UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ MESTRADO ACADÊMICO EM POLÍTICAS PÚBLICAS E SOCIEDADE LARA ABREU CRUZ CURRICULO E CONTRA-CURRICULO UMA ANÁLISE DA FORMAÇÃO PROFISSIONAL DOS SOLDADOS DO RONDA DO QUARTEIRÃO FORTALEZA - CEARÁ 2013 1 LARA ABREU CRUZ CURRÍCULO E CONTRA-CURRICULO: UMA ANÁLISE DA FORMAÇÃO PROFISSIONAL DOS SOLDADOS DO RONDA DO QUARTEIRÃO Dissertação submetida ao Curso de Mestrado Acadêmico em Políticas Públicas e Sociedade do Centro de Estudos Sociais Aplicados da Universidade Estadual do Ceará, como requisito parcial para obtenção do grau de mestre em Políticas Públicas e Sociedade. Área de concentração: Políticas Públicas e Sociedade. Orientadora: Prof.ª Dr.ª Maria Glaucíria Mota Brasil FORTALEZA - CEARÁ 2013 2 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação Universidade Estadual do Ceará Biblioteca Central Prof. Antônio Martins Filho Bibliotecário Responsável – Francisco Welton Silva Rios – CRB-3/919 C957c Cruz, Lara Abreu Currículo e contra-currículo: uma análise da formação profissional dos soldados do Ronda do Quarteirão / Lara Abreu Cruz. – 2013. CD-ROM. 154 f. ; il. (algumas color.) : 4 ¾ pol. “CD-ROM contendo o arquivo no formato PDF do trabalho acadêmico, acondicionado em caixa de DVD Slim (19 x 14 cm x 7 mm)”. Dissertação (mestrado) – Universidade Estadual do Ceará, Centro de Estudos Sociais Aplicados, Curso de Mestrado Acadêmico em Políticas Públicas e Sociedade, Fortaleza, 2013. Orientação: Profa. Dra. Glaucíria Mota Brasil. 1. Policiais – treinamento. 2. Formação policial. 3. Ronda do Quarteirão – Ceará. I. Título. CDD: 363 3 4 5 Aos soldados da Polícia Militar do Ceará, dedico este trabalho. 6 “Entre, fique à vontade. A casa é sua. No início você vai estranhar um pouco algumas coisas, mas depois vai se acostumar. Eu também estranhei no começo. Quando entrei pra polícia, estranhei muita coisa. Mas logo me acostumei. A gente se acostuma. Portanto, meu caro amigo, caríssima amiga - posso chamá-los assim? -, apertem o cinto e vamos em frente”. Luiz Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel: A Elite da Tropa. 7 AGRADECIMENTOS “Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo” – já dizia o poeta inglês John Donne em seu livro Meditações. A frase, que pode parecer um tanto “clichê”, devido a sua popularidade, transporta o homem do centro do oceano do Eu para o mundo e revela ser este também “um pedaço do continente, uma parte da terra firme”. A construção deste trabalho dissertativo não seria possível sem o auxílio de algumas pessoas e instituições que se tornaram parte do meu continente ou mesmo a “terra firme” sobre a qual pude me apoiar e caminhar adiante. São a elas que deixo o meu agradecimento. Agradeço a Glaucíria Mota Brasil, professora, orientadora e fonte de inspiração diária. Autora de uma vasta obra sobre polícia e segurança pública no Brasil e no Ceará, a professora Glaucíria, desde meus estudos iniciais na graduação, tem-me fornecido o aporte teórico necessário para a construção desta pesquisa e para meu caminhar no mundo acadêmico. Agradeço pelos elogios, mas especialmente pelas críticas, sempre construtivas. Com a mesma importância e consideração, devo agradecimentos especiais aos professores José Vicente Tavares dos Santos e Cesar Barreira pelo aceite em participar das bancas de qualificação e de defesa da dissertação. Suas sugestões foram de extrema valia. Foi também muito honroso contar com o apoio dos professores do Mestrado Acadêmico em Políticas Públicas e Sociedade da Universidade Estadual do Ceará (MAPPS/UECE), especialmente aos professores Geovani Jacó e Rosemary Almeida, aos quais pude contar com sugestões, revisões e uma opinião diferenciada. Agradeço também a professora Mônica Dias Martins pela excelência no ensino, proporcionando as melhores aulas do mestrado. Ao Mestrado Acadêmico em Políticas Públicas e Sociedade, deixo ainda meus agradecimentos nas pessoas das servidoras administrativas Débora e Cristina, sempre atentas e solícitas aos meus pedidos. Devo agradecer também a todos os cearenses que financiaram a bolsa de estudos disponibilizada pela Fundação Cearense de Amparo a Pesquisa (FUNCAP) que me concedeu o suporte financeiro imprescindível para dedicar-me exclusivamente ao ensino e a pesquisa, ao qual este trabalho fez-se fruto. Agradeço também a Academia Estadual de Segurança Pública (AESP), especialmente a pessoa de Dione Marques, pelo auxílio e disponibilização de material necessário a pesquisa. Nesse sentido, agradeço também ao Laboratório de Direitos Humanos, Cidadania e Ética (Labvida) pelo aporte teórico e físico disponibilizado e a professora Maria Glaucíria Mota Brasil, coordenadora do laboratório, pela disponibilização do material empírico das pesquisas realizadas através do mesmo. Aos soldados da Polícia Militar do Ceará, a quem dedico este trabalho, deixo meus agradecimentos pela disponibilização e paciência em participar das entrevistas. Entre meus colegas do MAPPS/UECE, devo especial agradecimento a Priscila Nottingham e Monalisa Torres (pela amizade), a Irlena Malheiros (pelo companheirismo refletido nas conversas intermináveis), a Ana Maria Almeida Marques (pelo apoio dentro e fora da vida acadêmica) e a Mayra Rachel (pela opinião e metas sempre compartilhadas). Aos demais deixo meu agradecimento pelo apoio dado durante minha gestão como representante discente, espero ter suprido todas as expectativas. 8 Aos companheiros do Labvida, agradeço a Érica Santiago, Bruno Lopes e Michel Barbosa pelos bons momentos de conversas e discussões teóricas; ao Cristiê, pela amizade de todas as horas; e ao bombeiro Ailton Lima, por sempre responder aos meus e-mails nos momentos de maiores dúvidas. Quero agradecer, também, ao meu “tio postiço” e Coronel Engenheiro R/1 do Exército Brasileiro, Francisco José Loureiro de Medeiros pela atenção e prontidão quando de sua ajuda necessitei. A ele também agradeço pelas palavras de incentivo que só mesmo um oficial do Exército sabe proferi-las. Como ele mesmo diz: “Quando lhe aprouver, é só empenhar”. Não posso também deixar de agradecer, como sempre o faço, a todos os autores utilizados neste trabalho. Sem sua existência infinita, este trabalho não teria sido possível. Last but not least, este trabalho seria impossível sem a ajuda e o estímulo de minha família. Meu pai Nilson pelo apoio de sempre; minha irmã Luciana pelas traduções mais confiáveis; meu irmão Felipe que mesmo estando longe sempre demonstrou seu interesse pelos meus estudos; minha mãe Olga, amor incondicional, porto seguro, minha amiga e confidente, é quem sempre me ampara nos momentos de maiores desesperos, acalmando o coração e nele fazendo nascer, novamente, à fé para se seguir adiante, agradeço por estar presente, mesmo quando ausente; aos meus gatos de estimação, Margarida, Doritos e Pretinha, agradeço pela companhia nas intermináveis madrugadas em frente ao computador, mesmo que a tentativa fosse sempre de deitar-se sobre ele; e, finalmente, a Fábio, meu companheiro, que mesmo não sendo da área e dela nada entendendo, segue dividindo comigo meus sonhos. A ele agradeço também pelas contas matemáticas, sobretudo, as de porcentagem, que sempre pedia para ele fazer quando delas necessitava para a dissertação; os gráficos feitos no Excel; e repreensões sempre bem humoradas nos momentos em que achava que não ia conseguir terminar este trabalho. Esse trabalho é, por isso, também obra de todos eles. 9 RESUMO É durante a formação profissional básica, realizada nas Academias de Polícia e Centros de Formação que a identidade do profissional policial é construída. O objetivo desse estudo é compreender como a proposta de formação desenvolvida pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP), a partir do ano 2000, doravante denominada por “nova educação”, vem sendo aplicada nos currículos estaduais dos cursos de formação. Um objetivo mais específico, subjacente a este, é o de compreender como essa “nova educação” foi transmitida durante a formação dos soldados do “programa de policiamento comunitário” do Estado do Ceará: o Ronda do Quarteirão. Desse modo, toma-se como objeto de análise o Curso de Formação Profissional (CFP) de soldados de fileiras da Polícia Militar do Ceará (PMCE) para o Programa Ronda do Quarteirão, no período de 2007 a 2010, o que equivale a três Cursos de Formação: o primeiro ocorrido em 2007, o segundo entre 2008 e 2009 e o terceiro em 2010. Realiza-se um estudo a partir da documentação relativa aos currículos dos cursos de formação profissional básica em análise, como editais de seleção, regulamentos de ensino, grades curriculares, ementas e apostilas. Além disso, através das técnicas de entrevista e Grupo Focal, é possível fazer uma análise compreensiva dos discursos oficiais das experiências e práticas profissionais que subsidiaram a formação dos policiais do Programa Ronda do Quarteirão, percebendo neles como se dá a comunicação entre a aprendizagem formal e a informal, entre o currículo oficial e o “currículo oculto”. O estudo revela haver uma preocupação formal dos organizadores dos Cursos de Formação Profissional em unir o ensino das técnicas e culturas militares aos fundamentos teóricos mais humanísticos, que permitissem uma atuação policial de proximidade com a comunidade. Entretanto, constata-se a realização de um ensino fragmentado, com fragilidades no campo da interdisciplinaridade e que pode ser reprodutor de práticas pouco afeitas às preocupações éticas, sociais e comunitárias, o que revela os limites impostos às novas práticas voltadas à polícia militar e como elas podem contribuir para a reprodução das velhas práticas abusivas e desrespeito aos direitos humanos. Percebe-se, ainda, a presença da cultura institucional da Polícia Militar através de um “currículo-oculto” que funciona como um “contra-currículo”, o qual, através das tensões criadas, acaba por minar a tentativa de mudança proposta pelo currículo oficial. Palavras-chave: Formação Policial. Currículos. Ronda do Quarteirão.. 10 RESUMEN Es durante la formación básica, realizada en las Academias de Policía y Centros de Formación que se construye la identidad de la policía profesional. El objetivo de este estudio es comprender cómo la formación propuesta por la Secretaría Nacional de Seguridad Pública (SENASP), de 2000, llamada "nueva educación", se aplica en los programas estatales de cursos de formación. Uno de los objetivos más específicos es entender cómo esta "nueva educación" fue transmitida durante el entrenamiento de los soldados del “programa de policía comunitaria” del Estado de Ceará: “Ronda do Quarteirão”. Así, ha sido objeto de análisis el Curso de Formación Profesional (CFP) de soldados de las filas de la Policía Militar de Ceará (PMCE) para el Programa Ronda do Quarteirão, en el período comprendido entre 2007 y 2010, lo que equivale a tres cursos de capacitación: el primer tuvo lugar en 2007 y el según entre 2008 y 2009 y tercer en 2010. Realiza un estudio de la documentación de los planes de estudios de formación profesional básica, como la selección de los edictos, los reglamentos, la enseñanza, el currículo del programa de estudios, y libros. Por otra parte, mediante las técnicas de entrevista y grupo de discusión, se puede hacer un análisis exhaustivo de los discursos oficiales de experiencias y prácticas profesionales que apoyan la formación de la policía de Ronda do Quarteirão, percibiendo como se produce la comunicación entre la educación formal e informal, entre el currículo oficial y el "currículo oculto". El estudio muestra que hay una preocupación de los organizadores de los cursos de formación profesional en incorporarse a la enseñanza de las culturas técnicas y militar a bases humanistas más teóricos, teniendo en cuenta la proximidad policial con la comunidad. Sin embargo, percibe una enseñanza fragmentada, con deficiencias en el campo de la interdisciplinariedad, lo que revela los límites de las nuevas prácticas encaminadas a la policía militar y cómo pueden contribuir para la reproducción de los viejos abusos y violaciones de derechos humanos. Es evidente, también, la presencia de la cultura institucional de la policía militar a través de un "currículo oculto", que actúa como un "contra-plan de estudios", que, a través de las tensiones creadas, en última instancia, mina el intento de cambios propuestos por el plan de estudios oficial. Palabras Claves: Formación Policial. Planes de Estúdios. Ronda do Quarteirão, 11 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS Academia de Polícia Militar General Edgard Facó Academia Estadual de Segurança Pública Centro de Educação Centro de Seleção e Promoção de Eventos da Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais Curso de Aperfeiçoamento de Sargentos Curso de Aspirantes Curso de Especialistas Curso de Formação de Cabos Curso de Formação de Oficiais Curso de Formação Profissional Curso de Formação de Sargentos Curso de Formação de Soldados de Fileiras Curso de Revisão Curso Superior de Polícia Código Disciplinar da Polícia Militar do Ceará Community Oriented Police Services (COPS Conferência Nacional de Segurança Pública (Conseg Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico Financiadora de Estudos e Projetos Federação das Indústrias do Estado do Ceará Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico Fundação Universidade Estadual do Ceará Geo-Posicionamento por Satélite APM AESP CED CESPE CFAP CIOPS CAO CAS CA CE CFC CF CFP CFS CFSdF CR CSP CDPMCE COPS Conseg CNPq FINEP FIEC FUNCAP FUNECE GPS Gerenciamento de Crise G-Crises Instituto de Estudos e Pesquisas e Projetos Japan International Cooperation Agency Laboratório de Direitos Humanos, Cidadania e Ética Matriz Curricular em Movimento Matriz Curricular Nacional Ministério da Justiça Operações de Defesa Interna e Territorial Organizações Não-Governamentais Plano Nacional de Segurança Pública Polícia Militar do Ceará Polícia Militar do Estado de São Paulo Policiamento Ostensivo Geral Quartel do Comando Geral Região Metropolitana de Fortaleza Secretaria de Segurança Pública e Defesa da Cidadania Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social Secretaria Nacional de Segurança Pública Secretaria do Planejamento e Gestão do Estado do Ceará Sistema Único de Segurança Pública Sport Utility Vehicle Rede Nacional de Altos Estudos em Segurança Pública Universidade de Brasília Universidade Estadual do Ceará IEPRO JICA Labvida MCM MCN MJ Odit ONGs PNSP PMCE PMESP POG QCG RMF SSPDC SSPDS SENASP Seplag SUSP SUV RENAESP UnB UECE 12 LISTA DE FIGURAS FIGURA 1 Aluno de curso de formação bebe água em vasilha servida aos 115 cachorros FIGURA 2 Alunos levam choque com arma Taser em treinamento 117 FIGURA 3 Turma ri de alunos que levaram choque com arma Taser 117 FIGURA 4 Os Adivinhos 128 13 LISTA DE QUADROS QUADRO 1 Características dos entrevistados QUADRO 2 Inovações e desenvolvimentos do modelo profissional-burocrático de 47 policiamento QUADRO 3 Postos e Graduações na Polícia Militar do Ceará (PMCE) QUADRO 4 Disciplinas ministradas no Curso de Formação de Soldados de 56 Fileiras (1959 a 1986) QUADRO 5 Cargas horárias 2001/2003/2005 das disciplinas 40 ministradas no 50 CFP de 68 QUADRO 6 Cronologia do Concurso para Soldados de Fileira da Polícia Militar do Ceará 92 (2006-2007) QUADRO 7 Cronologia do Concurso para Soldados de Fileira da Polícia Militar do Ceará (2008/2009 e 2009/2010) 94 QUADRO 8 Comparativo das cargas horárias das disciplinas ministradas nos CFPs de 2001/2003/2005 e 2007 99 QUADRO 9 Disciplinas ministradas nos Cursos de Formação Profissional (CFP) da PMCE de 2009 e 2010 105 14 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1: Gráfico 2: Distribuição relativa das disciplinas ministradas na área de Ensino Fundamental durante os Cursos de Formação Profissional de 2001 a 2005, 2007 e 2008/2009. 123 Distribuição relativa das disciplinas ministradas na área de Ensino Profissional durante os Cursos de Formação Profissional de 2001 a 2005, 2007 e 2008/2009. 124 15 SUMÁRIO 1. 1.1. 1.2. 1.3. 1.4. INTRODUÇÃO Pensando a Formação Policial no Brasil: problematizações acerca do objeto de pesquisa Aproximações ao Objeto: “a necessidade de voltar às coisas mesmas” Percurso Metodológico: “novos questionamento a antigas informações” Estrutura da Dissertação 20 28 35 44 PARTE I – OS MODELOS DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL: O SENTIDO DO QUE SE QUER DIZER 2. 2.1. 2.2. 3. 3.1. “O CALIBRE DO HEROÍSMO”: O MODELO DE FORMAÇÃO 47 PROFISSIONAL TRADICIONAL A Formação de Soldados no Período de Regulamentação do Ensino na Polícia 52 Militar do Ceará A Formação de Soldados no Período de Maturação do Ensino na Polícia Militar 54 do Ceará ADEQUAÇÕES DO ENSINO À POLÍTICA NACIONAL DE SEGURANÇA PÚBLICA: POR UMA “NOVA EDUCAÇÃO” PROFISSIONAL A “nova educação” no ensino da Polícia Militar do Ceará 60 66 PARTE II – A TEORIA, NA PRÁTICA É OUTRA? - O SENTIDO DO QUE SE DIZ 4. 4.1. 4.2. 5. 5.1. 5.2. 5.3. O PROGRAMA DE “POLICIAMENTO COMUNITÁRIO” DO CEARÁ: “INOVAÇÃO” OU “MAIS DO MESMO” NA POLÍTICA DE SEGURANÇA PÚBLICA? O Projeto de “Policiamento Comunitário” do Ceará: o Ronda do Quarteirão O Ronda vai às ruas: adaptações, crises e mudanças 72 RECRUTAMENTO, SELEÇÃO E FORMAÇÃO DE SOLDADOS PARA O PROGRAMA RONDA DO QUARTEIRÃO O Recrutamento para o Ronda do Quarteirão: O Processo Seletivo para o Ronda do Quarteirão: A Formação Profissional para o Ronda do Quarteirão: o currículo oficial em prática 85 76 80 86 91 97 PARTE III – O SENTIDO DO QUE NÃO SE DIZ 6. UM HALO QUE TRANSCENDE A FORMAÇÃO: O PODER DO CONTRA- 111 CURRÍCULO NA FORMAÇÃO DOS SOLDADOS DO RONDA DO QUARTEIRÃO 7. CONSIDERAÇÕES FINAIS: NA VALA DOS ADIVINHOS 128 16 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 133 APÊNDICES 141 ANEXOS 144 17 INTRODUÇÃO Esta exposição dissertativa faz parte da tessitura teórica e empírica referente ao desenvolvimento do projeto de mestrado em Políticas Públicas e Sociedade da Universidade Estadual do Ceará, denominado: “A Nova Educação das Polícias Militares e seus reflexos na formação do Policial do Ronda do Quarteirão”. O objetivo desse estudo é compreender como a proposta de formação desenvolvida pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP), a partir do ano 2000, doravante denominada por “nova educação”, vem sendo aplicada nos currículos estaduais dos cursos de formação. Um objetivo mais específico, subjacente a este, é o de compreender como essa “nova educação” foi transmitida durante a formação dos soldados do “programa de policiamento comunitário” do Estado do Ceará: o Ronda do Quarteirão. A temática da formação policial não é só importante por estar presente na ordem de mecanismos legais, mas porque é através da qualificação, de uma formação educacional e pedagógica baseada em princípios éticos, humanísticos e técnicos que “os policiais operadores da política de segurança pública deverão conhecer e compreender a natureza dos dissensos vividos no contexto societário para saber intermediar os consensos possíveis” (MOTA BRASIL, 2004, p.159). Afinal, nos dias atuais, a orientação para a organização da força é repassada durante os cursos de formação. Esses cursos são como um período de adaptação necessário para que os neófitos possam adquirir o conhecimento teórico e as habilidades essências à prática profissional e “arrefecer o caráter original de cada um, transformar o conjunto diversificado em massa homogênea, capaz de responder, de modo reflexo, às ordens emanadas” (LUDWIG, 1998, p.36). Isso significa dizer que é durante a formação profissional básica, realizada nas Academias de Polícia e Centros de Formação que a identidade do profissional policial é construída, não apenas através do repasse das competências e habilidades necessárias ao exercício da profissão, mas, especialmente, na incorporação de um “habitus” (BOURDIEU, 2005) profissional que o condiciona a agir seguindo os valores e crenças que permeiam o ofício. 18 Desse modo, toma-se como objeto de análise o Curso de Formação Profissional (CFP) de soldados de fileiras da Polícia Militar do Ceará (PMCE) para o Programa Ronda do Quarteirão, no período de 2007 a 2010, o que equivale a três Cursos de Formação: o primeiro ocorrido em 2007, o segundo entre 2008 e 2009 e o terceiro em 2010. A escolha por esses cursos voltados para a formação de soldados do Programa Ronda do Quarteirão se deu por três motivos. O primeiro deles é devido o Programa ser uma experiência inovadora de policiamento executada no Ceará, o qual faz uso de estratégias da filosofia do policiamento comunitário, o que permite tanto analisar um tipo de formação diferenciada quanto o processo de desenvolvimento e execução do Programa. Nesse ponto também entra o motivo de escolha pelos “soldados” como sujeitos da pesquisa, pois do ponto de vista ocupacional são as suas decisões que determinam de modo mais direto a relação entre o trabalho policial e a realização dos valores sociais básicos. Monjardet (2003) salienta que é o trabalho dos policiais de linha, diretamente ligado à comunidade, que é usado para se avaliar o sucesso da ocupação na realização das missões atribuídas a instituição, logo, o estudo, tomando como sujeito de pesquisa, os soldados do Ronda do Quarteirão, permite, de certa maneira, também realizar uma avaliação acerca das suas ações, enquanto profissionais que desenvolvem uma modalidade diferenciada de policiamento. O segundo motivo de escolha por essas formações se deu por uma questão lógica, já que os quatro últimos concursos para o preenchimento de vagas na Polícia Militar do Ceará (PMCE) foram voltados para o Ronda do Quarteirão1. E o terceiro e último motivo é que esses Cursos de Formação foram realizados em parceria com Universidades e Centros de Ensino, o que dá a oportunidade de avaliarmos a experiência de diálogo entre a Academia e a Universidade no Ceará. Opta-se por realizar um estudo que leve em consideração não apenas o ambiente de formação e as relações compartilhadas entre professores-alunos-instituiçãosaber, mas especialmente, os conteúdos presentes nos currículos oficiais de formação, ou seja, qual conhecimento é considerado válido ou essencial para a formação desses 1 O edital para o Concurso Público de Provas para Soldado de Fileira da PMCE, antecedente ao Curso de Formação de 2007, havia sido publicado em fevereiro de 2006 para o preenchimento de mil vagas. Inicialmente o Concurso Público havia sido realizado para completar os quadros do Policiamento Ostensivo Geral (POG), mas com a criação do Programa Ronda do Quarteirão todos os candidatos aprovados no exame escrito e consequentemente em todas as outras fases que o seguiram, foram lotados para o Ronda do Quarteirão. O segundo concurso voltado para o Programa foi realizado em 2008 com a formação de duas turmas, a primeira com Curso de Formação em 2008/2009 e a segunda turma em 2010, após a chamada dos classificáveis do Concurso de 2008. Em novembro de 2011 a PMCE abre novo edital para concurso público para soldados. 19 profissionais? E mais: que tipo de profissional se espera formar a partir desse conhecimento considerado válido? Por que esse tipo de conhecimento e não outro? Há interesses guiando a escolha de um tipo de conhecimento e não outro? A escolha pela análise do conteúdo repassado em um processo formal de socialização profissional, como as diretrizes teóricas e metodológicas dos currículos dos cursos de formação, bem como os programas de ensino e treinamento, se deu por considera-los como “estratégias fundamentais de transmissão de ideias, conhecimentos e práticas de uma dada visão do papel, da missão, do mandato e da transmissão de valores, crenças e pressupostos sobre este campo específico” (PONCIONI, 2005, p. 588) de socialização do novo membro, em um contexto sócio-histórico determinado. Para tanto, realiza-se um estudo a partir da documentação relativa aos currículos dos cursos de formação profissional básica em análise, como editais de seleção, regulamentos de ensino, grades curriculares, ementas e apostilas. Além disso, através das técnicas de entrevista e Grupo Focal, é possível fazer uma análise compreensiva dos discursos oficiais das experiências e práticas profissionais que subsidiaram a formação dos policiais do Programa Ronda do Quarteirão, percebendo neles como se dá a comunicação entre a aprendizagem formal e a informal2, entre o currículo oficial e o “currículo oculto”. Não se trabalha, neste estudo, com a noção de “currículo” como algo estático e definido, mas sim como discurso: como ele pode ser descrito de diferentes maneiras, em diferentes épocas, sob diferentes teorias, pois os currículos guardam em si uma questão de identidade e poder. De identidade porque o conhecimento repassado pelo currículo deduz que tipo de pessoa se considera como ideal, ou seja, que tipo de pessoa deve-se ser, ou melhor, que tipo de pessoa deve-se tornar; e de poder porque “[p]rivilegiar um tipo de conhecimento é uma operação de poder. Destacar, entre as múltiplas possibilidades, uma identidade ou subjetividade como sendo a ideal é uma operação de poder”. (SILVA, 2005, p. 16). Nesse sentido, não se pode deixar de destacar que em um ambiente formativo, o contrato didático também se faz presente, através da relação que se estabelece entre o 2 Compreende-se aprendizagem formal como “a formação propriamente dita nas tarefas e modos operacionais, como eles são instituídos e prescritos na nova unidade, e depende dos mecanismos de transmissão do saber”; e a aprendizagem informal como “na socialização aos usos, costumes e normas coletivas da nova unidade, e, na ausência evidente de codificação, depende de mecanismos de ajustamento interindividuais” (MENKE, WHITE e CAREY, 2002, p. 64). 20 professor, o aluno, a instituição e o conhecimento a ser transmitido. É nessa relação que o “currículo oculto” aparece como uma forma de aprendizagem por meio de “todos aqueles aspectos do ambiente escolar, que, sem fazer parte do currículo oficial, explícito, contribuem, de forma implícita”, para a socialização dos alunos (SILVA, 2001, p. 78). Na somatória do currículo oficial com o currículo oculto temos a “totalidade da mensagem pedagógica” (SILVA , MOREIRA e GRANDO, 1995). E a esta totalidade que se busca atingir com este estudo. Ao leitor, deixa-se uma advertência: nesta exposição “não cheguei nem perto do fundo da questão. Aliás, não cheguei perto do fundo de nenhuma questão sobre a qual tenha escrito” (GEERTZ, 1978, p. 20), pois jamais podemos clamar que a “nossa reconstrução é a „verdadeira‟, que foi capaz de incluir todos os fatos e que compreendemos perfeitamente bem todo o processo de gestão. Tal totalização é impossível, embora possa ser um alvo desejável para muitos cientistas sociais” (DAMATTA, 1987, p. 21). Afinal, como ensina Weber (1982, p. 164), o sentido mesmo do trabalho científico é o de que as nossas realizações, estudos e análises se tornaram antiquadas em dez, vinte, cinquenta anos, pois a ciência está sempre suscitando novas perguntas, ela pede para ser “ultrapassada”, “superada”. Como diz o autor: “[q]uem desejar servir a ciência tem de resignar-se a tal fato. (...) Não podemos trabalhar sem a esperança de que outros avançarão mais do que nós mesmos”. E que nós mesmos nos avançaremos. Feita as devidas advertências, em seguida, apresenta-se as aproximações da pesquisadora ao campo de pesquisa, seu percurso metodológico e a estrutura da dissertação. 1.1. Pensando a Formação Policial no Brasil: problematizações acerca do objeto de pesquisa As polícias brasileiras, sobretudos as polícias militares, devido ao seu entrelaçamento histórico com o Exército Brasileiro3, passaram a seguir um modelo de 3 O desenvolvimento das Polícias Militares Brasileiras não seguiu o mesmo padrão desenvolvimento das modernas forças de polícia na Europa. De acordo com Rolim (2006, p. 25), o fator decisivo para o aparecimento das polícias na Europa foi “a emergência de um sem-números, de revoltas populares e desordens de rua”, as quais os governos não podiam mais lidar somente através da convocação das tropas do Exército e suas sucessivas cenas de violência e morte. Era preciso uma estrutura profissional e permanente que estivesse sempre nas ruas. No Brasil, as polícias militares surgiram a partir das inquietações dentro das primeiras linhas do Exército, que por demais limitadas, não chegavam a atender a todas as necessidades de policiamento das 21 organização profissional militar que orienta desde o seu modo de pensar, se organizar e se instrumentalizar, assim como, seu imaginário na sociedade. Com isso, as polícias militares brasileiras acabaram se desenvolvendo a partir de uma dupla atribuição: a de ser polícia e força militar4. (MUNIZ, 2001). Os períodos ditatoriais do Brasil, Estado Novo (1937-1945) e Ditadura Militar (1964-1985) foram os que mais contribuíram para desvirtuar a polícia de sua área específica de atuação – a segurança pública -, e utilizá-la como instrumento da política de segurança nacional5. Assim, as policiais militares tornaram-se um dispositivo repressivo usado contra os opositores do Estado de exceção, quase sempre de forma violenta, para fazer, como diz Rolim (2006), o “trabalho sujo” de repressão política. Mesmo com a redemocratização do país e a promulgação da Constituição Federal de 1988, instaurado o Estado Democrático de Direito6, as forças policiais não seguiram o mesmo caminho democrático do país. Segundo Mota Brasil (2008, p. 138), “os sucessivos governos que se revezaram no poder pós-ditadura militar mantiveram intocada a autonomia de funcionamento desses dispositivos, como se eles fossem estruturas neutras e prontas a servir à democracia”. Uma das causas para o que Zaluar (2007, p. 40) denomina por “democratização inacabada”, [v]isto que houve poucas reformas no sistema de Justiça e, principalmente, quase nenhuma mudança nas práticas policiais no que diz respeito aos pobres, pode-se dizer que os efeitos do regime militar ainda estão presentes no funcionamento dessas instituições que não respeitam os direitos civis dos cidadãos. cidades, as insurreições e os demais conflitos sociais. Assim, foi criada uma força policial que tanto serviço para o controle das desordens sociais, como para esforços de guerra (CRUZ, 2010). 4 Segundo Muniz (2001, p. 182), desde o segundo império, “as PMs começaram a ser exaustivamente empregadas como força auxiliar do exército regular tanto nos esforços de guerra (como no caso da Guerra do Paraguai), quanto nos conflitos internos como as rebeliões, os motins, as revoltas populares, além, evidentemente, das operações de grande porte relacionadas ao controle das fronteiras da nação”. 5 A política de segurança nacional brasileira, utilizada durante o período ditatorial do Brasil, tem as suas bases na Doutrina da Segurança Nacional. Esta surgiu nos Estados Unidos, como uma consequência da Guerra Fria e caracterizava-se por uma doutrina de segurança da nação contra os avanços do comunismo, através da intervenção militar a qualquer foco que fosse considerado como perturbação ou agressão à segurança nacional. Trazida ao Brasil, a Doutrina de Segurança Nacional foi transformada pelo presidente Castelo Branco na Lei de Segurança Nacional, a qual passou a definir os crimes contra a segurança nacional, a ordem política e a nação, enquadrando como inimigo todo aquele que se opunha à ditadura militar, visando garantir a segurança da nação contra qualquer forma de subversão à lei e à ordem. 6 Segundo a Constituição Federal do Brasil de 1988, em seu Preâmbulo, o Estado Democrático de Direito é um sistema institucional "destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundamentada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias...". 22 Com isso, não era de se admirar que surgissem no cenário policial frases do tipo “Na prática, a teoria é outra”, referindo-se a uma formação que não capacitava para a realidade das ruas, no cumprimento das missões contemporâneas de um Estado Democrático de Direito. Havia um descompasso na capacidade que as polícias militares possuíam para responder a essas missões, devido a sua formação ainda estar, eminentemente, atrelada a uma formação militarista, que preparava o jovem policial para ainda salvaguardar a segurança nacional, mobilizando seus esforços contra o “inimigo interno”, agora, forjado sobre a figura do cidadão. Diante desse cenário, fazia-se urgente, um processo de reforma nas polícias brasileiras. Segundo Albuquerque e Paes-Machado (2001a), esse processo de reforma tomou como pressuposto maior o ideal de que o treinamento funcionaria como um verdadeiro catalizador para a efetivação de mudanças mais substanciais nas polícias, sobretudo, nas polícias militares. Deste modo, a mudança de paradigmas foi sendo anunciada por meios legais através de planos e projetos governamentais, como o I Programa Nacional de Direitos Humanos, de 1996, o qual já assinalava a importância de se acrescentar às Academias de Polícia matérias específicas de direitos humanos. No entanto, foi somente com a chegada do novo século, que os esforços para uma modificação nos currículos de formação, bem como, para a construção de um currículo nacional, foram empreendidos com maior fôlego e esmero. No ano de 2000, com a criação do primeiro Plano Nacional de Segurança Pública (PNSP), o Governo Federal iniciou uma série de ações voltadas para a qualificação e valorização profissional dos agentes de segurança pública, propondo ações que pudessem garantir uma reforma substancial nas polícias estaduais, por meio do desenvolvimento do documento “Bases Curriculares para a Formação dos Profissionais de Segurança do Cidadão”. As Bases Curriculares trouxeram, pela primeira vez, a descrição de um “perfil desejado” para todas as categorias profissionais da área da segurança pública, estabelecendo que esses profissionais passassem a ter sólidos conhecimentos capazes de lhes fazerem compreender a diversidade dos cenários sociais, além do emprego de técnicas e procedimentos em conformidade com as leis nacionais e internacionais, tratando a todos de acordo com os preceitos morais e éticos. Três anos após a elaboração do I PNSP (2000), já no Governo de Luís Inácio Lula da Silva (2003-2006), o Estado resolve fazer uma revisão no modelo de orientação que 23 estava dando à segurança pública. Desta maneira, em 2003, é elaborado o “Projeto Segurança Pública para o Brasil”, o qual propõe diversas ações voltadas para se construir uma “nova polícia” para a sociedade brasileira, a qual seguisse sob uma nova abordagem, possuísse um novo tipo de sujeito em sua gestão, construísse uma nova aliança com a sociedade e com o Estado e modificasse seus valores fundamentais, identidade institucional, cultura profissional e padrão de comportamento, para que objetivassem a construção de um projeto sustentável de paz. Para a construção dessa “nova polícia”, o Estado reconhece, definitivamente, a importância da formação policial para a superação do modelo tradicional implantado no Brasil, afirmando que “a atual formação das polícias é positivista, discriminatória e se funda na antiga Lei de Segurança Nacional e, sobretudo, na Doutrina de Segurança Nacional, que entendiam o cidadão como potencial inimigo interno” (BRASIL, 2003, p.31). É o início de uma nova maneira de se pensar e fazer segurança pública no Brasil. A primeira ação desenvolvida pelo Ministério da Justiça (MJ) por meio da Coordenação Geral de Ensino da Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP), para dar prosseguimento a reforma na educação profissional dos agentes de segurança pública, foi a elaboração de uma Matriz Curricular Nacional (MCN). A MCN constitui-se num “marco de referência para as ações formativas a serem empreendidas por todas as polícias, contribuindo para o fortalecimento e institucionalização do Sistema Único de Segurança Pública - SUSP” (BRASIL, 2003b, p. 02). Com isso, a Matriz Curricular, em 2003, passa a ser o novo referencial pedagógico nacional para orientar a formação em segurança pública, dando prosseguimento ao trabalho iniciado pelas Bases Curriculares, em 2000. De 2005 a 2007, a Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP), do Ministério da Justiça, em parceria com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha realizou seis seminários regionais, no qual a equipe técnica e os docentes das academias e centros de formação tiveram a oportunidade de refletir sobre a Matriz Curricular Nacional, assim como apresentar os fundamentos teórico-metodológicos contidos na Matriz, discutir as disciplinas da Malha Curricular, a transversalidade dos Direitos Humanos, a prática pedagógica e o planejamento/execução das ações formativas, por isso a utilização da expressão “em movimento” à Matriz. Ao término dos seminários foi construída uma nova Matriz Curricular, denominada de “Matriz Curricular em Movimento” (MCM). Em 2008, a Matriz Curricular ganhou uma versão modificada e ampliada, a qual passou ser chamada de “Matriz Curricular Nacional para ações formativas dos profissionais 24 da área de Segurança Pública”, com alterações nas cargas horárias das disciplinas, dando maior enfoque às disciplinas voltadas à resolução pacífica de conflitos, à valorização profissional, à saúde do trabalhador e à ética e direitos humanos. Todas essas iniciativas demonstram a preocupação do Governo Federal em superar um modelo policial, reconhecidamente débil, por meio da formação e da qualificação profissional, não apenas com o desenvolvimento de documentos para nortear a formação, mas também na ênfase dada ao ensino pós-ingresso e na aproximação com as Instituições de Ensino Superior (IES), como as Universidades7. Mesmo com todo o incremento dado pelo Ministério da Justiça à formação dos agentes de segurança pública, as pesquisas sobre formação dos agentes de segurança pública no Brasil têm demonstrando ainda haver muitas fragilidades neste campo. Poncioni (2007), em seus estudos sobre a formação de policiais civis e militares, entre 1999 a 2005, constatou que ainda faltam às academias de polícias e centros de formação, as ferramentas necessárias para uma reflexão mais aprofundada da questão da formação policial no Brasil, no que tange aos recursos humanos e materiais disponibilizados, como corpo docente profissionalizado, regularidade na realização de cursos de aperfeiçoamento, avaliações sobre o êxito da formação, entre outros. Albuquerque e Paes-Machado (2001a, 2001b, 2003), por sua vez, constatam nas formações de policiais militares a presença de um “contra-curriculo” que acaba por “minar” a formação proposta pelo currículo oficial desenvolvido pela SENASP. Essa não é uma realidade exclusiva do Brasil. Os estudos sobre os modelos de educação policial no mundo constatam um caráter contraditório, ineficaz e fragmentado do ensino. Em seu estudo sobre o treinamento numa academia policial norte-americana, Marion (1998) mostra o desenvolvimento de um ensino que não valoriza a diversidade cultural; do mesmo modo, Wortley et all (1995), analisando dados de 412 recrutas australianos, percebeu que o treinamento deles não os ajudava a superar questões de autoritarismo e racismo, mantidos e até mesmo reforçados pela própria instituição policial. Gayre et all (1996) constatou também no ensino policial australiano que a participação de 7 Em 2005, o Governo Federal desenvolveu a Rede Nacional de Especialização em Segurança Pública, atualmente denominada de Rede Nacional de Altos Estudos em Segurança Pública (RENAESP). A RENAESP é um projeto da SENASP de formação continuada para os agentes de segurança pública, em parceria com Instituições de Ensino Superior (IES), públicas e privadas, devidamente credenciadas pela SENASP, para a promoção de cursos de especialização (Latu Senso). No mesmo ano de criação da RENAESP, a SENASP desenvolveu também uma Rede Nacional de Educação à Distância para Segurança Pública, uma escola virtual, com o propósito de “informar, formar, atualizar e especializar gratuitamente os operadores de Segurança Pública do Brasil” (BRASIL, 2007a, p. 56). Além disso, também podemos citar a criação do Projeto Interagir, voltado para o fornecimento de material pedagógico às Academias de Polícia e Centros de Formação e a realização de cursos, seminários e oficinas. 