Porto Alegre, março de 2009. N°1 / ANO LXI Distribuição gratuita Tiragem: 1.000 exemplares O novo currículo da Faculdade de Direito Confira o novo currículo que começa a ser implementado neste ano para os calouros. Páginas 4 e 5 Melhorias na biblioteca O que mudou depois da apresentação do Relatório Biblioteca. Página 3 Mudanças foram aprovadas em reunião do Conselho da Unidade Recepção aos bixos Confira os artigos “De Tolstoi à Reforma Curricular: o renascimento de Ivan Ilitch”, por Bruno Leal Página 6 “Privatizar presídios pode salvar o sistema penitenciário brasileiro”, por Fábio Maia Ostermann Página 7 “Tribunais, movimentos sociais e direitos de liberdade”, por Raquel Lima Scalcon Página 7 Calouros têm seu primeiro contato com a Faculdade. Contracapa A Toga - Março de 2009 2 EDITORIAL 60 anos de A Toga: um jornal reconstruído Antes de mais nada, este é um espaço para saudar os novos e os antigos colegas, funcionários e professores da Universidade. O ano letivo de 2009, que ora se inicia, também será um ano de desafios para a comunidade acadêmica da Faculdade de Direito da UFRGS. Exemplificando rapidamente, teremos a implantação de um novo currículo – com todos os problemas burocráticos e operacionais inerentes a mudanças de tal proporção, já sentidos na pele por alguns –, bem como também teremos a discussão sobre a iminente expansão da Faculdade, isso para ficar em apenas dois exemplos. Que estudantes, servidores e professores saibam que encontrarão no Centro Acadêmico André da Rocha um espaço de diálogo aberto e franco, disposto a construir, sempre. Pois bem, feita a saudação, cabe aqui referir que 2009 é o ano da consolidação do Jornal A Toga como o jornal dos estudantes da Faculdade de Direito da UFRGS. Com muito esforço, em 2008 tivemos apenas uma edição deste jornal, no mês de junho – apesar de ter sido programada outra edição para outubro/ novembro. Este ano, planejamos, no mínimo, três edições do Jornal A Toga, sendo a primeira para março (esta que você tem em mãos neste momento), a segunda para o final do primeiro semestre e a terceira para o encerramento da gestão, a partir da metade do segundo semestre. Essa consolidação, além de importantíssima, por garantir um veículo de comunicação eficiente e democrático, é simbólica: em maio deste ano A Toga completa 60 anos de fundação. Fundado em 1949 por Nicanor Luz e José J. Dall-agnol, o Jornal A Toga passou por altos e baixos nos últimos anos. Algumas gestões do CAAR o transformaram em uma espécie de revista, com um viés mais acadêmico, outras gestões fizeram um jornal com outro nome, abandonando “A Toga” e algumas outras sequer editaram jornal algum... Mas, hoje, com esta Edição nº 1, Ano LXI, A Toga se consolida como simplesmente um jornal, na mais simples e corriqueira definição do termo, exatamente como há sessenta anos, quando foi fundado. Temos procurado – e contamos com a ajuda da comunidade acadêmica da Faculdade de Direito – um exemplar do primeiro A Toga para decorar a sede do nosso Centro Acadêmico. Esperamos consegui-lo em breve. Bom, como estamos ressaltando os sessenta anos de história deste jornal, eu me permitirei transcrever, aqui, na íntegra, o primeiro editorial de A Toga, intitulado “O Nosso Jornal”, escrito em maio de 1949 por seu fundador e primeiro diretor, Nicanor Luz, que não poderia ser mais atual: “Motivo, sem dúvida alguma, da mais viva e invulgar satisfação, para nós acadêmicos de Direito, é o aparecimento do nosso jornal. Desde há muito vinha sendo uma lacuna, a ausência de um porta-voz que exprimisse os anseios e as idéias dos estudantes que frequentam a nossa Escola, difícil de preencher. Surge agora este órgão cristalizando o desejo de trabalhar e de realizar algo de proveitoso para nossa faculdade, procurando ir de (sic) encontro aos legítimos interesses e desejos dos acadêmicos de Direito. Ainda que, talvez, se apresente algumas deficiências de ordem jornalística, perdoem-nos, caros colegas, pois, cremos ser de vosso conhecimento, apesar de afastados das lides da Imprensa, as dificuldades e os impecilhos com que se luta para organizar um jornal acadêmico: ausência de fundos monetários, tempo precário, falta de apôio de colegas, etc.; não obstante, anima-nos um só desejo, uma só vontade, a de produzir algo de útil, prestigiando as grandes realizações, difundindo o bom nome de nossa Faculdade, sugerindo a apoiando medidas que venham beneficiar a classe universitária, fortalecendo os vínculos de amizade que unem os colegas de nossas universidades, estimulando o amor ao estudo do Direito e da literatura, evitando cair dentro do terreno das disputas político-partidárias ou divergências de credos religiosos. Será esta a linha de conduta que norteará a direção de nosso jornal. Cumpre-nos, agora, reclamar a colaboração e o decidido apôio de nossos colegas, prestigiando e difundindo o nosso órgão, para que o mesmo tenha uma existência longa e próspera. Nicanor LUZ - Diretor” (extraído de: TILL, Rodrigues. História da Faculdade de Direito de Porto Alegre 1900-2000. Porto Alegre: Martins Livreiro, 2000. Página 635). Um instrumento de informação e de opinião de todos os estudantes. Esse é o compromisso da gestão Construindo o Caminho com o sexagenário Jornal A Toga. *** O leitor encontrará neste número de A Toga reportagem que narra a recepção aos bixos na matrícula presencial ocorrida nos dias 3 e 4 de fevereiro, além de organograma do novo currículo da Faculdade e texto sobre a atual situação da Biblioteca, um semestre depois de o CAAR apresentar relatório expondo os seus principais problemas estruturais. Como pode ser conferido na página 3, muita coisa já mudou. Naturalmente, o leitor também encontrará, como já é de praxe, textos de opinião enviados pelos mais diversos estudantes da Faculdade, sobre assuntos que estão em voga. Também, em vista do aniversário do jornal, as edições deste ano contarão com um símbolo alusivo aos 60 anos de A Toga. A numeração foi reestabelecida, constando no cabeçalho da capa, não apenas o número do exemplar, mas também o ano. E, finalmente, no expediente deste jornal, se fará referência a seus fundadores, Nicanor Luz e José J. Dall-agnol, como se pode conferir no quadro ao lado. Esperamos que a primeira edição deste ano comemorativo informe, recepcione e promova debates entre os colegas estudantes da Faculdade de Direito da UFRGS. *** Por fim, também cabe aqui uma explicação e esclarecimentos acerca da construção deste exemplar de A Toga. A gestão do CAAR para o ano de 2008 (Novos Horizontes) decidiu, dentro de suas atribuições, de certa forma, delegar a uma Comissão Editorial a elaboração do jornal. Tal medida buscava diversificar as opiniões e democratizar a linha editorial. Assim, procedeu-se a indicação de uma comissão para a execução do primeiro exemplar (publicado em junho de 2008). Cumprida a tarefa, estabeleceu-se nova comissão para a execução de outro exemplar, o segundo da Gestão Novos Horizontes, que deveria ter saído em novembro de 2008, mas, por diversos motivos que no momento não vêm ao caso, acabou não saindo. Pois bem, identificando motivos para elaborar um exemplar do jornal ainda nas férias de verão, a nova gestão Construindo o Caminho, desde dezembro, vem montando a edição que hoje o leitor tem em mãos. Precisava-se, pelo menos, publicar o novo currículo em “algum lugar” onde todos os estudantes pudessem vê-lo, acessá-lo. Além disso, precisávamos saudar os colegas, principalmente os calouros, bem como cumprir nossa promessa de publicar no mínimo três edições e comemorar o aniversário de fundação deste jornal. Entendendo que a responsabilidade de elaborar e publicar o Jornal A Toga é da gestão do CAAR, assim o fizemos. Naturalmente, no atual contexto, críticas ferrenhas não faltarão. Virão tanto daqueles que