João Formosinho • Joaquim Machado • Elza Mesquita Formação, trabalho e aprendizagem João Formosinho é professor catedrático aposentado da Universidade do Minho e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa. Foi Presidente do Conselho Científico-Pedagógico da Formação Contínua de Professores. Tem publicações nas áreas da formação de professores, administração educacional, currículo e educação básica. Joaquim Machado é professor convidado da Universidade Católica Portuguesa. Tem publicações nas áreas da utopia e do imaginário educacional, das políticas educativas, da formação de professores, da pedagogia e da organização e administração de escolas. Elza Mesquita é professora adjunta do Instituto Politécnico de Bragança. Tem publicações nas áreas da formação de professores, da supervisão pedagógica e da literatura para a infância. Este livro debruça-se sobre a relação entre a formação, o trabalho e a aprendizagem profissional, pondo em evidência a tensão entre uma tradição escolar, construída enquanto instituição de ensino coletivo, e a procura de inovação nas práticas docentes, reduzidas frequentemente a normas de uma pedagogia burocrática que privilegia a pedagogia da transmissão em detrimento da pedagogia da participação e da descoberta. Representa, assim, uma contribuição sobre o modo de aprender, o modo de interagir e o modo de colaborar. Formação, trabalho e aprendizagem Tradição e inovação nas práticas docentes Formação, trabalho e aprendizagem Tradição e inovação nas práticas docentes 496 ISBN 978-972-618-792-9 9 789726 187929 EDIÇÕES SÍLABO FORMAÇÃO, TRABALHO E APRENDIZAGEM Tradição e Inovação nas Práticas Docentes JOÃO FORMOSINHO JOAQUIM MACHADO ELZA MESQUITA EDIÇÕES SÍLABO É expressamente proibido reproduzir, no todo ou em parte, sob qualquer forma ou meio, NOMEADAMENTE FOTOCÓPIA, esta obra. As transgressões serão passíveis das penalizações previstas na legislação em vigor. Visite a Sílabo na rede www.silabo.pt Editor: Manuel Robalo FICHA TÉCNICA Título: Formação, Trabalho e Aprendizagem – Tradição e Inovação nas Práticas Docentes Autores: João Formosinho, Joaquim Machado, Elza Mesquita Capa: Ana Pereira 1ª Edição – Lisboa, fevereiro de 2015. Impressão e acabamentos: Europress, Lda. Depósito Legal: 388327/15 ISBN: 978-972-618-792-9 EDIÇÕES SÍLABO, LDA. R. Cidade de Manchester, 2 1170-100 Lisboa Telf.: 218130345 Fax: 218166719 e-mail: [email protected] www.silabo.pt Índice Prefácio Do modo de aprender ao modo de colaborar – Para uma pedagogia da colaboração docente JÚLIA OLIVEIRA-FORMOSINHO Os modos de aprender 9 Aprender a interagir é parte da aprendizagem profissional 11 Aprender a colaborar é essencial para o sucesso da ação docente 12 Introdução 13 Capítulo 1 Formação inicial, profissão docente e competências para a docência – A visão dos futuros professores ELZA MESQUITA Introdução 19 Formação inicial de professores 21 Profissão docente 25 Competências docentes 27 Representações sobre a formação inicial de professores 31 Representações sobre a profissão docente 33 Representações sobre as competências necessárias ao exercício profissional 36 Considerações finais 39 Capítulo 2 Individualismo e colaboração dos professores em situação de formação ELZA MESQUITA • JOÃO FORMOSINHO • JOAQUIM MACHADO Introdução 43 Desenvolvimento 45 Análise de resultados 51 Conclusão 55 Capítulo 3 Docência e integração na educação básica em Portugal ELZA MESQUITA • JOÃO FORMOSINHO • JOAQUIM MACHADO Introdução 57 Antecedentes do estudo 59 Questões e objetivos do estudo 60 Referencial teórico 61 Desafios educativos do século XXI 61 Persistência prática da pedagogia da transmissão 66 Pedagogia da participação versus pedagogia da transmissão 67 A emergência da diferença: mudança dos ritmos, espaços e tempos pedagógicos, dos processos e produtos de aprendizagem 71 Pressupostos metodológicos 75 Resultados preliminares 78 Conclusão 81 Capítulo 4 Formação e trabalho – Tradição e inovação nas práticas docentes ELZA MESQUITA • JOÃO FORMOSINHO • JOAQUIM MACHADO Introdução 83 Formação e mudança 86 Trabalho docente: a necessidade de mudança na cultura profissional 87 Metodologia 93 Resultados 94 Considerações finais 100 Capítulo 5 Escola, trabalho e aprendizagem – Entre a retórica da colegialidade e a socialização num padrão de trabalho fragmentado JOÃO FORMOSINHO • JOAQUIM MACHADO Introdução 103 Padrão de trabalho e colaboração docente 104 Re-estruturação da escola e equipas educativas 106 Criação de equipas de ano 109 A unidade ano e a articulação do trabalho dos professores 112 Clima de trabalho e desenvolvimento dos professores 116 