacon, viveu entre 1220 e 1292, enxergava um pouco mais longe do que seus contemporâneos e não tomava a palavra de Aristóteles como inferior somente à À medida que observava, aprendia e coletava informações, tocava de leve a Alquimia, então proibida e ousava fazer perguntas, Bacon tentava afrouxar a ligação super retesada entre a sabedoria herdada e a fé herdada. Num triunvirato de livros visionários, Opus Major, Opus Minor e Opus Tertium, ele argumentava contra elementos do credo aristotélico (pois naquela época já se tratava de um credo). (WHITE, 2003, pg. 16) Ingenuamente, Roger Bacon se esforçou para apresentar ao papa Nicolau IV uma edição magnificamente encadernada de seus livros. O papa, ao invés de admirar a obra de Bacon, como era a expectativa do escritor, mandou prend ê-lo por heresia e condenou-o à prisão perpétua. Na Idade Média, o segredo para conseguir ir mais fundo do que a palavra de Aristóteles era “manter -se em silêncio externamente, mas gritar muito alto internamente”. (W HITE, 2003, pg. 17) 15 No original: “after leaving the arm of the thrower, the projectile would be moved by an impetus given to it by the thrower, and would continue to be moved as long as the impetus remained stronger than the resistance, and would be of infinite duration were it not diminished and corrupted by a contrary force resisting it or by something inclining it to a contrary motion” (tradução livre do autor) Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. palavra de Deus. 86 Um impasse científico então se instalou no seio da Idade Média – as novas conquistas deveriam já constar nos text os clássicos e, assim, não seriam novas conquistas. Por outro lado, se alguém descobrisse algo inédito, seria rotulado como bruxo e condenado à fogueira. Alguns experimentos, rodeados de uma mística cabalista, foram feitos no que se convencionou chamar de Alquimia e o destino de muitos alquimistas também foi a morte na fogueira. A mudança da Idade Média para a Idade Moderna se deu com o período conhecido como Renascimento. Este movimento, de múltiplas facetas, teve um considerável suporte econômico dado pela família Medici, baseada em Florença, na Toscana. Não há um Renascimento, há múltiplos. O mais característico desse fenômeno histórico é, pois, a rica variedade das suas manifestações, assemelhadas algumas práticas e produções entre si, contrastante outras, convergentes ainda algumas e contraditórias inúmeras. (SEVCENKO, 1994, p.73) No período que antecedeu ao Renascimento, os Me dici, grandes produtores de tecidos e incentivadores das Artes, estavam enchendo os navios de produtos sem conseguir comercializá -los no mercado grego, já que eram completamente desconhecidos por lá. Cosimo de Medici, o patriarca da família, precisava urge ntemente se fazer conhecido em Atenas e Constantinopla e um evento religioso facilitou sobremaneira a tarefa desse comerciante toscano. Como a família já era mecenas das Artes, conjugou esses dois fatores – artes e negócios – para facilitar a expansão de ambos. O evento religioso em questão era o Concílio Geral das Igrejas Ortodoxas Grega e Católica Romana, que se instalou na Basiléia Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. 2.3. A Idade Moderna 87 (Suíça) em 1431 e teria transcorrido em paz se não fosse a pressão de alguns clérigos locais que, já nesse tempo, estavam tramando algumas reformas, principalmente reformas radicais nas finanças da Cúria e também uma tentativa de aproximação com a igreja de Constantinopla. Por outro lado, a união da Igreja Católica com a Igreja Ortodoxa Grega era um ve lho sonho do papa Eugênio IV para ver se consertava a má impressão que tinha ficado quando a quarta Cruzada destruiu Constantinopla. Do lado de Constantinopla também existia um interesse nessa união – os turcos otomanos já estavam praticamente às portas da cidade e uma saída se ria, em nome de Cristo, pedir ajuda aos soldados e marujos do Ocidente católico. reestabelecida. Se os religiosos suíços ganhassem força nessa empreitada, o papa iria perder muito poder, o que fez com que ele decidisse transferir o concílio para a Itália. Apesar da insistência de Cosimo de Medici para que a transferência fosse para Florença, o concílio acabou se estabelecendo em Ferrara, no ano de 1438. Uma grande comitiva da Igreja Ortodoxa Grega, com mais de setecentas pessoas, desembarcou em Veneza e seguiu imediatamente para Ferrara, onde se instalou um clima febril de negociações. Nada aqui podia ser feito pelos Medici a não ser aguardar alguma brecha para oferecer seus préstimos. A sorte, porém, iria sorrir aos Medici mais uma vez – o papa estava em sérias dificuldades financeiras para continuar a patrocinar o Concílio e sustentar um séquito daquele porte não era fácil, obrigando o papa inclusive a penhorar alguns castelos pertencentes à Cúria. Ele já havia penhorado o castelo de Assis quando veio o golpe de misericórdia com a peste que irrompeu em Ferrara em 1439 e obrigou Eugênio IV a ir atrás de outra sede para o Concílio Geral. Uma conjunção de fatores assim não iria acontecer de novo tão cedo. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Assim, existiam vantagens para os dois lados se essa união fosse 88 Lorenzo de Medici, o irmão de Cosimo, mais que depressa, assegurou hospedagem grátis para todos da caravana e propôs uma dotação ao Concílio de 1.500 florins mensais durante toda a duração do evento. Isso resolvia o problema do papa e o proble ma dos Medici também, que estavam investindo num empreendimento que iria abrir novas portas para seus negócios e também iria cristalizar sua influência política na Itália. De fato, conforme as notícias corriam, os Medici agora abarrotavam seus navios de tecidos e vendiam toda a carga na Grécia e em Constantinopla. Todos iriam querer uma parte daquela cidade onde a Igreja novamente estava voltando a ser úni ca e comercializadas ou dadas como presente, ajudaram a expandir o conceito de humanismo para fora da península italiana. Em Florença, cujo ambiente cultural gestava algumas obras primas da História da Arte, teve esse cenário potencializado com a filosofia clássica. Podia-se, agora, encontrar grandes estudiosos de Platão e Aristóteles andando pelas ruas da cidade. Cosimo, com sua grande experiência em mecenato, deixou -se influenciar por Gemistus Pletho, o erudito grego que estava em Florença junto com a comitiva grega, empenhado em rever as obras de Platão, e criou a Academia Platônica, convidando Marsilio Ficino para dirigi -la. Essa Academia se propunha a verter toda a obra de Platão e Aristóteles para o Latim e teve uma importância capital na história cultural da Europa A capacidade artística, tecnológica e cultural, represada durante os anos negros da Idade Média, explodiu durante o Renascimento e facilitou a solidificação do conceito de autonomia da arte e a mudança da condição do artista de um simples artesão para um homem de ciências. A inter-relação entre arte e ciência era tamanha que deu ensejo ao desenvolvimento de espíritos que foram geniais em ambas as vertentes, como Leonardo da Vinci. (BENITO, 2004). Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. indivisível. As obras de arte, maravilhosos ícones desse período, 89 O próprio fato do uso da perspectiva nas obras renascentistas denotava que existia uma profundidade na representação apresentada. Se existia uma profundidade do plano da tela para dentro, deveria existir também uma perspectiva para o homem, autor da obra de arte. Pouco a pouco, o homem foi se reposicionando como centro do significado histórico. As grandes navegações acontecem, premiando as nações que ousaram investir tecnologia na exploração da natureza, agora não mais intocável como na Idade Média. Estava amadurecida agora a composição gráfica de tipos móveis de Gutenberg (1398 – 1468), que aperfeiçoara em 1450 uma antiga invenção chinesa, “injetando o novo sangue do progresso intelectual Em seguida, Copérnico (1473 – 1543) estabelece que o Sol era o centro do sistema planetário, ao contrário do que se imaginava. Essa constatação ainda era uma teoria fortemente ancorada nas crenças medievais, uma vez que Copérnico imaginava o Sol como a Luz de Deus e não via sentido em ter a luz divina girando em torno dos homens e não o contrário. Apesar disso, foi um grande e paradoxal avanço, uma vez que expulsava novamente o homem do Paraíso, sendo obrigado a sair do centro do Universo. Como já não era mais senhor do Universo, o homem se propôs a estudá -lo com mais afinco. (MORAIS, 1978). Leonardo da Vinci (1452 – 1519) encarna o cientista moderno, com uma excelência grande e similar, seja na arquitetura, na pintura, escultura ou na fabricação de máquinas de guerra. Em seguida, o gênio de Descartes (1596 – 1650) denuncia a ingenuidade dos Antigos, “que pretendiam explicar fenômenos muito complexos antes de conhecer as realidades deles, antes mesmo de observar cuidadosamente as suas principais propriedades”. (MORAIS, 1978, pg. 40). Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. pelas principais artérias da Europa” ( MORAIS, 1978, pg. 38). 90 O pensamento experimental científico era inaugurado e disseminado com figuras como Galileu Galilei (1564 – 1642) que, contra o senso comum, prova que duas bolas, uma de cinco libras e outra de uma libra, lançadas do alto da torre de Pisa, chegam juntas ao solo. Um pensamento perfeitamente lógico e enquadrado no bom senso não necessariamente era um pensamento verdadeiro. Mais do que isso, estava demonstrado um erro de Aristóteles, que havia estabelecido que a bola mais pesada cairia mais rápido e atingiria primeiro o solo. Regis de Morais (1978) define esse experimento como o momento-símbolo do nascimento oficial do experimentalismo científico e da Idade Moderna. seu livro Pesquisa Qualitativa em Ciências Humanas e Sociais a contribuição de Descartes: Escreve, em 1637, o Discurso do Método, no qual põe em dúvida todos os conhecimentos, estabelece 4 regras para conduzir a razão na busca da verdade (a - aceitar como verdadeiro só o que se apresentar tão claro e distintamente que não haja motivo algum para a dúvida; b - dividir cada dificuldade em tantas partes quantas necessárias para resolvê-las; c- conduzir os pensamentos, começando pelos objetos mais simples e fáceis para subir até os mais complexos; d - fazer enumerações e revisões completas para nada ficar omitido), propõe um critério de conduta científica provisória, extrai da dúvida uma verdade fundamental “penso, logo existo” que fundamenta a existência do espírito, da matéria e do movimento e conclui com as justificativas do livro. (CHIZZOTTI, 2006, pg.36) O período, porém, que cristaliza todas as construções do racionalismo experimental foi o vaidoso século XVIII, com a figura basilar de Isaac Newton, que reúne uma grande facilidade de autopromoção com uma raríssima inteligência, catapultando -o ao topo da excelência científica da época. Newton (1642-1727) estendeu o cartesianismo à descrição do espaço e tempo, explicitando o conceito de causa e efeito, e a previsibilidade dos fenômenos, quando utilizados os instrumentos adequados de medida. Expôs os princípios da mecânica clássica e os fundamentos Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Numa definição cartesiana, o professor Chizzotti explicita em 91 mecânicos do seu método, que consistia na investigação dos fenômenos do movimento das forças da natureza, e demonstrar outros fenômenos naturais com base nessas forças, designado por ele de filosofia experimental. (CHIZZOTTI, 2006, pg.37) Pouco a pouco, o centro das questões éticas, que já havia sido o Homem, com os antigos gregos e passou a ser Deus, na Idade Média, passa agora a ser a Ciência. No meio de tanto saber instala -se a “curiosa ilusão de que a Ciência pudesse vir a responder a todas as inquietações do ser humano”. (MORAIS, 1978, pg. 42) A observação paciente e meticulosa dos fenômenos, o controle e verificação repetidos e a livre discussão associados a essa engenhosa experimentação dotaram o ser humano de um método da Natureza) e a Técnica (domínio das forças naturais) deram -se as mãos para sair da Idade Moderna e iniciar a Idade Contemporânea. 2.4. Idade Contemporânea. Uma das referências para o início da Idade Contemporânea pode ser o ano de 1838, com a descoberta dos raios catódicos por Michael Faraday, um físico britânico e a sugestão feita pelo físico austríaco Ludwig Boltzmann de que os estados de energia de um sistema físico deveriam ser discretos. Em 1900, o físico alemão Max Planck amplia esses conceitos e sugere que a luz (e outras formas de energia) não é emitida a partir dos átomos como um fluxo contínuo, mas sob a forma de "pacotes" distintos, que denominou quanta. Chamou a isso de Teoria dos Quanta e ganhou o Prêmio Nobel em Física em 1918 por essa descoberta. O método científico ganha um grande aliado com a heurística, palavra de vem do grego (ευρίσκω – evrisko) e que significa localizar. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. excepcionalmente fecundo de tal modo que a Ciência (conhecimento 92 A etimologia dessa palavra é a mesma de eureka, a famosa exclamação de Arquimedes ao identificar o conceito físico de empuxo. A heurística se resume, “grosso modo, na invenção dos métodos de inventar” (MORAIS, 1978, pg. 42). Um procedimento heurístico é definido como um método de aproximações suces sivas da solução ideal, avaliando repetidamente o resultado obtido, de modo que uma solução heurística não é a melhor solução possível, mas é a solução mais rápida. Hoje, na roda -viva dos procedimentos computacionais, não é possível imaginar um mecanismo q ualquer, por exemplo, o de proteção contra vírus de computadores, sem uma solução heurística. Pensamento Racional [séculos XIX e XX]), 1905 foi o ano de maior produção intelectual de Albert Einstein. Uma das publicações suas mais relevantes 16 revolucionou as bases do conhecimento ao introduzir o conceito de pacotes (fóton) de luz e estabelecendo a famosa dualidade onda-partícula que tanto incomodou os físicos da época. Muitos deles não aceitavam as conclusões de Einstein quando ele foi agraciado com o Prêmio Nobel de Física em 1921. Um outro trabalho 17 de Einstein publicado em 1905 explica a relação entre energia e matéria, cunhando a famosa e simples equação que define essa relação: E = mc 2 e que se torna uma explicação plausível para o Big Bang, a explosão de energia que se transforma em matéria. Depois de abertas as portas do conhecimento, outros cientistas ajudaram a construir o espetacular 16 Artigo intitulado "Über einen die Erzeugung und Umwandlung des Lichtes betreffenden heuristischen Standpunkt" (Sobre um ponto de vista heurístico concernente à geração e transformação da luz") – tradução em http://www.if.ufrgs.br/tex/fis142/fismod/mod06/m_s03.html - acesso em 29 nov. 2011 17 Artigo intitulado "Ist die Trägheit eines Körpers von seinem Energieinhalt abhängig?" (A inércia de um corpo depende da sua energia?) – tradução em http://www.if.ufrgs.br/tex/fis142/fismod/mod06/m_s03.html - acesso em 29 nov. 2011 Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Como já explicitado no item 1.5 desta dissertação (A Crise do 93 edifício da Mecânica Quântica e a relação entre energia e matéria se torna a equação que permite que seja construída a bomba atômica. Depois de duas guerras mundiais, período fértil em avanços tecnológicos, o homem perde a inocência que trouxe do século XIX para assumir um perigoso cientif icismo, o mito da neutralidade científica. A faca, que tanto serve para passar manteiga no pão como para promover uma degola, não é um problema que os cientistas assumem como seu. Para a maioria deles, uma faca é uma faca. Com essa possibilidade em mente e com os conhecimentos amealhados por cientistas como Einstein, Heisenberg e Oppenheimer, forma que se pode controlar a energia que mantém a ligação entre seus elementos e a bomba atômica pass a a ameaçar o planeta. O professor Severino Antônio, em seu livro A Irmandade de todas as coisas – diálogo sobre Ética e Educação, mostra e emergência de questão ética para os dias em que vi vemos, dias em que a morte do grande empresário Steve Jobs causou uma 18 peregrinação de fãs inconformados às lojas Apple , acendendo velas e deixando flores em um dos, agora, literais templos do consumismo. Essa adoração aos deuses Ciência e Tecnologia é comentada neste livro: Uma das questões éticas fundamentais de nosso tempo é a destinação do conhecimento elaborado científica e tecnologicamente. Conhecimento para quê? Para quem? No século XVII, Rabelais já enunciava essa questão central sobre o conhecimento científico: “ciência sem consciência é a ruína da alma”. Hoje, a questão de como vamos usar o conhecimento é decisiva para a sobrevivência da humanidade e da Terra. Inclusive, precisamos ter consciência clara de que muitas das maiores ameaças de destruição da espécie humana e de toda a vida planetária vêm dos poderes acumulados 18 http://blogs.estadao.com.br/rodrigo-martins/2011/10/06/fas-de-steve-jobs-vao-a-lojas-daapple-prestar-homenagens/ - acesso em 02 nov. 2011 Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. a faca fica cada vez menor e separa o átomo, recompondo -o de tal 94 pela tecnociência. Hiroshima e Nagasaki assinalam a nossa capacidade de produzir a morte. (ANTONIO, 2010, pg. 20-21) Um outro modo de conceber as relações éticas precisa urgentemente ser estabelecido para os dias de hoje, explicitando que existir é coexistir e viver é conviver. Como Einstein, que usou axiomas de Galileu para desenvolver sua revolucionária teoria, é necessário perceber que todas as coisas apresentam uma interrelação. O desenvolvimento das ciências do século XX tornou possível compreender essa interdependência de áreas como a ecologia, genética, bioquímica e a TIC (tecnologia da informação e comunicação). Essa nova ética, num movimento recíproco, alimenta o seu sentido e despertando um sentimento de irmandade. (ANTONIO, 2010) É perfeitamente possível manter a racionalidade, que nos custou tantos séculos para conseguir, e ao mesmo tempo reconhecer a necessidade de cuidar da Terra e, por extensão, de seus habitantes. Esse sentimento comunitário e de dependência mútua pressupõe uma mudança na sociedade. [...] para nos libertarmos desse modo predominante de ver e de viver, que desumaniza o homem e desnatura a natureza, em que nossa sociedade está organizada, desde a revolução industrial e o início da sociedade capitalista, é preciso mais do que a criticidade: é necessário despertar e desenvolver a empatia, a identificação afetiva, a solidariedade amorosa, a admiração sensível – em relação à espécie humana e às várias formas de vida planetária. [...] além do distanciamento crítico é necessário o pertencimento amoroso. (ANTONIO, 2010, pg. 38 - 42) 2.5. A Tecnoética Hans Jonas nasceu em 10 de maio de 1903, na cidade alemã de Mönchengladbach, ponto médio entre a cidade de Düsseldorf e a Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. conhecimento cientifico com a reflexão fil osófica, reinterpretando o 95 fronteira holandesa. Morreu em 5 de fevereiro de 1993, em Nova York. A trajetória intelectual de Jonas, de origem judaica e sionista, apresenta três momentos marcantes – o primeiro deles é quando começa a frequentar as aulas de Martin Heidegger na Universidade de Freiburg, em 1921. Heidegger exerce grande influência em Jonas, inclusive no questionamento do valor da filosofia, deflagrado quando Heidegger se junta ao partido nazista em 1933. Preocupado com a potencial ameaça aos judeus patrocinada pelo Partido Nacional Socialista alemão, u m fato é decisivo para que Jonas deixe a Alemanha: descobre que a Associação Alemã de Cegos havia expulsado todos os seus membros judeus. neste mesmo ano de 1933, indo para a Inglaterra para, de lá, viajar para o protetorado britânico da Palestina no ano seguinte. Em 1940 retorna à Europa para participar do Exército Britânico, que havia formado uma brigada especial para judeus alemães que quisessem lutar contra os nazistas. Em 1943 casa-se com Lore Weiner, que havia conhecido na Palestina. Após a guerra, voltou para Mönchengladbach para reencontrar sua mãe, mas descobriu que ela havia sido morta em Auschwitz. Não suportando mais a ideia de viver na Alemanha, Jonas retorna à Palestina para lutar na guerra árabe-israelense de 1948. O apelo, porém, ao ensino de filosofia foi maior do que o de ser um soldado sionista, e Jonas começa a ensinar na Universidade Hebraica de Jerusalém, antes de transferir -se para o Canadá em 1949, onde ensinou na Universidade de Carleton, para mudar-se posteriormente para Nova York em 1955. O segundo grande momento da vida intelectual de Jonas ocorre em 1966 com a publicação do The Phenomenon of Life Toward a Philosophical Biology. Essa obra abre um novo caminho sobre a precariedade da vida e mostra o grande alcance filosófico dessa Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Impressionado com a violência nazista, Jonas deixa a Alemanha 96 abordagem, reconduzindo a vida a uma posição privilegiada e distante dos extremos do idealismo irre al e do limitado materialismo. Na década de 1970, interessou-se pelos problemas éticos que poderiam surgir a partir dos avanços da tecnologia e, em 1979, dá -se o terceiro grande momento de sua produção intelectual com a publicação de sua principal obra – “O Princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica” ( Das Prinzip Verantwortung: Versuch einer Ethic für die Technologische Zivilisation). Em 1984, uma nova edição, agora em língua inglesa, revista e ampliada pelo próprio autor, tornou -se a mais importante e tem sido utilizada, desde então, como referência para os estudio sos O conceito de responsabilidade já havia sido evocado por Platão em sua obra A República, escrita entre 380 e 370 a. C. No período pré-platônico acreditava-se que os deuses é que tinham a responsabilidade da condução do destin o do homem e de sua vida como um todo. Prenunciando a primeira crise do pensamento racional, Platão revoluciona a crença grega tradicional e, por meio do mito do armênio Er, estabelece o conceito de responsabilidade. Esse mito, apresentado por Platão no livro X de A República, conta a história de Er, que morre em combate e seu corpo é recolhido e aguarda cremação na pira funerária. No décimo segundo dia , Er recupera a vida e conta o que havia se passado no Hades, o reino dos mortos. Algumas almas ali recolhidas pagavam suas penas relativas às injustiças cometidas e às pessoas prejudicadas e outras tantas almas se preparavam para reencarnar. Para esse fim , perfilavam-se diante das Moiras (μοίρα – moira = palavra grega para destino), três mulheres mitológicas, filhas da Necessidade, que representam o destino inamovível dos homens: Láquesis, o passado; Cloto, o presente e Átropos, o futuro. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. da temática de Hans Jonas. 