Actas do X Congresso Internacional Galego-Português de Psicopedagogia. Braga: Universidade do Minho, 2009
ISBN- 978-972-8746-71-1
EXPERIÊNCIAS DE TRABALHO NO SECTOR PÚBLICO E CONSTRUÇÃO DE
IDENTIDADES DE EDUCADORES DE INFÃNCIA
Margarida Marta
Agrupamento de Escolas de Olival, V. N. Gaia
[email protected]
Amélia Lopes
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da U. Porto
[email protected]
Resumo
Apresentam-se e discutem-se resultados de uma pesquisa realizada com vista ao levantamento de
hipóteses heurísticas sobre os efeitos das experiências de trabalho no sector público na construção de
identidades de educadores de infância.
Teoricamente, a pesquisa é informada pela teoria da identidade psicossocial de Maria Zavalloni.
Empiricamente utiliza-se o inventário de identidade picossocial proposto pela mesma autora. Uma
versão adaptada foi preenchida por 36 educadores de infância com percursos de formação e trabalho
diferenciados e mesclados no que respeita às experiências de trabalho no sector público e privado.
Começamos por demonstrar a relevância da pesquisa no quadro de uma reflexão sobre a educação
pública e democrática. Expõe-se, então, sobre os principais eixos organizadores do quadro teórico e
as características do inventário
Finalmente, apresentam-se os resultados mais pertinentes, que serão discutidos por relação com os de
um estudo anterior onde se compararam identidades de educadoras com percursos de formação e
trabalho apenas no sector público ou apenas no sector privado.
Os resultados indicam que quem trabalha actualmente no sector público apresenta identidades
semelhantes às dos inquiridos no estudo anterior com percursos apenas no sector público. Entretanto,
os educadores actualmente no público e no privado apresentam agora identidades menos antagónicas.
1 - Introdução: problemática em estudo, quadro teórico e objectivos
No que respeita à educação pré-escolar, a sociedade portuguesa está hoje confrontada com a
exigência de continuar o esforço significativo da última década, como o relatório da OCDE
preconiza, ao nível da expansão da rede nacional, ao nível de uma cultura de avaliação
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pode, no entanto, iludir o facto de a educação pré-escolar ser em Portugal um campo ainda mais
dependente do sector privado que do sector público, nomeadamente quando se sabe que as
formas educativas patentes nas identidades dos educadores são substancialmente diferentes,
aspecto que aliás não se restringe ao campo da educação pré-escolar. Acresce que as actuais
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políticas públicas de educação parecem conduzir a um reforço do privado às custas do Estado,
sobretudo se se concretizar a panaceia da livre escolha, orientada para a certificação e o registo
estatístico do sucesso (em detrimento do conhecimento e do saber), voltada para responder mais
às necessidades dos grandes interesses económicos do que à importância da formação integral
dos cidadãos.
Neste texto apresentam-se e discutem-se resultados de um estudo desenvolvido com o objectivo
geral de contribuir para uma narrativa coerente da educação pública, tendo por foco a educação
de infância. A relevância deste objectivo situa-se na encruzilhada de vários factores: o facto de a
cobertura da educação pré-escolar em Portugal ser assegurada sobretudo por instituições
privadas; a recente tendência para a privatização da educação em geral e da educação pública
em particular; a intenção mundial e nacional de incrementar a educação pré-escolar; e os
resultados de um estudo anterior (Marta, 2003) onde se constata existirem diferenças nas formas
de realizar a educação e na identidade das educadoras de infância com percursos apenas no
ensino privado ou apenas no ensino público, sendo que as identificadas neste último caso se
aproximam bastante do que tem vindo a ser defendido como característico da educação pública.
Porque a distinção entre o público e o privado éc
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a encontrada para os educadores do sector
público aparecia ligada ao facto de esses educadores terem sido formadas na maioria no pós 25
de Abril e porque com a criação dos Agrupamentos de escolas e as recentes políticas de carreira
docente e de organização do trabalho na educação de infância pública sofreu alterações de
monta, interessou-nos perseguir, de forma ainda inicial, o objectivo referido através dos
seguintes objectivos específicos: indagar sobre o lugar que as experiências de trabalho nos
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Teoricamente o estudo convoca perspectivas sobre a educação pública, a educação de infância e
sobre a construção de identidades profissionais.