preferem ver uma gestão inerte - que espera, quanto daqueles que assumiram o compromisso de elaborar o jornal em novembro e não cumpriram ou, ainda, simplesmente daqueles que não gostarem desta edição. A gestão Construindo o Caminho cumprirá seu plano de gestão, ao lado dos estudantes. Não pretendemos ficar – e não ficaremos – esperando, trabalharemos. A Comissão Editorial estabelecida pela gestão de 2008 (Novos Horizontes), infelizmente, não cumpriu sua função mesmo não havendo nenhum coordenador eleito nesta comissão e, portanto, estando todos os seus integrantes responsáveis solidariamente pela confecção do jornal. Não se culpa aqui, fulano ou beltrano, não é nossa função. Apenas não deixaremos os estudantes sem as informações importantes que circulam neste jornal. Contudo, entendemos que a crítica é válida. Apesar de estarmos montando este exemplar desde dezembro de 2008, ele poderia, sim, ter contado com a ajuda e a colaboração mais ativa de estudantes que não participam da executiva do CAAR. Tal medida certamente diversificaria opiniões e melhoraria significativamente o jornal. Exatamente por este motivo, para as próximas edições, será designada nova comissão editorial, em Conselho Geral de Representantes, com a missão de elaborar o nº 2, ano LXI do A Toga para o final deste semestre que agora se inicia. Mas, repito, elaborar e publicar este jornal é responsabilidade da gestão eleita para tanto. Não deixaremos de cumprir com a função que os estudantes nos delegaram nas urnas. Saudações acadêmicas, Bruno Irion Coletto, presidente do CAAR. EXPEDIENTE A Toga Jornal dos estudantes da Faculdade de Direito da UFRGS N°1 / ANO LXI / Março de 2009 Comissão Editorial Designada: Bruno Irion Coletto; Bruno Rodrigues da Silva e Raíssa Jeanine Nothaft. Diagramação e revisão: Taís Seibt (acadêmica de Jornalismo). Tiragem: 1.000 exemplares. Impressão: Impresso no Jornal Pioneiro/Grupo RBS. A Toga é uma publicação de responsabilidade do Centro Acadêmico André da Rocha. Os textos assinados são de responsabilidade de seus autores. Fundado por Nicanor Luz e José J. Dall-agnol em maio de 1949. DIRETORIA EXECUTIVA DO CENTRO ACADÊMICO ANDRÉ DA ROCHA: Gestão Construindo o Caminho Presidente: Bruno Irion Coletto (5ºM) Vice-Presidente: Bruno Rodrigues da Silva (5ºM) Secretário-Geral: Francisco Ponzoni Pretto (2ºN) Tesoureiro: José Artigas Leão Ramminger (4ºN) 2º Tesoureiro: Alexandre Casanova Mantovani (2ºM) Secretário Acadêmico: Ezequiel Fajreldines dos Santos (4ºN) Secretaria de Ensino, Pesquisa e Extensão: Elis Marina Barbieri (2ºM); Laura Schmidt Duncan (5ºM) e Gabriela Souza Antunes (2ºN) Ouvidoria Estudantil Manhã: Tássia Cividanes Pazinato (2ºM) e Luiza Cabral Brack (2ºM) Ouvidoria Estudantil Noite: Caroline Alcades Leal (2ºN) e Renan Machado Guimarães (4ºN) Secretaria de Comunicação: Raíssa Jeanine Nothaft (2ºM); Luíza Leão Soares Pereira (2ºM) e Tito Cláudio Moreira (3ºM) Secretaria de Eventos Acadêmicos: Lucas Gerhardt Gavronski (5ºM); Letizia Casaril (5ºM); Letícia Zanevich (2ºN); Luiz Francisco Stefanello Maioli (5ºM) e Kauê Ávila Petry (5ºM) Secretaria de Eventos de Integração: Felipe Matte Russomanno (4ºM); Lucien Carlos Silveira Pires (2ºN); Alexandre Luis Schreiner (3ºM); Regina Biz Eschiletti (2ºN) e Camila Souza Julio (4ºN) Secretaria de Eventos Esportivos: Vitor Arthur Correa Lima (2ºN); Fábio Silveira Rachelle (4ºN); Guilherme Queirolo Feijó (3ºN); Natália Piffero dos Santos (4ºN); Fernanda Menezes Vedana (3ºN) e Mariana Martins Costa Ferreira (3ºN) REPRESENTANTES DISCENTES DE GRADUAÇÃO NOS ÓRGÃOS COLEGIADOS DA FACULDADE DE DIREITO DA UFRGS CONSUNI 1. Ezequiel Fajreldines dos Santos / Elis Marina Barbieri 2. Raíssa Jeanine Nothaft / Lucas Gerhardt Gavronski COMGRAD 1. Elis Marina Barbieri / Bruno Rodrigues da Silva 2. Tássia Cividanes Pazinato / Laura Schmidt Duncan 3. Alexandre Peinado Praetzel Porto / Fábio Balestro Floriano COMEX 1. Gabriela Souza Antunes / Caroline Alcaldes Leal COMPESQ 1. Raíssa Jeanine Nothaft / Laura Schmidt Duncan DIR 1 1. Natália Piffero dos Santos / Renata Dapper Santos 2. Bruno Irion Coletto / Felipe Matte Russomanno 3. Greice Redlich de Souza / Luiza Massia Osório DIR 2 1. Ezequiel Fajreldines dos Santos / Luiza Cabral Brack 2. Laura Schmidt Duncan / Elis Marina Barbieri 3. Alexandre Casanova Mantovani / Bruno Rodrigues da Silva 4. Francisco Ponzoni Pretto / Renan Machado Guimarães 5. Alexandre Peinado Praetzel Porto / Greice Redlich de Souza 6. Vitor Albuquerque Guimarães / Pedro Almeida Rodrigues 7. Bruno Scalco Franke / Lucas do Nascimento 8. Thiago Calsa Nunes / Aline Amaral da Silva DIR 3 1. Bruno Rodrigues da Silva / Tássia Cividanes Pazinato 2. Raíssa Jeanine Nothaft / Bruno Irion Coletto 3. Caroline Alcaldes Leal / Ezequiel Fajreldines dos Santos 4. Fábio Balestro Floriano / Alexandre Peinado Praetzel Porto 5. Luiza Rocha Lima / Bruno Scalco Franke 6. Gabriela Porto Fernandes / Ronaldo Luiz Kochem DIR 4 1. Tássia Cividanes Pazinato / Kauê Ávila Petry 2. Bruno Irion Coletto / Eduardo Miguel Serafini Fernandes 3. Samuel Sganzerla / Fernanda Portela de Oliveira 4. Pedro Almeida Rodrigues / Luiza Rocha Lima SPPP 1. José Artigas Leão Ramminger / Bruno Irion Coletto COMBIB 1. Bruno Rodrigues da Silva / Rafael Cecagno NAU 1. Francisco Ponzoni Pretto / Alexandre Casanova Mantovani A Toga - Março de 2009 3 Uma biblioteca melhor hoje do que era ontem, e ainda melhor amanhã Ezequiel Fajreldines dos Santos* A O ciclo de melhorias na Biblioteca da Faculdade de Direito desencadeado no ano passado com a apresentação do relatório produzido pelo CAAR - Relatório Biblioteca¹ - à Direção e aos demais estudantes continua se perpetuando e gerando frutos. Ponto decisivo para o início desse ciclo, juntamente à substituição da antiga bilbiotecária-chefe que ocupou o cargo por mais de 15 anos, foi a instauração da Comissão de Biblioteca (COMBIB). A Comissão e a nova chefia não têm apenas discutido e implementado mudanças, mas principalmente têm pensado o espaço da Biblioteca e planejado sua reformulação para melhor servir às necessidades dos estudantes e professores. Confira agora algumas dessas modificações já implementadas, bem como alguns dos projetos em andamento: O Relatório Biblioteca apontava como um dos principais problemas a administração relapsa e a insuficiência de recursos humanos. Conforme mencionado, a Sra. Naila T. Lomando deixou o posto de chefia o qual foi assumido em caráter emergencial pela Assessora da Direção e também bibliotecária, Sra. Maria da Graça Lima Corrêa, e, posteriormente, pela mestre em biblioteconomia Sra. Celina Leite Miranda. Assim, devido aos esforços da nova chefia, a Biblioteca que por muitos anos contava apenas com duas bibliotecárias, dois funcionários e nenhum estagiário, hoje possui cinco bibliotecárias – e previsão para a vinda de uma sexta, dois funcionários e cinco bolsistas. Essa melhoria da gestão e o aumento do quadro de pessoal possibilitaram uma maior agilidade no processamento e catalogação dos livros, bem como o aproveitamento de verbas que antes se perdiam para a aquisição de novas obras. A título de exemplo, durante essas últimas férias foram adquiridos cerca de 100 novos livros de bibliografia básica, os quais todos já se encontram em catalogação – algo que seria impensável há pouco menos de um ano. Importante destacar também que, junto ao processamento e catalogação, agilizou-se a colocação nos livros da fita de segurança referente ao sistema de alarme da Biblioteca, constituindo importante medida no combate ao problema histórico do furto de obras. Outra conquista foi a efetiva implementação em nossa Biblioteca do sistema de pagamento de multas oficial da UFRGS. Os pagamentos não contabilizados no balcão – ou, pelo menos, cuja prestação de contas era inexistente – de outrora não