Referências bibliográficas 119 Prefácio Do modo de aprender ao modo de colaborar Para uma pedagogia da colaboração docente JÚLIA OLIVEIRA-FORMOSINHO Os modos de aprender Processa-se na sociedade um debate entre a conceção de cultura como reprodução e a conceção de cultura como recriação. Assim, no desenvolver deste exercício encontramos a cultura, como realidade dinâmica, a confrontar-se com essa definição do que é conhecimento e o processo de o construir. A pedagogia da transmissão que se centra na lógica dos saberes, no conhecimento que quer veicular, resolve a complexidade do ato educativo através da escolha unidirecional dos saberes a transmitir e da delimitação do modo e dos tempos para fazer essa transmissão, tornando neutras as dimensões que contextualizam esse ato de transmitir. Ele representa um processo de simplificação centrado na regulação e controlo de práticas desligadas da interação com outros polos, de uma resposta à ambiguidade através da definição artificial de fronteiras e de respostas tipificadas pelos regulamentos. A obsessão com os exames faz parte desse processo de simplificação. Daí que este seja o modo pedagógico congruente com o modo organizacional baseado na burocracia, pois esta é baseada na simplificação do juízo que fundamenta a ação, na pré-decisão no centro da ação que vai ser desenvolvida na periferia (Formosinho & Machado, 2008). A persistência e resistência do modo transmissivo são explicadas pela simplicidade, previsibilidade e segurança da sua concretização. As pedagogias da participação centram-se na integração das crenças e dos saberes, da teoria e da prática, da ação e dos valores. As pedagogias participativas respeitam a complexidade do ato educativo. Parte dessa complexidade resulta da integração de saberes, práticas e crenças se fazer quer no espaço da ação e reflexão, quer no espaço da produção de narrativas sobre o fazer e para o fazer. As pedagogias da participação centram-se nos atores que constroem o conhecimento para que participem progressivamente no desenvolvimento do processo educativo. As pedagogias da participação realizam um diálogo constante entre a intencionalidade conhecida para o ato educativo e o seu desenvolvimento com os atores nos diferentes contextos. Os professores e os alunos são considerados não como meros executores de uma pedagogia previamente prescrita, mas antes como atores, porque são pensados como ativos, competentes e com direito a co-definir o itinerário do projeto de apropriação da cultura que chamamos educação. A interatividade entre saberes, práticas e crenças é construída por estes atores na construção do seu itinerário de aprendizagem, mas em interação com os seus contextos de vida e com os contextos de ação pedagógica. Assim, a interdepen- dência entre os atores e os ambientes faz das pedagogias da participação espaços complexos onde lidar com a ambiguidade, a emergência, o imprevisto se torna critério do fazer e de pensar. A participação implica a escuta, o diálogo e a negociação, o que representa um importante elemento de complexificação deste modo pedagógico. Estas são características que fogem à possibilidade de uma definição prévia total do ato de ensinar e aprender exigindo a sua contextualização quotidiana. Aprender a interagir é parte da aprendizagem profissional Escutar, dialogar e negociar são parte de um processo de interação que é essencial para o sucesso das pedagogias participativas. Aprender a interagir é um campo de ação complexa, que implica níveis de integração, que se concretizam por avanços e recuos mediante as situações que se apresentam no quotidiano educativo. No âmbito da aprendizagem profissional, a competência de ação, a vários níveis, tem a ver com uma integração e mobilização que se faz com reflexão e é mais produtiva se for acompanhada. Por isso a formação prática de qualquer professor exige uma indução supervisionada ao exercício da docência, pois não se passa, com facilidade, do saber ao saber fazer, dos conhecimentos ao conhecimento profissional prático e à ação profissional. São necessários processos experienciais longos e apoiados. Nem o aplicacionismo reducionista da ação profissional a um domínio científico nem o praticismo ou a afirmação exacerbada do valor da prática (Formosinho, 2009; 2002b; 2001) podem responder à complexidade da ação profissional. Esta aprendizagem profissional deve visar sempre provocar e melhorar as aprendizagens dos educandos. O desafio para a construção do saber profissional prático ao nível da interação educativa é, então, a tripla formação de ciclo de vida, onde a formação