UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas
O CONHECIMENTO PARANÓICO: A TESE LACANIANA EM UMA INTERFACE
COM A ATUALIDADE
Simone de Fátima Gonçalves
Belo Horizonte
2006
2
Simone de Fátima Gonçalves
O CONHECIMENTO PARANÓICO: A TESE LACANIANA EM UMA INTERFACE
COM A ATUALIDADE
Dissertação apresentada ao Departamento de PósGraduação em Psicologia, Mestrado em Psicologia, como
requisito parcial à obtenção do título de Mestre em
Psicologia.
Área de concentração: Estudos Psicanalíticos
Orientador: Antônio Márcio Ribeiro Teixeira
Belo Horizonte
2006
3
Simone de Fátima Gonçalves
O conhecimento paranóico: a tese lacaniana em uma interface com a
atualidade
Dissertação apresentada ao Departamento de Pós-Graduação em Psicologia,
Mestrado em Psicologia, da Universidade Federal de Minas Gerais.
Belo Horizonte, 2006.
Antônio Márcio Ribeiro Teixeira
Orientador - UFMG
Richard Theisen Simanke
Avaliador
Maria Elisa Alvarenga
Avaliadora
4
GONÇALVES, Simone de Fátima
O conhecimento paranóico: a tese lacaniana em uma interface com a
atualidade. - - Belo Horizonte: UFMG / FAFICH, 2006.
X, 118 f. : il. ; 31 cm.
Orientador: Antônio Márcio Ribeiro Teixeira
Tese (mestrado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Programa de
Pós Graduação da Faculdade de Ciências Humanas, 2006.
1. Conhecimento Paranóico. 2. Estudos Psicanalíticos – Tese. Ι. Teixeira,
Antonio Márcio Ribeiro. ΙΙ. Universidade Federal de Minas Gerais, FAFICH,
Programa de Pós Graduação da Faculdade de Ciências Humanas. ΙΙΙ. O
conhecimento paranóico: a tese lacaniana em uma interface com a atualidade.
5
AGRADECIMENTOS
Ao Antônio, pela orientação, ética, apoio incondicional e aprendizado.
À Elisa Alvarenga e ao Richard Simanke, por terem aceitado avaliar este
trabalho.
Aos professores do mestrado, principalmente ao Jeferson, presença
indispensável, pelo aprendizado.
A Anamáris Pinto, pelas informações valiosas sobre o caso clínico.
Aos colegas: Carol, Cláudia, Izabella, Kátia Mariás, pela convivência e
pelas construções advindas a partir daí.
A Fatinha, pelo empurrão e pelo afeto.
Aos amigos, fratria, que nos é permitido escolher: Lili, Marco, Irani, Kit,
Dante.
Aos colegas do CERSAM, pelo aprendizado.
À Ana Maria, pelo acolhimento e sábia tolerância.
À Lúcia Grossi, pela escuta preciosa,
À Ângela Diniz, pelos encontros.
Aos meus filhos Pedro e Ana, por acolherem minha ausência, e a
presença às vezes difícil, em momentos que só o amor abriga na intimidade.
Ao Paulo, pelo cuidado intensificado com os meninos.
A Solange e Iracy, pela acolhida e apoio, e à Suely pelas correções.
A Beth e Alessandro, por organizarem nossas questões administrativas.
A Leonardo e Liliane, pela ajuda.
A todos aqueles que contribuíram, direta ou indiretamente, para este
percurso.
6
Todas
as
coisas
humanas
têm
dois
aspectos... para dizer a verdade todo este mundo
não é senão uma sombra e uma aparência; mas
esta grande e interminável comédia não pode
representar-se de um outro modo. Tudo na vida é
tão obscuro, tão diverso, tão oposto, que não
podemos nos assegurar de nenhuma verdade.
Erasmo, Elogio da Loucura (1509)
7
RESUMO
Neste trabalho analisamos as bases teóricas que fundamentaram a tese
lacaniana sobre o fundamento paranóico de todo conhecimento humano, nomeada
pelo sintagma “conhecimento paranóico”. Ela surgiu como uma torção da tese de
doutorado de Lacan de 1932 “Da Psicose Paranóica em suas relações com a
Personalidade”, onde ele propõe a paranóia como fenômeno de conhecimento,
afastando-a da noção de déficit, e nos trabalhos subseqüentes acaba por estender
ao conhecimento humano em geral a pré-condição paranóica.
Situamos o eixo desta mudança no texto “O estádio do espelho como
formador da função do Eu”, no qual Lacan localiza a Imago como matriz imaginária
do eu, à partir de uma releitura de Wallon à luz da teoria da libido freudiana. Para ele
é a virtualidade fundante das relações de identificação com os objetos imaginários
que instaura o transitivismo especular, base para as relações de conhecimento:
fundamento que o permite definir como paranóico o conhecimento humano em geral.
O conhecimento paranóico é caracterizado por Lacan como um elemento de
inércia em oposição à dialética desde a concepção Hegeliana, um congelamento no
movimento de reconhecimento dos objetos e do próprio eu em uma estrutura
estagnada, onde os objetos se multiplicam de maneira análoga como em um
labirinto de espelhos onde as imagens se reproduzem ao infinito.
Propusemo-nos a acompanhar a diferença entre o conhecimento e a ciência a
partir da revolução científica, conforme proposta pela leitura filosófica. O
conhecimento se distingue, sobremaneira, da ciência, fato de alcance fora do campo
da psicanálise. O conhecimento funda-se na relação de conaturalidade entre o
8
sujeito cognoscente e o objeto conhecido, ou seja, aquela dada pela virtualidade
especular do eu. Já a ciência estabelece, como requisito de sua fundação, um
sujeito esvaziado de suas qualidades intrínsecas (mesmo sujeito da psicanálise) e a
sua separação do objeto.
Outro ponto que concerne este trabalho é a distinção entre a alienação como
forma geral do imaginário e a alienação psicótica, o que descrevemos à partir da
introdução do Outro com o registro simbólico ilustrado pelo esquema ótico.
Por fim analisamos um caso de psicose, fazendo um contraponto com a
atualidade. Trata-se de uma paranóica que apresenta uma peculiaridade nos seus
arranjos delirantes, através dos quais ela constrói uma alquimia particular onde
produz receitas para tratamento, reeditando de maneira caricatural a forma de
constituição do conhecimento antigo, um modelo do que Lacan chamou
conhecimento paranóico.
9
RÉSUMÉ
TITRE: LA CONNAISSANCE PARANOIAQUE : LA THÈSE LACANIENNE DANS
UNE INTERFACE AVEC L’ACTUALITÉ.
Dans ce travail on analyse les bases théoriques qui fondent la thèse
lacanienne du fondement paranoïaque de toute connaissance humaine, nommée par
le syntagme «connaissance paranoïaque ». Elle a surgi comme une torsion de la
thèse de doctorat de Lacan de 1932 «De la psychose paranoïaque dans ses
rapports avec la personnalité », où il propose la paranoïa en tant que phénomène de
connaissance en l’éloignant de la notion de déficit, et dans ses travaux postérieurs il
finit par étendre à la connaissance humaine en général la pré-condition paranoïaque.
On va situer l’axe de ce changement dans le texte «le stade du miroir comme
fondateur de la fonction du Je », dans lequel Lacan localise l’imago en tant que
matrice imaginaire du Je, à partir d’une relecture de Wallon à la lumière de la théorie
de la libido freudienne. Pour lui c’est la virtualité fondatrice des relations
d’identification avec les objets imaginaires qui instaure le transitivisme spéculaire, qui
est la base pour les relations de connaissance : fondement qui permet définir la
connaissance humaine générale comme paranoïaque.
La connaissance paranoïaque est caractérisée par Lacan comme un élément
d’inertie en opposition à la dialectique depuis la conception Hégélienne, une
congélation dans le mouvement de reconnaissance des objets et du propre «Je »
dans une structure stagnée, où les objets se multiplient de façon analogue, tel qu’un
labyrinthe de miroirs où les images se reproduisent à l’infini.
10
On s’est proposé d’accompagner la différence entre la connaissance et la science à
partir de la révolution scientifique, selon la proposition de la lecture philosophique.
La connaissance se distingue extrêmement de la science par le fait de la portée hors
du champ de la psychanalyse. La connaissance se fonde dans la relation de
conaturalité entre le sujet cognoscent et l’objet connu, ça veut dire, celle donnée par
la virtualité spéculaire du Je. La science, elle requiert pour sa fondation, un sujet vidé
de ses qualités intrinsèques (y compris le sujet de la psychanalyse) et sa séparation
de l’objet.
Un autre point qui concerne ce travail est la distinction entre l’aliénation comme
forme générale de l’imaginaire et l’aliénation psychotique, ce qu’on décrit à partir de
l’introduction de l’autre comme un registre symbolique illustré par le schéma optique.
Enfin on analyse un cas de psychose en faisant un contrepoint avec la réalité. Il
s’agit d’une femme paranoïaque qui présente de façon très particulière
ses
arrangements délirants, à travers lesquels elle construit une alchimie propre où elle
produit des ordonnances pour son traitement rééditant de manière caricaturale la
façon de constitution de la connaissance ancienne, un modèle de ce que Lacan a
appelé connaissance paranoïaque.
11
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO: DO CONHECIMENTO PARANÓICO A UMA CARICATURA DA
ATUALIDADE......................................................................................................... 15
1 O MODO PARANÓICO DO CONHECIMENTO HUMANO: UMA TRAVESSIA
TEÓRICA ............................................................................................................ 27
1.1 A paranóia: uma entidade cognitiva ................................................................. 28
1.1.1 O conceito de personalidade em Lacan.................................................. 30
1.1.2 O caso Aimée e a paranóia como fenômeno cognitivo ........................... 34
1.2 O conhecimento humano e seu fundamento paranóico ................................... 38
1.2.1 O espelho como matriz do conhecimento ................................................ 40
1.2.2 A loucura como verdade do ser ............................................................... 50
1.2.3 O conhecimento paranóico e a psicose ................................................... 59
2 DO CONHECIMENTO À CIÊNCIA...................................................................... 68
2.1 O conhecimento nos avatares do campo imaginário........................................ 69
2.2 A ciência moderna e seu deus veraz ............................................................... 81
3 UMA CRÔNICA QUIXOTESCA DA ATUALIDADE ............................................. 98
CONCLUSÃO......................................................................................................... 120
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ....................................................................... 125
12
13
ANEXO 1
Relação dos principais textos em que surge a proposição conhecimento paranóico,
por ordem cronológica............................................................................................ 130
ANEXO 2
Alguns fragmentos dos manuscritos da Sra Kimiya ............................................... 131
ANEXO 3
Pequena resenha da obra de Miguel de Cervantes: Dom Quixote de La Mancha. 135
ANEXO 4
Pequena resenha do caso Aimée .......................................................................... 137
14
LISTA DE FIGURAS
FIGURA 1 - Espelho plano ..................................................................................... 45
FIGURA 2 - Esquema ótico .................................................................................... 63
FIGURA 3 - Esquema ótico com acréscimo do espelho plano............................... 64
FIGURA 4 - Modelo de cosmo de Hiparco ............................................................. 78
FIGURA 5 - Modelo geocêntrico de Ptolomeu ....................................................... 79
FIGURA 6 - Modelo heliocêntrico de Copérnico..................................................... 81
FIGURA 7 - Esquema ótico modificado.................................................................. 104
FIGURA 8 - Esquema L ......................................................................................... 105
15
INTRODUÇÃO
DO CONHECIMENTO PARANÓICO A UMA CARICATURA DA
ATUALIDADE
A expressão conhecimento paranóico foi introduzida por Jacques Lacan nos
anos que sucederam à sua tese de doutorado, em 1932, e, após 1960, não se
encontra mais citações sobre o termo. Propusemo-nos seguir o percurso do autor ao
longo das elaborações que sustentaram este sintagma, até o ponto que as
referências a ele, pelo menos diretamente, se esvaziaram.
A propósito do termo, examinamos, no decorrer deste texto, uma psicose
curiosa: a de uma mulher, uma paranóica, que circula no meio psiquiátrico há muito,
e que, capturada no registro especular, apresenta peculiaridades de linguagem que
homogeneízam uma multiplicidade de fenômenos. Nos primórdios de sua infância,
ocorreu a emergência de dois episódios alucinatórios que ocasionaram revelações
sobre sua origem, a partir dos quais passa a negar os pais verdadeiros, e ao longo
do tempo, precipita-se numa construção delirante onde afirma ser filha de médicos.
Essa crença leva-a à declaração de que também é médica, e a uma megalomania
onde assevera ser autora de vários tratados de medicina e também de clássicos
literários. Essa multiplicação de imagens no delírio condensa-se ao produzir, através
de uma alquimia particular, receitas para tratamento dos males cotidianos que
podem conduzi-la à nomeação médica. Mas o que este caso nos esclarece acerca
da questão levantada? O que ele nos revela neste campo?
Deixemos, por enquanto, em suspenso, essas interrogações, com o
propósito de recorrer a Sigmund Freud. Na introdução de seu texto Notas
16
psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranóia, ele nos
apresenta o seguinte:
a investigação psicanalítica da paranóia seria completamente
impossível se os próprios pacientes não possuíssem a peculiaridade
de revelar (de forma distorcida, é verdade) exatamente aquelas
coisas que os outros neuróticos mantêm escondidas como um
1
segredo.
Freud nos alerta que a psicose pode nos ensinar sobre os mecanismos
neuróticos, e assim, propusemos deixar-nos orientar por esta referência, no decorrer
desta dissertação. O caso Schreber é escrito por ele a partir da leitura do livro
Memórias de um doente de nervos2, onde o próprio enfermo descreve sua trajetória.
Frente à generosa transparência do quadro clínico apresentado pela afecção, Freud
busca elementos da escrita schreberiana, a fim de compor uma interpretação
analítica do funcionamento psíquico da paranóia que vá ao encontro da elucidação
dos impasses levantados na teoria da libido, quando confrontada com a psicose,
tornando-se, até então, um texto paradigmático para os estudos que concernem a
essa patologia.
Em seu artigo, traduz a linguagem do inconsciente e tenta elucidar o
mecanismo da paranóia, isolando sua especificidade a partir da fixação ao
narcisismo. No texto freudiano, o narcisismo é tratado, a partir daí, como um estágio
normal da evolução libidinal no ser humano, e torna-se um marco fundante na teoria
do eu, exatamente por apontar este último como primeiro objeto investido pela libido.
O fundamental de isolar no amplo espectro da teoria de Freud, na ótica
que este trabalho enfoca, é que, na paranóia, o sujeito retira o investimento libidinal
do mundo exterior e ocorre um retorno de libido ao eu. Lacan vai retomar este ponto
em seus trabalhos sobre a psicose, e, apoiado na doutrina freudiana e na concepção
1
2
FREUD (1911, p.23).
SCHREBER (1995).
17
de Kraepelin3, sobre as demências, vai eleger a paranóia como objeto de suas
investigações, desde a tese de 1932 até o final de seu ensino.
A paranóia é, de todas as loucuras, provavelmente a mais humana, talvez
a mais pura e, até mesmo, a mais bem compreendida, conforme nos assevera
Marcel Czermak4. Lacan iniciou seus trabalhos pelo estudo da paranóia (1932),
depois desenvolveu a pré-condição paranóica de todo conhecimento humano ligado
à constituição do eu (1936-49), situou a psicose como estrutura a partir do termo
freudiano Verwerfung, que nomeado como forclusão do Nome-do-Pai (1955-56), e
finalmente afirmou que a personalidade e a psicose paranóica são a mesma coisa
(1975).5 No percurso deste autor, dois caminhos se abrem: o primeiro onde a
“paranóia” vai designar a estrutura mais universal do eu, e o segundo, a “paranóia”
que também se torna a psicose no seu caráter clínico mais puro.
Lacan vai entrelaçar, em um ponto de coincidência (o transitivismo), as
duas vertentes acima. No primeiro tempo, às voltas com a elaboração da teoria do
imaginário, desenvolve a tese sobre a estrutura paranóica do conhecimento
humano, definindo, a partir daí, como paranóico, todo conhecimento que se constitui
na virtualidade especular do eu, que se origina no desconhecimento fundamental
que rege o sujeito no registro imaginário. Ponto de passagem, ou estádio, onde a
estruturação do eu não corresponde mais a uma função adaptativa à realidade,
como havia sido proposto em 1932, mas à adaptação da realidade a si, em uma
identificação psíquica imaginária como forma constitutiva dos objetos do mundo –
3
BERCHERIE (1989). Emil Kraepelin – Psiquiatra clássico que, por volta de 1889, propõe separar a
paranóia das demais parafrenias, definindo-a como um sistema delirante fixo, sem alucinações e sem
deterioração da personalidade, sendo reconhecido por Lacan, na sua tese, como quem afastou a
paranóia de um déficit capacitário, baseando-se na evolução e no prognóstico clínico.
4
CZERMARK (2005, p. 71).
5
CZERMARK (2005, p. 71).
18
uma forma de conhecimento. Elucidar as bases desta formulação concerne o objeto
de estudo desta dissertação.
Esta expressão, conhecimento paranóico, aparece em poucos textos de
Lacan, entre 1935 a 19606 entre os quais elegemos alguns. A primeira referência é
uma resenha de Lacan sobre o livro de Minkowski Compte rendu de lê temps vecu
(1935), mas as bases de sua construção encontram-se em O estádio do espelho
como formador do eu (1949); ganha um acréscimo em Formulações sobre a
causalidade psíquica (1946), portanto, se encorpa, como uma tese, em Some
reflexions on the ego (1953), sendo esses trabalhos do período que concerne à
elaboração de sua teoria do imaginário. Contudo, a tese é resgatada no Seminário 3,
no texto O Outro e a psicose (1955-(56) quando o autor já opera a sua leitura teórica
à luz do estruturalismo, dimensionando o registro do simbólico, e, por fim, é citada
pela última vez em Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente
freudiano (1960).
O conhecimento paranóico surge como conseqüência de uma torção7 dos
conceitos formados em sua tese de doutorado em medicina Da psicose paranóica
em suas relações com a personalidade8, onde vai estabelecer a paranóia como um
desenvolvimento de personalidade. Para tal, vai se apoiar na formação da
personalidade, desdobrando-a em uma tripla função estrutural: o desenvolvimento, a
concepção de si mesmo e uma certa tensão nas relações sociais, sendo este tripé
referência descritiva para o desenvolvimento normal, e também para a construção
dos delírios sistematizados. Lacan, a partir da análise do caso Aimée, vai propor a
6
No Anexo 1, no final deste trabalho, encontra-se uma lista das principais citações da expressão
conhecimento paranóico, em uma organização cronológica.
7
A palavra torção, neste texto, é empregada conforme seu uso na psicanálise, apresentando um sentido
topológico, onde o giro das figuras, assim como das idéias, permitem uma visão mais ampliadas, ou no formato
gráfico, tridimensional.
8
LACAN (1932).
19
paranóia como uma síntese discordante da personalidade de desenvolvimento
normal, como um fenômeno cognitivo total, ou seja, como fenômeno do
conhecimento. Afasta, dessa forma, a paranóia de um déficit, aproximando-a do
conhecimento, como uma constituição histórica das inter-relações do indivíduo e seu
meio ambiente, endereçando a questão da origem à interface com o campo social.9
Nos trabalhos que sucedem a tese, ele se apóia na afirmação,
anteriormente feita, ou seja, a equiparação do conhecimento normal à paranóia,
propondo-a como um fenômeno cognitivo, para estendê-la ao conhecimento humano
em geral, dando a esta universalização a nomeação de conhecimento paranóico.
Assim, ele parte de uma construção clínica estabelecida a partir da análise do caso
Aimée para lançá-la ao campo epistemológico. A idéia subjacente, ou o fim último da
tese do conhecimento paranóico é a afirmação da imanência da loucura à realidade
humana, a qual ele explicitará no debate com Henri Ey em Formulações sobre a
causalidade psíquica10, em 1946. Portanto, é no texto Some reflexions on the ego11
que Lacan interroga, frente à fundação virtual do eu, a psicanálise e o seu campo de
intervenção.
O eixo dessa mudança coloca-se nas construções sobre o estádio do
espelho, que acaba por desembocar no percurso pelo qual se forma o ser humano
sob o olhar de Lacan: em uma identificação com seu semelhante através do
reconhecimento da própria imagem, estabelecida frente à experiência de um
desconhecimento fundamental. Em 1949, Lacan publica o texto O estádio do
espelho como formador da função do eu12, como uma revisão do proposto por ele
em 1936, sendo que esta concepção passa por pelo menos três momentos ao longo
9
SIMANKE (2002).
LACAN ([1946] 1998).
11
LACAN (1953).
12
LACAN, ([1949] 1998).
10
20
do ensino de Lacan: durante a construção da teoria do imaginário (1938-1953), no
desenvolvimento do registro do simbólico (1953-1964) e, finalmente, com a
introdução da dimensão do real (1964-1980).13 Interessam-nos os dois primeiros
momentos na elucidação das proposições sobre o conhecimento paranóico.
Então, no primeiro momento de abordagem do estádio do espelho, Lacan
vai estabelecer a função da Imago. Ele parte das formulações de Henri Wallon sobre
a noção de corpo próprio formada a partir da imagem da criança refletida no
espelho. O filósofo se apóia nos experimentos sobre a psicologia animal, e vai
diferenciar o filhote de homem de seu parente mais próximo, o chimpanzé, tendo
como base a sua reação diante da imagem refletida no espelho: o infans apresenta
uma reação de júbilo diante da imagem, enquanto que o primata porta-se com
indiferença.14
Lacan vai rever, sob a ótica da libido freudiana, o esquema de Wallon e
situar o eu como ligado à imagem do próprio corpo. A experiência de uma criança
entre seis a 18 meses diante do espelho localiza uma discordância entre o que ela
experimenta (um corpo impotente e vivido de forma desconexa) e sua imagem
(unificada) refletida. A noção da prematuração específica do nascimento humano,
onde o ponto mais importante é o inacabamento de seu sistema piramidal, vai dar as
coordenadas dessa relação com a imagem: sendo a criança ainda impotente no
controle motor, ela antecipa uma totalidade e uma potência na sua imagem refletida
no espelho. Matriz simbólica onde emerge o eu, momento de união das pulsões
parciais, instante formador do eu e da primeira identificação.15
A forma total do corpo e a miragem na qual se precipita o eu, constituemse numa exterioridade, em uma Gestalt fundante. Portanto, esta imagem externa à
13
ALVARENGA (1994, p. 85).
WALLON (1971, p. 188-191).
15
LACAN ([1949] 1998)
14
21
criança, seja aquela do espelho de estanho ou a do seu semelhante, é apreendida
fora como outro, e do lado da criança, da experiência vivida, permanece um
desconhecimento sobre si, que só pode se formular externamente. Trata-se de um
momento fundante que separa a instância do eu da realidade do corpo desde
sempre, fonte do ciúme e da rivalidade e, conseqüentemente, da agressividade, por
ser uma matriz externa e inalcançável e, ainda, por possuir o objeto de desejo do
sujeito, que aí se diferencia do eu, sendo assim situado como instância alienante
que inaugura a dialética do devir do sujeito.
Lacan nos remete a Hegel, ao resgatar que o desejo do homem é o
desejo de ter reconhecido seu desejo, e que ele se constitui sob o signo da
mediação. No nascimento do eu, ele encontra o conflito que Hegel colocou no
princípio de todo o progresso da história, aquele que opõe duas consciências em
uma luta à morte, cuja aposta é a de se fazer reconhecer pelo outro. No conflito do
mestre-escravo é o reconhecimento do homem pelo homem que está em jogo, ou
ainda, sob o olhar de Lacan, é a paixão da alma por excelência, o narcisismo, a
loucura pela qual o homem se acredita um homem é que se coloca aí em jogo.16
O eu é constituído nessa dialética que o instaura como um elemento
externo ao sujeito, sempre formado por uma virtualidade que se assenta sobre um
desconhecimento fundamental. Assim, para Lacan, a concepção do mundo se faz a
partir do pequeno outro que está em nós, sendo através dele que nos conhecemos,
assim como os objetos que concernem nossa realidade. O conhecimento humano,
dessa maneira, é próprio ao transitivismo especular, uma instância paranóica no ato
de eleger os objetos em consonância com o eu. Sigamos Lacan: “é um
16
LACAN ([1949] 1998, p. 96-103).
22
conhecimento instaurado na rivalidade do ciúme, no curso dessa identificação
primeira que tentei definir a partir do estádio do espelho”17.
O conhecimento paranóico é caracterizado por Lacan como um elemento
de inércia em oposição à dialética desde a concepção Hegeliana, um congelamento
no movimento de reconhecimento dos objetos e do próprio eu em uma estrutura
estagnada, onde os objetos se multiplicam de maneira análoga como em um
labirinto de espelhos onde as imagens se reproduzem ao infinito.18
No Seminário 3, a partir da introdução do registro do simbólico e da
releitura do caso Schreber, Lacan estabelece a psicose enquanto estrutura clínica.
No texto O Outro e a psicose19, retoma o conhecimento paranóico a fim de situá-lo
como estrutura distinta da psicose no campo da relação com o Outro. À luz do
esquema ótico, ilustramos essa separação localizando a psicose como uma questão
clínica e a paranóia do conhecimento como uma questão epistêmica.
O conhecimento se distingue, sobremaneira, da ciência, fato de alcance
fora do campo da psicanálise. O conhecimento funda-se na relação de
conaturalidade20 entre o sujeito cognoscente e o objeto conhecido, ou seja, aquela
dada pela virtualidade especular do eu. Já a ciência estabelece, como requisito de
sua fundação, um sujeito esvaziado de suas qualidades intrínsecas (mesmo sujeito
da psicanálise) e a sua separação do objeto.21 Propusemo-nos a acompanhar essa
distinção a partir da revolução científica, conforme proposta pela leitura filosófica.
17
LACAN ([1955-56] 2002, p. 50).
GODOY (2004, p. 96-103).
19
LACAN ([1955-56] 2002).
20
LACAN ([1958] 1998, p. 673) LACAN ([1958] 1998, p. 673. Lacan aborda a conaturalidade
utilizando o verbo co-naître, homófono de connaitre (conhecer), em um trocadilho que metaforiza o
transitivismo do conhecimento:“essa união do sujeito com o objeto, como podemos reconhecê-la, é o
ideal evocado desde sempre como princípio de uma teoria clássica do conhecimento, fundamentada
na conaturalidade pela qual o conhecedor, em seu processo, vem a co-nascer no conhecido. Como
não ver que é contra isto que se ergue toda a experiência psicanalítica...?” (p673).
21
MILLER (1998, p. 40-54).
18
23
A ciência moderna também se difere do conhecimento por prescindir do
imaginário na forma de construir seus objetos, sendo que ela os determina através
da linguagem matemática, constituindo, através de suas fórmulas, uma delimitação
do real pelo simbólico. Esse diferencial se renova a partir de Descartes, onde Deus
ocupa o lugar de uma garantia ausente para o saber científico, o que estabeleceu
um corte que situa a passagem do antigo para o moderno, onde não é mais o eu
que formata o conhecimento, elegendo signos em consonância com o saber divino,
e sim um sujeito, conforme definido por Koyré como sem qualidades22, esvaziado de
imaginário e de subjetividade. É acerca desse corte que Lacan vai afirmar que a
ciência silenciou o mundo transformando as estrelas em astros, em um texto
desenvolvido a partir da questão: “por que os planetas não falam?”23.
Enfim, retomamos o caso clínico, a fim de situar o que ele nos revela a
propósito do objeto de estudo desta dissertação. Kimiya24, conforme chamaremos a
paciente a partir daqui, ao construir de forma delirante uma alquimia particular onde
produz soluções para tratamento através da eleição de signos, reedita, de forma
caricatural, o modo de funcionar do conhecimento antigo (modelo do que Lacan
chamou conhecimento paranóico), portanto, ela o faz imprimindo toda uma
significação imaginária aos objetos produzidos pela ciência moderna, que abole
qualquer referência ao imaginário na sua fundação. Assim, Kimiya aponta-nos o
transitivismo como base comum sobre a qual a paranóia e o conhecimento se
22
MILNER (1996, p. 35).
LACAN (1985, p. 296-311).
24
KIMIYA, nome fictício dado à paciente, a fim de preservar sua identidade. A título informativo, a
palavra Kimiya é que vai dar origem ao nome Alquimia. Segundo GOLDFARB (1987, p. 41), na
Grécia Antiga, lugar onde provavelmente tomou corpo a teoria que foi conjugada à prática alquímica,
vem a palavra Chemeia. Este vocábulo deu origem ao termo árabe Kimiya o qual, devidamente
prefixado pelo artigo definido Al, dá origem ao termo final "Alquimia".
23
24
fundam. Contudo, este fato pode ser interpretado por um outro ângulo, aquele que
Michel Foucault elege em seu livro As palavras e as coisas 25.
Foucault26 analisou o personagem de Cervantes, Dom Quixote27, na
perspectiva do corte epistêmico entre a forma de constituição do conhecimento
antigo e o moderno, e comparou a figura literária ao homem formado no antigo
sistema de cosmo que, no momento da passagem para o novo, perdeu sua razão de
ser, e procurou seu lugar em um mundo que não mais existia. Acreditamos que este
tipo de análise descreve, com bastante proximidade, a situação vivida por Kimiya ao
operar com uma linguagem formatada em signos em um mundo já silenciado pela
ciência.
Dentro desta perspectiva, aproximamos Dom Quixote, na primeira parte
do romance, com Kimiya, considerando o aspecto que ambos não ultrapassaram o
crivo da dissimetria que marca as relações de identidade, e, assim, giram em torno
do mesmo: de maneira equivalente a Dom Quixote, que não se afasta da planície
familiar de sua província percorrendo-a em busca do análogo, Kimiya reproduz
indefinidamente signos em suas receitas, de forma que os dois acabam por dar
realidade às coisas através da crença delirante própria à estrutura da paranóia. Eles
testemunham a derrocada da antiga aliança entre as palavras e as coisas do mundo
e a magia como forma de explicação dos mistérios da existência; ponto a partir do
qual Foucault faz surgir a loucura como fato social.
Contudo, Kimiya, também nos mostra que há uma outra forma de divisão,
aquela dada pelo sujeito diante de um saber que é acionado pelo discurso da
ciência, um sujeito cartesiano da certeza que dá as coordenadas do discurso
25
FOUCAULT (1999).
FOUCAULT (1999, p. 63-68).
27
No Anexo 3, no final deste trabalho, encontra-se uma pequena resenha da obra de Miguel de
Cervantes, Dom Quixote de La Mancha.
26
25
científico, purificado das categorias imaginárias (S), e um sujeito freudiano do desejo
($), que se inquieta diante dos enigmas da existência e que, por sua vez, imprime
sua subjetividade na utilização dos objetos da modernidade.
A indústria da publicidade explora bem essa divisão, conforme já
denunciou Roland Barthes, nos anos 50 em seu livro Mitologias, no qual ele
apresenta uma série de crônicas onde vai desmontar os mecanismos publicitários
através da interrogação dos signos sociais que tendem a oferecer uma completude
imaginária ao sujeito. Portanto, as análises de Barthes sofreram uma transformação,
pois, na atualidade, a propaganda lida com um público menos ingênuo e que não se
deixa mais enganar: ela assume, então, o caráter humorístico, malicioso em relação
a si mesma, e caçoa dos próprios meios, ao projetar virtualmente nos objetos do
mercado aquilo que demanda a subjetividade do consumidor, transformando este
último em cúmplice do apelo publicitário à imagem perfeita como oferta de felicidade
e bem-estar.
Kimiya, em sua patologia, mostrar-nos-á que este pequeno outro,
identificado como eu, em circunstâncias bastante banais, como é o caso da
propaganda, é capaz de reencontrar sua autonomia inaugural e estabelecer sob a
égide especular um fenômeno aproximado ao delírio paranóico.
Para elucidar as bases da tese do conhecimento paranóico, restringimonos aos textos de Lacan até o período de 1960, data da última referência ao termo
em questão. Para tal, no primeiro capítulo, situamos a definição da paranóia como
fenômeno de conhecimento na tese de doutorado (1932), assim como o declínio
desta proposição que se coloca nos textos a partir dessa data, seguido da torção
que estende ao conhecimento humano em geral a condição paranóica, onde foram
26
privilegiados os textos Formulações sobre a causalidade psíquica28, O estádio do
espelho como formador da função do eu29, Some reflexions on the ego30 e também
do texto O Outro e a psicose31. No capítulo 2, estabelecemos a diferença entre o
conhecimento e a ciência com base na revolução científica, e, finalmente no capítulo
3, descrevemos o caso clínico da Sra Kimiya em contraposição com a alquimia e a
química moderna, destacando o que esta psicótica revela-nos em função da
paranóia do conhecimento.
Enfim, a propósito do objeto em questão, esperamos explicitar o que
Kimiya nos desvela através de suas produções, que foram tomadas neste como
testemunho caricatural da atualidade.
28
LACAN ([1946] 1998).
LACAN ([1949] 1998).
30
LACAN (1953).
31
LACAN ([1955-56] 2002).
29
27
1 O MODO PARANÓICO DO CONHECIMENTO HUMANO: UMA
TRAVESSIA TEÓRICA
A expressão conhecimento paranóico é citada em poucos textos de
Lacan, entre 1935 a 1960.32 Restringir-nos-emos a resgatar, neste capítulo, a sua
primeira referência em uma resenha sobre o livro de Minkowisk, assim como O
estádio do espelho como formador do eu33, e Some reflexions on the ego34
precedido por Formulações sobre a causalidade psíquica35e O Outro e a Psicose36.
Consideramos que este é um recorte que atende ao caminho que nos propusemos
percorrer.
O conhecimento paranóico é uma construção que nasce de uma torção
dos conceitos estabelecidos em sua tese de doutorado em medicina, onde Lacan vai
equiparar o modo de constituição da paranóia ao conhecimento normal. Ele
estabeleceu esse tipo de psicose como uma entidade cognitiva, diferenciando-a de
um déficit. A articulação entre clínica e teoria é uma preocupação desde 1932, base
do desenvolvimento das elaborações futuras, nas quais o autor opera uma virada e
estende ao conhecimento humano em geral a pré-condição paranóica, proposição
que, ao longo dos desenvolvimentos subseqüentes, vai lhe permitir afirmar a
imanência da loucura à realidade humana. Neste capítulo, propomo-nos a
acompanhar este percurso.
32
Encontra-se uma lista das principais referências onde há citações sobre o conhecimento paranóico,
em uma organização cronológica, no Anexo 1.
33
LACAN ([1949] 1998, p. 96-103).
