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AS DIFERENTES IMAGENS CONSTRUÍDAS POR FERNANDO HENRIQUE
CARDOSO ENQUANTO PRESIDENTE
1
Ariádne Castilho de Frêitas
GELP - UNITAU
RESUMO: Sob a ótica da Análise do Discurso de linha francesa, principalmente das
formações imaginárias, esta pesquisa estuda duas elocuções de Fernando Henrique
Cardoso enquanto presidente da república. O objetivo é contribuir para a reflexão
sobre o pronunciamento político como material alternativo para o ensino em língua
materna e analisá-lo enquanto texto argumentativo. Discutiu-se a teoria que embasa o
trabalho, levou-se em consideração o contexto sócio-histórico brasileiro, com leitura de
obras sobre história e política em geral; caracterizou-se o locutor e os interlocutores.
Os recortes discursivos, porção indissociável de linguagem-e-situação, foram
identificados e numerados para a verificação e análise de algumas das diversas
imagens que o locutor faz de si mesmo. Pesquisou-se, ainda, como ele se representa
e se assume enquanto presidente. Percebeu-se a construção da imagem de um
presidente ora democrata, ora “salvador da pátria”, ora herói; quanto às diferentes
representações de FHC, observou-se que as marcas de primeira pessoa do singular
predominam. Defende-se que seu dizer é heterogêneo, argumentativo e
extremamente sedutor; por outro lado, cria sentidos nem sempre desejados por FHC.
O estudo lança, ainda, um olhar sobre o ensino da Língua Portuguesa e reflete sobre a
situação da leitura na escola.
Palavras-chave: Discurso Político; Heterogeneidade; Imaginário; Argumentação;
Sedução.
1. Introdução
No Brasil, em outubro deste ano de 2010 haverá eleições, dentre
outras, para presidente da república. Os diferentes partidos políticos mobilizamse para indicar os nomes que concorrerão a uma vaga. Algumas pessoas já se
pronunciam; outras aguardam a abertura da corrida ao cargo presidencial para
se manifestarem. Como cidadã, tais pronunciamentos políticos interessam-nos;
já como professora de Língua Portuguesa, nossa observação está no fato de
que muitos professores não propõem a leitura de pronunciamentos políticos, e
isso poderia ser explicado pela falta de interesse dos brasileiros em relação à
política. Além disso, deparamo-nos com inúmeros problemas, principalmente o
que se refere ao trabalho com textos: eles são usados como pretexto para o
ensino da gramática, do vocabulário e da ortografia; a leitura do professor
predomina; o aluno, muitas vezes, não é visto como produtor de sentidos, pois
1
Este artigo é recorte de nossa Dissertação de Mestrado com o título O canto polifônica da sedução no
discurso político, defendida no PPGLA - UNITAU, sob a orientação da Profa Dra Maria José Rodrigues
Faria Coracini.
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aceita a leitura imposta pelo professor, o que reflete a uniformidade pretendida
pela escola.
A existência desses fatos é preocupante, pois o aluno deve ser
sensibilizado para ler criticamente os diversos tipos de mensagem, e, dentre
elas, o pronunciamento político, que apresenta rico material para ser discutido.
O trabalho com esse gênero discursivo é importante para o exercício da
cidadania, para que o aluno compreenda as diferentes posturas públicas e
assuma uma posição que lhe permita contribuir para a construção da história
de seu país. O pronunciamento político é argumentativo, heterogêneo e se
abre à disseminação de sentidos. Por isso, as pessoas devem ter um
posicionamento mais crítico, observar o que está por detrás do que é dito, ou
até mesmo do que não é dito, para não serem enganadas por alguns políticos.
Resolvemos analisar o discurso político à luz da Análise do Discurso de
linha francesa na medida em que esperamos contribuir para a sensibilização do
professor e do aluno no que diz respeito à leitura desse gênero discursivo.
Estabelecemos os seguintes objetivos para o trabalho: contribuir para a
reflexão sobre o pronunciamento político como material alternativo para o
ensino em língua materna e analisá-lo enquanto texto argumentativo e sedutor.
