A AFETIVIDADE COMO MEDIADORA NA RELAÇÃO PROFESSOR-ALUNO: UM
ESTUDO COM CRIANÇAS DA PRÉ-ESCOLA
Claudeci Carneiro do Nascimento1
Kelly Kristine Correia de Araújo2
Jaileila de Araújo3
Resumo
Este artigo trata de uma pesquisa sobre a afetividade na relação professor-aluno. Partiu-se da
premissa de que a afetividade é condição imprescindível para o desenvolvimento da criança no
processo da aprendizagem. Por se tratar de uma pesquisa qualitativa, utilizamos três
procedimentos metodológicos: observação no ambiente escolar, entrevista semiestruturada com
a professora e entrevista semi-estruturada com dez crianças do pré-escolar de uma escola da
rede municipal da cidade de Recife. Os resultados revelaram a centralidade da afetividade na
relação professor-aluno, principalmente em crianças da préescola que estão em processo de
inserção na cultura escolar.
Palavras-chave: relação professor-aluno, afetividade, desenvolvimento infantil.
Introdução
Este estudo trata da afetividade na relação professor-aluno, definindo-a como
condição imprescindível para o desenvolvimento integral (sócio-afetivo, cognitivo e
psicomotor) da criança na escola. Intenciona-se investigar como a afetividade se apresenta
na relação professor-aluno.
O interesse pelo tema surgiu a partir das pesquisas de campo feitas durante as aulas
da disciplina Pesquisa e Prática Pedagógica e da leitura do artigo de Guiomar Namo de
Melo: “Educação e sentimento. É preciso discutir essa relação”, publicado na revista Nova
Escola de outubro de 2004.
Encontramos um aporte teórico para tratar da afetividade na obra do médico,
psicólogo e filósofo francês Henri Wallon (1879-1962). Este teórico foi o primeiro a levar não
só o corpo da criança, mas também suas emoções para dentro da sala de aula.
Falar de afetividade na relação professor-aluno na perspectiva Walloniana, é falar de
emoções, disciplina, postura, conflito do eu – outro que é constante na vida da criança, em
todo o meio do qual faça parte, seja a família, a escola ou outro ambiente que ela freqüente.
A escola, tradicionalmente tomada como espaço onde deve imperar a transmissão do
conhecimento passa a ser tematizada, dentro da perspectiva Walloniana, como meio
1
Concludente do Curso de Pedagogia – Centro de Educação – UFPE – [email protected]
Concludente do Curso de Pedagogia – Centro de Educação – UFPE – kelly.araú[email protected]
3
Professora adjunta do Depto. de Psicologia e Orientação Educacional da UFPE – [email protected]
2
NASCIMENTO, C.C.do; ARAÚJO, K.K.C.de; ARAÚJO, J.de. A afetividade como mediadora na relação professor-aluno: um estudo
com crianças da pré-escola. IN R. BORBA, A.BOTLER (ORG) Caderno de Trabalhos de Conclusão do Curso de Pedagogia – v.1 2004.1 – 2004.2 - 2005.1. Recife, Centro de Educação, UFPE, 2006, 14p.
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também perspassado pelo afeto e a professora como responsável pela mediação afetiva.
Segundo Oliveira (1993)4 podemos entender por mediação “toda interação de um
elemento intermediário numa relação; esta, portanto, deixa de ser direta e passa a ser
mediada por aquele elemento”. No presente caso a professora é mediadora na relação da
criança com a cultura escolar (como conteúdos transmitidos em sala de aula).
Segundo Wallon (1979), a afetividade é um domínio funcional, cujo desenvolvimento é
dependente da ação de dois fatores: o orgânico e o social. Entre esses dois fatores existe
uma relação estreita tanto que as condições medíocres de um podem ser superadas pelas
condições mais favoráveis do outro. Essa relação recíproca impede qualquer tipo de
determinismo no desenvolvimento humano, tanto que:
... a condição biológica da criança ao nascer não será a única lei do seu futuro
destino. Os seus efeitos podem ser amplamente transformados pelas
circunstâncias sociais de sua existência, onde a escolha individual não está
ausente (p. 288).
Conceitualmente, a afetividade deve ser distinguida de suas manifestações,
diferenciando-se do sentimento, da paixão, da emoção. A afetividade é um campo mais
amplo, já que inclui esses últimos, bem como as primeiras manifestações de tonalidades
afetivas basicamente orgânicas. Em outras palavras, afetividade é o termo utilizado para
identificar um domínio funcional abrangente e, nesse domínio funcional, aparecem diferentes
manifestações: desde as primeiras, basicamente orgânicas, até as diferenciadas como as
emoções, os sentimentos e as paixões.
Optamos por problematizar as situações decorrentes da interação afetiva tendo em
vista sua repercussão no processo de aprendizagem. Nesse estudo buscaremos
compreender a interferência da relação afetiva entre professor-aluno, no processo de
aceitação ou não por parte da criança da cultura escolar e sua efetiva participação na
mesma. Como também analisar o reconhecimento ou não da importância do aspecto afetivo
por parte da professora, detectando as manifestações afetivas nas relações com os outros
alunos em sala de aula.
Em nossas investigações bibliográficas iniciais chamou-nos atenção à escassez de
trabalhos acadêmicos sobre a interferência da afetividade no ensinar e aprender o que
ratifica as impressões de Stadnik (2003) acerca da indisposição de muitos profissionais de
educação em se debruçarem sobre o tema considerado por muitos como irrelevante.
