Bo l e t i m N A C E ISSN 1809-93 3 5 Boletim do Núcleo de Avaliação de Conjuntura Econômica Ano II – Número 4 – Outubro de 2006 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO ........................................................................................................6 2. CONJUNTURA POLÍTICA BRASILEIRA.................................................................9 3. INFLAÇÃO E POLÍTICA MONETÁRIA..................................................................33 4. POLÍTICA FISCAL E DÍVIDA PÚBLICA ................................................................66 5. NÍVEL DE ATIVIDADE ECONÔMICA (COMPORTAMENTO DO PRODUTO, DO EMPREGO E DA RENDA) ........................................................................................77 6. SETOR EXTERNO ................................................................................................96 7. CENÁRIO ECONÔMICO INTERNACIONAL.......................................................103 1 ÍNDICE ANALÍTICO 1. INTRODUÇÃO..................................................................................................................6 2. CONJUNTURA POLÍTICA BRASILEIRA .......................................................................9 2.1. O Cenário Político: Desenvolvimento a partir do Início do Ano de 2006. ....................9 2.2. As Pesquisas e a Construção da Disputa Eleitoral Nacional ..................................11 2.3. As Eleições para o Congresso....................................................................................17 2.4. As Eleições para Governador ....................................................................................19 2.5. Conclusões................................................................................................................25 2.6. Cenário Político Internacional ...................................................................................26 Introdução ...................................................................................................................26 2.6.1. A Guerra Israel X Líbano / Hizbollah ................................................................27 2.6.2. As ambições nucleares do “Eixo do Mal”...........................................................28 2.6.3. O Mercosul e seus Impasses...............................................................................29 2.6.4. A Cuba de (sem) Fidel Castro ............................................................................30 3. INFLAÇÃO E POLÍTICA MONETÁRIA........................................................................33 3.1 Análise do Período .....................................................................................................33 3.1.1. Período: Janeiro – Março de 2006......................................................................33 3.1.2. Período: Abril – Junho de 2006..........................................................................36 3.1.3 Período: Julho – Setembro de 2006 .....................................................................38 3.1.4. Considerações finais e perspectivas....................................................................40 3.2.1. Introdução .........................................................................................................40 3.2.2. Análise dos Agregados ......................................................................................43 3.3. Juros e Crédito ..........................................................................................................49 3.3.1. Juros ..................................................................................................................49 3.4. Melhores Investimentos.............................................................................................58 3.5.1. Fronteira Eficiente de Investimentos ..................................................................64 4. POLÍTICA FISCAL E DÍVIDA PÚBLICA......................................................................66 4.1. Evolução da Política Fiscal e Tributária.....................................................................66 Total Geral das Receitas ..............................................................................................68 4.2. Evolução da Dívida Pública.......................................................................................72 4.3. Temas Especiais: Privatização em Debate .................................................................75 5. NÍVEL DE ATIVIDADE ECONÔMICA (COMPORTAMENTO DO PRODUTO, DO EMPREGO E DA RENDA) .................................................................................................77 5.1. Evolução do PIB total e por Setor de Atividade .........................................................77 5.2. Evolução da produção industrial................................................................................79 5.3. Evolução do Comércio Varejista ...............................................................................82 5.4. Mercado de Trabalho e Renda ...................................................................................84 5.4.1. Pessoas em Idade Ativa (PIA)............................................................................85 5.4.2. PESSOAS ECONOMICAMENTE ATIVAS (PEA) ..........................................86 5.4.3. População Ocupada............................................................................................88 5.4.4. População Ocupada por Grupamentos de Atividade ...........................................89 5.4.5. População Ocupada por Forma de Inserção do Trabalhador no Mercado de Trabalho ......................................................................................................................91 5.4.6. Pessoas Desocupadas (Pd) .................................................................................92 5.4.7. Taxa de Desocupação ........................................................................................93 5.4.8. Rendimento Médio Real ....................................................................................93 5.4.9. Análise do Rendimento Médio dos Trabalhadores por Grupamento de Atividade ....................................................................................................................................94 2 5.4.10. População Não Economicamente Ativa (PNEA) ..............................................94 5.4.11. Estrutura ..........................................................................................................95 6. SETOR EXTERNO..........................................................................................................96 6.1. Taxa de Câmbio ......................................................................................................101 7. CENÁRIO ECONÔMICO INTERNACIONAL .............................................................103 7.1. Panorama Geral.......................................................................................................103 7.1. Commodities ...........................................................................................................104 7.2. Economia dos Estados Unidos.................................................................................105 7.3. Economia da União Européia ..................................................................................112 7.4. Economia da Argentina ...........................................................................................115 7.5. Economia da China .................................................................................................117 7.6. Economia do Japão .................................................................................................120 7.7. O Brasil e as Relações Internacionais ......................................................................123 7.7.1. O Caso da Nacionalização do Petróleo Brasileiro pelo Governo Boliviano.......123 7.7.2. A OMC e o Comércio entre as Nações.............................................................125 3 ÍNDICE DE TABELAS Tabela 1 - Avaliação do Governo de Luiz Inácio Lula da Silva..........................................9 Tabela 2 - Evolução da Intenção de Votos (%) .................................................................15 Tabela 3 - Evolução de Número de Deputados por Partidos Políticos .............................19 Tabela 4 - Governadores ....................................................................................................20 Tabela 5 - Governadores ....................................................................................................22 Tabela 6 - Tabela Comparativo: Governadores Eleitos em 2002 e 2006..........................24 Tabela 7 - Variação em % dos Índices de Preços – Janeiro/ Março.................................35 Tabela 8 - Variação em % dos Índices de Preços – Abril/Junho ......................................38 Tabela 9 - Variação em % dos Índices de Preços – Julho/Agosto ....................................40 Tabela 10 - Base Monetária e Componentes – Saldo no Final do Período - (R$ Mi).......43 Tabela 11 - Base Monetária Ampliada - Saldos no Final do Período - R$ Mi..................44 Tabela 12 - M1 e componentes - saldo em final de período - (R$ Mi)..........45 Tabela 13 - Meios de pagamento ampliados - Saldo em final de período - (R$ Mi) 46 Tabela 14 - Programação Monetário para o 3º Semestre e para o Ano ...........................48 Tabela 15 - Taxas de Juros no Brasil (jan.-set. 2006)........................................................52 Tabela 16 - Crédito no Brasil (jan./ago. 2006)...................................................................53 Tabela 17 - Crédito no Brasil ao setor público e ao setor privado, R$ bilhões (jan./ago. 2006)....................................................................................................................................53 Tabela 18 - Crédito no Brasil ao setor público e ao setor privado – variação em relação ao mesmo período do ano anterior (jan./ago. 2006) ..........................................................54 Tabela 19 - Crédito com recursos livres no Brasil – variação em relação ao mesmo período do ano anterior (jan./ago. 2006)............................................................................55 Tabela 20 - Crédito com recursos direcionados no Brasil – variação em relação ao mesmo período do ano anterior (jan./ago. 2006) ...............................................................56 Tabela 21 - Spread bancário no Brasil: crédito com recursos livres (jan./ago. 2006)......57 Tabela 22 – Rentabilidades ................................................................................................60 Tabela 23– Riscos ...............................................................................................................60 Tabela 24 - Arrecadação das Receitas Fiscais Federais para Tributos Selecionados – Janeiro a Setembro 2005-2006 (R$ milhões de setembro de 2006, deflacionado pelo IPCA) ..................................................................................................................................68 Tabela 25 - Despesa Total do Tesouro Nacional – 2005-2006 (R$ milhões de setembro de 2006, deflacionado pelo IPCA)...........................................................................................69 Tabela 26 - Evolução da Composição do Estoque da DPMFI (%) ...................................73 Tabela 27 - Evolução do Prazo Médio do Estoque da DPMFI (Meses)............................75 Tabela 28 - Evolução do PIB pela ótica da oferta e da despesa ........................................77 Tabela 29 - Variação do volume de vendas e receita nominal no comércio varejista ......83 Tabela 30 – Características da PIA ...................................................................................86 Tabela 31 – Características da PEA ..................................................................................87 Tabela 32 – Características da População Ocupada .........................................................88 Tabela 33 – Características da População Ocupada .........................................................90 Tabela 34 – Características da População Desocupada ....................................................92 Tabela 35 – Balanço de Pagamentos (US$ milhões) Jan-Set/2005 e Jan-Set/2006 ...........96 Tabela 36 – Balança de Serviços (US$ milhões) Jan-Set/2005 e Jan-Set/2006 .................98 Tabela 37 – Balança de Rendas (US$ milhões) Jan-Set/2005 e Jan-Set/2006...................99 Tabela 38 - Balança Comercial Brasil – EUA .................................................................105 Tabela 39 - Balança Comercial Brasil – União Européia................................................112 Tabela 40 - Balança Comercial Brasil – Argentina.........................................................115 4 Tabela 41 - Balança Comercial Brasil – China ...............................................................117 Tabela 42 - China: Índice de Confiança dos Empreendedores.......................................119 Tabela 43 - Balança Comercial Brasil – Japão................................................................120 ÍNDICE DE FIGURAS Figura 1 - Popularidade do Presidente (%).......................................................................10 Figura 2 - Pesquisa de Intenção de Voto para Presidente da República (%)...................13 Figura 3 - Pesquisa de Intenção de Voto para Presidente da República (%)...................14 Figura 4 - Evolução da Intenção de Votos (%)..................................................................15 Figura 5 - IPCA - No Primeiro Semestre % (1995-2006)..................................................37 Figura 6 - Títulos Bacen X Tesouro ...................................................................................45 Figura 7 - M2 Ampliado.....................................................................................................47 Figura 8 - M3 Ampliado.....................................................................................................48 Figura 9 - Selic versus swap-pré 30 dias (jan./set. 2006)...................................................50 Figura 10 - Grau de capacidade ociosa na indústria (ago.05/ago.06) ...............................51 Figura 11 - Juros e spread bancário no Brasil (ago.05/ago.06).........................................58 Figura 12 – Retornos dos Índices de Renda Fixa – Julho de 2005 a Setembro de 2006...61 Figura 13 – Retornos das Bolsas – Julho de 2005 a Setembro de 2006.............................61 Figura 14 – Retornos dos Contratos de Câmbio – Julho de 2005 a Setembro de 2006....62 Figura 15 – Riscos dos Índices de Renda Fixa – Julho de 2005 a Setembro de 2006 .......62 Figura 16 – Riscos das Bolsas – Julho de 2005 a Setembro de 2006 .................................63 Figura 17 – Riscos dos Contratos de Câmbio – Julho de 2005 a Setembro de 2006 ........63 Figura 18 - Superávit Primário do Setor Público Consolidado - Janeiro-Setembro (% do PIB) .....................................................................................................................................66 Figura 19 - Déficit Fiscal Nominal do Setor Público Consolidado (% do PIB)................69 Figura 20 - Evolução da Carga Tributária Brasileira (%) ...............................................72 Figura 21 - Dívida Líquida do Setor Público (% Pib).......................................................73 Figura 22 - PIB por Setor de Atividade - Série encadeada do índice trimestral (média de 1990=100)............................................................................................................................79 Figura 23 - Produção Industrial por Classe de Indústria – Brasil – Variação mensal (%) .............................................................................................................................................80 Figura 24 - Produção Industrial – Bens de Consumo - Variação mensal (%) ................81 Figura 25 - Produção Industrial de Bens de Capital – Variação Acumulado JaneiroAgosto 2006/2005 (%).........................................................................................................82 Figura 26 - Vendas no Comércio Varejista – Volume e Receita Nominal – Variação (Mês/Mês ano anterior %) .................................................................................................82 Figura 27 - População Economicamente Ativa .................................................................88 Figura 28 – Resultado em Conta Corrente do Balanço de Pagamentos (US$ milhões e % PIB a partir de valores acumulados em 12 meses) Set/2005 - Set/2006. ...........................97 Figura 29 – Taxa de variação das exportações e das importações (t/t-12 - % a partir de valores acumulados em 12 meses) Set/2005 – Set/2006 Fonte: Banco Central do Brasil...98 Figura 30 – Estoque de Reservas Internacionais (US$ milhões) Jan/2005-Set/2006......100 Figura 31 – Dívida Externa Total Bruta (US$ Milhões) e Taxa Nominal de Câmbio (Com. Venda Fim de Período – R$/US$, média anual) 1994-2005 .................................101 Figura 32 – Dívida Externa Pública de Médio e Longo Prazo (US$ Milhões) T1/04-T3/06 ...........................................................................................................................................101 5 Figura 33 – Taxa Nominal de Câmbio (Comercial venda fim de período – % acum. em 12 meses) Jan/2006-Set/2006 ............................................................................................102 Figura 34 - Evolução dos Preços das Commodities (jan 2005 = 100) .............................104 Figura 35 - Evolução dos Preços do Petróleo ..................................................................105 Figura 36 - Taxas anualizadas de variação percentual do PIB em relação ao período anterior (com ajuste sazonal) ...........................................................................................106 Figura 37 - EUA: Imóveis novos vendidos por trimestre (em milhares) ........................107 Figura 38 - Apreciação trimestral do preço dos imóveis nos EUA .................................107 Figura 39 - EUA: Inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor, em relação ao mesmo trimestre do ano anterior.....................................................................................108 Figura 40 - Evolução da taxa básica de juros norte-americana......................................109 Figura 41 - EUA: Déficit orçamentário (US$ bi).............................................................110 Figura 42 - EUA: Déficit em Transações Correntes, trimestral, ajustado sazonalmente (em US$ bi) .......................................................................................................................111 Figura 43 - A Relação Dólar/Euro ...................................................................................111 Figura 44 - União Européia: variação percentual do PIB real em relação ao trimestre anterior (dados sazonalizados).........................................................................................112 Figura 45 - União Européia: saldo em Transações Correntes (milhões de Euros) ........113 Figura 46 - Evolução do IPC (índice anualizado) na União Européia............................113 Figura 47 - Evolução da Taxa de Juro para Operações de Refinanciamento do Banco Central Europeu ...............................................................................................................114 Figura 48 - Desemprego na União Européia (25 países) .................................................115 Figura 49 - Argentina: Evolução do PIB .........................................................................116 Figura 50 - Argentina: Taxa de Inflação (IPC) ...............................................................116 Figura 51 - Argentina: Desemprego (28 aglomerados urbanos).....................................117 Figura 52 - China: Variação do PIB em relação ao mesmo trimestre do ano anterior .118 Figura 53 - China: evolução do IPC ................................................................................119 Figura 54 - China: Yuan/US$ ..........................................................................................120 Figura 55 - Japão: Variação do PIB Real (taxa trimestral anualizada e variação real em relação ao mesmo período do ano anterior) ....................................................................121 Figura 56 - Japão: Taxa de Desemprego (Jan. 2005 a Mar. 2006) .................................122 Figura 57 - Japão: Taxa Mensal de Variação dos Preços ao Consumidor (Jan. 2005 a Mar. 2006).........................................................................................................................123 6 1. INTRODUÇÃO O Boletim NACE de avaliação da conjuntura econômica brasileira inicia-se realizando uma retrospectiva das eleições realizadas no Brasil no segundo semestre de 2006, onde podese constatar uma esmagadora vitória do presidente Lula sobre seu oponente rival tucano Geraldo Alckmin, ex governador do estado de São. Paulo, mesmo num cenário repleto de corrupção (mensalão, valerioduto, vampiros e sanguessugas). Mostrou, por um lado, que sua legitimidade é soberana. Porém, de outro lado, com a derrota do PT em alguns governos estaduais, e com a perda de algumas cadeiras no Congresso Nacional, pode acarretar em dificuldades na condução de seu segundo mandato, pois para que obtenha maioria no Congresso, necessita de conchavos políticos, o que pode caracterizar a perda de alguns ministérios para outros partidos e, consequentemente, sua unidade. Dentro deste cenário, coloca esta política como coadunada ao populismo crescente e remanescente na América Latina, e suas relações com os demais blocos econômicos mundiais. O Boletim prossegue realizando o comportamento da inflação no Brasil, que mostra que ela se mantém em trajetória declinante para o centro da meta, possibilitando uma maior flexibilização na condução da política monetária, reduzindo, assim, a taxa de juros. Esta política está de acordo com o comportamento dos agregados monetários, onde se verifica uma maior expansão dos meios de pagamento como conseqüência da maior emissão de fundos de renda fixa prefixados, o que nos faz acreditar que o mercado está apostando nisto. Esta crença acarreta em um aumento do crédito, mesmo em um cenário de aumento de inadimplência. Para corroborar com esta idéia, os ativos que tiveram maior rentabilidade no ano, foram também os de maior volatilidade, como o ouro e o Ibovespa, resultando num aumento das reservas e conseqüente redução no risco país (pelo índice EMBI+, iniciou o primeiro semestre de 2006 cotado a 302 pontos percentuais, e, no dia 30 de junho, alcançou o valor de 254 pontos percentuais. No dia 30 de setembro o valor registrado para o spread Brasil foi de 233 pontos percentuais). Mais uma vez o superávit primário ficará acima da meta estipulada. Porém, representa uma redução em relação ao ano anterior. Esta redução. Contou um aumento na carga tributária (de 34,9% em 2003 para 38,0% em 2006), com um superávit primário dos Governos Municipais e Estaduais, e lucro elevado da Petrobrás. No entanto, este superávit primário mostra-se insuficiente para sustentar a política fiscal expansionista. O aumento do salário mínimo e das aposentadorias, e a antecipação do 7 pagamento da primeira parcela do décimo terceiro salário, acrescido do programas assistencialistas, promoveram um aumento no déficit nominal do governo. A percepção satisfatória do mercado em relação à condução das políticas monetária e fiscal possibilitou ao Tesouro Nacional melhores condições de negociação dos títulos públicos, implicando numa redução da relação dívida líquida em relação ao PIB para 50,5% e do spread cobrado do Brasil. Como conseqüência deste cenário, acrescido de uma suposta sobrevalorização cambial, o PIB brasileiro tem apresentado uma tendência de crescimento modesto, e sustentado, pela ótica da demanda, por um crescimento das importações de bens e serviços e formação bruta de capital. Pode-se depreender que estão ocorrendo investimentos na produção, principalmente no setor industrial, até mesmo pela perspectiva de redução da taxa de juros de longo prazo. Pelo lado da oferta o crescimento do PIB deve-se mais ao aumento do consumo das famílias. É uma resposta das pessoas pelo aumento do rendimento médio do trabalhador, que teve uma taxa de crescimento das carteiras assinadas, em detrimento do setor informal, o que facilita o comércio através, por exemplo, do crédito consignado. Outra forma de controle de preços praticada pelo governo tem sido a política cambial. A valorização do cambial nominal propicia um crescimento das importações em velocidade maior que o das exportações. No entanto, a severidade da política monetária possibilitou um resultado positivo nas transações correntes. Em conta corrente, a rubrica de maior significância é o IED (Investimento Direto Estrangeiro) que se apresentou maior que no anterior. As contas superavitárias do saldo do balanço comercial e dos IED, possibilitou um saldo positivo no Balanço de Pagamentos, o que pode, em parte, ser explicado por um cenário internacional favorável. A despeito dos preços do barril de petróleo se manterem em patamares elevados, o comércio mundial permanece aquecido, principalmente em função dos commodities metálicos, que são insumos básicos à produção industrial. A perspectiva de uma melhora do desempenho americano, com o aparente fim da bolha imobiliária, de um crescimento elevado da economia Argentina, a retomada de um pequeno crescimento da economia japonesa e da manutenção da taxa de crescimento da União Européia em torno de 3,25% e ao crescimento fantástico da China, corroboram com a perspectiva da consecução dos objetivos dos condutores da política econômica para o ano de 2006. 8 Finalmente, o Boletim se adentra em discussões sobre as relações internacionais brasileiras, relatando casos significativos como os casos da Petrobrás na Bolívia e outras questões relacionadas à OMC e o comércio entre as Nações. 9 2. CONJUNTURA POLÍTICA BRASILEIRA Maurício Loboda Fronzaglia Introdução Deparamo-nos com a análise da conjuntura política brasileira em um ano de eleições nacionais, fazendo com que todo o desenvolvimento dessa conjuntura girasse em torno deste evento. Esse boletim pretende fazer uma análise e uma recapitulação dos principais fatos políticos brasileiros desde o início do corrente ano e pretende também, ainda que de forma ensaística, fazer projeções das possíveis conseqüências dos resultados das eleições. Serão expostos os movimentos dos partidos políticos na construção das suas candidaturas nacionais e locais, assim como, analisar-se-á todo o desenvolvimento da campanha eleitoral das pesquisas de intenção de voto para presidente e para governador dos estados. Abordar-se-á a composição do novo congresso nacional e as conseqüências da entrada em vigor da cláusula de barreira. Finalmente, serão feitas considerações sobre o sistema partidário e eleitoral brasileiro e de como esse sistema se reflete nas relações institucionais entre o poder executivo e o poder legislativo federal. 2.1. O Cenário Político: Desenvolvimento a partir do Início do Ano de 2006. O governo do presidente Lula passou por momentos de crise e forte instabilidade a partir do mês de maio de 2005 com as primeiras denúncias sobre o mensalão, acarretando a demissão do Ministro Chefe da Casa Civil, José Dirceu, e com a queda de vários outros nomes de importância dentro do governo e do próprio partido dos trabalhadores. Embora alguns analistas políticos e mesmo alguns políticos da oposição tivessem concluído que essa crise deixaria o governo por demais enfraquecido e faria nulas as chances de reeleição do então presidente da república, o que ocorreu foi justamente o contrário. A popularidade do presidente, que sofrera sensível queda na segunda metade de 2005, recuperou-se e fortaleceuse ao longo do ano de 2006. Tabela 1 - Avaliação do Governo de Luiz Inácio Lula da Silva DATA 12/09/2005 Ótimo/Bom 29% Regular 36% Ruim 32% Não Sabe 2% 10 13/10/2005 07/12/2005 16/01/2006 11/03/2006 01/06/2006 25/07/2006 10/08/2006 18/08/2006 27/08/2006 01/09/2006 08/09/2006 21/09/2006 24/09/2006 27/09/2006 30% 29% 33% 38% 38% 39% 41% 41% 44% 43% 46% 43% 43% 44% 41% 37% 39% 39% 41% 36% 35% 37% 38% 38% 35% 37% 36% 35% 28% 32% 27% 21% 19% 23% 22% 21% 17% 18% 19% 19% 20% 21% 1% 2% 1% 1% 1% 1% 1% 2% 2% 1% 1% 1% 1% 1% Fonte: IBOPE. 