acontecem mais. Agora todas as multas por atraso são pagas diretamente à conta única da Universidade, através da emissão de uma Guia de Recolhimento da União (GRU) – consulte quadro abaixo para ver o procedimento correto. O que, à primeira vista, parece uma inconveniência facilmente se percebe como uma medida necessária à uniformização da nossa Biblioteca ao sistema de bibliotecas da UFRGS e, principalmente, como uma garantia ao estudante de que os valores das multas serão verdadeiramente revertidos em investimentos na Biblioteca. Ademais, é justamente pensando na conveniência que o sistema prevê o pagamento da GRU pela internet e/ou em qualquer agência bancária. Ainda, cumpre mencionar outras melhorias que muitos dos frequentadores da Biblioteca já perceberam - a aquisição de três novos computadores no final do ano passado, através do Programa de Pós-Graduação em Direito da UFRGS (PPGDir), e a implementação gradual de uma classificação trilíngue do acervo. Quanto aos projetos em andamento, destacase o do Setor de Obras Raras. A idéia consiste na criação de um setor separado em nossa Biblioteca através de divisórias de vidro similares às das salas de estudo da Biblioteca Depositária da ONU. Esse setor conterá boa parte das obras que, à época do Relatório, encontravamse “escondidas” nas salas administrativas da Biblioteca, sem qualquer organização ou sequer cuidados mínimos de conservação, bem como demais publicações de datas antigas que hoje estão espalhadas pelo acervo. Assim, não só a conservação dessas raridades seria muito mais adequada como elas ficariam à vista de todos e, principalmente, pela primeira vez em longos anos, poderiam ser acessadas por pesquisadores da graduação e pós-graduação. É evidente, contudo, que tal acesso será diferenciado – será definido um procedimento específico, levando em conta o estado delicado e o valor inestimável de muitos desses livros. Outra iniciativa que tem por objetivo a preservação não só das obras raras, mas do acervo como um todo é a colocação do arcondicionado. Como muitos já devem ter notado, a estrutura metálica de suporte aos aparelhos, localizada na parede de trás da Biblioteca, está em fase final de construção. Dessa forma, uma vez terminada a estrutura, esperamos que finalmente sejam instalados os ar-condicionados que hoje se encontram amontoados no 1º piso da Faculdade. Com efeito, o envio de livros que hoje se encontram misturados ao restante do acervo ao Setor de Obras Raras possibilitaria uma reorganização do espaço da Biblioteca. O remanejamento de estantes, que já pode ser notado pelos frequentadores do local, abrirá ORIENTAÇÕES PARA PREENCHIMENTO DA GUIA DE RECOLHIMENTO DA UNIÃO E PAGAMENTO DA TAXA: 1. Acessar a página da UFRGS: www.ufrgs.br . 2. No menu à esquerda, selecionar a opção “Serviços”. 3. Selecionar “Guia de Recolhimento da União”. 4. Preencher seu nome no campo Nome, como indicado no modelo. 5. Informar o número do seu CPF. 6. Preencher com “1” o campo Parcela. 7. Preencher o campo Vencimento conforme o modelo, com a data em que pretender fazer o pagamento (dd/mm/aaaa). 8. Informar o Valor [do] Documento (seu débito) e, no campo Multa, manter os zeros (0,00). 9. No campo Descrição do Recolhimento, selecionar: Serviços Administrativos... 10. Unidade Gestora, selecionar a Biblioteca: 153322 – Faculdade de Direito. 11. Adicionar observações a seu critério. 12. Em seguida, clicar em Emitir DOC de Pagamento. - O DOC (boleto) emitido poderá ser pago pela Internet ou impresso e pago em qualquer agência bancária, até o vencimento. - Após efetuado o pagamento, comparecer à Biblioteca onde foi gerado o débito, juntamente com o Comprovante de Pagamento, e regularizar sua situação. - Importante: a Biblioteca só poderá acusar, no sistema, a quitação de débito, quando receber o comprovante de que foi efetuado o pagamento. - Qualquer dúvida, ligar para o telefone: 3308-3480. Baseado no guia elaborado pela Biblioteca da Faculdade de Veterinária da UFRGS (BIBVET). Elaborado pela Chefia da Biblioteca da Faculdade de Direito da UFRGS. lugar para a expansão e criação de novos espaços de leitura mais qualificados que os atuais. Planeja-se, no mínimo, duplicar o número de assentos em bancadas ou mesas de leitura da Biblioteca. Seguindo-se essa linha da reformulação do espaço e também para a adequação às exigências do Ministério da Educação, há ainda o projeto de implementação de um Laboratório de Informática dedicado aos pesquisadores da graduação e pós-graduação em nossa Biblioteca. O Laboratório consistiria em duas bancadas, contendo de 16 a 18 computadores ao total. Esse “acervo de informática” será composto, inicialmente, pelos computadores atuais da Biblioteca – alguns seriam modernizados – bem como novas aquisições. Espera-se, já para o mês de março, a obtenção de cinco novos computadores através do PPGDir. Dessa forma, nossa Biblioteca poderá se tornar um verdadeiro Laboratório de Pesquisa, no qual os estudantes, principalmente os mais jovens, poderão consultar às obras e redigir seus trabalhos sempre contando com o auxílio e orientação das bibliotecárias de plantão. Ademais, também é importante mencionar o projeto de um novo balcão de atendimento para a Biblioteca. O objetivo é criar um espaço onde mais funcionários possam trabalhar e que ofereça maior qualidade de atendimento. O novo balcão teria a altura de mesa ou escrivaninha, possibilitando não só que as pessoas sentem enquanto estão sendo atendidas como facilitaria o atendimento aos usuários portadores de necessidades especiais. Em conclusão, por mais louváveis que sejam as iniciativas aqui relacionadas é claro que nossa Biblioteca está muito aquém da infraestrutura desejada ou mesmo da necessária, principalmente quando a analisamos sob a perspectiva da expansão de vagas do REUNI. Todavia, a diferença em relação ao passado recente é abissal. Logo, podemos tirar uma lição de todo esse processo: é de todos a responsabilidade de construir a Biblioteca que queremos. É pelos estudantes e por causa dos estudantes que a Biblioteca é melhor hoje do que era ontem e, com certeza, será ainda melhor amanhã. * Acadêmico do 4º ano/noite Secretário Acadêmico do CAAR NOTA: 1 - Relatório apontando as deficiências e irregularidades da Biblioteca entregue ao Diretor Prof. Sérgio Porto no dia 5 de maio de 2008 e posteriormente divulgado no Jornal A TOGA. Disponível em http://www6.ufrgs.br/ caar/wp-content/uploads/relatorio-da-biblioteca.pdf. Algumas vantagens do novo sistema: - O usuário pode quitar sua dívida pela Internet; - Elimina a circulação de valores monetários na Biblioteca; - Reduz a responsabilidade dos operadores do SABi (Sistema de Automação de Bibliotecas) tanto no recebimento, quanto na guarda provisória e no transporte dos valores, agora transferidos ao sistema bancário, criado, preparado e aparelhado para tal; - Traz mais segurança pessoal e patrimonial ao ambiente; - Oficializa e traz transparência às contas públicas; - E limina o fe chamento de caixa, parcial e diário, de cada operador que, individualmente, intermediava as transações, reduzindo-o para uma prestação de contas apenas, total e anual. Fonte: Biblioteca da Faculdade de Direito 4 A Toga - Março de 2009 O novo currículo da Faculdade de Direito da UFRGS No ano passado, o Conselho da Unidade, órgão máximo da Faculdade de Direito, aprovou uma importante reforma curricular, juntamente com um Projeto Didático-Pedagógico para o nosso curso. Como o currículo novo ainda não foi completamente implementado no sistema da UFRGS, o CAAR traz, em primeira mão, a íntegra do novo currículo, em organograma organizado por José Artigas Leão Ramminger. Confira: OBSERVAÇÕES: - Elaborado por José Artigas Leão Ramminger (acadêmico do 4º ano/noite, tesoureiro do CAAR). - As barrinhas cinzas abaixo