97 As almas que chegavam iam para perto de Láquesis, que tomava conta de um lote de modelos de vida que iriam ser a tribuídas às almas e que dizia: “Almas efêmeras, vai começar outro período portador da morte para a raça humana. Não é um daimon que vos escolherá, mas vós que escolhereis o daimon. O primeiro a quem a sorte couber, seja o primeiro a escolher uma vida a que ficará ligado pela necessidade. A virtude não tem senhor: cada um de vós, consoante a venera ou a desdenha, terá mais ou menos. A responsabilidade é de quem escolhe. O deus é isento de culpa”. (PLATÃO, 1999, pg. 348-349) Platão foi enfático ao declarar que os deuses não teriam nenhum compromisso com a responsabilidade do Homem. Depois de responsáveis pelas suas escolhas quando voltassem para um novo período “portador de morte”, ou seja, mais um período de vida que findaria com a morte. Caberia ao próprio homem deliberar sobre suas ações e omissões, responsabilizando -se pelas consequências de suas escolhas. Há ainda que notar em Platão que o processo de escolha e a responsabilidade assumida nesta escolha, se refaz a cada vez que a alma volta para uma nova vida, imprimindo -lhe a marca da eternidade. Esse pensamento platônico não considera a r esponsabilidade como sendo um comprometimento com um futuro, seja ele próximo ou distante. O foco dessa filosofia era a liberdade: dar condições ao homem para que ele pudesse escolher livremente. O final desse processo seria o além-mundo, uma dimensão transcendente atemporal. Em Hans Jonas, essa responsabilidade assume uma nova perspectiva quando ele a coloca como centro da ética. A preocupação de Jonas se desvincula da trama tecida pelas Moiras com fios do passado, presente e futuro e foca na arte de Átropos, o futuro. O que importa agora é o futuro da humanidade, com as gerações que estão por vir e com a sobrevivência delas. Não Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. devidamente purificadas, as almas deveriam ser suficientemente 98 é de maneira nenhuma o futuro entendido como eternidade, mas o tempo que virá imerso na ciência e tecnologia, cuja responsabilida de será o princípio que orientará a manutenção das formas de vida. O imperativo categórico kantiano, explicitado no subitem “ 1.4 – Ética de Kant” desta dissertação é revisitado por Hans Jonas. No subitem indicado, o imperativo de Kant apresenta um texto se gundo a tradução de Afonso Bertagnoli para A Crítica da Razão Prática de Emanuel Kant: “Age de tal modo que a máxima de tua vontade possa valer-te sempre como princípio de uma legislação universal”. (KANT, 2004). O livro de Hans Jonas, O Princípio Responsabilidade, traz um texto ligeiramente diferente, na tradução de Marijane Lisboa e Luiz máxima se torne lei geral”. (JONAS, 2006, pg. 47). A ideia geral, de qualquer maneira, é a mesma e Jona s detalha que a partir da suposição da existência de seres racionais em ação, essa ação deve existir de modo que possa ser concebida sem contradição, como exercício geral da comunidade. O uso do verbo “poder” (grifado nos textos citados), existente tanto e m uma quanto em outra tradução, expressa, segundo Jonas, uma questão de compatibilidade e não uma aprovação moral ou desaprovação. Ao imaginar-se que a felicidade da geração em que vivemos venha causar uma infelicidade ou mesmo a inexistência de uma geraçã o futura, não se pode dizer que haja uma contradição nisso. Essa suposição pode ser objeto de uma desaprovação moral, mas de contradição não. Baseado nessa constatação, Hans Jonas sugere um novo imperativo categórico: Um imperativo adequado ao novo tipo de agir humano e voltado para o novo tipo de sujeito atuante deveria ser mais ou menos assim: “Aja de modo que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma autêntica vida humana sobre a Terra”; ou, expresso negativamente: “Aja de modo a que os efeitos da tua ação não sejam destrutivos para a possibilidade futura de uma tal vida”; ou, simplesmente “Não ponha em perigo as condições necessárias para Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Barros Montez: “Age de tal modo que tu também possas querer que a 99 a conservação indefinida da humanidade sobre a Terra”; ou, em uso novamente positivo: “Inclua na tua escolha presente a futura integridade do homem como um dos objetos do teu querer”. (JONAS, 2006, pg. 47-48) Em Kant, Jonas sublinha que é possível querer o fim da humanidade ao se desejar o próprio fim. No no vo imperativo pode-se arriscar a própria vida, mas não a da humanidade. Nesse ponto, Jonas faz referência ao mito do herói grego Aquiles, cuja vida seria mais longa quanto mais obscuro fosse na vida. Aquiles, porém, optou por uma vida gloriosa e curta e tinha o direito a esta opção, não necessariamente fazendo com que o exército grego se esfacelasse quando a flecha de Páris o acertou no calcanhar. de simultaneidade e imediaticidade e é válida em seu domínio, mas é questionada quanto à sua suficiência para as novas dimensões do agir humano. Jonas então, sugere uma ética compatível com a responsabilidade desse novo agir e , na determinação do bem e do mal que parametrizam essa nova ética, introduz o conceito da heurística do medo: Pois assim se dão as coisas conosco: o reconhecimento do malum é infinitamente mais fácil do que o do bonum; é mais imediato, mais urgente, bem menos exposta a diferenças de opinião; acima de tudo, ele não é procurado: o mal nos impõe a sua simples presença, enquanto o bem pode ficar discretamente ali e continuar desconhecido, destituído de reflexão. Não duvidamos do mal quando com ele nos deparamos; mas só temos certeza do bem, no mais das vezes, quando dele nos desviamos. É de se duvidar que alguém, alguma vez, tenha feito o elogio da saúde sem pelo menos ter visto o espetáculo da doença, o elogio da decência sem ter encontrado a patifaria, e o da paz sem conhecer a miséria da guerra. O que nós não queremos, sabemos muito antes do que aquilo que queremos. Por isso, para investigar o que realmente valorizamos, a filosofia da moral tem de consultar o nosso medo antes do nosso desejo. E, embora aquilo que mais tememos não seja necessariamente o mais temível, e o seu contrário não seja, menos necessariamente ainda, o bem supremo – embora, portanto, a heurística do medo não seja a última palavra na procura do bem, ela é uma palavra muito útil. (JONAS, 2006, pg. 71) Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. A ética de Kant, segundo Jonas, serve para lidar com aspectos 100 O compromisso com o futuro não pode, segundo Jonas, se basear na ideia tradicional de direitos e deveres, “segundo a qual o meu dever é a imagem refletida do dever alheio, que por seu turno é visto como imagem e semelhança do meu próprio dever” (JONAS, 2006, pg. 89). Assim, a partir do estabelecimento dos direitos do outro, também se estabelece o próprio dever de respeitar esses direitos. Essa postura é absolutamente válida numa dimensão espacial, mas não funciona em uma dimensão temporal, porqu e a ética almejada lida com o que ainda não existe e o princípio da responsabilidade deve ter uma independência tanto da ideia de um direito quanto da ideia de uma reciprocidade. características vem do sentimento para com os filhos. A progenitura é um sentimento altruísta plantado pela Natureza nos seres que procriam, embora existam tantos casos de rejeição da prole pelos pais. A própria consternação causada quando se toma conhecimento do fato da rejeição dos filhos pelos pais é uma demonstração do altruísmo desse sentimento. Nesse ponto, na tecnoética desenhada por Jonas podem se ouvir ressonâncias da proposta educacional salesiana, pela história de acolhimento dos jovens explicitada e promovida por Dom Bosco. Essa ressonância abre, assim, as comportas de um rio que irá correr mais livre para nutrir o solo por onde passa e fertilizar o terreno onde se formará o cidadão apto a enfrentar o futuro. A ética para o mundo tecnológico que cada vez se impõe mais na sociedade atual traz ainda dois outros princípios – a esperança e o medo. Certamente o medo e a esperança estão contidos, ambos, na responsabilidade. A esperança ligada à responsabilidade é uma condição implícita em toda ação, uma vez que ela, a esperança, supõe que seja possível realizar alguma coisa e o medo ligado ao princípio Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. A origem genuína de uma ideia de responsabilidade com essas 101 responsabilidade não é aquele que nos aconselha a não agir, mas, sim, aquele que nos convida a agir. Nessa ética do futuro, a tecnoética, a responsabilidade é o cuidado entendido como obrigação em relação a um outro ser e que se torna “preocupação” quando há uma ameaça concreta à sua vulnerabilidade. No correr desse rio, há ainda que se considerar como afluentes, a esperança contida no agir e a heurística do medo, capaz de prover tanto a representação do mal quanto a representação do bem. “Trata-se aqui de assumir a responsabilidade pelo futuro do O conceito de reciprocidade tem sido entendido através dos tempos como fundamental à questão ética. A preocupação de filósofos como Hans Jonas extrapola esse conceito para uma situação em que a reciprocidade responde bem ao aspecto de necessidade, mas não ao de suficiência. Quem co nferirá o critério de suficiência a esta nova ética será o conceito de responsabilidade, uma vez que o compromisso dessa nova ética é com o futuro e as gerações que virão, pelo impedimento temporal, não conseguem retribuir o bem que possa ser feito. Por isso Hans Jonas baseia toda a sua Tecnoética no conceito de responsabilidade. Os pontos fundamentais da relação concebida por Hans Jonas entre técnica e ética podem ser vistos em um artigo seu incluído na obra Technik, Medizin und Ethik. Zur Praxis des Prinzips Verantwortung, Frankfurt a/M, Insel, 1985, pp. 42 -52. A versão em inglês deste trabalho, que veio a público antes do original – Technology as a Subject for Ethics – foi publicada na revista Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. homem.” (JONAS, 2006, pg. 353). 102 americana Social Research 19 vol. 49, n.4, 1982. A tradução que servirá de base aos comentários que se seguem foi feita pelo professor Oswaldo Giacóia Júnior (1999) do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp e publicada na Revista Natureza Humana (GIACOIA, 1999). Neste artigo, Jonas parte do simples fato que a técnica é um exercício do poder humano, visto como uma forma do agir e, como tal, exposto à prova moral. Para Jonas, a técnica moderna provoca um esforço adicional para o pensamento ético, diferente do que se costuma usar para estabelecer as relações até então desencadeadas pelo agir humano. A fundamentação para essa tese está concentrada 1. Ambivalência dos efeitos Esse fundamento básico para definir as questões tecnoéticas tem suas origens na concepção aristotélica, que diz que algumas coisas boas em si podem, pelo mau uso, tornarem -se ruins. Para clarificar esse conceito isso, Jonas exemplifica com a inegável boa qualidade em se ter o dom da palavra e o mau uso disso ao usar esse dom para enganar os outros. No exemplo dado, é perfeitamente plausível para a Ética definir o que é bom e o que é mau, de tal maneira que seja possível categorizar: “use esse poder, aumenta -o, mas não faça mau uso dele” (JONAS apud GIACOIA, 1999, pg.409). O que Jonas vê como novidade é que, apesar dos eventuais bons propósitos da técnica, ela traz em seu bojo um conjunto de efeitos que se potencializam como maus efeitos que suplantam os bons efeitos que pretendia atingir. Dessa maneira, não fica mais evidente, como no caso do “dom da palavra”, como separar o “bom” do “mau”, 19 http://www.socres.org/new_site/contact.html - acesso em 10 jan. 2012 Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. em cinco itens básicos: 103 uma vez que todo “bom” acaba tendo, necessariamente, acredita Jonas, resultados maléficos. O lado ameaçador da técnica é que A dificuldade é a seguinte: não apenas quando a técnica é perfidamente mal empregada, isto é, para maus fins, senão que mesmo quando é beneficamente empregada para seus autênticos e altamente legítimos fins, ela tem em si um lado ameaçador, que, a longo prazo, poderia ter a última palavra. (JONAS apud GIACOIA, 1999, pg.409) Esse “longo prazo” a que se refere Jonas está intrinsecamente ligado às questões técnicas e dá a noção inicial de uma ética de reponsabilidade, uma vez que a barreira temporal à qual essa ética está sujeita não admite mais um equilíbrio nas relações sujeit as a um reciprocidade. A origem desse comportamento da técnica estaria, segundo Jonas, na não existência de um espaço de neutralidade ética das questões técnicas em função de uma dinâmica in terna que impele sempre para a frente o fazer tecnológico. O risco do “demasiado” está sempre presente na condição pela qual o inato germe do “mau”, isto é, do danoso é co-nutrido e conduzido ao amadurecimento precisamente por meio do levar avante o “bom”, ou seja, o proveitoso. O perigo reside mais no sucesso que no fracasso – e o sucesso é decerto necessário, sob a pressão das carências humanas. Uma adequada ética da técnica tem que se ocupar com essa interna equivocidade do fazer técnico. (JONAS apud GIACOIA, 1999, pg.409-410) 2. Compulsoriedade da utilização Não é porque se conhece algo profundamente, que necessariamente esse saber precisa ser exposto. Novamente, Jonas lança mão de um exemplo para clarificar esse item: alguém que tenha um excepcional talento para idiomas não necessita ficar falando sem cessar. O fazer técnico, porém, se assemelha mais à relação poder respirar e ter que respirar. Se uma determinada possibilidade foi aberta pela Ciência, ela costumeiramente traz em si a compulsão de Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. confinamento no tempo, como vinha sendo o pressuposto da ética da 104 utilização e acaba tornando essa utilização uma permanente necessidade vital. É curioso ver que, em 1982, Hans Jonas já comentava a tecnologia com esse fundamento que bem poderia ser usado para descrever o uso da tecnologia de comunicação móvel, inaugurada no Brasil somente em 1990. Hoje é comum ouvir dos usuários de celular que não sabem viver sem ele. Assim, além da negação de um espaço de neutralidade ética (não há tempo para parar e pensar nos desdobramentos éticos), também não existe “a benévola separação entre posse e exercício do A formação de novas espécies de fazer, que ocorre incessantemente, transporta-se aqui permanentemente em sua difusão na corrente sanguínea do agir coletivo, da qual essas novas espécies não podem então ser mais separadas. (JONAS apud GIACOIA, 1999, pg.410) 3. Extensão global no espaço e no tempo Este fundamento cuida da dimensão dos efeitos da práxis tecnológica atual. A escala de valoração ética que se dava para outras espécies de ação não cabe mais neste palco que, frequentemente, tem o tamanho da Terra. Falamos anteriormente de uma situação na qual “todo emprego em larga escala de uma capacidade” traz consigo um sentido de direção incluindo efeitos que se potencializam, maus efeitos, ao cabo. Temos que acrescentar agora que hoje toda utilização de uma capacidade técnica pela sociedade (o indivíduo singular não conta mais aqui) tende a crescer em “em larga escala”. (JONAS apud GIACOIA, 1999, pg.411) Assim, atitudes tomadas hoje influenciam outras pessoas espacialmente distantes e, como já foi visto, também temporalmente separadas do agente de mudanças. Jonas identifica essa ação como se fosse uma hipoteca sacada sobre a vida futura para auferir vantagens presentes. Se esse for o proceder a que se tenha que Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. poder” (JONAS apud GIACOIA, 1999, pg.410). 105 submeter, dever-se-ia, no mínimo, existir uma honestidade maior em relação aos seres humanos que virão, nossos descendentes, para que eles tenham a possibilidade de se libertar da hipoteca que, certamente, a Mãe Natureza virá cobrar. Sob esse fundamento é que Jonas define o seu Princípio Responsabilidade: O ponto relevante aqui é que a ingerência de dimensões remotas, futuras e globais em nossas decisões cotidianas, prático-mundanas é uma novidade ética, de que a técnica nos encarrega; e a categoria ética que é principalmente chamada ao primeiro plano por esse novo fato se chama responsabilidade. (JONAS apud GIACOIA, 1999, pg.412) Até então, era sempre o patrimônio humano que deveria ser preservado e as questões éticas versavam sobre o respeito ao direito e interesses do próximo, os mecanismos de reparação de eventuais injustiças que emergiriam quando a relação entre os homens não estivesses adequadamente balanceadas e a mitigação dos sofrimentos que todo esse sistema antropocêntrico viesse causar. O horizonte ético, dessa maneira, se configurava de uma forma muito mais estreita e tinha acepções tão simples e abrangentes como “ama o teu próximo”. Agora, além das questões antropocêntricas, que ainda têm um caráter de necessidade, há que ser privilegiado também a inteira biosfera do planeta, após a revelação de sua vulnerabilidade perante o ataque incessante do homem. Esse fundamento, d e uma certa forma, contempla também a questão da vida boa , conforme descrita pelos pensadores contemporâneos Fernando Savater e Yves de La Taille no item 1.7 desta dissertação, uma vez que uma “[...] vida extra-humana empobrecida e natureza empobrecida sig nificam também uma vida humana empobrecida”. (JONAS apud GIACOIA, 1999, pg.413). Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. 4. Rompimento com o antropocentrismo 106 A visão ética ampliada religa o Bem humano com a causa da vida, num movimento contrário à hostilidade que vem sendo perpetrada contra a vida extra-humana. Esse fato, por si, já confere um direito a esta vida extra-humana e estabelece um dever para o homem – o de guardião desse direito, uma vez que foi ele mesmo, por excesso de poder, que feriu quase mortalmente a vida extra humana. “E assim ocorre que a técnica, essa fria obra pragmática da astúcia humana, introduz o homem num papel que apenas a religião por vezes lhe atribuiu: aquele de um administrador e guardião da criação”. (JONAS apud GIACOIA, 1999, pg.413). Jonas saúda neste item a então incipiente técnica ambiental e a nesse ponto, com toda a capacidade técnica acumulada pela espécie humana, o homem só conseguiu reagir ao dano causado ao planeta perante a paulatina constatação de que a Terra, no que concerne à vida humana e vida extra-humana, poderia perecer. Foi necessária a ameaça global, fazendo-se visível, do começo efetivo da destruição do todo, para nos levar a descobrir (ou redescobrir) nossa solidariedade com ele: um vexatório pensamento. (JONAS apud GIACOIA, 1999, pg.413). 5. A colocação da questão metafísica Finalmente, a capacidade de destruição que a tecnologia apresenta confronta a ética com uma questão metafísica, confront o esse que nunca antes havia sido feito: Por que deve haver uma humanidade? O homem deve ser mantido tal como a evolução o produziu? Por que deve ser respeitada sua herança genética? Por que, em geral, deve haver vida? Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. categoriza como uma extensão de nossa responsabilidade. Ainda 107 Jonas responde a essas questões imaginando que o fato de existir é um imperativo categórico para a humanidade e, as sim, em função dele, considera a inadmissibilidade de correr os riscos que as grandes apostas tecnológicas pedem: Se existir é um imperativo categórico para a humanidade, então todo jogo suicida com essa existência está categoricamente proibido, e ousadias técnicas, nas quais esta é a aposta, ainda que apenas remotíssima, devem ser , desde o início, excluídas. (JONAS apud GIACOIA, 1999, pg.414). Jonas termina seu paper falando da liberdade humana e da capacidade que o homem, no âmbito individual , e a sociedade, num determinar a humanidade pelo seu passado, glorificando suas tradições. O movimento tecnológico, segundo Jonas, inverte o sentido imposto pela tradição na medida em que as tradições têm uma força inercial inibidora ao passo que as criações da técnica são, por natureza, propulsoras, conferindo um ponto de inflexão importante à história da liberdade. O que aparece aqui, como uma ameaça à liberdade é o elemento tirânico que transforma as obras dos humanos em seus senhores. Essas reflexões procuram mostrar o vínculo entre a ambivalência da técnica e a sua grandeza ou, em outras palavras, a magnitude espaço-temporal de seus efeitos. Pela ambivalência contida nas questões tecnoéticas, os atores desse mundo da tecnologia ainda não conseguem se mostrar como bons ou maus: “Enquanto o malvado irmão Caim – a bomba – jaz atado em sua caverna, o bom irmão Abel – o pacífico reator – continua discretamente a estocar seu veneno para f uturos milênios”. (JONAS apud GIACOIA, 1999, pg.415). Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. contexto coletivo, têm em reificar seus próprios feitos de tal forma a 108 Esses dois capítulos iniciais procuram fazer um paralelo entre o desenvolvimento da questão Ética através dos tempos e a evolução da Ciência. Estes dois caudais do fazer humano se interpenetram, se cruzam, voltam a correr paralelos, cada vez mais volumosos e mais cheios de reentrâncias e detalhes. A chegada desses rios aos tempos atuais se dá pelo pensamento de dois autores contemporâneos, quando se fala da vertente ética e pela Mecânica Quântica quando se fala da vertente tecnológica. A ponte que liga as duas vertentes e pela qual o nosso discurso deve ter livre acesso foi idealizada e construída por Hans Jonas. Falta só definir um barqueiro experiente capaz de navegar pelos dois caudais, alguém que conheça a Ciência e consiga passar descansar com segurança sob a ponte da Tecnoética. Existiram muitos barqueiros assim através da História, mas o que nos compete aqui é contar a história do barqueiro Dom Bosco, que na complexidade do momento histórico em que viveu, soube descobrir um caminho preventivo para preparar os jovens de seu tempo para poder enfrentar melhor as adversidades. O capítulo seguinte versará sobre o Sistema Preventivo de Dom Bosco e discutirá a importância da aplicação desse sistema para os tempos em que vivemos. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. profundidade do Rio da Ética, tema a violência das águas do Rio da 3. Capítulo III – O Sistema Preventivo de Dom Bosco Cristo de São João da Cruz Salvador Dalí (1951) Museu de Kelvingrove – Glasgow - Escócia 110 Para quem faz do sonho a vida, e da cultura em estufa das suas sensações uma religião e uma política, para esse primeiro passo, o que acusa na alma que ele deu o primeiro passo, é o sentir as coisas mínimas extraordinária — e desmedidamente. Este é o primeiro passo, e o passo simplesmente primeiro não é mais do que isto. (Fernando Pessoa – O Livro do Desassossego) Este terceiro capítulo irá discorrer sobre a obra empreendedora de Dom Bosco e mostrar sua leitura da questão da preventividade, uma palavra de ordem na sociedade europeia após a Revolução Francesa em 1789. A ideia básica era conter a pobreza para que não fosse mais possível a eclosão de revoluções como a que ocorrera na França, desestabilizando todo o regime de poder. A ideia de pobreza costumava ser acolhida juntamente com a loucura. Ao mesmo tempo, o século XIX vinha chegando com um desenvolvimento técnico espetacular e uma esperança dos nobres de recuperar o poder perdido durante o Império Napoleônico. Para tal, as potências europeias se reúnem em um evento denominado Congresso de Viena que institui um braço político-operacional conhecido como Santa Aliança. Acontece, porém, que a Revolução Industrial se instala no coração do sistema produtivo europeu e a mão invisível do mercado, expressão cunhada pelo economista Adam Smith (1723 – 1790), ao invés de regular os processos econômicos, como prometia, varreu os camponeses para as cidades, provocando um gigantesco êxodo rural, aumentando significativamente o nível de pobreza, que não tinha mais a santidade mística da Idade Média. Ao invés disso, tra ziam a prova contundente da ineficácia do Estado em administrar os novos tempos. Nesse cenário, associado à transformação da Itália em um estado único, nasce João Melchior Bosco. O capítulo prossegue Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. prevenção para esse fim eram instituições específicas onde a 111 contando a vida desse homem, de sua vocação religiosa e de sua compreensão do que deveria ser um sistema preventivo. Dom Bosco costumava definir seu Sistema Preventivo tomando como contraponto o sistema vigente que ele chamava de Sistema Repressivo. O acolhimento que dava aos jovens era muito mais eficaz do que a repressão, que podia até impedir um conflito, uma desordem, mas dificilmente melhoraria os culpados. O diferencial de uma educação salesiana é, então, ressaltado no fim do capítulo para enfatizar a eficiência do tripé educativo imaginado por Dom Bosco: amorevolezza, razão e religião. Essa estrutura de valores é que caracterizará o aluno de Engenharia mercado de trabalho, ao mesmo tempo em que contribui para a disseminação de uma ética adequada ao mundo tecnológico. 