50 45 40 35 30 25 20 15 10 5 0 ótimo/bom regular ruim 12/9/2006 12/8/2006 12/7/2006 12/6/2006 12/5/2006 12/4/2006 12/3/2006 12/2/2006 12/1/2006 12/12/2005 12/11/2005 12/10/2005 12/9/2005 não sabe Figura 1 - Popularidade do Presidente (%) Fonte: IBOPE. Analisando a popularidade do Presidente, percebe-se facilmente que sua pior avaliação ocorreu no mês de setembro de 2005, alguns meses após o início da chamada crise do mensalão. E, muito embora não exista uma constante na periodicidade da realização da pesquisa de avaliação, há uma gradual recuperação da popularidade do presidente que irá se estabilizar um pouco acima dos 40% de avaliação ótimo/bom a partir de agosto de 2006. Neste ponto, torna-se necessário perguntar se seria possível saber a partir de quais critérios a população (em suas diferentes classes sociais) faz o julgamento do governo. Tal resposta demandaria uma análise mais detalhada dessas pesquisas em seus diferentes cortes, como por região do país, nível de renda, escolaridade, gênero e identificação ideológica. E, 11 apesar de não haver espaço nesse trabalho para o desenvolvimento dessa análise, podem ser levantados alguns aspectos que possivelmente contribuíram para a consolidação de uma boa avaliação por parte do governo. Em primeiro lugar, devemos destacar que o desfecho da crise do mensalão e o fim da CPI dos Correios mostraram-se ser muito mais corrosiva para com os representantes do poder legislativo do que para com o chefe do poder executivo. E, o caso do mensalinho do então presidente da Câmara Severino Cavalcanti contribuiu e muito para essa avaliação. A estratégia adotada pelo governo de tentar descolar o presidente e reduzir os limites da crise ao poder legislativo foi bem sucedida. Da mesma forma, a estratégia de mostrar a distribuição de recursos financeiros pelo esquema do chamado “valerioduto” como uma simples decorrência das sobras de recursos não contabilizados da campanha presidencial. Por outro lado, algumas realizações do governo acabaram por beneficiar, ao longo do mandado do presidente Lula, grandes parcelas da população, como o programa Bolsa Família, que se direciona objetivamente para as parcelas mais pobres da população, e também o programa Universidade para todos – PROUNI. A popularidade dessas ações governamentais foi essencial para a recuperação da popularidade do presidente. O Presidente conseguiu manter-se afastado dos escândalos políticos, mesmo daqueles mais recentes, fortaleceu sua popularidade e distanciou-se das brigas internas do seu partido, conseguindo colocar-se, desta forma, como um forte candidato à reeleição. Um fato positivo a ser destacado é que, contrariamente as últimas eleições, não houve até agora nenhum fator de desarranjo econômico ou político institucional baseado em projeções dos possíveis resultados eleitorais. O câmbio não foi afetado, o chamado risco país não sofreu alterações significativas, e não houve setores da sociedade que se pronunciassem contra alguma possível catástrofe institucional O governo do PT não incita mais medos e temores de drásticas mudanças políticas e econômicas, não é mais visto como um perigo para os investimentos externos e nem tão pouco se mostra como ameaça para a continuidade e preservação da propriedade privada. 2.2. As Pesquisas e a Construção da Disputa Eleitoral Nacional A definição das candidaturas presidenciais orientou-se essencialmente a partir dos resultados e das conseqüências da crise política desencadeada em meados de maio de 2005. Dos quatro principais candidatos à presidência da república, dois eram senadores do partido dos trabalhadores: Cristovam Buarque e Heloísa Helena. Esta última foi expulsa do partido 12 logo no início do governo, por se posicionar contra o governo em algumas votações importantes, entre elas a votação sobre a mini reforma da previdência. Já o senador pelo Distrito Federal abandonou o partido dos trabalhadores em meio a referida crise, muito embora sua relação com o presidente Lula já estivesse desgastada desde sua demissão, por telefone, do Ministério da Educação. E, enquanto a senadora de Alagoas formou um novo partido político – PSOL (socialismo e liberdade) – o senador Cristovam filiou-se ao Partido Democrático Trabalhista. A candidatura de Heloísa Helena buscou aglutinar as tendências e forças de esquerda do próprio PT que se encontravam em uma posição bastante incomoda dentro da legenda e que sempre demonstraram insatisfação com os rumos tomados pelo governo petista ditados por um excessivo pragmatismo para se manter no poder. Alguns nomes ilustres do PT filiaram-se ao PSOL após depois das eleições para a presidência do partido dos trabalhadores, entre eles, Plínio de Arruda Sampaio, Ivan Valente e Chico Alencar. Já Cristovam construiu sua candidatura também como uma alternativa de esquerda tendo como vice o senador Jéferson Peres, um dos senadores mais críticos e combativos do congresso nacional desde a época de FHC. Esses dois candidatos, que juntos obtiveram pouco mais do que 8% do eleitorado nacional, concentraram o voto da esquerda descontente com o PT, além de serem expressão de um voto de protesto contra a chamada falta de ética na condução da política nacional, e nesse quesito, a senadora Heloísa Helena foi, talvez, a grande beneficiada pela sua postura firme, combativa e muitas vezes de exagerada verborragia moralista. O discurso político da senadora Heloísa Helena recai, tantas vezes, no mesmo erro apontado no boletim anterior do NACE e que foi uma marca típica do PT oposicionista, de confusão da ética pública/política com a ética privada/religiosa. Sabe-se que uma das principais contribuições de Nicolau Maquiavel foi evidenciar que as esferas da vida política e da vida privada são distintas, têm objetivos diferenciados e por isso mesmo norteiam-se por éticas diferentes. Enquanto que a ética privada é marcada pela moralidade religiosa e cristã (no caso da civilização ocidental) e tem como objetivo último a redenção ou a salvação da alma, a vida política (pública) tem como objetivo, segundo o pensador florentino, a conservação do poder do Estado e da ordem social. A política, como diria Weber alguns séculos mais tarde, trata com a violência e com o uso legítimo da força, sendo o Estado o detentor do monopólio legítimo do uso da violência. O mundo da política é muitas vezes incerto, ele trata da disputa de poder interna e externa, com o conflito entre diferentes grupos de interesses e classes sociais. Não se pode atuar no mundo da política sendo pautado 13 unicamente pelos princípios da ética religiosa1. O discurso da candidata a presidência pelo PSOL demonstrou, claramente, a sobreposição dessas duas éticas. A construção da candidatura do PSDB merece uma análise mais detalhada. Como um dos principais partidos da oposição, o PSDB parece ter se equivocado em seus prognósticos sobre a crise e a popularidade do presidente da república. Pensou-se que o governo se arrastaria agonizante durante todo o ano de 2006, constituindo um cenário favorável para a volta dos tucanos ao governo federal. O nome mais forte do partido e já conhecido nacionalmente seria o do então prefeito de São Paulo, José Serra, derrotado por Lula no segundo turno das eleições presidenciais de 2002. Mas havia ainda o nome do então governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que também tentava articular sua candidatura à presidência da republica. A análise das pesquisas de intenção de voto para presidente no final de 2005 ajuda a esclarecer o desenvolvimento da escolha do candidato tucano. 40 35 30 lula 25 serra garotinho 20 heloísa helena 15 roberto freire 10 indecisos/brancos/nulos 5 0 13-14/12/2005 Figura 2 - Pesquisa de Intenção de Voto para Presidente da República (%) Fonte: DATAFOLHA 1 Um dos simples exemplos para demonstrar a diferença de ação nesses dois mundos diz respeito a uma conduta criminosa, que na ética privada/religiosa deve ser perdoada, enquanto que no mundo político o crime deve ser punido e de forma rigorosa. 14 35 30 lula 25 alckmin 20 garotinho heloísa helena 15 roberto freire 10 indecisos/brancos/nulos 5 0 13-14/12/2005 Figura 3 - Pesquisa de Intenção de Voto para Presidente da República (%) Fonte: DATAFOLHA Os números da pesquisa demonstram claramente que até esse momento a candidatura de José Serra mostrava-se como a mais viável para derrotar o presidente Lula. José Serra tinha sido muito bem avaliado em sua passagem pelo Ministério da Saúde, era nacionalmente conhecido, e beneficiava-se do efeito “recall” nas pesquisas, por ter sido o candidato derrotado pelo atual presidente. Já com a candidatura Geraldo Alckmin, a vantagem se invertia em favor de LULA. Esses números coincidem com a pior avaliação de popularidade do governo federal. Recuperada a popularidade do presidente, recupera-se também seu desempenho das pesquisas. E, embora José Serra continue sendo o candidato com melhor desempenho nas pesquisas posteriores, tem-se a impressão de que a reeleição do presidente seria inevitável. Na pesquisa DATAFOLHA de 21 de fevereiro de 2006, o presidente Lula aparece liderando com 42% dos votos válidos contra 32% de José Serra, no caso em que a disputa se dá contra Geraldo Alckmin, o presidente ostentava 45% contra apenas 20% do seu oponente mais próximo. Esses dados são importantes para entender porque a escolha do PSDB recai sobre Geraldo Alckmin, deixando José Serra como candidato ao governo do Estado de São Paulo. Desde que se aventou a possibilidade de Serra participar das eleições para o governo estadual, sua liderança nas pesquisas sempre foi absoluta, sem ser ameaçado por qualquer um dos seus concorrentes diretos. Desta forma, Serra conseguiria manter-se em evidência nacional estando a frente do governo de São Paulo, e seria um nome fortíssimo para a concorrer a presidência em 2010, já que para muitos analistas, a candidatura de Lula seria invencível. Não foram poucos os analistas e jornalistas que apontavam para a existência de um acordo informal entre 15 o PT e o PSDB visando as eleições de 2010, e o lançamento da candidatura Geraldo Alckmin facilitaria a vitória do petista enquanto este se comprometeria a apoiar o nome de Serra para sua sucessão. Tudo parecia indicar para uma vitória tranqüila de Lula no primeiro turno das eleições, não fosse a descoberta do caso da tentativa de compra de documentos que comprovariam a ligação de Serra com o esquema dos sanguessugas. Tabela 2 - Evolução da Intenção de Votos (%) DATA 06-07/04/2006 23-24/05/2006 28-29-06-2006 17-18/07/2006 07-08/08/2006 21-22/08/2006 29/8/2006 04-05/09/2006 11-12/09/2006 18-19/09/2006 22/9/2006 27/9/2006 29-30/09/2006 Lula 43 45 46 44 47 49 50 51 50 50 49 49 46 Alckmin 23 22 29 28 24 25 27 27 28 29 31 33 35 Heloísa Cristovam Brancos e Indecisos Helena Buarque nulos 7 1 6 12 7 1 7 11 8 1 7 9 10 1 7 8 12 1 7 7 10 1 7 6 10 1 6 6 9 1 6 4 9 1 6 4 9 2 5 4 7 2 5 5 8 2 3 4 8 2 5 4 Fonte: DATAFOLHA 60 50 lula 40 alckmin 30 20 10 06 -0 7/ 04 /2 28 00 -2 6 906 -2 07 00 -0 6 8/ 08 /2 00 6 29 /8 /2 11 00 -1 6 2/ 09 /2 00 6 22 /9 /2 29 00 -3 6 0/ 09 /2 00 6 0 Figura 4 - Evolução da Intenção de Votos (%) Fonte : DATAFOLHA. heloisa helena cristovam buarque indecisos brancos e nulos 16 Muito embora o crescimento de Alckmin apenas no final de setembro apontava para a ocorrência de um segundo turno, o candidato tucano teve um crescimento gradual desde o início de agosto, que pode ter passado despercebido visto que seu crescimento ocorria sempre dentro da margem de erro. Mas, feita a análise ao longo das semanas de campanha, seu crescimento mostrou-se constante. As pesquisas feitas pelo instituto Datafolha mostram-nos também dados interessantes sobre a composição do eleitorado de cada candidato. Enquanto Lula mantém maior vantagem nas classes que ganham até dois salários mínimos, Alckmin lidera entre aqueles de renda superior a 10 salários mínimos. Quanto à escolaridade, Lula lidera entre aqueles que tem ensino fundamental, enquanto Alckmin tem maior apoio entre aqueles que tem curso universitário. Os principais analistas políticos explicam tal fato por dois motivos básicos: primeiro o efeito dos programas sociais do governo, principalmente pelo Bolsa Família, e em segundo lugar por uma identificação de Lula com os setores mais desfavorecidos da população, tendo ele mesmo origem nessa camada social. Esse segunda conclusão pode ser precipitada e não corresponderia aos fatos se analisarmos alguns dados disponíveis sobre as outras eleições. Na corrida presidencial de 1994, quando da eleição de Fernando Henrique Cardoso já no primeiro turno, segundo pesquisa do Datafolha2 de 01 de outubro de 94, FHC tinha 49% das intenções de voto contra apenas 20% de Luis Inácio Lula da Silva. A menor diferença a favor de FHC dava-se justamente na classe com ensino superior, onde havia uma placar de 41% para FHC contra 33% de Lula. Quando consideramos a distribuição de renda, FHC também tinha ampla vantagem sobre Lula na parcela do eleitorado que ganhava até cinco salários mínimos – 47% contra 22%. Desta forma, defendo que a maior votação de Lula dentro dessa parcela da sociedade de menor renda deve-se quase que exclusivamente as suas políticas sociais, da mesma forma que era essa uma das classes mais beneficiadas pelo controle da inflação obtido em 1994 através do plano Real que ajudou, e muito, na eleição de Fernando Henrique Cardoso. Na eleição presidencial de 1998, já com seu governo afetado pelas crises internacionais, o presidente FHC reelegeu-se sem maiores problemas, embora o apoio da classe de mais baixa renda tenha caído um pouco em comparação à eleição anterior. O próprio site uol/eleições fez um cruzamento de dados demonstrando claramente que o presidente Lula ganhou nos estados brasileiros com menor IDH (índice de desenvolvimento humano, criado pelo ONU), sendo que a situação se invertia nos estados com maior IDH. Essa polarização deve-se muito mais aos incentivos que o governo tem dado para a população 2 Segundo o site http://datafolha.folha.uol.com.br/folha/datafolha/tabs/intvoto_pres_30092006_tab1.pdf, acessado 13/10/2006 as 21:30. 17 de baixa renda do que uma espécie de despertar de “consciência de classe” de uma parcela de população brasileira. O resultado das eleições no segundo turno, disputadas no último final de semana de outubro, apenas corroboram essa análise. A vitória do presidente candidato à reeleição deveuse, em grande parte, aos benefícios gerados pelos seus programas sociais e a sua relação carismática com a maioria da população brasileira. Os líderes carismáticos, como bem definiu Max Weber, mantêm uma dominação baseada na crença nutrida em suas capacidades e qualidades singulares. A ideologia é apenas uma parte secundária quando acontece esse tipo de dominação legítima. 2.3. As Eleições para o Congresso O índice de renovação do Congresso nacional foi de 45% nessa eleição, seguindo razoavelmente uma média com relação às eleições anteriores. Se por um lado nomes antigos voltaram a Câmara Federal, como o ex-prefeito Maluf, outros não conseguiram se reeleger, como o deputado Delfim Neto. No quadro abaixo, podemos perceber que o maior perdedor nas eleições legislativas foi o PFL, que em comparação a eleição anterior perdeu dezenove deputados. Outro fato a se constatar é que desta vez, o deputado Enéas conseguiu eleger apenas mais um congressista com seus votos, e não mais 5 como aconteceu na última eleição. É, contudo, necessário frisar que a divisão do congresso depois da sua eleição de 2002 mudou consideravelmente devido a excessiva troca de legendas que se sucederam ao longo do mandato. A composição atual da Câmara nos mostra que nenhum dos candidatos terá maioria e será obrigado a negociar com outros partidos para a composição de uma base sólida no congresso brasileiro. Tal fato é uma constante em nossa vida política após a redemocratização, o que levou o cientista político Sérgio Abranches a cunhar a expressão presidencialismo de coalizão, para destacar a natureza do nosso sistema partidário que faz com que o presidente sempre tenha que governar formando uma coalizão com vários partidos no congresso tendo como conseqüência a troca de ministérios e de emendas individuais ao orçamento como forma de conseguir manter uma maioria legislativa. Qualquer que seja o presidente eleito terá de arranjar formas de cooptar outros partidos para o governo que não fizeram parte da aliança eleitoral. Cabe mais uma observação com relação ao nosso sistema eleitoral para a Câmara Federal. O sistema brasileiro combina o voto nominal para deputado com a distribuição das 18 cadeiras sendo feitas pelo numero de votos recebido pela legenda. Essa é a razão pela qual o deputado Enéas Carneiro, por exemplo, ajudou seu partido a eleger 6 deputados federais por São Paulo nas eleições de 2002. A distribuição das cadeiras na câmara é feita de forma proporcional à população de cada estado da federação levando em consideração um número máximo (70) e um número mínimo de deputados (8) que podem ser eleitos. A distribuição das cadeiras por partido, em cada estado, depende do coeficiente eleitoral, que é obtido pela divisão simples entre o número de votos válidos e o número de cadeiras em disputa. Para saber quantas cadeiras terá cada partido, é necessário proceder a divisão entre o número de votos recebido por cada partido e o coeficiente eleitoral. A existência desse modo de divisão no sistema eleitoral brasileiro produz sérias imperfeições nos resultados da votação, fazendo com que deputados sejam eleitos com 7 mil votos enquanto outros que tenham votação expressiva acabem não sendo eleitos. O caso clássico é da eleição do deputado Enéas Carneiro, como já citado acima. O fim dessa distorção depende de uma reforma no sistema eleitoral. Pode-se proceder como na Inglaterra e nos Estados Unidos onde o voto é puramente distrital, pode-se fazer o voto em lista fechada, como feito na França, ou ainda o voto distrital misto, utilizado na Alemanha. No primeiro caso procede-se da seguinte forma, cada estado da federação é dividido em um número de distritos eleitorais que é igual ao número de deputados que serão eleitos por esse estado. Assim, em cada distrito é feita uma eleição majoritária para escolher o congressista. No caso de voto em lista fechada, não há voto nominal, apenas o voto na legenda, e a distribuição de cadeiras segue o mesmo critério utilizado hoje. Se um partido recebe o numero de votos equivalente a 5 vezes o numero de coeficiente eleitoral, terá direito a cinco cadeiras que serão preenchidas pelos cinco primeiros candidatos da lista partidária que é definida antes do pleito. No caso alemão, o voto distrital misto faz com que metade dos deputados seja eleito de forma majoritária nos distritos e a outra metade seja eleita pela lista partidária. Finalmente, torna-se necessário esclarecer alguns pontos sobre a clausula de barreira que entrou em vigor nessa eleição. A clausula foi estipulada pela lei dos partidos políticos número 9096/95 e define que os partidos políticos só terão existência plena (com direito a participação no fundo partidário, tempo no horário eleitoral gratuito e participação nas comissões e na mesa diretora da Câmara Federal) se tiverem conseguido pelo menos 5% dos votos para a Câmara dos Deputados, sendo que em pelo menos 9 estados o mesmo partido tenha obtido pelo menos 2% dos votos válidos para a Câmara Federal. Contudo, os deputados eleitos por esses partidos podem tomar posse e terminar o mandato livremente, apenas com as 19 restrições citadas acima. A idéia da clausula de barreira é diminuir o número de partidos e permitir a existência daqueles que representem pelo menos uma parcela mínima da população. Na Alemanha, onde surgiu esse dispositivo eleitoral, a clausula funciona de forma completa, ou seja, os partidos que não atingem 5% dos votos para o parlamento nacional não têm direito de representação e seus votos não entram na conta para a divisão de cadeiras. Tabela 3 - Evolução de Número de Deputados por Partidos Políticos PARTIDOS PT PP PPS PC do B PMN PMDB PFL PSB PDT PTB PL PSDB PV PSC PAN PTC PHS PSOL PRONA DEPUTADOS ELEITOS 2006 TOTAL % 83 16,18% 42 8,19% 21 4,09% 13 2,53% 3 0,58% 89 17,35% 65 12,67% 27 5,26% 24 4,68% 22 4,29% 23 4,48% 65 12,67% 13 2,53% 9 1,75% 1 0,19% 4 0,78% 2 0,39% 3 0,58% 2 0,39% PT do B PRB Fonte: TSE / SITE UOL DEPUTADOS ELEITOS 2002 TOTAL % 91 17,74% 49 9,55% 15 2,92% 12 2,34% 1 0,19% 77 15,01% 84 16,37% 22 4,29% 21 4,09% 26 5,07% 26 5,07% 69 13,45% 5 0,97% 1 0,19% 0 0% 0 0% 0 0% 0 0% 6 1,17% COMPARATIVO 2006 x 2002 Variação -8 -7 +6 +1 +2 +12 -19 +5 +3 -4 -3 -4 +8 +8 +1 +4 +2 +3 -4 1 0,19% 0 0% +1 1 0,19% 0 0% +1 3 2.4. As Eleições para Governador Com relação às eleições para governador, algumas considerações devem ser feitas. Em primeiro lugar, torna-se evidente que o apoio dos candidatos a presidente da república não se traduz em votos para os candidatos regionais (Tal observação é válida também para as eleições municipais). Os exemplos são muitos, como no caso de Minas Gerais, onde o 3 http://placar.eleicoes.uol.com.br/2006/infograficos/camaradeputados.jhtm - Acessado dia 13/10/2006 as 21:57. 20 governador Aécio Neves do PSDB se reelegeu e onde Lula ganhou do candidato tucano. No próprio estado de São Paulo, a votação do candidato petista Mercadante ficou muito aquém da votação recebida pelo presidente Lula. Dos 27 estados da federação, 17 tiveram a eleição definida já no primeiro turno. Os estados do Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Goiás e Pará terão segundo turno. O Partido dos Trabalhadores elegeu, até agora, 4 governadores: Bahia, numa surpreendente vitória de Jacques Wagner, Acre, com Binho Marques, Piauí, reelegendo Wellington Dias e Sergipe, elegendo o prefeito de Aracajú, Marcelo Deda. O PT disputa ainda o segundo turno no Rio Grande do Sul, com o ex-governador Olívio Dutra enfrentando Yeda Crusius do PSDB, e no Pará, onde Ana Julia disputa o segundo turno contra o ex-governador Almir Gabriel, também do PSDB. Já o PSDB, além de ganhar em Alagoas, com Teotônio Vilela Filho, e Roraima, ganhou a eleição em dois dos principais estados brasileiros já no primeiro turno, em São Paulo, com José Serra e em Minas, reelegendo Aécio Neves. Quanto à reeleição, oito governadores foram reeleitos já em primeiro turno. Em um caso não usual, o governador do Rio Grande do Sul não conseguiu nem ir para o segundo turno. Abaixo, tenho a tabela dos governadores eleitos e a situação para o segundo turno. Tabela 4 - Governadores REGIÃO SUDESTE Candidato(a) Votos Partido Espírito Santo Paulo Hartung 1.326.175 PMDB Minas Gerais Aécio Neves 7.470.542 PSDB Rio de Janeiro Sergio Cabral Denise Frossard 3.422.528 1.965.003 PMDB PPS São Paulo José Serra 9.773.580 PSDB Votos Partido 2.321.095 2.093.105 2.037.809 1.696.131 1.601.181 1.073.053 PMDB PDT PSDB PT PMDB PP REGIÃO SUL Paraná Rio Grande do Sul Santa Catarina Candidato(a) Roberto Requião Osmar Dias Yeda Crusius Olívio Dutra Luiz Henrique Esperidião Amin 21 REGIÃO NORDESTE Candidato(a) Votos Partido Alagoas Teotônio V. Filho 726.332 PSDB Bahia Jacques Wagner 3.184.750 PT Ceará Cid Gomes 2.385.916 PSB Roseana Sarney Jackson Lago Cássio Zé Maranhão Mendonça Eduardo Campos 1.281.646 932.818 943.922 926.272 1.577.199 1.356.307 PFL PDT PSDB PMDB PFL PSB Piauí Wellington Dias 944.695 PT Rio Grande do Norte Vilma Garibaldi Filho 764.016 749.003 PSB PMDB Sergipe Marcelo Déda 524.826 PT Votos Partido Maranhão Paraíba Pernambuco REGIÃO CENTROOESTE Candidato(a) Distrito Federal Arruda 663.364 PFL Goiás Alcides Rodrigues Maguito Vilela 1.315.718 1.123.139 PP PMDB 726.806 PMDB 822.946 PPS Votos Partido Mato Grosso do Sul André Puccinelli Mato Grosso REGIÃO NORTE Blairo Maggi Candidato(a) Acre Binho Marques 155.394 PT Amazonas Eduardo Braga 685.559 PMDB Amapá Waldez 160.138 PDT Pará Almir Gabriel Ana Júlia 1.363.016 1.167.088 PSDB PT Rondônia Ivo Cassol 387.121 PPS Roraima Ottomar 111.848 PSDB 22 Tocantins Marcelo Miranda 340.275 PMDB Fonte : TSE/UOL4 LEGENDA : Eleito 1º turno Reeleito 1º turno Esses dados podem nos levar a algumas conclusões. Inicialmente, nota-se a pouca força do Partido dos Trabalhadores nos estados política e economicamente mais importantes da federação, como São Paulo e Minas, dominadas pelos tucanos, e também no Rio de Janeiro, onde nem PT e nem PSDB demonstram força política, talvez pelos legados tardios do brizolismo nesse estado. O governador eleito de São Paulo e o reeleito de Minas são desde já candidatos naturais a sucessão presidencial de 2010. Se a vitória de Lula se concretizar, o presidente deverá ter uma relação conflituosa com esses estados, mesmo se o eventual acordo PT-PSDB acontecer para as próximas eleições, visto que tal fato desagradará pelo menos uma parte do tucanato e muitas (das várias) tendências internas petistas. Mesmo tendo uma grande e inesperada vitória na Bahia, e tendo ganhado nos estados do Piauí, Acre e Sergipe, o Partido dos Trabalhadores não tem conseguido demonstrar nos Estados a mesma força que Lula demonstra nacionalmente; o que não é de todo inédito, mas antes uma tendência desde o nascimento do partido, que sempre foi menor do que seu maior líder. O resultado para as eleições estaduais no segundo turno confirma essa análise, ainda que a configuração política dos estados tenha se mostrado muito favorável ao presidente Lula. A lista completa dos governadores eleitos é a seguinte: Tabela 5 - Governadores REGIÃO SUDESTE 4 Candidato(a) Votos Espírito Santo Paulo Hartung 1.326.175 Minas Gerais Aécio Neves 7.482.809 Rio de Janeiro Sérgio Cabral 5.129.064 São Paulo José Serra 12.381.038 Partido PMDB PSDB PMDB PSDB Site http://placar.eleicoes.uol.com.br/2006/infograficos/governadores.jhtm, acessado em 16/10/2006 às 21:03 hs. 23 REGIÃO SUL Paraná Rio Grande do Sul Candidato(a) Roberto Requião 2.668.611 Yeda Crusius 3.377.973 Santa Catarina Luiz Henrique da Silveira REGIÃO NORDESTE Votos Candidato(a) 1.685.184 Votos Alagoas Teotonio Vilela filho 733.405 Bahia Jaques Wagner 3.242.336 Ceará Cid Gomes 2.411.457 Maranhão Jackson Lago 1.393.754 Paraíba Cássio 1.003.102 Pernambuco Eduardo Campos 2.623.297 Piauí Rio Grande do Norte Sergipe REGIÃO CENTROOESTE Distrito Federal Wellington Dias Vilma Marcelo Déda Candidato(a) Arruda 954.857 824.101 524.826 Votos 663.364 Goiás Alcides Rodrigues 1.508.024 Mato Grosso Blairo Maggi 922.765 Mato Grosso do Sul REGIÃO NORTE André Puccinelli Candidato(a) 726.806 Votos Acre Binho Marques 165.961 Amapá Waldez 160.150 Amazonas Eduardo Braga 687.912 Pará Ana Júlia 1.673.648 Partido PMDB PSDB PMDB Partido PSDB PT PSB PDT PSDB PSB PT PSB PT Partido PFL PP PPS PMDB Partido PT PDT PMDB PT 24 REGIÃO NORTE Candidato(a) Rondônia Ivo Cassol 387.208 Roraima Ottomar 116.542 Tocantins Marcelo Miranda Votos 340.824 Fonte 5 : www.uol.com.br/eleiçoes. LEGENDA : Eleito 1º turno Reeleito 1º turno Eleito 2º turno Partido PPS PSDB PMDB Reeleito 2º turno Tabela 6 - Tabela Comparativo: Governadores Eleitos em 2002 e 2006. PARTIDOS PMDB PSDB PT PSB PDT PPS PP PFL GOVERNADORES ELEITOS 2006 TOTAL % 7 25,93% 6 22,22% 5 18,52% 3 11,11% 2 7,41% 2 7,41% 1 3,7% 1 3,7% GOVERNADORES ELEITOS 2002 TOTAL % 5 19,23% 7 26,92% 3 11,54% 4 15,38% 1 3,85% 2 7,69% 0 0% 4 15,38% Fonte: UOL/ELEIÇÕES Os dados acima mostram um aumento no número de governadores eleitos pelo PT, embora o partido não tenha feito o governador em nenhum dos principais estados da federação, exceção feita à vitória na Bahia; e mostra também a manutenção da força política do PMDB. O grande derrotado dessa eleição é inquestionavelmente o PFL, que, além de ter sua bancada reduzida na Câmara dos Deputados, elegeu apenas um governador e perdeu em um dos seus redutos históricos, a Bahia de Antonio Carlos Magalhães. Há algumas considerações importantes a serem feitas a respeito dos resultados das eleições para os governos estaduais. Em primeiro lugar, consolida-se nessa eleição a tendência de reeleição dos candidatos aos cargos executivos. As exceções notáveis foram no Maranhão, com a derrota de Roseana Sarney e a derrota já no primeiro turno do candidato do PMDB ao governo do Rio Grande, Germano Rigotto. Alias, parece ser uma característica gaúcha a não reeleição, tal já ocorreu com Antonio Brito, Olívio Dutra e agora com Rigotto. Em segundo lugar, consolida também a 5 Acessado em 02/11/2006 as 22:04hs. 25 força do PMDB, que embora não tenha um nome de projeção nacional, tem uma extrema força nos estados, demonstrada não só pelo número de governadores eleitos, mas como também pela sua bancada no congresso nacional. Finalmente, corrobora o fato de que o Presidente Lula é uma figura que ultrapassa os limites de aceitação do seu próprio partido, o PT. Tendo esse ponto de partida, não são poucos os que hoje apontam para uma releitura do antigo populismo na política brasileira, estaríamos diante de uma espécie de “neopopulismo” (que, aliás, estaria se expandindo pela América do Sul com os governos de Chávez na Venezuela e Morales na Bolívia), do qual o “lulismo” seria o melhor exemplo. Como não é possível aqui uma longa discussão sobre todo o populismo brasileiro e todas as suas lideranças, concentrar-me-ei em sua figura principal: Getúlio Vargas. Entre os aspectos que caracterizam o populismo brasileiro da era Vargas estão a incorporação dos trabalhadores urbanos no jogo político, a ampliação e o fortalecimento das políticas sociais aliados a benefícios também para setores da classe dominante, a dominação carismática, tal como definida por Weber e já citada acima, além de uma participação política dos sindicatos tutelados pelo Estado. O populismo varguista impulsionou em boa parte a industrialização nacional, reforçou o poder central da federação brasileira, fez das suas políticas sociais direitos legais, limitou e direcionou em grande parte a atuação dos sindicatos. Tais características são bem distintas daquelas que marcariam o “lulismo”. Ainda que a dominação carismática do presidente seja evidente, a política social, baseada no “Bolsa Família” não se constitui como um direito, mas antes como um benefício do Estado, além do mais, as classes trabalhadoras sob as quais se assenta o denominado “lulismo” não são organizadas, como os trabalhadores urbanos que tanto apoiaram Getúlio. E, finalmente, a liderança carismática de Lula consolidou-se antes de sua chegada ao poder, embora tenha sido muito fortalecida durante seu mandato presidencial, ao contrário da liderança getulista, foi construída ao longo dos seus mandatos presidenciais. 