25 profissionais das universidades era considerado menos influente na formação dos recrutas do que o ambiente proporcionado pela Academia e pelo próprio fazer policial (apud Albuquerque e Paes-Machado, 2003, p. 07). Ao mesmo tempo, vê-se também o desenvolvimento de experiências bem sucedidas, como no caso dos guardas civis metropolitanos de São Paulo. De acordo com Mariano (2004), a adoção das diretrizes estabelecidas pela Matriz Curricular Nacional, pela Guarda Civil Metropolitana de São Paulo, teve como objetivo primordial dar-lhe um redirecionamento em suas práticas, de modo que esses guardas pudessem pensar e atuar de forma preventiva e comunitária. Para tanto, a Guarda Civil Metropolitana empreendeu uma reforma substancial no seu sistema de ensino, o qual atingiu desde questões estruturais, como a reforma e ampliação do Centro de Formação em Segurança Urbana (CFSU) a formativas, com a adoção novas disciplinas teóricas, uma reorientação no campo das disciplinas operacionais e parcerias com Universidades, lideranças comunitárias e equipamentos sociais8 . Diante desses cenários marcados profundamente por mudanças e resistências, nos interessa identificar qual a realidade da formação policial no Estado do Ceará? Como a “nova educação” das forças de segurança pública está sendo repassada aos soldados da Polícia Militar do Ceará, mais especificamente aos soldados do Ronda do Quarteirão? Sabe-se que além do incentivo à qualificação profissional, o Governo Federal vem dando apoio a experiências de policiamento comunitário, por acreditar que elas possam modificar a abordagem policial, as relações da polícia com a população de um modo geral e 8 Mariano (2007) aponta como as principais mudanças realizadas pela Guarda Civil Metropolitana de São Paulo, em seu sistema educacional, para a reorientação de suas práticas: (1) novas orientações as disciplinas operacionais que cuidam das abordagens e dos comportamentos na rua e na viatura; (2) adoção de novas disciplinas teóricas, como Violência Doméstica, Abuso de Autoridade, Discriminação Racial, Comissões Civis Comunitárias de Segurança, Estatuto da Criança e do Adolescente, Direitos Humanos e Ações Preventivas, Sistema de Segurança Pública Brasileiro, Mediação de Conflitos Internos e Externos, Fiscalização e Controle Interno e Externo; (3) reforma no Centro de Formação em Segurança Urbana (CFSU) com a ampliação das salas, criação de salas para professores, vestiários, banheiros e quadra esportiva; (4) preparo de um grupo de guardas civis para serem instrutores das novas disciplinas, com o intuito de que se esses guardas acreditassem realmente na filosofia do policiamento preventivo seriam agentes multiplicadores e protagonistas de uma nova polícia; (5) parcerias com Universidades, lideranças comunitárias e equipamentos sociais, como Coordenadoria da Mulher, da Juventude, da Comunidade Negra para ministrarem as aulas; (6) introdução da modalidade “estágio” na estrutura curricular; (6) incentivo aos guardas a realizarem cursos de formação à distância; (7) retomada do conceito de “tiro defensivo”, com treinamento em stand de tiro, em que se ensinava aos guardas a priorizarem “pernas” e “braços”, caso fosse necessário atirar. 26 a própria imagem que a sociedade tem da polícia. A ideia do policiamento comunitário é de reorientar a ação policial para práticas com caráter mais educativo, como mediação de conflitos, ajuda solidária, educação de base, rodas de conversa sobre os problemas sociais e medidas de segurança. As práticas também são técnicas como criação de postos de policiamento, rondas a pé, vigilância e informação sobre as ações e os criminosos (ALMEIDA, 2004, p.146). Seguindo esta orientação, o Governo do Ceará criou, em 2007, um programa de policiamento com feições comunitárias, denominado “Ronda do Quarteirão”. Também conhecido como “a polícia da boa vizinhança”, o programa se propunha a desenvolver uma modalidade de policiamento por meio de ações ostensivas e preventivas, tendo como diferencial sua proposta de proximidade com a população e a contribuição desta na prevenção da criminalidade. No entanto, com o passar do tempo, as abordagens do novo policiamento, antes respeitosas e cordiais, começaram a assemelhar-se ao policiamento tradicional. Velhos problemas ressurgiram, dentre eles, o de “abordagens policiais desastrosas”, associadas à formação policial deficitária, como ocorreu com o caso do jovem Bruce Cristian que ganhou repercussão nacional. Numa tarde de domingo do mês de agosto de 2010, Francisco das Chagas de Oliveira Sousa dirigia sua moto de volta para casa, em Maracanaú, Região Metropolitana de Fortaleza, após a manutenção de um ar condicionado na capital cearense. Na garupa da moto estava seu filho, Bruce Cristian de Oliveira Sousa, 14 anos, que nos momentos de folga da escola acompanhava o pai ao trabalho. Ao passar pelo cruzamento da Rua Padre Valdevino com Avenida Desembargador Moreira, no bairro Aldeota, área nobre de Fortaleza, Bruce Cristian é atingido pelo disparo de uma arma de fogo que o vitima fatalmente. A cena do pai deitado sobre o corpo do filho estirado no asfalto, suas ferramentas de trabalho espalhadas pela avenida e seu desespero perante a morte foram marcantes para toda a população cearense que acompanhou o sofrimento desse pai nos jornais, na televisão e na mídia eletrônica. A morte de Bruce Cristian ganhou repercussão nacional, não por se tratar da milésima vítima da violência e da criminalidade na capital cearense (DIÁRIO DO NORDESTE, 26/07/2010, p. 16), mas, especialmente, por se tratar de mais um caso de despreparo da polícia em suas abordagens, ou como preferem denominar os oficiais da 27 corporação, “um caso isolado de ação desastrosa e infeliz” da Polícia Militar do Ceará (PMCE). Isso porque o tiro que o matou fora disparado pelo soldado da PMCE, Yuri Silveira Alves Batista, integrante do programa de policiamento comunitário do Estado, o Ronda do Quarteirão. De acordo com o Jornal O Povo (26/07/2010, p. 03), o soldado Silveira havia achado pai e filho suspeitos e pedido para que parassem a moto, como não foi atendido, o soldado disparou contra o pneu, mas acabou atingindo a nuca de Bruce. O pai do jovem alega não ter ouvido o pedido do soldado para parar a sua moto. Esse fato acabou trazendo à tona velhos problemas como a insegurança da população e a credibilidade do Programa como modalidade de policiamento comunitário. Com a morte do jovem Bruce Cristian, a formação policial no Ceará foi colocada em xeque: o despreparo do policial na abordagem foi considerado como a causa da morte do rapaz e associada imediatamente à má qualificação profissional. Nesse contexto, nos interessa identificar como os soldados do Ronda do Quarteirão foram formados? Os Cursos de Formação Profissional (CFP) seguiram o currículo oficial desenvolvido pela SENASP? Por ser uma nova modalidade de policiamento executada no Estado, esses policiais receberam uma formação diferenciada? As pressões em torno da execução do Programa Ronda do Quarteirão influenciaram, de algum modo, no desenvolvimento dos CFPs? Torna-se importante compreender as tentativas de mudanças operadas pelo Governo Federal na área da qualificação e valorização dos profissionais da área da segurança pública, por ser a educação, um dos instrumentos fundamentais para a modificação das polícias brasileiras. Afinal, segundo Mota Brasil (2004), o desafio da segurança pública no século XXI é a criação de uma polícia eminentemente cidadã e civil. Entretanto, a autora pondera ao afirmar que tal desafio não poderá ser superado, apenas, por meio de leis e decretos específicos, mas sim, pela educação, pela formação dos quadros de operadores da segurança pública. 28 1.2. Aproximações ao Objeto: “a necessidade de voltar às coisas mesmas” “O que te escrevo não tem começo: é uma continuação. Das palavras deste canto, canto que é meu e teu, evola-se um halo que transcende as frases, você sente?” Clarice Lispector Começo esta escrita sobre minha aproximação ao objeto desta pesquisa a partir da epígrafe a cima referenciada, por acreditar que nela há muito sobre a construção do objeto, a pesquisa e o ato da escrita. Clarice Lispector, por incrível que pareça, já que começo essa subseção com um texto seu, nunca foi a mais apaixonante das minhas leituras. Na verdade, poucos livros seus li. E isso não tem por causa certa “necedade” ou “incultura” de minha parte, longe disso. A causa é mesmo questão de gosto ou posso dizer até mesmo literária. Gosto das literaturas as mais lineares possíveis e Clarice sempre tem um lado adimensional, seu tempo é a alma, o espírito humano e para estes não há uma cronologia que os defina. O tempo de Clarice é a imaginação, o sonho, o devaneio, o “instante-já”. É um mergulho total no ser. Contudo, nesses dois últimos anos, em que estive exclusivamente dedicada ao mestrado, a “obrigação” de escrever esta dissertação, ou melhor, voltar a escrever sobre um objeto que já o venho escrevendo desde a minha graduação, fez-me lembrar de Clarice repetidamente, mais especificamente, um livro seu: “Água Viva”. Lembrei-me porque há um momento no livro, perto do seu final (se é que podemos dizer que há um final, pois o livro não tem começo nem fim), em que a personagem-narradora dizia exatamente a epígrafe citada, ou seja, que o que ela escrevia não tinha começo, pois era uma continuação. Tal citação expressa exatamente o momento pelo qual passei e que como diria o filósofo alemão Edmund Husserl, em sua redução fenomenológica, é um “voltar às coisas mesmas”. O que Geertz (1978, p. 18) complementa explicando que “[o]s estudos constroemse sobre outros estudos, não no sentido de que retomam onde outros deixaram, mas no sentido de que melhor informados e melhor conceitualizados, eles mergulham mais profundamente nas mesmas coisas”. E é exatamente esse “mergulhar nas mesmas coisas” que pretendo fazer ao ter como intenção nesse Curso de Mestrado dar continuidade ao estudo da formação policial, iniciado desde a minha entrada no Laboratório de Direitos 29 Humanos, Cidadania e Ética (Labvida), da Universidade Estadual do Ceará. Retornarei este assunto mais adiante, por enquanto voltemos ao livro de Clarice. Decidi, pois, revisitar o livro e descobri que nele havia mais em comum com o momento da escrita da dissertação do que poderia imaginar. O livro é narrado por uma pintora que está passando pela “dor da separação”, mas ao mesmo tempo sente o “grito da felicidade diabólica”, pois, agora, “ninguém a prende mais”. Ela está em um estado novo, por ela não compreendido e que para entendê-lo inicia sua busca por um “autoencontro”. Segundo Matos (2009, p. 310), o que resulta disso é “um confronto entre a necessidade de dizer e a experiência de ser”, ou seja, para entender esse novo momento pelo qual estava passando, a personagem-narradora sente vontade de escrever, e escrever como quem pinta. “Por isso, Água Viva é uma meditação apaixonada sobre o ato de escrever, tendo como verdadeiro foco o contínuo debate entre o escritor e sua vocação, entre o escritor e as palavras (...).” (idem, p. 313). Desse modo, podemos comparar o ato da pesquisa a uma busca pelo “autoencontro”, tanto na necessidade de dizer ou de escrever; quanto na experiência de ser; tanto na pretensão de capturar o “instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais” (LISPECTOR, 1978, p.10), quanto na busca pela palavra “capaz de expressar em sua concretude a existência vivida, sentida e sonhada” (FERREIRA, 2003, p. 84). Atividade esta não muito fácil, pois como diria Foucault (1999, p. 12), por mais que se diga o que se vê, o que se vê não se aloja jamais no que se diz, e por mais que se faça ver o que se está dizendo por imagens, metáforas, comparações, o lugar onde estas resplandecem não é aquele que os olhos descortinam, mas aquele que as sucessões de sintaxe definem. Por isso, muitas vezes, o sentido do “dizer/escrever” não está nas palavras em si, mas “na sombra das palavras, no halo que as circunda” (BITTENCOURT, 2011, p. 103, grifos do autor), no sentido que há por traz da palavra dita, no não-dito. “O halo é mais importante que as coisas e as palavras. O halo é vertiginoso” (LISPECTOR, 1978, p.120). O “autoencontro” (lê-se o ato da pesquisa) só é possível com a escrita e a leitura, ambos, compostos por palavras e estas por suas sombras, seus halos. Captá-los e saber como transmiti-los é necessário ao entendimento do objeto. 30 Através da escrita, a personagem-narradora nasce e morre tantas vezes: “Estou prestes a morrer-me e constituir novas composições” (LISPECTOR, 1978, p.98). Assim como ela, o pesquisador durante seus caminhos na investigação científica nasce e morre também. Quantas vezes sentimos ser necessário parar e recomeçar um texto novamente? Quantas vezes sentimos necessidade de voltar ao campo? Na pesquisa é preciso morrer para nascer, desorganizar para organizar. É preciso desconstruir o fenômeno para captar o seu sentido. Assim como a personagem-narradora de Clarice, como pesquisadores, ao construir nossos objetos de investigação, estamos morrendo e nascendo diversas vezes, destruindo e construindo composições, retomando velhos projetos, fazendo nascer tantos outros, tudo isso por meio do processo da escrita. O trabalho de construção do objeto é, pois, “um trabalho de grande fôlego”, como nos diria Bourdieu (2009, p. 27), “que se realiza pouco a pouco, por retoques sucessivos, por toda uma série de correções, de emendas, sugeridas por o que se chama ofício”, ou seja, questionar a prática da ciência, para além da ilusão do saber, exige que o objeto seja conquistado, construído e contestado (BOURDIEU, CHAMBOREDON, PASSERON, 2007). Para Clarice, a escrita é o limiar de entrada para o “útero do mundo” do qual nascemos. Na vida acadêmica, há determinadas instituições que funcionam tais como o “útero” citado por Clarice, gestando o pesquisador iniciante para o mundo das letras, das reflexões, do nascer e do morrer; para o mundo da academia. Esse é o papel dos laboratórios de pesquisa e eu sou filha de um deles. O Laboratório de Direitos Humanos, Cidadania e Ética (LABVIDA) Há um livro infantil de Rubem Alves que conta a história de uma toupeira que queria ver um cometa que iria passar sob o céu da floresta em que morava. Esse cometa não era um cometa qualquer, ele só passava a cada 76 anos e tinha poderes mágicos: realizava os desejos de quem o visse. Contudo, Ceguinha, como se apelidava a toupeira, não podia vê-lo porque era míope, só enxergava as coisas que lhe estavam muito perto, na ponta do seu focinho. Assim, o seu mundo se resumia a escuridão do túnel em que morava. Ceguinha não enxergava para além do túnel, nem tão pouco conseguia ver as coisas diferentes que havia no mundo. 31 Contudo, naquela noite, Ceguinha quis muito ver o cometa. Desejou ver como nunca tinha desejado antes. Na verdade, Ceguinha nunca tinha desejado “ver”, se contentava, apenas, com o que podia enxergar de perto, mas não de longe. Afinal, como diz Rubem Alves (1986, p. 14 e 15), “ver é coisa que se desaprende, se não se deseja” e Ceguinha não deseja até aquela noite. Assim, com o desejo que lhe modificara por dentro, Ceguinha foi para casa, adormeceu e sonhou. Sonhou vendo o cometa que tanto desejava ver, com sua cauda imensa, “tão grande que ia do horizonte até o umbigo do céu” (Ibidem, p.06), seu brilho era maior que o da lua, como um grande olho a refletir as coisas que Ceguinha sempre enxergou, mas que nunca parara para ver de verdade. Foi então que Ceguinha percebeu que na verdade aquele cometa era o seu próprio olho e a mágica do cometa estava em “ver diferente aquilo que os olhos haviam visto sempre, sem ver” (Ibidem, p.24). A partir daquela noite, Ceguinha, passou a ver. O pequeno livro de Rubem Alves ensina muito mais do que apenas fazer com que as crianças acreditem que um sonho, quando muito desejado, pode vir a acontecer. Ele fala muito sobre a experiência do início com pesquisas científicas, especialmente, aquelas do campo das ciências sociais porque ele ensina algo já tão discutido por Bourdieu (2009) quando o autor escrever por uma sociologia reflexiva: A ruptura é, com efeito, uma conversão do olhar e pode-se dizer do ensino da pesquisa em sociologia que ele deve em primeiro lugar “dar novos olhos” como dizem por vezes os filósofos iniciáticos. Trata-se de produzir, senão “um homem novo”, pelo menos, “um novo olhar”, um olhar sociológico. E isso não é possível sem uma verdadeira conversão, uma metanoia, uma revolução mental, uma mudança de toda a visão do mundo social (p. 49, grifos do autor). Seria essa mudança na visão do mundo social, segundo o próprio autor, o verdadeiro “cume da arte” em ciências sociais. Saber “pôr em jogo „coisas teóricas‟ muito importantes” sobre “objetos ditos „empíricos‟ muito precisos, frequentemente menores na aparência, e até mesmo um pouco irrisórios” (BOURDIEU, 2009, p. 20). Dar importância àquilo que, aparentemente, não tem importância não é atividade fácil, exige do pesquisador aquilo que Wright Mills (1980, p. 11) chama por “imaginação sociológica”: “qualidade de espírito que lhe ajude a usar a informação e a desenvolver a razão, a fim de perceber, com lucidez, o que está ocorrendo no mundo e o que pode estar acontecendo dentro deles mesmos”. 32 Como alcançar a “imaginação sociológica”? Eis a grande questão que se coloca ao pesquisador iniciante. Um auxílio para responder a essa questão está presente nos laboratórios e grupos de pesquisa que se encontram espalhados pelas mais diversas universidades do País. Esses laboratórios e grupos de pesquisa são os nossos “cometas” que nos ajudam nesse período embrionário a ver melhor o que já víamos todos os dias. O meu “cometa” se chama Laboratório de Direitos Humanos, Cidadania e Ética (Labvida) no qual pude me inserir ao Grupo de Estudos “Direitos Humanos e Políticas de Segurança Pública” filiado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) do qual tive o prazer de fazer parte de um seleto grupo de bolsistas de iniciação científica da área das ciências sociais. Entrei no Labvida no segundo semestre de 2007 com a inocência de uma garota que acabara de sair do ensino médio, mas com a curiosidade de uma aluna universitária, com interesse real de vivenciar a vida acadêmica, de fazer parte de um grupo de pesquisa. Dentro do Labvida, uma de nossas atividades, como bolsistas, dizia respeito à catalogação de arquivos, atividade esta detestada por muitos que já haviam passado por lá. Lembro-me de uma companheira de catalogação, que hoje já não faz mais parte do quadro de pesquisadores do Labvida, reclamando de tal atividade. Nela vejo claramente o que Bourdieu (2009, p. 20) fala sobre tomarmos a fórmula de Flaubert para nós: “pintar bem o medíocre”. Pobre colega, não conseguia enxergar a importância que tal atividade tinha para a iniciação científica. Segundo Castro (2002), a atividade de catalogação de arquivos constitui uma das habilidades necessárias a todo bolsista de iniciação científica, pois lhe permite aproximar-se da realidade empírica a ser pesquisada, contribuindo, desta maneira, para a ampliação do seu conhecimento na temática da pesquisa. Minha primeira participação em pesquisa foi como auxiliar em uma pesquisa realizada nacionalmente, denominada “Violência Urbana, Polícias Militares Estaduais e Políticas Públicas de Segurança” (CE, RS, PA, MT, PE, DF) que tinha como objeto amostral a nova educação das polícias militares estaduais e era financiada pela Financiadora de Estudos e Projetos do Ministério da Ciência e Tecnologia (FINEP). Considero esta minha participação na pesquisa da FINEP como um marco divisório para minha inserção no mundo da pesquisa social, isto porque foi através dela que pude me aproximar, especificamente, do 33 meu objeto de pesquisa – a formação de policiais militares – e a partir de então formular minhas primeiras indagações e hipóteses sobre a formação policial no Estado do Ceará. Finalmente, com minha participação, como bolsista de iniciação científica, no projeto de pesquisa “Os limites e potencialidades da nova formação policial nas parcerias das Academias de Polícia com a Universidade no Ceará”, financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pude continuar a me aprofundar no mundo das palavras escritas, de textos, artigos e livros sobre a temática da formação policial, por acreditar que devemos conhecer muito bem aqueles a quem vamos pesquisar e as diferentes realidades que os envolve, não apenas no recorte de nossa pesquisa, mas também em um contexto nacional. Por isso passei a também pesquisar resultados de pesquisas sobre a mesma temática em outros estados para assim confrontar tais realidades e verificar quais semelhanças, diferenciais e limites são impostos a formação policial no Brasil. Inserida no Labvida, ainda, pude utilizar dos resultados de outras tantas pesquisas que foram realizadas pelo laboratório, como a pesquisa “Os impactos da nova formação policial no programa “Ronda do Quarteirão”: uma experiência inovadora de policiamento comunitário?”, sob o financiamento da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FUNCAP) e a pesquisa “Cartografia da Criminalidade e da Violência em Fortaleza”, sob o financiamento do Ministério da Justiça, da Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP) e da Prefeitura Municipal de Fortaleza (PMF). Além disso, pelo Labvida pude participar da I Conferência Nacional de Segurança Pública (Conseg), em sua etapa estadual realizada em Fortaleza. Participar da Conseg foi uma experiência não só histórica, mas também com um valor fundamental para a minha formação acadêmica, pois pude vivenciar um exercício de democracia e de diálogo entre sociedade civil, trabalhadores da área de segurança pública e poder público que juntos falavam uma só língua: a construção de um Brasil menos violento. Durante a Conferência participei do “Eixo Temático 3: Valorização Profissional e Otimização das Condições de Trabalho”, por ser um tema que se aproximava da temática que já vinha estudando. Durante a “reunião” para a construção do princípio e das diretrizes que iriam à votação sobre a valorização profissional dos agentes de segurança pública pude perceber os anseios pelos quais os trabalhadores desta área passam, ao exigirem desde soluções tópicas para os problemas do dia-a-dia, como melhores condições de trabalho, até 34 mudanças mais estruturais, como a desmilitarização das polícias militares e a desconstitucionalização da segurança pública. Durante o último semestre em que fui bolsista de iniciação científica, dediquei-o quase que exclusivamente à monografia, fruto do Projeto de Pesquisa do CNPq, do qual fui bolsista. Intitulada “O Tradicional e o Moderno na Formação do Policial Militar: uma análise do Curso de Formação dos Soldados do Ronda do Quarteirão”, o objetivo deste meu trabalho de conclusão de curso foi, essencialmente, o de analisar como a nova proposta de formação militar foi repassada aos aspirantes a policiais militares do Programa Ronda do Quarteirão durante a formação da primeira turma em 2007. A partir dos resultados obtidos com esse estudo, interessei-me em ingressar no Mestrado Acadêmico em Políticas Públicas e Sociedade (MAPPS/UECE) com um projeto de pesquisa em que pudesse dar continuidade e avançar no estudo sobre a formação policial. Segundo Geertz (1978, p. 18), “[u]m estudo é um avanço quando é mais incisivo – o que quer que isto signifique – do que aqueles que o precederam; mas ele se conserva menos nos ombros do que corre lado a lado, desafiado e desafiando”. Dar continuidade a um tema de pesquisa já por mim explorado anteriormente e, de certa forma, já abordado nas pesquisas as quais trabalhei me traz algumas boas vantagens, especialmente no que diz respeito às leituras e ao processo de aproximação com os sujeitos da pesquisa: quem são, onde estão e como abordá-los. Ao mesmo tempo, traz algumas dificuldades, pois corro o risco de estudar “o que já é sabido”, ou “estudar o mesmo tema novamente”, ou ainda ouvir frases do tipo: “mas já fizeram isso” ou “já escreveram sobre isso”. Contudo, compartilho do pensamento de Becker (2007, p. 122l grifos nosso) ao afirmar: Nada permanece igual. Nada é igual a coisa alguma. Não operamos no mundo dos químicos, onde podemos tirar uma amostra de uma substância pura da prateleira e saber que ela é a mesma substância que qualquer outro cientista no mundo estará manipulando sob esse nome, ou equivale a ela para todos os efeitos. Nenhuma de nossas substancias é algo de puro. Todas são combinações historicamente contingentes, geograficamente influenciadas, de uma variedade de processos, não havendo duas combinações iguais. Assim nunca podemos ignorar um tema apenas porque alguém já o estudou. Com isso, o que pretendo é levar a compreensão do problema em frente, pois assim como Becker (ibidem) citou o caso de Michel Burawoy ao estudar o mesmo tema de 35 Donald Roy9, o problema é o mesmo, mas ocorre sob novas condições. Para Scribano e De Sena (2009, p. 05, tradução nossa), “a potencialidade implícita de toda construção da informação se refere à possibilidade de „olhá-la‟ de maneira diferente, desde perspectivas teóricas, experienciais (e por que não políticas) diversas, aos que utilizaram seu construtor10”. Logo, meu desafio nesta dissertação é dar continuidade e reforçar o estudo de um objeto por mim já discutido na graduação, abordando-o de maneira diferenciada, a partir das novas condições societárias postas e impostas. No projeto de conclusão do curso de graduação centrei mais no Curso de Formação Profissional (CFP) realizado em 2007, o primeiro curso que formou os soldados para o Programa Ronda do Quarteirão. Neste, pretendo retomá-lo através das entrevistas realizadas com policiais militares formados neste Curso específico, e ampliar o campo de análise para um estudo dos Cursos de Formação dos anos posteriores, em 2008/2009 e 2010, todos realizados anteriormente a inauguração da Academia Estadual de Segurança Pública (AESP). 1.3. Estratégias Metodológicas: “novos questionamentos a antigas informações” Para discorrer sobre a metodologia nas Ciências Sociais utiliza-se uma frase de Howard Becker, que em uma primeira leitura pode parecer um tanto redundante, mas após o seu aprofundamento vê-se que ela fala muito sobre o pensamento e a posição do autor sobre a metodologia. Diz Becker (1999, p. 17) que “metodologia é o estudo do método”, ou seja, o estudo das ferramentas que nos auxiliam a fazer a pesquisa sociológica. Contudo, segundo o autor, há alguns renomados metodólogos e filósofos da ciência que acreditam que a metodologia deve se dedicar a dizer aos sociólogos o que eles devem estar fazendo ou que tipos de métodos devem usar ou sugerir que eles estudem o que pode ser estudado por esses métodos ou que se ocupem a imaginar como o que querem estudar pode ser transformado em algo que possa ser estudado por esses métodos. 9 Michael Burawoy fez um estudo sobre o mesmo assunto que Donald Roy já havia realizado: a restrição da profissão. Por puro acaso, Burawoy utilizou-se da na mesma oficina que Roy havia estudado. No entanto, a oficina já não funcionava mais de forma independente, tinha se tornado parte de uma grande firma. Deste modo, Becker (2007) nos mostra que ambos tinham o mesmo problema, mas em condições diferentes. 10 No texto original: “La potencialidad implícita de toda construcción de información refiere a la possibilidade de „mirarla‟ de diferente manera, desde odres teóricos, experenciales (y por que no políticos) diversos a los que utilizara su constructor” 36 Com isso acabamos nos prendendo aos “cães de guarda metodológicos” (BOURDIEU, 2009, p. 26). Compartilha-se da visão de Becker (2009), de construção da ciência a partir de um “modelo artesanal”, em que cada trabalhador produz as teorias e métodos necessários para o seu trabalho, ou como aconselha Bourdieu (2009), deve-se escolher as técnicas a partir da definição do objeto e utilizar tantas quanto forem necessárias, pois a pesquisa é coisa demasiado séria e demasiado difícil para se poder tomar a liberdade de confundir a rigidez, que é o contrário da inteligência e da invenção, com o rigor, e se ficar privado deste ou daquele recurso entre os vários que podem ser oferecidos pelo conjunto das tradições intelectuais da disciplina – e das disciplinas vizinhas: etnologia, economia, história. (...) Evidentemente, a liberdade extrema que eu prego, e que me parece ser de bom senso, tem como contrapartida uma extrema vigilância das condições de utilização das técnicas, da sua adequação do problema posto e às condições do seu emprego (Ibidem, p. 26, grifos do autor). Desse modo, a pesquisa realizada neste trabalho pode ser definida tanto pela natureza qualitativa como quantitativa, tanto pelo uso de dados primários quanto secundários. Isto porque a mesma faz uso tanto de dados estatísticos secundários que auxiliam na identificação do fenômeno estudado como um problema (FLICK, 2009) relevante socialmente, como no uso de dados qualitativos primários que ajudam na compreensão dos “indivíduos em seus próprios termos” (GOLDENBERG, 2003, p. 53). Ao longo de toda a pesquisa foi realizado um levantamento bibliográfico com o objetivo de situar o “estado da arte” da problemática da formação policial no Brasil e no Ceará. A ênfase desse levantamento bibliográfico foi dada por pesquisas em artigos científicos, monografias, dissertações e teses que apresentassem experiências locais de pesquisas sobre a formação policial, assim como trabalhos científicos realizados por policiais militares, uma forma de aproximação aos seus pensamentos sobre a formação e a corporação militar. Neste último caso, foi de extrema valia, os trabalhos realizados por alguns militares, como Santos (2012) e Sousa (2010). Além disso, realizou-se também uma pesquisa hemeroteca, considerando os dois jornais de maior circulação do Estado do Ceará, o Jornal O Povo e o Diário do Nordeste. A escolha por este tipo de pesquisa se deu como uma forma de aproximação ao objeto da pesquisa, visto que esses instrumentos são importantes veículos de transmissão dos problemas e/ou assuntos que envolvem a segurança pública a nível nacional e local. Claro que não podemos deixar de considerar que os jornais atuam “de modo espetacular e 37 ou dramática, reproduzindo, ao seu modo, representações tanto dos gestores quanto da coletividade” (FREITAS, MELLO e ALMEIDA, 2009, p. 21). Os dados primários utilizados dividem-se em dados coletados por pesquisas realizadas através do Laboratório de Direitos Humanos, Cidadania e Ética, da Universidade Estadual do Ceará (Labvida/UECE) e dados coletados para esta pesquisa propriamente dita. Geralmente, as pesquisas que envolvem a formação de profissionais militares se dão no seio da instituição formadora, através de interessantes estudos etnográficos. Assim ocorreu com os trabalhos realizados por Celso Castro, em “O Espírito Militar”, no qual o autor faz um estudo sobre o cotidiano dos cadetes da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN); Piero de Camargo Leiner, em “Meia Volta, Volver”, na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme); Leonardo Sá, em “Os Filhos do Estado”, sobre a formação de oficiais na Academia de Polícia Militar do Ceará; e Carlos Linhares de Albuquerque, em “Escola de Bravos: Cotidiano e Currículo numa Academia de Polícia Militar”, sobre a incorporação da identidade profissional policial militar através do cotidiano acadêmico e da aprendizagem das disciplinas por parte de aspirantes a oficiais na Academia de Polícia Militar da Bahia (APMB). Como esses estudos são baseados na “prática da etnografia”, o que exige do pesquisador uma presença maior e por mais tempo no ambiente de pesquisa, seus trabalhos trazem a marca da “descrição densa” (GEERTZ, 1978) do objeto pesquisado. A vivência lhes permite exercitar o “olhar”, o “ouvir” e o “escrever”, como nos ensinara OLIVEIRA (2000) e assim capturar as estruturas de significados que existem na formação, como é produzida, percebida e interpretada pelos sujeitos da pesquisa. No caso desta pesquisa, que também tem como objeto um estudo sobre a formação de militares, especificamente, de soldados da Polícia Militar do Ceará, a prática etnográfica não foi utilizada. Não por uma questão metodológica, mas sim devido às “condições de possibilidade” postas pelo tempo e espaço de realização da pesquisa. Pelo tempo porque durante a realização do Curso de Mestrado não estava havendo, concomitante a ele, um Curso de Formação Profissional, no qual a pesquisadora pudesse vir a observar o seu desenvolvimento, por isso a escolha por cursos retroativos11; e pelo 11 Em novembro de 2011, o Governo do Estado do Ceará deu início a mais uma seleção para o preenchimento de mil vagas para o cargo de soldado da Polícia Militar do Ceará. Até o mês de realização deste trabalho ainda 38 espaço, porque desde o ano de 2008 houve a desativação da Academia de Polícia Militar (APM) Edgard Facó e do Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (CFAP) que eram os centros responsáveis pela formação, respectivamente, de oficiais e praças da corporação. Isso fez com que o local de formação fosse fragmentado para vários outros estabelecimentos da Polícia Militar, não sendo possível, portanto, a observação da formação como um todo. A desativação ocorreu devido ao projeto de criação da Academia Estadual de Segurança Pública (AESP). Diante dessas condições postas ao campo de pesquisa, eis que surge uma problemática: como capturar os sentidos da formação dos soldados da PMCE sem poder observar continuamente o seu cotidiano de formação? Foi pensando nisso que se decidiu utilizar o material empírico obtido através de pesquisas sobre a formação policial, das quais a pesquisadora havia participado. Utiliza-se, essencialmente, os dados coletados nas pesquisas sob o financiamento da FINEP, CNPq e FUNCAP. Por isso, a abertura desta seção, foi intitulada utilizando-se uma expressão originada de Mruck (2005 apud SCRIBANO e DE SENA, 2009), “nuevas preguntas a viejos datos”, pois é exatamente isto parte do trabalho metodológico: evidenciar as respostas para perguntas através de dados coletados por outras pesquisas12. Trabalhar com dados já coletados trouxe boas vantagens. Segundo Kelder (2005 apud SCRIBANO e DE SENA, 2009, p. 105, tradução nossa), “o uso de dados de outras pessoas poupa tempo, evita sobrecarga sem necessidade aos participantes da (própria) não havia iniciado o Curso de Formação Profissional, o que veio a impossibilitar qualquer pretensão de se fazer um estudo etnográfico sobre essa formação. 12 Os dados primários utilizados destas pesquisas foram os seguintes: (1) Da Pesquisa “Violência Urbana, Polícias Militares Estaduais e Políticas Públicas de Segurança” (CE, RS, PA, MT, PE, DF), sob o fomento da FINEP: análise das apostilas e ementas das disciplinas do Curso de Formação Profissional de 2007; e Relatório Final da Pesquisa. Nas duas atividades participei de suas elaborações, então parte dos dados empíricos coletados foi por mim realizado. (2) Da Pesquisa “Os limites e potencialidades da nova formação policial nas parcerias das Academias de Polícia com a Universidade no Ceará” (2008-2012), financiada pelo CNPq e “Os impactos da nova formação policial no programa „Ronda do Quarteirão‟: uma experiência inovadora de policiamento comunitário?” (2008-2010), sob financiamento da FUNCAP: seis entrevistas individuais feitas a policiais militares do programa Ronda do Quarteirão, formados durante os Cursos de Formação Profissional (CFP) de 2007 e 2009; entrevista a um soldado da PMCE formado em 2003 e que não integra o Programa Ronda do Quarteirão; entrevista ao coordenador institucional do Ronda do Quarteirão na época, coronel da Polícia Militar Joel Costa Brasil; entrevista a um oficial da Polícia Militar do Ceará, Major Plauto Roberto; e Grupo Focal Institucional realizado com pessoas que trabalharam diretamente na elaboração e no desenvolvimento do Curso de Formação Profissional de 2007 e 2009, dentre elas membros da Polícia Militar do Ceará (PMCE), da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), da Universidade Estadual do Ceará (UECE), do Ministério Público e da sociedade civil. Todos esses dados primários foram coletados para as pesquisas da FUNCAP e do CNPq, no período de setembro a novembro de 2009. O Grupo Focal Institucional, em particular, foi realizado no dia 29 de setembro de 2009. 39 investigação e agrega confiança a interpretação dos próprios dados13”. Justamente as vantagens que encontradas quanto ao tempo e ao contato com os interlocutores. Se por um lado não se teve esses problemas comuns aos pesquisadores, surgiram outros, oriundos do fato de se estar trabalhando com alguns dados não coletados, diretamente, pela pesquisadora, como o uso de um roteiro de entrevista elaborado por outra pessoa e o distanciamento com o entrevistado. O fato de não ter elaborado o roteiro de entrevista14 não significa dizer que ele não traga questionamentos que a pesquisadora também teria feito, mas a partir das respostas dos interlocutores parece válido, em alguns momentos, aprofundar este ou outro assunto, atividade esta não feita pelo entrevistador. Em alguns momentos, na leitura das transcrições, sentiu-se dificuldade quando os interlocutores falavam algumas siglas, talvez, para o entrevistador fosse conhecida ou naquele momento lhe passou despercebido. No entanto, para uma pessoa de fora da polícia parecia um grande mistério a ser desvendado. Nesses momentos, a pesquisadora ficava especulando horas e horas, em sua cabeça, o que no universo da polícia que ela conhecia (e não era muita coisa) poderia corresponder àquelas minúsculas junções de letras sem sentido algum. Nesses casos, após várias especulações, que no fim das contas não passavam de especulações, recorria às “testemunhas privilegiadas” (QUIVY e CAMPENHOUDT, 1992, p. 69), ou seja, “pessoas que, pela sua posição, pela sua acção ou pelas suas responsabilidades, têm um bom conhecimento do problema”, no caso um amigo ex-policial militar. E a cada e-mail que dele recebia com a resposta ali, tão clara, tão óbvia, era inevitável a indagação: “como não pensara nisso antes?” Outra dificuldade sentida foi quanto ao distanciamento com o entrevistado, pois, ao não realizar a entrevista, deixa-se de perceber o “não-dito” ou o que Quivy e Campenhoudt (1992) chamam de “discurso enquanto processo”, ou seja, as revelações que podem ser capturadas através do depoimento do entrevistado, como o modo com que ele organiza suas ideias, seus “pontos de vistas contraditórios que se confrontam no seu espírito”, os seus silêncios, etc. Claro, que em alguns momentos na leitura das transcrições, 13 No original: “o uso de datos de outras personas ahorra tempo, evita sobrecarga innecessariamente a los participantes de la (propia) investigación y agrega confianza a la interpretación de los próprios datos” 14 Para maior detalhamento sobre o roteiro de entrevista vide Anexo A. 40 era possível perceber uma determinada “fuga” do entrevistado em responder a pergunta, por julgar que a informação a ser divulgada era perigosa. Isso aconteceu com um soldado que não quis assumir sua posição política contrária a relação do Governador do Estado, Cid Gomes, com o programa Ronda do Quarteirão. Através da transcrição percebe-se que o interlocutor reluta um pouco em responder. Como os dados coletados pelas pesquisas da FUNCAP e CNPq registravam depoimentos referentes aos Cursos de Formação Profissional de 2007 e 2009 e a pesquisa objetiva uma análise dos três últimos cursos realizados, logo 2007, 2009 e 2010, o complemento foi dado mediante duas entrevistas com soldados do Ronda do Quarteirão formados no CFP de 2010; além de uma entrevista com uma soldado formada durante o CFP de 2009. A escolha por entrevistar somente duas policiais do CFP de 2010 se deu por uma questão de padronização, já que para as pesquisas da FUNCAP e do CNPq foram entrevistados apenas dois policiais de cada turma estudada. Já a entrevista realizada com a policial formada pelo CFP de 2009, se deu porque havia algumas dúvidas da pesquisadora para esta pesquisa que as entrevistas coletadas pelas pesquisas da FUNCAP e CNPq não conseguiam responder15. No quadro a seguir é possível verificar as características dos entrevistados: Quadro 1 - Características dos entrevistados NOME FICTÍCIO DO SOLDADO Soldado 1 Soldado 2 TEMPO DE SERVIÇO MÊS E ANO DA ENTREVISTA Masculino CURSO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL CFP de 2007 2 anos Masculino CFP de 2007 2 anos Masculino Novembro de 2009 Novembro de 2009 Outubro de 2009 3 meses Outubro de 2009 Novembro de 2009 Novembro de 2012 SEXO Soldado 5 Masculino CFP de 2003 e Curso Nacional de Promotor de Polícia Comunitária. CFP de 2003 e Curso Nacional de Promotor de Polícia Comunitária. CFP de 2009 Soldado 6 Feminino CFP de 2009 3 meses Soldado 7 Feminino CFP de 2009 3 anos Soldado 3 Masculino Soldado 4 15 16 16 6 anos Outubro de 2009 6 anos Roteiro de Entrevista vide Apêndice A. Características como idade e grau de instrução não foram citados no quadro porque nem todos os entrevistados declararam durante a entrevista. 