1 Impactos da Qualidade Total sobre os Profissionais de Educação ESTUDO DE CASO EM ESCOLA DA REDE PARTICULAR Autor: Rosana Carvalho de Oliveira RESUMO Esta pesquisa mostra como os profissionais de Educação que trabalham em uma escola privada vêm lidando com a Qualidade Total no âmbito da sua prática pedagógica. Investigouse acerca das percepções que estes desenvolveram em relação ao seu objeto de trabalho e a si próprios nesse contexto. Desse modo, a pesquisa foi realizada em uma escola, que já adotava o Programa de Qualidade Total desde 1993. Verificou-se que a escola pesquisada conseguiu implantar e utilizar esse Programa em todos os seus segmentos. Porém, através das entrevistas, pôde-se concluir que nem todas as ferramentas da Qualidade Total são compatíveis com a prática escolar. No que se refere aos profissionais de Educação, constatouse que estes lidam de forma diferenciada com a assimilação dos princípios da Qualidade, que têm portanto, repercussões paradoxais no que concerne à sua prática pedagógica. As últimas décadas têm assistido a mudanças significativas, em todos os setores da vida humana. Ao lado da globalização, da chamada crise do taylorismo/fordismo, do pósfordismo e da reestruturação produtiva, o mundo do trabalho tem convivido com as chamadas “novas tecnologias gerenciais”, que vêm acompanhando uma nova forma de organização do processo de trabalho. As “novas tecnologias gerenciais”, por um lado se apresentam como uma resposta ou solução “mágica” para as organizações em tempos de crise, resultando em mudanças, nas organizações e, mais especificamente, na relação entre os empregados. Por outro lado, é necessário que se considere o contexto sócio-político e a sustentação ideológica que articulam essas estratégias gerenciais, além de se levar em conta, também, o modo como as mudanças decorrentes da adoção desses programas se insere na realidade das empresas. Dentre as chamadas “ novas tecnologias gerenciais” , os programas de Qualidade e a sua implantação têm suscitado discussões e críticas. A Qualidade Total, que a princípio vinha sendo aplicada na indústria, passa, num segundo momento, a ser adotada no setor de prestação de serviços. E é justamente a introdução dos programas de Qualidade nesse segmento, que constitui a base para a discussão e a problematização a que se propõe esse trabalho Tendo em vista a adoção de programas de melhoria da qualidade nos estabelecimentos de ensino, a Qualidade Total adotada em escolas é realidade no nosso país, o que vem originando discussões e polêmicas. Em meio a essa polêmica, torna-se importante compreender o novo papel desempenhado por um dos principais envolvidos com essa questão, ou seja os profissionais de Educação. Esses profissionais têm convivido com possíveis mudanças no que concerne às suas condições de trabalho, além das novas exigências quanto ao seu desempenho na área educacional. Este trabalho se propõe a relatar os dados colhidos a partir de uma pesquisa em que se buscou analisar as condições de trabalho desses profissionais a partir da adoção da Gerência da Qualidade Total numa escola privada. 2 A elucidação dos possíveis impactos sobre esses profissionais, assim como a relação do Programa de Qualidade com o desempenho do trabalho em educação, são as questões centrais dessa pesquisa, constituindo o cerne do problema. Tentou-se compreender como estes profissionais de educação vêm lidando, com as mudanças introduzidas após a implantação dos programas de Qualidade na sua escola. Além disso, analisaram-se as repercussões desse programa no cotidiano do seu trabalho, a fim de estudar melhor os seus impactos nos profissionais de Educação. 1- A experiência da Qualidade Total em Educação A Gerência da Qualidade Total (GQT), também chamada de TQC - "Total Quality Control" - ou CQT - Controle da Qualidade Total -, segundo Bonilla (1993), baseia-se em conceitos, métodos e técnicas desenvolvidos principalmente a partir das proposições estabelecidas por Joseph M. Juran e W. Eduards Deming. A adoção da GQT em escolas é relativamente recente. Segundo Ramos (1994), podese citar o caso dos Estados Unidos, onde o Fox Valley Technical College, do Winsconsin escola de terceiro grau - vem trabalhando e obtendo resultados satisfatórios com o programa já há 10 anos. Além desse caso, há várias escolas americanas isoladas (em torno de 65) que adotaram o Programa de Qualidade. No Brasil, o Centro de Qualidade Total da Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais, através de projeto pioneiro, iniciou, em 1991, por ação do então Secretário, professor Walfrido Silvino dos Mares Guia Neto, a implantação do Controle da Qualidade Total junto a algumas escolas públicas, apoiado por empresas privadas associadas à Fundação Christiano Ottoni (FCO), e junto a algumas escolas privadas em Minas Gerais e outros estados (Casa da Qualidade, na Bahia, por exemplo). Além desse projeto, existe o da Secretaria Nacional de Educação Média e Tecnológica (SEMTEC) do Ministério da Educação e Desporto, que, através do Núcleo Central de Qualidade e Produtividade, propôs o programa “Escola de Qualidade Total” (EQT), desenvolvido por Cosete Ramos, coordenadora adjunta do referido núcleo. Em Minas Gerais, a Fundação Christiano Ottoni (FCO), que na época estava vinculada à Escola de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais, introduziu a Gerência pela Qualidade Total por volta da década de 80, através dos professores Vicente Falconi Campos e José Martins de Godoy. Ramos (1992) concebe como proposta para a Educação brasileira a adoção da “EQT”, visto que as mudanças propostas por tal modelo implicam transformações “de baixo para cima” 1, no interior de cada instituição de ensino, o que redundaria no “Pacto para a Qualidade”. Dessa forma, seria possível a implantação das idéias de Deming, no setor educacional, analisando e repensando, assim, as estruturas e funções da escola, concebida enquanto organização humana, passível de receber a proposta do TQC. Essa autora utiliza-se ainda das idéias de Glasser (1990), que também trabalhou com os preceitos do TQC na Educação, propondo então que se alcance ou a gestão democrática ou a liderança em sala de aula e na escola. O diretor e o professor devem ser líderes frente à comunidade e aos alunos; o aluno deve participar da avaliação do seu próprio trabalho; a aprendizagem tem um sentido cooperativo; a escola deve criar um ambiente de satisfação das necessidades dos seus membros e o produto de uma escola de qualidade deve ser o trabalho escolar de alta qualidade. 