2.5. Conclusões A reeleição do presidente Lula confirmou-se de forma consistente. O segundo mandato de governo do Partido dos Trabalhadores terá a grande tarefa de construir uma maioria confiável e constante no Congresso Nacional, algo que não conseguiu de forma definitiva em seu primeiro mandato. A governabilidade dependerá da habilidade do governo em atrair o PMDB para a sua base de apoio. O PMDB é um partido que se especializou em 26 negociar apoio no congresso. Tendo sempre uma grande bancada, mas sem um nome nacional de maior expressão, o partido sabe se fazer necessário a qualquer governo, e negocia um alto preço para isso. O PMDB é um dos frutos do nosso sistema político, tão bem designado por Sérgio Abranches como presidencialismo de coalizão, onde o partido vencedor nas eleições majoritárias nunca terá a mesma expressão eleitoral nos pleitos legislativos, devido em parte ao nosso multipartidarismo, tendo como conseqüência imediata que o presidente eleito necessite governar com os partidos perdedores das eleições majoritárias e vencedores nas eleições legislativas. Não haverá mudanças significativas em nenhuma das políticas implementadas pelo governo Lula, a política externa seguirá a mesma linha de aproximação com os países do terceiro mundo e expansão da agenda de exportação, talvez o governo seja obrigado a ceder em alguns pontos nas complicadas negociações dentro da Organização Mundial do Comércio em sua rodada Doha. Dentro da América do Sul, há as complicações momentâneas com o recém eleito governo boliviano e a competição pela liderança no continente entre os presidentes do Brasil, Venezuela e Argentina. Um problema essencial e que tem sido negligenciado na campanha presidencial é o futuro do Mercosul. O avanço no início da década de noventa contrasta fortemente com a estagnação atual desse processo de integração regional. Talvez o maior problema do Mercosul seja sua estrutura inteiramente intergovernamental, não havendo instituições supranacionais que possam aprofundar e enriquecer o processo de integração que patina nas questões comerciais, embora tenha avançado em outros aspectos, como na participação de outros atores nesse processo, como organizações da sociedade civil e da rede de cidades do mercosul – Mercocidades. As reformas política e tributária só têm chance de serem implementadas se forem levadas ao congresso logo no primeiro ano do novo governo, quando o apoio do chefe do executivo ainda se mostra forte. A reforma política deve ser feita com urgência, visto que grande parte dos males que marcam nosso regime democrático tem sua origem em distorções institucionais, como nosso sistema eleitoral e partidário. 2.6. Cenário Político Internacional Introdução Dentro os fatos de maior relevância ocorridos dentro do cenário político internacional deste ano de 2006, dois deles são de extrema importância para a estabilidade do sensível 27 sistema internacional que se configurou a partir do final da guerra final, ao final do século passado. Refiro-me especificamente a Guerra envolvendo os Estados de Israel e do Líbano e aos testes nucleares realizados pela Coréia do Norte nessa segunda semana de outubro. Analisando-se a configuração regional do sistema temos na América do Sul a tensão diplomática envolvendo Brasil e Bolívia e a entrada da Venezuela como membro do Mercosul. Finalmente, temos também a questão cubana com a passagem, ainda que provisória, do poder de Fidel para Raul Castro. 2.6.1. A Guerra Israel X Líbano / Hizbollah Em primeiro lugar, é necessário contextualizar historicamente a região onde ocorreu o conflito para que se possa estabelecer como surgiram as inimizades e as relações conflitivas entre os atores internacionais ali localizados. Embora a relação de tensão e inimizade entre Israel e Hizbollah tenha sua origem recente na libanesa dos anos oitenta, a própria criação do estado de Israel depois da segunda guerra mundial gerou a percepção de insegurança em quase todo Oriente Médio, materializada já em duas guerras: a Guerra dos Sete Dias, quando Israel anexou ao seu território o parte do deserto do Sinal do Egito, a faixa de Gaza e a Cisjordânia e as colinas de Golã pertencentes a Síria; e a Guerra do Yom Kippur quando Israel conseguiu conter os ataques do Egito e da Síria. Nesse cenário de incertezas e de constantes percepções de insegurança, Israel sentindo-se ameaçado adota uma política realista buscando garantir sua própria existência e ampliar seu poder, ou em uma linguagem típica do realismo clássico de Morgenthau, Israel trabalha pela manutenção do status quo do sistema anárquico internacional. O Hizbollah é um grupo político armado que domina parte do território do estado libanês e faz parte da coalizão governamental deste estado. O Líbano é um estado fraco, que não satisfaz sequer o pressuposto hobbesiano de garantia da paz interna e do monopólio do uso da força por parte do estado. Na teoria realista (voltamos a Morgenthau mais uma vez), os estados fracos são sujeitos a agressões externas para a manutenção do status quo. Há outros atores que também influenciam a política de disputa de poder dentro dessa região. Israel conta com o apoio externo sempre presente dos Estados Unidos e da União Européia, em menor grau de intensidade. Quanto aos americanos, seu objetivo é obter uma influencia cada vez maior na região, buscando aumentar sua capacidade e seu poder de persuasão no sistema internacional, de onde se torna compreensível seus esforços de luta contra o terrorismo e o fundamentalismo islâmico na região do Oriente Médio. É de interesse 28 dos americanos o estabelecimento de democracias liberais que se enquadrem harmonicamente na liberalização do comércio e na estrutura de funcionamento das organizações internacionais. Já a União Européia, não tendo a força militar dos americanos, coloca-se sempre como alternativa para mediar os conflitos dessa região, numa clara busca de fortalecer sua inserção internacional dentro do status quo estabelecido nas relações internacionais. Não devemos esquecer que, embora atue muitas vezes como ator unitário, a União Européia sofre da disputa política interna onde a França parece ser sempre a voz de oposição as posições mais extremistas norte-americanas. Do outro lado da disputa, os principais aliados do grupo Hizbollah são a Síria e o Irã, países com os quais tem uma forte identidade étnica e religiosa. Os objetivos desses dois países são, sempre na linguagem realista, de alterar o status quo estabelecido na região, ainda que até o momento não tiveram forças e capacidade militar para isso. Não há perspectiva de paz duradoura para a região em curto ou médio prazo. A percepção de insegurança é constante nos países do Oriente Médio, e o estado de maior poder militar na região, Israel, não é forte o suficiente para derrotar todos os seus inimigos, e esses, por sua vez, além de não serem fortes para derrotar Israel, não tem objetivos comuns convergentes. A política de disputa do poder nessa região continuará dividindo aqueles que prezam pela manutenção do status quo – Israel e Estados Unidos – e aqueles que querem uma mudança no status quo regional – Irã, Síria, e os grupos do Hizbollah e do Hamas, na Palestina. 2.6.2. As ambições nucleares do “Eixo do Mal”. Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, o presidente norte-americano George W. Bush listou três países que, segundo ele, eram considerados como ameaças a manutenção da paz mundial e obstáculos para o avança da democracia no mundo. Esses países, Iraque, Coréia do Norte e Irã, foram nomeados pelo presidente Bush de “Eixo do Mal”. No primeiro semestre de 2003, os Estados Unidos lideram uma coalizão que invade o Iraque, derruba o governo de Saddam e tentam estabelecer naquele país um governo que se paute pelo modelo liberal de democracia e com uma economia de mercado. Os resultados são hoje amplamente conhecidos da desastrosa invasão americana. A ingênua idéia de que seria possível em 2 ou 3 anos invadir o país, mudar seu regime de governo, criar a paz interna, 29 estabelecer um modelo de democracia islâmica a ser imitado por outros na região e voltar para casa desapareceu de maneira rápida. Se a ação militar externa norte americana era parte da estratégia de guerra ao terrorismo e objetivava senão acabar, ao menos diminuir os focos de concentração de grupos terrorista nessa região, suas conseqüências foram as piores possíveis. Se o Iraque encontra-se ingovernável, a percepção de insegurança aumentou e muito na região, e não é de se espantar que o outro país membro do “Eixo do Mal” que se situa também naquela região, o Irã, tenha avançado no seu programa nuclear. Foi o aumento na percepção de insegurança, aliado ao objetivo iraniano de mudar o status quo do sistema internacional na região que levou o governo persa a avançar em suas ambições nucleares. Da mesma forma ocorre com a Coréia do Norte, país paupérrimo, com um exército gigante, mas completamente obsoleto, que viu no fortalecimento de sua capacidade nuclear a única saída para fazer frente às percepções e ameaça de insegurança que uma possível ação militar dos Estados Unidos colocavam na região. Adicione-se a essa questão conjuntural, outro aspecto importante para a sobrevivência da Coréia do Norte é que, depois do fim da USSR, esse país se achou em uma situação em que estava cercado de inimigos. Os testes nucleares da Coréia do Norte foram, antes de tudo, uma demonstração de força. 2.6.3. O Mercosul e seus Impasses O Mercosul tem suas origens na política de aproximação entre Brasil e Argentina no final da década de oitenta, no período onde esses dois países entravam no processo de redemocratização, o Brasil tinha como presidente José Sarney e a Argentina contava com a liderança de Raul Alfónsin. O Tratado de Assunção, em 1991, e o Protocolo de Ouro Preto, em 1994, estabeleceram as diretrizes finais para a criação do mercado comum do cone sul, o Mercosul, que inicialmente contou com Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. O Mercosul foi estabelecido como uma União Aduaneira, que é funciona como um tratado de livre comércio, acrescido de uma TEC – Tarifa Externa Comum para todos os países membros. A rapidez constatada nas rodadas iniciais de implementação desse processo de integração regional contrasta com os impasses que marcaram a evolução desse processo a partir do final da década de noventa do século passado. Os países do bloco passaram por crises econômicas muito semelhantes em períodos distintos, e houve recuos em várias áreas e setores da produção e comercialização entre os países. A adoção de salvaguardas e barreiras não alfandegárias passa a ser uma constante nas relações comerciais entre os países, e não 30 foram poucos aqueles que defenderam que o Mercosul deveria se contentar em ser apenas uma área de livre comércio. As negociações em que o Mercosul atuava como ator unitário, como nas negociações com o Estados Unidos e a União Européia, acabaram não evoluindo pelos caminhos desejados. Outro problema tem sido a tentação constante dos países de abandonarem o Mercosul em favor de um acordo direto de livre comércio com os Estados Unidos. Por outro lado, há aspectos ainda negligenciados, mas que tem contribuído e muito para a construção de soluções e para o aprofundamento do processo de integração dos paises do cone sul. Um desses aspectos tem sido a participação cada vez mais intensa das cidades e de outros atores não estatais que buscam um adensamento do Mercosul para além dos seus aspectos comerciais. A entrada da Venezuela no bloco não altera os problemas estruturais desse processo. Além do mais, se a idéia do Mercosul é ser uma experiência propulsora da integração sul americana, as negociações deveriam se dirigir a todos os países membros da comunidade andina. O processo de integração precisa da convergência das políticas internas dos seus países membros. É mais do que necessária a implementação de políticas públicas comuns entre os países e mais do que isso, seria também recomendável que a organização do Mercosul avançasse para o nível supranacional, com comitês que tratassem dos diferentes assuntos econômicos, políticos, comerciais e culturais do bloco para que a integração não se limite apenas a ser um simples tratado de livre comércio. Nesse ponto, a União Européia constitui o exemplo paradigmático desse tipo de ação. A conjuntura momentânea, que parece estar marcada por ações mais nacionalistas e unilaterais, estabelece obstáculos cada vez maiores para o aprofundamento da integração. A questão do gás, envolvendo Brasil e Bolívia (que é um associado do Mercosul), é um claro exemplo das dificuldades que se impõe para uma concentração política na América do Sul. 2.6.4. A Cuba de (sem) Fidel Castro Não cabe aqui uma análise histórica e política mais detalhada sobre Cuba, nem tampouco uma análise detalhada da sociedade cubana nas últimas décadas, visto que tais análises não são o objetivo desse boletim, e, além disso, minhas leituras e meu conhecimento sobre a situação cubana seriam insuficientes para tal feito. 31 Faço aqui um pequeno ensaio para tentar desenhar os cenários de uma Cuba sem seu comandante Fidel Castro. Parece-me ser manifesto que o regime político cubano assenta-se mais no carisma de Castro que na crença do socialismo. Talvez exista muito mais personalismo que ideologia nessa relação entre o líder e seus governados. Se esse fosse o único elemento para pensar o futuro da ilha caribenha, a conclusão seria de que o regime cairia com seu comandante. Mas há outros aspectos a serem considerados. Os avanços e conquistas nos direitos sociais, principalmente nas áreas de educação e saúde, não podem ser ignorados (como ignorado não pode ser a característica autoritária do regime). O histórico popular da revolução cubana também pode ser um elemento que pode dar uma vida mais longa ao regime, na medida em que o próprio governo sempre faz questão de reviver seu mito fundador. Não há como saber em quanto o mito e seus ritos sobreviverão, e se serão intensos o suficiente para garantir a sua continuidade. E, ainda que o vice-presidente da república de Cuba, seja o também idoso irmão de Fidel, isso não é sinal de que não há renovação dentro do único partido político cubano. O Ministro da Cultura de Cuba Abel Prieto é, por exemplo, um dos muitos políticos que fazem parte de uma nova geração de dirigentes cubanos que não participaram da revolução. Se o regime pretende manter suas características atuais, necessitará de um sucessor que também tenha uma dominação carismática; caso contrário perderá força e respaldo popular rapidamente. Deve-se, também, ficar atento ao posicionamento que os Estados Unidos adotará imediatamente após a sucessão de Fidel. É fato que setores mais conservadores do Partido Republicano defendem uma intervenção americana tão logo Fidel deixe o poder, mas essa posição parece ser minoritária, e a política externa americana não parece estar em condições de empreender mais uma intervenção, e é fortemente possível que a opinião pública (baseada nos desastres das intervenções no Iraque e no Afeganistão) não seja favorável a tal procedimento. Uma política de reaproximação gradual é a possibilidade mais sensata. Quanto à participação dos demais países do continente americano, certo está que a posição de Chávez e Morales será de apoio irrestrito à continuidade do regime. Os demais países devem adotar publicamente uma posição neutra, pregando o respeito ao princípio da “autodeterminação dos povos” constante na Carta das Nações Unidas, mas devem trabalhar discretamente para uma gradual abertura do regime cubano. Nesse cenário, o Brasil (que tem seu discurso de política externa fortemente marcado pelo respeito àquele princípio de autodeterminação soberana e pela busca da paz e do multilateralismo) poderia atuar como um 32 mediador nesse processo para atenuar os pontos de conflito e buscar caminhos e atalhos para a reaproximação entre Cuba e os Estados Unidos. 33 3. INFLAÇÃO E POLÍTICA MONETÁRIA 3.1 Análise do Período Waleska Andreza Ferreira 3.1.1. Período: Janeiro – Março de 2006 O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) que serve de parâmetro para as decisões do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central6, variou em 12 meses até fevereiro de 2006 5,51%, sendo o mais baixo valor em período similar desde 2004 que ficou em torno de 5,15%. O IPCA em fevereiro foi de 0,41% ante 0,59% em janeiro, conforme demonstra a Tabela 7 a seguir. O índice em fevereiro mostrou deflação em grupos importantes nas despesas das famílias como: alimentos e bebidas (0,28%); vestuário (0,54%) e artigos de residência. Entretanto, a maior alta no período está associada à mensalidade escolar (alta de 5,38%), o que respondeu isoladamente, pela metade (0,21 ponto) da inflação do mês. Já o INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor), que abrange a população de até oito salários mínimos, (diferentemente do IPCA que abrange até 40 salários mínimos), no primeiro bimestre de 2006 subiu 0,62% ante 1% do IPCA7. O INPC menor em fevereiro (0,23%) do que o IPCA (0,41%) deve-se ao fato do orçamento das famílias de renda menor não sofrer influência dos reajustes das mensalidades escolares, principal pressão verificada no IPCA de fevereiro. Conforme apresentado na Tabela 7, o IPCA apresentou uma variação praticamente repetida no mês de março, comparada ao mês anterior, ou seja, obteve variação de 0,43%, provocada pelo reajuste nos combustíveis: álcool (12,85%) e gasolina (2,78%) contribuíram com 0,29 ponto, ou seja, 67% do Índice de março. Entretanto, as notícias sobre os focos da gripe aviária, tiveram como resultado básico o fechamento de vários mercados no exterior para a exportação8 do frango, o que ampliou a oferta deste produto no mercado interno, tendo como resultado básico a queda nos preços deste bem (queda de 12,15% em março). Este fato assinalado contribuiu com a queda de –0,10 ponto sobre a taxa total. Já o INPC variou 0,27% em março, novamente menor que o IPCA, devido o fato, dos combustíveis terem peso reduzido no índice citado. Entretanto, os produtos alimentícios que 6 A meta de inflação para o ano de 2006 é de 4,5%. Em 2005, o IPCA foi de 5,69% e o INPC de 5,05%. Em 2004 o IPCA ficou em 7,6% e o INPC em 6,13%. 8 Estima-se que a queda no comércio mundial de carne de frango foi em torno de 20 a 25%, por causa da gripe aviária. 7 34 registraram deflação no primeiro bimestre do ano, têm maior peso no INPC, o que demonstra a alta do mês de março ante o mês de fevereiro. Neste período analisado a maior parte dos preços administrados ou monitorados pelo governo esteve sob controle, portanto, a inflação no primeiro trimestre de 2006 acumulou alta de 1,44%, neste mesmo período em 2005 o acumulado foi de 1,79%. Os Índices Gerais, como o IGP-DI9, (verificado também na Tabela 7), composto especialmente pelo IPC-DI (Índice de Preços ao Consumidor – Disponibilidade Interna); o INCC (Índice Nacional de Construção Civil) e o Índice de Preços no Atacado – Disponibilidade Interna (IPA-DI) teve a seguinte dinâmica no primeiro trimestre de 2006: o IGP-DI mostrou deflação de 0,06% em fevereiro10, ante alta de 0,72% em janeiro. Este índice acumulou de março de 2005 a fevereiro de 2006 1,15%, que se comparados com fevereiro de 2005 o acumulado nos 12 meses anteriores foi de 10,86%, o que representa uma queda histórica desde o primeiro levantamento realizado pela Fundação Getúlio Vargas. As principais contribuições para a queda foram os preços no atacado que representam 60% da inflação, já que os mesmos passaram de uma alta de 0,81% no mês de janeiro para um recuo de 0,12% em fevereiro. Destaques especiais para o café (alta de 17,15% em janeiro para queda de 5,07% em fevereiro); soja (0,94% para –4,22%) e cacau (4,92% para –2,29%). Além disso, o impacto da apreciação da taxa de câmbio sobre algumas matériasprimas importantes explica também o impacto nos preços do atacado, como é o caso da celulose que teve queda de 3,53% ante a alta de 1,21% em janeiro. No varejo o IPC-DI que representa 30% do IGP variou 0,01% fevereiro ante 0,65% em janeiro. A maior contribuição para a redução foi no grupo de alimentos (5,58% em janeiro para 1,84% em fevereiro), educação, leitura e recreação responderam por –3,88% em fevereiro (-0,54% em janeiro). O cenário verificado de queda no IGP-DI perdurou em março de 2006, com um destaque: a taxa acumulada em 12 meses até março apresentou deflação de 0,29%11. O resultado de março foi de –0,45%. A queda deve-se ao fato citado anteriormente, queda dos preços no atacado (-0,82%), devido a influência especialmente do câmbio e da gripe aviária. Os preços agrícolas no setor passaram de 0,77% para –3,24% de fevereiro para março. Os preços dos produtos industriais passaram de 0,08% para deflação de 0,06%, respectivamente (fevereiro e março). 9 Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna. Este valor de –0,06% é o menor em um mês de fevereiro em toda a série histórica deste indicador criado na década de 40. 11 Primeira vez verificada uma deflação acumulada em 12 meses, desde o início da série em 1944. 10 35 Destaques especiais para os produtos que sofrem influência do dólar como: a soja em grão e milho, importantes na composição do atacado. Além disso, o preço das aves no atacado (devido à gripe aviária) em março caiu 6,11%. Em contrapartida, os preços no varejo tiveram alta de 0,01% em fevereiro e 0,22% em março, devido principalmente, os reajustes nas contas de água e esgoto residencial (1,83%) e aumento nos preços dos combustíveis (em março o preço do álcool combustível no varejo subiu 14,19%, maior elevação desde novembro de 2002, quando o mesmo aumentou 25,82%). Os preços dos derivados da cana-de-açúcar se mantiveram em alta, especialmente os preços do álcool, devido ao fato da demanda superar a oferta desde 2005. Já os preços na construção civil mantiveram-se estáveis entre fevereiro e março, pois passaram de 019% para 0,20% . É importante salientar que a queda verificada no IGP-DI neste primeiro trimestre terá reflexos positivos no reajuste da dívida dos Estados com a União (maior potencial dos Estados para investir), já que este indicador é utilizado como base. Além do mais, este índice também serve de base para o reajuste das tarifas de telefone, que afetarão diretamente o consumidor (apesar deste não ser o único indexador que incide sobre a composição das tarifas). O IPC-FIPE de fevereiro apresentou deflação de 0,03%. Sendo o principal grupo de contribuição: alimentos (queda de 0,22%). Neste grupo os derivados de leite ficaram 1,1% mais baixos, carne 1,37% e os panificados 0,62%. Nos dois últimos itens citados há uma contribuição do câmbio e da oferta maior de carne no mercado interno. Tabela 7 - Variação em % dos Índices de Preços – Janeiro/ Março Índice IPCA INPC IGP-DI Janeiro 0,59 0,39 0,72 Fevereiro 0,41 0,23 -0,06 Março 0,43 0,27 -0,45 Fontes: IBGE e FGV-RJ Em resumo, os comportamentos dos principais índices de preços revelam no primeiro trimestre do ano uma tendência de queda no período, sendo que os elementos que merecem destaque no controle de preços: apreciação da taxa de câmbio, gripe aviária e tarifas com reajustes menores. Além disso, a análise do núcleo do IPCA indica desde o início do ano a possibilidade de convergência para o centro da meta em 4,5%. Entretanto, como analisar-se-á 36 adiante, há expectativas para que o IPCA feche 2006 com uma taxa acumulada de 3%, portanto, abaixo da meta estipulada. Portanto, a conjuntura que exigiu a elevação da taxa básica de juros (SELIC) entre setembro de 2004 e no ano de 2005 para conter os preços tem mudado, pois com a inflação sob controle há espaço para cortes sucessivos na SELIC (como será verificado mais adiante no gráfico XX). 3.1.2. Período: Abril – Junho de 2006 No segundo trimestre de 2006, os Índices de Preços mostraram comportamentos similares ao primeiro trimestre do ano. Já que o IPCA fechou o período de 12 meses até abril em 4,63%, sendo o resultado mais baixo desde julho de 1999. O IPCA de abril foi de 0,21% a menor taxa desde agosto de 2005, e abaixo de 0,43% de março. No ano o índice acumula variação de 1,65% (vide Tabela 6 a seguir). A tendência verificada no trimestre anterior de apreciação da taxa de câmbio, oferta crescente de produtos agrícolas e redução dos preços administrados12 se mantém no período. Alimentos e bebidas tiveram deflação pelo terceiro mês consecutivo de 0,27%. A forte queda no preço do álcool (11,6%) garantiu nova queda do IPCA em maio o que colocou a inflação dentro do centro da meta estabelecido pelo governo13. A taxa apurada pelo IBGE no mês de maio foi 0,10%. Além do álcool vários itens importantes nas despesas das famílias contribuíram para a redução do índice, dentre eles: medicamentos (1,41% maio ante 2,03% em abril); vestuário (1,18% abril e 0,9% em maio); energia elétrica (0,24% ante 1,23%) e condomínios (0,74% ante 1,25%). Já os alimentos reduziram o ritmo de queda com variação de –0,03% em maio e – 0,29% em abril, especialmente pelo motivo do aumento no preço do frango (8,42% em maio e –5,93% em abril). Em junho de 2006 o IPCA dispôs de deflação de 0,21% e acenou para cortes maiores na SELIC (como será verificado adiante). Esta taxa foi a menor taxa apurada pelo IBGE no primeiro semestre de um ano (1,54%), como será examinado na Figura 5 a seguir. 12 A redução dos preços administrados deve-se ao fato da queda dos índices usados nos reajustes das tarifas (especialmente, o IGP-DI, como salientado anteriormente). 13 Em 12 meses a inflação acumulou alta de 4,23% abaixo da meta de 4,5%. 37 A taxa em 12 meses até junho caiu para 4,03%. Sendo os principais elementos de queda: tomate (-18,7%); batata inglesa (-10,55%); feijão carioca (-10,2%); álcool (-8,77%); frutas (-7,58%); televisor (-3,25%); gasolina (-1,60%); passagens aéreas (-1,09%); automóvel novo (-066%), dentre outros itens. 14 12 10 8 6 4 2 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 Anos Figura 5 - IPCA - No Primeiro Semestre % (1995-2006) Fonte: IBGE Entretanto, o IGP-DI voltou a subir em abril (0,02%), vide a Tabela 2, ante –0,45% do mês de março. Este indicador foi influenciado pela perda de fôlego das quedas de preços no atacado, além de inflação mais alta no varejo e na construção civil. Contudo, deve-se salientar que este indicador não remonta a retomada da inflação, mas sim que deflação foi se dissipando, pois há uma taxa negativa de –0,77% (no acumulado em 12 meses). A alta do IGP-DI no mês de abril se deve ao fato dos produtos siderúrgicos, como o ferro, aço e derivados no atacado que subiram 0,81%, devido ao crescimento da demanda externa. O cimento subiu 0,38% neste mês impulsionado pela retomada da construção civil. Em maio o IGP-DI subiu 0,38%, o que indica a elevação dos preços dos metais verificados no mês anterior, somados aos aumentos das commodities (destaque para soja: 2,73% em maio, -1,7% em abril) e combustível no atacado. Os preços no atacado remontam variação positiva de 0,46% em maio, após deflação de 0,15% em abril. Com o aumento da taxa de câmbio (depreciação) verificada neste mês, o setor de atacado respondeu às altas de preços no mercado externo. Como o caso da soja verificado acima influenciou neste mês, já que a safra estava perto de terminar somado ao fato da 38 pequena recuperação da taxa de câmbio que estimulou as exportações do produto, levando ao aumento da demanda e, portanto, de preços. Em junho o IGP-DI se elevou para 0,67%, sendo a maior taxa avaliada em 5 meses. Este índice acumula elevação de 1,28% no ano e 0,98% em 12 meses até junho. Os responsáveis pelo aumento do indicador no mês de junho foram sem dúvida nenhuma os preços no atacado que dobraram no período e subiram 1,06% em junho ante ao aumento de 0,46% em maio. Um dos maiores responsáveis pela variação de preços no atacado foram os alimentos in natura; commodities importantes também subiram com a cana (8,57%) e o milho em grão (5,51%). Com relação aos preços ao consumidor houve queda de 0,40% em junho ante 0,19% no mês de maio. No varejo a queda foi causada pelos alimentos (-1,68%). Na construção civil os preços aumentaram menos em junho do que maio (0,9% e 1,32%, respectivamente). O IPC-FIPE mostrou deflação de 0,31% em junho, com este resultado acumulou no primeiro semestre uma taxa de 0,10%, sendo a menor inflação acumulada de janeiro a junho desde 2000, quando o IPC-FIPE foi de 0,88%. No acumulado de 12 meses até junho o índice acumula variação de 1,86%. Tabela 8 - Variação em % dos Índices de Preços – Abril/Junho Índice IPC-FIPE* IPCA IGP-DI Abril 2,57 0,21 0,02 Maio 0,10 0,38 Junho 1,86 -0,21 0,67 Fontes: FIPE, IBGE e FGV-RJ Nota: * Acumulado em 12 meses. 3.1.3 Período: Julho – Setembro de 2006 O IPCA de julho teve alta de 0,19% (conforme indica a Tabela 9). O que demonstra que a inflação continua sob controle. Porém, é importante salientar que uma nova metodologia de cálculo do IPCA iniciada no mês de julho pode ter colaborado para esta taxa, pois o IPCA era calculado até junho com base na POF14 de 1995-1996, a partir do mês de julho a base passou a ser a POF de 20022003, sendo que os grupos de transportes e alimentos que mais pressionaram a taxa em julho 14 Pesquisa de Orçamento Familiar. 