Concordamos com a professora de que o desmerecimento do tema se dá por uma
compreensão tosca da afetividade como permissividade e /ou da afetividade como ameaça a
autoridade docente, mas também arriscamos a compreensão de que o silenciar sobre
afetividade tem direta relação com a implicação do professor no processo de ensinoaprendizagem.
Afetividade é um tema que traz à tona a subjetividade docente, seu desejo de ensinar
e como este desejo é canalizado para o outro aluno marcado por caracteres físicos, sociais,
culturais, entre outros. Eis a delicadeza do tema que acaba por trazer à tona o que Stadnik
(2003) nomeia como concepções perversas do “ser” e “fazer” tais como “os preconceitos, a
discriminação, a indiferença, a omissão, a nãoaprendizagem, o estigma, a exclusão...” (p. 27)
A ausência de estudos sobre este modelo de vínculo e prática docente acaba por
contribuir para o entendimento dos fenômenos da evasão, repetência e dificuldade de
aprendizagem como relativos ao aluno e sua família, o que alimenta estereótipos médicospsicológicos do “aluno problema” e da “família desestruturada” encobrindo um repensar do
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Oliveira, M. K. de (1993). Vygotsky – Aprendizado e desenvolvimento. Um processo sócio-histórico. Campinas: Scipione
NASCIMENTO, C.C.do; ARAÚJO, K.K.C.de; ARAÚJO, J.de. A afetividade como mediadora na relação professor-aluno: um estudo
com crianças da pré-escola. IN R. BORBA, A.BOTLER (ORG) Caderno de Trabalhos de Conclusão do Curso de Pedagogia – v.1 2004.1 – 2004.2 - 2005.1. Recife, Centro de Educação, UFPE, 2006, 14p.
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processo de ensino-aprendizagem.
A importância das relações humanas para o crescimento do homem está escrito na
própria história da humanidade. O meio social é uma circunstância necessária para a
modelagem do indivíduo. Sem ele a civilização não existiria, pois foi graças à agregação dos
grupos que a humanidade pôde construir os seus valores, os seus papéis, a própria
sociedade.
De acordo com a Teoria Walloniana, a afetividade, tanto quanto a inteligência é
passível de evolução. No início, a afetividade confunde-se com emoção, e sua manifestação
se dá principalmente pelo toque, pela troca de olhar, pela intensa comunicação não-verbal. O
refinamento das trocas afetivas permite que, ao longo do desenvolvimento, novas formas de
expressão apareçam.
Como os professores permanecem um bom tempo junto ao aluno, é clara a
importância do estudo das relações afetivas entre professores e alunos, relação esta que é
vivida inicialmente com os pais.
De acordo com Souza Paula (2004):
“a escola ao mesmo tempo que compõe parte da experiência da sociedade
maior, é também uma experiência à parte desta, no sentido de que comporta
uma série de características próprias, formadoras de um tipo específico de ser
social, o aluno. A condição de aluno não nasce com a criança, antes, a
criança torna-se aluno bem como o adulto torna-se um trabalhador.” (p. 19)
A escola institui um espaço / tempo diferente do da família e é essa diferença que
pode soar como estranha / ameaçadora à criança, caso as experiências afetivas com o (a)
professor (a) sejam de uma ordem negativa. Nesse caso pode ocorrer ansiedade na criança
que acaba por ser transferida para o processo de aprendizagem como um todo, uma vez que
o sentido da aprendizagem vai se formando ali, naqueles momentos vividos dia a dia no
interior da sala de aula via mediação afetiva realizada pelo (a) professor (a).
Nessa perspectiva é necessário insistir no papel do (a) professor(a): ele(a) é um(a)
profissional educador(a) de fato, se comprometido não só com a construção do
conhecimento do aluno (aspectos cognitivos), mas deste como um todo (aspectos sócioafetivos).
A escola é um meio que pode oferecer às crianças experiências enriquecedoras se os
educadores considerarem que entre a afetividade e a inteligência há interpenetração, há
interferência mútua, que uma dimensão dá suporte e alimenta a outra, e que o conteúdo da
consciência não se amplia por acúmulo de informações, mas por reorganizações, em
resposta às solicitações, às exigências do meio humano. É na solução dos confrontos eu –
outro/mundo interior – mundo real que a inteligência evolui.
Para Mahoney et. al. (2004), Wallon afirma que o desenvolvimento da inteligência, na
pessoa, está ligado ao desenvolvimento de sua personalidade total, o que significa que a
escola, para possibilitar ao aluno as várias oportunidades para o conhecimento deverá fazêlo levando em conta a pessoa completa, em processo de desenvolvimento, com as
dimensões cognitiva, afetiva e motora numa rede de intricadas relações. Insistir em mobilizar
a criança numa cadeira, limitando a fluidez das emoções e do pensamento é ir de contra a
proposta de desenvolvimento completo da pessoa.
Em nossas observações testemunhamos situações nas salas de educação infantil que
não valorizam a afetividade como mediadora na relação professor-aluno o que, segundo
nossa hipótese, causa entraves ao processo de inserção da criança na cultura escolar.
