71 AS DIFERENTES IMAGENS CONSTRUÍDAS POR FERNANDO HENRIQUE CARDOSO ENQUANTO PRESIDENTE 1 Ariádne Castilho de Frêitas GELP - UNITAU RESUMO: Sob a ótica da Análise do Discurso de linha francesa, principalmente das formações imaginárias, esta pesquisa estuda duas elocuções de Fernando Henrique Cardoso enquanto presidente da república. O objetivo é contribuir para a reflexão sobre o pronunciamento político como material alternativo para o ensino em língua materna e analisá-lo enquanto texto argumentativo. Discutiu-se a teoria que embasa o trabalho, levou-se em consideração o contexto sócio-histórico brasileiro, com leitura de obras sobre história e política em geral; caracterizou-se o locutor e os interlocutores. Os recortes discursivos, porção indissociável de linguagem-e-situação, foram identificados e numerados para a verificação e análise de algumas das diversas imagens que o locutor faz de si mesmo. Pesquisou-se, ainda, como ele se representa e se assume enquanto presidente. Percebeu-se a construção da imagem de um presidente ora democrata, ora “salvador da pátria”, ora herói; quanto às diferentes representações de FHC, observou-se que as marcas de primeira pessoa do singular predominam. Defende-se que seu dizer é heterogêneo, argumentativo e extremamente sedutor; por outro lado, cria sentidos nem sempre desejados por FHC. O estudo lança, ainda, um olhar sobre o ensino da Língua Portuguesa e reflete sobre a situação da leitura na escola. Palavras-chave: Discurso Político; Heterogeneidade; Imaginário; Argumentação; Sedução. 1. Introdução No Brasil, em outubro deste ano de 2010 haverá eleições, dentre outras, para presidente da república. Os diferentes partidos políticos mobilizamse para indicar os nomes que concorrerão a uma vaga. Algumas pessoas já se pronunciam; outras aguardam a abertura da corrida ao cargo presidencial para se manifestarem. Como cidadã, tais pronunciamentos políticos interessam-nos; já como professora de Língua Portuguesa, nossa observação está no fato de que muitos professores não propõem a leitura de pronunciamentos políticos, e isso poderia ser explicado pela falta de interesse dos brasileiros em relação à política. Além disso, deparamo-nos com inúmeros problemas, principalmente o que se refere ao trabalho com textos: eles são usados como pretexto para o ensino da gramática, do vocabulário e da ortografia; a leitura do professor predomina; o aluno, muitas vezes, não é visto como produtor de sentidos, pois 1 Este artigo é recorte de nossa Dissertação de Mestrado com o título O canto polifônica da sedução no discurso político, defendida no PPGLA - UNITAU, sob a orientação da Profa Dra Maria José Rodrigues Faria Coracini. ___________________________________________________________________________________ o Anais do 6 Seminário de Pesquisas em Lingüística Aplicada (SePLA), Taubaté, 2010. ISSN: 1982-8071, CD-Rom. 72 aceita a leitura imposta pelo professor, o que reflete a uniformidade pretendida pela escola. A existência desses fatos é preocupante, pois o aluno deve ser sensibilizado para ler criticamente os diversos tipos de mensagem, e, dentre elas, o pronunciamento político, que apresenta rico material para ser discutido. O trabalho com esse gênero discursivo é importante para o exercício da cidadania, para que o aluno compreenda as diferentes posturas públicas e assuma uma posição que lhe permita contribuir para a construção da história de seu país. O pronunciamento político é argumentativo, heterogêneo e se abre à disseminação de sentidos. Por isso, as pessoas devem ter um posicionamento mais crítico, observar o que está por detrás do que é dito, ou até mesmo do que não é dito, para não serem enganadas por alguns políticos. Resolvemos analisar o discurso político à luz da Análise do Discurso de linha francesa na medida em que esperamos contribuir para a sensibilização do professor e do aluno no que diz respeito à leitura desse gênero discursivo. Estabelecemos os seguintes objetivos para o trabalho: contribuir para a reflexão sobre o pronunciamento político como material alternativo para o ensino em língua materna e analisá-lo enquanto texto argumentativo e sedutor. 