39 perderam peso na nova metodologia15 (o item transportes reduziu em 2% o peso no cálculo e alimentos e bebidas 1 ponto). Dentre os itens pesquisados que continuam com queda de preços são: energia elétrica e telefonia, deflação de 0,73% e 0,27%, respectivamente. O álcool reverteu queda de 8,77% em junho, pois os usineiros elevaram seus preços balizados pela alta do preço internacional do açúcar. Contudo, em agosto o IPCA ficou em 0,05%. Tal queda em relação a julho foi provocada pela queda nos preços dos combustíveis (preço da gasolina caiu 0,40% em agosto após reajuste de 0,81% em julho; o álcool reduziu 0,81% ante o aumento de 1,04% no mês de julho). A inflação acumulada no ano é de 1,78% e em 12 meses 3,84%. Ainda a taxa de câmbio baixa é o principal fator de redução dos índices, bem como a boa safra agrícola e a menor pressão dos preços administrados. Em agosto houve redução dos preços monitorados como energia elétrica (-0,16%) e telefone fixo (-0,54%). Desse modo, espera-se que o IPCA fechará em torno de 3%, abaixo, portanto, da meta de 4,5%. O que contribui para o aumento do índice em agosto foi o grupo alimentos e bebidas e o reajuste dos empregados domésticos (2,26%, refletindo ainda o reajuste do salário mínimo). Com elevação nos preços no atacado de 0,27% para 0,53%, respectivamente, julho e agosto, a inflação medida pelo IGP-DI mais do que dobrou de julho para agosto (0,17% para 0,41%, respectivamente)16. A inflação no atacado esteve associada ao aumento dos combustíveis (0,87%); carnes (9,42%) e metais não-ferrosos (1,17%). O IGP-DI acumula alta de 1,87% no ano e de 2,78% em 12 meses até agosto. O IPCA-15 no mês de setembro ficou em 0,05% e o IPC-FIPE subiu 0,25%. De janeiro a setembro o IPC-FIPE acumulou alta de 0,68%. Um dos fatores decisivos para o bom comportamento da inflação em setembro foi o impacto zero das tarifas públicas. A taxa de água e esgoto aumentou 1,38% e foi responsável por 0,03 ponto percentual da inflação mensal. Mas a telefonia fixa caiu 1,19% e contribuiu com –0,03 ponto percentual no índice, o que tornou nula “inflação” das tarifas. O grupo habitação fechou setembro estável 0,01%. Outro item importante neste mês foi transportes com queda de 0,11% ante queda de 0,15% em agosto. Tal queda se deve ao fato da redução do preço do álcool nos postos de 6,26%. 15 Apesar da introdução de nova metodologia toda a série histórica da inflação pode ser comparada ao índice de julho, pois foram monetariamente atualizados para julho. 16 Em setembro o IGP-DI subiu 0,24%. 40 Tabela 9 - Variação em % dos Índices de Preços – Julho/Agosto Índice IPCA IGP-DI Julho 0,19 0,17 Agosto 0,05 0,41 Setembro 0,20 0,24 Fontes: IBGE e FGV-RJ 3.1.4. Considerações finais e perspectivas De janeiro a setembro de 2006, o IPCA acumulou alta de 2% e, caso até dezembro sua variação continuar em torno de 0,20% (inflação de setembro de 2006), espera-se que a taxa de inflação ficará no máximo 3%. Todos os índices como o IPC-FIPE e o IGP-DI mostram uma tendência de queda, conforme apresentados neste relatório. Todavia, o Banco Central continua conservador na redução da taxa básica de juros a SELIC. Desde o segundo semestre de 2005 quando o Comitê de Política Monetária (COPOM) manteve o aperto monetário, a SELIC caiu 5,5 pontos, de 19,75% para 14,25% em agosto de 2006, mas as projeções do IPCA para 2006 e para 2007 situam abaixo da meta central de inflação, além disso, o crescimento econômico apresentou taxa no primeiro semestre de 2006 de –2,2%, bem como a taxa de câmbio permanece apreciada, o que poderia ampliar o ritmo de queda desta taxa. Desse modo, são esperadas quedas sucessivas na taxa de juros dadas as projeções favoráveis verificadas anteriormente, somadas ao efeito de um ambiente externo tranqüilo. 3.2. Agregados Monetários José Caio Racy 3.2.1. Introdução Para facilitar a interpretação dos agregados monetários no Brasil, esta seção se incumbirá de reproduzir como o Banco Central administra a liquidez da economia brasileira. 41 Texto Extraído das Notas Metodológicas sobre a Reformulação dos Meios de Pagamento do Banco Central do Brasil17 Os meios de pagamento ampliados são indicadores antecedentes de pressões de demanda sobre o setor real melhores que os meios de pagamento restritos, dado que, atualmente, as facilidades de realocação de portfólio permitem que o M1 esteja sempre no nível necessário para transações e responda passivamente às elevações no nível de preços. Ressalte-se, contudo, que mesmo em modelos de política monetária que privilegiam o controle de taxas de juros, os agregados monetários continuam sendo instrumentos importantes para o acompanhamento dos efeitos da política monetária, tanto como indicadores de liquidez quanto como indicadores de captações internas de recursos, por parte do sistema emissor, para multiplicação de crédito no país. A reduzida correlação entre moeda legal e renda nominal observada em sistemas financeiros desenvolvidos, decorre do progresso tecnológico aplicado às operações financeiras e do conseqüente adensamento das relações de débito e crédito na economia, processo que tem conferido crescente liquidez aos passivos em geral emitidos pelas instituições financeiras. No Brasil são claramente identificáveis momentos em que o crescimento do agregado restrito não esteve relacionado com acréscimos de renda ou alterações significativas no nível geral de preços. No processo de estabilização econômica decorrente da implantação do Plano Real, os agregados restritos apresentaram crescimento relevante em termos nominais, mais acentuadamente nos primeiros anos - nos meses de 1996, por exemplo, observaram-se variações em 12 meses entre 14% e 39% - refletindo processo de remonetização da economia. Em outro momento, a introdução da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), em janeiro de 1997, provocou elevação brusca do nível do M1, que chegou a apresentar, naquele ano, variações de 61,2% em 12 meses. Os novos conceitos de meios de pagamento ampliados representam mudança de critério de ordenamento de seus componentes, que deixaram de seguir o grau de liquidez, passando a definir os agregados por seus sistemas emissores. Nesse sentido, o M1 é gerado pelas instituições emissoras de haveres estritamente monetários, o M2 corresponde ao M1 e às demais emissões de alta liquidez realizadas primariamente no mercado interno por instituições depositárias - as que realizam multiplicação de crédito. O M3 é, por sua vez, composto pelo M2 e captações internas por intermédio dos fundos de renda fixa e das carteiras de títulos 17 Reprodução das informações fornecidas pelo Banco Central do Brasil. Disponível em <www.bcb.gov.br/?MEIOSPAG>. 42 registrados no Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic). O M4 engloba o M3 e os títulos públicos de alta liquidez. Para tanto, assume-se que entre os haveres integrantes do agregado monetário, as diferenças de velocidade potencial de conversão em disponibilidade imediata associadas a perdas de valor nesses procedimentos não sejam significativas no atual estágio de desenvolvimento do sistema financeiro. Caso contrário, o ordenamento teria que contemplar tais diferenças, uma vez que, por hipótese, quanto maior a velocidade de conversão, maior exposição do componente à demanda por liquidez. Desse modo, o critério adotado permite discriminar a exposição do sistema financeiro à demanda por liquidez ao incluir no M3 somente exigibilidades das instituições depositárias e fundos de renda fixa junto ao público. Nesse sentido, os títulos públicos, apesar de não possuírem liquidez potencial mais reduzida que os títulos privados e depósitos de poupança, foram alocados no conceito mais abrangente a fim de destacar, no M3, a exposição do sistema financeiro, exclusive o Banco Central tratado apenas como provedor de meio circulante. Embora não usual na maioria dos países, a inclusão da dívida mobiliária pública em agregados monetários baseia-se nas especificidades da economia brasileira, com o setor público mantendo participação expressiva no dispêndio total por longo período, cujo financiamento depende significativamente da captação de recursos por meio da emissão de títulos. Tais circunstâncias exigiram elevada liquidez desses instrumentos, propiciando sua adoção generalizada como quase-moeda até os dias atuais. Observe-se que, dentre os títulos federais, apenas os registrados no Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic) são considerados nos meios de pagamento. Apesar da alta liquidez dos instrumentos de captação do Tesouro Nacional (TN), entendeu-se que o reconhecimento de tais emissões como quase-moeda nos conceitos de meios de pagamento deva ser o mais restrito possível, dado que o TN não integra o Sistema Financeiro Nacional (SFN). O Banco Central, por sua vez, tem suas operações com títulos já concentradas no Selic. Os fundos de renda fixa foram incluídos no M3, embora possuam personalidade jurídica própria e não multipliquem crédito, dado que em geral funcionam em colaboração com instituições depositárias, exercendo atividades típicas de tais instituições, como transformar a liquidez de uma carteira de ativos e captar recursos, emitindo quotas como alternativa de aplicação financeira aos clientes. O desempenho e a exposição dos fundos de renda fixa afetam a instituição administradora, uma vez que a maior parte dos clientes não faz a distinção estabelecida formalmente. 43 As operações compromissadas do restante da economia junto ao sistema emissor – correspondentes ao financiamento líquido de títulos tomado por tal sistema – funcionam como moeda para transações, sendo incluídas no conceito M3. 3.2.2. Análise dos Agregados A base monetária restrita teve crescimento de 5,6% no mês de agosto e 25,1% em 12 meses, mais como reflexo do aumento das reservas bancárias (que cresceram 35,1% no ano) do que da emissão de papel moeda (que cresceu 20,6% no ano). Tabela 10 - Base Monetária e Componentes – Saldo no Final do Período - (R$ Mi) Período Base Monetária Variação % Mês Dez/2004 88 733 Jan/2005 83 471 Fev 79 116 Mar 78 276 Abr 77 792 Mai 79 731 Jun 78 494 Jul 80 284 Ago 79 820 Set 80 106 Out 79 887 Nov 85 515 Dez 101 247 Jan/2006 92 843 Fev 94 627 Mar 88 735 Abr 88 913 Mai 86 159 Jun 94 635 Jul 94 592 Ago 99 861 Fonte: BACEN 18,2 - 5,9 - 5,2 - 1,1 - 0,6 2,5 - 1,6 2,3 - 0,6 0,4 - 0,3 7,0 18,4 - 8,3 1,9 - 6,2 0,2 - 3,1 9,8 0,0 5,6 Ano 21,2 21,1 14,9 24,0 18,6 19,3 15,4 9,8 10,6 12,9 11,5 13,9 14,1 11,2 19,6 13,4 14,3 8,1 20,6 17,8 25,1 Papel Moeda Emitido 61 936 55 647 54 394 53 295 53 175 53 034 53 931 55 627 55 037 56 352 57 232 59 440 70 034 62 265 64 862 60 667 61 966 61 237 63 272 65 770 66 384 Variação % Mês Ano 18,8 20,6 - 10,2 20,8 - 2,3 18,2 - 2,0 19,8 - 0,2 17,7 - 0,3 15,2 1,7 15,6 3,1 15,3 - 1,1 14,5 2,4 13,1 1,6 12,7 3,9 14,0 17,8 13,1 - 11,1 11,9 4,2 19,2 - 6,5 13,8 2,1 16,5 - 1,2 15,5 3,3 17,3 3,9 18,2 0,9 20,6 Reservas Bancárias 26 797 27 824 24 722 24 981 24 617 26 697 24 563 24 656 24 783 23 753 22 655 26 075 31 214 30 578 29 766 28 068 26 947 24 922 31 362 28 822 33 477 Variação % Mês Ano 16,8 22,6 3,8 21,8 -11,1 8,2 1,0 34,0 -1,5 20,4 8,4 28,4 -8,0 15,1 0,4 -0,9 0,5 2,7 -4,2 12,4 -4,6 8,4 15,1 13,6 19,7 16,5 -2,0 9,9 -2,7 20,4 -5,7 12,4 -4,0 9,5 -7,5 -6,6 25,8 27,7 -8,1 16,9 16,1 35,1 Em consonância com a base monetária restrita, a base monetária ampliada vem crescendo, refletindo-se no aumento dos depósitos compulsórios e no saldo dos títulos públicos de emissão do Tesouro (que se tem preocupado em recompor seu portfólio para títulos prefixados, emitidos internamente) e na redução dos saldos dos títulos de emissão do 44 Bacen, que sofre menor pressão nas operações com o setor externo, o que pode ser verificado na Figura 6. Tabela 11 - Base Monetária Ampliada - Saldos no Final do Período - R$ Mi Período Base Depósitos monetária compulsórios em espécie Títulos BACEN públicos federais Tesouro Total Variação % Mês Ano Dez/2004 88 733 66.042 13 463 810 995 824 458 1,59 10,41 Jan/2005 83 471 66.334 13 385 837 286 850 671 2,17 10,13 Fev 79 116 66.619 13 472 854 116 867 588 1,28 11,33 Mar 78 276 67.026 13 959 872 915 886 874 1,86 12,58 Abr 77 792 67.826 12 706 873 931 886 637 0,01 12,22 Mai 79 731 66.928 11 946 881 402 893 348 0,75 11,89 Jun 78 494 67.731 11 929 895 296 907 225 1,29 12,51 Jul 80 284 68.997 12 219 909 422 921 641 1,66 13,44 Ago 79 820 68.856 12 240 922 936 935 176 1,21 14,54 Set 80 106 69.857 11 480 934 621 946 101 1,13 15,33 Out 79 887 69.731 9 898 954 472 964 370 1,64 16,34 Nov 85 515 70.559 6 251 966 128 972 379 1,30 17,07 101 247 73.320 6 736 972 748 979 484 2,27 17,85 Jan/2006 92 843 73.390 6 443 1011 525 1017 968 2,61 18,36 Fev 94 627 73.949 6 221 1020 933 1027 154 0,97 18,00 Mar 88 735 74.084 6 403 1038 586 1044 989 1,01 17,02 Abr 88 913 74.719 6 071 1047 830 1053 901 0,81 17,95 Mai 86 159 74.070 6 595 1061 262 1067 857 0,87 18,08 Jun 94 635 76.312 6 294 1060 107 1066 401 0,75 17,46 Jul* 94 592 76.522 6 382 1081 870 1088 252 1,78 17,60 99 861 76.920 6 340 1089 592 1095 932 1,06 17,42 Dez Ago* Fonte: BACEN O M1 cresceu 2,1% em agosto e 16,8% em 12 meses, como consequência de um aumento de 18,5% no papel-moeda em poder do público e 15,8% nos depósitos à vista, reflexo do aumento da renda dos trabalhadores e da continuidade da expansão do crédito pelo sistema bancário (Tabela 12). Esta tendência deve permanecer até o final do ano, por conta do acúmulo de datas comemorativas e do pagamento do 13º salário. 45 Meses 16 000 1200 000 14 000 1000 000 800 000 10 000 8 000 600 000 6 000 400 000 4 000 200 000 2 000 0 Ju l Ag o Se t O ut No v Ja De n/ z 20 06 Fe v M ar Ab r M ai Ju n Ju l Ag * o* D ez / Ja 200 n/ 4 20 05 Fe v M ar Ab r M ai Ju n 0 Meses Bacen Tesouro Figura 6 - Títulos Bacen X Tesouro Fonte: Bacen Tabela 12 - M1 e componentes - saldo em final de período - (R$ Mi) Período Meios de Variação % Papel-moeda Variação % Depósitos Variação % pagamento mês ano em poder do mês ano à vista2/ mês ano Dez 127 946 12,8 16,7 52 019 23,3 20,8 75 927 6,6 14,0 Jan 118 832 - 7,1 21,2 45 390 - 12,7 18,4 73 442 - 3,3 23,0 Fev 117 767 - 0,9 18,3 43 950 - 3,2 16,6 73 817 0,5 19,4 Mar 116 794 - 0,8 19,5 42 883 - 2,4 18,5 73 911 0,1 20,1 Abr 113 676 - 2,7 16,1 43 182 0,7 16,9 70 494 - 4,6 15,6 Mai 115 771 1,8 14,3 42 550 - 1,5 14,0 73 221 3,9 14,5 Jun 116 929 1,0 14,1 43 606 2,5 15,0 73 323 0,1 13,6 Jul 116 748 - 0,2 13,1 44 960 3,1 13,6 71 788 - 2,1 12,8 Ago 116 996 0,2 10,6 44 256 - 1,6 13,1 72 740 1,3 9,1 Set 117 423 0,4 6,9 45 378 2,5 12,1 72 044 - 1,0 3,8 Out 119 659 1,9 9,0 45 265 - 0,3 8,9 74 394 3,3 9,0 Nov 126 508 5,7 11,5 47 254 4,4 12,0 79 254 6,5 11,3 Dez 144 778 14,4 13,2 58 272 23,3 12,0 86 506 9,2 13,9 Jan 129 951 - 10,2 9,4 50 017 - 14,2 10,2 79 935 - 7,6 8,8 Fev 131 136 0,9 11,4 51 271 2,5 16,7 79 865 - 0,1 8,2 Mar 128 748 - 1,8 10,2 48 720 - 5,0 13,6 80 029 0,2 8,3 Abr 127 513 - 1,0 12,2 49 080 0,7 13,7 78 433 - 2,0 11,3 Mai 130 857 2,6 13,0 48 676 - 0,8 14,4 82 181 4,8 12,2 Jun 132 055 0,9 12,9 50 749 4,3 16,4 81 306 - 1,1 10,9 Jul 133 558 1,1 14,4 51 379 1,2 14,3 82 180 1,1 14,5 Ago* 136 693 2,3 16,8 52 426 2,0 18,5 84 267 2,5 15,8 Fonte: Bacen R$ Mi R$ Mi 12 000 46 Tabela 13 - Meios de pagamento ampliados - Saldo em final de período Período M1 Depó sitos Tít. M2 priv. p/ de Inv. Poup. Quotas Oper. fundos renda 2/ Tít. Tít. compr. fed. est. títulos (Selic) fixa fed. M3 - (R$ Mi) M4 Var. % e mês mun. Ano Dez/2003 109 648 - 144 118 159 128 412 895 408 096 17 394 838 386 119 373 712 958 471 3,3 18,7 Jan/2004 98 075 - 144 684 162 297 405 056 425 437 16 690 847 183 125 437 721 973 342 1,6 19,0 Fev 99 539 - 144 902 163 655 408 096 430 628 18 294 857 017 128 805 732 986 554 1,4 19,8 Mar 97 725 - 144 292 167 741 409 758 438 609 18 689 867 056 127 181 742 994 979 0,9 20,3 Abr 97 920 - 144 735 168 323 410 978 442 522 18 796 872 295 126 630 752 999 677 0,5 20,5 Mai 101 270 - 147 288 179 204 427 762 439 941 19 239 886 942 127 028 762 1 014 731 1,5 20,9 Jun 102 481 - 149 287 184 700 436 469 443 690 19 480 899 639 125 451 772 1 025 862 1,1 21,2 Jul 103 211 - 151 503 187 190 441 904 449 865 18 644 910 414 126 212 780 1 037 406 1,1 20,2 Ago 105 790 - 152 155 192 303 450 248 454 418 19 987 924 653 122 103 786 1 047 542 1,0 19,4 Set 109 856 - 152 921 194 487 457 264 463 211 18 508 938 982 122 324 796 1 062 103 1,4 18,9 Out 109 826 299 153 508 199 378 463 012 467 119 18 736 948 867 121 573 806 1 071 246 0,9 18,7 Nov 113 410 306 155 244 201 818 470 778 473 784 21 888 966 450 121 440 815 1 088 705 1,6 17,4 Dez 127 946 374 159 589 205 588 493 497 474 817 20 308 988 622 120 069 828 1 109 519 1,9 15,8 Jan/2005 118 832 523 160 217 209 480 489 052 481 802 21 724 992 577 121 617 839 1 115 033 0,5 14,6 Fev 117 767 713 160 232 213 909 492 621 490 672 22 459 1 005 752 125 654 849 1 132 254 1,5 14,8 Mar 116 794 686 159 709 225 373 502 562 500 327 21 353 1 024 242 127 604 862 1 152 707 1,8 15,9 Abr 113 676 607 159 438 229 388 503 109 505 077 23 120 1 031 307 130 102 874 1 162 283 0,8 16,3 Mai 115 771 698 158 835 228 999 504 302 506 449 25 602 1 036 353 133 602 887 1 170 842 0,7 15,4 Jun 116 929 675 159 921 234 960 512 485 509 184 25 111 1 046 781 136 734 900 1 184 415 1,2 15,5 Jul 116 748 755 161 792 238 789 518 085 520 924 28 307 1 067 316 136 815 914 1 205 046 1,7 16,2 Ago 116 996 716 161 672 247 261 526 645 529 707 27 395 1 083 747 138 809 929 1 223 485 1,5 16,8 Set 117 423 804 162 195 252 048 532 469 541 649 27 177 1 101 296 139 247 943 1 241 486 1,5 16,9 Out 119 659 1.014 162 628 255 882 539 183 546 351 27 466 1 113 000 143 472 956 1 257 428 1,3 17,4 Nov 126 508 965 164 241 257 775 549 489 558 473 28 171 1 136 133 143 529 969 1 280 631 1,8 17,6 Dez 144 778 1.168 169 323 267 195 582 464 559 140 24 899 1 166 502 144 914 983 1 312 399 2,5 18,3 Jan/2006 129 951 1.109 168 740 267 453 567 253 586 534 25 676 1 179 463 146 722 997 1 327 182 1,1 19,0 Fev 131 136 1.181 169 964 272 574 574 855 600 493 26 828 1 202 176 146 551 1 009 1 349 735 1,7 19,2 Mar 128 748 1.135 167 242 281 669 578 795 611 674 27 357 1 217 826 152 956 21 1 370 802 1,6 18,9 Abr 127 513 1.232 166 661 284 251 579 657 617 968 27 901 1 225 525 153 791 21 1 379 338 0,6 18,7 Mai 130 857 1.276 166 049 295 798 593 981 620 958 30 941 1 245 880 155 187 21 1 401 088 1,6 19,7 Jun 132 055 1.138 167 620 299 629 600 442 622 123 29 976 1 252 541 156 717 21 1 409 279 0,6 19,0 Jul 133 558 1.213 170 110 299 952 604 833 635 925 30 804 1 271 561 160 236 21 1 431 819 1,6 18,8 Ago* 136 693 1.139 170 155 298 420 606 406 647 917 28 169 1 282 492 163 670 22 1 446 183 1,0 18,2 Fonte: Bacen Conforme a Tabela 13 e a Figura 7, M2 cresceu em função dos títulos privados: 47 1 400 000 1 200 000 R$ Mi 1 000 000 800 000 600 000 400 000 200 000 M ai ar M N ov Ja n/ 20 06 Se t Ju l M ai ar M N ov Ja n/ 20 05 Se t Ju l M ai ar M Ja n/ 20 04 0 Meses M1 Dep. Inv. Dep. Poup. Tít. Priv. M2 Figura 7 - M2 Ampliado Fonte: Bacen M3 também registrou crescimento no período considerado (Figura 8), face o aumento quotas de renda fixa18. Isto significa que as instituições depositárias estão oferecendo alternativas de aplicações financeiras aos seus clientes, que no contexto de queda da Selic, têm optado por aplicações pré-fixadas. M4, por seu turno, cresceu apenas 1,0% em agosto e 18,2% em um ano. Isto pode ser um reflexo da nova estratégia do Tesouro em alterar seu portfólio, trocando títulos pós-fixados ou atrelados ao câmbio por títulos pré-fixados. Mais uma vez, se está apostando no controle inflacionário e na queda da taxa Selic. 18 São títulos cujo rendimento já é conhecido no ato da aplicação, podendo ser prefixados para todo o prazo ou repactuados a cada período. Nas aplicações com correção monetária, o rendimento é considerado como pósfixado. 48 3 000 000 2 500 000 2 000 000 1500 000 1000 000 500 000 0 M2 Quot as Renda Fixa Oper . Tí t . Fed. M3 Figura 8 - M3 Ampliado Fonte: Bacen 3.2.3 Conclusão Isto mostra que o comportamento dos agregados monetários no terceiro trimestre se apresentou condizente com a programação monetária do Banco Central, conforme se pode observar na Tabela 14. Tabela 14 - Programação Monetário para o 3º Semestre e para o Ano Discriminação M1 Base Restrita Base Ampliada M4 Fonte: Bacen 3º Trimestre Ano R$ bi Var. % ano R$ bi Var. % ano 116,7 - 157,9 14,5 137,9 - 186,6 13,9 81,6 - 110,4 16,1 95,9 - 129,8 14,8 1178,0 - 1382,8 16,8 1215,7 - 1427,1 14,5 1241,2 - 1679,3 17,6 1284,4 - 1737,7 15,1 49 3.3. Juros e Crédito Giuliano Contento de Oliveira 3.3.1. Juros A condução da política monetária no interregno jan./out. 2006 foi marcada pela continuidade do processo de flexibilização iniciado no segundo semestre de 2005, ante a trajetória bem comportada dos preços no período, com as expectativas para a inflação de 2006 se situando bem abaixo do centro da meta estipulada, de 4,5%. A taxa básica de juros da economia passou de 18% ao ano em dezembro de 2005, para 14,25% em setembro de 2006, uma queda de 3,75 pontos percentuais (p.p.). Depois de reduzir a Selic em 0,75 p.p. em cada uma das três primeiras reuniões de 2006, de 18% para 15,75% ao ano, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central passou a se posicionar de forma menos arrojada em relação ao ritmo de distensão da política monetária. A justificativa da autoridade monetária para a adoção desta nova postura foi balizada no hiato existente entre as mudanças na Selic e os seus respectivos efeitos sobre o comportamento dos preços. Esta estratégia passou a prevalecer de forma mais enfática a partir da reunião de abril, onde a despeito da redução de 0,75 p.p., passou-se a sustentar que: “[...] o Copom entende que a preservação das importantes conquistas obtidas no combate à inflação e na manutenção do crescimento econômico, com geração de empregos e aumento da renda real, poderá demandar que a flexibilização adicional da política monetária seja conduzida com maior parcimônia. Essa ponderação se torna ainda mais relevante quando se leva em conta que as próximas decisões de política monetária terão impactos progressivamente mais concentrados em 2007”. [grifo nosso] Com isso, a sinalização da ata de abril se traduziu na atenuação do ritmo de redução da Selic nas reuniões de maio, julho e agosto, com as quedas passando de 0,75 p.p., para 0,50 p.p., com a Selic encerrando setembro em 14,25%ao ano. Esta taxa equivale a um juro real ex ante superior a 10%, considerando a inflação esperada para os próximos 12 meses, de 4,08% no início de outubro, patamar obstaculiza um ritmo de crescimento econômico vigoroso. Considerando que o pass-through da política monetária compreende um horizonte em torno de oito meses, donde as reduções da Selic a partir de maio exerceriam impacto sobre o comportamento dos preços apenas no ano subseqüente, o Copom optou por uma conduta mais parcimoniosa da taxa de juros de sorte a não desviar os preços da trajetória esperada para a 50 inflação em 2007, de 4,5%. Buscou-se com esta nova estratégia, ademais, compassar o ritmo de crescimento da demanda agregada com o da oferta agregada potencial, de sorte manter um grau de capacidade ociosa condizente com as metas estabelecidas para a inflação. Pode-se afirmar que a nova postura sinalizada pelo Copom na ata de abril foi absolutamente assimilada pelo mercado futuro de juros, que doravante passou a trabalhar com uma expectativa de redução de 0,50 p.p. da Selic, ao invés de 0,75 p.p como antes. A partir da reunião de maio, quando a sinalização da ata de abril se transformou em realidade, a taxa swap DI-pré de 30 dias passou a incorporar, sistematicamente, uma expectativa de queda da Selic compassada com a postura mais cautelosa da autoridade monetária, condição que revela a efetividade e a importância do canal de expectativas da política monetária (Figura 9). Figura 9 - Selic versus swap-pré 30 dias (jan./set. 2006) Fonte: Banco Central. A questão que se coloca é em que medida se mostrava necessária a categórica sinalização, por parte da autoridade monetária, de redução do ritmo de queda da Selic a partir de maio, bem como a conseqüente adoção desta nova postura no manejo da política monetária a partir daí? Ou, dito de outro modo, poderia o Banco Central ter mantido o ritmo de redução da Selic em 0,75 p.p. nas reuniões de maio, julho e agosto? De acordo com o Copom, a partir das atas das reuniões, como a partir daquele momento as reduções da taxa básica de juros se fariam sentir sobre os preços apenas no próximo ano, acabou-se optando pela redução do ritmo de queda da Selic e esperar a reação do mercado ante a conduta mais parcimoniosa da política monetária. 51 Isto porque em abril/maio a expectativa para a inflação em 2007, apurada pelo Relatório de Mercado do Banco Central, era de 4,5%. Logo, diante do receio de a continuidade do ritmo de redução da Selic colocar em risco o cumprimento da meta para a inflação do próximo ano, o Copom considerou mais prudente a adoção de uma conduta mais gradualista. Entretanto, a existência de um grau de capacidade ociosa capaz de acomodar um ritmo de crescimento mais acelerado revela a existência de margem para a manutenção do ritmo de queda da Selic ao nível anterior, sem que isso comprometesse o cumprimento da meta para a inflação estabelecida para o próximo ano (Figura 10). Decorre, pois, que as indicações constantes na ata de abril do Copom podem ser qualificadas de precipitadas, considerando que as expectativas de mercado vinham avalizando o ritmo mais acelerado de diminuição da Selic. Figura 10 - Grau de capacidade ociosa na indústria (ago.05/ago.06) Fonte: CNI apud Banco Central. Nesta perspectiva, o excesso de cautela do Banco Central acabou impondo um ônus desnecessário à economia brasileira, já que a interrupção do processo de redução mais célere da taxa básica de juros sobre-penalizou as contas públicas e desestimulou o crescimento da oferta agregada efetiva e potencial, prejudicando a produção e o emprego. A conduta da política monetária no período recente sugere, assim, que o Banco Central tem perseguido o piso da meta para a inflação de 2005, de sorte a minimizar o impacto dos preços administrados no IPCA do próximo ano. Nesta estratégia, o Copom estaria buscando tornar a política monetária mais eficiente sob o atual formato de inflation 52 targeting, cuja inflexibilidade o tem induzido a utilizar a valorização da taxa de câmbio enquanto expediente necessário para fazer com que a trajetória dos preços convirja para a meta estipulada para a inflação. As taxas de longo prazo continuam sinalizando a possibilidade de reduções adicionais da Selic (Tabela 15). A taxa de um ano dos contratos de swap DI-pré terminou setembro em 13,57% ao ano. De acordo com o relatório de expectativas do Banco Central referente à primeira semana de outubro, o mercado tem trabalhado com uma Selic de 13,5% ao ano no último mês de 2006 e de 12,5% ao ano no fim de 2007. Espera-se, assim, que a continuidade, mesmo que gradual, do processo de flexibilização da política monetária nos próximos meses tenda a implicar menores constrangimentos ao comportamento do produto e do emprego em 2007. A menor despesa com juros, se acompanhada de uma gestão fiscal eficiente, poderá lançar as bases no sentido de recolocar a economia brasileira na trilha do crescimento, aumentando a capacidade de investimento do Estado e, com isso, permitindo a superação dos gargalos de infra-estrutura. Cabe destacar, ainda, a queda da TJLP no período jan./set. 2006, que passou de 9% ao ano para 7,5% ao ano. No final de setembro, o Conselho Monetário Nacional (CMN) realizou mais uma redução, de 0,65 p.p., para 6,85% ao ano, taxa que irá vigorar entre outubro e dezembro. Busca-se, com isso, estimular o investimento, atualmente em torno de 20% do PIB. Tabela 15 - Taxas de Juros no Brasil (jan.-set. 2006) Fonte: Banco Central. Elaboração própria.3.3.2. Crédito, Juros e Spread Bancário Os empréstimos do Sistema Financeiro Nacional (SFN) atingiram R$ 674,3 bilhões em agosto de 2006, o equivalente a 32,8% do PIB. As operações com recursos livres 53 alcançaram R$ 459,5 bilhões, 22,3% do PIB, e as com recursos direcionados, R$ 214,8 bilhões, 10,5% do PIB. Entre janeiro e agosto, os empréstimos do SFN aumentaram 10,72%, o equivalente a R$ 65,26 bilhões. Em proporção do PIB, observou-se aumento de 1,8 p.p. dos empréstimos do SFN no interregno considerado, com as operações com recursos livres liderando o processo (Tabela 16). Tabela 16 - Crédito no Brasil (jan./ago. 2006) Fonte: Banco Central. Elaboração própria. O crédito ao setor público alcançou R$ 18,98 bilhões em agosto, enquanto ao setor privado, R$ 655,29 bilhões, queda de 5,8% e aumento de 21,9% em relação ao mesmo período do ano anterior, respectivamente. No período jan./ago. 2006 verificou-se o mesmo movimento: recuo das operações ao setor público e elevação dos empréstimos ao setor privado em todos os setores, ainda que sob diferentes intensidades (Tabelas 17 e 18). Tabela 17 - Crédito no Brasil ao setor público e ao setor privado, R$ bilhões (jan./ago. 2006) Fonte: Banco Central. Elaboração própria. 