2. Metodologia
Escolhemos duas elocuções proferidas em 1995 por Fernando Henrique
Cardoso, no início de seu primeiro mandato como presidente da república. Os
pronunciamentos são:
Quadro 1 - Identificação das elocuções
N
o
Onde?
Quando?
Para quem?
O quê?
1
Brasília
3/2/95
Povo brasileiro
Queda da inflação, reforma constitucional
2
Ceará
24/3/95
Povo brasileiro
Aposentadoria, salário mínimo, reforma agrária
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Discutimos
as
noções
teóricas
que
embasaram
o
trabalho,
consideramos o contexto sócio-histórico (abordamos assuntos determinantes
para a manifestação lingüística como a inflação, a educação, a saúde, a
violência, o trabalho, o salário e a concentração de renda); o locutor: o então
presidente Fernando Henrique Cardoso, vencedor das eleições logo no
primeiro turno com quase 55% dos votos, sociólogo, professor universitário da
USP, aposentado compulsoriamente em 1969, militante da oposição ao regime
militar e os interlocutores: o povo brasileiro, difícil de ser caracterizado, tendo
em vista a heterogeneidade que o constitui.
Identificamos seqüências discursivas, definidas por Courtine (1981, p.
25) como “seqüências orais ou escritas de dimensão superior à frase”, que,
uma vez delimitadas, precisaram ser organizadas no interior do corpus.
Buscamos em Orlandi (1986) o elemento organizador – o recorte discursivo;
este pressupõe o gesto do analista do discurso que, ao recortar uma seqüência
discursiva, recorta uma porção indissociável de linguagem-e-situação. Cada
recorte discursivo foi numerado em continuidade e seguido de outro número,
que indica a que pronunciamento se refere. Reconhecemos as diferentes
representações do sujeito nos pronunciamentos e, finalmente, mostramos
como o sujeito do discurso se serve da polifonia para obter a adesão do
interlocutor, verificando tanto a eficácia dos argumentos analisados quanto
alguns sentidos por eles instaurados.
3. Principais conceitos e refenciais teóricos
Buscamos alguns aspectos da Análise do Discurso; primeiramente seu
objeto. A AD tem por objeto específico o discurso e não a língua. Sua unidade
de análise é o texto e não a frase, sendo texto aqui considerado "não em seu
aspecto extensional, mas qualitativo, como unidade significativa da linguagem
em uso, logo unidade de natureza pragmática" (ORLANDI, 1986, p. 7).
Em seguida, ao tratarmos do discurso, partimos da definição de discurso
apresentada por Coracini (1991a, p.337), que o considera como "o processo
em que o lingüístico e o social se articulam, objeto ao mesmo tempo social e
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histórico onde se confrontam sujeito e sistema". Essa definição contempla a
materialidade discursiva, vinculada às suas condições de produção e parte da
noção de um sujeito heterogêneo, múltiplo, determinado pela ideologia, ao
mesmo tempo em que tem a ilusão de ser o "criador onipotente de seu
discurso" (ORLANDI, 1986, p.118-119). A partir da visão de discurso na
perspectiva da AD, redefine-se o conceito de sujeito, que deixa de ser aquele
que tem o controle intencional e consciente de seu dizer. Ele passa a ser visto
como descentrado, descontínuo, determinado ideologicamente por formações
discursivas que o precedem, dentro das quais se constituem as diferentes
posições de sujeito, assim como os diferentes sentidos.
Ao construir o seu dizer, o sujeito incorpora alguns enunciados préconstruídos, que provocam os Esquecimentos 1 e 2 de que nos falam Pêcheux
e Fuchs (1975). Pelo Esquecimento n. 1, o sujeito tem a ilusão de ser a origem
do que diz, a fonte exclusiva do sentido do seu discurso; pelo n. 2, há a ilusão
do sujeito que o seu discurso reflete o conhecimento objetivo que ele tem da
realidade e o que ele diz tem apenas um significado.