2. Metodologia Escolhemos duas elocuções proferidas em 1995 por Fernando Henrique Cardoso, no início de seu primeiro mandato como presidente da república. Os pronunciamentos são: Quadro 1 - Identificação das elocuções N o Onde? Quando? Para quem? O quê? 1 Brasília 3/2/95 Povo brasileiro Queda da inflação, reforma constitucional 2 Ceará 24/3/95 Povo brasileiro Aposentadoria, salário mínimo, reforma agrária ___________________________________________________________________________________ o Anais do 6 Seminário de Pesquisas em Lingüística Aplicada (SePLA), Taubaté, 2010. ISSN: 1982-8071, CD-Rom. 73 Discutimos as noções teóricas que embasaram o trabalho, consideramos o contexto sócio-histórico (abordamos assuntos determinantes para a manifestação lingüística como a inflação, a educação, a saúde, a violência, o trabalho, o salário e a concentração de renda); o locutor: o então presidente Fernando Henrique Cardoso, vencedor das eleições logo no primeiro turno com quase 55% dos votos, sociólogo, professor universitário da USP, aposentado compulsoriamente em 1969, militante da oposição ao regime militar e os interlocutores: o povo brasileiro, difícil de ser caracterizado, tendo em vista a heterogeneidade que o constitui. Identificamos seqüências discursivas, definidas por Courtine (1981, p. 25) como “seqüências orais ou escritas de dimensão superior à frase”, que, uma vez delimitadas, precisaram ser organizadas no interior do corpus. Buscamos em Orlandi (1986) o elemento organizador – o recorte discursivo; este pressupõe o gesto do analista do discurso que, ao recortar uma seqüência discursiva, recorta uma porção indissociável de linguagem-e-situação. Cada recorte discursivo foi numerado em continuidade e seguido de outro número, que indica a que pronunciamento se refere. Reconhecemos as diferentes representações do sujeito nos pronunciamentos e, finalmente, mostramos como o sujeito do discurso se serve da polifonia para obter a adesão do interlocutor, verificando tanto a eficácia dos argumentos analisados quanto alguns sentidos por eles instaurados. 3. Principais conceitos e refenciais teóricos Buscamos alguns aspectos da Análise do Discurso; primeiramente seu objeto. A AD tem por objeto específico o discurso e não a língua. Sua unidade de análise é o texto e não a frase, sendo texto aqui considerado "não em seu aspecto extensional, mas qualitativo, como unidade significativa da linguagem em uso, logo unidade de natureza pragmática" (ORLANDI, 1986, p. 7). Em seguida, ao tratarmos do discurso, partimos da definição de discurso apresentada por Coracini (1991a, p.337), que o considera como "o processo em que o lingüístico e o social se articulam, objeto ao mesmo tempo social e ___________________________________________________________________________________ o Anais do 6 Seminário de Pesquisas em Lingüística Aplicada (SePLA), Taubaté, 2010. ISSN: 1982-8071, CD-Rom. 74 histórico onde se confrontam sujeito e sistema". Essa definição contempla a materialidade discursiva, vinculada às suas condições de produção e parte da noção de um sujeito heterogêneo, múltiplo, determinado pela ideologia, ao mesmo tempo em que tem a ilusão de ser o "criador onipotente de seu discurso" (ORLANDI, 1986, p.118-119). A partir da visão de discurso na perspectiva da AD, redefine-se o conceito de sujeito, que deixa de ser aquele que tem o controle intencional e consciente de seu dizer. Ele passa a ser visto como descentrado, descontínuo, determinado ideologicamente por formações discursivas que o precedem, dentro das quais se constituem as diferentes posições de sujeito, assim como os diferentes sentidos. Ao construir o seu dizer, o sujeito incorpora alguns enunciados préconstruídos, que provocam os Esquecimentos 1 e 2 de que nos falam Pêcheux e Fuchs (1975). Pelo Esquecimento n. 1, o sujeito tem a ilusão de ser a origem do que diz, a fonte exclusiva do sentido do seu discurso; pelo n. 2, há a ilusão do sujeito que o seu discurso reflete o conhecimento objetivo que ele tem da realidade e o que ele diz tem apenas um significado. Buscamos em Pêcheux (1993) as formações imaginárias; ao abordar as condições de produção, ele faz uma esquematização, apresentando a vantagem de colocar em evidência os protagonistas do discurso, bem como seu