de cada disciplina indicam o número de créditos da cadeira. - Algumas cadeiras podem ter um determinado número de créditos como pré-requisito. - Como o currículo ainda não foi completamente implementado no sistema, podem ocorrer equívocos na linha de pré-requisitos. - Confira a íntegra do projeto didático-pedagógico em: http://www6.ufrgs.br/caar/wp-content/uploads/projeto-didaticopedagogico.pdf A Toga - Março de 2009 5 Reforma curricular do curso de Direito Conquista do diálogo e do reconhecimento entre docentes, discentes e técnicos-administrativos Bruno Irion Coletto* A provada a reforma curricular da Faculdade de Direito e vencido o tabu sobre o tema, necessário se faz consolidar os aprendizados adquiridos em todo o debate. De todas as reuniões, discussões e articulações políticas se retiram três simples lições: 1, com diálogo entre os estudantes é possível haver uma atuação conjunta dos representantes discentes; 2, uma mudança tão representativa para a nossa f a c u l d a d e , como é uma reforma do currículo, somente é possível com diálogo e atuação conjunta de toda a comunidade acadêmica (docentes, discentes e técnicos-administrativos) e 3, atualizar o currículo é uma constante construção que sempre está atrasada. No mínimo, desde o ano de 2005, quando ingressei nesta Faculdade, fala-se em “Reforma Curricular”. Àquela época, logo após a entrada em vigor do (hoje já não tão novo) Código Civil, identificavam-se lacunas e falhas no currículo. Além das desatualizações materiais, a Faculdade estava com a corda no pescoço, pois havia determinação do MEC de que se atualizasse o currículo até 2006. Nesse contexto, formou-se, então, uma comissão no âmbito da Comissão de Graduação (COMGRAD) que estudava a questão e que, ao fim daquele ano, apresentou uma proposta de Reforma Curricular. Como se sabe, pelos mais diversos motivos, a proposta acabou não sendo aprovada pelo Conselho da Unidade. Desde então, havia um certo tabu e uma postura demasiadamente conservadora em relação à reforma (tanto dos docentes quanto dos discentes). Após a rejeição daquela proposta, o prazo estipulado pelo MEC estourou e estávamos em mora. Assim, nos últimos dois anos, a COMGRAD se viu obrigada a reativar a discussão da Reforma Curricular designando uma Subcomissão composta por professores e estudantes para tratar do tema. Entretanto, somaram-se às preocupações da comissão (que eram a desatualização material do currículo e o descumprimento do prazo estipulado pelo MEC) a aprovação da expansão das vagas na Faculdade de Direito por força do REUNI e a notícia de que haveria uma visita do MEC na Faculdade para a avaliação do curso. Com os simples objetivos de atualizar o currículo, de preparar a estrutura curricular para uma nova realidade com o aumento do número de alunos e de deixar a Faculdade pronta para a visita do MEC é que a Subcomissão passou a se reunir quinzenalmente. Sempre com as portas abertas, a Subcomissão conseguiu, durante o seu primeiro ano de atuação, discutir e consolidar algumas diretrizes. E isso só foi possível pela participação dos três segmentos da comunidade acadêmica (docentes, discentes e técnicos-administrativos) nos debates. Contouse com a presença de chefes de departamento, de professores membros da COMGRAD e do Núcleo de Avaliação da Unidade (NAU), de ex-diretores da Faculdade, de representantes discentes, de membros do CAAR, de estudantes interessados no assunto, de funcionários da Faculdade e de funcionários da Pró-Reitoria de Graduação. Foi com essa diversidade e pluralidade de pontos de vista que propostas ganharam corpo. Construídos consensos no âmbito da Subcomissão passou-se a elaboração de um Projeto Didático-Pedagógico (inexistente até então). Com receio de que o tabu sobre o tema afundasse a reforma, levou-se à COMGRAD e ao Conselho da Unidade a proposta de Projeto Didático-Pedagógico sem a discussão de disciplinas especificamente. O objetivo era estabelecer um local comum onde todos pudessem trabalhar e apresentar propostas. A minuta deste projeto foi aprovada pelo Conselho da Unidade em 13 de agosto de 2008 e apontou os holofotes de todos para a Reforma Curricular (ressalte-se que a discussão da grade curricular propositalmente ainda não havia começado). Com isso, a Subcomissão alcançou o objetivo esperado: toda a Faculdade de Direito passou a discutir o tema em cima de uma base comum e realista, fato que trazia a esperança de que uma reforma que cumprisse as determinações do MEC, atualizasse o defasado currículo e preparasse a Faculdade para o REUNI era mesmo possível. A partir daí as discussões fluíram. A Subcomissão apresentou uma proposta de grade curricular; os departamentos marcaram reuniões para discutir a questão; os estudantes, por meio do CAAR, organizaram-se e definiram suas propostas; a COMGRAD, em duas reuniões abertas, com a presença dos chefes de departamentos, dos professores interessados, da representação discente, do CAAR e de diversos estudantes interessados no tema, em cima da proposta da Subcomissão, aprovou uma grade para ser apreciada pelo Conselho da Unidade; e o Conselho da Unidade, em 24 de setembro de 2008, após horas de discussão, finalmente aprovou uma nova Grade Curricular juntamente com o texto final do Projeto Didático-Pedagógico (confira a íntegra do Projeto Didático Pedagógico com a nova Grade Curricular em www.ufrgs.br/caar). Mas, vencida essa etapa, após a aprovação do novo currículo, ficam pendentes algumas questões que precisam ser debatidas pela comunidade acadêmica, e, em especial, pelos estudantes: por que desta vez a reforma saiu do papel? As propostas e os pleitos dos estudantes foram atendidos? Conseguiu-se atingir os objetivos propostos inicialmente? E, afinal, melhoramos ou pioramos? DIÁLOGO Pois bem, ao que tudo indica, a Reforma Curricular saiu do papel em função do diálogo dos três segmentos que formam a comunidade acadêmica. E, aqui, com uma particularidade: não foi apenas o diálogo entre os três segmentos que foi importante, mas também o diálogo interno dos três segmentos entre si. A Reforma Curricular realizada neste ano não se tratou apenas de uma negociação política entre segmentos corporativistas que negociaram em bloco, já que, antes disso, houve um processo de discussão, amadurecimento e reconhecimento das demandas comuns da faculdade, onde professores, estudantes e servidores tinham clareza (em maior ou menor grau, naturalmente) do que precisava ser mudado e de qual era a postura coletiva do seu segmento. Os professores estavam cientes de seu papel e das demandas que precisavam atender, assim como os estudantes discutiram amplamente suas posturas e suas bandeiras. Somando-se a isso, ouviram-se as sugestões e idéias dos técnicos-administrativos que conhecem mais do que ninguém as dificuldades diárias relacionadas com o currículo. Tal aspecto levou a uma discussão pontualizada e objetiva que – sem posturas corporativistas de segmentos e sem grandes digressões ou idéias revolucionárias – efetivamente conseguiu sair do papel. Outro aspecto importante que levou à aprovação do novo currículo, intrinsecamente ligado ao que foi dito acima, foi a atuação conjunta e paritária dos três segmentos. Houve “reconhecimento” (no sentido dado por Nancy Fraser) entre os interlocutores. Todas as propostas e manifestações, independentemente do seu interlocutor, foram estudadas e apreciadas. Ou seja, levou-se em consideração as manifestações de qualquer interessado no assunto, principalmente dos próprios estudantes. Tal reconhecimento se deveu à atuação séria e comprometida da representação discente construída nos últimos cinco ou seis anos, pelo menos. Assim, mostrou-se que, independentemente da posição na academia, todos podem ter (e têm) opinião e idéias sobre os assuntos colocados em pauta. Talvez