Então compreender como se dá o vínculo afetivo da criança com a professora é
essencial para sabermos canalizá-lo a favor do processo de aprendizagem em geral e para o
NASCIMENTO, C.C.do; ARAÚJO, K.K.C.de; ARAÚJO, J.de. A afetividade como mediadora na relação professor-aluno: um estudo
com crianças da pré-escola. IN R. BORBA, A.BOTLER (ORG) Caderno de Trabalhos de Conclusão do Curso de Pedagogia – v.1 2004.1 – 2004.2 - 2005.1. Recife, Centro de Educação, UFPE, 2006, 14p.
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desenvolvimento da criança e da atividade docente em especial.
Toda aprendizagem está impregnada de afetividade, já que ocorre a partir de
interações sociais, no processo vincular. Pensando, especificamente, na aprendizagem
escolar, a trama se tece entre alunos, professores, conteúdo escolar, livros, escrita, etc. Não
acontece puramente no campo cognitivo. Existe uma base afetiva permeando essa relação.
As experiências vividas em sala de aula ocorrem, inicialmente, entre os indivíduos
envolvidos, no plano externo (interpessoal). Através da mediação, elas vão se internalizando
(intrapessoal), ganham autonomia e passam a fazer parte da história individual. Essas
experiências também são afetivas, os indivíduos internalizam as experiências afetivas com
relação a um objetivo específico.
A escola, na figura do professor, precisa compreender o aluno e seu universo sóciocultural. Conhecer esse universo é de grande eficácia para o trabalho do professor que atua
no plano universal, cultural e pessoal, já que existem, para a espécie humana, processos
mentais próprios, mas podem variar de acordo com as culturas nacionais, regionais, e até
em momentos históricos específicos.
Por isso, concordamos com as contribuições de Wallon trazidas por Dantas (1992),
quando afirma que:
“a escola comete erros porque desconhece as características do
funcionamento da mente humana, em suas fases de desenvolvimento; erra
por não conhecer conteúdos culturais que possam contextualizar
concretamente os alunos, e erra, ainda, por desconhecer as histórias da vida
de cada um. Não que seja suficiente conhecer seu universo cultural, mas com
certeza é indispensável.” (p. 39)
1 MARCO TEÓRICO
Quase todas as teorias do desenvolvimento humano admitem que a idade pré-escolar
é de fundamental importância na vida humana, por ser esse o período em que, por assim
dizer, os fundamentos da personalidade do indivíduo lançados na primeira infância começam
a tomar formas claras e definidas.
Durante a fase pré-escolar o desenvolvimento do organismo humano passa por
mudanças bem acentuadas. Tipicamente, uma criança de seis anos de idade tem seu peso
aumentado em (cinqüenta por cento) 50% em relação ao peso que tinha aos dois anos. Mas
verifica-se, que aos seis anos o sistema motor ainda não alcançou a sua maturidade total e
completa.
Visto que o período pré-escolar é marcado por consideráveis mudanças no processo
evolutivo, essa fase da vida humana constitui uma espécie de desafio, tanto para a criança
como para os pais e educadores. A criança nesta fase está constantemente testando novas
habilidades físicas e mentais. Daí porque o comportamento da criança nessa idade se
caracteriza por constante atividade exploratória, quer no terreno perceptivo, motor e verbal,
quer numa espécie de combinação de todos esses aspectos do seu funcionamento.
Segundo os Referencias Curriculares Nacionais para a Educação Infantil5 no Brasil
(MEC / SEF, 1998), há no país um consenso de que a educação na primeira infância deve
promover a integração entre os aspectos físicos, emocionais, afetivos, cognitivos e sociais
das crianças, uma vez que elas são seres complexos, íntegros e indivisíveis. Nas interações
que estabelecem com as pessoas e com o meio que a circunda, a criança tenta
compreender o mundo em que vive, e pela afetividade expressa sua condição de vida, seus
anseios e desejos.
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De agora em diante, os Referencias Curriculares Nacionais para a Educação Infantil serão, neste trabalho, citados pela
abreviatura RCNEI (MEC / SEF, 1998).
NASCIMENTO, C.C.do; ARAÚJO, K.K.C.de; ARAÚJO, J.de. A afetividade como mediadora na relação professor-aluno: um estudo
com crianças da pré-escola. IN R. BORBA, A.BOTLER (ORG) Caderno de Trabalhos de Conclusão do Curso de Pedagogia – v.1 2004.1 – 2004.2 - 2005.1. Recife, Centro de Educação, UFPE, 2006, 14p.
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E é por essas interações com as pessoas e seu meio que constrói ativamente seus
conhecimentos, não simplesmente copiando a realidade que a cerca, mas a partir de um
trabalho interno de criação, significação e re-significação.
Segundo os RCNEI, a educação infantil tem por finalidade cuidar e educar, e isso
compreende atender às necessidades próprias das crianças até seis anos, quais sejam,
entre outras: dar liberdade para o outro, expressão cinética, postural, emocional, imaginativa
e lúdica, na conquista de sua autonomia, do aprender a respeitar, a aceitar as diferenças – o
outro e a si mesma, construindo auto estima e identidade diferenciada dentro do meio social
a que pertence (MEC / SEF, 1998).