João Barroso (2005: 747) explicita que a defesa da educação pública i
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efectivação de um compromisso do serviço público com o direito de todos à educação pública
de qualidade, que se repercute num direito de todos ao acesso à educação e numa formação ao
longo da vida como processo em que cada cidadão aprende desde o berço ao fim da vida. Nesta
perspectiva a educação pré-escolar é vista como um espaço privilegiado para o desenvolvimento
e aprendizagens precoces de competências e atitudes que permitem a construção de uma
identidade própria num mundo global cada vez mais caracterizado pela diversidade e pela
existência de múltiplas pertenças, sendo grande a s
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Na relação dialéctica entre educação pública em geral e educação pré-escolar pública em
particular, situam-se os profissionais de educação de infância com percursos diferenciados ao
nível da formação inicial, da formação contínua e dos contextos de trabalho, onde, nas palavras
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cívico, por um lado, e doméstico e industrial, por outro, se ligarmos estas dimensões
respectivamente às ideologias e orientações do sector público e do sector privado. Dentro de
cada racionalidade há um olhar do profissional de educação de infância sobre a realidade social
em que se insere. As redes sociais resultam das suas interacções com outros intervenientes no
processo educativo, e o foco com que se olha essa interacção dá origem aos diferentes tipos de
redes cuja construção se situa a posteriori. A forma como as redes sociais se estabelecem
determinam as estruturas onde trabalham esses profissionais, quer seja no sector público, quer
seja no sector privado. Neste sentido, poderemos questionar se os agrupamentos de escolas
contribuem ou não para a existência destas redes ou se são apenas redes de actores colectivos
fabricados e centralizados? As políticas educativas como modo de regulação social da educação
têm aqui um papel relevante, de outro modo estaremos peran
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A construção da identidade profissional não é indiferente ao contexto sócio-político em que se
desenrola, nem ao clima organizacional das instituições, nem à função social da profissão na
sociedade quer seja em Portugal ou na Europa. A educação pública exige aos profissionais a
capacidade de uma leitura crítica da realidade subordinada à lógica do mercado e do capital.
Para Muller (2008: 22, citando Yves Mény & J
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educação um papel que permita aos intervenientes recuperarem a capacidade de pensar e de
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todos os seres humanos, fundamentada nos valores da equidade, da solidariedade e da justiça.
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educativas públicas, democraticamente disseminadas (rede pública), governadas (com
participação nas decisões por parte da comunidade local e dos actores educativos) e orientadas
segundo projectos politico-pedagógicos igualitários, inclusivos, e, necessariamente, articulados
com outras políticas sociais de carácter redistributivo, procurando alcançar uma elevada
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A indistinção cada vez maior entre o público e o privado não faz com que a análise do carácter
privado ou público e seus efeitos na educação seja menos importante, antes a coloca num outro
nível de complexidade. Definir o carácter da e
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carácter na vida das instituições, por razões que já explicitámos antes, é uma tarefa hoje crucial.
O carácter privado ou público resulta de um conjunto de acções finalizadas em contexto no seio
das quais investem e se formam identidades diversas, entre elas as profissionais. Daí que, como
se verifica o estudo de Marta (2003) as identidades possam ser consideradas expressões do
carácter público ou privado da educação oferecida. Estudar as identidades é então uma forma de
estudar a construção da educação pública.
Para dar conta das identidades, adoptámos um quadro teórico onde se reúnem as perspectivas de
Zavalloni, Zavalloni & Louis-Guérin, Dubar, Lopes e Bronfenbrenner. A construção de
identidade profissional é concebida como um processo não solitário, contextual e interaccional.
O espaço profissional do educador de infância é o ambiente ecológico (não o mero ambiente
imediato) constituído por um conjunto de estruturas concêntricas, a saber: o microssistema, o
mesossistema, o exossistema e o macrossistema (Bronfenbrenner, 1979, Bairrão, 1995,
Portugal, 1992, Oliveira-Formosinho, 2002). É na imbricação destas estruturas concêntricas,
encaixadas umas dentro das outras como um conjunto de bonecas russas, que decorrem as
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individuais - intervêm no desenvolvimento humano, no qual as transições desempenham um
papel crucial (Bronfenbrenner, 1979). Esta abordagem evidencia as múltiplas inter-relações e a
interdependência entre o mundo social dos indivíduos e o seu ambiente físico e intelectual, e
considera o sujeito como agente activo na construção do seu cenário de desenvolvimento.