54 Considerando a média do saldo dos empréstimos no intervalo jan./ago. 2006 em relação ao mesmo período de 2005, observa-se que o crédito do SFN registrou aumento de 21,1%. Verifica-se, ainda, que o crescimento dos empréstimos ao setor privado tem sido liderado pelas operações destinadas às pessoas físicas, que atingiram R$ 221,2 bilhões em agosto e registraram aumento de 32,9% na base de comparação mencionada (Tabelas 17 e 18). Tabela 18 - Crédito no Brasil ao setor público e ao setor privado – variação em relação ao mesmo período do ano anterior (jan./ago. 2006) Fonte: Banco Central. Elaboração própria. Este movimento revela que a expansão dos empréstimos às pessoas físicas tem contribuído fortemente para a continuidade do processo de recuperação do crédito iniciado no segundo semestre de 2003. Considerando apenas os empréstimos com recursos livres referenciais para a taxa de juros, enquanto as operações destinadas às empresas cresceram 15,6% na média do período jan./ago. 2006 ante o mesmo intervalo de 2005, as operações às pessoas físicas aumentaram 31,6%, conforme se pode observar na Tabela 19. O crédito consignado com desconto em folha de pagamento, que atingiu R$ 44,3 bilhões em agosto de 2006, ante R$ 33,7 bilhões em janeiro, é a modalidade que mais aumentou no intervalo referenciado. Contudo, outras modalidades destinadas às pessoas físicas, como crédito pessoal, aquisição de veículos, cartão de crédito, também têm contribuído fortemente para o crescimento do crédito no país, conforme indicado pela Tabela 19. É interessante observar, ademais, o aumento mais modesto da modalidade cheque especial, que por possuir a maior taxa de juros das modalidades de empréstimos apresentadas na Tabela 17, indica um processo de substituição de dívidas pelos clientes, realizada a partir 55 da contratação de crédito com taxa de juros menor e liquidação do empréstimo com taxa de juros maior. Este processo, ao mesmo tempo em que tem permitido uma reconfiguração das posturas financeiras dos agentes, tem concorrido no sentido de relativizar, ao menos em parte, o impacto da recuperação do crédito sobre a demanda agregada, pois parcela importante das operações tem servido apenas para modificar o perfil de endividamento dos agentes. Tabela 19 - Crédito com recursos livres no Brasil – variação em relação ao mesmo período do ano anterior (jan./ago. 2006) Fonte: Banco Central. Elaboração própria. No âmbito das operações destinadas às empresas, devem ser destacados os aumentos observados nas modalidades capital de giro (24,1%), aquisição de imóveis (32,9%) e aquisição de bens (34,1%), na comparação da média do saldo dos empréstimos do interregno jan./ago. 2005/06. O crédito com recursos direcionados, por seu turno, registrou aumento bem mais modesto em relação aos empréstimos com recursos livres, 13,6% entre jan./ago. 2005/06, o que tem concorrido para diminuir a sua participação relativa em relação aos empréstimos 56 totais do SFN. Destaque deve ser atribuído ao crédito habitacional, que aumentou 20,3% na mesma base de comparação, movimento que tem incentivado as inversões no setor imobiliário (Tabela 20). As operações do BNDES somaram R$ 128,66 bilhões em agosto de 2006, um crescimento de 11,1% ante o mesmo período do ano anterior. Entre janeiro e agosto, os empréstimos aumentaram 4,18%. Entre jan./ago. 2005/06 a elevação é bem mais significativa, de 12% (Tabela 20). Tabela 20 - Crédito com recursos direcionados no Brasil – variação em relação ao mesmo período do ano anterior (jan./ago. 2006) Fonte: Banco Central. Elaboração própria. Os spreads praticados pelos bancos em seus empréstimos caíram apenas sensivelmente no período jan./ago. 2006. O spread médio geral consolidado passou de 29,6%, para 28,9% ao ano. O diferencial de juros de aplicação e captação praticado nos empréstimos destinados às pessoas físicas também caiu sensivelmente, de 43,6%, para 41,9% ao ano. Contudo, as margens das operações às empresas permaneceram estáveis no período considerado, em torno de 14% ao ano, levando-se em conta o consolidado das operações prefixadas, pós-fixadas e flutuantes (Tabela 21). 57 Tabela 21 - Spread bancário no Brasil: crédito com recursos livres (jan./ago. 2006) Fonte: Banco Central. Elaboração própria. Os níveis dos spreads cobrados pelos bancos se colocam enquanto fortes obstáculos à retomada do crescimento sustentado da economia brasileira, pois concorrem no sentido de desestimular os investimentos e não permitir o adensamento das relações de débito e crédito do sistema, condições indispensáveis para impulsionar continuadamente o aumento da produção e do emprego. Neste sentido, pode-se afirmar que a queda das taxas de juros entre janeiro e agosto decorreu mais do recuo do custo de captação dos bancos, do que em função da diminuição dos diferenciais cobrados por estas instituições entre as suas taxas ativas e passivas (Figura 11). 58 Figura 11 - Juros e spread bancário no Brasil (ago.05/ago.06) Fonte: Banco Central. 3.4. Melhores Investimentos Gabriel Marchesini No mercado de capitais, os índices Nasdaq e Dow Jones tiveram rentabilidades médias mensais negativas no primeiro semestre de 2006, o que pode, em parte, ser explicado pelo aumento das taxas de juros americanas básicas ao longo do semestre. Já os índices de bolsas brasileiros Ibovespa e FGV100, apesar de apresentarem retornos médios positivos entre janeiro e junho deste ano, demonstraram redução significativa de rentabilidade em relação ao segundo semestre de 2005. O índice da Bolsa de Valores de São Paulo alcançou seu valor histórico máximo no dia 09/05/2006, assim como os contratos futuros sobre o mesmo índice. 59 Todavia, o impacto da expectativa de desaquecimento da economia norte-americana fez com que os investidores brasileiros reavaliassem os valores alcançados pelos índices sobre ações no mercado nacional, reduzindo, desta forma, suas rentabilidades no mercado acionário. No terceiro trimestre do ano corrente, porém, houve recuperação dos índices Dow Jones e Nasdaq, e ainda aumento da taxa de retorno média do índice FGV100. Tal movimento, em parte, aconteceu como conseqüência da redução nas volatilidades de todos os índices, apontando para uma redução nas expectativas de risco do mercado. Apesar disto, o Ibovespa se manteve com retorno negativo entre julho e setembro de 2006. O risco-país, medido pelo índice EMBI+, iniciou o primeiro semestre de 2006 cotado a 302 pontos percentuais, e, no dia 30 de junho, alcançou o valor de 254 pontos percentuais. No dia 30 de setembro o valor registrado para o spread Brasil foi de 233 pontos percentuais. Tal queda ocorreu principalmente devido ao aumento das reservas de moeda estrangeira pelo banco central, reduzindo o risco do não-pagamento dos serviços da dívida externa em caso de crises econômicas internacionais. Com exceção do euro, todos os contratos de moeda estrangeira, inclusive os contratos futuros, apresentaram retornos médios negativos no primeiro semestre de 2006. Entre julho e setembro deste ano, somente os contratos de venda de dólar ptax tiveram uma pequena valorização. As baixas volatilidades no terceiro trimestre de 2006 também indicam uma estabilidade nos contratos de moeda estrangeira. Os contratos futuros de dólar com vencimento em Janeiro de 2007 encerraram o terceiro trimestre de 2006 cotados a R$ 2.209,20/ US$ 1.000,00, e os contratos de venda de dólar ptax, a R$ 2.174,20/ US$1.000,00. Tais valores podem refletir uma expectativa de pequena depreciação do real frente ao dólar, ou ainda, as intenções por parte de investidores ou empresas nacionais com dívida em moeda estrangeira, de fazer hedge e se protegerem contra maiores variações cambiais. O investimento que apresentou maior rentabilidade no primeiro semestre de 2006 foi o ouro, com retorno mensal médio de 1,87%. Entre todos os ativos, porém, este também apresentou a maior volatilidade no período. O Ibovespa teve rentabilidade 0,32% maior que o Índice de Renda Fixa M, 0,4% maior que a taxa Selic, e 0,41% maior que os contratos do tipo CDI Taxa 252 dias e CDI Over Acumulado, porém, com risco mensal associado igual a 34,19%. Os investimentos com menor risco relativo do semestre foram o CDI Taxa 252 dias, CDI Over Acumulado e Selic, apresentando coeficientes de variação iguais a 0,05107, 0,05110 e 0,05138, indicando o risco incorrido para cada unidade de retorno. Nas figuras e tabelas a seguir estão representados os índices mensais de cada um dos ativos entre Julho de 2005 e Setembro de 2006. 60 Tabela 22 – Rentabilidades 'Ouro' 'Ibovespa' 'Índice de Renda Fixa M' 'Selic Taxa 252 dias' 'CDI Taxa 252 Dias' 'CDI Over Acumulado' 'FGV100' 'Poupança Taxa Mensal' 'Ibovespa Futuro Contin Out' 'Euro Real' 'Dow Jones (R$)' 'Dólar Paralelo Venda' 'Dólar Ptax Venda' 'Nasdaq (R$)' 'DólarFutCont6-04' Fonte: Economática 2º Semestre 2005 2,52% 4,75% 1,57% 1,48% 1,47% 1,47% 4,12% 0,75% 3,44% -0,63% -0,52% -1,19% -0,07% -0,05% -1,25% 1º Semestre 2006 1,87% 1,68% 1,36% 1,28% 1,27% 1,27% 0,87% 0,66% 0,47% 0,24% -0,38% -1,03% -1,32% -1,33% -2,31% 2º Semestre 2006 -0,88% -0,19% 1,51% 1,14% 1,14% 1,14% 1,10% 0,69% -1,52% -0,60% 1,15% -0,42% 0,15% 0,89% -0,60% 1º Semestre 2006 0,06% 0,07% 0,07% 0,07% 2,33% 20,22% 22,40% 24,86% 25,90% 26,51% 27,71% 32,13% 34,19% 35,26% 38,78% 2º Semestre 2006 0,04% 0,03% 0,03% 0,03% 1,19% 12,12% 17,86% 23,27% 10,36% 22,86% 11,21% 17,67% 27,29% 25,68% 33,09% Tabela 23– Riscos 'Poupança Taxa Mensal' 'CDI Taxa 252 Dias' 'CDI Over Acumulado' 'Selic Taxa 252 dias' 'Índice de Renda Fixa M' 'Dólar Paralelo Venda' 'Dow Jones (R$)' 'Nasdaq (R$)' 'DólarFutCont6-04' 'FGV100' 'Dólar Ptax Venda' 'Euro Real' 'Ibovespa' 'Ibovespa Futuro Contin Out' 'Ouro' Fonte: Economática 2º Semestre 2005 0,05% 0,04% 0,04% 0,04% 1,18% 13,69% 17,92% 19,58% 19,06% 23,86% 19,57% 31,38% 28,75% 30,26% 29,80% 61 0,025 0,02 0,015 0,01 0,005 0 0 2 4 6 8 10 12 'CDI Taxa 252 Dias' 'Poupança Taxa Mensal' 'CDI Over Acumulado' 'Índice de Renda Fixa M' 14 16 'Selic Taxa 252 dias' Figura 12 – Retornos dos Índices de Renda Fixa – Julho de 2005 a Setembro de 2006 Fonte: Economática 0,15 0,1 0,05 0 0 2 4 6 8 10 12 14 16 -0,05 -0,1 -0,15 'Ibovespa' 'Nasdaq (R$)' 'Dow Jones (R$)' 'FGV100' 'Ibovespa Futuro Contin Out' Figura 13 – Retornos das Bolsas – Julho de 2005 a Setembro de 2006 62 Fonte: Economática 0,15 0,1 0,05 0 0 2 4 6 8 10 12 14 16 -0,05 -0,1 'Dólar Paralelo Venda' 'Dólar Ptax Venda' 'Euro Real' 'DólarFutCont6-04' Figura 14 – Retornos dos Contratos de Câmbio – Julho de 2005 a Setembro de 2006 Fonte: Economática 0,06 0,05 0,04 0,03 0,02 0,01 0 0 2 4 6 8 10 'CDI Taxa 252 Dias' 'Poupança Taxa Mensal' 'CDI Over Acumulado' 'Índice de Renda Fixa M' 12 14 16 'Selic Taxa 252 dias' Figura 15 – Riscos dos Índices de Renda Fixa – Julho de 2005 a Setembro de 2006 Fonte: Economática 63 0,6 0,5 0,4 0,3 0,2 0,1 0 0 2 'Ibovespa' 4 'Nasdaq (R$)' 6 8 'Dow Jones (R$)' 10 'FGV100' 12 14 16 'Ibovespa Futuro Contin Out' Figura 16 – Riscos das Bolsas – Julho de 2005 a Setembro de 2006 Fonte: Economática 0,6 0,5 0,4 0,3 0,2 0,1 0 0 2 4 'Dólar Paralelo Venda' 6 8 'Dólar Ptax Venda' 10 'Euro Real' 12 14 16 'DólarFutCont6-04' Figura 17 – Riscos dos Contratos de Câmbio – Julho de 2005 a Setembro de 2006 Fonte: Economática 64 3.5.1. Fronteira Eficiente de Investimentos Utilizando a teoria de Markowitz sobre fronteira eficiente, bem como todos os ativos negociados no Brasil e analisados no boletim sobre mercados financeiros do NACE, foram sugeridas, no último relatório, duas carteiras de investimento. A primeira delas recomendava que 67% do montante de capital fosse utilizado para adquirir cotas do Índice de Renda Fixa M e 33%, para cotas do Ibovespa, o que representaria, em termos de resultado esperado, retorno mensal de 2,62% e risco de 10,02% ao mês. Observou-se que, ao final do primeiro semestre de 2006, uma carteira com estas proporções apresentou retorno mensal médio igual a 2,99% e risco mensal de 11,08%. Para a segunda carteira de investimentos, as proporções sugeridas foram 59% na taxa Selic e 41% no índice FGV100, com expectativa de retorno de 2,56% e risco associado de 9,93%. Os resultados finais desta alcançaram retorno médio mensal de 2,57% e risco de 10,33%. Para o próximo semestre, de outubro de 2006 a março de 2007, os seguintes critérios foram adotados a fim de obter as carteiras de investimento, visando o nível de risco igual a 10%: ● Para todos os cálculos, foram utilizados os dados históricos dos ativos entre março e setembro de 2006. ● As lacunas ainda existentes nos retornos dos ativos após retirar todos os finais de semana foram preenchidas utilizando o critério de interpolação linear. ● As carteiras foram montadas com 4 ativos cada, utilizando um de cada grupo (renda fixa, renda variável, câmbio e ouro, permitindo que a proporção de cada um dos ativos na carteira variasse de -100% até 200%, com exceção do ativo de renda fixa, que poderia assumir qualquer valor para cobrir as variações dos demais ativos. ● Os ativos escolhidos para compor a primeira carteira foram os que apresentaram maior retorno médio em módulo dentro de cada grupo. ● Os ativos escolhidos para compor a segunda carteira foram os que apresentaram menor volatilidade dentro de cada grupo. ● Para os retornos médios foram utilizadas as médias geométricas dos retornos mensais de cada ativo. 65 Os ativos integrantes da primeira carteira deste semestre foram Índice de Renda Fixa M, FGV100, Euro e ouro. Com estes ativos, para atingir a meta de risco próximo de 10% (o risco obtido através das variâncias e covariâncias históricas dos ativos foi de 10,00% com retorno esperado igual a 3,22%), as proporções investidas deveriam ser 41,32%, 22,84%, 18,42%, e 17,42% respectivamente. Constaram na segunda carteira de investimentos os seguintes: Selic Taxa 252 Dias, FGV100, Dólar Ptax Venda e ouro. Os montantes investidos em cada ativo para aproximar o risco dos 10% visados seriam iguais a 31,47%, 28,76%, 21,01%, e 18,76%, alcançando retorno esperado de 3,14% com risco associado igual a 10,00%. Como o risco das duas carteiras está muito próximo de 10%, a primeira carteira de investimentos consiste em uma estratégia dominante de investimento sobre a segunda, pois tem retorno esperado maior para um mesmo nível de risco. 66 4. POLÍTICA FISCAL E DÍVIDA PÚBLICA Ulisses Ruiz de Gamboa 4.1. Evolução da Política Fiscal e Tributária No decorrer dos nove primeiros meses do ano pode-se apreciar uma clara e preocupante deterioração das contas públicas, refletida na importante redução do superávit primário como proporção do PIB vis a vis com os doze meses anteriores (17,2%), situando-se em 4,28% em setembro, levemente acima da meta anual de 4,5%. A Figura 12 mostra o superávit fiscal primário registrado em setembro de cada ano, a partir do início do Governo Lula. Pode-se observar que esse último resultado representa uma quebra de tendência, que era crescente desde 2003, em consonância com a continuidade da política fiscal implementada durante o período FHC. 6 5,17% 5 4,62% 4,28% 4,16% 4 3 2 1 0 2003 2004 2005 2006 Figura 18 - Superávit Primário do Setor Público Consolidado - Janeiro-Setembro (% do PIB) Fonte: Banco Central e IPEA. O resultado do governo central foi o pior desde 1998, ano de eclosão da crise financeira da Rússia, alcançando um superávit primário de 3,17% do PIB. O resultado do governo consolidado, no entanto, foi beneficiado pelas contribuições de Estados e Municípios 67 cujo superávit alcançou R$ 1,99 bilhão, enquanto as estatais entraram com R$ 2,52 bilhões, refletindo o bom desempenho da Petrobrás decorrente da elevação do preço internacional do petróleo e do aumento de sua produção. Apesar disso, o superávit primário do setor público consolidado em setembro diminui para R$ 4,58 bilhões, o que representou uma queda de 65,3% em relação ao mesmo período do ano passado. Essa redução do resultado primário acumulado pode ser explicada, por um lado, pela antecipação de metade do décimo-terceiro salário para aposentados e pensionistas do INSS concedida em agosto, com efeitos em setembro e pelo reajuste do salário mínimo, que pressionou os gastos da previdência social. Por outra parte, também reflete a tendência crescentemente expansionista do gasto público, reiteradamente assinalada por esse Boletim, que durante os primeiros sete meses do ano cresceram 11,9% em termos reais em relação ao mesmo período do ano passado, enquanto as receitas aumentaram também em termos reais em 8,7%19. Esse aumento das receitas tributárias da União foi inferior ao registrado durante o mesmo período do ano passado (13,1% em termos reais) e se explica, por um lado, pela menor expansão da atividade econômica, e, por outro, pelas medidas adotadas pelo Governo Central para estimular o investimento produtivo, além de outras subvenções (estímulo à poupança de longo prazo, redução de impostos às famílias, redução de tributos sobre a cesta básica e outras dirigidas a estimular a produção de pequenas e médias empresas). Essas medidas produziram impacto negativo na arrecadação de vários tributos, especialmente o IPI cujo crescimento foi de apenas 3%. O imposto de renda destaca-se como o tributo que apresentou o maior crescimento durante o período janeiro-setembro de 2006 em comparação com igual período do ano anterior (7,8%). Esse comportamento decorre do aumento observado na arrecadação do IRPF devido ao aumento da renda dos trabalhadores (a massa salarial aumentou acima do IPCA) e em virtude do desempenho marcadamente positivo dos setores petróleo e minerais não metálicos, que além de aumentar o IRPJ arrecadado, contribuiu para o crescimento da arrecadação das receitas provenientes do CSLL(5,3%), além das associadas aos royalties, participação especial pela exploração de petróleo e gás natural e dividendos da Petrobrás, que estão incluídas na rubrica “demais receitas” (27,8%). A Tabela 7 exibe a evolução das receitas federais para tributos selecionados durante o período janeiro a setembro de 2005 e 2006. 19 Os resultados divulgados pela imprensa, extraídos do “Resultado do Tesouro Nacional” de setembro de 2006, apontam variações nominais. Do ponto de vista econômico, a variação de receitas e despesas devem ser calculadas em termos reais, deflacionando para expressá-las em termos de poder de compra de setembro de 2006. Esse foi o cálculo realizado nesse Boletim, utilizando-se o IPCA, que é o índice de inflação oficial. 68 Tabela 24 - Arrecadação das Receitas Fiscais Federais para Tributos Selecionados – Janeiro a Setembro 2005-2006 (R$ milhões de setembro de 2006, deflacionado pelo IPCA) Receitas Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) Imposto sobre a Renda (IR) Outros Impostos Contribuição sobre Movimentação Financeira (CPMF) COFINS Cide-Combustíveis Contribuição Social sobre Lucro Líquido (CSLL) Outras Contribuições Demais Receitas Total Geral das Receitas Fonte: Elaboração NACE, a partir de dados do Tesouro Nacional. 19.662 91.707 12.032 22.303 67.203 6.016 20.249 23.183 33.626 2005 20.256 98.842 12.488 23.302 68.077 5.787 21.322 24.672 42.963 2006 Variação (%) 364.295 396.141 8,7% 3,0% 7,8% 3,8% 4,5% 1,3% -3,8% 5,3% 6,4% 27,8% A geração de superávits fiscais primários permitiria que o governo amortizasse parte da dívida pública, o que diminuiria seus encargos financeiros, contribuindo para diminuir o déficit nominal. De fato, a política de metas de superávit fiscal primário, implementada a partir de 1998, tem contribuído para a diminuição do déficit fiscal nominal, que entre 2003 e 2004 passou de 5,1% a 2,7% do PIB, respectivamente. No entanto, a geração de superávit fiscal primário não tem sido suficiente para financiar o aumento do gasto público decorrente de uma política fiscal crescentemente expansionista, que provoca como resultado maiores déficits nominais. Com efeito, durante o ano passado a combinação do crescimento de despesas públicas e maiores taxas de juros decorrentes da política monetária realizada provocaram um importante aumento do déficit nominal em relação a 2004, que foi de 3,5% do PIB20. Para o presente ano, o NACE estima que o déficit fiscal nominal seria levemente inferior, alcançando a 3,2% do PIB, tal como mostra a Figura 13. Essa modesta melhora refletiria fundamentalmente a redução da taxa SELIC praticada pelo Banco Central, que foi reduzida pelo COPOM de uma média de 19,6% em setembro de 2005 para 14,2% em setembro de 2006. 20 De acordo com a última revisão realizada pelo Tesouro Nacional. 69 8 7,46 7 6 5,78 5,08 5 4,58 4 3,55 3,61 3 3,57 3,19* 2,67 2 1 0 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 Figura 19 - Déficit Fiscal Nominal do Setor Público Consolidado (% do PIB) Fonte: Tesouro Nacional. (*) Projeção NACE. Em outras palavras, a política fiscal praticada continua a provocar uma elevação do déficit nominal, o que, em termos práticos, significa que o governo gera poupança negativa, o que implica no aumento do seu endividamento, sobretudo interno, contribuindo para elevar a taxa de juros real. Nesse sentido, esse comportamento da política fiscal, reiteradamente mencionado nesse Boletim, é completamente inconsistente com a obtenção de uma taxa de juros real menor, que não depende somente dos fundamentos monetários associados à decisão do COPOM. De fato, a política fiscal tem se mostrado acentuadamente expansionista, ao elevar as despesas do Tesouro Nacional, em termos reais, em 11,9%, frente ao aumento de 8,9% registrado durante o ano de 200521. Tal como pode ser observado na Tabela 25, e seguindo a tendência dos três anos anteriores, o aumento do gasto fiscal registrado nos primeiros nove meses do ano concentrou-se em despesas correntes, com aumentos reais de 8,2%, 15,6% e 10,8% nas rubricas “pessoal e encargos sociais”, “benefícios previdenciários” e “custeio e capital”, respectivamente. Tabela 25 - Despesa Total do Tesouro Nacional – 2005-2006 (R$ milhões de setembro de 2006, deflacionado pelo IPCA) 21 Ver nota 1. 70 Despesas I. Pessoal e Encargos Sociais II. Benefícios Previdenciários III. Custeio e Capital IV. Transferência ao Bacen e Despesas do Bacen Despesa Total Fonte: Elaboração NACE, a partir de dados do Tesouro Nacional. 2005 2006 68.817 103.298 76.300 440 250.418 74.474 119.402 84.526 457 280.181 Variação (%) 8,2% 15,6% 10,8% 3,8% 11,9% No entanto, esses aumentos reais superam em larga medida o crescimento registrado para essas mesmas rubricas durante 2005 (3,3%; 8,8% e 8,1%, respectivamente). No caso dos dispêndios com pessoal e encargos sociais a maior taxa de crescimento deve-se aos aumentos salariais concedidos aos funcionários dos Poderes Executivo, Legislativo, Judiciário e Ministério Público da União. Com relação às despesas de custeio e capital, sua evolução está explicada fundamentalmente pelo maior crescimento das rubricas “outras despesas de custeio e capital”, “despesas do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador)” e “benefícios assistenciais”. No caso da primeira rubrica, fazem parte as chamadas despesas discricionárias, que, por sua vez, estão constituídas por despesas correntes e investimentos. Uma análise mais aprofundada dessas contas mostra que o aumento das despesas discricionárias deveu-se principalmente ao dispêndio vinculado a gastos sociais, enquanto no caso das demais despesas discricionárias, incluindo o investimento, o crescimento foi significativamente menor. Por sua vez, o crescimento das despesas do FAT reflete tanto a adoção de diversas medidas direcionadas a facilitar o acesso ao benefício (crédito em conta corrente ou folha de pagamento e aumento das parcelas do seguro-desemprego) como o impacto do reajuste do salário-mínimo que aumentou os valores do seguro-desemprego e da parcela do abono salarial referente a 2006/2007. As despesas com benefícios assistenciais também aumentaram devido à elevação do salário-mínimo e pelo crescimento vegetativo da quantidade de benefícios pagos. Com relação à elevação em termos reais dos benefícios previdenciários, as principais causas foram o reajuste do salário-mínimo e o aumento dos benefícios com valores acima do piso e a antecipação de metade do décimo-terceiro salário a segurados e dependentes da Previdência, que foi paga no último mês de setembro. As despesas com benefícios previdenciários passaram de 7,04% do PIB de janeiro a setembro de 2005 para 7,84% do PIB para o mesmo período desse ano, superando, como de costume em uma economia altamente informalizada, o aumento da receita previdenciária, que passou de 5,31% para 5,61% em relação ao PIB. Em conseqüência, o déficit primário da Previdência aumentou em 0,51 ponto 71 percentual do PIB em relação ao período correspondente em 2005, o que também contribuiu para a deterioração do superávit fiscal primário. Vale notar que grande parte do aumento dos gastos correntes ocorrido no transcurso do presente ano está vinculado tanto aos dispêndios de caráter assistencialista, tais como o Programa “Bolsa-Família”, como a aqueles mais dependentes do ciclo político-eleitoral vivido com a proximidade das últimas eleições presidenciais. Com relação ao primeiro grupo de dispêndios, apesar de contribuir para a redução da pobreza, tal como indicam os últimos resultados do IDH, não afetam em nada a capacidade futura de crescimento econômico, e, portanto, não são capazes de assegurar a geração de empregos futuros, impedindo que os aumentos da força de trabalho sejam absorvidos a partir da geração de novos empregos. Além disso, se bem uma parte da elevação das despesas, como por exemplo a antecipação de metade do salário-mínimo, tem caráter sazonal, existe outra parte, principalmente o reajuste do salário mínimo, que possui efeitos permanentes sobre as despesas públicas. Por outro lado, como tem sido mencionado repetidas vezes nesse mesmo Boletim, a política fiscal implementada pelo Governo Lula tem se concentrado cada vez mais em gastos correntes, sem praticamente nenhum impacto em termos de investimento público. Além disso, o financiamento de despesas públicas crescentemente expansionistas requer elevar a carga tributária, o que reduz a capacidade de poupança do setor privado. Com efeito, o Gráfico 14 mostra a evolução da carga tributária brasileira, que o NACE estima que será de 38% em relação ao PIB durante o ano 2006. 38,0* 2006 36,7 2005 35,5 2004 34,9 2003 35,5 2002 33,9 2001 32,5 2000 31,7 1999 29,7 1998 0 5 10 15 20 25 30 35 40 72 Figura 20 - Evolução da Carga Tributária Brasileira (%) Fonte: Secretaria da Receita Federal, IPEA. (*): Projeção NACE. Por outra parte, o crescimento mais elevado das despesas públicas também implica no aumento do endividamento público, o que implica que o Governo aumenta a demanda de crédito da economia brasileira, aumentando a taxa de juros real e, ao mesmo tempo, deixando pouco espaço para a flexibilização da política monetária. Dessa forma, com a falta de recursos decorrente da baixa geração de poupança pública e privada, e com a conseqüente elevada taxa de juros real, o país vê sua capacidade de crescimento econômico minada, que no atual momento tem como teto o valor de 3% anual. Em outras palavras, não existem condições para que o país cresça a uma taxa mais elevada, como 5%, por exemplo, se o atual Governo continuar no caminho da estabilidade macroeconômica. A única possibilidade de aumentar no curto prazo a taxa de crescimento do PIB, o que configuraria um ciclo de expansão, e não necessariamente um crescimento sustentado, seria reduzir de forma importante a taxa SELIC, o que no curto prazo provocaria uma expansão do consumo. Entretanto, existem dois inconvenientes práticos para esse segundo caminho: a expansão baseada no crescimento do consumo provocaria inflação e o Governo não conseguiria rolar parte importante de sua dívida que deve, devido à percepção de risco do mercado, remunerar a uma taxa tão alta quanto a SELIC atual. 4.2. Evolução da Dívida Pública Durante o ano de 2006, segundo estimativas do Banco Central, a razão dívida pública líquida/PIB deverá continuar sua trajetória levemente descendente, alcançando 50,5%22 do PIB, frente a 51,6% para 2005. A Figura 15 permite visualizar a evolução desse indicador. 22 Essa projeção supõe uma taxa de câmbio nominal de R$ 2,17 em dezembro de 2006 e uma estimativa de taxa SELIC média de 15,1% ao ano. 73 70 60 55,5 57,2 52,6 50 48,7 48,8 1999 2000 51,7 51,6 2004 2005 50,5* 41,7 40 33,3 30 30,1 30,6 1994 1995 34,3 20 10 0 1996 1997 1998 2001 2002 2003 2006 Figura 21 - Dívida Líquida do Setor Público (% Pib) Fonte: Banco Central e IPEA. (*): Projeção Banco Central. A redução desse indicador se explicaria principalmente pela geração de superávit primário e pelo crescimento do PIB que ocorreriam ao longo do presente ano. Nesse sentido, essa última revisão na projeção do Banco Central levou em consideração a menor expectativa de crescimento para o presente ano. Secundariamente, poder-se-ia mencionar o efeito da valorização cambial, que afeta a parcela da dívida pública interna indexada ao câmbio e a dívida pública externa, e a redução mais acelerada da taxa SELIC, em que pese que esse efeito deveria ser minimizado pelo aumento da participação dos títulos prefixados, cuja remuneração não se vincula à taxa anterior. Com relação ao perfil da dívida pública mobiliária federal interna (DPMFI), que responde por 95% da dívida líquida do setor público consolidado, registraram-se avanços na direção de melhorar o perfil da dívida pública. A Tabela 26 mostra a evolução da composição da dívida pública mobiliária federal interna (DPMFI) entre setembro de 2005 e setembro de 2006. Tabela 26 - Evolução da Composição do Estoque da DPMFI (%) Títulos Prefixados Títulos Indexados à Taxa SELIC Títulos Remunerados pelo Câmbio Set. 2005 26,1 55,2 2,1 Set. 2006 33,0 41,4 1,4 74 Títulos Remunerados a Índices de Preços Títulos Remunerados à TR e Outros 14,1 22,0 2,4 2,2 Fonte: Tesouro Nacional. Por um lado, destaca-se, tal como foi mencionado anteriormente, o aumento da participação dos títulos prefixados, que passaram a representar 33% da dívida pública mobiliária em setembro de 2006. Essa maior participação reduz a exposição da dívida pública às flutuações das taxas de juros internas, permitindo aumentar a coerência entre a política fiscal e a política monetária realizadas. Além disso, houve uma diminuição apreciável da exposição cambial, reduzindo-se a participação dos títulos de dívida atrelados à variação do câmbio para 1,4% em setembro de 2006, possibilitando melhorar a percepção de risco da dívida soberana brasileira. Por sua vez, houve uma diminuição na participação dos títulos remunerados com base na taxa SELIC, que alcançaram 41,4% do total em setembro de 2006. Essa menor vinculação da dívida pública com a taxa básica da economia reduz o intrincado dilema que tem enfrentado a política econômica nos últimos tempos, pois a cada aumento da SELIC, o Tesouro aumenta suas despesas financeiras, que poderão ser financiadas com aumentos de impostos ou aumento no endividamento. Qualquer das duas formas de financiamento, como foi visto anteriormente, reduz a poupança nacional. A conseqüente pressão sobre as taxas de juros reais termina aumentando os encargos financeiros do próprio setor público, realimentando todo o processo. Ao analisar-se a evolução do prazo médio da DPMFI em poder do público, poder-seia concluir que a dívida pública brasileira interna ainda encontra-se fortemente concentrada no curto prazo, pois em termos globais seu prazo de vencimento médio apresentou uma redução de apenas 0,19 meses durante setembro de 2006. A Tabela 27 permite visualizar que alguns títulos, tais como os prefixados e os remunerados ao câmbio apresentaram um importante alongamento de sua maturidade entre setembro de 2005 e setembro de 2006. Esse resultado contribui para melhorar o perfil da dívida pública, principalmente no caso dos primeiros, que aumentaram sua participação relativa na composição da DPMFI. Entretanto, ao mesmo tempo, os títulos remunerados a índices de preço, como o IPCA, que também aumentaram sua importância, registraram uma importante redução no prazo médio de seus vencimentos. O balanço ainda assim é positivo, embora, em termos gerais, o alongamento da maturidade da dívida pública interna tenha sido de apenas 8,6%. 