De acordo com isso, vemos, então, que muitas das práticas usuais de cuidar e educar
são também apontadas pelos referenciais, como fundamentais para a Educação Infantil. A
afetividade, por exemplo, tem lugar preponderante nas indicações dos Referencias, por
contribuir com o processo de desenvolvimento da criança e na formação da identidade dela
(RCNEI, MEC / SEF, 1998, v. 1, p. 24). Suas orientações explicam que o desenvolvimento
integral depende tanto dos cuidados relacionais, que envolvem a dimensão afetiva e também
dos cuidados com os aspectos biológicos do corpo, com a qualidade da alimentação e dos
cuidados com a saúde, quanto da forma como esses cuidados são oferecidos e das
oportunidades de acesso a conhecimentos variados. Assim, experimentando o mundo e
compreendendo suas interações com as pessoas, sentimentos e conhecimentos diversos, a
criança pode resolver as situações e problemas que lhe instigam.
De acordo com o RCNEI (1998), as atitudes e procedimentos de cuidados são
influenciadas por crenças e valores em torno da saúde, da educação e do desenvolvimento
infantil. Embora as necessidades humanas básicas sejam comuns, como alimentar-se,
proteger-se, etc., as formas de identificá-las, valorizá-las e atendê-las são construídas
socialmente. As necessidades básicas podem ser modificadas e acrescidas de outras de
acordo com o contexto sociocultural. Pode-se dizer que além daquelas que preservam a vida
orgânica, as necessidades afetivas são também base para o desenvolvimento infantil.
A afetividade, de acordo com os RCNEI (1998), tem um papel na relação pedagógica
para o desenvolvimento sobre o qual se constroem as propostas em Educação Infantil. As
experiências prévias e aprendizados já adquiridos sintonizam-se com o que o momento
presente lhe sugere, ampliando seus conhecimentos, integrando e conscientizando
acontecimentos de suas experiências adquiridas, afirmam essas recomendações oficiais.
Segundo RCNEI (1998), embora haja um consenso sobre a necessidade de que a
educação para as crianças pequenas deva promover a interação entre os aspectos físicos,
emocionais, afetivos, cognitivos e sociais da criança, considerando que esta é um ser
completo e indivisível, as divergências estão exatamente no que se entende sobre o que seja
trabalhar com cada um desses aspectos.
Assim, este estudo sobre a afetividade está sintonizado com as sugestões contidas
nos RCNEI (1998), para que no cotidiano das creches e pré-escolas no Brasil passem a
imperar práticas de manifestações da autonomia e da atividade própria da criança, sempre
ricas em sentimentos. Passemos então a aprofundar o significado dos sentimentos em sua
relação com o campo da afetividade.
Na teoria Walloniana a afetividade é um conceito amplo, que, além de envolver um
comportamento orgânico, corporal, motor e plástico, que é a emoção, apresenta também um
comportamento cognitivo, representacional que são os sentimentos e a paixão. O primeiro
componente a se diferenciar é a emoção que assume o comando do desenvolvimento logo
nos primeiros meses de vida posteriormente, diferenciam-se os sentimentos, e logo a seguir,
a afetividade.
Para Wallon (1966), falar da afetividade na relação professor-aluno, é falar de
emoções, disciplina, postura, do conflito do eu – outro, uma constante na vida da criança –
NASCIMENTO, C.C.do; ARAÚJO, K.K.C.de; ARAÚJO, J.de. A afetividade como mediadora na relação professor-aluno: um estudo
com crianças da pré-escola. IN R. BORBA, A.BOTLER (ORG) Caderno de Trabalhos de Conclusão do Curso de Pedagogia – v.1 2004.1 – 2004.2 - 2005.1. Recife, Centro de Educação, UFPE, 2006, 14p.
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em todo o meio do qual faça parte – seja a família, a escola, ou outro ambiente que ela
freqüente.
Para o autor, as teorias sobre emoções têm bases mecanicistas e difíceis de serem
compreendidas. Primeiro ele as vê como reações incoerentes e tumultuadas, e em segundo
lugar destaca o poder ativador que têm as emoções, consideradas por ele positivas.
“Os fenômenos afetivos representam a maneira como os acontecimentos
repercutem na natureza sensível do ser humano, produzindo nele um elenco
de reações matizadas que definem seu modo de ser no mundo. Dentre esses
acontecimentos, as atitudes e as reações dos seus semelhantes a respeito
são, sem sombra de dúvida, as mais importantes, imprimindo às relações
humanas um tom de dramaticidade. Assim sendo, parece mais adequado
entender o afeto como uma qualidade das relações humanas e das
experiências que elas evocam (...). são as relações sociais, com efeito, as que
marcam a vida humana, conferindo ao conjunto da realidade que forma seu
contexto (coisas, lugares, etc.) um sentido afetivo”. (Pino, 1997)
Com isso, o autor quer dizer que a sociedade intervém no desenvolvimento psíquico
da criança, através de suas repetidas experiências e das dificuldades para elaborá-la, já que
ela, recém-nascido, por exemplo, não consegue diferenciar-se do outro nem mesmo no
plano corporal. Essa diferenciação começa no primeiro ano de vida pela interação com os
objetos e seu próprio corpo. É essa construção do eu corporal que dá condição à formação
do eu psíquico chamado por Wallon, de estágio personalista.
Na obra Walloniana, a afetividade constitui um domínio funcional tão importante
quanto o da inteligência. Afetividade e inteligência constituem um par inseparável na
evolução psíquica, pois embora tenham funções bem definidas e diferenciadas entre si, são
interdependentes em seu desenvolvimento, permitindo à criança atingir níveis de evolução
cada vez mais elevados.