referente. Trata, ainda, das condições prévias sustentadoras da produção do discurso, que envolvem sempre a questão do imaginário; dentre elas, a imagem que o locutor faz de si mesmo e do destinatário, bem como a imagem que o locutor pressupõe que o ouvinte faz dele. Quanto à heterogeneidade, analisamos a partir das considerações de Authier-Revuz (1982, 1990). A autora parte da perspectiva social da língua e propõe a visão da psicanálise, da leitura lacaniana de Freud, que leva à dupla concepção de uma fala fundamentalmente heterogênea, em que se escuta a polifonia não intencional de todo discurso. A pesquisadora cita Freud, lembra que o sujeito "não é mais senhor de sua morada" (AUTHIER-REVUZ, 1990, p.28) e aí é que está a possibilidade de mascaramento. Os "atos falhos", os ___________________________________________________________________________________ o Anais do 6 Seminário de Pesquisas em Lingüística Aplicada (SePLA), Taubaté, 2010. ISSN: 1982-8071, CD-Rom. 75 chistes e os sonhos mostram a existência do inconsciente, sobre o qual não temos controle. A psicanálise contribui para a teoria do sujeito da AD, pois assume o sujeito na sua divisão, na sua ilusão. O sujeito é efeito de linguagem, visto como uma representação dependente das formas de linguagem por ele enunciadas e que, na verdade, o enunciam. A autora apresenta uma concepção particular de sujeito: a de um sujeito descentrado e interpelado pelo inconsciente que, ao mesmo tempo se constitui como sócio-histórico, determinado pela ideologia. Considera teoricamente o conceito bakhtiniano de dialogismo, afirmando que "todo discurso se encontra constitutivamente atravessado pelos outros discursos e pelo discurso do Outro" (AUTHIER-REVUZ, 1982, p.141).2 A partir daí, ela propõe dois tipos de heterogeneidade: a mostrada, explícita, que trata das manifestações que inscrevem o outro na seqüência do discurso e alteram sua aparente unicidade, como o discurso direto, o indireto livre, a ironia, as aspas, as formas de retoque ou glosa; a constitutiva, que não é marcada na superfície, mas possível de ser definida pela interdiscursividade, pela relação que todo discurso mantém com outros discursos. A autora assume que em qualquer discurso, o outro está presente. Recorremos à argumentação e discutimos os estudos na área da Retórica Clássica realizados por Aristóteles (1964), apesar de o estranhamento que isso pode causar à primeira vista. No entanto, devido à sua grande influência ainda hoje, verificamos o conceito de Retórica e algumas regras a serem aplicadas ao se elaborar discursos persuasivos. Aristóteles, inicialmente, acentua que "a Retórica é a faculdade de ver teoricamente o que, em cada caso, pode ser capaz de gerar a persuasão" (ARISTÓTELES, 1964, p. 22). Ele mostrou também que, na fala do orador, não é relevante o conteúdo da mensagem; o que importa é a sua fala como uma forma de ação específica e 2 Tradução nossa, livre. No original: "Tout discours s'avère constitutivement traversé par 'les autres discours' et 'les discours de l'Autre'”. ___________________________________________________________________________________ o Anais do 6 Seminário de Pesquisas em Lingüística Aplicada (SePLA), Taubaté, 2010. ISSN: 1982-8071, CD-Rom. 76 particular de persuadir, já que é pelo discurso que persuadimos, sempre que queremos demonstrar a verdade ou o que parece ser a verdade. Séculos depois, a retórica de Aristóteles foi reformulada por Perelmam e Tyteca (1996). De acordo com esses dois autores, a argumentação é vista como a busca da persuasão do alocutário pelo locutor; eles enfatizam principalmente a noção de auditório, pois é em função dele que qualquer argumento se desenvolve, sendo o conhecimento de quem se pretende conquistar a condição primeira para qualquer argumentação eficaz. Em obra anterior, Perelman (1988) afirma que o orador, se deseja agir eficazmente por meio de um discurso, deve se adaptar a seu auditório, de quem possui uma imagem prévia. Assim, é ao auditório que cabe o papel principal de determinar a qualidade da argumentação e o comportamento dos oradores. A variedade de auditório é quase infinita; por tal motivo, o orador vêse confrontado com inumeráveis problemas; por isso, o que