1 Essa concepção da Qualidade Total não coincide com a visão de Oliveira (1998:71), que afirma: “No âmbito educacional, a Qualidade Total é implantada, reitera-se, “top-down”, de forma, portanto, verticalizada e autoritária.” 3 Segundo Ramos (1994), a implantação do TQC deve englobar a escola inteira, exige a participação de todos da instituição, tanto os profissionais quanto os clientes; além disso, visa a otimizar igualmente todos os setores da organização. Assim, a escola que opta pelo TQC deve colocar como prioridade o “olhar para dentro”, a fim de identificar as deficiências e os problemas que a impedem de alcançar a qualidade, constituindo-se, assim, o “pacto para a qualidade”. Ainda de acordo com a mesma autora, o Projeto de Educação para a Qualidade envolve a Sensibilização Humana (seminários, mesas redondas, conferências, painéis de debate) e a Preparação Técnica (consultores internos). A sensibilização humana deve atingir tanto os profissionais da escola quanto os alunos e os pais. A preparação técnica deve trabalhar com o diretor-geral gerencial, professores, supervisores e orientadores educacionais, além do pessoal técnico-administrativo e do pessoal de apoio e manutenção. Além disso, o treinamento deve dedicar especial atenção aos profissionais que estão diretamente envolvidos com a imagem da instituição e que lidam diretamente com os clientes externos (alunos), englobando aí os professores, diretores, secretários escolares, vigias, telefonistas e merendeiras. 1. 1. Alguns Conceitos Básicos da Qualidade Total na Educação A busca pela Qualidade Total na Educação reconhece como conceitos básicos o processo, o produto, o fornecedor e o cliente. A) Processo, conforme Barbosa (1995), deve ser entendido como um conjunto de ações sistemáticas, dirigidas para a obtenção de um resultado ou efeito; são os meios. Em especial, no caso da escola, pode-se entender processo a partir do estabelecimento de duas áreas: a que envolve as atividades pedagógicas e técnicas e a de apoio administrativo. Em cada uma dessas áreas é possível identificar vários setores com as mais diversas atividades. Assim, temos a Biblioteca, que envolve registrar e emprestar livros; a Secretaria, que tem por atividade matricular alunos, preencher diários de classe, cadernetas, expedir histórico escolar; o Serviço de Orientação Pedagógica, que deve organizar reuniões com os pais, acompanhar o rendimento escolar dos alunos; a Supervisão Pedagógica, que organiza cursos de aperfeiçoamento de professores, Conselhos de Classe, acompanha o desenvolvimento dos conteúdos; as atividades de natureza docente, tais quais ministrar aulas, promover debates, seminários; e as atividades de apoio administrativo, que implicam datilografar provas, exercícios, documentos, recrutar empregados, fazer pagamentos, comprar, cuidar da limpeza, etc. As atividades acima listadas constituem, cada uma delas, um processo. De maneira geral, são atividades repetitivas, pois ocorrem com certa freqüência (diária, semanal, mensal, etc.), dependendo da sua natureza. Os processos sempre envolvem as pessoas que os executam, algum tipo de equipamento e material; necessitam também de um método ou procedimento e evidenciam a necessidade de alguma medida (quantidade, tempo, etc.); além disso, ocorrem em um dado ambiente e, portanto, sofrem influências do mesmo. B) O produto, segundo o mesmo autor, é o resultado do processo, ou seja, produtos são efeitos dos processos; podem ser materiais ou não, dependendo sempre da natureza do processo; são os fins. No caso da escola, consiste em serviços como empréstimo de livros, fruto do processo emprestar livros; datilografia de provas, resultado do processo de datilografar provas; preparação de lanches, que é o resultado do processo preparar lanches, e assim por diante. Segundo Juran (1991), produto pode ser usado como um termo genérico que se refere tanto a bens quanto a serviços. 4 C) Fornecedores, segundo Barbosa (1995), são os setores ou pessoas que proporcionam material, dados e informações aos clientes, a fim de que eles possam desempenhar de forma adequada as suas funções. Um professor de determinada disciplina da sexta série é o fornecedor de alunos (que devem ser adequadamente preparados) para o professor da mesma disciplina da sétima série, que poderá, assim, conduzir bem o processo ensinar/aprender na etapa seguinte. O Serviço de Supervisão Pedagógica é fornecedor da Secretaria, na medida em que determina o número de alunos por classes e designa quais devem constar na listagem do diário de classe de cada turma; a Secretaria, de posse desse material, elabora os diários, tornando-se fornecedora dos professores de cada série e de cada disciplina. D) Cliente, segundo Juran (1991), “é aquele que sofre o impacto do produto”. Dentre os clientes estão os usuários, em que se incluem os consumidores do produto na sua forma final; assim, clientes são os consumidores do fornecedor; podem ser internos ou externos. Por exemplo, os professores da sétima série são fornecedores dos professores da oitava série, que nesse caso são os consumidores internos dos primeiros; e os alunos e suas famílias, além da sociedade, constituem-se em clientes externos. A Secretaria é cliente interno do professor quanto ao aspecto resultados e notas; por sua vez, tem como cliente externo o aluno e seus familiares e demais instituições para quem os dados que fornece sejam importantes. Segundo Campos (1992), saber identificar processo, produto e cliente é fundamental, pois permitirá assim determinar outros aspectos da Qualidade. 