34
LACAN (1953).
35
LACAN ([1946] 1998, p. 152-194).
36
LACAN({1955-56] 2002)
28
1.1 A PARANÓIA: UMA ENTIDADE COGNITIVA
Em 1932, nas suas primeiras formulações teóricas, ainda no campo da
psiquiatria, Lacan, que foi um homem envolvido com os debates de seu tempo,
interessou-se pelas questões colocadas pela psicose às definições conceituais da
época. Em sua tese de Doutorado Da psicose paranóica em suas relações com a
personalidade37, descreveu e interpretou os textos dos clássicos franceses e
alemães sobre a psicose, privilegiando aqueles que lhe forneciam argumentos a fim
de
estabelecer
um
contraponto
entre
psicogenia
e
organicidade.
No
desenvolvimento de seu texto, indicou um método para abordar o problema da
origem e da forma de constituição da psicose paranóica, e ainda defendeu uma
causa psicogênica para essa afecção, propondo-a como um desenvolvimento de
personalidade.
A psiquiatria, na década de 30, compunha-se por duas frentes teóricas
divergentes: o organicismo, que já tinha terreno bem demarcado, e a fenomenologia
que surgia como referência entre os novos psiquiatras.38 No seu texto, em uma
posição contrária ao organicismo, Lacan lançou mão da observação e descrição
clínica como método de pesquisa para ancorar suas proposições e abriu o debate
pela psicogênese ao demarcar que, no domínio da psicose paranóica, era
impossível identificar, em uma primeira abordagem, um distúrbio orgânico primitivo
atribuído a um dano que estaria na fonte do problema. Afirmou que, nesta afecção,
os testes não permitiam decifrar um déficit capacitário evidente, e assim, se existisse
37
LACAN ([1932] 1987).
SIMANKE (2002, p.59). Esta referência foi retirada do livro Metapsicologia lacaniana, texto que será
freqüentemente citado no decorrer deste capítulo, e que possibilitou melhor nos situar frente às
referências extra-psicanalíticas tomadas por Lacan no decorrer do primeiro momento de seu ensino.
38
29
um distúrbio orgânico, seria necessário, então, explicar como resultaria uma
alteração global da personalidade.39
A primeira parte da dissertação de Lacan é dedicada a uma revisão
histórica da doutrina psiquiátrica sobre a psicose, onde ele vai estabelecer uma
oposição entre a classificação da psicose paranóica como desenvolvimento de uma
personalidade, e a psicose paranóica determinada por um processo orgânico,
posicionando-se do lado da primeira. Para sustentar seu ponto de vista, na segunda
parte de seu trabalho, faz a demonstração de um só caso, uma paranóica, a quem
ele dá o nome de Aimée – nome que também a paciente dá a si mesma como
personagem nas novelas e cartas que dirige ao príncipe de Gales, objeto de sua
erotomania –, sendo que a observou, entre outros casos, por cerca de um ano e
meio, e também recolheu informações com seus familiares, além de pesquisar seus
escritos literários.40 Através dessa análise, chegou a apresentar uma nova entidade
à nosologia: a paranóia de autopunição.41
A partir do método de estudo clínico que considerou a história de vida da
paciente
39
e
suas
relações
sociais,
Lacan
propôs
a
paranóia
como
um
SIMANKE (2002 p. 38). Simanke esclarece que o objeto mental colocou o campo da psiquiatria em
um cruzamento entre a medicina (uma ciência positiva) e o dualismo cartesiano, e isso representou
um paradoxo que mantém suas inscrições até os nossos dias: se a medicina lida com doenças e uma
doença por definição não pode ser do espírito, ela, portanto só pode ser do corpo. A doença mental,
então, na orientação positivista, não poderia ser verdadeiramente mental, mas uma doença orgânica
com efeitos aparentes sobre o nível mental, e isto abre uma interface onde se tornaria difícil
estabelecer os limites entre a neurologia e a psiquiatria enquanto uma especificidade. Sendo assim,
na época, para afirmar a psiquiatria como ciência, foi necessário destacar, na doença mental, todas
as características que a definissem nos mesmos parâmetros de uma doença orgânica, atitude que
deu origem ao quadro nosográfico da psiquiatria clássica, com grande riqueza clínica na descrição e
classificação das entidades nosológicas, mas sem, contudo, jamais terem sido encontradas ou
demonstradas as causas biológicas. A categoria das psicoses funcionou como um ponto de
resistência por não se encaixar na ontologização, principalmente a paranóia considerada folie
raissonance por excelência. Essa afecção formulou-se como um paradigma para psiquiatria, e Lacan
a selecionou como alvo de sua análise a fim de apontar uma causa psicogênica para os transtornos
mentais, mantendo o estatuto de doença que distanciaria a psiquiatria da psicologia geral, disciplina
difícil de definir enquanto ciência.
40
LACAN ([1932] 1987). Lacan afirma fundamentar-se em 40 casos estudados, sendo que 20 são de
psicose paranóica. Entretanto, na tese, descreve apenas um.
41
CHARBONNEAU (1997, p. 29-31). Nesse livro, a autora esclarece que Lacan deixa claro, em sua
tese, que não é sua intenção apresentar essa entidade à psiquiatria, apenas usá-la como ponto de
discussão para suas proposições.
30
desenvolvimento discordante da personalidade normal, um fenômeno cognitivo
formatado nas relações com o meio, e ancorou sua proposição em recursos
conceituais que buscou em disciplinas externas à psiquiatria, como a antropologia, a
filosofia, a sociologia, a biologia e a psicanálise, entre outros.42 Nessa fase de suas
pesquisas, ele não vai rejeitar a causa orgânica da psicose, mas vai situá-la fora da
categoria da psicogenia.43
Situaremos a seguir, como um recorte dentro da perspectiva desta
dissertação, o conceito de personalidade forjado pelo autor em 1932 e a
formalização da paranóia como um desenvolvimento de personalidade, ou seja, um
fenômeno cognitivo, a partir do caso Aimée.
1.1.1 O conceito de personalidade em Lacan
A linha de pensamento que inaugura a tese de Lacan apóia-se sobre a
distinção entre as demências e as psicoses, onde ele recorta a ausência de déficit
na segunda. Segundo Richard Theisen Simanke44, ao retomar o texto de Minkowisk,
na gênese da noção de esquizofrenia, de acordo com a definição estabelecida por
Morel45, é que surgem os elementos que vão delinear a psicose paranóica,
42
SIMANKE (2002).
Com base na análise do caso Aimée, em 1932, Lacan vai se orientar pela lógica formal da
causalidade, e vai assumir a noção de determinação múltipla da psicose, apoiando-se no argumento
de que se não há causa única, também não há essência da doença, já que a natureza desta é
demonstrada pela natureza da cura, deixando, dessa forma, a organicidade relegada a segundo
plano.
44
SIMANKE (2002).
45
BERCHERIE (1989, p. 107-121). Os fundamentos da clínica: história e estrutura do saber
psiquiátrico. “Apenas alguns anos separam a iniciação de uma nova orientação clínica e nosológica,
feita por Falret, da tentativa de reposta global empreendida por Morel em 1860. Foi na unidade do
quadro clínico, na evolução e na causa que Morel julgou encontrar a solução par as entidades
naturais...” Suas concepções se inscrevem no domínio antropológico-psiquiátrico expostas no Traité
dês Dégénerescences de 1857, e no Traité dês Maladies Mentales.
43
31
sistematizada por Kraepelin46, em um primeiro momento, como demência precoce,
elevando-a, assim, à categoria de entidade nosográfica.47
Kraepelin
diagnosticou
como
demência
precoce
vários
casos
diferenciando-os da demência real, onde o dano orgânico se evidenciava através do
processo degenerativo provocado devido a fatores orgânicos. À medida em que ele
separou as afecções em função da evolução do quadro clínico e de uma certa
reversibilidade, introduziu, segundo a leitura de Lacan, um argumento em favor da
determinação psicológica das psicoses, além de estabelecer a descrição do quadro
psíquico da enfermidade.48
Na descrição kraepeliana da demência precoce, as funções psíquicas
alteradas agrupavam-se em torno do enfraquecimento das motivações afetivas e da
perda da unidade interior, ou da capacidade de síntese. Ambos os aspectos se
encontravam fundados na desordem do pensamento, ou seja, na alteração do
processo ideativo, das articulações e dos conceitos, e, dessa maneira, a idéia de
unidade da personalidade surgiu como complementar à compreensão do distúrbio. A
síntese buscada por Kraepelin exigia uma teoria da personalidade humana, assim
como uma elucidação dos fatores psíquicos que concorriam para esse conjunto,
ponto que ficou obscuro na psiquiatria até a tese de Lacan.49
46
Emil Kraepelin escreve Compêndio de psiquiatria, entre 1883-1889, onde vai descrever e
sistematizar a demência precoce, e no texto reeditado em 1915 destaca o conceito clássico.
Chamada mais tarde de esquizofrenia por Bleuler e afastada da organogênese pela ênfase dada por
este autor ao sentido dos sintomas.
47
LACAN ([1932] 1987). A denominação de psicose paranóica é de Henri Claude e tem a vantagem
de esquivar-se aos resquícios de veiculação organicista veiculados pela demência precoce (p. 195205).
48
SIMANKE (2002).
49
SIMANKE (2002, p. 45-47).Chamamos a atenção que citamos Kraepelin apenas pela possibilidade
que criou à abertura de uma pesquisa, através da qual Lacan vem acrescentar a noção de unidade
de personalidade, mas é com Bleuler que persegue a caminho da psicogenia.
32
Na tese, Lacan parte da idéia de síntese para formular o conceito de
personalidade50, fixando-o às relações do indivíduo com o meio. Assim, ele propõe
uma análise objetiva, cuja base teórica é composta por uma tripla função estrutural
na composição deste conceito: o desenvolvimento da pessoa, a concepção de si
mesmo, e uma certa tensão nas relações sociais.
O desenvolvimento, um dos tripés do conceito de personalidade, é
considerado como composto pela história concreta da pessoa, sua infância,
adolescência, vida adulta e a velhice, apresentando, cada uma dessas fases, um
modo próprio de funcionamento, ordenando-se segundo uma lei evolutiva comum a
todos os homens. Esse desenvolvimento instaura-se com ocorrências de eventos
determinantes aos quais o sujeito reage constituindo a evolução da personalidade
em estruturas reativas típicas. Lacan se apóia nas noções de desenvolvimento e
reação de Jaspers.51
A concepção de si mesmo, outro pilar da formação da personalidade, é
descrita como uma intencionalidade, função voluntária e reguladora que orienta o
ser em relação ao julgamento feito sobre si. Nesse domínio, a concepção que o
indivíduo faz de si revela sempre uma distância entre as imagens ideais e a
realidade do ser, e, para dar conta de uma abordagem objetiva das funções
50
Lacan vai construir um conceito de personalidade diferente da psiquiatria e da psicologia. Para ele,
nesse momento do pensamento teórico, a personalidade não é paralela à patologia, nem ao conjunto
e processos somáticos do indivíduo. Ele vai propô-la como totalidade que inclui norma e patologia,
constituindo-se na rede social de comportamentos múltiplos, onde o fenômeno mental é um elemento
entre outros.
51
JASPERS (1985). Jaspers separa as práticas do sentido (reações que guardam as relações de
compreensão) e as ciências da causa (explicação por desenvolvimento causal). Segundo ele, o
desenvolvimento de uma personalidade deve ser pensado como o todo das conexões compreensivas
e guarda a relação de fenômenos que surgem na personalidade compreensivelmente com a
personalidade originária. Nos desenvolvimentos, existe compreensibilidade estática ou
fenomenológica, mas não existe compreensibilidade genética. São compreensíveis do ponto de vista
estático, enquanto carecem de quebras ou rupturas os elementos do sistema delirante entre si e
apresentam uma conexão de sentido, onde constata-se uma parte compreensível (vivência e
conteúdo), uma parte causal (alteração do extra-consciente), e uma parte de prognóstico (alteração
passageira).
33
intencionais frente a este desencontro, Lacan busca recursos, entre outros lugares,
na psicanálise.52
A tensão nas relações sociais, citado como terceiro tripé para a definição
objetiva dos fenômenos da personalidade, é considerada como aquela que surge
frente ao encontro da aparente responsabilidade pessoal, ou autonomia do
indivíduo, a sua resistência às influências do real53 e sua relatividade essencial ao
grupo social. Lacan vai esclarecer que a aparente autonomia do indivíduo se apóia
no julgamento que os outros tenham ou terão dele, ou no modo de pensamento prélógico que vem das origens da raça. Este último é descrito por Marie-Andrée
Charbonneau nos seguintes termos:
É preciso sublinhar o acento dado por Lévy-Brühl no fato de que toda vida
mental é profundamente socializada. A influência do grupo social sobre o
indivíduo é tal que ela orienta toda sua percepção do mundo. É assim que as
representações coletivas nas sociedades primitivas levam o indivíduo
conceber o mundo como marca de relações místicas; são estas últimas que
interessam, são estas últimas que ele descobrirá. Esta mentalidade
obedecendo então essencialmente a lei da participação, o princípio de
54
contradição torna-se aí secundário, de onde é chamado de pré-lógico.
A tripartição da formulação objetiva da personalidade converge para o
aspecto social da existência humana, onde a base orgânica do desenvolvimento é
formada pelos fatos vitais, reações compreendidas como componentes de um
fenômeno total, seja ele patológico ou normal. Essa proposição será demonstrada
na tese de Lacan, através da análise do caso Aimée, através do qual ele vai propor
um tipo específico de psicose, a paranóia de auto-punição, além de estabelecê-la
como uma personalidade discordante. No item a seguir, faremos um recorte do caso,
52
Lacan recolhe de Freud os conceitos de narcisismo, supereu e ideal de eu.
O conceito de real para Lacan, neste momento teórico, ainda se trata da definição oriunda da
filosofia: aquilo que é uma coisa ou que diz respeito a coisas, aquilo que é verdadeiro.
54
CHARBONNEAU (1997, p. 13). Comentário a partir da leitura de Lucien Lévy-Brühl no livro Lês
fonctions mentales dans lês sociétés inferieures. Tradução livre do original em francês.
53
34
privilegiando apenas os termos necessários para o esclarecimento do que nos
propomos.
1.1.2 O caso Aimée e a paranóia como fenômeno cognitivo55
A insistência pela psicogênese levou Lacan à busca de elementos que
corroboravam com suas idéias em seus antecessores psiquiátricos, assim como em
disciplinas externas à psiquiatria. Portanto, ele demonstrou suas proposições com a
análise de um caso clínico que não se encaixou nas construções clássicas, e, assim,
acabou por formular uma teoria da clínica, estatuto precioso a uma disciplina que
pretendia se estabelecer ao lado das ciências positivas e com pretensões de intervir
no patológico.56
Lacan selecionou, entre outros, Aimée, caso que não se ajustava à
definição de Kraepelin de paranóia e, conseqüentemente, exigia uma redefinição da
afecção: ao contrário do enunciado no conceito do psiquiatra clássico, a paciente
apresentou uma irrupção relativamente brusca do delírio, que marcou uma clara
descontinuidade com seu caráter prévio e um retorno ao mesmo depois da
passagem ao ato homicida e da sua detenção. Portanto, verificou-se, na evolução
de sua enfermidade, a conservação da claridade e da ordem do pensamento, do
querer e da ação, sem apresentar um desenvolvimento insidioso nem a
inquebrantabilidade do delírio.57
55
Encontra-se no final desta dissertação uma pequena resenha do caso Aimée de Lacan, no anexo 4.
SIMANKE (2002, p. 212-225). Segundo esclarece este autor, a clínica psiquiátrica das afecções
mentais, para se estabelecer enquanto uma doutrina adequada aos fenômenos que enfrentava, teve
que apresentar uma solução, ao mesmo tempo teórica e terapêutica. A identificação entre clínica e
teoria, para Lacan, por um lado, destina-se a purificar as investigações psicanalíticas do “empirismo
grosseiro”, por outro “é conseqüência direta da destituição do organicismo como explicação
psicopatológica, o que restaura a soberania da clínica como espaço e método para a produção do
conhecimento”.
57
LACAN ([1932] 1987).
56
35
A reversibilidade do quadro agudo delirante conduziu, inevitavelmente, ao
caminho da psicogênese, perseguido por Lacan, neste momento de seus
trabalhos58. A partir do caso, ele propõe uma releitura da noção de fenômeno
elementar, na qual a interpretação é considerada o mecanismo fundamental que vai
regular o crescimento do delírio como um distúrbio primitivo da percepção, de onde
derivam os fenômenos alucinatórios ou pseudo-alucinatórios. Para a doutrina
clássica, a interpretação delirante era compreendida como um fenômeno secundário,
acrescido aos efeitos da lesão, e a inversão do argumento organicista, coloca o
acento na psicogenia, e formula o primeiro passo para o estabelecimento da
paranóia como fenômeno do conhecimento.59
Lacan vai privilegiar duas características, no caso clínico, que o orientam
em direção a um desenvolvimento de personalidade na paranóia: o primeiro sendo a
relação dos impulsos delirantes com os eventos que tocam os conflitos centrais da
personalidade de Aimée, e o segundo os traços aparecidos na paciente após a
eclosão do delírio. No que concerne ao primeiro, o autor estabeleceu uma relação
conflitual que contrapunha Aimée à sua irmã, que representava tudo o que ela
almejava ser, sem, contudo, conseguir. O delírio fluía em função dos acontecimentos
traumáticos que fizeram crescer o conflito, que a paciente não reconhecia, e por isso
dirigia seu ódio a outras mulheres que personificavam seu ideal de eu, tal a atriz que
atacou. Lacan recorre aos conceitos freudianos de narcisismo, das identificações e
do supereu para explicar os conteúdos persecutórios presentes no delírio da
paciente.60
58
Nos trabalhos futuros, quando Lacan trata a psicose como estrutura dentro da relação perturbada com o outro
da linguagem, a irreversibilidade do quadro estará associada à estrutura do sujeito e não à remissão dos
fenômenos.
59
SIMANKE (2002).
60
LACAN ([1932] 1987).
36
A segunda característica valorizada por Lacan, no caso clínico, ou seja,
os traços de personalidade, são destacados como reações secundárias ao delírio,
diferentes de uma disposição inata, ou mesmo adquirida que, concebidos desta
maneira, fazem cair a noção de constituição paranóica, combatida pelo autor pelo
comprometimento desta com o organicismo.61
A natureza dos distúrbios psíquicos, se não é orgânica, segundo a ótica
de Lacan, deve então ter seu fundamento no sentido do delírio e na dimensão da
cura.62 No caso analisado, a cura do delírio se apresentou após 20 dias de
aprisionamento e não como nos delirantes passionais imediatamente após o crime,
sendo este o tempo necessário para Aimée realizar que bateu em si mesma, e que
desta forma foi punida. Na prisão, ela realizou seu castigo, abandonou os parentes,
e se encontrou em companhia de indivíduos baixos e repugnantes. Sobremaneira, a
punição lhe ofereceu um alívio e o delírio se dissolveu pela atitude autopunitiva que
alcançou o seu objetivo.
Os mecanismos autopunitivos, segundo Lacan. podem ser identificados
ao longo dos episódios delirantes, sendo que os temas de seu delírio se originam no
sentimento de culpa por suas condutas anteriores e as perseguições representavam
seu ideal de eu exteriorizado, objeto de ódio que ela acaba batendo simbolicamente
na hora do atentado.63
Toda a estrutura do delírio pode ser deduzida da prevalência dos
mecanismos de autopunição, traço recorrente na personalidade anterior de Aimée.
Dentro desta perspectiva, o distúrbio fundamental é classificado como psicogênico,
visto que a evolução dos sintomas e as causas da psicose estão ligados à estrutura
61
LACAN ([1932] 1987).
CHARBONNEAU (1997, p. 29-36).
63
SIMANKE (2002, p. 93). Conforme esclarece Simanke, “Simbolismo, para Lacan, quer dizer neste
momento, uma relação direta entre a fantasia delirante e os fatos da história individual, o que não tem
nada haver com as maquinações formais do significante”.
62
37
da personalidade da paciente. Somente a preponderância da atitude autopunitiva,
anterior à eclosão do delírio, permite explicar a fixação da estrutura da psicose e um
desenvolvimento de personalidade.
A paranóia de autopunição de Aimée é interpretada como psicogênica
com base na totalidade do distúrbio, compreendido como um sintoma mental que se
exprime pelo mecanismo complexo da personalidade, e localizada como uma
fixação de desenvolvimento. Segundo Simanke, Lacan vai buscar em Freud, à luz da
teoria da libido, a idéia de fixação para interpretar os mecanismos autopunitivos da
paranóia, e, além dela, a noção de supereu e aquelas a ela vinculadas, como
identificação, narcisismo e ideal de eu a fim de transpor os mecanismos de
autopunição do campo da consciência moral para o da patologia por uma vertente
clínica à qual vem se associar a teoria.64
A personalidade normal, conforme concebida por Lacan, se instaura
enquanto um precipitado de reações que concernem à adaptação do indivíduo ao
seu meio, composto por elementos sócio-vitais, definidos por ele como fenômenos
do conhecimento. O sentido final da proposição de Lacan, na tese, é definir os
sintomas psicóticos, ou a paranóia também como fenômeno de conhecimento, o que
se conclui a partir do momento que ele repousa os fenômenos psíquicos em geral na
relação do indivíduo com o meio, localizando no fator social a origem da
personalidade.65 O alcance maior dessa construção é situar a paranóia e a loucura
em geral não mais como déficit decorrente de uma anomalia de fundo orgânico, mas
como uma diferença ou discordância em relação à personalidade normal.
64
65
SIMANKE (2002, p. 95-135).
SIMANKE (2002, p. 124-135).
38
1.2 O CONHECIMENTO HUMANO E SEU FUNDAMENTO PARANÓICO
Lacan termina a tese com a constatação da obscuridade do conceito de narcisismo
em Freud. Segundo Simanke, ele interroga a diferença entre narcisismo autoerotismo que se confundem na Segunda Tópica do texto freudiano, e também a
origem da libido narcísica. Essas questões orientaram suas pesquisas no período e
que sucede seus primeiros trabalhos, até conduzi-lo à teoria do imaginário.66
Durante os anos 1933-39, além dos estudos psicanalíticos e também de
freqüentar os surrealistas, Lacan continuou sua carreira médica e fez apresentações
de casos com H. Claude e G. Heuyer, reproduzidos nos anais médicos de 1933,
mantendo a mesma referência teórica que utilizava durante os seus estudos de
medicina. Em 1935, redigiu duas resenhas de livros de psiquiatras da época: Henri
Ey e Minkowisk.
Na primeira, Lacan sublinha o valor exemplar do trabalho de Henri Ey em face
de uma psiquiatria francesa estagnada: seu interesse reside, segundo ele, na
reintegração operada, pelo autor, da alucinação e dos comportamentos delirantes ao
seio das estruturas mentais, além de situar a essência da primeira na crença à
realidade, fazendo do tipo um fenômeno de conhecimento que coincide com o todo
da personalidade do sujeito67. O outro volume comentado é Le temp vecu - Études
phénoménologiques d’Eugene Minkowski68, onde, diante da proposição da gênese
ideo-afetiva, Lacan homenageia o autor, mas critica o conjunto do saber psiquiátrico
da época, e recorda que ele já havia apresentado a nova noção de conhecimento
paranóico ao campo da fenomenologia psiquiátrica:
66
SIMANKE (2002).
LACAN (1935, p. 87-91).
68
LACAN (1935-(36), p. 425).
67
39
Também por sua posição abertamente hostil à psicanálise, M.
Minkowisk tende a estabelecer na pesquisa psiquiátrica contemporânea, um
novo dualismo teórico que renovaria da oposição desgastada do
organicismo e da psicogênese, e que oporia agora a gênese que ele chama
ideo-afetiva e que é aquela dos complexos que definiram a psicanálise por
um lado, e por outro lado a subdução estrutural, que ele considera tal ponto
autônoma, onde ele vai mesmo falar de fenômenos de compensação
fenomenológica.Uma oposição tão exclusiva só pode ser esterizante.
Nós tentamos nós mesmos em um trabalho recente demonstrar no
complexo típico do conflito objetal (posição triangular do objeto entre o
tu[toi] e o eu[moi]) é a razão comum da forma e do conteúdo dentro disso
69
que nós chamamos conhecimento paranóico.
Lacan apóia-se na construção anteriormente feita em sua tese de doutorado, ou
seja, a equiparação do conhecimento normal à paranóia, propondo-a como um
fenômeno cognitivo, para dar-lhe uma dimensão mais universal: é o conhecimento
humano em geral que se constitui como paranóico, dando a esta universalização a
nomeação de conhecimento paranóico. Assim, ele parte de uma construção clínica
proveniente da análise do caso Aimée, para lançá-la ao campo epistemológico.
A partir de 1932 até 1955, período onde ocorre a construção da tese de Lacan
sobre o conhecimento paranóico, podemos situar duas referências e construções
distintas sobre a paranóia: uma diz respeito à estrutura paranóica do eu e a outra
concerne a paranóia como estrutura psicótica, sendo que ambas se formatam no
desenvolvimento de sua teoria do imaginário até a interface com o simbólico,
trazendo à tona a questão da dupla alienação do sujeito. As vertentes acima vão se
entrelaçar na tese da estrutura paranóica do conhecimento humano, que define
como paranóico todo conhecimento especular que se funda no desconhecimento
fundamental que concerne à constituição do eu. Ponto de passagem, ou estádio,
onde a estruturação do eu não corresponde mais a uma função adaptativa à
realidade, como havia sido proposto em 1932, mas à adaptação da realidade a si,
em uma identificação com a Imago, fonte constitutiva do eu e dos objetos do mundo
69
LACAN (1935-(36), p. 425).
40
através do reconhecimento do outro – onde a identificação mental é uma forma de
conhecimento.
O eixo desta torção teórica se coloca no texto O estádio do espelho como
formador da função do eu70,71, onde Lacan introduz o conhecimento paranóico para
sustentar, com essa expressão, a forma de relação com o mundo nos moldes do
transitivismo, que se manifesta como a matriz da Urbild do eu, ou como o primeiro
efeito da Imago no ser humano: a alienação do sujeito ao outro, onde ele se
reconhece como eu, conforme verificaremos a seguir.
1.2.1 O espelho como matriz do conhecimento
Em 1949, Lacan publica o texto O estádio do espelho como formador da
função do eu como uma revisão do proposto por ele em 1936, onde vai abordar a
função do eu72 na experiência psicanalítica, diferenciando-a do cogito cartesiano
pela introdução do sujeito do inconsciente aos moldes freudianos.
A concepção do estádio do espelho passa por pelo menos três momentos
de revisão ao longo do ensino de Lacan: durante a construção da teoria do
imaginário (1938-1953), no desenvolvimento do registro do simbólico (1953-1964) e,
finalmente, com a introdução da dimensão do real (1964-1980).73
70
LACAN ([1949] 1998).
ROUDINESCO (1994, p. 126). A autora esclarece que Lacan transforma essa experiência em
estádio, ou seja, uma “posição” no sentido kleiniano, na qual desaparece toda a referência a uma
dialética natural qualquer (maturação psicológica ou progresso do conhecimento) que permita ao
sujeito unificar suas funções. Não se trata de uma experiência objetiva no campo da consciência, ela
é psíquica, ontológica, pela qual se constitui o ser humano numa identificação com o semelhante.
72
LACAN ([1949] 1998 p. 96). Conforme orientação da tradução original deste texto utilizaremos Eu,
com maiúscula, para exprimir a distinção que Lacan sustenta entre esse Eu, sujeito do inconsciente, o
sujeito por excelência – je em francês - e eu, com minúscula, o outro, moi em francês.
73
ALVARENGA (1994, p. 85).
71
41
O primeiro momento de elaboração do registro especular vai ter como
referência o espelho plano, matriz onde Lacan situa a Imago como o eixo da
causalidade psíquica: instante da primeira identificação e da alienação imaginária. O
segundo concerne à determinação do imaginário pelo simbólico com a introdução do
Outro, instante de uma segunda alienação mais radical que a primeira, sendo o
esquema ótico o que vai dar forma a esta estrutura.
Ao longo de dez anos, Lacan utilizou o esquema ótico para abordar as
relações do simbólico com o imaginário e, principalmente, para distinguir o eu ideal
do ideal de eu. Após o Seminário 11, com a introdução do campo escópico, seu uso
vai ser abandonado: é a discordância entre a visão e o olhar que introduz a
dimensão de objeto e a falta no campo do Outro. Trata-se do terceiro momento de
visada do estádio do espelho, onde a imagem tem a função de velar a falta
instaurada pelo olhar. Contudo, interessam-nos os dois primeiros momentos na
elucidação das proposições sobre o conhecimento paranóico.
Consideramos, então, a primeira elaboração, na qual Lacan vai
estabelecer a função da Imago74. Ele parte das experiências de Wolfgang Köhler
com chimpanzés conforme retomadas por Henri Wallon: o símio supera, em
inteligência instrumental, a criança humana no primeiro ano de vida; portanto, ocorre
uma diferença peculiar frente à exposição de ambos diante do espelho, sendo este o
ponto que captura o filósofo e, posteriormente, Lacan.75
74
SAMUELS (1986, p. 101). Imago, termo retomado por Lacan, conforme seu conceito pela
psicologia analítica: “Termo produzido por Jung em 1911-12 e adotado na psicanálise. Quando Imago
é usado no lugar de imagem, serve para sublinhar o fato de que as imagens são geradas
subjetivamente, em particular as que se referem a outras pessoas. Isto é, o objeto é percebido de
acordo com a dinâmica interna do sujeito”.
75
LIMA, Eduardo P. (coord.) (1973, p. 327-328). Wolfgang Köhler, psicólogo alemão nascido em 1887,
um dos fundadores da gestalteoria, foi o principal investigador dos efeitos da imagem especular em
chimpanzés em seus estudos sobre os primatas superiores, e Henri Wallon, filósofo, principal
inspirador das produções de Lacan, descreve longamente as reações das crianças diante do espelho
em seu livro Origens do caráter da criança, de onde foram retiradas as informações contidas nesta
dissertação.
42
O chimpanzé, ao perceber o reflexo no espelho, afasta-se, simplesmente,
e a criança humana é tomada por um júbilo seguido de um permanente interesse.
Henri Wallon vai se apoiar nessa diferença para considerar a prova do espelho como
momento constituinte da noção de corpo próprio, e à luz da gestaltheory, vai também
propor a personalidade formatada no esquema corporal como um todo e não como
uma soma de elementos díspares, em uma estrutura ou em uma situação total
experimentada na continuidade essencial das condições internas e externas.76
O ponto de partida para as elaborações wallonianas são as premissas
físico-fisiológicas da consciência corporal. Elas se dividem em três domínios
fundamentais: o domínio interoceptivo que é aquele das sensações viscerais, o
domínio proprioceptivo que corresponde às sensações ligadas ao equilíbrio, as
atitudes e aos movimentos, e, enfim, ao domínio extereoceptivo voltado em direção
às sensações exteriores. No recém-nascido, estes domínios são dissociados por
causa da ausência de mielinização das conexões interfuncionais; esta se formará
por volta de três meses para acabar no fim do primeiro ano de vida. Isso explica
porque a criancinha não pode fazer distinção do que provém do mundo exterior e do
que pertence a ela própria.77
Henri Wallon descreve três etapas na experiência da criança frente ao
espelho: nos primeiros três meses, a indiferença entre a imagem e o real; nos dois
meses subseqüentes, produzem-se as manifestações mímicas e afetivas do
reconhecimento da imagem como tal; e a partir do sexto mês, um pleno período de
76
WALLON (1971, p. 154-202).
WALLON (1971, p. 154-202). Para este autor, a prova do espelho mostra bem a indissociabilidade
da constituição da unidade do corpo próprio, do objeto e do espaço. Comparando as reações de
diversos animais (pato, gato, cachorro) quando eles são colocados diante do espelho, Wallon
constata que somente a reação dos “sinais superiores”no ser humano parecem revelar um verdadeiro
ato de conhecimento. Assistir-se-ia, nesses últimos, a um desdobramento entre a percepção e a
adesão, quer dizer ao nascimento da representação distinto do real.
77
43
conexões intersensoriais com o retorno de sua pessoa na imagem do espelho: um
ato de conhecimento.
Lacan vai rever, sob a ótica da libido freudiana, o esquema de Wallon e
situar o eu como ligado à imagem do próprio corpo. A experiência de uma criança
entre seis a 18 meses diante do espelho, localiza uma discordância entre o que a
criança experimenta (um corpo impotente e vivido de forma desconexa) e sua
imagem (unificada) refletida. A noção da prematuração específica do nascimento
humano, onde o ponto mais importante é o inacabamento de seu sistema piramidal,
vai dar as coordenadas dessa relação com a imagem: sendo a criança ainda
impotente no controle motor, ela antecipa uma totalidade e uma potência na sua
imagem refletida no espelho. Matriz simbólica onde emerge o eu, momento de união
das pulsões parciais78, instante formador do eu e da primeira identificação79,
conforme interpretado por Lacan:
Essa forma, de resto, mais deveria ser designada por eu ideal, se
quiséssemos reintroduzi-la num registro conhecido, no sentido de que ela
seria também a origem das identificações secundárias, cujas funções
reconhecemos pelo termo funções de normalização libidinal. Mas o ponto
importante é que esta forma situa a instância do eu, desde antes de sua
determinação social, numa linha de ficção, para sempre irredutível para o
indivíduo isolado – ou melhor, que só se unirá assintoticamente ao devir do
sujeito, qualquer que seja o sucesso das sínteses dialéticas pelas quais ele
tenha que resolver sua condição de Eu, sua discordância de sua própria
80
realidade.
Em 1932, em sua tese de doutorado, Lacan toma emprestado o conceito
do biólogo alemão Jakob Von Uexküll, de Umwelt – que define o mundo tal como é
78
Freud introduz, na teoria analítica, o conceito de narcisismo como uma etapa de constituição do eu
do sujeito, na qual o próprio corpo é tomado como objeto da pulsão, sob o efeito de uma nova ação
psíquica, etapa que deve suceder ao auto-erotismo, em que predominam as pulsões auto-eróticas.
79
LACAN ([1949] 1998, p. 97). Lacan define identificação no texto sobre o estádio do espelho como
“a transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem”.
80
LACAN ([1949] 1998, p. 98). O assintótico usado por Lacan é empregado no sentido daquilo que
não pode coincidir. Termo recortado da geometria analítica que define uma reta que é tangente a
uma curva no infinito.