75 Tabela 27 - Evolução do Prazo Médio do Estoque da DPMFI (Meses) Títulos Prefixados Títulos Indexados à Taxa SELIC Títulos Remunerados pelo Câmbio Títulos Remunerados a Índices de Preços Títulos Remunerados à TR Outros Total Set. 2005 8,42 19,17 13,99 81,69 Set. 2006 9,45 20,48 19,85 58,18 Variação 12,2% 6,8% 41,9% -28,8% 63,90 84,89 27,46 60,59 71,82 29,82 -5,2% -15,4% 8,6% Fonte: Tesouro Nacional. 4.3. Temas Especiais: Privatização em Debate Nos últimos dias que antecederam o segundo turno das eleições para presidente, assistimos a uma verdadeira “demonização” da privatização por parte do candidato-presidente Luis Inácio Lula da Silva. O objetivo desse breve comentário, na verdade, é esclarecer alguns pontos importantes acerca do processo de privatização em geral, com especial ênfase para o caso brasileiro, “separando o joio do trigo”. Em primeiro lugar, o termo privatização se refere ao transpasso de alguma percentagem da propriedade das empresas públicas ao setor privado, que pode assumir vários graus, indo da cessão do controle acionário total à transferência de parte desse controle à iniciativa privada. Portanto, podem existir empresas como a Petrobrás ou o Banco do Brasil, por exemplo, que sejam sociedades de capital misto, onde parte de sua propriedade já se encontra privatizada, ou mesmo empresas como a Vale e a Companhia Siderúrgica Nacional, onde cem por cento de sua propriedade foi transpassada ao setor privado. Justamente no caso da Petrobrás, onde a União passou a ser um acionista minoritário (32,2% do capital social em 2005), seu desempenho mais eficiente e seus volumosos investimentos, que têm contribuído para aproximá-la em termos de gestão a empresas como a Exxon e a Shell, são um resultado da abertura de seu capital aos investidores estrangeiros, que aportam recursos e exercem saudável controle sobre o desempenho de seus executivos. Além disso, a criação das Parcerias Público-Privadas (PPPs) pelo atual governo também constitui um claro exemplo de participação privada em setores tradicionalmente vinculados ao “Estado-empresário”. Em segundo lugar, em quase todos os países do mundo, incluindo a China e os países que adotaram a chamada “Terceira Via”, o Estado encontra-se privatizando suas empresas ou 76 envolvendo o setor privado no financiamento e gestão de atividades anteriormente desenvolvidas pelo setor público. Em outras palavras, a privatização deixou de ser uma questão associada a algum tipo de ideologia liberal, e passou a representar uma medida pragmática de ajuste fiscal, ao permitir o reequacionamento do tamanho do Estado nos diversos países, com os conseqüentes benefícios em termos de redução de despesas e aumento de receitas, provenientes tanto do aumento de arrecadação como aquelas associadas à própria venda das estatais. No caso brasileiro, a privatização redeu aos cofres públicos durante o período 1995-2002 quase US$ 79 bilhões, que somados com as transferências das dívidas do governo para o setor privado, totaliza mais de US$ 93 bilhões, utilizados como peça fundamental do ajuste fiscal realizado no Plano Real. Além disso, estudos realizados por pesquisadores da USP, IPEA e FGV demonstram que a privatização de empresas públicas brasileiras significou um inegável aumento de sua eficiência e rentabilidade, o que também redunda em maior arrecadação tributária para o Fisco. Em terceiro lugar, em termos de impactos sobre o emprego e crescimento, as evidências disponíveis para um amplo conjunto de países mostram que a privatização não está associada a aumentos importantes do desemprego, provocando, ao mesmo tempo, um aumento geral dos salários para os trabalhadores que permanecem nas empresas privatizadas, devido aos aumentos de produtividade alcançados com a nova gestão privada. Ao mesmo tempo, as mesmas evidências também indicam a existência de uma relação positiva entre privatização e crescimento econômico. No caso brasileiro poderíamos citar exemplos emblemáticos como a Vale do Rio Doce, cujo número de funcionários aumentou mais de onze vezes, se consideramos além dos empregos diretos a geração de postos de trabalho indiretos, o setor siderúrgico, que em 2005 empregou 98.756 funcionários, além do setor de telecomunicações, cujo número de empregos aumentou mais de 50% após a privatização. Por último, cabe mencionar os impactos positivos da privatização sobre o bem-estar geral da população. Num estudo pioneiro realizado pelo Banco Mundial em 1994, estimou-se as conseqüências da privatização de empresas de serviços públicos sobre o bem-estar da população de um conjunto de países, que incluiu o México, o Chile, a Malásia e a Inglaterra, entre outros. A conclusão do estudo aponta para um aumento substancial do bem-estar social para cada um dos países analisados, devido a um aumento importante dos investimentos, melhora da produtividade, políticas de preços mais racionais, aumento da concorrência, melhora na capacidade de regulação e ganhos derivados do aumento do preço das ações das empresas privatizadas. Com relação a esse último caso, os ganhos de capital registrados beneficiaram em grande parte os próprios trabalhadores das ex estatais e a sociedade em geral, 77 que tiveram a oportunidade de comprar ações dessas empresas, configurando o que ficou conhecido como “capitalismo trabalhista” e “capitalismo popular”, respectivamente. No caso brasileiro, não há estudos similares, mas podemos mencionar que as mudanças favoráveis em relação à responsabilidade ambiental por parte da Companhia Siderúrgica Nacional e da Vale do Rio Doce após sua privatização e a maior inclusão social permitida pelo expressivo crescimento dos telefones celulares devem ter significado um impacto inegavelmente positivo sobre o bem-estar da população. Negar ou omitir todos esses impactos favoráveis em plena etapa pré-eleitoral assemelha-se à situação de um famoso conto do escritor russo Isaac Asimov, “O Cair da Noite” (“Nightfall”). Nesse conto narra-se a estória de um planeta composto de seis sois, que a cada século sofria uma eclipse total, situação inusitada, que sempre gerava pânico na população, perdendo-se na barbárie todo o conhecimento adquirido até então. Um grupo de cientistas descobre essa regularidade e tenta proteger todo o repositório da ciência numa caverna, até o fim do eclipse. Infelizmente, essa nobre tentativa mostra-se infrutífera, sucumbindo todo o conhecimento e os próprios cientistas na vertigem do pânico irracional. Esperamos não sofrer o mesmo destino com relação à experiência da privatização no Brasil. 5. NÍVEL DE ATIVIDADE ECONÔMICA (COMPORTAMENTO DO PRODUTO, DO EMPREGO E DA RENDA) 5.1. Evolução do PIB total e por Setor de Atividade O Produto Interno Bruto (PIB) a preços de mercado fechou o primeiro semestre do ano em R$ 987.123 milhões. Em termos de volume, houve um crescimento de 2,2% em relação ao registrado no primeiro semestre de 2005. A agropecuária apresenta o pior desempenho, com um crescimento de apenas 0,3% em relação a igual período do ano passado. Nesta mesma base de comparação a indústria cresceu 2,6% e o setor de serviços 2,3%. Tabela 28 - Evolução do PIB pela ótica da oferta e da despesa Setores e subsetores Valores a preços correntes (em milhões de reais) 2005 Jan-Junho 2006 Variação em volume Jan-Junho 2006/JanJunho 2005(%) 78 Agropecuária Indústria Serviços SIFIM* Valor Adicionado a Preços Básicos Impostos sobre produtos PIB a Preços de Mercado Consumo das Famílias Consumo do Governo Formação Bruta de Capital Fixo Exportações de Bens e Serviços Importações de Bens e Serviços (-) 145.829 690.601 985.325 (-) 93.236 1.728.518 72.929 352.155 501.331 48.481 877.937 0,3 2,6 2,3 1,8 2,0 209.080 1.937.598 109.186 987.123 4,0 2,2 1.075.343 378.745 385.943 557.067 178.767 202.160 3,8 1,9 5,9 324.988 153.355 4,1 240.075 120.769 13,9 Fonte: IBGE *Serviços de intermediações financeiras. O valor é negativo porque já foi distribuído nos setores da economia É um desempenho abaixo do esperado, tendo em vista que as previsões apontavam para um crescimento do PIB este ano em torno de 4%. Espera-se que ocorra alguma recuperação no terceiro trimestre do ano, puxada, sobretudo, pela produção industrial e pelo setor de serviços. Estes dois setores, conforme se observa na Figura 22 a seguir, apresentam picos de produção no terceiro trimestre do ano. Entretanto, nos últimos dois anos (2004 e 2005) esse pico tem se mantido no mesmo patamar (atingindo uma variação constante em relação à média de 1990), o que sinaliza uma dificuldade de crescimento. A agropecuária por sua vez concentra o pico de produção no segundo trimestre de cada ano, ou seja, sua contribuição para o crescimento neste segundo semestre do ano não deve ser tão relevante - vale observar que os picos de produção da agropecuária vêm sedo recorrentemente superados quando se compara o período compreendido entre 2002 e 2006. 79 220 160 200 182 180 170 138 201 199 193 146 150 149 148 140 138 160 130 142 140 131 142 132 138 120 110 100 100 20 02 .I 20 02 .I 20 I 02 . 20 III 02 .IV 20 03 .I 20 03 .I 20 I 03 .I 20 II 03 .IV 20 04 .I 20 04 .II 20 04 . 20 III 04 .IV 20 05 .I 20 05 .I 20 I 05 . 20 III 05 .IV 20 06 .I 20 06 .II 120 Agropecuária Indústria Serviços PIB a Preços de Mercado Figura 22 - PIB por Setor de Atividade - Série encadeada do índice trimestral (média de 1990=100) Fonte: IBGE Do ponto de vista da demanda, destaca-se o expressivo crescimento na formação bruta de capital fixo. No acumulado de janeiro a junho houve um crescimento de 5,9%, comparando com igual período do ano passado. Este crescimento se reflete no aumento da produção de bens de capital, comentado a seguir. Considerando que este é um segmento alavancador dos demais, é de se esperar futuros reflexos dos investimentos realizados pelas empresas. Entretanto, é pouco provável que seus efeitos sejam sentidos ainda este ano. Apesar do câmbio valorizado, as exportações continuam em alta, com um crescimento de 4,1% no acumulado de janeiro a junho. Todavia alguns segmentos começam a sentir o reflexo desta apreciação cambial, como é o caso da agropecuária. O consumo das famílias também apresenta um crescimento significativo (3,8%). Entretanto este aumento não se reflete na produção de bens de consumo, sobretudo de bens duráveis e semiduráveis, os quais sofrem a concorrência dos produtos importados. Nesse sentido, vale ressaltar o expressivo crescimento das importações (13,9% no acumulado de janeiro a junho). 5.2. Evolução da produção industrial 80 A produção industrial brasileira apresentou no primeiro semestre do ano um comportamento bastante oscilante. Nos três primeiros meses do ano o desempenho foi bem superior ao registrado em igual período do ano passado. Entretanto, em abril a produção apresentou uma queda de 1,8% em relação a abril do ano anterior. Em maio houve um crescimento significativo de 4,8% em relação a maio de 2005, porém em junho nota-se novo decréscimo (queda de 0,6% em relação a junho de 2005). O terceiro trimestre do ano parece sinalizar uma recuperação, tendo em vista que em julho e agosto houve um crescimento mensal ao redor de 3,0%, comparando com iguais meses do ano passado. 15,0 14,0 13,0 12,0 11,0 10,0 9,0 8,0 7,0 6,0 5,0 4,0 3,0 2,0 1,0 0,0 -1,0 -2,0 -3,0 13,8 12,8 13,0 6,6 6,6 3,1 2,5 jan/06 5,4 5,0 5,3 4,9 4,7 4,8 4,7 3,3 1,0 fev/06 mar/06 Geral -1,8 -2,1 abr/06 Mineral 3,5 5,5 3,2 3,1 -0,6 -0,7 mai/06 jun/06 jul/06 ago/06 Transformação Figura 23 - Produção Industrial por Classe de Indústria – Brasil – Variação mensal (%) Fonte: IBGE No acumulado de janeiro a agosto o crescimento da produção industrial foi de 2,8% em relação a período de 2005, sendo que a indústria de transformação cresceu um pouco abaixo (2,6%). Assim como observado no ano de 2005 o destaque da indústria continua sendo a extrativa mineral, que mesmo após as quedas verificadas a partir do segundo trimestre conseguiu acumular um crescimento de 7,7% de janeiro a agosto deste ano. A mesma dificuldade de crescimento se verifica na produção industrial por categoria de uso, sobretudo em bens de consumo final. Após experimentar patamares elevados de crescimento no primeiro trimestre do ano a produção de bens de consumo apresenta 81 dificuldade de crescimento. Conforme se verifica no gráfico a seguir, grande parte desta dificuldade é fruto da retração na produção de bens de consumo semiduráveis e duráveis. Estes dois segmentos sofrem a influência do aumento das importações (favorecidas pelo câmbio valorizado). Somente no segmento de bens duráveis, de acordo com os dados da Funcex, no período de janeiro a setembro deste ano o valor FOB (em US$) das importações acumulou um espantoso crescimento de 86,4% em relação ao acumulado em igual período de 2005. No acumulado de janeiro a agosto o segmento de bens de consumo duráveis ainda apresenta um bom desempenho (6,4%), mas bens semiduráveis acumulam uma queda de 3,8%. Bens semiduráveis e não-duráveis em conjunto apresentam crescimento acumulado de 2,6%. 20,0 19,0 18,0 17,0 16,0 15,0 14,0 13,0 12,0 11,0 10,0 9,0 8,0 7,0 6,0 5,0 4,0 3,0 2,0 1,0 0,0 -1,0 -2,0 -3,0 -4,0 -5,0 -6,0 -7,0 -8,0 -9,0 -10,0 19,0 15,6 11,2 6,2 7,7 5,0 6,2 5,4 3,5 1,7 1,5 0,0 -1,2 0,5 -2,4 -4,2 -5,1 fev/06 Duráveis mar/06 abr/06 Semi Duráveis 1,1 1,2 -1,4 -6,2 -9,9 -9,8 jan/06 1,6 mai/06 jun/06 jul/06 ago/06 Semi Duráveis e Não Duráveis Figura 24 - Produção Industrial – Bens de Consumo - Variação mensal (%) Fonte: IBGE Vale destacar o expressivo crescimento do segmento de bens de capital, que já acumula no ano um crescimento de 5,8%. Analisando por uso final, destaca-se a produção de bens de capital para o setor de energia elétrica (36,92%) e construção (13,72%). Assim como observado no ano passado, bens de capital para o setor agrícola continuam em queda. 82 9,5 Uso misto Equipamentos de transporte -0,31 Energia elétrica 36,92 13,72 Construção Peças agrícolas -37,28 Equip. agrícolas -21,15 5,56 Industriais não-seriados Industriais seriados 1,06 Fins industriais 1,66 -60 -40 -20 0 20 40 60 Figura 25 - Produção Industrial de Bens de Capital – Variação Acumulado JaneiroAgosto 2006/2005 (%) Fonte: IBGE 5.3. Evolução do Comércio Varejista As vendas no comércio varejista apresentaram crescimento mensal recorrente ao longo do período de janeiro a agosto, tanto no que se refere ao volume quanto à receita nominal (Figura 26). Entre junho e julho nota-se uma redução no ritmo de crescimento, porém em agosto o comércio retoma o crescimento registrado no começo do ano, principalmente no que se refere ao volume de vendas. 9,48 8,91 8,37 7,46 8,32 7,46 7,4 6,53 5,74 6,27 5,64 4,67 3,97 3,3 2,98 2,25 jan/06 fev/06 mar/06 abr/06 índice de volume de vendas mai/06 jun/06 jul/06 ago/06 Índice de receita nominal Figura 26 - Vendas no Comércio Varejista – Volume e Receita Nominal – Variação (Mês/Mês ano anterior %) 83 Fonte: IBGE No acumulado de janeiro a agosto deste ano, o volume de vendas apresenta um crescimento de 5,30% e a receita nominal um crescimento de 6,96%, em relação a igual período do ano anterior (Tabela 29). O destaque é a venda de equipamentos e material de escritório, informática e comunicação, que acumula no período um crescimento de 36,02% em volume e 17,51% em receita nominal. Por outro lado, combustíveis e lubrificantes acumulam queda de -9,59% em volume, embora apresente um crescimento de 6,96% na receita nominal – provavelmente fruto do aumento do preço do petróleo, que, dada a inelasticidade da demanda reduz o consumo, porém não em níveis suficientes para atingir a receita. Tabela 29 - Variação do volume de vendas e receita nominal no comércio varejista Atividades Comércio Varejista Combustíveis e Lubrificantes Super e hipermercados Tecidos, vest. e calçados Móveis e eletrodomésticos Artigos farmacêuticos, méd., ortop. e de perfumaria Equip. e mat. escritório informática e comunicação Comércio Varejista Ampliado* Taxa de Variação (%) Acumulado Acumulado nos Jan-Agosto últimos 12 meses 2006/2005 Receita Receita Volume Volume Nominal Nominal 5,30 6,96 5,12 7,47 -9,59 4,02 -9,05 3,35 7,19 5,64 5,09 4,44 1,57 6,9 4,46 10,52 8,28 6,36 9,46 9,36 3,85 9,6 5,60 11,51 36,02 17,51 45,95 28,29 4,93 6,77 4,13 6,74 84 Veículos e motos, partes e peças Material de Construção 4,67 2,54 6,34 6,9 3,11 -0,66 5,69 4,81 Fonte: IBGE * Inclui o comércio varejista e a venda de veículos e material de construção 5.4. Mercado de Trabalho e Renda Paulo Dutra Costantin A estrutura desenvolvida para a análise do comportamento do mercado de trabalho no Brasil, no período de março de 2005 a março de 2006, é similar a adotada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), porque é a mesma utilizada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e, portanto, pode ser utilizada para comparações internacionais. A Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE é realizada em 6 (seis) regiões metropolitanas brasileiras: Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. As definições são realizadas das mais amplas para as mais específicas. Pessoas em Idade Ativa (PIA), que corresponde às pessoas com 10 (dez) anos ou mais de idade. Pessoas Economicamente Ativas (PEA), o A taxa de atividade corresponde à proporção de pessoas economicamente ativas em relação ao número de pessoas de 10 anos ou mais de idade. População Ocupada (PO) o População ocupada por grupamentos de atividade: Indústria extrativa, de transformação e distribuição de eletricidade, gás e água; Construção; Comércio, reparação de veículos automotores e de objetos pessoais e domésticos e comércio a varejo de combustíveis; Serviços prestados à empresa, aluguéis, atividades imobiliárias e intermediação financeira; Educação, saúde, serviços sociais, administração publica, defesa e seguridade social; • Serviços domésticos; e 85 Outros serviços (alojamento, transporte, limpeza urbana e serviços pessoais). o População ocupada por forma de inserção do trabalhador no mercado de trabalho: Empregados com carteira assinada no setor privado; Empregados sem carteira assinada no setor privado; e Trabalhadores por conta própria. Pessoas Desocupadas (PD) são assim classificadas por não estarem trabalhando, estarem disponíveis para trabalhar na semana de referência e terem tomado alguma providência efetiva para conseguir trabalho nos trinta dias anteriores à semana em que responderam à pesquisa. o A taxa de desocupação corresponde à proporção de pessoas desocupadas em relação ao número de pessoas economicamente ativas. Rendimento Médio Real (RMR). O RMR é calculado utilizando-se o deflator do Índice de Preços ao Consumidor (INPC) da respectiva região metropolitana, produzido pelo IBGE. Para o conjunto das seis regiões metropolitanas abrangidas pela pesquisa, o deflator é a média ponderada dos índices de preços dessas regiões. A variável de ponderação é a população que reside na área urbana da região metropolitana. o Rendimentos das categorias de posição na ocupação: Empregados com carteira de trabalho assinada no setor privado; Empregados sem carteira de trabalho assinada no setor privado; e Trabalhadores por conta própria. População Não Economicamente Ativa (PNEA). 5.4.1. Pessoas em Idade Ativa (PIA) De acordo com a Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do IBGE de agosto de 2006, há uma estimativa de aproximadamente 39,7 milhões de pessoas em idade ativa para o conjunto das seis regiões metropolitanas abrangidas pela pesquisa. Esta estimativa foi ampliada em aproximadamente 150 mil pessoas em relação a julho do mesmo ano. Na comparação com agosto de 2005, a taxa de variação foi de 2,2%, ou seja, um acréscimo de 850 mil pessoas em idade ativa. A Tabela 30 apresenta informações a respeito da PIA em que na análise por gênero (sexo) as mulheres representam 53,4% , a faixa etária em que às pessoas, por hipótese são 86 mais produtivas, dos 25 aos 49 anos, concentra-se, nas seis regiões pesquisadas, 44,4% da PIA e, finalmente, no que se refere ao item anos de estudo, 38,3% possuem 11 ou mais anos de estudo. Tabela 30 – Características da PIA População em Idade Ativa (%) Masculino Feminino 10 a 14 anos 15 a 17 anos 18 a 24 anos 25 a 49 anos 50 anos ou mais Sem instrução e menos de 1 ano 1 a 3 anos 4 a 7 anos 8 a 10 anos 11 anos ou mais Anos indeterminados TOTA REC SAL BH L Sexo: 46,6 45,6 45,5 53,4 54,4 54,5 Faixa Etária: 9,7 10,6 9,6 5,8 6,6 5,9 14,8 15,3 17,3 44,4 43,8 47,3 25,3 23,7 19,9 Anos de Estudo: 4,4 8,9 29,7 18,4 38,3 0,2 RJ SP POA 46,8 46,2 47,2 46,2 53,2 53,8 52,8 53,8 10,2 9,3 9,7 9,4 6,1 5,4 5,7 6,0 16,0 12,9 15,3 14,2 44,5 42,8 45,1 44,0 23,2 29,6 24,2 26,4 6,7 4,2 4,2 4,4 4,3 3,3 10,6 9,9 9,1 9,4 8,1 9,1 30,7 26,6 32,1 28,2 29,8 32,9 16,6 18,4 18,5 19,4 18,0 19,2 34,6 40,6 36,0 38,5 39,6 35,2 0,9 0,2 0,2 0,1 0,3 0,2 Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Trabalho e Rendimento, Pesquisa Mensal de Emprego 5.4.2. PESSOAS ECONOMICAMENTE ATIVAS (PEA) A estimativa de pessoas na força de trabalho para o agregado das seis regiões, em agosto de 2006 foi de 22,9 milhões, apresentando aumento em relação a julho de, aproximadamente 1,0%. Comparado a agosto de 2005, verificou-se crescimento de 4,2%, representando 913 mil pessoas. Vale ressaltar que houve acréscimo de 2,2% na PIA, no mesmo período de tempo em que a PEA aumentou em 4,2%. A relação entre PEA e PIA é conhecida como movimentação da taxa de atividade que se aumentou de 56,5% de agosto de 2005 para 57,6% em agosto de 2006, apresentando crescimento de 1,1% entre os períodos de comparação. As informações fornecidas pela PEA mostram que a população masculina, ao contrário do verificado na PIA, possui maior participação, cerca de 54,5%, a faixa etária de 25 a 49 anos permanece com maior representatividade 61,4% do total, o mesmo acontece com o 87 número de anos de estudo, em que a faixa com 11 ou mais anos de estudo – mão-de-obra mais qualificada – representa 51,2% da PEA. Tabela 31 – Características da PEA População Economicamente Ativa (%) TOTA REC SAL BH L Sexo: 54,5 55,8 51,4 45,5 44,2 48,6 Condição na Família: Principal responsável 46,3 44,3 45,1 Outros membros 53,7 55,7 54,9 Faixa Etária: 10 a 14 anos 0,3 0,7 0,4 15 a 17 anos 2,5 2,5 2,1 18 a 24 anos 18,6 18,8 18,8 25 a 49 anos 61,4 62,0 64,8 50 anos ou mais 17,1 16,0 13,9 Anos de Estudo: Sem instrução e menos de 1 ano 2,3 3,4 2,3 1 a 3 anos 5,3 6,6 5,9 4 a 7 anos 22,2 24,1 20,4 8 a 10 anos 18,8 17,0 18,7 11 anos ou mais 51,2 48,1 52,5 Anos indeterminados 0,3 0,8 0,1 Masculino Feminino RJ SP POA 54,2 55,5 54,5 53,6 45,8 44,5 45,5 46,4 43,5 50,1 45,2 47,1 56,5 49,9 54,8 52,9 0,3 0,2 0,3 0,3 2,8 1,7 3,0 2,5 20,5 15,0 20,1 18,4 60,3 62,0 60,8 61,5 16,2 21,1 15,8 17,3 2,2 2,4 2,2 1,2 5,1 5,5 5,1 4,4 24,9 22,2 20,8 25,7 19,5 19,6 18,1 20,7 48,0 50,2 53,5 47,6 0,3 0,1 0,3 0,3 Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Trabalho e Rendimento, Pesquisa Mensal de Emprego O crescimento da PEA, de agosto de 2005 a agosto de 2006, foi de 913 mil pessoas, como pode ser visualizado na figura 27. População Economicamente Ativa Total (em mil pessoas) 08/06 22.875 22.659 06 04 02 12 10 08/05 21.850 21.962 22.000 22.150 22.300 22.450 22.600 22.750 22.900 23.050 88 Figura 27 - População Economicamente Ativa Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Trabalho e Rendimento, Pesquisa Mensal de Emprego. 5.4.3. População Ocupada A PME estimou em 20,5 milhões o contingente de ocupados em agosto de 2006. Essa estimativa apresentou crescimento entre agosto de 2005 e agosto de 2006 de aproximadamente 300 mil pessoas. A pesquisa mostrou que os homens representavam, em agosto de 2006, 55,7% da população ocupada, enquanto as mulheres, 44,3%. A população de 25 a 49 anos representava 63,9% do total de ocupados. A pesquisa revelou também, que o percentual de pessoas ocupadas em março de 2006 com 11 anos ou mais de estudo era de 51,7%. O tamanho do empreendimento é outra característica observada pela pesquisa, que estimou em 58,0% a proporção de pessoas trabalhando em empreendimentos com 11 ou mais pessoas. Nos empreendimentos com 6 a 10 pessoas ocupadas, esta proporção era de 6,2%, enquanto para aqueles empreendimentos com no máximo 5 pessoas ocupadas, a proporção era de 35,9%. Segundo a Pesquisa Mensal de Emprego, 48,3% da população ocupada cumpria, em março de 2006, uma jornada de trabalho de 40 a 44 horas semanais e cerca de 33,4%, acima de 45 horas semanais. Em média, segundo os dados da pesquisa, 66,0% dos trabalhadores, nas seis regiões pesquisadas, tinham aquele trabalho há pelo menos 2 anos; 11,6% há entre 1 ano a menos de 2 anos; 20,1% há entre um mês e um ano e apenas 2,3% estavam naquele trabalho há menos de 1 mês. Tabela 32 – Características da População Ocupada População Ocupada (%) Masculino Feminino 10 a 14 anos 15 a 17 anos 18 a 24 anos 25 a 49 anos 50 anos ou mais Sem instrução e menos TOTAL REC SAL BH Sexo: 55,7 57,4 53,1 44,3 42,6 46,9 Faixa Etária: 0,3 0,7 0,4 1,8 1,8 1,7 16,2 15,8 15,4 63,2 63,8 67,1 18,5 18,0 15,5 Anos de Estudo: 2,4 3,6 2,4 RJ SP POA 55,4 56,6 55,8 54,2 44,6 43,4 44,2 45,8 0,3 0,3 0,2 0,2 2,0 1,3 2,1 2,0 18,5 12,8 17,7 16,9 62,0 63,3 62,9 62,6 17,1 22,3 17,1 18,2 2,4 2,5 2,4 1,2 89 de 1 ano 1 a 3 anos 5,4 6,8 5,8 5,2 5,7 5,3 4 a 7 anos 22,4 23,9 20,4 25,2 22,2 21,1 8 a 10 anos 17,9 16,2 17,6 18,8 19,2 16,7 11 anos ou mais 51,7 48,8 53,6 48,3 50,4 54,3 Anos indeterminados 0,2 0,7 0,1 0,2 0,1 0,3 Tamanho do Empreendimento: 1 a 5 pessoas 35,9 45,9 40,3 38,6 41,1 30,4 6 a 10 pessoas 6,2 7,2 5,9 6,9 5,9 6,0 11 ou mais pessoas 58,0 47,0 53,7 54,5 53,0 63,6 Tempo de Permanência no Trabalho: Até 30 dias 2,3 2,9 2,0 3,6 1,3 2,5 31 dias a menos de 1 ano 20,1 22,1 21,0 24,3 17,3 20,0 1 ano a menos de 2 anos 11,6 10,7 11,4 11,6 10,6 12,5 2 anos ou mais 66,0 64,3 65,6 60,4 70,8 65,0 Horas Habitualmente Trabalhadas por Semana: Até 39 horas 18,3 23,9 23,6 22,6 17,2 16,4 40 a 44 horas 48,3 35,7 45,5 46,4 46,5 50,3 45 horas e mais 33,4 40,4 30,9 31,0 36,3 33,3 4,6 25,8 20,1 48,1 0,2 34,5 6,4 59,0 2,7 21,3 11,0 65,1 17,9 57,2 24,9 Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Trabalho e Rendimento, Pesquisa Mensal de Emprego. 5.4.4. População Ocupada por Grupamentos de Atividade A Indústria extrativa, a de transformação e distribuição de eletricidade, gás e água, representam 17,3% da população ocupada. Na comparação com julho de 2005 não foi verificada mudança em nenhuma das regiões investigadas. A Construção representa 7,0% da população ocupada. Na comparação com agosto de 2005 foi verificada mudança apenas na Região Metropolitana de Belo Horizonte (12,4%). O Comércio, a reparação de veículos automotores e de objetos pessoais e domésticos e comércio a varejo de combustíveis representam 19,6% da população ocupada. O contingente de ocupados deste grupamento de atividade manteve-se estável em relação a julho de 2006 e apresentou acréscimo de 4,2% em relação a agosto de 2005. Os Serviços prestados à empresa, aluguéis, atividades imobiliárias e intermediação financeira representam 14,1% da população ocupada. O contingente de ocupados deste grupamento de atividade manteve-se estável tanto em relação a julho de 2006, quanto em relação a agosto de 2005. A Educação, saúde, serviços sociais, administração pública, defesa e seguridade social representam 15,8% da população ocupada. O contingente de ocupados deste grupamento de 90 atividade manteve-se estável tanto em relação a julho de 2006 quanto em relação a agosto de 2005. Os Serviços domésticos representam 8,4% da população ocupada. O contingente de ocupados deste grupamento de atividade manteve-se estável tanto em relação a julho de 2006 quanto em relação a agosto de 2005. Os Outros serviços (alojamento, transporte, limpeza urbana e serviços pessoais) representam 17,1% da população ocupada. O contingente de ocupados deste grupamento de atividade variou positivamente tanto em relação a julho de 2006 (2,5%) quanto em relação a agosto de 2005 (4,2%). Tabela 33 – Características da População Ocupada Distribuição da População Ocupada por Grupamentos de Atividade (%) Grupamentos de Atividade ANOS ago/02 ago/03 ago/04 ago/05 ago/06 ago/02 ago/03 Construção ago/04 ago/05 ago/06 Comércio, reparação de ago/02 veículos automotores e de ago/03 objetos pessoais e ago/04 domésticos e ago/05 Indústria extrativa, de transformação e distribuição de eletricidade, gás e água TOTA REC SAL L 18,0 11,8 10,5 17,7 11,7 10,7 17,9 12,2 11,0 17,8 12,3 10,2 17,3 11,9 11,0 7,4 6,8 8,2 7,5 6,4 8,9 7,1 5,8 8,0 7,0 6,4 8,6 7,0 5,6 8,2 19,7 23,3 22,3 19,9 25,4 20,3 19,6 26,0 20,8 19,3 24,6 22,0 BH 17,3 17,5 18,1 17,5 18,2 8,9 8,4 8,1 8,2 8,7 19,0 18,1 18,7 19,4 RJ 12,3 13,0 12,4 12,1 12,2 7,7 7,9 7,4 7,3 7,4 18,9 18,7 18,6 18,6 SP 22,4 21,6 22,3 22,3 21,1 7,0 7,2 6,8 6,5 6,4 19,6 20,0 19,4 18,4 POA 25,3 23,6 23,3 22,8 21,3 6,4 6,7 6,7 6,5 7,1 19,2 20,1 19,3 20,1 91 comércio a varejo de combustíveis Serviços prestados à empresa, aluguéis, atividades imobiliárias e intermediação financeira Educação, saúde, serviços sociais, administração pública, defesa e seguridade social 19,6 26,1 20,2 17,6 19,2 19,1 ago/06 ago/02 13,3 11,9 11,4 11,6 15,0 13,7 ago/03 13,7 11,5 12,8 11,9 14,9 14,2 ago/04 13,6 10,9 13,1 11,9 14,6 14,5 ago/05 14,3 11,6 12,7 12,6 15,2 15,3 14,1 11,8 13,9 12,6 15,3 14,5 ago/06 ago/02 16,0 19,4 18,9 15,8 18,5 13,6 ago/03 15,7 18,4 18,5 16,0 17,9 13,2 ago/04 16,0 19,8 17,8 15,8 18,5 13,5 ago/05 15,7 19,7 18,5 15,3 18,5 12,9 15,8 19,6 18,7 16,1 18,0 13,2 ago/06 ago/02 7,8 7,7 9,7 10,1 8,3 6,9 ago/03 7,6 7,9 9,6 10,4 7,5 6,8 Serviços domésticos ago/04 7,9 7,3 9,5 9,6 8,0 7,3 ago/05 8,3 7,4 9,8 9,9 8,5 7,9 ago/06 8,4 7,9 9,7 9,2 8,7 8,1 ago/02 16,8 17,3 18,0 16,4 18,5 16,1 Outros serviços ago/03 17,1 17,4 17,8 16,8 19,5 16,2 (alojamento, transporte, ago/04 17,1 16,5 19,0 17,0 19,9 15,8 limpeza urbana e serviços ago/05 16,9 16,7 17,5 16,2 19,2 16,2 pessoais) ago/06 17,1 16,4 17,7 16,8 18,8 16,9 Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Trabalho e Rendimento, Pesquisa Mensal de Emprego. 