Para Dubar (1997), a construção de identidade profissional é uma articulação entre duas
transacções: uma transacção interna ao indivíduo (identidade para si, onde se destacam os
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Lopes (2008) associa estas perspectivas propondo a construção de identidades profissionais
docentes como constructo ecológico, ou seja, considerando que a transacção identitária se
processa a diferentes níveis do sistema ecológico –i
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grupo, organizacional e societal e que estes níveis se encontram encaixados e em interacção
como os níveis do sistema ecológico em Bronfenbrenner. Em cada nível a transacção identitária
tem especificidades, que entretanto são influenciadas e influenciam os restantes níveis. Ainda
para a mesma autora a identidade profissional– u
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ibid.: 3). Ao nível do indivíduo este carácter colectivo e individual da
identidade, assim como os diversos níveis a que ela se situa, existe enquanto pensamento
representacional.
Na ego-ecologia (Zavalloni & Louis-Guérin, 1984) considera-se que o indivíduo se situa na
ecologia social (os possíveis grupos sociais de pertença) enquanto membro de uma diversidade
de pertenças sociais. A identida
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Marisa Zavalloni e Louis-Guérin, 1984: 17) e
refere-se a uma estrutura cognitiva ligada ao pensamento representacional, cujo conteúdo e
dinâmica emergem da biografia pessoal e da história social (Zavalloni, 1979).
Com este quadro de referências propomo-nos contribuir para a configuração de uma narrativa
coerente da educação pública e democrática, através do estudo do lugar das experiências de
trabalho no sector público e privado na construção das identidades de educadores de infância.
2 - Metodologia
A abordagem ego-ecológica de Marisa Zavalloni (Louis-Guérin & Zavalloni, 1984) permite-nos
atingir a identidade social/profissional dos grupos e pessoas a partir da indagação das
representações individuais sobre as pertenças e não pertenças sociais. O foco de análise é a
interacção entre as dimensões pessoais (intrapsíquicas) e as dimensões colectivas
(interpsíquicas) de uma identidade; a identidade pessoal possui recordações e imagens de uma
história pessoal ligada a uma história colectiva, e, por sua vez, a identidade colectiva orienta e
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participa directamente na formação da identidade pessoal, produzindo condições para a
transformação de conhecimentos e juízos privados sobre si, o outro e a sociedade.
Louis-Guérin & Zavalloni (1984) consideram exist
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as interacções indivíduo-meio (o meio interior operatório - MIO), sendo possível, por isso,
estudar a construção da realidade social através da consciência individual. A identidade
psicossocial (individual), nessa perspectiva, é uma estrutura cognitiva ligada ao pensamento
representacional cujo conteúdo e dinâmica emergem da biografia pessoal e da história social.
Ela é constituída por relações mais ou menos estabilizadas entre representações de si, do outro e
da sociedade.
O «método da contextualização representacional» (MCR) permite aceder a essas representações.
Trata-se de um método ideográfico e compreensivo que visa descobrir os princípios gerais a
partir de estruturas psicológicas individuais. O seu foco é a identidade psicossocial ou Meio
Interior Operatório (MIO) e o seu procedimento consiste, em termos genéricos, em recodificar
as pertenças sociais objectivas, ligando-as às representações de si, dos outros e da sociedade. O
MCR pretende atingir o conteúdo e a dinâmica doMI
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subjectiva -, a que se acede por recodificação dos grupos de pertença, mediante a apresentação
das UR como estímulos, dando origem à emergência de referentes implícitos dos grupos e das
imagens repertoriadas a seu propósito, que constituem o microcosmos social (a estrutura da
identidade subjectiva do indivíduo); no Nível 2 –Pr
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semântico - os indivíduos qualificam todas as UR em termos de egomorfismo (fazem parte da
sua personalidade) ou alomorfismo (não fazem parte da sua personalidade) e em termos de
ressonância afectiva (negativa, positiva ou neutra), o que permite situá-las no espaço elementar
da identidade (constituído pela intersecção do e
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cado diferencial das UR egomórficas, quando
aplicadas si ou ao outro - explora-se o significado das atribuições aplicadas a si e, ao mesmo
tempo, ao grupo, especificando semelhanças e diferenças no seu significado. A Fase III diz
respeito ao aprofundamento do feixe conceptual e emocional do MIO.