o grande exemplo disso seja o fato de não ter havido votação em bloco (cada segmento em um sentido sem um real debate do problema) o que era raro de se ver há alguns anos nas instâncias da nossa Faculdade. Cada vez mais as comissões e conselhos desta Faculdade têm se mostrado como um espaço preparado para o debate democrático, no qual não existem professores, estudantes e servidores, mas apenas “conselheiros” ¹. Já, em relação às propostas dos estudantes elas foram, em sua grande maioria, atendidas pela reforma. Com efeito, cabe recordar que o tema foi discutido em inúmeras listas de e-mails e levado ao CAAR pelos representantes de turma, houve um Conselho Geral de Representantes (CGR) ampliado, realizado no Salão Nobre, com pauta específica para discutir a reforma curricular e consolidar o posicionamento dos estudantes, além das reuniões ordinárias da gestão onde também se discutiu a reforma curricular. Assim, pode-se citar, como exemplo de conquista, a expansão de algumas matérias como Direito Constitucional e Processo Civil; a inclusão como obrigatória de Direito do Consumidor e de Direito Ambiental; a criação da disciplina de Responsabilidade Civil; o deslocamento de Metodologia do Trabalho Científico para o final do curso, permitindo um auxílio mais detalhado aos alunos que irão elaborar a monografia de conclusão; a integração e a sincronização das disciplinas de práticas e de estágio; o aumento do número de disciplinas eletivas necessárias para a conclusão do curso, permitindo uma maior flexibilidade curricular ao discente; a desoneração do último semestre do curso; a redução das disciplinas de Direito Comercial e sua atualização, transformando-se em Direito Empresarial e permitindo a inclusão de outros temas que não eram contemplados no currículo anteriormente, etc. Naturalmente, não foram atingidos todos os objetivos propostos inicialmente. Tampouco se fez uma grande reforma no currículo. Há quem diga, inclusive, que não se tratou de reforma, mas sim de reformulação, ou, meramente, atualização. Aqui é importante ter em mente que não se conseguiu diminuir significativamente o número de disciplinas com dois créditos (dando-se preferência à disciplinas de quatro créditos, que facilitariam a administração dos departamentos e da COMGRAD); também não se conseguiu realmente diminuir o número de disciplinas obrigatórias, flexibilizando o currículo e transformando o discente em protagonista de sua própria formação; assim como não se conseguiu a utilização de um número maior de disciplinas alternativas no final do curso, abrindo o leque de oportunidades aos discentes mais adiantados na graduação. Com certeza, críticas não faltarão, o que é ótimo, diga-se de passagem. Entretanto, fato é que conseguimos atualizar o nosso currículo, conseguimos vencer algumas batalhas históricas (como a de Responsabilidade Civil, Direito Constitucional e Direito do Consumidor, por exemplo), conseguimos racionalizar um pouco sua administração já pensando na expansão e no aumento de vagas, conseguimos cumprir as determinações do MEC e ter um currículo compatível com as diretrizes curriculares nacionais em vista da iminente visita dos avaliadores do MEC, conseguimos estabelecer um diálogo franco, aberto e institucional entre os três segmentos da comunidade acadêmica e, acima de tudo, enxergamos que o currículo se constrói e se reconstrói dia-a-dia havendo a necessidade permanente de discuti-lo e atualizá-lo. Enfim, após praticamente dois anos de discussões desta Subcomissão da COMGRAD, fica, pelo menos, um ensinamento: sim, nosso novo currículo ficou melhor que aquele que tínhamos ontem, mas, com certeza, está pior do que o que teremos amanhã. * Acadêmico do 5º ano/manhã, Presidente do CAAR. Membro da Subcomissão para a Reforma do Currículo. NOTA: 1 - Não se entrará, aqui, na questão da paridade de representação nos órgãos colegiados da universidade ou na paridade nas eleições para reitor e diretor. Mas, fato é que o trabalho sério, competente e comprometido da representação discente, construído ao longo do tempo, tem mostrado que o argumento da inexperiência dos discentes vai por água abaixo. Indubitavelmente esta Faculdade tem sido administrada (ainda que não tão democraticamente) pelos três segmentos e a paridade parece ser uma consequência natural. A Toga - Março de 2009 6 De Tolstoi à Reforma Curricular: o renascimento de Ivan Ilitch Bruno Leal* O conde Lev Nicolaevich Tolstoi consagrou-se como representante i m or t a l d a l it e r at u r a r u s s a , destacando-se pela narrativa riquíssima e expansiva, bem como pelo acurado esboço de alguns traços peculiares ínsitos ao ser humano. As contingências da humanidade, aliás, não só foram objeto de sua literatura, como mote de sua existência: no decorrer dos seus 82 anos, sua vida foi permeada pela indecisão e angústias comuns a todos nós. (1) Impossível desmerecer os monumentais Guerra e Paz (1865-1869) e Anna Karenina (1877-1879), contudo, a obra do gênio russo que aqui nos interessa é a não menos fascinante novela “A Morte de Ivan Ilitch” (1886), cujo enredo narra, em pouco mais de 70 páginas, a ascensão e derrocada de um magistrado, pai de família, anfitrião social, e, acima de tudo, de um homem, na acepção mais crua do conceito. Em que pese a excelência com que Tolstoi utiliza a figura de Ilitch para proceder à sua crítica moral, um trecho, em especial, chamou-nos a atenção: “Sabia que era membro de uma Corte de Apelação, que possuía uma barba grisalha e que, por conseguinte, isso seria impossível. Mas mesmo assim continuava a desejá-lo. [...] Ivan Ilitch queria chorar, queria que o acariciassem e lhe chorassem a sorte, mas eis que entra um colega seu – Schebeck; e em vez de chorar e de mostrar-se comovido, Ivan Ilitch assume uma expressão séria, severa, concentrada, e expõe por inércia a sua opinião sobre a importância da Corte de Cassação, insistindo teimosamente nela”. (2) Essa imagem humana retratada, enquanto ponto de partida – e de possível chegada – proposto nesta reflexão, merece um desenvolvimento histórico. O apogeu histórico da importância do Direito como regulador da vida social, como é cediço desde as primeiras aulas na Graduação, em apertada síntese, pode ser apontado como sendo o começo do século XIX, sob a forte influência do racionalismo iluminista e o advento do Código Napoleônico, em 1804. O surgimento da figura do “Codex” coroa um longo processo histórico-evolutivo, culminando o monopólio da regulação da ordem social pelo Estado, o qual avoca para si a responsabilidade de trazer a solução necessária aos conflitos entre os seus nacionais. A contrapartida desse monopólio do uso da força corresponde ao amplo acesso à Justiça, concretizado na figura do juiz-Estado, o qual, por ter vedado a solução particular de conflitos, comprometeu-se a atender a todos os que precisassem dessa mesma força. A figura do magistrado, prestador da tutela jurisdicional prometida pelo Estado (3), todavia, encontra sua esfera de ação coarctada pelas balizas que lhe estabelece a lei, a qual, por sua vez, padece – na sua gênese e ainda hoje – do vício do enrijecimento. (4) Acresce-se ao “engessamento” da legislação uma formação jurídica ainda apegada a padrões didáticos - e dogmáticos – que remetem à época da codificação. O panorama a respeito da tradicional formação jurídica dos magistrados é sintetizado por Boaventura de Sousa Santos, em recente obra, onde o autor arrola algumas características principais: “Domina uma cultura normativista, técnico-burocrática, assente em três grandes idéias: a autonomia do direito, a idéia de que o direito é um fenômeno totalmente diferente de tudo o resto que ocorre na sociedade e é autônomo em relação a essa sociedade; uma concepção restritiva do que é esse direito ou do que são