2- Discussões acerca do G.Q.T. na Educação A associação dos programas de Qualidade Total à Educação coloca em evidência a transferência das formas de organização do processo de trabalho e de gestão das empresas privadas para dentro das escolas, resultando assim na reestruturação do trabalho pedagógico (Oliveira, 1996). Segundo Gentili(1994),a discussão sobre Qualidade Total na Educação tem reproduzido o mesmo discurso adotado nos meios empresariais, não se diferenciando da “lógica produtivista e mercantil” que permeia a concepção de qualidade no mundo dos negócios.Assim, observa-se a necessidade de adequar a Educação ao modelo de mercado predominante na sociedade, que trabalha com três perspectivas. A primeira entende que o atual modelo educacional não responde às demandas e exigências das mudanças sócioeconômicas. A segunda perspectiva visa a uma maior integração e adaptação da Educação, no sentido de ajustar-se à tais mudanças. E, finalmente, a terceira visa a um maior aprimoramento acerca da compreensão da relação e ajuste entre Educação e mercado, propondo a utilização de certos instrumentos de medição. A Educação, ao trabalhar com os conceitos de Qualidade Total, traz questões como a noção de cliente, a escola vista como empresa e a possibilidade de lidar com mensuração e padronização em situações complexas, dada a natureza da relação pedagógica. Esta se pauta pela intersubjetividade, troca de conhecimentos, confiança, respeito, definição de papéis e representação do lugar ocupado pelo professor enquanto detentor do conhecimento. A adoção da GQT em Educação acaba por colocar em pauta algumas questões, como a possível incompatibilidade do modelo empresarial adaptado à realidade da escola e a percepção e reação dos profissionais de Educação frente a essa realidade da escola, vista como empresa. Silva (1994) afirma que, uma vez que a Educação deve ser compreendida numa perspectiva de mercado, é possível pensar o aluno como cliente, visto que se trata de um consumidor de serviços prestados (educação). O discurso da busca pela competitividade, pelo 5 cliente e pela Qualidade, seja no nível das organizações, dos grupos, seja no nível individual, invade paulatinamente a realidade social. Assim, algumas palavras passam a ser usadas de forma mais enfática, dentre elas competitividade e Qualidade, que encerram em seu sentido uma lógica pertinente e compatível à ideologia neoliberal que acompanha a globalização. Mesmo quando se discute o novo papel do trabalhador, a partir da reestruturação produtiva, o que se espera desse trabalhador é apenas uma melhor qualificação, a fim de adaptar-se à introdução das sofisticadas tecnologias. Ao transformar a relação professor/aluno em relação consumidor/cliente, há uma transformação no processo de ensino-aprendizagem que, segundo Cunha (1994), acaba por retirar toda a dimensão possível de troca de que se reveste a relação pedagógica. Assim, nesse contexto, o professor aparece como aquele que ensina, o aluno é aquele que aprende, o diretor é aquele que gerencia, a merendeira é a que responde pela merenda, etc. Negam-se, então, todas as especificidade do trabalho escolar. O professor não é mais visto como agente "paciente" do conhecimento; o aluno, por sua vez, apresenta-se muito mais como um produto para a sociedade, perdendo assim sua dimensão de sujeito; o mesmo acontece com sua família, que é vista como cliente e fornecedora da sociedade. Machado (1994) identifica dois eixos pelos quais se pauta o TQC. O primeiro diz respeito às técnicas voltadas à mudança mental e comportamental dos empregados, e o segundo é formado pelas “ferramentas” de controle. Num primeiro momento, a ênfase recairia na separação entre antigo/moderno e bom/mau. Num segundo, a prioridade seria a utilização de instrumentos, tais como gráficos, diagramas, roteiro de ações, controle estatístico de processos, etc., que encerram os aspectos técnicos. A autora aponta, então, a pretensão universalista de lidar com a realidade, como se ela, em sua complexidade, imprevisibilidade e diversidade, pudesse ser artificialmente submetida e controlada por normas e padrões. Além disso, a idéia de mensuração de resultados comporta mais variáveis quantitativas do que qualitativas, entrando assim em contradição com um modelo voltado para a “qualidade”. A relevância que se dá aos fatos e dados supera as concepções de valor que possam estar atreladas às mais diversas situações. Ainda segundo Machado (1994), é possível o delineamento do perfil do profissional de Educação diante das novas tecnologias. Trata-se de um profissional com razoável nível de formação, que tenha desenvolvido valores de fidelidade à empresa (ou equipes de trabalho), que saiba ser eclético e ao mesmo tempo especializado, de acordo com a demanda de diversas situações. Além disso, deve ter senso de responsabilidade e razoável maturidade, a fim de avaliar circunstâncias que peçam algum nível de decisão, associando criatividade e equilíbrio. Nesse quadro, apresenta-se a discussão das relações estabelecidas entre o trabalhador e o capital e as novas formas de controle. O trabalhador, agora, torna-se alvo de formas mais sutis de controle, sem contudo se dar conta disso. Segundo Lima (1995), no bojo da adoção das novas tecnologias gerenciais e políticas de Recursos Humanos, operam-se modificações significativas quanto à idéia de controle, que passa, de explícita e autoritária, como no caso do Taylorismo, para o controle exercido pelos colegas de trabalho ou pares (o que, no caso do TQC, torna-se bem evidente quanto à constituição da relação cliente interno/fornecedor). Há que se ressaltar sobretudo o autocontrole, que se apresenta como o mais eficaz dos controles. Ainda segundo a autora, mesmo que aparentemente as novas políticas de RH visem a uma maior autonomia do trabalhador frente ao seu trabalho, elas o deixam preso a uma série de normas sutis que atuam tanto no nível de comportamento quanto no nível mental, repercutindo então em um maior controle sobre a vida psíquica deste trabalhador. Além disso, a tentativa de padronização acaba por recair no ideal Taylorista. 