inicial e continuada se integram, focalizadas no quotidiano profissional e monitorizando a relação entre o que é ensinado e o que é aprendido. Aprender a colaborar é essencial para o sucesso da ação docente O processo educativo é um processo intrinsecamente complexo, mas, a evolução acelerada da sociedade contemporânea tem vindo a complexificá-lo cada vez mais. Na sociedade atual, pós-industrial e pós-moderna, urbanizada e massificada, informatizada e globalizada, imersa na mediatização da vida social e na revolução da informação, quer a família quer a escola estão cada vez mais desprotegidas e impreparadas para uma educação completa das crianças. A variedade de experiências adequadas à preparação das crianças e jovens para a vivência na sociedade atual ultrapassa largamente as possibilidades de um qualquer professor em desempenho solitário. A colaboração docente é um meio que permite lidar mais adequadamente com essa complexidade, pois leva à partilha de informações sobre contexto familiar de cada educando, sobre sua personalidade e estilo de aprendizagem, sobre o progresso nas várias unidade curriculares – é, assim, uma mais valia para a ação docente numa escola para todos. Este livro representa uma contribuição sobre estes temas: o modo de aprender, o modo de interagir e o modo de colaborar. Introdução A abordagem da docência como uma profissão de desenvolvimento humano implica a sua consideração como prática social e exige que o investigador considere o professor na sua relação com o processo de ensino-aprendizagem, pela epistemologia da prática que o grupo profissional põe em ação e pelo conhecimento prático que desenvolve no seu percurso profissional e no processo continuado de formação e desenvolvimento profissional. Na sua formação profissional importam as aprendizagens realizadas no curso de formação inicial, mas também aquelas que hauriu no exercício do ofício de aluno e na convivência com os diferentes estilos postos em ação pelos seus professores. Diversos estudos mostram a influência do modo de organização do trabalho na construção da identidade profissional e na fixação das aprendizagens profissionais, bem como a necessidade de pensar a mudança organizacional associando-lhe a formação, donde emerge a conceptualização da formação centrada nos contextos educativos e nas práticas profissionais. Este livro reúne cinco capítulos que estudam a relação entre a formação, o trabalho e a aprendizagem profissional, pondo em evidência a tensão entre uma tradição escolar, construída enquanto instituição de ensino coletivo, e a procura de inovação nas práticas docentes, reduzidas frequentemente a normas de uma pedagogia burocrática que privilegia a pedagogia da 14 Formação, Trabalho e Aprendizagem transmissão em detrimento da pedagogia da participação e da descoberta. O modo tradicional de organização do processo de ensino-aprendizagem alicerça a ideia de ensino compartimentado ao longo do dia, fazendo atribuir um professor a um grupo de alunos – a turma – que aloca num determinado espaço escolar – a sala de aula –, onde se transmitem blocos de conhecimentos perfeitamente delimitados nos programas. Esta gramática escolar privilegia um padrão de trabalho individual e isolado, deixando para as margens o trabalho colaborativo e solidário. No primeiro capítulo – intitulado Formação inicial, profissão docente e competências para a docência: a visão dos futuros professores – investiga-se o que os futuros professores pensam sobre a profissão docente e sobre as competências necessárias ao exercício profissional e identificam-se as suas perceções sobre os contributos da formação inicial (curso de formação pré-Bolonha) na construção de competências profissionais. O estudo seguiu uma linha qualitativa e recorreu a entrevistas semidiretivas para a recolha dos dados. A análise de conteúdo releva a natureza multidimensional da profissão docente; as múltiplas competências pessoais/profissionais necessárias ao exercício da docência, as fragilidades do modelo de formação para dois ciclos de ensino e a fundamental articulação entre os saberes teóricos e a prática profissional. Na verdade, como referimos, a formação dos professores resulta, não apenas da formação inicial, mas sobretudo da socialização do aprendiz de professor enquanto aluno e da socialização pelo trabalho e da interação com os pares. Por isso, numa organização social como a escola, formar em contexto de trabalho implica a produção de mudanças, não apenas na ação individual, mas também na ação coletiva e no modo de pensar essa ação. Implica, sobretudo, mudar o modo como as