se busca é uma técnica argumentativa que se imporia a todos os auditórios indiferentemente. Ainda ao estudar os recursos argumentativos, procuramos em Koch (1987) alguns deles, presentes no nível linguístico fundamental, pois são constitutivos de sentido. A pesquisadora cita os indicadores modais, como verbos, advérbios, expressões, torneios sintáticos; os operadores argumentativos, os índices de polifonia, as pressuposições, os indicadores ilocucionários, os advérbios e expressões atitudinais e os tempos verbais como recursos de argumentação. Como nossa proposta é a análise de dois pronunciamentos de Fernando Henrique Cardoso enquanto presidente da república, consideramos necessário explicitar o que se entende por discurso político. Carmagnani (1996, p.292), para caracterizá-lo, apresenta um enunciado abstrato: "X (o político) faz Y (eleitor, cidadão) acreditar em N (suas palavras) para obter Z (voto, apoio)". Por meio da linguagem, o político serve-se do imaginário e tenta construir no interlocutor uma imagem de si próprio, imagem esta que ele acredita corresponder àquela que o povo deseja. Para tal construção, o locutor, como ___________________________________________________________________________________ o Anais do 6 Seminário de Pesquisas em Lingüística Aplicada (SePLA), Taubaté, 2010. ISSN: 1982-8071, CD-Rom. 77 recurso de persuasão, traz para o seu dizer vozes de outros discursos, tais como o pedagógico, o religioso, o científico, que acabam servindo de argumentos favoráveis à sua tese. Já Osakabe (2002), na sua leitura sobre discurso político, classifica-o em duas categorias: o Discurso Político-Teórico e o Discurso Político-Militante. Explica que o primeiro fica no plano da convicção; o segundo visa alcançar no ouvinte não simplesmente a adesão a uma posição, mas ainda sua participação ativa nas tarefas necessárias para a afirmação dessa posição; utiliza-se da argumentação para a obtenção final de um resultado que, ultrapassando o nível da convicção, atinge o nível da ação, persuadindo, assim, o interlocutor. Também Coracini (1991b) trata do discurso político numa visão argumentativa, e, portanto, subjetiva. Aproxima o Discurso Político de Plataforma - uma modalidade do Discurso Político-Militante - do discurso de propaganda em geral, cujo único objetivo é o de vender o produto, nesse caso, vender as idéias. A autora afirma que a intenção do político é persuadir o interlocutor, desejando atingir o nível da ação. Finalmente, Dugaich (1993), ao estudar o Discurso Político, investiga as características do pronunciamento de posse de um presidente norte-americano a partir das condições de produção que o constituem. A autora afirma que, uma vez legitimado pela instituição, o locutor, homem público eleito, difere do locutor candidato, pois passa a enunciar do lugar do poder; seu campo de ação é muito mais abrangente, mas sempre com o objetivo de obter a adesão do interlocutor à sua proposta. Por acreditarmos que o homem público, quando se dirige ao seu ouvinte, confere à fala uma força persuasiva, instauradora de um processo de fascínio extremamente eficaz, estudamos ainda a sedução, considerando-a como o encantamento, o fascínio que uma pessoa exerce sobre outra. Assim, seduzir seria atrair alguém a um encantamento. Entendemos que o sedutor se serve da dissimulação, recobrindo a armadilha com um aspecto inocente, principalmente ___________________________________________________________________________________ o Anais do 6 Seminário de Pesquisas em Lingüística Aplicada (SePLA), Taubaté, 2010. ISSN: 1982-8071, CD-Rom. 78 por meio de promessas que, por serem plausíveis, merecem a confiança dos interlocutores. Apesar de planejadas, algumas dessas estratégias podem provocar alguns outros sentidos não previstos pelo sedutor. 