44
vivido por cada espécie, onde cada indivíduo constitui um centro ativo.81 Já em
1949, nas construções do estádio do espelho, opera com a leitura do fenômeno
mental em relação ao mundo, não mais como um simples fato psíquico, mas como
Imago, um conjunto de representações inconscientes que aparecem sob a forma
mental de um processo mais geral.
Na fase do espelho, a relação entre o Innenwelt (interior do organismo) e
Umwelt (próprio de cada organismo em relação ao mundo) é dada a partir da
interface entre o ser e a realidade, pois o encontro do indivíduo com o ambiente não
se dá de forma direta: nele, a visão opera como articulador. Lacan se apóia nos
trabalhos de Roger Caillois82 para estabelecer a diferença da função da imagem no
homem e no animal, sendo que, no primeiro, ela opera efeitos sobre o psiquismo,
promovendo uma alienação à própria imagem, e, no segundo, a Gestalt tem efeitos
formadores sobre o organismo.
É o espelho plano, na experiência com o infans, que vai fornecer a
estrutura da Imago como virtualidade subjetiva. Esse espelho divide o espaço em
dois: um real, no qual nós nos situamos, e outro virtual (atrás do espelho, um espaço
subjetivo), onde são produzidas as imagens. A produção da imagem de um objeto
supõe que cada ponto do objeto real corresponda a um ponto do objeto imaginário
81
SIMANKE (2002, p. 117).
SIGAL, Ana Maria (2006, p. 1-3). Roger Caillois (1913-1978), sociólogo, poeta, crítico literário,
parceiro de George Bataille formou parte do movimento surrealista Exilou-se na Argentina. Escreveu
numerosos textos sobre o imaginário humano, o mimetismo e a máscara. Ao estudar o mimetismo,
demonstrou que a experiência animal com o meio está regulada pela visão. Nesta, o ser transformase, acomoda-se no espaço, confunde-se com ele e muda até sua cor, textura, forma e volume,
através da visão. A imagem retiniana é capaz de transformar a superfície do corpo e plasmar na pele
as marcas que recebe do ambiente. O animal se adequa à cor do ambiente a partir da percepção e
nos casos em que o animal é cego, não consegue mutar a pele e fica à deriva dos ataques do
inimigo. No mimetismo o organismo se desrealiza, transformando sua estrutura externa “comformando-se” com o cenário para sobreviver. Caillois distingue duas formas de identificação: a
heteromórfica – quando se trata do mimetismo no qual o organismo assume a forma do entorno; – e a
homomórfica – mimetismo no qual as transformações no corpo se produzem pela visão do
congênere. Quando descreve a Psicastenia lendária, transtorno no qual se produz uma captação do
sujeito pela situação, já não mais está falando de um organismo, mas de um sujeito – onde o espaço
exerce uma sedução que obriga ao sujeito a renunciar a si para confundir-se com o espaço, até à
despersonalização e a desrealização.
82
45
(lei ótica da correspondência biunívoca), e isto define as imagens virtuais, ou seja,
as produzidas pelo espelho83, conforme ilustrado na figura 1:
FIGURA 1 – Espelho plano84
A forma total do corpo e a miragem na qual se precipita o eu, constituemse numa exterioridade, em uma Gestalt85 fundante. Da vivência de um corpo
despedaçado (corps morcelé)86 à Urbild87 unificadora, a criança é capturada nesse
ponto: ela é a imagem ideal de si, uma imagem alienante. Portanto, essa imagem
83
VODOVOSOFF (1993, p. 24).
VOSOVOSOFF (1993, p. 25).
85
LIMA, Eduardo P. (coord.) (1973, p. 496-501). Gestalt pode ser traduzida como forma, figura, padrão
ou representação, protótipo que os gestaltistas apresentam como modelo da experiência como um
todo não analisável, que não pode ser compreendido decompondo-se as partes. Dicionário de
psicologia prática.
86
GEETS (1977, p. 85-105). Termo recuperado por Lacan da teoria de Melanie Klein, correlato à
angústia infantil na posição paranóica. Segundo Geets, ela parte dos estudos da psicose para avaliar
o desenvolvimento do psiquismo na criança, e, além disto, descrever nos bebês as primeiras relações
de objeto. Ela propõe que os mecanismos próprios da psicose existem em todo ser humano em fases
diferentes de sua evolução: parte da dualidade das pulsões que induz na origem da vida do sujeito
uma clivagem do objeto que está no princípio de um jogo entre o bom objeto e o mau objeto. Quer
seja parcial como o seio, os excrementos ou o pênis, ou total (imagem de uma pessoa), o objeto é
sempre uma Imago; a imagem de um objeto real que o sujeito integrou a seu eu, segundo um
mecanismo de introjeção que o eleva ao estatuto de uma fantasia. Sob a pressão da angústia de uma
destruição interna, o ego infantil, ainda pouco coerente, experimenta a sensação de uma
desintegração iminente, que encontra sua expressão máxima privilegiada na fantasia do corpo
despedaçado: corps morcelé.
87
Urbild pode ser traduzido por forma, protótipo.
84
46
externa à criança, seja aquela do espelho de estanho ou a do seu semelhante, é
apreendida fora como outro, e do lado da criança, da experiência vivida, permanece
um desconhecimento sobre si, que só pode se formular externamente. Essa Gestalt
pode ser atestada pela biologia: nos animais a imagem opera efeitos formadores e
afeta a relação do indivíduo com o meio; já no homem, ela é fundante da dinâmica
subjetiva.
Contudo, o estádio do espelho, tendo como protótipo a imagem da forma
total do corpo conforme percebida, permite ao sujeito suprir à falta de controle real
dada pela prematuração, motivo de sua “azáfama jubilatória”88. A relação com o
corpo real ainda impotente dá-se através do controle fornecido por uma miragem:
uma ilusão que funda o eu e estabelece sua formação ligada a uma função de
desconhecimento. Uma identificação alienante que vai fornecer a unidade do eu, e
assim é através dos olhos deste pequeno outro que o sujeito vai conhecer-se e
também os objetos do mundo. Isso tem por conseqüência que todo objeto de desejo
só poderá aparecer onde o eu se constitui: na imagem, em frente, possuído pelo
outro. Essa tensão subjacente ao imaginário é fonte do ciúme e da rivalidade e,
conseqüentemente, da agressividade própria ao narcisismo, pelo fato do objeto de
desejo ser externo e inalcançável: ele é fatalmente possuído pelo outro. É da lógica
especular, apoiado na leitura de Hegel orientada por Kojève, que Lacan deduz a
fórmula do desejo como desejo do outro, e também abandona a idéia da
personalidade em favor da consciência de si.89
Lacan nos remete a Hegel, ao resgatar que o desejo do homem é o
desejo de ter reconhecido seu desejo, e que este se constitui sob o signo da
88
89
LACAN (1998, p. 97).
VODOVOSOFF (1993, p. 20).
47
mediação.90 Para ele, Hegel deu a teoria para sempre da função da agressividade
na ontologia humana. No nascimento do eu, ele encontra o conflito que Hegel
colocou no princípio de todo o progresso da história, aquele que opõe duas
consciências de si em uma luta à morte, cuja aposta é a de se fazer reconhecer pelo
outro. A consciência de si só é enquanto ser reconhecido. Sua verdade reside,
então, na outra consciência que poderá reconhecer: o reconhecimento exige que
cada uma de duas autoconsciências, pondo-se em posição de sujeito, atue em
relação à outra, colocada em posição de objeto, e, simultaneamente, atue da mesma
forma em relação a si própria, colocando-se também em posição de objeto.91
Produz-se aí uma situação de equilíbrio dinâmico e contraditório, que é representado
por Jarezyk e Labarrière92 no esquema a seguir:
SB1 s
SB2 s
SB1 o
SB2 o
Onde: SB1 = uma das consciências
SB2 = outra autoconsciência
90
s = momento do sujeito
o = momento objetivo
ROUDINESCO (1994, p. 115). A autora esclarece que Hegel mostrava que o itinerário da
consciência era um movimento: para o sujeito tornar-se espírito, era preciso que aceitasse
desaparecer como sujeito da certeza, a fim de ceder lugar ao trabalho do espírito enquanto verdade
sem sujeito. Desse movimento, Kojève dá uma nova interpretação, considerando uma teoria do
homem histórico como sujeito nadificador, exercendo sua negatividade através das formas conjuntas
da luta e do trabalho, definindo como sujeito de um desejo que sua natureza mesma condena a
permanecer insatisfeito.
91
COUTO (1999, p. 169-170).
92
JAREZYK, LABARRIÈRE (1996, p. 76).
48
Desse encontro decorre ou a submissão de uma consciência a outra – o
que Hegel analisará em um discurso sobre o trabalho, através das figuras históricas
do mestre e do escravo – ou o reconhecimento mútuo, possibilidade que exige a
intervenção de um elemento terceiro, o Outro, que Lacan situará no registro
simbólico. No horizonte do impasse imaginário, perfila-se o Mestre Absoluto, a
morte, como saída falhada para o problema do reconhecimento entre as duas
autoconsciências.93 No conflito do mestre-escravo é o reconhecimento do homem
pelo homem que está em jogo, ou ainda, sob o olhar de Lacan, é a paixão da alma
por excelência, o narcisismo, a loucura pela qual o homem se acredita um homem é
que se coloca aí em jogo.
O estádio do espelho é finalizado inaugurando a dialética social, segundo
Lacan:
Esse momento em que se conclui o estádio do espelho inaugura, pela
identificação com a Imago do semelhante e pelo drama do ciúme primordial
(tão bem ressaltado pela escola de Charlotte Bühler nos fenômenos do
transitivismo infantil), a dialética que desde então liga o Eu a situações
94
socialmente elaboradas.
Lacan parte do transitivismo para recortar a reação do sujeito infantil
diante do espelho, para além de um dinamismo libidinal, e localizá-la como
determinante de uma estrutura ontológica do mundo humano: a criança, ao bater e
se dizer batida, atesta a alienação primitiva do conhecimento humano em uma
matriz paranóica onde o eu antecipa toda a operação de cognição, pois a criança
93
COUTO (1999, p. 169-170).
Lacan ressalta que, além da importância do reconhecimento na Imago, a presença de outras
crianças semelhantes a ela tem um papel formador importante, por conta de um fenômeno descrito
por Charlote Bülher, conhecido como transitivismo infantil. Trata-se da aptidão da criança de
encontrar no outro o que pertence a ela mesma: uma criança se interessa por outra da mesma idade,
bate num outro do lado esquerdo do rosto e toca seu rosto do lado direito, se dá a mesma inversão
que na imagem especular, mas o interessante que depois de bater, é ela quem chora. Nesse
momento, a criança se exibe ao outro como espectador e, ao mesmo tempo, funde-se com ele, dá-se
uma confusão do si e do outro numa mesma situação sentimental.
94
49
não mente. Ela é o outro literalmente, e dessa alienação se deduz o fato de o mundo
humano acabar sendo uma proliferação de objetos, porque o que é visado não é o
objeto, mas o desejo do outro: origem do desejo humano, conforme retomado na
dialética hegeliana à luz do inconsciente.
A premissa paranóica é anexada ao conhecimento humano por Lacan,
pelo fato da eleição dos objetos no homem se dar através do eu, ocorrendo sempre
no
imaginário,
em
um
caráter
virtual
(digo
paranóico)
cuja
função
de
desconhecimento é constitutiva: é através dos olhos do outro que conhecemos o
mundo; portanto, desconhecemos que somos um outro. Instante transitivista da
fundação do eu, matriz de onde emerge a dialética do devir do ser, conforme se
expressa Lacan na linguagem filosófica. Neste momento de seu ensino, a paranóia
inicial é pré-condição para o conhecimento.95
Assim, ele vai caracterizar o conhecimento humano como um elemento de
inércia em oposição à dialética, desde a concepção hegeliana. Os termos unidade,
permanência e substancialidade com os quais Lacan define o conhecimento
paranóico, dão a idéia de algo que, em vez de deslizar dialeticamente, apresenta
uma
repetição
cristalizada.
Trata-se
de
uma
inércia
no
movimento
de
reconhecimento dos objetos e do próprio eu em uma estrutura estagnada, onde os
objetos se multiplicam de maneira análoga como em um labirinto de espelhos onde
95
SIMANKE (2002 p. 286-287). Simanke esclarece que Lacan vai procurar subsídios para distinguir o
imaginário do ilusório no plano científico-clínico, e, com isso, buscar uma visão não deficitária do
imaginário. Ele se apóia na visão espinozista do imaginário e também nas formas distintivas de
conhecimento: “a teoria espinozista do conhecimento admite três formas ou níveis do conhecimento.
O primeiro é o da experiência vaga ou confusa que decorre da interação do corpo com os outros
corpos e opera basicamente com imagens. O segundo se constrói a partir deste primeiro nível,
através da generalização das características que todos os corpos, quando considerados sob o modo
da extensão, têm em comum; formam-se assim, as ‘noções comuns’ que integram o conhecimento
científico. O terceiro gênero de conhecimento consiste na aproximação intuitiva da totalidade deste
sistema de idéias que pode ser alternativamente chamado de Deus ou Natureza. Correspondem a
cada nível de conhecimento, respectivamente, as idéias confusas, as idéias adequadas e as idéias
intuitivas”. Lacan descarta, assim, o objeto imaginário como erro da imaginação, e aponta o
conhecimento como mediado pelo corpo.
50
as imagens se reproduzem ao infinito, suspendendo, em sua estereotipia, o
movimento dialético.96
Enfim, ao atribuir realidade às imagens que constituem seu mundo em
consonância com o eu, o homem reedita um fenômeno semelhante ao delírio no
paranóico, e isso se dá pela condição fundante e virtual constituinte do eu (sempre
um desconhecimento). Lacan introduz, então, a condição paranóica à fundação da
realidade humana através do eu e a partir disto, arremata a tese do conhecimento
paranóico, fazendo emergir a afirmação da imanência da loucura à realidade
humana. Destacamos que, para o autor, o conhecimento não se equipara à ciência,
a qual, por ser fundada na ordem do simbólico, não está na dependência do ponto
de vista do eu, diferenciando-se da instância paranóica do conhecimento.
Retomaremos esta diferença no capítulo 2.
1.2.2 A loucura como verdade do ser
A tese do conhecimento paranóico tem seu fim último na afirmação da
imanência da loucura à realidade humana, proposição desenvolvida por Lacan nos
textos Formulações sobre a causalidade psíquica97 e Some Reflexions on the ego98,
os quais retomaremos a seguir.
Em 1946, Henri Ey propõe a psicogênese como tema das Jornadas
Psiquiátricas de Bonneval, onde três trabalhos nortearam as discussões: o de Julien
96
GODOY (2004, p. 11).
LACAN ([1946] 1998).
98
LACAN ([1946] 1998). A resenha de Lacan foi publicada em uma versão corrigida a partir da
intervenção de Boneval.
97
51
Rouart: Existem doenças mentais de origem psíquica?99, um relatório de Sven Follin
e Lucien Bonnafé sobre A noção de psicogênese – é ela equivalente àquela de
normalidade?100, e um relatório de Jacques Lacan, Formulações sobre a
causalidade psíquica, que abre os trabalhos.101
Henri Ey apresentou um texto como introdução ao tema no período
anterior ao encontro, e neste trabalho se posicionou em torno da questão levantada
por ele, partindo de duas afirmações: a primeira é que repudia toda psicogênese,
toda causalidade psíquica dos transtornos mentais, e a segunda é que ele estima
que a psicogênese define o plano da atividade psíquica normal.102
Na primeira parte de seu artigo, Ey vai resgatar as teorias que inspiram a
idéia da psicogênese das psicoses e neuroses, sendo que, em cada uma delas,
aponta a impossibilidade de uma psicogênese pura. Na segunda parte do texto, o
autor descreve as teorias psíquicas incompatíveis com a idéia de uma psicogênese
dos transtornos mentais. Enfim, sob o título A trajetória no campo, Ey defende a
idéia que qualquer teoria genética e dinamista da atividade psíquica conduz a noção
de psicogênese normal e repudia a psicogênese patológica.103
A atividade mental, para Ey, é concebida como enraizada na vida
orgânica, nutrindo-se dela, mas ultrapassando-a; é a emergência no organismo de
uma causalidade própria que institui o psiquismo, sendo a doença originada por uma
lesão funcional que atinge o processo físico-químico privando o homem de sua
liberdade.104
99
ROUART (1950). Tradução livre do original em francês.
FOLLIN, BONNAFÉ (1950). Tradução livre do original em francês.
101
LACAN ([1946] 1998).
102
EY (1950). Tradução livre do original em francês.
103
EY (1950, p. 9).
104
EY (1950, p. 14-15).
100
52
As divergências já se apresentam no preâmbulo do congresso: a
organicidade dos transtornos mentais e a noção de privação da liberdade para Ey,
em contraposição à psicogênese do psiquismo em geral e à relativização da noção
de liberdade defendida por Lacan.
Em resposta à introdução provocativa de Ey, Lacan apresenta seu
relatório de forma pontiaguda, tratando a situação como um torneio da fala para
defender a verdade. Em seu texto, no primeiro momento, aponta que Ey freqüenta
uma teoria que é incompleta e falsa, e ainda recusa em bloco o organo-dinamismo,
que se inspira na neurologia jacksoniana, à qual Freud havia emprestado certos
conceitos. Contudo, para ele, a teoria continua organicista, sem instrumentos para
se diferenciar da neurologia.105
O autor faz apelo a Spinoza, e para atacar o sistema de Ey, afirma que
sua doutrina não tem as características de uma idéia verdadeira, apresentando uma
contradição crescente com seu problema original, a saber: os limites da neurologia e
da psiquiatria. Nesse ponto, a loucura é convocada por Lacan como paradigma para
enfrentar essa questão.106
A dissolução funcional, conceito de Jackson, dada no sistema de Ey como
índices diferenciais dos distúrbios psiquiátricos (primeiros a se manifestarem e mais
benignos) e os neurológicos (últimos a se manifestarem e mais graves), na ótica de
Lacan, não apresenta distinção de natureza entre eles. Lacan lança mão do caso
estudado por Gelb e Goldstein107 para mostrar que mesmo uma síndrome
comprovadamente neurológica é indistinguível de um quadro psiquiátrico, se
105
LACAN ([1946] 1998, p. 152-154).
LACAN ([1946] 1998, p. 154).
107
LACAN ([1946] 1998, p. 163). O paciente em questão apresenta uma lesão estritamente
localizada na área de projeção visual do córtex occipital, que está na origem de toda uma
sintomatologia que se estende à esfera do simbolismo.
106
53
considerado do ponto de vista das reações globais da personalidade, e assim
aponta o caráter ambíguo do conceito de lesão funcional.108
Ainda apoiado na análise do caso, afirma que a definição de psicose
como uma reação global da personalidade é inseparável da referência à
psicogênese, apontando aí mais uma contradição do organo-dinamismo que
defende a primeira e recusa a segunda.109
Segundo Lacan, a dissolução funcional específica da psicose, conforme
proposta por Ey, procede do dualismo cartesiano, entendido de forma equivocada
como um paralelismo entre o orgânico e psíquico.110 Portanto, esse dualismo fora
introduzido por Descartes entre a extensão, o desdobramento e o pensamento, e,
para dissolver este equívoco, seria necessário um retorno a esse filósofo. Não há, no
argumento
cartesiano,
razões
para
Ey
afirmar
que,
diante
da
atividade
psicogenética, o homem é livre, exceto na loucura: este tom passional, segundo
Lacan, revela o fracasso do conjunto do organo-dinamismo na apreensão da
verdade do psiquismo com a da loucura.111
Ao expor suas concepções sobre os distúrbios nervosos, Henri Ey
reivindica sua filiação a Freud, afirmando que o que caracterizava a criação de uma
causalidade psíquica seria o fato de que aí se concentra a realidade do eu (ego),
onde vai se consumar a dualidade estrutural da vida psíquica, que anima todo o
movimento dialético do espírito, vida que apresenta uma antinomia entre o eu e o
mundo, que o primeiro vai tentar conciliar.112 Lacan refina sua crítica:
O livre jogo de minha atividade psíquica não comporta de modo
algum, que eu me esforce tão penosamente. Pois não há nenhuma
108
SIMANKE (2002, p. 227).
SIMANKE (2002, p. 227).
110
LACAN ([1946] 1998, p. 158).
111
SIMANKE (2002, p. 228).
112
LACAN ([1946] 1998, p. 160).
109
54
antinomia entre os objetos que percebo e meu corpo, cuja percepção
constitui-se justamente, por um acordo dos mais naturais com eles.
Meu inconsciente me leva, com a maior tranqüilidade do mundo, a
dissabores que não penso atribuir-lhe em nenhum grau, pelo menos
113
até me ocupar dele através do meios refinados da psicanálise.
Enfim, Lacan protesta contra a idéia de Ey de que os valores e os ideais
são integrados pelo homem e também o integram ao mundo. Discorda, afirmando
que de fato existem crenças, mas que tudo isso se passa à revelia, sem o acordo do
julgamento lógico e da consciência moral, e o fato dos ideais e das crenças serem
integrantes, não autoriza a prejulgar os valores que estarão presentes nesta
integração.114
Contundente nas críticas a Ey, Lacan delimita o campo de suas
proposições e, sob o título Causalidade essencial da loucura, vai esboçar o conceito
de objeto que fundaria uma psicologia científica, para não muito distante explicitar a
imanência da loucura à existência do ser e associá-la à estrutura constitutiva do
conhecimento humano.
A propósito da valorização da crença em Descartes, assim como do valor
humano na loucura, Lacan retoma a crítica ao organo-dinamismo, e o pivô então,
passa a ser a transformação, na psicose, do delírio em erro: a alucinação é definida
por Ey como um fenômeno normal do pensamento, e o erro é deslocado para a
crença delirante como fenômeno deficitário.115 Isso precipita a questão sobre o que
consiste o fenômeno da crença, pois esta está distante de ser um déficit, mesmo que
ela engane, sigamos sua resposta:
Ele é, digamos, desconhecimento, com o que este termo contém de
antinomia essencial. Pois desconhecer supõe um reconhecimento,
113
LACAN ([1946] 1998, p. 160).
LACAN ([1946] 1998, p. 158-162).
115
SIMANKE (2002, p. 233).
114
55
como evidencia o desconhecimento sistemático, onde realmente
116
deve-se admitir que o que é negado é de algum modo reconhecido.
Lacan nos remete aos sentimentos de influência e ao automatismo para
melhor esclarecer a citação acima, pois, nessas vivências, o sujeito não reconhece
as próprias produções como sendo suas: os fenômenos são percebidos
estranhamente e o visam pessoalmente, sendo todos vividos no registro do sentido.
Dessa maneira, o fenômeno da loucura é inseparável do problema da significação e
da linguagem para o homem. Segundo Lacan, a linguagem, que é instrumento da
mentira do homem, é atravessada por sua verdade; a questão da verdade coloca-se
para ele na essência do fenômeno da loucura e no ser mesmo do homem, onde a
definição deste como ser histórico-cultural, não pode elidir a dimensão do sentido,
pois, para ele, a loucura é vivida inteiramente nesse registro, o que a diferencia das
afecções orgânicas. Com a equiparação da condição humana e do fenômeno da
loucura ao domínio da significação, é que Lacan vai afirmar, posteriormente, a
imanência da loucura à realidade humana.
Através de uma brincadeira glossolálica, Lacan faz deslizar várias
significações de uma só palavra, propondo-a, ao invés de signo, como nó de
significações: para ele, tudo o que cria nó faz discurso, e é justamente na linguagem
que se justificam ou se denunciam as atitudes do ser. Sendo assim, através do
estudo das significações da loucura é que se vêem revelar as estruturas de seu
conhecimento.117
Retorna ao caso Aimée pela significação ardente de suas produções, e,
ainda, pelos pontos de estrutura que nele se revelam essenciais para a
116
117
LACAN, ([1946] 1998, p. 166).
LACAN. Formulações sobre a causalidade psíquica (1998, p. 167-169).
56
fenomenologia da loucura. Nele, Lacan ressalta que, pelo viés clínico, identificou
uma função básica de desconhecimento na origem da loucura, que o levou a compor
a teoria do imaginário: se na tese as relações da paranóia com a personalidade
permitiram-no afastar da concepção de déficit na psicose, agora a distinção do
normal e patológico far-se-á no campo qualitativo da imagem, sustentado pela noção
de estrutura.
No seu texto, Lacan aponta dois tipos diferentes de desconhecimento que
se articulam à imediatidade ou à mediação118 da identificação, posteriormente
chamadas ao modo freudiano de identificação primária e secundária. Sobre essa
base, anuncia a idéia da imanência da loucura à realidade humana, justificada pela
identificação imediata, primária, que está na origem de um momento lógico da
edificação do sujeito, e que estrutura a subjetividade em um modo paranóico de
identificações constitutivas, às quais o estádio do espelho fornece o modelo.119 O
autor se refere à fórmula geral da loucura que encontra em Hegel, onde se aninha
um duplo desconhecimento como condição de existência, na qual a desordem do
mundo é a manifestação exterior da imagem invertida de seu próprio ser, conforme
sua citação:
Digo, "fórmula geral da loucura" no sentido de que podemos vê-la aplicar-se
particularmente a qualquer uma das fases pelas quais se realiza mais ou
menos, em cada destino, o desenvolvimento dialético do ser humano, e que
ela sempre se realiza ali como uma estase do ser, numa identificação ideal
120
que caracteriza este ponto de um destino particular.
118
A imediatez é o termo utilizado por Lacan, que vai delimitar uma distinção entre a identificação na
neurose e identificação na psicose. Na psicose, há imediatez, ou seja, sem mediação. Já na neurose,
há uma identificação mediada que supõe um terceiro termo entre o ser e a imagem ideal.
119
SIMANKE (2002, p. 239).
120
LACAN ([1946] 1998, p. 173).
57
Lacan, então, vai tratar a loucura como a verdade121 do ser, representada
pelas formas ideais e ilusórias que concernem o eu. Através dessa afirmação, ele
coloca em questão a idéia de liberdade defendida por Ey, sustentada por uma
versão equivocada do cartesianismo para subscrever a idéia de que o espírito é livre
em todas as circunstâncias, exceto na loucura. Irá melhor situá-la ao evidenciar a
armadilha das identificações nas leis do devir humano, nos seguintes termos:
Pois o risco da loucura se mede pela própria atração das
identificações em que o homem engaja, simultaneamente, sua
verdade e seu ser.
Assim longe de a loucura ser um fato contingente das fragilidades de
seu organismo, ela é virtualidade permanente de uma falha aberta em
sua essência.
Longe de ser para a liberdade “um insulto”, ela é a sua mais fiel
companheira, e acompanha seu movimento como uma sombra.
E o ser do homem não apenas não pode ser comprometido sem a
loucura, como não seria o ser do homem se não trouxesse em si a
122
loucura como limite de sua liberdade.
Assim, Lacan destaca, mais uma vez, a loucura do déficit, e eleva-a à
fundação da existência, evocando, então, a dimensão do respeito a essa condição.
A causalidade psíquica é situada na insondável decisão do ser diante da armadilha
do destino que engana frente a uma liberdade não conquistada na lei do devir
humano. Ele vai concluir, em contraponto com Ey, negando que o homem é livre
exatamente pela loucura ser inerente à sua realidade própria, e que no devir do ser
ela funciona como “limite de sua liberdade”123.
Lacan ao atribuir, com a imagem, realidade ao psíquico na fundação do
sujeito representado pelas formações ideais do eu, vai identificar a verdade do
psiquismo com a verdade da loucura. Segundo Simanke, dentro dessa perspectiva,
121
LACAN, ([1946] 1998, p. 167). Lacan esclarece que, para a filosofia, sob o olhar de Heidegger,
verdade é revelação.
122
LACAN ([1946] 1998, p. 177).
123
LACAN ([1946] 1998, p. 177).
58
o organicismo vai procurar uma causa orgânica para a diferença entre o sujeito livre
e o louco, por desconhecer que a loucura reflete a essência do psiquismo e do
sujeito, e assim fica explícita a afirmação do fundamento paranóico do conhecimento
humano, ao se considerar que as mesmas condições fundam os sistemas delirantes
e a personalidade normal: nem louco, nem sadio, estando separados pela função do
eu da realidade do corpo, padecem da liberdade.124
No texto Some reflexions on the ego125, Lacan vai retomar as elaborações
sobre o estádio do espelho e o conhecimento paranóico, a fim de introduzir a
estrutura da linguagem para a compreensão da função do eu. Bem ancorado pelas
noções da biologia, vai se referir à teoria como genética (teoria genética do eu), mas
com um vínculo psíquico por excelência, daí justifica a sua consideração como
psicanalítica.
É a agressividade implícita na relação fundamental do eu, que, no texto
citado acima, orienta a discussão do que a análise é capaz de aliviar: ou seja, ela vai
tratar do conflito colocado por Hegel a partir da coexistência de duas consciências
que só pode ser resolvido pela destruição de uma delas, através da palavra. Com a
teoria de Lévi-Strauss, Lacan encontra uma solução teórica, onde o inconsciente de
Freud pode ser designado como uma estrutura de linguagem, onde o eu (moi) tornase o lugar das ilusões do imaginário e o Eu (je) veículo de uma fala.126
Lacan vai ressaltar, ainda nesse texto, que nem sempre possuir um eu
forte é psicologicamente vantajoso (crítica à psicologia do ego), e vai ilustrar sua
afirmação com uma metáfora:
124
SIMANKE (2002, p. 229).
LACAN (1953).
126
LACAN (1953, p. 11-17).
125
59
A relação entre este homo psycologicus e as máquinas que utiliza é
bastante notável, especialmente no caso do automóvel. A impressão
é que essa relação tem se tornado tão íntima que ambos, homem e
carro, uniram-se realmente: as panes e falhas mecânicas aparecem
com freqüência paralelamente aos sintomas neuróticos de seu
dono.O significado emocional para ele vem do fato de que o
automóvel exterioriza a carapaça protetora do eu, assim como o
fracasso de sua virilidade.
127
É a partir da necessidade de uma intervenção que ultrapasse esse
conflito que Lacan convoca a clínica psicanalítica para o enfrentamento das
questões fundantes do ser: aquelas colocadas pela paranóia fundamental.
1.2.3 O conhecimento paranóico e a psicose
A tese da paranóia como matriz para o conhecimento humano, conforme
estabelecida à luz da primeira abordagem da teoria do imaginário, vai sofrer uma
nova torção sob a visada do estruturalismo, quando Lacan começa sua aproximação
com a lingüística e, através dela, sua releitura de Freud. No Seminário, livro 3: As
psicoses, ele vai se dedicar às suas estruturas fundantes do discurso delirante e
formular uma dimensão nova na fenomenologia da psicose, onde o sintoma
encontra-se claramente amarrado às estruturas de linguagem: a questão, para ele, é
saber como isso fala e qual é a estrutura do discurso paranóico.128
127
LACAN (1953, p. 17). Tradução livre do original em inglês.
ROUDINESCO (1994, p. 275-280). A autora esclarece que é em uma segunda leitura da obra de
Saussure, orientada por Roman Jakobson, que Lacan vai formular sua teoria do significante. Para ele,
o significante é isolado do significado, como uma letra (ou uma palavra símbolo) desprovida de
significação, mas determinante para o inconsciente do sujeito. Quanto ao sujeito, ele não é
assimilável a um eu, mas definido por Lacan como sujeito do inconsciente (um sujeito dividido
segundo a spaltung – clivagem freudiana, e partilhado segundo a tese psiquiátrica da discordância).
Nessa perspectiva, o sujeito não existe como plenitude, mas, ao contrário, é representado pelo
128
60
Neste Seminário, nas elaborações sobre o registro do simbólico, Lacan vai
retomar o édipo interpretando-o à partir da mediação simbólica da linguagem,
condensando-o na substituição significante, onde a fórmula da metáfora paterna faz
barrar o Desejo da Mãe, e resultar na inclusão do Nome-do-Pai enquanto
significante que representa a lei do Outro e introduz a significação fálica e inscrição
da castração, fazendo emergir, desta maneira, o significante do desejo.
É a
travessia desta operação, do édipo enquanto metáfora simbólica, que permite ao
sujeito dar significação aos seus significantes e advir como sujeito da linguagem.
Este cruzamento pela ponte edípica insere o sujeito na estrutura, colocando-o frente
à falta posta pela castração, e encarcerado-o ao recalque, obrigando-o a conviver
com uma verdade, sobre si, que não pode ser dita por inteiro.
A metáfora paterna é apresentada como uma substituição, onde o Desejo da
Mãe, em um primeiro momento, um significante enigmático para o sujeito é barrado
pelo Nome-do-pai, significante que representa a lei no Outro e permite a incrição
fálica, Através desta falta, abre-se a entrada do indivíduo no campo da linguagem,
tornando-o sujeito da linguagem e permitindo-o atribuir significações aos seus
significantes.
A travessia do édipo não operada, acaba por lançar o sujeito no campo da
psicose: estrutura que vai ser entendida como uma posição subjetiva em que ao
apelo do Nome-do-Pai virá como resposta ao sujeito uma ausência ou a carência do
próprio significante, e o conseqüente fracasso da metáfora paterna. Assim se
estabelece a forclusão do Nome-doPai na psicose, que implica na abolição da lei
significante, ou seja, pela letra, em que se marca a ancoragem do inconsciente na linguagem. Mas é
representado também por uma cadeia de significantes no qual o plano do enunciado não corresponde
ao plano da enunciação e, assim, o sujeito é representado por um significante para outro significante
no interior de um conjunto estrutural. Por isso, Lacan substituirá o Eu penso cartesiano por um Isso
fala freudiano: daí o sujeito do inconsciente.
61
simbólica, impedindo a amarração das articulações do discurso para este sujeito,
para condená-lo ao delírio.
O termo forclusão é utilizado no campo jurídico como processo prescrito, ou
seja, aquele do qual se perdeu o prazo e não se pode apelar, nos introduzindo na
dimensão da lei e de sua proscrição. Então, a forclusão do Nome-do-Pai na psicose,
indica que o sujeito está fora da lei simbólica, proscrita pela carência do siginificante,
que nesta estrutura não estará presente para permitir a formulação da metáfora
edípica.
Lacan inicia seus estudos, no campo da psicose, pela paranóia (LACAN,
1932/1987), depois estabelece a pré-condição paranóica do conhecimento humano
ligando-o à constituição do eu (LACAN, 1936-49/1998), situa a psicose como
estrutura a partir do termo freudiano Verwerfung, que nomeado como forclusão do
Nome-do-Pai
opera
sua
ação
nesta
posição
(LACAN,1955-56/2002),
e
posteriormente afirma que a personalidade e a psicose paranóica são a mesma
coisa (CZEMARK, 1975). Neste percurso, dois caminhos se abrem: a “paranóia”,
que vai designar a psicose no seu caráter clínico mais puro, mas também a estrutura
mais universal do eu.