os autos aos quais o direito se aplica; e uma concepção burocrática ou administrativa dos processos”. (5) Estab elecido ess e quadro, avulta o contraste entre os dois elementos de ação do Poder Judiciário – juízes e legislação - com uma sociedade que, não bastasse ser avessa à regulamentação exaustiva dos Códigos, apresenta-se, hodiernamente, multifária e incompreensível aos magistrados “adestrados” em uma ótica silogística. Não se está aqui, evidentemente, a advogar o afastamento do operador do Direito em relação aos legítimos limites impostos pela legislação, senão salientar que se partirmos da premissa de que o Direito é, eminentemente, interpretação, é mister que se disponham de bons – ou melhores - intérpretes, em sintonia com a sociedade em que se situam, mais familiarizados com dimensões mais zetéticas (6) da ciência jurídica. Aqui, é mister frisar, também o conceito de interpretação jurídica encontra-se alterado, migrando-se do vetusto conceito de “investigar o verdadeiro sentido de uma lei escura, ou ambígua, deduzindo-o simultaneamente das suas palavras, da sua razão” (7) à interação entre intérprete, norma e fato. (8) Na senda dessas reflexões, quer parecernos de profunda valia as modificações introduzidas na formatação da nova grade curricular aprovada: a introdução de cadeiras como “Introdução às ciências sociais”, no 1º semestre; “Responsabilidade civil” no 4º semestre; “Direito Ambiental (nacional e internacional)” no 8º semestre parece, a nosso ver, um avanço no sentido de um currículo formador de operadores que estarão aptos a dialogar com a realidade sobre a qual devem atuar. Em cooperação com as disciplinas que já oportunizam a mesma sorte de estímulo – como a Filosofia do Direito e a Sociologia do Direito -, as disciplinas acima arroladas parecem encaminhar os estudantes rumo a uma formação filosófica mais humanista, além da preparação dogmática (a qual, importante frisar, não foi esquecida: foram acrescidos, a título exemplificativo, mais um semestre no estudo das disciplinas de Direito Constitucional e Direito Processual Civil). É justamente tal perspectiva humanista dos magistrados - capazes de enxergar e lidar com aspectos sociológicos e filosóficos dos casos com que lidam, exercendo a legítima função de ceux qui gardent les valeurs sociales (9) – que entendo ser o exemplo ofertado por Ivan Ilitch: não um sentimentalismo que, em uma leitura apressada, possa transparecer do trecho, senão a feição de um magistrado cônscio da sua própria humanidade e pertinência ao grupo social dentro do qual atua. Imbuído de tal espírito, e, principalmente, dispondo de uma formação que possibilite tal postura, parece-nos que o exercício do poder jurisdicional poderá encaminhar-se a melhores rumos. Certo é que não dispomos de uma equação miraculosa, a garantir qualquer resultado infalível; contudo, esboça-se uma interessante “receita” (10) , a qual pode, talvez, atribuir aos futuros magistrados a possibilidade de, sem que se distanciem dos parâmetros jurídicos de sua atuação – sem deixar de reconhecer a seriedade e importância da Corte de Cassação –, sentenciar com a serenidade de quem julga semelhantes, partícipes de uma mesma sociedade, os quais – tal como quem julga - também choram. * Acadêmico do 4º ano/manhã. LEIA NO SITE DO CAAR: NOTAS: 1 - UNTERMEYER, Louis. Os Forjadores do Mundo Moderno. São Paulo: Fulgor, 1966. p. 143. Volume II. 2 - TOLSTÓI, Leon. A Morte de Ivan Ilitch. Traduzido do russo por Gulnara Lobato Pereira. São Paulo: Martin Claret, 2005. p. 61. 3 - “A função judicial corresponde a uma das três principais funções dos Estados. Organizando a justiça, para que se decidam os conflitos, para que se estabeleça a paz entre os indivíduos, ou entre indivíduos e grupos, duplo é o papel que o Estado assume: (a)realizar o direito objetivo, isto é, quando a lei, que incidiu num caso, não foi aplicada, aplicala, para que incidência e aplicação coincidam; (b) dirimir as contendas, que perturbariam a ordem social e levariam para o campo da força bruta a solução das divergências entre indivíduos e grupos, ou entre grupos”. Conferir PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Comentários ao Código de Processo Civil. 3.ed. Atualização legislativa de Sergio Bermudes. Rio de Janeiro: Forense, 1995. p. 192. Tomo II. 4 - “O velho pluralismo vai sendo substituído por um rígido monismo: a ligação entre direito e sociedade, entre direito e fatos econômico-sociais emergentes, é ressecada, enquanto se realiza uma espécie de canalização obrigada. [...]. O direito já se contraiu na lei: um sistema de regras autoritárias, de comandos que foram pensados e desejados como abstratos e sem elasticidade, insindicáveis no seu conteúdo, já que não é da qualidade desse, mas da qualidade do sujeito legislador que tiram a própria autoridade.”. Vide GROSSI, Paolo. Mitologias jurídicas da Modernidade. Traduzido por Arno Dal Ri Júnior. Florianópolis: Boiteux, 2004. p. 46. 5 - SANTOS, Boaventura de Sousa. Para uma Revolução Democrática da Justiça. São Paulo: Cortez, 2007. p.68. 6 - Valho-me, aqui, da distinção esposada por Theodor Viehweg, respaldada pelo professor Tércio Sampaio, o qual descreve: “O campo das investigações zetéticas do fenômeno jurídico é bastante amplo. Zetéticas são, por exemplo, as investigações que têm como objeto o direito no âmbito da Sociologia, da Antropologia, da Psicologia, da História, da Filosofia, da Ciência Política etc. Nenhuma dessas disciplinas é especificamente jurídica. Todas elas são disciplinas gerais, que admitem, no âmbito de suas preocupações, um espaço para o fenômeno jurídico. Na medida, porém, em que este espaço é aberto, elas se incorporam ao campo das investigações jurídicas, sob o nome de Sociologia do Direito, Filosofia do Direito, Psicologia Forense, História do Direito etc. [...] Por exemplo, para o sociólogo do Direito a questão de se saber se funcionário público pode ou não fazer greve é uma questão aberta, na qual a legislação sobre o assunto é um dado entre outros, o qual pode ou não servir de base para a especulação. Sem compromisso com a solução de conflitos gerados por uma greve de fato, ainda que legalmente proibida, o sociólogo se importará com outros pressupostos, podendo, inclusive, desprezar a lei vigente como ponto de partida para explicar o problema”. Vide FERRAZ JUNIOR, Tercio Sampaio. Introdução ao Estudo do Direito.Técnica, Decisão, Dominação. São Paulo: Atlas, 1989. p. 44. 7 - LOUREIRO, Lourenço Trigo de. Instituições de Direito Civil Brasileiro. 4.ed. Rio de Janeiro: B.L.Garnier, 1871. p.29. Tomo I. 8 - “O intérprete não é um criador ex nihilo; ele produz a norma, sim, mas não no sentido de fabricá-la, porém no de produzi-la. O produto da interpretação é a norma. Mas ela já se encontra, potencialmente, no invólucro do texto normativo. [...] a norma encontra-se, em estado de potência, involucrada no texto. Mas ela se encontra assim nele involucrada apenas parcialmente, porque os fatos também a determinam – insisto nisso: a norma é produzida, pelo intérprete, não apenas a partir de elementos que se desprendem do texto (mundo do dever-ser), mas também a partir de elementos do caso ao qual será ela aplicada, isto é, a partir de elemento da realidade (mundo do ser). [...] O intérprete discerne o sentido do texto a partir e em virtude de um determinado caso dado; a interpretação do direito consiste em concretar a lei em cada caso, isto é, na sua aplicação [Gadamer]”. Vide GRAU, Eros Roberto. Ensaio e Discurso sobre a Interpretação/Aplicação do Direito. São Paulo: Malheiros, 2002. p.22-25 passim.Grifos nossos 9 - GARAPON, Antoine. Le gardien des promesses: le juge et la démocratie. Paris: Odile Jacob, 1996. p. 142. 