41 Soldado 8 Feminino CFP de 2010 2 anos Soldado 9 Feminino CFP de 2010 2 anos Masculino CFP de 2003 (não integra o Programa Ronda do Quarteirão) 6 anos Soldado 10 Setembro de 2012 Setembro de 2012 Outubro de 2009 Quem pesquisa a Polícia Militar sabe muito bem a dificuldade que se tem para conseguir um policial para entrevistar. Todos sabem que a Polícia Militar é uma instituição muito conservadora e “desconfiada quase a ponto de paranoia” (BITTNER, 2003, p. 293), fatores estes que acabam prejudicando as tentativas de aproximação. Durante umas das tentativas de “conquista”, estabelecida entre a pesquisadora e o sujeito a ser pesquisado, a soldado 08 demonstrou esse medo e desconfiança de que seu nome pudesse vir a ser publicado e ela punida devido às declarações dadas: “Pelo amor de Deus, eu nunca disse isso... nunca nem participei da sua pesquisa. Isso era caso de expulsão por três vezes”. Por isso, por questão de ética e para manter em sigilo os nomes dos soldados entrevistados, quando se fizer necessário a citação de seus depoimentos, os nomes utilizados serão alusões a numerais. Ressalta-se que todos os soldados entrevistados foram informados quanto à gravação das entrevistas com a autorização dos mesmos, documentada no Termo de Consentimento Livre Esclarecido17. Em relação ao Grupo Focal Institucional18, realizado no dia 29 de Setembro de 2009, estavam presentes: Glaucíria Mota Brasil (coordenadora da Pesquisa); Marcos Bretas (Departamento de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro); Juruena de Moura (Assistente Social da Secretaria de Justiça do Estado do Ceará e advogada); Roberto das Chagas Monteiro (na época secretário de segurança pública do Estado do Ceará); Túlio Studart (na época comandante do Batalhão de Policiamento Comunitário); Walter Pinto Filho (promotor de justiça da Vara do Júri); Igor Barreto (advogado da Pastoral Carcerária de Fortaleza e do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos da Arquidiocese de Fortaleza, membro do Conselho Estadual de Segurança Pública); Nelson Arruda (Diretor do Centro de Educação da Universidade Estadual do Ceará e coordenador pedagógico do Curso de Formação Profissional de 2007); Geovani Jacó de Freitas (professor da Universidade Estadual do Ceará); Fátima Vilanova (ex-ouvidora na Universidade Estadual 17 Para melhor detalhamento do Termo de Consentimento Livre Esclarecido utilizado para esta pesquisa vide Apêndice B e o utilizado pelas pesquisas da FUNCAP e CNPq vide Anexo B. 18 Para melhor detalhamento sobre as questões abordadas no Grupo Focal vide Anexo C. 42 do Ceará e presidente da Organização Não-Governamental Ceará de Paz) e Fábio Ivo Gomes (defensor público). Todos os depoimentos foram trabalhados através do programa de análise de dados qualitativos QSR NVIVO, o qual pode ser definido como um “programa para análise de informações não-numéricas e não-estruturadas”. O programa NVIVO não substitui o pesquisador na sua tarefa de análise dos dados, mas “potencializa os resultados da pesquisa aumentando o alcance e a profundidade da análise” (TEIXEIRA, 2011, p. 04). Para complementar a pesquisa sobre a formação dos soldados do Ronda do Quarteirão, faz-se uma análise dos seguintes documentos: a) apostilas e ementas dos CFPs de 2007, 2009 e 2010; b) editais de seleção para os CFPs: Edital nº 007/2006 para o CFP/2007, Edital nº 01/2008 para os CFP 2008/2010, e Edital nº 79/2009 para CFP/2010; c) Lei nº 10.945/1984: unifica a legislação do ensino e magistério na PMCE; d) Decreto nº 17.710/1986, alterado pelo Decreto nº 21. 392/1991: regulamenta o ensino na PMCE; e) Relatório Final da Pesquisa Violência Urbana, Polícias Militares Estaduais e Políticas Públicas de Segurança – VIPOSEG (2006-2008); f) Decreto nº 29.596/2008: documento que apresenta as alterações na carga horária e nas disciplinas a serem ministradas no CFP/2008; g) Regulamento do CFP de 2010; h) Lei nº 14.029/2010: cria, no Sistema de Segurança Pública Estadual, a Academia Estadual de Segurança Pública; i) Lei nº 13.729/2006: Estatuto dos Militares Estaduais do Ceará; j) Lei nº 13.407/2003: Código Disciplinar da Polícia Militar do Ceará (CDPMCE). Muitos desses documentos estavam disponíveis na internet, com exceção do Regulamento do CFP de 2009, o qual não estava disponibilizado no site do Centro de Seleção e Promoção de Eventos da Universidade de Brasília (CESPE/UnB), instituição responsável pelo recrutamento e formação de 2009. Para tanto, necessitava-se desse documento, porque nele estava descrito as cargas horárias e as disciplinas que foram ministradas nesse CFP. Contudo, mesmo o site do CESPE/UnB sendo muito bem organizado e informativo, não havia nos documentos disponibilizados o nome de coordenador ou de uma pessoa responsável pelo CFP, o que veio a dificultar uma possível tentativa de contato. A pesquisadora resolveu, então, buscar respostas na Academia Estadual de Segurança Pública (AESP) e inicialmente teve muita dificuldade. A pessoa com quem falou 43 disse-lhe que talvez não encontrasse esse documento, porque quando do CFP de 2009 a Academia ainda não era responsável pela organização do concurso e Curso de Formação. Diante da negativa, conclui-se de imediato algo que já se vinha pensando no decorrer da pesquisa: o CESPE/UnB age como o garçom da Santa Ceia. A instituição foi contratada para organizar o concurso e o Curso de Formação para soldados da PMCE, mas não se sabe quem é a pessoa responsável da organização responsável pela formação. Na verdade, não há uma pessoa física, como acontecia quando a Universidade Estadual do Ceará era a responsável pelo concurso de formação dos soldados. Havia um representante da Fundação Universidade Estadual do Ceará (FUNECE) e um coordenador pedagógico ligado a UECE, no caso o diretor do Centro de Educação (CED/UECE), professor Nelson Arruda. Entretanto, no caso do CESPE/UnB, quem assinava todos os documentos era o ex-secretário de segurança pública, Roberto das Chagas Monteiro, a exsecretária de planejamento e gestão, Silvana Maria Parente Neiva Santos, e ninguém do CESPE/UnB. Quando a pesquisadora já havia decidido ir embora da AESP, já descrente de encontrar o documento do qual necessitava, resolveu fazer uma vista ao setor de ensino da Academia. Ao chegar lá, perguntando a alguns oficiais que estavam trabalhando se tal documento poderia estar em algum dos computadores, um oficial disse-lhe que iria dar uma olhada e após alguns minutos, encontrou o Decreto nº 29.596/2008, no Diário Oficial do Estado. Esse Decreto traz as alterações nas cargas horárias e nas disciplinas que seriam ministradas no CFP. Não era o Regulamento do CFP como desejava, mas o documento encontrado era a essência do que procurava. Após a entrevista com a soldado 7, a pesquisadora descobriu que o Regulamento do Curso de Formação de 2010, disponibilizado no site da UECE, foi o mesmo utilizado durante a formação dos soldados em 2009, já que a instituição organizadora de ambos os cursos, o CESPE/UnB, foi a mesma, modificando-se somente a instituição executora: em 2009, CESPE/UnB e em 2010, UECE. Para finalizar, na maioria das vezes, o relato de uma pesquisa que envolve a instituição policial se assemelha ao relato da pesquisa realizada por Zaluar (1994), no livro “A Máquina e a Revolta: organizações populares e o significado da pobreza”, no qual a autora descreve que sua entrada no campo – o conjunto habitacional “Cidade de Deus”, no Rio de Janeiro – foi permeada por momentos de desconfiança e de esperança por parte dos moradores locais. 44 Assim como alguns desses moradores temiam que Zaluar (1994) difamasse o local no qual viviam, os policiais também temem que sua imagem seja criticada, que seus métodos sejam colocados em xeque e aqueles de “baixa patente” temem que sejam denunciados aos seus superiores por estarem dando uma entrevista sem a autorização dos mesmos. Entretanto, ao mesmo tempo, outros moradores viam na pesquisadora a figura da esperança, aquela que o governo enviou para anteceder os sacos de feijão e arroz para as famílias pobres; do mesmo modo, alguns policiais veem na figura do pesquisador essa mesma esperança, a de que seus problemas, suas inquietações, seus anseios encontrarão solução ou, simplesmente, alguém com quem possam desabafar. 1.4. Estrutura da Dissertação Para este trabalho dissertativo procura-se exercitar o que Bourdieu (2009, p. 59) define como “teoria científica”, a qual contrariando o discurso profético e pragmático da “teoria teórica” que só serve para se defrontar com outras teorias, busca-se “por em ação os conhecimentos teóricos adquiridos investindo-os em pesquisas novas”. Em outras palavras, longe de se querer construir uma teoria sobre a educação de policiais militares, esse estudo se apresenta como uma tentativa de por a teoria aprendida, durante a carreira acadêmica, em confronto com o empírico. Desse modo, os resultados da pesquisa empreendida estarão dispostos ao longo das três partes, as quais este trabalho está dividido, e não somente na última parte ou no último capítulo, como muitos trabalhos tem-se desenvolvido. A primeira parte do trabalho, denominada Modelos de Formação Profissional: o sentido do que se quer dizer, trabalha com a questão dos conhecimentos contidos nos currículos de formação profissão de soldados da Polícia Militar do Ceará (PMCE). A partir dos modelos de organização profissional policial, desenvolvidos por Poncioni (2005, 2007), busca-se mostrar como os currículos definiam o tipo de soldado que se queria para o exercício desses modelos. Assim, no segundo capítulo, intitulado O Calibre do Heroísmo: o modelo de formação profissional tradicional, busca-se apresentar como a formação de soldados era realizada anteriormente às modificações no ensino recomendadas pela SENASP e o qual segue, essencialmente, o modelo de polícia profissional tradicional (PONCIONI, 2005, 2007). Do mesmo, no terceiro capítulo, Adequações do Ensino a Política Nacional de Segurança Pública: por uma “nova educação” profissional, apresenta-se as 45 mudanças curriculares propostas pela SENASP para se configurar a “nova educação” das forças de segurança, dentro do que Poncioni (2005, 2007) denomina por modelo de polícia profissional novo. A intenção desta primeira parte é, literalmente, apresentar ao leitor qual o sentido do que esses currículos querem dizer? Que tipo de profissional eles querem formar? A segunda parte da dissertação, denominada A teoria, na prática é outra? - O sentido do que se diz, faz uma análise de como esses currículos são colocados em prática durante os Cursos de Formação, no caso do estudo em análise, de como o currículo da “nova educação” foi transmitido nos Cursos de Formação Profissional para o Ronda do Quarteirão. Nesse sentido, o quarto capítulo faz uma apresentação do Ronda do Quarteirão, em que se relata desde a sua constituição até o momento de sua execução. No quinto capítulo, Recrutamento, Seleção e Formação de Soldados para o Programa Ronda do Quarteirão, apresenta-se, efetivamente, como o currículo oficial foi adaptado para os CFPs do Ronda. A finalidade dessa segunda parte é verificar se o conhecimento proposto pelo currículo da “nova educação” se efetivou, realmente, na prática dos CFPs. Busca-se, portanto, apreender se o sentido do que esse currículo quer dizer, é realmente o que ele diz. A terceira parte, nomeada O sentido do que não se diz, é composta, apenas, pelo capítulo seis Um halo que transcende a formação: o poder do contra-curriculo na formação dos soldados do Ronda do Quarteirão. A partir da noção de “contra-curriculo” desenvolvida por Albuquerque e Paes-Machado (2001a, 2001b, 2003), este capítulo pretende apresentar como o “currículo oculto”, presente em todo processo de aprendizagem, na formação dos soldados do Ronda do Quarteirão, se revestiu em um contra-curriculo, que como uma sombra, um halo, encobriu o currículo oficial, numa tentativa de miná-lo e reafirmar antigas práticas formativas presentes no passado autoritário das Polícias Militares. As considerações finais foram intituladas por Na vala dos Adivinhos, numa referência a passagem do poeta Dante, durante sua visita ao Inferno, em a Divina Comédia. Aqui são apresentadas algumas análises da pesquisadora sobre a formação dos policiais do Ronda do Quarteirão e sobre o próprio programa que os coloca em um cenário marcado por resistências da própria corporação policial a qualquer tentativa de mudança que se tente operar nas forças policiais militares. São também assinaladas possibilidades de mudanças na formação profissional em um cenário nacional e local. 46 PARTE I – MODELOS DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL: O SENTIDO DO QUE SE QUER DIZER 47 2. “O CALIBRE DO HEROÍSMO19”: O MODELO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL TRADICIONAL Segundo Poncioni (2005), a partir dos anos 1960, na maior parte das democracias ocidentais, assistiu-se ao aumento da violência e da criminalidade e as instituições tradicionais de combate ao crime, especialmente as polícias, não acompanharam esse avanço, mostrando-se pouco eficazes no enfrentamento dessa questão. Diante dessa “crise da solução policial” (BRETAS, 1997), fez-se necessário uma reforma nas polícias, com o objetivo de deixa-las mais disciplinadas, mais profissionais e menos discricionárias, adotando-se o entrelaçamento de dois modelos de polícia, o burocrático-militar e o de aplicação da lei. A esse modelo Poncioni (2005, 2007) denomina por “modelo de polícia profissional tradicional”. Nesse modelo, privilegiam-se ações reativas, ou seja, a organização policial espera ser notificada da ocorrência de um crime, para só a partir daí, ativar o seu trabalho. Os policiais são encorajados a controlar todas as situações comuns como se fossem questões de aplicação da lei. Aquelas que não podem ser classificadas dessa maneira são consideradas “assistência social”, sendo, pois, objeto de desprezo. Em todas as situações comuns, seu relacionamento com os cidadãos da comunidade em que opera deve se dar em condições neutras e distantes (PONCIONI, 2005). O quadro a seguir apresenta as principais inovações trazidas pela introdução do modelo burocrático-militar, assim como as consequências dessas inovações para o policiamento: Quadro 2 - Inovações e desenvolvimentos do modelo profissional-burocrático de policiamento INOVAÇÕES 1. Desenvolvimento de uma autoconsciência Profissional. 2. Militarização e eficiência 19 DESENVOLVIMENTOS - Literatura profissional - Recrutamento interno para os postos de Comando. - Ênfase na disciplina de estilo militar - Academias e escolas de instrução - Centralização organizacional - Recrutamento e seleção através de critérios meritocráticos. - Desenvolvimento de uma carreira profissional - Medidas de desempenho - Ideal de serviço: luta contra o crime - Fóruns de discussão e disseminação de O termo “o calibre do heroísmo” foi utilizado por Soares, Batista e Pimentel (2006) no capítulo-relato “Emergência”, presente no livro “Elite da Tropa”, ao fazerem referência à atitude tomada por um tenente da PM que gostava muito de “valorizar o próprio passe” (p. 35) e contar vantagens sobre suas ações como policial. 48 3. Associações profissionais práticas e do conhecimento profissional - Sindicalização - Centralização da autoridade 4. Reforma administrativa e burocratização - Racionalização dos procedimentos de comando e controle - Qualificação dos policiais - Planejamento racional das atividades - Formação e treinamentos formais 5. Qualificação dos policiais - Avaliação do desempenho individual - Sistemas racionais de promoção através de critérios meritocráticos - Mobilidade (através do automóvel) 6. Uso intensivo da tecnologia - Coordenação e controle (através do rádio) - Acessibilidade (através do telefone e das centrais de atendimento e despacho) Fonte: adaptado de Walker (1977 apud BATITUCCI, 2011, p. 71). No modelo de polícia profissional tradicional desenvolvido no Brasil, o modelo burocrático-militar tem uma força dupla na definição das técnicas, procedimentos e conhecimentos desenvolvido nas polícias militares, devido a sua histórica ligação com o Exército. Segundo Muniz (2001), as Polícias Militares brasileiras só foram desenvolvidas como agência policial ostensiva, nas últimas duas décadas do século XX, até mesmo porque questões relativas à segurança pública e à polícia só passaram a receber um tratamento apropriado a partir da promulgação da Constituição de 1988 e ainda assim as forças policiais não seguiram o mesmo caminho democrático do país. De acordo com a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 144, parágrafos 5º e 6º, à Polícia Militar compete à preservação da ordem pública, mediante ações ostensivas, se caracterizando como forças auxiliares e de reserva do Exército, e subordinando-se aos Governadores dos Estados, do Distrito Federal e dos Territórios. Assim sendo, a Polícia Militar no Ceará tem definidos seus princípios e missão, bem como sua organização e funcionamento nos artigos 187 e 188 da Constituição do Estado do Ceará, promulgada em 1989: Art. 187. A Polícia Militar do Ceará é instituição permanente, orientada com base nos princípios da legalidade, hierarquia e disciplina, constituindo-se força auxiliar e reserva do Exército, subordinada ao Governador do Estado, tendo por missão fundamental exercer a polícia ostensiva, preservar a ordem pública e garantir os poderes constituídos no regular desempenho de suas competências, cumprindo as requisições emanadas de qualquer destes. Art. 188. Incumbe à Polícia Militar a atividade da preservação da ordem pública em todas as suas modalidades e proteção individual, com desempenhos ostensivos para inibir os atos atentatórios a pessoas e bens. 49 Em ambas as Cartas Constitucionais é possível perceber que a polícia militar se caracteriza como a organização responsável por manter a ordem pública, inserida na Administração Pública do Estado como um órgão subordinado ao Governo Estadual e vinculado, operacionalmente, à Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social, sob o comando do secretário de Segurança Pública e Defesa Social, mas também como uma instituição que se faz força auxiliar e reserva do Exército Brasileiro. Tal característica se faz presente desde os primeiros embriões da Polícia Militar no Estado Brasileiro. Segundo Muniz (2001), as policiais militares surgiram em 1809 como organizações paramilitares, subordinadas aos Ministérios da Guerra e da Justiça portugueses20. E, mesmo separadas do Exército, durante o período ao qual Dom Pedro II governou o Brasil, as polícias militares ficaram, cada vez mais, afastadas de suas atividades civis de policiamento, em virtude da maior aproximação com o Exército. Assim, “as PMs foram se transformando, paulatinamente, em forças aquarteladas „especiais‟ ou „extraordinárias‟ que atuavam menos nos serviços de proteção da sociedade e mais nas questões de defesa do Estado” (MUNIZ, 2001, p. 182). Desse modo, as policiais militares brasileiras adotaram mais do que apenas o modelo militar de organização profissional, mas também seus conhecimentos, técnicas, hábitos, valores e ritos, num processo ao qual Albuquerque e Paes-Machado (2001, p. 18) denominaram como “atravessamento”, ou seja, o núcleo de uma instituição perpassa a essência da outra, modificando seus traços genéticos e as definições dos seus membros. É quando a corporação policial, atravessada, assim, pela lógica militar, toma o Exército como referencial para a construção da identidade profissional dos seus membros. Com isso, temos uma estrutura burocrática idêntica ao modelo militar administrativo, em que os grupos profissionais estão divididos de maneira hierárquica. (Quadro 03). Trata-se a hierarquia de uma segmentação escalona, a qual “determina as possibilidades e limitações de cada indivíduo de acordo com sua patente”. Dentro dessa escala ainda há uma segunda divisão que demarca os “círculos hierárquicos”, ou seja, uma separação no âmbito da convivência entre militares de uma mesma categoria. 20 De acordo com Azkoul (apud JESUS, 2004, p. 100), o primeiro corpo de Polícia Militar que se tem notícia no Brasil surgiu em 1809, quando Dom João VI instituiu, um ano após seu desembarque no Brasil, a Divisão Militar da Guarda Real de Polícia da Corte, no Rio de Janeiro, a qual, corresponde, nos dias atuais, a Polícia Militar do Rio de Janeiro (PMRJ). 50 (LEINER,1997, p. 73). É o que Foucault (2010, p. 138) chama de “quadriculamento”: “Cada indivíduo no seu lugar; e em cada lugar um indivíduo”. Quadro 3 – Postos e Graduações na Polícia Militar do Ceará (PMCE) CÍRCULOS HIERÁRQUICOS E ESCALA HIERÁRQUICA CÍRCULO Superiores OFICIAIS Intermediário Subalterno ESCALA HIERÁRQUICA FUNÇÂO POSTOS Coronel Tenente-Coronel Major Capitão Primeiro-Tenente O oficial é preparado, ao longo da carreira, para o exercício do comando, da chefia e da direção das Organizações Militares Estaduais; GRADUAÇÕES Subtenente PRAÇAS Superiores Primeiro Sargento PRAÇAS ESPECIAIS Subalternos Cabo Soldado Círculo de Oficiais Subalternos Círculo de Cabos e Soldados Aspirante a Oficial e Cadete do Curso de Formação de Oficial (CFO) Aluno-Soldado do Curso de Formação de Soldado Os subtenentes e primeiros sargentos auxiliam e complementam as atividades dos oficiais na capacitação do pessoal e no emprego dos meios, na instrução, na administração e no comando de frações da tropa, mesmo agindo isoladamente nas diversas atividades inerentes a cada Corporação. Os cabos e soldados são, essencialmente, os responsáveis pela execução. Às Praças Especiais, cabe a rigorosa observância das prescrições dos regulamentos que lhes são pertinentes, exigindo-se lhes inteira dedicação ao estudo e ao aprendizado técnicoprofissional. Fonte: Artigos 30, 43, 44, 45 e 46 da Lei nº 13.729, de 11 de janeiro de 2006 – Estatuto dos Militares Estaduais do Ceará. De acordo com Kant de Lima (2007), a adoção da hierarquia militar como organização interna das Polícias Militares representa para esta um verdadeiro obstáculo para o exercício de suas funções na sociedade. Isso porque além de segmentar a corporação em dois grupos - “superiores” e “inferiores”-, ainda dificulta o desenvolvimento da autonomia desses profissionais na sua prática cotidiana, já que sempre devem obediência a algum “superior”. O autor também chama atenção para o fato de que as 51 avaliações sobre a eficácia da conduta policial na mediação dos conflitos, não pode ser medida pelo grau de obediência do policial as ordens superiores, mas sim pela sua criatividade na condução de negociações bem sucedidas . Além dessa estrutura burocrática, é possível perceber a adoção de valores do Exército nas Polícias Militares, os quais passam a guiar as normas de conduta dentro e fora da corporação. De acordo com a Lei nº 13.407, de 21 de novembro de 2003, denominada de Código Disciplinar dos Militares Estaduais e do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Ceará (CDPM/BM), em seu artigo 7º, os valores fundamentais, determinante da moral militar estadual são: patriotismo, civismo, hierarquia, disciplina, profissionalismo, lealdade, constância, verdade real, dignidade humana, honestidade e coragem. Alguns desses valores também estão presentes no Vade-Mecum de Cerimonial Militar do Exército (2002), como patriotismo, civismo, hierarquia, lealdade, disciplina e coragem. Embora as Polícias Militares e Exército sejam, profissionalmente, de naturezas distintas, a formação de policiais militares, nesse modelo de organização policial, se assemelha a formação de recrutas e cadetes do Exército. Uma formação centrada na ideia da “instrução” e do “treinamento”, em que os procedimentos são padronizados, na base de repetições mecânicas e reprodutores de uma ideologia marcadamente repressiva e punitiva. . Tal como um preparo para a guerra, soldados e aspirantes recebem instrução e treinamentos físicos próprios para combates em caso de conflitos armados. Rastejos em lamaçais, acampamentos, estratégias de guerra, exercícios em campos abertos e fechados, passagens em rios e uso de cordas, o cavamento de trincheiras, saltos de carros de combate, sem falar das instruções de moral e cívica, requisitos primordiais de fomento de amor à pátria, à ordem e ao progresso da nação (CASTRO, 2009, p. 173). (...) aí tinham algumas partes das aulas a gente ia correndo, pegava impulso e tinha uma cerca bem grande. Com o impulso que a gente vinha tinha que pular a cerca e cair para o outro lado, só que [cair] bem. Cair em pé e já correr. Aí eu vinha correndo e quando eu estava lá perto, a calça prendia e ficavam: - Menina mole. E me pegavam e jogavam de lado. (...) Eu me sentia mal, porque assim, como tinha muito homem, geralmente o homem tem um preparo físico bem melhor que a mulher. E eles [os instrutores] ficavam: - Ave Maria, tu é muito mole. (depoimento concedido pela Policial 07, 3 anos na profissão, CFP de 2009). Neste capítulo abordaremos um pouco da história da formação de soldados na Polícia Militar do Ceará. Para tanto dividimos o capítulo em dois momentos: o primeiro foi um momento de regulamentação do ensino na Polícia Militar do Ceará, período em que surgem os primeiros regulamentos para orientar as formações dos quadros de oficiais e praças da Corporação; o segundo momento foi um período de maturação do ensino, em que 52 são desenvolvidas leis gerais para regular o ensino e o magistério na Polícia Militar do Ceará. 2.1. A Formação de Soldados no Período de Regulamentação do Ensino na Polícia Militar do Ceará No Ceará, o primeiro centro educacional destinado à formação de policiais militares surgiu em 1929, através do Decreto nº 1.251, quando o então comandante da PMCE, na época denominada Força Pública do Estado21, o coronel do Exército Edgard Facó, fundou a “Escola Profissional da Força Pública”. A Escola funcionou por pouco mais de um ano, pois em 1931, o interventor federal no Ceará, Manuel Domingos do Nascimento Fernandes Távora, fechou a Escola alegando razões de ordem revolucionária. Sua abertura só foi dada quatro anos depois, quando o Governador do Estado, Francisco de Menezes Pimentel, restaurou seu funcionamento, por meio do Decreto nº 35, de 15 de junho de 1935, passando a funcionar com outra denominação: “Escola Policial Militar da Força Pública” (HOLANDA, 1987). Os Decretos que regulamentaram o funcionamento da Escola até 1940 não deixavam evidenciados como se dava o recrutamento e a formação para os quadros de praças da Corporação. Sabe-se apenas que o ensino nessa época se dava através de dois cursos para a formação de oficiais. Em 1937 havia um Curso para Formação de Oficiais (CFO) com duração de dois anos e um Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais (CAO) com a duração de um ano22. Em 1938, o CFO passou a ser ministrado em três anos23. Em 1940, houve uma modificação nos cursos, os quais passaram a ser denominados por: Curso de Oficiais Combatentes e Curso de Oficiais Administrativos, ambos com a duração de três anos24. 21 A Polícia Militar do Ceará (PMCE) recebeu essa denominação em 1947, antes disso foi chamada por: Força Policial (de 24 de maio de 1835 a 31 de dezembro de 1889); Corpo de Segurança Pública (de 31 de dezembro de 1889 a 1º de março de 1892); Batalhão de Segurança do Ceará (de 1º de março de 1892 a 12 de março de 1899); Batalhão de Segurança (de 12 de março de 1899 a 12 de março de 1913); Batalhão Militar (de 12 de março de 1913 a 28 de dezembro de 1914); Regimento Militar do Estado (de 28 de dezembro de 1914 a 05 de novembro de 1921); Força Pública Militar do Ceará (de 05 de novembro de 1921 a 28 de outubro de 1924); Regimento Policial do Ceará (de 28 de outubro de 1924 a 04 de novembro de 1929); Força Pública do Estado (de 04 de novembro de 1929 a 15 de abril de 1932); Corpo de Segurança Pública (de 15 de abril de 1932 a 28 de dezembro de 1934); Força Pública do Ceará (de 28 de dezembro de 1934 a 24 de dezembro de 1937); Polícia Militar do Ceará (de 24 de dezembro de 1937 a 16 de dezembro de 1939); Força Policial do Ceará (16 de dezembro de 1939 a 04 de janeiro de 1947) (HOLANDA, 1987, p. 105 e 106). 22 Decreto nº 285, de 10 de Setembro de 1937. 23 Decreto nº 218, de 30 de Abril de 1938. 24 Decreto nº 62, de 01 de Abril de 1940 (altera o Decreto nº 218, de 30 de Abril de 1938). 53 O início do ensino regular e planificado só aconteceu em 1940, quando, por meio do Decreto nº 140, foi aprovado um novo regulamento para a Escola que passou se chamar “Escola de Formação de Quadros”. Somente a partir deste novo regulamento é possível visualizar um conjunto mais diversificado de cursos de formação oferecidos pela Escola. Os Cursos eram os seguintes: a) Para Oficiais: Curso de Revisão (CR); Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais (CAO); Curso de Aspirantes (CA) e Curso de Formação de Oficiais (CFO). b) Para Praças: Curso de Aperfeiçoamento de Sargentos (CAS); Curso de Formação de Sargentos (CFS); Curso de Formação de Cabos (CFC) e Curso de Especialistas (CE). Todos os Cursos seguiam um desenho curricular básico, composto por disciplinas que se dividiam em duas unidades: Instrução Militar e Instrução Policial. No caso da formação de soldados para a Corporação, esta se dava através do Curso de Especialistas (CE), o qual tinha uma duração de quatro meses. Esse curso não estava voltado somente para a formação de soldados, mas para o que eles denominavam como “artífices”, ou seja, soldados, cabos e sargentos, por isso na descrição do currículo não fica evidenciado quais disciplinas comporiam as unidades de Instrução Militar e Instrução Policial, mas apenas que cada uma delas seria ministrada “de acordo com a graduação a que se propõe” 25 o candidato. Além dessas unidades, no Curso de Especialistas ainda é possível notar uma unidade a mais, de teor “fundamental”, composta pelas seguintes matérias: Português, Aritmética e Especialidade ou Profissão. Percebe-se, o desenvolvimento de um currículo que enfatiza uma formação técnica e pragmática, necessária para a formação de um policial dentro de um modelo de polícia profissional burocrático-militar. Até mesmo a unidade com teor mais “humanista” ainda possuía uma disciplina destinada a formação na especialidade escolhida, a qual já poderia ser repassada através das unidades destinadas ao ensino militar e policial. Além disso, a escolha pelas disciplinas de Aritmética e Português demonstra ainda haver na formação policial dessa época resquícios de um “currículo clássico humanista”, herdeiro das 25 Artigo 8º do Decreto 140, de 31 de janeiro de 1941. 54 chamadas “artes liberais” e que se estabeleceu na Idade Média e Renascimento com a presença de disciplinas que compunham os famosos trivium (gramática, retórica, dialética) e quadrivium (astronomia, geometria, musica e aritmética) (SILVA, 2005). A essa época, mesmo com a fundação da Escola, ainda não havia um quartel destinado a servir como Centro de Instrução. Os cursos eram ministrados ora na dependência do Quartel General, ora no Quartel do Esquadrão de Cavalaria, no bairro do Antônio Bezerra. Tal realidade permaneceria até o ano de 1946 quando o Quartel do Antônio Bezerra passou, definitivamente, a abrigar a Unidade de Ensino da Polícia Militar. Desse modo, foram criadas companhias específicas para a formação de praças, como a “Companhia de Quadros” para Cabos e Soldados e a “Companhia de Alunos” para Sargentos. Nesse mesmo ano, a Escola passa a ser chamada de “Grupamento Escola” e em 1953, “Grupamento Escola General Edgard Facó” (HOLANDA, 1987). De um modo geral, percebe-se nesse período de regulamentação do ensino na Polícia Militar o repasse de um conhecimento mais literário e técnico-profissional aos oficiais da Corporação, enquanto que nas praças, o ensino prático prevalecia. Isso reflete a própria filosofia de ensino da Corporação, repassada no artigo 7º do Decreto 140, o qual privilegiava um ensino “eminentemente prático, fugindo de toda orientação puramente oral. Mesmos os assuntos que exijam teoria, devem ser materializados e exemplificados”. 2.2. A Formação de Soldados no Período de Maturação do Ensino na Polícia Militar do Ceará No final da década de 1950 é aprovada uma importante lei para o ensino na Polícia Militar: a Lei nº 4.452, de 03 de janeiro de 1959. Mais conhecida como a “Lei do Magistério”, esta Lei definiu o “Grupamento Escola General Edgard Facó” como a unidade de ensino responsável por “preparar e instruir o pessoal da referida Corporação para o exercício das funções policiais em todos os graus da hierarquia e nas situações normais e anormais, inclusive na eventualidade de uma guerra” (art. 2º). Desse modo, o “Grupamento Escola General Edgard Facó” era a instituição responsável pela formação tanto de oficiais quanto de praças da PMCE, instruindo-os tanto para serviços civis, quanto militares (em caso de guerra). Com isso, percebe-se o que Muniz (2001), já havia evidenciado: essa “militarização” da polícia militar que acaba por perpassar 55 o seu imaginário, as suas missões, a sua estrutura organizacional é decorrente da dupla atribuição que lhe é dada: a de ser “Polícia” e a de ser “Força Militar”. Anteriormente a Lei nº 4.452, o quadro do magistério da Polícia Militar era composto por professores e instrutores. Os primeiros eram nomeados pelo Governador do Estado para cada ano letivo, mediante indicação do diretor da Escola; e os segundos eram escolhidos entre os oficiais que haviam terminado o Curso de Aperfeiçoamento com grau superior a oito26. No entanto, com a Lei do Magistério, o provimento das vagas tanto para professores quanto para instrutores passa a ser feito mediante concurso público. O quadro de professores poderia ser composto por professores efetivos, comissionados, contratados e conferencistas. Todos responsáveis por ministrar disciplinas de “Educação Fundamental27”. Já o quadro de instrutores poderia ser composto por oficiais da Polícia Militar com Curso de Aperfeiçoamento ou oficiais do Exército, os quais ministrariam disciplinas ligadas a “Educação Militar28”. A Lei do Magistério acabou exigindo que o ensino na PMCE passasse por uma reorganização, o que resultou na aprovação de um novo regulamento, através do Decreto nº 3.651, de 18 de março de 1959. Com esse Decreto, o “Grupamento Escola” recebe o nome de seu fundador, passando a chamar-se “Grupamento Escola General Edgard Facó”. Através do novo regulamento os cursos passam por uma revisão em seu currículo e em suas cargas horárias. O ensino para todos os cursos seguem um novo desenho curricular dividido em três unidades: Ensino Fundamental, Ensino Policial e Ensino Militar. Nesse regulamento vemos pela primeira vez um curso de formação destinado especificamente para os soldados da Corporação, o qual recebeu o nome de “Curso de Formação de Soldados de Fileiras (CFSdF). 26 Decreto nº 285, de 10 de Setembro de 1937. 27 Disciplinas de Educação Fundamental: Português; Inglês; Matemática; Geografia Geral e do Brasil; História Geral e do Brasil; Física; Química; Noção de Direito; Noção de Sociologia; Noção de Psicologia; Administração Geral e Medicina Legal (Anexo I da Lei nº 4452, de 03 de janeiro de 1959). 28 Disciplinas de Educação Militar: Educação Física; Ordem Unida; Instrução Equestre; Armamento e Tiro; Combate e Serviço em Campanha; Higiene e Socorros de Urgência; Ataque e Defesa; Topografia; Comunicações, Observações e Transmissões. (Anexo II da Lei nº 4452, de 03 de janeiro de 1959). 56 Os soldados eram recrutados por alistamento voluntário, com idade entre 18 e 28 anos, solteiro ou viúvo sem filhos e eram submetidos a um exame de seleção composto por três fases: exame médico, físico e intelectual. O exame intelectual correspondia a um ditado de 15 a 20 linhas e um teste de aritmética. Após a aprovação, os soldados faziam o CFSdF, o qual era ministrado em um regime de dezoito semanas de trabalho, pouco mais de 4 meses, com uma grade curricular composta por três unidades: ensino fundamental, ensino policial e ensino militar. Quadro 4 – Disciplinas ministradas no Curso de Formação de Soldados de Fileiras (1959 a 1986) Ensino Fundamental Ensino Policial Português (alfabetização) Aritmética Instrução Policial Ensino Militar Educação Física Ordem Unida Armamento e Tiro Instrução Tática Individual Instrução Equestre Higiene e Socorros Médicos de Urgência Instrução geral e Educação Moral Fonte: Decreto nº 3651, de 18 de Março de 1959. Apesar de não haver especificação quanto à carga horária das disciplinas, percebe-se que, ainda, é dada ênfase as disciplinas de caráter militar. Em 1971, o Grupamento passa a se chamar “Academia de Polícia General Edgard Facó” (Decreto-Lei nº 9692) e em 1977 recebe sua denominação final: “Academia de Polícia Militar General Edgard Facó” (APM). Segundo Veras (2008), nesse mesmo ano, a APM transfere-se para uma nova sede localizada no Bairro Edson Queiroz e sua antiga sede passa a abrigar o Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (CFAP) por mais de duas décadas, pois em 1998, o CFAP transfere-se para o município de Maracanaú, Região Metropolitana de Fortaleza (RMF) e sua sede passa a se destinar ao Colégio da Polícia Militar do Ceará29. Em 1984 há a unificação da legislação de ensino e magistério da PMCE com a aprovação da Lei nº 10.945 ou Lei de Ensino da Polícia Militar do Ceará. Através desta Lei, o desenho básico curricular passa a ser composto por apenas duas unidades: “Área 29 Tanto a Academia de Polícia Militar (APM) quanto o Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (CFAP) são desativados em 2008 devido a proposta de criação de uma academia unificada para a formação das forças de segurança, a Academia Estadual de Segurança Pública (AESP). 57 Fundamental”, com disciplinas de cunho básico e humanístico e “Área Profissional”, com disciplinas de natureza instrumental e policial militar. Os cursos ministrados são divididos em dois níveis, nível superior e nível médio, sendo este último dividido em cursos de 1º e 2º graus: a) Nível Superior (3º Grau) e Pós-Graduação: Curso Superior de Polícia (CSP); Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais (CAO); e Curso de Formação de Oficiais (CFO). Todos centralizados na Academia de Polícia Militar. b) Nível Médio (2º Grau): Curso de Aperfeiçoamento de Sargentos (CAS); Curso de Formação de Sargentos Combatentes; e Curso de Formação de Sargentos Especialistas. Todos sendo ministrados no Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (CFAP). c) Nível Médio (1º Grau): Curso de Formação de Soldados de Fileiras (CFSdF). De acordo com a Lei, parágrafo único do artigo 8º, este Curso não precisaria ser ministrado no CFAP, mas sim nos Batalhões Operacionais. Após o período ditatorial, a Lei de Ensino passa por modificações para se adequar ao regime democrático do País. A primeira delas é feita através do Decreto nº 17. 710, de 06 de janeiro de 1986. Com esse Decreto há o remanejamento e o acréscimo de disciplinas ao currículo do Curso de Formação de Soldados de Fileiras (ver Anexo D). Algumas disciplinas que antes pertenciam a unidade “Ensino Militar”, no currículo antigo, no novo passam a pertencer a unidade “Ensino Fundamental”, tais como: Educação Moral e Cívica e Higiene e Socorro de Urgência. As disciplinas de “Aritmética” e “Português” continuam na grade curricular, sendo que esta última recebe a denominação de “Língua e Comunicação”. Vemos também o início da tentativa de modificação no trato do policial com a população, através do acréscimo da disciplina “Relações Públicas e Humanas”, algo necessário para se apagar a imagem do policial truculento do período ditatorial. As unidades “Ensino Policial”, na qual era ministrada a disciplina “Técnica Policial (legislação e regulamentos)”, e “Ensino Militar” passam a compor a unidade “Ensino Profissional”. Nesta, a disciplina “Instrução Equestre” é retirada do currículo e novas disciplinas são acrescidas, como: “Informações”, “Comunicações”, “Defesa Pessoal” e “Operações de Defesa Interna e Territorial”. 58 Desse modo, a carga horária geral do Curso de Formação era de 709h/a, sendo 126h/a destinadas ao “Ensino Fundamental” e mais da metade do curso destinado ao “Ensino Profissional”, com uma carga horária de 583 h/a. A disciplina com maior carga horária era a de “Técnica Policial”, com 200 h/a, ou seja, a disciplina responsável por repassar a legislação e os regulamentos necessários para que o corpo heterogêneo de aspirantes tornasse uma grande massa homogênea. A segunda mudança foi dada pelo Decreto nº 21. 