O ponto de partida do método é o Inventário de Identidade Psicossocial (IIP) (Zavalloni e
Louis-Guérin, 1984), constituído por diversos grupos de pertença e situações, que os próprios
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respondentes nomeiam. No nosso estudo, usámos uma versão adaptada de Zavalloni e LouisGuérin (1984) e de outras adaptações anteriores do mesmo (Lopes e Ribeiro, 1992; Marta
(2003). Esta adaptação é constituída por grupos d
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Todo o inventário é preenchido individualmente pelos respondentes. Após completar todas as
frases nas diversas situações e condições - respostas que constituem as Unidades
Representacionais (UR) ou dados do 1.º grau -, os respondentes devem ainda assinalar aquelas
características apontadas que se aplicam a si (egomórficas) e as que não se aplicam a si
(alomórficas). Devem também assinalar se elas lhe provocam sentimentos negativos, positivos
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snos quatro quadrantes do espaço elementar da
identidade (S+, positivas e aplicadas a si; O+, positivas e aplicadas ao outro; S-, negativas e
aplicadas a si; e O-, negativas e aplicadas ao outro).
Se o acesso ao nível 1 e 3 da Fase II e à Fase III implica uma entrevista posterior ao
preenchimento do inventário, acede-se aos dados da Fase I - identidade social objectiva - e do
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de- apenas através das respostas ao Inventário.
Os resultados aqui apresentados dizem respeito a este último tipo de dados recolhidos junto de
36 educadores de infância do Grande Porto.
3 - Resultados e sua interpretação
Os 36 inventários da IIP foram preenchidos por 35 educadores do género feminino e 1 do
género masculino. Os educadores de infância respondentes, na sua maioria, têm percursos de
trabalho e de formação mesclados e diferenciados (8 só no privado, 5 só no público; 20 privadopúblico; 3 público privado). No sector privado encontramos uma população jovem, quer em
termos de tempo serviço, quer em termos de idade (11 educadores com idades compreendidas
entre os 24 e 29 de idade e com 6 a 9 de anos de serviço). No sector público, os 25 entrevistados
situam-se numa faixa etária dos 35 aos 53 anos de idade e possuem um elevado número de anos
de serviço (entre 20 a 33anos). Dos 36 respondestes, 27 têm formação inicial privada, das quais
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23 com experiências de trabalho no privado e no público e 4 com experiência de trabalho no
privado; 3 têm formação inicial pública e experiência de trabalho no privado; 4 inquiridos têm
apenas experiência de trabalho no sector público e têm formação inicial pública; 1 tem formação
inicial pública e experiências de trabalho no privado e no público e 1 tem formação inicial
privada e experiência de trabalho no público.
A maioria dos educadores actualmente no sector público teve o privado como primeiro sector
de trabalho. Se aliarmos estes dados aos dos educadores agora no privado (jovens e com pouco
tempo de serviço) podemos considerar que o privado foi a porta de entrada na profissão para a
maioria dos inquiridos, os quais, também na maioria, fizeram a sua formação inicial no
privado. Esta situação aumenta a importância de se problematizar o carácter público da
educação pré-escolar.
3.1 - A identidade social objectiva
As Unidades representacionais (UR), ou dados do 1.º grau, referem-se às categorias
apresentadas mediante a colocação dos grupos d
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actualmente no privado, 3 referem o público como primeiro sector de trabalho.
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no sector público têm o público como 2º sector de trabalho e 3 actualmente no sector privado
têm como 2º sector o privado.
Do ponto de vista da identidade social objectiva, todos os inquiridos se identificam ao sector
em que trabalham no momento e os educadores no público apresentam um modo mais variável
que os que estão no privado de qualificar a ocupação e as colegas do agrupamento /
instituição. No estudo de Marta (2003) a variabilidade no que respeita ao grupo de pertença
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variabilidade agora encontrada pode dever-se a dois factores: ao facto de estarmos perante
percursos mesclados e aos facto de o contexto de trabalho no sector público, com a integração
em agrupamentos, se ter alterado.
3.2 - A identidade social subjectiva: Espaço elementar de identidade dos grupos de
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2.º grau, através da recodificação dos grupos de p
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permitindo colocá-las nos quatro quadrantes do espaço elementar da Identidade (S+, S-, O+ e
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identificação à profissão ligada às crianças, onde os
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grupo de diferenciação, o que não acontece nos do privado. As características alomórficas
positivas dos educadores do privado podem relacionar-se com a juventude da amostra, mas
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nomeadamente com os pais.