6 Assim, o que se observa é que não existem contradições entre o perfil de personalidade exigido pelas empresas e o ambiente interno das mesmas. Se as empresas constroem um discurso que prioriza aparentemente a solidariedade, a participação, o coletivismo, etc., na prática o que se observa é um incentivo à competição e ao individualismo, valores que fazem parte da sociedade atual (Lima, 1995). 3 - A Pesquisa Os dados que subsidiam este trabalho foram coletados através de uma pesquisa de campo que se desenvolveu numa escola da rede privada, no período de março a agosto de 1998. Foram realizadas entrevistas em profundidade com profissionais dos diversos segmentos desta escola e os dados foram tratados dentro de uma abordagem qualitativa, através da análise do discurso dos entrevistados, permitindo o desenvolvimento do estudo de caso a que se propõe este trabalho. O estudo de caso, por consistir num exame profundo e amplo da unidade de análise, não tem grande poder de generalização, mas permite maiores possibilidades de exploração das questões propostas pelo pesquisador. Supôs-se que informações, fatos passados e a própria história da instituição educacional em questão forneceriam elementos que contribuiriam na elaboração das justificativas pela opção de implantação de Programas de Qualidade. Ao mesmo tempo, a possibilidade de observação do cotidiano da instituição, da convivência dos profissionais entre si e das relações destes com a direção, bem como as possíveis transformações observadas no desempenho dos seus respectivos trabalhos após a implantação das novas formas de organização constituiriam dados que permitiriam o aprofundamento analítico do estudo. A escolha da instituição onde se desenvolveu a pesquisa obedeceu aos seguintes critérios: em primeiro lugar, deveria ser uma instituição escolar que já estivesse trabalhando com o Programa de Qualidade há algum tempo. Isto porque o interesse da pesquisa concentrou-se exatamente no estudo e análise das relações que os profissionais estabeleceram com esse programa. Portanto, era necessário que estes profissionais já estivessem interagindo com a Qualidade Total por um bom período. Em segundo lugar, a pesquisa deveria se desenvolver em instituição da rede privada, por se tratar de um campo em que existem poucos estudos quanto à adoção da Qualidade Total, no que concerne aos seus impactos sobre os profissionais de educação de escolas particulares. A escola escolhida, preenchia os requisitos estabelecidos, além de ser um local que adotou a Gerência pela Qualidade Total desde 1993; considera-se também que o Programa foi implantado com sucesso, ou seja, do ponto de vista da instituição educacional pesquisada, a Qualidade Total é percebida como uma experiência bem sucedida. Trata-se de instituição privada, com mais de 2 décadas de existência, atuando desde a Pré-Escola (Maternal II, com crianças a partir de 2 anos), até a 2ª Série do Ensino Médio, contando com 141 professores, 8 laboratoristas, 23 técnicos (supervisores, orientadores, psicólogos) e 107 funcionários da área administrativa. A escola tem atualmente cerca de 4.000 alunos, distribuídos em dois turnos, manhã e tarde. Quanto ao aspecto físico, a escola ocupa uma área considerável, havendo um bom espaço, tanto interna quanto externamente. Esse espaço, em suas áreas internas e externas, é totalmente aproveitado. A instituição em que se deu a pesquisa será chamada, no decorrer deste trabalho, de Escola A. Com a finalidade de facilitar algumas referências, o Grupo ao qual essa escola pertence será denominado Grupo Alfa. Em 1991 o Grupo promove o I Congresso de 7 Educação, que culminou na criação, de uma equipe de trabalho que tinha pôr objetivo a aplicação e a adaptação dos princípios da GQT, no que diz respeito à satisfação dos clientes internos e externos e ao sistema educacional. Após algum tempo, foi desenvolvida a proposta de Gerência da Qualidade Total aplicada à Educação, que recebeu a sigla GQTE. A partir de então, os princípios que norteiam a GQTE são difundidos pelas escolas do Grupo Alfa. O envolvimento de todos torna-se uma das condições necessárias à adequada adoção do modelo; esse envolvimento se deu através de cursos de Capacitação e Treinamento dos funcionários do Grupo, considerados os clientes internos da Empresa. Além disso, foram realizadas consultas junto aos clientes externos (os alunos e suas famílias), com o objetivo de clarear as demandas do público-alvo, direcionando assim as tomadas de decisões internas. Especificamente em relação à Escola A, o ano de 93 pode ser considerado o marco para o início do Programa de Qualidade, através dos cursos ministrados aos professores e funcionários. Já no decorrer do ano de 94, houve a criação do Comitê da Qualidade, propiciando um estudo mais aprofundado da literatura sobre Qualidade e a implantação do Programa 5 S. 2 Em relação aos diferenciais que vêm marcando a atuação do Grupo e da Escola A, no momento, tanto a Escola quanto o Grupo, como se pode perceber através dos modelos de gestão, continuam com a proposta de associação dos objetivos educacionais aos empresariais. Já em relação à questão salarial, a Escola A ainda paga salários superiores à maioria das escolas, porém não é a única a oferecer este tipo de remuneração, e não