Buscamos em Pêcheux (1993) as formações imaginárias; ao abordar
as condições de produção, ele faz uma esquematização, apresentando a
vantagem de colocar em evidência os protagonistas do discurso, bem como
seu referente. Trata, ainda, das condições prévias sustentadoras da produção
do discurso, que envolvem sempre a questão do imaginário; dentre elas, a
imagem que o locutor faz de si mesmo e do destinatário, bem como a imagem
que o locutor pressupõe que o ouvinte faz dele.
Quanto à heterogeneidade, analisamos a partir das considerações de
Authier-Revuz (1982, 1990). A autora parte da perspectiva social da língua e
propõe a visão da psicanálise, da leitura lacaniana de Freud, que leva à dupla
concepção de uma fala fundamentalmente heterogênea, em que se escuta a
polifonia não intencional de todo discurso. A pesquisadora cita Freud, lembra
que o sujeito "não é mais senhor de sua morada" (AUTHIER-REVUZ, 1990,
p.28) e aí é que está a possibilidade de mascaramento. Os "atos falhos", os
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chistes e os sonhos mostram a existência do inconsciente, sobre o qual não
temos controle. A psicanálise contribui para a teoria do sujeito da AD, pois
assume o sujeito na sua divisão, na sua ilusão. O sujeito é efeito de linguagem,
visto como uma representação dependente das formas de linguagem por ele
enunciadas e que, na verdade, o enunciam.
A autora apresenta uma concepção particular de sujeito: a de um sujeito
descentrado e interpelado pelo inconsciente que, ao mesmo tempo se constitui
como sócio-histórico, determinado pela ideologia. Considera teoricamente o
conceito bakhtiniano de dialogismo, afirmando que "todo discurso se encontra
constitutivamente atravessado pelos outros discursos e pelo discurso do Outro"
(AUTHIER-REVUZ, 1982, p.141).2
A partir daí, ela propõe dois tipos de heterogeneidade: a mostrada,
explícita, que trata das manifestações que inscrevem o outro na seqüência do
discurso e alteram sua aparente unicidade, como o discurso direto, o indireto
livre, a ironia, as aspas, as formas de retoque ou glosa; a constitutiva, que não
é marcada na superfície, mas possível de ser definida pela interdiscursividade,
pela relação que todo discurso mantém com outros discursos. A autora assume
que em qualquer discurso, o outro está presente.
Recorremos à argumentação e discutimos os estudos na área da
Retórica Clássica realizados por Aristóteles (1964), apesar de o estranhamento
que isso pode causar à primeira vista. No entanto, devido à sua grande
influência ainda hoje, verificamos o conceito de Retórica e algumas regras a
serem
aplicadas ao se elaborar discursos persuasivos. Aristóteles,
inicialmente, acentua que "a Retórica é a faculdade de ver teoricamente o que,
em cada caso, pode ser capaz de gerar a persuasão" (ARISTÓTELES, 1964, p.
22). Ele mostrou também que, na fala do orador, não é relevante o conteúdo da
mensagem; o que importa é a sua fala como uma forma de ação específica e
2
Tradução nossa, livre. No original: "Tout discours s'avère constitutivement traversé par 'les autres
discours' et 'les discours de l'Autre'”.
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particular de persuadir, já que é pelo discurso que persuadimos, sempre que
queremos demonstrar a verdade ou o que parece ser a verdade.
Séculos depois, a retórica de Aristóteles foi reformulada por Perelmam e
Tyteca (1996). De acordo com esses dois autores, a argumentação é vista
como a busca da persuasão do alocutário pelo locutor; eles enfatizam
principalmente a noção de auditório, pois é em função dele que qualquer
argumento se desenvolve, sendo o conhecimento de quem se pretende
conquistar a condição primeira para qualquer argumentação eficaz.