20,4 11,2 11,7 11,6 11,9 12,8 15,6 16,7 16,3 16,5 16,3 6,8 6,5 7,5 7,1 7,5 14,4 14,0 14,4 14,0 14,0 5.4.5. População Ocupada por Forma de Inserção do Trabalhador no Mercado de Trabalho Os empregados com carteira de trabalho assinada no setor privado (exclusive trabalhadores domésticos, militares, funcionários públicos estatutários e outros) representam 41,2% da população ocupada. Em relação a julho de 2006, o contingente de trabalhadores nesta forma de inserção no mercado de trabalho apresentou estabilidade. Frente a agosto de 2005 ocorreu variação de 5,9%, ou seja, aumento de aproximadamente 472 mil pessoas trabalhando com carteira de trabalho assinada. Os empregados sem carteira de trabalho assinada no setor privado (exclusive trabalhadores domésticos, militares, funcionários públicos estatutários e outros) representam 14,9% da população ocupada. Esta estimativa manteve-se estável em ambas as comparações, tanto em relação a julho de 2006 quanto a agosto de 2005. Os trabalhadores por conta própria representam 18,8% da população ocupada. Foi verificada estabilidade no contingente de trabalhadores nesta forma de inserção nas comparações mensal e anual. 92 5.4.6. Pessoas Desocupadas (Pd) A Pesquisa Mensal de Emprego registrou estabilidade em relação a julho de 2006 e alta em relação a agosto de 2005 de 17,2%, representando 355 mil pessoas procurando trabalho, para o total das seis regiões pesquisadas. No âmbito regional, na comparação com julho de 2006, houve estabilidade em todas as regiões. Em relação a agosto de 2005, pôde ser verificada movimentação positiva em quatro regiões: Recife (14,3%), Belo Horizonte (14,4%), Rio de Janeiro (13,6%) e São Paulo (28,0%). Tabela 34 – Características da População Desocupada População Desocupada TOTAL REC SAL (%) Gênero: Masculino 44,2 46,6 41,7 Feminino 55,8 53,4 58,3 Faixa Etária: 10 a 14 anos 0,7 1,1 0,6 15 a 17 anos 8,4 6,6 4,9 18 a 24 anos 38,7 35,9 39,3 25 a 49 anos 46,5 52,1 50,8 50 anos ou mais 5,7 4,3 4,4 Anos de Estudo: Sem Instrução e menos 26,8 34,8 29,0 BH RJ SP POA 41,8 42,2 45,2 47,0 58,2 57,8 54,8 53,0 0,2 10,6 41,8 41,5 5,9 0,0 0,9 0,7 6,3 10,1 7,9 39,6 38,7 34,9 46,6 45,0 49,3 7,5 5,3 7,1 27,3 27,7 23,9 29,6 93 de 8 anos 8 a 10 anos 11 anos ou mais 26,7 21,2 25,2 27,1 46,4 44,0 45,9 45,5 Condição de Trabalho: Com trabalho anterior 80,3 72,3 76,2 80,6 Sem trabalho anterior 19,7 27,7 23,8 19,4 Condição na Família: Principal responsável 25,5 26,2 25,3 23,3 Outros membros 74,5 73,8 74,7 76,7 Com Procura de Trabalho: Nos 7 dias 84,6 78,0 81,5 79,5 Nos 23 dias 15,4 22,0 18,5 20,5 Tempo de Procura: Até 30 dias 21,8 26,6 19,5 47,5 31 dias a menos de 6 meses 47,4 43,8 40,1 37,9 7 a 11 meses 10,3 7,6 10,5 5,9 1 ano a menos de 2 anos 11,7 16,6 15,2 5,8 2 anos ou mais 8,9 5,4 14,8 3,0 24,5 28,9 27,6 47,8 47,2 42,8 77,3 83,4 84,4 22,7 16,6 15,6 26,2 24,8 30,6 73,8 75,2 69,4 89,7 85,7 83,2 10,3 14,3 16,8 11,4 20,6 21,8 49,0 50,2 52,3 14,0 10,0 10,6 13,3 10,8 8,6 12,3 8,4 6,7 Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Trabalho e Rendimento, Pesquisa Mensal de Emprego. 5.4.7. Taxa de Desocupação Em agosto de 2006, a taxa de desocupação foi estimada em 10,6% para o agregado das seis áreas abrangidas pela pesquisa, mantendo-se estável em relação a julho de 2006 (10,7%). Em relação ao mesmo mês do ano passado, quando a taxa situou-se em 9,4%, o quadro foi de alta de 1,2 pontos percentuais. 5.4.8. Rendimento Médio Real A pesquisa estimou, para o agregado das seis regiões, o rendimento médio real habitualmente recebido pelos trabalhadores nas seis regiões metropolitanas em R$ 1.036,20, apresentando aumento de 0,7% em relação a julho último. Na comparação com agosto de 2005 o quadro também foi de recuperação (3,5%). Para o total das seis regiões, o rendimento dos empregados com carteira de trabalho assinada no setor privado, estimado em R$ 1.047,70 apresentou recuperação de 2,8% em relação a agosto de 2005. Para o total das seis áreas, na categoria dos empregados sem carteira de trabalho assinada no setor privado, o rendimento apresentou recuperação de 5,3%, passando de R$ 661,92 para R$ 697,20. 94 Para o total das seis áreas, na categoria dos trabalhadores por conta própria, o rendimento apresentou retração de 0,3%, passando de R$ 794,22 para R$ 791,70. 5.4.9. Análise do Rendimento Médio dos Trabalhadores por Grupamento de Atividade Na comparação com agosto de 2005, verificou-se: • alta no rendimento médio real habitual dos trabalhadores nos seguintes grupamentos de atividade: indústria extrativa, de transformação e distribuição de eletricidade, gás e água (3,6%); comércio, reparação de veículos automotores e de objetos pessoais e domésticos e comércio a varejo de combustíveis (3,7%); serviços prestados à empresa, aluguéis, atividades imobiliárias e intermediação (3,3%); educação, saúde, serviços sociais, administração pública, defesa e seguridade social (3,6%); serviços domésticos (9,9%) e outros serviços (4,6%); queda no rendimento médio real habitual dos trabalhadores no seguinte grupamento de atividade: construção (-1,5%). Na comparação com julho de 2006, verificou-se: • alta no rendimento médio real habitual dos trabalhadores nos seguintes grupamentos de atividade: indústria extrativa, de transformação e distribuição de eletricidade, gás e água (0,7%); comércio, reparação de veículos automotores e de objetos pessoais e domésticos e comércio a varejo de combustíveis e serviços doméstico (4,0%); serviços prestados à empresa, aluguéis, atividades imobiliárias e intermediação (1,5%) e educação, saúde, serviços sociais, administração pública, defesa e seguridade social (0,7%); queda no rendimento médio real habitual dos trabalhadores nos seguintes grupamentos de atividade: construção (-3,8%) e outros serviços (-0,9%); estabilidade no rendimento médio real habitual dos trabalhadores no seguinte grupamento de atividade: serviços domésticos. 5.4.10. População Não Economicamente Ativa (PNEA) 95 A população inativa, não classificada pela pesquisa como ocupada e nem como desocupada, foi estimada, para o total das seis regiões metropolitanas investigadas em agosto de 2006, em 16,8 milhões. Este indicador apresentou estabilidade em ambas as comparações. 5.4.11. Estrutura Pessoa em Idade Ativa – 10 anos ou mais Pessoas Não Economicamente Ativas Pessoas Economicamente Ativas Pessoas Ocupadas (PO) Empregados Conta Própria Empregadores Trabalho não remunerado – trabalho principal Pessoas Desocupadas (PD) PNEA que gostariam de trabalhar PNEA que não gostariam de trabalhar 96 6. SETOR EXTERNO O resultado acumulado do Balanço de Pagamentos entre janeiro e setembro de 2006 registrou superávit de US$ 18,5 bilhões que se comparam com o superávit de US$ 7,1 bilhões do mesmo período de 2005. A Conta Corrente do Balanço de Pagamentos apresentou superávit de US$ 10,1 bilhões, 8% inferior aos US$ 11 bilhões de superávit registrados no mesmo período de 2005. Em termos acumulados em 12 meses o resultado em conta corrente do Balanço de Pagamentos chega a US$ 13,3 bilhões ou 1,5% do PIB (Figura 28). A conta capital e financeira, por sua vez, registrou no acumulado de janeiro a setembro de 2006 vultoso superávit de US$ 9,5 bilhões que se comparam com o déficit de US$ 3,8 bilhões do mesmo período de 2005 (Tabela 35). Tabela 35 – Balanço de Pagamentos (US$ milhões) Jan-Set/2005 e Jan-Set/2006 Balança comercial (FOB) Exportações Importações Serviços e rendas Transf. unilaterais correntes (líquido) Transações correntes Conta capital e financeira Conta capital Conta financeira Investimento direto (líquido) No exterior No país Investimentos em carteira Ativos Passivos Derivativos Outros investimentos Erros e omissões Variação de reservas ( - = aumento) Fonte: Banco Central do Brasil Jan-Set/2005 32.640 86.719 54.079 -24.223 2.599 11.016 -3.813 588 -4.401 9.272 -2.393 11.664 4.348 -1.495 5.843 161 -18.182 -80 -7.123 Jan-Set/2006 33.974 100.712 66.737 -27.053 3.214 10.136 9.543 624 8.919 4.101 -7.805 11.906 2.496 804 1.692 236 2.086 -1.212 -18.467 Var. % 4,1 16,1 23,4 11,7 23,7 -8,0 -350,3 6,2 -302,7 -55,8 226,2 2,1 -42,6 -153,8 -71,0 46,3 -111,5 1.413,9 159,3 97 ¨% PIB US$ milhões 16 000 2,20 15 000 2,00 14 000 1,80 13 000 1,60 12 000 1,40 11 000 US$ m ilhões 1,20 % PIB 10 000 1,00 Set/06 Jul/06 Mai/06 Mar/06 Jan/06 Nov/05 Set/05 Jul/05 Mai/05 Mar/5 Jan/05 Figura 28 – Resultado em Conta Corrente do Balanço de Pagamentos (US$ milhões e % PIB a partir de valores acumulados em 12 meses) Set/2005 - Set/2006. Fonte: Banco Central do Brasil O resultado da conta corrente do Balanço de Pagamentos no período acumulado de janeiro a setembro de 2006 deriva de um superávit comercial de US$ 33,9 bilhões, do déficit de US$ 27 bilhões da balança de rendas e serviços e de transferências unilaterais positivas de US$ 3,2 bilhões. Do ponto de vista dos valores acumulados em 12 meses até setembro de 2006, tem-se um resultado comercial de US$ 46,1 bilhões. A balança de rendas e serviços em termos acumulados em 12 meses registra déficit de US$ 36,9 bilhões. As transferências unilaterais líquidas chegam, na mesma base de agregação, a US$ 4,2 bilhões. Entre janeiro e setembro de 2006 as exportações registraram o valor recorde de US$ 100,7 bilhões, 16,1% superior aos US$ 86,7 bilhões do mesmo período de 2005. As importações apresentam crescimento de 23,4% em relação aos valores acumulados nos primeiros nove meses de 2006 em comparação com o valor do mesmo período de 2005, os quais foram, respectivamente, US$ 54 bilhões e US$ 66 bilhões. Em relação aos valores acumulados em 12 meses, a Figura 29 indica que as taxas de crescimento das exportações perdem vigor a partir do final do primeiro trimestre de 2006 ao passo que as importações, sempre em valor, ganham dinamismo apresentando, ao final do período uma taxa de variação superior à das exportações. . 98 27,0 Exports (t/t-12 - %) Im ports (t/t-12 - %) 25,0 23,0 21,0 19,0 17,0 15,0 s et05 Out Nov Dez Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago s et06 * Figura 29 – Taxa de variação das exportações e das importações (t/t-12 - % a partir de valores acumulados em 12 meses) Set/2005 – Set/2006 Fonte: Banco Central do Brasil O déficit acumulado de janeiro a setembro da balança de rendas e serviços, no valor de US$ 27 bilhões é resultado de um fluxo líquido de despesas em serviços no total de US$ 6,9 bilhões e de pagamentos líquidos de rendas de fatores no total de US$ 20 bilhões. Como mostra a Tabela 36, a conta de serviços tem parte representativa do seu déficit na rubrica de aluguel de equipamentos, contudo as rubricas com maior crescimento nos fluxos líquidos de despesas são os pagamentos por serviços de transportes, associados ao dinamismo do comércio exterior brasileiro e as despesas líquidas de viagens internacionais derivadas da apreciação da taxa nominal de câmbio. Tabela 36 – Balança de Serviços (US$ milhões) Jan-Set/2005 e Jan-Set/2006 Total Transportes Viagens Seguros Financeiros Computação e informações Royalties e licenças Aluguel de equipamentos Serviços governamentais Outros serviços Fonte: Banco Central do Brasil Jan-Set/2005 -5.696 -1.318 -625 -430 -124 -1.204 -879 -2.854 -402 2.140 Jan-Set/2006 -6.985 -2.113 -1.008 -412 -22 -1.496 -1.154 -3.502 -303 3.025 Var. % 22,6 60,3 61,2 -4,1 -82,5 24,3 31,3 22,7 -24,5 41,4 99 Com relação à balança de rendas, o déficit de US$ 20 bilhões encontra-se quase que igualmente distribuído entre os fluxos de investimentos em carteira e os fluxos do investimento direto, conforme indica a Tabela 37. Contudo, os pagamentos líquidos de rendas de investimento direto, seja de lucros e dividendos, seja de juros sobre empréstimos intercompanhia, mostram maior dinamismo. Tabela 37 – Balança de Rendas (US$ milhões) Jan-Set/2005 e Jan-Set/2006 Total de rendas Salários e ordenados Renda de investimentos Renda investimento direto Lucros e dividendos Juros de emp. intercias Renda investimento em carteira Lucros e dividendos Juros de dívida (renda fixa) Renda de outros investimentos Jan-Set/2005 -18.527 170 -18.697 -6.621 -5.859 -762 -8.921 -2.670 -6.251 -3.155 Jan-Set/2006 -20.068 148 -20.216 -8.558 -7.571 -987 -9.046 -4.037 -5.009 -2.612 Var. % 8,3 -12,6 8,1 29,3 29,2 29,5 1,4 51,2 -19,9 -17,2 Fonte: Banco Central do Brasil O superávit acumulado entre janeiro e setembro de 2006 da conta capital e financeira no valor de US$ 9,5 bilhões está fundamentalmente associado à reversão do déficit de US$ 18,2 bilhões da rubrica outros investimentos registrado no mesmo período de 2005 para um superávit de US$ 2,1 bilhões. Contudo, a rubrica que responde pela maior parcela do superávit registrado até setembro de 2006 é a de investimentos diretos estrangeiros (Tabela 35). O vultoso superávit do Balanço de Pagamentos no montante de US$ 18,5 bilhões acumulado até setembro de 2006 resultou em expansão do estoque de reservas internacionais. Conforme mostra a Figura 30, o estoque de reservas internacionais de setembro de 2006 alcançou o maior valor desde pelo menos janeiro de 2005. Em 17 de outubro o estoque de reservas chegou a US$ 75 bilhões, o maior valor da série histórica do Banco Central iniciada em 1970. 100 80.000 73 393 70.000 57 008 60.000 50.000 40.000 30.000 20.000 10.000 0 Set/06 Jul/06 Mai/06 Mar/06 Jan/06 Nov/05 Set/05 Jul/05 Mai/05 Mar/5 Jan/05 Figura 30 – Estoque de Reservas Internacionais (US$ milhões) Jan/2005-Set/2006 Fonte: Banco Central do Brasil O estoque da dívida externa total bruta mostra-se decrescente desde a implementação da flutuação da taxa nominal de câmbio em janeiro de 1999, conforme mostra a Figura 31. Contudo, a política de resgates de passivos externos públicos, a começar pelo pagamento dos estoques de dívida junto ao FMI, acabou por reduzir de maneira pronunciada o estoque de dívida externa pública de médio e longo prazo tornando-o inferior ao estoque de reservas internacionais, redundando em ativos públicos externos líquidos de médio e longo prazo. A Figura 31 mostra a trajetória descendente do estoque de dívida externa pública de médio e longo prazo. 101 Taxa nominal de câmbio (R$/US$) Taxa de câmbio - R$ / US$ - comercial - venda Dívida externa - US$(milhões) 4,000 Dívida EXterna Total Bruta (US$ milhões) 250.000 3,500 3,000 2,500 200.000 2,000 1,500 1,000 0,500 150.000 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 Figura 31 – Dívida Externa Total Bruta (US$ Milhões) e Taxa Nominal de Câmbio (Com. Venda Fim de Período – R$/US$, média anual) 1994-2005 Fonte: Banco Central do Brasil 140.000,00 120.000,00 119.565 100.000,00 80.000,00 114.044 114.900 104.148 82.641 74.892 60.000,00 40.000,00 20.000,00 0,00 2004 2004 2004 2004 2005 2005 2005 2005 2006 2006 2006 T1 T2 T3 T4 T1 T2 T3 T4 T1 T2 T3 Figura 32 – Dívida Externa Pública de Médio e Longo Prazo (US$ Milhões) T1/04-T3/06 Fonte: Banco Central do Brasil 6.1. Taxa de Câmbio A taxa nominal de câmbio apresentou uma trajetória condizente com o ambiente de ampla liquidez internacional e com os vultosos superávits comerciais, não traduzindo, contudo, a queda dos diferenciais de juros entre o Brasil e o resto de mundo. Dessa forma, entre o início do 2006 e fins de setembro a taxa nominal de câmbio apresenta valorização de 102 1,8% (comparando-se as pontas do período).Em termos acumulados em 12 meses a taxa nominal de câmbio apresenta valorização de 3,75% (Figura 33). Taxa Nominal de Câmbio (R$/US$) Taxa Nominal de Câm bio (R$/US$) Var. % acum. 12 mes es Var. % Acum. 12 meses 2,350 0,00 -2,00 -4,00 -6,00 -8,00 -10,00 -12,00 -14,00 -16,00 -18,00 -20,00 2,300 2,250 2,200 2,150 2,100 2,050 2,000 jan/06 fev/06 m ar/06 abr/06 mai/06 jun/06 jul/06 ago/06 s et/06 Figura 33 – Taxa Nominal de Câmbio (Comercial venda fim de período – % acum. em 12 meses) Jan/2006-Set/2006 Fonte: Banco Central do Brasil 103 7. CENÁRIO ECONÔMICO INTERNACIONAL Paulo Rogério Scarano 7.1. Panorama Geral Projeções do FMI23, que apontavam um cenário otimista, com um crescimento de 5,1% para economia mundial e de 8,9% para o comércio mundial de bens e serviços em 2006, vêm sendo mantidas. A inflação global permanece relativamente controlada, a despeito da evolução dos preços das commodities, especialmente aquelas relacionadas à energia e aos metais, que são insumos industriais básicos e pressionam os custos das empresas. Para evitar os riscos inflacionários, as taxas básicas de juros das principais economias elevaram-se ao longo de 2006. Os desequilíbrios internacionais prosseguem: países como a China, além dos grandes exportadores de petróleo mantém elevados superávits comerciais, enquanto os Estados Unidos, apesar do aumento das exportações, permanecem com um elevado déficit em transações correntes (mais de US$431bi apenas no primeiro semestre), que gera questionamentos quanto ao custo futuro de seu financiamento. Por outro lado, uma das preocupações em relação aos Estados Unidos dizia respeito ao aquecimento do mercado imobiliário. Contudo, o primeiro semestre de 2006 apontou para uma desaceleração no ritmo de vendas e da evolução dos preços dos imóveis. Assim, se por um lado permanece a expectativa de crescimento da economia e do comércio mundial, ainda que mais moderadamente, por outro lado os principais riscos são aqueles relacionados: • aos persistentes desequilíbrios em conta corrente entre países deficitários e superavitários e a forma pela qual se processará o ajuste; • aos impactos inflacionários da elevação de commodities como petróleo e metais; • aos efeitos de juros eventualmente mais elevados sobre os investimentos nas diferentes nações, a redistribuição dos fluxos financeiros internacionais e o consumo na endividada economia dos Estados Unidos, que é maior importador mundial. Contudo, até o momento, a tendência tem sido pelo ajuste lento, gradual e seguro. 23 IMF, World Economic Outlook. Washington, D. C.: The Fund, sep. 2006. 104 Por fim, complementa esta edição do Boletim NACE, em sua análise da conjuntura econômica internacional, uma nova seção que visa o acompanhamento dos principais lances das relações internacionais do Brasil, com a colaboração de Lucas Scarapicchia e Mateus Scarapicchia. 7.1. Commodities Entre janeiro de 2005 e janeiro de 2006 o mercado de commodities esteve bastante aquecido, como revela a elevação de 24,80% do índice Reuters/Jefferies CRB, no período, mantido pelo Commoditie Research Bureau (CRB). Em julho de 2006, tal índice chegou a atingir seu máximo (321,68), uma alta de 28,21% em relação a janeiro de 2005. Vale ressaltar, contudo que em agosto e setembro o índice caiu respectivamente para 303,86 e 283,32, acompanhando a queda do subíndice de energia, também calculado pelo CRB. 200 180 160 140 120 100 80 60 40 20 Baseado no Índice RJ/CRB se t/0 6 ag o/ 06 ju l/ 0 6 ju n/ 06 ai /0 6 m ab r/0 6 m ar /0 6 fe v/ 06 ja n/ 06 de z/ 05 ou t/0 5 no v/ 05 se t/0 5 ag o/ 05 ju l/ 0 5 ju n/ 05 ai /0 5 m ab r/0 5 m ar /0 5 fe v/ 05 ja n/ 05 0 Baseado em Reuters-CRB Sub-Índice - Energia Figura 34 - Evolução dos Preços das Commodities (jan 2005 = 100) Fonte: Commodity Research Bureau O petróleo vem se mantendo em um patamar elevado, em função da associação entre o crescimento da economia, os conflitos no Oriente Médio e as tensões nas diversas 105 regiões produtoras (da Venezuela à Nigéria). O barril do produto, do tipo Brent, chegou a US$ 78,26 em de agosto de 2006, patamar que foi se reduzindo até o final de setembro, quando chegou a US$ 59,09. Ainda, assim, acumula alta de 43,64% em relação a janeiro de 2005, um preço próximo ao praticado em janeiro de 2006, ressalvadas as oscilações ao longo do ano. Commodities - petróleo e derivados - preço - índice (jan. 2005 = 100) 180 160 140 120 100 80 60 40 20 se t /0 6 ag o/ 06 ju l/0 6 ju n/ 06 ab r/0 6 m ai /0 6 m ar /0 6 fe v/ 06 ja n/ 06 de z/ 05 ou t/ 0 5 no v/ 05 se t /0 5 ag o/ 05 ju l/0 5 ju n/ 05 ab r/0 5 m ai /0 5 m ar /0 5 fe v/ 05 ja n/ 05 0 Figura 35 - Evolução dos Preços do Petróleo Fonte: IPEADATA 7.2. Economia dos Estados Unidos Tabela 38 - Balança Comercial Brasil – EUA Valores acumulados entre janeiro e setembro de 2006. Parceiro comercial do Brasil Exportações brasileiras para esse parceiro, em 2006 (US$) Porcentagem das exportações brasileira, em 2006 Importações brasileiras desse parceiro, em 2006 (US$) Porcentagem das importações brasileiras, em 2006 Estados Unidos 18.315.671.872 18,19% 10.711.084.221 Fonte: SECEX/Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior 16,06% Saldo da Balança Comercial brasileira em relação a esse parceiro, em 2006 (US$) 7.604.587.651 106 A economia norte-americana, como é possível observar na tabela acima foi responsável por 18,19% das exportações e 16,06% das importações brasileiras, entre janeiro e setembro de 2006. Trata-se, individualmente, do principal parceiro comercial brasileiro. Nesse sentido, é importante observar o comportamento de suas principais variáveis macroeconômicas, ao longo de 2006. 6,0 5,6 5,0 4,2 4,0 3,4 3,3 3,0 2,6 2,0 1,8 1,0 0,0 1º Trim 2005 2º Trim 2005 3º Trim 2005 4º Trim 2005 1º Trim 2006 2º Trim 2006 Figura 36 - Taxas anualizadas de variação percentual do PIB em relação ao período anterior (com ajuste sazonal) Fonte: Bureau of Economic Analysis Os Estados Unidos apresentaram um crescimento real do PIB de 3,5% em 2005. Os dados de 2006 também apontam crescimento. As taxas anualizadas, com ajuste sazonal, comparadas com o ano anterior mostram um crescimento de 5,6% no primeiro trimestre de 2006 e de 2,6% no segundo trimestre. As principais razões para tal variação são: a redução do consumo pessoal e dos investimentos privados, estes últimos puxados pela queda dos investimentos residenciais. Nesse sentido, vale observar na figura abaixo a queda de 11% no número de imóveis novos vendidos no segundo trimestre de 2006, em relação ao segundo trimestre de 2005. 107 EUA: imóveis novos vendidos (em milhares) 400 351 350 329 328 314 298 300 293 326 313 292 277 268 256 285 239 250 200 150 100 50 1º Trim 2003 2º Trim 2003 3º Trim 2003 4º Trim 2003 1º Trim 2004 2º Trim 2004 3º Trim 2004 4º Trim 2004 1º Trim 2005 2º Trim 2005 3º Trim 2005 4º Trim 2005 1º Trim 2006 2º Trim 2006 Figura 37 - EUA: Imóveis novos vendidos por trimestre (em milhares) Fonte: US Bureau of Economic Analysis Também em relação à evolução dos preços dos imóveis, percebe-se uma desaceleração em sua variação, como se pode notar abaixo. 4,00% 3,50% 3,00% 2,50% 2,00% 1,50% 1,00% 0,50% 0,00% 1º Trim 2005 2º Trim 2005 3º Trim 2005 4º Trim 2005 1º Trim 2006 2º Trim 2006 Figura 38 - Apreciação trimestral do preço dos imóveis nos EUA Fonte: Office of Housing Enterprise Oversight 108 Por outro lado, observando-se a trajetória da inflação e a resposta da taxa de juros nos EUA, percebe-se uma que o IPC anual ficou em 4,01%, quando confrontados o 2º trimestre de 2006 e o 2º trimestre de 2005. Inflação em relação ao mesmo trimestre do ano anterior 4,50% 4,01% 4,00% 3,83% 3,74% 3,65% 3,50% 3,04% 3,00% 2,95% 2,50% 2,00% 1,50% 1,00% 0,50% 0,00% 1º Trim 2005 2º Trim 2005 3º Trim 2005 4º Trim 2005 1º Trim 2006 2º Trim 2006 Figura 39 - EUA: Inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor, em relação ao mesmo trimestre do ano anterior Fonte: IPEADATA Em abril o IPC registrou alta de 0,85%, a maior taxa mensal de inflação de 2006, que, se anualizada, apontaria para uma inflação de 10,7% a.a. Nesse sentido, como mostra a figura abaixo, os juros básicos nos EUA subiram 25 pontos base por reunião do Federal Open Market Committee (FOMC) desde junho de 2004 até junho de 2006, quando estacionaram em 5,25% ao ano, patamar mantido na reunião de 25 de outubro de 2006. A despeito da ausência de novas altas dos juros básicos norte-americanos nas três últimas reuniões do FOMC, não se pode dizer que a inflação não preocupa mais. Se por um lado a velocidade do crescimento tenha se reduzido no 2º trimestre e haja certo alívio nos custos da energia, por outro lado, pressões no core da inflação, o alto nível de utilização da capacidade instalada e ausência de unanimidade nas votações do FOMC indicam que futuras elevações não podem ser totalmente descartadas. 109 6 5 4 3 2 1 01 /0 1 31 /20 /0 04 1/ 01 20 /0 04 3 31 /20 /0 04 3/ 30 20 /0 04 4 30 /20 /0 04 5 29 /20 /0 04 6/ 29 20 /0 04 7 28 /20 /0 04 8/ 27 20 /0 04 9 27 /20 /1 04 0 26 /20 /1 04 1 26 /20 /1 04 2 25 /20 /0 04 1 24 /20 /0 05 2 26 /20 /0 05 3 25 /20 /0 05 4 25 /20 /0 05 5 24 /20 /0 05 6 24 /20 /0 05 7 23 /20 /0 05 8 22 /20 /0 05 9/ 22 20 /1 05 0 21 /20 /1 05 1 21 /20 /1 05 2 20 /20 /0 05 1 19 /20 /0 06 2 21 /20 /0 06 3 20 /20 /0 06 4 20 /20 /0 06 5 19 /20 /0 06 6 19 /20 /0 06 7 18 /20 /0 06 8/ 17 20 /0 06 9 17 /20 /1 06 0/ 20 06 0 Figura 40 - Evolução da taxa básica de juros norte-americana Fonte: Federal Reserve Um outro ponto de preocupação em relação à economia dos EUA são os déficits gêmeos, como ilustram os gráficos abaixo. Apesar de algum alívio, o déficit orçamentário norte-americano fechou o segundo trimestre de 2006 em US$ 268,8 bi, uma redução de cerca de 9% em relação ao trimestre anterior. Tal redução se deve a um crescimento mais rápido das receitas do governo do que das despesas. 110 2005-I 2005-II 2005-III 2005-IV 2006-I 2006-II 0 -100 -200 -268.8 -300 -294.8 -400 -425.1 -423.3 -431.5 -500 -545.3 -600 Figura 41 - EUA: Déficit orçamentário (US$ bi) Fonte: Bureau of Economic Analysis Já o déficit em transações atingiu US$ 218,41 bi no segundo trimestre de 2006. Apesar das exportações de bens e serviços terem crescido (5,3%), em termos relativos, mais rapidamente do que as importações de bens e serviços (4,4%), seus valores absolutos foram os grandes responsáveis para o crescimento do déficit entre o 1º trimestre e o 2º trimestre de 2006. 111 1º Trim 2005 2º Trim 2005 -191,724 -193,258 3º Trim 2005 4º Trim 2005 1º Trim 2006 2º Trim 2006 0 -50,000 -100,000 -150,000 -183,415 -200,000 -213,198 -223,109 -218,410 -250,000 Figura 42 - EUA: Déficit em Transações Correntes, trimestral, ajustado sazonalmente (em US$ bi) Fonte: Bureau of Economic Analysis Já o Dólar, ao longo de 2006, oscilou entre US$1,186 e 1,2953 por Euro. US$/Euro 1.32 1.3 1.28 1.26 1.24 1.22 1.2 1.18 1.16 1.14 2/ ja 10 n/ 0 /ja 6 18 n /0 /ja 6 26 n /0 /ja 6 3- n /0 Fe 6 13 b -F 06 21 eb -F 06 e 1/ b -0 m 6 a 9/ r/0 m 6 17 ar/0 /m 6 27 ar / /m 06 a 4- r /06 Ap 12 r-A 06 20 pr -0 -A 6 28 pr -A 06 p 8- r -0 M 6 16 a y- M 06 24 ay-M 06 ay 1 / -0 6 ju n 9 / / 06 ju n 19 / 0 /ju 6 27 n /0 /ju 6 n/ 5/ 06 ju 13 l/06 /ju 21 l/0 6 /ju 31 l/0 6 /ju 8- l/0 Au 6 16 g-A 06 24 ug-A 06 u 1- g-0 Se 6 11 p-S 06 19 ep-S 06 27 ep-S 06 ep 5- -06 O 13 ct- 0 -O 6 ct -0 6 1.12 Figura 43 - A Relação Dólar/Euro Fonte: Federal Reserve 112 7.3. Economia da União Européia Tabela 39 - Balança Comercial Brasil – União Européia Valores acumulados entre janeiro e setembro de 2006. Parceiro comercial do Brasil Exportações brasileiras para esse parceiro, em 2006 (US$) Porcentagem das exportações brasileira, em 2006 Importações brasileiras desse parceiro, em 2006 (US$) Porcentagem das importações brasileiras, em 2006 União Européia 22.065.443.931 21,91% 14.956.320.277 22,42% Fonte: SECEX/Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Saldo da Balança Comercial brasileira em relação a esse parceiro, em 2006 (US$) 7.109.123.654 A União Européia representou o destino de 21,91% das exportações brasileiras e a origem de 22,42% das importações brasileiras, entre janeiro e setembro de 2006. O PIB cresceu 0,8% no primeiro trimestre de 2006 e 0,9% no segundo trimestre, em termos reais. As projeções do FMI apontam para um crescimento real de 2,8%, em 2006. 1 0.9 0.8 0.7 0.6 0.5 0.4 0.3 0.2 2º Trim 2006 1º Trim 2006 4º Trim 2005 3º Trim 2005 2º Trim 2005 1º Trim 2005 4º Trim 2004 3º Trim 2004 2º Trim 2004 1º Trim 2004 4º Trim 2003 0 3º Trim 2003 0.1 Figura 44 - União Européia: variação percentual do PIB real em relação ao trimestre anterior (dados sazonalizados) Fonte: EUROESTAT. 113 2º Trim 2006 1º Trim 2006 4º Trim 2005 3º Trim 2005 2º Trim 2005 1º Trim 2005 4º Trim 2004 3º Trim 2004 2º Trim 2004 1º Trim 2004 4º Trim 2003 3º Trim 2003 EU (25 countries) 10000 5000 0 -5000 -10000 -15000 -20000 -25000 -30000 -35000 -40000 Figura 45 - União Européia: saldo em Transações Correntes (milhões de Euros) Fonte: EUROESTAT. A inflação medida pelo índice de preços ao consumidor mostrou tendência à redução, 1.7 2.3 2.5 2.4 2.5 2.5 2.2 2.3 2.4 2.5 2.3 2.2 2.2 2.2 2.1 2 2.1 2.1 2.1 se t/ 0 6 ju l/0 6 ai /0 6 m ja n/ 06 m ar /0 6 no v/ 05 se t/ 0 5 ju l/0 5 ai /0 5 m ja n/ 05 m ar /0 5 % 1.9 2.6 em setembro de 2006. Anualizado, nesta data, apontava para uma inflação de 1,7%. Figura 46 - Evolução do IPC (índice anualizado) na União Européia Fonte: European Central Bank. 114 Associadas a este movimento estão as elevações das taxas mínimas de juros para operações de refinanciamento, que chegaram a 3,25% em outubro de 200624. União Européia: taxa de juro para operações de refinanciamento 5 4.5 4 3.5 3 2.5 2 1.5 1 0.5 28/6/2006 28/8/2006 28/2/2006 28/4/2006 28/10/2005 28/12/2005 28/6/2005 28/8/2005 28/2/2005 28/4/2005 28/10/2004 28/12/2004 28/6/2004 28/8/2004 28/2/2004 28/4/2004 28/10/2003 28/12/2003 28/6/2003 28/8/2003 28/2/2003 28/4/2003 28/10/2002 28/12/2002 28/6/2002 28/8/2002 28/2/2002 28/4/2002 28/10/2001 28/12/2001 28/6/2001 28/8/2001 28/2/2001 28/4/2001 28/10/2000 28/12/2000 28/6/2000 28/8/2000 0 Figura 47 - Evolução da Taxa de Juro para Operações de Refinanciamento do Banco Central Europeu Fonte: European Central Bank. Nota: A taxa de juro para operações de refinanciamento é a responsável pela maior parte da liquidez do sistema bancário europeu. Por sua vez, o desemprego na União Européia, cuja taxa média foi de 9,1% em 2004 e 8,7% em 2005, vem apresentando ligeira tendência de baixa, tendo atingido e mantido a média de 8% entre junho e agosto de 2006. Este movimento está associado ao melhor desempenho econômico do bloco esperado para o ano corrente. 