Lacan vai entrelaçar, em um ponto de coincidência (o transitivismo), as duas
vertentes acima; passagem, ou estádio, onde a estruturação do eu não corresponde
mais a uma função adaptativa à realidade, como havia sido proposto em 1932, mas
à adaptação da realidade a si, em uma identificação psíquica imaginária como forma
constitutiva dos objetos do mundo – uma forma de conhecimento. Sobremaneira, a
paranóia passa a nomear duas estruturas distintas: uma, a paranóia designada pela
estrutura psicótica, e outra, a paranóia que na primeira identificação faz brotar no
homem o desejo pelo objeto e o conhecimento. Como compatibilizar as duas teses?
62
A forma de conceber as duas noções de paranóia como conciliáveis, segundo Waldir
Beividas (BEIVIDAS, 1999), é estabelecer uma diferença de estatuto entre elas, ou
seja, verificar que não se encontram no mesmo registro. A primeira proposição, a
paranóia-forclusão, surge da epistemologia estrutural (método lingüístico) para
interpretar uma particularidade clínica: a estrutura psicótica. A segunda, a da
paranóia como matriz do conhecimento humano, não se limita ao registro clínico e,
além de alcançar um valor epistemológico, funda a dialética do desejo.
Para abordar essa diferença de registro, retomamos o estádio do espelho
conforme revisto à luz do simbólico, tendo como modelo o esquema ótico (1958),
que, a partir da introdução do Outro, vai definir uma nova estrutura de percepção, na
qual a imagem só se sustenta a partir de uma nomeação, estabelecendo uma
alienação, ainda mais radical que a imaginária: a simbólica.
Lacan vai usar o modelo ótico da experiência do buquê invertido, conforme
descrita pelo professor H. Bouasse, a fim de localizar a clivagem do simbólico e do
imaginário e as relações do Eu ideal e do Ideal de eu.129
Na figura 2, a experiência que Lacan vai utilizar para ilustrar a relação do
imaginário com o real é feita com o espelho côncavo, uma esfera cortada em seu
diâmetro com a face interna espelhada, tendo como característica a propriedade de
reduplicar o objeto no mesmo lugar em que ele se encontra, se o mesmo for
colocado entre o observador e o espelho. O objeto então, colocado entre o espelho
e o observador, é uma mesa com um vaso em cima e um buquê de flores de cabeça
para baixo colado embaixo no tampo da mesa, invisível para o observador, pois, do
seu lado, a toalha cobre a parte inferior da mesa, embora não cubra do lado voltado
129
LACAN ([1958] 1998, p. 653-691).
63
para o espelho. A imagem produzida é invertida, pois os raios incidem inversamente,
de forma a produzir uma imagem correta com as flores colocadas dentro do vaso.
FIGURA 2 – Esquema Ótico130
Para se produzir esse efeito (imagem correta), o observador deve estar
posicionado no cone (β, B’ γ), sendo que, no espelho esférico, essa é a imagem real,
formada na mesma posição do objeto, o que a diferencia da imagem formada no
espelho plano. Esta imagem é designada por i(a) que representa a imagem
especular, real, do sujeito precipitando a formação do corpo conforme metáfora
proposta por Lacan131: primeiramente há um corpo descoordenado do qual sai um
buquê de pulsões parciais e a partir de uma nova ação psíquica o vaso as unifica,
sendo a imagem que dá sua unidade ao corpo, transformando essas flores em
objetos do eu.
Na figura 3, é utilizado o mesmo espelho côncavo cortado no diâmetro
com a face interna espelhada, e o objeto colocado entre o espelho e o observador é
uma mesa com um buquê de flores em cima e um vaso de cabeça para baixo com o
fundo colado no tampo da mesa, invisível para o observador. Nesse esquema, é
130
131
LACAN ([1958] 1998, p. 680).
LACAN ([1958] 1998, p. 647-691).
64
acrescentado um espelho plano em frente à imagem real em posição vertical
paralela ao espelho côncavo e o observador muda de lado, de forma que,
posicionado um pouco a frente do espelho côncavo, não veja o objeto em baixo da
mesa, mas a imagem real refletida no espelho plano. Nesse esquema, o espelho
plano representa o Outro do simbólico, e o que o observador vê nele é o reflexo da
imagem real, ou seja, uma imagem virtual i’(a) que antecipa a unidade do corpo em
uma alienação definitiva. Ambas as imagens estão no registro do imaginário, sendo
que a segunda (virtual, mediada pela relação com o Outro) duplica a primeira
(ilusão) e vai ter como referência o ponto I (ideal do Eu) onde situa o traço unário
que comanda a auto-imagem do sujeito.
FIGURA 3 – Esquema ótico132
O esquema ótico é uma estrutura ordenada por leis permitindo a produção
de uma imagem, mas na condição de que se introduza um sujeito representado pelo
olho. Ele permite pensar a distinção entre o eu e o sujeito e a determinação do
campo imaginário dada pelo simbólico, onde o Ideal do eu é o suporte simbólico que
132
LACAN ([1958] 1998, p. 681).
65
sustenta a imagem do eu, este considerado como eu Ideal, pois ele é discordante
para sempre do corpo real. Isso nos indica que a constituição do sujeito e de seu eu
se faz a partir da exterioridade.133
O sujeito, então representado pelo olho, é apenas uma função e sua
posição define uma forma binária: no interior ou no exterior do cone de visão, sendo
disso que depende a constituição ou não da realidade e também a fundação do eu.
Para Lacan, a posição do olho, determinada pelo simbólico, indica a primazia deste
sobre o imaginário e, por sua vez, esclarece que as variações do olho determinam a
posição do sujeito na estrutura da linguagem.134
Lacan caracteriza a palavra como a função que, na linguagem, constitui a
relação do sujeito com o Outro, conforme esclarece Elisa Alvarenga:
O espelho do Outro é que dá a imagem unificada no eu ideal, i’(a), imagem
especular. Mas é também o Outro, o simbólico, que separa o sujeito dessa
alienação na imagem, no outro especular designando-lhe o significante do
ideal. A relação simbólica estrutura a percepção: o que é percebido só se
sustenta no interior de uma zona de nomeação. É nomeando os objetos que
o homem os faz subsistir com uma certa consistência, para além da sua
percepção. O significante responde então pela dimensão temporal do
objeto, o que impede que ele se dissolva numa identificação com o
135
sujeito.
Adrian Vodovosoff aponta que se pode observar um avanço do esquema
ótico com relação ao estádio do espelho. Neste, a falta enquanto falta de unidade do
corpo, era explicada de forma objetiva com dados biológicos, sendo o problema
circunscrito à prematuração do nascimento no homem, que acaba por desaparecer
com o desenvolvimento orgânico. Enquanto que no esquema ótico a falta –
representada pela perda da imagem real por um olho mal colocado nesta nova
133
VODOVOSOFF (1993, p. 23-39). Tradução livre do original em francês.
VODOVOSOFF (1993, p. 23-39). Tradução livre do original em francês.
135
ALVARENGA (1994, p. 87).
134
66
posição – é uma falta de estrutura. Não há desenvolvimento orgânico possível para
o homem que lhe permitisse aceder a isto.136
Dentro da noção de estrutura, a partir do esquema ótico, podemos
localizar o paranóico do lado direito da figura 2, e o neurótico do lado esquerdo da
figura 3, tendo como referência as posições distintas em relação ao simbólico: o
paranóico, por sua vez, tem a certeza de visualizar um vaso completo, ou a imagem
real, sendo que a introdução do real no imaginário não pode ser simbolizada por ele,
já o neurótico, tomando como referência a figura do físico Bouasse, que também vê
o vaso completo, ou a imagem virtual, sabe que a vê invertida somente porque o
vaso está sob a mesa, podendo, dessa maneira, simbolizar, pela mediação do
Outro, a discordância entre a imagem real e a virtual. Podemos, dessa maneira,
estabelecer, com Lacan, a diferença entre a alienação psicótica e a alienação como
forma geral do imaginário, conforme sinaliza no Seminário 3.
O esquema ótico vai evidenciar o eu reduplicado por sua imagem
especular, como o revirar de uma luva do direito para o seu avesso: movimento
presente na constituição do eu que aponta a imagem enganosa do corpo como
instância do desconhecer, fazendo do conhecimento humano (dupla alienação)
matriz paranóica na eleição dos objetos do mundo, conforme Lacan retoma em
1958:
Seja como for, esta união do sujeito com o objeto, como podemos
reconhecê-la, é o ideal evocado desde sempre como o princípio de uma
teoria clássica do conhecimento, fundamentada pela conaturalidade pela
137
138
qual o conhecedor, em seu processo, vem a co-nascer no conhecido.
136
VODOVOSOFF (1993, p. 33). Tradução livre do original em francês.
LACAN ([1958] 1998, p. 673). “O verbo usado é co-naître, homófono de connaitre (conhecer).
(N.E.)”.
138
LACAN ([1958] 1998, p. 673).
137
67
Enfim, a paranóia do observador posicionado do lado direito do desenho 2
(paranóia-forclusão), localizada139, dada pela estrutura da psicose, passa a ser um
caso clínico com toda a sua particularidade. Já a paranóia do observador que se
situa do lado esquerdo do desenho 3, aquela que instaura o desejo, ganha o
estatuto epistemológico.
139
BEIVIDAS (1999, p. 97).Termos utilizados por Beividas para situar a paranóia.
68
2 DO CONHECIMENTO À CIÊNCIA
A noção de conhecimento que se constrói, ao longo da obra de Lacan,
tem como referência disciplinas externas à psicanálise140, e, de certa forma,
acompanha os movimentos em torno da conceitualização de sujeito141. Em 1932, ele
inicia suas elaborações no terreno teórico da psiquiatria ao estabelecer como diretriz
o resgate do sujeito na abordagem das patologias mentais, situando a sua
determinação na ordem social: as idéias de Lévy-Bruhl142 sobre a mentalidade
primitiva servem-lhe de base para a distinção entre o conhecimento paranóico e o
normal dentro do campo da psicogênese, ao situá-los como formações de
personalidades distintas.143
A noção de psicogênese deixa de ser utilizada no Seminário 3, onde a
posição do sujeito passa a ser abordada à partir da estrutura. Na evolução dessa
mudança teórica, são as idéias de Kojève144 que vêem substituir as de Lévy-Bruhl: a
concepção do sujeito se dá em um processo dialético na incorporação do desejo do
outro (social), onde Lacan apóia a instância da subjetividade. Ele vai definir o
conhecimento como uma estagnação na dialética da constituição do sujeito, um
140
MILNER (1996, p. 9). Milner esclarece que há um bom uso da exterioridade em Lacan, e, como
exemplo, cita o uso dos conceitos do estruturalismo: “Lacan revela propriedades da doutrina
estrutural, na medida exata que se mantém a ela numa posição paradoxal de inclusão externa”.
141
MORA (2001, p. 119-126). A teoria do conhecimento, na filosofia, é uma disciplina que se ocupa
prioritariamente da explicitação dos critérios de atribuição de verdade para as proposições descritivas
(de estados e de relações entre estados de coisas). A definição de um critério de verdade ocupa, por
esse motivo, boa parte dos trabalhos em epistemologia e domínios conexos, como o das ciências
cognitivas e da teoria do significado. Ressaltamos que a teoria lacaniana, nesse sentido, vai buscar a
verdade das proposições na determinação do sujeito.
142
SIMANKE (2002, p. 428-430). Segundo Simanke, Lévy-Bruhl situa a gênese do indivíduo real
como um processo que funde a evolução psíquica ao crescimento e à maturação biológica.
143
SIMANKE (2002, p. 428-430).
144
SIMANKE (2002, p. 429). Segundo Simanke, essa concepção permite pensar o sujeito fora da
perspectiva genética, conforme suas palavras: “Embora o sujeito Kojèviano seja uma representação
condensada do sujeito e do acontecer histórico, a luta das consciências, a dialética do
reconhecimento, as figuras do Senhor e do Escravo, enfim todos os componentes mais chamativos
do périplo da SelbstbeWusstsein, vão funcionar, em Lacan, como um modelo do vir-a-ser do sujeito,
ou seja, uma totalidade que pode ser pensada sincronicamente e aplicada a cada um dos momentos
concretos (na neurose, no Édipo, etc.) em que essa subjetividade deve emergir.”
69
momento transitivista que permite nomeá-lo como paranóico e desdobrá-lo à
condição humana em geral.
O conhecimento se distingue, sobremaneira, da ciência, fato de alcance
fora do campo da psicanálise, conforme afirma Jacques-Alain Miller no texto
Elementos de Epistemologia145 que tomaremos como referência para algumas
articulações nesse desenvolvimento. Situaremos essa diferença acompanhando a
revolução científica conforme estabelecida pela leitura filosófica. Vale ressaltar que
nos restringimos às referências que se fizeram necessárias para contextualizar a
questão levantada.146
2.1 O CONHECIMENTO NOS AVATARES DO CAMPO IMAGINÁRIO
Segundo Miller, no texto anteriormente citado, o conhecimento (forma de
constituição do saber anterior ao advento da ciência moderna), dentro da
perspectiva filosófica clássica, supõe uma harmonia entre o sujeito cognoscente e o
objeto conhecido em uma relação de co-naturalidade147 que convoca, em sua
estrutura, toda a significação imaginária repleta de recursos ilusórios e míticos na
145
MILLER (2002, p. 40-54).
MILNER (1996, p. 32). Segundo Milner, a doutrina lacaniana da ciência é derivada de Alexandre
Koyrée, e se compõe a partir dos em termos homônimos dos operadores históricos: sucessão e corte.
Ele retoma Koyrée a partir de Kojève, para explicitar a proposição lacaniana, trabalhando com o
raciocínio por axiomas e teoremas. “Teoremas de Kojève: a) há entre o mundo antigo e o universo
moderno um corte b) este corte vem do cristianismo – Teoremas de Koyrée: a) entre a episteme
antiga e a ciência moderna existe um corte b) a ciência moderna é a ciência galileana, cujo tipo é a
física matematizada c)matematizando seu objeto, a ciência galileana o despoja de suas qualidade
sensíveis Hipótese de Lacan: os teoremas de Koyrée são um caso particular dos teoremas de Kojève.
Lemas de Lacan: a) a ciência moderna constitui-se pelo cristianismo, na medida em que ele se
distingue do mundo antigo b) já que o ponto de distinção entre cristianismo e mundo antigo provém
do judaísmo, a ciência moderna se constitui pelo que há de judaico no cristianismo c) tudo que é
moderno é síncrono da ciência galileana, e só existe de moderno o que é síncrono da ciência
galileana”.
147
Miller vai retomar o termo conaturalidade de Lacan, conforme utilizado no texto “Observações sobre o
relatório de Daniel Lagache, para situar o conhecimento paranóico em conformidade com o momento do
nascimento do eu.
146
70
representação de seus elementos, promovendo as bodas imaginárias do princípio
macho-fêmea.148 A ciência se distingue do conhecimento, pois não supõe uma conaturalidade entre sujeito e objeto: ela dessexualiza a abordagem do mundo, ao
construir artificialmente seus objetos.
Tomamos como exemplo desse tipo de formulação a alquimia, uma forma
de constituição do conhecimento pré-científico, que representa bem um modelo do
que Lacan chamou conhecimento paranóico e, posteriormente à revolução científica,
nossa referência é a química moderna, por ser herdeira natural da alquimia. Por uma
outra vertente, esses dois exemplos também possibilitam uma articulação com o
caso clínico que abordaremos no capítulo 3, no qual Kimiya, paciente em questão,
constrói uma alquimia particular com as substâncias produzidas pela química
moderna.
No período de 300 a 1400 d.C. desponta a alquimia, sendo que existem
registros de suas práticas em momentos anteriores à era cristã. Seus praticantes, os
chamados alquimistas, eram homens que, em geral, tinham o domínio das técnicas
de metalurgia, desenvolvendo trabalhos em laboratórios e executando várias
experiências. Esse tipo de saber desenvolveu-se a partir do conhecimento prático
existente e foi fortemente influenciado pôr idéias místicas, tendo como objeto o
estudo dos elementos da natureza a fim de explicar as transformações da matéria e
buscar nelas a pedra filosofal, o elixir da longa vida, assim como a perfeição da alma
dos que a praticavam. 149
148
MILLER (2002, p. 41). “Toda teoria do conhecimento tem conotações sexuais. Se querem
exemplos, pensem só na complementaridade em Aristóteles entre a forma e a matéria. Podem
também pensar nessa forma de conhecimento tão elaborada que é a astronomia chinesa antiga, a
qual, em seu conjunto, é um discurso sobre o macho e a fêmea que ordena não somente os céus,
mas a sociedade toda. É um dos exemplos que Lacan usa em seu seminário 'Os quatro conceitos
fundamentais em psicanálise'".
149
GOLDFARB (1987, p. 233-234). A arte techné dos alquimistas seria a de reproduzir, em suas
oficinas, os mesmos processos, embora acelerados, pelos quais passariam os minérios na terra, em
sua lenta evolução até atingir a forma definitiva dos metais. Como, no seio da terra, os metais
71
Marcada por várias correntes que se passaram, tendo como expoentes
Empédocles (490-430 a.C.), Aristóteles (384-322 a.C.) e os árabes, esta forma de
saber se manteve viva e atuante frente às dúvidas e aos anseios do homem em
relação à natureza, independente das formas de cultura e das distintas escolas de
pensamento, para depois romper-se com o advento da ciência moderna.
Ana M. Alfonso Goldfarb define a alquimia nos seguintes termos:
A alquimia não era exatamente um estudo da ciência da matéria, mas
também, em contrapartida, tampouco era uma iniciação mística espiritual.
Tratava-se, portanto, de uma cosmologia, ou uma forma de conhecimento
do mundo. A matéria era interpretada através da ritualística mágica,
entregando ao alquimista segredos do cosmo que o levariam ao
conhecimento de seus próprios. Assim, parece lógico que, no momento em
que tal matéria viva e amorfa do cosmo comece a ser entendida de outra
maneira a partir do séc. XVI, o alquimista perde o substrato sobre o qual
150
poderia realizar a “Grande Obra”.
Uma etapa muito importante no desenvolvimento da alquimia desenrolouse entre 1400 e 1600, momento de influência do espírito renascentista, no qual o
simbolismo clássico foi retomado através dos novos trabalhos pictográficos.151 Com
a temática humana centralizando os investimentos, seus adeptos começaram a se
preocupar com a cura das doenças através das substâncias químicas, tendo origem
a iatroquímica, precursora distante química médica moderna.
Na época em que o Brasil foi descoberto, surgiu na Europa a figura mais
importante desse ramo alquímico (iatroquímica), que assina seus trabalhos sob o
pseudônimo de Phillipus Aureolus Paracelsus, mas seu nome verdadeiro era
Theophrasus Bombastus Von Hohenheim. Filho da nobreza, dono de conhecimentos
multifacetados, andarilho incansável e profundamente místico, sabia os segredos
das minas, da medicina popular, da alquimia e da ciência douta dos clássicos, à qual
rejeitava num claro desejo de romper com a autoridade formal estabelecida
impuros almejariam e atingiriam, com o passar do tempo, a forma incorruptível do ouro, assim
também, simultaneamente com a opus alchimica, a alma do alquimista atingiria a mesma perfeição.
150
GOLDFARB (1987, p. 234).
151
FERREIRA (1999, p. 1563). A pictografia é um sistema de escrita que utiliza signos (ícones)
baseados na representação simplificada dos objetos da realidade.
72
socialmente. Resgatamos algumas idéias por meio do livro de Alexandre Koyré,
Mystiques, spirituels, alchimistes du XVI siècle, allemeand, detendo-nos no capítulo
III – Paracelso (1493 a 1541).152
A filosofia paracelsista, que tinha como pilares a alquimia e a astrologia,
fundamentava-se em uma relação do macrocosmo com o microcosmo, num
movimento de alquimizar a natureza, apropriando-se do termo “astrologia terrestre”
para a alquimia como parte da natureza inferior, correspondendo à astrologia ou à
ciência superior. É o conceito de “Vida- Natureza”, que fundamenta este intercâmbio
cosmológico:
o mundo é vivo, vive em todas as partes, pequenas ou grandes, e não há
nada nele que não seja: as pedras, os astros, os metais, o ar e o fogo. Tudo
é vivo e o universo em seu conjunto é um rio eterno de vida. Esse rio se
propaga e se desloca em correntes isoladas e múltiplas. As correntes se
reencontram, lutam, se combatem, e todas procedem de uma única e
153
mesma fonte, vem se perder em um único mesmo oceano de vida.
Paracelso admitia que o homem era feito dos três princípios – sal, enxofre
e mercúrio, de cuja separação resultariam as doenças opondo-se à antiga
proposição dos quatro elementos. O ser humano, segundo esse pensador, seria o
produto da destilação do cosmo, onde agem as forças gerais de cada constelação, e
o substrato que recebe influências específicas dos astros criados e comandados por
Deus. Há um vetor, o Archeus, que infunde vida e traz as qualidades às coisas do
mundo. Basicamente, a doença estaria constituída por um mau funcionamento do
Archeus.
Seu trabalho teve muitos aspectos positivos, como a introdução das
tinturas, isto é, extratos alcoólicos, sendo o pioneiro no uso dos remédios à base de
152
KOYRÉ (1971, p. 75-129). Theophrasus Bombastus Paracelsus foi um pensador de sua época,
precursor do pensamento atual, influenciado pelo naturalismo renascentista após a Revolução
Francesa, combateu a ciência médica de seu tempo e proclamou a necessidade da experiência. Foi
condecorado Doutor em Medicina em Verona e na sua carreira e na prática era um empírico: seu
saber provinha da prática e do conhecimento popular, fortemente influenciado pela alquimia e por
idéias místicas.
153
KOYRÉ (1971, p. 82-83). Tradução livre do original em francês.
73
ópio e de substâncias inorgânicas como o mercúrio, ferro, enxofre, chumbo, arsênico
e sulfato de cobre. Várias dessas substâncias fazem parte do receituário médico
atual, como é o caso do ópio (sedativo), do ferro (antianêmico), e do enxofre
(antimicótico).
Portanto, apesar da contingência que proporcionou um efeito prático e
utilitário para algumas substâncias, uma série de analogias e simbologias mágicas
perpassam as páginas de seus escritos e, quando analisamos os motivos pelos
quais se justifica dar ferro à anemia, deparamos com a fragilidade desse
conhecimento, assim como com a sua inoperância diante dos fenômenos naturais:
"O ferro é uma substância dedicada a marte, este por ser deus da guerra é também
deus do sangue e como problemas de sangue curam-se com sangue, nada melhor
do que dar ferro ao doente”.154
A forma imaginária de eleger os objetos era inseparável da constituição
do saber em tempos remotos, e foi utilizada como referência da verdade, até o fim
do século XVI, onde o conhecimento humano se constituía através da definição do
análogo que operava uma união entre o universo macro e o micro, destacando a
semelhança como um princípio importante, como expresso a seguir no texto de
Foucault:
"[...] a semelhança desempenhou um papel construtor no saber da cultura
ocidental. Foi ela que, em grande parte, conduziu a exegese e a interpretação
dos textos: foi ela que organizou o jogo dos símbolos, permitiu o
conhecimento das coisas visíveis e invisíveis, guiou a arte de representá155
las”.
No conhecimento pré-científico, na alquimia, a representação fazia-se
como uma repetição, um espelho do mundo, e o saber do homem se sustentava na
identificação das similitudes que se configuravam, segundo Foucault, em quatro
154
155
GOLDFARB (1987, p. 162).
FOUCAULT (2002, p. 23).
74
figuras essenciais: Convenientia, Aemulatio, Analogia, Simpatia.156 Essas figuras
tornavam visíveis as assinalações divinas na natureza e a forma mágica era inerente
à maneira humana de conhecer, projetando o encontro do signo e do similar como
verdades reveladas em um infinito limitado e jamais estável.
Segundo Foucault, na Antigüidade a linguagem (elemento fundamental na
tradução do pensamento) valeria como signo das coisas, formando, assim, a
natureza e o verbo um único texto. O discurso seria um espelho amplificador das
coisas do mundo, onde a palavra se encarregaria de traduzir aquilo que tivesse
ficado oculto aos olhos menos sagazes, marcando a semelhança entre o
maravilhoso (figura divina) e a própria natureza: o mundo podia ser interpretado
como um sujeito que falava a outro que aprendia.157
Um bom exemplo de decifração das assinalações inscritas por Deus na
natureza na constituição do conhecimento, foi a utilização do fruto da noz para a
cura das mazelas da cabeça, orientada pela afinidade das imagens: o invólucro
dessa semente servia para o tratamento dos males do pericrânio, e o núcleo para as
aflições do interior.158 Essas marcas divinas poderiam ser encontradas em outros
frutos ou sementes, dependendo da habilidade, dos olhos atentos ou da
sensibilidade do pesquisador. As analogias, na alquimia, se replicavam guiadas pela
signatura rerum, ou seja, pelas inscrições divinas na natureza que falavam aos
homens através de signos a serem decifrados, conforme conceituada por Jacob
Boehme:
156
FOUCAULT (2002, p. 23-61). A articulação do saber da semelhança no séc XVI é feita em quatro
figuras essenciais: Convenientia – as coisas se trocam e por permuta nascem novas semelhanças,
em uma simbiose que se dá por vizinhança-aproximação espacial. Aemulatio – as coisas dispersas
através do mundo se correspondem imitando-se por uma reduplicação especular sem considerar a
distância e podem apresentar um combate de uma forma contra outra. Analogia – assegura o
afrontamento das semelhanças através do espaço, mas dentro de ajustamentos, liames e junturas.
Simpatia - instância do mesmo que tem o poder de assinalar e tornar as coisas estranhas ao que
eram: ela transforma na direção do idêntico.
157
FOUCAULT (2002, p. 23-61).
158
FOUCAULT (2002, p. 37-38).
75
Entretanto para que eu veja a pessoa falar, ensinar, orar, e escrever
de Deus, ainda que eu ouça e leia o mesmo, contudo isto não é
suficiente para mim o entender; mas se o som e espírito dele fora de
sua assinatura e similitude entre em minha própria similitude, e
imprima sua similitude na minha, então eu posso entendê-lo
realmente e fundamentalmente, seja isto falado ou escrito, se ele tem
159
o martelo que pode golpear meu sino.
Esse modo de funcionar do conhecimento representa um exemplo do que
Lacan chamou conhecimento paranóico, por apresentar uma equivalência com o
mecanismo de fixação imaginária especular na eleição de seus objetos e, no mesmo
golpe, também se assimilar à crença delirante na paranóia. Se retomarmos o
esquema ótico (figura 3, capítulo 1), conforme proposto por Lacan, autorizamos-nos
a situar Deus no lugar do grande Outro na alquimia, considerando sua definição, a
do grande Outro (A), no modelo gráfico, como o lugar que corresponde ao espaço
real, no qual se superpõem as imagens virtuais, segundo ele, a “mola superior da
subjetivação”160 na função da fala.
Lacan, no texto Observações sobre o relatório de Daniel Lagache, ao
comentar a manobra no Outro que o neurótico efetua diante das marcas que tiveram
o poder de transformar o grito em apelo, situa as inscrições simbólicas no esquema
ótico (figura 3, capítulo 1) da seguinte maneira:
Não é à toa que essas realidades são chamadas de insígnias. O
termo aqui é nominativo. É a constelação dessas insígnias que
constitui para o sujeito o Ideal do Eu.
Nosso modelo mostra que é ao se situar nela como I que ele fita o
espelho A, para obter, entre outros efeitos, uma dada miragem do Eu
Ideal.
161
O Ideal do Eu é uma formação que surge nesse lugar simbólico preso às
coordenadas inconscientes do Eu, e, quando é colocado por um certo número de
sujeitos numa função de denominador comum, como é o caso do Deus alquímico,
159
BOEHME (1987, p. 1-20). Tradução do original para o inglês por Willian Law. Neste trabalho,
tradução livre do inglês.
160
LACAN ([1958] 1998, p. 684).
161
LACAN ([1958] 1998, p. 686).
76
em sua função de insígnia, é capaz de precipitar as identificações com o Eu Ideal,
onde o sujeito se hipostasia, conforme esquema ótico (figura 3, capítulo 1). Segundo
Lacan162, a antinomia das imagens i(a) e i’(a), por se situar para o sujeito no
imaginário, resolve-se num transitivismo constante, demarcado, contudo, pelo Ideal,
ponto que inferimos se assentarem as relações de conhecimento.
Jean-Claude Milner, ao acompanhar Koyré em sua digressão sobre a
constituição do saber no mundo antigo, situa a possibilidade do conhecimento no
homem a partir do que nele aparenta com o eterno e o necessário: a alma. É a
matemática herdada dos gregos que vai ser o paradigma eleito: através dela, os
antigos definem as Idéias pelos Números como objetos que se deixam matematizar,
supostos seres eternos por sua permanência em uma via de acesso ao Mesmo. O
conhecimento propõe um modelo onde o seu objeto estabelecido na necessidade
co-natural, despojado de substância sensível, se parece ao máximo com o objeto
supremo: Deus. É o número que vai dar acesso ao Ser supremo que está acima e
além de toda matemática, e o sábio o reconhecerá como uma marca necessária e
interna ao discurso. O que Milner ilustra, ao recuperar uma referência de Platão
sobre Timeu em uma aproximação do pensamento com o curso dos corpos celestes:
Se Deus inventou para nós a vista e nô-la deu, foi a fim de que,
observando as revoluções da inteligência no céu, nós a utilizássemos
para organizar os circuitos do pensamento em nós, com as quais são
aparentados, mas estes estando perturbados, aquelas não
perturbadas; graças a esse estudo, e partindo assim dos processos
naturais de pensamento em sua retidão, podemos imitar os
movimentos divinos que estão absolutamente isentos de erro para pôr
em ordem os movimentos aberrantes que existem em nós. (Timeu,
163
47b).
A realização dessa semelhança pela via de uma alma depurada vai unir o
homem e seu corpo ao Ser supremo e incorpóreo. O envolvimento do macrocosmo
162
163
LACAN ([1958] 1998, p. 683).
MILNER (1996, p. 42).
77
com o microcosmo dá-se pela busca da semelhança, onde o número considerado
em sua figura e forma é o operador desse elo164. Assim, retomamos o ponto onde
consideramos Deus no lugar de A, na alquimia, como aquele Ser perfeito que
encarna, para o alquimista, a função de Ideal. Um Deus presente através de uma
conexão analógica com os objetos, que funciona como espelho que funda uma
relação de co-naturalidade.
Ao propormos fazer equivaler o Ideal de Eu como inscrito pelas
referências divinas, nessa forma de conhecimento, ou seja, a alquimia,
consideramos a concepção de cosmos adotada na época, onde Deus presentificavase na linguagem ao falar através das coisas do mundo, de modo a ocupar a função
de um denominador comum, que, através de insígnias, faz-se capaz de precipitar a
identificação com o Eu ideal, onde não faltam significações imaginárias que levam a
outras em uma repetição acumulativa.
Antônio Teixeira vai desdobrar esta conexão virtual na trama das
semelhanças operada pela relação com os objetos formatada pelo eu, da seguinte
maneira:
Há uma ausência de regulação inerente ao modo como se estrutura a
função imaginária do conhecimento, que de certa maneira
corresponde ao descontrole que identificamos nas relações
intersubjetivas calcadas na dimensão especular. Falta, por assim
dizer, um limite que possa escandir a expansão do conhecimento cuja
riqueza mascara, [...] o caráter absolutamente pobre desse saber. O
conhecimento é pletório porque ilimitado, porque desprovido de um
princípio de delimitação (Foucalut, s/d). Tal como ocorre no caso do
delírio paranóide, ao qual jamais faltará um signo que possa ser
interpretado de acordo com a convicção que se encontra na base do
sistema delirante, não faltará tampouco, ao conhecimento, elementos
165
que possam ser acoplados na trama semântica da semelhança.
Sob este olhar, a relação de co-naturalidade entre o sujeito e o objeto na
alquimia, vai se estabelecer na similitude especular, onde a verdade é pensada
164
165
MILNER (1996, p. 42).
TEIXEIRA (2004, p. 186).
78
através de uma mediação analógica entre a representação mental da coisa i’(a) e a
coisa a ser representada i(a) na constância do transitivismo. O conhecimento atesta
o crescimento desenfreado da dimensão imaginária, onde há uma acumulação
infinita das semelhanças que sempre evocam outras, em uma trama repetitiva, cuja
relação entre os elementos só se dá por adição dentro de um universo finito e
limitado pela relação do macrocosmo com o microcosmo.166 A figura 4 é uma
representação dessa forma de composição do saber, conforme interpretada pelos
alquimistas.
FIGURA 4 – Modelo de cosmo de Hiparco167
166
TEIXEIRA (2004, p. 186).
CAMENIETZKI (2000, p. 32). Modelo de cosmo de Hiparco. Imagem reproduzida de Johannes
GlogoWezyk. Introductorium Compendiosum in Tractatum Sphere Materialis, Cracow, 1506.
167
79
A idéia de um universo limitado foi sistematizada por Cláudio Ptolomeu,
matemático egípcio que viveu na segunda metade da era cristã, e que, através da
observação dos movimentos dos corpos celestes, das variações de brilho e tamanho
dos planetas propôs o modelo onde a Terra ocupava o centro de um mundo fechado
por esferas sólidas carregando planetas e estrelas, ou seja, o modelo geocêntrico,
conforme figura 5.
FIGURA 5 – Modelo geocêntrico de Ptolomeu168
Ptolomeu afirmou que as mesmas esferas carregavam os astros, mas que
seus movimentos não eram centrados na Terra: os planetas continuavam presos a
esferas (epiciclos) que giravam em torno de círculos cujos centros, por sua vez,
168
CAMENIETZKI (2000, p. 35).