10 - “A receita é priorizar o estudo da Filosofia, da Hermenêutica, da Teoria da Argumentação, da Lógica, da Sociologia, da Psicologia, da Economia, da História, da Política. O desafio é treinar o raciocínio abstrato para a solução de questões concretas. [...] O juiz precisa ter consciência da repercussão de sua decisão no âmbito da sociedade em que atuar. Não vale mais o faça-se o direito e pereça o mundo”. Vide NALINI, José Renato. A Formação do Juiz após a Emenda à Constituição n.º 45/04. In: Revista da Escola Nacional da Magistratura. Ano 1. Número 01. Brasília: Escola Nacional da Magistratura, 2006. p.21. - “Sobre malandros e militares” e “O CAAR e a Fraternidade”, por Ramiro Ávila Peres - “Avançar no debate sobre feminismo no Brasil”, por Gabriela Porto - “O Cândido na faculdade de Direito”, por Felipe Moraes www.ufrgs.br/caar ENVIE SEU ARTIGO PARA [email protected] A Toga - Março de 2009 7 Privatizar presídios pode salvar o sistema penitenciário brasileiro Fábio Maia Ostermann* É isso mesmo. Até porque, pior do que está, é difícil de ficar. Mas é bom consolidar alguns pontos, preliminarmente. Privatização de presídios não significa fazer um leilão em que a empresa vencedora leva o estabelecimento penal de “porteira fechada” (isto é, com todos os presos junto). Nem se aplica apenas a “presídios” - estabelecimentos penais destinados à custódia de presos provisórios. A palavra “privatização” referese ao ato de reduzir o papel do governo, ou de dar maior importância ao setor privado, numa atividade ou na propriedade de bens. No caso, trata-se da delegação à iniciativa privada de atividades penitenciárias (mal) exercidas pelo poder estatal. Experiências nesse sentido já existem em países tão diversos como Estados Unidos, Bulgária, Alemanha, Chile, México, Irlanda, Israel, Escócia, Canadá, Austrália e Peru. O Brasil teve sua primeira experiência em 1999, com a Penitenciária Industrial de Guarapuava, no Paraná. A despeito dos surpreendentemente baixos índices de reincidência criminal dos egressos desta penitenciária (cerca de 10%, comparados com a média nacional de 70%) e dos visíveis incrementos em termos de respeito aos direitos humanos dos presos (eles são seres humanos, lembra?!), o contrato com a empresa Humanitas Administração Prisional não foi renovado pelo governador Roberto Requião (não por acaso, conhecido como “Hugo Chávez Paranaense”). A privatização não representa, logicamente, a panacéia curadora de todos os males do sistema carcerário brasileiro. Mas a gestão privada de prisões conta com um ponto fundamental a seu favor em relação à gestão estatal: tanto as empresas como os seus funcionários estão submetidos ao rígido controle do mercado – através da boa e velha concorrência. No setor privado, a empresa (através de seus funcionários) atua com base na relação de causa e efeito existente entre bom desempenho e ganhos monetários. Logo, a empresa tem o incentivo econômico para prestar os serviços penitenciários com qualidade, respeitando direitos humanos do preso e demais disposições contidas no contrato firmado com o Estado. A concorrência se dá após o lançamento do edital de licitação (quando as diversas empresas competem pelo contrato), mas t amb ém durante o adimplemento do contrato, pois a Administração Pública pode a qualquer momento rescindir unilateralmente o contrato em razão de interesse público, contratando outra empresa, se for o caso. Já no que toca ao setor público, a realidade é outra. Performances fracas e fracassos na obtenção de resultados são freqüentemente utilizados pelos gestores públicos como um argumento para conseguir mais verbas para o seu objeto de gestão, ocasionando mais e mais ineficiência. De fato, é fácil perceber em que direção agem os incentivos econômicos a que estão submetidos os funcionários públicos. Salvo (honrosas e louváveis) exceções, a lógica do serviço público é quanto mais se trabalha, mais trabalho se recebe, e, com isso, mais responsabilidade e incomodação se acumula – recebendo em seu contracheque valor semelhante ao do colega acomodado (que usa parte do seu tempo para estudar para algum outro concurso, falar mal do puxa-saco ou anti-social que trabalha até tarde, paquerar a moça do xerox, etc.). A privatização de presídios significa, portanto, a utilização da eficiência e da vontade de lucrar das empresas para a consecução de fins públicos – a administração penitenciária de maneira humanamente aceitável. Seja através da terceirização (cogestão) ou na forma de PPP, a iniciativa pr ivad a j á demonst rou mundo afora (e tem demonstrado no Brasil nos 16 estabelecimentos penais já “privatizados”) o seu potencial em reduzir custos e melhorar a qualidade dos serviços penitenciários. A sociedade civil e a Academia devem ficar de olho para que experiências exitosas nesse sentido não sejam barradas por preconceitos ideológicos de políticos inspirados por idéias historicamente equivocadas. * Ex-aluno da Faculdade de Direito da UFRGS, formado em 2008. Tribunais, movimentos sociais e direitos de liberdade¹ Raquel Lima Scalcon* “ Você sabe com quem está falando?”. Este é o título que o excepcional sociólogo Rober to Damatta concedeu a um de seus mais significativos artigos. Mas o que ele significa? E qual os seus efeitos na resposta do Poder Judiciário aos Movimentos Sociais? Muitos, como se buscará defender. Inicialmente, importa estabelecer um marco conceitual acerca dos movimentos sociais. Muito embora tais manifestações estejam adjetivadas de “sociais”, afirmase, aqui, que, em grande medida, lhes é proeminente o cunho liberal – de direitos de liberdade – e não a característica da igualdade e da solidariedade – base dos direitos sociais. Não se está, pois, diante da “questão social”, berço de um Estado também assim qualificado. Mas sim, diante da incapacidade, especialmente no e do Brasil, do trato com as diferenças – muitas vezes, homéricas – mas que não podem ter outra repercussão no Direito senão a de buscar a justa igualdade material, e a de jamais incorporar, às decisões de nossas Cortes, por meio de empecilhos processuais ou retóricas vazias, uma discriminação negativa e velada. Quando, por exemplo, se discute a questão do reconhecimento de direito dos homossexuais, a discussão não é social, mas claramente acerca de um direito de liberdade: a idéia de que, dentro das liberdades democráticas que se possui, cada um, pode, sim, realizar as suas escolhas e desenvolver livremente a sua personalidade. Da mesma forma, na questão indígena: o que não se aceita é a diferença, é a idéia de que tal povo se mantém na sua cultura por livre-arbítrio, não querendo – ainda que assim forçado – “ser como nós”. Nesse diapasão, a questão do MST vem à baila para corroborar com o afirmado: é inegável que esse movimento tenha o cunho igualitário (igualdade de acesso à terra, à liberdade positiva de produção no campo, etc), mas a sua grande repercussão decorre da ideologia por trás do mesmo – não aceitam, os politicamente alinhados à direita, que se realize uma reforma agrária. Não aceitam, os alinhados à esquerda, que a reforma seja contestada. Não sabem, pois, lidar com a diferença, e, portanto, com a liberdade de ser diferente. É inegável que os três exemplos supra apresentados possuem origem social. O que se defende aqui, contudo, é que a problemática de sua aceitação e de julgamento nos Tribunais é decorrente da dificuldade da nossa própria nação em lidar com a diferença, com os direitos de liberdade, de livre desenvolvimento da personalidade, ou seja, com a idéia de que cada um deveria, sinceramente, não censurar as escolhas dos demais. Não é por outra razão que o Brasil possui uma hipertrofia de Direitos Sociais (o que temos em comum – igualdade) e um desenvolvimento inferior dos Direitos Individuais ou de Liberdade (o que temos de diferentes, o que nos torna únicos). Isso porque os