Em obra anterior, Perelman (1988) afirma que o orador, se deseja agir
eficazmente por meio de um discurso, deve se adaptar a seu auditório, de
quem possui uma imagem prévia. Assim, é ao auditório que cabe o papel
principal de determinar a qualidade da argumentação e o comportamento dos
oradores. A variedade de auditório é quase infinita; por tal motivo, o orador vêse confrontado com inumeráveis problemas; por isso, o que se busca é uma
técnica argumentativa que se imporia a todos os auditórios indiferentemente.
Ainda ao estudar os recursos argumentativos, procuramos em Koch
(1987) alguns deles, presentes no nível linguístico fundamental, pois são
constitutivos de sentido. A pesquisadora cita os indicadores modais, como
verbos,
advérbios,
expressões,
torneios
sintáticos;
os
operadores
argumentativos, os índices de polifonia, as pressuposições, os indicadores
ilocucionários, os advérbios e expressões atitudinais e os tempos verbais como
recursos de argumentação.
Como nossa proposta é a análise de dois pronunciamentos de Fernando
Henrique Cardoso enquanto presidente da república, consideramos necessário
explicitar o que se entende por discurso político. Carmagnani (1996, p.292),
para caracterizá-lo, apresenta um enunciado abstrato: "X (o político) faz Y
(eleitor, cidadão) acreditar em N (suas palavras) para obter Z (voto, apoio)". Por
meio da linguagem, o político serve-se do imaginário e tenta construir no
interlocutor uma imagem de si próprio, imagem esta que ele acredita
corresponder àquela que o povo deseja. Para tal construção, o locutor, como
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recurso de persuasão, traz para o seu dizer vozes de outros discursos, tais
como o pedagógico, o religioso, o científico, que acabam servindo de
argumentos favoráveis à sua tese.
Já Osakabe (2002), na sua leitura sobre discurso político, classifica-o em
duas categorias: o Discurso Político-Teórico e o Discurso Político-Militante.
Explica que o primeiro fica no plano da convicção; o segundo visa alcançar no
ouvinte não simplesmente a adesão a uma posição, mas ainda sua
participação ativa nas tarefas necessárias para a afirmação dessa posição;
utiliza-se da argumentação para a obtenção final de um resultado que,
ultrapassando o nível da convicção, atinge o nível da ação, persuadindo,
assim, o interlocutor.
Também Coracini (1991b) trata do discurso político numa visão
argumentativa, e, portanto, subjetiva. Aproxima o Discurso Político de
Plataforma - uma modalidade do Discurso Político-Militante - do discurso de
propaganda em geral, cujo único objetivo é o de vender o produto, nesse caso,
vender as idéias. A autora afirma que a intenção do político é persuadir o
interlocutor, desejando atingir o nível da ação.
Finalmente, Dugaich (1993), ao estudar o Discurso Político, investiga as
características do pronunciamento de posse de um presidente norte-americano
a partir das condições de produção que o constituem. A autora afirma que, uma
vez legitimado pela instituição, o locutor, homem público eleito, difere do locutor
candidato, pois passa a enunciar do lugar do poder; seu campo de ação é
muito mais abrangente, mas sempre com o objetivo de obter a adesão do
interlocutor à sua proposta.
Por acreditarmos que o homem público, quando se dirige ao seu ouvinte,
confere à fala uma força persuasiva, instauradora de um processo de fascínio
extremamente eficaz, estudamos ainda a sedução, considerando-a como o
encantamento, o fascínio que uma pessoa exerce sobre outra. Assim, seduzir
seria atrair alguém a um encantamento. Entendemos que o sedutor se serve da
dissimulação, recobrindo a armadilha com um aspecto inocente, principalmente
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por meio de promessas que, por serem plausíveis, merecem a confiança dos
interlocutores. Apesar de planejadas, algumas dessas estratégias podem
provocar alguns outros sentidos não previstos pelo sedutor.
4. Análise do corpus e discussão dos resultados
A partir dessas afirmações teóricas, analisamos dois pronunciamentos
de FHC, fazendo emergir a construção de suas diversas imagens por meio de
algumas técnicas argumentativas utilizadas pelo locutor para persuadir seus
interlocutores.