80
giravam ao redor de outro círculo (deferente) na circunferência da terra, mantendo
como limite a visão de uma forma perfeita.169
A idéia de um mundo infinito surge com o cardeal alemão do
renascimento, Nicolau de Cusa, em seu livro Sobre a sábia ignorância, onde vai
contestar a existência das esferas que carregariam as estrelas e os planetas e ainda
propor um universo sem limite, “immensum” em suas palavras. O seu primeiro
argumento é que Deus não criaria uma coisa finita, pois isto significaria que Sua
obra seria limitada. O segundo argumento fez-se através da idéia que coloca em
questão a existência de um limite, pois este aponta uma fronteira, e não teria sentido
pensar um limite entre uma coisa e nada. Assim, para ele, o universo não tem limite,
é um espaço aberto onde os astros se encontram espalhados, sem posição fixa,
apresentando um movimento que não se pode perceber.170
A concepção de um universo ilimitado foi corroborada por Giordano Bruno
em seu livro Sobre o universo infinito e os mundos, mas ele acabou sendo
sacrificado como herege, considerado pela Igreja Católica como defensor de idéias
proibidas e controversas no campo religioso. Essas reflexões foram ponto de partida
para um conjunto de idéias que viria a ter grande impacto sobre o conhecimento,
provendo, ao longo do tempo, uma ruptura com a dimensão imaginária através da
qual o homem antigo atribuía significações a si mesmo e a concepção de cosmo que
englobava o mundo ao qual pertencia.
169
CAMENIETZKI (2000, p. 21-40). Esse modelo foi influenciado pelas idéias de Aristóteles,
conforme esclarece Camenietzki: “Para Aristóteles, e para muitos outros filósofos, a principal
características do céu era a perfeição, algo que não se transforma, que não se altera. O que é
perfeito não pode ter começo, não pode ser inconstante, sempre é igual a si mesmo. Nada mais
condizente com a perfeição que o círculo e a esfera – eles não tem começo nem fim, em todas as
partes são idênticos. Assim, os céus são esféricos e seu movimento será circular, porque a qualidade
de ser perfeito o exige”.
170
CAMENIETZKI (2000, p. 42-44).
81
2.2 A CIÊNCIA MODERNA E SEU DEUS VERAZ
A revolução científica tem como pedra inaugural a obra de Nicolau
Copérnico As revoluções dos orbes celestes, onde o autor defende a tese do
heliocentrismo através de cálculos matemáticos dos movimentos dos corpos
celestes: no modelo proposto por ele, o centro do sistema é o sol, a Terra gira ao
redor dele e, por sua vez, a lua gira ao redor da Terra, sendo as estrelas sem
movimento presas à última esfera, conforme figura 6. Porém, essa visão conserva
ainda a concepção de um cosmo fechado, tendo como limite a esfera das estrelas
fixas, o que só mudará progressivamente, com a idéia de um universo infinito sendo
incorporada à ciência moderna.171
FIGURA 6- Nicolaus Copernicus - Revolutionibus Orbium Coelestium.172
171
CAMENIETZKI (2000, p. 46-50)
CAMENIETZKI (2000, p. 65). Figura reproduzida de Nicolaus Copernicus, De Revolutionibus
Orbium Coeletium. Libri VI. Nuremberg, 1543.
172
82
O alemão Johannes Kepler (1571-1630), através de cálculos a partir da
circunferência dos ciclos e epiciclos, propõe a forma elíptica para a órbita dos
planetas, contestando as linhas circulares. Tese que demorou a ser valorizada, pois
os astros eram considerados corpos perfeitos e só poderiam andar em círculos, ou
seja, em uma linha perfeita. Este pensador valoriza a matemática como linguagem
da natureza, deslocando a idéia de perfeição circular para a perfeição numérica.173
Galileu Galilei (1564-1642) resolveu adaptar a luneta para seus estudos
astronômicos e, ao apontar o instrumento para o céu, fez várias descobertas e
demonstrou o sistema heliocêntrico copernicano, apresentando as luas do planeta
Júpter como um modelo em miniatura do sistema solar.174
Galileu é considerado como ponto de chegada de um processo de
transformação que se iniciara havia dois séculos com o Renascimento,
sistematizando e elaborando contribuições de diferentes pensadores, o que
proporcionou grande influência para o desenvolvimento da física e da ciência
moderna. Com ele, através da experimentação, ocorreu uma escansão com a
dimensão imaginária na constituição do conhecimento.
Vale ressaltar a diferença nas concepções desenvolvidas por Kepler e
Galileu: o primeiro, apesar de ter proposto a órbita elíptica para os planetas, toma a
matemática como representante da perfeição formal, deslocando-a do círculo; já o
segundo vai estender a matemática à linguagem da natureza dentro da concepção
da nova física que trata o espaço como abstrato e o movimento como dois pontos
também no espaço, fato que pode ser expresso a partir de uma equação.175 Ambas
173
CAMENIETZKI (2000, p. 65-66).
CAMENIETZKI (2000, p. 46-50).
175
ROUDINESCO (1994, p. 103-104). Roudinesco esclarece que os estudos de Koyrée sobre o
galileísmo apontam que no movimento de renovação científica que levou à destruição do cosmos
medieval, era a princípio inspirado em uma oposição entre o platonismo e o aristotelismo, a propósito
do papel desempenhado pelas matemáticas. No platonismo, as matemáticas comandavam o
174
83
são maneiras distintas de propor a matematização dos fenômenos naturais, portanto
a primeira ainda apresenta uma certa dependência com a dimensão imaginária do
conhecimento no que concerne à perfeição formal da matemática.
Francis Bacon, defendeu, entre outros pontos, um modelo de ciência
integrado com a técnica. Destacamos uma das suas principais obras, o Novum
Organum (1620), onde critica a concepção de ciência derivada do Órganom
aristotélico, e propõe que todos os métodos usados para tratar os fenômenos
naturais devem ser investigados até a exaustão, sistematizados e claros. A utilização
das causas aristotélicas não estava em desacordo com este objetivo, mas a ordem
em que eram utilizadas deveria ser totalmente modificada, assim como deveria ser
abolida toda significação imaginária da investigação. As “Formas” aristotélicas
alcançam outro sentido para Bacon e, ao contrário de se portarem como qualidades
embebidas no substrato material, agem como processos, leis fixas, pelas quais a
natureza se estrutura, conforme suas palavras retomadas por Goldfarb:
Na natureza nada existe além de corpos individuais, realizando atos
individuais puros de acordo com leis fixas. Assim também em filosofia
esta mesma lei, e a investigação, a descoberta, a explicação dela, é a
176
base tanto para o conhecimento quanto para a operação.
É a partir das máximas acima que Robert Boyle, vai estabelecer seus
estudos sobre a mecânica dos gases, e apresentar suas contribuições para os
avanços da química moderna. Retomaremos suas elaborações mais à frente, neste
capítulo.
universo, já no aristotelismo (escolástica) era a física, ciência do real, que ocupava este lugar
superior, independentes das matemáticas ocupadas com objetos abstratos.
176
GOLFARB (1987, p. 205). Golfarb esclarece que a “causa final em que se baseava todo o sistema
da teoria vitalista, para Bacon, ela 'antes corrompe que avança as ciências, exceto em caso relaciona
a ação humana'. As causas 'eficiente' e 'material' eram um tratamento superficial dos fenômenos e,
em todo o caso, eram tão específicas e instáveis, que lhes faltava força suficiente para tingir 'os
limites mais profundos das coisas'. Seria, portanto, a causa 'formal', que deveria prevalecer sobre as
outras, pois ela englobaria a 'unidade da natureza em substâncias as mais distintas', sendo, portanto,
da descoberta a causa formal, ou das 'Formas' de onde resultaria verdade na especulação e
liberdade de operação”.
84
A revolução científica moderna resulta da combinação de vários fatores
ao longo dos séculos XV a XVII, sendo que, nesse período, os pensadores em
alguns aspectos rompem com o conhecimento antigo (estagnado na dimensão
imaginária) e em outros recorrem às teorias clássicas, estabelecendo nesse
movimento pendular o percurso da transição para a ciência moderna. É somente no
século XVIII, com Isaac Newton (1643-1727), que se tem uma ciência físicomatemática plenamente elaborada, ao considerar, em suas formulações, a anulação
de qualquer referência ao imaginário.
Suas descobertas acumularam tal importância que receberam a
expressão de “revolução newtoniana”.177 Ele concebeu vários princípios físicomatemáticos, mas destacamos a formulação das três leis do movimento que levou à
lei da gravitação universal – onde a gravidade (g) é dada pelo produto da massa (m)
do corpo pela aceleração (a), g = m.a - equação que universaliza uma lei que
funciona no real de maneira independente da posição teórica ou física do
observador. Assim, Newton influiu, decisivamente, no pensamento filosófico do
século XVIII, ao formular o princípio de gravitação universal, eliminando a
necessidade da garantia divina para o estabelecimento da verdade nesta
construção.
No Seminário 2, no texto Introdução do Grande Outro178, Lacan propõe a
questão: “por que os planetas não falam?” e responde que os planetas não falam
porque a ciência operada por Galileu e Descartes e, posteriormente, por Newton, fez
calar as estrelas e os planetas transformando-os em astros mudos.
Nesse texto, Lacan vai se referir à cosmologia baseada na física
aristotélica. Aquela que opera, em um universo fechado, no mundo bem ordenado,
177
178
ENCICLOPAEDIA Britannica do Brasil Publicações Ltda. (2006.)
LACAN ([1955] 1985, p. 297-311).
85
onde as coisas ocupariam um lugar que corresponde à sua natureza, e onde a
compensação da sua desordem dá-se através do movimento sublunar que copia o
movimento eterno e circular do mundo supralunar. Trata-se de uma cosmologia que
classifica os elementos por seu valor de perfeição, onde na esfera supralunar
encontram-se os astros perfeitos e na sublunar a Terra desenvolve um processo
opaco e corrupto. O que Lacan aponta, nesse movimento, é uma atualização do
Ser179, com o qual o sujeito se dissolve nessa homogeneidade. Para ele, não se
confunde sujeito e eu, e, nessa visão cosmológica, trata-se de um mundo sem
alteridade onde o eu (a) funda a realidade.
A ciência substitui o cosmos qualitativo e fechado do conhecimento antigo
por um universo infinito, ao promover uma mudança que passa de uma atitude
natural a matematização do real.180 A ruptura moderna vai desligar a matemática do
eterno, onde os pares se combinavam em reagrupamentos considerados
impossíveis hoje, deslocando-a da demonstração para o cálculo. Milner situa a
matematização fazendo referência ao número como literal, onde ele funciona como
letra e como peça fundamental para o cálculo que já não tem mais nada a ver com a
boa forma aristotélica.181 Assim, a ciência promove a delimitação do real pelo
simbólico182, através de suas fórmulas que fizeram calar as estrelas, transformandoas em astros por sua subscrição à linguagem matemática. 183
179
FREIRE (1997, p. 2).
LACAN ([1955] 1985, p. 300). Lacan define o real nesse texto, a partir do movimento das estrelas,
como aquele que retorna sempre no mesmo lugar.
181
MILNER (1996, p. 44).
182
FREIRE (1997, p. 46). Ana Beatriz analisa Newton nos seguintes termos: “Newton não precisou
fingir, postular ficções à maneira de Descartes, para respondê-las, pois a fórmula, afirma Lacan, ‘está
no real’. A fórmula está no real quer dizer que mesmo se as letras, a rede de significantes, não
querem dizer nada a ninguém sobre a natureza, elas a regem assim mesmo segundo as leis
elaboradas por Deus. .... Ainda que Newton não possa explicar a ação a distância (pois a suposição
de uma força para atraí-las não é sequer uma hipótese fundada sobre qualidades ocultas, ela é
simplesmente um absurdo), ele não coloca em dúvida a experiência da gravitação, pois ele crê que
sua verdadeira causa á a ação do espírito de Deus. Foi ele quem garantiu uma rede de articulação
significante (o campo) pudesse funcionar no real de maneira independente de nosso conhecimento”.
180
86
Miller vincula o destino da ciência à formalização, que não é medição184,
onde o número funciona como figura enigmática do significante no real. Ele atribui a
possibilidade da construção da equação newtoniana à renúncia da significação
imaginária que, na episteme antiga, vinha dar sentido aos céus, conforme suas
palavras:
A ciência supõe a disjunção do simbólico e do imaginário, do significante e da
imagem. Lacan comentou com freqüência os trabalhos do importante
epistemólogo francês Alexander Koyré sobre Galileu, sobre Kepler, sobre
Newton. Depois dessas referências, em um aparte, o professor Cadenas me
dizia que a ciência é algo que dá lugar, por exemplo a equação da gravidade.
É esse também o exemplo com o qual Lacan se conforma. Mas a emergência
das equações decisivas da teoria da gravidade exigiu – é o que assinala
Lacan, baseando-se nos estudos de Koyré - , exigiu que desaparecessem
185
todos os valores imaginários atribuídos aos movimentos dos astros.
A ciência então, supõe uma desconexão do significante e da significação
imaginária. Esses elementos ou par de palavras, em um sistema combinatório,
promovem signos que instauram, no conhecimento antigo, a relação de
complementaridade entre sujeito e objeto, promovendo, segundo Miller, as “bodas
imaginárias”
do
princípio
macho-fêmea.
Com
a
operação
do
significante
desconectado da imagem, em uma autonomia do simbólico, a ciência recusa a
complementaridade sujeito-objeto, e assim dessexualiza a abordagem do mundo.186
Com o advento da ciência moderna, após Newton, não interessa mais
como um signo designa o que ele significa, mas como está ligado ao que significa,
ou seja, o mecanismo desta ligação. Isto porque o homem deixa de ser o centro do
A noção de campo é feita para assinalar, não a presença da relação [dos elementos em uma
estrutura como no estruturalismo], mas a presença efetiva da fórmula no real.
183
FREIRE (1997, p. 227). Ana Beatriz Freire esclarece que “as fórmulas da ciência se reúnem no
real,uma vez que elas regem o mundo por leis próprias, isto é, por letras que se encadeiam ( umas
em relação às outras), formando um campo independente de toda significação e do sujeito que os
anuncia”.
184
MILNER (1996, p. 43-62). Milner situa que, na ciência moderna, os números não funcionam mais
como Números, chaves de ouro da mesma, mas como letras. A literalização não leva o objeto ao céu
das idéias por não ser idealização. Ele situa o estruturalismo como uma ciência que opera com o fato
da linguagem, e que fornece fórmulas que permitem a Lacan definir o sujeito como efeito das
relações diferenciais significantes, destituindo-o de qualidades ou de qualquer significação.
185
MILLER (2002, p. 45).
186
MILLER (2002, p. 41-44).
87
saber, aquele que usufrui, para tornar-se àquele que deve descobrir. Conhecer
passa a ser interpretar, olhar para o símbolo como se fosse palavra muda e passar à
compreensão do que se diz sobre ele, e não do que ele possa dizer sobre si próprio.
Por isso, o experimentar, que era um desvendar da cadeia fantástica de símbolos
oferecidos pela natureza, conforme ocorria no mundo antigo, passa a ser – sob as
novas condições do pensamento científico –, uma imposição a essa cadeia da
natureza, rompendo-a e cifrando-a em letras, em um campo simbólico que abole o
sentido oriundo da significação imaginária.
Miller187 retoma Lacan para afirmar que o discurso da ciência calou o
mundo através da formalização do pensamento, onde as estrelas e as coisas
deixaram de apresentar sua prosa aos olhos do homem, e passaram a ser apenas
astros ou nomes. Para ele, a ciência supõe significantes que não dizem nada, ou
seja, significantes sem significação:
Podemos encontrar no mundo significantes que se organizam, significantes
que respondem a leis, mas estes significantes não estão relacionados com
um sujeito que se expressaria por seu intermédio. Essa é uma idéia muito
moderna e científica: o significante sem intenção. A matematização da física
188
responde a isso.
Assim, após Newton os planetas não falam mais189, pelo fato da física
moderna reduzir a realidade ao campo do significante190, onde a linguagem se
desconecta da fala e assim os significantes funcionam independentes do sujeito,
segundo leis autônomas, também independentes da consciência de sua expressão.
A revolução epistemológica alcança a transição entre a alquimia e a
química com o inglês Robert Boyle (1627-1691), que estudou o comportamento dos
gases e formulou a lei de Boyle-Mariotte, na qual ele estabelece a proporção entre a
pressão e o volume dos gases como uma constante, e universaliza esta reação na
187
MILLER (2002, p. 46).
MILLER (2002, p. 46).
189
LACAN ([1954-55] 1985, p. 296).
190
TEIXEIRA (2004, p. 186).
188
88
seguinte equação matemática: P.V = K (T cte), onde o produto da pressão (P) de um
gás pelo seu volume (V) é uma constante (K), na condição de temperatura (T)
constante.191
Boyle foi também um crítico das idéias de sua época e escreveu um livro
muito importante: The septical chemist (O químico cético), no qual censurou
qualquer tipo de mistificação – apontada por ele como obstáculo para o
conhecimento científico – bem como as concepções errôneas de elemento químico
que vigoravam naquela época. Embora ele mesmo não fosse capaz de propor um
conceito adequado para elemento, fez clara distinção entre misturas e compostos.
Sugeriu que a matéria é constituída por corpúsculos (que hoje chamamos átomos)
de diferentes tipos e tamanhos. Afirmou que uma substância pode ter propriedades
diferentes daquelas dos seus constituintes, e que os mesmos elementos podem
formar compostos diferentes. Além disso, valorizou o papel da experimentação.192
Essas idéias boyleanas causaram grandes impactos: seria somente com
a ruptura introduzida pelos mecanicistas, com o universo transformado em uma
grande máquina inanimada e explicável, que a visão mágico-vitalista perderia seu
poder explicativo. Uma imagem quantificável e manejável da natureza, que
requereria um observador desapaixonado e externo aos processos estudados, será
responsável por tornar o laboratório do químico completamente distinto daquele
onde trabalhava o alquimista. Nele, Deus não está mais presente através da
signatura rerum, e as coisas não representavam mais a relação do microcosmo com
o macrocosmo.
Na química moderna, perdem a força que tinham em outras épocas as
interpretações analógicas que levavam a uma relação animística e mágica com a
191
192
GOLDFARB (1987, p. 173-223).
GOLDFARB (1987, p. 173-223).
89
natureza. Estas desapareceram para dar lugar a uma descrição analítica e
específica do fenômeno em si, interpretado como peça de um gigantesco
mecanismo. A ciência passa a ser nitidamente separada em sujeito e objeto: o
cientista não parte de uma observação retirada da natureza, mas constrói seu
objeto, o que se torna distinto do procedimento na alquimia onde este (o objeto) era
parte integrante do experimento em uma relação de co-naturalidade com o sujeito do
cognoscente.
Já no que toca à questão da verdade, diferentemente da alquimia, para
Boyle e para os filósofos naturais de sua época, será uma verdade construída e não
dada, um verdadeiro jogo de quebra-cabeça, onde as peças são colocadas como
provas dos fenômenos naturais, e o produto final a equação das leis da natureza.193
Nesse campo, Deus garante que tais leis sejam certas, apenas por oferecer ao
homem a dádiva do pensamento, para que, através dela, possa descobrir os
caminhos seguidos por Ele.
Se anteriormente, propusemos, conforme o esquema ótico (figura 3,
capítulo 1), Deus ocupando o lugar do grande Outro na alquimia, onde O
situaríamos na ciência moderna?
Partiremos do ceticismo retomado no renascimento como parte do
movimento que propunha a releitura dos clássicos. Os céticos se destacavam na
antiguidade pelos questionamentos, a partir do princípio da dúvida, aos dogmas e
também por apontarem a inexistência de um critério decisivo diante de disputa de
teorias rivais. Eles interrogavam, ainda, a possibilidade do conhecimento e os limites
humanos do ponto de vista cognitivo.
193
GOLDFARB (1987, p. 246).
90
Michel de Montaigne (1533-92), filósofo importante quanto à retomada do
ceticismo e também devido à sua influência em Descartes, pregava uma tolerância
religiosa no momento em que a França se encontrava dividida entre católicos e
protestantes em guerra, eliminando os argumentos racionais para defesa da religião
através da interrogação de todas as afirmações pela dúvida cética194. A fé então,
segundo sua interpretação, não necessitava de argumentos a seu favor e nem de
defesa racional, por ser uma experiência particular do indivíduo, sendo este
considerado um dos pontos de partida do subjetivismo e do individualismo. Segundo
A. Teixeira, o ceticismo expõe a verdade do conhecimento, ao mostrar a ausência de
sua fundamentação, e a dúvida explícita em sua manifestação a constatação final de
que tudo é erro.195
René Descartes (1596-1650) vai dedicar sua obra à questão da
possibilidade do conhecimento e da fundação da ciência dentro das novas teorias. O
Argumento do Cogito tem como objetivo principal estabelecer os fundamentos do
conhecimento e as possibilidades do saber científico, através da refutação do
ceticismo196 , sendo este o recorte de sua obra que nos interessa neste texto.197
Apesar de não ser cético, Descartes vai levar o ceticismo às últimas
conseqüências, a fim de refutá-lo. O primeiro momento do argumento cartesiano é a
formulação da dúvida metódica, onde ele coloca em questão todo o conhecimento
adquirido, a ciência, crenças e opiniões. Toda proposição que comporte uma dúvida
194
MARCONDES (2004, p. 156).
TEIXEIRA (2004, p. 187).
196
TEIXEIRA (2004, p. 187). O ceticismo coloca a dúvida como ponto de partida para averiguação de
todo princípio científico. Sendo assim, só uma certeza imune a questionamentos fundará o
conhecimento, ficando o restante no campo do erro. Antônio Teixeira retoma Hegel ao argumentar
que o ceticismo, afirmando que “tudo é nada”, esquece que o “nada” é fundado pelo isso, que ele não
é “puro vazio”, mas o positivo “do isso” que ele nega, sobremaneira, o “nada de nada” é diferente do
“nada disso”. Assim, Descartes vai fundar a própria dúvida na positividade de sua certeza.
197
MARCONDES (2004, p. 159-175). As referências ao argumento do cogito cartesiano foram todas
baseadas na parte III desse livro.
195
91
deve ser rejeitada e todo conhecimento deve ser esvaziado até que possa ser
examinado.
No primeiro argumento, Descartes vai colocar em dúvida o equívoco dos
sentidos (fontes de conhecimento) em qualquer experiência de percepção. A dúvida
é lançada contra os conhecimentos adquiridos e também contra as faculdades
cognitivas (percepção como fonte de engano), através das quais são adquiridos
esses conhecimentos. Como resposta à própria indagação, ele dá o exemplo da
percepção de si mesmo em um determinado momento: “que eu estou aqui sentado
junto ao fogo, vestido com um roupão, tendo um papel nas mãos...” e questiona se
seria possível aceitar a evidencia dos sentidos nesse caso. Essa meditação conclui
com a dúvida mais radical.
No segundo argumento, Descartes introduz a cena anterior, de modo que
a dúvida é lançada sobre tudo o que se percebe diante do fogo: poder-se-ia tratar de
um sonho. A dúvida se radicaliza ao alcançar a diferença entre o sonho e a vigília,
ou seja, tudo o que se acredita ocorrer, pode estar acontecendo apenas em sonho,
sem nenhuma relação com a realidade externa. Mas ele prossegue ao delinear uma
resposta, e afirma que o que é ilusório é o tipo de percepção, e não aquilo que é
percebido: os objetos percebidos são representações de objetos reais com
características comuns no sonho e na percepção, e parecem existir objetivamente,
independente do estado vigil ou onírico.
A conseqüência imediata desses argumentos é a dedução que as
ciências que tratam do mundo natural como a física, a astronomia e a medicina
podem ser sujeitas ao questionamento cético; já as ciências abstratas, como a
aritmética e a geometria, escapam aos dois tipos de argumento: segundo Descartes,
quer eu durma e sonhe, quer eu esteja bastante acordado, 2+3=5 e o quadrado tem
92
4 lados. A questão que se coloca é se esta se trata de uma certeza imune à dúvida.
Essa meditação indica a dúvida como princípio metodológico, inferindo que só se
deve aceitar como verdadeiro aquilo que não esteja sujeito à menor dúvida,
portanto, o que se busca com a dúvida é a certeza.
No terceiro argumento, Descartes é mais radical e parte da hipótese de
um “Deus que tudo criou” poder ser enganador, ou seja, tudo, inclusive ele, poderia
ter sido criado por um “gênio maligno” que enganasse sobre a existência de todas as
coisas, inclusive da matemática. O argumento do Deus enganador é o ponto final do
método da dúvida, por se tratar de um elemento externo, todo-poderoso, que pode
até mesmo penetrar na interioridade e criar ilusões, fazer com que ele se enganasse
sobre tudo. Esse argumento abre o caminho para a primeira certeza, pois, para que
o Deus possa enganar sobre todas as coisas é preciso que o sujeito (eu) exista e,
por mais que Ele engane, jamais poderá fazer com que o sujeito seja nada enquanto
estiver pensando. Descartes chega, assim, a primeira certeza à verdade necessária
do cogito: a existência do pensamento, do ser pensante que não está sujeita a
dúvida. Donde conclui “penso logo existo”.
O argumento do cogito vai ter como conseqüência direta o solipsismo
cartesiano, ou seja, o isolamento da consciência em relação a tudo mais como única
certeza imune à dúvida cética. Como o objetivo de Descartes é fundamentar a
ciência, ele precisa encontrar uma conexão entre o pensamento subjetivo e a
realidade objetiva, pois, segundo sua concepção, só poderá haver ciência quando o
pensamento puder formular leis e princípios que expliquem como o real funciona.
Na terceira meditação, Descartes vai iniciar o trabalho de construir um
fundamento que possibilite a ciência. Ele parte da análise do próprio pensamento
para elaborar que a mente é composta de idéias, e estas são julgadas verdadeiras
93
ou falsas pelo juízo, e assim para haver conhecimento, é preciso que as idéias
sejam representações que correspondam a objetos. Uma idéia pode ser tanto o
próprio ato do pensamento como a representação (o conteúdo desse ato), e será
considerada válida na medida em que for clara e distinta, critério dado pela própria
estrutura interna do pensamento.
A partir da quarta meditação Descartes vai introduzir o princípio de
correspondência entre a idéia na mente e a coisa a ser correspondida no mundo
externo. No desenvolvimento da noção de representação surge uma discordância
entre a noção subjetiva de certeza (idéia clara e distinta) e a concepção de verdade
como conformidade do real. Para Marcondes198, essa tensão só será superada com
a prova da existência de Deus que funciona como garantia do conhecimento do
mundo.
O argumento cartesiano, na prova da existência de Deus, perpassa dois
movimentos, sendo o primeiro considerado cosmológico por recorrer à noção de
causa: parte da idéia de Deus como um ser perfeito na mente, idéia que só pode ter
como causa o Ser perfeito, já que ele (Descartes), não sendo perfeito, não poderia
chegar por si mesmo à idéia de perfeição, tratando-se, assim, de uma idéia inata
colocada na mente por Deus, ou seja, Aquele que é a causa da perfeição. Assim
este movimento levará à argumentação de que Deus é criador do mundo externo,
tendo poder causal de idéias inatas, claras e distintas, podendo ser definido como
Ser perfeito e tendo, assim, reconhecida sua existência (argumento, então,
considerado ontológico).
O deslocamento da posição solipsista está diretamente ligado à noção da
existência do verdadeiro Deus cartesiano, conforme ilustra Marcondes:
198
MARCONDES (2004, p. 171).
94
Contudo, ao passar da idéia de Deus, pelo argumento ontológico, para
afirmação da existência de Deus – que não é mais então uma mera idéia,
existindo independente do cogito - , Descartes consegue finalmente romper
com o solipsismo e construir uma ponte para fora de si mesmo, podendo
agora afirmar, com toda certeza, a existência de algo além do cogito. O
argumento cosmológico, por sua vez, terá como conseqüência a
possibilidade de afirmar que Deus é o criador do mundo externo, servindo
então de garantia à existência do mundo e à possibilidade do homem
199
conhecer o mundo.
O ceticismo, uma das peças do mosaico que compõem a passagem do
saber antigo para a ciência moderna, conforme esclarece A. Teixeira, estabelece
uma regulação na hipertrofia imaginária expansiva do conhecimento, ao revelar,
através da dúvida, a ausência de fundamentação deste, pois o questionamento
cético se manifesta na certeza de que tudo é erro.200 Descartes ultrapassa a posição
cética ao fundar, na negatividade da dúvida, a positividade de sua certeza; ele se
torna sujeito da dúvida para além de sofrer os seus efeitos, e assim extrai dela a
verdade a partir da qual pode refutar todo conhecimento incerto.201
Para A. Teixeira, o resultado do procedimento metódico da primeira
meditação cartesiana é a abolição, tomando por base a dúvida, da dimensão
imaginária do conhecimento, um rompimento com a relação de conaturalidade entre
o sujeito e objeto que tem seu fundamento na correlação analógica das significações
imaginárias, oriundas do transitivismo especular.202
Milner203 ressalta o cartesianismo radical de Lacan, na distinção que este
propõe entre o sujeito e o eu, ao afirmar, no que tange a essa diferença, que o
primeiro nada mais é do que o sujeito estruturado pelo discurso da ciência moderna.
No ato da dúvida, Descartes convoca um sujeito destituído de suas qualidades
199
MARCONDES (2004, p. 171).
TEIXEIRA (2004, p. 187). Antônio esclarece a posição cética nos seguintes termos: “Ao afirmar
que tudo é nada, que a verdade não é nada disso, o céptico que vê nesse resultado um puro nada
termina por esquecer, como adverte Hegel, que esse nada tem um conteúdo: esse nada é
determinantemente o nada daquilo que ele resulta (HEGEL, 1992, p. 67). O ‘nada disso’ não é um
puro vazio, como quer o cepticismo; ele guarda dialeticamente, a positividade do ‘isso’ que ele nega”.
201
TEIXEIRA (2004, p. 187-188).
202
TEIXEIRA (2004, p. 190).
203
MILNER (1996, p. 32-34).
200
95
intrínsecas, que não tem nem Si, nem reflexividade, nem consciência, um sujeito
vazio, purificado de significação, sendo este – “nomeado sujeito por Lacan e não
Descartes”204 – aquele que responde a ciência moderna, e também ao sujeito
psicanalítico como puro efeito significante. Assim, o sujeito da psicanálise,
estruturado internamente pelo discurso da ciência moderna, contrapõe-se ao sujeito
do conhecimento que encontra seu limite no momento em que estabelece uma
equivalência entre ele e a imagem especular, miragem original do eu, que encarna a
conaturalidade na apreensão da realidade.205
Retomando o nascimento da física-matemática, com a equação da
gravidade proposta por Newton, cuja emergência exigiu que fossem abolidos todos
os valores imaginários atribuídos aos astros, situamos, nesse gesto, o fato de o
mundo ter sido silenciado, ou seja, os elementos da natureza que comunicavam
entre si emudeceram, e os “planetas não falam mais”206, como no conhecimento
antigo. Isto se deve ao fato de que o discurso da ciência, aquele possibilitado por
Newton e também por Descartes, opera com o significante em sua propriedade
distintiva, ou com o significante sem intenção207, aquele que não quer dizer nada na
natureza, mas que, ao mesmo tempo, está presente de acordo com as leis, em uma
rede articulada que funciona independente do conhecimento que tenhamos dele, é
isto que possibilita as fórmulas, ou mesmo a formalização.
Na ciência, já escandida do conhecimento, ocorre uma disjunção entre o
simbólico e o imaginário, ou entre o significante e a imagem, conforme ilustramos
acima. Esta separação vai considerar, na experiência natural, traços de uma criação
lógica, e praticamente impossibilitar a existência de objetos naturalmente dados
204
MILNER (1996, p. 33).
SANTIAGO (2001, p. 143-44).
206
LACAN ([1954-55] 1985, p. 296).
207
MILLER (2002, p. 46).
205
96
como o era na episteme antiga. A ciência, vai se ocupar, conforme a diretriz
cartesiana, com o que concebe ao modo de uma idéia clara e distinta, construindo
seus objetos artificialmente.
Se no discurso pré-científico o mundo falava através de signos, o que nos
possibilitou situar o Deus da alquimia no lugar do grande Outro no esquema ótico,
como situaríamos o Deus da ciência moderna, ou o Deus cartesiano garantidor da
verdade?
A ciência, conforme promovida por Descartes, ocupa uma posição que
ultrapassa a dualidade na similitude especular, e vai encontrar, no seio de sua
fundação, um fator de regulação externa, ou seja, o grande Outro da ciência, o Deus
cartesiano. Este surge na forma causal de uma idéia inata, clara e distinta, e
assegura a verdade das formas e fórmulas, que, no cogito, fundam o saber objetivo
e diacrônico da ciência moderna.
O Deus garantidor encontra-se em uma posição de exceção no campo
das leis científicas, pois não há nada que possa garantir a sua veracidade, e, assim,
a Sua vontade não está submetida às leis que Ele mesmo funda. O sujeito do cogito
cartesiano encontra-se escandido em dois pólos da verdade filosófica: em um ponto
é livre sem o apoio exterior a si mesmo (certeza da existência), em outro ele é
forçado à experiência de uma verdade jamais limitada por uma autoridade
preexistente qualquer (arbítrio divino), equivocidade onde a ciência moderna
encontra seu fundamento, indeterminado pela ausência da verdade no próprio
princípio: falta que funda a pesquisa, ou a fonte do ato de pesquisar.208
No conhecimento antigo, no caso da alquimia, o que encontramos foi um
Deus falante, presentificado no mundo através da linguagem das coisas, atribuição
208
TEIXEIRA (2004, p. 190).
97
imaginária oriunda da concepção de um cosmos que se formulava na estagnação da
analogia entre o macro e o micro. Instaurado em uma relação simétrica que
impossibilitava uma função de regulação, Deus não era garantidor da verdade, e
assim, o processo de conhecer constituía-se por um acúmulo de significações sem
delimitações.
Na ciência moderna, encontramos um Deus silencioso, uma garantia
muda, que escapa ao fundamento racional que ele possibilita, e, através desta
dissimetria, permite engendrar um movimento capaz de romper com a captura
especular do sujeito anteriormente estagnado no transitivismo do conhecimento. Um
Deus garantidor, portanto, ausente.
Enfim, encerramos este capítulo com as palavras de A. Teixeira, ao situar
o Deus dos filósofos, ou o Outro da ciência nos seguintes termos:
Se Ele se define, no dizer de Lacan, por não estar marcado pela distinção, é
na medida que sua função se coloca como princípio mesmo da
distintividade sobre a qual se apóia a autonomia conferida ao significante
pelo saber da ciência. O que confere, portanto, ao grande Outro, seu poder
de fundar o assentimento do sujeito à lei do significante, desprendendo-o
assim do desarvoro especular da imagem, “é que ele é reconhecido, mas
209
não conhecido” (LACAN, 1981, p.48).
209
TEIXEIRA (2004, p. 191).
98
3 UMA CRÔNICA QUIXOTESCA DA ATUALIDADE
O caso que relatamos foi apresentado em reunião clínica que ocorreu
numa Instituição de tratamento psiquiátrico.210 Trata-se de uma paranóia.