ações Introdução 15 individuais se articulam entre si num quadro de interdependência cooperada entre os atores. A uma lógica compartimentada, baseada numa cultura profissional individualista, contrapõe-se uma cultura participada e colaborativa. As culturas de colaboração são dificultadas num sistema escolar onde o currículo se situa numa lógica centralizada e a docência se baseia quase somente na relação dos professores com os seus alunos, não promovendo interações dos professores entre si. A promoção do trabalho colaborativo requer a passagem de uma cultura da homogeneidade para uma cultura da diversidade, de uma cultura da subordinação para uma cultura de autonomia e de uma cultura do isolamento para uma cultura da colaboração. No segundo capítulo – intitulado Individualismo e colaboração dos professores em situação de formação – destacam-se as relações que se estabelecem entre professores no terreno, os seus formadores e coordenadores no âmbito de Programas Nacionais de Formação Contínua, procurando compreender o significado do trabalho docente e da formação numa perspetiva de colaboração. O estabelecimento de um modelo de trabalho baseado na perspetiva colaborativa com fins e interesses comuns implica momentos de partilha de experiências e entreajuda entre pessoas, permite refletir sobre o que cada um faz e pensa e pressupõe a vontade de introduzir outras formas e outros métodos de abordagem e de ação, sobretudo quando alicerçados em programas de integração curricular e de cooperação profissional. No terceiro capítulo – intitulado Docência e integração na educação básica em Portugal – problematiza-se a relação entre a educação tradicional e a educação democrática visando compreender por que é que, sendo mais adequada a 16 Formação, Trabalho e Aprendizagem pedagogia da participação para o desenvolvimento global da criança, se continua a manter, nas escolas portuguesas, uma pedagogia suportada pela uniformidade de métodos e programas. Metodologicamente fundamentado nos princípios orientadores relativos à investigação-ação, este capítulo estuda as práticas potenciadoras de uma educação integrada e os contributos da formação em contexto. O discurso dos professores envolvidos no estudo realça a parca formação (inicial e contínua) relativamente à prática de um ensino integrado e participado e salienta a compartimentação disciplinar como fator constrangedor. Afirma também a necessidade de redefinição no trabalho do professor, nomeadamente na autorreflexão das práticas, na partilha dessas práticas com os seus pares e no desenvolvimento profissional ao longo da vida. Constata, porém, que o trabalho de cooperação expressa-se sobretudo na partilha a dois. A análise dos discursos atesta também a hipótese das práticas pedagógicas tenderem mais para uma pedagogia transmissiva do que para uma pedagogia da participação. No quarto capítulo – intitulado Formação e trabalho: tradição e inovação nas práticas docentes – ilustra-se uma perspetiva pedagógica onde é possível perceber, através dos processos formativos no contexto dos programas nacionais de formação contínua, a emergência de múltiplas possibilidades pedagógicas favorecedoras do processo cooperativo de aprendizagem. A temática em questão exigiu um quadro concetual sobre os processos de formação de profissionais que recupera a herança das práticas pedagógicas à luz do que foram acumulando e (re)elaborando no decorrer da experiência profissional, seja perante processos de mudanças instituídas, seja perante inovações instituintes. Introdução 17 As questões de investigação orientam-se para apreender que visão têm os professores, os coordenadores (também formadores) e os formadores sobre o trabalho colaborativo entre professores e de que forma pensam que os Programas de Formação Contínua teriam contribuído para a promoção desse tipo de trabalho. O objetivo é compreender as práticas pedagógicas dos professores do 1.