392, de 31 de maio de 1991. Com esse Decreto passa a haver três unidades e não mais duas: Ensino Fundamental, Ensino Profissional (dividido em Instrução Policial e Instrução Militar) e Atividades Complementares (ver Anexo E). A grande mudança trazida por esse decreto está no “Ensino Fundamental” e nas “Atividades Complementares”. No “Ensino Fundamental” são acrescidas disciplinas voltadas ao Direito, como “Direito Constitucional”, “Direito Penal Comum e Penal Militar”, “Direito do Menor e da Mulher” e “Direitos Humanos”. Além dessas disciplinas, continuam compondo o “Ensino Fundamental” as disciplinas de “Educação Moral e Cívica” e “Higiene e Socorros de Urgência”. A disciplina de Relações Humanas passa a compor o quadro do “Ensino Profissional”; já “Aritmética” e “Língua e Expressão” são retiradas na grade curricular. Nas “Atividades Complementares” há o surgimento da disciplina “Estágio Prático de Adaptação Profissional” e a sugestão da realização de atividades extraclasse, como visitas a instituições da PMCE e participação em palestras. Ainda assim, a carga horária para a unidade de “Ensino Profissional” supera a das demais unidades. A carga horária geral do Curso de Formação era de 800h/a, dessas 575h/a estavam destinadas ao “Ensino Profissional”, enquanto que para o “Ensino Fundamental” e “Atividades Complementares” foram destinadas, respectivamente, 150h/a e 75h/a. Com isso, podemos concluir que a formação de soldados para a Polícia Militar continuava a basear-se em um ensino militarista e prático, que “abafava” todas as “possíveis mudanças” incluídas no currículo para a adaptação da polícia militar ao novo regime político do País. Se é que podemos considerar como “mudanças” educacionais para um regime democrático a inclusão da disciplina “Operações de Defesa Interna e Territorial” (Odit), em 1986, quando da primeira mudança realizada na Lei de Ensino para se adaptar a nova 59 condição política do país, já que esta trata, exclusivamente, do treinamento do soldado para combater guerrilheiros. Segundo o coronel Paulo Roberto Mendes, ex-comandante da Brigada Militar do Estado do Rio Grande do Sul e professor da disciplina para soldados na década de 1970, a Odit ensinava aos soldados, sargentos e oficiais basicamente táticas de combate antiguerrilhas, como montar barraca no campo, rastejar, abrir caminho na mata e utilizar fuzil30. Assim, como esses homens continuavam a ser regidos “pelas mesmas leis do Exército no que se refere à instrução recebida, à disciplina e às atividades desenvolvidas” (MOTA BRASIL, 2000, p. 56, grifos do autor), já era de se esperar que a disciplina de Técnica Polícia Militar, a qual repassava os regulamentos e legislações referentes à polícia militar, continuasse a reproduzir e a formar as “novas mentalidades” das PMs através da velha doutrina da segurança nacional, como pode ser demonstrado através do depoimento a seguir: (...) eu entrei na Academia em oitenta e nove e sai da Academia em noventa em um e minha formação, meu currículo foi o mesmo que do meu pai, quando (...) entrou na Academia em setenta quatro/ setenta e seis. Foi o mesmo currículo. Quer dizer: eram duas realidades diferentes e eu entrei justamente nesse período de transição e tive toda essa mesma formação, onde prevalecia o modelo militar e a prestação de serviço, que é a atividade-fim na polícia, que é manter a ordem pública. Aliás, manter a paz social não se encaixava nesse modelo de currículo, então era um currículo que continuava a apresentar o cidadão como um inimigo interno, que é a figura que foi apresentada na época da Ditadura. E o policial, principal o policial que estava ao meu lado, o soldado, ele era uma pessoa que eu deveria ter muito cuidado. Ele era uma pessoa que poderia me levar a cometer transgressões ou erros ou crimes. Então, eu me via numa situação complicada, porque eu saia a rua para defender a sociedade, onde a sociedade que eu ia defender era o inimigo interno e o meu companheiro, que era um policial que estava ao meu lado, era um camarada que poderia estar me levando a situações difíceis (...)(depoimento concedido pelo Major PM Plauto Roberto a entrevista individual para as pesquisas CNPq e FUNCAP). Nesse sentido, já era de se esperar que a formação policial continuasse a seguir os mesmos moldes curriculares do período ditatorial. Afinal de contas, o que modelava o policial a agir de maneira violenta e truculenta não eram as disciplinas repassadas no “Ensino Fundamental” (Português e Aritmética), as quais sofreram as maiores modificações, mas sim as disciplinas destinadas aos Ensinos Militar e Policial, que em pouco ou nada foram modificadas. 30 Ex-militares se uniram para aterrorizar cidades. <http://www.fab.mil.br/portal/capa/index.php?datan=18/01/2009&page=mostra_notimpol>. 21/02/2013. Disponível Acesso em: em: 60 Essa realidade começa a mudar no final da década de 1990, quando por meio do Projeto Treinamento para Profissionais da Área de Segurança Pública do Programa de Modernização do Poder Executivo Federal31 é realizada uma análise interna e externa das organizações policiais, a qual apontou a necessidade de mudanças na formação através da redefinição do perfil desejado para orientar a formação do profissional, a elaboração de novos currículos para os cursos de formação, os quais abrangessem técnicas mais eficazes de repressão e prevenção, policiamento voltado para a relação polícia-comunidade, exercício de valores morais e éticos e o fortalecimento dos Direitos Humanos, além de uma estrutura de ensino que enfatizasse o uso de novas tecnologias e a dimensão atitudinal do conhecimento, o que demonstra, desde já, a preocupação por uma “mudança de mentalidade” dentro das instituições policiais. A partir de tais estudos, o novo século nasce com o desenvolvimento de importantes instrumentos voltados para a formação dos agentes de segurança pública e aos quais se denomina, neste trabalho, como a “nova educação” das Forças Policiais. 3. ADEQUAÇÕES DO ENSINO À POLÍTICA NACIONAL DE SEGURANÇA PÚBLICA: POR UMA “NOVA EDUCAÇÃO” PROFISSIONAL Segundo Muniz (2001), a não democratização das forças policiais pós-ditadura militar no Brasil contribuiu, significativamente, para que as PM‟s sentissem, até os dias de hoje um verdadeiro descompasso entre as suas missões na atualidade e a capacidade de poder responder a elas de modo efetivo, devido a um processo formativo com resquícios de um passado de regime autoritário, o qual modela sua atuação de forma repressiva e reativa. Com isso, a autora afirma que as polícias militares vêm tentando aprender de novo a fazer polícia, se é que se pode dizer “de novo” ou “fazer polícia”, já que a história nos apresentou que as polícias militares brasileiras não conseguiram, de fato, exercitar a real função que lhes é devida. Nessa tentativa de retomar a sua identidade ou de construir uma 31 O Programa de Modernização do Executivo Federal ocorreu no período de 1998 a 2005, com a participação do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e com o co-financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O Programa tinha como objetivo “melhorar o desempenho da Administração Pública Federal, e proporcionar uma maior economicidade na execução das políticas governamentais”. Para tanto, estava dividido em quatro subprogramas e seus respectivos componentes. (Disponível em: < http://www.planejamento.gov.br/secretaria.asp?cat=196&sec=17>. Acesso em: 03/07/2012). O Projeto Treinamento para Profissionais da Área de Segurança Pública fazia parte do Componente Formação de Quadros para Segurança Pública do Subprograma Gestão e Desenvolvimento de Recursos Humanos (BRASIL, 2000b). 61 identidade própria, a polícia vem tentando se (re)constituir como uma “nova polícia”, a partir da construção de um “modelo de polícia profissional novo” (PONCIONI, 2005, 2007). Esse novo modelo profissional de polícia toma como pressupostos básicos a ênfase no “serviço público, a discrição do policial informada por alto nível de educação e treinamento e a ligação mais estreita entre a polícia e a comunidade”. (PONCIONI, 2007, p. 592). No campo da educação e do treinamento, as mudanças foram sendo anunciadas por meios legais através de planos e projetos governamentais, como o Programa Nacional de Direitos Humanos, 1996, 2002 e 2009; o Plano Nacional Segurança Pública, 2000; o Projeto Segurança Pública para o Brasil, 2003; e o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (PRONASCI), 2007. A partir de um diagnóstico realizado em 1998 e 1999, sobre as organizações policiais, nasce o documento “Bases Curriculares para a Formação dos Profissionais de Segurança do Cidadão”. A partir deste momento, as Bases Curriculares passam a servir como um mecanismo pedagógico para nortear as instituições responsáveis pela formação do quadro de operadores da segurança pública nos Estados, assim como “uma ferramenta de trabalho que auxilie a homogeneização dos cursos de formação e o planejamento curricular” (BRASIL, 2000b, p. 6). Com o desenvolvimento das Bases Curriculares é como se desse início a construção de um “plano nacional de educação” voltado para os agentes de segurança pública, pois há a definição de um perfil desejado, a construção de princípios pedagógicos e dimensões do conhecimento e o desenho de um currículo básico. O “perfil desejado” pelas Bases Curriculares nada mais é do que a descrição de um conjunto de competências básicas (conhecimentos, habilidades e atitudes) nos níveis institucional, profissional e pessoal exigidas ao profissional de segurança pública ao final do processo educacional, ou seja, na sua atuação frente às demandas sociais. Assim, as Bases Curriculares (BRASIL, 2000b, p. 13 e 14) definem que esse profissional - tenha sólidos conhecimentos capazes de compreender a diversidade de cenários e agir concernente com as normas legais nacionais e internacionais, notadamente as que referem-se aos Direitos Humanos; - conheça e utilize técnicas que auxiliem os seus procedimentos, tomada de decisão e resoluções de conflito; 62 - esteja consciente de seu papel de cidadão responsável pela segurança, orientação e proteção dos outros cidadãos; - saiba trabalhar em equipe; - consiga relacionar-se com outros segmentos da segurança pública para ações articuladas e trabalho integrado; - seja receptivo e capaz de utilizar novas tecnologias; - busque e gere continuamente novas informações; - cultive hábitos de vida sadia; - mantenha contato mais direto com a comunidade; - trate a todos de acordo com os preceitos morais e éticos. A partir dessa mudança no perfil profissional exigiu-se uma mudança na abordagem pedagógica sobre a qual estaria centrada a formação profissional. As Bases Curriculares adotaram como princípio pedagógico “a construção ativa do conhecimento”, a qual privilegia a interação do profissional em formação nos mais variados momentos de seu aprendizado. Além disso, as Bases Curriculares definem três dimensões do conhecimento, as quais todas as disciplinas devem perpassa-las: dimensão conceitual (saber), dimensão procedimental (saber fazer) e dimensão atitudinal (querer fazer). Com as Bases Curriculares (2000b), os cursos de formação também passam a seguir um desenho básico curricular. Este currículo era composto por 29 disciplinas (Anexo F) distribuídas em seis áreas temáticas (Missão Policial, Técnica Policial, Cultura Jurídica, Saúde do Policial, Eficácia Pessoal e Linguagem e Informação). Estas disciplinas compunham um núcleo comum a todas as formações, denominado por “Base Comum”. Além desse núcleo comum, as Bases Curriculares estabeleciam que cada centro de ensino estava apto a reunir um conjunto de disciplinas que atendessem “as características específicas de cada curso de formação e as peculiaridades regionais” (ibidem, p. 19) para compor o que ela denominou por “Parte Diversificada” do currículo nacional. Uma questão interessante, em relação ao currículo da “Base Comum”, diz respeito ao grande número de disciplinas de teor jurídico que se propõem. Para Muniz (2001, p. 186), isso representa uma tentativa de ultrapassar as limitações da doutrina militar ou do chamado “militarismo” que se desenvolveu nas Polícias Militares devido a sua histórica relação com o Exército. Para a autora, a introdução de tantas disciplinas jurídicas conduziu as PM‟s brasileiras para uma nova armadilha, a qual ela denomina por “bacharelismo”, ou seja, “o apego acrítico à perspectiva criminal do direito”. Após três anos de elaboração das Bases Curriculares, o “Projeto Treinamento para Profissionais da Área de Segurança Pública” publica um novo documento denominado 63 Matriz Curricular Nacional (MCN), a qual toma como pressuposto o Projeto Segurança Pública para o Brasil, que concebe a formação dos profissionais da Segurança Pública como fundamental para a qualificação das polícias brasileiras. A Matriz Curricular Nacional (MCN) constitui um marco de referência para as ações formativas empreendidas por todas as polícias e passou a ser o referencial nacional para a formação em Segurança Pública, dando prosseguimento ao trabalho iniciado pelas Bases Curriculares. Além de estabelecer princípios e objetivos essenciais à formação em segurança pública, a MCN estabelece que as disciplinas que comporão uma nova Malha Curricular devem versar sobre quatro grandes temas, denominados de “Eixos Articuladores” (Sujeito e as Interações no contexto da Segurança Pública; Sociedade, Poder, Estado, Espaço Público e Segurança Pública; Ética, Cidadania, Direitos Humanos e Segurança Pública; e Diversidade, Conflitos e Segurança Pública) e estarem divididas em oito novas áreas temáticas (Sistemas, Instituições e Gestão Integrada em Segurança Pública; Violência, Crime e Controle Social; Cultura e Conhecimentos Jurídicos; Modalidades de Gestão de Conflitos e Eventos Críticos; Valorização Profissional e Saúde do Trabalhador; Comunicação, Informação e Tecnologias em Segurança Pública; Cotidiano e Prática Policial Reflexiva; Funções, Técnicas e Procedimentos em Segurança Pública). Além disso, a MCN segue como um de seus princípios básicos a lógica da integração, justamente, um dos principais compromissos que estabelecidos pelo Projeto Segurança Públicos para o Brasil, em 2003. Nesse sentido, a “integração” pode ser entendida como a necessária aproximação entre as Academias de Polícia e as Universidades ou Centros de Ensino. Isto significa que a qualificação e a formação do quadro de operadores da segurança pública passaram a ser vistas com outros olhos, um olhar voltado para a ética, cidadania e para a educação em direitos humanos que tradicionalmente as Academias de Polícia não o possuíam, por isso a busca por parcerias com as Universidades e outras instituições educacionais tornou-se um dos maiores diferenciais dessa nova educação policial. 64 Em 2005, são elaborados dois novos documentos para a implementação da MCN: Diretrizes Pedagógicas para as Atividades Formativas dos Profissionais da Área de Segurança Pública e uma nova Malha Curricular. O documento “Diretrizes Pedagógicas para as Atividades Formativas dos Profissionais da Área de Segurança Pública” trazia orientações para o planejamento, acompanhamento e avaliação das atividades formativas32, de acordo com as determinações da SENASP. As “Diretrizes Pedagógicas” definem um desenho básico para os currículos dos Cursos de Formação, os quais devem conter uma Parte Diversificada e um Núcleo Comum definido pela Malha Curricular, tal como fora apresentado pelas Bases Curriculares; apresentam como se estrutura os Planos de Ensino; e sugerem algumas metodologias de ensino, como: participação “ativa” dos discentes; prática-reflexiva; estudos de caso, simulações, resolução de problemas, projetos, vídeo-formação, grupos de vivência, prática assistida, entrevistas; utilização de tecnologias de informação e comunicação; e um ambiente de formação aberto, ou seja, para além dos muros do centro de ensino, através de contatos com a comunidade, Organizações Não-Governamentais e instituições de ensino. Entretanto, as grandes redefinições na formação dos agentes de segurança pública vieram através da nova Malha Curricular. A Malha Curricular de 2005 foi elaborada a partir das novas direções ditadas pela Matriz Curricular Nacional. Desse modo, diferentemente das Bases Curriculares, a Malha Curricular dividia as dezenove disciplinas do núcleo comum nas oito áreas temáticas definidas pela MCN (ver anexo G). O grande diferencial dessa Malha Curricular é o redirecionamento que ela dá às disciplinas que devem compor o “Núcleo Comum” dos cursos de formação, com o acréscimo de conteúdos voltados à gestão pública, análise de cenários e riscos, preservação de provas; além da supressão das disciplinas voltadas ao direito. Tanto a MCM, quanto as Diretrizes Pedagógicas desenvolvidas pela SENASP e a Malha Curricular se convergem em um ponto: a necessidade de aproximação, de parcerias, entre as Academias de Polícia e os institutos de pesquisas, instituições de ensino, Organizações Não-Governamentais (ONGs) e Universidades não somente durante os cursos de formação, mas também em cursos de especialização, num claro intuito de propiciar aos agentes de segurança pública uma formação continuada. 32 Através do documento “Diretrizes para as atividades formativas para os profissionais da área de segurança pública no âmbito do Sistema Único de Segurança Pública” são definidos três tipos de atividades formativas, a saber: ingresso, aperfeiçoamento e atualização/capacitação. Essas atividades podem ser realizadas através de cursos, palestras, estágios, trabalhos de campo ou qualquer outra atividade realizada com fins educacionais (BRASIL, 2006). 65 O ano de 2008 não trouxe apenas mudanças para a formação continuada dos agentes de segurança pública. É neste ano também que eles ganham uma versão modificada e ampliada da Matriz Curricular Nacional para ações formativas dos profissionais da área de Segurança Pública, que traz também as Diretrizes Pedagógicas e a Malha Curricular com alterações nas cargas horárias das disciplinas e o acréscimo de duas novas disciplinas: Prevenção, Mediação e Resolução de Conflitos e Mobilização Comunitária (anexo H). Todos esses mecanismos pedagógicos são criados com o intuito de proporcionar uma formação que alie conteúdos técnico-operativos específicos a cada profissional de segurança pública às disciplinas voltadas à resolução pacífica de conflitos, à valorização profissional, à saúde do trabalhador e à ética e direitos humanos. Um avanço para o ensino nas Academias Militares, conforme o depoimento do ex-comandante do Ronda, coronel Túlio Studart, ao Grupo Focal Institucional: “[E]u, como disse aos senhores e as senhoras, estou participando de algumas turmas de formação da Polícia Militar e tenho que ser sincero com todos, que tem melhorado muito. O que era antes, o que é hoje, isso é um passo muito grande, principalmente na vertente humanista. A maneira do policial tratar as ocorrências, a maneira do policial tratar as pessoas (...) melhorou muito, relativo a dezoito anos atrás, quando eu entrei na Academia”. Para alguns estudiosos não é somente a mudança na formação policial com acréscimo de disciplinas voltadas aos direitos humanos, à ética, à cidadania e aos direitos das minorias que irá resolver o problema da segurança pública. Até mesmo porque as pesquisas já veem apresentando que mesmo tendo se criado toda uma estrutura de modificação no ensino policial, alguns elementos e visões antigas de se fazer polícia ainda permanecem (PONCIONE, 2007; ALBUQUERQUE E PAES-MACHADO, 2001). É evidente que dentro do próprio novo sistema de formação policial há resistências, como ainda há a permanência de uma cultura institucional corporativa e de tolerância a “certas práticas” que reforçam o arbítrio, o abuso e a ilegalidade dentro de uma instituição marcada pelos seus rituais hierárquicos e relações de poder instáveis. Isso pode ser observado através da fala do soldado 5, ao relatar o que os policiais formados pela “velha formação” falavam sobre a metodologia da “nova formação”: “A gente estava lá, em sala de aula, aí alguns dos policiais antigos falavam assim: „Não sei pra que essas besteiras‟. Era engraçado, porque tinha aula que a gente tinha com psicólogo, que a gente ficava fazendo aquelas gincanas, aquelas coisas 66 pra desenvolver, pra quebrar o gelo. Dinâmicas, né, que chamam? Aí os policiais chegavam assim: „É muita besteira um negócio desses. Na minha época sim que era polícia. Na minha época sim. Quando eu era polícia, davam uma arma pra cada um e na hora sai. Na hora sai‟. É muito comum esse tipo de: „Na hora sai. Não precisa dessas besteiras aí não. Isso aí é tudo enrolação‟”. Segundo Tavares dos Santos (2007, p. 114), essas transformações pelas quais as academias de polícia militar e as escolas de polícia civil passaram revelam um “processo de mudança, ainda que não-linear nem determinista, cujos resultados parecem ambivalentes”, ou seja, mesmo o Governo Federal realizando todo esse processo de mudança na formação dos agentes de segurança pública, ainda é visto e ouvido dentro das academias e escolas de formação um discurso contrário e orientado para a perspectiva da formação do Exército, tal como citado acima pelo soldado 5. 3.1. A “nova educação” no ensino da Polícia Militar do Ceará Em 2001, o Ceará adere à nova proposta de formação dos quadros de agentes da segurança pública desenvolvida pela SENASP, ou seja, as determinações contidas nas Bases Curriculares, de 2000, através de um convênio firmado entre a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), na época denominada de Secretaria de Segurança Pública e Defesa da Cidadania (SSPDC), a Polícia Militar (através do Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças) e a Universidade Estadual do Ceará, por meio do Instituto de Estudos e Pesquisas e Projetos (IEPRO) e do Centro de Educação (CED), para a formação do quadro de praças da polícia militar. Tal convênio correspondeu a um conjunto de reformas e mudanças iniciadas pelo Governo Tasso Jereissati (1995-1998), a partir do ocorrido no “Caso França33” (BARREIRA e MOTA BRASIL, 2002). Nesta parceria da SSPDC com a UECE, houve uma integração das academias, não só na discussão como na implementação dos cursos, sobretudo dos cursos de formação. Esta integração compreende a participação de instrutores das academias de polícia militar e civil no ensino de disciplinas consideradas mais operacionais, enquanto que 33 O agente João Alves da França denunciou o envolvimento de policiais civis e militares em assaltos, tráfico de drogas, contrabando de armas e extorsão. Este fato ocasionou uma das maiores crises na área da segurança pública, uma vez que envolveu o então delegado geral da Polícia Civil Francisco Quintino Farias, que tinha sido secretário de Segurança Pública do Estado (1993-1994), além de mais nove delegados, oito comissários, 13 policiais e nove PMs. Em consequência das apurações, são afastados 26 policiais e nove delegados. Francisco Quintino Farias foi denunciado por prevaricação e corrupção passiva. O Governo do Estado realizou, então, uma série de mudanças administrativo-institucionais na área da segurança pública e criou a Secretaria da Segurança Pública e Defesa da Cidadania (SSPDC) em substituição à Secretaria de Segurança Pública (Brasil apud Jornal O Povo, 2007, p.139). 67 as disciplinas de fundamentação teórica, do domínio das Ciências Sociais e Humanas ficavam a critério dos professores da Universidade. Segundo Sousa (2010), esse convênio já havia sido autorizado em 1991, quando por meio do Decreto nº 21.392 que alterava o Decreto nº 17.710/86, em seu artigo 14, concedia ao comandante-geral a celebração de convênio com qualquer das Universidades Federal, Estadual ou Privada do Estado para a realização do concurso vestibular para a seleção de candidatos ao Curso de Formação de Oficiais (CFO). De acordo com o autor, o primeiro convênio foi firmado entre a Polícia Militar do Ceará e a Universidade Estadual do Ceará (UECE), em 1994, para a seleção dos candidatos ao referido curso, o que demonstra um avanço da política de segurança pública do Estado. Barreira e Mota Brasil (2002) dividem esta parceria em três momentos. O primeiro momento corresponde às parcerias iniciais ou projetos voltados para suprir necessidades de curto prazo, como foi a realização do Curso Especial de Inteligência, em 2000; o Programa Especial de Treinamento para o G-Crises34, em 2001; e o Curso de Especialização em Gestão de Segurança Pública, no período de 2001 a 2002. O segundo momento compreende a consolidação da “fase experimental que, em razão da positividade dos resultados obtidos, acabou por fomentar uma parceria continuada a longo prazo entre a SSPDC e a UECE” (BARREIRA e MOTA BRASIL, 2002, p. 08), através da Seleção de Soldados para a Polícia Militar, em 2000; do Curso de Instrutores da Capacitação Inicial para os Soldados selecionados, também em 2000; do Curso de Formação de Soldados de Fileira da PMCE, em 2001 e do Curso de Formação de Inspetor da Polícia Civil e Auxiliar de Perícia, em 2001. De acordo com o soldado 10, durante o Curso de Formação de Soldados de Fileira da PMCE de 2001 havia toda uma expectativa em relação ao modo como seria dado esse Curso, já que foi o primeiro da parceria entre a UECE e a Polícia Militar. Contudo, para o soldado não houve uma mudança tão grande porque 34 G-Crise significa Gerenciamento de Crise que é "o processo eficaz de se identificar, obter e aplicar, de conformidade com a legislação vigente e com o emprego das técnicas especializadas, os recursos estratégicos adequados para a solução de CRISE, sejam medidas de antecipação, prevenção e/ou resolução, a fim de assegurar o completo restabelecimento da ordem pública e da normalidade da situação" (art. 4º do Decreto nº 25.389, de 23/02/1999). 68 “(...) os professores só estavam lá em determinado período, quando eles saíam, voltava tudo ao que era antes. Muitos instrutores militares tinham atitudes de um jeito quando tinha professores, que era durante o dia, e nas instruções, que era pra ser no serviço, [tinham] atitudes diferenciadas, no que segundo eles tinha respeito à estrutura de ensino militar. Era totalmente diferente. No sentido de quê? Era pra fazer com que você acostumasse seu corpo com as condições que você iria ter, a ideia é essa. Seu serviço um dia vai ser assim, você tem que se acostumar a acordar de noite, você não vai dormir... É a ideia é assim: você vai ser humilhado pela sociedade, portanto, aqui você vai se acostumando pra criar uma barreira mental pra que isso não aconteça, certo? O terceiro e último momento foi responsável pela continuidade da parceria entre a SSPDC e a UECE/IEPRO a partir de ações a longo prazo que podem ser traduzidas através da discussão e elaboração de projetos como o Campus Virtual da Segurança Pública35, a Educação Continuada para o Sistema de Segurança Pública, o Sistema Único de Informação para o Sistema de Segurança Pública e o Seminário de Avaliação do Sistema de Informação da SSPDC (ibidem). De 2001 a 2005, o currículo vigente para a formação de soldados da PMCE passa a seguir as diretrizes estabelecidas pelas Bases Curriculares e Matriz Curricular Nacional. Diferentemente do anterior, esse currículo destaca aspectos relacionados à violência, com a inserção da disciplina “Fundamentos Psicossociais do Fenômeno da Violência”; à ética profissional e o respeito à cidadania, com a disciplina “Sociedade, Ética e Cidadania”; e à segurança pública, com a disciplina “Sistema de Segurança Pública no Brasil”. Isso demonstra uma ruptura com a tendência histórica de aplicação de conteúdos de natureza militar e uma ênfase dada a disciplinas voltadas para a atividade do policial enquanto profissional da segurança pública. Quadro 5 - Cargas horárias das disciplinas ministradas no CFP de 2001/2003/2005 I – ENSINO FUNDAMENTAL Nº 01 02 03 04 05 06 07 08 09 35 DISCIPLINA Seminário Introdutório Comunicação e Expressão Sociedade, Ética e Cidadania Introdução ao Estudo do Direito Fundamentos de Direito Constitucional Fundamentos de Direito Administrativo Fundamentos de Direito Penal Fundamentos de Direito Processual Penal Fundamentos de Direito Penal Militar CARGA HORÁRIA 2001/2003/2005 20 20 30 20 20 20 20 20 - De acordo com Barreira e Mota Brasil (2002, p. 160), “o projeto do Campus Virtual da Segurança Pública é, sobretudo, uma proposta de unificar o ensino das Academias de Polícia Civil, Militar e da Escola de Aperfeiçoamento dos Bombeiros, com a coordenação acadêmica da Universidade Estadual do Ceará”. 69 10 Fundamentos de Direito Processual Penal Militar 11 Fundamentos de Direito Civil 12 Fundamentos de Direito Ambiental 13 Fundamentos de Direitos Humanos 14 Saúde e Segurança Aplicada ao Trabalho 15 Fundamentos Psicossociais da Atividade Policial 16 Fundamentos Psicossociais do Fenômeno da Violência 17 Fundamentos da Atividade Profissional da Segurança Pública 18 Educação Física Total Carga Horária 20 20 30 20 20 30 60 370 h/a II – ENSINO PROFISSIONAL Nº DISCIPLINA 01 Sistema de Segurança Pública no Brasil 02 Legislação da Polícia Militar 03 Atendimento em Emergências Médicas (Pronto Socorro) 04 Telemática – Telecomunicações e Informática 05 Instrução Geral 06 Gestão de Conflitos e Eventos Críticos 07 Técnica Policial Militar 08 Doutrina de Polícia Comunitária 09 Armamento (letal e não letal) e Equipamento 10 Tiro Policial Defensivo 11 Ordem Unida 12 Inteligência Policial 13 Defesa Pessoal 14 Direção Veicular Aplicada a Atividade Policial Militar Total Carga Horária CARGA HORÁRIA 2001/2003/2005 20 30 30 50 40 45 120 90 45 20 60 550 h/a III – ENSINO COMPLEMENTAR Nº 01 02 DISCIPLINA Seminário de Encerramento Seminário Temático I - Prevenção ao Uso de Drogas: o Papel do Policial. 03 Seminário Temático II - Sistema de Seg. Pública: a Experiência do Estado do Ceará 04 Seminário Temático III - Qualidade de Vida e Prática Profissional 05 Ação Policial Supervisionada (Estágio Reflexivo) Total Carga Horária TOTAL GERAL DA CARGA HORÁRIA CARGA HORÁRIA 2001/2003/2005 20 10 04 10 114 158 h/a 1.078 H/A Contudo, a distribuição das cargas horárias das disciplinas é que dirá que tipo de profissional pretende-se formar. No caso dos Cursos de Formação Profissional (CFP) do período acima referenciado, os quais foram os CFP‟s de 2001, 2003 e 2005, todos seguindo a mesma grade curricular, percebe-se um destaque dado às disciplinas de orientação 70 militarista, como Técnica Policial Militar, com 120 horas; Armamento e Equipamento, 90 horas; Educação Física, 60 horas; e Ordem Unida, 45 horas; e positivista, com 40% da grade curricular voltada para disciplinas do Direito. Para o soldado 10, o Curso de Formação que ele participou (em 2003) foi mais para lhe “apresentar ao sistema. Claro que existem as disciplinas específicas de policiamento e tal, mas com relação ao que você aprende no dia-a-dia... é pouco. A apresentação ao sistema, ela abarca muito mais de você”. Essa apresentação ao sistema, segundo o soldado 3, que se dava dentro do ambiente aquartelado do Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (CFAP), especialmente, com a saída dos professores civis, no período da tarde, quando teriam aulas de “instrução militar”. Contudo, como no ano de sua formação a Universidade Estadual entrou em greve, os professores deixaram de ministrar aulas pelo turno da manhã e para compensar a falta das aulas, os aspirantes ficavam o tempo todo “militarizado”, o que segundo suas palavras, significava: limpar chão, limpar banheiro, fazer faxina, fazer educação física. Contudo, com o desenvolvimento de uma experiência de policiamento comunitário no Estado, todos esperavam que a formação se desse de uma maneira diferenciada, mais humanística e cívica, abrindo espaço, assim, para um novo modelo de formação de policiais no Estado, até mesmo porque a filosofia do policiamento comunitário exigiria por parte desses policiais uma formação diferenciada, a qual orientaria as novas ações a serem executadas por estes policiais nas ruas do Estado. Para saber como se deu as formações dos soldados do Ronda do Quarteirão é que se dará prosseguimento na próxima seção. 71 PARTE II – A TEORIA, NA PRÁTICA É OUTRA? - O SENTIDO DO QUE SE DIZ 72 4. O PROGRAMA DE “POLICIAMENTO COMUNITÁRIO” DO CEARÁ: “INOVAÇÃO” OU “MAIS DO MESMO” NA POLÍTICA DE SEGURANÇA PÚBLICA? O desenvolvimento de experiências de policiamento comunitário nos Estados brasileiros tem como objetivo primordial a superação do modelo tradicional de se fazer policiamento implantado no País desde suas origens, o qual mais tem se identificado com ações reativas e repressivas do que com ações proativas e preventivas. Para Almeida, polícia proativa é aquela que atua junto com a comunidade antes do delito acontecer, ou seja, é uma polícia preventiva; contrapõem-se à maioria das ações do policiamento tradicional que ocorre no Brasil, com a polícia reativa que atua diante das solicitações da população quando o delito já ocorreu (2007, p. 146). Por isso, os governantes vêm tomando iniciativas de policiamento comunitário em seus Estados, por considerá-las “peças centrais do policiamento inovador” (SKOLNICK E BAYLEY, 2002, p. 11) e por contribuir para “a ampliação da cidadania, haja vista a ideia central de participação da comunidade nos assuntos da própria segurança e de controle da criminalidade” (ALMEIDA, 2007, p.146). Rosembaun (2002), ao discorrer sobre a mudança do papel da polícia na América do Norte para o policiamento comunitário a compara a um vento que tanto pode soprar como uma “brisa de verão” quanto um “inverno incerto e frio”, ao mesmo tempo pode ser promissor e ameaçador. Isso porque, enquanto filosofia, para ser implementado, o Policiamento Comunitário exige determinadas mudanças, em termos de administração, como novas estruturas, métodos e táticas operacionais, e simbólicas, com a adoção de novos valores, representações e práticas (FIGUEIREDO, NEME e LOUREIRO, 2013) que nem sempre conseguem superar as resistências da Corporação policial as suas inovações. No contexto internacional, as experiências recentes de Policiamento Comunitário mais conhecidas são as executas nos Estados Unidos, Canadá e Japão. (a) Estados Unidos: segundo Rosembaun (2007), o modelo de polícia tradicional implantado nos Estados Unidos a partir da década de 1930 começou a ser contestado na década de 1960, ganhando reforço nas décadas de 1970 e 1980, graças a pesquisas científicas que comprovavam a sua ineficácia, injustiça e ineficiência. No final dos anos 1980 73 e início dos anos 1990 começam a ser testados programas experimentais, como policiamento a pé, solução de problemas, organizações voluntárias comunitárias. Em 1992, o governo Bill Clinton destinou recursos anuais da ordem de US$ 8 bilhões, voltados ao treinamento, tecnologia e aproximação com a comunidade, dentro de um programa chamado Policiamento Comunitário. Criou um organismo, vinculado ao Departamento de Justiça, denominado Community Oriented Police Services (COPS), com o objetivo de “reformular as policiais estaduais e municipais, introduzindo programas comunitários, motivando a participação do cidadão e estimulando a valorização do serviço policial”. Além disso, foram criadas inúmeras Organizações Não-Governamentais (ONGs) para coordenar com a comunidade os gastos dos recursos com a polícia e realizar estudos para o aprimoramento da filosofia. O Estado Americano também premia as melhores iniciativas em Polícia Comunitária. (BRASIL, 2007, p. 56). (b) Canadá: a implantação do policiamento comunitário no Canadá foi resultado de providências tomadas pelas autoridades e pela população para se reverter o quadro de descrédito que havia da instituição policial. Sua implantação levou oito anos e demandou medidas administrativas, operacionais e, sobretudo, uma mudança na filosofia de trabalho dos policiais por meio de uma formação diferenciada. Nessa experiência, as cidades foram divididas em distritos e estes em pequenas vizinhanças, onde se transmite à população que a polícia está sempre por perto. Em muitos bairros, o policial circula de bicicleta. (c) Japão: criada em 1879, a experiência de policiamento comunitário executada no Japão é uma das mais antigas do mundo. A Polícia Nacional Japonesa descentralizou territorialmente suas bases de segurança, montando uma ampla rede de postos policiais, mais de 15 mil bases denominadas kobans e chuzaishos , que funcionam as 24h do dia e onde trabalham 40% dos policiais fardados. Os Kobans e Chuzaishos são construídos pelas prefeituras das cidades, as quais passam a se responsabilizar pela manutenção do prédio. No caso dos Chuzaishos, o policial é instalado em uma casa, juntamente com sua família, fornecida pela Prefeitura e que passa a ser considerada como um posto policial, vinculandose a companhia do distrito policial em que atua. Já os Kobans são instalados em regiões de maior necessidade policial, em que trabalham equipes compostas por três ou mais policiais, cobrindo às 24 horas. No interior do Koban ficam sempre um ou dois policiais para realizar o atendimento ao público, os demais desenvolvem atividades de patrulhamento a pé, de bicicleta ou motocicletas. Esses policiais são responsáveis pelas visitas comunitárias, através das quais sabem número de residências, comércios e estrangeiros residentes, 74 controlando, assim, a pequena área em que está instalado. Há também reuniões com os conselhos comunitários duas ou três vezes ao ano (BRASIL, 2007). Devido ao sucesso da experiência japonesa, o Brasil tem buscado realizar acordos de cooperação com o Japão para a difusão da doutrina do policiamento comunitário no território brasileiro. Em 2005, a Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP) assinou um convênio de três anos com a Polícia Nacional do Japão, com intermediação da Japan International Cooperation Agency (JICA) para a execução do “Projeto Polícia Comunitária”. Esse projeto tinha como objetivo adaptar as bases comunitárias da PMESP ao modelo japonês. Posteriormente, deu-se continuidade ao convênio através da implementação de um novo projeto denominado “Implementação do Policiamento Comunitário utilizando o sistema Koban”, no qual objetivava compartilhar a experiência da PMESP com outras 12 unidades federativas. Para tanto, uma das atividades desenvolvidas foi a realização de edições do Curso Internacional de Polícia Comunitária, cujo treinamento foi mediado por policiais do Japão e contou com a participação de policiais de outros países da América Latina36. Desde o início do projeto, em novembro de 2008, foram habilitados nesses cursos 359 policiais37. A experiência de policiamento comunitário mais conhecida e com melhores resultados foi à realizada em Diadema, município localizado em São Paulo. Considerada uma das cidades mais violentas de São Paulo, Diadema teve seu índice de homicídios reduzido em aproximadamente 80%, a partir de 2000, quando foram implementadas ações que envolviam a prefeitura, o governo estadual, a sociedade civil e a polícia. Essas ações combinavam policiamento ostensivo, medidas de prevenção da violência, programas de inclusão de crianças e jovens em situação de risco, fortalecimento dos Conselhos Municipais de Segurança e a participação da sociedade civil, através de fóruns itinerantes, para a construção dos Planos Municipais de Segurança Pública de Diadema38. 36 Missão avalia o projeto “Implementação do Policiamento Comunitário Utilizando o Sistema Koban”. Disponível em: <http://www.jica.go.jp/brazil/portuguese/office/news/2011/260711-2.html>. Acesso em: 23 fev. 2013. 37 Brasil e Japão renovam acordo para expandir policiamento comunitário. Disponível em: < http://xa.yimg.com/kq/groups/24162527/1694749843/name/Informativo+da+Prevencao+SENASP_+N+12.pdf>. Acesso em: 23 fev. 2013. 38 Foram implementados dois Planos Municipais de Segurança Pública em Diadema. O primeiro, implantado de 2001 a 2004, desenvolveu as seguintes ações: Projeto Adolescente Aprendiz; integração das polícias Civil e Militar com a Guarda Civil Municipal; Lei de Fechamento de Bares; ampliação da iluminação pública; instalação de câmeras de segurança; e lançamento das campanhas de desarmamento real e infantil. Já o segundo Plano Municipal de Segurança Pública começou a ser implantado em 2005 em uma parceria com o Instituto Sou da Paz, no qual foram estabelecidos 17 compromissos, divididos em três áreas de atuação (fatores potencializadores da criminalidade, gestão e urbanização) que confirmam e evoluem os objetivos do primeiro plano. Disponível em: < http://www.comunidadesegura.org/pt-br/node/30467> Acesso: 17/08/2010. 