Servimo-nos de pronunciamentos dirigidos ao povo brasileiro, em
diversas datas, lugares e situações de produção. Acreditamos que, para
elaborar seu dizer, o homem público seleciona os dados tendo em vista as
diferentes condições de produção de que fazem parte os vários ouvintes. Tal
situação permite o embricamento de inúmeras vozes que se cruzam,
entretecendo o fio do discurso. A partir dos pressupostos teóricos, iniciou-se a
análise dos pronunciamentos, nos quais se verificou a construção das
diferentes imagens que perpassam os enunciados do então presidente.
Examinamos a voz do sujeito da comunicação, fizemos a análise das
formações imaginárias do locutor, verificamos como ele se representa e como
se assume, bem como observamos alguns sentidos provocados por essa voz.
Nesta parte, retomamos Pêcheux (1993) que afirma que todo processo
discursivo supõe a existência das formações imaginárias. Dentre elas, optamos
por uma expressão para a análise do sujeito FHC: - I
do lugar de
A
A
(A). Trata-se da imagem
para o sujeito colocado em (A), e a questão implícita cuja
"resposta" subentende a formação imaginária correspondente é: “Quem sou eu
para lhe falar assim?” (PÊCHEUX, 1993, p. 83). O exame de tal pergunta
possibilitou-nos a identificação de diferentes imagens que compõem as
diversas representações da figura de FHC, dirigidas aos interlocutores.
Encontramos, dentre elas, a construção da imagem de um presidente
democrata, com um poder legítimo que lhe foi dado pelo voto. Por meio dessa
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imagem, FHC representa o desejo de ir ao encontro do imaginário de grande
parte do povo brasileiro, que acredita na democracia e em suas instituições.
Ele insiste nessa imagem, à medida que se qualifica como autêntico
representante do povo, apoiado por este, pelos partidos e pelo Congresso. É o
que se infere em:
(1) Agradeço sobretudo à força que o povo nos deu
para, chegando ao governo, respeitarmos o que o
povo quer (E 2).3
(2) Isso mostra que o governo tem o apoio dos partidos
que formam a maioria. Governará com eles. (E 1)
Há ainda a construção de outra imagem, a de "salvador da pátria", que
propõe as reformas, promete salvar o povo da situação indigna em que este se
encontra, comprometendo-se ainda com a modernização. É o presidente que
mostra a morte dos problemas passados e o nascimento um Brasil novo.
Vejamos:
(3) ... o Senado aprovou o projeto da lei de concessões,
que eu apresentei há quatro anos. (E 1)
(4) É importante a gente olhar para trás e ver como o
Brasil melhorou nos últimos meses. É isso que nos
dá confiança, dá ânimo para continuar fazendo tudo
o que precisa ser feito para o Brasil melhorar ainda
mais. (E 1)
(5) A reforma agrária será feita já e ela já começou, para
o bem do Brasil e para o bem de todos nós. (E 2)
Esta imagem de salvador é reforçada pelo emprego de alguns verbos e
locuções verbais: "apresentei", "continuar fazendo", ações essas que passam a
imagem de um homem ativo, reformador, que prometeu em campanha e que
realizou suas promessas após a eleição.
Em outros momentos, emerge a imagem do presidente que acredita no
mercado, que se abre à privatização:
3
O corpus da dissertação consta de 125 recortes discursivos, mas neste artigo somente alguns serão
citados. E1 significa a Elocução 1 de FHC, de onde foi retirado o recorte; E2, a Elocução 2.
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(6) Com a transformação que já fiz nos mecanismos das
privatizações, abre-se um enorme espaço para a
modificação do Estado brasileiro. (E 1).
Observa-se que FHC constrói uma imagem de valorização de si mesmo,
imaginando-se como alguém que resolve os problemas. O verbo “fazer” e o
substantivo “privatizações” criam o sentido de um presidente atuante, moderno,
que se preocupa com o bem do país sob sua responsabilidade.