4. Análise do corpus e discussão dos resultados A partir dessas afirmações teóricas, analisamos dois pronunciamentos de FHC, fazendo emergir a construção de suas diversas imagens por meio de algumas técnicas argumentativas utilizadas pelo locutor para persuadir seus interlocutores. Servimo-nos de pronunciamentos dirigidos ao povo brasileiro, em diversas datas, lugares e situações de produção. Acreditamos que, para elaborar seu dizer, o homem público seleciona os dados tendo em vista as diferentes condições de produção de que fazem parte os vários ouvintes. Tal situação permite o embricamento de inúmeras vozes que se cruzam, entretecendo o fio do discurso. A partir dos pressupostos teóricos, iniciou-se a análise dos pronunciamentos, nos quais se verificou a construção das diferentes imagens que perpassam os enunciados do então presidente. Examinamos a voz do sujeito da comunicação, fizemos a análise das formações imaginárias do locutor, verificamos como ele se representa e como se assume, bem como observamos alguns sentidos provocados por essa voz. Nesta parte, retomamos Pêcheux (1993) que afirma que todo processo discursivo supõe a existência das formações imaginárias. Dentre elas, optamos por uma expressão para a análise do sujeito FHC: - I do lugar de A A (A). Trata-se da imagem para o sujeito colocado em (A), e a questão implícita cuja "resposta" subentende a formação imaginária correspondente é: “Quem sou eu para lhe falar assim?” (PÊCHEUX, 1993, p. 83). O exame de tal pergunta possibilitou-nos a identificação de diferentes imagens que compõem as diversas representações da figura de FHC, dirigidas aos interlocutores. Encontramos, dentre elas, a construção da imagem de um presidente democrata, com um poder legítimo que lhe foi dado pelo voto. Por meio dessa ___________________________________________________________________________________ o Anais do 6 Seminário de Pesquisas em Lingüística Aplicada (SePLA), Taubaté, 2010. ISSN: 1982-8071, CD-Rom. 79 imagem, FHC representa o desejo de ir ao encontro do imaginário de grande parte do povo brasileiro, que acredita na democracia e em suas instituições. Ele insiste nessa imagem, à medida que se qualifica como autêntico representante do povo, apoiado por este, pelos partidos e pelo Congresso. É o que se infere em: (1) Agradeço sobretudo à força que o povo nos deu para, chegando ao governo, respeitarmos o que o povo quer (E 2).3 (2) Isso mostra que o governo tem o apoio dos partidos que formam a maioria. Governará com eles. (E 1) Há ainda a construção de outra imagem, a de "salvador da pátria", que propõe as reformas, promete salvar o povo da situação indigna em que este se encontra, comprometendo-se ainda com a modernização. É o presidente que mostra a morte dos problemas passados e o nascimento um Brasil novo. Vejamos: (3) ... o Senado aprovou o projeto da lei de concessões, que eu apresentei há quatro anos. (E 1) (4) É importante a gente olhar para trás e ver como o Brasil melhorou nos últimos meses. É isso que nos dá confiança, dá ânimo para continuar fazendo tudo o que precisa ser feito para o Brasil melhorar ainda mais. (E 1) (5) A reforma agrária será feita já e ela já começou, para o bem do Brasil e para o bem de todos nós. (E 2) Esta imagem de salvador é reforçada pelo emprego de alguns verbos e locuções verbais: "apresentei", "continuar fazendo", ações essas que passam a imagem de um homem ativo, reformador, que prometeu em campanha e que realizou suas promessas após a eleição. Em outros momentos, emerge a imagem do presidente que acredita no mercado, que se abre à privatização: 3 O corpus da dissertação consta de 125 recortes discursivos, mas neste artigo somente alguns serão citados. E1 significa a Elocução 1 de FHC, de onde foi retirado o recorte; E2, a Elocução 2. ___________________________________________________________________________________ o Anais do 6 Seminário de Pesquisas em Lingüística Aplicada (SePLA), Taubaté, 2010. ISSN: 1982-8071, CD-Rom. 80 (6) Com a transformação que já fiz nos mecanismos das privatizações, abre-se um enorme espaço para a modificação do Estado brasileiro. (E 1). Observa-se que FHC constrói uma imagem de valorização de si mesmo, imaginando-se como alguém que resolve os problemas. O verbo “fazer” e o substantivo “privatizações” criam o sentido de um presidente atuante, moderno, que se preocupa com o bem do país sob sua responsabilidade. A imagem do verdadeiro político proposta por Platão (1980): aquele que é sensato, nada fazendo em oposição às leis e contribuindo para que todos sejam felizes, é outra das imagens construídas por FHC. Com base no recorte apresentado a