75 Em 2004, foi implantado nesse município paulista o programa “Anjos do Quarteirão”. O programa se baseia na realização de rondas a pé, a moto ou em bicicleta nas comunidades, com o objetivo de conter a criminalidade e a violência daqueles bairros em que foram mapeados roubos e furtos, além de permitir a aproximação dos cidadãos com os guardas civis municipais. Por outro lado, algumas experiências não se desenvolveram de forma tão promissora, como a implantada em Copacabana, Rio de Janeiro, em 1995, desativada antes mesmo de completar um ano. Segundo Muniz et al. (1997) várias foram as dificuldades encontradas pelo programa para sua efetivação com êxito, dentre elas: problemas relacionados com a comunidade, como acesso aos moradores e não implantação dos conselhos de área; dificuldades na relação com outros órgãos públicos; resistências no interior da própria PM, demarcadas desde a penúria material e organizacional , carência de efetivo e ausência de avaliação de desempenho, até mesmo questões mais identitárias, como os referenciais estigmatizadores que os policiais de outras companhias davam aos comunitários. Para a autora, o progressivo insulamento e esvaziamento do projeto à filosofia do policiamento comunitário e o seu posterior desmonte representou uma vitória dos “machos”, daqueles que se consideravam como os “verdadeiros policiais”. No entanto, a autora salienta que é possível perceber esses problemas também em experiências internacionais bem sucedidas, como a de Nova Iorque. O que diferenciou esta da experiência de Copacabana é que houve um respaldo de uma política de segurança que definia a patrulha como o carro-chefe da reformulação das instituições policiais, empenhando-se em garantir o sucesso da iniciativa e em eliminar os obstáculos encontrados (MUNIZ et al, 1997). É possível perceber que o marketing das eleições a governador nos Estados nordestinos, em 2006, esteve em grande parte voltado a propostas de policiamento comunitário ou de reestruturação das polícias civis e militares. Em Alagoas foi criado durante o governo de Teotônio Vilela Filho (2007-2010) centros e núcleos de polícia comunitária; em Pernambuco, o governador Eduardo Campos (2007-2010), desenvolveu o programa Pacto pela Vida, baseado na contratação de novos policiais militares e civis, na integração dessas polícias e na aquisição de veículos mais modernos; em Sergipe foi desenvolvido o Plano de Segurança Cidadã, no governo de Marcelo Deda (2007-2010), em que um dos focos seria a descentralização das ações de segurança pública com ênfase na 76 segurança cidadã; na Bahia, o governador Jacques Wagner (2007-2010) implantou unidades de patrulhamento com forte participação dos Conselhos Comunitários; no Rio Grande do Norte, a governadora Wilma Faria (2003-2010) dividiu a capital em 21 bases policiais para a construção de 31 sedes de policiamento comunitário em parceria com empresários locais; na Paraíba foi realizada a reestruturação das polícias civis e militares, durante o governo de Cássio Cunha Lima (2003-2009); e no Maranhão, o governador Jackson Lago (2007-2009) desenvolveu os Planos Locais, ações comunitárias da polícia em locais considerados mais violentos, e uma de suas fases é o Projeto Roda Viva de Ações Preventivas, voltado aos estudantes e suas famílias (Jornal O Povo, 07/10/2009, p. 24). Não contrariando este contexto regional, o governador do Ceará, Cid Gomes (2007-2010), também trilhou sua campanha eleitoral, focalizando-a em uma nova proposta de policiamento com feições comunitárias, denominado Programa “Ronda do Quarteirão”. 4.1. O Projeto de “Policiamento Comunitário” do Ceará: o Ronda do Quarteirão O projeto do Ronda do Quarteirão nasce como um programa de policiamento comunitário ostensivo e preventivo com patrulhas 24 horas nos bairros, com o objetivo de oferecer tranquilidade e segurança à população. Inicialmente, seria composto por quatro equipes de dois patrulheiros em uma viatura e um motociclista patrulheiro, compondo um total de doze policiais que se revezavam em três turnos de 8 horas cada39, atendendo, exclusivamente, uma única área. O projeto inicial previa a atuação conjunta de carros e motos, em que a viatura seguia na frente e a moto atrás. Cada equipe do Ronda faria o patrulhamento no bairro em uma moderna viatura tipo Sport Utility Vehicle (SUV), rastreada por sistema GPS (Geo-Posicionamento por Satélite) e equipada com computador de bordo, sistema de telecomunicação e telefone próprio, pelo qual os moradores poderiam acionar diretamente a viatura responsável por sua área, permitindo que a chamada fosse atendida em poucos minutos. Logo com o início do programa, os moradores receberiam um folheto com o número do telefone da viatura e o nome dos policiais que estavam patrulhando aquela área (CEARÁ, 2008) como forma de aproximar a comunidade da polícia. 39 Turnos A (das 6h às 14h), B (das 14h às 22h) e C (22h às 6h), recebendo um dia de folga a cada seis dias trabalhados. (DIÁRIO DO NORDESTE, 30/04/2010, p. 18). 77 De acordo com Lopes (2008, p. 59), o Programa Ronda do Quarteirão inaugura no Estado do Ceará o “modelo da cordialidade que se expressa nos gestos, na fala e no corpo dos policiais”. Desse modo, o Programa foi desenvolvido para se diferenciar do policiamento tradicional em tudo, a começar pela roupagem: vestimentas e viaturas 40 . O que para os policiais do Programa representou um avanço, como é possível observar na fala da soldado 6: “Em relação às condições de trabalho, a grande melhoria foram as viaturas que são mais confortáveis e menos estressantes. Você se sente mais seguro para abordar e fazer perseguição, já que o carro desenvolve mais velocidade. Mas o fardamento também é confortável, só que o colete é ruim e machuca por isso o motorista praticamente não usa. Agora existe uma promessa de que vai chegar os coletes apropriados, mas já tá com 2 anos e o armamento a gente tem o porte de arma mas não podemos levar a arma para casa”. A mudança não se reduziu, apenas, ao fardamento e a carros novos, mas o grande diferencial da proposta do Ronda estava na maneira como a população passaria a ver o trabalho dos policiais, como eles passariam a tratá-la e no modo como ela os receberia. Afinal, a intenção do Governo Estadual era a de se reconstruir a imagem que a população tinha da polícia ou podemos ainda afirmar que a intenção era a de construir uma imagem diferenciada do policiamento tradicional para o Ronda do Quarteirão, conforme depoimento abaixo: “(...) a grande mudança que a gente quer fazer nesse programa é mudar a mentalidade do profissional de Segurança Pública, para que ele não seja um homem puramente agressivo, violento. (...) Hoje, o foco na imagem que a sociedade tem do profissional de segurança é de um homem forte, violento, truculento, analfabeto, ignorante e corrupto. (...) Então, a gente conversa com esses profissionais [policiais do Ronda do Quarteirão], pois eles é que vão mudar a polícia militar: „Você é quem vai contagiar os outros policiais militares. Você vai ter que ser um policial sempre legalista, ser uma pessoa atenciosa, prestativa, humana, educada. Bom dia, boa tarde, boa noite. E nunca se envolver com os dois males das instituições policiais: a corrupção e a violência‟”. (depoimento concedido pelo tenente-coronel Túlio Studart, excomandante do Ronda, ao Grupo Focal Institucional). (Grifos meus). Para Albernaz et. al.(2007) há no imaginário de parcela dos policiais que trabalham nas unidades de policiamento “tradicional” essa ideia transmitida pelo tenentecoronel Tulio Studart de que um policial comunitário é algum tipo de “relações públicas”: aquele que chama a população para as reuniões, aquele que dá “bom dia, boa tarde, boa 40 A vestimenta dos policiais do Ronda deixa de possuir a cor caqui e verde, a qual lhe dava a aparência de camuflagem utilizada pelos soldados do Exército, para dar espaço a um uniforme nas tonalidades do azul claro e azul escuro, cores suaves e menos militarizadas. Além disso, foram utilizados tecidos leves, mais apropriados ao clima do Ceará. As viaturas, por sua vez, tinham uma cor e uma marca diferenciada dos demais carros que compunham a frota da Polícia Militar. São viaturas potentes da marca Toyota Hilux SW4, com equipamentos sofisticados em seu bordo. 78 noite”, como se o policial “tradicional” também não devesse fazer isso. É como se dividisse a instituição policial entre aqueles que fazem um policiamento educado e aqueles que agem com truculência. Segundo a autora, isso acaba criando uma “identidade alternativa” para os policiais comunitários que não os identifica com a cultura policial mais ampla, gerando referenciais estigmatizadores. O mesmo aconteceu com os policiais do Ronda do Quarteirão, em que as atitudes tomadas, para diferenciá-los do policiamento tradicional, acabaram por gerar dentro da corporação uma onda de despeito, inveja e sabotagem por parte de alguns policiais que não compunham o Ronda, desde praças a oficiais, como pode ser observado através do depoimento concedido por um policial “veterano” ao Jornal O Povo (20/01/2008, p. 22): Os novos policiais não passaram por um treinamento adequado. Eles estão menos preparados, mas já tem carros maravilhosos, fardas mais confortáveis e nós, que estamos no dia-a-dia, colocando nossa vida em risco, temos carro que sempre ficam no prego. Segundo Lopes (2008), houve também aqueles policiais que se utilizavam de “jargões” para menosprezar o trabalho realizado pelos policiais do Ronda. Alguns consideravam o Ronda como um “programa para espantar bebinho”, em alusão aos tipos de ocorrências que eles iriam atender; outros diziam que eles realizavam um “desfile de viaturas”, por possuírem viaturas mais potentes e diferenciadas do policiamento tradicional; ou os adjetivavam negativamente como “os homens do governador” e “policiais de enfeite”. Além da implantação do programa Ronda do Quarteirão, ao assumir o governo do Ceará, Cid Gomes adotou algumas medidas administrativas, em termos de segurança pública, que também causaram resistências e “sabotagens”41 por parte de membros e grupos da Polícia Militar do Ceará (PMCE), dentre elas, a escolha de um policial federal aposentado, Roberto das Chagas Monteiro, para assumir a pasta da segurança pública no Estado, ao invés de um coronel da PMCE como tradicionalmente era feito. Além disso, a mudança no comando de postos estratégicos da PM (interior e capital) e a exoneração do comandante da corporação que estaria, segundo informações da imprensa, relacionada à elaboração de uma lista com o nome de 100 PMs que deveriam compor com os policiais recrutados o efetivo do Programa Ronda do Quarteirão. O Governador solicitou que os 41 De acordo com Lopes (2008), o desaparecimento de 12 fuzis calibre 7.62 de dentro do Quartel Geral da PMCE, em Fortaleza, é a clara representação de afronta e boicote por parte de alguns setores da PMCE à gestão do secretário. 79 nomes indicados tivessem “conduta ilibada” e a lista enviada ao governo não atendia aos critérios exigidos (LOPES, 2008, p.48). Segundo Lopes (2008), após esse episódio observou-se uma sequência de ações da PMCE envolvendo o uso da força letal. Dentre essas ações a que ganhou maior destaque na mídia ficou conhecido como o “Caso da Hilux”, no qual, durante uma operação da Polícia Militar, uma Hilux de cor preta foi confundida com uma S-10 da mesma cor que havia realizado um assalto a um caixa eletrônico e por isso foi metralhada pelos policiais. A Hilux pertencia a um casal do Estado que voltava do aeroporto após terem ido buscar um casal de turistas espanhóis. Três pessoas foram feridas, sendo que o passageiro ferido mais gravemente, um dos espanhóis, ficou paraplégico. Na época, o supervisor de policiamento da capital, Major PM Ricardo Moura afirmara que a Hilux abordada era a errada, mas o procedimento policial adotado era o correto. Muito se discutiu, na época, sobre a afirmativa do major, como nos mostra abaixo a opinião do colunista Fábio Campos ao Jornal O Povo (28/09/2007, p. 23): A questão é a seguinte: e se fosse mesmo o carro com assaltantes, será esse o modo correto de se fazer a abordagem? Uma saraivada de balas para depois perguntar? Claro que não. (...) mas acontecimentos como este nos dizem que, infelizmente, as nossas forças de segurança não estão preparadas para dar as melhores respostas. Para Brasil (Jornal O Povo, 07/10/2007, p. 05) a abordagem da PM foi desastrosa e fora do padrão do uso legal da força letal e as “declarações feitas são reveladoras do corporativismo militar, da incapacidade de autocrítica que a instituição possui frente aos seus erros e, principalmente, da intolerância às criticas externas”. Com esse fato, as pressões políticas e sociais em torno da implantação do Ronda do Quarteirão só fizeram aumentar, especialmente por se tratar de uma das principais promessas de campanha do Governador. O programa que seria lançado inicialmente em abril de 2007, foi adiado para junho devido a problemas no edital de licitação para a compra de 200 viaturas. O edital exigia determinados equipamentos para compor os carros, que outras montadoras concorrentes não poderiam fornecer o que gerou insatisfações nas montadoras que não puderam concorrer ao edital. A pressão política era tamanha que o deputado Heitor Férrer, em entrevista ao Jornal O Povo (12/05/2007, p. 23) chegou a considerar uma “letargia” do governo não ter 80 implantado o programa em cinco meses de administração, já que se a ideia do programa é chegar ao local da ocorrência em até cinco minutos, “se vai até a pé”, não precisando de viaturas para isso. Longe das pressões, exigências e críticas políticas, a sociedade acompanhava ansiosa pelo início do programa. Durante a gravação do comercial do Ronda, no bairro Gentilândia, os moradores tiveram acesso às modernas viaturas do programa, o que dividiu opiniões sobre o fardamento, os equipamentos e os veículos. Todos só comentavam sobre a “polícia da boa vizinhança” e nela depositavam a esperança de que tudo poderia mudar na segurança pública do Estado. 4.2. O Ronda vai às ruas: adaptações, crises e mudanças Em uma reportagem publicada pelo Jornal O Povo (17/07/2009, p.08), na qual apresenta dados obtidos em uma pesquisa de avaliação do Ronda do Quarteirão, verificouse que após pouco mais de um ano do início de sua execução, dos 800 cidadãos entrevistados nas cidades de Fortaleza, Maracanaú e Caucaia, 83% considerava que a segurança pública havia melhorado com a implantação do programa; 42% deu notas 4 e 5 para o programa (numa escala de 1 a 5, onde 1 é pior e 5 é melhor); e por fim, na avaliação geral, o programa foi considerado como ótimo ou bom por 60% dos entrevistados. Os próprios soldados, durante as entrevistas, relataram esse processo de aproximação da Polícia Militar com a comunidade, o qual, podemos afirmar, foi permeado por momentos de “estranhamento” e “admiração”, como pode ser observado, respectivamente, através dos dois depoimentos a seguir: “(...) a gente chegou assim para fazer uma visita, está com umas duas semanas mais ou menos, aí eu cheguei e estavam dois rapazes assim na rua e a gente chegou foi fazer uma visita e tal, e eles se assustaram porque a viatura parou e eles tem logo medo. As pessoas tem muito medo. Aí eu: „Não, fiquem a vontade. Não se preocupem não. A gente veio aqui só pra conversar com vocês mesmo‟. Aí eles: „Ah, é?‟. Aí, ficaram surpresos. E a gente falou assim: „É, pois é, porque a gente está aqui para conversar com vocês, a gente quer só fazer uma visita, conversar‟... [Ao que eles responderam:] „Nossa que polícia boa, faz até visita!‟”. (depoimento concedido pelo soldado PM 5, há 4 meses na profissão). “Logo nas primeiras semanas que eu estava trabalhando, a gente estava parado no bairro, aí chegaram duas crianças, uma por volta dos seus dez anos e a outra por volta dos seus oito anos. Aí uma chegou e falou assim: „Olha, eu gosto muito de vocês‟. Aí eu peguei e falei assim: „Por que vocês gostam do Ronda?‟. „Gosto! O Ronda é a melhor polícia do mundo‟. Aí eu falei pra ele assim: „Por que, cara, que tu gosta do Ronda? Por que que o Ronda é a melhor polícia do mundo?‟. Aí 81 ele falou assim: „Por quê? Porque o Ronda passa no nosso bairro e fala com a gente.‟ Isso tudo foi muito marcante, porque foi dito por uma criança. Não tinha como ser forçado, discurso pronto. Foi uma criança que chegou e falou isso”. (depoimento concedido pelo soldado PM 5, há 4 meses na profissão). Entretanto, com o passar do tempo, o programa foi perdendo parte de sua filosofia e operacionalidade iniciais. Em pouco menos de um ano de execução, as motos tiveram que sair de circulação devido a um problema de operacionalidade: como não podiam desenvolver maior velocidade por terem que seguir sempre atrás de uma viatura, começaram a quebrar. “(...) no início do Programa eram dois policiais na viatura e um na moto acompanhando a viatura. Foi visto que aquela moto atrás da viatura era altamente anti-operacional, até pela questão da saúde do motociclista também que andava atrás da viatura recebendo toda aquela poeira e fumaça que vinha do veiculo. Foi criado o pelotão de motos do Ronda, as motos foram separadas da viatura e foi colocado um terceiro homem na viatura” (depoimento concedido pelo soldado PM 1, há 2 anos na profissão). Posteriormente, o terceiro homem foi retirado, ficando a viatura com apenas dois. Essa foi uma das queixas mais relatadas pelos soldados entrevistados: “O que ocorre é que muitas vezes nos deparamos com três ou quatro elementos e nos perguntávamos será que sentiremos segurança em abordá-los porque somente eu e o motorista, vou arriscar minha vida para abordar? Então a gente faz de conta que não estamos vendo infelizmente”. (depoimento concedido pela soldado PM 6, 4 meses na profissão, grifos nosso.). “Então nossa maior dificuldade hoje em dia tá sendo essa questão de dois policiais na viatura, porque se deparar com a ocorrência de roubo a pessoa em andamento e o individuo empreender fuga a gente só vai fazer a perseguição até onde a viatura for, se ele adentrar um beco, infelizmente, a gente vai ficar olhando ele fugir e não vai poder fazer nada porque o motorista não pode abandonar o veículo, pois tem que resguardar o patrimônio público e o patrulheiro não vai fazer a perseguição sozinho a pé, pois não tem nenhum outro policial para lhe dá cobertura e ele não sabe se pode tá surgindo algum outro indivíduo que, naquela circunstância vai ser o inimigo da população, na sua retaguarda podendo vim a lesioná-lo inclusive fatalmente tirando-lhe a vida”.(depoimento concedido pelo soldado PM 1, 2 anos na profissão). Lopes (2008) constatou ainda que devido ao sucateamento e a falta de viaturas para o policiamento tradicional, os policiais do Ronda acabaram tendo que abdicar da realização das visitas aos domicílios nas áreas em que eram lotados para, apenas, atenderem as ocorrências, ou seja, deixaram justamente de realizar as atividades de aproximação com a população, as quais estavam previstas no projeto original e que o caracterizava como policiamento comunitário. 82 “Durante o curso eles disseram que a prioridade com vocês era fazer visita comunitária, para manter contato com a comunidade. Agora a gente chega à viatura para trabalhar, estamos lá fazendo visita e de repente o CIOPS [Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança] envia uma ocorrência e a gente avisa: „CIOPS estamos em uma visita‟. Aí, o CIOPS responde: „A prioridade aqui não é visita, é vocês atenderem a ocorrência‟”. (depoimento concedido pela soldado PM 6, 4 meses na profissão) “Bem, a polícia convencional ela não tem esse papel de fazer essas visitas comunitárias, a função dela hoje é só atender ocorrência, mas mesmo assim, aonde eu vejo, não vem atendendo, porque a maioria, em todas as áreas, tem Ronda, todas as áreas são dividas e todas elas têm Ronda, ou seja, quando a gente está, por exemplo, no nosso caso, no turno C, a maioria das vezes quando a gente estava fazendo visita comunitária e chegava ocorrência e não tinha ninguém na área do POG [Policiamento Ostensivo Geral] para ir atender, a gente tinha que deixar de fazer uma visita para ir atender essa ocorrência. Isso já prejudicava a visita, já prejudicava o Projeto. A gente falava com os caras [atendentes da Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança, CIOPS]: „Não, tem uma visita. Não tem nenhuma viatura aí para atender? ‟. Aí, os caras: „Não tem não. Vá lá você mesmo‟”. (depoimento concedido pelo soldado 1, 2 anos na profissão). Para Rosenbaum (2002), um dos problemas mais sérios e mais comuns de implantação de um programa de policiamento comunitários, os quais as organizações policiais enfrentam, diz respeito ao “desejo de adicionar novas funções à polícia sem eliminar ou reduzir as atuais responsabilidades policiais” (p. 46, grifos do autor). Foi o que aconteceu com o Ronda, além de fazer o trabalho do Policiamento Comunitário, os policiais ainda tinham que atender as ocorrências do Policiamento Ostensivo Geral (POG). Como não realizavam mais as visitas às residências, aos estabelecimentos comerciais, às praças e escolas com o objetivo de se inteirar dos problemas e solicitações da população e orientá-la sobre medidas de prevenção aos crimes e na mediação de conflitos, esses policiais começaram a ser cobrados por essas atividades e pouco a pouco foram perdendo a sua credibilidade junto à população (LOPES, 2008). Casos de destruição dos modernos equipamentos das viaturas, como câmeras e computadores de bordo, propositalmente, pelos policiais rondantes estavam sendo investigados pela Corregedoria. No trânsito o problema foi mais grave. Inúmeros acidentes envolvendo viaturas do Ronda do Quarteirão foram registrados42. 42 De 2009 a 2010 pode ser visto uma sequência de casos envolvendo acidentes com viaturas do Ronda do Quarteirão: 12/05/2009 – Colisão entre uma viatura e um Fiesta no centro de Fortaleza; 07/10/2009 – Acidente envolvendo viatura do Ronda no bairro Edson Queiroz; 17/12/2009 – Policial do Ronda do Quarteirão de Caucaia morre após um acidente; 19/02/2010 – Acidente com carro do Ronda em Sobral; 16/04/2010 – Acidente com viatura do Ronda envolvendo um caminhão na Av. Leste Oeste (Diário do Nordeste, 27/07/2010, p. 15). 83 Os problemas e as críticas ao programa foram se tornando cada vez mais constantes, como a série de reportagens trazidas pelo Jornal O Povo (13/07/2009 a 17/07/2009) relatando haver na Corregedoria Geral dos Órgãos de Segurança Pública do Ceará cerca de 210 denúncias de violação de direitos do cidadão por PM‟s do Ronda, dentre elas: agressões físicas, estupros, execuções, abusos de poder, invasão de domicílios, etc., justamente todas as práticas funestas que o Governo tentou banir com a implantação do Ronda do Quarteirão. Mesmo com o diferencial filosófico de execução do programa, alguns policiais do Ronda acabaram por reproduzir as velhas abordagens violentas e autoritárias contra aqueles a quem identificavam como “elementos suspeitos”: “[E]sse tipo de abordagem aos adolescentes nas praças públicas de Fortaleza, principalmente na periferia. Eles são assim: você está sentado na rua, você é marginal; você está sentado na calçada, você é marginal. Tem muito essa visão do policial que aquele que está sentado é um vagabundo, um desocupado, tá querendo assaltar (...) às vezes, tão sentados sem fazer nada, conversando sobre futebol, e chega um policial e os aborda de uma maneira truculenta”. (depoimento concedido Walter Filho, promotor de justiça, ao Grupo Focal Institucional). Tanto é que em março de 2009 já havia sido registrado na delegacia do bairro Otávio Bonfim o caso de lesão corporal dolosa contra quatro jovens, entre 14 e 18 anos, que estavam em uma pracinha no bairro Jardim América, por policiais do Ronda do Quarteirão. De acordo com o Jornal O Povo (14/07/2009, p. 08), os jovens estavam sentados na pracinha quando foram surpreendidos por três policiais do Ronda que ao descerem da viatura, com arma em punho, um deles gritou: “mãos para cima, vagabundo”. Os quatro jovens foram colocados em fila para o “baculejo43”, mas como nada foi encontrado os policiais começaram a agredi-los com murros e chutes nas costas, tórax e pernas. Ao presenciar a cena, o funcionário público Prasilde Moreira Neto, perguntou aos policiais o motivo de tanta violência contra os jovens, ao que um dos PMs lhe respondeu: “O que o senhor tem a ver com isso?”. Percebe-se com este fato que os policiais envolvidos não apreenderam a real filosofia a que se propunha o Ronda do Quarteirão, reproduzindo as mesmas abordagens violentas do policiamento tradicional. 43 “Baculejo” é uma expressão utilizada para se referir à revista policial decorrente de uma abordagem. Segundo Sá e Santiago Neto (2012), o “baculejo” se expressa como um ritual de poder, em que as agressões físicas praticadas por policiais, normalmente contra jovens da periferia tratados como “vagabundos”, se constroem em um contexto de violência simbólica, marcada por uma profunda assimetria de poderes. 84 Em maio de 2010, após quase dois anos de execução, o programa Ronda do Quarteirão sofre uma grande alteração em sua filosofia após uma mudança de comando. Como forma de retaliação à participação ativa dos policiais do Ronda na “greve branca” da PMCE de abril de 2010, é emitido pelo Comando Geral da Polícia Militar um boletim no qual exonerava e transferia oficiais que ocupavam importantes comandos de unidades operacionais da PMCE44. Dentre eles estava comandante do Ronda do Quarteirão, o tenente-coronel Túlio Studart, transferido para o comando da Polícia Rodoviária Estadual (PRE), sendo substituído pelo tenente-coronel Werisleik Ponte Matias, que era o responsável pelo comando da PRE (Diário do Nordeste, 07/05/2010, p. 17). Em menos de dez dias após a mudança no comando é anunciado que o Ronda do Quarteirão sai da tutela da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) e passa a ser chefiado pelo Comando Geral da Polícia Militar do Ceará, como forma da PMCE assumir a responsabilidade do programa. Com isso, o programa acabou por também modificar sua filosofia de policiamento. Após a posse do seu novo comandante, o tenentecoronel Werisleik Ponte Matias, o Ronda do Quarteirão passa a se aliar ao Policiamento Ostensivo Geral (POG), formado pelas onze companhias do 5º e 6º Batalhões de Polícia Militar. Em entrevista ao jornal Diário do Nordeste (17/05/2010, p. 14), o novo comandante do Ronda do Quarteirão afirmou que o programa passa a ser destinado ao enfrentamento da criminalidade, mas não deixará de fazer o “policiamento comunitário” através das visitas à população, mas estas, agora estarão voltadas a obtenção de informações sobre o crime, as quais serão repassadas ao Comando de Policiamento da Capital (CPC) e a Polícia Civil. Essa passa a ser a “nova” cara do programa Ronda do Quarteirão que por coincidência ou não, é a mesma do policiamento tradicional, justamente aquele a quem o Ronda viria para fazer um contraponto. Segundo Albernaz et. al. (2007, p. 47, grifos do 44 Perderam o cargo os comandantes do Comando Tático Motorizado (Cotam), major PM João Batista Farias Júnior; da Companhia de Controle de Distúrbios Civis (CDC), capitão Naerton Gomes de Menezes e o major PM Douglas Afonso Rodrigues da Silva, que comandava a 7ª Companhia do 5º BPM (Parangaba). Os majores Adrianízio Paulo de Oliveira Alves, que era o comandante do Presídio Militar e Francisco Teófilo Gomes Costa, supervisor do Comando do Policiamento da Capital (CPC) foram exonerados de seus cargos e transferidos para o interior do Estado por participarem ativamente da “greve branca”. O tenente-coronel Roberto Alves deixa suas funções no 2º BPM (Juazeiro do Norte) e assume o cargo de subdiretor da Diretoria de Apoio Logístico (DAL), o seu cargo passa a ser comandado pelo tenente-coronel Edivar Azevedo Rocha que vinha chefiando a 2ª Cia do 1º Batalhão (Russas); o tenente-coronel João Batista Bezerra dos Santos assume o comando do BPChoque, em seu lugar na chefia do 5º BPM assume o tenente-coronel Francisco de Assis Paiva que era subdiretor da DAL; o tenente-coronel Erick Oliveira Onofre foi dispensado do Comando de Policiamento do Interior (CPI) para assumir o cargo na terceira seção do Estado-Maior do Comando Geral (Diário do Nordeste, 07/05/2010, p. 17). 85 autor), devido às relações historicamente conflituosas entre a polícia e a população, além do distanciamento entre esses atores, há o entendimento de que “participar significa, no geral, denunciar”. Para Rosenbaum (2002), na teoria do policiamento comunitário, o controle do crime, o atendimento de emergência e a justiça devem receber uma atenção menor em comparação com os serviços não emergenciais. Até mesmo porque essas primeiras funções constituem uma pequena proporção da demanda do serviço policial. De acordo com a relação dos dez bairros da capital cearense com maior número de ocorrências policiais registradas na Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança (CIOPS) da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), no período de 2005 a 2008, os tipos de conflitos apresentados mostram que, em média, 45,6% (84.730) dos casos que geram as ocorrências policiais se caracterizam por serem conflitos de natureza social (briga de família e perturbação do sossego alheio), surgidos entre pessoas que possuem vínculos afetivos e relações continuadas (famílias, vizinhos, amigos) que, por não conseguirem dialogar para bem administrar as controvérsias vividas, transformam discussões em agressões ou até em crimes de maior potencial ofensivo como o homicídio. (MIRANDA, MOTA BRASIL e CRUZ, 2010, p.06) Diante deste fato somos subitamente levados refletir se o programa Ronda do Quarteirão era mesmo uma experiência de policiamento comunitário ou apenas mais “um caso clássico de colocar vinho velho em garrafas novas” (SKOLNICK e BAYLEY, 2002, p. 16). De todo modo, interessa-se saber se essa “mudança de filosofia” alterou a formação dos policiais para o Ronda? Ou ainda: a formação para o Ronda alterou o modo de se fazer e pensar polícia no Ceará? 5. RECRUTAMENTO, SELEÇÃO E FORMAÇÃO DE SOLDADOS PARA O PROGRAMA RONDA DO QUARTEIRÃO A captação, a seleção e a formação são consideradas ferramentas imprescindíveis para o desenvolvimento de um determinado modelo de policiamento. De acordo com Osse (2006), um trabalho policial respeitoso dos direitos humanos começa com a seleção das pessoas adequadas para esse exercício profissional, assim como a exclusão daquelas que não estão dispostas a respeitar os valores e atitudes relativos aos direitos humanos. Para a autora, a 86 [s]eleção e a formação são duas faces da mesma moeda e tem por objetivo assegurar que as corporações policiais sejam ocupadas por pessoas capacitadas e dispostas a respeitar e proteger os direitos humanos. (...) A formação destina-se a assegurar que as habilidades e os conhecimentos profissionais que ainda não estão presentes sejam adquiridos, e também procurar moldar o comportamento futuro. (idem, p. 231). Entretanto, na prática estas ferramentas estão, na maior parte dos casos, escassamente desenvolvidas, seja pela falta de recursos ou por não se compreender a sua importância. Até mesmo quando esses instrumentos se desenvolvem de forma adequada e acompanham inovações, seus efeitos são minimizados pela constante tendência que as polícias possuem de resistir às mudanças. (OSSE, 2006). A autora ainda pontua que muitas das violações de direitos humanos cometidas por policiais não são causadas diretamente por práticas inadequadas de recrutamento, seleção e formação, propriamente ditas, mas sim pelas políticas e procedimentos que as orientam. A questão a ser discutida não é o da pouca capacitação, mas sim a de que capacitação está sendo repassada a esses policiais ou se as autoridades sabem em que e como capacitá-los. Esse capítulo apresenta como se deu o processo de recrutamento, seleção e formação dos soldados do Ronda do Quarteirão. Procura-se fazer uma análise comparativa entre o que está contido nas diretrizes nacionais voltadas para a formação de agentes de segurança pública e como essas diretrizes foram repassadas durante os cursos de formação em análise. Para tanto, utiliza-se das grades curriculares, ementas, apostilas ministradas e programa dos Cursos de Formação Profissional. Além disso, também faz uso dos depoimentos oficiais coletados. Nosso objetivo é verificar como a “nova educação policial” foi repassada durante a formação desses soldados para o Ronda do Quarteirão? Que tipo de conhecimento privilegiou-se nessa formação? 5.1. O Recrutamento para o Ronda do Quarteirão: O recrutamento é um processo no qual se procura estimular e convocar, entre os membros da sociedade ou de determinado grupo social, aqueles possíveis candidatos que atendam a um determinado perfil necessário para concorrer a um cargo específico. O princípio geral do recrutamento é que se dirija a todos os setores da sociedade. Contudo, em alguns países, o recrutamento de policiais se baseia numa “autoseleção”, em que se privilegia uma etnia ou uma religião ou uma determinada classe social (OSSE, 2006). Osse (2006) cita como exemplo o caso da polícia no Haiti, a qual exige que 87 todo o aspirante fale francês, já que o sistema legal do país é regido pelo idioma. Se por um lado tal exigência do recrutamento facilita o manejo do sistema legal haitiano, por outro, impede o acesso de quase 80% da população que não sabe falar o idioma. Ainda segundo a autora, a Anistia Internacional em sua publicação Amnesty International‟s Recommendations on Policing recomenda que para a instituição policial ser verdadeiramente representativa da população, ela deve diversificar seus quadros através da inclusão de minorias, diferentes credos religiosos, gêneros, entre outros grupos sociais. Para se ter uma ideia, no Brasil a presença feminina nas Polícias Militares só teve início na década de 1980, durante o processo de redemocratização do país (MUSUMECI e SOARES, 2004) e ainda é possível encontrar nos estados brasileiros restrições legais e informais a inserção de mulheres na carreira, como nos demonstra Calazans (2004). Em 2012, a Polícia Militar do Rio de Janeiro anunciou o concurso público previsto para o ano seguinte com a oferta de 6.000 vagas para soldados, dessas nenhuma estava destinada ao sexo feminino. Em reportagem para o jornal O Dia45, do Rio de Janeiro, o chefe do Centro de Recrutamento e Seleção de Praças da PM, tenente-coronel Roberto Viana, justificou a exclusão das mulheres, desta seleção, devido ao grande rigor físico exigido para o cargo de soldado. Rigor este, ao qual as mulheres não estavam aptas. Após a divulgação do jornal, o secretario estadual de segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, garantiu que o edital seria modificado e que vagas seriam destinadas as mulheres46. Para que o princípio geral do recrutamento seja alcançado, a instituição policial deve utilizar-se dos mais diversos canais de comunicação para veicular os anúncios de seu recrutamento, tanto para um público mais amplo quanto para grupos mais específicos, como jornais de circulação nacional, locais, de bairro ou comunidades, programas de rádios, cartazes, etc. No Brasil, talvez os anúncios mais conhecidos e mais popularizados de recrutamento são as campanhas de alistamento para as Forças Armadas, apresentadas anualmente durante os intervalos comercias da televisão. Nelas, geralmente, se apresenta o ambiente de formação militar, assim como os requisitos necessários para a investidura no cargo. No caso das Polícias Militares, os canais de comunicação se restringem mais aos 45 “Mulheres fora do Concurso para Soldado da PM”. Jornal O Dia. Rio de Janeiro, 20 nov. 2012. Disponível em: http://odia.ig.com.br/portal/rio/mulheres-fora-do-concurso-para-soldado-da-pm-1.491950. Acesso em: 20/02/2013. 46 “Beltrame garante mulheres em Concurso da PM”. Jornal O Dia. Rio de Janeiro, 21 nov. 2012. Disponível em: http://odia.ig.com.br/portal/rio/beltrame-garante-mulheres-em-concurso-da-pm-1.492455. Acesso em: 20/02/2013. 88 jornais, a internet, anúncios em programas de rádio e especialmente na publicação do edital no Diário Oficial do Estado (DOE). No caso do programa Ronda do Quarteirão, o recrutamento para a seleção dos soldados que comporiam a primeira turma de formação não foi realizado de maneira direta. Isso porque, o edital para o Concurso Público de Provas para Soldado de Fileira da PMCE, antecedente ao Curso de Formação de 2007, havia sido publicado em fevereiro de 2006 para o preenchimento de mil vagas criadas pela Lei nº 13.709, de 13 de dezembro de 2005. Inicialmente o Concurso Público havia sido realizado para completar os quadros da Polícia Militar do Ceará, mas com a criação do Ronda do Quarteirão todos os candidatos aprovados no exame escrito e consequentemente em todas as outras fases que o seguiram, foram lotados para o preenchimento das vagas do Ronda, conforme depoimento: “Eu fiz concurso para a Polícia Militar no edital baixado no ano de 2006, ainda na gestão do governador anterior, Lúcio Alcântara, e era para a Polícia Militar. Com a eleição do novo Governador, ele resolveu empregar diretamente todos os concursados no programa Ronda, então nós não tivemos escolha, alguns queriam outros não, mas todos formos obrigados a ingressar no Programa Ronda”.(depoimento concedido pelo soldado 2, 2 anos na profissão). Das mil vagas abertas nesse concurso, 950 foram destinadas aos candidatos do sexo masculino e 50, as candidatas do sexo feminino. O que representa uma porcentagem inferior (apenas 5%) ao padrão seguido nacionalmente de destinação de vagas para mulheres nos concursos públicos das polícias militares, algo por volta de 10% (CALAZANS, 2004). O mesmo aconteceu durante os recrutamentos realizados nos anos de 2008 e 2010, em que foram destinadas duas mil vagas para cada concurso, sendo 1.900 para o sexo masculino e 100 para o sexo feminino, novamente apenas 5% do total de vagas. O que representa um testemunho da exclusão da participação feminina na instituição Polícia Militar do Ceará. Dessas mil vagas abertas para o concurso de 2007, somente 713, do total de candidatos que fizeram o concurso público, conseguiram passar por todas as seletivas, chegando ao Curso de Formação. Desses 713 novos soldados, 671 eram do sexo masculino, enquanto que 42 eram do sexo feminino. Desse modo, para completar o quadro de policiais para o Ronda foram selecionados 300 policiais “veteranos” da corporação, escolhidos entre aqueles que trabalhavam nas ruas ou em serviços burocráticos, mas que possuíssem ficha funcional limpa. Alguns policiais selecionados estavam lotados na “Ronda Escolar”, a qual, de acordo 89 com os policiais veteranos entrevistados, com o desenvolvimento do Programa Ronda do Quarteirão teve suas atividades concluídas e os policiais militares que dela participavam foram remanejados para o Ronda do Quarteirão47. Nós fomos chamados pra uma reunião, nós não sabíamos o que era, no Quartel do Comando Geral, e lá nós participamos dessa reunião, que já tinham vários policiais que não eram só da Ronda Escolar, e ao término é que nosso comandante entrou e foi nos falar o que é que ia acontecer: o pessoal do Ronda Escolar ia ser remanejado para o Programa Ronda do Quarteirão. (depoimento concedido pelo soldado 4, 6 anos na profissão). De acordo com Osse (2006), é comum em situações de reforma policial, especialmente naquelas que se dão em um momento de transição de um regime políticomilitar para um regime democrático e que queira estabelecer uma polícia eminentemente civil, que se dê a preferência por empossar membros de fora da instituição. Quando isso não é possível e faz-se necessário remanejar os policiais antigos, o Escritório de Washington para Assuntos Latino-Americanos (apud OSSE, 2006, p. 238) recomenda, entre outros aspectos, que “todo servidor militar deve passar por um processo de investigação meticulosa para assegurar que não tenha cometido qualquer violação de direitos humanos”, assim como o recebimento de uma “formação completa, com ênfase nas técnicas e práticas civis de policiamento” 48. Desse modo, o Governador do Estado solicitou ao comandante-geral da PMCE na época, coronel Adail Bessa, que elaborasse uma lista, inicialmente, com o nome de 100 PMs que não estivessem respondendo a nenhum inquérito policial ou qualquer sanção disciplinar, ou seja, que possuíssem “conduta ilibada”. Os nomes cedidos pelo coronel Bessa passaram antes pela Assessoria de Inteligência da Polícia Militar, constatando que todos eles não atendiam aos critérios exigidos pelo Governador, o que acabou por provocar a exoneração do coronel Bessa de sua função de comandante. A atitude do coronel revela a resistência da corporação às medidas administrativas, em termos de segurança pública, tomadas pelo Governador, dentre elas, a própria criação do Ronda do Quarteirão. 47 O projeto inicial do Programa Ronda do Quarteirão não previa o fim da “Ronda Escolar”, mas sim a sua otimização. A “Ronda Escolar” correspondia a uma “atividade de policiamento ostensivo praticado junto às escolas da rede oficial de ensino e a eventos estudantis, com o propósito de evitar a ação criminosa junto às escolas, professores e funcionários”. Geralmente, os policiais militares que compunham a “Ronda Escolar” eram “designados para participar de palestras com temas voltados ao Estatuto da Criança e do Adolescente, às drogas e outros de natureza humanitária”. (CEARÁ, 2008, p. 62 e 63). 