º Ciclo do Ensino Básico numa perspetiva colaborativa, importando delimitar o modo como os atores se organizam objetiva e subjetivamente na prática quotidiana e como valorizam a interação, considerando ainda a formação que realizaram e pressupondo que ela tenha tido efeitos construtivos na sua ação. Os principais resultados desta investigação permitem problematizar as condições de possibilidade de transformação das práticas profissionais e perspetivar os contextos de trabalho como espaços e tempos próprios para os professores trabalharem em conjunto, encorajando à experimentação de novas gramáticas pedagógicas suportadas numa cultura de colaboração. O estudo realizado mostra uma tensão na docência entre discursos e intenções, pois percebe-se que, por vezes, o que dizem fazer num contexto profissional onde prevalece um padrão de trabalho isolado e uma cultura individualista, em termos de estratégias em sala de aula e fora dela, é condicionado por perspetivas e orientações de grupos formais e informais que influenciam os seus valores e crenças e condicionam formas de se assumirem perante si e perante os outros, como transmissivos e individualistas, ligados a uma forte cultura pedagógica tradicional. Na verdade, independentemente do ciclo ou nível de ensino, as conceções e práticas dos professores relativamente ao trabalho escolar e à sua organização são marcadas pela tensão entre a 18 Formação, Trabalho e Aprendizagem retórica da colegialidade docente e a socialização num padrão de trabalho fragmentado, celular e solitário. No quinto capítulo – intitulado Escola, trabalho e aprendizagem: entre a retórica da colegialidade e a socialização num padrão de trabalho fragmentado – descreve-se uma experiência de introdução de trabalho colaborativo em equipa docente numa escola básica dos 2.º e 3.º ciclos e conclui-se que a profissionalidade docente reflexiva também é marcada pela tensão entre o desejo de inovar e a exigência de cumprimento das normas estabelecidas, o fascínio da mudança e o medo da desconformidade de procedimentos. Neste sentido, como mostram os estudos de sociologia das organizações, são sustentáveis as mudanças operadas por grupos e não as procuradas pelos indivíduos isoladamente. Por isso, as mudanças a introduzir na escola devem ser pensadas numa perspetiva sistémica tendo em conta, não apenas a dimensão da sala de aula, mas também as dimensões organizativas da escola e do currículo estabelecido, bem como as dimensões que concernem aos docentes enquanto grupo profissional, nomeadamente os saberes profissionais consolidados, com suas (in)certezas) e (des)confianças. Enfim, os processos de mudança da escola exigem a participação e o empoderamento dos profissionais, não sendo de pôr de parte um apoio externo diversificado e à medida dos protagonistas da mudança. Capítulo 1 Formação inicial, profissão docente e competências para a docência A visão dos futuros professores1 ELZA MESQUITA Introdução A experiência no âmbito da supervisão conduz à perceção de que os alunos/futuros professores possuem representações anteriores sobre a profissão docente e sobre as competências necessárias ao seu exercício. Sabe-se que constroem uma imagem sobre a profissão a partir das situações experienciadas ou observadas enquanto alunos e enquanto estagiários, considerando, assim, que a profissão tem especificidades próprias e que a docência pode ser construída também pela sua vivência. (1) A autora agradece à EDUSER: revista de educação da Escola Superior de Educação de Bragança que acolheu a 1.ª edição deste texto em 2010 e que agora se adapta. 20 Formação, Trabalho e Aprendizagem A investigação foi realizada com a intenção de perceber a visão que os alunos/futuros professores tinham sobre as competências necessárias ao exercício profissional e o contributo da formação inicial na construção dessas mesmas competências, na esperança de que as conclusões do estudo nos pudessem ajudar a (re)situar a nossa prática profissional como professora supervisora na formação inicial. O estudo excluiu a formulação de hipóteses, sujeitas a verificação, uma vez que se seguiu uma orientação de análise de conteúdo com base na descrição e interpretação dos fenómenos, dirigido por três objetivos: (i) conhecer a forma como os alunos, futuros professores, pensam a profissão docente; (ii) conhecer as representações que os alunos, futuros professores, têm das competências necessárias ao exercício profissional; e (iii) identificar os contributos da formação inicial, percebidos pelos sujeitos do estudo, na construção de competências profissionais. Estes objetivos constituíram-se a partir da seguinte problemática: Que representações têm os alunos futuros professores, do quarto ano do curso de Professores do 2.º Ciclo do Ensino Básico – Variante de Educação Visual e Tecnológica, a frequentarem o ano terminal (habilitados para dois graus de ensino – 1.º e 2.º Ciclos do Ensino Básico), da profissão docente e das competências necessárias para ser professor de 1.º Ciclo do Ensino Básico e de Ensino Básico em Educação Visual e Tecnológica? E que representações têm do modo como se aprende a ser professor de 1.