A afetividade, assim como a inteligência, não aparece pronta, nem permanece
imutável. Ambos evoluem ao longo do desenvolvimento; são construídos e se modificam de
um período a outro, pois, à medida que o indivíduo se desenvolve, as necessidades afetivas
se tornam cognitivas.
“ A afetividade, nesta perspectiva, não é apenas uma das dimensões da
pessoa: ela é também uma fase do desenvolvimento, a mais arcaica. O ser
humano foi, logo que saiu do vida orgânica, um ser afetivo. Da afetividade
diferenciou-se, lentamente, a vida racional. Portanto, no início da vida,
afetividade e inteligência estão sincreticamente misturadas, com o predomínio
da primeira”. (Dantas, 1990 apud Stadnik, 2003, p. 26)6.
É esse jogo entre afetividade e inteligência que tornará mais salutar para uma criança
de quatro anos ser ouvida e respeitada do que ser simplesmente acariciada e beijada. Por
exemplo, no estágio personalista, em que o comportamento dominante é o afetivo, a função
dominada, a inteligência, pactua com as conquistas da afetividade, preparando para sucedêla no próximo estágio. A evolução da inteligência é incorporada pela afetividade de tal modo
que outras relações afetivas emergem. O advento da representação para a conquista do
campo intelectual, permite à criança ter relações afetivas mais complexas, como a paixão e
o sentimento.
O sentimento e a paixão são manifestações afetivas em que a representação torna-se
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Dantas, H. A infância da razão. São Paulo: Manole, 1990
NASCIMENTO, C.C.do; ARAÚJO, K.K.C.de; ARAÚJO, J.de. A afetividade como mediadora na relação professor-aluno: um estudo
com crianças da pré-escola. IN R. BORBA, A.BOTLER (ORG) Caderno de Trabalhos de Conclusão do Curso de Pedagogia – v.1 2004.1 – 2004.2 - 2005.1. Recife, Centro de Educação, UFPE, 2006, 14p.
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reguladora ou estimuladora da atividade psíquica. Ambos são estados subjetivos mais
duradouros e têm sua origem nas relações com o outro, mas ambos não se confundem entre
si.
Para Wallon, o professor desempenha um papel ativo na constituição da pessoa do
aluno. Em sua teoria o autor enfatiza a pessoa com as dimensões afetiva, cognitiva, e
motora integradas e se nutrindo reciprocamente. O professor então deve basear sua ação
fundamentada no pressuposto de que o que o aluno conquista no plano afetivo é um lastro
para o desenvolvimento cognitivo, e vice-versa.
Como tudo o que ocorre com a pessoa tem um lastro afetivo, e a afetividade tem em
sua base a emoção, e como a emoção é corpórea7, concreta, visível, contagiosa, o professor
pode “ler” seu aluno: o olhar, a tonicidade, o cansaço, a atenção, o interesse são indicadores
do andamento do ensino que está oferecendo.
O professor desempenha para o aluno, o papel de mediador entre ele e o
conhecimento, e essa mediação é tanto afetiva quanto cognitiva. Portanto, ao professor
compete canalizar a afetividade para produzir conhecimento; na relação professor-aluno,
aluno-aluno, aluno-grupo, reconhecer o clima afetivo e aproveitá-lo na rotina diária da sala de
aula para provocar o interesse do aluno é o principal desafio da atividade docente.
Encaramos, portanto, esta oportunidade de aprofundar o tema “A influência da
afetividade como mediadora na relação professor-aluno” como uma tarefa que poderá
contribuir para o desenvolvimento integral das crianças em instituições de educação infantil
através da indicação do que seria um espaço prazeroso onde se ensina e aprende de forma
significativa.
2 METODOLOGIA
Optamos por uma pesquisa qualitativa por se adequar melhor ao tema investigado, já
que torna o ambiente natural como sua fonte direta de dados e o pesquisador como seu
principal instrumento.
Segundo Bodgan e Biklen (1982), a pesquisa qualitativa supõe o contato direto e
prolongado do pesquisador com o ambiente e a situação que está sendo investigada, via de
regra através do trabalho intensivo de campo.
Na fase de coleta de dados seguimos os seguintes procedimentos: observação em
sala de aula onde se encontravam os sujeitos da pesquisa. O objetivo da observação em
sala de aula era capturar cenas, falas e gestos indicadores do papel de mediador afetivo da
professora na relação do aluno com a cultura escolar. Ou seja, dar relevo às reações das
crianças ao ambiente escolar tais como: atenção/desatenção, concentração/
desconcentração, interesse/desinteresse, vontade/falta de vontade, entre outras e observar a
contribuição da professora para tais reações e também sua postura diante deste quadro.
Tomamos as seguintes situações como indicadores de interferência mais direta da
afetividade no espaço escolar, mais especificamente no interior da sala de aula.
Da parte do aluno estabelecemos a resposta às atividades propostas pela professora
como indicadores de interferência da afetividade na inserção da criança na cultura escolar,
quais sejam:
1 Pronta resposta às atividades propostas;
2. Pedido de auxílio;
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As emoções são reações organizadas e que se exercem sob o comando do sistema nervoso central (Galvão, 1995 apud
Stadnik, 2003. p.26)
NASCIMENTO, C.C.do; ARAÚJO, K.K.C.de; ARAÚJO, J.de. A afetividade como mediadora na relação professor-aluno: um estudo
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A ocorrência dessas situações indicaria um nível de afetividade positiva.