A imagem do verdadeiro político proposta por Platão (1980): aquele que
é sensato, nada fazendo em oposição às leis e contribuindo para que todos
sejam felizes, é outra das imagens construídas por FHC. Com base no recorte
apresentado a seguir, consideramos que o locutor presidencial deseja
aproximar-se dela:
(7) Eu quero que o governo, o Congresso e a Justiça
trabalhem em harmonia para que o Brasil ganhe (E
1).
Verifica-se o caráter forte de FHC, pelo emprego do pronome de 1a
pessoa e do verbo “querer”. Assim, ele comanda a todos, fazendo o que
considera melhor – a união dos três Poderes – para a felicidade da nação. Há a
imagem do político que pretende a concórdia para que o povo ganhe com isso
e seja feliz. Fica claro que o presidente se identifica com o ideal político
proposto por Platão, e é assim que deseja ser visto por seus interlocutores.
Considerando essa imagem construída, propomos que a questão de
Pêcheux “Quem sou eu para lhe falar assim?”, deva, na elocução de FHC, ser
reformulada para: “Qual imagem de presidente os brasileiros desejam
atualmente?” É a partir daí que o simulacro de imagem de presidente, de
político ideal se constrói; a imagem que o locutor constrói para si é construída
sobre a suposta imagem que os brasileiros têm e desejam de um bom
presidente.
Quanto às diferentes representações do locutor, observamos que o
então presidente se representa enquanto “eu”, “nós”, “o governo”, “o
presidente”. As marcas de primeira pessoa predominam quando ele se dirige
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ao povo, centralizando seu dizer em si mesmo, reduzindo a possibilidade de
dúvidas em relação ao que afirma:
(8)
... o projeto da lei de concessões que eu apresentei
há quatro anos (E 1).
(9)
Quando veio um projeto demagógico, que não
tinha fundos para pagá-lo, eu vetei. E agora eu
mandei outro, correto, com os fundos... (E 2).
(10) Eu tomei uma decisão difícil. Eu resolvi assinar o
projeto que anistia os deputados e senadores
acusados de fazer mau uso da gráfica do Senado...
(E 2)
Nesses recortes, apresenta-se como pessoa autoritária, tradicional, que
lembra o velho político falando: “eu vetei”, “eu mandei”, enfim “eu fiz”. Há o
emprego da primeira pessoa do singular, que pode levar a um sentido talvez
não desejado pelo locutor: o de um homem que detém o poder, que realiza
sozinho, mesmo que o povo não concorde com suas ações.
Já em outro segmento, ao fazer referência ao passado e narrar fatos de
sua vida, leva o interlocutor a vê-lo como homem muito experiente,
principalmente pela idade:
(11) Antes que muitos de vocês tivessem nascido, eu
lutava contra o regime autoritário no Brasil e pedia
liberdade. (E 2)
(12) Nós temos compromisso com a história. Temos
compromisso de vida e de luta com esse país. (E
2)
É possível que, conscientemente, este político se represente como herói,
homem que veio salvar o Brasil. O governo militar considerou FHC um homem
tão perigoso que cassou seus direitos políticos; mas, como presidente, ele
restaurou a liberdade e a democracia no país. Seu passado reveste-o da aura
de herói, garantindo-lhe, hoje, autoridade e reconhecimento.
Em outros recortes, FHC usa o pronome “nós” para se referir a ele –
presidente – e ao povo, ou a ele e mais alguém, que pode ser a classe
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empresarial ou outro dirigente político. Trata-se de mais um recurso
argumentativo: o presidente aproxima-se dos interlocutores, chama-os para o
seu discurso, envolve-os numa tentativa de persuadi-los. É o que se vê em:
(13) Juntos, cada um de vocês e o governo
continuaremos a batalha contra a inflação do dia a
dia para impedir que ela volte (E 1).
(14) Vamos continuar fazendo o trabalho junto com o
ministro da Agricultura, José Eduardo, que,
indiferente a toda aquela zoeira que possam fazer
aqueles que não têm força nenhuma. A força vem
da mão do povo (E 2).