direitos sociais, no Brasil, têm cunho eminentemente patrimonialistas, no sentido de “direitos pessoais, benefícios” (com já afirmava Raízes do Brasil). Muito ao contrário, os direitos de liberdade, de dignidade da pessoa humana, na sua peculiaridade e na sua própria ideologia e diferenças, cuja origem é Kantiana, não têm tradição no meio cultural brasileiro. A autonomia do sujeito ainda nos é problemática. Assim, nos termos de Sérgio Buarque de Holanda, o “homem cordial” está mais apto a ter relações de prestância (ou seja, de pessoalizar as relações e de pensar sempre o que de bom ou ruim é possível delas extrair) e não de cooperação entre sujeitos iguais em direitos. Há uma absurda falta de valorização do outro enquanto valor intrínseco, ou seja, como pessoa capaz de levar sua vida, e uma triste facilidade de vê-la, porém, como objeto da minha caridade (sou capaz de dar medicamentos não previstos em lei, mas não o sou de reconhecer união estável de homossexuais, porque não prevista em lei...). Por fim, justificando-se o começo, em uma terra em que todos são barões (aqui, volta-se ao livro Raízes do Brasil), tornase muito difícil a humildade de um Poder Judiciário em reconhecer a sua inépcia ao lidar com as questões dos movimentos sociais, em reconhecer a sua morosidade ativa – que é, sim, uma realidade – bem como a sua falta de sensibilidade e de problematização das decisões enquanto agentes de mudança social. A ausência da noção das conseqüências de seu próprio julgamento, da falsa e alienadora idéia de estar alheio a ele (de apenas decidir racionalmente), sem considerar o que, de fato, nas relações sociais, ele significará. Enfim, enquanto seu título – não somos mais Monarquia, perdemos, propriamente os títulos, mas ainda somos uma terra de doutores, especialmente nós, do Direito - lhe exigir o tratamento pomposo e a fatídica pergunta “você sabe com quem está falando”, o Judiciário será incapaz de dialogar com aqueles que batem às suas portas. Pois não, os juízes não sabem, não fazem a menor idéia, em muitos casos, com quem estão falando... * Acadêmica do 5º ano/manhã. NOTA: 1- Comentário acerca do cap. 5o do livro: SOUZA SANTOS, Boaventura. Para uma revolução Democrática. A Toga - Março de 2009 8 CAAR e veteranos recepcionam os bixos Francisco Ponzoni Pretto* Raíssa Jeanine Nothaft** Centro Acadêmico explica o complicado funcionamento da matrícula N os dias 3 e 4 de fevereiro, o Centro Ac adêmico André d a R o cha recepcionou os calouros da Faculdade de Direito. Enquanto a tradicional pintura dos bixos por veteranos ocorria do lado de fora da Faculdade, na sala do quinto ano, os representantes do CAAR apresentavam a estrutura da Faculdade e o funcionamento geral de diversas áreas de nossa Universidade. Essa palestra contemplou inúmeros pontos de interesse dos novos membros da casa do velho André, mostrando as oportunidades e os problemas que permearão suas vidas acadêmicas nos próximos anos. Entretanto, essa conversa antes de encaminhá-los à matrícula tratou primordialmente da própria matrícula, que esse ano teve duas novidades, uma organizacional – diferentemente do ano passado, foi proposta a utilização dos dois turnos, com grupos de sete pessoas a cada meia hora, o que facilitou a vida dos calouros que não tiveram que aguardar tanto quanto nos anos anteriores – e uma estrutural – com a implementação do novo currículo a partir do primeiro semestre de 2009. Também nessa ocasião, foi entregue aos bixos o “Manual do Calouro 2009” (disponível para download em: http://www6.ufrgs.br/caar/ wp-content/uploads/manual-do-calouro-2009.pdf). PROBLEMAS NA MATRÍCULA T ivemos, esse ano, a primeira matrícula a partir da Reforma Curricular. A partir do momento em que se aprova um novo currículo, surgem diversos outros problemas relacionados ao sistema, como a dificuldade do DECORDI em criar um novo currículo sem excluir o antigo. Por falta de tempo ou organização essa dificuldade não foi superada até a matrícula dos calouros, fazendo estes sentirem na pele a complicação da não atualização do currículo no devido tempo. Essas dificuldades e perdas de prazo fizeram a COMGRAD adotar uma forma alternativa de matrícula, na qual os calouros tiveram que se inscrever por ofício nas cadeiras novas (mais informações sobre o novo currículo nas páginas 4 e 5), que posteriormente foram incorporadas no sistema como eletivas. O registro, no sistema, das novas cadeiras obrigatórias, como eletivas, já ressaltado no CAARinforma enviado na ocasião da Encomenda de Matrícula, não retira o caráter de obrigatoriedade das últimas, caracterizando a equivalência com as cadeiras que os graduandos mais avançados já cursaram. Na verdade, cadastrá-las como eletivas foi apenas um subterfúgio para resolver o problema burocrático da implementação do currículo. A partir de 2009/2, o novo currículo deve estar totalmente implementado no sistema e não deve haver mais problemas na matrícula. Além disso, ocorreram problemas de última hora no número de vagas em cada disciplina (não havia vagas para todos os calouros previstas no sistema) e a não liberação dos horários das cadeiras aos calouros, que aumentaram a demora, mas que foram resolvidos pela COMGRAD com a ajuda do CAAR, durante os dias da matrícula. Bixos recebem o Manual do Calouro do CAAR D Veterana Larissa recepciona o bixo 37 Calouro do Direito não consegue se matricular urante a matrícula presencial dos bixos de 2009, um calouro não obteve o deferimento de sua matrícula pela COMGRAD. Conforme o que se pôde verificar, ele não tinha o histórico escolar do ensino fundamental – documento obrigatório segundo o edital do Concurso Vestibular 2009 para comprovar que estudou metade deste no ensino público. Entretanto, ele tinha uma certidão clara e devidamente registrada, confeccionada por seu colégio, a qual prevê a entrega do documento para o início de março – dois meses após o seu requerimento – e atesta que ele havia cursado a integralidade do ensino fundamental com aprovação naquele colégio – documento esse que expressa todas as informações pelas quais se requer o histórico do ensino fundamental. Fato é que, diferentemente de outro calouro da UFRGS que obteve ajuda até do Governador de seu estado para obter o documento, o vestibulando não teve nenhuma ajuda institucional para abreviar este absurdo prazo dado para a confecção de um simples documento (ressalte-se o documento foi requerido em final de janeiro, depois do listão e prometido para o final de abril. Após se reduziu o prazo de entrega para março). O CAAR está em contato constante com o calouro, auxiliando-o nas medidas cabíveis – tal como a confecção de um recurso administrativo junto à COMGRAD e um pedido acautelatório à PROGRAD para que não chamasse o suplente antes de apreciado o recurso. A UFRGS, contudo, chamou e matriculou o suplente – mesmo tendo ciência da discussão do caso –, o que, de certa forma, inviabiliza a resolução administrativa do problema, fazendo com que a única alternativa restante para que o calouro consiga sua tão sonhada vaga na UFRGS seja a via judicial. Por outro lado, a CAAR também já está em contato com a discente suplente que foi convocada e a auxiliará no que for necessário. Devido à ação do CAAR – que se prontificou a noticiar à Universidade a ocorrência dos fatos e do recurso interposto, postulando que o suplente não fosse chamado enquanto não houvesse a apreciação do recurso – não há que se falar em perda da vaga pelo titular para a suplente. Ambos estão de boa-fé e a Universidade arcou com os riscos tendo ciência do recurso interposto, o que faz com que, a partir de agora, o CAAR acredite e defenda que os dois tenham direito à vaga. * Acadêmico do 2º ano/noite Secretário-Geral do CAAR. ** Acadêmica do 2º ano/manhã Secretária de Comunicação do CAAR.