seguir, consideramos que o locutor presidencial deseja aproximar-se dela: (7) Eu quero que o governo, o Congresso e a Justiça trabalhem em harmonia para que o Brasil ganhe (E 1). Verifica-se o caráter forte de FHC, pelo emprego do pronome de 1a pessoa e do verbo “querer”. Assim, ele comanda a todos, fazendo o que considera melhor – a união dos três Poderes – para a felicidade da nação. Há a imagem do político que pretende a concórdia para que o povo ganhe com isso e seja feliz. Fica claro que o presidente se identifica com o ideal político proposto por Platão, e é assim que deseja ser visto por seus interlocutores. Considerando essa imagem construída, propomos que a questão de Pêcheux “Quem sou eu para lhe falar assim?”, deva, na elocução de FHC, ser reformulada para: “Qual imagem de presidente os brasileiros desejam atualmente?” É a partir daí que o simulacro de imagem de presidente, de político ideal se constrói; a imagem que o locutor constrói para si é construída sobre a suposta imagem que os brasileiros têm e desejam de um bom presidente. Quanto às diferentes representações do locutor, observamos que o então presidente se representa enquanto “eu”, “nós”, “o governo”, “o presidente”. As marcas de primeira pessoa predominam quando ele se dirige ___________________________________________________________________________________ o Anais do 6 Seminário de Pesquisas em Lingüística Aplicada (SePLA), Taubaté, 2010. ISSN: 1982-8071, CD-Rom. 81 ao povo, centralizando seu dizer em si mesmo, reduzindo a possibilidade de dúvidas em relação ao que afirma: (8) ... o projeto da lei de concessões que eu apresentei há quatro anos (E 1). (9) Quando veio um projeto demagógico, que não tinha fundos para pagá-lo, eu vetei. E agora eu mandei outro, correto, com os fundos... (E 2). (10) Eu tomei uma decisão difícil. Eu resolvi assinar o projeto que anistia os deputados e senadores acusados de fazer mau uso da gráfica do Senado... (E 2) Nesses recortes, apresenta-se como pessoa autoritária, tradicional, que lembra o velho político falando: “eu vetei”, “eu mandei”, enfim “eu fiz”. Há o emprego da primeira pessoa do singular, que pode levar a um sentido talvez não desejado pelo locutor: o de um homem que detém o poder, que realiza sozinho, mesmo que o povo não concorde com suas ações. Já em outro segmento, ao fazer referência ao passado e narrar fatos de sua vida, leva o interlocutor a vê-lo como homem muito experiente, principalmente pela idade: (11) Antes que muitos de vocês tivessem nascido, eu lutava contra o regime autoritário no Brasil e pedia liberdade. (E 2) (12) Nós temos compromisso com a história. Temos compromisso de vida e de luta com esse país. (E 2) É possível que, conscientemente, este político se represente como herói, homem que veio salvar o Brasil. O governo militar considerou FHC um homem tão perigoso que cassou seus direitos políticos; mas, como presidente, ele restaurou a liberdade e a democracia no país. Seu passado reveste-o da aura de herói, garantindo-lhe, hoje, autoridade e reconhecimento. Em outros recortes, FHC usa o pronome “nós” para se referir a ele – presidente – e ao povo, ou a ele e mais alguém, que pode ser a classe ___________________________________________________________________________________ o Anais do 6 Seminário de Pesquisas em Lingüística Aplicada (SePLA), Taubaté, 2010. ISSN: 1982-8071, CD-Rom. 82 empresarial ou outro dirigente político. Trata-se de mais um recurso argumentativo: o presidente aproxima-se dos interlocutores, chama-os para o seu discurso, envolve-os numa tentativa de persuadi-los. É o que se vê em: (13) Juntos, cada um de vocês e o governo continuaremos a batalha contra a inflação do dia a dia para impedir que ela volte (E 1). (14) Vamos continuar fazendo o trabalho junto com o ministro da Agricultura, José Eduardo, que, indiferente a toda aquela zoeira que possam fazer aqueles que não têm força nenhuma. A força vem da mão do povo (E 2). Essa estratégia constrói no povo uma ilusão de participação nas ações do presidente. O grau de envolvimento do ouvinte é tão grande que ele ser conduzido, facilmente, à impossibilidade de raciocinar, aceitando passivamente, sobretudo se for pouco esclarecido, a proposta do locutor, a quem reconhece o poder da palavra final, da palavra verdadeira. O locutor constrói, de forma consciente, imagens ilusórias, mas no recorte (9), por exemplo, o emprego dos verbos em primeira pessoa do singular “vetei” e “mandei”, podem, inconscientemente, levar à criação de sentidos não desejados, os quais, certamente, irão indispor FHC junto aos seus interlocutores que questionam seu poder centralizador. 