3.1. O cenário europeu à época de Dom Bosco Conforme citado no capítulo I, o fim da Idade Média se caracteriza por uma mudança em inúmeros aspectos, entre os quais o da estrutura estatal. A estrutura feudal, composta de inúmeros e pequenos feudos vai se consolidando como um estado único e centralizado, à exceção de movimentos como o da formação do Segundo Reich alemão e o Risorgimento Italiano, que promovem a unificação de seus respectivos países somente no século XIX. No mesmo ano da instalação do Congresso de Viena, nasce, em 16 de agosto de 1815, João Melchior Bosco, na comunidade de I Becchi, vila de Castelnuovo d'Asti (hoje Castelnuovo Don Bosco). Dom Bosco vem a falecer em Turim no dia 31 de janeiro de 1888. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. formado em uma instituição salesiana para poder ser inserido no 112 Quando Dom Bosco nasceu, a Itália era um conjunto de reinos e grão-ducados descentralizados. No sul, existia o Reino das Duas Sicílias, governado por Don Fernando I, da casa de Bourbon, a mesma casa real que hoje reina na Espanha. Separando o sul da península italiana dos reinos do norte, existia o Estado Pontifício, controlado nessa época por Pio VII. Ao norte, havia o Grão -Ducado da Toscana, dominado pela família Medici até 1737. O grão -duque desse território era Fernando III, da Casa dos Habsburgos, dinastia dominante do Sacro Império Romano Germânico e do Império Austro Húngaro. A Lombardia e o Vêneto organizaram -se como um estado único e o rei Francisco I da Áustria cria em 1815 o Reino Lom bardo- solução política, esse reino subsiste somente até 1866. Finalmente, no lado italiano que faz divisa com a França, havia o reino do Piemonte-Sardenha, que continha ainda os território s de Nice e Savóia (hoje franceses). Nesse cenário fragmentado, o Conde Camilo Cavour, primeiro ministro do reino do Piemonte-Sardenha, o mais rico e poderoso estado até então, assume o comando da unificação italiana. Cavour faz um acordo com Napoleão III, sobrinho do grande Imperador Napoleão, e pede sua ajuda para expulsar os austríacos do Reino Lombardo-Vêneto. Em troca, Cavour cederia à França a Savóia e o território de Nice. Em 1841, quando Dom Bosco inicia o que será conhecido mais tarde como Oratórios Salesianos, Giuseppe Garibaldi, homem -chave no processo de unificação italiana deixa o Rio Grande do Sul, onde havia lutado na Revolução Farroupilha, vai para o Uruguai e se casa com a brasileira Anita Garibaldi. Em 1848, Garibaldi retorna à Itália para lutar na Lombardia contra o exército austríaco. Ajuda em seguida a defender Roma contra os franceses e é vencido. Nas vizinhanças de Roma, na colina Gianícolo, Anita Garibaldi é ferida Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Vêneto, com duas capitais – Milão e Veneza. Pela artificialidade da 113 mortalmente e Garibaldi é exilado em Nova York. Em 1860, Garibaldi, liderando seus “camisas vermelhas”, se apodera da Sicília e de Nápoles, conquistando o Reino das Duas Sicílias. Quando Cavour morre, em 1861, o Reino do Piemonte -Sardenha já controlava quase todo o território que viria a ser a Itália. O então rei do Piemonte Sardenha, Vittorio Emanuele, proclama -se Rei da Itália e a capital é instalada em Roma, completando a unificação italiana. É nesse cenário difícil que Dom Bosco constrói, pouco a pouco, seu Sistema Preventivo, cujas origens, como mostra Pietro Braido (1999), magnífico reitor da Università Pontificia Salesiana (UPS) no período de 1974 a 1977, remonta à Europa pós napoleônica. Resumindo o que foi exposto até agora no capítulo III e organizando as informações assim compiladas, a questão da prevenção permeava os círculos do poder na Europa pós Revolução Francesa e era entendida como uma garantia contra as revoluções populares. Pode-se olhar essa questão da prevenção sob quatro aspectos: político, social, penal e educacional (DAMAS, 2002): Do ponto de vista político, criou-se a Santa Aliança para garantir, se necessário, pela força, as deliberações do Congresso de Viena. O lado social dessa prevenção propunha o confinamento da parcela da sociedade que o Estado não tinha dado conta. A mão invisível do mercado não conseguia afagar os pobres, loucos e desempregados. Outra preocupação da questão preventiva eram os aspectos penais. Até então, a condução das questões ligadas aos delitos era quase que exclusivamente punitiva, com requintes de crueldade. Procurava-se estabelecer o limite entre os pecados e os delitos para poder acabar com as acusações por seitas secretas, os suplícios atrozes, a Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. (BRAIDO, 1999). 114 pena de morte, as prisões desumanas. O rei deveria fazer leis gerais, às quais todos os súditos deveriam obedece r, mas não caberia ao soberano o julgamento de uma eventual violação dessas leis. Para isso, deveria existir a figura de um juiz. (DAMAS, 2002). Finalmente, num contexto educacional, identificar -se-á, no fim deste capítulo, a “invenção da infância”, num contraponto com a infância ignorada na Idade Média. A criança agora representava a fragilidade e a inocência e na tentativa de preservar essa inocência, os costumes relativos à educação se tornam mais severos e passam a pudor com o próprio corpo, um cuidado extremo com a linguagem e um controle rígido sobre regras de convivência social. (DAMAS, 2002). Esses quatro aspectos – políticos, sociais, penais e educacionais – são fundamentais para caracterizar o cenário preventivo europeu pós Revolução Francesa. A intervenção de Dom Bosco nesse cenário é que será descrita a partir de agora. 3.2. Aspectos Políticos da Prevenção Em 1789, o impacto causado pela Revolução Francesa foi tão grande no pensamento europeu (e mundial, num prazo mais longo), que as casas reais de outros países da Europa, admiradoras do Ancien Régime, ainda não tinham se organizado para evitar a penetração daquelas ideias, quando veio o segundo vendaval francês balançar as estruturas do absolutismo: Napoleão Bonaparte. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. cobrar um comportamento mais recatado, um excesso de 115 Bonaparte assumiu o poder como imperador quinze anos após o início da Revolução Francesa, num evento solene na catedral de Notre Dame, em Paris, quando retirou a coroa das mãos do papa Pio VII, que viera de Roma especialmente para a cerimônia de coroação. Mais tarde, Napoleão proporia uma aliança com Pio VII e, diante da recusa do papa, o imperador francês o prenderia em Savona, após extinguir os Estados Pontifícios na Itália. Estava claro que o Império Napoleônico não iria admitir nenhuma autoridade superior à sua. Quando a Europa continental parecia estar definitivamente sob o domínio de Napoleão Bonaparte, fortalecido economicamente pela venda aos americanos de mais de dois milhões de quilômetros contra a Rússia. Comandados pelo implacável General Inverno, os russos decretaram o início do gradativo declínio do império napoleônico. Enquanto esse império ficava restrito à pequena ilha mediterrânea de Elba, distante apen as 20 km da costa toscana da Itália, o Congresso de Viena, em 1815, redesenhava o mapa político da Europa e devolvia os tronos perdidos nas guerras napoleônicas aos seus respectivos monarcas e restabelecia os estados papais. Durante as deliberações em Viena, Napoleão ainda iria voltar a governar a França, mas seu retorno ao poder duraria somente 100 dias e terminaria com o retumbante e emblemático fracasso em Waterloo. Por garantia, os ingleses agora iriam confinar Napoleão em Santa Helena, uma ilha perdida no meio do Atlântico Sul. A cidade continental mais próxima da ilha era a africana Luanda, capital de Angola, distante 2000 km de Jamestown, a capital da ilha -prisão de Bonaparte. Depois do vendaval francês representado pelo império criado por Napoleão, a Europa queria fortalecer suas estruturas políticas e se prevenir de eventuais conflitos burgueses futuros. Para tanto, convocou o Congresso de Viena em 1815, que, por sua vez, definiu Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. quadrados de terra na América do No rte, veio a malograda campanha 116 seu braço operacional, a Santa Aliança, uma aliança político -militar entre Áustria, Prússia e Rússia. As três potências signatárias da Santa Aliança professavam três diferentes ramos da religião cristã em território europeu: a ortodoxia russa, o protestantismo prussiano e o catolicismo austríaco. Dessa maneira, entendia -se que eventuais revoluções futuras poderiam ser prevenidas, criando-se um vínculo formal de fraternidade entre os governantes e um clima de paternidade entre esses governantes e seus respectivos povos. Esse sistema de prevenção político -religioso podia ser inferido a partir dos dois primeiros artigos do Pacto da Santa Aliança assinado em 16 de Art.1- Conforme as palavras das Sagradas Escrituras, que ordenam que todos os homens se respeitem como irmãos, os três monarcas que assinam este tratado ficarão unidos com vínculo de indissolúvel fraternidade e se considerarão compatriotas em qualquer situação ou lugar, ajudando-se mutuamente; serão para seus súditos civis e militares outros pais de família, guiando-os no mesmo espirito de fraternidade que os anima, para proteger a religião, a paz e a justiça. Art.2- Consequentemente, o único princípio em vigor, tanto entre os três governantes quanto entre seus súditos, será o de prestar serviços recíprocos; de manifestar-se com uma benevolência inalterável, as afeições mútuas que devem animá-los; de considerarse todos como membros de uma mesma nação cristã; os príncipes aliados se consideram delegados da Providência para governar três ramos de uma mesma família, isto é, a Áustria, a Prússia e a Rússia. Declaram então que a nação cristã da qual eles e seus súditos fazem parte, não têm outro soberano se não Aquele a quem pertence todo o poder, porque é só nele que se encontram os tesouros do amor, da ciência e da sabedoria infinita, isto é Deus, o nosso Divino Salvador Jesus Cristo, o Verbo do Altíssimo, a Palavra de vida” (apud BRAIDO, 1999, pg. 36) Os propósitos da Santa Aliança eram tão firmes e tão decididos a intervir mesmo em territórios fora da Europa, que, preventivamente, os Estados Unidos também quiseram se garantir e evitar uma eventual ingerência dos europeus em seus assuntos internos. Para tanto, o presidente americano James Monroe, em sua mensagem anual ao Congresso Americano, anuncia em 2 de dezembro de 1823 o que viria a ser conhecido como doutrina Monroe: Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. setembro de 1815: 117 [...] a ocasião foi julgada adequada para afirmar, como um princípio que envolve os direitos e interesses dos Estados Unidos, que os continentes americanos, pela condição livre e independente que assumiram e mantêm, de agora em diante não devem mais ser considerados como temas para a colonização futura por quaisquer 20 potências europeias . (MONROE, 1823) Apesar da obsessão por prevenção, os ventos do progresso político não poderiam ser contidos com muros de palha. Em 1848, a Primavera dos Povos se alastrou pela Europa. Tratava -se de uma série de revoluções pelos países, impulsionada por uma grande crise econômica. Nasce assim a Segunda República Francesa e o chanceler Metternich, conservador, é obrigado a renunciar ao seu cargo no governo austríaco. O ideal predominante nos países onde houve revolução foi o nacionalismo. Os revolucionários queriam libertar seus povos da dominação estrangeira imposta pelas decisões do Congresso de Viena. O espectro do comunismo rondava a Europa e nesse mesmo ano de 1848 é publicado o Manifesto do Partido Comunista. “Todas as potências da velha Europa uniram -se numa santa caçada a esse espectro: o papa e o czar, Metternich e Guizot, radicais franceses e policiais alemães” 21 (MARX, 2011, pg. 38). O Manifesto Comunista , escrito pelos fundadores do socialismo científico, Karl Marx e Friedrich Engels, é um dos tratados políticos mais importantes do mundo. Engels, na edição inglesa de 1888, define: 20 No original: “[…] the occasion has been judged proper for asserting, as a principle in which the rights and interests of the United States are involved that the American continents, by the free and independent condition which they have assumed and maintain, are henceforth not to be considered as subjects for future colonization by any European powers”. (tradução livre do autor) 21 Pio IX, papa de 1846 a 1878; Nicolau I, czar que governou a Rússia de 1825 a 1855; Klemens Wenzel Lothar Metternich, chanceler do Império Austríaco entre 1821 e 1843; François Guizot, historiador e estadista francês, político conservador e primeiro ministro entre 1840 e 1848; em 1845 expulsara Marx de Paris. (MARX, 2011, pg. 151) Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. europeus 118 Por burguesia entende-se a classe dos capitalistas modernos, que são proprietários dos meios de produção social e empregam trabalho assalariado. Por proletariado, a classe dos trabalhadores assalariados modernos que, não tendo meios próprios de produção, são obrigados a vender sua força de trabalho para sobreviver. (MARX, 2011, pg. 39) O termo proletário é derivado da palavra latina proletarii que descrevia, na Roma Antiga (séc. V a.C.), os cidadãos de classe mais baixa cuja única utilidade para o Estado era gerar proles para engrossar as fileiras dos exércitos do Império 22. A partir do Manifesto Comunista, Marx e Engels usam esse nome para desi gnar a classe de O escritor italiano Umberto Eco (2011), diretor da Escola Superior de Ciências Humanas na Universidade de Bolonha, define o Manifesto Comunista: Inicia-se com um formidável golpe de cena: “Um fantasma ronda a Europa”; depois nos oferece uma história à vol d’oiseau sobre as lutas sociais desde a Roma antiga até hoje, em que as páginas dedicadas à burguesia como classe revolucionária são de tirar o fôlego. Marx nos mostra essa nova força incontrolável que percorre todo o planeta, como se fosse o sopro criador de Deus no início do Gênesis. (ECO, 2011, pg. 362) Em Londres, no ano de 1864, é criada a Primeira Associação Internacional dos Trabalhadores, rebatizada mais tarde, quando a História se consolida, de Primeira Internacional Socialista. Em 1867, Marx publica o primeiro volume de O Capital, semente da derrocada do regime dos czares russos, que iria cair na Revolução Bolchevique em 1917. 22 http://www.thefreedictionary.com/proletarian - acesso em 02 nov. 2011 Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. trabalhadores assalariados. 119 3.3. Aspectos Sociais da Prevenção Partindo de uma necessidade de drenar a água que se acumulava nas minas de carvão no condado inglê s de Staffordshire, o ferreiro Thomas Newcomen criou uma máquina que gerava um vácuo suficientemente forte para aspirar a água acumulada na mina. O êmbolo dessa máquina era movido pela força do vapor gerado pela água aquecida em uma caldeira. O ano era 1698 e começava aí a nascer a Revolução Industrial. A ideia de mecanizar as tarefas era uma obsessão para os fazendeiros ing leses. Um deles, Jethro Tull, de Berkshire, um condado próximo ao das minas de carvão de cavalos. A força motriz não é o vapor, mas o processo é mecanizado também. Acontece que o condado de Berkshi re abrigava o Castelo de Windsor, residência dos monarcas ingleses desde 1070. A rainha nessa época era Ana da Grã-Bretanha, que governava em um sistema de monarquia parlamentar e se esforçava muito para ter um bom relacionamento com os parlamentares da ép oca, o que significava festas e jantares suntuosos no Castelo de Windsor. Ana também incrementou a expansão inglesa além -mar, notadamente a exploração agrícola na Virgínia, nos Estados Unidos. Ora, a presença constante da rainha em Berkshire e a compreensã o de que a tecnologia facilitaria a expansão ultramarina fez com que os inventos da região tivessem uma importância maior do que simplesmente melhorar a produção local. Tull acabou sendo conhecido como Pai da Agricultura Britânica. Com as bênçãos da monarquia sobre o progresso cientifico, James Watt reconstruiu a máquina de Newcomen, um ferreiro pouco versado nos engenheiro mistérios escocês, da Termodinâmica. construiu uma Watt, câmara de matemático e condensação separada do corpo da máquina de Newcomen e, ao regular assim o ciclo de calor, conseguiu aumentar em 75% a eficiência do projeto Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Newcomen, cria em 1708 uma semeadeira mecânica, puxada por 120 original. A partir dessa ideia, criou engrenagens que davam à sua máquina capacidade rotativa. Com transformação de água em vapor, Watt começou a desconfiar que a água fo sse composta por gases; escreveu um artigo com essas ideias para a Real Sociedade Britânica e algum tempo depois, em 1789, no mesmo ano em que eclodiria a Revolução Francesa, Lavoisier formula o princípio da conservação da matéria. O ambiente científico fervilhava com essas novas ideias e começa a acontecer assim a Revolução Industrial, no anonimato dos papers de academia, no silêncio dos laboratórios dos engenheiros, só interrompido pelo silvo do vapor que movimentava êmbolos, desde os poderosos, destinados a movimentar locomotivas. O novo invento iria angariar ferrenhos opositores por volta de 1811, os ludistas, liderados por Ned Ludd, operário inglês que acreditava que as máquinas iriam substi tuir o trabalho humano, causando desemprego em massa. Como todos nós sabemos, Ludd estava coberto de razão. As inquietações que grassavam a sociedade da época procuraram ser respondidas por um pensador da época, Adam Smith, que publica seu livro Riqueza das Nações em 1776, considerado marco fundador das Ciências Econômicas. Smith adivinha o capitalismo e prega o individualismo num raciocínio que supõe que toda a sociedade seria beneficiada se as pessoas procurarem o melhor para si próprias. Assim, o tecelão fará bem o seu trabalho porque respeita o patrão ou porque está pensando no seu salário? Smith acha que o tecelão dá mais importância ao seu salário do que ao bem estar do patrão e assim todos se beneficiam, o tecelão e o patrão. Por que um açougueiro iria vender carne boa para um freguês que nunca havia visto na vida? Porque preza a saúde desse freguês e quer que ele se alimente bem ou porque vislumbra ganhos futuros se Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. mais simples, usados para drenar minas de carvão até os mais 121 consegue a fidelidade desse freguês? Na verdade é a fidelidade do freguês e os consequentes ganhos futuros que interessam ao açougueiro. Com esse raciocínio, imagina Smith, ambos saem satisfeitos, o açougueiro e o freguês. Assim, sem nenhum pudor, imagina que o empregado está preocupado com seu emprego e o dono do meio de produção quer seu lucro, que para ser conseguido, deve vir da comercialização de produtos bons a um preço justo. A sociedade, então, como um todo, se beneficiaria. A única ameaça a esse modelo é o próprio Estado, que não deveria intervir nessa harmonia de eventos. A cada intervenção do Estado, a harmonia criada pelo comportamento natural de patrão e empregado se reestabilizasse. A expressão cunhada por Adam Smith para explicar esse processo é a mão invisível do mercado, que tudo ajeitaria, sem a necessidade da efetiva intervenção do Estado. A História mostra, porém, que a mão invisível aumentou consideravelmente o nível de pobreza e mendicância na Europa pós Revolução Industrial. Houve um êxodo rural enorme – o campo não comportava mais tanta gente sem trabalho: A concentração populacional das grandes cidades gerou uma grande quantidade de famílias miseráveis vindas do campo, numerosos jovens e adultos, subnutridos, sujos, maltrapilhos, com péssimas condições de higiene, não aceitos dentro do ambiente urbano a não ser para serem explorados com trabalhos provisórios. (DAMAS, 2002, pg. 24) As novas configurações sociais, entre as quais o êxodo rural, trouxeram um novo personagem ao cenário urbano do século XVIII e meados do século XIX: a multidão. Grandes pensadores se ocuparam desse tema, como Baudelaire, Victor Hugo, Charles Dickens e Edga r Allan Poe, autor de um conto – O Homem na Multidão – que procura contar quem é esse novo personagem. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. quebraria e seria necessário mais tempo para que essa harmonia se 122 Depois de procurar definir as diversas tribos: homens de negócios, aflitos com a confusão nas ruas, pequenos funcionários, elegantes batedores de carteiras, Poe mergulha na cena londrina, procurando descrever o estrato mais baixo daquela multidão desorganizada. Poe procura identificar vários tipos urbanos, desde o cansado cidadão que volta para casa e que compõe a multidão com um determinado tipo de gente até o exército de prostitutas, artesãos Encontrei judeus mascates, com olhos de falcão cintilando num semblante onde tudo o mais era abjeta humildade; atrevidos mendigos profissionais hostilizando mendicantes de melhor aparência, a quem somente o desespero levara a recorrer à caridade noturna; débeis e cadavéricos inválidos, sobre os quais a morte já estendera sua garra, e que se esgueiravam pela multidão, olhando, implorantes, as faces dos que passavam, como se em busca de alguma consolação ocasional, de alguma esperança perdida. (POE, 1991, pg.171/172) A ideia de prevenção para conter a pobreza eram as instituições chamadas de workhouses na Inglaterra, Zuchthäusern em países de língua alemã e hôpital général na França. A pobreza era acolhida juntamente com a loucura. Nessas instituições eram internados loucos, desempregados, pobres. Um exemplo interessante na Literatura vem da obra David Copperfield, história publicada em capítulos por Charles Dickens e que veio a ser publicada como livro em 1850 . Nessa obra, é desenhado um personagem, Wilkins Micawber, muito pobre e muito bom, que vai preso por não conseguir pagar suas contas. Como ele não consegue se resolver financeiramente, fica o t empo todo devaneando e sonhando com um futuro melhor, sem que consiga fazer nada de concreto para atingir esse objetivo, mostrando assim as dificuldades da época. O personagem é tão intenso e bem desenhado que seu sobrenome “micawber” é incorporado como um substantivo ao léxico inglês em 1852, com o significado de “aquele Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. esfarrapados, tocadores de realejo e, evidentemente, os pobres: 123 que é pobre, mas vive sempre na esperança de um a vida melhor” 23. Em determinado momento, Mr. Micawber contrata como empregada em sua residência uma moça chamada Clickett, vinda de uma workhouse. Dickens cita muito rapidamente essa personagem, que logo some da trama, como se fosse apenas um reforço para o desenho de Mr. Micawber. Quem vivia numa workhouse era, no máximo, funcionária de um patrão falido. (DICKENS, 1994) Acontece que as teorias sociais, em sua maioria, previam um bom andamento do Estado com o advento da tecnologia e os pobres eram uma prova viva do erro dessas previsões e por isso, não eram bem vistos, diferentemente da Idade Média, quando a pobreza podia traz uma culpabilidade e perturba a ordem do espaço social. Como o pobre não é produtor nem consumidor na economia mercantilista nascente, seu único destino parece ser o confinamento. Os que procuravam manobrar as massas pobres, sem, contudo resolver seus problemas, eram contra a internação: Mas com a indústria que acaba de nascer ele [o pobre] volta a fazer parte da nação. Por isso o internamento é criticado, exatamente porque ele produzia um grave erro econômico quando acreditava que se acabaria com a miséria, colocando a população pobre fora do circuito de produção e mantendo-a pela caridade. Essa medida, segundo os críticos do internamento, suprimia uma parte da população desse circuito, limitando a produção de riquezas. (VIEIRA, 2007, pg. 17) As tentativas de prevenir nem sempre davam bons resultados, mas era uma atividade importante no con texto da Revolução Industrial – o planejamento social não tinha esse peso na Idade Média. 23 “one who is poor but lives in optimistic expectation of better fortune” – Dicionário Merriam Webster online, disponível em http://www.merriam-webster.com/dictionary/micawber, acesso em 11 out. 2011. (tradução livre do autor) Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. trazer uma santidade mística. Agora, no espaço urbano, a miséria 124 3.4. Aspectos Penais da Prevenção Um outro aspecto da estratégia de prevenção pode ser encontrado no Direito Penal. Até então, a condução das questões ligadas aos delitos era quase que exclusivamente punitiva, com requintes de crueldade, como atestam os inúmeros museus europeus dedicados exclusivamente à tortura de seres humanos. Uma substancial contribuição nessa área veio de Cesare Bonesana, marquês de Beccaria, um jurista milanês que publica em 1764 o livro Dos Delitos e Das Penas, procurando desconstruir o conceito de pena com se fosse uma vingança coletiva. Cesare Beccaria, como é conhecido esse jurista, procurou estabelecer o limite entre os secretas, os suplícios atrozes, a pena de morte, as prisões desumanas. O pensamento de Beccaria levou ao conceito de fixação da pena para cada delito a partir de uma lei pré -estabelecida. O rei deveria fazer leis gerais, às quais todos os súditos deveriam obedecer, mas não caberia ao soberano o julgamento de uma eventual violação dessas leis. Para isso, deveria existir a figura de um juiz. Nesse âmbito, a questão preventiva tem aspectos intrínsecos à sua natureza, conforme explica Pietro Braido: O tema “preventivo” tem porém suas particularidades especificas, quando se trata de antecipar o momento do crime e os sucessivos da detenção preventiva, da intervenção judiciária e penal com a relativa “correção”. Neste caso, a prevenção assume duplo significado: em primeiro lugar, prevenir completamente os crimes; depois, uma vez cometidos, agir “corretivamente” com reeducação e recuperação, de modo a preveni-los no futuro. (BRAIDO, 1999, pg. 24) Em sua obra Dos Delitos e Das Penas, Cesare Beccaria chegou a indicar alguns meios de prevenção, como o esforço da nação para que leis claras e simples pudessem ser promulgadas para que fosse mais fácil obedecê-las, incutir o temor às leis somente e não aos Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. pecados e os delitos para poder acabar com as acusações por seitas 125 homens, combater a ignorância e recompensar as virtudes. Beccaria chegava assim, ao meio preventivo mais seguro: a educação: Finalmente o mais seguro, mas o mais difícil meio de prevenir os crimes é aperfeiçoar a educação, objeto muito vasto que vai além daquilo que me propus de tratar, objeto, ouso dizer, que concerne muito intrinsecamente à natureza do governo, para que não seja sempre até os mais remotos séculos da pública felicidade um campo estéril, e cultivado cá e lá por poucos sábios. (BECCARIA apud BRAIDO, 1999, pg. 24) Michel Foucault mostra em seu livro Vigiar e Punir que havia uma literatura fortemente voltada para a punição cruel, como o te xto anônimo Hanging not Punishment Enough publicado em 1701, que validava procedimentos como: “arrebentar um condenado sobre a suspendê-lo com correntes, antes de deixá-lo morrer lentamente de fome” (FOUCAULT, 2010 ,pg. 17). A justificativa para um suplício cênico, com toda a comunidade acompanhando o fim da vida do condenado, era a salvação da alma, mas aos poucos, “o castigo passou de uma arte de sensações insuportáveis para uma economia dos direitos suspensos” (FOUCAULT, 2010 ,pg. 16). 3.5. Aspectos Educacionais da Prevenção Para que a população, de modo geral, pudesse ficar apta aos novos tempos, uma estratégia educacional era urgente e necessária. O conceito de infância, porém, tinha um outro significado, conforme mostra Philippe Ariès em seu livro História Social da Criança e da Família. Segundo Ariès, a infância, como a conhecemos, é uma construção moderna. Na Idade Média, a duração da infância era restrita ao período mais frágil da vida da criança. Assim que alguma desenvoltura física era notada, a criança era alçada ao mundo dos Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. roda, depois açoitá-lo até a perda dos sentidos, em seguida 126 adultos e compartilhava com eles as tarefas necessárias, só se diferenciando pelo tamanho e pela força. Um indicador desse tipo de comportamento pode ser visto nas pinturas medievais, nas quais a criança é retratada como um adulto em miniatura. A própria família, no início da Idade Moderna, não tinha a função afetiva que se conhece hoje. A função principal era ajudar a manter os bens da família e transmitir a prática do ofício que dava o sustento à casa. Se existisse amor entre os cônjuges ou entre pais e filhos, tanto melhor, mas não era necessário à sobrevivência do núcleo familiar. O espaço privado não era desenvolvido na Idade Média – a vida era, assim, vivida em público. Um índice desse fato é vida privada. Pelo caráter afetivo que tinha, a transmissão de valores não era controlada pela família e era comum que as trocas afetivas ocorressem fora da família, entre amigos, entre vizinhos, amos, criados, onde quer que se desse a manifestação de afeti vidade. A educação, pois, ocorria na convivência com esses adultos, ajudando os a fazer as tarefas do dia-a-dia. No que tange à sexualidade, não havia restrição a nenhum contato físico entre crianças ou entre criança e adulto, uma vez que se acreditava que a criança impúbere era alheia à sexualidade, e quaisquer gestos a esse respeito não teriam a menor consequência sobre ela. Ariès diagnostica uma espécie de anonimato da criança em função do curto período em que a criança é considerada como tal. Os indicadores desse fato são a representação periférica das crianças nas obras de arte e os raros registros de morte nos diários de família. O infanticídio é um crime comum e perfeitamente tolerado. A mortalidade infantil era muito alta, caracterizando a infância c omo um período muito frágil para que tivesse alguma significância social. O sentimento de indiferença à criança seria uma proteção que a Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. a arquitetura das casas, onde não se via, em geral, espaço para a 127 sociedade se dava decorrente do medo de perdê -la precocemente, um fato que apresentava uma possibilidade bastante grand e de ocorrer. A criança começa a ocupar um espaço no mundo adulto quando passa a ocupar um lugar no olhar do adulto. Pintores do Renascimento mostram com frequência em seus quadros a mãe olhando o filho, primeiro a figura da Virgem Maria olhando o Menino Jesus e depois a mãe comum observando a fragilidade de seu filho. Esses indicadores demonstram a cristianização dos costumes e, como decorrência disso, começa a haver um maior número de batismos, num processo que reconhece primeiro a alma das crianças espaço no cuidado familiar, fato importante para a melhoria das práticas de higiene, importantíssimas na explosão demográfica que viria, conforme já descrito neste texto. Concomitante a essa invenção da infância, começa a aparecer a afeição entre os membros da família, criando um círculo virtuoso em relação à retirada da criança da situação de anonimato, refletida por cuidados cada vez mais extremados na preservação da vida. Decorrente desse processo, a mulher acaba ocupando um lugar social que não existia, pelos laços afetivos entre mãe e filhos e consequente valorização da maternidade. No final do século XVII, essas mudanças são consolidadas e começa a aparecer a necessidade de um lugar especial para a educação dessas crianças, num movimento contrário àquele que patrocinava a educação como uma relação casual com adultos. A escola começa a representar esse lugar e as crianças, notadamente as que vinham de famílias mais abastadas, começam a ser paulatinamente separada dos adultos, dando início a um processo de clausura para disciplinar as crianças, que agora representavam a Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. e depois o seu corpo, que gradativamente, vai também ocupando 128 fragilidade e a inocência, em contraposição à infância ignorada da Idade Média. Na tentativa de preservar essa inocência, os costume s relativos à educação se tornam mais severos e passam a cobrar um comportamento mais recatado, um excesso de pudor com o próprio corpo, um cuidado extremo com a linguagem e um controle rígido sobre regras de convivência social, incluindo aí as brincadeira s infantis e mesmo uma vigilância sobre a adequação de leituras, fato que acaba se estendendo também para o comportamento dos adultos. A infância, então, que havia nascido na informalidade do lar, na esfera adulta sob a condução dos eclesiásticos e dos legisladores, preocupados em manter esse ativo recém-descoberto com uma disciplina férrea. Essa disciplina indicava, de uma certa maneira, que os adultos continuavam a não compreender o que era uma criança. A vida social da criança, e por consequência, da família, desloca -se do espaço público para o espaço privado. Baseado nessas constatações, algumas provid ências vão sendo tomadas para garantir a boa educação dessas crianças: como agora elas são inocentes, a questão da sexualidade deve ser separada dos assuntos que são tratados com as crianças; como elas são fracas e débeis, assim também é o seu caráter, que deve ser fortalecido por meio da disciplina e entra em cena o castigo corporal, uma atitude nova e necessária frente à infância redescoberta. Ao mesmo tempo em que as crianças são separadas dos adultos, acontece uma outra separação de classe na sociedade burguesa: os ricos são separados dos pobr es. Ariès é da opinião que esses fenômenos estão interligados e denotam uma tendência de separação em grupos, típico das Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. com a inserção da criança no olhar dos pais, acaba se conso lidando 129 sociedades modernas, em oposição à promiscuidade da estrutura social da Idade Média. A escolarização nesse modelo se deu, primeiramente entre os ricos e entre os meninos. As meninas, mesmo vind as de famílias abastadas, tiveram ainda que esperar quase dois séculos para ter direito a esse processo. (ARIÈS, 1981). Um outro aspecto da escolarização era o fato de a Europa beber da fonte do Positivismo à época de Dom Bosco, o que dificultava bastante a fundação de um Sistema Preventivo. O desenvolvimento do Positivismo, a partir da filosofia kantiana, já foi comentada no A corrente positivista já havia dado seus pri meiros passos guiado por Marie Jean Antoine Nicolas de Caritat, Marquês de Condorcet (1743-1794), que lançara mão do conceito de Matemática Social, segundo o qual seria necessário realizar “um estudo preciso, rigoroso, numérico dos fenômenos sociais”. (ISK ANDAR, 2002, pg.90). Comte (1798-1857) viria depois, falando da importância do conhecimento científico como um modo de pensar e de realizar as transformações sociais. O tecnicismo, assim, toma corpo nesse período, com uma certa rejeição à escola tradiciona l humanista, que era exatamente o ponto no qual Dom Bosco queria se apoiar para fundar seu Sistema Preventivo. Comte defendia a ideia de ordem industrial e o progresso nela embutido. Seu lema era: A ordem por base, o amor por princípio, o progresso por fim. O positivismo tende poderosamente, por sua natureza, a consolidar a ordem pública, através do desenvolvimento de uma sábia resignação. (apud MORAIS FILHO, 1983, p. 31). A influência positivista foi muito forte em todas as partes do mundo. “O currículo multidisciplinar – fragmentado – é fruto da influência positivista” (ISKANDAR, 2002, pg.91). No Brasil, o Positivismo chega à bandeira nacional, com os dizeres Ordem e Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Capítulo 1 desta dissertação. 130 Progresso e no samba Positivismo, de Noel Rosa e Orestes Barbosa, que traz a seguinte estrofe: O amor vem por princípio, a ordem por base O progresso é que deve vir por fim Desprezastes esta lei de Augusto Comte E fostes ser feliz longe de mim (ROSA, 2012) 3.6. O Sistema Preventivo de Dom Bosco Resgatando o objetivo desse capítulo, que é inserir o empreendimento de Dom Bosco no cenário histórico -político em que nasce Dom Bosco no mesmo ano em que se dá o Congresso de Viena – 1815. Seu trabalho pedagógico é considerado enraizado em suas origens. A família é, portanto, a primeira inst ância formadora da estrutura salesiana que iria ser construída. O lar do jovem João Melchior Bosco sempre foi acolhedor. Michelle Perrot, a professora da Universidade de Paris 7 que organizou o volume 4 de A História da Vida Privada, cita Kant para definir melhor esse conceito: A casa, o domicilio, é a única barreira contra o horror do caos, da noite e da origem obscura, encerra em suas paredes tudo que a humanidade pacientemente recolheu ao longo dos séculos, opõe-se a evasão, à perda, à ausência, pois organiza sua ordem interna, sua civilidade, sua paixão. (KANT apud PERROT, 2009, p.284) A formação de uma consciência iluminada pelos novos tempos vem, principalmente, das discussões de João Bosco com o irmão mais velho Antônio, provedor da casa que defendia as concepções pré-Revolução Francesa, segundo as quais “a sociedade era um bem ordenado segundo a vontade do Criador. Quem nascia nobre, nobre seria e quem viera ao mundo como camponês, como tal, deixaria esse mundo” (DAMAS, 2002, pg. 56). João Bosco já tinha em si os ideais do Liberalismo e entendia que Deus co ncedia dons aos seres Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. viveu, é importante retomar o ambiente do seu Piemonte natal, onde 131 humanos para que eles os desenvolvessem e pudessem ter uma vida melhor sem precisar ficar amarrados a uma condição inicial como queria o Antigo Regime. João Bosco era filho de Francisco Bosco e Margarita Occhiena. Seus pais eram camponeses, cristão devotos e bastante pobres. Além dos dois filhos, João Bosco e José Luís, o casal cuidava de Antônio, filho do primeiro casamento de Francisco. Acometido de pneumonia, falece Francisco Bosco em 12 de maio de 1817, deixando Margarida viúva, com três filhos para cuidar. A orientação cristã dos filhos foi dada pela mãe, que ensinava o catecismo de memória, uma vez que era analfabeta. Entre nove e dez anos, João Bosco aprende a ler e [...] minha mãe queria me mandar para a escola, embora a distância me deixasse perplexo, já que estávamos a cinco quilômetros da cidade de Castelnuovo. Meu irmão Antonio se opunha ao fato de eu ir à escola. Adotou-se então uma solução intermediária. Durante o inverno frequentava a escola da cidade vizinha de Capriglio, onde aprendi os rudimentos da leitura e da escrita. Meu professor era um padre muito piedoso chamado José Lacqua, que era muito bom para mim, ocupando-se com um grande interesse em minha educação e, acima de tudo, a minha educação cristã. Durante o verão contentava 24 o meu irmão trabalhando no campo. Entre 1830 e 1831, João Bosco vai para Chieri, uma pequena cidade distante dez quilômetros de Turim para começar a frequentar a Escola Secundária. A hospedagem de João Bosco em Chieri era paga com produtos do campo oferecidos pela mãe, Margarida , e por 24 Texto original em Memorie Dell'Oratorio di S. Francesco di Sales dal 1815 al 1855: “...mia madre desiderava di mandarmi a scuola, ma era assai impacciato, per la distanza, giacché dal paese di Castelnuovo eravi la distanza di cinque chilometri. Recarmi in collegio si opponeva il fratello Antonio. Si prese un temperamento. Il tempo d'inverno frequentava la scuola del vicino paesello di Capriglio, dove potei imparare gli elementi di lettura e scrittura. Il mio maestro era un sacerdote di molta pietà a nome Giuseppe Delacqua, il quale mi usò molti riguardi, occupandosi assai volentieri della mia istruzione e più ancora della mia educazione cristiana. Nell'estate poi appagava mio fratello lavorando la campagna.” (BOSCOa, 2011) (tradução livre do autor) Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. escrever com o sacerdote José Lacqua: 132 trabalhos domésticos realizados pelo rapaz, então com dezesseis anos: No final, e depois de desperdiçar não pouco tempo, foi decidido que eu iria para Chieri para me dedicar seriamente ao estudo. O ano era 1830. Qualquer um que tenha crescido em um bosque, sem nada mais ver do que uma cidade pequena, fica bastante impressionado com qualquer novidade, por menor que seja. A minha pensão era na casa de uma conterrânea, Lucia Matta, uma viúva com um único filho , que estava em Chieri para cuidar dele.25 Ao concluir seus estudos secundários, João Bosco vai para o Seminário de Chieri, ajudado financeiramente pelo teólogo Luis Guala, fundador e reitor do Colégio Eclesiástico de São Francisco de e celebra sua primeira missa na igreja de São Francisco de Assis em Turim. (BOSCOa, 2011) Em 3 de novembro de 1841, o sacerdote João Bosco, agora Dom Bosco, passa a estudar no Colégio Eclesiástico (Convitto Ecclesiastico) fundado por Guala. A espiritualidade do Colégio Eclesiástico estava baseada na doutrina de São Francisco de Sales (1567-1622) e existia a convicção nesse ambiente de que é com a bondade que se ganham as almas. Dom Bosco passa a considerar São Francisco de Sales um modelo para os educadores – e daí é que vem o termo salesiano – e é com base em sua amabilidade que irá criar seu Sistema Preventivo. São Francisco de Sales dizia que: [...] cada alma tem sua história e seu segredo. É amada por Deus sempre e esse amor a toma exatamente do ponto em que se 25 Texto original em Memorie Dell'Oratorio di S. Francesco di Sales dal 1815 al 1855: Dopo la perdita di tanto tempo finalmente fu presa la risoluzione di recarmi a Chieri ove applicarmi seriamente allo studio. Era l'anno 1830. Per chi e allevato tra boschi, e appena ha veduto qualche paesello di provincia prova grande impressione di ogni piccola novità. La mia pensione era in casa di una compatriotta, Lucia Matta, vedova con un solo figlio, che si recava in quella città per assisterlo e vegliarlo. (BOSCOa, 2011) (tradução do autor) Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Assis em Turim. João Bosco é ordenado sacerdote no verão de 1841 133 encontra para fazê-la dar passos avante. Assim cada alma deve aceitar-se assim como é e o seu diretor espiritual (ou o educador) assentá-la sobre o seu próprio caminho. É fácil e perigoso colocar todas as almas numa mesma situação e constrangê-las a caminhar todas com o mesmo passo, queimando etapas, por impaciência de chegar até a meta [...] cada alma tem a sua graça, suas iluminações, suas inspirações, portanto, o seu ritmo; e toda a vida cristã é um itinerário onde se constatam progressos e regressos, tempos de parada e tempos de avanço, às vezes rápidos e muitas vezes lentos (apud AUBRY, 2000, pg.21) Começa, então, o jovem Dom Bosco a conhecer a cidade de Turim, na época com 125 mil habitantes, dos quais 30 mil viviam numa situação de extrema pobreza. Quando conseguiam trabalha r, os ofícios mais comuns eram de engraxate, limpador de chaminé, de pedreiros e outras tarefas, cuja característica de sazonalidade se assemelhavam a estes. O jovem Bosco conhece também a realidade do cárcere, repleto de jovens que, na sua maior parte, estavam lá por causa de roubo, ou por fome ou por inveja ao bem estar alheio. Ciente, agora, da cruel realidade piemontesa, o padre João Bosco se dedica a formar os Oratórios em Turim. Os Oratórios eram um lugar de oração fora do prédio da Igreja. O lugar era designado pelas autoridades eclesiásticas e neles se desenvolvia um modelo de trabalho pastoral e ensino, especialmente para jovens. Esse modelo fora criado por São Felipe Neri em 1564 e aprovado pelo Papa Paulo V em 1612. No ano de 1850 existia m por volta de quinze Oratórios na cidade de Turim. Dom Bosco conta a história de seu encontro na sacristia de uma igreja em Turim com Bartolomeo Garelli, um jovem pobre e abandonado. Era o dia 8 de dezembro de 1841, dia da Imaculada Conceição e Dom Bosco se preparava para iniciar uma missa quando se depara com aquele menino completamente assustado e sem nenhum conhecimento das questões religiosas. Dom Bosco o acolhe e o convida para o catecismo no domingo seguinte e o menino aceita. Na data combinada, Garelli traz alguns amigos e são nove os Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. auxiliar 134 meninos que iniciam os Oratórios Salesianos no melhor estilo da pedagogia de Dom Bosco. (ARTIGONAL, 2011) Ao ser questionado mais tarde sobre o que seria o seu Sistema Preventivo, Dom Bosco começa a exposição definindo seu sistema em oposição ao Sistema Repressivo, mais comum nos dias em que São dois os sistemas até hoje usados na educação da juventude: o Preventivo e o Repressivo. O Sistema Repressivo consiste em fazer que os súditos conheçam a lei, e depois vigiar para saber os seus transgressores e infligir-lhes, quando necessário, o merecido castigo. Nesse sistema, as palavras e o semblante do superior devem constantemente ser severos e até ameaçadores, e ele próprio deve evitar toda a familiaridade com os dependentes. O diretor, para dar mais prestígio à sua autoridade, raro deverá achar-se entre os dependentes e quase unicamente quando se trata de ameaçar ou punir. Esse sistema é fácil, menos trabalhoso. Serve especialmente para soldados e, em geral, para pessoas adultas e sensatas, que devem, por si mesmas, estar em condições de saber e lembrar o que é conforme às leis e outras prescrições. (BOSCOb, 2011) Mais adiante, Dom Bosco explicita a diferença entre o