48 São outras recomendações: a incorporação deve ter caráter individual, caso a caso; e os servidores militares devem atender os mesmos critérios que o pessoal não militar. (OSSE, 2006, p. 238). 90 De todo modo, percebe-se um recrutamento forçado e que não levou em consideração a aptidão ou não do policial veterano, e até mesmo dos “novatos”, aos princípios do policiamento comunitário. Durante entrevista, o soldado 3 relatou que ainda tentou “fugir” do recrutamento para o programa em uma primeira convocação, mas com o fim da Ronda Escolar, onde trabalhava, acabou tendo que fazer parte do programa. Diz ele: “Na primeira vez eu escapei. Na segunda vez, o tenente [da Ronda Escolar] me chamou de volta. Na terceira, puxaram tenente com tudo. Puxaram o comandante da gente, não teve mais para onde correr. Acabaram com a Ronda Escolar e me colocaram no 5º [Batalhão]. Fiquei no 5º por três meses. Cursos diretos...” Talvez, por isso, tenha sido um erro do Programa “convocar” esses policiais, sem que eles compartilhassem efetivamente dos ideais de um programa de policiamento comunitário, pois muitos realmente não desejar trabalhar com esse tipo de policiamento, como relatado pelo soldado 3. Assim, não é de se admirar que durante a execução do Programa tenha ocorrido casos em que o “policial antigo” “que por ser antigo, é o comandante da viatura”, tenha impelido o soldado novato de realizar as visitas comunitárias, por considera-las “besteira”, como no relato abaixo: Às vezes eu quero fazer uma visita comunitária como eu aprendi no Curso de Formação, e o policial antigo, que por ser antigo, é o comandante da viatura, não permite fazer. Segunda-feira, eu estava voltando do „Frotinha‟ [Hospital] e falei assim: „Chefe, por que a gente não vai fazer assim?‟ Quando eu estou fazendo a visita comunitária, eu quero falar do jeito que eu aprendi no Curso e eles chegam e falam assim: „Não isso é besteira, é só pegar o nome, pega só o nome, o telefone, o endereço e a gente manda aqui‟. Porque é isso que eles querem no CIOPS [Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança], que a gente mande no TMD [Terminal Móvel de Dados], né? (...) „Aqui a gente vai porque não dá tempo perder tempo com besteira não‟. Aí falam: „Isso é só no Curso de Formação. Isso é só besteira‟ (depoimento concedido pelo soldado 5, 4 meses de formação). Pouco mais de seis meses após a implantação do programa Ronda do Quarteirão, em junho de 2008, a Polícia Militar do Ceará, por meio da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) e Secretaria do Planejamento e Gestão do Estado do Ceará (Seplag) iniciam um novo recrutamento para o Ronda do Quarteirão. Nesse recrutamento, além da estabilidade financeira (soldados 7, 8 e 9) e presença de policiais militares na família (soldado 9), comuns para a entrada dos jovens na Polícia Militar, a simpatia pela filosofia do programa (soldado 7) também foi um requisito subjetivo para candidatar-se a uma das vagas oferecidas. Segundo a soldado 7, foi o modelo de policiamento diferenciado, proposto pelo Ronda do Quarteirão, que a levou a se inscrever no Concurso Público, algo que até então ela não pensava em fazer. 91 5.2. O Processo Seletivo para o Ronda do Quarteirão: É o edital, por sua vez, que traz de maneira mais detalhada os critérios necessários para a investidura do cargo, assim como as fases do processo seletivo. De acordo com Osse (2006), a seleção deve ser um processo neutro e objetivo, mas na maioria dos países os critérios de seleção se limitam a critérios físicos que, na maior parte das vezes, incluem determinações para estatura, peso e superação de provas práticas. Comumente, exige-se também que possua determinada idade e um grau de escolarização mínimo. Há ainda aqueles processos seletivos que exigem teste de conhecimentos gerais, psicológicos e investigação de antecedentes criminais. No caso para a entrada no Ronda do Quarteirão, em 2007, o edital público determinava entre outros requisitos que o candidato possuísse até a data de inscrição no Concurso, idade igual ou superior a 18 anos e inferior a 26 anos, se civil, e 30 anos se militar (subitem 17.2). No concurso realizado em 2008, não há mais essa distinção entre civis e militares, ambos deveriam ter idade superior a 18 anos e inferior a 30 anos até a data de inscrição no Curso de Formação (subitem 3.2). Como no concurso realizado em 2008, a limite da idade só era exigido na matricula no CFP, alguns candidatos com mais de 30 anos conseguiram ser aprovados no concurso público e se matricular no CFP com liminar judicial. Segundo a soldado 7, em sua turma havia um candidato nessa condição que chegou a completar o CFP, mas ao final acabou não entrando: “Fez o curso de formação todo, mas como ele tinha 31 anos, ele não ficou. Entrou ainda com liminar, mas sempre cai, liminar por idade, por não ser aprovado no exame físico, sempre cai. Por mais que passe muito tempo, sempre cai”.(depoimento concedido pela soldado 7, 3 anos na profissão). Além da idade, a Polícia Militar também estabeleceu, em ambos editais, que os candidatos tivessem grau de escolaridade mínimo no Ensino Médio e que possuíssem altura mínima de 1,62m, se candidato do sexo masculino, e 1,57m, se candidato do sexo feminino49. O edital determinava que o Concurso Público para o Ronda do Quarteirão em 2007 fosse realizado em quatro fases sucessivas: a primeira fase seria a realização da prova escrita, objetiva, de conhecimentos gerais; a segunda fase estava destinada ao exame médico-odontológico-toxicológico para a verificação das condições de saúde e de 49 Subitens 17.3 e 17.4 do Edital nº 007/2006; e subitens 3.8 e 3.11 do Edital n.º1 – PMCE, de 9 de junho de 2008 92 aptidão para o desempenho da atividade policial; já a terceira fase, o exame de capacidade física50, seria realizada para se verificar as performances físicas dos candidatos necessárias ao desempenho peculiar da atividade policial militar; e, finalmente, a quarta e última fase do concurso seria uma avaliação psicológica para a averiguação do perfil e dos atributos psicológicos do candidato para o desempenho das atividades policial militar. Com exceção da segunda fase, a qual era de caráter eliminatório, todas as demais possuíam tanto caráter classificatório quanto eliminatório. Somente depois de cumpridas todas as fases do concurso é que os aprovados fariam o Curso de Formação Profissional. As fases de seleção do concurso foram realizadas obedecendo ao convênio estabelecido entre a PMCE, a SSPDS e a UECE, no qual a primeira, terceira e quarta fases do Concurso ficaram a cargo da Fundação Universidade Estadual do Ceará (FUNECE) por intermédio da Comissão Executiva do Vestibular da Universidade Estadual do Ceará (CEV/UECE), enquanto que a segunda fase foi realizada sob a responsabilidade da SSPDS, por intermédio do Hospital Militar do Ceará e dos Institutos de Perícia do Estado51. Contudo, o Concurso acabou sendo realizado em cinco fases, pois a fase que se destinava ao exame médico-odontológico-toxicológico foi divida em duas, na qual a primeira destinou-se ao exame médico-odontológico e a outra ao exame toxicológico. Isso acabou por atrasar ainda mais a realização do Curso de Formação, pois um exame que era para ter sido realizado em janeiro acabou sendo realizado, somente, em agosto (QUADRO 6). Quadro 6 - Cronologia do Concurso para Soldados de Fileira da Polícia Militar do Ceará (2006-2007) DATA ATIVIDADE 07/06/2006* 04/06/2006* 20/07/2006* 10/01/2007* 24/01/2007* 10, 11 e 12/04/2007* 10/05/2007* 28/06/2007* 07/08/2007* 29 e 30/08/2007* 05/09/2007* 10/09/2007* Edital de Abertura Prova Escrita Resultado da Prova Escrita Exame Médico-Odontológico Resultado do Exame Médico-Odontológico Exame de Capacidade Física Resultado do Exame de Capacidade Física Avaliação Psicológica Resultado da Avaliação Psicológica Avaliação Toxicológica Matrícula no Curso de Formação Início do Curso de Formação 50 Compunha-se de salto em distância, corrida de 100 metros, salto em altura e corrida de 1.500 metros para candidatos do sexo masculino; para os candidatos do sexo feminino, seria salto em distância, corrida de 100 metros e corrida de 1.500 metros. 51 3ª e 4ª Cláusulas do Capítulo I do Edital nº 007/2006. 93 21/12/2007** Formatura dos primeiros 713 soldados do Ronda do Quarteirão *Fonte: < http://gemeos2.uece.br/cev/conc/pmce2006/conc_pmce-603.htm> ** Fonte: Jornal O Povo, 22/12/2007, p. 06. O concurso público realizado em 2008 foi dividido em dois momentos: o primeiro momento foi de seleção e formação de uma primeira turma que seria colocada nas ruas até o segundo semestre de 2009; e o segundo momento foi de chamada dos classificáveis da seleção de 2008 para a formação de uma segunda turma para dar início às atividades no Ronda do Quarteirão no ano de 2010. O concurso público para a convocação da Primeira Turma do Curso de Formação Profissional foi regida pelo Edital nº 01 – PMCE, de 09 de junho de 2008. Como um dos motivos do atraso no Curso de Formação Profissional de 2007 foram as várias etapas do concurso público, além das crises geradas com a “má formação” dessa primeira turma, o novo edital do concurso trouxe algumas mudanças tanto para o processo de recrutamento quanto para a formação profissional. A primeira, e mais perceptível dessas mudanças, foi quanto à estrutura do recrutamento, pois a seleção passou a ser feita em apenas três etapas: a primeira etapa correspondeu a um “Exame Intelectual”, com a aplicação de uma prova objetiva de caráter eliminatório e classificatório; a segunda etapa foi destinada a “Inspeção de Saúde”, através de um exame médico-odontológico, biométrico e toxicológico, de caráter eliminatório; a terceira e última etapa do concurso foi o “Curso de Formação Profissional” (CFP), de caráter eliminatório e classificatório, no qual foram realizadas as seguintes atividades: (a) prova de capacidade física; (b) avaliação psicológica; (c) investigação social; (d) prova objetiva. As três primeiras atividades eram de caráter eliminatório e a última de caráter eliminatório e classificatório. O recrutamento para a segunda turma foi regido pelo Edital nº 79/2009, o qual viabilizava a continuidade do Concurso com a oferta da Segunda Turma do Curso de Formação Profissional e seguiria o mesmo modelo de recrutamento e formação estabelecido pela CESPE/UnB. Este edital alterava o subitem 8.3 do Edital nº 01 – PMCE, o qual determinava que os candidatos aprovados na prova objetiva do Concurso Público de 2008, classificados até o 2.850º lugar, se do sexo masculino, e até o 150º lugar, se do sexo feminino, seriam convocados para a realização da segunda etapa – inspeção de saúde (exames médico-odontológico, biométrico e toxicológico). Com o Edital nº 79/2010, foram chamados os candidatos aprovados no Concurso Público de 2008 com classificação entre 2.851 até 5.225, se do sexo masculino, e de 151 até 275, se do sexo feminino. Assim, foram convocados para a segunda etapa do concurso 2.375 homens e 125 mulheres. 94 Quadro 7 - Cronologia do Concurso para Soldados de Fileira da Polícia Militar do Ceará (2008/2009 e 2009/2010) DATA Concurso 2008/2009 DATA Concurso 2009/2010 10/06/2008* 14/09/2008* 10/10/2008* -----18/06/2009** -----18 a 21/10/2008* 06, 07, 10 a 12/11/2008* 19/11/2008* 28/12/2009** 30 e 31/01/2010 e 01/02/2010** 04 e 05/02/2010** 08/02/2010** 20 a 23/11/2008* 17/12/2008* 11/02/2010** 12/02/2012** 15/12/2008 a 31/05/2009* 18 a 20/12/2008* ATIVIDADE Edital de Abertura Primeira Etapa: Prova Escrita Resultado da Prova Escrita Correção no Edital nº 1- PMCE, de 09 de junho de 2008 para a chamada dos classificáveis da primeira etapa. Chamada dos Classificáveis Segunda Etapa: Inspeção de Saúde Exame MédicoOdontológico Entrega dos laudos dos exames toxicológicos Resultado dos Exames Médico-Odontológico, Biométrico e Toxicológico. Matrícula para o Curso de Formação Profissional Aula Inaugural no Centro de Convenções de Fortaleza presidida pelo Governador Cid Ferreira Gomes Terceira Etapa: Curso de Formação Profissional 22/02/2010 a 26/06/2010** 30/03/2010, 01, Prova de Capacidade Física (1ª Oportunidade) 03 e 04/04/2010** 17 e 18/01/2009* 25/04/2010** Prova de Capacidade Física (2ª Oportunidade) 08/02/2009* 16/05/2010** Prova de Capacidade Física (3ª Oportunidade) 01/03/2009* 08/05/2010** Avaliação Psicológica (1ª Oportunidade) 29/03/2009* 13/06/2010** Avaliação Psicológica (2ª Oportunidade) 31/05/2009* 26/06/2010** Prova Objetiva 25/06/2009* 01/07/2010** Resultado Final *Fonte: Cespe/UnB. Disponível em: <http://www.cespe.unb.br/concursos/PMCE2008/>. Acesso em: 05/07/2012. **Fonte: UECE. Disponível em: < http://www.uece.br/concursopmce/ > Podemos afirmar que a escolha pelo CESPE/UnB foi uma “jogada de marketing” do Governo Estadual para dar melhor credibilidade ao processo seletivo e formativo dos soldados, visto que a instituição é uma das principais organizadoras de concursos públicos do país e referência nacional em processos seletivos e avaliativos de grande porte. Como órgão da Universidade de Brasília (UnB), o CESPE destina recursos dos pagamentos dos eventos realizados ao Fundo de Apoio Institucional (FAI) daquela Universidade. Segundo dados do Jornal do CESPE/UnB52, nos últimos três anos (20082010), os valores dos repasses ao fundo totalizaram cerca de R$ 111 milhões de reais. Esses recursos foram aplicados basicamente na manutenção dos campi da UnB, o que nos 52 O CESPE/UnB por dentro. Jornal do CESPE/UnB. Ano 06, nº 22, abril, maio e junho de 2011. 95 leva a concluir que o processo de recrutamento e o Curso de Formação de Soldados de Fileiras da Polícia Militar do Ceará, de 2008/2009, contribuíram para os investimentos feitos na UnB, ao invés da Universidade Estadual do Ceará. Outra modificação trazida pelo Edital nº 01/2008, diz respeito ao Curso de Formação Profissional (CFP), o qual passou a abrigar três testes eliminatórios no decorrer da sua realização: prova de capacidade física, investigação social e a avaliação psicológica. Com isso, o aluno do CFP passa a não fazer mais parte do quadro hierárquico da PMCE, na condição de “Praças Especiais53” do Círculo de Cabos e Soldados como “aluno-soldado”, mas ainda como “candidato” a uma vaga de soldado da PMCE. Para o soldado 5, entrar na condição de “candidato” foi um avanço para a formação dos soldados, pois, assim, não seriam submetidos a qualquer tipo de atividade que não estivesse relacionada a sua aprendizagem: “É, que alguns cursos anteriores quando você entrava na condição de recruta a soldado, era aquela função: você não era treinado pra ser um policial, você era treinado pra ser qualquer coisa, era um faxineiro, colocavam os alunos ao invés de ter aula pra limpar o quartel, pra pintar as paredes, utilizavam essa mão de obra pra tudo, entendeu? E agora não, como foi organizado pelo CESPE, a gente teve realmente a função de estudante, a gente aprendeu, a gente tinha aulas, era totalmente controlado o horário de entrada e de saída. Os militares até estranhavam muito, os superiores, os oficiais a questão de não poder realmente punir, de não poder deixar os alunos presos quando os alunos faziam alguma coisa errada como antigamente acontecia na história da polícia”. Já a soldado 6 relata que sentiu certa “desvalorização” dentro da instituição, por não ser aluno-soldado: “Existe um lado bom na história, porque assim, como a gente era candidato não tinha certo vínculo, então um oficial que viesse dar aula e ficasse enrolando a gente tinha o poder de denunciar ele e o trocariam Há desvantagens também, como a falta do vínculo em relação a não ser considerado um funcionário público, não era aluno militar, era um civil propriamente dito, a gente sentia muito isso, essa desvalorização. Ao mesmo tempo, no curso em si, as pessoas que vinham dar aula não eram nossos superiores, tinham um temor porque poderiam ser denunciados”. O que a soldado relata, Monjardet (2003, p. 70) denominou de the man in the middle ou o homem entre dois grupos, quando estudava o papel do “cabo” na Polícia 53 De acordo com o artigo 30 da Lei nº 13. 729, de 11 de janeiro de 2006, mais conhecida como “Estatuto dos Militares Estaduais do Ceará” são considerados “Praças Especiais” o aspirante-a-oficial e cadete do Curso de Formação de Oficiais PM e BM e o aluno-soldado do Curso de Formação de Soldados da PM e BM, excepcionalmente ou em reuniões sociais, quando terão acesso ao Círculo de Oficiais Subalternos e ao Círculo de Cabos e Soldados, respectivamente. 96 Francesa. Segundo o autor, o “cabo” é uma função na polícia que fica entre dois grupos, o dos “guardas” e o dos “oficiais”, mas não pertence nem a um e nem ao outro. Essa “ambiguidade da dupla pertença” ou da “ausência de pertença” ocorreu com os candidatos desses Cursos de Formação Profissional, pois não podiam ser considerados “alunossoldados” porque a qualquer momento podiam ser eliminados, mas estavam sujeitos à HIERARQUIA e à DISCIPLINA, próprios da Corporação Militar, como é possível perceber através dos artigos 56, 59, 60 e 66 do Regulamento do Curso de Formação Profissional de 2010: Art. 56. A disciplina e o respeito à hierarquia devem ser mantidos permanentemente, tanto no ambiente do CFP, como também no convívio social. Art. 59. A continência e o tratamento respeitoso deverão ser prestados aos Oficiais e Praças da Polícia Militar do Ceará, sendo extensivos nos relacionamentos com os demais militares das forças armadas e das forças auxiliares. § 1º. A continência deverá ser extensiva aos professores civis do CFP por ocasião da apresentação da turma no início das atividades curriculares. § 2º. A apresentação individual do candidato, afora os protocolos constantes na legislação específica que serão repassados pelo Coordenador e o Monitor de Turma e deverá contemplar sua situação como candidato do Curso de Formação Profissional de Praças da PMCE, em seguida proferindo o respectivo nome de guerra. Art. 60. As continências de tropa e demais procedimentos correlatos obedecerão ao previsto nas disciplinas de Ordem Unida e Instrução Geral. Art. 66. Será realizada sob o gerenciamento do Coordenador de Turma, diariamente, e preferencialmente antes do início das atividades curriculares, no mínimo, uma vistoria que compreenderá a fiscalização dos tópicos pessoais atinentes ao candidato, compreendendo vestuário e a obediência aos preceitos da apresentação pessoal. Como pode ser visto no quadro 7, outra modificação trazida pelo Edital nº 01/2008 foi quanto à prova de capacidade física e a avaliação psicológica. De acordo com o edital, o candidato poderia realizar a prova de capacidade física três vezes para ver se conseguia atingir o nível necessário e a avaliação psicológica seria realizada em duas oportunidades, devendo o candidato obter êxito em uma delas, sob pena de ser considerado inapto. Sobre o assunto, o soldado 5 colocou tal modificação como um dos aspectos negativos do CFP de 2009, pois muitos deles haviam deixado seus empregos para fazer o curso de formação, já que este exigia dedicação exclusiva do candidato. 97 5.3. A Formação Profissional para o Ronda do Quarteirão: o currículo oficial em prática Os Cursos de Formação Profissional (CFPs) para o Ronda do Quarteirão, 2007, 2009 e 2010, foram fortemente influenciados pelas pressões sociais e políticas em torno do seu processo de execução, assim como pelas necessidades de mudanças oriundas da sua execução. Em 2007, como o programa já estava com a data de implantação atrasada, a Polícia Militar do Ceará, juntamente com a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social, com o objetivo de atender as exigências políticas em torno da execução do Ronda, decidiram que carga horária do Curso de Formação de Soldados de Fileiras seria reduzida de 1.078 horas/aula para 715 horas/aula, o que representou uma diminuição de seis meses para três meses de formação. O Curso de Formação Profissional de 2007 possui algumas características que o faz singular dos demais cursos de formação de soldado da PMCE já realizados no Estado. A primeira característica é o de que este curso seria o primeiro a introduzir as modificações curriculares propostas pelo documento Matriz Curricular em Movimento (MCM), dando início, assim, a uma nova Malha Curricular. Segundo por ser o primeiro curso para a capacitação dos soldados que viriam a compor o Ronda do Quarteirão. Terceiro, por ter-se realizado por meio do convênio estabelecido entre a Polícia Militar do Ceará (PMCE) e Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) com a Universidade Estadual do Ceará (UECE), o que nos dá a oportunidade de analisar o papel que a Universidade exerceu no ensino policial. Os policiais veteranos selecionados foram capacitados através do “Curso Nacional de Promotor de Polícia Comunitária” (BRASIL, 2007) elaborado pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP), compondo-se por seis disciplinas: Polícia Comunitária e Sociedade; Gestão pela Qualidade na Segurança Pública; Direitos Humanos; Relações Interpessoais; Mobilização Social e Estruturação dos Conselhos Comunitários; e Mediação e demais meios de resolução pacífica de conflitos e a Polícia Comunitária. O Curso Nacional de Promotor de Polícia Comunitária foi realizado em três meses com aulas ministradas no Quartel do Comando Geral (QCG), na Faculdade Estácio do Ceará (Estácio/FIC) e na Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC) por instrutores da Polícia Militar, professores civis e palestrantes. As aulas eram teórico- 98 reflexivas e segundo um dos entrevistados, como “as viaturas não estavam prontas, as áreas não haviam sido designadas”, o Curso acabou tornando-se “uma coisa repetitiva, nós não avançamos nesse sentido, ninguém avançou. [Quando outros policiais que não haviam participado da aula compareciam] ele [o professor] tornava a repetir a mesma aula, aqueles que já haviam [participado], tornavam a ver54”. Ao que pode ser complementado pelo depoimento do outro soldado: “(...) só Gestão da Qualidade acho que nós tivemos umas 70 aulas. Pelo menos essa questão da Gestão da Qualidade e tal, embutiram mesmo na cabeça da gente, a coisa do serviço privado mesmo, foi pancada, foi uma lavagem. (...) no caso da Gestão de Qualidade era mais o atendimento ao público, no caso você procurar atender bem o público, aquele negócio do cliente satisfeito, né? Até quando começou o Ronda a gente atendia uma ocorrência, o pessoal agradecia e „aê: mais um cliente satisfeito‟. Então é coisa de loja mesmo, a gente brincava desse jeito. O serviço público mesmo ele em si já tem aquele negócio de não atender bem ao pessoal, né? No caso eles estavam querendo embutir a teoria dos 55 5S , a ISO [Organização Internacional de Padronização] e tal pra embutir, internalizar mesmo, uma camada maciça de lavagem mental” (depoimento concedido pelo soldado 3, há 6 anos na profissão). Já os policiais selecionados por meio do Concurso Público, o Curso de Formação Profissional foi realizado em, apenas, três meses. Segundo Mota Brasil, Lima e Cruz (2008), a redução da carga horária causou prejuízos à formação desses policiais. No trabalho realizado por Cruz (2010), a autora é elencado quatro prejuízos ocasionados pela redução da carga horária total do Curso de Formação: o primeiro deles foi a diminuição na carga horária específica das disciplinas; o segundo foi o não seguimento da Malha Curricular da Matriz Curricular em Movimento como horizonte norteador da formação; o terceiro foi a ausência de Estágio Supervisionado; e, finalmente, o quarto e último prejuízo foi a ausência de aula de direção defensiva. A autora constatou, em uma análise comparativa entre as cargas horárias das disciplinas ministradas durante os Cursos de Formação de Soldados de Fileiras da PMCE nos anos de 2001/2003/2005 em relação ao de 2007, que das 29 disciplinas ofertadas no Curso de Formação de 2007, 13 sofreram redução na carga horária, que vai desde a diminuição de 10 horas/aula até mesmo a 30 horas/aula; foram acrescidas as disciplinas de Policiamento Comunitário e Lições de Direito Penal e Processual Militar; e 13 disciplinas não 54 55 Depoimento concedido pelo soldado 4, há 6 anos na profissão. A Teoria dos 5S é uma metodologia que surgiu no Japão nas décadas de 1950 e 1960, após a Segunda Guerra Mundial, quando o País vivia a chamada crise de competitividade. O método foi desenvolvido em busca de um Sistema de Qualidade Total para as empresas. Os cinco conceitos foram introduzidos no Brasil em 1991 pela Fundação Cristiano Ottoni. Os cinco conceitos são: 1º S: Seiri ou Senso de Utilização; 2º S: Seiton ou Senso de Arrumação; 3º S: Seiso ou Senso de Limpeza; 4º S: Seiketsu: Senso de Saúde e Higiene; e 5º S: Shitsuke: Senso de Autodisciplina. (Disponível em: <http://www.anvisa.gov.br/reblas/procedimentos/metodo_5S.pdf>. Acesso em: 04/07/2012). 99 tiveram redução na sua carga horária, sendo elas, em grande parte, jurídicas. Ao todo mais da metade das disciplinas ficaram com uma média de 20 horas/aula, como pode ser observado no quadro 8: Quadro 8 – Comparativo das cargas horárias das disciplinas ministradas nos CFPs de 2001/2003/2005 e 2007 DISCIPLINA RESPONSÁVEL CARGA HORÁRIA CFSdF 2001/2003/2005 20h/a 30h/a 20h/a CARGA HORÁRIA CFSdF 2007 10h/a 20h/a 20h/a Seminário Introdutório UECE Sociedade, Ética e Cidadania UECE Fundamentos Psicossociais do Fenômeno da UECE Violência Introdução ao Estudo do Direito UECE 20h/a 20h/a Fundamentos de Direito Constitucional UECE 20h/a 20h/a Fundamentos de Direito Administrativo UECE 20h/a 20h/a Fundamentos de Direito Penal UECE 20h/a 20h/a Fundamentos de Direito Processual Penal UECE 20h/a 20h/a Lições de Direito Penal e Processual Militar SSPDS e UECE 15h/a Fundamentos de Direito Civil UECE 20h/a 20h/a Fundamentos de Direito Ambiental UECE 20h/a 20h/a Direitos Humanos UECE 30h/a 20h/a Introdução à Informática UECE 30h/a 30h/a Fundamentos da Atividade dos Profissionais SSPDS e UECE 30h/a 20h/a de Segurança do Cidadão Sistema de Segurança Pública no Brasil SSPDS e UECE 20h/a 20h/a Legislação da Polícia Militar SSPDS e UECE 30h/a 30h/a Educação Física SSPDS e UECE 60h/a 50h/a Atendimento em Emergências Médicas SSPDS e UECE 30h/a 20h/a (Pronto-Socorro) Eficácia Pessoal* SSPDS e UECE 45h/a 20h/a Telecomunicações SSPDS e UECE 20h/a 20h/a Técnica Policial Militar SSPDS e UECE 120h/a 80h/a** Armamento e Equipamento*** SSPDS e UECE 90h/a 60h/a Defesa Pessoal**** SSPDS e UECE 60h/a 50h/a Ordem Unida SSPDS e UECE 45h/a 30h/a Noções de Informação***** SSPDS e UECE 20h/a 20h/a Seminário de Encerramento SSPDS e UECE 20h/a Seminário Temático I – Prevenção ao Uso de SSPDS e UECE 10h/a Drogas: o papel do policial Seminário Temático II – Sistema de Segurança SSPDS e UECE 4h/a Pública: a experiência do Ceará Seminário Temático III – Qualidade de Vida e UECE 10h/a Prática Profissional Português Instrumental UECE 30h/a 20h/a Polícia Comunitária UECE 20h/a Fonte: Veras, 2008. Em negrito: disciplinas que tiveram redução na carga horária ao serem ministradas no CFSdF de 2007. *Para o CFSdF de 2007 a disciplina de Eficácia Pessoal passou a ser denominada por Eficácia Pessoal e Mediação de Conflitos. **Para o CFSdF de 2007 a disciplina de Técnica Policial Militar foi dividida em dois módulos, tendo cada uma 40h/a. 100 *** Para o CFSdF de 2007 a disciplina de Armamento e Equipamento passou a ser denominada por Tiro Policial Defensivo. ****Para o CFSdF de 2007 a disciplina de Defesa Pessoal passou a ser denominada por Defesa Pessoal e Uso da Tonfa. ***** Para o CFSdF de 2007 a disciplina de Noções de Informação passou a ser denominada por Inteligência Policial Militar. A autora também constatou que algumas disciplinas sugeridas pela Malha da MCM (2006) para serem ministradas no núcleo comum não foram repassadas. São elas: Criminologia Aplicada à Segurança Pública; Análise de Cenários e Riscos; Relações Humanas; Sistemas Informatizados; Preservação e Valorização da Prova; Uso da Força. Conteúdos muito importantes para a formação dos soldados, especialmente para os do Ronda do Quarteirão, já que uma das intenções seria que eles chegassem primeiro ao local do crime. Tavares dos Santos (2007, p. 105) já havia constatado a ausência de conteúdos referentes a sistemas de informação, como a informatização de boletins de ocorrência online até o geo-referenciamento das ocorrências, o que segundo o autor, “permite planejar o posicionamento de patrulhas e de policiais na rua, e para a investigação”. Essa redução da carga horária total do Curso de Formação acarretou percas tanto para as disciplinas voltadas às ciências sociais e humanas como aquelas de teor técnico-operativo. Esses policiais não ficaram com deficiências apenas no que diz respeito à compreensão da importância do estabelecimento e manutenção de vínculos com a população por meio do seu exercício profissional, ou seja, seu trato com a população, que havia sido colocado na mídia como o grande diferencial do programa Ronda do Quarteirão, mas também em questões relacionadas às técnicas policiais, às noções de informação e utilização de armamentos letais e não letais. Mesmo a disciplina de policiamento comunitário, responsável pelo conteúdo filosófico do Programa Ronda do Quarteirão, foi ministrada em 20 horas/aulas, uma carga horária inferior às das disciplinas de Defesa Pessoa e Ordem Unida, que foram ministradas com carga horária de 50 e 30 horas/aula, respectivamente. Assim, não é de admirar a fragilidade do pacto pretendido pelo programa: a proximidade entre a polícia e a comunidade. Segundo relato do soldado 1, a disciplina de Policiamento Comunitário fora ministrada ao final do curso: “depois que a gente terminou o curso aí botaram a gente pra 101 fazer uma semana de policiamento comunitário, essas coisas”. O soldado também reconhece que sua formação não foi voltada para a atividade de policiamento comunitária, mas sim para o policiamento tradicional ou, como ficou conhecido após o desenvolvimento do Ronda do Quarteirão, Policiamento Ostensivo Geral (POG): Nossa turma foi bem dizer a última que foi formada assim pra policial mesmo, que essa última agora de 2009 ela foi formada pra ser policial comunitário mesmo, teve nada... os nossos professores foram tudo militar, essas coisas. Quanto à supressão do Estágio Supervisionado ou Ação Policial Supervisionada (APS), o qual durante a formação das turmas anteriores (2001, 2003 e 2005) tinha sido destinado 114 horas/aula, podemos concluir que os soldados formados na primeira turma não passaram por um período de estágio necessário para se adaptar à profissão, logo que concluíram o curso de formação foram trabalhar nas ruas da cidade. Quando indagado sobre a disciplina de “Estágio Supervisionado” o soldado 1 nem soube responder, associou a disciplina ao período de “Estágio Probatório”: “Estágio a gente está tendo. Quando a gente entra na polícia, a gente tem três anos de estágio probatório. Eu já estou com dois anos, aí falta só mais um. Nesses três anos é pisando em ovos”. (grifos nosso) A falta do Estágio Supervisionado teve consideráveis repercussões na atuação profissional desses soldados, como pode ser percebido através do relato da professora Juruena Moura ao Grupo Focal Institucional: [E]m relação à questão da atuação que eu acho que tem muito a ver com a questão da formação, é só um fato que eu presenciei. Era um som alto que tinha perto da minha casa e o que eu notei foi a dificuldade que eles tiveram para lidar com a situação: a quantidade de vezes que eles ligaram para o superior deles, veio até três viaturas para dar apoio a eles porque eles não se sentiam seguros. Não tinham conhecimento para saber se entravam, se não entravam [no estabelecimento], se apreendiam, se não apreendiam [o som]. (...) eles sentiram uma certa aflição. Eu era advogada e o meu vizinho promotor e eles, com medo de tomar alguma atitude que não fosse correta, tiveram receio de ter uma ação. A gente sentiu que foi, realmente, por falta de um conhecimento. Outro fato importante desta formação foi a ausência de aulas de direção para conduzir às potentes e modernas Hillux compradas exclusivamente para o programa Ronda do Quarteirão. Sobre esse assunto, a professora Juruena Moura que ministrou aula durante o Curso de Formação de 2007, relatou ao Grupo Focal Institucional, um caso ocorrido em sala de aula, enquanto ministrava a disciplina de Direitos Humanos: “eu estava em sala de aula, em uma aula de Direitos Humanos, entrou um colega PM do senhor [coronel Túlio Studart] dizendo: „Quem sabe dirigir?‟ – e a relação foi feita dessa forma. Eu fiquei estarrecida”. 102 De acordo com um dos soldados entrevistados foi feita uma apresentação sobre a nova viatura por profissionais da marca Toyota, mas como eram muitos formandos e a apresentação só se daria em meio período, nem todos puderam conhecer a viatura por dentro: “O que na verdade houve foi uma propaganda, porque nós fomos levados até a Academia [Academia de Polícia Militar General Edgard Facó], lá foi exposto o que era o veículo através de slides, aí ele pegava: „agora vamos conhecer o carro‟. É, vamos conhecer, vamos. Eram muitos policiais e não tinha tempo, isso era pra ser feito em meio dia. Isso na época ainda do curso de formação, vamos conhecer o carro. Então como é? O cara entrava lá, ele era o motorista, aí escolhia um policial como motorista, o cara entrava e ficava no banco do passageiro da frente e três outros policiais entravam no banco de trás e ficavam olhando o que o outro ia fazer, aí ele saía dava uma volta no quarteirão e voltava pra Companhia. (...) Aliás, eu dei uma volta no banco de trás, eu não dirigi. Na verdade já era mais de meiodia e todo mundo queria almoçar, saberia que não passaria de uma volta mesmo e muita gente foi embora sem dar a volta mesmo, foi-se embora sem dar a volta”. (depoimento concedido pelo soldado 4, há 6 anos na profissão). Podemos afirmar, sem medo de errar, que os acidentes envolvendo viaturas do Ronda são frutos da própria formação policial que não ministrou o Curso de Direção Defensiva. O próprio ex-secretário de Segurança Pública, Roberto Monteiro, admite ao Grupo Focal, a relação imediata entre a ausência desse treinamento específico e os vários acidentes ocorridos: “E só para se ter uma ideia, teve alguns alunos que (...) tiraram a carteira de motorista para fazer os concursos. Então, não tinham nem uma ideia de trânsito. Todos nós aqui somos motoristas, sabemos que não se aprende a dirigir de uma hora para outra e dar uma viatura cheia de tecnologia, com câmbio hidramático, para esses policiais que nunca tiveram contato com isso, (...) então, o resultado a gente viu aí: bateram carros, uma confusão toda”. No processo de elaboração do Curso de Formação, o Centro de Educação da Universidade Estadual do Ceará (CED/UECE), responsável pedagógico pela formação dos policiais militares na época, posicionou-se contrário a redução da carga horária, mas acabou aceitando as imposições da SSPDS, conforme afirma o coordenador do Curso de Formação, Nelson Arruda: (...) quando a gente era chamado para discutir, praticamente as questões já estavam definidas com a Secretaria. E eu ficava muito preocupado com a questão do tempo, com as coisas feitas, assim, sem discussão, sem a gente se preparar previamente. Então, a Secretaria dizia: “olha, é uma decisão superior”. (...) Praticamente não tinha capacitação dos formadores, a gente tinha formadores da Polícia Militar e da Universidade, e a gente não tinha tempo para prepará-los. Então a gente fazia uma reunião com eles para preparar o material, mas não tinha nem tempo para reunir o material. (...) quando veio o Ronda, com toda força política que ele representava, eu esperava que nós tivéssemos um ano para 103 formar o pessoal. (...) passando as reuniões e, cada vez mais o tempo ia baixando. Primeiro, eram quatro meses. Na outra reunião, eram três meses. O meu medo era que na última reunião baixassem para dois meses. E aí, como é que ia ficar? Então, a formação foi muito prejudicada. (depoimento concedido ao Grupo Focal Institucional). (Grifos meus). Diante de todo esse relato, já era de se esperar que surgissem diversos casos de despreparo dos instrutores durante o Curso de Formação. O próprio secretário de segurança pública na época, Roberto Monteiro, relatou ao Grupo Focal Institucional alguns casos de despreparo e até mesmo considerou que a formação foi a pior possível, dando a ela uma nota 4 ou 5 em uma escala de 0 a 10. Do mesmo modo, secretário de segurança pública na época, o delegado Roberto Monteiro afirmou que a primeira turma “deixou muito a desejar”: “Nós tivemos muitos problemas com relação à formação da primeira turma. Não quero colocar a culpa em ninguém. A gente tem é que melhorar a formação que deixou muito a desejar”. (depoimento concedido delegado Roberto Monteiro, exsecretário de Segurança Pública, ao Grupo Focal Institucional). No entanto, o coordenador institucional do Ronda do Quarteirão, coronel Joel Brasil, afirmou durante a entrevista para as pesquisas da FUNCAP e CNPq que o curso de três meses tinha sido suficiente para capacitar os policiais em sua atuação profissional porque, ao contrário dos cursos anteriores, nesse, para compensar a redução da carga horária, os alunos-soldados tiveram aula até nos fins de semana. E mais, não foi um curso pior do que os que já haviam sido ministrados, afinal nesse os alunos tiveram aula e não precisaram “lavar banheiro”: “antes na cultura [Doutrina Militar], o cara ia para o curso de cinco meses, ficava no quartel, varria o quartel inteiro, lavava banheiro, capinava, com certeza exercício não fizeram. [Para o Ronda do Quarteirão] eles tiveram aula, foram três meses de aula, de ensinamento, exposição na sala de aula, o professor acompanhando...” (coronel Joel Brasil, ex-coordenador institucional do Ronda do Quarteirão). Em entrevista a um jornal local, o coronel Joel Brasil, afirmou que para equilibrar os (poucos) três meses de formação, o que se precisava, posteriormente ao curso, era da realização de capacitações e de ensino continuado ao longo da carreira (O POVO, 19/10/2009, p. 09). O que não aconteceu e ao que um dos soldados entrevistados relatou: “(...) você não tem uma formação continuada. O grande problema que eu acho é justamente esse. E outra, todo nosso tempo é destinado à atuação de policiamento na rua, você praticamente não tem treinamento, né? E quando é colocado um treinamento a você, essa formação quando é colocada pra você, é pra você exercê-la depois de seu horário de trabalho. Que são as minhas oito horas... Tá sendo atualmente ministrado um curso de tiro defensivo ou tiro prático, uma coisa assim, mas esse curso começa justamente aí duas horas da tarde, eu 104 trabalho de manhã e termina duas horas, então esse curso começa de duas horas da tarde e vai até, sei lá, cinco horas, seis horas, ele não é substituído pelo seu horário de trabalho, você tem que trabalhar e mais fazer um curso de aperfeiçoamento, um curso de treinamento”. (depoimento concedido pelo soldado 4, 6 anos na profissão). Os Cursos de Formação Profissional de 2009 e 2010 foram realizados em organizações56 da Polícia Militar localizadas em Fortaleza e Região Metropolitana. Segundo o Regulamento do CFP de 2010, cada turma seria composta, preferencialmente, por 35 candidatos, podendo este limite ser ultrapassado, desde que as salas tivessem condições. No entanto, a soldado 6 relatou que se “pudesse mudar algo na formação, mudaria as estruturas físicas, tipo banheiro e salas. Não havia espaço para as práticas de exercício, estes eram realizados no meio da rua”. Algo também relatado pela soldado 8, formada pelo CFP de 2010. Segundo ela, a estrutura do 5º Batalhão, onde realizou seu curso de formação, foi péssima: “um tanto quanto desumana (...) indo de encontro com as aulas de direitos humanos que assistíamos”. A soldado relata que as três salas que havia no Batalhão eram muito quentes, especialmente, no período da tarde, o que lhe tirava o foco nas aulas; a água do bebedouro tinha um gosto ruim; e os banheiros eram insuficientes para o número de candidatos que estavam lá, sobretudo o feminino, pequeno e sem chuveiro, o que causava desconforto nas candidatas após as aulas de educação física. A carga horária dos dois Cursos de Formação foi de 1.020 horas/aula, cada um, funcionando diariamente, em período integral57, de segunda a sábado, com a possibilidade de se utilizar os domingos, feriados e pontos facultativos para aulas, estágios e treinamentos internos e externos. A grade curricular dos cursos era a seguinte: 56 Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (CFAP); Colégio da Polícia Militar (CPM); Esquadrão de Polícia Montada (EPMont); 5º Batalhão de Polícia Militar e suas Companhias; Quartel do Comando Geral (QCG); 6º Batalhão de Polícia Militar e suas Companhias; Polícia Rodoviária Estadual (PRE); Comando de Policiamento do Interior (CPI); Diretoria de Apoio Logístico (DAL); Companhia de Policia Militar Ambiental (CPMA); Coordenadoria Integrada de Operações Aéreas (CIOPAER); Companhia de Eventos; Academia de Polícia Civil Batalhão de Policiamento Comunitário. 