5. Considerações Finais A análise desses recortes de elocuções de FHC mostrou-nos as imagens marcantes do presidente, as quais, em determinados instantes se completam, em outros se contradizem, apesar de compartilharem do mesmo espaço discursivo. Em todos os pronunciamentos, o locutor pretendeu obter a adesão dos interlocutores e, ao tomar a palavra, ele o fez não só como presidente, mas também como sujeito perpassado por uma ideologia. Essa tomada da palavra manifesta-se por meio de diversas formas de representação, de modo que o sujeito do discurso encontra-se bastante disperso e fragmentado: é o presidente ora democrata, ora "salvador da pátria", ___________________________________________________________________________________ o Anais do 6 Seminário de Pesquisas em Lingüística Aplicada (SePLA), Taubaté, 2010. ISSN: 1982-8071, CD-Rom. 83 ora autoritário. Ele traz vozes que produzem sentidos - nem sempre pretendidos pelo locutor - de promessa, de democracia, de justiça, de igualdade. Em nossa análise, trabalhamos com um tipo de discurso político necessário para a preservação de um sistema. A partir daí, abordamos a sedução provocada pelas elocuções de FHC: seu dizer soa como o canto de uma sereia e, ao ouvi-lo, o interlocutor encanta-se por ele, nele acreditando sem questionamento, sem desconfiança. Fato que comprovou tal sedução foi a reeleição de FHC, em 1988, com mais de 50% dos votos, em primeiro turno. Finalmente, lançamos um olhar sobre o ensino da Língua Portuguesa, mais especificamente sobre a situação da leitura na escola, sem a pretensão de propor mudanças na metodologia. Sabemos que a sala de aula tem como característica a homogeneização, principalmente nas aulas de leitura, já que muitos professores esperam que todos os alunos cheguem a uma única resposta, depois de lerem e de interpretarem um texto. É muito importante a contribuição do aluno-leitor na constituição do significado, visto que um texto possibilita mais de um sentido, sentidos esses que dependem daquele que lê. Assim, é preciso que se conceda espaço próprio para que o aluno possa se posicionar como ser pensante e crítico no mundo. O professor não pode mais ser o dono do saber. Ele deve, sim, criar condições de discussão para que o aluno se perceba como sujeito, como enunciador, para que possa exercer sua capacidade de questionar e refutar. Queremos, por último, lembrar que se faz necessário, hoje, que a escola não abafe as diversas vozes dos alunos (se é que eles têm vozes!). É preciso abrir espaço para a produção de diferentes sentidos, para que cada um possa produzir sentido(s) a partir de suas experiências, crenças e valores e para que não se aceite passivamente um texto ou a leitura do professor como verdade irrefutável. Se essa sugestão for, pelo menos, questionada pelos professores, teremos dado um pequeno passo que contribuirá para as tão necessárias reflexões sobre a leitura em sala de aula. ___________________________________________________________________________________ o Anais do 6 Seminário de Pesquisas em Lingüística Aplicada (SePLA), Taubaté, 2010. ISSN: 1982-8071, CD-Rom. 84 Referências ARISTÓTELES. Arte Retórica. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1964. AUTHIER-REVUZ,J. Hétérogénéité montrée et hétérogénéité constitutive: éleménts pour une approche de l'autre dans le discours. DRLAV: Revue de Linguistique, Centre de Recherches de L'Université de Paris. n.26, p. 91151,1982. ______. Heterogeneidades Enunciativas. Cadernos de Estudos Lingüísticos, Revista do Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP, Campinas, n. 19, p. 25-42, jul./dez.,1990. CARMAGNANI, A.M.G. A argumentação e o discurso jornalístico: a questão da heterogeneidade em jornais ingleses e brasileiros. 357 f. 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