Sistema Repressivo e seu Sistema Preventivo: Diferente e, eu diria, oposto é o Sistema Preventivo. Consiste em tornar conhecidas as prescrições e as regras de uma instituição, e depois vigiar de modo que os alunos estejam sempre sob os olhares atentos do diretor ou dos assistentes. Que estes, como pais carinhosos, falem, sirvam de guia em todas as circunstâncias, deem conselhos e corrijam com bondade. Consiste, pois, em colocar os alunos na impossibilidade de cometerem faltas. O sistema apoia-se todo inteiro na razão, na religião e na bondade. Exclui, por isso, todo o castigo violento, e procura evitar até as punições leves. (BOSCOb, 2011) Prossegue ainda Dom Bosco, dizendo que seu sistema é preferível porque o aluno, previamente avisado, não se abate pelas faltas cometidas e não se irrita pela correç ão que tiver que ser feita ou pelo eventual castigo ameaçado ou mesmo aplicado, pois a punição, devidamente aplicada, contém em si mesma um caráter Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. vivia: 135 amigável que leva o aluno a refletir e a reconhecer que realmente havia necessidade do castigo. O Sistema Repressivo pode impedir uma desordem, mas dificilmente melhorará os culpados. Dom Bosco acreditava que os jovens não esqueciam os castigos injustos recebidos. As lembranças da juventude podem ser muito terríveis e podem até mesmo suscitar um desejo de vingança na pessoa admoestada injustamente. Os castigos dos pais têm maior probabilidade de ser esquecidos, mas o s dos educadores não. O Sistema Preventivo, por outro lado, procura conseguir a amizade do aluno, que acaba vendo no professor um benfeitor que o adverte, quer fazê -lo bom, livrá-lo de dissabores, quer seja no tempo formal da educação, na sala de aula, quer seja fora dela. Conquistado o ânimo 26 no aluno, o professor exerce uma influência muito grande em seu discípulo, mesmo quando egresso da instituição de ensino e pode continuar a ajudá -lo durante a construção de seu “projeto de vida (formação ética) e moral (conjunto de deveres)”. (TAILLE, 2002, pg.112) 3.7. Aplicação do Sistema Preventivo Dom Bosco explica que a prática desse sistema está baseada nas palavras de São Paulo: “Charitas benigna est, patiens est; omnia suffert, omnia sperat, omnia sustinet ” 27. Razão e religião são, 26 De fato, o escudo eclesiástico dos Salesianos apresenta os dizeres: Da Mihi Animas Cætera Tolle, cuja tradução é "Dá-me almas, Senhor, e toma o resto". Tradução disponível em http://www.donbosco-torino.it/port/page15.html – acessado em 25 jul. 2011 27 “A caridade é benigna e paciente; tudo sofre, mas espera tudo e suporta qualquer incômodo.” – tradução disponível em http://www.sdb.org/PR/Documenti/2004/_5_10_6_4_1_.htm – acesso em 02 nov. 2011 Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. castigos e desonra. O aluno percebe, assim, a linguagem do c oração, 136 portanto, os instrumentos que o educador deve usar. Ao lembrar que o vocábulo religião tem a mesma raiz de religar, pode -se lançar mão também da Ética de Religação, dese nvolvida por Edgar Morin (2007), que irá discutir alguns aspectos não circunscritos exclusivamente à doutrina católica, mas que traz em seu bojo o efeito da religiosidade tratada por Dom Bosco. Morin recomenda o uso de protocolos civilizatórios como um procedimento eficaz para esvaziar a hostilidade do outro. Assim, um bom -dia e um aperto de mão apresentam um resultado bastante interessante na aplicação de uma pedagogia que tem, entre suas finalidades, a aproximação com o aluno. Continua Morin dizendo que amor, simpatia, amizade e afeição sentido de religar sentimentos dispersos, afastando a intolerância, hoje entendida como o equivalente psíquico do mecanismo imunológico, recusando tudo aquilo qu e é contrário às nossas ideias e crenças. O verdadeiro amor considera o ser amado como igual e livre e trabalha para efetivar essa liberdade, agindo de maneira que o outro possa aumentar o número de escolhas. (MORIN, 2007) Junto à razão e à religião, completa o tripé educativo salesiano o conceito de amorevolezza: De forma integradora e complementar, a educação salesiana, a partir da amorevolezza, ou seja, do carinho demonstrado, da via do coração, cria o canal afetivo que permitirá o acesso da comunicação educativa. (DAMAS, 2002, pg. 261) É exatamente esse canal afetivo que permite que o Sistema Preventivo mude e se adapte aos novos tempos. As pessoas também mudam e a alma que Dom Bosco clamava para educar pode ter, metaforicamente, uma multiplicidade de f acetas como já denunciava Fernando Pessoa: Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem acabei. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. intensificam o sentimento de identidade comum, trabalhando no 137 (PESSOA, 2011) Pierre Lévy, um pensador tunisiano preocupado com a interação entre Internet e sociedade, define um pouco melhor esse novo olhar para a realidade do mundo e para a história pessoal de cada um de nós. Esse novo humanismo já se prenunciava no dramaturgo latino Publio Terêncio com sua célebre frase "Homo sum: Eu sou, virtualmente, tudo o que é humano. Da ginástica à política. Da filosofia à engenharia. Da culinária à música. Da espiritualidade à pedagogia. Da juventude à velhice. Do masculino ao feminino. Do amor à dor. Da miséria à prosperidade. O humanista jamais será especialista em tudo, mas será capaz de se interessar por tudo o que ele encontra, de vibrar com todas as tonalidades emocionais que o tocam. (LÉVY, 2003, pg.153) De uma maneira mais abrangente, Edgar Morin (2007), define o ser humano como um ser bio-antropo-social. Bio porque existe uma fonte interior ao indivíduo, que se manifesta como um dever; antropo, pela fonte anterior, originária da organização viva e transmitida geneticamente e social porque vem também de uma fonte externa, constituída pela cultura, e que tem a ver com a regulação das regras coletivas. Ora, esse indivíduo irá se deparar com toda uma complexidade de fatores no tecido social, percepção essa facilitada pela sua característica bio -antropo-social, repleta de sentimentos antagônicos, e necessitará lançar mão de uma formação humanista considerável para que possa encarar a inevitabilidade da aquisição de uma consciência planetária. (MORIN, 2007). O humanismo irrompe como um eco-humanismo, lembrando que eco vem da palavra grega para designar casa (οίκος – oíkos). Essa 28 "Sou Homem; e nada do que é humano me é estranho". Públio Terêncio, poeta latino (185159 a.C.). – tradução para o inglês disponível em http://www.merriamwebster.com/dictionary/homo%20sum:%20humani%20nil%20a%20me%20alienum%20puto – acesso em 02 nov. 2011 (tradução para o português do autor) Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. humani nihil a me alienum puto" 28. Lévy complementa: 138 compreensão, ainda que inconsciente, é admirável em Dom Bosco, que não se contenta com a versão clássica do humanismo, na sua tradição judaico-cristã: “Dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que se movem pelo chão” (Gn 1, 13). A forma que Morin (2007) indica para enfrentar esse cenário de incerteza é definida como ecologia da ação, ou seja, a constatação de que toda ação humana escapa ao seu iniciador e entra num jogo de interações múltiplas que a desviam de sua finalidade e às vezes dão-lhe uma destinação contrária à sua intenção. A educação que deve dar conta desse enfrentamento é o que Morin chama de “pensar bem”. No costumeiro movimento dialógico do antropólogo francês mal”. É tudo que não integra, que fragmenta e compartimenta os conhecimentos, que só vê o imediato, esquece o passado e vê somente um futuro a curto prazo. “Pensar mal” também se materializa na perda do essencial por causa do urge nte, esquecendo a urgência do essencial. Nos dias de hoje, ainda há que notar o privilégio que tem tido o quantificável em contraposição à paulatina eliminação do que o cálculo não comporta como as emoções, a s paixões, a infelicidade etc. “Pensar mal” mutila a compreensão e limita os diagnósticos . O “pensar bem” fundamentalmente religa – o que vai ao encontro da primeira perna do tripé do Sistema Preventivo de Dom Bosco – a religião. Ao religar, integra temporalmente o presente na relação circular passado, presente, futuro e integra espacialmente, buscando diagnósticos que considerem a relação local -global. Essa integração espacial não melhora somente as relações entre povos, religiões, ideologias, mas também as relações entre indivíduos numa mesma família, povoado, edifício, empresa etc. Ao religar, busca um conhecimento multidisciplinar. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. vêm, primeiramente, as reflexões sobre o que é considerado “pensar 139 A segunda perna do tripé educativo salesiano – a razão – também é contemplada na complexidade de Morin, que reconhece e enfrenta incertezas e contradições e entre os diversos meios dos conhecimentos multidisciplinares, inclui o cálculo e a quantificação. O pensamento complexo, assim, alimenta a ética e , religando os conhecimentos, religa os seres humanos, o rientando-os para a solidariedade, numa demonstração inequívoca do conceito salesiano de amorevolezza – a terceira perna que dá sustentação ao Sistema Preventivo de Dom Bosco. (MORIN, 2007) O moto cartesiano que fundou a modernidade racional, “penso, logo existo”, parece estar gradualmente cedendo espaço a uma é o eco- humanismo, ou a conexão planetária de Pierre Lévy ou ainda a ética planetária de Edgar Morin. Aprofundando um pouco mais o pensamento pedagógico de Dom Bosco, a ideia de deslocar a responsabilidade para o educador é uma concepção bastante atual se comparada aos ambientes produtivos atuais, associando-se o educador ao funcionário de uma grande empresa. Hoje, o fato de se colocar mais responsabilidade nas tarefas que necessitam ser realizadas é um aspecto bastante valorizado. A propósito da aplicação de seu método, dizia Dom Bosco: Dir-se-á que esse sistema é difícil na prática. Observo que da parte dos alunos torna-se bastante mais fácil, agradável e vantajoso. Para o educador, encerra alguma dificuldade que, porém, diminuirá se ele se entregar com zelo à sua missão. O educador é um indivíduo consagrado ao bem de seus alunos: por isso, deve estar pronto a enfrentar qualquer incômodo e canseira, para conseguir o fim que tem em vista: a formação cívica, moral e científica dos seus alunos. (BOSCOb, 2011) O diferencial da formação salesiana dá -se, então, pela facilitação da proximidade do aluno com o educador. A edu cação recebida, tanto na forma como no conteúdo, cria um vínculo maior do Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. abrangência maior da existência humana, cujo foco 140 professor com o egresso, facilitando a procura de um modelo como o do educador no ambiente de trabalho em que vier a integrar. O aluno de uma instituição salesiana que consegue disseminar essa identidade comum voltada à religação de sentimentos, num primeiro momento não vistos como essenciais ao trabalho, mas que são fundamentais no comportamento ético de uma empresa , é o que era chamado por Dom Bosco de “cidadão prestimoso”. O próprio Dom Bosco procura identificar indicad ores para avaliar uma melhoria no processo educativo se comparado ao sistema repressivo. Diz ele que independente do caráter, da índole ou do estado moral do aluno ao ser admitido, sempre constatar-se-á alguma espaço de desenvolvimento. Como indicador de melhoria do processo educativo, Dom Bosco cita: Antes, meninos houve que depois de terem sido por muito tempo o flagelo dos pais, e, até, rejeitados pelas casas de correção, educados segundo esses princípios, mudaram de índole e caráter, deram-se a uma vida morigerada, e presentemente ocupam posição distinta na sociedade, tornando-se, desse modo, o amparo da família e honra do lugar em que moram. (BOSCOb, 2011) Uma das dificuldades na aplicação desse sistema é a adequação da penalidade. Nunca é fácil entender a rosa e os espinhos. Dom Bosco sugere que, na medida do possível, se evite o castigo, mas quando ele é absolutamente necessário, algumas observações podem ser valiosas. De uma certa mane ira, o Sistema Preventivo não rompe totalmente com o modelo que estava sendo combatido. A passagem gradual de um modelo para outro também é uma característica da qualidade do sistema de Dom Bosco, desde que observados alguns detalhes, resumidos em alguns pontos básicos: o educador deve procurar se fazer amar se quer o respeito como contrapartida. Uma penalidade possível pode ser a retirada de um benefício que é um castigo que pode estimular o aluno a lutar pela reconquista do que já tinha. Ainda prega Dom Bosco que o Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. melhoria no comportamento, desde que seja dado a esse aluno um 141 castigo é o que parece castigo, como um olhar menos amável, que por vezes, teria um efeito maior do que o de uma bofetada. Nesse aspecto, David Levisky, psiquiatra da infância e da adolescência e analista didata da Sociedade Brasileira de Psican álise de São Paulo, tem uma história curiosa: A situação é a daquela mãe – que deve ser educadora, psicanalista, professora ou psiquiatra, alguém dessas áreas – dirigindo-se ao filho que acabou de quebrar o vaso: “Filhinho, docinho, sabe, o vaso é caro, a mamãe ganhou de uma amiga. Você precisa tomar mais cuidado quando brinca com bola, não pode brincar com bola dentro de casa, você precisa pensar mais nas coisas que a mamãe fala...” O menino diz então para ela: “Orra! Será que você não pode me dar logo um tapa e acabar de vez com esse sermão?” (LEVISKY, 2002, Mais adiante, David Levisky explica: A falta de limites nítidos nas relações entre pais e filhos pode ser geradora de insegurança, arrogância e agressividade defensiva por parte da criança e do adolescente. Por outro lado, pode atribuir à criança um excesso de responsabilidade e supervalorizar o diálogo como reflexo da insegurança dos pais para assumirem seus papéis. (LEVISKY, 2002, pg. 104) Dom Bosco ainda recomenda que os castigos não sejam aplicados em público, mas em particular, longe dos companheiros, com todas as ressalvas possíveis para que o aluno, à luz da razão, compreenda a sua falta. Castigos como colocar de joelhos em posição dolorosa, puxar orelhas e outros castigos semelhantes devem simplesmente ser banidos não só porque humilham o aluno, mas também porque desmoralizam o educador. Finalmente, a lei deve ser clara de tal maneira que o aluno nunca possa dizer que não sabia que aquele comportamento era proibido. (BOSCOb, 2011) Se em nossas casas se puser em prática este sistema, creio poderemos alcançar grande resultado, sem recorrermos a pancadarias, nem a outros castigos violentos. Há quarenta anos, mais ou menos, que trato com a juventude, não me lembro de ter usado castigo de espécie alguma. Com o auxílio de Deus, não só obtive sempre o que era de dever, mas ainda o que eu simplesmente Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. pg. 104) 142 desejava, e isso daqueles mesmos meninos dos quais se havia perdido a esperança de bom resultado. (BOSCOb, 2011) A questão do castigo é colocada neste texto para que se tenha uma ideia da dimensão da obra de Dom Bosco. Em um mundo onde se punia o aluno pela falta mais simples, Dom Bosco instala seu conceito de amorevolezza por meio de uma passagem suave do método usual para uma situação em que a punição se transforma em uma reflexão e venha a ser discutida pela dupla interessada no processo educativo – professor e aluno. Ao invés do castigo cruel, como era comum na época em que Dom Bosco buscava suces so para seu Sistema Preventivo, era melhor, tanto para o professor como para o aluno, que o erro, diferentemente de uma fonte de castigos , viesse uma maneira indireta de dar voz ao aluno. Esse feedback do aluno – o erro – se pudesse ser visto e processado pelo professor, poderia se caracterizar como uma coleta de dados importante para o bom desempenho de ambos em sala de aula. Até hoje, creio, essa situação de controle de erro (e não punição) pode ser vista em escolas salesianas e esse método se presta magnificamente aos alunos de ensino superior. Quando se oferece a eles uma oportunidade de dizer o que vai indo mal, ao invés de perceber isso somente após as notas das provas, consegue se um resultado muito melhor no desempenho da classe. O fato de dar voz aos alunos e desenvolver uma atenção para essa voz, o que ela diz nas entrelinhas e o que está por emergir tem sido de suma importância para que eu desempenhe minha função de professor no ensino superior. Para discutir isso, o capítulo que se segue analisa a voz dos alunos a respeito de questões éticas importantes na vida de um profissional de engenharia. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. a se constituir como um indicador de problemas na aprendizagem, 4. Capítulo IV – A Voz dos Alunos O Homem Vitruviano Leonardo da Vinci (1487) Gallerie dell'Accademia – Veneza – Itália 144 A Verdade Dividida (Carlos Drummond de Andrade) A porta da verdade estava aberta mas só deixava passar meia pessoa de cada vez. Assim não era possível atingir toda a verdade, porque a meia pessoa que entrava só conseguia o perfil de meia verdade. E sua segunda metade voltava igualmente com meio perfil. E os meios perfis não coincidiam. Chegou-se a discutir qual a metade mais bela. Nenhuma das duas era perfeitamente bela. E era preciso optar. Cada um optou conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia. (ANDRADE, 2012) No início deste quarto capítulo já estão definidos os rios que foram navegados – a questão Ética no capítulo 1 e a evolução da Ciência no capítulo 2. No passado da Ciência, a intervenção humana causava no máximo, sulcos nesse rio, cujas águas revoltas viriam desfazer o corte provocado pelo Homem. Hoje esses sulcos podem ser cada vez mais fundos, causando feridas irreparáveis ao planeta em que vivemos. No auge da Guerra Fria 29 chegou-se a criar uma doutrina militar de intimidação que garantia a aniquilação mútua dos 29 Período de conflito entre os blocos político-ideológicos comandados pelos Estados Unidos e pela União Soviética, compreendido entre o fim da Segunda Guerra (1945) e a extinção da União Soviética (1991). Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta. Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia os seus fogos. Era dividida em duas metades diferentes uma da outra. 145 antagonistas e, por consequência, a destruição do planeta. Essa doutrina recebeu o nome de MAD (Mutual Assured Destruction 30). A Destruição Mútua Assegurada começou a surgir no final da administração Kennedy. MAD reflete a ideia de que uma população poderia ser mais bem protegida na medida em que sua vulnerabilidade seja comparada às vulnerabilidades do outro lado. Em 31 resumo: Quem atira primeiro, morre em segundo . (NUCLEARFILES.ORG, 2011) No capítulo 3, foi apresentado um singular barqueiro – Dom Bosco – capaz de construir um barco e conduzi-lo por esses rios que apresentam, de um lado, as pacíficas águas da procura pelo entendimento ontológico do Homem ; e do outro lado, as águas entendido sob dois aspectos: o primeiro, original, vindo da Filosofia, que apresenta o Ser enquanto Ser, e o segundo, apropriado pela área da Ciência da Computação, notadamente no que tange aos estudos de Inteligência Artificial, que ente nde ontologia como uma representação do conhecimento sobre a parte do mundo que possa se servir dessa representação. Nesta dissertação, são adequados ambos os significados: tanto o entendimento do Homem enquanto Ser como sua capacidade de representar conhe cimentos sobre uma sociedade que os consome. O barco salesiano, assim estruturado, precisa agora levar seus passageiros a um porto seguro e é este exatamente o propósito deste quarto capítulo, que procurará mostrar a voz dos egressos de um curso de Engenharia de Automação e Controle em uma escola 30 31 Destruição mútua assegurada (tradução livre do autor) No original: “Mutual Assured Destruction began to emerge at the end of the Kennedy administration. MAD reflects the idea that one's population could best be protected by leaving it vulnerable so long as the other side faced comparable vulnerabilities. In short: W hoever shoots first, dies second”. (Tradução livre do autor) Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. revoltas do uso da Tecnologia. O termo ontologia aqui poderia ser 146 salesiana. O objetivo, portanto, deste capítulo é discutir a formação ética de um aluno egresso de uma instituição salesiana. Como explicitado anteriormente na introdução deste texto, não é possível a uma escola ensinar ética aos alunos, mas a instituição pode facilitar essa tarefa criando um terreno fértil para que essa formação viceje. Em uma pesquisa qualitativa como essa, conforme deve deixar clara a análise das questões propostas aos alunos, que virá a seguir, fica desvelada a compreensão de algumas questões éticas pelos próprios sujeitos, ou seja, pelos alunos, que estão imersos nessa formação. Do ponto de vista metafórico, conforme vem sendo construída essa dissertação, a análise do rio da Ética será feita pel os A pesquisa qualitativa, na definição do professor Chizzotti, adere perfeitamente aos objetivos deste trabalho. Vejamos: Se o pesquisador supõe que o mundo deriva da compreensão que as pessoas constroem no contato com a realidade nas diferentes interações humanas e sociais será necessário encontrar fundamentos para uma análise e para a interpretação do fato que revele o significado atribuído a esses fatos pelas pessoas que partilham dele. Tais pesquisas serão designadas como qualitativas, termo genérico para designar pesquisas que, usando ou não quantificações, pretendem interpretar o sentido do evento a partir do significado que as pessoas atribuem ao que falam e fazem. (CHIZOTTI, 2006, pg. 2728) 4.1. O Centro UNISAL A instalação, pelos salesianos, dos primeiros cursos superiores em São Paulo deu-se no Liceu Coração de Jesus no ano de 1939, cursos que depois foram transferidos para a PUCSP. Em seguida, foi fundada a Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciên cias e Letras na cidade de Lorena em 1952. Vinte anos depois, foram criados os cursos universitários em Americana, no ano de 1972. Campinas Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. próprios sujeitos que entram e não entram neste rio . 