Recusa em ser ajudado;
Indiferença ao comando;
A ocorrência dessas situações indicaria um nível de afetividade negativa.
De parte da professora buscamos indícios de afetividade:
1. Na forma como olha o dever cumprido e expressa valor
Com atenção
Sem atenção
2. Quando centra atenção nos erros ou nos comportamentos indesejados das
crianças, sem dizer no que consiste o ideal/esperado.
Em segundo momento realizamos entrevista semi-estruturada com a professora e em
seguida com os alunos. O objetivo das entrevistas era detectar por parte da professora a
importância que dá ao aspecto afetivo na sala de aula. Com os alunos, o objetivo era saber
como e em que momentos a professora era um elo de ligação entre a afetividade e a
cognição.
As entrevistas foram realizadas na escola, em uma sala reservada, todas as
entrevistas foram transcritas manualmente e realizadas individualmente com cada aluno e
depois em outro momento com a professora.
Delimitamos como nosso universo de estudo um grupo de vinte e sete (27) crianças
na faixa etária de quatro a cinco anos (4-5) de ambos os sexos, sendo 15 (quinze) meninos e
12 (doze) meninas do grupo IV da rede Municipal da cidade de Recife, e a professora da
sala.
3 ANÁLISE DOS DADOS
A análise dos dados se dará em paralelo com a descrição das situações mais
significativas nos três momentos da coleta de dados.
Foram realizadas no total nove observações, durante um mês e meio. Essas
observações foram registradas no modelo de diário de campo. Durante uma determinada
observação presenciamos uma cena que ilustra bem a postura da professora com relação à
afetividade: uma aluna bate em um outro aluno e assim desencadeia na sala um clima hostil,
a professora então repreende a aluna e explica que ela não pode fazer aquilo (bater nos
coleguinhas). A menina então inicia um choro e chuta os objetos a sua volta. E neste
momento a postura da professora para acalmá-la é a de sentá-la em sua frente em uma
cadeira pequena (a professora também senta-se em outra cadeira) e abraça-a até cessar o
choro da aluna, sempre conversando baixinho em seu ouvido.
A partir das observações um dos veículos que se constitui como forte expressão de
afetividade foi à freqüência com que a professora se mantinha próxima dos seus alunos e a
forma com que os acolhia fisicamente em suas necessidades.
A proximidade entre a professora e os alunos propiciou inúmeras formas de interação.
Isso foi observado durante todo o período de observações em determinados momentos onde
era pedido aos alunos que executassem determinada tarefa, como, por exemplo, escutar e
depois ensaiar junto com a professora a música “Velha Infância”, dos Tribalistas para a
apresentação do Dia das Mães.
No momento do ensaio observamos que os alunos esperavam a professora começar
o refrão da música e então acompanhavam em coro. Então podemos concluir que a
proximidade da professora constitui-se numa forma de interação afetiva, que amenizava a
NASCIMENTO, C.C.do; ARAÚJO, K.K.C.de; ARAÚJO, J.de. A afetividade como mediadora na relação professor-aluno: um estudo
com crianças da pré-escola. IN R. BORBA, A.BOTLER (ORG) Caderno de Trabalhos de Conclusão do Curso de Pedagogia – v.1 2004.1 – 2004.2 - 2005.1. Recife, Centro de Educação, UFPE, 2006, 14p.
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ansiedade e transmitia confiança e encorajava os alunos a investirem no processo de
execução da atividade, interferindo significativamente no processo de aproximação do
conhecimento. Segundo Dantas (1993), “é impossível alimentar afetivamente à distância” (p.
75). A troca de sentimentos foi possível pela proximidade entre alunos e a professora.
Um outro momento da coleta de dados foi o das entrevistas com os alunos (dez
alunos no total, sendo cinco meninos e cinco meninas). Considerou-se de fundamental
importância ouvir o que os alunos tinham a dizer a respeito da escola e conseqüentemente
identificar em suas falas aspectos afetivos da ação da professora em sua interação com os
alunos.
Quando foi perguntado aos alunos o que tem de bom na escola, foi unânime a
resposta “brincar” e “brincar com os coleguinhas”. Quando perguntados sobre de quem você
mais gosta aqui na escola, alguns apontaram para outros coleguinhas e outros disseram a
“tia”. Os alunos evidenciaram em seus comentários em momentos após a entrevista, que a
professora é a figura de ligação entre o que tem de bom na escola e o gostar de estar na
escola.
Comentário de um aluno: “se tia não vem pra escola, eu não fico aqui. Peço pra minha
mãe me levar pra casa, eu gosto de ficar com ela.” (C.S – 4 anos). E os outros também
disseram: “Eu também só fico com a tia.” (M. T – 5 anos)
Os dados revelaram que nesta idade (pré-escolar) a professora representa um elo
afetivo muito forte entre a criança e a cultura escolar. E é neste contexto que Wallon enfatiza
o papel do professor na constituição da pessoa do aluno.