Essa estratégia constrói no povo uma ilusão de participação nas ações
do presidente. O grau de envolvimento do ouvinte é tão grande que ele ser
conduzido,
facilmente,
à
impossibilidade
de
raciocinar,
aceitando
passivamente, sobretudo se for pouco esclarecido, a proposta do locutor, a
quem reconhece o poder da palavra final, da palavra verdadeira.
O locutor constrói, de forma consciente, imagens ilusórias, mas no
recorte (9), por exemplo, o emprego dos verbos em primeira pessoa do singular
“vetei” e “mandei”, podem, inconscientemente, levar à criação de sentidos não
desejados, os quais, certamente, irão indispor FHC junto aos seus
interlocutores que questionam seu poder centralizador.
5. Considerações Finais
A análise desses recortes de elocuções de FHC mostrou-nos as
imagens marcantes do presidente, as quais, em determinados instantes se
completam, em outros se contradizem, apesar de compartilharem do mesmo
espaço discursivo. Em todos os pronunciamentos, o locutor pretendeu obter a
adesão dos interlocutores e, ao tomar a palavra, ele o fez não só como
presidente, mas também como sujeito perpassado por uma ideologia. Essa
tomada
da
palavra
manifesta-se
por
meio
de
diversas
formas
de
representação, de modo que o sujeito do discurso encontra-se bastante
disperso e fragmentado: é o presidente ora democrata, ora "salvador da pátria",
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ora autoritário. Ele traz vozes que produzem sentidos - nem sempre
pretendidos pelo locutor - de promessa, de democracia, de justiça, de
igualdade.
Em nossa análise, trabalhamos com um tipo de discurso político
necessário para a preservação de um sistema. A partir daí, abordamos a
sedução provocada pelas elocuções de FHC: seu dizer soa como o canto de
uma sereia e, ao ouvi-lo, o interlocutor encanta-se por ele, nele acreditando
sem questionamento, sem desconfiança. Fato que comprovou tal sedução foi a
reeleição de FHC, em 1988, com mais de 50% dos votos, em primeiro turno.
Finalmente, lançamos um olhar sobre o ensino da Língua Portuguesa,
mais especificamente sobre a situação da leitura na escola, sem a pretensão
de propor mudanças na metodologia. Sabemos que a sala de aula tem como
característica a homogeneização, principalmente nas aulas de leitura, já que
muitos professores esperam que todos os alunos cheguem a uma única
resposta, depois de lerem e de interpretarem um texto.
É muito importante a contribuição do aluno-leitor na constituição do
significado, visto que um texto possibilita mais de um sentido, sentidos esses
que dependem daquele que lê. Assim, é preciso que se conceda espaço
próprio para que o aluno possa se posicionar como ser pensante e crítico no
mundo. O professor não pode mais ser o dono do saber. Ele deve, sim, criar
condições de discussão para que o aluno se perceba como sujeito, como
enunciador, para que possa exercer sua capacidade de questionar e refutar.
Queremos, por último, lembrar que se faz necessário, hoje, que a escola
não abafe as diversas vozes dos alunos (se é que eles têm vozes!). É preciso
abrir espaço para a produção de diferentes sentidos, para que cada um possa
produzir sentido(s) a partir de suas experiências, crenças e valores e para que
não se aceite passivamente um texto ou a leitura do professor como verdade
irrefutável. Se essa sugestão for, pelo menos, questionada pelos professores,
teremos dado um pequeno passo que contribuirá para as tão necessárias
reflexões sobre a leitura em sala de aula.
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Referências
ARISTÓTELES. Arte Retórica. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1964.
AUTHIER-REVUZ,J. Hétérogénéité montrée et hétérogénéité constitutive:
éleménts pour une approche de l'autre dans le discours. DRLAV: Revue de
Linguistique, Centre de Recherches de L'Université de Paris. n.26, p. 91151,1982.
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