147 começou a fazer parte desse ciclo salesiano de ensino superior no estado de São Paulo na década de 80. (SALESIANOS, 2011) Todas essas faculdades unificaram um pedido ao MEC para que fossem transformadas em uma universidade, fato que se deu em 1997, nascendo então o Centro Universitário Salesiano de São Paulo, com sede em Americana e unidades de ensino em Americana, Campinas, Lorena e São Paulo. Mais recentemente, em 2004 surgiu uma nova presença universitária na cidade de Piracicaba. (SALESIANOS, 2011) O magnífico Reitor do Centro Unisal, Prof. Dr. Pe. Edson UNISAL, o espaço acadêmico em que trabalhamos como: “O UNISAL, por seus mantenedores e gestores, acredita, sinceramente, que o espaço acadêmico-universitário deve ser um sagrado espaço onde ressoe a vida em sua inteireza”. (UNISAL, 2011, pg. 2). Ainda no mesmo editorial, o Reitor explica: Como estamos numa casa salesiana de educação superior, animado, portanto, pelos valores da pedagogia de Dom Bosco, é necessário que nos transformemos, decidida e corajosamente, em pessoas (gestores, professores e alunos!) cuja reflexão e prática são profundamente aderentes à realidade sociocultural em que estamos inseridos, sensíveis e atentos aos graves problemas que envolvem a vida e as pessoas, revelando uma nova consciência antropológica, educativa, sociopolítica e espiritual. (UNISALa, 2011, pg. 2). Para que o meio acadêmico facilite a revelação dessa nova consciência antropológica, o Centro UNISAL indica o caminho institucional pelo estabelecimento de seu planejamento estratégico em termos de Missão, Visão e Valores. Em um planejamento estratégico, a figura da Visão de uma empresa representa um estado futuro desejável da organização. É como se pretende que a organização seja vista e reconhecida e como incorporar as inovações necessárias à concretização dessa vi são, Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Donizetti Castilho definiu, no editorial do número 52 da Revista 148 concentrando esforços em sua busca. Muito propriamente se associa o conceito de visão de um empreendimento a um sonho. No caso específico de uma instituição salesiana, esse paralelo faz todo o sentido, se notarmos que o coração da questão educativa se manifesta ao empreendedor João Bosco no que é relatado em As Na idade de 9 anos tive um sonho, que me ficou profundamente impresso na mente por toda a vida. Pareceu-me estar perto de casa. Numa área bastante espaçosa onde uma multidão de meninos estava a brincar. Alguns riam, outros se divertiam, não poucos blasfemavam. Ao ouvir as blasfêmias, lancei-me de pronto no meio deles, tentando, com socos e palavras, fazê-los calar. Neste momento apareceu um homem venerando, de aspecto varonil, nobremente vestido. Um manto branco cobria-lhe o corpo; seu rosto, porém, era tão luminoso que eu não conseguia fitá-lo. Chamou-me pelo nome e mandou que me pusesse à frente daqueles meninos, acrescentando estas palavras: – Não é com pancadas, mas com a mansidão e a caridade que deverás ganhar esses teus amigos. Põe-te imediatamente a instruílos sobre a fealdade do pecado e a preciosidade da virtude. Confuso e assustado, repliquei que eu era um menino pobre e ignorante, incapaz de lhes falar de religião. Senão quando aqueles meninos, parando de brigar, de gritar e blasfemar, juntaram-se ao redor do personagem que estava a falar. Quase sem saber o que dizer, acrescentei: – Quem sois vós que me ordenais coisas impossíveis? – Justamente porque te parecem impossíveis, deves torná-las possíveis com a obediência e a aquisição da ciência. - Onde, com que meios poderei adquirir a ciência? - Eu te darei a mestra, sob cuja orientação poderás tornar-te sábio, e sem a qual toda sabedoria se converte em estultice. - Mas quem sois vós que assim falais? - Sou o filho daquela que tua mãe te ensinou a saudar três vezes ao dia. – Minha mãe diz que sem sua licença não devo estar com gente que não conheço; dizei-me, pois, vosso nome. – Pergunta-o à minha mãe. Nesse momento vi ao seu lado uma senhora de aspecto majestoso, vestida de um manto todo resplandecente, como se cada uma de suas partes fosse fulgidíssima estrela. Percebendo-me cada vez mais confuso em minhas perguntas e respostas, acenou para que me aproximasse e, tomando-me com bondade pela mão, disse: – Olha. Vi então que todos os meninos haviam fugido, e em lugar deles estava uma multidão de cabritos, cães, gatos, ursos, e outros animais. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Memórias do Oratório como sendo O Sonho dos Nove Anos: 149 A Visão explícita do Centro UNISAL, publicada em seu site corporativo é a seguinte: VISÃO: “Consolidar-se como centro de excelência, reconhecido nacional e internacionalmente na produção, sistematização e difusão do conhecimento e na qualidade de serviços prestados à comunidade”. (UNISALb, 2011) Ainda dentro da teoria de Planejamento Estratégico, esse objetivo sonhado tem planos de concretização através de dois braços estratégicos: o primeiro que serve de critério geral para tomada de decisões e que funciona como o aspecto operaciona l da instituição, e o segundo que aglutina as convicções dominantes e as crenças básicas nas ideias fundadoras da instituição. O primeiro braço – o operacional – pauta-se por outra figura estratégica conhecida como Missão, que nada mais é do que uma 32 Tradução do original italiano disponível em http://domboscoeducador.blogspot.com/2006/04/o-sonho-dos-9-anos.html - acesso em 07 nov. 2011 Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. – Eis o teu campo, onde deves trabalhar. Torna-te humilde, forte, robusto; e o que agora vês a esses animais, deves fazê-los aos meus filhos. Tornei então a olhar, e em vez de animais ferozes apareceram mansos cordeiros que, saltitando e balindo, corriam ao redor daquele homem e daquela senhora, como a fazer-lhes festa. Neste ponto, sempre no sonho, desatei a chorar, e pedi que falassem de maneira que eu pudesse compreender, porque não sabia o que significava tudo aquilo. A senhora descansou a mão em minha cabeça dizendo: – A seu tempo tudo compreenderás. Após essas palavras, um ruído qualquer me acordou, e tudo desapareceu. Permaneci atônito. Parecia que minhas mãos doíam devido aos socos que tinha dado, que minha face doía pelos socos recebidos. Aquele personagem, aquela senhora, as coisas ditas e ouvidas, me ocuparam de tal forma a mente que não consegui retomar o sono 32 aquela noite. (BOSCOa, 2011) 150 declaração do que é a instituição e qual é, em essência, sua razão de ser. A Missão explícita do Centro UNISAL é: MISSÃO: “O Centro UNISAL, fundado em princípios éticos, cristãos e salesianos, tem por missão contribuir na formação integral de cidadãos, através da produção e difusão de conhecimento e da cultura, em um contexto de pluralidade”. (UNISALb, 2011) Finalmente, os Valores salesianos são definidos para estruturar e disseminar as convicções dominantes na cultura da instituição. Os valores assim expressos são elementos motivadores que direcionam as ações das pessoas, imprimindo um aspecto único relacionado ao fazer da instituição. Sinalizam, portanto, unidade e coerência no trabalho. No caso do Centro UNISAL, esses valores são cinco, Amorevolezza – é o canal de acesso ao diálogo educativo, caracterizado por demonstrações de afeto recíprocas entre educador e educando que possibilitam as trocas simbólicas dos valores e dos significados de vida. A amorevolezza, a razão e a religião compõem um harmonioso movimento pedagógico, expressão de uma espiritualidade relacional que exige equilíbrio afetivo, fidelidade oblativa, diálogo educativo, paciência histórica e clima de amizade e serviço (CG 24, 89-93). Diálogo – é o elemento constitutivo e fundante da pessoa humana, necessitada das trocas simbólicas com o outro para suas realizações pessoal e social. Apresenta-se como pressuposto ao debate, à participação da comunidade, respaldando a gestão dos diversos processos institucionais. Ética – é o processo racional de discussão de valores apreendidos por tradição, possibilitando a sua livre e crítica introjeção. Na instituição, a ética promove a dissolução de conflitos e livre construção, desenvolvimento e definição de valores e da pessoa humana. Profissionalismo – é condição para que, em um contexto social amplo e complexo, haja uma intervenção competente, em uma área de trabalho. O profissionalismo expressa a necessidade de formar pessoas qualificadas técnico-profissionalmente, capazes de buscar soluções teórico-práticas para os desafios e necessidades sociais e de se inserir no mercado de trabalho, contribuindo para a construção de uma sociedade cidadã. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. conforme explicitados abaixo: 151 Solidariedade – é a atitude de reconhecimento e respeito à pessoa humana e aos seres vivos, no que diz respeito à sua dignidade. Manifesta-se pelo cultivo da sensibilidade e da partilha nas ações voltadas às causas humanitárias, ecológicas e religiosas. (UNISALb, 2011) A presença salesiana no que se refere a centros de ensino superior se espalha por dezoito países perfazendo um total de trinta centros de ensino na América, Ásia e Europa. O foco de estudo dessas instituições de ensino superior nas Ciências Humanas compreende as ciências da Educação, Comunicação e Ciências Empresariais e na área de Ciências Exatas, compreende cursos nos setores de Engenharia e Informática. salesianos da pedagogia contribuíram diferenciada para uma de melhoria Dom na Bosco, os Educ ação, notadamente nas áreas de ensino pré -universitárias. Com a aquisição de excelência nesse campo e para responder à demanda das classes sociais por uma continuidade no processo educativo, foram instituídos também os cursos superiores: Desde sua fundação, na metade do século 19, os salesianos dedicam grande parte de sua ação à educação e ao ensinamento em todos os níveis que precedem a universidade. Têm-se distinguido, em todas as partes, sobretudo pelos seus centros de formação profissional. A fidelidade à vocação de educadores entre as camadas populares os levaram, em tempos recentes, a ingressar também no campo universitário, dada a transformação e às novas exigências dessas mesmas faixas sociais. (SALESIANOS, 2011) No mundo todo, os salesianos estão presentes em 131 países, reagrupando-se em 8 regiões e 91 inspetorias. No Cone Sul, região com 16 países, os salesianos dividem -se em 11 inspetorias, 6 das quais localizadas no Brasil. As sedes dessas inspetorias situam -se nas seguintes cidades: Belo Horizonte (MG), Manaus (AM), Campo Grande (MS), São Paulo (SP), Porto Alegre (RS) e Recife (PE). (SDB, 2011) Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Através 152 4.2. O Curso de Engenharia de Automação e Controle Um curso de Engenharia e Automação e Controle tem por objetivo formar profissionais aptos a trabalhar com automação industrial e controle de processos. A partir do momento em que as indústrias precisam desenvolver processos capazes de aumentar a produção ao mesmo tempo em que reduzam as taxas de defeito na fabricação de produtos e, assim, poder participar do mercado competitivo, é que surge a atividade de um Engenheiro de Automação e Controle. Esse profissional deve ser capaz de projetar, operar e dar manutenção aos equipamentos que são usados nos processos Os equipamentos necessários a essa produção podem ser entendidos tanto como máquinas automáticas operadas por um trabalhador como máquinas robotizadas controladas por um software. Além da tarefa da inserção de automação em ambientes fabris não automatizados, o engenheiro de automação ainda atua em ambientes já automatizados, instalados, adequando-os redimensionando aos sempre os mutáveis sistemas já processos de produção. (GRUPOABRIL, 2011). O curso de Engenharia de Automação e Controle é similar ao Curso de Engenharia Mecatrônica, uma vez que os dois têm como formação básica disciplinas ligadas à Engenharia Elétrica, Mecânica e Computação. A diferença reside na ênfase dada a esses cursos: enquanto a Engenharia Mecatrônica enfatiza os conceitos de Engenharia Mecânica, o curso de Engenharia de Automação e Controle é mais voltado para as questões ligadas à Engenharia Elétrica, notadamente na área de automação e controle. (GRUPOABRIL, 2011). O mercado de trabalho é amplo para o engenheiro com tal formação. O website da instituição em que leciono define abaixo Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. automatizados. 153 como entende o mercado de trabalho para os engenheiros de Esses engenheiros receberão uma formação que alia conhecimentos teóricos e científicos com a prática, os quais lhes permitirão desenvolver as atividades destas diversas áreas, permitindo-lhes assim usufruir o fértil mercado de trabalho de Automação e Controle, principalmente da Região Metropolitana de Campinas. Esta região experimenta uma ampliação e consolidação de um complexo parque industrial e tecnológico e o desenvolvimento dos setores de serviços e comercial e a consolidação das áreas de pesquisas. A característica industrial, de pesquisa e de serviços da região metropolitana pode ser constatada pela grande diversidade das atividades desenvolvidas na área de Engenharia de Automação e Controle. O parque industrial e o setor de serviços incluem também os segmentos dos sistemas de energia elétrica, indústrias automobilísticas e de auto peças, fiação e tecelagem, usinas de cana de açúcar, indústrias alimentícias, metalúrgicas, petroquímicas e químicas, empresas de projetos de automação de processos industriais, entre outros. (UNISALc, 2011) O que se estuda num curso de Engenharia de Automação e Controle está muito bem caracterizado no texto do Guia do Estudante, publicado pelo Grupo Abril: Como em todas as engenharias, nos dois primeiros anos o forte são as aulas de matemática, física, química e muita informática. Nesse curso, o aluno também estuda, no início, lógica digital, efeitos sociais da automação e sistemas processadores e periféricos. A partir do terceiro ano, misturam-se as disciplinas de engenharia mecânica, eletrônica e computação. Em mecânica, você estuda termodinâmica, elementos de máquinas e processos químicos, metalúrgicos e automotivos, entre outros. Em eletrônica estão matérias como eletrônica analógica e digital e na área de computação, aulas de estrutura de dados e sistemas de informação. Também há disciplinas integrativas, entre elas projetos de máquinas e integração da manufatura por computador. Nas atividades em laboratório, o aluno aprende a desenvolver, a projetar, a analisar e a controlar máquinas operadas eletronicamente. O estágio é obrigatório, assim como o trabalho de conclusão de curso. (GRUPOABRIL, 2011). Ainda no website do Centro UNISAL de Americana está explicitada a preocupação de uma casa salesiana com a formação integral do profissional que estuda sob os valores que estruturaram e disseminam as convicções dominantes na cultura da instituição: Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Automação e Controle: 154 O UNISAL está comprometido com a formação integral do ser humano e não apenas com sua formação técnica. Assim a nossa expectativa é que o perfil profissional de nosso formando esteja em sintonia com o espírito humanístico, ético e de respeito que norteiam o UNISAL. Entre as qualidades e capacidades que desejamos imbuir em nosso formando, destacamos: Capacidade para trabalho em equipe e em grupos multidisciplinares, com espírito colaborativo. Capacidade para identificar, formular e resolver problemas, assim como para elaborar e defender um projeto técnico de forma clara e fundamentada. Espírito empreendedor e com iniciativa, respeitando em suas atividades profissionais os princípios éticos e sociais da convivência humana e de compromisso com o meio ambiente. Boa formação geral que lhe permita atuar em diferentes tipos de empreendimentos, com rapidez na assimilação de novas tecnologias, espírito crítico e investigativo, e desejo permanente de manter-se atualizado e capacitado. (UNISALc, 2011) Para os formandos em Engenharia e Automação e Controle no Dom Bosco, foi feito um questionário buscando avaliar com o ressoa a questão ética discutida até aqui e o comprometimento desses novos engenheiros com a tecnologia que eles aprenderam na faculdade. A elaboração do questionário e a análise das respectivas respostas estão descritas nos itens seguintes. 4.3. Ética e engenharia Três perguntas foram criadas para avaliar a hipótese na qual se estabelece que uma escola como o Centro UNISAL, com os valores salesianos que norteiam sua atividade no cenário de ensino de Engenharia, tenha facilitada sua tarefa de criar um terreno fértil para a disseminação de questões éticas. A turma que se submeteu ao questionário criado para esse fim é uma turma de onze alunos para a qual já ministrei aulas. É uma turma pequena, com todos os alunos do sexo masculino, com idades entre 25 e 29 anos, à exceção de um aluno, cuja idade é de 45 anos. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. ano de 2011 na unidade do Centro UNISAL de Americana, campus 155 Todos os alunos já trabalham e a turma é bastante comprometida com as questões de Engenharia. Tive a grata satisfação de desenvolver uma disciplina com esse grupo, na qual modelos matemáticos eram usados para caracterizar o funcionamento de processos. A técnica em questão tem o nome de Redes de Petri e a participação dos alunos foi avaliada levando em conta a capacidade de entender a realidade e buscar um modelo que resolvesse um problema qualquer ligado ao universo da Engenharia. A solicitação partia de uma solução genérica para um problema, estabelecida por mim, sobre a qual o aluno deveria criar o problema que tivesse aquela solução específica. Procurava com isso, trabalhávamos, tentar dar espaço para a criatividade. Para cada aluno era proposta uma solução diferente para que criassem, portanto, problemas diferentes. O resultado foi magnífico, mostrando criatividade, domínio dos conceitos e da ferramenta computacional usada para simular gráfica e temporalmente os conceitos desenvolvidos. Uma vez caracterizado o grupo de alunos que responde u o questionário, há que se definir a s três perguntas criadas para esse fim: 1. Valores do Centro UNISAL: Amorevolezza, Diálogo, Ética, Profissionalismo e Solidariedade. Qual desses valores tem sido o mais importante para a sua formação pessoal? Por favor, explique o porquê. 2. O que mudou em você, levando -se em conta o antes e o depois de cursar a Faculdade de Engenharia? [Sugestão: você pode falar sobre sua visão de mundo, sua formação pessoal, sua capacidade de relacionamento etc] Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. além de avaliar aspectos técnicos do modelo matemático com o qual 156 3. O que é ser Engenheiro? Qual é a imagem que você faz de sua profissão? As respostas sofreram uma correção no que se refere à gramática em geral e serão analisadas em seguida. 4.3.1. Primeira Pergunta 1. Valores do Centro UNISAL: Amorevolezza, Diálogo, Ética, Profissionalismo e Solidariedade. Qual desses valores tem sido o mais importante para a sua formação pessoal? Por Respostas dadas à pergunta 1: a) Diálogo. Porque com o diálogo é possível que as pessoas cheguem a uma conclusão. b) Profissionalismo, pois esse valor é de extrema importância nas indústrias. Claro que os outros valores também são de extrema importância. Os outros valores já faziam parte da minha formação antes do meu ingresso na universidade. c) Creio que, para minha formação, todos esses fatores têm sua importância, porém a Ética, o Diálogo e a Solidariedade têm uma importância destacada, para a minha formação pessoal e a forma que realizo minhas interações com a sociedade. d) Diálogo, pois através do diálogo é possível se resolver tudo. e) Profissionalismo, ética e solidariedade são os principais valores para uma relação tanto profissional como pessoal. f) Profissionalismo porque, atualmente, estudos estou bem empregado. em função desses Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. favor, explique o porquê. 157 g) Diálogo. Porque através do diálogo com os professores conseguimos fazer com que as suas respectivas matérias tivessem o melhor aproveitamento na sala. h) Amorevolezza, pois sempre tive essa intenção na formação de engenheiro. i) Profissionalismo, pois apesar de algumas dificuldades e desentendimentos, sempre houve profissionalismo do corpo docente e da diretoria da instituição. j) A ética, pois com ética é possível unir o perfil pessoal e profissional e conseguir sucesso em ambas as partes. k) Diálogo. Vejo diálogo como principal ferramenta para A instrução dada foi para que os alunos escolhessem somente um dos valores da instituição para elegerem como o mais importante para a formação pessoal. Alguns alunos, porém, indicaram mais do que um valor e as respostas foram computadas levando em conta este fato. Desta maneira, entre os onze alunos sujeitos ao questionário, foram apuradas treze respostas, divididas da seguinte maneira (em ordem decrescente do número de vezes em que foi citada): Diálogo (5 vezes), Profissionalismo (4 vezes), Ética (3 vezes), Solidariedade (2 vezes) e Amorevolezza (1 vez). Dos cinco valores expressos para o centro UNISAL, o mais lembrado foi o Diálogo. Comecemos, então, por esse valor, a análise ao questionário proposto. A palavra diálogo vem do grego διά – diá (através) e λόγος – logos (palavra). Como explicitado no texto do professor Severino (2010), indicado na Introdução desta dissertação e reproduzido aqui, a ética precisa da linguagem e é essa constatação que acaba sendo feita na voz dos alunos. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. convívio no ambiente acadêmico e profissional. 158 Como concepção, a ética não se faz apenas de ideias, de conceitos, de raciocínios lógicos. Também se faz da percepção dos sujeitos, do que é sentido, do que é imaginado, e das múltiplas interpretações da história vivida e convivida. Assim, essa ética precisa de linguagem, de imagens, de metáforas – tanto para pensar-se como para expressarse. Precisa de um logos. (ANTONIO, 2010, pg. 25) Estão reunidas abaixo somente as respostas que citam o Diálogo como valor mais importante para a formação pessoal do aluno. Pode-se notar que algumas palavras-chave ecoam através das respostas específicas reunidas sob a categoria DIÁLOGO, tais como : convívio, interações com a sociedade, solução total dos problemas, negociação. Diálogo. Porque com o diálogo é possível que as pessoas cheguem a uma conclusão. Creio que para minha formação todos esses fatores têm sua importância, porém a Ética, o Diálogo e a Solidariedade têm uma importância destacada, para a minha formação pessoal e a forma que realizo minhas interações com a sociedade. Diálogo, pois através do diálogo é possível se resolver tudo. Diálogo. Porque através do diálogo com os professores conseguimos fazer com que as suas respectivas matérias tivessem o melhor aproveitamento na sala. Diálogo. Vejo diálogo como principal ferramenta para convívio no ambiente acadêmico e profissional. Paulo Freire escreveu um ensaio no Chile sobre a comunicação entre o técnico e o camponês no processo de desenvolvimento de uma nova sociedade agrária que, naquele longínquo 1968, se criava. Sabe-se que, do ponto de vista semântico, “as palavras têm um sentido de base e um sentido contextual” (FREIRE, 1985, pg. 11). Nesse ensaio, chamado Extensão ou Comunicação?, Paulo Freire Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. DIÁLOGO 159 estuda a relação entre o agrônomo e o camponês e começa o texto analisando semanticamente o sentido da palavra “extensão”. Essa palavra, usada no contexto agrário, não significa estender as mãos, mas sim estender os conhecimentos e as técnicas de um engenheiro agrônomo. Apesar da diferença de contexto entre professor/aluno, trabalhado nesta dissertação e engenharia/sociedade, apresentado no texto de Paulo Freire, as palavras desse educador brasileiro ressoam muito bem no contexto desta dissertação, ajudando a definir a importância do diálogo, já percebida, nesta pesquisa, pelos a lunos Para o humanismo, não há outro caminho senão a dialogicidade. Para ser autêntico só pode ser dialógico. E ser dialógico, para o humanismo verdadeiro, não é dizer-se descomprometidamente dialógico; é vivenciar o diálogo. Ser dialógico é não invadir, é não manipular, é não sloganizar. Ser dialógico é empenhar-se na transformação constante da realidade. Esta é a razão pela qual, sendo o diálogo o conteúdo da forma de ser própria à existência humana, está excluído de toda relação na qual alguns homens sejam transformados em “seres para outro” por homens que são falsos “seres para si”. É que o diálogo não pode travar-se numa relação antagônica. O diálogo é o encontro amoroso dos homens que, mediatizados pelo mundo, o “pronunciam”, isto é, o transformam, e, transformando-o, o humanizam para a humanização de todos. Este encontro amoroso não pode ser, por isto mesmo, um encontro de inconciliáveis. (FREIRE, 1985, pg. 28) Desde a constatação do uso do diálogo como processo de solução de conflitos locais, como costumam ser as interações no dia a-dia de uma sala de aula até o uso do diálogo como ferramenta importante para o convívio no ambiente profissional, o aluno percebe a importância de construir o caminho do coração, ou a amorevolezza de Dom Bosco ou do “encontro amoroso dos homens”, como quer Paulo Freire. O resultado disso, no discurso de Freire, é a transformação do mundo e a consequente humanização de todos. Ora, isso não deixa de ser a constataç ão da constituição de um Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. de Engenharia. 