O relato foi escolhido para instrumentalizar este trabalho, por se tratar de
um sujeito capturado no registro do espelho, preso à imagem de si mesmo
indiferenciada do outro. Kimiya estrutura em uma série de escritos delirantes o
conhecimento advindo de sua relação com o mundo, ancorada pelo imaginário. Pela
própria estrutura da psicose paranóica, ela vai constituir seus objetos em um
congelamento da imagem real que formata o eu, sem mediação simbólica,
oferecendo ao leitor uma distorção do conhecimento humano instaurado na busca
pelo análogo, ou pela formação especular dos objetos. Essa é a forma de funcionar
própria do registro imaginário na paranóia, e também da estrutura universal do eu,
que podemos equivaler ao modo de constituição do conhecimento na era précientífica, sendo que, este último, representa bem o que Lacan denominou de
conhecimento paranóico, conforme pudemos verificar no capítulo anterior.
No entanto, Kimiya faz brotar a similitude, nos elementos produzidos pela
ciência, de forma específica pela química moderna, que, por excelência, abole o
recurso à analogia imaginária na construção de seus objetos.211 Esta senhora, em
uma alquimia própria, constituída nos arranjos delirantes, deflagra, através de uma
miragem, a imagem refletida que este sujeito encontra no mundo da representação
210
Sessão Clínica do Instituto Raul Soares – nº 086-03.3, realizada em 04/09/2003, aberta aos
profissionais inscritos no Núcleo de Pesquisa em Psicose – EBP-MG. Caso apresentado pela
psicóloga e psicanalista Anamáris Pinto e comentado pelos psiquiatras e psicanalistas Henri
Kaufmanner e Antônio M.R. Teixeira. A redação do caso, neste trabalho, foi feita a partir de notas
colhidas no ato da apresentação, de registros de conversas estabelecidas com a técnica de
referência, assim como de anotações de prontuário. Para proteção da paciente, foram modificados
todos os dados que possibilitariam sua identificação, sendo preservado todo o conteúdo clínico.
211
Conforme verificamos no capítulo 2, a ciência se difere do conhecimento por construir seus objetos
sem qualquer recurso ao imaginário, cifrando-os em letras, ou em fórmulas, que determinam leis
universais.
99
que ele mesmo tem das coisas e, conseqüentemente, de si. Operando assim,
propõe uma caricatura bem humorada, que nos faz rir diante de testemunhos, na
atualidade, da forma alienada e, por esse motivo, ilusória, do funcionar humano.
Kimiya tem 78 anos, aposentada por tempo de serviço, solteira e não se
casou por “não encontrar o homem certo”212. É natural de Ibitipoca (MG) e mudou-se
para Juiz de Fora (MG) para trabalhar como cabeleireira. Trouxe para esta cidade as
irmãs, as quais mantinha financeiramente e afirmava nunca mais ter visto os pais
que permaneceram trabalhando na sua cidade natal.
Desde o início de suas atividades, durante sua jornada de trabalho,
escrevia sobre os abusos que as clientes faziam por não respeitarem o seu horário
de almoço, mas que tolerava por pagarem bem, e por ter que sustentar as irmãs.
A família relatou que a primeira internação da paciente foi há trinta anos
atrás, quando estava com 47 anos, seguida de passagens por várias instituições,
sendo que, às vezes, aconteciam com permanência curta, às vezes longas,
chegando a ter internações com duração de 6 meses. Ao melhorar, retornava ao
domicílio e não dava continuidade ao tratamento, passando por períodos curtos de
estabilidade. Chegou a usar decanoato de haloperidol injetável213 pela resistência
que apresentava ao aceitar a medicação oral. A recusa ao tratamento era justificada
por ela da seguinte forma: “não sou doente”214. Ao ser interrogada sobre o motivo
das suas internações, respondia que elas se davam pela “tentativa das pessoas de
roubarem sua casa e seu dinheiro, e ainda de abusarem dela”.215
212
KIMIYA.
Trata-se de um neuroléptico de depósito, injetável, utilizado em casos de dificuldade de adesão á
medicação oral.
214
KIMIYA
215
KIMIYA
213
100
Um delírio persistiu durante os vários períodos de hospitalização, como
um ponto de certeza intocável: “era filha legítima de médicos”216, e não do casal que
a criou. Esta afirmação surgiu como uma revelação aos quatro, e depois aos dez
anos de idade. No primeiro momento, um amigo do pai faleceu e, no leito de morte,
teria dito que os pais de Kimiya eram médicos. Já no segundo momento, a revelação
lhe foi feita durante uma consulta, na qual o profissional disse-lhe que o pai já havia
sido avisado para devolvê-la à família verdadeira.
No relacionamento familiar, por muito tempo, sua mãe ocupou o lugar de
perseguidora, inclusive sofrendo uma tentativa de enforcamento investida por
Kimiya. Após a mudança para Juiz de Fora, fez a localização persecutória em sua
irmã, tentando algumas vezes matá-la por envenenamento. Fez referência ao pai
como uma boa pessoa, mas acrescentou que “ele não é legítimo”.217
Os delírios persistiram e tomaram consistência ao longo dos anos, sendo
que sempre existiam pessoas que a roubavam e a perseguiam. Os roubos, na
maioria das vezes, eram de suas posses, mas alegou também ter sido “roubada sua
identidade”.218 Ao fazer a segunda via de seus documentos, percebeu que eles
estavam alterados: neles seu “corpo estava diferente”, e, assim, reivindicou às
autoridades que “este erro fosse corrigido”. Como sua identidade estava “errada”, ela
não podia tomar remédio, dizendo sempre que seu nome “não constava nas
prescrições”, por mais que lhe fossem apresentados os registros.219
Os roubos se deflagravam no delírio em uma outra instância: afirmava
que era autora de “tratados de psiquiatria, músicas, livros (Os Lusíadas)”220
216
KIMIYA
KIMIYA.
218
KIMIYA
219
KIMIYA.
220
KIMIYA.
217
101
publicados por terceiros. Ela era “a autora, dona de todas essas coisas” e, além
disso, era “médica”, sem, entretanto, ter o reconhecimento por suas obras.221
Kimiya mora sozinha, em apartamento próprio no centro comercial da
cidade, adquirido quando ainda trabalhava. Foi neste imóvel que atendeu, durante
longo período, seus clientes. Passou tempos sem pagar impostos, condomínio,
conta de luz e também recusou a receber do INSS. Afirmava que era perseguida
pelos emissores das faturas e não queria envolvimento com eles: sendo a “dona de
tudo” não precisava “pagar para usufruir o que é seu”.222
A escrita foi um hábito que perpassou quase toda a história de vida de
Kimiya, variando na sua forma e estilo. Foram apresentados, pela família, aos
técnicos, cadernos manuscritos com suas produções, desde 1985 até o ano de
2001.223
Esses registros acompanharam as suas construções delirantes podendo
ser separados em pelo menos quatro momentos. No primeiro momento, verificamos
que a redação apresenta uma multiplicidade de temas, com uma certa
desagregação na escrita, como no fragmento a seguir:
“O homem ou mulher que no aspecto não define só faz gestos
com a boca e a cabeça. Não resposta. Porque não quer
confundir a mente e depois não é simpatia ingênua de amigos
224
que pode falar e ter respostas que dão fruto”.
No segundo momento, identificamos a prevalência de uma certa
organização por homofonia, onde apresentou frases com rima e carregadas com um
tom jocoso, traço que se mantém ao longo de suas produções. Seguem alguns
exemplos:
221
KIMIYA.
KIMIYA.
223
Encontram-se no Anexo 2 vários fragmentos reproduzidos a partir destes manuscritos.
224
KIMIYA
222
102
“O homem gostoso não é maldoso.
Me joguei no poço e perdi o almoço.
Pornografia tem audiência e eu peço clemência.
Cravo e canela não tem manivela.
225
Birutice e negrume não é meu ciúme”.
No terceiro momento, podemos constatar a produção de textos que
mantêm uma certa coerência de tema, mas sempre entremeados com elementos
que portam uma certa estranheza, e que já surgem no próprio título, como:
“Possibilidade Craniana”.226
O último momento destacado desenvolveu-se com o registro de
experiências próximas a alquimia, realizadas por Kimiya em seu domicílio. Tratamse, em sua maioria, de misturas de produtos domésticos, que formam substâncias
para tratamento, ou da criação de neologismos que teriam função de fármacos. As
fórmulas dessas composições são criadas pela própria paciente, mas outras, às
vezes, são ditadas por animais que alucina, como pela “Doutora Galinha”. Seguem
alguns exemplos:
“♦Odd-côco com shampoo de placenta e água sanitária - cabelo
cinza escuro, beleza rara.
♦Sabão Ace com refrigerante de uva no joelho – clareia mancha
escura.
♦Chá, pimenta-do-reino, 3 caroços de colorau, 1 colher de chá de
canela, 1 colher de café, 1 xícara de água e açúcar – duas vezes por
semana – obs: encarde a pele.
♦Leite de cabra, grosélia Porto Rico (xarope), shampoo Vita-Vida,
shampoo palmolive branco, Ipê creme – rejuvenesce.
♦Kalicome – para dar cor preta no cabelo.
♦Cariolat – remédio pra dente doendo.
227
♦Duravex – acaba com implicância.”
Ao longo dos anos, atinge um patamar de estabilidade do delírio, sendo
que não ocorre uma sistematização para além do que foi relatado até aqui.
O caso clínico foi levado para discussão mais ampla, por considerarem
que não apresentava uma resposta satisfatória ao tratamento, apesar de um grande
225
KIMIYA.
KIMIYA. O texto citado encontra-se no Anexo 2, no final deste trabalho.
227
KIMIYA.
226
103
investimento dos profissionais, durante todo o tempo. Portanto, ao analisar os
manuscritos, percebemos que vai ocorrendo uma delimitação do conteúdo delirante
ancorada pelas produções simbólicas, o que pareceu produzir um certo
apaziguamento. É importante ressaltar que Kimiya preservou, ao longo da sua vida,
uma organização que a possibilitou manter-se no trabalho até aposentar por tempo
de serviço, o que aponta um saber desse sujeito em lidar com o delírio, e,
principalmente, mostra-nos que a saída não se faz por um esvaziamento da
produção delirante, apesar de esbarrar em normas sociais.
Como ponto inicial para essa construção, levantamos o diagnóstico como
uma questão a ser apontada. Kimiya se confunde com o outro, com a imagem real
que vem delinear seu eu, com o semelhante, e assim lhe atribui adjetivos
consoantes com seu próprio parâmetro: há nela uma indiferenciação onde o sujeito
afirma ser o outro. Para fundamentar a hipótese de uma paranóia, Henri
Kaufmanner228, durante o comentário do caso, retoma uma frase da paciente: “Sou
igual a todos os meus semelhantes”229; nela ressalta que se constata uma
igualdade, o que difere de uma equivalência (sempre um efeito simbólico), pois, na
igualdade, não existe qualquer diferença entre a paciente e o outro, e isto leva a
verificar que Kimiya está falando no registro do espelho, o que efetivamente aponta
para uma paranóia.
Se retomarmos novamente o esquema ótico (figura 7)230, localizamos
neste gráfico a discordância fundamental dada pelo que o sujeito vive em seu corpo
real, ou seja, um desconhecimento e sua imagem real i(a) unificada pelo espelho em
um campo exterior, ocupando o mesmo lugar que o objeto real. Neste modelo, é a
posição do olho em relação ao simbólico que dá lugar ao sujeito na estrutura, sendo
228
Henri Kaufmanner, em comentário do caso registrado no ato da sessão clínica.
KIMIYA.
230
VODOVOSOFF (1993, p. 26). Figura simplificada do esquema ótico, proposta pelo autor.
229
104
que na paranóia, sem o anteparo do espelho plano que representa A (grande Outro),
é o delírio que vai pacificar esta discordância no lugar do simbólico.
FIGURA 7 – Esquema ótico
O grande Outro (A), ao mesmo tempo em que é excluído, vem ocupar
todo o terreno na paranóia, como um Outro absoluto (não barrado), um Outro que
fala, fazendo do paranóico um sujeito possuído pela linguagem. Dada à falta de um
corte real na separação entre o imaginário e o simbólico, é o campo do sentido que
vai compor esta articulação: sendo o sentido a categoria do imaginário que responde
ao significante do registro simbólico, produzido pela fixação de um significado a um
significante, atribuindo-lhe uma significação.231
No Seminário 3, Lacan vai distinguir
a
linguagem (código) da fala
(palavra plena) através da análise do delírio nas relações com o Outro (A), e apontar
a materialidade significante no dizer psicótico:
No nível do significante, em seu caráter material, o delírio se distingue
precisamente por uma forma especial de discordância com a
linguagem comum que se chama um neologismo. No nível da
significação, ele se distingue por isso: ele só pode se mostrar se
231
QUINET (2003, p. 17-59).
105
vocês partem da idéia de que significação remete sempre a uma
outra significação sabendo-se que, justamente, a significação dessas
232
palavras não se esgota no remeter a uma significação.
Lacan situa o Outro (A) absoluto como alteridade fundadora da fala,
esclarecendo que é absoluto no sentido que é “reconhecido, mas que não é
conhecido”233, diferenciando-o do outro (a) que é o eu, fonte de todo conhecimento.
Ao introduzir no Seminário 2 o esquema L (figura 8), ele localiza o eu, o outro, os
semelhantes como objetos imaginários no eixo especular a-a’. No entanto, ao falar o
sujeito sempre alcança a’, a” por reflexão, mas ele se endereça a A¹, A²,
“verdadeiros Outros”, “verdadeiros sujeitos”234, que não são conhecidos, e que do
sujeito se encontram separados pelo muro de linguagem. Esta distinção é
fundamental para que se possa estabelecer a distinção entre a alienação como
forma geral do imaginário e a alienação psicótica.
FIGURA 8 – Esquema L235
Na alienação, como forma geral do imaginário, a agressividade da
concorrência rival que funda o objeto primeiro, o eu i(a), é superada na fala pela
introdução de um terceiro termo que promove pacto, acordo, lei, seja ele o
232
LACAN ([1955-56] 2002, p. 43).
LACAN ([1955-56] 2002, p. 49).
234
LACAN ([1954-55] 1985, p. 308).
235
LACAN ([1954-55] 1985, p. 307).
233
106
significante do Nome-do-Pai que torna o Outro barrado (A). Na paranóia, como efeito
de estrutura dado pela forclusão do significante da lei (Nome-do-Pai), o sujeito
testemunha a presença do Outro (A) como alteridade que tomou forma de “palavra
falada, que lhe fala”236. Assim, Lacan vai situar o delírio como uma linguagem sem
dialética no ângulo aberto das relações de distinção entre o Outro (A) e o outro
(a).237
Lacan, no Seminário 3238, observa a importância do simbólico na sintaxe
original presente na paranóia. A partir da análise do caso Schreber conforme
realizada por Freud, ele retoma a interpretação dada da frase rejeitada no real “eu o
amo”, e as três formas de negação em que se desdobram os delírios de ciúmes,
erotomaníaco e persecutório, para aí apoiar a análise das relações com o Outro, nas
construções delirantes, situando-as como fenômenos de mensagem, onde o
paranóico faz levar sua mensagem por um outro.
Dentro desta leitura, retornemos a Kimiya, em dois episódios na sua
infância, onde ocorreram duas alucinações, uma aos 4 e outra aos 10 anos de
idade, através dos quais teve uma “revelação”239 sobre sua origem: seus pais eram
médicos. Essa revelação retorna no real como algo não passível de simbolização, o
que a deixa perplexa diante do enigma desses significantes desprovidos de sentido
que vem do Outro, sendo, ao longo do tempo, o delírio como formação imaginária
que dá sentido aos significantes que retornam no real. Kimiya, por um lado, nega os
pais naturais, por outro, através da interpretação delirante vai estabelecer a
significação “também sou médica”, em uma identificação imediata com o
semelhante, marcada pelo significante que veio do Outro (A) no registro imaginário,
236
LACAN ([1955-56] 2002, p. 52).
LACAN ([1955-56] 2002, p. 51).
238
LACAN ([1955-56] 2002, p. 53).
239
KIMIYA.
237
107
posição que Lacan denomina como “uma estase do ser em uma identificação
ideal.”240
A certeza estabelecida pela crença delirante vem substituir o enigma que
surgiu a partir dos fenômenos alucinatórios, e as relações com o outro(a)
estagnadas no eixo especular, em uma imediatez (sem mediação) das
identificações, propiciam o desenvolvimento do delírio megalomaníaco centrado no
eu do sujeito. O eu megalomaníaco interpreta todas as identidades, de acordo com
os caracteres próprios, e projeta no outro o que lhe é particular; assim, defende-se
contra um possível despedaçamento da imagem corporal dada por um eu fragilizado
frente à discordância fundamental. Kimiya tem como acréscimo à significação
médica, várias outras significações que surgem com a construção de uma alquimia
particular, assim como com o delírio de reivindicação da autoria de vários tratados
técnicos de medicina e também literários.
Antônio Teixeira situa o delírio de criação de Kimiya da seguinte maneira:
"ela acredita ser filha de médicos e a alquimia é algo que a nomeia também como
médica, pois o que ela faz é produzir receitas de tratamento”.241
A idéia delirante de ser filha de médicos é retesada e torna-se cada vez
menos passível de dialetização, concentrando as experiências em um campo que
não permite equivalências. Kimiya busca um significante que possa representá-la
para outro significante, e, ao tentar representar-se como médica, significante
emprestado do discurso universal, acaba por nos apontar sua posição estrutural,
onde o inconsciente está descoberto e o sujeito fala através do outro: encontramos
seu duplo, encarnado pela figura do médico, eu ideal, que lhe dá o suporte
240
241
LACAN ([1946] 1998, p. 173).
Antônio M.R. Teixeira, em comentário do caso no momento da seção clínica.
108
imaginário nesta relação que lhe permite sustentar-se como diferente da louca, ou
da doente: médica.
O delírio de filiação não pode ser concebido senão no registro do
imaginário, onde o outro é tomado como espelho, identificação imediata, de onde
decorrem os fenômenos de transitivismo, rivalidade e projeção. O nível imaginário do
delírio está articulado com o registro simbólico, na medida em que faz o Outro entrar
em jogo no campo das significações imaginárias. Para Kimiya, todo o mundo é
significativo na sustentação de sua crença delirante, ou seja, tudo faz signo na série
dos objetos especulares: os produtos das farmácias, supermercados e perfumarias,
todos lhe servem de fonte para suas construções.
Os fenômenos ligados à superfície corporal surgem como enigmas, que
Kimiya vai tentar decifrar através de suas criações delirantes, e, assim, acaba por
construir uma alquimia particular onde ela elabora produtos para tratamento.
Podemos verificar, em seus escritos, que eles se formatam no campo do
sentido, onde os significantes são signos que ela vai completar com sua significação
delirante. Kimiya, a partir de um novo enigma como o que se constitui pelas
manchas da própria pele, vai à busca de objetos do mercado, assinalados com o
signo do clareamento, a fim de uni-los em uma solução que teria o poder de tratar o
seu problema, como, por exemplo, nas seguintes misturas que compõe: “Leite de
Colônia alterado com Veja verde e misturado com Confort - dá pele limpa”242, ou
“Refrigerante com Água Sanitária clareia a pele”.243 As soluções que têm função
alvejante são usadas indiscriminadamente, pois a interpretação paranóica abole a
diferença específica de sua utilização, propondo-as como símbolo que, para ela,
comporta uma significação única: clarear.
242
243
KIMIYA.
KIMIYA.
109
Da mesma maneira, a união de signos que Kimiya promove em
consonância com o eu, ou ainda através do modo paranóico de fixar sentido ao
significante, apresenta-se na produção de uma conserva comestível orientada pelo
signo do “vigor”, como na receita a seguir: “uma colher rasa (de sopa) de gelatina
sabor morango, um bico de colher de Vigor de chocolate, uma pitada de sal –
Conserva Comestível – tomei 1 hora e só comi 6 horas sem vontade”.244 Neste
exemplo, a palavra faz signo, em uma adesividade da significação, como se a
essência da conserva fosse a própria palavra “vigor”.
Mais uma vez, frente ao enigma que o envelhecimento deflagra com as
marcas do tempo branqueando os seus cabelos, ela vai propor uma solução para
torná-los “uma beleza”245, onde não se constata nenhuma diferença na atribuição
que dá aos elementos nesta mistura. O signo da semelhança, neste caso, opera
com o sentido da vitalidade do nascimento dado pelo próprio produto: “ODD de Côco
com Shampoo de placenta e Água Sanitária – observação: cabelo cinza escuro uma
beleza rara”.246 O efeito abrasivo dos produtos não inscreve, para Kimiya, um
diferencial, e o que prevalece a seus olhos não é a fórmula química que vai tratar os
cabelos, mas a imagem da placenta como fonte de nutrição e abrigo de uma nova
vida, assim é mais uma vez a palavra que se transforma em signo e vai unificar sua
fórmula.
Para Kimiya, nas suas atividades cotidianas, um signo sempre leva a
outro, ela introduz símbolos em toda parte, em consonância com o próprio eu, sendo
este um movimento que concerne à tentativa de formar um corpo no registro
especular, que possa ser nomeado pelo significante médica, sem, contudo, alcançar
consistência ou um ponto final. Essas são construções pertinentes às identificações
244
KIMIYA.
KIMIYA.
246
KIMIYA.
245
110
especulares e auto-referentes na paranóia, mas também, se olharmos por outro
ângulo, podemos dizer que se trata do encontro de um sujeito com um mundo
silencioso: um mundo calado pela ciência moderna, onde a visão mágica vitalista e a
semelhança que já foi pilar do conhecimento antigo, e que Kimiya reedita de uma
forma particular, não tem mais lugar.
Como verificamos no capítulo 2, com a evolução da ciência moderna
(século XVII), a semelhança vai desaparecer do horizonte do conhecimento e as
descobertas
galileanas
vão
ajudar
a
derrubar
a
idéia
de
um
cosmos
hierarquicamente ordenado por Deus. A ciência passou a examinar as coisas da
natureza usando a matemática como principal instrumento: demonstrou-se que
existia sempre uma lei de regularidade dos fenômenos naturais que obrigava, com a
certeza que os cálculos ofereciam à demonstração, a verificação de que as coisas
acontecem de uma determinada maneira. Diante do olhar do homem guiado pela
ciência moderna, a partir de Descartes, Deus perde seu governo efetivo sobre o
mundo e passa à posição de um criador que observa vigilante a Sua criação. A
ciência dessa forma, fez calar a analogia e a semelhança como formas de
estabelecer o saber, ou seja, ela fez calar “a prosa do mundo”247, conforme se
expressa Michel Foucault.
A propósito da transição da forma antiga de constituição do conhecimento
para a moderna, Foucault analisou o personagem de Cervantes, Dom Quixote.248 No
desenvolvimento de seu texto, comparou a figura literária ao homem formado no
antigo sistema de cosmo que, no momento da passagem para o novo, perdeu sua
razão de ser, e procurou seu lugar em um mundo que não mais existia: o do saber
sobre a natureza regido pela magia da similitude. Acreditamos que esse tipo de
247
248
FOUCAULT (1999, p. 23).
Encontra-se uma pequena resenha da obra de Cervantes no Anexo 3, no final deste trabalho.
111
análise descreve, com bastante proximidade, a situação vivida por Kimiya ao operar
com uma linguagem formatada em signos em um mundo já silenciado.249
Para Foucault, o romance de Cervantes foi a primeira das obras
modernas, onde o personagem testemunha o esvaziamento das analogias, do saber
divino, e da subjetividade, nos termos a seguir:
[...] nela se vê a razão cruel das identidades e das diferenças
desdenhar infinitamente dos signos e das similitudes: pois que aí a
linguagem rompe seu velho parentesco com as coisas, para entrar
nessa soberania solitária donde só reaparece em seu ser absoluto,
250
tornada literatura.
Dom Quixote, figura retirada dos romances de cavalaria, vai procurar seu
lugar em um mundo que não mais existe. Ele se detém diante da igualdade,
tentando atestá-la a qualquer custo, ele é o herói do mesmo. Para o personagem,
segundo Foucault, os “rebanhos, as criadas e as estalagens são signos
adormecidos que por analogias se assemelham aos castelos, às damas e aos
exércitos”251, mas que nunca se comprovam, sempre decepcionam: elas não são
mais a imagem, ou o signo, que ele acredita habitar aqueles objetos, são apenas
uma realidade esvaziada de semelhanças.
Transformado em personagem literário dentro da própria obra que habita,
o “cavaleiro da triste figura”, no final, encontra pessoas que leram a primeira parte do
texto e que o reconhecem como o herói do livro, mas ele próprio não pode
reconhecer-se enquanto figura literária, ao mesmo tempo em que deixa de ser
reconhecido pelo mundo como figura real.
Assim, Dom Quixote revela, como um paranóico na leitura de Freud, o
que os outros neuróticos mantêm em segredo: sob seu olhar, apresenta-se aos
nossos olhos o fato de que, ao serem desligados as similitudes e os signos, surge
249
FOUCAULT (1999).
FOUCAULT (1999, p. 67).
251
FOUCAULT (1999, p. 65).
250
112
um hiato, um campo de desconhecimento, que reflete a própria estrutura universal
do eu, conforme concebido pela psicanálise. A multiplicação das imagens reflete a
fragilidade dessa estrutura, e a magia que ora permitia o deciframento do mundo
através da analogia, isto é, da especularidade, só serve agora para explicar, de
modo delirante, a inoperância dos jogos de semelhança. Foucault faz emergir a
figura da loucura como fato social, através do personagem de Cervantes, da
seguinte maneira:
O louco, entendido não como doente, mas como desvio constituído e
mantido, como função cultural indispensável, tornou-se, na
experiência ocidental, o homem das semelhanças selvagens. Essa
personagem, tal como é bosquejada nos romances ou no teatro da
época barroca e tal como se institucionalizou pouco a pouco até a
psiquiatria do século XIX, é aquela que se alienou na analogia. É o
jogador desregrado do Mesmo e do Outro. Toma as coisas pelo que
não são e as pessoas pelas outras; ignora seus amigos, reconhece
estranhos; crê desmascarar e impõe uma máscara. Inverte todos os
valores e todas as proporções, porque acredita, a cada instante,
decifrar signos: para ela os européis fazem um rei. Segundo a
percepção cultural que se teve do louco até o século XVIII, ele só é
diferente na medida em que não conhece a diferença; por toda a
parte vê semelhanças e sinais da semelhança; todos os signos para
252
ele se assemelham e todas as semelhanças valem como signos.
Dentro dessa perspectiva, propomos fazer equivaler Dom Quixote, na
primeira parte do romance, com Kimiya: os dois desconhecem a diferença, fazendo
erigir sempre uma igualdade que faz conectar outra, em um caminho circular que
retorna ao mesmo, mas sem nunca encontrar um fim. Ambos não ultrapassam o
crivo da dissimetria que instaura a dialética da constituição das identidades: do
mesmo modo que Dom Quixote não se afasta da planície familiar de sua província,
percorrendo-a em busca do análogo, Kimiya reproduz indefinidamente signos em
suas receitas, de forma que eles acabam por dar realidade às coisas através da
crença delirante própria à estrutura da paranóia. Eles testemunham a derrocada da
antiga aliança entre as palavras e as coisas do mundo e, conseqüentemente, da
magia como forma de explicação dos mistérios e dos enigmas da existência.
252
FOUCAULT (1999, p. 67).
113
Ao mesmo tempo em que a loucura do personagem de Cervantes causa,
com seu testemunho, uma certa tristeza no leitor, Kimiya, ao contrário, nos faz rir
com seu devaneio. Mas, efetivamente, do que rimos?
Esta última figura que não circula nas páginas de romance, mas no nosso
cotidiano, restaura na atualidade, em um modo particular, a antiga forma humana de
constituir o conhecimento. Ao eleger signos e uni-los sem nenhum critério de
diferenciação, acaba por apresentar uma caricatura do transitivismo especular, ou do
que Lacan chamou conhecimento paranóico e que se preserva em nossos dias, por
um estatuto que concerne à existência imaginária do eu.
A característica principal de uma caricatura é exacerbar caracteres
diferenciais do sujeito. Nessa modalidade, podemos citar, como exemplo, o artista
que, ao desenhar uma pessoa que tem um nariz grande, destaca de forma
desproporcional esta parte corporal em seu grafo, a fim de trazer um certo humor à
cena. Kimiya, sem a mesma intencionalidade, grifa nas suas construções a busca
imaginária pelas semelhanças ao unir, em suas misturas, objetos diferentes, mas
que para ela tem o mesmo sentido, e, assim, coloca a descoberto o que está
implícito nos produtos e que normalmente não aparece: a abrasividade, não
explicitada na oferta dos mesmos, mas que ela conserva e vai evidenciar ao mudálos de função. Ou seja, a eficiência de um produto para atacar um problema
específico não encobre os efeitos indesejáveis sobre outros aspectos de sua
utilização, como por exemplo, a água sanitária que clareia, e que, ao mesmo tempo,
é nociva à pele.
Se tomarmos novamente a figura 7, o grafo define a imagem real, aquela
que formata o eu. Tendo um olho colocado no interior do cone de reflexão da
imagem, este perceberá um vaso contendo um buquê de flores, mas ele não poderá
114
ver o vaso real que continuará escondido pela caixa, o que reforça a realidade da
imagem do vaso com as flores, conforme metáfora proposta por Lacan:
primeiramente, há um corpo descoordenado, do qual sai um buquê de pulsões
parciais, auto-eróticas, até que se produza uma nova ação psíquica na qual um vaso
imaginário as unifica, onde a imagem dá sua unidade ao corpo, transformando essas
flores esparsas em objetos do eu.
Essa inadequação original do corpo encontra sua unificação a partir da
matriz imaginária, onde o eu é o objeto de sua fabricação. Mas esta constituição,
que se dá a partir da exterioridade da imagem, descarta para sempre a instância do
eu da realidade do corpo, o que Lacan chama de discordância fundamental.
A posição do olho, determinada pelo simbólico, indica a primazia do
simbólico sobre o imaginário, e se a posição do olho muda, alguns objetos do eu se
eclipsam, sendo que essas variações da posição do sujeito são definidas por Lacan
a partir da estrutura da linguagem. No caso de Kimiya, uma paranóica, é o delírio
que se coloca no lugar do simbólico a fim de proteger o eu, ou a imagem real, da
ameaça de despedaçamento dada pela discordância fundamental. O delírio, então,
dá-se no campo do sentido, onde as significações imaginárias se acoplam aos
significantes, na tentativa de nomear um corpo para dar-lhe estabilidade: é o
significante médica em consonância com os objetos eleitos pelo eu, que poderá
cumprir essa função.
Dessa forma, a imagem real que dá consistência ao eu impõe-se através
da série de objetos especulares que vêm compô-la, e frente à imediatez das
identificações, o paranóico é sempre obrigado a reeditá-la. A multiplicidade das
imagens e a permeabilidade da realidade (aparência) aos signos, denunciam a
fragilidade da construção especular do eu: a imagem não é pura imaginação, é ela
115
que vem dar consistência ao real, e nela apresenta-se uma falta, não percebida, que
concerne o que é refratário ao mundo da representação, ou seja, o real253. O
paranóico é exato ao demonstrar que, quando se trata de uma imagem que funciona
como invólucro, ou como representação, há sempre um objeto real dissimulado por
baixo do pano, ou seja, o vaso abaixo da toalha de mesa do professor Bouasse, que
Kimiya expõe ao escancarar a abrasividade das substâncias químicas que utiliza.
A química moderna procede à construção delimitada de seus objetos; ou
seja, há um limite estabelecido na aplicação de suas fórmulas, conforme advertido
nos rótulos dos produtos. Ao isolar o alquibenzeno sulfonato de sódio como princípio
ativo de uma solução adstringente de gorduras (detergente), os químicos não
consideram pertinente, por exemplo, avaliar os efeitos biológicos sobre a mucosa
ocular por este fato não ser pertinente à construção de seu objeto. Contudo, ele não
nega estes efeitos, e os adverte ao consumidor.
Portanto, o homem tende a velar esse limite, atribuindo aos objetos da
modernidade uma certa completude imaginária, negando, de certa forma, que há
algo que sempre escapa e que não pode ser aprisionado pelas leis simbólicas; no
caso, tomamos como exemplo o consumidor comum. Se retomarmos o esquema
ótico (figura 3 capítulo 1) situando o observador do lado esquerdo do grafo, por
estrutura neurótica, verificamos que a falta que se apresenta na imagem real não se
vê na imagem virtual que confere a representação i’(a) do eu ideal, mas é uma falta
que opera, pois, na imagem virtual, há uma série de vasos que vão mudando e que
253
FREIRE (1997, p. 229-30). Freire explica que a obra de Lacan mostra que “não se pode definir a
causa inconsciente nem como ente-do-ser, nem como não ente-do-ser. Quer dizer, que para a
psicanálise não há atualização do ser, não há qualquer existência (real) que possa dar conta do ser
para o inconsciente, pois mais o inconsciente se realiza, mais o real está em falta ou o ser se
desontologiza. Neste sentido acredito que a obra de Lacan é não somente uma antifilosofia, mas
também uma antiepistemologia, no sentido que ela não quer ser uma teoria do ideal da ciência que
foraclui a questão do sujeito com o Outro e muito menos uma teoria acerca da questão do ser. Ela
circunscreve, na realidade, esta última questão, sem, entretanto, construir um sistema filosófico ou
ontológico, pois o real que ela visa é aquele que é a priori vazio de ser”.
116
concernem à série de identificações constitutivas do eu mediadas pelo i(a). Não se
visualiza nesse grafo, mas a báscula que faz mudar os vasos com flores com
relação ao desejo, introduz o problema da falta. Ao situar o desejo no nível
simbólico, a falta fará valer todo objeto, não por seus atrativos imaginários, mas
enquanto representantes desta falta, podendo ser substituídos por outros: “as
palavras, os símbolos, introduzem um oco, um buraco, graças ao que todo tipo de
ultrapassagens são possíveis. As coisas se tornam intercambiáveis.”254
O que aparece desvelado no discurso delirante de Kimiya, através da explicitação da abrasividade dos produtos quando utilizados fora de sua determinação,
é o que na figura 3 (capítulo 1) é representado pelo vaso sob a toalha, dito de outra
maneira, aquilo que nos objetos eleitos pelo sujeito neurótico, no caso um
consumidor comum, reflete-se como um limite numa imagem, uma imagem incapaz
de velar a própria clivagem, já que nela também se reflete uma divisão.