O terceiro momento da coleta de dados, foi a entrevista com a professora. Ela
conceitua afetividade como uma relação de troca entre as pessoas que envolve ternura,
respeito, carinho e atenção. Procura deixar claro, que para ela afetividade é um elemento
necessário para o desenvolvimento da criança como um todo. Ela chama a atenção para a
necessidade de diálogo como instrumento que vai fazer a criança sentir-se querida por ela. A
professora demonstra saber utilizar afetividade positivamente em sala de aula quando diz:
“A afetividade pode ajudar até no controle da indisciplina, pois o aluno quando se
sente querido pela professora, procura se controlar e participar mais”. (MGAG)
Os dados apresentados revelaram que a professora é consciente da construção do
conhecimento via competências afetivo/cognitivos, tais como: dedicação, carinho, atenção,
respeito e companheirismo. Segundo Dantas (1993) os indicadores de afetividade permeiam
a relação com as crianças e seu desempenho. Eles estão claros no entusiasmo e na paixão
ao apresentar o resultado de uma pesquisa, ao descobrir a solução de um problema, ao
vibrar com história contada, com o trabalho realizado. Para que eles sejam levados em
conta, a observação é fator essencial.
Conhecer a trajetória da afetividade do aluno permite ao professor adequar seu ensino
às necessidades afetivas dos seus alunos, promovendo o desenvolvimento da pessoa
completa.
“Depende do papel de educador que você se propõe a desempenhar: se você só quer
passar o conteúdo curricular, sem se envolver, não dará espaço para a afetividade
fluir em sua sala. Agora, se você quer ser o educador que vai contribuir para as outras
dimensões dos seus alunos além da cognitiva, com certeza desenvolverá uma relação
afetiva”. (MGAG)
Esta fala da professora está em consonância com o pensamento de Nóvoa sobre o
“ser professor”: “Ser professor obriga a opções constantes, que cruzam a nossa maneira de
NASCIMENTO, C.C.do; ARAÚJO, K.K.C.de; ARAÚJO, J.de. A afetividade como mediadora na relação professor-aluno: um estudo
com crianças da pré-escola. IN R. BORBA, A.BOTLER (ORG) Caderno de Trabalhos de Conclusão do Curso de Pedagogia – v.1 2004.1 – 2004.2 - 2005.1. Recife, Centro de Educação, UFPE, 2006, 14p.
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ser com a nossa maneira de ensinar, e que desvendam na nossa maneira de ensinar a
nossa maneira de ser” (Nóvoa8, 1995 apud Stadnik, op. cit)
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados da pesquisa revelaram aspectos importantes que devem ser
considerados por todos aqueles que vivem e convivem no espaço escolar.
As relações mediadas pela afetividade revelam a professora e alunos, alegres,
entusiasmados, construindo e reconstruindo, descobrindo formas prazerosas de ensinar e
aprender, num espaço de convivência em que as interações melhoram o nível de
aprendizagem, amor, cooperação e solidariedade, o que possibilita vislumbrar uma educação
para o futuro. A mediação afetiva além de ser a ação para a cognição, revelou-se um grande
antídoto contra as agressões e violência na família e na escola. Confirmou-se a importância
da família na construção dos vínculos afetivos e a responsabilidade da escola em não
destruir, bem como seu compromisso de acolher os sujeitos e garantir a estes os seus
direitos dentre eles, o respeito ao seu ritmo de aprendizagem; de amar e ser amado, de viver
e ser feliz...
A pesquisa rompeu com um paradigma forte da educação que tem uma concepção
equivocada, concebe a afetividade como sinônimo de bondade. Portanto
o diretor, o professor bonzinho não tem autoridade, isso é uma ameaça para seu espaço,e
nesta concepção fundamenta o seu fazer pedagógico...
Os resultados registraram o significado/sentido da afetividade atribuído pela entrevista
da professora além de apresentar este significado no discurso e na prática pedagógica
cotidiana, considerando como competências afetivas e cognitivas que constitui o papel do
bom professor; mostrando que autoridade se constitui com responsabilidade nas interações
e valendo-se da mediação afetiva, sem necessidade de autoritarismo como instrumento de
poder, de auto-afirmação, nos espaços construídos e conquistados.
Que afetividade e cognição andam juntas, portanto privilegiar uma ou outra
desconsidera a totalidade humana, correndo o risco de comprometer a aprendizagem e as
descobertas dos sujeitos. Outro aspecto apontado a partir dos dados, pode se concluir que
existem transformações importantes nas formas de expressão e mudanças significativas nos
níveis de exigência afetiva. As formas de expressão que utilizam exclusivamente o corpo,
como o toque, os olhares e as modulações de voz, vão ganhando mais complexidade.
“Com o advento da função simbólica que garante formas de
preservação dos objetos ausentes, a afetividade se enriquece com
novos canais de expressão. Não mais restrita a troca de corpos, ela
agora pode ser nutrida através de todas as possibilidades de expressão
que serve também a atividade cognitiva.” (Dantas, 1993, p. 75)
Neste sentido, é possível concluir que a afetividade não se limita apenas à
manifestações de carinho físico e de elogios superficiais.
Conforme a criança avança em idade torna-se necessário: “ultrapassar os limites do
afeto epidérmico, exercendo uma ação mais cognitiva num nível, por exemplo da linguagem.”
(Almeida, 1999, p. 108). Mesmo mantendo-se o contato corporal como forma de carinho,
falar da capacidade do aluno, elogiar o seu trabalho, reconhecer seu esforço, constituem-se
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Nóvoa, A. profissão professor. Porto – Portugal: Porto, 1995.