160 terreno fértil para o desenvolvimento de uma postura ética, conforme postula este trabalho. O segundo valor mais citado na pesquisa foi PROFISSIONALISMO. Compiladas abaixo estão apenas as respostas que citam o Profissionalismo como valor mais importante para a formação pessoal do aluno: PROFISSIONALISMO Profissionalismo, pois esse valor é de extrema importância nas indústrias. Claro que os outros valores também são de extrema antes do meu ingresso na universidade. O profissionalismo, ética e solidariedade são os principais valores para uma relação tanto profissional como pessoal. Profissionalismo porque, atualmente, por função desses estudos estou bem empregado. Profissionalismo, pois apesar de algumas dificuldades e desentendimentos, sempre houve profissionalismo do corpo docente e da diretoria da instituição. Existe uma confusão recorrente na definição do conceito de profissionalismo. De um lado dessa tênue linha que turva esse conceito, pode-se identificar o esportista que muda de time em função do salário e se justifica dizendo: “Sou profissional”. Do mesmo lado está o bandido sanguinário que ataca sua vítima e, com golpes precisos, rouba-lhe a vida. A polícia define a cena do crime: “Trabalho de profissional”. Do outro lado desse conceito, que explicita a construção ética do indivíduo, está o verdadeiro profissional. Para poder diferenciar um lado do outro, não basta só a competência. A competência, portanto, item necessário, mas não s uficiente para o Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. importância. Os outros valores já faziam parte da minha formação 161 profissionalismo, tem três características essenciais. (MACHADO, 2011). A primeira delas é a pessoalidade. As pessoas e não as coisas é que são competentes. Faz sentido dizer “engenheiro competente”, mas não tem o menos significado o termo “computador competente”. Esse fato está, portanto, estreitamente ligado à constituição do ser como pessoa, por meio da infinidade de papéis que pode representar. Reportamo-nos, aqui, novamente às musas gregas, especialmente Melpômene e Thália, que repres entam o teatro trágico e cômico, respectivamente. As duas musas carregavam as máscaras representavam. Esse conceito se estendeu pelo teatro romano, que deu o nome às máscaras, trágica e cômica, de personas (per sonare = “soar através de”). As pessoas, então, são caracterizadas pelo conjunto de papéis sociais que representam e esse grupo de papéis é que é usado comumente para ser apresentado ao outro: este é o diretor da empresa, este é meu pai, est e é o vereador etc. Define-se, assim, que papel é desempenhado na vida profissional, no âmbito familiar, no âmbito público e assim por diante. Ninguém se constitui como pessoa, portanto, sem o outro. O outro, o mesmo que é útil para a constituição do homem como pessoa, pode se tornar um empecilho no exercício da tão querida e sonhada liberdade. É exatamente nesse exercício da liberdade que reside o conceito de Ética, conforme trabalhado por Savater (1996): Há coisas que dependem da minha vontade (e isso é ser livre), mas nem tudo depende de minha vontade (senão eu seria onipotente), pois no mundo há muitas outras vontades e muitas outras necessidades que não controlo conforme meu gosto. Se eu não conhecer a mim mesmo e ao mundo em que vivo, minha liberdade às vezes irá esbarrar com o necessário. Mas - isso é importante - nem por isso deixarei de ser livre... mesmo que me queime. Na realidade, existem muitas forças que limitam nossa liberdade, desde terremotos e doenças até tiranos. Mas nossa liberdade também é uma força no mundo, nossa força. (SAVATER, 1996, pg.28). Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. adequadas através das quais faziam soar a personalidade que 162 A segunda característica da competência é o âmbito: A ideia de competência reclama a determinação de um âmbito. Dizemos naturalmente: "Isto não é da minha competência", quando queremos estabelecer tal âmbito. A fixação de um âmbito significa a referência a um contexto, significa uma contextuação. Toda competência realiza-se em determinado contexto. Assim como não existe uma autoridade para todos os âmbitos, também não é concebível uma competência para todos os contextos imagináveis. (MACHADO, 2011, pg.2-3). É mais fácil explicar o que é um engenheiro competente do que um cidadão competente, em função da abrangência do âmbito. A partir do momento em que se restringe o âmbito, fica mais fácil definir a competência porque se evita a pergunta “competente para quê?”. também nesta palavra-ônibus “profissionalismo”. De uma maneira geral a abstração é absolutamente fundamental, e na esco la de engenharia isso não seria diferente. Se a relação 2 + 3 = 5 aprendida no âmbito das laranjas não puder ser usada em outros contextos, como por exemplo, o de controle de processos informatizados, pode se dizer que não houve aprendizado nenhum. A compe tência, portanto, encontra-se também na capacidade de situar o aprendido em diferentes âmbitos. Finalmente, a terceira característica da competência é possibilidade da ação. Alguém que tudo saiba, mas não realiza nada, não pode ser visto como alguém compet ente. Evidentemente, há que existir o desejo, a vontade ou em um estágio mais avançado do desejo e da vontade, o projeto. “A inapetência é a antessala da incompetência” (MACHADO, 2011, pg. 4). Do ponto de vista etimológico, competir vem do latim com + petere, que significa pedir junto com os outros. Volta-se aqui ao mote inicial da questão do profissionalismo. É bastante importante o que se deseja, para que a competência não se resuma a questões capitalistas, em que a competição se dá numa situação em que o s ganhos de um Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Neste aspecto pode-se incluir a questão da abstração, embarcada 163 estabelecem intrinsecamente a noção d a perda do outro. Numa situação tipicamente capitalista, só se ganha quando alguém perde. No âmbito do conhecimento, que é o que interessa para a definição de competência e, na cadeia de raciocínio que ve m sendo definida aqui, para a definição de profissionalismo, o sucesso do engenheiro não deve significar nenhuma perda para o outro. Na busca, uso ou troca de conhecimento, todos devem poder ganhar simultaneamente. Chegamos, portanto, até aqui, definindo u m dos ingredientes para o profissionalismo – a competência. Como ela não é suficiente para construir a ideia de profissionalismo, há que se usar um outro ingrediente para estruturar o conceito de profissional: o compromisso além da recompensa monetária ou do mero cumprimento do dever. No livro Eichmann em Jerusalém, a autora Hannah Arendt (2003) cunha o termo “banalidade do mal” para explicar a conduta de Adolf Eichmann, tenente-coronel do Terceiro Reich alemão, encarregado da logística de identificação e transporte de pessoas para os diversos campos de extermínio para que fosse levada a cabo a Endlösung (solução final). Ao ser questionado sobre os atos torpes que cometera, Eichmann retrucou dizen do que estava apenas cumprindo ordens, tendo a arrogância, inclusive, de pautar suas ações na filosofia kantiana. Arendt (2003) descreve em seu livro: Durante o interrogatório policial, quando Eichmann disse de repente e com grande ênfase, que ele sempre viveu em harmonia com os preceitos morais de Kant, especialmente com a definição kantiana do dever, deu um primeiro indício de que tinha a vaga noção de que naquele assunto havia algo mais do que a simples questão do soldado que cumpre ordens claramente criminosas, tanto em sua 33 natureza como pela intenção com que foram dadas .(ARENDT, 2003, pg. 83) 33 No original: Durante el interrogatorio policial, cuando Eichmann declaró repentinamente, y con gran énfasis, que siempre había vivido en consonancia con los preceptos morales de Kant, en especial con la definición kantiana del deber, dio un primer indicio de que tenía la vaga Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. público ou a capacidade de assum ir compromissos que vão muito 164 A filosofia moral de Kant está tão ligada à faculdade humana de julgar que elimina por completo a obediência cega, mas a questão não é, de maneira nenhuma, saber se Eichmann citou Kant com propriedade ou não, mas sim de tentar se justificar com o simples e banal argumento de “cumprimento do dever”. Há que existir no profissionalismo um componente maior do que o reclamado por Eichmann. Há que existir um valor moral maior do que a ordem do Führer, ou, nos dias de hoje, de quem quiser representar o papel de Führer. As respostas dos formandos de engenharia à questão do indústria e profissionalismo no corpo docente da instituição, ou seja, o profissionalismo que o aluno recebeu e o que ele se jul ga apto a usar no mercado de trabalho. Em um primeiro momento, parece que esse profissionalismo se refere a questões de competência apenas, mas, como exposto acima, a competência acaba sendo apenas um ingrediente desse profissionalismo. Pelos valores expre ssos do Centro UNISAL, não tem sido desejado e nem possível segmentar o conhecimento e, junto com a competência, vem sendo passado aos alunos a questão ética entranhada no conceito de profissionalismo. Esse tipo de resposta ajuda a entender o egresso que, de uma certa forma, ofertou a ideia motriz deste trabalho, aquela em que esse exaluno agradece a mim, professor, por ter ensinado ética a ele , enquanto aluno, conforme descrição detalhada feita no item Introdução, nesta dissertação. noción de que en aquel asunto había algo más que la simple cuestión del soldado que cumple órdenes claramente criminales, tanto en su naturaleza como por la intención con que son dadas. (tradução livre do autor). Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. profissionalismo trazem algumas questões -chave: profissionalismo na 165 Minha esperança de entendimento é procurar compreender, através da análise deste questionário, que não é possível ensinar apenas questões técnicas (que irão atestar a competência dos alunos na área específica), mas também questões éticas (que irão dar ao aluno a noção de compromisso público) e que juntas, devem formar o caráter profissional desse egresso. Três respostas apontaram a ÉTICA como o valor mais importante. São elas: ÉTICA Creio que, para minha formação, todos esses fatores têm têm uma importância destacada, para a minha formação pessoal e a forma que realizo minhas interações com a sociedade. Profissionalismo, ética e solidariedade são os principais valores para uma relação tanto profissional como pessoal. A ética, pois com ética é possível unir o perfil pessoal e profissional e conseguir sucesso em ambas as partes. Todas as dez respostas têm um componente ético importante. A maior parte deste trabalho procura dissertar sobre o paralelo entre a Ética e a Tecnologia. Das três respostas compiladas acima, porém, a terceira (A ética, pois com ética é possível unir o perfil pessoal e profissional e conseguir sucesso em ambas as partes) traz em si essa estrutura proposta no trabalho. O entrevistado entende que a éti ca reúne o perfil pessoal (resultado de um projeto de vida) com o perfil profissional (resultado de uma formação técnica). Um perfil ajuda o outro e ambos se entrelaçam na construção da expectativa de sucesso do formando. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. sua importância, porém a Ética, o Diálogo e a Solidariedade 166 As duas questões que apresentam a Solidariedade como valor principal estão compiladas abaixo: SOLIDARIEDADE Creio que, para minha formação, todos esses fatores têm sua importância, porém a Ética, o Diálogo e a Solidariedade têm uma importância destacada, para a minha formação pessoal e a forma que realizo minhas interações com a sociedade. Profissionalismo, ética e solidariedade são os principais Nota-se que esse valor, Solidariedade, nas duas respostas, vem acompanhado do conceito de Ética. Quem pode contribuir bastante para a compreensão desta questão é Edgar Morin (2007) e seu conceito de pensamento complexo , cujas bases já foram discutidas no item 3.8 desta dissertação. A melhor definição que vi do pensamento complexo de Morin foi a de uma analogia com o ato de tecer. Enquanto estudava o livro Ética, de Edgar Morin (2007), minha esposa tricotava um cachecol na sala de casa. Quanto mais eu lia e procurava entender a urgência do essencial, mais o cachecol se configurava como tal, capaz de aquecer o colo de nossa filha, a destinatária daquele presente tecido pela mãe. Ora, o cachecol era antes de tudo, um fio de lã, simples em sua estrutura. Nas mãos de uma hábil tece lã, esse fio foi se transformando em uma estrutura complexa, capaz de assumir a função nobre de aquecer, de proteger o colo do frio. O final daquele trabalho seria um presente para nossa filha e o objetivo do trabalho que eu procurava desenvolver seria para o futuro dos nossos filhos e das gerações que viriam. Da mesma forma que Aristóteles (1991), Yves de La Taille (2011) e Fernando Savater (1996) escreveram uma Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. valores para uma relação tanto profissional como pessoal. 167 obra falando da Ética para seus entes queridos, nós, eu e minha esposa, estávamos produzindo algo para os que nos são caros. Depois, continuando meus estudos sobre a obra de Morin (2007), descobri que a analogia do pensamento complexo com o ato de tecer era uma metáfora cultivada com carinho pelo filósofo francês, e que ela havia se apresentado a mim antes que eu pudesse ver explicitada essa concepção metafórica. É complexo, portanto, o pensamento que não pode ser definido por uma palavra-chave ou uma ideia simples que não consegue fazer nada além de mutilar a questão que está tratando. Através de um raciocínio lógico-matemático muito bem elaborado, Morin (2007) usa se o pensamento complexo fosse o resultado da redução a um conceito estanque, ele ocuparia o lugar da simplicidade, que tem exatamente essa característica. Como simplicidade e complexidade são conceitos antagônicos, com cargas semânticas distintas, não se pode admitir uma definição autocontida para a questão da complexidade. Para proteger a fragilidade ética numa trajetória de incertezas e mudanças contínuas, Morin (2007) nos convida a trabalhar pelo “pensar bem”. Como já visto no item 3.8, o “pensar bem” é definido no diálogo com o “pensar mal”, fonte de uma paralisia ética. O “pensar mal” fragmenta e compartimenta conhecimentos e nesse processo preocupa-se quase que somente com o imediato, esquecendo-se do passado e não se importando com um futuro a longo prazo (MORIN, 2007). Nesse ponto, as observações de Morin e Jonas são similares, uma vez que as duas se encontram no ponto comum da falta de preocupação com o futuro. Partindo dessa similaridade, pode -se resgatar o raciocínio de Morin em busca da necessidade de orientar as pessoas para a Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. o conceito da negação da hipótese e da unicidade para mostrar que 168 solidariedade: o “pensar bem” religa saberes, buscando um conhecimento interdisciplinar, entendendo as questões tecnológicas como parte de um contexto global. Com isso, é possível ampliar os diagnósticos das questões, ampliando a conotação e a importância do tempo que foi vivido, da realidade em que se vive e do futuro que virá, ou seja, o “pensar bem” propõe que o imediatismo seja apenas a parte de um presente incorporado à relação circular de p assado, presente e futuro. Dessa maneira, o pensamento complexo, tecido com as ferramentas do “pensar bem” alimenta a ética, estimula cada vez mais o autoconhecimento e orienta as pessoas para a solidariedade, tão necessária para garantir o vínculo social num Com essa tessitura de ideias, Morin (2007) entende que não é possível melhorar somente as relações entre povos, religiões e ideologias, mas também as relações entre indivíduos em uma família, um povoado, um edifício, uma empresa etc. A solidariedade, assim desenvolvida, dissolveria a barbárie das relações humanas, que aloja o mal ético. (MORIN, 2007). A partir do momento em que os estados modernos diminuem a sacralização do poder, mostrando um poder que emana dos homens e não de Deus, a noção de pátria é que enraíza o componente comunitário. Se questão solidariedade, da os homens desenvolvessem essa noção profundamente comunitária poderia a se estender para a Terra-Pátria, estabelecendo uma Ética Planetária, algo bastante semelhante ao que Hans Jonas (2006) propõe como Tecnoética. Mesclando novamente o pensamento de Jonas (2006) e Morin (2007), a solidariedade é que faria a ponte entre a reciprocidade e a responsabilidade na questão ética. É gratif icante, portanto, encontrar na enquete feita com os alunos os vocábulos Solidariedade e Ética juntos, indicando a importância do conteúdo que ambos os termos Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. cenário socialmente tão liberal como o que vivemos. 169 comportam na formação pessoal de egressos de um curso de Engenharia. Finalmente, o valor Amorevolezza vem uma única vez citado na pesquisa e, mesmo assim, com uma resposta que não deixa claro se o aluno realmente compreendeu o significado desse conceito basilar para a pedagogia salesiana. (Resposta do aluno: Amorevolezza, pois sempre tive essa intenção na formação de engenheiro). Creio que isso acontece pelo vocábulo ser em outro idioma e não trazer um significado claro aos alunos, apesar da importância capital do conceito que carrega. De uma forma geral, o aluno entende e adota implicitamente o conceito de amorevolezza, mas tem dificuldade em 4.3.2. Segunda Pergunta 2. O que mudou em você, levando-se em conta o antes e o depois de cursar a Faculdade de Engenharia? [Sugestão: você pode falar sobre sua visão de mundo, sua formação pessoal, sua capacidade de relacionamento etc] Respostas dadas à pergunta 2: a) Sem dúvida nenhuma, ocorreu um ganho muito grande de conhecimento; tornei-me uma pessoa mais fácil de se comunicar; aprendi a respeitar mais as diferenças. b) Mudou o meu questionamento dos mais diversos assuntos. Aprendi a ter uma visão mais ampla, ter mais paciência. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. nomeá-lo em um contexto mais amplo como este. 170 c) Minha visão de mundo se ampliou, tive um crescimento e amadurecimento pessoal e também da forma como me relaciono. d) Além da formação pessoal o que eu mais senti mudança foi na maneira de me relacionar com os outros, melhorei muito a forma de me expressar. e) Várias coisas mudaram após o curso: meu pensamento, saber analisar os fatos, colocar o meu palpite no momento certo, mas na parte profissional o curso deixou a desejar. que não concordo com o curso. f) Foi mais um passo importante que dei na minha vida graças a este estudo. g) Principalmente a minha visão de mundo, pois depois de um curso como o de engenharia você nota que seus horizontes se expandem muito mais, e você passa a notar em uma simples coisa, objeto, milhões de possibilidades. h) Como estudo e formação de engenheiro principalmente espero mostrar um grande exemplo para o meu filho de sempre procurar seus objetivo e nunca desistir dos seus sonhos. i) A capacidade de análise com outros pontos de vista o que é de grande importância no mercado de trabalho e na vida pessoal. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Sinto-me como uma cobaia e muitas coisa s 171 j) Houve a ampliação do conhecimento como um leque, onde hoje é possível visualizar com olhar crítico muitas áreas antes desconhecidas. k) Base matemática, visão do mercado de trabalho, oportunidades profissionais. Em cada uma das respostas a esta segunda questão procurouse o encaixe com as categorias já anunciadas: visão de mundo, formação pessoal e capacidade de relacionamento. Além disso, foi uma categoria comporta comentários categoria “outros” conhecimento, à auxiliar, chamada catalogáveis abriga melhoria nas elementos da base de “outros”, categorias relativos à matemática que citada s. ampliação e não deixa A do até transparecer algumas insatisfações com o curso. As respostas sob esta categoria “outros” estão listadas abaixo: Ganho muito grande de conhecimento. Na parte profissional o curso deixou a desejar. Sinto-me como uma cobaia e muitas coisas que não concordo com o curso. Passo importante que dei na minha vida graças a este estudo. Ampliação do conhecimento. Desenvolvimento da base matemática. Apesar de haver material nesta compilação para uma discussão da contribuição de um curso de Engenharia para ampliar a base de conhecimento, esse fator não é objeto de estudo para esta dissertação, o que faz com que esta compilação seja apenas citada, mas não comentada. As categorias-alvo foram reunidas na tabela 2 abaixo (a única resposta que não contempla as categorias escolhidas é a resposta f, Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. criada 172 que, por isso, não aparece na tabela). Após a apresentação das respostas à Questão 3, será comentado o posi cionamento desse aluno. Tabela 2: Indicadores de Mudança visão de mundo formação pessoal d respeitar mais as diferenças. questionamento dos mais diversos assuntos. crescimento e amadurecimento pessoal crescimento na formação pessoal. e mudou o modo de pensar a b visão mais ampla c visão de mundo se ampliou g relacionamento pessoa mais fácil de se comunicar ter mais paciência. amadurecimento na forma como me relaciono. melhorei muito a forma de me expressar. saber analisar os fatos, colocar o meu palpite no momento certo os horizontes se expandem muito mais e nota-se em uma simples coisa ou objeto, milhões de possibilidades. h grande exemplo para o meu filho de sempre procurar seus objetivo e nunca desistir dos seus sonhos. i A capacidade de análise com outros pontos de vista o que é de grande importância no mercado de trabalho e na vida pessoal. j visualizar com olhar crítico muitas áreas antes desconhecidas. visão do mercado de trabalho, oportunidades profissionais. k Fonte: dados compilados pelo autor A visão de mundo se ampliou após o curso, como atestam as respostas, e o aluno, futuro engenheiro, chega a se encantar com o olhar investigativo, perscrutador, olhar que consegue notar milhões de possibilidades nos objetos ou nas “simples coisas”. Parece que o Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. respos ta 173 curso deu uma formação, técnica e humana a esse pr ofissional que se consubstancia no formato de novas lentes para explorar o que sempre esteve presente, mas oculto. As áreas antes desconhecidas são descobertas agora com um olhar crítico. O mundo está sendo avaliado e passível de ser mudado por meio da técnica aprendid a na escola de Engenharia. Antes de mudá-lo, porém, ele se desvela aos olhos do aluno, o que me parece a configuração de um ganho bastante substancial. Esse ganho se consolida com o incremento de sua formação pessoal e sua capacidade de poder lidar com as diferenças, uma resposta surpreendente para mim, professor de tantos anos em de Engenharia. A visão que eu tinha desses alunos contemplava a homogeneidade como regra geral, principalmente pela aquisição de formação técnica nesse sentido: é comum em um procedimento matemático, agir de tal forma que, se os pontos que saem da formação do comportamento padrão forem poucos, esses pontos “fora-da-curva” não devem ser considerados no equacionamento do problema; se esses pontos forem muitos, o processo que os definiu não está correto, pois não permite que seja determinada portanto, uma lei execrados de e formação. Pontos desprezados. Não fora -da-curva é raro ver são, esse procedimento matemático usado para estabelecer causa e efeito nos processos de engenharia ser usado na vida pessoal do aluno, o que exacerba o preconceito no ambiente de engenharia, criando dificuldades para que, por exemplo, mulheres, homossexuais e negros exerçam a profissão. O preconceito, às vezes, chega a atingir aquele que pensa diferente tecnicamente, vislumbrando, assim, uma nova possibilidade técnica para um problema antigo, com solução consagrada. Muitas vezes, esse profissional que ousa pensar diferente, recebe o apelido pejorativo de “poeta inconsequente”. Não é preciso dizer que são os poetas inconsequentes que ganham os prêmios e mudam os paradigmas. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. cursos 174 Essa mudança no modo de pensar dos alunos, revelada pelas respostas ao questionário, acenam para uma possibilidade de quebrar os preconceitos na área de engenharia. Acredito que a formação humanista dada em uma casa salesiana muito contribui para isso. Finalmente, o grande indicador de mudança nos alunos se refere ao relacionamento. No item 1.7 desta dissertação é aventada a questão do surgimento das questões éticas a partir da existência do outro. O recurso usado para lidar com esta questão se configur ou através do exemplo literário de Robinson Crusoé e seu amigo Sexta Feira. Enquanto o náufrago Crusoé pensava estar sozinho na ilha, os problemas que apareciam eram de natureza essencialmente técnica. problemas começaram a ter uma característica ética também , mapeada na dificuldade em lidar com o outro, no medo da cultura do outro, na necessidade de desenvolver uma linguagem e, principalmente, no cuidado para com o outro: “Tinha agora duas bocas a sustentar, de modo que devia trabalhar com afinco”. (DAFOE, 2000, pg. 43). A constatação de que houve uma mudança, identificada pelo aumento da capacidade de se relacionar é de suma importância para a sociedade e, em última análise, para a pessoa que enxerga em si essa mudança. Para a sociedade atual, então, a importância é capital. Ao mesmo tempo em que somos uma sociedade que compartilha um altíssimo nível de comunicação e conhecimento, paradoxalmente, nos tornamos isolados e cada vez mais experimentamos o peso da solidão. Me smo nas grandes corporações, onde todos trabalham por um mesmo fim, pelo menos em teoria, a solidão é brutal, de tal forma a obstaculizar o caminho para aquele Sumo Bem aristotélico, a Felicidade . Dessa maneira, é bastante alvissareiro “ouvir” os alunos dizendo que se tornaram pessoas com uma facilidade maior em se comunicar, que têm mais paciência e que Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Depois de intuir que poderia haver alguém com ele nesta ilha, os 175 sabem analisar os fatos para colocar os palpite s na hora certa. Sob um outro aspecto, se repete a tônica de Aristóteles, Savater e De La Taille, autores estudados e amplamente citados no curso desta dissertação, que escreveram textos sobre Ética para seus entes queridos: pais e filhos. Um aluno repete esse fazer e dedica o curso de Engenharia ao filho, incitando -o a nunca desistir de um sonho. Finalmente, a voz dos alunos ressoa na pessoa do outro, e coloca como instrumento de mudança sua capacidade de análise na presença de outros pontos de vista . Das dez respostas usadas para buscar identificar os indicadores de mudança, oito delas apresentam o relacioname nto esses oitenta por cento representam a concretização da filosofia salesiana. 4.3.3. Terceira Pergunta 3. O que é ser Engenheiro? Qual é a imagem que você faz de sua profissão? Respostas dadas à pergunta 3: a) Ser engenheiro é saber buscar e repassar as informações necessárias no dia-a-dia; também é necessário que o engenheiro tenha novas ideias. Saber lidar com as pessoas. A imagem que eu faço desta profissão é que o engenheiro não tem que saber tudo, mas sim que saiba buscar as informações e solucionar problemas. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. como fator preponderante. Acredito que, mais do que um percentual, 176 b) Engenheiro é ser um profissional responsável, observador, ético, que sempre está na busca de melhores resultados para as empresas, consequentemente, para a sociedade. Engenharia para mim é uma área muito, mas muito complexa e devemos nos especializar naquilo que for mais conveniente. c) Ser engenheiro é ter uma profissão digna como qualquer outra, porem com características profissionais que escolhi para meu desenvolvimento. d) Engenheiro é um profissional capaz de utilizar tecnologia em prol da melhoria industrial, capaz de administrar tanto pessoal como equipamento. uma pessoa de ética e capaz de saber distinguir o certo do errado, não usar sua capacidade para criar algo que irá fazer mal às pessoas. f) Um profissional que aonde chega impõe respeito, moral, inteligência de pessoa etc. g) Engenheiro, para mim, é aquele cara dentro da empresa, ou mesmo da sociedade, que se não possui o poder (conhecimento) para mudar o mundo, pode fazer com que ele se torne o melhor possível. h) Ser engenheiro é ser uma pessoa com maior responsabilidade dentro da empresa que trabalha, que procura através de estudo e avaliações problemas apresentando-o no dia-a-dia. i) O engenheiro é o facilitador, buscando em seus conhecimentos novas formas de se fazer algo com maior eficiência, sem perder qualidade. É o profissional com raciocínio rápido preparado para qualquer desafio. j) Ser engenheiro é ser uma pessoa que possa ajudar a mudar processos, máquinas e contribuir para o desenvolvimento humano. k) Engenheiro é ser líder tanto na área de gestão de pessoas e referência técnica. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. e) Ser engenheiro é ser uma pessoa responsável com os seus atos, 177 O objetivo desta questão era avaliar a preocupação do profissional com as questões éticas e as questões técnicas. Em outras palavras, procurar entender como o futuro engenheiro percebe as questões técnicas e éticas, parale lo recorrente desta dissertação. Tanto na questão 2 como na questão 3, a aluno que deu as respostas identificadas como f, aqui indicado como Aluno F, mostra que não houve nenhuma percepção da inter -relação das questões éticas e técnicas. Esse aluno, ao se r interpelado, na Questão 2, quanto ao que teria mudado em sua vida, levando-se em conta o antes e o depois de cursar a Faculdade de Engenharia, não aponta nenhuma mudança para o Outro, como uma visão de mundo diferenciada ou uma melhoria na significativa na própria formação. O que é apontado pelo Aluno F é que “foi mais um passo importante que dei na minha vida graças a este estudo”. O poder que a expectativa de atuação profissional confere ao cargo é exacerbada na resposta à Questão 3. Nessa oportunidade, o Aluno F assume uma postura que mostra o saber como algo que o difere dos outros pela superioridade que ele crê estar embutida nesse saber e não o saber como elemento para melhoria da vida em sociedade. Para esse aluno, o questionamento de o que é ser Engenheiro e qual é a imagem que ele faz de sua profissão leva à seguinte resposta: “Um profissional que aonde chega impõe respeito, moral, inteligência de pessoa etc.” Não foi relevante, portanto, para o Aluno F, a formação profissional em um ambiente salesiano, que era o princípio norteador desta dissertação. Na próxima página, a Tabela 3, em função dessas ressalvas, não contempla a resposta f para possa ser dividida em duas partes : a preocupação com as questões éticas e a preocupação com as questões técnicas. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. capacidade de relacionamento. Nem mesmo aponta alguma mudança 178 Tabela 3: Questões éticas e técnicas respos Preocupação com questões éticas ta Preocupação com questões técnicas a Saber lidar com as pessoas. O Buscar e repassar as informações engenheiro não tem que saber tudo, mas necessárias no dia-a-dia. É necessário que sim que saiba buscar as informações e o engenheiro tenha novas ideias. solucionar problemas. b Profissional responsável, observador, ético. c Uma profissão digna como qualquer outra Busca de melhores resultados para as empresas, consequentemente, para a sociedade. e Ser engenheiro é ser uma pessoa responsável com os seus atos, uma pessoa de ética e capaz de saber distinguir o certo do errado, não usar sua capacidade para criar algo que irá fazer mal às pessoas. g Aquele cara dentro da empresa, ou mesmo da sociedade, que se não possui o poder (conhecimento) para mudar o mundo, pode fazer com que ele se torne o melhor possível. h Ser engenheiro é ser uma pessoa com maior responsabilidade dentro da empresa que trabalho, que procura através de estudo e avaliações problemas apresentando-o no dia-a-dia. i O engenheiro é o facilitador, buscando em seus conhecimentos novas formas de se fazer algo com maior eficiência, sem perder qualidade. É o profissional com raciocínio rápido preparado para qualquer desafio. j Contribuir para o desenvolvimento humano. k Fonte: dados compilados pelo autor Pessoa que possa ajudar a mudar processos, máquinas. Engenheiro é ser líder tanto na área de gestão de pessoas e referência técnica. Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. Profissional capaz de utilizar tecnologia em prol da melhoria industrial, capaz de administrar pessoal e equipamento. d 179 Neste aspecto, o peso maior ficou ligeiramente para a parte técnica. Das dez respostas dadas a esta questão, 3 contemplaram a parte técnica e ética, 4 contemplaram somente a parte técnica e 3 somente a parte ética. O que existe de notável neste conjunto de respostas, em que a forte expectativa por uma carreira que se inicia se esgueira pelas entrelinhas das respostas ao questionário proposto , é a preocupação de não usar a capacidade desenvolvida para fazer mal às pessoas e isso é a perfeita síntese da preocupação ética em termos de responsabilidade, que é o objetivo desta dissertação . Em primeiro lugar, por notar que é, sim, possível criar algo nefasto com a aqui a questão do mito da neutralidade científica, já trabalhado no item 2.4 desta dissertação. O autor do livro O mito da neutralidade científica, Hilton Japiassu (1975), comenta em uma entrevista dada ao blog da Editora Idéias & Letras, o que entende sobre neutralidade da ciência: Evidentemente que não posso admitir a neutralidade da ciência. Há alguns anos escrevi um livro que provocou certa polêmica, pois tentei denunciar o mito da neutralidade científica e mostrar que, nesse domínio, não existe “imaculada concepção da ciência”. Porque afirmar sua neutralidade seria negar a espécie de lógica operatória que lhe é imanente; ademais, seria negar seu caráter cultural, que é produzida em determinadas condições culturais, marcada pela existência de valores, não podendo ser concebida como uma atividade caída do céu, transcendente à História. O exemplo da física nuclear é ilustrativo. No início, seu conhecimento dito fundamental ou teórico não tinha finalidades práticas. No entanto, o que aprendemos sobre o núcleo do átomo serve para construir centrais nucleares e produzir energia com a qual nos iluminamos e aquecemos. Mas eis que, como sabemos, a energia nuclear serviu também para fabricar armas de morte. Aliás, foi para isso que serviu em primeiro lugar: fabricação de bombas atômicas. Durante a Segunda Guerra mundial, infelizmente, elas foram lançadas no Japão e mataram milhares de pessoas inocentes. Por isso, creio não ser mais possível livrar a ciência de toda responsabilidade como se pudéssemos considerá-la pura e neutra em relação ao processo político, pois ela é portadora de um projeto, podendo ser considerada a realização da metafísica ocidental. A partir de Hiroshima, constatava o físico Openheimer, “a Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. tecnologia e em segundo lugar, pelo cuidado com o outro. Retoma-se 180 ciência conheceu seu IDEIAS&LETRAS, 2012) pecado original”.(JAPIASSU apud Aliado à questão da importância do engajamento científico, o grupo de alunos entende que o engenheiro é um ator social que poder fazer com que o mundo se torne o melhor possível. Na outra categoria, a essencialmente científica, as respostas a esta terceira pergunta cobrem desde a simples concepção de que o engenheiro seja capaz de administrar equipamentos e pessoas até a ideia que abrange a responsabilidade pela transferência de conhecimento para a sociedade através da atuação na indústria. A idealização da profissão, que deve ser digna como qualquer outra, se profissional como um líder, uma referência técnica, uma usina d e novas ideias. Ao conseguir o diploma de engenheiro, o estudante encerra a fase romântica de sua formação, em que quase tudo é idealizado e ele imagina que esse diploma vai lhe facilitar as chaves para as portas da felicidade. Como em um caminho literário, a partir da face romântica e sonhadora da vida, o futuro engenheiro irá se mover através do realismo da vida profissional e terá que enfrentar o massacrante cotidiano, a falsidade dos colegas de trabalho e a impotência do seu conhecimento frente ao poder das corporações. Mais tarde, ainda na evolução de sua carreira e ainda navegando no metafórico rio da Literatura, esse engenheiro talvez não encontre as chaves para a idealizada porta da felicidade, como é anunciada na enquete que procura ouvir a voz dos alunos, mas encontre, sim, a chave para uma verdade dividida, como queria o modernista Carlos Drummond de Andrade (2012) nos seus versos livres. Na concepção de Drummond, em seu poema A Verdade Dividida, que epigrafa este capítulo e me auxilia a fechar todo o Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. mostra também em várias outras respostas, que apontam esse 181 conteúdo desta dissertação, nem mesmo existiria uma chave, uma vez que a porta para a verdade estaria aberta e a chave real para ultrapassá-la estaria dialeticamente dentro de quem se propõe a atravessá-la, na medida em que por esta porta só metade de cada um Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. de nós consegue passar. Considerações Finais Mural Thither (Para lá) Paul Klee (1922) Coleção Particular E então, que quereis? (Vladimir Maiakóvski) [...] O mar da história é agitado. As ameaças e as guerras havemos de atravessá-las, rompê-las ao meio, cortando-as como uma quilha corta as ondas. [...] (MAIAKÓVSKI, 2012) 183 Procurando fazer um resgate de tudo o que foi discutido nesta dissertação, vimos que a Ética nasceu no coração dos homens como um princípio organizador das questões do quotidiano, princ ípio esse codificado por praticamente todas as religiões da face da terra, que a entenderam como uma questão de reciprocidade. Parecia ser uma condição necessária e suficiente dizer aos fiéis que tudo o que fosse feito aos outros poderia ser revertido e o sujeito da ação poderia se tornar, assim, objeto dela. A questão ética, dessa maneira, invade as planícies gregas e toma corpo como o que viríamos a conhecer como ética ocidental. O pensamento racional começa a lidar então com as livrá-lo da condição nômade. A questão racional, como um organismo vivo, cresce, evolui, sofre colapsos, suporta crises e é analisad a por pensadores importantes como Kant, Descartes, Ortega y Gasset e tantos outros contemporâneos até encontrar como os uma citados expressão neste em trabalho: pensadores o espanhol Fernando Savater e o franco-brasileiro Yves de La Taille. Paralelamente a esta questão, surge a figura de Dom Bosco, um educador que procura definir um sistema educativo que forme o aluno fora dos conceitos até então usados. Dom Bosco cria, assim, seu Sistema Preventivo, que terá uma importância ímpar no desenvolvimento de valores em seus alunos. Em um primeiro momento, esses valores são úteis para a inclusão desses alunos em uma sociedade conturbada como a do fim do século XIX. De uma forma mais abrangente, porém, os valores disseminados irão preparar o aluno para enfrentar a condição de não suficiência que a ética da reciprocidade virá a oferecer em presença do desenvolvimento tecnológico. Até então, como foi a discussão proposta nesta dissertação, o sistema ético de reciprocidade oferecia uma condição bastante clara Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. questões técnicas, tão importantes para assentar o homem na terra e 184 de necessidade e suficiência. Com o tempo e a evolução das ciências, percebe-se que o Homem pode não se restringir apenas a fazer os sulcos nos mares, cicatrizes curadas pelas ondas, recompondo a face do oceano. O Homem pode, agora, fazer uma ferida bem mais profunda na Mãe Natureza, podendo causar até mesmo a destruição do planeta. A condição de necessidade da ética da reciprocidade, até então discutida, ainda permanece válida – é cada vez mais necessário que se discutam questões que nos afetam de uma maneira recíproca. O que não cumpre mais seu papel é a condição de suficiência, uma vez que passa a ser fundamental a preservação da Terra para as gerações que virão. A ética da suficiente. A barreira temporal, assim estabelecida, impede que se cumpra a ética da reciprocidade. As gerações futuras nunca poderão oferecer uma atitude recíproca para conosco, uma vez que elas, eventualmente, nem sequer existem. Há que se estabelecer uma outra palavra chave para a ética desses novos tempos: a responsabilidade. Essa foi a mudança no paradigma ético proposta pelo filósofo Hans Jonas (2006) em seu magnífico livro Princípio Responsabilidade (JONAS, 2006). Voltando à questão de Dom Bosco e seu Sistema Preventivo para acolher o cidadão numa sociedade que mudava numa velocidade incrível, pode-se aventar a possibilidade de que esse sistema traz em seu cerne a capacidade de preparar o aluno para se tornar, além de um honesto cidadão, também um cidadão apto a enfrentar os dilemas éticos da modernidade desvelada por Hans Jonas. Procurou-se, dessa maneira, discutir a questão ética ouvindo se a voz dos alunos de último ano de Engenharia de Automação e Controle do Centro Unisal de Americana (SP). As respostas ao questionário aplicado foram gratificantes, principalmente no que Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. reciprocidade passa a ser, então, uma condição necessária, mas não 185 tange à preocupação do não uso da tecnologia para o mal, preocupação que emergiu naturalmente nas respostas dos alunos , uma vez que não houve, em nenhum momento, um questionamento nesse sentido. A preocupação com o outro se evidencia nesse discurso dos alunos e parece ressaltar os valores com os quais uma instituição salesiana procura formar seus alunos. Apesar de tudo, a realidade externa ainda é árida. O tempo vai passando e parece que o esforço em s e criar condições de vida melhores para a sociedade se esvai por entre os dedos como se fosse a água que se procura reter entre as mãos. Apesar disso, de o tempo de Cronos estar escoando, e de que o mundo em que vivemos trabalho, creio que devemos ainda, como educadores, envidar todos os esforços para continuar nosso caminho na direção da construção de tempos melhores. Assim como a ideia motriz deste trabalho veio de um aluno que me agradecera por ter lhe ensinado Ética, a conclusão dessa dissertação vem da mesma fonte de relacionamento – o ambiente escolar – e agora não mais em função da conversa com um aluno, mas da conversa com um colega professor, engenheiro como eu, que achou uma grande utopia procurar formar alunos que possam contribuir com uma Ética para a tecnologia. Uma resposta a esta questão veio a mim sem que eu a procurasse. Apareceu em um movimento do inesperado, num lance de sorte. Arte de Kairós, a outra divindade grega que representa o Tempo. Não o tempo cronológico, que escorre inexoravelmente, mas um deus menor, filho de Zeus e da deusa da prosperidade Tykhé (τύχη = sorte). Kairós era rápido, andava nu e tinha somente um cacho de cabelos na testa. Para agarrá -lo, somente segurando-o por esse topete. O encontro com ele só poderia ser feito cara -a-cara, perpetuando a sensação de que o tempo parou. Se assim não fosse, Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. não parecer atingir o que nos esforçamos por descrever neste 186 Kairós sumiria rapidamente e seria impossível segui-lo ou trazê-lo de volta. Os gregos imaginavam encontrar Ka irós na inteligência de Atena, no amor de Eros e mesmo na embriaguez de Dionísio. Para mim, porém, Kairós se manifestou enquanto via na televisão uma entrevista do escritor uruguaio Eduardo Galeano, que comentava uma palestra que ele e um amigo, o cineast a argentino Fernando Birri, haviam feito para uma plateia universitária. A certa altura, os universitários perguntaram a Birri o que era utopia. Galeano deu graças a Deus pela pergunta não ser para ele, porque imaginava que teria dificuldades em respondê -la naquele contexto. Eu me identifiquei com o escritor uruguaio e também me senti feliz por já em responder a essa pergunta para um grupo de universitários ou mesmo para o professor que quest ionara minha dissertação. O que era utopia, portanto, era a questão que se impunha. O cineasta argentino respondeu que utopia era como o horizonte – estava sempre à frente. A cada dez passos caminhados, a linha do horizonte se afastava dez passos. “E para que serve uma coisa assim?” – retrucou o estudante, irônico. Exatamente para isso – concluiu Birri – para caminhar. (YOUTUBE, 2012) Educação e ética: da reciprocidade à responsabilidade. estar escutando a resposta, uma vez que também teria dificuldades 187 Bibliografia ALENCASTRO, Mário Sérgio Cunha. Aspectos do Pensamento Ético Face à Modernidade Tecnológica. 204 f. Dissertação (Mestrado em Tecnologia) – CEFET-PR, 2003 ANDRADE, Carlos Drummond de. A Verdade Dividida. Disponível em http://www.algumapoesia.com.br/drummond/drummond02.htm - acesso em 08 jan. 2012 ANTONIO, Severino. A Irmandade de todas as coisas – diálogo sobre Ética e Educação. 1ª.ed. Lorena: Ed. Diálogos do Ser, 2010 ARENDT, H. Eichmann en Jerusalén. 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