57 O CFP funcionava em dois períodos: matutino e vespertino. O período matutino começava às 06h50m e terminava 11h40m; já o período vespertino tinha início às13h e terminava às 17h40m. Em ambos períodos eram ministradas cinco aulas. Fonte: Regulamento do Curso de Formação Profissional de 2010. Disponível em: < http://www.uece.br/concursopmce/index.php/noticias/14-lista-de-noticias/223-regulamento-docurso-de-formacao-profissional >. Acesso em: 23/05/2012. 105 Quadro 9 – Disciplinas ministradas nos Cursos de Formação Profissional (CFP) da PMCE de 2009 e 2010 Nº 01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 14 15 16 17 18 Nº 01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 14 Nº 01 02 I – ENSINO FUNDAMENTAL DISCIPLINA Seminário Introdutório Comunicação e Expressão Sociedade, Ética e Cidadania Introdução ao Estudo do Direito Fundamentos de Direito Constitucional Fundamentos de Direito Administrativo Fundamentos de Direito Penal Fundamentos de Direito Penal Militar Fundamentos de Direito Civil Fundamentos de Direito Ambiental Fundamentos de Direitos Humanos Fundamentos de Direito Processual Penal Fundamentos de Direito Processual Penal Militar Saúde e Segurança Aplicada ao Trabalho Fundamentos Psicossociais da Atividade Policial Fundamentos Psicossociais do Fenômeno da Violência Fundamentos da Atividade Profissional da Segurança Pública Educação Física II – ENSINO PROFISSIONAL DISCIPLINA Sistema de Segurança Pública no Brasil Legislação da Polícia Militar Atendimento em Emergências Médicas (Pronto Socorro) Telemática – Telecomunicações e Informática Instrução Geral Gestão de Conflitos e Eventos Críticos Técnica Policial Militar Doutrina de Polícia Comunitária Armamento ( letal e não letal) e Equipamento Ordem Unida Inteligência Policial Defesa Pessoal Tiro Policial Defensivo Direção Veicular Aplicada a Atividade Policial Militar III – ENSINO COMPLEMENTAR DISCIPLINA CARGA HORÁRIA 08 20 20 20 20 20 20 20 20 20 30 20 20 20 30 20 20 60 Total Carga Horária 408 h/a CARGA HORÁRIA 20 30 20 20 40 40 90 40 30 40 20 60 60 28 Total Carga Horária 538 h/a CARGA HORÁRIA 08 08 Seminário Temático I - Prevenção ao Uso de Drogas: o Papel do Policial. Seminário Temático II - Sistema de Seg. Pública: a Experiência do Estado do Ceará 03 Seminário Temático III - Qualidade de Vida e Prática Profissional 08 04 Ação Policial Supervisionada (Estágio Reflexivo) 50 Total Carga Horária 74 h/a TOTAL GERAL DA CARGA HORÁRIA 1.020H/A Fonte: Decreto nº 29.596, de 30 de dezembro de 2008; Regulamento do Curso de Formação Profissional para o Candidato ao Cargo de Soldado da Carreira de Praça da Polícia Militar do Ceará (PMCE) – Turma 2. 106 No estudo comparativo entre o conteúdo programático (ementas das disciplinas e apostilas) dos Cursos de Formação Profissional de 2008/2009 e 2010 e a Matriz Curricular Nacional (MCN) para Ações Formativas dos Profissionais de Segurança Pública, de 2008, e por isso, horizonte norteador de ambas as formações, podemos afirmar, de modo geral, que houve uma reelaboração do conteúdo das apostilas, o que demonstra um maior comprometimento em atender aos princípios da MCN e às Diretrizes Pedagógicas da SENASP. É notável o esforço das disciplinas em direcionar seus conteúdos para a filosofia do policiamento comunitário e para a atividade profissional do soldado enquanto policial do Ronda do Quarteirão, através de exercícios e leituras que possibilitassem a participação ativa do candidato e uma prática-reflexiva. Para tanto, disciplinas como “Fundamentos de Direito Constitucional” e “Fundamentos de Direito Administrativo” traziam reportagens exemplificando o conteúdo estudado; a disciplina de “Fundamentos de Direito Processual Penal” trouxe, em seu anexo, modelos de Auto de Prisão em Flagrante, Nota de Culpa, Auto de Apreensão, Relatório de lavro de Auto de Prisão em Flagrante, Termo de Deserção, alguns dos documentos muito utilizados e visto pelos soldados; as disciplinas de “Educação Física”; “Defesa Pessoal”; “Armamento e Equipamento”, “Técnica Policial Militar” e “Tiro Policial Defensivo” traziam no seu conteúdo imagens e ilustrações passo-a-passo. Sobre a disciplina de “Armamento e Tiro” o soldado 5 relatou que foram ministradas aulas teóricas e práticas: “(...) tivemos primeiramente aula teórica de tiro. Eles não chegaram e entregaram as armas assim e começaram a atirar não, foi lento e gradual. (...) Aí, depois que a gente teve essas noções teóricas de tiro, de como utilizar a arma, a gente começou a parte teórica de armamento, conhecer o armamento em si, particularmente a pistola que a gente utiliza. Então a gente começou a ler, ler, ler, aí depois que a gente já tinha o domínio teórico sobre o armamento que a gente iria utilizar, a gente começou a utilizar a arma em sala de aula, mas assim, a arma sempre descarregada, que se chama “arma fria”, na gíria policial, que é aquela arma que ela tá sem munição. Então a gente treinava na lousa, Tiro AT como se chama, é aquele tiro onde não há munição, só treinando posicionamento de tiro em sala de aula. Aí depois a gente foi pra um stand de tiro, o „Clube Sniper‟, que fica ali perto do Eusébio, um clube excelente. A gente efetuou vários disparos (...) cada aluno efetuou uns duzentos e cinquenta disparos, nunca na história da polícia, um policial em formação efetuou tantos disparos, nunca. Nos cursos anteriores muitos policiais eram formados e davam dez tiros, cinco tiros, alguns nem chegavam a efetuar disparos, a gente deu duzentos e cinquenta tiros foi uma coisa muito boa, que nunca, nunca na polícia teve uma possibilidade dessas”. Também foi possível notar que algumas disciplinas utilizaram estudos de caso para resolução de conflitos através de simulações em sala de aula, como em “Fundamentos da Atividade Profissional da Segurança Pública”. Ao final da apostila havia um exercício 107 denominado “Grupos de Verbalização e de Observação”, em que cada turma deveria ser dividida em seis grupos de cinco candidatos, sendo três “Grupos de Verbalização” e três “Grupos de Observação”. Após a divisão dos grupos, cada Grupo de Verbalização recebia um caso prático para encenar uma ocorrência policial, incluindo solicitante, vítimas, testemunhas e policias usando os novos conhecimentos adquiridos na disciplina e como integrante do programa Ronda do Quarteirão. O Grupo de Observação encerraria a atividade tecendo comentários sobre a adequação ou não da solução apresentada pelo Grupo de Verbalização. Um dos casos práticos trazidos na apostila foi o seguinte: A equipe do „Ronda do Quarteirão‟ percebe que dois vizinhos estão travando uma acirrada discussão defronte suas residências. Ao abordarem os cidadãos descobrem que o motivo da contenda diz respeito a uma árvore cujo tronco nasce no quintal de um, mas os galhos projetam-se sobre o quintal do outro. Um reclama que as folhas e frutos caídos em sua propriedade têm provocado muito aborrecimento e exige que o vizinho corte a árvore. O outro argumenta que a planta é sua e que não tem a intenção de cortá-la, além de não estar em condições financeiras de fazê-lo. Ambos fazem ameaças recíprocas de invasão de domicílio e agressão (p. 38). O caso acima relatado seria um exemplo do tipo de ocorrência que esses policiais poderiam ser chamados a atender. O uso desse tipo de metodologia é de grande valor educacional, pois possibilita a caracterização do mundo real da atividade do profissional policial ao candidato, além de lhe impor um exercício de convivência e de tomada de decisão com essa realidade, ainda que simulada. Entretanto, percebe-se ainda haver uma resistência em aderir à Malha Curricular, pois das vinte e uma disciplinas sugeridas, seis delas não foram ministradas: Uso da Força; Relações Humanas; Fundamentos de Gestão Pública; Criminologia Aplicada a Segurança Pública; Análise de Cenários e Riscos; Sistemas Informatizados. As duas novas disciplinas sugeridas pela Malha Curricular foram unidas a outras: “Mobilização Comunitária” uniu-se a “Fundamentos de Gestão Integrada e Comunitária” tornando-se a disciplina “Doutrina de Policiamento Comunitário”; e “Prevenção, Mediação e Resolução de Conflitos” uniu-se a “Preservação e Valorização da Prova” e “Gestão de Conflitos e Eventos Críticos” tornando-se a disciplina “Gestão de Conflitos e Eventos Críticos”. No caso da disciplina de “Gestão de Conflitos e Eventos Críticos” essa união foi prejudicial, pois a disciplina tornou-se uma verdadeira confusão de conteúdos. No fim das contas, deixou de estudar vários conteúdos previstos na disciplina de Gestão de Conflitos e Eventos Críticos, como: Situação de Crise; Tipos de Crise; Gerenciamento de Crises e Desastres; Fases de uma Crise; Equipe Tática; Gerente de Crise; Negociador; Gabinete de 108 Gestão Integrada (GGI); Gabinete de Gerenciamento de Crise (GGC); Desastre; Classificação de Desastres; Centro de Gerenciamento de Desastre (CGD) e Sistema de Comando de Incidentes (SCI). Além disso, o que aborda sobre “Preservação e Valorização da Prova” é ínfimo ao que objetiva a Malha Curricular. A apostila acabou sendo mais sobre Mediação de Conflitos do que sobre Gerenciamento de Crises. Já com a disciplina de Doutrina de Policiamento Comunitário a junção das disciplinas de “Mobilização Comunitária” e “Fundamentos de Gestão Integrada e Comunitária” não lhe foi prejudicial. A apostila é educativa e seu conteúdo completo. O problema veio após o Curso de Formação, como é relatado pelo soldado 5, ao perguntar ao comandante da viatura em que fazia a ronda sobre o Conselho Comunitário de Defesa Social (CCDS): “„Chefe, onde é que fica o Conselho aqui? ‟ - eu falei. „O CCDS? ‟ Ele falou: „O que é isso? ‟. O policial falou: „O que é isso? ‟. „Chefe, o Conselho Comunitário de Defesa Social do bairro, aquela coisa que tem um líder comunitário, por ali, entendeu? Entendeu? ‟. Aí, ele: „Isso é besteira! Você não tá vendo que isso não existe! ‟. Aí, eu: „Chefe, mas como é que o senhor sabe?‟ Aí, ele falou: „Não, isso aí não existe não, isso aí só existe mais pro lado da periferia‟. Aí eu falei assim: „Mas, como é que a gente pode conhecer a comunidade?‟. É complicado porque as pessoas não entendem isso. Foi muito falado essa questão dos conselhos comunitários, a gente viu um vídeo. No Curso foi muito falado. Foi passado vídeos pra gente. Desde quando começou, né, esses conselhos. Só que aí os policiais, eles esquecem. Muitos deles não conhecem. Os antigos não conhecem e os novos que entraram agora, eles meio que já se contaminam com essa ideia de que o policial do Ronda é só mais um policial”. Mesmo com o aumento na carga horária desses Cursos de Formação, a soldado 6 achou o tempo de formação pouco: “apesar de ter melhorando em relação ao passado de 2007 que foi de três meses, o meu já foi de cinco meses, mesmo assim acho que deveria ter durado mais para a gente aprender mais”. Outra queixa comum aos entrevistados foi a falta de aulas mais práticas: Para mim, durante a formação, faltou simulação de situações de como proceder nas ocorrências, pois comigo já aconteceu de um elemento fugir para uma região de mato e eu não ter ação. Ficou um pouco a desejar. Deveria ter tido várias ambientações, porque ele [o professor] só falou e demonstrou, a gente praticamente não vivenciou. Eles colocavam para nós: „vamos imaginar‟. Aí uma coisa é imaginar, outra é vivenciar. Acredito também que faltava estrutura, pois a gente não tinha nem espaço para defesa pessoal. (depoimento concedido pela soldado 6). Então, assim, a minha formação, particularmente, foi muito boa e isso me dá segurança, só que como a nossa formação prática não foi prática, não teve prática, então eu fico um pouco temeroso. A verdade é essa, em certos procedimentos. (depoimento concedido pelo soldado PM 5) 109 É interessante notar também a ausência de disciplinas que envolvam uma conscientização cultural do futuro policial e que contribuam para que este não reproduza práticas discriminatórias. Durante a análise das apostilas e ementas dos três Cursos de Formação Profissional não foi encontrado nenhuma disciplina que abordasse temas como violência doméstica, juventudes, discriminação racial. Ao contrário, o próprio ambiente de formação era reprodutor de práticas discriminatórias, como no relato abaixo: “Tinha um menino lá que morava lá no Bom Jardim, fazia o curso com a gente, e eu notava que os oficiais tinham... e ele tinha aquele estereótipo de “bandido”, sabe? Moreninho, magrinho e ainda morava lá no Bom Jardim. Aí eu notava que ele era muito perseguido, brigavam muito com ele, na frente de todo mundo, insultavam, esse tipo de coisa”. (depoimento concedido pela soldado 7, 3 anos na profissão). Por fim, pode-se afirmar que no desenvolvimento dos Cursos de Formação Profissional para o Ronda do Quarteirão a teoria, sim, na prática foi outra. Percebe-se uma formação privilegiadora de um ensino mais técnico e militarista. Pode-se até dizer “doutrinário”, mas a doutrina repassada, longe ficou do policiamento comunitário e mais próxima estava de um modelo de policiamento tradicional. Prova disso é que a disciplina com maior carga horária em todos os CFPs foi Técnica Policial Militar, com 80h/a em 2007 e 90h/a em 2009 e 2010, uma disciplina destinada ao que o soldado 10 já havia relatado, “a apresentação do sistema”, ou seja, os conhecimentos doutrinários e legais que regem a corporação militar: “como ela deve funcionar, quem é quem, a hora de falar, a hora de não falar, até que ponto você pode ir”. (depoimento concedido pelo soldado 10, 6 anos na profissão, grifos nosso). 110 PARTE III – O SENTIDO DO QUE NÃO SE DIZ 111 6. UM HALO QUE TRANSCENDE A FORMAÇÃO: O PODER DO CONTRA-CURRÍCULO NA FORMAÇÃO DOS SOLDADOS DO RONDA DO QUARTEIRÃO De acordo com Silva, Moreira e Grando (1995), numa relação pedagógica, aquilo que se configura como currículo não se restringe a tão somente o conteúdo do ensino, mas também, aos princípios que orientam a forma como se lida com esse conteúdo. Esses princípios são repassados por meio de um “currículo paralelo”, “não-oficial”, mas igualmente ou até mesmo mais eficiente na transmissão de certos conteúdos do que o currículo propriamente dito. Esse currículo é denominado como “currículo oculto”58. O “currículo oculto” pode incluir desde mensagens referentes a normas de comportamento social até mesmo concepções de conhecimento. Segundo Silva (2005), a fonte do currículo oculto está nas relações sociais que se estabelecem no ambiente educacional/formativo entre professor-aluno-administrador. Além disso, o currículo oculto também ensina através de rituais, regulamentos e normas e de categorizações explícitas ou implícitas, como entre o currículo acadêmico e o currículo profissional, entre os “capazes” e “menos capazes”, e no ambiente de uma corporação militar, pode-se dizer, entre “oficiais” e “praças”. A intenção do currículo oculto é ajustar os alunos às estruturas e pautas estabelecidas e consideradas como verdadeiras. No caso dos processos formativos voltados para o ambiente das Polícias Militares, o “currículo oculto” tem-se mostrado, na verdade, como um “contra-curriculo”. Albuquerque e Paes-Machado (2001a, 2001b, 2003), ao longo dos anos, vêm analisando a resistência acadêmico-pedagógica ao novo ensino policial militar brasileiro. Essa resistência se expressa na existência do que denominam como um “contra-currículo” acadêmico, informal e alternativo, cuja função seria a de neutralizar, negar, modificar o currículo oficial renovado, ou seja, o currículo desenvolvido pela SENASP, a “nova educação” das forças policiais. 58 Segundo Silva (2005), o conceito de “currículo oculto” tem sua origem no campo mais conservador da sociologia funcionalista. Foi utilizado pela primeira vez por Philip Jackson, em 1968, no livro Life in classrooms. Mas coube a Robert Dreeben, em seu livro On what is learned in school, ampliar e desenvolver a noção. Nessa perspectiva, o currículo oculto trata das relações de autoridade, organização espacial, distribuição do tempo, padrões de recompensa e castigo, todos elementos que também “ensinavam” em um ambiente educacional. Para a perspectiva crítica, o que se aprende com o currículo oculto são, fundamentalmente, atitudes, comportamentos, valores e orientações. 112 A adoção desse contra-currículo reflete o compromisso assumido pelas equipes dirigentes (GOFFMAN, 2008) dos Cursos de Formação Profissional (CFPs) com esse novo estilo de educação policial. Um compromisso que se baseia na desconfiança da real eficácia desse novo currículo para a formação dos novos polícias, assim como no aprimoramento das antigas práticas pedagógicas, que ao longo dos anos, vão sendo constantemente repassadas e reafirmadas durante os cursos de formação, de maneira velada, fazendo oposição ou complementando o currículo oficial. São essas antigas práticas pedagógicas, as quais os autores denominam como “contra-currículo”, ou seja, as resistências institucionais acionadas dentro das academias de polícia contra a reforma do ensino policial, resistências essas que mantêm e enfatizam, dentro do que se poderia chamar a „última palavra da polícia‟, atividades que contradizem e minam a agenda democrática dos novos programas de ensino (ALBUQUERQUE e PAES-MACHADO, 2003, p. 07 e 08) Para Silva (2005, p. 80), o que está implícito na noção de currículo oculto é que se ele for “desocultado”, ele se tornará menos eficaz e deixará de ter seus efeitos que tem pelo simples fato de ser oculto. “Tornar-se consciente do currículo oculto significa, de alguma forma, desarmá-lo”. Em seu artigo “O Currículo da Selva: Ensino, Militarismo e Ethos Guerreiro nas Academias Brasileiras de Polícia”, Albuquerque e Paes-Machado (2001a) começam a “desocultar” o contra-currículo, apresentando algumas das atividades curriculares de oposição aos ideais da “nova educação” das forças de segurança, presentes na formação de oficiais na Polícia Militar da Bahia (PMBA), tais como: a sacralização da hierarquia; a arte do traquejo; a busca de eficácia; a marcação dos corpos; a confraria da selva; e a compensação dos traumas. Os autores mostram através de uma atividade extracurricular, a Jornada de Instrução Militar (JIM), como o currículo oficial é sobrepujado pelo conteúdo do contra-currículo que se expressa fortemente durante este momento específico do curso de formação. Durante as entrevistas realizadas para esta pesquisa, pôde-se perceber através dos depoimentos concedidos, especialmente, pelas soldados da PMCE 7, 8 e 9, a nítida presença dessas mesmas atividades descritas por Albuquerque e Paes-Machado (2001a) ao falarem da JIM. Desse modo, dedica-se este capítulo, a uma discussão mais aprofundada e até um pouco acalorada sobre a presença do contra-curriculo nos Cursos de Formação Profissional do Ronda do Quarteirão, nos anos de 2009 e 2010. Utiliza-se, assim, das mesmas atividades descritas pelos autores. 113 (a) A Sacralização da Hierarquia: Leiner (1997, p. 73), em seu estudo sobre a hierarquia militar, constatou que essa, se expressa mais do que um simples escalonamento de um corpo profissional. A hierarquia militar determina limitações e possibilidades para cada indivíduo de acordo com a sua patente e o círculo hierárquico ao qual está inserido. Com isso, o autor chama atenção para o fato de que é através da hierarquia que a ação individual se expressa como ação coletiva, como a “‟totalidade‟ do modo como as relações sociais do grupo são percebidas e, portanto, também realizadas”. O problema da relação hierárquica se dá quando ela se verticalizada de tal modo que o oficial, por estar no topo do escalonamento, pensa que o comportamento do praça deva ser basicamente reflexo, ou seja, cabe a ele a tarefa de refletir, enquanto ao praça só lhe resta o cumprimento das ordens emanadas. Com isso o autoritarismo toma o lugar da hierarquia e um conjunto de recompensas e punições passa a ser utilizado para garantir a subordinação, como pode ser notado através desses dois relatos: “Os horários eram rigorosamente cumpridos. Às 06h15min já estávamos “em forma” no pátio do quartel, obedecendo às ordens do Comandante. Raramente alguém atrasava. Mas quando isso acontecia, a turma toda e o atrasado “pagava” dez apoios de frente. Se alguém errasse algum comando isso também acontecia”. (depoimento concedido pela soldado 8, 2 anos na profissão). “Nunca me esqueço de que no primeiro dia de curso de formação, um candidato, de outra turma, após o almoço, deitou-se num banco da praça em frente para descansar e foi chamado atenção na frente de quem ia adentrando no quartel por vários minutos”. (depoimento concedido pela soldado 8, 2 anos na profissão). Nos dois relatos nota-se a essência da hierarquia militar como descrevera Leiner (1997), a qual o indivíduo representa a totalidade da sua classe e sua classe representa cada um de seus membros. No primeiro caso, a turma pagou pelo erro de um de seus membros, enquanto que no segundo, o oficial se utilizou da “humilhação” em público para que os demais se conscientizassem do erro daquele e não o cometessem também. A relação de autoridade estabelecida entre o que manda e o que obedece não se assenta no poder de quem manda, até mesmo porque conforme nos ensina Arendt (2005), a autoridade não é uma forma de poder ou violência, mas sim de hierarquia, cujo direito e legitimidade ambos reconhecem e tem seu lugar predeterminado, por isso, os 114 “novatos” se sujeitam aos “veteranos” e, no caso do estudo em análise, os “candidatos” aos “oficiais”. Albuquerque e Paes-Machado (2001a) apresentam como exemplo dessa sujeição através da “sacralização da hierarquia” os momentos em que os oficiais incentivam nos “novatos” a explosão de instintos bárbaros, como podemos notar através deste terceiro relato: Agora assim teve uma coisa que aconteceu comigo que eu fiquei com ódio na hora, mas eu não pude falar nada: a gente quando chegava de manhã, tinha que chegar no horário, né, e se apresentar para quem estava, assim, na guarda do quartel. Aí eles arranjaram um sargento para você se apresentar: aluno do curso de formação e tal, aí dizia o nome todinho, posição de sentido, dava a meia volta e rompia marcha. Aí, eu peguei cheguei de manhã para fazer isso e era esse subtenente, o monitor lá, que estava esperando a gente. Aí ele estava na hora tomando um suco e comendo um bolo e quando a gente se apresenta, ele tem por obrigação ficar também em posição de sentido. Aí como ele estava com as mãos ocupadas e atrás de mim tinha uma bicicleta e cheio de homem da FTA [Força Tática] que estavam prestando serviço, ele me mandou ficar de costas [para ele] e me apresentar para a bicicleta. Aí eu fiquei com vontade de chorar, fiquei morta de vergonha dos homens da FTA. [Força Tática] Aí eu me apresentei para a bicicleta me roendo por dentro, com ódio. (depoimento concedido pela soldado 7, 3 anos na profissão). Elias (1997) mostrou em seu livro “Os Alemães”, ao relatar como se dava a relação entre os membros de confrarias duelistas estudantis, que o adestramento de seus membros era feito por meio de uma conjugação entre manifestações de impulsos bárbaros e primários e a aprendizagem de códigos severos de obediência. O autor relata que nessas confrarias era comum, os calouros serem encorajados a seguir um determinado código estudantil que os estimulava a expressar impulsos selvagens que até então eram compelidos devido aos tabus da sociedade como um todo de onde viera. Era como se a entrada nessas confrarias lhes significassem entrar em um “novo mundo”, com códigos e valores diversos. No caso exposto pela soldado 7, verifica-se que esse momento pelo qual passou resultou-lhe em um bom “adestramento” para a Polícia Militar do Ceará, pois logo após relatar o fato, com até um pouco de revolta, a soldado logo afirma que “compreende” a atitude do subtenente como necessária para sua formação enquanto policial: Hoje eu entendo. É porque assim, a gente na rua lhe dá com situação que mexe muito com o emocional, se você não tiver domínio próprio, aí você na hora que o cara lhe „esculhambar‟: - “Ei, não sei o quê..”. como eles esculhambam, se você está com uma arma na cintura, você não pode fazer nada. Então, eles mexem com o seu emocional para ver como você vai reagir, entendeu? Se na hora eu 115 esculhambasse ele, [ele pensaria assim]: „essa menina não pode estar com uma arma na cintura, ela não tem domínio próprio‟. (depoimento concedido pela soldado 7, 3 anos na profissão). De acordo com Goffman (2008), um fator básico das instituições totais59, como a polícia militar, é o controle das muitas necessidades humanas pela organização burocrática de grupos completos de pessoas, através da vigilância e da construção de um sistema de pagamentos secundários, que ora pode ser presentes, ora pode ser ameaças ou castigos. Em ambos os casos, a vigilância se faz presente, a partir do momento que o oficial impõe tanto o castigo ou a humilhação (como nos dois primeiros casos) quanto a submissão (terceiro caso), ou seja, “a infração de uma pessoa tende a salientar-se diante da obediência visível e constantemente examinada dos outros” (p. 18). Assim, como diria Foucault (2010), a vigilância hierárquica se faz como um recurso para o bom adestramento. (b) A Arte do Traquejo De acordo com Albuquerque e Paes-Machado (2001a, p. 16), o traquejo trata-se de um componente sádico que emerge da relação entre o oficial instrutor e o recruta, no qual este se torna objeto da tirania e do poder truculento daquele para, assim, nascer-se guerreiro. Os autores complementam a afirmação explicando que o traquejo faz parte da aprendizagem policial, mediante o sacrifício, o rebaixamento e a dor. Como um exemplo de traquejo, podemos citar a figura a seguir: Figura 1 - Aluno de curso de formação bebe água em vasilha servida aos cachorros “A comida é jogada em uma lona, estendida no chão – lembre-se de que estamos em pleno campo e que é noite de inverno. Temos dois minutos para comer. Eu disse „dois minutos‟. Com as mãos. Coma o que puder, como puder – é o lema. Vale tudo” (SOARES, BATISTA E PIMENTEL, 2006, p.17). Fonte: Jornal O Povo, 25/06/2010, p. 08 59 Segundo Goffman (2008, p. 16), toda instituição tem tendência ao fechamento, porém, “algumas são muito mais „fechadas‟ do que outras. Seu „fechamento‟ ou seu caráter total é simbolizado pela barreira à relação social com o mundo externo e por proibições à saída que muitas vezes estão incluídas no sistema físico – por exemplo, portas fechadas, paredes altas, arame farpado, água, florestas ou pântanos”. 116 Quem vê a imagem, logo imagina tratar-se de alguma ilustração do livro “A Elite da Tropa”, visto a semelhança entre imagem e texto. Entretanto, a imagem foi tirada durante o CFP de 2010. Em junho do referido ano, o Jornal O Povo (23/06/2010 e 25/06/2010) trouxe matéria referente a denúncias que estavam sendo apuradas pela Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), depois que “candidatos” do curso de formação teriam passado por momentos de “tortura”, durante treinamentos realizados por oficiais da PM. Dentre esses momentos de tortura estava servir-se da água que estava em uma vasilha de cachorro, como aconteceu em treinamento ministrado no Canil da PMCE. Segundo uma das vítimas, os instrutores diziam: “Vocês estão rindo? Vocês vão beber água também. Se um animalzinho desse [cachorro] pode beber, por que vocês não?60” Outra denúncia apresentada pelo Jornal O Povo (23/06/2010 e 25/06/2010) foia de que alunos do mesmo CFP teriam sido “selecionados” para levar choques por armas Taser61 e passar por exercício com gás lacrim Polícia Civil (APC), para a disciplina de Armas e Equipamentos não Letais, como pode ser observado através das figuras seguintes, retiradas de um vídeo 62 gravado durante a referida aula: 60 Alunos recebem choques e bebem água em vasilhas usadas por cães em treinamento para PM do Ceará. O Globo. País. 23 jun. 2010. Disponível em: < http://oglobo.globo.com/pais/alunos-recebem-choques-bebem-aguaem-vasilhas-usadas-por-caes-em-treinamento-para-pm-no-ceara-2989169>. Acesso em: 22 fev. 2013. 61 “A arma Taser dispara dardos que penetram na roupa do suspeito, aderem ao corpo e liberam uma descarga elétrica. Ela emite um tipo de pulso que tem a mesma freqüência da onda cerebral. O corpo prioriza a nova mensagem e “deixa o cérebro falando sozinho”, ou seja, as ondas cerebrais reais deixam de ser reconhecidas por alguns segundos e a pessoa cai, paralisada. O efeito do disparo dura, em média, 15 segundos”. Disponível em: http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,AA1359750-5605,00.html Acesso em: 22/07/2010. Em dezembro de 2008 a Anistia Internacional (AI) publicou um relatório sobre os problemas relacionados ao uso de armas paralisantes nas ações destinadas à aplicação da lei. No estudo foram citados dados médicos que pareciam indicar que o uso destas armas pode desencadear uma reação fatal em indivíduos cuja saúde esteja afetada por uso de drogas, esforço ou problemas de saúde pré-existentes. O relatório também cita casos em que indivíduos aparentemente saudáveis morreram após serem atingidas por uma arma Taser. Disponível em: < http://br.amnesty.org/?q=node/229 >Acesso em: 17/08/2010. 62 Fonte das Imagens: Curso de Formação do Programa Ronda do Quarteirão. 2010. 1 post. (0m. 18s). Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=G2EBJo-IgSw>. Acesso em: 22 fev. 2013. 117 Figura 2 – Alunos levam choque com arma Taser em treinamento Figura 3 – Turma ri de alunos que levaram choque com arma Taser Em respostas às denúncias, o oficial da polícia militar responsável pela disciplina, major Wilson Melo, afirmou que não houve “excessos” nem “torturas” durante o treinamento e que todos que participaram do exercício com a arma Taser eram voluntários. É interessante também notarmos, na justificativa dada pelo Major à imprensa, como é naturalizado, dentro da instituição, que um policial em formação tenha que se submeter a tratamento humilhante: “Já tive que comer no chão, comida jogada no chão, mas isso era um treinamento de sobrevivência. Não uma prática voltada para o Ronda” (Jornal O povo, 25/06/2010, p.08). Esse discurso caracteriza de forma clara a estreita ligação que une as polícias militares ao Exército Brasileiro. Ainda hoje a polícia militar insiste em utilizar treinamentos semelhantes aos praticados no Exército63, para despertar nos aspirantes instintos como os relatados pelo major Wilson Melo e transmitir os valores que permeiam a profissão, dentro 63 Casos de mortes de militares em treinamentos do Exército não são raros de se ver. Em 2005, o cadete instrutor Expedito Eduardo Sobral Cavalcante, 21 anos, faleceu de septicemia após perder uma das mãos quando uma granada explodiu durante uma instrução destinada a estagiários da Escola de Saúde do Exército, no Parque do Curso Avançado, no Rio de Janeiro. Outro instrutor, o cadete Antonio Regis Sousa de Oliveira, 20 anos, que se encontrava próximo a explosão também teve uma das mãos mutiladas. Em 2006, sargentos Alexsandro de Oliveira Sales, 27, e Antônio Carlos Duarte Angelim, 30, morreram afogados dentro de uma piscina carregando no corpo mais de 40 quilos de peso durante um treinamento no CIGS (Centro de Instrução de Guerra na Selva), em Manaus. Em 2007, outro militar morreu durante treinamento nos campos do CIGS. O corpo do capitão de infantaria do Exército, Anderson Márcio Gomes da Silva, foi encontrado afogado no lago Puraquequara. Em 2008, o cadete da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), Maurício Silva Dias, 18 anos, morreu depois de passar mal em um treinamento. Outros dois militares, Daniel Fernandes de Magalhães e Isaías Moisés Lira, foram hospitalizados por problemas de saúde durante o treinamento. Em 2009, o cabo Diego Augusto Lima Leite, 21 anos e o soldado Antonio José dos Santos Neto morreram após treinamento de sobrevivência no Pantanal. Em 2010, o recruta Marcelo Góes, 18 anos, diz ter sido vítima de excessos e está internado em um sanatório, com estresse pós-traumático. Fonte: arquivos de jornais do Laboratório de Direitos Humanos, Cidadania e Ética da Universidade Estadual do Ceará (Labvida/UECE). 118 de um ambiente de intensa submissão aos superiores da organização e de uso da força contra seus próprios integrantes (e quem sabe, futuramente, contra a própria sociedade!). Outra forma utilizada pelos oficiais para exercitar a arte do traquejo junto aos recrutas se dá por meio de pagamento (penitências) de exercícios físicos, muitas das vezes, fatigantes. Como já relatado pela soldado 8, os oficiais durante os CFPs para o Ronda do Quarteirão cobravam dos candidatos, em qualquer deslizes que viessem a cometer, o pagamento de apoios de frente ou como eles chamam “pagar dez”. O apoio de frente é também conhecido como flexão e trata-se de um exercício físico muito utilizado nos treinamentos militares do Exército, conforme a Portaria nº 32, do Estado Maior do Exército (EME), de 31 de março de 2008, a qual estabelece diretrizes para o treinamento físico militar do Exército e sua avaliação. A flexão não foi cobrada durante os testes de aptidão física que compuseram as seletivas para o Ronda do Quarteirão, mas, conforme o depoimento dos entrevistados, percebe-se que esse tipo de exercício físico era utilizado como forma de castigar os candidatos. A soldada 7, relatou que um dia, por estar com um certo estafe físico e emocional, devido a intensidade do CFP, acabou dormindo durante a apresentação de um filme em umas das aulas. Quando o professor da disciplina, que era um capitão, percebeu que ela estava dormindo, chamou a sua atenção, em sala de aula e mandou que pagasse 10 flexões na frente de todos. Segundo seus relatos, no começo sentia vergonha, mas depois, com o passar dos dias e o constante uso do exercício como forma de punição, já “levavam na esportiva”. O problema estava no modo como exigiam que as mulheres cumprissem a punição: “todo concurso que você faz e tem apoio de frente, é com os joelhos no chão e a mão assim [abertas], só que lá, eu não sei assim nos outros locais, mas pelo menos lá, era que nem o homem, assim com a perna esticada e assim com a mão fechada. Aí, geralmente lá, era assim, tinha cimento, aquelas pedrinhas, aí machucava a mão”. Ainda, segundo a soldado, aqueles “candidatos” que mais resistiam ao contracurrículo, recebiam uma dose maior de castigo, sobretudo os que discordavam da opinião dos oficiais durante aulas ou treinamentos: As aulas quem dava, geralmente, quase 90% eram PM‟s oficiais, então a gente, até podia, mas não devia [discordar]. Era assim. Eram oficiais e a gente tinha até medo de ficar marcado. (...) Tinha até um menino que fez comigo e ele era muito polêmico, ele questionava mesmo, demais e hoje ele ainda é conhecido porque ele ia de encontro mesmo. Todo mundo perseguia ele, brigavam direto com ele. (depoimento concedido pela soldado 7, 3 anos na profissão). 119 Para Baremblitt (1998 apud ALBUQUERQUE e MACHADO, 2001, p. 223) esse ambiente de formação se caracteriza na corporação como um traço de esquizofrenia, pois “sua missão identitária é defender-guardar-servir-proteger e, no entanto, ensina, com aulas práticas, o uso da força contra seus próprios integrantes e o gozo não apenas em ver o outro na dor, mas em vê-lo obedecer”. (c) A Marcação dos Corpos e a Mortificação do Eu Albuquerque e Paes-Machado (2001a) mostram que durante a Jornada de Instrução Militar (JIM), realizada pelos os aspirantes a oficiais da PMBA, os instrutores buscavam inscrever de alguma maneira nos corpos dos iniciáticos os conteúdos do treinamento de forma que registrassem a fúria daquele momento de transição identitária. Na formação dos soldados do Ronda do Quarteirão, ainda que sob a tutela de uma possível formação humana e baseada nos princípios do policiamento comunitário, não foi diferente. De acordo com o depoimento da soldado 7 as aulas de educação física foram as que mais lhes deixaram marcas físicas: Eu sofri muito na educação física. Até teve uma época que eu fiquei com uma lesão no meu joelho e tal e eu fui ao médico e tinha rompido o ligamento, aí ele falou que eu tinha que ficar 10 dias afastada. Aí eu levei um atestado, lá para a professora, e ele era assim muito rigorosa, major ela, muito rigorosa. Aí eu fiquei ainda dois dias sentada na aula de educação física. E ela só corria, não fazia outra coisa. E a gente corria com aquele fuzil na mão, sete meia dois, pesadíssimo. Doze quilômetros. Dez quilômetros. Eu fiquei com isso aqui meu todo roxo [região da cintura e lombar] porque ele tinha uma parte muito grossa que ficava roçando em mim, aí ficou tudo roxo. (...) Eu fiquei só dois dias com o atestado, eu peguei dez, mas ela disse que eu estava com “macete”. Aí eu tive que correr de qualquer jeito e que sentia muita dor. Chegava em casa eu colocava gelo e tomava anti-inflamatório direto.(depoimento concedido pela soldado 7, 3 anos na profissão, grifos nosso). A marcação dos corpos também pode vir acompanhada ou ser a própria “mortificação do eu”. Goffman (2008, p. 24) explica que nas instituições totais, o internado chega ao estabelecimento com uma concepção de si mesmo já formada através das disposições sociais do seu mundo doméstico. No entanto, ao entrar na instituição, começa uma série de rebaixamentos, degradações, humilhações e profanações do eu. O seu eu é, sistematicamente, embora, muitas vezes, não intencionalmente, mortificado. Começa a passar por algumas mudanças radicais em sua carreira moral, uma carreira composta pelas 120 progressivas mudanças que ocorrem nas crenças que tem ao seu respeito e a respeito dos outros que são significativos para ele. O autor cita como exemplos do processo de mortificação do eu, a desfiguração pessoal, na qual o indivíduo é despido da sua aparência usual; a presença de regulamentos, ordens ou tarefas que obriguem o indivíduo a adotar posturas ou poses que se traduzam como inferiores ou aviltantes; além da atribuição do nome de guerra, o qual para o autor é uma mutilação maior do que qualquer mutilação física. No regulamento do Curso de Formação Profissional de 2009 e 2010 é possível desde já percebermos alguns critérios que despem o indivíduo de sua aparência usual. No artigo 62, estabelece-se entre os deveres do candidato, que a manutenção do corte de cabelo deveria ser feita a cada 15 dias e este deveria sempre estar dentro das especificações regulamentares da PMCE, ou seja, se do sexo masculino, o corte teria de ser feito em máquina dois, com costeletas que não ultrapassem a linha imaginária do globo ocular (artigo 62, XX). Além disso, os homens não poderiam usar barba, bigode, costeletas, cavanhaque, topetes, brincos e tinturas extravagantes nos cabelos (artigo 63, X). No caso das mulheres, estas deveriam manter o cabelo preso em forma de rabo de cavalo no dia-adia e em solenidades, desfiles e evento extraordinários, em forma de coque; e como os homens não podiam usar tinturas extravagantes nos cabelos. Às mulheres também não eram permitidos o uso de unhas compridas, pinturas nos olhos, pulseiras, cordões, piercing e adornos no tornozelo. Anéis, somente discretos ou alianças. Brincos, somente do tipo argola ou que não ultrapassem o lóbulo da orelha. (artigo 63, XV e artigo 64). Essas características de mortificação do eu, presentes no regulamento do Curso de Formação Profissional, conforme Goffman (2008), não passam de simples racionalizações criadas para se controlar a vida diária de grande número de pessoas. De acordo com as soldadas 7 e 8, essas características eram diariamente fiscalizadas ao início de cada dia do curso de formação: A revista da tropa acontecia diariamente. Tudo era observado camisa por dentro, o uso do cinto, o asseio pessoal, a limpeza da roupa. Para os meninos, o cabelo na máquina e a barba feita. Para as meninas, o “coque” com a redinha preta e presilhas segurando todo o cabelo, a cor das unhas. Foi difícil conseguir me adaptar a tanto detalhe. (...)Estas instruções nos foram dadas ao iniciar o curso. (depoimento concedido pela soldado 8, 2 anos na profissão). Todo dia de manhã. Com o hasteamento da bandeira, a gente ficava em forma e eles olhavam as unhas, o sapato. Assim, é tanto que o meu sapato preto tinha alguns detalhes prateados, porque é difícil achar um tênis todo preto, né? Eu tive 121 que pintar de esmalte porque ele [o oficial] estava brigando. Aí, eu pintei de esmalte as partes em prata. Eles explicavam [no começo do curso] que o tênis tinha que ser todo preto, as barbas dos homens impecáveis. É tanto que eu já ouvi conversas de que em outros cursos de formação, no homem, eles chegavam e passavam um algodão para saber se ficava, porque se ficar é porque tá rala a barba. Mas agora onde eu fiz não, mas eu ouvi cantos que tinha isso. (depoimento da soldado 7, 3 anos na profissão). Como demonstrado por Foucault (2010), o corpo entra numa maquinaria que o esquadrinha, desarticula e o recompõem. O corpo passa a ser manipulado, modelado, treinado para possuir a fisionomia do soldado. A vigilância diária passa a fazer parte das ações dos próprios soldados em formação: “Antes de sair de casa, todo dia, olhava-me no espelho e checava item a item para ver se não tinha esquecido nada” (...) “Passei a ser um robozinho que está sempre atenta a tudo e a todos que estão em volta, deixando de lado o meu modo calmo e relaxado de ver a vida”. (depoimento concedido pela soldado 8, 2 anos na profissão). (d) Busca de Eficácia: Em seu relato sobre a formação de guardas na França, em 1994, Monjardet (2003) constatou que dois terços dos policiais entrevistados julgavam sua formação inicial mal adaptada às tarefas do seu exercício profissional. Nesse ponto foi consenso entre os entrevistados que independente do tempo do curso de formação, a formação não prepara para as ruas: Isso aí independente de serem três meses, ou seis anos, ou seis meses. O meu comandante, que trabalhou comigo, ele é antigo na polícia, ele já tem cinco anos de polícia, ele é soldado, é porque ele é mais velho do que eu. Ele disse que o curso dele também foi de seis meses, mas ele só foi saber o que era polícia quando foi trabalhar mesmo; é o que acontece realmente, você pode passar o tempo que for, você vai saber só o que é polícia só quando começar a trabalhar, quando tiver cuidando com a população mesmo, cuidando de todo tipo de ocorrência. (...) o que sai de três meses e o que sai de seis meses, apesar de ser mais comprido o tempo, saem basicamente com a mesma coisa, você vai saber praticar, vai saber o que fazer, somente quando tiver trabalhando mesmo na rua, lidando com a população. (depoimento concedido pelo soldado 1, CFP 2007, 2 anos na profissão). “Uma coisa é teoria outra coisa é prática”. (depoimento concedido pela soldado 6, CFP 2009 3 meses na profissão). “O que eu acho é o seguinte: o Curso é só uma iniciação, entendeu? O cotidiano mesmo, como é que você aprende a abordar mesmo, a resolver ocorrência, você aprende a modular, o procedimento de polícia mesmo, você aprende na rua. O trabalho mesmo, no dia-a-dia. A cada dia você aprende que você não sabe de nada ainda, mas você tem que aprender. Aprende com o que? Com os acontecimentos, com os meninos do trabalho que tem mais experiência. Então, a 122 cada dia você vai aprofundando. O Curso de formação é bom? É, mas ele não lhe completa como policial. Não é aquele curso pleno, perfeito, sou uma pessoa altamente preparada, pronta pra tudo. Não, você não sai (...) Então, no Curso de Formação a gente aprende mesmo as técnicas, o básico e na rua é que você vai aprender a trabalhar, a abordar. Você aprende um ritual de abordagem no Curso, mas na rua é que você vai se adequar, como o policial que tá com você trabalha, como a pessoa abordada vai reagir..”