Contudo, Kimiya também nos mostra que há uma outra forma de divisão,
aquela dada pelo sujeito diante de um saber que é acionado pelo discurso da
ciência, um sujeito cartesiano da certeza que dá às coordenadas do discurso
científico, purificado das categorias imaginárias (S), e um sujeito freudiano do desejo
($), que por sua vez imprime sua subjetividade na utilização dos objetos da
modernidade evocando toda série especular que funda seu Ideal.255
A indústria da propaganda explora bem a divisão acima, o que já foi
apontado por Roland Barthes, na década de 50, em seu livro Mitologias256. Neste
254
VODOVOSOFF (1993, p. 49).
FREIRE (1997, p. 225). Freire nos esclarece que, antes da ciência moderna, a questão da origem
do ser era a causa do desejo das buscas humanas pelo conhecimento. Através dos ideais de
formalização, que oferecem uma certeza indiscutível dos fatos, a ciência esforça-se para forcluir a
causa de desejo do sujeito, malgrado esforço, pois a questão do que causa o desenho dos cientistas
e da maior parte dos homens retorna na expressão de sua subjetividade frente aos mistérios do ser.
O sujeito, então, não se coloca mais como puro homem frente à certeza oferecida pela ciência, mas
como sujeito que se inquieta e se divide frente às questões da existência.
256
BARTHES (2003).
255
117
livro, ele vai desmontar os mecanismos e as manhas da publicidade através da
interrogação dos signos sociais, e toma como ponto de partida a própria impaciência
frente ao “natural com que a imprensa, a arte, o senso comum mascaram
continuamente uma realidade”.257
Para Barthes, o mito é uma linguagem e, como tal, participa da construção do mundo. Assim, ele toma como referência a constatação de que o homem
se encontra, a cada instante, imerso numa falsa natureza, e que a mitologia, no caso
específico da publicidade, tenta recuperar “sob as inocências da vida relacional, a
profunda alienação que essas inocências têm por fim camuflar”.258 Ele se propõe a
captar as significações dadas nas propagandas a fim de desmistificá-las, assumindo
uma posição onde não se permite aderir à crença tradicional que promove um divórcio entre a objetividade do cientista e a subjetividade do escritor, pois ambas para
ele são destinadas a “escamotear ou sublimar os limites reais de sua situação”.259
Na França dos anos de 1950, os mitos cotidianos repousavam sobre uma
boa dose de alienação e ingenuidade, e Barthes revela este testemunho no decorrer
de suas crônicas. No texto intitulado Saponáceos e detergentes260 apresenta os
esforços investidos para dar aos usuários um sentimento de suavidade e
conseqüente euforia. Ele toma como exemplo a publicidade do Omo que
fundamenta o seu prestígio na evidência do resultado, sempre superlativo, de uma
comparação: o objeto onde o produto é utilizado torna-se mais branco que o outro.
A publicidade do Omo revela também o efeito do produto em seu
processo de ação, onde os pós (partículas) funcionam como elementos separadores:
o seu papel ideal consiste em livrar o objeto de sua imperfeição circunstancial
257
BARTHES (2003, p. 11).
BARTHES (2003, p. 248).
259
BARTHES (2003, p. 12).
260
BARTHES (2003, p. 39-41).
258
118
expulsando deste a sujeira. Na atualidade, podemos assistir a propaganda do Omo,
em uma versão brasileira, onde são apresentadas crianças se esbaldando em um
parque de diversões, sem se importar com a sujeira, e o episódio se fecha com a
frase: “sujar faz bem” e imediatamente é apresentada a logomarca “Omo multiação”.
Para Barthes, essa forma de publicidade, que ele chama “psicanalítica”, faz com que
o consumidor “penetre numa espécie de modo vivido da substância” e, para além de
usufruir dos resultados, passa a tornar-se cúmplice de uma libertação onde a
matéria adquire valores-estados, que ele explicita nos seguintes termos:
Omo utiliza dois desses estados, bastante recentes na ordem dos
deter-gentes: o profundo e o espumoso. Dizer que Omo limpa em
profundidade [...] equivale a supor que a roupa é profunda, o que
nunca se pensara antes, e que incontestavelmente a magnífica e a
estabelece como objeto sedutor perante os obscuros impulsos de
envolvimento e de carícia que existem em todo o corpo humano.
Quanto à espuma, todos conhecem o seu significado de luxo: em
primeiro lugar aparenta uma certa inutilidade; depois, a sua
proliferação abundante, fácil, quase infinita, deixa supor na substância
que a gera um germe vitorioso, uma essência sadia e potente, uma
riqueza de elementos ativos originados de um pequeno volume;
enfim, predispõe o consumidor a uma imaginação aérea da matéria, a
um modo de contato simultaneamente ligeiro e vertical, desejado e
deliciosamente gozado [...]. A espuma pode ser o signo de uma certa
espiritualidade, na medida em que se considera o espírito capaz de
tirar tudo do nada, uma grande superfície de efeitos de um pequeno
número de causas (os cremes tem uma psicanálise totalmente
diferente, são emolientes, calmantes, eliminam as rugas, a dor, o
fogo, etc.). O importante é ter conseguido mascarar a função abrasiva
do detergente sob a imagem deliciosa de uma substância
simultaneamente profunda e aérea, que pode reger a ordem
261
molecular do tecido sem o atacar.
A publicidade que foi examinada por Barthes sofreu uma transformação
desde os anos de 1950, pois, na atualidade, ela lida com um público menos ingênuo
e que não se deixa mais enganar. Esta assume o caráter humorístico, malicioso em
relação a si mesma, e caçoa dos próprios meios, mas não se esquece do essencial,
ou seja, dizer a marca do produto contratante.262 Mesmo assim, nessa nova forma
de apresentação, prevalece um apelo à imagem ideal do produto que vela
261
262
BARTHES (2003, p. 41).
GALARD (2006, p. 50).
119
devidamente os seus efeitos indesejáveis, tornando, mais uma vez, o consumidor
cúmplice, só que menos ingênuo.
Kimiya, em sua patologia, mostrar-nos-á que este pequeno outro
identificado como eu, em circunstâncias bastante banais como é o caso da
propaganda, é capaz de reencontrar sua autonomia inaugural expondo sua
identidade como organizada por um duplo. No arranjo delirante, ela constrói uma
caricatura, fazendo destacar a insistência do sujeito humano, constituído pelo
simbólico, a obturar a falta inaugural de sua existência que os objetos não recobrem,
com colagens imaginárias, explicitando que o homem, em seu cotidiano, ao eleger
os objetos sob a égide especular, reedita um fenômeno aproximado ao delírio do
paranóico, ou o próprio conhecimento paranóico. Enfim, rimos de nós mesmos ao
nos depararmos com os escritos de Kimiya.
120
CONCLUSÃO
Na construção deste texto, fomos guiados pela orientação de acompanhar
o percurso de Lacan através das proposições que o levaram a apresentar a tese do
conhecimento paranóico. Caminho teórico árduo, condizente com um autor inquieto,
brilhante e envolvido com as questões de seu tempo.
No primeiro momento, abordamos a equiparação da paranóia a um
fenômeno cognitivo, escrita por Lacan ainda jovem, utilizando amplamente o
referencial teórico da psiquiatria, contribuições de outros campos de saberes e de
forma ainda cautelosa a psicanálise. Sobremaneira, faz uma ampla revisão dos
clássicos, e situa-se ao lado da psicogênese, já fazendo uma escolha por uma
posição que direcionará seus trabalhos futuros.
Na seqüência dos primeiros artigos, retomamos os textos do autor mais
imerso na psicanálise, nos quais ele vai estender a condição paranóica ao
conhecimento humano em geral, em função da função imaginária do eu.
Chamamos a travessia acima de torção, pois Lacan parte de alguns
princípios em suas elaborações que ganham corpo paulatinamente com a clínica,
explicitando um saber que não está pronto, nem completo, mas que se constrói à
partir da pesquisa. Portanto, destacamos a construção de uma teoria que se faz
orientada pela experiência clínica.
Neste mesmo contexto, ao retomar o texto do estádio do espelho,
pudemos colocar em evidência a alienação imaginária estabelecida no momento
constitutivo do eu, um momento paranóico fundante no processo dialético do devir
do sujeito. A função da psicanálise pôde se delinear, ao acompanharmos com Lacan
121
o desdobrar entre sujeito e eu, explicitando que é da emergência do primeiro que se
trata na psicanálise.
Do debate caloroso de Lacan com Ey, pudemos extrair algumas questões
acerca, principalmente, do julgamento da loucura e da liberdade. Ao destacar a
loucura como condição da existência tanto do psicótico, quanto do que não o é,
Lacan lança a alienação imaginária como condição da existência humana, estádio
que funda um sujeito congelado por um eu e disto depende o destino particular de
cada um, seja pela via da significação amarrada pela inscrição da castração, seja
pela emergência do delírio.
Na aurora do nascimento do eu, Lacan vai destacar a paranóia fundante
como a operação que inscreve o ser na alienação. Desta maneira, mais uma vez,
restabelece a dignidade da psicose, colocando todos no mesmo patamar, já que a
loucura é inerente à existência. Não se apreende, com esta afirmação, um elogio à
loucura, mas a constatação da mesma como o limite de liberdade, já que para o
sujeito existir, ele estará desde sempre aprisionado no que o funda. Sob esta ótica,
inferimos que não existe liberdade.
Ao avançarmos no entendimento da diferença entre a paranóia que funda
o conhecimento e a paranóia enquanto estrutura, pudemos estabelecer uma
maneira de conciliar as duas teses de Lacan, que em uma primeira interpretação
pareciam incompatíveis. Estes argumentos se deram à partir da elucidação da
posição do sujeito com base no esquema ótico. Percorremos assim, guiados pela
paranóia, a primeira teoria do imaginário (1938-1953), a sua retomada à partir do
desenvolvimento do registro do simbólico (1953-1964), portanto, não alcançamos o
seu desenvolvimento com a introdução do registro do real (1964-1980), por este
122
último ultrapassar o objetivo desta dissertação. Contudo, permanece a questão:
como poderíamos interpretar a paranóia fundante sob a ótica do real?
Constatamos que o conhecimento e ciência não coincidem, ou seja, não
são a mesma coisa, fato de alcance fora do campo da psicanálise, que
acompanhamos através da leitura da revolução científica, conforme interpretada pela
orientação filosófica. O conhecimento forma-se na relação de conaturalidade entre o
sujeito cognoscente e o objeto conhecido, ou seja, aquela dada pela virtualidade
especular do eu. Já a ciência funda-se em uma escansão entre o sujeito e o objeto,
sendo o primeiro esvaziado de suas qualidades intrínsecas (mesmo sujeito da
psicanálise) e o segundo criado artificialmente. A ciência moderna, dessa forma,
difere-se do conhecimento por prescindir do imaginário na forma de construir seus
objetos, sendo que ela os determina através da linguagem matemática, constituindoos através de suas fórmulas como uma delimitação do real pelo simbólico.
Com a universalização das leis que asseguram à ciência o estatuto de
verdade, verificamos que ela acaba por não ser toda, pois não é possível prescindir
da subjetividade onde há sujeito. O homem, no cotidiano, faz apelo ao imaginário, e
resgata o modo de funcionar pré-científico em cenas diárias, insistindo em tamponar
uma falta que lhe é estrutural, e para qual a ciência não tem resposta.
Descartes estabelece a filosofia moderna e, no primeiro momento das
meditações, funda também o sujeito da ciência, que, separado do objeto, é
totalmente destituído das qualidades e de todo imaginário, sendo interpretado como
o mesmo sujeito da psicanálise. A presença divina no conhecimento antigo desfazse com o cogito cartesiano, e Deus passa a ocupar o lugar de uma garantia ausente
para o saber científico, o que estabeleceu um corte que situa a passagem do antigo
para o moderno.
123
O recurso ao caso clínico justifica-se pela introdução de duas
observações acerca do objeto desta dissertação. A primeira se subscreve pelo fato
de Kimiya estabelecer uma caricatura do modo de constituição do conhecimento
antigo, modelo do conhecimento paranóico, e a segunda concerne a uma outra
interpretação, aquela dada por Foucault ao analisar Dom Quixote como um homem
formado no antigo sistema de cosmos que, ao encontrar o novo, responde com o
delírio, o que propusemos equivaler com a paciente em questão.
Enfim, retomamos o caso clínico, a fim de situar o que ele desvela, ao
expor a abrasividade dos produtos normalmente mascarada pela publicidade
responsável por sua circulação no mercado. Em um primeiro momento, localizamos
no esquema ótico a imagem corporal que funda o eu, e no vaso sob a toalha o real
inalcançável pelo sujeito como equivalente àquilo que Kimiya escancara nos objetos,
ou seja, o real que escapa a imagem. Já no segundo momento, destacamos que ela
também nos mostra que há uma outra forma de divisão, aquela dada pelo sujeito
diante de um saber que é acionado pelo discurso da ciência, um sujeito cartesiano
da certeza que dá as coordenadas do discurso científico, purificado das categorias
imaginárias (S), e um sujeito freudiano do desejo ($), que se inquieta diante dos
enigmas da existência e que, por sua vez, imprime sua subjetividade na utilização
dos objetos da modernidade. Ponto estratégico explorado pela publicidade, como já
denunciado por Barthes desde os anos 50.
Enfim, no texto O Outro e a psicose, ao localizar o conhecimento
paranóico em função da psicose, Lacan afirma que não poderia rever tudo o que já
havia dito sobre o assunto, exatamente por se fazer necessário retornar a ele, por
várias vezes, ao longo do seminário a ser apresentado. Curiosamente, isso não
acontece, pelo menos de forma direta, não ocorre nenhuma referência ao tema.
124
Concluímos que não seria mesmo possível fazê-lo, pois o conhecimento paranóico,
conforme interpretamos, torna-se o próprio registro imaginário.
125
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129
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WALLON, H. As origens do caráter na criança. Tradução de Pedro da Silva Dantas.
São Paulo: Pensamento, 1971. 256p.
130
ANEXO 1
Relação dos principais textos em que surge a proposição conhecimento
paranóico, por ordem cronológica
LACAN, Jacques (1935-36) Lacan, Compte rendu de Livre: “Le Temps Vecu. Etudes
phénoménologiques et psychopatologiques d’Eugène Minkowisk”. Dans Recherches
Philosophiques.
_____. (1946) Formulações sobre a causalidade psíquica. In: Escritos. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. (Campo Freudiano do Brasil) 937p.
_____. (1946) Intervention sur l’exposé de A. Borel «Le symptôme mental. Valeur et
signification». In : L’Évolution Psychiatrique, 1947, fascicule I pages 117 à 122.
_____. (1948) A agressividade em psicanálise. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Ed., 1998. (Campo Freudiano do Brasil) 937p.
_____. (1949) O Estádio do Espelho como formador da função do Eu. In: Escritos.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. (Campo Freudiano do Brasil) 937p.
_____. (1953) Some reflexions on the ego. In: International Journal of
Psychoanalysis, 1953, volume 34, p.11-17.
____. De nossos antecedentes. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,
1998.(Campo Freudiano do Brasil) 937p.
_____. (1955) As psicoses. In: O seminário – livro 3. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
1985.
_____. (1957) De uma questão preliminar a todo tratamento possível na psicose. In:
Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
_____. (1960) Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano.
In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. ( Campo Freudiano do Brasil)
937p.
131
ANEXO 2
Alguns fragmentos dos manuscritos da Sra Kimiya
A paciente, apresentou produções manuscritas de 1985 a 2001 e aqui são
apresentados alguns recortes de momentos diferenciados de sua produção
Momento 1 – Prevalência de uma grande desagregação
“O Homem ou mulher que no aspecto não define só faz gestos com a boca e
a cabeça. Não resposta- Porque não quer confundir a mente e depois não é da
simpatia ingênua de amigos que pode falar e ter respostas que dão fruto.”
“A” letra feminina – 1O da composição da jurisprudência do alfabeto romano”
“ B” beta letra neutra do alfabeto romano”
“O homem que tem o procedimento da mulher vagabunda perna torta 1,60 m
de alt cabelo careca boca de cão negro anda ameaçando-me de jogar em hospícios
para dizer que tem proteção. A comida de hospicio é sopa de batata cenoura e
beterraba bem aguada que é para ver se os clientes não voltam.”
Momento 2 – Prevalência de uma organização por homofonia (cerca de 1500
frases)
“Dolores e flores são os meus versos atrozes ( burda)”
“A igreja é pobre e é rica em cobre”
“Eu toco ou sambo descrevendo mulambo”
“Fiz uma cruz pra sair do mal e o conselho foi infernal”
“Dominat etem o retrato da mulher que anda no mato”
“Pecado original, casamento oficial”
“Lucidez e aventura, conjectura”
“Moeda rica traz a Chiquita (empregada)”
“Lucidez e paixão não tem ocasião”
“A multidão em minhas mãos é história em vão.”
“Bandeira nacional não tem tempero igual.”
“O sol aquece e a solidão eternece.”
“Cupido ingrato, amor no mato.”
“O fio de cobre é um pedaço nobre.”
“Destituição da maldição é todo dia uma lição.”
“Exigência e direitos não aponta os defeitos.”
“Durante o sono eu não tenho dono.”
“Estou nua na praça e o sem vergonha é você.”
“O arroz que consome traduz fome.”
132
Momento 3 – Marcado pela produção de textos (cerca de 50 textos)
“Toledim”
“Creio em você que é Deus onipotente e está ligado ao homem por meios
confusos. A claridade que você da ao mundo faz intrigar as pessoas. São mortas de
doenças velhice e outros males que afetam até a alma do pobre diabo – Sou total
acompanhante das ruínas que o homem traz consigo – Viver é trocar angústia no
corpo, no coração com aflição prevista até em crianças. Eu sou a calma que às
vezes excede e manda tudo para o inferno. Não me perturbe, não me observe com
maldade e nem fique atrás de mim com interesse corporal. Saia para viver e deixe o
seu semelhante trocar de opinião para elucidação dos outros homens. Deus todo
poderoso tenha a vez de mostrar que me protege.
Finalidade de embelezamento da alma.” 21/07/1998
“Possibilidade craniana”
“É certeza que o cérebro humano é capaz de traduzir a oração diária que é
manejada pelos costumes de suas vidas. Os acontecimentos traduz as opiniões que
cada um passa para suas cabeças. São coisas amorosas que talvez não existe no
plano divino e real. São absurdos que contêm enganos capaz de fazer confusão em
muitas pessoas e prejuízo para outros.
Eu que não tenho maldade fico no caminho sem prejudicar os demais e tento
esclarecer para muitos o que é o homem. Seremos ou aflitos são quase todos 01
que enganam com os próprios filhos. Sinto a falta de diálogo esclarecedor. Quando
vem ao meu encontro tem palavras que consolam mas outros ao aprofundar os
assuntos se calam sem pronunciar a coisa certa. Gosto do povo falando para poder
entendê-los. O que tem em minha cabeça, isto é, o que penso é passado para o
papel num tom de avanço intelectual. Ficam falando coisas corriqueiras com o medo
inibido que é proposital. Sentimento de grandeza é o que há neste local. Profundo
azar o meu que não introso com autoridade falante para que o assunto seja
realidade.
.- Creio em Deus padre do bêbado.” 28/11/98
Momento 4 – Marcado pela produção de “receitas” (cerca de 120 misturas)
♦“Pomadex pomada – acaba com as olheiras”
♦“Silicone gradual pomada para bumbum”
♦“Refrigerante com água sanitária – clareia a pele “
♦“Chá, pimenta ,3 caroços colorau, uma colher de chá, canela, uma xícara
d’agua e açucar – encarde”
♦“Água oxigenada avante 30vl 1 colher, 2 colheres de vinagre de vinho,
pimenta do reino 1 colher de chá – vagina estreitar apertar.”
♦“Mamenique – mamá rígido”
133
♦“Benzetacil B com pimenta do reino no útero – nasce criança negra.”
♦ “pomadex pomada – para olheiras”
♦ “Bicarbonato, coentro e sal – para doenças de dores de pontadas no
quadril.”
♦ “Copo de água, uma pitada de sal e uma colher de chá de açucar – clareia
a pele do corpo humano.”
♦ “Uma colher de chá de soda cáustica em creme branco da natura(
amêndoas)- escurece braços e pernas.”
♦ “O sabonete Neps está a prova de observação, velhice depois
rosto.”
rejuvenescimento é prova de sangue real.”
♦ “Água oxigenada 10v. com creme clariderme – testa sangue real arde o
♦ “Silicone gradual – pomada para o bumbum.”
♦ “Leite de colônia misturado com Veja verde dá pele limpa.”
♦ “Solução para comer – 1 colherinha de bombril limpeza, 1 de Mon bijou de
teste.”
pêssego, 1 colher se sopa de xixi com dorilax, 1 colher de sopa de solução de
antibiótico, 1 colher de acetona, 1 copo d’agua, 1 pitada de bicarbonato, 1
colherinha de vital ervas rosa.”
♦ “Nescau na junta do joelho esquerdo faz ir ao banheiro.”
♦ “Vaselin é para o rosto (brancura).”
♦ “Clara de ovo com café câmara – acalma dor no quadril – proveniente de
♦ “Kalicone – para cor preta do cabelo.”
♦ “Chá de folha de manga e aveia – dor na coluna.”
♦ “Pinho-sol – obs. Olheiras e nariz.”
♦ “Kalinop – crescer os pés.”
♦ “Kalicop – põe cabelo castanho.”
♦ “Kustamak = olhos verdes.”
♦ “Dorilak – para intestino barrela.”
♦ “2 colheres de urina, 1 colher de chá de café solúvel e 1 colher de shampoo
vital ervas – escurece cabelo queimado e loiro.
♦ “Audek – para não ser enxergada.”
♦ “Xixi com casca de batatinha (amarelão).”
♦ “Jogamar – lágrimas em excesso.”
♦ “Anacrim da crina – dizem que é veneno ¼ dá pra ficar doente e volta
menstruação – exemplo – D. conceição do BS. José.”
♦ “Anaconda – disse aviador que volta menstruação.”
♦ “Complexo B Belfar – alongar o útero com 35 e ½ comprimido.”
♦ “Prenda- para não ser enxergada (Dra Galinha).”
♦ “Duas colheres de jaborandi e uma de álcool – cabelo cinza.”
♦ “solução para conservação da cor branca – 2 colheres de diadermina, 1
colher de leite moça, meio copo de eucalipto super globo.”
♦ “àgua oxigenada avante 30v. 1 colher, 2 colheres de vinagre de vinho,
pimenta do reino 1 colher de chá – vagina espreitar.”
♦ “Homery – pinto em mulheres.”
♦ “Loção hidratante com óleo de amêndoas alarga vagina – o mesmo creme
com eucalipto e beterraba com xixi dá o contrário.”
134
♦ “4 gotas de Ipê branco com um mesmo tanto de Vit garrafa verde com
cervja Malzebier – engorda instantânea.”
♦ “guaraná com uma gema e açúcar- 1 colher de gema menos de um litro –
remédio para os rins – aumento de xixi.”
♦ “1 litro de água, 2 colheres de sopa de álcool, 2 de acetona e 1 de sal tira
amarelão.”
♦ “Água oxigenada, 1 colher de melhoral infantil, 1 comp. Do complexo B da
Roche – tira mancha da pele.”
♦ “Creme – leite de cabra, groselia Porto Rico (xarope), Shampoo Vita vida,
shampoo palmolive branco, creme Ipê – rejuvenesce.”
♦ “Volta menstruação – 3 complexo B nacional, 1 copo de água, água
oxigenada 30vl. 6 colheres – beber 2 colheres de manhã.”
♦ “2 colheres de leite em pó, água, açucar e uma colher de cerveja preta – faz
ir ao banheiro.”
♦ “Creme – 1 pote água oxig. 20 vl., meio vidro de 30vl., 1 comprimido de
apracur, 3 colheres de chá de gelatina de pêssego, 1 colher de sopa de óleo
verde – observação : cor morena sem muito sangue.”
♦ “Mingau – 2 colheres de leite em pó, 1 copo d’água, 1 colher de açúcar, 1
colherinha de eucalipto de limão, fubá Sinhá e farinha de trigo uma colher.
Clareia a pele e o cabelo.”
♦ “Tira sujeira – 1 colher de xixi com beterraba, 1 colher de chá de óleo, 1
colher de solução de álcool com acetona, 1 colherinha de easy off.”
♦ “1 colher de aldermina, uma colher de creme hidratante, óleo de amêndoa,
1 naftalina, 1 colher de aquosa eucalipto super globo – clareia rosto.”
♦ “Cabalo escuro – água de colônia, urucum, gel zul ceramida, odd côco,
shampoo de placenta, pinho sol a mesma quantidade de cada um.”
♦ “Cerveja preta Uau e xixi – clareia o rosto.”
♦ “Creme de leite de cabra Nature com parte igual de vinho Chanceler
Bacelar – cabeça doida menos no que usa.”
♦ “Uau, leite de rosa, leite de colônia e shampoo de placenta – colo limpo.”
135
ANEXO 3
Pequena resenha da obra de Miguel de Cervantes: Dom Quixote de La Mancha
Dom Quixote: o melhor livro do mundo
Em princípios de maio de 2002, uma impressionante comissão de críticos
literários de várias partes do mundo escolheu o livro Dom Quixote de La Mancha,
escrito por Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616), a partir de 1602, como a
melhor obra de ficção de todos os tempos. Ao tempo em que narrava os feitos do
Cavaleiro da Triste Figura em ritmo dos romances da cavalaria, Cervantes enervado
com o sucesso daquele tipo de gênero literário junto ao grande público, realizou uma
das maiores sátiras aos preceitos que regiam as histórias fantasiosas daqueles
heróis de fancaria.
Agonia do cavaleiro da triste figura
"Todas as coisas humanas têm dois aspectos... para dizer a verdade todo
este mundo não é senão uma sombra e uma aparência; mas esta grande e
interminável comédia não pode representar-se de um outro modo. Tudo na vida é
tão obscuro, tão diverso, tão oposto, que não podemos nos assegurar de nenhuma
verdade."Erasmo – Elogio da Loucura, 1509
No final de uma caçada às lebres, ele sentiu-se exausto. Pediu que o
levassem ao leito. Dom Quixote percebeu a presença da morte. Logo os amigos
chamaram um médico que, pegando-lhe o pulso, recomendou com a rude franqueza
dos castelhanos que tratasse de salvar a alma, porque o corpo era de pouca valia.
Então algo poderoso ocorreu. Aos brados o moribundo disse ter recuperado o juízo,
livrara-se das desgraçadas leituras que fizera sobre os feitos dos cavaleiros. Disse
abominar Amadis de Gaula, o espadachim de fantasia que tanto o inspirara até não
muito. Esperou então, sereno, a morte para livrar-se daquelas assombrações da
literatura
que
tanto
infernizaram
a
sua
vida.
Em tempos bem anteriores, ainda que magro de doer, dispunha de saúde suficiente
para lançar-se pelo mundo afora. Até os cinqüenta anos vivera com criada, sobrinha
e um rapaz arrieiro, numa fazendola na província da Mancha, uma espécie de brejoseco do Reino de Castela, na Espanha. Desocupado, empobrecido, passara os dias
lendo os feitos dos heróis da cavalaria. Até que um dia, conta Cervantes, de tanta
leitura, seus miolos ressecaram. Imitando então aquela brava gente que povoava os
seus sonhos, cismou em querer consertar as coisa tortas e desfazer os agravos do
mundo. Mandou pôr uma sela em Rocinante, seu maltratado pangaré, calçou-se
com as velhas armas dos seus antepassados, um escudo, e saiu a trote atrás de
façanhas que lhe dessem renome.
Metido em aventuras mil
Aventuras e desassossegos de toda a ordem é o que não lhe faltaram pelas
andanças pelo ermos de Castela. Além de fantasiar uma dama só sua, uma pobre
136
camponesa que ele chamou de Dulcinéia del Tomboso, teve a felicidade de
encontrar um homem da sua aldeia, o gorducho Sancho Pança, um lavrador, logo
promovido a escudeiro, e que, entre outras coisas, tentou inutilmente inculcar em
Dom Quixote algum princípio de realidade que fosse. Sim, porque o nosso cavaleiro
vivia oscilando em perpetrar as loucuras desaforadas de Roldão ou mergulhar nas
melancolias de Amadis, seus modelos. De longe ou de perto, o contraste espantoso
entre o Cavaleiro da Triste Figura, como Dom Quixote mesmo se chamou, magro e
alto, e o seu valet, o pequenino e roliço Sancho, montando em seu burrico,
incendiou a imaginação de todos.
Maldizia o tempo todo a época que lhe coubera viver. A pólvora e o chumbo,
discursou ele, liquidaram com os cavaleiros. Um disparo de longe, arte de um
covarde, destroçava a vida de um bravo. Surras “ da fementida canalha”, também
não lhe faltaram. Certa vez, em pleno campo, encontrando uma fila de bandidos
atados, conduzidos por alguns policiais, resolveu espantar a lei. Engalfinhou-se com
os guardas que fugiram espavoridos dos espadaços daquele doido. Soltos, os forasda-lei, além de surrupiarem-lhe os pertences, aplicaram-lhe uma sova de dar dó.
Comentário de Dom Quixote: “aos cavaleiros andantes não pertence averiguar se os
afligidos, acorrentados e opressos...vão pelas estradas por suas culpas, ou por
serem desgraçados... só lhe cabia ajudá-los como necessitados”. Nem na dor das
imerecidas porretadas ele se emendava!
Estrutura e prosa da obra
Dom Quixote de La Mancha, a maravilha literária de Cervantes, narrado na mais fina
prosa castelhana, é composta de 126 capítulos de sabedoria, amizade,
enternecimento, encantamentos, loucuras e divertimento, divididos em duas partes:
a primeira surgida em 1605 e a outra em 1615. Monumento que Cervantes começou
a erguer com pena e tinta, "no silêncio do esquecimento", encarcerado em Sevilha,
em 1602, por mesquinharias.
Numa das suas digressões, Cervantes deu para comparar a vida de soldado, que
ele foi, com a de escritor, que ele terminou sendo, concluindo que aquele ofício só
lhe dera dor de cabeça, vigílias, vazios de fome e padecimentos mil. Todavia, ao
contrário de Shakespeare, seu contemporâneo, era consciente de que criara uma
obra-prima, algo verdadeiramente extraordinário. Enquanto isso, numa
desconhecida aldeia da Mancha, o corpo do velho fidalgo maluco recebia as
exéquias. Não se enganem, não o enterraram não. Basta a qualquer leitor abrir a
primeira página do Dom Quixote para ver que, erguendo a espada, o soberbo doido
está ali vivíssimo, pronto para sair a assombrar o gigante Briareu e pôr a correr as
injustiças.
Fonte: http://educaterra.terra.com.br/voltaire/cultura/2002/05/17/000.htm
FONTE: CULTURA E PENSAMENTO
AUTOR: Voltaire Schilling
137
ANEXO 4
RESUMO DO CASO AIMÉE
Este resumo foi extraído do artigo “O caso Aimée ou a paranóia de autopunição” de
Rosane de Melo, tendo sido mantida, no recorte extraído a redação da auto na
íntegra. (MELO, R. ,2002)
Considerações Iniciais
Jacques Lacan optou, em sua tese de doutoramento publicada em 1932263 e
intitulada “Da psicose paranóica em suas relações com a personalidade por estudar
um caso clínico relatando as observações e os dados resultantes de entrevistas com
a paciente e com pessoas de seu círculo familiar e social. A escolha do caso se
deveu à observação quase cotidiana da paciente por cerca de 15 meses e a seu
caráter particularmente demonstrativo, tornando-se desde então uma referência para
os analistas.
O caso Aimée está descrito em quatro capítulos da tese, de tal maneira que
os novos dados emergem gradualmente, à semelhança de um romance, e o leitor
tem de aguardar os próximos capítulos para obter a resolução de certos pontos
enigmáticos do texto. Se não há recomposição dos dados, é porque Lacan escreve
à medida que prosseguem as entrevistas, agrupando-os na mesma ordem em que
chegam. A história envolve um atentado ocorrido em 1931 contra uma atriz famosa,
o que torna necessário que nomes e datas sejam modificados a fim de impedir
identificações. A publicação da tese em 1932, contudo, não encerra o caso, e, em
1986, Elisabeth Roudinesco revela que Didier Anzieu, filho de Aimée, se tornaria
psicanalista após ter passado pelo divã de Lacan entre 1949 e 1953. sabemos assim
que Marguerite Anzieu era o nome da “Aimée de Lacan” (Allouch 1994). Essas
revelações contribuíram não somente para a identificação dos principais
protagonistas da trama, mas sobretudo para outras interpretações.264
(....)
O atentado
O atentado ocorreu em 18 de abril de 1931, às 19h, na porta do teatro em que
a vítima, Huguette ex-Duflos, uma das atrizes mais apreciadas pelo público
parisiense, se apresentaria265. Huguette foi abordada na porta da entrada dos
artistas por uma desconhecida, Marguerite, que lhe perguntou: “A senhora é
Huguette ex-Duflos?”. Nada no tom da pergunta suscitou a desconfiança da atriz,
que respondeu afirmativamente e, com pressa, pediu passagem. A desconhecida
então rapidamente tirou de sua bolsa uma faca e, com o olhar injetado de ódio,
investiu seu braço contra ela. Para aparar o golpe, a atriz agarrou a lâmina com a
263
A segunda edição se dará somente em 1975.
Outros trabalhos que fazem referência ao caso Aimée são os de Silvia Tendlarz (1989) e Philippe Julien
(1997).
265
Por ocasião do atentado, Hugutte desempenhava o papel principal na peça de Henri Jeanson “Tout va bien”,
apresentado no teatro Saint Geordes. Segundo Allouch, a peça jamais foi publicada, e há apenas relatos nos
jornais da época. Nela, Hunguette vive Brigitte, uma mulher casada com um homem, Riquet, que não faz nada
além de dívidas. Ele se envolve com um financista a quem passa a prestar serviços, fica rico e o financista é
quem passa a adotar os hábitos da despreocupação, nem mesmo se importando de ver Riquet com sua esposa na
cama. Brigitte não se mostra tão satisfeita de ser enganada. No final, o financista perde dinheiro e torna a ser
preocupado, enquanto Riquet manda ao diabo os assuntos financeiros e volta a ser o amado de Brigitte (Allouch
1994?: 158).