24 Em 06 de dezembro de 2005, o Governing Council of the European Central Bank elevou a taxa de 2% para operações de refinanciamento, que vigorava desde junho de 2003, para 2,25%. Nas reuniões de 08/03/2006, 15/06/2006, 09/08/2006 e 11/10/2006, as taxas mínimas para operações de refinanciamento aumentaram sucessivamente para 2,5%, 2,75%, 3% e 3,25%. 115 8.7 Taxa de desemprego 8.6 8.5 8.4 8.3 8.2 8.1 8 7.9 7.8 ag o/ 06 ju l/0 6 ju n/ 06 ai /0 6 m ab r/0 6 fe v/ 06 m ar /0 6 ja n/ 06 no v/ 05 de z/ 05 ou t/0 5 7.7 Figura 48 - Desemprego na União Européia (25 países) Fonte: EUROSTAT 7.4. Economia da Argentina Tabela 40 - Balança Comercial Brasil – Argentina Valores acumulados entre janeiro e setembro de 2006. Exportações Porcentagem Parceiro brasileiras para das exportações comercial do esse parceiro, em brasileira, em Brasil 2006 (US$) 2006 Importações brasileiras desse parceiro, em 2006 (US$) Porcentagem das importações brasileiras, em 2006 Argentina 8.623.264.698 8,56% 5.703.038.261 8,55% Fonte: SECEX/Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Saldo da Balança Comercial brasileira em relação a esse parceiro, em 2006 (US$) 2.920.226.437 Em 2005, a Argentina foi o destino de 8,56% das exportações e a origem de 8,55% das importações brasileiras, entre janeiro e setembro de 2006. O país vizinho vem apresentando taxas de crescimento real do PIB vigorosas: 8,8% em 2003, 9% em 2004 e 9,2% em 2005 e já no primeiro trimestre de 2006 cresceu 6,46% em relação ao 4º trimestre de 2005, mantendo um crescimento de 6,02% no 2º trimestre de 2006, em relação ao trimestre anterior. 116 PIB a preços constantes - Variação em relação ao mesmo trimestre do ano anterior 7.00% 6.00% 5.00% 4.00% 3.00% 2.00% 1.00% 1º Trim 2006 4º Trim 2005 3º Trim 2005 2º Trim 2005 1º Trim 2005 2º Trim 2006 0.00% Figura 49 - Argentina: Evolução do PIB Fonte: CEPAL. Um fator que ainda causa preocupações à Argentina é a inflação, embora seu ritmo venha desacelerando, fruto de um maior controle fiscal. Nesse sentido, enquanto no primeiro semestre de 2005 o IPC já registrava uma alta de 6,13%, no primeiro semestre de 2006. Essa alta foi menor, assinalando 4,9%. Argentina: evolução do IPC (jan 2004=100) 130 125 120 115 110 105 Figura 50 - Argentina: Taxa de Inflação (IPC) Fonte: INDEC jul/06 jun/06 mai/06 abr/06 mar/06 fev/06 jan/06 dez/05 nov/05 out/05 set/05 ago/05 jul/05 jun/05 mai/05 abr/05 mar/05 jan/05 95 fev/05 100 117 Por outro lado, o desemprego vem sendo reduzido, nesse ambiente de recuperação econômica argentina, tendo declinado de 14,4% no primeiro trimestre de 2004 para 10,4% no segundo trimestre de 2006, como mostra a ilustração abaixo. 10.4 11.4 12.1 2º Trim 2005 10.1 13 1º Trim 2005 12 11.1 12.1 4º Trim 2004 14.8 2º Trim 2004 14 13.2 14.4 16 1º Trim 2004 Argentina: desemprego em áreas urbanas (nova série) 10 8 6 4 2º Trim 2006 1º Trim 2006 4º Trim 2005 3º Trim 2005 0 3º Trim 2004 2 Figura 51 - Argentina: Desemprego (28 aglomerados urbanos) Fonte: INDEC 7.5. Economia da China Tabela 41 - Balança Comercial Brasil – China Valores acumulados entre janeiro e setembro de 2006. Parceiro comercial do Brasil Exportações Porcentagem brasileiras para das exportações esse parceiro, em brasileira, em 2006 (US$) 2006 Importações brasileiras desse parceiro, em 2006 (US$) Porcentagem das importações brasileiras, em 2006 China 6.416.331.892 6,37% 5.612.562.684 8,41% Fonte: SECEX/Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Saldo da Balança Comercial brasileira em relação a esse parceiro, em 2006 (US$) 803.769.208 A economia chinesa representou o destino de 6,37% das exportações e a origem de 8,41% das importações brasileiras, entre janeiro e setembro de 2006. Seu PIB vem apresentando crescimento real anual médio acima dos 9%, desde o início dos anos 80. A tabela abaixo mostra a variação do PIB chinês, por trimestre, em relação ao mesmo período 118 do ano anterior. Observa-se que no primeiro trimestre a economia chinesa havia crescido 10,2%, em relação ao ano anterior e, no segundo trimestre, 10,9%. 10.9 10.2 % 9.9 2º Trim 2006 1º Trim 2006 4º Trim 2005 9.4 3º Trim 2005 9.5 2º Trim 2005 1º Trim 2005 9.4 Figura 52 - China: Variação do PIB em relação ao mesmo trimestre do ano anterior Fonte: National Bureau of Statistcs of China. A evolução do PIB chinês vem ocorrendo, desde 2005, sem pressões inflacionárias, como mostra a figura abaixo. No segundo trimestre de 2006, o IPC havia registrado alta de apenas 1,36%, em relação ao mesmo período do ano anterior, valor apenas ligeiramente superior à mesma relação no primeiro trimestre de 2006. 119 6,00 5,27 5,00 4,39 2,83 2,76 1,73 2,00 1,33 1,37 4º Trim 2005 3,00 3,56 3º Trim 2005 % 4,00 1,20 1,37 1,00 2º Trim 2006 1º Trim 2006 2º Trim 2005 1º Trim 2005 4º Trim 2004 3º Trim 2004 2º Trim 2004 1º Trim 2004 0,00 Figura 53 - China: evolução do IPC Fonte: National Bureau of Statistcs of China. No entanto, a evolução dos preços das commodities e a apreensão em relação aos desequilíbrios globais, vêm tornando oscilantes as expectativas dos empreendedores na China. O índice de confiança do empreendedor, medido pelo National Bureau of Statistcs of China, que estava em 125,40 no quarto trimestre de 2005 avançou para 133,1 no primeiro trimestre de 2006, recuando ligeiramente para 132,5 no segundo trimestre de 2006. Na figura abaixo, o índice de confiança do empreendedor é desagregado por setor. Tabela 42 - China: Índice de Confiança dos Empreendedores 1º trim 2006 2º trim 2006 Geral 133,1 132,5 Indústria Construção 131,4 132,4 132,3 130,9 Transporte, Armazenamento e Telecomunicações 133,8 123,5 Comércio e Serviços 137,2 134,9 Imóveis 134,7 132,7 Serviços Sociais 133,9 135,3 Tecnologia 155,8 149,7 Hotelaria e Alimentação 127,8 126,9 Fonte: National Bureau of Statistcs of China 120 O Yuan, após a flexibilização cambial em julho de 2005, vem se valorizando nominalmente de maneira muito cautelosa, sendo que a relação caiu de 8,2765 Yuan/US$, em junho de 2005, para 7,9908 Yuan/US$, em julho de 2006, quebrando a barreira psicológica dos 8 Yuan/US$. 8,3 8,25 8,2 8,15 8,1 8,05 8 7,95 7,9 jul/06 jun/06 mai/06 abr/06 mar/06 fev/06 jan/06 dez/05 nov/05 out/05 set/05 ago/05 jul/05 jun/05 mai/05 abr/05 mar/05 jan/05 7,8 fev/05 7,85 Figura 54 - China: Yuan/US$ Fonte: IPEADATA 7.6. Economia do Japão Tabela 43 - Balança Comercial Brasil – Japão Valores acumulados entre janeiro e setembro de 2006. Parceiro comercial do Brasil Exportações Porcentagem brasileiras para das exportações esse parceiro, em brasileira, em 2006 (US$) 2006 Importações brasileiras desse parceiro, em 2006 (US$) Porcentagem das importações brasileiras, em 2006 Japão 2.862.261.090 2,84% 2.905.972.684 Fonte: SECEX/Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. 4,36% Saldo da Balança Comercial brasileira em relação a esse parceiro, em 2006 (US$) -43.711.594 A economia japonesa foi o destino de 2,84% das exportações e a origem de 4,36% das importações brasileiras, entre janeiro e setembro de 2006. O Japão vem superando a estagnação dos anos 90. Em 2005, a economia japonesa cresceu 3,2%. Já no primeiro trimestre de 2006, o crescimento real em relação ao mesmo período do ano anterior foi de 121 3,62% e no segundo trimestre de 2,47%. Os fatores que mais contribuíram para o crescimento do PIB japonês foram: o consumo das famílias e os investimentos privados não residenciais. Assim, estimativas do FMI apontam para um crescimento de 2,7% do PIB real japonês em 2.47% 3.62% 2º 1º tri m 20 03 tri m 20 3º 03 tri m 20 4º 03 tri m 20 1º 03 tri m 20 2º 04 tri m 20 3º 04 tri m 20 4º 04 tri m 20 1º 04 tri m 20 2º 05 tri m 20 3º 05 tri m 20 4º 05 tri m 20 1º 05 tri m 20 2º 06 tri m 20 06 0.35% 1.36% 2.78% 2.60% 2.40% 2.16% 1.50% 1.67% 1.76% 2.80% 3.70% 3.82% 2006. Figura 55 - Japão: Variação do PIB Real (taxa trimestral anualizada e variação real em relação ao mesmo período do ano anterior) Fonte: Statistics Bureau & Statistical Research and Training Institute. A taxa de desemprego no Japão caiu de 4,5% em janeiro de 2005 para 4,2% em junho de 2006, sendo que os salários cresceram cerca de 5% no período. A figura abaixo mostra os movimentos mensais da taxa de desemprego e da variação dos salários. 122 6 5 4 3 2 1 jun/06 mai/06 abr/06 mar/06 fev/06 jan/06 dez/05 nov/05 out/05 set/05 ago/05 jul/05 jun/05 mai/05 abr/05 mar/05 -2 fev/05 -1 jan/05 0 -3 -4 Japão - taxa de desemprego - força de trabalho Japão - salário - var. anual Figura 56 - Japão: Taxa de Desemprego (Jan. 2005 a Mar. 2006) Fonte: IPEADATA. Assim, diante do crescimento econômico japonês e da ligeira redução do desemprego, os dados do IPC dos primeiros meses de 2006 parecem confirmar o fim do período deflacionário, como mostra a figura abaixo. Japão - preços ao consumidor - var. anual 3 2,5 2 1,5 1 0,5 0 ai /0 6 m ar /0 6 m ja n/ 06 no v/ 05 se t/0 5 ju l /0 5 ai /0 5 m ar /0 5 -1 m ja n/ 05 -0,5 123 Figura 57 - Japão: Taxa Mensal de Variação dos Preços ao Consumidor (Jan. 2005 a Mar. 2006) Fonte: IPEADATA. 7.7. O Brasil e as Relações Internacionais Lucas Scarapicchia Matheus Scarapicchia 7.7.1. O Caso da Nacionalização do Petróleo Brasileiro pelo Governo Boliviano Em 1º de maio de 2006, o governo boliviano nacionalizou, por meio do Decreto Supremo nº 2870125, as empresas petrolíferas estrangeiras que operassem dentro de seu território, afetando empresas petrolíferas instaladas na Bolívia de países como França, Espanha, Inglaterra, Argentina e Brasil. Na parte preambular do decreto 28701, o presidente boliviano Evo Morales destaca, entre outras coisas, que, de acordo com a Constituição Política do Estado, os hidrocarbonetos são bens nacionais e inalienáveis, sendo, por isso, propriedade pública inviolável. O decreto diz, ainda, que essas riquezas pertencem à nação boliviana e que é vontade de seu Governo nacionalizar e recuperar a propriedade destas riquezas. O presidente acrescentou, também, que o processo de capitalização e privatização dos Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB) significou dano econômico ao Estado e um ato de traição de seus antecessores, uma vez que entregaram a estrangeiros o controle de um setor estratégico para a Bolívia. Finalizada a parte preambular, passa-se a análise do decreto em si. O artigo 1º já menciona o Referéndum Vinculante de 18 de julho de 200426, no qual o povo devendo responder sim ou não, foi submetido à seguinte pergunta: você está de acordo com a retomada da propriedade pelo Estado boliviano dos pontos de extração dos hidrocarbonetos? Naturalmente o povo disse que sim. E, ainda no artigo 1º, o presidente decreta, expressamente, que “o Estado recupera a propriedade, a posse e o controle total e absoluto desses recursos”. 25 Decreto Supremo nº 28701. Disponível em: http://www.comunica.gov.bo/index.php?i=enlace&j=documentos/decretos/DS-28701.html. Acesso em 3 de outubro de 2006. 26 Referendum Vinculante. Disponível em: http://www.cedib.org/pcedib/?module=displaysection§ion_id=145&format=html. Acesso em 3 de outubro de 2006. 124 O artigo 2º determina que as empresas produtoras de gás e petróleo operantes na Bolívia estão obrigadas a entregar suas propriedades e produção à YPFB que, de 1º de maio em diante, assumirá a comercialização, volumes e preços tanto para o mercado interno como para o externo. O artigo 3º impõe que somente as empresas que acatarem integralmente as ordens do decreto poderão continuar operando em solo boliviano. Para tanto, devem obedecer ao prazo de 180 dias a contar da promulgação do decreto para estabelecerem novos contratos que cumpram os requisitos e condições legais e constitucionais. O artigo 4º adentra ao mérito das porcentagens e quantidade de produção nos campos de extração. Assim, o referido artigo explicita que para os campos que, em 2005, tiveram produção superior a 100 milhões de pés cúbicos diários, a produção se distribuirá da seguinte forma: 82% para o Estado, sendo que, destes, 18% de privilégios e participações, 32% de imposto direto aos hidrocarbonetos e outros 32% através de uma participação adicional para YPFB. Com isso, sobrou apenas 18% de participação na produção para as companhias, simplesmente para cobrir custos de operação e mudanças ocorridas com o decreto. O parágrafo 1º do artigo 5º dá a verdadeira dimensão da nacionalização dos recursos naturais e sua produção e beneficiamento junto às empresas. O referido dispositivo determina que “o Estado toma o controle e a direção da produção, transporte, refino, armazenagem, distribuição, comercialização e industrialização dos hidrocarbonetos no país”. O artigo 5º se completa com o 7º, que é explícito ao dizer que “o Estado recupera sua plena participação em toda a cadeia produtiva do setor dos hidrocarbonetos”. O parágrafo 2º do artigo 7º elenca as empresas que terão suas ações nacionalizadas para que os YPFB controlem, no mínimo, 50% mais 1 de suas ações. Entre essas empresas, encontra-se a brasileira Petrobrás-Bolívia Refinación SA. Quanto à posição do Brasil, no dia 1º de maio de 2006, ao receber a notícia, o Palácio do Planalto logo se mobilizou. O Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, e o Presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, vieram a público dar uma satisfação aos contribuintes brasileiros27. Disseram que a situação não ficaria daquele jeito, porque tal atitude do governo da Bolívia configurava motivo suficiente para resultar em quebra de contrato entre os dois países. O Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, mais tarde, veio a confirmar a posição de seu ministro e do presidente da Petrobrás. 27 Notícias do Brasil. Disponível em http://www.presidencia.gov.bo/noticias. Acesso em 3 de outubro de 2006. 125 Nos dias seguintes, foi buscada uma solução diplomática por parte do Brasil para o caso, mas La Paz se mostrou intransigente, argumentando que o decreto nº 28701 apenas regulamentava a vontade popular boliviana. Foi exatamente este o argumento das autoridades bolivianas: ato de soberania de uma nação. Passadas as negociações, no dia 11 de maio de 2006, o Brasil, por meio de José Sergio Gabrielli, do Ministro das Minas e Energia, Silas Rondeau, expressou sua resposta: o comunicado oficial dizia que o governo brasileiro “reitera seu absoluto respeito às decisões soberanas do governo boliviano, manifestadas no Decreto Supremo nº 28701 e que o Brasil se dispunha a negociar novos contratos com a Bolívia”. A despeito desta manifestação, que pode ser interpretada como um gesto de boa vontade, para uma inserção favorável e de menor custo no processo de negociações, cumpre observar que contratos foram violados e, por conta da violação, a Bolívia deveria indenizar o Brasil na quantia acordada, já que foi aquele país que deu causa à ruptura do contrato. Cabe a este Boletim uma breve análise de possíveis desdobramentos, caso as negociações não cheguem a bom termo. O Brasil pode argüir que a atitude do governo boliviano caracterizou a expropriação, ato pelo qual alguém priva o proprietário de um bem de exercer sobre ele seus direitos inerentes. As autoridades bolivianas, ao imporem que, de determinado momento em diante, os YPFB deveriam ficar com 50% mais 1 das ações das empresas, expropriaram o Brasil e outros países de suas propriedades, ou melhor, de suas empresas, já que tiraram delas o poder de decisão, inerente à administração de qualquer empresa. Assim, já que se trata de uma controvérsia jurídica internacional, o Brasil pode iniciar uma ação contra a Bolívia na Corte Internacional de Justiça (CIJ), invocando as alíneas c e d do parágrafo 2º do artigo 36 do Estatuto deste Tribunal. Dispõe o referido dispositivo que: [...] a jurisdição da Corte em todas as controvérsias de ordem jurídica que tenham por objeto: c) a existência de qualquer fato que, se verificado, constituiria violação de um compromisso internacional; d) a natureza ou extensão da reparação devida pela ruptura de um compromisso internacional. 7.7.2. A OMC e o Comércio entre as Nações A Organização Mundial do Comércio (OMC), instituída pelo Acordo de Marraqueche em 1994, vem desempenhando um importantíssimo papel na regulamentação e na solução de controvérsias que surgem do comércio internacional. Desta sua última função, vale dizer que 126 os principais países do mundo, no que tange a comércio, já se utilizaram de seu mecanismo de solução de controvérsias; o Brasil, inclusive. Ilustrativas desse caso são as vitórias brasileiras contra os EUA no caso dos subsídios norte-americanos aos produtores locais de algodão e contra os subsídios da União Européia aos produtores de açúcar do bloco. Assim, nesta seção o Boletim NACE abre espaço para o acompanhamento destes procedimentos nos principais casos em que o Brasil é parte, ou em que figuram como partes os seus mais importantes parceiros comerciais. Começando pelo Brasil como autor do pedido de consultas para a instituição de um painel para a solução de controvérsias, tem-se o caso DS 269, em que figuram como requeridos as Comunidades Européias (CE), no caso Classificação Aduaneira de Cortes Desossados e Congelados de Frango28. O Brasil entrou com pedido de consultas em 11 de outubro de 2002. Neste caso, o Brasil alega que uma nova regulamentação aduaneira das CE dá uma nova descrição aos cortes congelados e desossados de frango, exigindo uma espécie de sal como componente – que não existia antes – e sujeitando esses cortes a uma tarifa maior que aquela aplicada à carne salgada. De acordo com as alegações brasileiras, essa política das CE dá tratamento menos favorável a seus produtos. No dia 30 de maio de 2005, o Painel fez circular sua decisão, que consistia em reconhecer o direito do Brasil, isto é, que a medida imposta pelas CE eram contrárias às obrigações assumidas nos tratados em que é parte e que a nova classificação resultou no aumento de tarifas aduaneiras. Tanto as CE quanto o Brasil apelaram para o Órgão de Apelação questionando as bases jurídicas do Painel. Mas o Órgão de Apelação manteve a decisão do Painel, sendo que em 27 de setembro de 2005 o Órgão de Solução de Controvérsias adotou a decisão do Órgão de Apelação, e as CE terão nove meses para implementar essa decisão. O caso mais recente na OMC em que o Brasil figura como demandado é o DS 332, proposto pelas CE, com o seguinte título: Medidas que Afetam a Importação de Pneus Recauchutados29. Neste caso, as CE alegam que o Brasil impôs diversas medidas que impedem a importação de seus pneus recauchutados. Dentre essas medidas, as CE elencam: praticamente um banimento da importação de pneus recauchutados; aplicação de regras de importação de pneus usados para pneus recauchutados; imposição de multas por unidades importadas, mas não para os produtos internacionais; e isenção de tarifas dos pneus 28 EC – Customs Classification of Frozen Boneless Chicken Cuts. Disponível em http://www.wto.org/english/tratop_e/dispu_e/cases_e/ds269_e.htm. Acesso em 29 de setembro de 2006. 29 Brazil – Measures Affecting Imports of Retreated Tyres. Disponível em http://www.wto.org/english/tratop_e/dispu_e/cases_e/ds332_e.htm. Acesso em 29 de setembro de 2006. 127 recauchutados originários do Mercosul como resultado da representação uruguaia contra o Brasil no Painel do Mercosul. As CE alegam que o Brasil está desrespeitando diversas obrigações assumidas em tratados internacionais e a elas se juntaram diversos países como terceiras partes: Argentina, Japão, Estados Unidos, China e outros. Até a presente data, não há decisão do Painel. Quanto aos principais parceiros comerciais do Brasil há vários casos entre eles pendentes na OMC. O México, por exemplo, iniciou uma lide contra os Estados Unidos no caso DS 344 Medidas Anti-dumping no Aço do México30. Neste caso, o México alega que os Estados Unidos continuam aplicando medidas anti-dumping contra o aço mexicano em chapas e em lingotes. A delegação mexicana acusa o Departamento de Comércio dos Estados Unidos de aprovar regulamentos que ferem acordos internacionais e de divulgar manuais em que o emprego de metodologias para se determinar a margem de dumping é questionável. Os mexicanos entraram com pedido de consultas em 26 de maio de 2006 e até o momento não há decisão do Painel. Outro parceiro comercial do Brasil que merece destaque na OMC é a China. Nos casos aqui analisados, os chineses figuram no pólo passivo da demanda. Trata-se de casos considerados cruciais para os países que entraram com pedido de consultas contra a China: autopeças. Em 30 de março de 2006 as CE entraram com pedido de consultas contra a China iniciando o caso DS 339 – Medidas que Afetam a Importação de Autopeças31. Os europeus alegam que essas medidas chinesas, entre outras, frustram a importação de autopeças: aprovação, pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma Chinesa da Ordem nº 8, sobre a Política do Desenvolvimento da Indústria Automobilística; aprovação do decreto nº 125, que prevê medidas para a administração de importação de autopeças e componentes para veículos prontos; aprovação do Anúncio Público nº 4, pelo qual a Administração Geral das Alfândegas determina regras sobre se autopeças importadas e componentes automotivos constituem veículos prontos. Dessa maneira, as CE acusam a China de estarem aplicando as mesmas tarifas de veículos importados prontos às autopeças importadas se estas forem empregadas acima de determinada quantidade num automóvel montado na China. Isso constitui uma quebra do 30 US – Final Anti-dumping Measures on Stainless Steel from Mexico. Disponível http://www.wto.org/english/tratop_e/dispu_e/cases_e/ds344_e.htm. Acesso em 29 de setembro de 2006. 31 China – Measures Affecting Imports of Automobile Parts. Disponível http://www.wto.org/english/tratop_e/dispu_e/cases_e/ds339_e.htm. Acesso em 28 de setembro de 2006. em em 128 Protocolo de Acesso a Mercados e de diversos outros dispositivos que regulam o comércio internacional. O caso ainda não tem decisão do Painel. Os Estados Unidos também entraram com um pedido de consultas contra a China, no mesmo dia em que as CE, dando início ao DS 340, intitulado também de Medidas que Afetam a Importação de Autopeças32. A delegação norte-americana apresentou os mesmos fundamentos jurídicos que as CE apresentaram, mas os Estados Unidos entendem que essas medidas afetam negativamente também os fabricantes de veículos na China, pois têm que importar várias peças. Além disso, os norte-americanos alegam que, embora os chineses tenham tarifas mais baixas para autopeças importadas do que para veículos importados prontos, eles acabam por aplicar uma carga de impostos nas autopeças equivalentes à dos veículos prontos; se aquelas ultrapassam determinada porcentagem na montagem do veículo. Também esse caso permanece sem solução. Em 13 de abril de 2006 o Canadá também entrou com pedido de consultas contra a China, iniciando o caso DS 342, igualmente intitulado Medidas que Afetam a Importação de Autopeças33. O Canadá aceita toda a argumentação dos europeus e norte-americanos, mas vai além. Os canadenses entendem que, na medida em que o governo chinês aplica diferentes taxas nos veículos feitos na China a depender da percentagem de peças importadas, eles estariam privilegiando fabricantes que usam peças nacionais, desrespeitando o Acordo sobre Regras de Origem além de extrapolar o que estava previsto na lista de concessões da China, sem contar que os chineses estão aplicando tarifas de veículos completos também aos veículos montados ou semi-desmontados. No fundo, os veículos que usam peças fabricadas na própria China ganham um subsídio à exportação, porquanto peças importadas ficam mais caras. Ainda não há decisão do Painel sobre o caso. Outro caso de importantes parceiros comerciais do Brasil é o DS 336, que envolve a Coréia do Sul versus o Japão, na disputa Medidas Compensatórias nos Chips de Memória de Acesso Randômico34. Neste caso, a Coréia do Sul levou ao conhecimento da OMC a supostamente desarrazoada atitude do Japão de aplicar medidas compensatórias nestes chips de origem sul-coreana. 32 China – Measures Affecting Imports of Automobile Parts. Disponível em <http://www.wto.org/english/tratop_e/dispu_e/cases_e/ds340_e.htm. Acesso em 28 de setembro de 2006. 33 China – Measures Affecting Imports of Automobile Parts. Disponível em <http://www.wto.org/english/tratop_e/dispu_e/cases_e/ds342_e.htm. Acesso em 28 de setembro de 2006. 34 Japan – Countervailing duties on Dynamic Random Access Memories from Korea. Disponível em <http://www.wto.org/english/tratop_e/dispu_e/cases_e/ds336_e.htm. Acesso em 28 de setembro de 2006. 129 A Coréia do Sul alega que o Japão vem aplicando medidas compensatórias por meio de vários diplomas legais, tais como Ordens de Gabinete e outras instruções normativas publicadas na Gazeta Oficial Japonesa de 27 de janeiro de 2006. A Coréia do Sul também requereu neste pedido de consultas que sejam investigadas e determinadas as razões que motivaram o Japão a impor tais restrições. Não houve, até o momento, julgamento do caso pelo Painel. Fora do âmbito da OMC, mas ainda se tratando de comércio internacional entre os principais parceiros do Brasil, há que se destacar a possível feitura de um acordo de serviços entre Estados Unidos e as CE como compensação pelas modificações nos compromissos das CE nos acordos de serviços fechados sob a égide da OMC35. Isto porque, com a entrada de novos membros na CE, alguns deles já haviam assumido obrigações como Estados nacionais pelo GATS (General Agreement on Trade in Services – Acordo Geral sobre o Comércio de Serviços) e, até que harmonizassem seus compromissos individuais com os das CE, eles tiveram que alterar suas leis internas e também algumas regras do GATS, o que é permitido, contanto que o país tenha negociado compensações futuras com os eventuais prejudicados. Desse modo, países como os Estados Unidos e até mesmo o Brasil poderão se beneficiar deste acordo de compensação com as CE, que têm um mercado de serviços da ordem de US$8,6 trilhões anuais. Enquanto os europeus tentam chegar a um acordo compensatório para serviços, eles não perderam de vista o fato de que calçados de couro importados da China e do Vietnã estão ameaçando sua produção36. Assim, foi aprovado que estes produtos sofrerão uma sobretaxa de 16,5% quando entrarem no mercado europeu. As CE também vêm mantendo importante diálogo com a China em matéria de propriedade intelectual (PI)37. E a China promoveu grandes avanços ao criar um confiável sistema de PI na década de 1980, principalmente no que diz respeito à implementação de padrões mínimos de proteção à PI, visando seu ingresso na OMC. Mesmo assim, entretanto, várias empresas das CE sofrem prejuízos com a atividade de pirataria na China, o que afeta seus mercados mundialmente. Para se integrar totalmente ao sistema de comércio internacional e continuar a atrair investimentos estrangeiros, a China 35 USTR Announces US – EU Agreement on Services. Disponível em <http:// www.ustr.gov/Document_Library/Press_Releases/2006/September/USTR_Announces_US_EU_Agreement_on_ Services_printer.html>. Acesso em 30 de setembro de 2006. 36 Anti-dumping. Disponível em http://ec.europa.eu/trade/issues/respectrules/anti_dumping/pr300806_en.htm. Acesso em 2 de outubro de 2006. 37 Intellectual Property in China. Disponível em http://ec.europa.eu/trade/issues/sectoral/intell_property/ipr_china_en.htm. Acesso em 3 de outubro de 2006. 130 deve cumprir todas as suas obrigações internacionais, particularmente aquelas relacionadas à PI. China e CE vêm construindo uma cooperação mútua no campo da PI, tanto que criaram “Diálogo sobre PI” e, também, um Grupo de Trabalho sobre PI. Ambos os grupos contam com a participação de peritos no assunto. O estabelecimento de um diálogo entre CE-China focado na PI foi decidido em outubro de 2003. Entretanto, o primeiro encontro se deu em julho de 2004 e contou com a presença de indústrias interessadas no assunto. Esse encontro foi particularmente importante porque ambos, CE e China, expuseram suas posições acerca da proteção à PI. Para aprofundar a cooperação com a China, as CE indicaram um perito seu para trabalhar em Pequim com o intuito de acompanhar de perto o desenvolvimento das prioridades européias quanto à PI na China. A maior preocupação dos europeus diz respeito aos produtos de alta tecnologia e seus processos para patenteamento e exploração de patente; outra preocupação das CE é quanto à aplicação das regras de PI para coibir os mercados piratas chineses. A Europa é um grande contribuinte à assistência técnica no campo da PI e quer lançar um novo programa, voltado à execução da PI. Além disso, uma das atividades desenvolvidas no ano passado que obtiveram maior sucesso foi um estudo comparativo entre as legislações de proteção à PI e sua execução. Nesse estudo constatou-se que as legislações têm muitas semelhanças, entretanto, quanto às diferenças, destaca-se a execução dessas regras, já que na China ela se mostra muito complicada e labiríntica.