(depoimento concedido pela policial 9, CFP 2010, 2 anos na profissão). Para Monjardet (2003, p. 66), o que está em causa nesse tipo de depoimento não é uma inadequação radical entre a formação e a prática policial, mas sim a dificuldade que os soldados possuem de “apreender e analisar as mediações sociais pelas quais se organiza a passagem dos conhecimentos formais às práticas concretas”. Menke, White e Carey (2002), complementam o autor, ao afirmar que a ausência de um período prolongado de educação profissional prejudica a incorporação de valores, no caso dos Cursos de Formação de Profissional em análise, dos valores necessários para o bom desenvolvimento do policiamento comunitário. Isso, porque ao se estudar as cargas horárias das disciplinas (ANEXO I), assim como as apostilas e ementas dos Cursos de Formação Profissional desde 2001, período em que se deu início a adoção da “nova educação policial” no Ceará, percebe-se que entre as disciplinas que compunham o Ensino Fundamental, aquela que possuía maior carga horária era Educação Física (GRÁFICO 1). Isso demonstra uma preocupação dos dirigentes dos CFPs em “construir o soldado” ainda com a imagem que se tinha do soldado do século XVII, descrito por Foucault (2010): o homem vil, corajoso, orgulhoso, em que a força e a valentia eram expressas em seu corpo. Almeida (2010, p. 12) explica que a inserção da disciplina de Educação Física nos currículos dos cursos de formação militares te como ideia o treinamento, propriamente dito, deste recruta, para “aumentar as suas capacidades físicas e técnicas de luta para realizar aqueles objetivos, é preciso transformá-lo num soldado que sirva aos fins militares do Estado”. 123 Gráfico 1: Distribuição relativa das disciplinas ministradas na área de Ensino Fundamental durante os Cursos de Formação Profissional de 2001 a 2005, 2007 e 2008/2009. No caso do Ensino Profissional, a disciplina de Técnica Policial Militar foi a que teve maior carga horária durante os três períodos de formação, seguida por Armamento e Equipamento/Tiro Policial Defensivo e Defesa Policial (GRÁFICO 2). Deve-se destacar, nesta área de ensino, que a formação para soldados durante os CFPs de 2001 a 2005 era para a composição do Policiamento Ostensivo Geral (POG) e o que se percebe é que se foi dada a mesma estrutura curricular de formação do POG para a formação dos soldados que comporiam o Ronda do Quarteirão. 124 Gráfico 2: Distribuição relativa das disciplinas ministradas na área de Ensino Profissional durante os Cursos de Formação Profissional de 2001 a 2005, 2007 e 2008/2009. Com isso, já era de se esperar que os soldados entrevistados demonstrassem momentos de não compreensão da sua própria prática, a qual deveria estar voltada ao policiamento comunitário. “Outro fato que deveria ser socializado no curso de formação é onde buscar parcerias, pois existem problemas que nos deparamos nas ruas que não necessariamente são casos de polícia, como por exemplo, para onde conduzir um usuário de drogas que já vendeu tudo em casa e precisa não de polícia, mas sim, de um tratamento”. (depoimento concedido pela soldado 8, CFP 2010, 2 anos na profissão, grifos nosso). O depoimento da soldado 8 é revelador de um ensino que ainda privilegia a formação profissional voltada para o modelo de polícia burocrático-militar e de aplicação da lei, em que aquilo que não for “combate a criminalidade”, é definido como “assistência social” e, por isso, de menor valor. Deve-se também levar em consideração, o fato da mudança de filosofia que o programa sofreu no ano de 2010, e concluir, a partir daí, que esses soldados não foram preparados nem para agir no policiamento comunitário, nem para o policiamento ostensivo geral: “se a gente fosse só Polícia Comunitária e não fosse atender realmente, mas só que na prática não é. Uma coisa é teoria outra coisa é prática”. (depoimento concedido pela policial 6, CFP 2009, 3 meses na profissão). 125 Por isso, foi comum os policiais novatos relatarem diversos casos em que os policiais veteranos afirmavam categoricamente que as atividades pedagógicas estimuladas pela “nova educação”, os Conselhos de Segurança Pública, e o próprio diferencial do policiamento comunitário, o contato com a população, não passavam de “besteiras”. Nesse momento, o conteúdo da educação humanista, recebido nos Cursos de Formação, passa a ser confrontado com práticas e visões tradicionais. Como não há um intercâmbio consistente entre valores humanistas e militares na metodologia da formação, cabe ao indivíduo realizar essa mediação na sua prática profissional. Assim, não há como garantir o aprofundamento das relações de maior proximidade entre polícia e comunidade. Alguns policiais alinham sua prática à formação recebida, outros reproduzem ações pragmáticas e impensadas, muitas vezes, antidemocráticas, que já estão incorporadas ao fazer policial tradicional. No caso dos policiais do Ronda do Quarteirão pode-se dizer que a formação recebida por esses policiais pôde ou não orientar a prática do policiamento comunitário e preventivo. Para Menke, White e Carey (2002), o que ocorre é uma falta de consenso acerca de quais conhecimentos e técnicas são básicos para o desempenho da ocupação policial. Isso porque, no campo policial, há no mínimo três grupos competindo pelo direito de definir a base do conhecimento: os acadêmicos que se utilizam da teoria e da pesquisa para basear suas opiniões; os líderes da polícia, que se baseiam no conhecimento adquirido a partir de experiências práticas; e os policiais de linha com seu conhecimento street vibes64 e the ashole65. Na opinião dos autores, do ponto de vista ocupacional, a opinião do profissional de linha é que determina a relação do seu exercício com a realização dos valores sociais. O que surpreende nisso, é que a profissionalização nas polícias militares tem escolhido enfatizar mais a educação do seu corpo de oficial, do que dos policiais de linha. 64 Ou “vibrações de rua” são os significados que os policiais atribuem aos tipos de pessoas encontradas no seu cotidiano profissional (MENKE, WHITE e CAREY, 2002). 65 Termo criado por Maanen (1978 apud Ibidem) para identificar e disseminar informações sobre as características dos indivíduos com o qual alguém já teve problemas no passado, podendo, assim, predizer e lidar potencialmente com problemas futuros. 126 (e) Confraria da Selva Albuquerque e Paes-Machado (2001a) denominam de “confraria da selva” a solidariedade grupal que nasce entre os aspirantes a oficiais, no meio de todo o ambiente selvático e militarizado que a JIM os expõem. Na formação dos soldados do Ronda, essa solidariedade surge nos momentos em que as turmas perdiam algum de seus membros, devido a mudança nas fases do concurso, que passariam a ser realizadas concomitantemente a realização do Curso de Formação. Muitos desses jovens “candidatos” a soldados do Ronda do Quarteirão tiveram que abandonar seus empregos para dedicar-se, exclusivamente, ao Curso de Formação Profissional e como passavam o dia juntos acabavam construindo laços de solidariedade e de amizades muito fortes, conforme esclarece a soldado 8: “A nossa turma do curso de formação era bastante unida. Pessoas solidárias umas as outras que estavam sempre prontos a ajudar. (...) um dos nossos companheiros reprovou no primeiro teste psicológico, mas na segunda oportunidade foi aprovado, e outro companheiro, foi reprovado depois de ter feito o curso inteiro, nas vésperas da última prova, por ter tido uma falta. Detalhe, a falta foi por motivo de falecimento da avó que o criou. O fato de perdê-lo foi muito triste, pois era um guerreiro, uma pessoa muito determinada, que teve que desembolsar uma quantia em dinheiro às pressas para conseguir pagar um advogado que conseguiu uma liminar para fazer a prova final. Embora tenha sido aprovado, passou muito meses em casa aguardando o processo finalizar para que finalmente ele pudesse assumir. Hoje, ele está trabalhando em um interior bem distante no Policiamento Ostensivo Geral”. (depoimento concedido pela soldado 8, 2 anos na profissão). (f) Compensação dos Traumas Na JIM, a compensação dos traumas se dá com uma “feijoada patética”, em que os pais e alunos comemoram o final da jornada. Albuquerque e Paes-Machado (2001a) mostram que essa comemoração não é assim tão alegre, já que os alunos ainda estão se recuperando dos dias em imersão na “selva” militar. No caso da formação dos soldados do Ronda do Quarteirão, formados em 2009 e 2010, após a conclusão do Curso de Formação Profissional são submetidos a uma prova que definirá quem está apto ou não a tornar-se soldado da Polícia Militar. Após o resultado final esses soldados participam de uma solenidade presidida pelo Governo do Estado, secretário de Segurança Pública e Defesa Social e pelo Comandante da Polícia Militar no Estado. A solenidade se faz de maneira descontraída e amigável, em que os “candidatos”, agora já soldados da PMCE, comemoram sua a vitória em todas as fases, como um soldado 127 falara em entrevista para um canal de televisão: “O que importa agora é termos vencido essa batalha e estarmos aqui agora, onde muitas outras pessoas gostariam de estar e não puderam (...)66”. Desafio posto, a partir de então, para os soldados é administrar o “desculturamento” provocado pela presença “velada” do contra-curriculo em suas formações profissionais. Segundo Goffman (2008), é característico dos internados chegarem as instituições totais com uma “cultura aparente”, originada de um “mundo da família”, ou seja, um modo de vida e um conjunto de atividades já aceitas e internalizadas pelo internado antes da sua admissão na instituição total. Ainda que as instituições totais, aparentemente, não substituam algo já formado por uma cultura específica, Goffman (2008) explica que elas provocam o que ele denomina por “desculturamento”, ou seja, um destreinamento do internado ao voltar ao mundo exterior, no enfrentamento de alguns aspectos de sua vida diária. “Não é que eu fiquei mais dura de coração, mas tem coisas que não me sensibilizam tanto quanto eu ficava sensibilizada.” (depoimento concedido pela soldado 7, CFP 2009, 3 anos na profissão). Segundo o autor, as instituições totais “criam e mantem um tipo específico de tensão entre o mundo doméstico e o mundo institucional e usam essa tensão persistente como uma força estratégica no controle dos homens” (GOFFMAN, 2008, p. 24). Essa tensão entre o mundo da formação e o mundo da vida real pode ser notado através do depoimento da soldado 8, ao declarar que quando retira a farda da Polícia Militar (inicialmente a utilizada na formação e posteriormente o fardamento profissional) sente como se retirasse um peso de suas costas, mas mesmo assim, não consegue se libertar do peso que a instituição tem sob a sua vida civil, o que lhe gera um “desencantamento” da vida social. 66 Formatura Ronda 2010. 2010. 1 post. (1h <http://www.youtube.com/watch?v=h1dIcq1SOKg>. Acesso em: 22 fev. 2013. 04m.). Disponível em: 128 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS: NA “VALA DOS ADIVINHOS” Figura 4: Os Adivinhos 67 Em “A Divina Comédia”, quando Dante chega ao Malebolge, a quarta vala do oitavo círculo do Inferno68, encontra os “adivinhos” seres “torcido cada um, do queixo ao princípio do peito”. Podemos afirmar, que a formação policial no Brasil é como um “adivinho” do Inferno de Dante que “para as costas seu rosto era volvido, e só andar para trás ele podia, pois que de olhar para frente era impelido69”. Em outras palavras, o que acontece na formação das polícias militares no Brasil é que por mais que se siga adiante, que passos sejam dados à frente, a “mentalidade” que permeia a profissão é reprodutora de um “eterno passado” de práticas militaristas. Por que isso ocorre? Se tomarmos a “nova educação” das forças de segurança pública como um novo “regime” do discurso e do saber, tal como fizera Foucault (2005) ao estudar a medicina, veremos que nesta houve uma modificação nas regras de formação dos enunciados aceitos como cientificamente verdadeiros, enquanto que naquela não. Para Foucault (2005, p. 04), não basta uma mudança de conteúdo (refutação de erros antigos, nascimento de novas verdades) e uma alteração na forma teórica (renovação 67 Fonte: Giovanni Stradano ou Jan Van der Straet (1523-1605) - Divina Commedia, Inferno, Canto IX, 1587, Biblioteca Medicea Laurenziana, Firenze. 68 O Inferno de Dante é constituído por nove grandes círculos que descem cada vez mais estreitos ao centro da Terra. Em cada círculo se encontram os pecadores que são punidos de acordo com a gravidade dos seus pecados. O primeiro círculo é o Limbo, onde se encontram as crianças não batizadas e aqueles que viveram honestamente antes de Cristo, como os grandes filósofos Aristóteles e Horácio. Neste círculo não há punição, apenas uma névoa triste. Do segundo ao quinto círculo estão os luxuriosos, gulosos, pródigos, avarentos e preguiçosos. No sexto círculo estão os hereges. No sétimo moram os violentos, como assassinos, suicidas e blasfemadores. O oitavo círculo está dividido em dez fossos, onde estão os fraudulentos, adivinhos, ladrões, semeadores de discórdia, etc. No nono e último círculo se encontra o pecado mais grave: a traição (NASCIMENTO, 2006, p. 08). 69 Canto XX. 129 do paradigma, modificação dos conjuntos sistemáticos). É preciso, antes de tudo, modificar “o que rege os enunciados e as formas como estes se regem entre si para construir um conjunto de preposições aceitáveis cientificamente”. A SENASP fez a mudança de conteúdo e a alteração na forma teórica da formação, mas ainda não conseguiu modificar, nas Polícias Militares, os enunciados que são tradicionalmente, aceitos como corretos. Esses enunciados são transmitidos através do “currículo oculto” que tem funcionando como um “contra-currículo” e que de maneira velada ou não tem minado o currículo oficial desenvolvido pela SENASP. Para Bourdieu e Passeron (1992), o sistema educacional preenche duas funções importantes para a sociedade capitalista: a reprodução da cultura e a reprodução da estrutura de classes. No caso do sistema de formação profissional de soldados, vê-se que o “contra-currículo” funcionando como um mecanismo ardiloso de dominação simbólica sobre os “alunos-soldados” ou “candidatos a soldados”, pois através dos seus mecanismos de sacralização da hierarquia, mortificação do eu, marcação dos corpos, traquejo e até mesmo da disponibilização das cargas horárias das disciplinas, definindo qual conhecimento será ministrado por mais tempo, qual conhecimento é relevante, qual não é, acaba por reproduzir a cultura que é considerada como válida e verdadeira dentro da Polícia Militar. Bourdieu e Passeron (1992) ainda explicam que o sistema educacional é reprodutor da cultura dominante como sendo a cultura, ou seja, os valores, hábitos, crenças, costumes e costumes da classe dominante como dominantes a toda sociedade. Os valores e hábitos de outras classes podem ser qualquer coisa, menos a cultura. Na polícia militar ocorre o mesmo: a cultura dominante que é repassada por meio do contra-currículo, ela é considerada dominante porque faz parte da sua tradição. Então, por que a nova educação não se efetiva em sua plenitude? Porque os valores, hábitos, as crenças que ela passa não são considerados dominantes culturalmente dentro da polícia. Tomando a teoria de Hobsbawn e Ranger (1984) sobre a “invenção da tradições”, chega-se a conclusão de que não se pode inventar uma nova tradição de educação para as PMs, enquanto os velhos usos se conservam. Percebe-se, então, dois movimentos não congruentes direcionando a formação de policiais militares no Brasil: o primeiro, no nível federal, é representado pelas modificações desenvolvidas pela SENASP para a criação de um novo modo de se pensar e fazer polícia com ênfase no contato com as comunidades; e o segundo, no nível Estadual, é 130 representado pelas Polícias Militares que aproveitam o espaço destinado pela Malha Curricular para o ensino de disciplinas específicas à profissão, para incluir, geralmente, em uma carga horária superior, disciplinas que reproduzam o velho “modelo policial profissional tradicional”, consubstanciando um fazer policial que enfatiza o comportamento legalista, em detrimento do enfoque na interação com a comunidade e o cidadão e o desenvolvimento de trabalhos relacionados a negociação e mediação de conflitos. Algo que se agrava quando a formação deve estar voltada para o policiamento comunitário. Essa é também uma problemática originária das condições de possibilidades que estavam postas ao Governo Cid Gomes (2007-2010), no início de sua gestão, mas também é reveladora de como esse governo cedeu às pressões de seus opositores políticos para apressar a implantação do Programa Ronda do Quarteirão sem avaliar as consequências. Ao agir desse modo, o Governo Estadual desconsiderou a complexidade da situação posta para o êxito da implantação de um programa que se utiliza de uma estratégia diferenciada de operacionalidade e de formação do tipo de policiamento tradicional executado no Estado. Isso só vem a confirmar a afirmativa dada por Mesquita Neto ao Jornal O Povo (14/01/2007, p. 22) de que “não basta ter muitas viaturas, policiais e número de telefone se não houver estudo, discussão e definição clara dos conflitos e dos tipos de crimes que ocorrem em cada área da cidade”. A situação vivenciada pela implantação do Ronda, apenas, demonstra como a população, o próprio Governo do Estado e a polícia não estavam preparados para a chegada do policiamento comunitário. O Governo do Estado por ter implantado um programa de policiamento comunitário sem ter avaliado o modelo tradicional repressivo que tem caracterizado a polícia e que já não conseguia imprimir eficiência ao combate da criminalidade organizada e da violência que se expande pelo Estado; a própria corporação militar, que persiste em viver, ou melhor, em sobreviver reproduzindo o “eterno passado” de práticas rotineiras, bloqueando a sua capacidade de se adaptar a qualquer tipo de mudança social, conforme Monet (apud ROLIM, 2006, p. 33); e a população porque ao longo dos anos apreendeu que o trabalho do policial é, essencialmente, o combate ao crime e passou a vêlo como o “braço armado do Estado” e não como um funcionário pronto a servi-la. O que nos leva a duas conclusões que, apesar, de inicialmente parecerem contraditórias, ao final têm certa coerência. A primeira de que foram formados policiais 131 militares para agir dentro da filosofia de policiamento comunitário, obedecendo aos mesmos padrões de formação do policiamento tradicional. Segundo, da possibilidade dos policiais formados durante o CFP de 2007 não terem tido nem se quer a formação dos policiais formados para o Policiamento Ostensivo Geral, já que aos policiais “rondantes” lhes foram suprimidas matérias antes ministradas, como o Estágio Supervisionado. No entanto, um fato é certo: esses policiais que participaram da formação de 2007 foram formados sob o modelo de uma base curricular ultrapassada e em uma carga horária menor do que a padrão. Desse modo, mesmo havendo a coparticipação entre a Universidade Estadual do Ceará (UECE) e a Polícia Militar (PMCE) para a formação dos policiais militares, observa-se um ensino fragmentado, que não promoveu a interdisciplinaridade, um dos princípios necessários pontuados pela Matriz Curricular (2000) para o desenvolvimento de um currículo que promova o diálogo de disciplinas sociais com técnico-operativas e ambas com a realidade de atuação dos policiais militares. Isso coloca em questão os limites das contribuições trazidas pela Universidade Estadual do Ceará aos Cursos de Formação do Soldado de Fileiras da Polícia Militar do Ceará. O que é possível apreender nesse trabalho é que a formação profissional dos policiais militares no Estado do Ceará, embora orientada por novos conteúdos, às vezes não tão novos assim, como pode ser constatado nas análises comparativas, acaba sendo superada, sabotada pelo velho modelo do fazer policial, mais identificado com ações repressivas do que preventivas, o que é incompatível com a proposta de policiamento comunitário. Tudo isso leva a questionar se o Programa Ronda do Quarteirão e a formação dos soldados que o compõem não seriam apenas, “o mais do mesmo” na política de segurança pública do Estado, ou mais uma maneira de se perpetuar o status quo de uma dada situação que envolve as corporações militares na política de segurança pública do País. Dito de outra maneira, “vamos aceitar mudar para que tudo fique como estar”. Afinal, os partidários das mudanças, muitas vezes, são os mesmos que reproduzem velhas práticas que negam o aprendizado ministrado pelos conteúdos da nova formação policial. O desafio da formação policial no Brasil não diz respeito, tão somente às polícias militares, ou não se trata apenas de uma questão de técnica policial, a qual somente os profissionais da área saibam lidar. Também não se pode responsabilizar unicamente as Universidades e Centros de Ensino pelo repasse do saber profissional. Trata-se de saber 132 trabalhar em conjunto, equilibrar, combinar e compartilhar o conhecimento prático dos policiais com o conhecimento técnico-científico da Academia para que a cisão entre a teoria e a prática não mais se sobrevenham. 133 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALBERNAZ, E.R. et. al. Tensões e Desafios de um Policiamento Comunitário em Favelas do Rio de Janeiro: o caso do Grupamento de Policiamento em Áreas Especiais. São Paulo em Perspectiva, v. 21, n. 2, p. 39-52, jul./dez. 2007. 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Você acha que o nível de estudo exigido para o ingresso na PM capacita o profissional de segurança pública para lidar com os diversos problemas sociais enfrentados diariamente pela sociedade? 07. Em sua opinião, você acha que o curso de formação de soldados deveria sofrer alguma modificação? Qual e por quê? 143 APÊNDICE B Termo de Consentimento Livre e Esclarecido Declaro, por meio deste termo, que concordei em ser entrevistado(a) e/ou participar na pesquisa de campo referente à pesquisa intitulada: “A Nova Educação das Polícias Militares e seus reflexos na formação do Policial do Ronda do Quarteirão” desenvolvida por Lara Abreu Cruz. Fui informado(a), ainda, de que a pesquisa é orientada por Maria Glaucíria Mota Brasil, a quem poderei contatar/consultar a qualquer momento que julgar necessário através do telefone nº (85) 31019944. Afirmo que aceitei participar por minha própria vontade, sem receber qualquer incentivo financeiro ou ter qualquer ônus e com a finalidade exclusiva de colaborar para o sucesso da pesquisa. Fui informado(a) dos objetivos estritamente acadêmicos do estudo, que, em linhas gerais é compreender como a proposta de formação desenvolvida pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP), a partir do ano 2000, que doravante denominamos por “nova educação”, vem sendo aplicada nos currículos estaduais dos cursos de formação. Fui também esclarecido(a) de que os usos das informações por mim oferecidas estão submetidos às normas éticas destinadas à pesquisa e que minha colaboração se fará de forma anônima, por meio de entrevista a ser gravada a partir da assinatura desta autorização. O acesso e a análise dos dados coletados se farão apenas pela pesquisadora e/ou sua orientadora. Fui ainda informado(a) de que posso me retirar desse(a) estudo a qualquer momento, sem prejuízo para meu acompanhamento ou sofrer quaisquer sanções ou constrangimentos. Atesto recebimento de uma cópia assinada deste Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Fortaleza, ____ de _________________ de 2012. Assinatura do(a) participante: ___________________________________________ Assinatura da pesquisadora: ____________________________________________ Assinatura da testemunha: _____________________________________________ 144 ANEXOS ANEXO A - ROTEIRO DE ENTREVISTAS INDIVIDUAIS ANEXO B - TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO ANEXO C - ROTEIRO GRUPO FOCAL ANEXO D - DISCIPLINAS MINISTRADAS NO CURSO DE FORMAÇÃO DE SOLDADOS DE FILEIRAS (1986 a 1991) ANEXO E - DISCIPLINAS MINISTRADAS NO CURSO DE FORMAÇÃO DE SOLDADOS DE FILEIRAS (1991 até 2000) ANEXO F - GRADE CURRICULAR DAS BASES CURRICULARES (BASE COMUM) ANEXO G - MALHA CURRICULAR DA MATRIZ CURRICULAR EM MOVIMENTO (BASE COMUM) ANEXO H - MALHA CURRICULAR DA MATRIZ CURRICULAR NACIONAL – VERSÃO MODIFICADA E AMPLIADA (BASE COMUM) ANEXO I - COMPARATIVO DAS DISCIPLINAS MINISTRADAS NOS CFPS DE 2001 A 2010 145 ANEXO A ROTEIRO ENTREVISTA INDIVIDUAL 1º BLOCO: FORMAÇÃO 1 – Trajetória profissional do soldado ou oficial na polícia até chegar ao Ronda do Quarteirão (cada um expõe sua história). Por que está no Ronda? 2- Formação policial – trajetória de formação antes e depois do Ronda. Falar de cursos e experiências de formação: tempo, duração, conteúdos, práticas... 3- Que importância concebem à formação? Que modelo de formação policial pensam para a polícia? Por quê? 2º BLOCO: ATUAÇÃO 4 – Falar da atuação policial no Programa Ronda do Quarteirão: concepção e modelo; experiências, dificuldades, diferenças e semelhanças com relação a polícia militar em geral 5 – Relatar o que observam sobre o que vivenciaram no início do Programa e o que vivenciam hoje? Houve mudança de concepção, de práticas? Quais? 6 - Relação observada entre a formação recebida e a atuação no programa Ronda do Quarteirão. Ver impactos? Falar de impactos desta formação na atuação policial por meio de exemplos... 3º BLOCO: RELAÇÃO COM A COMUNIDADE 7 – Um dos focos do Programa é a relação polícia e comunidade, sob o lema “a polícia da boa vizinhança”. Como definem essa relação e o que pensam dela? 8 – Tem relação com a filosofia de policiamento comunitário? 9 – Como essa relação vem ocorrendo no cotidiano das comunidades? Que práticas surgem por meio dessa relação? 10 – Observam algum impacto da formação que receberam sobre a dimensão da relação polícia e comunidade? Quais? Como? 4º BLOCO: QUESTÕES GERAIS 10 - Em relação às condições reais de trabalho do policial, mudaram com o Programa? Os salários, a auto-estima desses policiais mudaram? 11 – Enfim, qual a compreensão hoje sobre o programa Ronda do Quarteirão e seus impactos na segurança pública do Ceará? 146 ANEXO B TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Declaro, por meio deste termo, que concordei em ser entrevistado(a) e/ou participar na pesquisa de campo referente à pesquisa intitulada “Os limites e potencialidades da nova formação policial nas parcerias das Academias de Polícia com a Universidade no Ceará” desenvolvida por Maria Glaucíria Mota Brasil (coordenadora). Afirmo que aceitei participar por minha própria vontade, sem receber qualquer incentivo financeiro ou ter qualquer ônus e com a finalidade exclusiva de colaborar para o sucesso da pesquisa. Fui informado(a) dos objetivos da pesquisa. Fui também esclarecido(a) de que os usos das informações por mim oferecidas estão submetidos às normas éticas destinadas à pesquisa e que minha colaboração se fará de forma anônima, por meio da entrevista a ser gravada a partir da assinatura desta autorização. O acesso e a análise dos dados coletados se farão apenas pelos pesquisadores. Fui ainda informado(a) de que posso me retirar desse(a) estudo a qualquer momento, sem prejuízo para meu acompanhamento ou sofrer quaisquer sanções ou constrangimentos. Atesto recebimento de uma cópia assinada deste Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Fortaleza, ____ de _________________ de 2009. Assinatura do(a) participante: ______________________________ Assinatura da pesquisadora: _______________________________ Assinatura da testemunha: ________________________________ 147 ANEXO C ROTEIRO GRUPO FOCAL INSTITUCIONAL 1º BLOCO: FORMAÇÃO QUESTÃO 1: QUAL A IMPORTÂNCIA QUE O GRUPO ATRIBUI A FORMAÇÃO POLICIAL (a concepção que cada um tem sobre formação como processo de constituição de saberes, ofícios e agentes para compreendermos as expectativas geradas sobre a atuação da polícia como instituição do Estado democrático de Direitos); QUESTÃO 2: COMO O GRUPO VER A PROPOSTA DA FORMAÇÃO POLICIAL PARA IMPLEMENTAÇÃO DO PROGRAMA RONDA DO QUARTEIRÃO( destacar as potencialidades e os limites dessa formação relacionados ao tempo, conteúdos, práticas e perfil dos professores e monitores, assim como os critérios adotados para de seleção destes). 2º BLOCO: ATUAÇÃO QUESTÃO 3 – Falar da atuação policial no Programa Ronda do Quarteirão: concepção e modelo; experiências, dificuldades, diferenças e semelhanças com relação a polícia militar em geral. QUESTÃO 4 – Relatar o que observaram no início do Programa e o que observam hoje na atuação do Ronda( para avaliarmos o grau de percepção dos interlocutores com relação as práticas policiais desenvolvidas pelos rondantes no início do programa e atualmente). QUESTÃO 5 – É possível identificar impactos dessa formação na atuação dos rondantes? Citar exemplos... 3º BLOCO: RELAÇÃO COM A COMUNIDADE QUESTÃO 6 – Um dos eixos do Programa é a relação polícia e comunidade, sob o lema “a polícia da boa vizinhança”. Como pode ser definida essa relação? Tem relação com a filosofia do policiamento comunitário? QUESTÃO 7 – O que se sabe sobre essa relação do Ronda com as comunidades? Que práticas surgem por meio dessa relação? 4º BLOCO: QUESTÕES GERAIS QUESTÃO 8 - Qual a compreensão que cada um tem sobre o programa Ronda do Quarteirão e seus impactos na segurança pública do Ceará? 148 ANEXO D Disciplinas ministradas no Curso de Formação de Soldados de Fileiras (1986 a 1991) Nº 01. 02. 03. 04. 05. DISCIPLINA ENSINO FUNDAMENTAL Educação Moral e Cívica Comunicação e Expressão Aritmética Higiene e Socorro de Urgência Relações Públicas e Humanas CARGA HORÁRIA (H/A) 16 50 20 20 20 Total da Carga Horária 126 h/a ENSINO PROFISSIONAL 01. 02. 03. 04. 05. 06. 07. 08. 09. Educação Física Militar Instrução Geral (Legislação e Regulamentos) Ordem Unida Armamento e Tiro Informações Comunicações Defesa Pessoal Técnica Policial Operações de Defesa Interior e Territorial 80 60 50 60 10 10 50 200 63 Total da Carga Horária 583 h/a Total Geral da Carga Horária 709h/a Fonte: Anexo II – G do Decreto nº 17. 710, de 06 de janeiro de 1986. 149 ANEXO E Disciplinas ministradas no Curso de Formação de Soldados de Fileiras (1991 até 2000) Nº 01. 02. 03. 04. 05. 06. DISCIPLINA CARGA HORÁRIA (H/A) ENSINO FUNDAMENTAL Direito Constitucional Direito Penal Comum e Penal Militar Direito do Menor e da Mulher Direitos Humanos Educação Moral e Cívica Higiene e Socorros de Urgência 25 25 25 25 25 25 Total da Carga Horária 150 h/a 01. 02. 03. 04. 05. 06. ENSINO PROFISSIONAL I – INSTRUÇÃO POLICIAL MILI TAR Defesa Pessoal Instrução Geral (inclui-se Rendimentos de Legislação PM) Comunicações Operacionais (via Rádio, SSB, Telex, etc.) Noções de Informações Técnica Policial Militar Comunicação Social (Assuntos Civis: 25h/a e Relações Públicas e Humanas: 25h/a) 75 25 25 25 175 50 Total da Carga Horária 375h/a 01. 02. 03. II – INSTRUÇÃO MILITAR Educação Física Militar Ordem Unida (inclui-se as formações empregadas em Operações de Defesa Interna e Defesa Territorial – ODIDT) Armamento, Tiro e Equipamentos 75 75 50 Total da Carga Horária: 200h/a 01. 02. III - ATIVIDADES Atividade Extraclasse (Visitas, Trabalhos em Aciso, Palestras, Horários a disposição da SEI/CFAP). Estágio Prático de Adaptação Profissional 25 50 Total da Carga Horária 75h/a TOTAL GERAL DA CARGA HORÁRIA 800h/a Fonte: Anexo IX do Decreto nº 21.392, de 31 de maio de 1991. 150 ANEXO F Grade Curricular das Bases Curriculares (Base Comum) GRADE CURRICULAR – BASE COMUM AREA DE ESTUDO ÁREA 1 MISSÃO POLICIAL DISCIPLINAS Fundamentos Políticos da Atividade Profissional de Segurança do Cidadão Sociologia do Crime e da Violência do Sistema de Segurança Pública no Brasil Fundamentos de Polícia Comunitária Abordagem Sócio-psicológica da Violência Qualidade em Serviço ÁREA 2 TÉCNICA POLICIAL Ética e Cidadania Criminalística Aplicada Arma de Fogo Defesa Pessoal Medicina Legal Aplicada Pronto Socorrismo Introdução ao Estudo do Direito ÁREA 3 CULTURA JURÍDICA APLICADA ÁREA 4 SAÚDE POLICIAL Direito Civil Direito Constitucional Direito Penal Direito Processual Penal Direito Ambiental Direitos Humanos Direito Administrativo Legislação Especial Saúde Física Saúde Psicológica Processo de Tomada de Decisão Aplicado ÁREA 5 EFICÁCIA PESSOAL Relações Interpessoais ÁREA 6 LINGUAGEM E INFORMAÇÃO Português Instrumental Telecomunicações Técnica da informação Gerenciamento de Crises Fonte: Bases Curriculares para a Formação dos Profissionais de Segurança do Cidadão, 2000b, p.21 151 ANEXO G Malha Curricular da Matriz Curricular em Movimento (Base Comum) ÁREAS TEMÁTICAS DA MATRIZ I II III IV V DISCIPLINAS Sistemas, Instituições e Gestão Integrada em Segurança Pública Violência, Crimes e Controle Social Cultura e Conhecimento Jurídico Modalidades de Gestão de Conflitos e Eventos Críticos Valorização Profissional e Saúde do Trabalhador PERCENTUAL DA CARGA HORÁRIA Sistema de Segurança Pública no Brasil Fundamentos de Gestão Pública Fundamentos de Gestão Integrada e Comunitária Abordagem Sóciopsicológica da violência e do crime Criminologia aplicada à segurança pública Análise de Cenários e Riscos Direitos Humanos 7% Fundamentos dos Conhecimentos Jurídicos 7% 7% 7% 7% 7% 5% 6% Gerenciamento Integrado de Crises e Desastres 6% Relações Humanas 6% Saúde e Segurança Aplicada ao trabalho 5% Língua e Comunicação VI VII VIII Comunicação, Informação e tecnologias em segurança Pública Cotidiano e Prática Reflexiva 5% Telecomunicações 5% Sistemas Informatizados Gestão da Informação 5% 7% Ética e Cidadania 5% Preservação e Valorização Funções, Técnicas da Prova e Procedimentos Primeiros Socorros em segurança Pública Uso da Força 5% 5% 7% Fonte: Matriz Curricular em Movimento, Diretrizes Pedagógicas e Malha Curricular, 2006 152 ANEXO H Malha Curricular da Matriz Curricular Nacional – Versão Modificada e Ampliada (Base Comum) Áreas Temáticas Percentual da Carga Horária DISCIPLINAS Sistema de Segurança Pública no Brasil Fundamentos de Gestão Pública Fundamentos de Gestão Integrada e Comunitária Abordagem Sóciopsicológica da violência e do crime Violência, Crimes e Controle Criminologia aplicada à Social segurança pública Análise de Cenários e Riscos Direitos Humanos Cultura e Conhecimento Fundamentos dos Jurídico Conhecimentos Jurídicos Gerenciamento Integrado de Modalidades de Gestão de Crises e Desastres Conflitos e Eventos Críticos Prevenção, Mediação e Resolução de Conflitos Sistemas, Instituições e Gestão Integrada em Segurança Pública I II III IV V Valorização Profissional e Saúde do Trabalhador VI Comunicação, Informação e tecnologias em segurança Pública Cotidiano e Prática Reflexiva Relações Humanas Saúde e Segurança Aplicada ao trabalho Língua e Comunicação Telecomunicações Sistemas Informatizados Gestão da Informação Ética e Cidadania VII VIII 5% 5% 5% 5% 5% 5% 6% 5% 6% 4% 6% 6% 4% 4% 4% 5% 6% Funções, Técnicas e Procedimentos em segurança Pública Preservação e Valorização da Prova Primeiros Socorros 4% 4% Uso da Força 5% Fonte: Matriz Curricular Nacional – Versão Modificada e Ampliada, 2008. 153 ANEXO I Comparativo das disciplinas ministradas nos CFPs de 2001 a 2010 Nº I – ENSINO FUNDAMENTAL CARGA DISCIPLINA HORÁRIA 2001/2003/2005 01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 14 15 16 Seminário Introdutório Comunicação e Expressão* Sociedade, Ética e Cidadania Introdução ao Estudo do Direito Fundamentos de Direito Constitucional Fundamentos de Direito Administrativo Fundamentos de Direito Penal Fundamentos de Direito Processual Penal Fundamentos de Direito Penal Militar Fundamentos de Direito Processual Penal Militar Fundamentos de Direito Civil Fundamentos de Direito Ambiental Fundamentos de Direitos Humanos Saúde e Segurança Aplicada ao Trabalho*** Fundamentos Psicossociais da Atividade Policial Fundamentos Psicossociais do Fenômeno da Violência 17 Fundamentos da Atividade Profissional da Segurança Pública **** 18 Educação Física Total Carga Horária Nº 01 02 03 II – ENSINO PROFISSIONAL DISCIPLINA Sistema de Segurança Pública no Brasil Legislação da Polícia Militar Atendimento em Emergências Médicas (Pronto Socorro) 04 Telemática – Telecomunicações e Informática***** 05 Instrução Geral 06 Gestão de Conflitos e Eventos Críticos****** 07 Técnica Policial Militar 08 Doutrina de Polícia Comunitária 09 Armamento (letal e não letal) e Equipamento 10 Tiro Policial Defensivo 11 Ordem Unida 12 Inteligência Policial 13 Defesa Pessoal 14 Direção Veicular Aplicada a Atividade Policial Militar Total Carga Horária 20 20 30 20 20 20 20 20 20 20 30 20 20 15** 20 20 20 20 20 CARGA HORÁRIA 2008/2009 e 2010 08 20 20 20 20 20 20 20 20 20 20 20 20 20 30 20 30 20 20 60 370 h/a CARGA HORÁRIA 2007 10 20 20 20 20 20 20 20 30 315 h/a 60 408 h/a CARGA HORÁRIA 2001/2003/2005 CARGA HORÁRIA 2007 20 30 30 20 30 20 CARGA HORÁRIA 2008/2009 e 2010 20 30 20 50 40 45 120 90******* 20 30 20 80 20 60 45 20 60 - 30 20 50 - 550 h/a 400 h/a 20 40 40 90 40 30 60 40 20 60 28 538 h/a 154 Nº 01 02 III – ENSINO COMPLEMENTAR DISCIPLINA Seminário de Encerramento Seminário Temático I - Prevenção ao Uso de Drogas: o Papel do Policial. 03 Seminário Temático II - Sistema de Seg. Pública: a Experiência do Estado do Ceará 04 Seminário Temático III - Qualidade de Vida e Prática Profissional 05 Ação Policial Supervisionada (Estágio Reflexivo) Total Carga Horária TOTAL GERAL DA CARGA HORÁRIA 20 10 - CARGA HORÁRIA 2008/2009 e 2010 08 04 - 08 10 - 08 114 158 h/a 1.078 H/A 715 H/A 50 74 h/a 1.020H/A