Tal como no estudo anterior (Marta, 2003), o grupo dos educadores do privado apresenta uma
representação da ocupação mais coesa e mais baseada em aspectos da relação interpessoal.
Também como no estudo anterior, a representação da ocupação dos educadores do público é
marcada por uma definição profissional. Quer devido à transacção relacional (exigências dos
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contextos de trabalho públicos), quer devido à transacção biográfica (vontade de passar para o
sector público), os educadores do sector público apresentam-se, mais que as do sector privado,
com características centradas no profissionalismo. No que diz respeito às características
inerentes ao trabalho directo com as crianças, as representações dos dois grupos aproximamse.
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Se nos educadores do público a diferenciação se relaciona, mais uma vez, com a visão que têm
da profissão e do profissional de educação de inf
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nos educadores do privado a diferenciação relaciona-se com o método de trabalho pedagógico
(provavelmente atravessado por questões de idade e experiência). Comparando com o estudo
anterior, verifica-se existir, no privado, uma mudança de postura. No estudo anterior, as
características distintivas baseavam-se mais nas relações interpessoais estabelecidas entre os
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Os educadores no privado identificam-se a um grupo a que atribuem características positivas e
negativas. As positivas relacionam-se com a sua postura e a sua dinâmica no trabalho “
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Nos educadores actualmente no sector público, a profissão e o educador como um profissional
organiza grande parte das representações e qualificações. O grupo de dissociação tem
características que põem em causa esse carácter. Os educadores do privado parecem ser uma
referência no que concerne o desenvolvimento do trabalho pedagógico.
Os educadores do sector privado valorizam-se pela forma como desenvolvem o seu trabalho
pedagógico e consideram negativas as suas condições de trabalho onde incluem a falta de
formação. O grupo de dissociação parece corresponder a um grupo que foge do espírito de fusão
que parece ainda caracterizar as relações de trabalho no sector privado. O público parece
continuar a ser atractivo no que respeita à liberdade de opção no trabalho, mas menos atractivo
devido à burocracia.
O carinho e a criatividade no trabalho com as crianças parecem ser um núcleo comum nos
profissionais de ambos os sectores, que demonstra a importância que atribuem ao
desenvolvimento da criança e à característica“s
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mudança de atitude e de percepção que resulta numa aproximação dos dois grupos. Os
resultados anteriores reflectiam os dois sectores como grupos de oposiçã
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m relação ao público). O desvanecimento da
oposição pode de novo ser imputado quer ao facto de os percursos serem na maioria
mesclados, quer às mudanças verificadas no contexto de trabalho público (com a integração
nos agrupamentos e o aumento da burocracia e da carga de trabalho). Podem ainda ser
imputados à idade dos educadores do sector privado (potenciais educadores do sector
público?) e às próprias mudanças geracionais (com origem na cultura, mas também na
formação inicial).
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Actas do X Congresso Internacional Galego-Português de Psicopedagogia. Braga: Universidade do Minho, 2009
ISBN- 978-972-8746-71-1
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Existe portanto uma visão comum por quem passou pelo privado e por quem está no privado no
que respeita ao 1º sector de trabalho (o privado): a importância atribuída às colegas de
trabalho. De forma relacionada, no estudo anterior verificava-se que as relações entre os
colegas no sector privado sustentavam eram o pilar da identidade profissional, último reduto
do profissionalismo, em contextos que tendiam à desprofissionalização.
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seja, da carga horária, o que os impede de realizar melhor o trabalho com as crianças.
Aparentemente, reaparecem no segundo sector as características já identificadas em cada
sector, embora pareça também que as profissionalidades se misturam: as experiências do
privado estão presentes nos educadores no público e as experiências do público estão presentes
nos educadores no privado.
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visibilidade à educação de infância e a aproximam dos outros graus de ensino, as segundas
podem induzir acomodação e desinvestimento profissional no sector público.
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seja uma boa decisão, talvez receando a fuga de crianças para o sector público.