NASCIMENTO, C.C.do; ARAÚJO, K.K.C.de; ARAÚJO, J.de. A afetividade como mediadora na relação professor-aluno: um estudo
com crianças da pré-escola. IN R. BORBA, A.BOTLER (ORG) Caderno de Trabalhos de Conclusão do Curso de Pedagogia – v.1 2004.1 – 2004.2 - 2005.1. Recife, Centro de Educação, UFPE, 2006, 14p.
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formas cognitivas de vinculação afetiva.
Os dados apresentados parecem confirmar que existe um refinamento nas trocas
afetivas. Foi encontrado; nos depoimentos tanto de alunos como da professora, referências a
respeito, valorização de cada um, dedicação e desejo de ajudar o outro. Assim quanto
melhores forem as condições de se cultivarem sentimentos como estes, mais consistentes e
profundos serão os relacionamentos promovendo uma aprendizagem significativa.
Outro ponto observado nos dados foi a importância das diversas formas de interação
entre a professora e os alunos, para a construção da auto-estima e da autoconfiança,
influindo diretamente no processo de aprendizagem. Freqüentemente detectaram-se nas
interações, sentimentos de acolhimento, simpatia, respeito, carinho, paciência e apreciação.
Da mesma forma, evidenciaram-se sentimentos de compreensão, aceitação e valorização do
outro. Nesse sentido pode-se concluir que as experiências vividas em sala de aula trocas
afetivas positivas que não só marcaram positivamente o objeto de conhecimento como
também forneceram a autonomia e fortaleceram a confiança dos alunos em suas
capacidades e decisões.
A pesquisa confirmou que só há aprendizagem se mediada pela afetividade nas
relações professor x aluno sendo a ação que encaminha e impulsiona a cognição, apontando
também que a privação afetiva na família e na escola pode desencadear uma série de
problemas para o próprio sujeito, a exclusão social, o abandono, a marginalidade,
encontrando nas drogas as fugas e negações e um ilusório prazer na violência como forma
de sobrevivência.
Galvão (1995, p. 206) diz:
“[...] o apego às pessoas é uma inextinguível necessidade para a pessoa da
criança. Se for privada disso, será vítima quer dos atrofios psíquicos, das
quais o seu gosto de viver e sua vontade guardarão angústias, que marcarão
paixões penosas ou perversas.”
Agregando essa idéia, Wallon in Goleman (1995) e Morin (2003), respeitadas as
diferenças se aproximam em alertar sobre a importância e o controle das emoções e
recomendam que este seja um conhecimento apropriado pelos professores. Wallon (apud
Dantas, 1992, p. 89) [...] “ a educação da emoção deve ser incluída entre os propósitos da
ação pedagógica, o que impõe o conhecimento íntimo do seu modo de funcionamento.” A
importância atribuída à emoção, inclusive pelo seu poder de contágio é que alerta para o
conhecimento do poder corticalizá-la enfim, de manter o equilíbrio e cognitivo, pois uma
emoção descontrolada pode diminuir, estacionar e até reduzir a capacidade cognitiva.
Morin (2003, p. 20) reforça esta perspectiva: “a afetividade pode asfixiar o
conhecimento, mas pode também fortalecê-lo”; as emoções são indispensáveis para o
comportamento racional.
Nesta perspectiva constatou-se que muitas das dificuldades do ensino-aprendizado e
no tipo de relação entre professor-aluno, aluno-aluno são proporcionados pela falta de
afetividade. A pesquisa também vem ratificar que o desenvolvimento humano não se dá de
forma linear, mas por meio de conflitos, assim como o sujeito não está dado a infelicidade do
determinismo. O homem faz e muda sua história, portanto, o cuidado com as transferências
de vivências negativas nas relações com o outro, o que pode ser encaminhado por relações
e afetos de ódio.
Outro aspecto importante são as posturas, sinais, gestos, o olhar, enfim a linguagem
não-verbal, que no significado expressam mais que palavras, é a forma externalizada do que
pensamos e o que sentimos, revelamos o que somos e o porque, fazemos... É ingenuidade
NASCIMENTO, C.C.do; ARAÚJO, K.K.C.de; ARAÚJO, J.de. A afetividade como mediadora na relação professor-aluno: um estudo
com crianças da pré-escola. IN R. BORBA, A.BOTLER (ORG) Caderno de Trabalhos de Conclusão do Curso de Pedagogia – v.1 2004.1 – 2004.2 - 2005.1. Recife, Centro de Educação, UFPE, 2006, 14p.
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ou ignorância pressupor que os alunos não saibam fazer essas leituras. Eles fazem...
Enfim, fica evidente que a “cognição passa pelo coração.”
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Anexo 01
Entrevista piloto (com a professora)
Como você conceitua afetividade?
Acredita que a afetividade pode favorecer a relação professor-aluno?
Na sua formação profissional a questão da afetividade entre professor-aluno foi
abordada? De que forma?
Que importância acredita existir entre a afetividade e o desenvolvimento infantil?
Quais as situações em sala de aula mais difíceis para você?
Acredita que haja espaço na escola atualmente para a afetividade?
Anexo 02
Entrevista piloto (com os alunos)
O que você faz na escola?
O que tem de bom na escola?
O que você gostaria que tivesse na escola?
O que você não gosta na escola?
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