é mais considerado o melhor salário do mercado. A Escola A ainda é considerada uma escola de primeira linha, mas já foi ultrapassada, em termos salariais, por outras escolas do mesmo segmento. Os profissionais de Educação da escola selecionada constituem o foco principal da análise. O propósito de desenvolver a pesquisa junto a estes profissionais deveu-se à perspectiva de elaboração de um conhecimento mais apurado quanto à relação deles com as novas técnicas de gestão de Recursos Humanos. Assim, desenvolveu se um estudo acerca da adoção de tais estratégias e suas possíveis repercussões no que tange às subjetividades desses profissionais, especialmente os professores, que lidam diretamente com o chamado "cliente externo". A amostra intencional, foi feita a partir da seleção de professores com a finalidade de formar uma amostra mais heterogênea e obter uma visão mais abrangente da realidade a ser pesquisada. A escolha da amostra se deu a partir de critérios tais como tempo de casa, tempo de formado, idade cronológica e gênero. A amostra intencional, de acordo com Thiollent (1985), refere-se “a um pequeno número de pessoas que são escolhidas intencionalmente em função da relevância que elas apresentam em relação a um determinado assunto. (...) Pessoas ou grupos são escolhidos em função de sua representatividade social dentro da situação considerada”.A seleção de funcionários da área pedagógica se deu a partir de critérios como nível de escolaridade, tempo de casa, experiência profissional, setor em que atua na 2 Para Ribeiro (1994), o programa 5 S pode ser utilizado como uma ferramenta para alcançar um nível de Educação básico para a adoção da Qualidade Total. O programa 5 S é, na realidade, um processo educacional que, através da adoção de práticas que visam a mudanças no comportamento individual e grupal, deve ser incorporado à rotina da organização, visando à conquista da Qualidade Total.Ainda segundo o autor, o Programa 5 S é uma prática utilizada entre as famílias japonesas, com a finalidade de educar as crianças. Essa prática tem sido utilizada também em empresas japonesas, quando da implantação de programas, como o de Qualidade Total. Os 5 S são as cinco atividades seqüenciais e cíclicas que, em japonês, são iniciadas pela letra S. São elas: Seiri (senso de organização); Seiton (senso de ordenamento); Seios (senso de limpeza); Siketsu (senso de asseio) e Shitsuke (senso de disciplina). Sendo assim, a implantação desse programa deve acontecer em toda a empresa, devendo ser liderado pela alta direção, baseando-se sempre em educação, treinamento e atividades práticas em grupo. [RCO1] Comentário: 8 instituição, tipo de função que desempenha e gênero. Aqui também a intenção era de se ter acesso a uma amostra o mais heterogênea possível. Além das entrevistas com os professores e técnicos da Escola, foram ouvidas mais duas pessoas, que são: um membro da diretoria do Sindicato dos Professores do Estado de Minas Gerais (SINPRO) e um ex-professor da escola. No decorrer da pesquisa de campo, realizada na escola, foi feita a coleta de dados, que abrangeu os seguintes procedimentos: a) Observação direta do cotidiano da instituição, que incluiu a anotação de fatos ocorridos no ambiente de trabalho, envolvendo as salas de aulas, os corredores, a secretaria, a recepção, o pátio, os jardins, as salas de professores, e o acontecimento de eventos, tais como a Festa Junina, o aniversário da diretora, os aniversários da pré-escola, etc. b) Consulta à biblioteca da instituição, a fim de resgatar dados referentes à sua história, além da busca de boletins informativos, livros e revistas editadas pela Instituição pesquisada. c) Entrevistas individuais, semi-estruturadas, de profundidade. Participaram das entrevistas ao todo, 29 pessoas entre diretoria, vice-diretores, técnicos (supervisora, orientadora pedagógico e psicóloga) e professores. Foram entrevistados três professores da Pré Escola ou Educação Infantil, quatro professores da primeira à quarta série do Ensino Fundamental (um de cada série), e treze professores da quinta série ao segundo ano do segundo grau. Além de um diretor (ex-presidente do SINPRO) e uma ex-professora da escola. Ao longo da pesquisa, verificou-se, de um lado, a existência de profissionais que acreditavam e abraçavam a causa da Qualidade Total e, de outro, profissionais que não viam e nem reconheciam a Qualidade Total como algo coerente com a realidade de uma escola. Em meio a esses extremos, encontram-se aqueles que convivem com as dúvidas, as incertezas e expectativas frente à situação da Qualidade na escola e seus impasses e limitações. A Escola A está associada à idéia de vanguarda, além de ser bastante considerada e respeitada junto à comunidade; em outras palavras, a escola tem um nome a zelar. É vista também como uma escola que propicia condições adequadas ao crescimento dos profissionais. Como ocorre com qualquer escola privada, constatou-se nesse estudo uma acentuada ambigüidade entre as duas instituições que se configuram na Escola A: escola e empresa. Tudo indica que a Escola A conseguiu articular razoavelmente bem essas duas realidades. E, dessa fusão, originou-se uma organização em que há o predomínio da lógica empresarial, embora se coloque como missão a educação de crianças e adolescentes. A maioria dos entrevistados percebeu a GQTE como um programa que não trouxe de fato grandes novidades do ponto de vista do fazer pedagógico, mas que deveria ser cumprido por determinação da direção da escola. Neste caso, a Qualidade foi vista como algo imposto, o que contradiz a posição defendida por Cosete Ramos. Os profissionais tiveram que conviver com situações novas e algumas vezes polêmicas, como é o caso do aluno-cliente, da constituição do cliente interno, além de ter que conviver no espaço pedagógico com a presença ainda mais acentuada da já citada lógica