º Ciclo do Ensino Básico e professor de Ensino Básico em Educação Visual e Tecnológica? Na tarefa que nos propusemos, foi nossa pretensão dar respostas coerentes à problemática e atingir os objetivos traçados. A escolha dos colaboradores do estudo não foi uma escolha aleatória, uma vez que se tiveram em consideração alguns critérios de seleção, a saber: serem alunos da formação inicial da Formação Inicial, Profissão Docente e Competências para a Docência 21 Escola Superior de Educação de Bragança; ter-se trabalhado diretamente com os formandos no estágio pedagógico do 1.º Ciclo do Ensino Básico; pertencerem à mesma turma; serem de um curso de variantes (pelo facto de realizarem dois estágios pedagógicos); estarem no terminus da sua formação, com os dois estágios pedagógicos realizados; e serem de uma turma pouco numerosa. No desenvolvimento da dimensão prática do estudo realizado procurámos inscrever a investigação num modelo de investigação qualitativa, quer porque nos procedimentos de recolha da informação e análise se valorizou mais o qualitativo do que o quantitativo, quer pela natureza dos objetivos, que se incluíram numa perspetiva de compreensão hermenêutica dos fenómenos (Loureiro, 1997). Para tal, realizou-se uma investigação qualitativa, suportada pela técnica da entrevista para a recolha dos dados, posteriormente submetidos a uma análise de conteúdo. Como resultado da leitura das entrevistas, realizou-se uma análise temática, colocando nos parágrafos, de um ou mais períodos, palavras-chave identificativas de cada temática e respetivo conteúdo (Bardin, 1995). Os parágrafos foram reagrupados, dando origem a temáticas sobre as quais se pretendeu refletir no presente texto. Formação inicial de professores A formação inicial é, por excelência, o período de iniciação do futuro profissional. O formando experimenta aí a primeira etapa referida em vários estudos como sendo um ritual de passagem de aluno a professor (Formosinho, 2001; Ralha-Simões, 1995). É um momento descrito por sentimentos contraditórios, onde se incorporam as representações pré-existentes do que é 22 Formação, Trabalho e Aprendizagem ser-se professor e a realidade que se observa diretamente. Esta tarefa não é fácil porque a «formação de professores é um terreno atravessado por clivagens ideológicas que vão determinar não só as condicionantes institucionais que o contextualizam, mas que influenciam decisivamente até o próprio conhecimento científico a que recorrem» (A. Estrela, cit. por Ralha-Simões, 1995, p. 62). Sobre a formação inicial de professores considera-se que esta deve manter um equilíbrio entre os aspetos técnicos e as finalidades sociais a que essa formação tem de dar resposta – a Educação. Somos conscientes: (i) dos consensos e desacordos sobre a importância da formação inicial como forma de preparação do futuro professor; (ii) de que o estudante da profissão já tem «uma imagem consolidada do que é ser aluno e também do que é ser professor», uma vez que, enquanto aluno, teve a oportunidade de observar «vários professores diariamente», imitando-os e moldando-se a eles «em atividades de role play espontâneo» (Formosinho, 2001, p. 50); e (iii) de que a auto-perceção da competência do futuro professor está ligada às «próprias conceptualizações» construídas ao longo da «sua história pessoal, anterior, contemporânea e ulterior a essa etapa da formação» (Ralha-Simões, 1995, p. 211). Tida, então, por uma preparação formal e intencional, a fase da formação inicial, é vivida numa instituição de formação de professores, onde o futuro professor assimila conhecimentos pedagógicos e onde começa por realizar as suas práticas de ensino (Marcelo García, 1999), apresentando-se como o primeiro contacto com os saberes profissionais e a realidade educativa. As instituições de formação ao assumirem o processo formativo terão de ter em conta a complexa realidade que envolve a formação de professores, que foi sendo perspetivada ao longo do tempo e sustentada por diversas correntes educa- Formação Inicial, Profissão Docente e Competências para a Docência 23 cionais que, de uma ou outra forma, procuraram estabelecer as competências necessárias para se ser professor e, concomitantemente, que estratégias e objetivos deveriam estar subjacentes à formação. O grande objetivo político do sistema de formação de professores é que esta contribua para uma melhoria da qualidade de ensino e das aprendizagens dos alunos. Esta melhoria deve provir da contínua capacitação profissional dos professores ao longo da vida, para que possam atuar, sempre numa atitude reflexiva e investigativa, como profissionais da mudança, capazes de gerir uma escola autónoma e o respetivo território educativo onde