GREGOS, TROIANOS E UTÓPICOS*
Pouco depois do lançamento dos dois volumes de sua monumental História da
Psicanálise na França
(Jorge Zahar Editor), Elisabeth Roudinesco deu uma conferência no Rio
de Janeiro que deixou uma poderosa impressão na lembrança de todos os presentes. Dotada
de uma oratória precisa e elegante, firme em sua argumentação, Roudinesco respondeu às
diversas questões que lhe eram colocadas com a serenidade própria àqueles que também já
se questionaram com profundidade. Mais do que isso, sua colocação diante de problemas tão
complexos transmitiu de modo exemplar a postura
que se deveria sempre requerer de um
psicanalista: a de preservar em primeiro plano e a todo preço sua relação apaixonada com a
verdade. Acontece que há dificuldades para o exercício dessa paixão, o que Boileau resumiu ao
dizer que “o verdadeiro pode muitas vezes não ser verossímil”...
Já fazia alguns anos que eu lia seus artigos e livros, que
circulavam entre as mãos
mais ávidas do circuito teórico lacaniano então emergente. Mas com a publicação da História,
fruto de uma longa pesquisa, seu trabalho assumiu enorme importância e alçou-a à categoria
dos autores que devem ser objeto de referência constante. Com uma escrita densa e um estilo
conciso, Roudinesco conseguiu o que poderia parecer impossível: retraçar cem anos da história
da psicanálise desde seus primórdios até nossa época, articulando-a com a história das idéias e
dos eventos de nosso século turbulento. Um trabalho tão árduo quanto pertinente do ponto de
vista psicanalítico, uma vez que ela afirmava de saída que “uma história da psicanálise não
pode prescindir de uma interpretação psicanalítica da história”.
Com incisividade, ela
demonstrou o quanto a psicanálise fora distorcida após a morte de seu criador e sua
descoberta “adaptada à ordem social dominante”; o quanto a IPA, criada por Freud para
assegurar a transmissão da psicanálise, acabara paradoxalmente por se transformar num
abjeto “instrumento de uma gigantesca burocratização da psicanálise”.
A História
enriquecedora,
contada por Roudinesco é plena de achados e lê-la é uma experiência
mas seu vigor maior depende, sem dúvida, da ênfase por ela posta na
retomada da singularidade do discurso psicanalítico empreendida pelo ensino de Jacques
Lacan. Para ela, a história da psicanálise, na França como alhures, adquire seu sentido
precisamente no que Lacan tem nela seu lugar
devidamente salientado. Daí Roudinesco
considerar sua obra posterior, Jacques Lacan: Esboço de uma Vida, História de um Sistema de
Pensamento (Cia. das Letras), como sendo, de fato, o terceiro volume de sua História.
Nesse sentido, é impossível compartilhar a opinião de muitos psicanalistas de que sua
biografia seria destrutiva em relação a Lacan. Alguns lacanianos taxam-na simplesmente de
“fofoqueira”, desprezando um trabalho altamente qualificado e ignorando uma valiosa fonte de
informações. Da IPA, ouve-se as gargalhadas de prazer daqueles que acreditam encontrar em
sua obra o tão esperado instrumento a ser usado para o abate definitivo de Lacan. Um desses
analistas declarou, quando da publicação da biografia, que a considerava uma “verdadeira
necrópsia”, como se Lacan fosse um cadáver cuja patologia estivesse sendo, finalmente,
vasculhada. As críticas de todos, porém, estão extremamente equivocadas. O ensino de Lacan
está cada vez mais vivo e presente, e isso se deve precisamente ao peso de verdade inerente a
seu pensamento e o qual ninguém jamais poderá lhe retirar.
Roudinesco desagradou a gregos e troianos, mas certamente não desagradou aos
utópicos (utopia: de nenhum lugar) apaixonados pela verdade, que vêem em sua obra uma
abordagem da figura do mestre parisiense que recusa a hagiografia, apontando contradições e
falhas que são comuns a todo e qualquer registro humano. Quem achar que não, atire a
primeira pedra... Sua obra engrandece a psicanálise e só por obras assim a psicanálise poderá
manter-se viva sem sucumbir ao fariseismo dos que não suportam as inverossímeis verdades.
Marco Antonio Coutinho Jorge é psicanalista, coordenador-geral do Corpo Freudiano - Pesquisa
e Transmissão da Psicanálise (RJ), autor de “Sexo e Discurso em Freud e Lacan” (Jorge Zahar).
*Artigo escrito para o “Cultura – Segundo Caderno do jornal Zero Hora”, Porto Alegre,
7/10/1995.
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GREGOS, TROIANOS E UTÓPICOS* Pouco depois do lançamento