empresarial. Para alguns profissionais, a GQTE está associada á idéia de lucro, já que entendem que a Escola A deve enfrentar a forte concorrência do mercado. Para outros, não passou de uma estratégia de marketing, sem maiores conseqüências no cotidiano da escola. Essa nova forma de gestão foi vivenciada por muitos profissionais como uma novidade oriunda do campo empresarial e adaptada de maneira forçada ao campo pedagógico. A sua implantação implicou aumento da carga de trabalho, além de maior comprometimento pessoal dos profissionais de Educação junto à Escola A. Com a GQTE, acirrou-se a cobrança de atendimento aos prazos e maior atenção ao cliente. O Programa de Qualidade trouxe repercussões para a vida pessoal dos profissionais de Educação. A forma de conceber essas 9 mudanças variou bastante. Para alguns profissionais, a adoção da GQTE implicou maior carga de trabalho, redundando em maior tempo de dedicação à Escola A. “(...) a carga de trabalho é muito grande, a gente não tem muito incentivo, assim, pra... pra isso mesmo, né, pra valorizar o lado pessoal da gente mesmo, a gente fica muito preocupado com o trabalho que a gente tem que fazer, com o cumprimento de prazo, né, que é muito rigoroso. Quer dizer, o cumprimento de prazo é uma meta de Qualidade da escola, né, e ela consegue essa Qualidade, ela agrega... e a família tem uma satisfação muito grande com isso, tudo é feito, assim, dentro daquilo que foi planejado. Mas isso tem um custo pra gente, né, que é o acúmulo de trabalho, principalmente nessa época, final de semestre, prova, trabalho, correção, entrega de notas, então a gente tem um desgaste maior mesmo, e mesmo ao longo da etapa também, ao longo do bimestre, acaba sacrificando um pouquinho o lado pessoal. Porque você tem que dar conta disso tudo, geralmente, a maioria dos professores tem uma carga horária muito grande, então sobra pro final de semana nosso. Ele dificilmente pode se dar ao luxo de não ter nada pra fazer e é difícil, né? Eu tenho filho pequeno, né, que cobra muita atenção, mas a gente não pode dar essa atenção total, né, então, é uma coisa que a gente tem que mudar, eu acho. A gente vai ficando muito angustiado, a gente quer fazer bem feito, tem que fazer bem feito e a gente acaba sacrificando o lado nosso, né, pra poder dar conta, né?” (Profissional da Escola A) A Qualidade Total, na Escola A, mostrou-se mais adequada às atividades burocráticas, geralmente exercidas pelo pessoal administrativo. Através de dados colhidos junto ao setor Administrativo 3 ficou bem evidenciado o melhor andamento e funcionamento deste após a adoção da GQTE. Por exemplo, o processo de matrícula de alunos melhorou muito depois da padronização 4, tornou-se mais ágil. Esta foi uma mudança que agradou tanto aos funcionários da Escola A quanto aos pais. O sistema de segurança da escola também ficou mais organizado e eficiente, tendo todos os seguranças recebido treinamento na Polícia Militar. Por outro lado, o uso das ferramentas da Qualidade 5 implicou uma intensificação do controle sob vários aspectos. Isso porque os resultados eram cobrados, sem possibilitar 3 Uma vez que o objeto dessa pesquisa concentrou-se nos profissionais de educação, os dados coletados junto aos demais funcionários da parte administrativa não fizeram parte dessa pesquisa. Mas servem para ilustrar e mesmo esclarecer algumas questões. 4 Barbosa (1995) considera que as ações corretivas devem ser padronizadas para que elas não retornem aos antigos modos de trabalho; e também para que, no caso de novas pessoas terem acesso à atividade, os antigos problemas não retornem. Em se tratando do meio escolar, é possível detectar a existência de vários padrões, dada a natureza do trabalho. Pode-se considerar como padrão os critérios para a contratação de professores, licitação para as compras, matrícula, conteúdo de ensino, grade curricular, avaliação de alunos, dentre outros. Para Barbosa (1995), a escola deve definir com clareza e objetividade que processos são padronizáveis e determinar aqueles que já se tornaram obsoletos, mas que ainda persistem sob a forma de condicionamento. 5 Segundo Arruda (1997), as ferramentas são um conjunto de instrumentos para diagnósticos que deve ser usado juntamente com o ciclo PDCA, com o objetivo de minimizar as diferenças entre as expectativas dos clientes e o desempenho do processo. Mezomo (1997) explica que as ferramentas são importantes para a melhoria do Processo de Qualidade, pois incentivam a participação, ajudam a criatividade, medem a performance, permitem a documentação de processos e analisam as causas e efeitos, além de garantirem maior objetividade. As ferramentas se caracterizam como estratégicas (administrativas) e estatísticas (quantitativas).As ferramentas estratégicas são úteis quando se trata de gerar idéias, classificar fenômenos, dados, estabelecer prioridades, definir direções, investigar as causas dos problemas e entender os processos. Elas concentram-se em dados qualitativos, e podem ser usadas para se iniciar uma discussão, por exemplo (Mezomo, 1997). Essas ferramentas são: Brainstorming, Diagrama de Afinidade, Votação Múltipla, Matriz de Priorização, Diagrama de Causa e Efeito, Lista de Tarefas e Fluxogramas. Já as ferramentas estatísticas servem para mensurar a performance e expôr os dados de formas diferentes, com a finalidade de conseguir informações básicas. As ferramentas estatísticas são: Folha de Registro (controle), 10 maiores discussões acerca dos dados. Nesse sentido, é possível confirmar um dos aspectos que caracterizam o Programa de Qualidade, que é um controle mais intenso e mais sutil acerca do desempenho dos trabalhadores. Lima (1995) discute essa questão, e afirma ser o controle o aspecto em que as “novas políticas de pessoal” se diferenciam das políticas tradicionais, inclusive apontando outras nuanças do controle, como o autocontrole e o