As reacções às reformas no que diz respeito à condição Pior parecem estar em função da
identidade prévia de cada sector, reagindo os do sector público aos perigos de
desprofissionalização e os do sector privado ao seu desaparecimento. A condição Melhor
indicia o carácter positivo para os educadores no sector público da sua aproximação
contextual aos restantes docentes dos outros níveis de ensino. Nos do sector privado esta
condição faz emergir de novo a centralidade da relação pedagógica com as crianças (agora em
função das crianças em NEE); a importância dada à educação pré-escolar é ainda uma
promessa de melhoria das suas condições de trabalho.
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No estudo anterior, as crianças, a comunidade e o envolvimento em projectos eram pilares da
construção da identidade do educador da rede pública, a que se aliava a uma grande margem
de liberdade de acção. Para os educadores do sector público a agregação em agrupamento traz
consigo o risco de perda de autonomia mas também vantagens em termos de integração no
percurso da educação básica. Para os educadores no sector privado os problemas
apresentados pelas instituições parecem ser persistentes (por relação com o estudo anterior), à
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algo pode estar a mudar no sector privado, fruto da evolução geral da educação pré-escolar e
da formação inicial.
4 - Conclusões
Se no estudo anterior (Marta, 2003) investigámos p
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(só no público e só no privado), agora foi nossa intenção investigar educadores com percursos
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diferenciados e mesclados com o objectivo de ter uma visão mais ampla da construção das
identidades profissionais dos educadores de infância em Portugal e do papel aí desempenhado
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pública através da problematização do lugar da educação pré-escolar.
Da riqueza dos diversos resultados, que fomos sintetizando, interpretando e comentando, por
relação com os nossos objectivos, destacam-se dois aspectos: o modo mais ou menos
diferenciado (diverso) das representações dos educadores dos diferentes sectores sobre a sua
profissão; e os conteúdos das representações dos educadores dos dois sectores, próximos em
alguns aspectos mas distantes noutros.
No que diz respeito ao primeiro aspecto conclui-se não só que os educadores do sector público
representam a sua identidade de forma mais diferenciadas que os do sector privado, mas
também que estes inquiridos do sector público a representam de forma mais diferenciada do que
os do estudo de 2003, o que pode dever-se ao carácter misto dos percursos agora estudados, mas
também, como já dissemos, ao actual contexto de trabalho dos educadores do sector público.
Esta indicação dos dados confirma e aumenta a pertinência de se conhecerem os eixos que
interferem nos percursos e nas identidades, com vista à melhoria da educação pública.
Tal como no estudo anterior os educadores dos dois sectores apresentam preocupações
semelhantes no que concerne o trabalho pedagógico com a criança. Mas também como no
estudo anterior, e apesar da maioria dos percursos estudados serem mistos, os dois sectores
continuam a apresentar identidades bem diferenciadas: no sector privado centradas nas relações
interpessoais e no sector público centradas na afirmação do educador de infância como um
profissional. Mas este profissional parece ser um profissional da educação pública.
Com efeito, no que respeita ao sector público, se no estudo anterior, as identidades profissionais
apareciam como identidades fortes e intensamente vinculadas ao trabalho comunitário, neste
estudo anuncia-se uma identidade no sector público ligada ao profissionalismo que o ser
educador exige, quer no trabalho com as crianças, quer com a comunidade educativa. Esta é
uma identidade integrada na educação pública, ou seja, referida ao Agrupamento de escolas e
envolvida nas questões de política educativa que interferem nas práticas educativas e na
construção das identidades profissionais.
Já no sector privado os inquiridos revelam uma preocupação pedagógica centrada na criança e
no seu desenvolvimento, tendo em conta as directrizes das direcções da instituição que
procuram satisfazer os pedidos dos pais, cujos educandos são os clientes da educação. Há
indícios de que esta preocupação (definição) pedagógica é agora mais saliente e ligada à
qualidade do trabalho desenvolvido, o que pode indicar que a dimensão educativa da educação
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Actas do X Congresso Internacional Galego-Português de Psicopedagogia. Braga: Universidade do Minho, 2009
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de infância está a ganhar terreno. Há também indícios de que há uma maior possibilidade de
autonomia nas educadoras deste sector.
Concluímos, portanto, que os dois sectores aparecem mais aproximados que no estudo anterior,
mas, ainda assim, bem distintos. O sector público, mesmo com percursos na maioria mesclados,
apresenta, sem dúvida, identidades profissionais bem específicas e mais concordantes com a
definição de educação pública.
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EXPERIÊNCIAS DE TRABALHO NO SECTOR PÚBLICO E