interagem (Campos, 2002). Decorre de uma primeira análise que a formação inicial de professores tem legislação enquadradora que determina os responsáveis desta formação, e certifica os parâmetros quantitativos que asseguram o equilíbrio entre as diferentes componentes, os meios de acesso, bem como o grau académico que habilita para a docência (Campos, 2003). São apresentadas algumas fragilidades encontradas na formação inicial, nomeadamente: uma rotinização de estratégias na preparação de professores, que inibe o desenvolvimento da inovação educacional; uma incapacidade de se adaptar às mudanças operadas pela sociedade e pela escola, nos últimos anos; práticas de formação desfasadas que não encontram estratégias que possibilitem a articulação entre a teoria e a prática; e dificuldade de se articular com escolas, onde os futuros professores vão trabalhar. Destes aspetos lacunares sobressai a valorização que as instituições formadoras continuam a fazer dos modelos clássicos de formação, privilegiem eles uma visão mais académica ou mais técnica da formação de professores. Aponta-se também no sentido de uma (re)concetualização da formação inicial de professores, que valorize a construção de competências nas dimensões aponta- 24 Formação, Trabalho e Aprendizagem das pelo Perfil Geral de Desempenho Docente (Decreto-Lei n.º 240/2001), centrando essa construção na investigação a realizar sobre a ação profissional. Assim, são consideradas como alicerces para a construção de um projeto de formação as competências evidenciadas no Perfil Geral de Desempenho Docente, definidas pelo extinto INAFOP,1 bem como as apresentadas por Perrenoud (2000) para a formação contínua de professores. Criar um projeto de formação inicial, em diálogo com as exigências sociais da profissão, remete para as palavras de Alonso (1988), ao referir que o «conhecimento (cultura) não é estático, acabado, perene, uniforme, muito pelo contrário, cada vez mais o conhecimento é algo aberto, provisional, mutável, diverso e em permanente reconstrução» e não podemos olhar para os professores que estamos a formar como «indivíduos passivos, recetáculos vazios, seres sem experiência, mas [como] pessoas em crescimento e, portanto, ativos, criativos, com experiência e individualidade próprias» (p. 57). Pensou-se, também, problematizar a noção de formação de professores no sentido de perceber se os princípios que lhe estão subjacentes se comprometem com a ideia explorada sobre o que é ser um professor competente. Neste sentido, surgem algumas reflexões que ajudaram a entender a importância da formação inicial na construção de competências profissionais para a docência. Ressalva-se, neste estudo, que a formação inicial não deve ser considerada como um momento estático na construção do conhecimento profissional, uma vez que se corrobora a opinião de Rodrigues e Esteves (1993) quando atestam que «a formação não se esgota na formação inicial» (p. 41). (1) INAFOP (Instituto Nacional de Acreditação da Formação de Professores). João Formosinho • Joaquim Machado • Elza Mesquita Formação, trabalho e aprendizagem João Formosinho é professor catedrático aposentado da Universidade do Minho e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa. Foi Presidente do Conselho Científico-Pedagógico da Formação Contínua de Professores. Tem publicações nas áreas da formação de professores, administração educacional, currículo e educação básica. Joaquim Machado é professor convidado da Universidade Católica Portuguesa. Tem publicações nas áreas da utopia e do imaginário educacional, das políticas educativas, da formação de professores, da pedagogia e da organização e administração de escolas. Elza Mesquita é professora adjunta do Instituto Politécnico de Bragança. Tem publicações nas áreas da formação de professores, da supervisão pedagógica e da literatura para a infância. Este livro debruça-se sobre a relação entre a formação, o trabalho e a aprendizagem profissional, pondo em evidência a tensão entre uma tradição escolar, construída enquanto instituição de ensino coletivo, e a procura de inovação nas práticas docentes, reduzidas frequentemente a normas de uma pedagogia burocrática que privilegia a pedagogia da transmissão em detrimento da pedagogia da participação e da descoberta. Representa, assim, uma contribuição sobre o modo de aprender, o modo de interagir e o modo de colaborar. Formação, trabalho e aprendizagem Tradição e inovação nas práticas docentes Formação, trabalho e aprendizagem Tradição e inovação nas práticas docentes 496 ISBN 978-972-618-792-9 9 789726 187929 EDIÇÕES SÍLABO