controle dos pares. Tal observação pode ser confirmada pelas informações abaixo: “P - E com seus colegas de trabalho, você notou mudanças? R - Também. Dentro dessa perspectiva, você passa a se preocupar mais com a qualidade final daquilo que você faz e do que você recebe. E como no trabalho um é cliente do outro, um é colega, é parceiro, são clientes internos, então um está servindo ao outro melhor, e quando não serve a gente fala. Diz: ‘oh, não ficou legal’. P - E vocês falam tudo? R - Claro! Não foi bom, faltou sua atenção, o que aconteceu? Esse recado não foi dado, esse aviso, essa informação, faltou tal relatório... P - Isso, antes da Qualidade, não acontecia? R - Sempre aconteceu, mas o discurso, a forma de conviver com isso é diferente. P - O que mudou mesmo? R - Essas referências, né, que você passa a ter agora, de fatos e dados, de um padrão que você tem, que foi negociado, que foi consensado, e se a pessoa não segue esse padrão ela compromete o desempenho do grupo. Antes, cada um tinha um padrão, aí você dizia ‘Ah, eu fiz do meu jeito, o meu jeito é que tá certo, o seu está errado e eu não concordo’. Cada um fazia do seu jeito tentando fazer o melhor.” (Profissional da Escola A) A padronização, por sua vez, não se mostrou compatível com a sala de aula, tendo sido portanto descartada nesse sentido, sendo porém adotada em outras atividades da escola. O que se constatou foi que as aulas de qualquer professor não podem ser padronizadas, uma vez que cada professor trabalha o mesmo conteúdo do seu jeito, deixando nele uma marca pessoal. As únicas exceções são para as aulas de Educação Física e de Língua Estrangeira, pois são disciplinas que trabalham com atividades repetitivas, assim como as aulas práticas de laboratório de algumas disciplinas, que obedecem a uma seqüência de procedimentos práticos. A padronização também foi utilizada na elaboração e aplicação das prova bimestrais. Padronizou-se também a forma de fazer o cafezinho servido na sala dos professores e no restante da escola. Para alguns profissionais, a Qualidade permitiu, especialmente através de algumas ferramentas, uma melhor organização do seu tempo e de suas atividades. Para outros, o fato de participar de grupos permitiu um maior desenvolvimento de sua capacidade de expressão em público. A maneira como os profissionais representam as suas relações de trabalho, assim como a concepção destes quanto ao seu próprio ambiente de trabalho, sofreu mudanças com a Qualidade. Pode-se dizer que as relações profissionais, através dos grupos de trabalho, ficaram mais próximas. O perfil do aluno também sofreu transformações. A constituição do aluno-cliente impôs aos profissionais a convivência e a exposição a situações ambíguas, pois o profissional, além do compromisso pedagógico, deveria também comprometer-se com o cliente, consumidor dos seus serviços. Observam-se aí também mudanças na relação que esses Gráfico de Controle de Ocorrências no Tempo, Diagrama de Dispersão, Gráfico de Pareto, Histograma e Gráficos de Controle de Variação (limites). 11 profissionais estabelecem com seus alunos que acreditam que as suas demandas devam ser sempre atendidas, no caso, pelo professor. O aluno entende que esse profissional é pago para atendê-lo. Aparece aqui a noção de cliente, visto como aquele que recebe, porque pagou, como pode ser constatado no relato que se segue: “... e eles falam: ‘Ah, professor, mas você tem que fazer isso, você tem a obrigação.’ E eu respondi: ‘Eu tenho a obrigação?’ Ela falou: ‘Tem sim, nós pagamos o seu salário.’ Aí, eu falei: ‘Alto lá, quem paga o meu salário é a Escola A, eu sou funcionário, empregado da Escola A, não sou seu empregado. Você paga para a escola, não paga para mim.’ Então há uma diferença muito grande aí (Profissional da Escola A) O aluno, assim com a família deste passaram a ser mais exigentes com a Escola e com os professores. O aluno, visto como cliente, sabe que tem direitos e preocupa-se em vê-los atendidos, mas esquece, segundo um professor, que também tem deveres. A cultura do direito do aluno-cliente é reforçada pelos próprios pais, que muitas vezes são empresários e lidam com a Qualidade nos seus locais de trabalho. “(...) porque aqui o aluno sabe que ele é um cliente da escola e que ele está em primeiro lugar, ele sabe disso, ninguém foi lá e falou pra ele, a direção da escola não foi lá e falou, mas ele sabe porque pai fala isso lá, porque essa onda da Qualidade Total, ela atingiu tudo, né, tá aí, todo mundo nessa onda da Qualidade Total. Muitos dos pais dos nossos alunos são empresários, são pessoas que estão vivendo isso aí e que falam isso aí pra eles direto e reto, sabe...” (Profissional da Escola A) O que se observou é que as situações que trazem maiores desgastes, que geram angústia e que exigem mais do professor, são as situações que passam pela relação pedagógica. Nessas circunstâncias, pede-se que o professor tenha um bom domínio de classe e de conteúdo, tenha “jogo de cintura”, saiba relacionar-se bem com o aluno, que agora passou a ser cliente. Essas são situações que não foram atingidas pela GQTE, no que concerne a uma melhoria das condições de trabalho. Estas condições mantiveram-se inalteradas, na medida em que, por exemplo, manteve-se o elevado número de alunos em sala de aula, embora algumas mudanças no aspecto físico da escola tenham sido feitas, como a sala dos professores de 5ª série ao Ensino Médio, que é um espaço com decoração de bom gosto, com televisão, telefone, geladeira, dois micros, poltronas confortáveis, bem iluminado e amplo. Assim sendo, o que se observou é que os profissionais da Escola A estão sujeitos aos mesmos impasses, aos mesmos questionamentos e às mesmas contradições que os profissionais de outras escolas. Nesse sentido, mesmo com a Qualidade Total, alguns problemas que são inerentes à relação pedagógica, e que constituem mesmo a sua