264
138
mão, seccionando assim dois tendões. Marguerite só aceitou explicar seu ato para o
delegado. Em sua presença, disse que a atriz há muitos anos vinha fazendo
escândalos contra ela, zombando dela, ameaçando-a, e que estava associada a um
célebre homem de letras, Pierre Benoit, que por sua vez revelava sua vida privada
em inúmeras passagens de seus livros. A atriz a teria arremedado nos papeis que
representava e já há algum tempo Marguerite tinha a intenção de pedir-lhe
explicações. Atacou-a porque a viu fugir, afirmando não ter tido a intenção de matála, mas apenas de fazê-la falar. A atriz não registra queixa e Marguerite é conduzida
à prisão provisória, e depois a Saint-Lazare, permanecendo 45 dias na prisão. Em 3
de junho de 1931, é internada na clínica do asilo Sainte-Anne, sendo Lacan o
psiquiatra que redige o certificado de quinzena e acompanha por cerca de 15
meses.
“Nenhum alívio se segue ao ato” (1932ª: 169), escreve Lacan. Ela se mantém
agressiva, estênica, exprime seu ódio contra sua vítima. Sustenta integralmente
suas asserções delirantes diante do delegado, do diretor da prisão, do médico perito.
Quando interrogada sobre o que a levara a agredir a atriz, responde que era leitora
assídua de Pierre Benoit e que há muito tempo percebera que era a heroína de seus
romances. Ele sempre a põe em causa com nomes inventados, e a atriz, que
interpreta suas peças, a ridicularizava, em conivência com o autor. Oito dias depois
de ingressar na prisão, escreve ao gerente do hotel em que morava, dizendo-lhe que
ninguém quis escutá-la, e também ao Príncipe de Gales para dizer-lhe que as atrizes
e os escritores lhe causavam graves danos. Conta para as companheiras de cárcere
as perseguições que sofrera, e elas a encorajam e a aprovam. A própria Marguerite
narra a Lacan que vinte dias depois, quando todos estavam deitados à noite,
começa a soluçar e a dizer que a atriz não tinha nada contra ela, e que não deveria
tê-la assustado. As companheiras que estavam a seu lado ficaram tão surpresas que
a fizeram repetir o que dizia, lembrando-lhe que no dia anterior ela ainda falava mal
de Huguette ex-Duflos. Foram então contar à madre superiora, que a enviou para a
enfermeira. Marguerite chega a Sainte-Anne vinte e cinco depois, onde Lacan
escreve: “Todo o delírio caiu ao mesmo tempo, ‘o bom e o ruim’, diz-nos ela” (ibid.:
170).
O desencadeamento
As interpretações e intuições delirantes começam por ocasião da primeira
gravidez de Marguerite, em julho de 1921. As conversas de seus colegas parecem
visá-la e eles criticam suas ações de maneira desagradável, caluniam sua conduta e
lhe predizem infortúnios. Na rua, os transeuntes sussurram a seu respeito e lhe
demonstram desprezo. Reconhece nos jornais alusões dirigidas contra sua pessoa.
Casada há quatro anos, empregada no mesmo local de trabalho que seu marido,
Marguerite tem 28 anos. Teria dito com freqüência para si mesma: “Por que fazem
isso comigo? Eles querem a morte de meu filho. Se essa criança não nascer, eles
serão os responsáveis” (ibid.: 156).
Internada, Marguerite escreve para Lacan sobre seus períodos de gravidez
como um período em que estava triste, seu marido a censurava por suas
melancolias, surgiram as desavenças e ele dizia que tinha ressentimentos por
ela ter saído com um outro antes de conhecê-lo. Relata pesadelos com caixões
que a atormentavam. Certo dia, arrebenta os dois pneus da bicicleta de um
colega com uma faca e, uma noite, se levanta para jogar um jarro d'água na
cabeça de seu marido. Outra vez, é um ferro de passar que faz as vezes de
projétil. Contudo, observa Lacan, ela colabora na confecção do enxoval da
139
criança e, em março de 1922, dá à luz uma criança natimorta do sexo feminino,
cuja causa do óbito é asfixia circular de cordão. Uma grande confusão se instala
em Marguerite, que atribui a desgraça a seus inimigos. Uma amiga (C. de La
N.), que trabalhara com ela durante três anos e que agora morava em um lugar
afastado, telefona pouco depois do parto para obter notícias e Marguerite
passa então a concentrar toda a responsabilidade pela desgraça nessa
mulher. A ligação lhe pareceu estranha, e Lacan escreve que a cristalização
hostil parece datar desse momento, indicando que Marguerite permaneceu
muda, interrompendo inclusive seus hábitos religiosos.
Uma segunda gravidez traz de volta o estado depressivo e as interpretações. Nasce um menino em julho de 1923, e ela se dedica à criança até
seus cinco meses, tornando-se cada vez mais interpretante, hostil a todos.
Provoca um incidente com motoristas que teriam passado perto demais do
carrinho do bebê e faz vários escândalos com os vizinhos. Todos ameaçam
seu filho e ela quer levar o caso à justiça.
A criança é encontrada ora empanturrada, ora esquecida por Marguerite,
por exemplo lambendo graxa de seu carrinho. O marido de Marguerite é
informado de que sua esposa pedira demissão do emprego e solicitara um
passaporte para os Estados Unidos, pretendendo fazer uso de um documento
falso para apresentar a autorização marital. Marguerìte alega querer ir aos
Estados Unidos em busca de sucesso, pois queria ser romancista. Ela
confessa que teria abandonado seu filho. A família a intima a renunciar a
suas loucas imaginações, internando-a por seis meses em um asilo
particular, em outubro de 1924. O diagnóstico dado a ela é o de delírio de
interpretação, e Lacan escreve que Marguerite saíra da clínica um pouco
melhor, porém "não curada". Volta a cuidar de seu filho de modo satisfatório,
mas se recusa a retornar ao trabalho. Em 1925, logo depois de sua alta,
repousa junto à família em Chauvinac, ocupando-se do filho de forma
conveniente. Em 1925, é reintegrada ao trabalho e transferida, a seu pedido,
para Paris. Mais tarde, confia a Lacan que guardava nesse momento uma
profunda inquietação: "Quais eram os inimigos misteriosos que pareciam
persegui-Ia? Ela não devia realizar um grandioso destino?" (ibid.: 158).
Progressivamente, constrói a organização delirante que antecipa o ato
contra Huguette ex-Duflos, a Sra Z. no texto de Lacan. Em sua crença, a
atriz ameaçara a vida de seu filho, explicando assim como chegara a essa
crença:
Um dia, diz ela, como eu trabalhava no escritório, enquanto procurava
como sempre, em mim mesma, de onde podiam vir essas ameaças
contra meu filho, escutei meus colegas falarem da Sra. Z. Compreendi
então que era ela quem nos queria mal... Uma vez no escritório de E.,
eu tinha falado mal dela. Todos concordavam em considerá-la de boa
família, distinta... eu protestei dizendo que era uma puta. É por isso
que ela devia me querer mal (ibid.: 159).
140
Em 1926, já em Paris, apresenta-se a Pierre Benoit266, que lhe propõe um
passeio de carro, durante o qual ela o acusa de falar mal dela e dê chamá-la de
misteriosa e impertinente. Depois disso não o vê mais. Nessa época existem muitas
notícias nos jornais de um processo que deu muito o que falar sobre a atriz267.
Marguerite admite ter ido assistir a Huguette ex-Duflos uma vez no cinema e outra
no teatro, embora não se recorde dos temas. As interpretações também surgem da
leitura dos jornais, de fotos e cartazes expostos. Um dia, em 1927, ela lê no Le
Journal que seu filho seria morto porque sua mãe era caluniadora, vil e dela se
vingariam. Havia também uma foto que reproduzia a empena da casa de sua família,
onde seu filho passava férias, e ele aparecia em um canto da foto. Dois meses
depois, vai à redação do jornal em vão, procurar o artigo que lera. Ela sonha com
seu filho afogado, morto, preso pela G.PU.
Em 1928, prepara-se para o baccalauréat, no qual fracassa três vezes. No
mesmo período fracassa em um exame que lhe permitiria ascender
profissionalmente. Um ano após, assedia um jornalista comunista para que ele
publique seus artigos, nos quais expõe suas queixas contra uma de suas inimigas, a
escritora Colette268. Suas importunações ao diretor desse jornal lhe custam a visita
de um inspetor de polícia, que a intimida de forma rude. De todo modo, ela quer se
explicar para seus inimigos. Três anos antes de sua internação, durante um curto
período de tempo, Marguerite acredita que "deve ir aos homens" (Lacan 1932a:
165). Abordando transeuntes ao acaso, tenta entretê-los com um vago entusiasmo.
Diz a Lacan que com isso procurava satisfazer a grande curiosidade que tinha pelos
pensamentos dos homens. Em 1930, calunia seus colegas de trabalho e dirige
injúrias aos seus superiores, passando a trabalhar só.
A ansiedade é crescente. Oito meses antes do atentado, Marguerite pede a seu
senhorio que lhe empreste um revólver. Diante de sua recusa, solicita uma bengala
266
Em 1919, Pierrè Benoit publica l;Atlantide, romance no qual Nlarguerite acredita se reconhecer no
personagem Antinéa. Em 1923, é lançado o filme Koegnismark, baseado no romance de Pierre Benoit,
com Huguette Duflos no papel de grâ-duquesa. Nesse mesmo ano, Pierre Benoit publica Mademoiselle
de ta Fierté. Em entrevistas após o atentado, afirmou que seria per'teitamente capaz de se entregar a esse
gênero de pilhagem do qual Marguerite o acusara (cf. Allouch 1994: 281-ss).
267
A atriz é Huguette ex-Duflos, apreciada e reconhecida feminista de vanguarda, que recebe dos jornais da
época não apenas relatos sobre suas atuações, como também notícias sobre dois processos que envolveram
seu nome. Um deles foi movido pela Comédie-Française em 1926, logo depois de ela pedir demissão,
configurando uma quebra de contrato de trabalho exclusivo que deveria durar vinte anos. São várias as
notícias nos jornais sobre o caso, que se resolve em setembro de 1930. O segundo processo envolve a
inclusão da partícula ex no nome da atriz. Hermance Hert (nome de solteira) passa a chamar-se Huguette
Duflos após casar-se com Raphael Duflos, seu professor de teatro. Ela conquista o estrelato com esse nome
e faz questão de mantêlo mesmo depois do divórcio, o que lhe é recusado pelo ex-marido. Segue-se um
julgamento que acaba na formação de um compromisso no qual poderia escrever seu nome como Huguette
ex-Duflos.
268
Escritora e ocasionalmente atriz, publica em 1923 o romance Le Seuil, no qual descreve a iniciação às
coisas do amor de um jovem por uma mulher madura, que depois iniciará uma mocinha. O romance era
publicado aos poucos em um jornal. Em razão da reação dos leitores, a publicação é interrompida, o mesmo
acontecendo com outro romance em 1931. Seu primeiro marido era um plagiário de sua obra e, depois de
sua morte, publica em 1936 um livro que seria um acerto de contas com ele. No momento em que é alvo do
delírio de Marguerite, Collete vive o auge da glória: escreve romances, realiza conferências, representa
comédias, vive com um homem 16 anos rifais novo. Tentava esconder de sua mãe, que não se cansava de se
queixar da ausência da filha, sua vida desregrada (cf. Allouch 1994: 302).
141
para amedrontar aqueles que zombam dela. Em setembro desse ano, escreve seu
primeiro romance, Lê Détracteur, no qual a heroína se chama Aimée. O romance
acaba com a morte da heroína e em particular com a descrição dos sentimentos da
mãe diante da morte da filha. Marguerite permanece três semanas sem escrever,
entregando o manuscrito de Détracteur à editora, no qual teria assinado "Jeanne
Fontaine" (Allouch 1994: 141). Lacan o qualificou de idílio. Dias antes de cometer um
atentado contra a funcionária da editora que lhe transmite a recusa em publicá-lo,
envia cartas para o comissário de seu bairro registrando queixa contra Pierre Benoit
e sua editora. É obrigada a pagar uma indenização por ferir a funcionária, que fica
temporariamente impedida de trabalhar. Para Lacan, é lamentável que não a tenham
internado nessa oportunidade.
Durante cinco anos, não há nenhum outro ato delituoso e ela sente cada vez
mais a necessidade de fazer algo. A missão delirante inclui a publicação de seus
romances, pois diante deles seus inimigos recuariam assustados. Depositava suas
últimas esperanças nessa publicação e tem imensa decepção com a recusa. Recebe
uma multa de 375 francos e inventa, para seus familiares, a história de um incêndio
para justificar a quantia a ser paga. Passa a roubar vários objetos da casa de seus
parentes.
No fim dos anos 1930, escreve em aproximadamente um mês, numa atmosfera
febril, seu segundo romance Sauf votre respect, no qual os temas do delírio são
explorados e ela ataca tanto literatos quanto as mulheres de teatro. Lacan o qualifica
de sátira, e considera que as duas obras não têm o mesmo valor poético, sendo a
segunda inferior à primeira.
As idéias da guerra e do bolchevismo a freqüentam; os governantes
esquecem o perigo e ela tem de lembrá-los disso. Ela deve ocupar algum cargo no
governo, ter influência, guiar reformas. "Isso devia ser alguma coisa como
Krishnamurti" (Lacan 1932a: 164), confessa a Lacan.
Cerca de um ano antes do atentado, é tomada pela ameaça de uma guerra contra
seu filho: "Eu temia muito pela vida de meu filho... se não acontecesse mal agora,
aconteceria mais tarde, por minha causa eu seria uma mãe criminosa" (ibid.: 160). À
medida que a data do atentado se aproxima, sublinha Lacan, a paciente vive uma
erotomania, com o traço maior de platonismo descrito pelos clássicos, e que tem por
objeto o Príncipe de Gales. É com Sua Alteza que tentará um último recurso. O
quarto de hotel em que morava estava recoberto de retratos do Príncipe, junto a
vários recortes de jornal relativos a seus movimentos e a sua vida. Ela não tenta se
aproximar durante sua estada em Paris, mas várias vezes lhe remete pelo correio
seus poemas, seus memoriais e cartas não assinadas, detalhe considerado
significativo por Lacan. Passa a assiná-las apenas nos oito meses anteriores ao
atentado. Envia ao Príncipe também seus dois romances estenografados e
encadernados em couro.
Em janeiro de 1931, Marguerité manifesta para sua irmã suas intenções de se
divorciar e deixar a França com o filho. Segundo Élise, ela teria dito: "E preciso que
você esteja pronta para testemunhar que A. bate em mim e na criança... Estou
pronta para tudo, senão eu o matarei" (ibid.: 168). A partir de então serão contínuas
as cenas em que insiste em se divorciar, tornando-se quase cotidianas as visitas a
seu filho. Um mês antes do ato, em um estado de extrema emoção, vai a uma
fábrica de armas e escolhe um facão de caça com uma bainha que vira em uma
vitrine. Ela necessita ver sua inimiga frente a frente: "Que pensará ela de mim se eu
não me mostro para defender meu filho? Que eu sou uma mãe covarde" (ibid.: 169).
142
Em uma noite de sábado, ela se prepara para visitar sua família e, uma hora
antes do acontecimento, não sabia aonde iria. Marguerite diz a Lacan que, naquele
momento, teria atacado qualquer um de seus perseguidores se encontrasse com
eles por acaso ou os pudesse atingir.
A trama histórica
Marguerite Jeanne Pantaine nasce em 1891, em Chauvignac, quinta filha de
Jean-Baptiste Pantaine e Jeanne Donnadieu. Marguerite, nome das avós materna e
paterna, é também o nome dado à primeira filha do casal, a que morrerá em um
trágico acidente cuja data foi esclarecida pela pesquisa de Jean Allouch (1994: 1278): Marguerite Pantaine, a primeira filha de Jean 13aptiste, nasce em 1885, e Élise
Pantaine, aquela que Lacan designa como a irmã mais velha, em 1887. Em 1888,
nasce Maria Pantaine, que acolherá Marguerite por algum tempo em 1941, quando
ela sai do hospital Sainte-Anne. Em dezembro de 1890, morre a primeira Marguerite.
Nessa época, sua mãe provavelmente estava grávida, pois registra-se entre a morte
da primeira filha e o nascimento da segunda Marguerite, em 1891, uma criança
natimorta (provavelmente prematura). Em 1894, 1898 e 1902 nascem os filhos do
casal.
Marguerite inicia com sucesso seus estudos primários e Élise deixa a casa
dos pais aos 14 anos para viver como empregada na casa de seu tio paterno
Guïlhaume Pantaine, com o qual se casará em 1906. Após concluir seus estudos
primários, Marguerite deixa a família em 1905, e segue para uma escola secundária
em uma cidade vizinha, na qual suas educadoras afirmam que estaria destinada a
satisfazer as ambições de sua família ingressando na carreira de ensino primário.
Em 1908, é aprovada nos exames finais da escola, porém reprovada no concurso
para entrada na escola normal. Lacan situa os primeiros sinais de deficiência
psíquica em Marguerite após esse fracasso em 1909, os quais descreve em sua
tese como abulia profissional, ambição inadaptada, indocilidade e necessidade de
direção moral. Nesse mesmo ano, Marguerite reata sua amizade com uma colega de
infância que se apresenta com ela para os exames, mas logo em seguida essa
amiga falece de tuberculose pulmonar. É esse o acontecimento que inspira Lé
Détracteur.
Em 1910, Marguerite passa por uma experiência de trabalho em um órgão da
administração pública dos serviços de correspondência, situado em uma cidade
afastada de sua casa, na qual residem sua irmã e seu tio-cunhado. Mora com eles
durante três meses, durante os quais tem alguns encontros com um rapaz, com
quem terá sua primeira relação sexual. Lacan evoca essa figura corno um "DomJuan de cidade pequena, um poetastro da igrejinha regionalista" (Lacan 1932a: 223).
Ela se enamora de modo desproporcional por esse sedutor de aldeia, pois tudo isso
se passa em um mês e ela logo descobre que fôra o lance de uma aposta. Ela tem
então 18 anos e é aprovada, em um dos primeiros lugares, no exame de titularidade
desse trabalho, sendo transferida para uma comuna distante, na qual permanecerá
por três anos. Durante esse período, corresponde-se com o poetastro, uma ligação
que ela não confidencia nem para sua segunda amiga.
Em 1913, Marguerite é transferida para Melun, e lá conhece C. de Ia N., que,
por sua vez, é transferida para outra cidade três anos depois. É essa amiga que lhe
fala dos hábitos e sucessos de Huguett ex-Duflos e de Sarah Bernhardt. Lacan a
descreve na tese como uma mulher de família nobre, que decaíra socialmente mas
que se empenhava em:~manter suas colegas sob seu prestígio intelectual e moral,
regendo suas opiniões e lazer, contando histórias sobre sua família, impondo
143
respeito por meio de seu recato e de hábitos religiosos. Essa amizade, descreve
Marguerite, a fazia sentir-se pouco comum, porém não a dominava totalmente, pois
em relação a ela guardava permanentemente um jardim secreto. Certa vez, declara
para C. de La N.: "Você é afortunada. Adivinha tudo o que elas vão dizer. Que uma
delas emita alguma. opinião, a minha é sempre diferente? (ibid.: 226). "C. de Ia N.
lhe responde que ela, Aimée, não se parece com as outras, tem respostas
inesperadas, e Aimée retruca dizendo que as mulheres só se interessam por
mexericos, por intriguinhas, pelas faltas banais de cada um, acrescentando que se
sente masculina. A amiga então conjuga: `Você é masculina" (ibid.). Lacan comenta
que nesse momento a inversão psíquica está apenas esboçada, ressaltando a
impotência sexual e seus acessos posteriores de dom-juanismo, seu sentimento de
afinidade psíquica pelo homem distinto da necessidade sexual, sua curiosidade e
fascínio pela alma masculina.
A inversão sentimental em relação ao poetastro se dá por volta de 1913-4, e
ele passa a ser objeto de hostilidade e desprezo. 0 casamento de Marguerite e René
Anzieu acontece em 1917, em Chauvignac, e a família dela se opõe ao casamento,
sugerindo-lhe que os cuidados domésticos não foram feitos para ela. Parece ser um
casamento conveniente para ambos, já que ele lhe dá as garantias de equilíbrio
moral e segurança prática. Logo, porém, surgem os desentendimentos e a frigidez.
O casal teria feito confissões recíprocas sobre o passado que desencadearam
ciúmes em ambos. Para Aimée, as censuras tornaram-se armas para seu marido.
Ela retorna à leitura e se isola em mutismos, negligenciando a casa e fazendo com
que Renê observe alguns sinais que sobrevêm por meio de acessos, tais como
impulsões bruscas no andar, risos intempestivos e imotivados, intermináveis e
repetidas lavagens das mãos, demoras na ação e dificuldade de mudar de ação.
Histerectomizada, Elise segue, em 1918, para a casa de Marguerite e René, em
Melun. Provavelmente em 1919, morre Guilhaume Pantaine em decorrência de
ferimentos de guerra.
Nas entrevistas com seus familiares, Marguerite é descrita como
personalíssima, a única em toda casa que sabia contradizer a autoridade tirânica e
inconteste do pai. A lentidão e demora dos atos e o cultivo pelo devaneio desde a
infância são também relatados. O reconhecimento de sua inteligência entre os
familiares fazia sua mão lhe conceder privilégios. Esse intenso vínculo afetivo entre
Marguerite e sua mãe é salientado na tese de Lacan. "Éramos duas amigas" (ibid.:
219), destaca Lacan, ao comentar que ela o dizia com lágrimas, e que nenhuma
reação de Marguerite era compatível com a que desencadeava a evocação do atual
pesar de sua mãe: "Eu deveria ter ficado junto dela" (ibid.) é um tema constante de
suas lamentações.
A mãe é considerada na família como alguém tomado pela loucura de
perseguição. Havia muito mostrava-se interpretativa e manifestava nas relações com
a aldeia "uma vulnerabilidade com um fundo de inquietude, logo transformada em
desconfiança" (ibid.). Uma tia, talvez uma irmã da Jeanne, rompe com todos os
familiares e deixa "uma reputação de revolta e desordem na conduta" (ibid.: 172).
Por ocasião da morte da primogênita, uma vizinha lhe diz que um de seus animais
doentes não ficará bom de modo algum, e ei-la suscetível à ameaça dessas
palavras, persuadida da vontade de prejudicar dessa vizinha e desconfiando que ela
envenenara o animal. Há mais de dez anos tem o sentimento de ser espiada,
escutada pelos vizinhos, tomada de um temor que lhe faz aconselhar a leitura em
voz baixa das cartas que pede para ler, já que é iletrada. Após o atentado, Jeanne
144
se isola e imputa à ação hostil de seus vizinhos mais próximos toda a
responsabilidade do drama.
Na versão familiar, transmitida a Lacan, a loucura da mãe é atribuída à morte
da filha mais velha em um trágico acidente, acontecimento que ocorre durante a
gestação de Marguerite e no qual, diante da mãe, a criança cai na boca de um forno
aceso, morrendo rapidamente de queimaduras graves. Apenas o registro civil,
pesquisado por Allouch, torna possível saber que a primogênita falecida no acidente
também se chamava Marguerite, e que a segunda Marguerite nasce, como vimos,
após a morte de duas crianças: a mais velha e a criança natimorta concebida antes
de seu nascimento.
A interpretação de Lacan
Quando Marguerite é internada, os temas do delírio e as queixas formuladas
contra a vítima estão completamente reduzidos. Os temas delirantes lhe causam
vergonha, um sentimento de ridículo e remorsos, entretanto alguns entre eles ainda
mantêm valor de evocação emocional. Quando inquirida sobre o atentado,
responde: "Eu fiz isso porque queriam matar meu filho" (ibid.: 154). O delírio não é
centrípeto, pois as ameaças giram em torno da criança. Uma auto-acusação,
contudo, intervém, uma vez que a criança está ameaçada porque sua mãe mereceu
ser punida, por ser maledicente e não fazer o que deve. Ao responder por que
acreditava que seu filho era ameaçado, Marguerite mantém a mesma resposta uma
centena de vezes: "Para me castigar" (ibid:: 2S3). Quando lhe perguntam por quê,
responde: "Porque eu não cumpria minha missão" (ibid.).
A particularidade do caso reside no delírio de interpretação, um delírio
sistematizado que impressiona pela organização com que liga os temas de
perseguição, grandeza, erotomania e ciúme. No que se refere ao primeiro tema, as
perseguidoras se revelam substitutos e, por trás da atriz, aparecem outras, cujo
protótipo último não é ela própria. Pelas primeiras declarações de Marguerite após o
atentado, Pierre Benoit estava em primeiro plano em seu delírio, tendo sido a
relação delirante inicialmente de natureza erotamaníaca e depois adquirindo um
sentido de despeito. Ele deixava entender em seus escritos que ela o amava. A
relação dele com a atriz surge como um ricochete em sua imaginação, pois "ela não
podia estar só para me fazer tanto mal impunemente, era preciso que fosse apoiada
por alguém" (ibid.: 162). Todas essas personagens - artistas, poetas, jornalistas - a
plagiaram, copiaram seus romances e seu diário íntimo, e por isso tornaram-se
odiados coletivamente como grandes provocadores dos infortúnios da sociedade.
Para Marguerite, tratava-se de uma raça, de uma ralé, que vive da exploração. Ela
se considerava inclusive chamada para reprimir esse estado de coisas. Desse modo,
formam-se os temas de grandeza presentes nessas aspirações vagas e difusas de
um idealismo altruísta, no qual ela realizaria o reino do bem, a fraternidade entre os
povos e as raças. Após um ano internada em Sainte-Anne, ela confessa a Lacan
esses devaneios, com a condição de que ele evitasse olhá-la enquanto falava: "Isso
devia ser o reino das crianças e das mulheres. Elas deviam estar vestidas de
branco. Era o desaparecimento do reino da maldade sobre a Terra. Não devia haver
guerra..." (ibid.: 164).
As perseguidoras são todas tiragens de um protótipo, que possui valor afetivo
e representativo. Seu valor afetivo é representado por sua irmã mais velha, e Lacan
considera o fato de Élise morar com o casal algo decisivo para a vida de Marguerite,
descrevendo-a como uma intrusa que dificultou os esforços de sua adaptação ao
145
casamento. Em sua tese, Lacan se refere ao domínio, à humilhação moral e às
constantes reprovações que Elise faz a Marguerite.
Embora Marguerite às vezes confesse que "jamais pôde suportar" (ibid.: 232)
os direitos assumidos pela irmã na educação de Didier, não é Élise quem ela
reconhece como inimiga. A gênese do delírio se encontra nas relações de
Marguerite com sua irmã mais velha, sendo o delírio uma reação de fuga diante do
ato agressivo, do mesmo modo que ela se afasta de sua família e de seu filho. Para
Lacan, todo delírio é uma transposição cada vez mais centrífuga de um ódio cujo
objeto direto ela quer desconhecer. Ela se detém porque é sua irmã, que foi por um
tempo o substituto de sua mãe, já que a tomou sob seus cuidados após seu
nascimento. Em entrevista com Lacan, a irmã mais velha diz temer pela própria vida,
ainda que Marguerite jamais a tenha ameaçado. Ela se nega a encontrar-se com
Marguerite e Lacan a descreve como alguém desequilibrada emocionalmente, uma
estênica hipomaníaca.
O valor representativo das perseguidoras, que são atrizes, mulheres de letras
e mulheres do mundo, reside na imagem que Marguerite concebe da mulher que
goza de liberdade e poder social. Porém exatamente aí, afirma Lacan, a identidade
imaginária dos temas de grandeza e dos temas de perseguição explode. Marguerite
atinge por meio de sua vítima seu ideal exteriorizado, objeto de seu ódio e de seu
amor. O alívio, contudo, não é imediato após o ato, e somente quando compreende
que o mesmo golpe que a torna culpada perante a lei atinge a si mesma ë que pode
obter a satisfação do desejo realizado. "E o delírio, tornado inútil, se desvanece"
(ibid.: 254).
Para Lacan, o delírio de Marguerite é uma verdadeira erotomania
homossexual com o traço maior de platonismo, a forma simples, em que "o traço da
iniciativa atribuída ao objeto está ausente, enquanto 0 da situação superior do objeto
escolhido ganha todo seu valor e tende mesmo a se reforçar" (ibid.: 265). Esse traço
parece ser a expressão do voto inconsciente da não-realização sexual e da
satisfação obtida em um platonismo radical. A regressão libidinal típica na estrutura
do delírio de Aimée será demonstrada por meio da análise que Freud postula e na
qual trata gramaticalmente seus diferentes temas, graças às diferentes formas de
negação da frase "Eu o amo" (Freud 1911ª)269.
Verifica-se sobre os temas de ciúme que as amantes-atrizes que imputa a seu
marido são as mesmas que seu amor inconsciente designa por seu ódio delirante,
tal qual Freud indicara sobre os ciúmes paranóicos. As idéias de ciúme contêm o
interesse de valor homossexual pelo cúmplice incriminado. O perseguidor é sempre
do mesmo sexo que o sujeito e representa a pessoa do mesmo sexo à qual o sujeito
se mantém ligado por sua história afetiva. As idéias de grandeza, por sua vez,
apresentam características simétricas às idéias de perseguição e têm o mesmo
conteúdo: referem-se ao ideal do eu do sujeito.
Seguindo a máxima antiga "a natureza da cura nos demonstrará a natureza
da doença", Lacan se propõe a investigar por que todo o delírio e todos os temas altruísmo, erotomania, perseguição e ciúme - caem de uma só vez. Embora tais
curas sejam eventualmente observadas nos delírios passionais após a realização da
269
Freud postula que as principais formas de paranóia podem ser representadas como contradições da
proposição "eu o amo". O delírio de perseguição contradiz o predicado por meio das substituições: eu não o
amo-eu o odeio porque ele me odeia. A erotamania contradiz o objeto: eu não o amo-eu a amo porque ela me
ama. Podemos acrescentar que o delírio de ciúme contradiz o sujeito: eu não o amo porque ela o ama.
146
obsessão assassina, no caso de Marguerite a agressão fracassou e ela realiza seu
castigo somente vinte dias depois.
As idéias delirantes de perseguição possuem um sentido de autoacusação, e
Lacan lança mão da teoria freudiana, propondo a paranóia de autopunição como
uma regressão da libido ao estágio da constituição do supereu. A autopunição
explicaria o sentido do delírio, já que os perseguidores ameaçam a criança para
punir sua mãe, que é maledicente, vil.
Ao comentar o apego existente entre Marguerite e sua mãe, Lacan destaca a
eclosão do delírio de Jeanne em função dos últimos acontecimentos com a filha. Ele
relaciona a psicose à situação familiar infantil dos doentes, ressaltando que há uma
quase constância em suas anomalias. É freqüente "uma anomalia psíquica similar a
do sujeito no progenitor do mesmo sexo" (Lacan 1932a: 287), revelando-se tardiamente, como no caso da mãe de Aimée, e constituindo os casos de delírio a dois.
Lacan chama a atenção para essas loucuras simultâneas de delírios convergentes
que ainda exigem explicações da psiquiatria.
Nesse caso, a interpretação seria o mecanismo elementar que regula o
crescimento do delírio. Durante a gravidez, Marguerite vive um sentimento de
transformação da ambiência moral. Ela e o marido parecem estranhos, há
estranheza em relação ao meio, e ela passa a ter sonhos com caixões. Ao
despertar, continua em um estado mórbido durando algum tempo. Lacan traduz esse
estado como a objetivação dos conteúdos do sonho e da crença que corresponde a
eles. Desperta, Marguerite experimenta durante horas o receio de que chegue um
telegrama anunciando a morte sonhada de seu filho. As imagens têm aí uma "autoreferência mórbida"270 com valor de revelação.
Todos os elementos tumultuados da atualidade271 são utilizados pelo delírio.
Em seus escritos, Marguerite evoca o assassinato de Philippe Daude272 e
estigmatiza Sara Bernhardt e a Sra. Colette. Há ainda implicação do romancista
Pierre Benoit, que a teria coagido a deixar seu marido. O delírio se manifesta em
relação à família, aos vizinhos, aos colegas. "O delírio de interpretação, como
escrevemos em outro lugar, é um delírio do patamar, da rua, do foro" (ibid.: 210).
No fim de sua tese, Lacan faz importantes observações sobre o delírio,
definindo-o como uma atividade interpretativa do inconsciente, pois "no delírio o
inconsciente se exprime diretamente no consciente" (ibid.: 297). Outro traço
característico é sua imprecisão lógica273, em decorrência de um distúrbio da crença
270
Em alemão: eigeszbeziehurag krankhafte, termo proposto por Clemens Neisser em 1891, geralmente
traduzido por "significação pessoal". Na Rede de Pesquisa em Psicose de FCCL-Rio, preferimos adotar a
tradução "auto-referência mórbida".
271
O ano do atentado está muito próximo dos chamados anos loucos, logo depois da crise econômica de
1929 e pouco antes da tomada de poder por Hitler.
272
A morte de Philipe Daudet ocorreu em novembro de 1923, quando tinha 15 anos. Filho de médico e
filósofo, jornalista ligado ao neomonarquismo de Maurras, morre de forma misteriosa, e no funeral não se
sabia o que havia acontecido: há suspeita de suicídio, mas também de assassinato. O pai registra queixa
tempos depois contra os anarquistas, instigado por uma matéria que revelava que o rapaz permanecera três
dias entre anarquistas manifestando a vontade de cometer um atentado visando ao presidente. Os
anarquistas o teriam dissuadido, mas escreveram acusando Léon Daudet de ter disfarçado a morte do filho.
Segue-se um ruidoso processo judicial que se resolve em 1930 (cf. Allouch 1994: 179).
273
A imprecisão lógica do delírio certamente pode ser apreendida pela rejeição da categoria do acidental,
pois para o paranóico tudo o que ele observa no outro é repleto de significação, tudo é interpretável; como
indica Freud no capítulo XII de "Sobre a psicopatologia da vida cotidiana". E interessante notar, todavia,
147
que fornece a imprecisão, porém sempre com um alcance significativo de uma certa
realidade. Lacan se refere aí aos princípios lógicos fundamentais da contradição, da
localização espacial e temporal e da causalidade. Marguerite afirma ter visto a
pessoa e a imagem da Sra. Z. várias vezes desde que chegou em Paris, mas é
incapaz de descrever como e quando ocorreram esses encontros. Nem por isso o
delírio deixa de conter uma estrutura conceitual particular, que pode inclusive ser
comparada a certos princípios gerais da ciência, como os de constância energética.
Por fim, ele destaca a capacidade de dissimulação e critica a concepção
doutrinal da psicose como déficit, sublinhando a imaginação criadora de Marguerite,
seu poder de trabalho, suas faculdades de arrebatamento, sua memória especial,
sua excitabilidade e sua resistência. Nota, todavia, que a queda da psicose parece
ter acarretado a esterilidade de sua pena.
que em 1975, em "Conferências e palestras nas universidades norte-americanas", Lacan define a psicose
como um ensaio de rigor.