essência, não são atingidos pelas mudanças decorrentes do programa de Qualidade, revelando os limites deste programa quando se trata de questões mais complexas. Do ponto de vista da subjetividade do profissional de Educação, a relação pedagógica, que é o lugar onde se constitui seu trabalho, é ainda carregada de nuanças, que envolvem desde a boa capacidade desse profissional em saber se relacionar com as pessoas, até a capacidade de alcançar uma coerência interna, a fim de se colocar disponível emocionalmente, para que essa relação cumpra seu objetivo final, qual seja, o de propiciar a aprendizagem. Fica evidente a necessidade de o professor desenvolver uma capacidade de saber relacionar-se tanto com as situações mais distintas em momentos diversos, exigindo para tal uma razoável disponibilidade emocional, como também a capacidade de suprir uma série de 12 demandas por parte do aluno, que algumas vezes extrapola às demandas puramente acadêmicas. Assim, a atividade pedagógica adquire uma dimensão para além da relação com o conhecimento e com o aluno. O professor deve desenvolver estratégias pessoais que lhe permitam lidar da melhor forma com seus sentimentos e com as contradições decorrentes da série de exigências que lhe são feitas explícita e implicitamente. No entanto, considerando a proposta da GQTE, exaustivamente discutida na introdução deste trabalho, fica evidente a sua incapacidade de oferecer respostas a essas demandas, que surgem em qualquer relação pedagógica. Por outro lado, com o programa de Qualidade, intensifica-se o nível de exigência quanto ao desempenho do professor e dos demais profissionais de Educação, uma vez que existe sempre a preocupação com o cliente externo. Um outro aspecto que chamou a atenção no decorrer da pesquisa foram os diferentes impactos da GQTE, de acordo com os segmentos da escola. A GQTE entre os profissionais de 5ª a 8ª série e de nível médio foi alvo de duras críticas, chegando a ser questionada quanto à sua eficácia. Cabe lembrar que, durante a pesquisa, foi o segmento a que a direção colocou mais obstáculos, alegando que esses profissionais eram por demais ocupados para serem entrevistados. Na prática, o que se observou foi o inverso: esse segmento foi bastante receptivo e disponível para as entrevistas. Já o primário, que foi por onde se iniciou essa pesquisa, pode ser considerado um segmento em que os profissionais entrevistados são menos críticos e até mesmo mais submissos em relação às diretrizes do programa de Qualidade. Quanto aos profissionais de Educação Infantil, em relação à Qualidade, pode-se dizer que é um grupo mais heterogêneo. Nesse segmento existem tanto os críticos quanto os apologistas da GQTE. Mas foi também o segmento que percebeu com maior clareza a contradição entre as exigências empresariais e pedagógicas. Essas diferentes formas de lidar com a GQTE confirmam o que MELO (1995:180) afirma, ao dizer que “...numa mesma situação de trabalho, pode-se de fato encontrar no mesmo indivíduo, ou em um mesmo grupo, ações de conformismo e de resistência...”. Dessa forma, é possível compreender a escola e como seus profissionais agem e percebem a Qualidade de formas distintas e aparentemente contraditórias. 4 - Considerações Finais A partir dos dados obtidos, tornou-se possível estabelecer algumas reflexões, no que concerne ao trabalho dos profissionais de educação diante de um quadro já descrito anteriormente. A globalização, as políticas neoliberais, as drásticas mudanças no mundo do trabalho, todo esse contexto permite delinear um outro lugar para o papel e o trabalho dos profissionais de educação. Novas questões devem ser levantadas nesse sentido, pois as representações acerca do trabalho na escola, vêm sofrendo mudanças. No intuito de compreender a extensão dessas mudanças não se deve perder de vista a dimensão macro, já citada anteriormente, devendo-se levar em conta também, as repercussões dessas mudanças no que diz respeito ao universo individual. Assim, é de se perguntar em que medida, a partir da adoção da Qualidade Total na escola, foi possível ao profissionais de educação, crescerem ou avançarem no seu fazer pedagógico, do ponto de vista da subjetividade. Nesse sentido, parece que a GQTE, pouco ou nada contribuiu. O que se observou é que ainda que a GQTE propicie mudanças, utilize-se das ferramentas, da padronização, do programa 5s, e de outros recursos, a relação que os profissionais de educação estabelecem com o seu objeto de trabalho, ou seja o trabalho que envolve a forma de construção e a transmissão do conhecimento, permanecem inalteradas. 13 Quanto à questão que norteou esse trabalho, ou seja, um estudo acerca dos impactos da Qualidade Total sobre os profissionais de Educação, parece não ser possível responder a ela pelo universo pesquisado como um todo. Pode-se sim, falar acerca de algumas tendências que prevalecem em cada segmento pesquisado. Permanecem em aberto algumas questões muito pertinentes, especialmente aquelas referentes à alienação dos profissionais diante das exigências impostas pela GQTE e seus impactos na subjetividade desses profissionais. São questões que podem ser trabalhadas num outro momento. ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------- BIBLIOGRAFIA 14 BARBOSA,Eduardo Fernandes et alli Implantação da Qualidade Total na Educação.Belo Horizonte,UFMG - FCO,1995. BONILLA,José A.Resposta a crise :qualidade total e autêntica para bens e serviços.São Paulo,Makron Books,1993. CAMPOS,Vicente F.TQC:Controle da qualidade total.Belo Horizonte,UFMGFCO,1992. CUNHA,D.Intervenção estatal na gestào escolar pelo controle da qualidade total IN:FIDALGO F.S. MACHADO,L.R.S. Controle da Qualidade Total:uma nova pedagogia do capital.Belo Horizonte, MCM,1994. DEMING, W. E. Qualidade a revolução da administração. Rio de Janeiro, MarquesSaraiva, 1990. 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